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Diario de Bloco

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CAMILA COELI | FERNANDA LACOTIX MELISSA RIBEIRO | NAIARA RODRIGUES ROCHA 1


“Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução, alguns dizem que assim é que a natureza compôs as suas espécies.” Machado de Assis

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A realização deste livro não seria possível sem a colaboração e as generosas conversas com nossos entrevistados. Agradecemos à Dona Elisa, mulher guerreira do samba de BH que compartilhou a sua história de vida conosco; ao Roberto Andrés, pelo encontro agradável numa manhã de quarta-feira na praça do Santa Tereza; à Flora, que nos recebeu em sua casa durante uma tarde de quinta-feira e disponibilizou seus registros; ao Glauco, pelo café da manhã e por dividir conosco desde suas memórias carnavalescas da infância até sua perspectiva transcendente da festa; ao Guto, pelas mais de três horas de bate-papo nas quais conhecemos as mirabolantes histórias do carnaval de Belô; à Jana e ao Humberto por nos receberem em sua casa com um almoço delicioso; ao casal Nian e Elisa que abriram generosamente as portas de sua casa, em meio à preparação para a chegada de seu bebê; à Chaya, que se colocou à disposição para contribuir com a pesquisa, apesar de tantos desencontros; ao Rafael Barros por dividir conosco seu olhar amplo e antropológico sobre o carnaval. Agradecemos também ao Gustavo Caetano, por nos atender no meio de um ensaio do Queixinho. Gratidão à Paola Caeiro pelo projeto gráfico, aos fotógrafos, que cederam gentilmente, seus registros para estampar as páginas desse livro: Priscilla Musa, Flávia Mafra, Gabriel Castro, Elmo Alves, Elisa Mendes, Gabriel Castro, Fabiana Leite, Glenio Campregher, Benedikt Wiertz, Laura Fonseca, Maxwell Vilela, Luiza Ananias, João Viegas, Paulo Henrique de Oliveira, Lorena Nicácio, Fabiano Aguiar, Ana C. Branco e à Arqueolinda Machado, pela revisão minuciosa. Aos queridos Fidélis Alcântara, Irene Do Carmo, Milene Migliano, Terêncio de Oliveira e Miguel Ávila e muitos outros que se dispuseram a compartilhar seus conhecimentos e experiências. Muito obrigada professor Delfim Afonso pelas contribuições metodológicas ao longo do trabalho. Ao nosso orientador Nísio Teixeira um abraço de gratidão e respeito, pelos ensinamentos e conselhos valiosos, pelo direcionamento atencioso e, sobretudo, por seu apoio e paciência de mestre!

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SUMÁRIO PREFÁCIO........................................................................................... 6 PARTE 1........................................................................................ 8 Era uma vez....................................................................................... 9 Capítulo 1: Resgate Histórico........................................................... 15 Capítulo 2: Dona Elisa...................................................................... 31 PARTE 2...................................................................................... 50 Folia e a Cidade Sumida................................................................... 51 Bloco na Rua.................................................................................... 57 Capítulo 3: Tico Tico......................................................................... 61 Capítulo 4: Peixoto........................................................................... 95 Capítulo 5: Mamá na Vaca........................................................... 128 Capítulo 6: Tcha Tcha..................................................................... 169

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Capítulo 7: Praia.......................................................................... 206 Capítulo 8: Manjericão................................................................. 224 Capítulo 9: Alcova Libertina......................................................... 246 Capítulo 10: Então, Brilha!........................................................... 269 Capítulo 11: Pena de Pavão de Krishina...................................... 292 Capítulo 12: Queixinho................................................................ 310 PARTE 3.................................................................................. 329 Capítulo 13: Rumos da Folia Futura............................................ 330 Blocário........................................................................................ 335 Sobre as autoras.......................................................................... 341 Referências Bibliográficas............................................................ 346

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PREFÁCIO Escrever um livro a oito mãos já parece loucura. E quando esse livro aborda um tema tão amplo e diversificado como o Carnaval de BH, aí parece insanidade total. Mas, se além de tudo isso ainda acrescentarmos que somos apaixonadas por carnaval e aproveitamos a folia para realizar nosso projeto de TCC (vulgo, Terror, Choro e Choque) aí não tem loucura nenhuma. É só o apocalipse mesmo. Inicialmente, é bom dizer que esse seria um livro reportagem e a ideia geral era nos atermos a um fazer jornalístico padrão, atrelado a informações objetivas, úteis e significantes para o leitor, mas, convenhamos: isso não seria adequado ao que vem acontecendo na cidade nos últimos anos. Nosso livro, assim como nós mesmas, entrou no ritmo dos muitos blocos, escolas e pessoas que têm se doado à realização dessa hecatombe popular que tomou nossa cidade nos últimos anos. A inciativa coletiva de ocupar a rua com cores e músicas que reivindicam a emancipação dos cidadãos e a busca pela cidade ideal para aqueles que vivem nela é um marco das muitas mudanças sociais, políticas e culturais pelas quais a nossa Belô vem passando. Quando nos propusemos a realizar esse projeto, imaginávamos falar de um (re) surgimento do carnaval de BH, mas o que descobrimos foi que, embora tenhamos ouvido, desde crianças, um insistente “BH não tem Carnaval” ou “o Carnaval de BH acabou”, a realidade é que ao longo dos últimos 125 anos, a capital mineira foi palco de idas e vindas da festa que já estreou com uma característica irreverente e popular. A novidade é que os fatos ocorridos a partir de 2009 trouxeram uma espécie de “descobrimento da cidade”, uma ruptura com as ideias ortodoxas de Rua, Lazer e Mobilização Social. Através do carnaval vimos surgir um movimento espontâneo que

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(re)inventou a forma de interação com os espaços públicos. O carnaval da cidade não renasceu, mas ganhou força com os crescentes movimentos feitos pelos moradores em direção a apropriação da cidade. Muitos belohorizontinos e também alguns “cidadãos naturalizados” fizeram História ao “botar o bloco na rua”. Bom… o bloco, o trio elétrico, a banda, a escola de samba, e o que mais pudesse render uma boa folia. Eles se tornaram conhecidos por reivindicar não só pão e água, mas a democratização do acesso à cultura e à cidade. São alguns desses rostos que nos guiam, através de sua própria trajetória, numa caminhada pelas transformações do panorama social “da rua” em Texas - (ops Belorihills). Assim, em nosso livro, as reportagens objetivas deram lugar a crônicas bem-humoradas ou não (depende de quem lê), as páginas de informações objetivas e pretensamente imparciais deram lugar à paixão pelas histórias de vida que intercruzam com as ruas, praças e bairros da cidade. O livro traz entrevistas, perfis e textos que situam o leitor historicamente, em uma busca pela essência das Ruas de Belo Horizonte. A dificuldade de encontrar palavras não é nada comparada a dificuldade de cortá-las. São inúmeras historias e acontecimentos que deveriam figurar em um livro sobre o Carnaval de BH. Para nossa infelicidade, não há tempo hábil nem páginas suficientes para colocar tudo que descobrimos e vivenciamos. Mesmo assim, sentimos que alcançamos (ou quase) nosso objetivo: mostrar o quanto essa história ainda está longe de um final e ainda tem muito a ser contada, discutida e compartilhada. E com todo nosso carinho: Diário de Bloco

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PARTE 1 “Eu organizo o movimento Eu oriento o carnaval Eu inauguro o monumento No planalto central do país” (Caetano Veloso - Tropicália)

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Era

uma vez....

Essa coisa de escrever é de uma dificuldade sem igual. É muito sair de si mesmo que envolve a missão de contar uma história. Nem sempre a gente está lá para ver o fato acontecer, na maioria das vezes temos que ficar preenchendo buracos, mesmo quando é a história da gente já é difícil colocar tudo em pratos limpos, quanto mais quando não é. E aí que mora o doloroso desse ofício. E se não foi bem assim? E se alguém se lembra diferente? Aí a gente sempre tem esse “era uma vez” que coloca tudo no ramo da ficção, do pode não ser. Sendo. Mas isso tem um 9


preço. No “Era uma vez” que empaca. Por

a lua. Muito antes do herói enfrentar

exemplo, como vai ter “era uma vez” se

o vilão, já tem que ter uma Avenida,

não tem um “lugar” para essa história?

onde ele anteveja um Contorno da sua

Todas as vezes que a coisa começa com

trajetória, na qual ele possa dirigir um

esse fatídico “era uma vez”, a gente que

fusca e ouvir uma canção sobre si mesmo.

escreve precisa muito de uma cidade, um

Antes de tudo, o lugar. Se me tiram o lugar

povoado ou um reino “tão, tão distante”,

não tenho mais nada. Sou uma autora,

no qual a história possa nascer e crescer

só posso contar uma história se ela

e mudar tudo. Todo “era uma vez” precisa

aconteceu com alguém em algum lugar.

de um lugar para alcançar a dimensão de

Ai que entra o trabalho de tapa buracos

real. Bem antes da mocinha e mocinho se

no escritor. E como o tempo é curto,

beijarem a luz do luar já tem que existir

vamos logo com isso. Para efeitos de

aquela praça, um paço de Liberdade,

aplicação de “Era uma vez” vamos tentar

onde tenha um banco que dê para ver

criar um lugar imaginário. Primeiro você

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pensa num espaço no mundo. E aí a gente

reclamar, estava muito bom fazer isso

começa uma história:

sob o sossego daquela paisagem. Era

“Era uma vez um espaço no mundo.

uma paisagem tão engraçadinha, que

Porque mesmo não sendo um “lugar”, ele

foi cativando mais gente. Era realmente

ocupava algum espaço na imensidão do

um bom espaço para construir uma vida.

mundo, não era um vazio completo. Tinha

Tanta gente foi querendo estar ali, que

até um charme de “espaço no mundo

alguém, (e não pergunte quem porque eu

muito bem feito por quem fez o mundo”.

