Este Laboratório de Escrita e Autorretrato foi uma proposição em conjunto com a artista Paloma Durante e a fotógrafa Subtil Jéssica para fins de compor parte das atividades do projeto intitulado Indagações Poéticas: continuum de ações educativas que visa oferecer atividades voltadas para processos artísticos. A primeira atividade do Indagações Poéticas ocorreu em Dezembro de 2019 através de um curso presencial em Vitória, Espírito Santo. Desde então, são trabalhadas proposições independentes como cursos, oficinas, acompanhamentos e consultorias para os interessados em desenvolver seu potencial criativo, principalmente na área de Artes. Para a ocasião desta publicação, o curso foi ofertado de forma online em virtude da pandemia do COVID-19. Agradecemos aos esforços das Secretarias Municipal e Estadual de Vitória pela realização de mais uma atividade do projeto e pela viabilização da participação de outras duas profissionais da área a fim de enriquecer nossos encontros.
Participantes Amanda Amaral Ana Luiza Monteiro Bianca Araújo Bruna Medeiros Carolina Carmo Fernanda Passini Lana Maciel Leonardo Fonseca Letícia Fraga Marcella Pederneira Natália Nogueira Thais Andressa Ensinantes Paloma Durante Subtil Jéssica Organização Natalie Mirêdia ISBN 978-65-00-19819-5
Março 2021
É possível percebermos, à medida que lemos e contemplamos os processos vivenciados pelos participantes, uma busca incansável pelo entendimento do eu nesses tempos sombrios. A angústia e a esperança é algo que permeia muitas das produções que constitui esta publicação. Quando imaginei propormos um curso que fosse dividido entre produção de autorretrato e textos reflexivos não havia mensurado a importância do tema “no agora”. Muitos estão vivendo um sentimento de “apocalipse sem Cristo” e buscando diferentes formas de se manter em movimento. Refletir sobre a forma como somos afetados e podemos afetar o outro é um ato de afirmação do ser vivente e criativo. Num mundo em que as pessoas são engolidas pelo trabalho em meio ao caos sanitário (ou pelos problemas acarretados na falta do primeiro; questões de sobrevivência) foi muito satisfatório podermos fazer deste laboratório um espaço de experimentação sobre os nossos desejos, esperanças, medos, embates e dilemas subjetivos. Pois, se “o pessoal é político”, ele também é coletivo. Que estes escritos e representações do “eu” no presente possam reverberar no “nós” do futuro a fim de alcançarmos dias melhores.
Para aqueles que se interessam pelas questões dos processos artísticos é possível compreender um pouco sobre a dinâmica do nosso laboratório a partir do mergulho profundo nesta publicação. Por isso, convidamos a todes que compartilham dessas “indagações poéticas” a se aventurarem e olharem para si como quem olha para algo a ser re(inventado), construído na multiplicidade das afecções entre você e o nós deste instante.
Mergulhe. Profundamente... Mas sempre volte à superfície. O verão passa, mas ao mesmo tempo, permanece em nós. Natalie Mirêdia
PALOMA DURANTE (ensinante) Entre-ato Fotografia 2016
A imagem é sempre o duplo: assim como o é a palavra.Todo retrato, assim como toda biografia, é uma ficção. Ser é estar seguidamente atravessado por afetações, é criar-se da própria matéria: ir se fazendo no caminho. Todo dia eu componho um projeto de corpo: sou e deixo de ser; finjo e me torno, babo um sujeito pelo canto da boca ao dizer meu nome. Me moldo perante o olho que me olha, perante aquilo que toco e me toca. É junto, entende? Integrar todas estas existências, são todas elas a mesma vida. Elaborar-se em desdobramento. Tudo é eu, e é também outra coisa. É falando delas que me descubro. Componho uma imagem: habito no espaço entre a carne e a intenção.
Explorar o espaço, casa e corpo, momento em que a casa se tornou extensão do corpo, e juntos, casa e corpo, se fizeram próximos e distantes ao mesmo tempo.
O autorretrato surge como um meio de sensibilizar o nosso espaço íntimo, o entorno que nos cerca, as possibilidades e potências poéticas do existir. Habitar o corpo, primeira casa,
Sala de Estar / Fotografia / 2015 - 18
SU BTI L JÉS SICA (en s ina nte)
é um convite para se conhecer e conviver.