não tenho nem lugar para fazer a história,

O ponto forte da criação desse espaço foi

quanto mais essas informações secretas),

o toque sutil de montanhas tocando o céu

resolveu construir um lugar, (quase um

e quem olhava não podia parar de pensar

pacato reino tão, tão distante). E a ideia

na magnitude daquele Belo Horizonte. As

empolgou gente importante, que viria

montanhas cercavam e guardavam um

para fazer a história desse lugar. Fariam

dos melhores climas para curar de tudo,

desse cantinho do mundo um palco de

desde dor de amor até tuberculose. Tinha

importantes decisões e acontecimentos

graça a forma preguiçosa como o sol ia de um lado ao outro para sair e voltar para sua casa. A forma como a Lua invadia tudo quase toda noite. Em algum momento da história do mundo, algumas pessoas estavam ocupando esse espaço, quem lhes deu o espaço para chamar de seu, ou como eles chegaram não importa tanto. O que importa é que essa gente já estava ali. Estavam fazendo o que precisavam fazer: acordando antes do sol nascer e dormindo depois

“Era uma vez um

espaço no mundo. Porque mesmo não sendo um

“lugar”

imensidão do mundo,

não era um vazio

completo.

dele se por. E não tinham nada do que 11


grandiosos. Com bastante tranquilidade e

que não estavam construindo aquela

marasmo, claro.

cidade para si mesmos. Estavam ali para

Pois bem, começaram mandando alguns

fazer o trabalho e aquele, com certeza,

operários para fazer a parte chata da

não seria um palco para suas próprias

coisa, porque antes de poder chegar e

histórias. O ideal era que sua passagem

ter um lugar para viver uma história que

fosse apagada tão logo não se fizessem

valha a pena ser contada tem a parte que

mais necessários. Mas entre o que os

a gente não conta. Alguém tem que cortar

olhos veem e o que o coração sente,

umas árvores, fazer concreto, construir

há um espaço quase infinito. E não há

uma casa, uma rua, uma praça, uma outra

ninguém que não veja algo tão bom e não

casa maior para quem for mandar mais,

pense em viver ali um pouquinho da sua

essas coisas.

história, e deixar ali uma marca de sua

E de lá dos seus lugares de origem, os

passagem e existência. Só é preciso uma

que viriam a ser grandes viventes daquela

oportunidade, um instante luminoso no

terra, projetaram o que seria um dos

qual surja uma ideia e que as condições

melhores lugares do mundo. Lindas ruas

favoreçam a realização. E esse momento

e avenidas espaçosas e arborizadas, um

se concretizou naquele feriado de

rio que segue o curso de uma vida feliz,

Carnaval. Estava próximo o dia de entregar

flores e cores para todo lado, e aquele

a cidade a “seus donos” e os operários

canto do mundo foi ganhando cara de

não acharam proveitoso ir para seus

lugar para ser feliz e quem não ia querer

lugares de origem e voltar para trabalhar

viver numa Cidade Jardim?

ainda mais. Além disso, alguém deve ter

E essa gente chegaria para habitar o

sugerido de forma sutil e espontânea:

lugar em grande estilo, projetaram uma

porque não fazer uma farrinha? Eram

belíssima estação, onde desembarcariam,

todos filhos de Deus naquela labuta. E

como “boa gente do lugar”, carregados

afinal, construir dia após dia um lugar

com bagagens de sonhos e ideais.

daqueles sem viver nem um pedacinho

E os operários? Eles sabiam muito bem

da vida seria um desperdício. E ninguém

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ia ficar sabendo de todo jeito. E bem, tinha barro, água, tinha carroça, riso e camaradagem. Tinha diversão e numa hora dessas regras e convenções ficam no esquecimento. Naquele feriado, o negócio era sentir, pelo menos por um curto período de tempo, as possibilidades de se ser quem se quer, mesmo sem querer ser coisa alguma. E é nessas horas que a gente descobre porque toda história precisa de um lugar. Cada memória daqueles operários estaria ligada à uma

E bem, tinha barro, água, tinha carroça, riso e camaradagem.

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rua, uma praça, uma casa ou uma árvore,

localização e data já chegou atrasada. A

não só pelo número de calçamentos que

história se fez antes do lugar e assim seria

ele colocou, ou pelos tijolos assentou ou

por muito e muito tempo. O carnaval

latas de concreto que ele carregou, mas

não tinha cidade, mas a cidade já tinha

também pelo tombo embriagado que

carnaval.

ele tomou, pela dança que ele dançou, pelo segredo que o amigo lhe contou. E não tinha nada que pudesse ser “mal” ou “errado” nesses dias, aquela farra era sagrada, até porque tinha data e hora para acabar. A quarta-feira de cinzas traria não só sobriedade e razão, mas também um pouco de culpa cristã e esperança. Mais 365 dias e tudo poderia acontecer mais uma vez, ou não. Igualzinho, ou não. E quando as personagens importantes chegassem para viver suas histórias, aqueles homens já estariam redimidos, já teriam posto tudo no lugar e iriam para os seus espaços de operários no mundo. Mas já estava na História. Aquele lugar tinha entre suas primeiras marcas, um momento de apropriação, um gosto de proibido... Não importa se quem manda vá ou não concordar. Para essas coisas não se pede autorização. E aquela cidade quando oficializada como tal, devidamente reconhecida por nome, 14


CAPÍTULO 1

RESGATE HISTÓRICO

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O carnaval que nasceu do povo

Pensar o Carnaval de Belo Horizonte remete a cinco pilares: Corso Carnavalesco, Bandas Carnavalescas, Bailes Populares, Blocos Caricatos e Escolas de Samba1. De acordo com Barreto (1929), o carnaval de Belo Horizonte começa antes de a cidade ser oficialmente criada, em fevereiro de 1897. Os operários, que estavam construindo a nova cidade, desistiram de ir para casa na folga de carnaval e comemoraram por ali mesmo, desfilando atrás de carroças desde a Praça da Liberdade até à Avenida Afonso Pena. A folia era conhecida pelos operários devido às festividades de suas cidades natal, como Ouro Preto, Caeté e Santa Luzia, por exemplo. Geralmente, os homens se vestiam de mulher e jogavam água nas pessoas que usufruíam do evento. Em 1899, apenas dois anos depois da inauguração da capital, o primeiro bloco da cidade, Diabos da Luneta, vai às ruas, acompanhado de 14 carros. Criado e mantido por clubes, associações ou artistas, ele fazia a alegria dos belorizontinos e visitantes da cidade, uma vez que cada folião desfilava como queria e como podia pela Avenida Afonso Pena. Esse bloco foi

1 - Carnaval de Belô. Disponível em: < http:// carnavaldebelo.no.comunidades.net/sobre-o-carnaval-de-bh>. Acesso em: julho de 2015.

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Corso. Créditos: Arquivo Belotur

inspiração anos mais tarde, em 1975, para a criação da Banda Mole, que se mantém viva até os dias atuais2 . Já no ano de 1904, segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, houve a fundação do Clube Matakins e, através dele, começaram os desfiles com carros ornamentados. A agremiação carnavalesca O Corso promovia os desfiles de carros abertos e caracterizados pelas ruas da cidade, com foliões fantasiados, jogando confetes, serpentinas e esguichos de lança-perfume em todos que passavam. Os carros desciam a Avenida Afonso Pena, a partir da Avenida Carandaí até a Praça Sete de Setembro. O Corso ficou em evidência até a década de 1940. Na quarta-feira de cinzas, após o desfile, as pessoas se reuniam nas casas e nos cafés para discutir quais carros e blocos tinham sido os mais bonitos3. De acordo com Teixeira (2005), em 1908 aconteciam no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, as Batalhas de Confetes, em que uma multidão se reunia com confetes e serpentinas para se divertirem em um tipo de guerra festiva. Surgiram

2- De acordo com o site da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. 3 - Tirado do Jornal Estado de Minas. Sem data e informações sobre o jornal, pois foi encontrado em uma pasta do Arquivo Público. Data da visita: 9 de fevereiro de 2015.

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Foto tirada em visita ao Arquivo Público de Belo Horizonte no dia. Créditos: Naiara Rodrigues.

também as Bandas Carnavalescas, formadas pelos operários, que também eram músicos e saiam tocando instrumentos atrás de carroças e dos carros ornamentados. Eles faziam da ironia, da irreverência e do bom humor suas marcas registradas. No mesmo período, começam a aparecer o que conhecemos hoje como Blocos Caricato4 , como o Os Bocas Brancas, em que operários pintavam os rostos e desfilavam batendo latas e tambores em cima das carroças. Os Blocos Caricatos eram compostos por caminhões enfeitados, ocupados pela bateria que tocava e animava os foliões. A ideia era fazer com que as pessoas se divertissem sem mostrar sua identidade, uma vez que a diversão vinha acima da vaidade, do poder e assim por diante. Alguns sambistas5 afirmam que tais blocos foram os precursores do Trio Elétrico, que os baianos apenas instalaram alto-falantes nos caminhões e trocaram os tamborins, pandeiros e reco-recos por guitarras havaianas, mantendo os tambores e a garra na execução musical. Um bloco de destaque foi As Gatinhas, que, segundo Barreiro (1929), era composto por moças que vestiam calças compridas, luvas, capuz com

4 - Carnaval de Belô. Disponível em: < http://carnavaldebelo.no.comunidades.net/sobre-o-carnaval-de-bh>. Acesso em: Julho de 2015. 5 - Carnaval de Belô. Disponível em: <http://carnavaldebelo.no.comunidades.net/sobre-o-carnaval-de-bh>. Acesso em: Julho de 2015.

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orelhinhas na cabeça, abertura na altura dos olhos e bigodes de gato pintados. Os Blocos Caricatos saíam, de acordo com Figueiredo (2006), do Barracão – localizado no centro da cidade – passando pelas ruas Tupinambás, Curitiba, Caetés, Espírito Santo, Avenida Afonso Pena, Bahia, Praça da Liberdade, Santa Rita Durão, Pernambuco, São Paulo e retornavam ao Barracão. O percurso contemplava regiões da cidade bastante disputadas, mais especificadamente o centro comercial e o bairro dos Funcionários. Em 1922, o itinerário do carnaval foi modificado e nomeado de “esquecido”, uma vez que foi reduzido e abrangia apenas a Rua dos Guajajaras, a Rua dos Tamoios e a Rua dos Tupinambás. Na década de 1930, segundo dados da Belotur6 ocorreu o desfile da primeira agremiação na cidade, conhecida como Escola de Samba Pedreira Unida, formada por moradores da Pedreira Prado Lopes. Porém, entre 1940 e 1945 o carnaval de rua fica proibido devido à Segunda Guerra Mundial. Em 1946, ele é retomado com um grande movimento nos bairros Concórdia, Lagoinha, Santo André e Anchieta. Era uma grande brincadeira, todos saíam fantasiados para festejar e assim, aproveitavam a festa e respeitavam as demais agremiações. Nos anos de 19507, a farra na quarta-feira de cinzas era rir dos foliões que tinham passado um ou dois dias na cadeia. Nessa época, o espetáculo acontecia em frente ao 2º Distrito Policial, que funcionava na Rua Rio de Janeiro, entre a Rua dos Tamoios e a Praça Sete de Setembro. Centenas de pessoas se sentavam em frente à delegacia e ficavam assistindo à saída daqueles que “arrumavam problemas” durante os dias de festividade. No final da década de 1940, começaram a surgir as primeiras Escolas de Samba da capital. É a partir de 1970, no entanto, que a cultura do desfile de Escolas de Samba passa a se firmar. Nos anos de 1980, as apresentações, que eram realizadas no centro da cidade, viveram seu apogeu. Escolas como Inconfidência Mineira, Unidos

6 - Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte. 7 - Jornal Pampulha. Caderno desconhecido, 25 de fevereiro a 3 de março de 2006. Jornal encontrado no Arquivo Público. Visita feita em: 9 de fevereiro de 2015.

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do Guarani, Cidade Jardim e Canto da Alvorada disputavam os primeiros lugares e atraíam milhares de pessoas para as arquibancadas da Avenida Afonso Pena, convertida durante dois dias em passarela do samba. Na época, houveram escolas que chegaram a colocar mais de dois mil8 integrantes na avenida, em um tempo em que as grandes agremiações da cidade do Rio de Janeiro, como Mangueira e a Beija Flor, se apresentavam com, em média, 4.200 pessoas. O Carnaval de Belo Horizonte era o segundo mais importante do Brasil, perdendo apenas para o carioca, em termos de atenção da grande mídia e infraestrutura. Em 1975, de acordo com Teixeira (2005), é criada a banda carnavalesca mais tradicional da Cidade, que surgiu a partir do fim do bloco carnavalesco Leões da Lagoinha, quando os filhos e netos das tradicionais famílias deste bairro fundaram a Banda Mole, com o intuito de reviver a animação dos desfiles de blocos populares e a crítica através de suas canções e liberdade de se fantasiar. O primeiro desfile saiu do bairro Lagoinha em direção ao Centro com cerca de 100 foliões; o ápice veio na década de 1990 quando cerca de 400 mil pessoas foram às ruas. Tradicionalmente, o evento ocorre aos sábados pré-carnaval. A agremiação passou a se concentrar na Rua Goiás, na porta do jornal “Estado de Minas”, e em seguida mudou-se para a Rua da Bahia em direção à região da Savassi. Depois de anos, em 2004, o trajeto foi alterado para a Avenida Afonso Pena, onde se mantém até os dias atuais. No início a banda mole era um bloco de chão, ficou assim do seu surgimento até 2004, quando se mudou para a Afonso Pena em cima de trios elétricos. A Banda Mole, junto com as bandas carnavalescas, invadiu a cidade com os seus desfiles animados. Bloco do Pirulito, Banda Moda, Sagrada Folia, Concentra, Mas Não Sai, Balaio de Gatos, Cachorro Cansado, As Virgens do Formigueiro Quente, Farra, Forró & Folia, Os Urubus do Arrudas, entre outros, fizeram um dos grandes momentos do carnaval de rua da cidade.

8 - Dados Arquivo Belotur. Visita feita em: 13 de outubro de 2015

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Desfile em 1974. Créditos: Arquivo Belotur

Desfile em 1978. Créditos: Arquivo Belotur

A festa em 1978. Créditos: Arquivo Belotur

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Em meados da década de 1980, alternaram-se os itinerários das vias públicas percorridas pelos foliões e os novos trios elétricos ocuparam os espaços festivos, principalmente a Avenida Afonso Pena, que abrigou os principais desfiles da cidade. O número de participantes aumentou significativamente e o sábado foi escolhido como dia oficial da brincadeira. Tudo isso fez com que fosse criado o Decreto Municipal nº. 3.676/1980, que oficializou o carnaval de Belo Horizonte9 . No começo da década de 1980, 17 escolas de samba alegravam a Avenida Afonso Pena, junto com dezenas de blocos caricatos. Foi nessa época, precisamente no ano de 1980, que começaram a acontecer os bailes populares nas praças centrais da cidade – Praça da Rodoviária, Praça da Estação e Praça Rui Barbosa. Além disso, o pré-carnaval estava sob o comando da Banda Mole e da Batalha de Confete, que acontecia na Praça Diogo Vasconcelos e era agitada pelo som da banda Bororó – banda que tocou em praticamente todos os eventos carnavalescos da década em questão. O público, a partir de 1983 começou a aumentar, chegando a 270 mil pessoas, o que fez com que, além dos blocos caricatos, aparecessem novos blocos carnavalescos. Com o aumento do público, aumentou a frequência dos bailes carnavalescos, que aconteciam também em espaços privados como o Mineirinho, Minas Tênis Clube e Ginástica. A partir de 1984, os eventos carnavalescos aumentaram em número e começaram a se espalhar pela cidade. De acordo com os relatórios anuais da Belotur, 300 mil pessoas se dividiam entre o Concurso de Bateria de Escola de Samba – Tamborim de Ouro, os desfiles de Escolas e Blocos, os Bailes Populares, o Grito de Carnaval com a Banda Bororó, a eleição da Corte Momesca e o renascido Desfile de Corsos, que nos anos seguintes foi apropriado para carros, bicicletas (1993), e motos (1995). A partir de 1987 começou no Parque das Mangabeiras a Seresta Carnavalesca, que anos mais tarde passou a se chamar Minas ao Luar, popular na cidade até os dias de

9 - Todos os dados, até 2008, foram retirados de uma pesquisa feita no acervo da Belotur, em uma compilação impressa dos dados do carnaval, de 1980 até 2008.

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O desfile de 1984. CrĂŠditos: Arquivo Belotur

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A retomada do desfile de corso em 1994. Créditos: Arquivo Belotur

hoje. Este ano também marca o surgimento do carnaval nas regionais, que abrangeu nove bairros no total. Em 1989, no mesmo ano em que José Geraldo Ângelo assume a presidência da Belotur, não houve desfiles das Escolas de Samba e dos blocos, segundo os relatórios da Belotur por decisão das agremiações carnavalescas e suas entidades representativas. Enquanto isso a programação dava destaques para os eventos pré-carnavalescos, como a Eleição da Corte Momesca, a Batalha de Confetes em dois bairros, Seresta Carnavalesca, Banda Mole, Baile dos Artistas, Desfile de Corso na Avenida Carandaí; e os eventos carnavalescos ficaram por conta do Baile do Povão, do carnaval em oito regionais e do Concurso Oficial de Fantasia do Clube Libanês. Este ano foi marcado pelo início do declínio das Escolas de Samba e de um esvaziamento da cidade, que contou com 80 mil foliões. Vale ressaltar que últimos anos o número de escolas que participavam do desfile vinha caindo, apesar de ter começado a década com 17 escolas desfilando, esse número foi

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Bailes Populares na Praça da Estação em 1994. Créditos: Arquivo Belotur

diminuindo – em 1984, por exemplo, o número de escolas que desfilaram caiu para sete e em 1988, oito escolas foram à avenida - até que o desfile fosse cancelado. No início dos anos de 1990, contudo, a situação começa a mudar, já que os recursos e os incentivos públicos para promoção do carnaval e, em especial, para a realização dos desfiles de Escolas de Samba diminuem drasticamente. Sem apoio, agremiações tradicionais passam a enfrentar um período de séria crise e algumas delas chegam a fechar as portas. Ao longo da década, o Carnaval em Belo Horizonte agonizou e foi enfraquecendo com o declínio das escolas de samba: passou a ser comemorado nos bailes populares nas administrações regionais. Nessa mesma época, passou-se a realizar bailes populares em cada uma das nove regionais, os chamados “bailes do povão”, que aconteciam

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no centro da cidade, mais precisamente nas Praças da Estação, Praça Rui Barbosa e Praça da Rodoviária. No ano de 1991, as Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos desfilaram em Contagem por decisão das agremiações. Somente os Blocos Caricatos – 11 em sua totalidade – tomaram a Afonso Pena em um único dia de desfile, que levou 100 mil pessoas para a folia, junto com o carnaval em três das regionais. É de se considerar que a programação pré-carnaval foi mantida nesse ano. Durante a década de 1990, a programação do carnaval da cidade tem mais destaque durante o período précarnavalesco do que durante os dias oficiais da festa momesca; este ficou por conta dos bailes populares – infantis e adultos – e das regionais. Tanto que novamente, em 1992, as Escolas de Samba e Blocos Caricatos não desfilaram. Além disso, o Carnaval Ecológico no Parque das Mangabeiras foi acrescido à programação do pré-carnaval. Em 1993, quando a Belotur estava sob a presidência de Tarcísio Ferreira, houve investimento em um Carnaval Cultural para a cidade, o que gerou um aumento do público para 533 mil pessoas. A Fundação Municipal de Cultura acrescentou toda a sua programação cultural – teatro, cinema, museu – à programação oficial de carnaval da cidade. Por exemplo, apresentações teatrais na Lagoa do Nado e a exposição Memória do Carnaval, no Museu Histórico Abílio Barreto. Em 1994, com o slogan “Carnaval não é pra ver, carnaval é pra pular!”, mais de um milhão de pessoas ficaram para a folia na cidade – mais precisamente 1.229.000 pessoas, mesmo sem a participação das agremiações carnavalescas conforme decisão das mesmas. Foram investidos em 23 bandas na Praça Sete de Setembro, Trios Elétricos na Avenida Afonso Pena e surgiram novos Blocos Carnavalescos, que teriam seu apogeu na década de 1990, como os Catadores de Papéis e a Banda Santa. Ainda em 1994, os blocos caricatos foram resgatados e até hoje são uma tradição em Belo Horizonte.