AMANDA AMA RAL
rastro / imagem / terra / o taco solto pelo apartamento vazio / o toque de encostas a ponta dos dedos sobre o corpo quente / pausa / imagem / movimento / o dispositivo digital refletido na fotografia analógica / a imagem da imagem / a dúvida da fisionomia / o alongamento do pescoço / margem / a minha imagem / os olhos / a luz/ a luz da fresta que desenha sob a pele/ emergência
penso que, ao olhar para a minha imagem, percebo diferentes proposições. a depender do dia, da ocasião ou momento, ora o tédio, ora o desespero de viver um dia após o outro torna-se visível. veja bem, não sou uma mulher de rotinas, tampouco as aprecio. por vezes, procuro em mim outros sentimentos que não a angústia ao confrontar o buraco que nos enfiamos. a memória daquilo que fui me é colocada ao olhar para o aparelho. talvez por esse motivo, insisto na repetição que vai para além do registro. perspectivas diferentes sobre o mesmo objeto dizem que, ainda que se olhe, há sempre algo a se perceber. acreditando nisto, insisto em uma narrativa que encontra-se desprovida de sentido e lívia me pergunta se permaneço na repetição para me punir. respondo rapidamente que sim e não procurei justificar- me, pois a evidência me é explícita: o que nos trouxe até aqui não é o que vai levar-nos adiante.
parece que me repito. fico dando voltas para além de mim mesma. no instante em que estou, debruçada sobre a imagem que carrego, essa exata imagem de um corpo-cápsula vazio. engraçado que sempre fui uma mulher grande, mesmo enquanto pequena, era eu a maior da turma. ou eu a que escolhiam para o time de educação física nos esportes em que se exigia alguma altura — isso antes de saberem que, claro, eu era péssima em todas as coisas que precisavam de uma finíssima camada de coordenação motora. — ou em outros lugares, nunca tive sequer a preocupação de ser pequena. pelo contrário: ser uma mulher grande me ocasionava situações as quais eram difíceis e embora pareça séria, dura, corporificada, sou permeável. uma mulher cápsula, porque dentro de mim é o lado de fora e o olho que vê também entrega antes que qualquer palavra chegue a boca, ou ainda, antes que o gesto alcance o corpo. o que me perturba é a inabilidade de enganar o que este mesmo olho produz sobre a afetação do que sinto. o desconforto então, por fim, me atravessa e permaneço em estado de pausa. é difícil estar atenta, firme e forte. àquela qual fosse última, não etérea. que fosse capaz de guardar a imagem desta mulher de hoje. já que sabemos que, no momento seguinte, serei outra. pouco importa se daqui a pouco, amanhã ou depois. pensei em um breve momento que seria factível produzir uma imagem por dia, somente para recordar do que já fui. bobagem, sei bem, não é possível ser a cada instante uma mesma imagem. gostaria então de eternalizar esta. a de hoje. deste ano que parece um abismo suspenso no tempo. os olhos que entregam-me, mudarão ao passar dos dias. o dispositivo nunca. ele me olha como quem sabe que é implacável.
ANA LUIZA MONTEIRO
O que de mim eu engajo para tornar visível? Partindo dos autorretratos, questiono que possa ser uma busca pela minha força de criação. Na foto sou contida, porém o azul transborda até meu rosto coberto por uma superfície amassada e transparente que transborda também. Acho que torna visível meu outro eu em dualidade com o eu (às vezes isso tudo pode ser viagem também). O que daquilo que sou é possível suspender no tempo? Difícil essa... Acho que aquilo que eu era no início da frase já não sou mais, porém também não sou ainda o que pensei em escrever e ainda não escrevi; acho que se suspende no tempo esse meio termo que sai na criação e na pressa, na maior luta de conciliar o eterno com o segundo, um limbo que parece colo. E até eu terminar de escrever, já irei ter mudado de opinião. Acho que taí, eu suspendo no que eu sou: a vida em existência. O que da minha imagem, do meu auto retrato me perturba? ( e como essa perturbação também fala de mim) Uma permissão de mim mesma, talvez. Sentir o gozo do ser, e do fazer e sentir. Existe em mim um receio de não ter um controle desse gozo, dessa energia de permissão que, por sua vez, acaba abafada, amassada, mas que ao mesmo tempo tenta se mostrar na tentativa de compreender esse eu que habita nesse corpo.