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Carnaval não é pra ver,

carnaval é pra

pular! Slogan do Caranaval de 1994

Em 1996, as Escolas de Samba voltam a ser filiadas à AMESBEC, Associação Mineira das Escolas de Samba e Blocos Caricatos, que dava suporte para que os desfiles pudessem acontecer. As bandas figuram então como verdadeiras protagonistas do carnaval, dentre elas: Banda Mole (Centro), Banda Santa (Santa Tereza), Banda Verde, Banda Cheirinho da Lagoa (Santa Amélia). Além disso, os Bailes Populares vão para a Savassi e os Bailes Carnavalescos acontecem em todas as regionais. Mauro Werkema assume a presidência da Belotur em 1997 e o carnaval, tem neste, ano sua maior programação pré-carnavalesca e durante os dias oficiais da festa contando ao todo com um público de mais de um milhão de foliões. O começo dos anos 2000 é bem estável quanto à programação e público presente. Atrações como Blocos Caricatos, Blocos e Bandas Carnavalescas, Corte Momesca, Bartucada, Baile da Cidade, desfiles das Escolas de Samba da AMESBEC e da UESBECMG - União das Escolas de Samba e Blocos Caricatos -, Banda Mole, Bailes Populares nas Regionais e Carnaval Popular no Bairro Mantiqueira agitavam, em média, 600 mil pessoas. No ano de 2000, as apresentações de grupos carnavalescos trouxeram como novidade um trio elétrico. Em setembro do mesmo ano, foi promulgada Lei Municipal Nº 8.08710 , que institui oficialmente o Carnaval de Belo Horizonte, sendo a Prefeitura

10 - LEI Nº 8.087, DE 26 DE SETEMBRO DE 2000. Disponível em: <http://leonardomattos.com.br/wp-content/uploads/2009/06/LEI-8.-0872000.pdf>. Acesso em: Outubro de 2015.

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Municipal de Belo Horizonte responsável pelo evento. A Avenida Afonso Pena voltou a ter desfiles nos anos de 2001 e 2002, mas sem competição. O local ganhou arquibancadas e toda a infraestrutura necessária para receber os foliões. Além disso, os bailes populares continuaram a ser realizados nas administrações regionais. No ano de 2003, por ordem do prefeito Fernando Pimentel, foram canceladas todas as manifestações promovidas pelo município, sendo o valor que seria utilizado no Carnaval daquele ano destinado às vítimas das enchentes que aconteceram na capital no mesmo período. A partir de 2004, os desfiles de escolas de samba e blocos foram realizados na Via 240, bairro Novo Aarão Reis, com uma infraestrutura melhorada e dentro dos moldes estabelecidos pelos setores de segurança pública do Estado de Minas Gerais. Os Bailes Populares nas administrações regionais passaram a integrar a programação de pré-carnaval, sendo realizados uma semana antes dos desfiles na Via 240. Além disso, foi o primeiro ano do Santo Bando, bloco carnavalesco organizado por moradores do Bairro Santo Antônio. Desfile das Escolas de Samba. Créditos: Glaydston Rodrigues

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Nota-se que em 2004, a cidade voltou a adotar definitivamente a união dos 5 pilares como programação oficial do seu carnaval e definiu a Via 240 como a passarela oficial para desfiles dos Blocos Caricatos e Escolas de Samba. A mudança de itinerário atraiu 835 mil pessoas, no total. Em 2005, porém, o público não aderiu tanto à mudança de rota e 370 mil pessoas foram curtir o carnaval da cidade. Em 2006, o carnaval já era visto como “parado”, “morto”. Os turistas preferiam ir para cidades vizinhas como Ouro Preto. Descrédito, valorização, entusiasmo, desânimo e insatisfação podem ser apenas alguns dos sentimentos compartilhados pelos diferentes sujeitos históricos que experienciaram a vida social da cidade planejada. E esse sentimento fez com que vários grupos fossem se unindo e construindo em suas imediações carnavais que eram próprios e particulares do grupo. Vemos uma série de blocos e eventos em bairros e comunidades se erguendo e dando vozes às minorias que neles vivem. Tadeu Martins Soares, como presidente da Belotur, promoveu seminários de como organizar a gestão do carnaval, além dos desfiles de Blocos Caricatos, Blocos e Bandas Carnavalescas, Escolas de Samba, Corso, Bailes Populares e a apresentações da Seresta Minas ao Luar. O carnaval declinava drasticamente, e esse ano contou com apenas 200 mil pessoas na folia. Em 2007, a média do público se manteve estável e as atrações não apresentavam novidades. Apenas em Santa Luzia, que criou o Carnafavela11 uma iniciativa da própria comunidade, que contava com apresentação infantil, da terceira idade e dos gays. Blocos Caricatos como o das Piratas – homens vestidos de mulher – e a Ala Gay desfilaram em pontos estratégicos da comunidade. Em 2008 foi um fracasso total. Apenas 75 mil pessoas foram às ruas com uma programação cada vez menor e sem incentivo do poder público. Em 200912, o Prefeito Márcio Lacerda assinou o Decreto Nº 13.79813 que proibia eventos na Praça da Estação, uma das maiores e mais importantes praças e espaços 11 - Tirado do Jornal O Tempo. Caderno: Gerais. Sem data e informações sobre o jornal, pois foi encontrado em uma pasta do Arquivo Público. Data da visita: 9 de fevereiro de 2015. 12 - Nota de Repúdio dos Blocos de Rua do Carnaval de BH ao candidato Marcio Lacerda. Belo Horizonte, outubro, 2012. Disponível em <http:// virgulaimagem.redezero.org/carnaval-tambem-e-politica/>. Acesso em: 04 out, 2014. 13 - DECRETO Nº 13.798 DE 09 DE DEZEMBRO DE 2009. Disponível em: <http://portal6.pbh.gov.br/dom/iniciaEdicao.do?method=DetalheArtigo&pk=1017732>. Acesso em: Setembro de 2014.

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da capital mineira. Segundo o decreto, a medida foi tomada devido à dificuldade em limitar o número de pessoas e garantir a segurança pública decorrente da concentração e, ainda, a depredação do patrimônio público. Entretanto, o povo, os grupos e as comunidades que estavam conquistando seu espaço – mesmo que somente em dias de festa – não deixaram esse decreto vigorar de fato, e o resultado dessa luta foi a criação da Praia da Estação, movimento que levava os moradores com trajes de banho a ocupar a Praça da Estação. Estava lançada a iniciativa para o desdobramento destes e de outros movimentos com maior força, em forma de - e também durante – Carnaval.

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CAPÍTULO 2 DONa eLISA

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DONA ELISA Créditos: Elmo Alves

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Ela cantou a história desse carnaval: um pouco da sambista Dona elisa

Era sexta-feira à noite, dia 20 de fevereiro, quando a apuração oficial do carnaval, realizada na Câmara Municipal de Belo Horizonte, revelou a escola vencedora do Carnaval 2015. Acadêmicos Venda Nova foi a grande campeã, e levou o prêmio de 50 mil reais, pela segunda vez consecutiva, conquistando o quarto título em onze anos com o samba-enredo “Tudo que Venda Nova toca vira ouro”, com letra de Mandruvá e Dona Elisa, e música de Wallisson Adriano. Foi a primeira vez que um samba-enredo da cantora e compositora mineira Dona Elisa ganhava a disputa na avenida. Aos 67 anos, a sambista Ana Elisa de Souza já compôs 780 letras e integrou por 12 anos a Velha Guarda do Samba de BH. Entre as músicas, sambas-enredo, de roda, marchinhas, batuques, sertanejo, afoxés e até boleros. Ela se prepara para gravar o primeiro disco que deve ser lançado até o início de 2016. Assim como outros bambas da história do samba - Cartola gravou seu primeiro álbum em 1974 quando já

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ultrapassava os 60 anos de vida - a artista mineira só teve a oportunidade de gravar suas músicas depois de mais de 50 anos de carreira. Quando Mandruvá ligou para falar que levaria a sinopse para compor juntos a letra e melodia da música para a Acadêmicos Venda Nova, ela aceitou o convite. - Meu Deus do céu, é muita coisa, mas vamos tentar. Não custa. Até então, Dona Elisa não queria mais trabalhar com samba-enredo por dar muito trabalho. - É muita coisa para pesquisar e destrinchar numa música. Uma sinopse, para contar uma história, essa história ir para um concurso dentro da quadra, para, se vencer a votação, ir para avenida. Dona Elisa já tinha tido a experiência em 2006, com o samba-enredo “Itaúna, Cidade Educativa”, para a hoje extinta Escola de Samba Inconfidência Mineira, e em 2010, com “50 anos de Brasília e Sua Criação”, para o desfile da Escola de Samba Cidade Jardim. Ao receber a sinopse das mãos do amigo e sambista Mandruvá, logo reconheceu a história: O toque dourado do Rei Midas. Na infância, em sua cidade natal, Águas Formosas, no norte de Minas, Dona Elisa estudava ainda menina as histórias da Grécia Antiga na escola. Filha de mãe professora, Dona Elisa voltou aos tempos de criança, quando lembrou que mexendo nos livros da mãe, com oito ou nove anos de idade, encontrou a história de Rei Midas que leu com o incentivo materno. Ela estudava no terceiro ano primário, quando duas semanas depois, a professora pediu que a classe produzisse uma interpretação de um texto sobre o mito grego e impressionou a educadora com sua redação e pelo fato de já conhecer a história do rei Midas, que transformava em ouro tudo aquilo que tocasse. O episódio veio logo à cabeça. Uma viagem na infância que tornou mais prático o trabalho da compositora: tudo o que Venda Nova toca vira ouro. Na letra da música, o personagem mitológico Rei Midas, se juntou a Apolo, e a elementos do comércio para contar a história da evolução do comércio na história da humanidade, desde

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o crescimento dos produtos industrializados chineses, até às novas tecnologias que facilitaram as compras. Na quadra da escola, 25 compositores disputavam o samba enredo da Acadêmicos de Venda Nova. - É Mandruvá, esse aí não vai ter pra nós não. Tem muita gente boa aí. – disse Dona Elisa ao amigo, ao lado do qual cantou por muitos anos na Velha Guarda do Samba. As composições eram executadas ao vivo, e quando chegou a vez dos dois tradicionais sambistas de Belo Horizonte não teve vez:

“Moça bonita não paga, Alô freguês! Ching-ling mandou dizer, Se tem ouro na sandália da mulata Na saia da baiana tem dendê É carnaval! (...)”

A música conseguiu o primeiro lugar na quadra. Foram para a avenida e a escola levou o que o samba pediu: foram 600 integrantes desfilando, divididos em 12 alas e quatro carros alegóricos. A história tem que ser contada não só dentro da quadra, mas também na avenida e Dona Elisa chegou a falar com o presidente da escola: é preciso vestir a escola com ao menos três dos elementos principais do enredo para conseguir um bom resultado. Para a sambista não adianta contar o enredo no papel, na quadra e não colocar na avenida. E assim a escola criada em 2005, que já venceu os carnavais de 2008, 2009 e 2014, conquistou o tetracampeonato. Apesar de ter sido a primeira vitória, 2015 não foi o primeiro ano em que Dona Elisa desfilou com uma de suas composições na avenida. A convite de Mestre Conga, fundador e presidente da tradicional Escola de Samba Inconfidentes Mineiros, ela compôs o samba-enredo “Itaúna Cidade Educativa”, em 2006. A música contava a história do município mineiro desde a sua fundação, os primeiros moradores, até os

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rios que passam pela cidade, e embalou um dos últimos desfiles da escola. “ Oh Minas Gerias, Mas isso é bom demais Falar do interior Santana de São João Acima, O povoado que se transformou (...)”

- Essa escola de samba aí tinha um nome tão bonito, importante em Minas, e acabou. Eu tenho um sentimento danado dela ter deixado de existir, é uma escola que tinha tudo para bater de frente com todo mundo, e acho que foi uma das principais daqui. Esse samba-enredo foi um pouco antes dela acabar. Na época eu fiquei muito chateada também porque o presidente da escola, o meu amigo Mestre Conga, infelizmente não levou a escola para a avenida como tinha que levar. Também por falta de dinheiro, por falta de verba, porque a Belotur, a Prefeitura, não liberou o dinheiro e a escola tinha que chegar na avenida. Na época fiquei meio chateada, mas passou. Para a compositora, o Carnaval do Rio de Janeiro é tido como referência no país, mas Minas Gerais já teve grandes festejos entre as décadas de 1960 e 1980, com mais de 20 escolas desfilando com grandes figurinos e disputas acirradas. - Cada escola tinha sua estrutura. Naquela época Venda Nova ainda não existia, mas tínhamos a Escola de Samba Cidade Jardim, a Inconfidência Mineira, Unidos do Guarani, a Princesa Isabel, que hoje é a Canto da Alvorada, a Pedreira Unida, primeira escola a desfilar, uma das mais famosas que saia da Pedreira Prado Lopes e depois foi puxando as outras. A gente batalhava para a escola ganhar. Às vezes a Cidade Jardim ganhava, às vezes a Guarani, ou outra... quem ficava em 2º ou 3º lugar, ficava chateado, danado da vida, porque trabalhou o ano todo para a escola ganhar e não

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ganhou, e fazia parte. Mas, tudo isso há quanto tempo? Muita coisa foi feita para desmanchar o carnaval de BH e a cidade ficou sem ter carnaval por muitos anos. As pessoas viajavam, iam para fora da cidade. A decadência foi de 1985 para cá. Desde 2013 melhorou muito, mas essa batalha já vem de muito tempo, desde a década de 80. Nós tivemos uma época em Belo Horizonte que não apareceu ninguém. Os poucos clubes que tinham na década de 80, que eram os Sindicatos dos Bancários, o Clube Elite, Clube dos Feirantes hoje já não existem mais. Então naquela época quem ia para a avenida era para andar à toa, porque não tinha nada para mostrar: ou ia pra fora, ou ia pro clube. Quem tinha dinheiro ia para os clubes, quem não tinha ia para fora. Eu, como sempre, não ficava em casa. Eu nunca gostei de ficar em casa. Uma hora ia para o Clube Elite, outra para o Estrela, Clube dos Feirantes, ou para Sabará. Já no período que o carnaval foi para a Aarão Reis, tinha muita marginalidade, foi ruim porque muita gente não ia porque tinha medo do lugar. Nosso país é um dos países mais preconceituosos que existe. O nosso estado é o principal estado do preconceito nesse país. Por aí você vê quanta coisa a gente perde por causa da cor da pele, por não ter um conhecimento que outras pessoas têm. A gente tem que bater de frente com isso 24 horas por dia. Eu bato de frente com isso 24 horas por dia porque tem que matar um leão por cada minuto, para poder mostrar o que eu sei fazer. E tem que ser, porque se eu for me recolher, baixar minha cabeça e cruzar os braços, ninguém vai saber que eu existo. Ninguém vai saber que eu sou Ana Elisa, Dona Elisa, que eu sou compositora, que eu sou cantora, que eu estou aí à frente de muitas coisas. Mas aí isso tudo a gente vai conseguindo devagarinho, devagarinho, e vai rompendo essas barreiras aí e vai chegando. Dona Elisa relembra que nos anos 1980, com a ditadura militar ainda vigente, existiam muitas pessoas com familiares desaparecidos e mesmo assim na batalha com as escolas de samba. Ela participou de vários blocos e escolas. Desfilou pela Unidos dos Guaranis, Cidade Jardim, Princesa Isabel, Unidos da Colina, Escola de Samba Unidos

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do Monte Castelo, muitas delas que não existem mais hoje. A falta de investimento do poder público para ela foi um dos fatores que acarretaram no declínio das escolas, que hoje retomam suas forças com resistência. - Houve um prefeito que eu não lembro mais o nome dele, que resolveu acabar com o carnaval. Tem que acabar com isso... dizia que o carnaval estava estragando a cidade, acabando com os monumentos. E eu falei: “gente o carnaval não está acabando com ninguém. O que acaba com essas coisas é a falta de educação das pessoas, de gente que não sabe conservar o que têm”. Os vândalos que entram no meio das pessoas sensatas para fazer besteira, é isso que destrói as coisas. Essa decadência, vem desde 1985. Quando chegamos nos anos 1990, as nossas escolas já não desciam mais. Os nossos blocos carnavalescos já não saíam mais. Aí foi a luta, porque o samba não pode parar. Não podemos deixar o samba morrer, o carnaval acabar. E as escolas de samba ficaram todas encostadas. Aí depois com muito custo, fazendo reuniões com a Belotur, ficando em cima da Prefeitura, Secretaria de Cultura, fomos buscando devagarinho. Hoje graças a Deus a gente já tem de volta o carnaval de rua de Belo Horizonte, que não tinha mais. Neste ano os blocos fizeram uma festa, foi lindo demais. A gente conta com um carnaval melhor, o povo mais atuante. A falta de recursos das escolas refletia, inclusive, no trabalho da compositora, que já chegou a ter que desmanchar partes da letra do samba, já que a escola não poderia levar sua representação completa no grande dia. - A grande dificuldade era a verba, o dinheiro para poder colocar a escola na avenida, e com dignidade. E isso faltou muito, e ainda falta até hoje. É um sufoco vestir uma escola porque pouca gente colabora, embora hoje em dia exista muita coisa que pode ser reciclada. E se põe a escola de samba na rua de qualquer maneira, de qualquer jeito... uma vez fiz um samba enredo para uma escola que não vou citar o nome, que me deu uma raiva. O samba era lindo, mas a escola entrou sem bateria, sem vestir

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a escola com nada, não pôs adereço, sem fantasia direito. Fiquei fazendo papel de palhaça na avenida, em cima do caminhão, puxando um enredo que a escola não apresentou. E aí? Eu chamei a atenção do presidente, e meu nome como fica? Eu sou uma compositora, a crítica vem para cima de mim, né? Uma vez a compositora chegou a escrever uma música para a escola Unidos do Guarani, mas seria preciso colocar muitos participantes vestidos de índio, o que fez com que o presidente desistisse da letra. Em 2010, Dona Elisa compôs o samba enredo da Escola de Samba Cidade Jardim, “50 anos de Brasília e sua criação” que traz personagens como o arquiteto Oscar Niemayer e todo o seu trabalho de planejamento da nova capital, a trajetória de JK, a vinda dos nordestinos para trabalhar nas construções. “Canta meu povo, Ascende a luz da alegria Ouça o rufar dos tambores No conjunto Santa Maria É carnaval vamos comemorar Vista uma fantasia, É a nossa escola de samba Cidade Jardim com muita euforia Que vem contagiando Contando como se criou Brasília Ano 56 em que se deu a iniciação Chamaram os candangos, Trabalhadores de precisão. Era um povo nordestino Que lá chegou com muita animação Foi logo escavando E terraplanando para construção. Foi logo escavando Terraplanando para a construção. Veio Oscar Niemayer, Grande arquiteto com inspiração Projetou arquiteturas, Os edifícios bela criação A praça dos três poderes,

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Primeiro plano escultural, o Palácio do Planalto, Plano Piloto e a catedral. Corre de lá pra cá Corre de cá pra lá Vamos trabalhar Põe mãos a obra gente Assim dizia o nosso JK Mas veio.. veio de Diamantina Cidade histórica tem tradição Jovem moço inteligente Que ainda vive em nosso coração JK traçou uma ponte Unindo Minas a nossa nação Hoje há 50 anos Brasília faz a mesma união Com os povos estrangeiros E como sempre em negociação (...)”