O que eu aprendo da imagem que faço de mim? Acho que, seja o que for, compreender que esta imagem é um entendimento do que eu sou em um determinado momento. Na hora de fazer a imagem entro em um transe, puxo uma energia que precisa sair de alguma forma e que, às vezes, transborda nesse momento. Se parar para pensar sobre, a gente, ao longo dos anos, coleta dados e percepções de alguém que a gente vive querendo conhecer e que, no final das contas, esse alguém somos nós mesmos. Qual imagem de si você gostaria de poder produzir hoje? Talvez uma imagem que lide melhor com a exposição. E não digo no sentido de mostrar o corpo, e sim no sentido de transparência. Uma imagem que consiga gritar não só a construção de um eu artista, porque quando visto este eu me sinto com voz, mas quando só me resta eu, sem uma construção ou ideia de algo. Me sinto vulnerável, me incomoda que a voz que sai desse eu acabe sendo abafada ou se esconda desesperadamente na construção de um outro eu.
BIANCA ARAÚJO
aquilo que sou, o que já fui ou o que serei. será que existe um ponto de conversão entre todos estes estados? estado de suspensão das certezas sustentadas até então. há quem defina como uma falha, mas eu prefiro acreditar nos exercícios de ser. ou, como bem definiu Manoel de Barros em seu Livro sobre nada: “querer ser”. o que ainda não é. rascunhar-se a si como uma literatura. a possibilidade da (in)existência pode se comportar como um uma folha em branco. ou uma grande e indesejada rasura. desejar ser um corpo que desconheço a forma; os limites; dimensões; textura; pelo menos uma certeza me basta; se não conheço o conteúdo, sou livre para criá-lo. ainda bem, afinal nenhuma existência se encerra na inércia. infinitas formas podem convergir em um único ser. verbo infinito. como quem compreende que o exercício de si é um ritual de passagem. um fazer sem rumo, deslocamento sem ponto final. ser artista é ser um eterno aprendiz (de si mesmo). e quem seria, portanto, um mestre? se é que existe tal lugar de saber, ninguém ganha uma guerra sozinho, reproduz a si mesmo ou inicia uma partida só. entre a solidão e o narcisismo, há de existir um outro (eu). este rascunho eu dedico a você.
BRUNA MEDEIROS Acuadas, num canto O tempo para. Será que para mesmo? Lá fora o mundo reage a todo sinal de vida. enquanto isso percebo o ar que me falta fora de mim enxergo meu eu como terceira pessoa A perfeita conjunção entre enxergar a si e se encarar. em prantos, vou me sacudindo até cansar. aos berros, torço que meu eu e meu outro ser encontrem-se por esses caminhos - Que seja logo... - eu penso. mas as peças não se encaixam. Algum dia já encaixaram? Me deixo levar por sintomas de mau presságio. E o hoje? Que tanto dizem para viver. E o agora? que tanto falam para não perder.
por um momento, me libero da obrigação de me acordar desse vazio. o abraço, antes apertado, me dá consentimento de desistir de lutar... ainda assim eu luto, e cada vez que luto, menor fico... de tanta pequenez viro apenas um vulto... até chegar a apertar os olhos à procura de algum sinal meu outro eu se foi.... e só, fiquei no meu canto
Carolina Carmo (Cartô) “ acredita-se que as bonecas sejam impregnadas da vida de quem as criou.” clarissa pinkola estés. pérolas. a discórdia é um ponto de inocência que amordaçou muitas meninas. me lembro agora, vagamente, de uma história de alguém que teria posado para um quadro e caiu em ruína. tantas e qualquer uma. sobre os olhares de um mundo pintado por homens. histórias vagas, distantes, de outros povos e continentes que não compreendendo bem, chego tarde em casa, subo a rua, altas noites, madrugadas. os rituais pequenos como meu único ponto de conforto e equilíbrio. frágil. chás e chás e rezas. costuro minha primeira boneca. resto de tecidos finos, cabeça de barro. nos olhos meu sangue, que cai, distraidamente, sem querer. sangrar é tão comum. sangrar. é tão necessário. me pergunto o que estava procurando em mim, e de onde foi que esse objeto saiu. sinto que ele sempre esteve pronto dentro de mim, esperando uma madrugada pra nascer. Queria uma voz, maior, que me desse conselhos assim como nas histórias nas quais se é protegida na iminência dos perigos, mas eu não recebi essa boneca. algo aconteceu nesse caminho, entre uma mulher e outra, que não aprendeu a defender a si mesma, e não pôde ensinar as filhas. Algo aconteceu a uma dessas mulheres, subindo ruas, aparecendo em quadros, ou disputando pódios, frágeis. pérolas. lá. aqui colar de búzios. nos lugares mais brutos de mim escuto os gritos dessas mulheres que não puderam ensinar as filhas. procuro ensinar a mim mesma, sangrando. é tão comum. é tão necessário: lembrar. sorte da Vasalisa. andei muito tempo sem a minha boneca.
FERNANDA PASSINI Autoconhecimento. É disso que fala meu autorretrato. Acredito que todos passem por essa fase em algum momento da vida. E nesse momento da minha, eu venho passando por ele. Desde que a quarentena começou, tem sido eu por eu. Nunca tive que me encarar de frente ao espelho, sozinha. Ter que passar por situações sozinha. E eu precisei permitir conhecer o mais profundo do meu ser para que a dor dessa fase, tão traumática para tantos, fosse o menos dolorosa possível. E eu venho me conhecendo melhor. O caminho não é fácil - não vou enganar ninguém, mas é necessário. É preciso entender nossas frustrações e fraquezas para administrá-las da melhor maneira, a gente precisa se dar espaço e respeito. Pude permitir a me amar. Aceitei finalmente o meu cabelo natural e me reconheci nele, que seria impossível em outra época da minha vida. Meu processo ainda não acabou, mas estou feliz de estar no caminho e de poder me aceitar.
LANA MACI EL
hoje quero juntar meus destroços ao mundo entrego apenas uma dócil alegria em colapso ainda que em mãos traga muito de mim e aquilo que pode ser visto o que sobra é uma face entranhada na dor território sem contorno cheiro de animal em decomposição (eu sou uma besta indomável) no espelho me apago todas as manhãs para que enfim possa existir.
LEONARDO FONSECA meu horizonte lado a lado a diferença de mim pra mim meu ofício meu sentido, fissuras lisuras luz e sombra • lembrança: o cuidado: acolher as diferenças o sol ensina a sombra a luz há de chegar aos corações dos olhos • discretamente não gostava meus dedos das mãos não me ajudam ao violão, pensava discretamente ontem os olhei de olhos novos
e me confessaram (silêncio) instantes depois eu soube, suas formas obstáculos são curvas do meu violão • reconheço minhas mãos estendidas abertas curvadas em proteção talvez do medo que tenho de ferir o mundo me ferindo tenho dedos e vejo a engenhoquinha do medo enferrujada
louca pra me lamber e me cegar os poros me faço espaço • quero me escutar mais com o olhar
deixar se narrar a história da minha carne • o passado em meus sulcos canta o vento meu vão vira leito e desço ocupando e minhas rochas comendo
LETÍCIA FRAGA Deito em shavasana. Na yoga é conhecida como a postura do cadáver, realizada em momentos de meditação e relaxamento em que o sujeito deve se manter estático. Na fotografia, combino a minha inexpressividade com as peças que cobrem meus olhos. São cubos que carrego comigo há um tempo. Usava para criar casas, prédios e castelos, e agora uso para pensar meu trabalho artístico. Um brinquedo de montagem, cujas agulhas finquei a martelo. Apelido de porta-agulha. Primeiro aproximei as “janelas” de madeira dos olhos. Deixei que os cubos se equilibrassem nas minhas pálpebras. Algumas agulhas caíam de acordo com meus movimentos mínimos. Uma Duas Duas Três Uma Mais uma.
Talvez esse autorretrato seja uma representação do que me prende no aqui e no agora, do que me motiva a continuar produzindo nos últimos anos: o estudo das questões acerca do confinamento da mulher no espaço urbano e doméstico sob um viés artístico. Mecanismos sociais da casa que nos ancoram ali mesmo. Quando trago os cubinhos aos olhos, penso que são como óculos que visto para ativar a minha investigação. Lentes de aumento. Podem fazer parte de mim? Suspendo no tempo um fragmento do momento que vivo, de uma ideia, de um gesto, experimento, de uma micro expressão ao colocar o celular em um suporte e clicar em “gravar”. Me permito testar com tranquilidade. Depois congelo e seleciono os frames.