- A música é uma História que fica. Deus me deu esse dom então eu tenho que honrar. Tem que pesquisar muita coisa, e mesmo assim, se for falar de tudo eu tinha que ter colocado muita gente aí ainda. Além de Niemeyer e JK, tinham muitos personagens que entraram uns a favor outros contra a construção de Brasília, entende? Então teve muita coisa. E para fazer um samba enredo a gente vai tirando de cada um uma parte principal pra ir formando o verso, a estrofe, fazer a letra e botar a melodia. Esse samba, tem ele completo e tem sem o pedacinho que eles mandaram tirar porque não tinham dinheiro para vestir a escola. Então foi reduzido pela metade. Para variar, nessa época essa escola estava proibida de descer. Houve um desentendimento com a Belotur, uma bagunça danada com a Prefeitura que estava querendo tomar a quadra. Eu sei é que o presidente resolveu colocar a escola na avenida à força, de punho forte. Levou a escola para a avenida de qualquer forma, mas levou. Sem vestir direito, sem fantasia, sem alegoria, mas levou. O importante era estar lá, e ele foi. Agora por isso que tive que diminuir a letra do samba. Achei horroroso, não gostei de como ficou,

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mas fazer o que? Era necessário. Naquele ano a tradicional Escola de Samba Cidade Jardim, criada em 1961, foi rebaixada para o Grupo B. O terreno da escola, com 4 mil metros quadrados, localizado no Conjunto Santa Maria - hoje área valorizada por estar próxima à Avenida Raja Gabaglia - ainda estava com a sua situação instável. Isso porque em 2004, a única escola com espaço próprio para desenvolver as atividades carnavalescas recebeu um mandado de despejo para a construção de uma Unidade Municipal de Ensino Infantil (Umei), ao lado da quadra. Apesar dos integrantes se manifestarem, defendendo que a implantação da UMEI não deveria acarretar no fim das atividades culturais, em agosto de 2008, a Escola foi despejada. Só em fevereiro de 2009, a Cidade Jardim volta para o espaço, porém não a tempo de desfilar no carnaval daquele ano. Desde então a quadra vem buscando um recomeço e tem obtido sucesso em projetos como o Samba da Quadra e a Escola de Artes e Ofícios Jairo Pereira da Costa. Em 2010, Dona Elisa ainda contribuiu na criação da marchinha do Bloco da Cidade, ao lado de Dudu Nicácio, que criou o bloco em parceria com a quadra da escola onde ensaiavam. Estavam todos reunidos no espaço: pessoas que fazem parte do bloco os envolvidos na área de carnaval, como o músico Serginho Beagá, e membros da Escola de Samba Cidade Jardim. Dona Elisa sentou e com um pedacinho de papel apoiado ao chão começou a escrever. Pensou: Bloco da cidade. Carnaval, bloco, cidade, avenida. Foi quando saiu: É pra avenida que eu vou Eu vou! Eu vou! Vou pra avenida brincar, Eu vou brincar Tô no bloco da cidade Com muita felicidade Carnaval eu vou pular”

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E assim nascia o refrão da marchinha do Bloco da Cidade que ainda contou com mais duas estrofes de Dudu Nicácio. Dona Elisa também compôs outras marchinhas para o carnaval. Em 2002, participou do primeiro Concurso de Músicas Carnavalescas em Santa Luzia, em que foi classificada com as marchinhas “Bahia Belô, ou Santa Folia” e “Com ou sem Fantasia”. Em 2012, disse que chegou a levar uma marchinha para o Concurso Mestre Jonas, mas sem despertar o interesse dos organizadores nem chegou a competir na disputa. O dom de compor veio de quando ainda era criança e a sua história na música começou cedo. Filha de mãe professora, e pai lavrador, nasceu em Águas Formosas, no Norte de Minas Gerais. Em 1958, ainda menina, compôs com o pai sua primeira canção, aos 10 anos, quando descobriu o dom para música. Na época o pai e a mãe haviam se desentendido. Foi quando o pai chamou a menina num canto: - Pretinha! - como a chamava carinhosamente. - Sim senhor, pai. - Vem cá, vamos fazer uma homenagem para a mãe? -Vamos. -Você quer fazer? -Eu quero - Eu vou falar as palavras e você crevinha. – apesar da mãe ser professora, o pai era analfabeto e mal sabia assinar o nome – Crevinha aí: “Oh Diolê, oh diolá, Diolinda. Cabelo dela cheirou Bribliantina.” Foi quando a menina corrigiu: - Pai, não é bribliantina não… o senhor está falando errado. - E como é que é? - É brilhantina. - Eu falo é do jeito que eu quero falar e você não me correge! Nem precisava escrever no papel, a música “Cativa Mulata” ficou guardada na

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memória e vai estar no disco da cantora. O ritmo é batuque, estilo que muito se usava nas festas na roça, quando a sua família reunia em volta de uma fogueira no quintal que iluminava tudo. Botavam os tambores para tocar e o povo para batucar. Ela foi criada assim. Diolinda era o nome de sua mãe, e a compositora manteve na letra o “bribliantina” de seu pai. Naquele tempo, a brilhantina no cabelo era comum e quem usava cheirava longe. “Oh Diolê, oh diolá, Diolinda O Cabelo dela cheirou Bribliantina Entra na roda cativa mulata Vem cá, vem ver batucar “

A menina escreveu, e o pai fez a batucada. Ensaiaram e cantaram juntos, deixando a mãe emocionada. - Isso eu tenho que levar para o resto da vida, isso aqui eu vou guardar comigo. Outro fator ainda fez crescer o seu sonho de ser cantora. Foi quando viu pela primeira vez a apresentação de uma artista de fora na cidade, a cantora mineira Edna Fagundes. A cena da mulher fantástica no palco, cantando e dançando incentivou ainda mais a vontade de se tornar uma cantora. Aos 16 anos mudou-se para o Rio de Janeiro em busca do sonho, mas por lá ficou só 5 meses. Voltou para a capital mineira onde passou grandes dificuldades. Sem dinheiro, não tinha onde morar, tomar um banho, ou o que comer. - Bati de frente com essa selva de pedra aí. Diante das dificuldades lembrou do que a mãe tinha dito antes de sair de sua cidade: - Minha filha, passe fome se preciso for, bata nas portas e peça se precisar. Mas nunca tire minha filha, um grampo de ninguém, porque o que nós temos de valor nosso é o nosso nome. Honra seu nome e não me decepciona. Conseguiu o primeiro emprego pedindo de porta em porta. Roupa para lavar ou uma faxina para fazer. Dona Elisa pedia um serviço em troca de um prato de comida. E

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assim foi conseguindo sobreviver. Uns davam o trabalho, outros não. Para se lavar ia altas horas da noite andando a pé até a Lagoa da Pampulha. Ali se limpava: tirava a roupa que vestia, lavava e deixava secar vestida no corpo. Mesmo diante de todas as dificuldades, conseguiu se manter digna. - Oferta para o que não presta teve muitas, várias, de todos os lugares, mas eu olhava e falava não. Eu não vim aqui para isso, não vou nessa não. E foi trabalhando como empregada doméstica em casas de família que conseguiu se manter. Além disso também se apresentava em bares e casas noturnas de Belo Horizonte. Um dia, enquanto cantava no bar Flor de Liz, na Rua Guarani, chamou a atenção de um dos amigos numa roda quando cantou uma de suas músicas, a “Menina Matreira”. “Me lembro com muitas saudades, Das coisas que não tem aqui, Menina matreira que sou, Lá do sertão de onde vim O rancho no meio da mata, Ao lado passa um ribeirão, Do vento que sopra vadio, E as folhas secas no chão Oh, que saudade tenho de lá! Oh, que saudade tenho de lá! Oh que saudades tenho do meu lugar”

O amigo Gilson Belnicão, na época taxista, apresentou Dona Elisa para a radialista Tina Gonçalves, que tinha um programa na Rádio Inconfidência. Se interessou não só pela voz, mas também pelas composições da cantora, que na época tinha três letras. Tina Gonçalves arrumou então um grupo de músicos sertanejos que ensaiaram com Dona Elisa, que passou a se apresentar na rádio. Mesmo com o sucesso da música, não conseguiu gravar um disco. Além das participações no programa de rádio também

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se apresentava em barzinhos, como o Calçadão, que se localizava no prédio JK, e em clubes, chegando a fazer parcerias com outros artistas como Amaral Júnior. E assim Dona Elisa foi construindo o seu espaço na música mineira. Em 2003, foi convidada pelo maestro Jadir Ambrósio para compor a Velha Guarda do Samba, associação sem fins lucrativos que se dedica a resgatar a história do samba e contribuir para a revitalização do gênero na cidade. Na época estava parada há 12 anos, então passou a frequentar as reuniões do grupo, que desde 2003, acontecem no Centro Cultural da UFMG, Nos encontros os integrantes da Velha Guarda ensaiam, debatem sobre o samba da capital lembrando momentos vivenciados ao longo de suas carreiras. No início os encontros eram mais conversas, mas quando Dona Elisa passou a integrar o grupo, iniciaram os ensaios atraindo a atenção das pessoas que passavam nos arredores da Rua da Bahia e Santos Dumont. A partir daí iniciaram as contratações, os convites para shows. O primeiro do qual participou foi na Assembléia Legislativa, no almoço dos deputados. Depois tocaram na Praça de Alimentação do Shopping Del Rey, Câmara Municipal, e não parou mais. Mulher negra do samba, Dona Elisa enfrentou muito preconceito para conseguir se estabelecer como artista. Sendo a única mulher compositora da Velha Guarda, foi vítima de machismo. Na primeira vez que ganhou um samba enredo em votação dentro da quadra, que foi na Escola de Samba Cidade Jardim, enfrentou inúmeras críticas. - Até então eles achavam que só homem podia fazer um samba enredo e ganhar. Ouvi coisas como “Não, deixar mulher tomar a frente da gente? Uma mulher pô”. Mas eu falei assim: não adianta, a gente vai bater de frente, mas eu vou estar aí. Eu vou levantar o meu nome, nessa vocês não vão me derrubar não. Vocês podem até diminuir um pouco meu andamento, mas que eu vou, eu vou. Tenho uma coisa que minha mãe me ensinou, uma coisa muito chique. Quando você não pode avançar, usa

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Velha Guarda do Samba. Créditos: Autor Desconhecido

uma estratégia: recuar sempre, desistir nunca. Recua, e quando você achar uma vaga para enfiar você vai em frente e passa por cima. E é assim que eu faço. Eu enfrentei muita coisa. Eu, Jussara Leão, cantora que hoje já não está mais entre nós, a Lúcia Santos, a cantora Lucinha Bosco. Muitas cantoras negras aí têm enfrentado isso. Na Velha Guarda do Samba eu enfrentei coisas que se eu sentar para contar a pessoa vai falar que é mentira. Mas eu é quem sei porque eu estava ali dentro. Veja bem, eu era a única mulher compositora do grupo, porque as outras são só interpretes. Eu era a única compositora do grupo, então aquilo era pau a pau todo dia. E eu quase toda semana apresentava uma música nova, enquanto que eles ficavam só nas que eles já tinham. Isso matava essa turma. E por aí foi, aí chegou um ponto que eu falei, quer saber? Eu vou dar uma guinada para cima deles. E teve um dia que eu bati de frente com eles para valer. Falei, eu não vou recuar, não vou não. Vamos parear, não é porque vocês são machos que eu vou dar meus direitos para vocês. Segurem a onda porque agora é comigo. E aí foi, até que chegou num ponto que eles resolveram me aceitar, aí

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Velha Guarda do Samba. Créditos: Autor Desconhecido

acalmou e a gente teve boa calmaria e por aí. A cantora também sofreu preconceito por ser negra e usava a música para se empoderar e extravasar todas as discriminações que sofreu ao longo da vida – como as que levaram à composição de “Diploma da Vida”. E a inspiração para escrever pode vir a qualquer hora. - Primeiro olho a posição daquela história que eu quero contar, às vezes uma melodia ou uma letra na minha cabeça e eu estou em casa. Aí pinta uma coisa de repente, corro para botar no papel antes que eu esqueça. Escreveu ali já não sai mais. Na medida que eu vou escrevendo, a melodia vem aparecendo também. Vou pondo letra, e eu vou jogando a melodia em cima, eu tenho esse dom. O fato de encontrar na música um refúgio contra os preconceitos, faz com que muitas de suas letras tratem da história dos negros. Temas como os grandes reis Africanos, suas tribos, os tempos da escravidão, Zulu, Zumbi dos Palmares e Dandara

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atravessavam as composições de Dona Elisa. Algumas delas estão previstas para serem lançadas em janeiro de 2016 em seu primeiro CD que marca a concretização de um sonho. No início de 2015 a cantora e compositora se desligou da Velha Guarda do Samba para se dedicar a outros projetos. Entre eles está o projeto Encontro de Compositores a partir do convite da cantora e amiga Dona Jandira, em que as reuniões muitas vezes são realizadas em Itatiaia (MG). No último carnaval, Dona Elisa chegou a receber uma homenagem da Secretaria do Estado, com o prêmio Jadir Ambrósio, por sua contribuição na cultura mineira. Disse que depois de ser campeã no último carnaval não sabe se toparia produzir mais sambas enredos. - Mas vai saber, né? Vai chegando perto e a gente não aguenta ficar parada.

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Créditos: Ana C. Branco

Velha Guarda do Samba. Créditos: Josi Costa

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PARTE 2 “Não pise na grama, não nade na fonte Um Belo Horizonte foi feito pra olhar” Daniel Saavedra – Vai pra mudar o Brasil

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Folia e a Cidade Sumida

O burburinho que tomou conta da cidade deixou todos com os cabelos em pé. E dava pra sentir o clima apreensivo enquanto todos olhavam em volta buscando compreender tamanho disparate. Permaneciam em silêncio e esperavam, ainda que amedrontados, que a qualquer momento, alguém surgisse e desse uma explicação plausível para aquilo. Não podia acontecer uma coisa daquelas em plena luz do dia. Não estavam mais na idade das pedras. Eram parte de uma civilização, integravam a massa econômica de um grande país em desenvolvimento, porém democrático e livre. Situações como essa não deviam fazer parte de seu cotidiano. O grupo formado por uns Razoáveis, outros 51


Ansiosos, um ou outro Enérgico, alguns

O mundo muda muito ao nosso redor, mas

Sensíveis e muitos Insanos, estava ali às

focados que estamos em conseguir viver não

voltas com aquele problema, quando um

nos permitimos olhar em volta e o ambiente

menino correu pelo nada rindo. Aquela cena

a nossa volta é só paisagem de uma tela que

deixou todos estupefatos. Como pode correr

ocupamos em primeiro plano. O turbilhão

rindo um menino no mais completo vazio?

de uma vida corrida nos obriga a notar os

Levantaram a hipótese de delírio coletivo.

ponteiros de relógios minúsculos em nossas

Não era, disseram os mais experientes na

mãos, mas não reparamos se os enormes

psique humana. Era real. Estava acontecendo

ponteiros do relógio da praça marcam a

e por Deus do Céu alguém teria que intervir.

hora certa. Somos capazes de notar que

Difícil acreditar que aquelas pessoas não

são necessárias duas ou três moedas a mais

tenham percebido nada ate então. Os

para pegar um ônibus ou pagar um café, mas

meninos da rua, muito menos estudados já

não lembramos quantas moedas usávamos

haviam percebido e aprendido a viver com a

antes para esses mesmos serviços. A solidão

cidade ausente.

de uma vida social agitada nos obriga a saber

E ai? Como que uma cidade some e ninguém

que usamos o mesmo vestido na ultima festa,

percebe gente? Mas a verdade é: Ninguém

mas não lembramos quem estava nessa

notou que a cidade sumiu. As pessoas

festa e nem mesmo onde ela aconteceu.

passavam todos os dias pelos mesmos

Podemos ver que nosso cabelo esta caindo,

lugares e não viam que ali não havia mais nada. Continuaram indo para o trabalho, comendo, dormindo, se amando e se odiando da mesma forma. Haviam adquirido o hábito de viver na cidade sem olhar para ela. A cidade sumida não alterou as relações nem as rotinas e nem mesmo o olhar das pessoas. Mas verdade seja dita, somos todos assim.

52

A solidão de uma vida social agitada nos obriga a saber que usamos o mesmo vestido na última festa(...)


mas nem lembramos onde estávamos na

Um dos Razoáveis apontou um dado

ultima vez que tínhamos muito cabelo. O

interessante: havia gente que ocupava a

isolamento em meio à multidão nos faz ver

cidade de forma diferente, que realmente

que o ser amado já está amando outro ser,

precisava das ruas, praças, viadutos, pois

mas a gente não consegue enxergar outro

não tinham uma casa ou uma rotina. Onde

ser possível de amor nos olhando do outro

estariam essas pessoas? Lembraram do

lado de uma rua movimentada.

menino que corria rindo.

Para que as pessoas ali reunidas tivessem tido a oportunidade de acompanhar as mudanças da paisagem que as cercava seria necessário conhecê-la, sair das bolhas cotidianas e ver que a existência das ruas e das esquinas era uma parte da vida que elas julgavam estar vivendo. Seria entender que a cidade não se resume a ser o lugar por onde passavam enquanto seguiam a vida. Eles só deram pela falta da Rua quando já não podiam seguir por ela. Tiveram que concordar entre si o quanto era engraçado terem permanecido tanto tempo sentadinhos no ônibus que não ia para lugar nenhum. Ou paradinhos na calçada que não existia, esperando abrir um sinal invisível para atravessar uma rua que não estava lá. E haviam os mais desatentos que se espatifavam querendo sentar em bancos de praças que já não existiam. Pior ainda os que tentaram atravessar viadutos sobre nada.

- Menino, ô menino venha cá. Aqui menino, vem depressa. Eram os Energicos. Vem o menino com aquela cara de quem não quer vir. - O que aconteceu? Cadê as ruas, as praças, os viadutos? Você mora na rua não é? O menino olhou atentamente as pessoas e achou por um segundo que estavam brincando com ele, mas o clima era muito tenso e parecia que uma bomba ia explodir ali mesmo. - Morava né? - Como assim morava? Mora onde agora? - Moro no outro lado do nada. As palavras sem sentido carregavam tanta verdade e o menino as disse tão naturalmente que não houve mais o que dizer. Só sentir. Os mais Ansiosos, que roíam as unhas esperando uma enorme revelação caíram para o lado. Alguns Energicos queriam bater naquele menino insolente. Foram segurados pelos Insanos que riam e achavam tudo bem 53


Isso

é nome? louco. Os Sensíveis se entregaram ao pranto.

Razoáveis disseram palavrão e se entregaram

Um dos Razoaveis, que por coincidência era

ao pranto. Mas havia aqueles para quem

bastante conhecedor da psique humana

toda e qualquer prova de resistência é pouca.

tentou de novo. Sabia que estavam fazendo

- Qual homem? Você sabe o nome dele?

a pergunta errada.

- O pessoal chama ele de Supremo Senhor

- Menino, você tem nome?

Caneta. Ele tinha um cachorro enorme

- Tenho uai.

chamado Decreto.

- E qual seu nome?

- Mas ele veio e levou tudo ontem a noite?

- Folia.

Sem ninguém ver?

- Isso é nome? Quem te deu esse nome?

Ai o menino riu de novo e pensou que essa

- Não sei. Me chamam assim.

gente era mesmo muito doida.