É claro que me perturbam os detalhes que me escapam, já que eu não sou capaz de controlar tudo ao me posicionar na frente da câmera. O canto do olho, um fio de cabelo fora do lugar, uma agulha que caiu na hora errada, a baixa qualidade da imagem, um ajuste de foco ou de um plano mais aberto ou fechado. Por outro lado, o que mais me persegue é o receio de esvaziar o sentido do que busco comunicar. Ao mesmo tempo, sei que para o amadurecimento de uma poética o processo leva tempo. Estudo e experimento, o que me motiva a seguir. Há algo que quero expressar. Com a prática do autorretrato aprendo a ver o meu corpo sob outra perspectiva, que é o olhar da câmera do celular. Me observo atentamente como quem observa um animal desconhecido em seu caminho, e quer saber mais de seu comportamento, se é ameaçador ou não. Aprendo a me comunicar. Creio que se tivesse a oportunidade de criar outra imagem de mim, hoje, faria a mesma. Primeiro, pela curiosidade de ver se haveria um resultado diferente. Em seguida, avançaria na exploração de outras partes do corpo a partir de exercícios de variação: posição, ângulo, movimento, tempo, motivos novos que seriam levantados. Que retratos posso criar com meu corpo em contato com essas peças? O que causam? O que provocam? Qual o diálogo entre o meu íntimo e minha poética? De qual estou falando?
MARCELLA PEDERNEIRA Eixo intestino-cérebro, o que me dizem? Conjunto de microrganismos: estão equilibrados? A linha que divide meu pescoço está aqui: à mostra. Eu odeio. Eu sinto que tô sufocada e que tem algo na altura dessa linha me impedindo de respirar. A mão suada no ventre. O peito saltando. Meu coração está nos dois lugares. Que sensação trágica de morte iminente! Está apertando...preciso compartilhar vômitos ou irei explodir com essa prisão dentro de mim. Memento Mori. Eu seguro a caveira. Eu tenho controle disso. Eu tenho? Desculpa, eu não sei jogar xadrez. O pedreiro pode olhar! Fico embaixo da marquise. Eu toco você? Meu corpo e minha arte sendo formas de diálogo quando já não existem outros possíveis. A angústia não mente. Você tem medo da teia ou da aranha?
- Eu tenho medo de mim
NATÁLIA NOGUEIRA Abraço as sombras que estão nas minhas profundezas, mergulho em cada parte escura que me compõe. Minhas sombras sustentam minha luz enquanto explode dentro de dentro da minha pele sentimentos e emoções reprimidas por toda a vida. Emoções que também me compõem e que fazem parte de minha essência. Meu corpo dói, minha pele dói, meu coração dói. Nunca havia me permitido olhar para a dor, para o medo, para a minha humanidade. A busca por uma perfeição inalcançável me deixou doente. Hoje posso vislumbrar minha imagem e ver toda a dor; enxergo todas as minhas feridas. Me abraço, me acolho, me amo, me aceito. Começo a drenar toda a inflamação que acometeu minha alma. Expurgo...
THAIS ANDRESSA
Você está sempre em busca de inspiração. Observa os espaços vazios, caminha sobre cacos, remói lembranças... Alguma saudade estranha insiste em apertar o peito. Tenta se reinventar através da arte, em traços e cores; mas os dias ainda continuam cinzas. Percorre um velho álbum de família e procura em algum retrato a essência da infância. Diz que tenta fotografar o silêncio após ler alguns poemas de Manoel de Barros. Gosta de escrever diários, com tons poéticos e melancólicos. Por vezes se pergunta o que escolher: o peso ou a leveza? Sua fragilidade é colocada em jogo. Tem medo de se encarar, de se conhecer. Por que não se aceitar? Anseia a liberdade, mas o medo fala mais alto; o medo do escuro da noite e de seus abismos. Abraça a solidão e dança, enquanto a chuva cai lá fora. Toma seu chá preferido, e continua lendo poemas de Fernando Pessoa, Carlos Drummond, Orides Fontela e Ferreira Gullar. Sente as marcas do tempo, e deseja se amar e mergulhar ainda mais em seus sonhos poéticos.
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