- Então... Folia, onde está aquela fonte que

- Quê isso, moço? Tem mais de ano. Entra

tinha ali em cima do que antes era uma

ano sai ano ele vem e tira uma coisinha.

praça?

Ele acha que ninguém vai notar, então vai

- O homem levou. Era tudo dele. Ai ele veio

guardando todas elas e depois eu acho que

e levou.

usa só com os amigos dele.

Aquela franqueza irracional em olhos tão

- Mais de ano, mais de ano, mais de ano...

expressivos era tanta que até dois dos

- Menos um Razoável, entregue a insanidade

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momentânea daquela informação. Alguns Insanos choravam abraçados a Enérgicos. Querendo voltar logo a brincar e pressentindo que a enxurrada de perguntas continuaria o menino foi contando numa carreira:

horrível... As pessoas não acreditavam no que estavam ouvindo e ficaram realmente apreensivas e chocadas e todos os adjetivos que possam descrever os olhos arregalados, as bocas

- Primeiro ele levou algumas ruas menos

abertas, as mãos trêmulas e as gotinhas de

movimentadas. Aquelas por onde quase

suor no alto da testa. Tinham passado tanto

ninguém passa. Aquela ali tinha um hotel

tempo sem olhar para a cidade a sua volta

tão antigo que até um presidente dançou lá,

que não perceberam que alguém a havia

mas o homem levou e como era bem velho

roubado bem embaixo dos seus narizes e

e feio, eu acho que as pessoas até gostaram

de certa forma com sua plena aprovação.

de não ter que olhar praquele trem caindo.

Após o susto, veio a indignação e logo em

Depois ele tirou uma praça menor, quase

seguida a raiva. Os últimos Razoáveis de

ninguém ia lá mesmo. Ai foi fechando os

pé se olharam e logo concordaram que era

parques, mas não de uma vez, sempre um

preciso uma ação. Consolaram os Sensíveis,

pouquinho mais cedo e levou muito tempo

direcionaram a ira dos Enérgicos, disseram

até não abrir de vez. Depois ele foi levando

ordens motivacionais para os Ansiosos e

os viadutos e não permitia mais que a gente

muniram os Insanos da loucura do poder

se encontrasse embaixo deles, mandou

coletivo.

dizer que ia reformar, porque estava muito velho e feio, mas isso foi só uma desculpa esfarrapada para colocar paredes de madeira que deixavam a gente de fora. Ai então ele foi vendo que ninguém queria a cidade e foi pegando mais ruas, mais praças e foi assim que ficou tudo vazio. Alguns reclamaram, mas era a gente da rua mesmo, então ele mandou o Decreto assustar e eles ficaram quietos. O cachorro tem um bafo de onça

Estavam prontos. Iam reaver sua cidade a qualquer preço e o Supremo Senhor Caneta haveria de aprender que com o povo não se brinca. Iriam coloca-lo para fora da cidade. Foram dias de procura,

dias de juntar

muitas mãos e pés raivosos para quebrar os tapumes de madeira. Dias de muitas mãos habilidosas para desenhar o rosto do Folia em camisas e bandeiras. E ele buscou outros 55


meninos, tão risonhos, magros e espertos quanto eles e por alguns dias meninos de rua e meninos de casa puderam brincar juntos e

ha

ha ...

todos se surpreendiam com o fato de, lado a lado, eles serem só meninos. Após muitas passeatas por vazios que antes eram ruas, após bandeiras e palavras de ordem, os moradores conseguiram desentocar o Patife ladrão de cidade. Ele justificou com, enorme cara de pau, que seus atos eram amor pela cidade e pelos cidadãos, que ele era moderno e humano e jamais deixaria meninos como Folia a esmo sem um lugar para correr ou sorrir. E buscou fazê-los aceitar que havia guardado tudo por medo de estragar ou sumir... Mas nem os Razoáveis estavam escutando e a pancadaria foi geral. No meio da confusão, o abominável cão Decreto latiu feroz e abriu sua boca, sedento de umas canelas para morder. Mas, o povo não estava para brincadeiras e expulsou o cão a pontapés. Decreto fugiu com o rabo entre as pernas. E o povo exigiu em carta aberta ao Supremo Senhor Caneta a retomada da sua cidade. Sem ter para onde ir e com medo daqueles selvagens cidadãos, o vilão bateu em retirada prometendo entre risadas satânicas que voltaria e aquela cidade seria dele, deeeeele. 56

ha ...

Mas o povo estava contente. Ali estava a praça com a fonte e todos foram pra fonte, e fizeram música e fizeram festa e foram ver as ruas e os prédios que ninguém via a muito tempo. E foram ver como era embaixo do viaduto e conheceram muitos outros meninos como Folia. E desde então, o povo da cidade tem vivido a cidade. Após descobrirem que havia muito mais vida na Rua do que apenas em suas próprias vidas o povo se apaixonou e decidiu não esquecer mais o quão belo era seu horizonte. E assim Folia e os foliões tiveram um final quase feliz... Pois nunca se sabe quando Decreto e seu Dono podem atacar novamente.


na

bloco 57


Houve um tempo que todos achavam que BH não tinha carnaval. As ruas ficavam vazias, e quem quisesse curtir a festa momesca precisava ir para outras cidades. Em 2009, o professor de arquitetura da UFMG, Roberto Andrés se juntou aos amigos que ficariam na cidade e chamou o músico e historiador Guto Borges, para colocarem o bloquinho do Tico Tico na rua. Através da internet, descobriram que ia acontecer outro bloco de carnaval na cidade, o Bloco do Peixoto, feito pelo casal de comunicólogos Nian Pissolati e Elisa Marques que, apesar de carregar uma aura tradicional, até então só existia em um blog e desfilaria pela primeira vez naquele mesmo ano, no Santa Efigênia. Marcaram um encontro antes da saída dos blocos no Mercado Central, onde a banda Proa fez um desfile carnavalesco performático para a gravação de um clipe. Ficaram amigos e saíram juntos nas ruas de Belo Horizonte no domingo e terça-feira de carnaval, ao som de marchinhas. A Proa fez também um show especial com o Bloco do Approach no sábado de carnaval, no Bar Brasil 41. Nesse primeiro ano também chegou para a festa a Chaya Vazquez, conhecida

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por Milagros, a artista independente que trazia consigo uma raiz do Maracatu e fortaleceu o som das baterias. Em 2010, a Praia da Estação, promoveu encontros com a proposta de ocupação do espaço público da cidade. O movimento contestava o decreto do prefeito Márcio Lacerda, lançado no fim de 2009, que proibia eventos de qualquer espécie na Praça da Estação. No carnaval de 2010, além do Tico Tico e do Peixoto, outros blocos foram surgindo. O Guto Borges criou o bloco Mamá na Vaca, um bloco de família que surgiu da ideia do seu tio Augusto Borges em desfilar no sábado de pré-carnaval e pintar o monumento da vaca que fica na Rua Leopoldina, no bairro Santo Antônio. Rafael Barros, mais conhecido como Rafa Tcha Tcha, já conhecia Guto e Nian e estava com as passagens compradas para Recife, quando decidiu desistir da viagem e ficar na cidade para fazer o Bloco Filhos de Tcha Tcha. No mesmo ano saiu também o Bloco do Unidos do Samba Queixinho, criado por Gustavo Caetano, no mesmo dia o Tico Tico, no Parque Municipal. Gustavo era morador do bairro Santa Tereza, onde participava do tradicional bloco caricato do bairro, Inocentes, e onde conheceu Nian e Elisa, um pouco antes do desfile no Bar do Orlando. Na rua ao lado morava a Janaína Macruz, entre amigos Jana, que era vizinha o Rafa Tcha Tcha e que em 2011, resolveu criar o Bloco do Manjericão, para sair nas quartas-feiras de cinza. Ela já conhecia o Humberto Mundim e ajudou a fundar o Bloco do Alcova Libertina, que antes disso era só ateliê de artistas. Em 2011, também desfilou pela primeira vez em BH o Bloco Então, Brilha!, que tinha saído no ano anterior nas ruas do Rio de Janeiro, criado por Glauco e seu Primo Gonzo e que hoje arrasta uma multidão de foliões ao som do axé saindo da Rua Guaicurus, em frente ao Hotel Brilhante. Em 2012 o carnaval da cidade havia crescido e ganhou até o Concurso de Marchinhas Mestre Jonas, que premiava as melhores composições para o carnaval do ano. Gonzo namorou com Flora e juntos fundaram em 2013 o bloco mais azul da cidade, o Pena de Pavão de Krishna que com afoxé, fez uma mistura da cultura sagrada baiana e indiana.

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Estas são algumas das histórias do carnaval de rua de Belo Horizonte, que daqui em diante serão tratadas sob o olhar de personagens que protagonizaram a retomada das ruas no carnaval da cidade. Os textos a seguir foram montados a partir das entrevistas realizadas durante a produção dessa pesquisa, com alguns dos fundadores de blocos de rua de Belo Horizonte. A escolha dos blocos priorizou a diversidade dos pequenos aos grandes, que saem do centro até das ocupações urbanas. É importante ressaltarmos que não falamos com todos os blocos da cidade, e que este livro retrata apenas algumas das histórias dos diversos carnavais que existem em BH. Os blocos retratados aqui foram escolhidos a partir da vivência das autoras no carnaval da cidade, que também contam suas experiências carnavalescas nos Diários de Blocos localizados ao fim de cada capítulo.

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CAPĂ?TULO 3 tico tico

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Tico Tico e Queixinho entrando no metrĂ´ em 2010. CrĂŠditos: Elisa Mendes

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O Tico Tico foi feito para voar. Roberto Andrés, professor de arquitetura na UFMG, é um dos organizadores do Bloco Tico Tico Serra Copo, que sai todo domingo de carnaval sem o registro oficial da Prefeitura. O bloco desfilou pela primeira vez em 2009, é

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itinerante e tem o costume de sair em áreas mais periféricas da cidade, e que vivem às margens das políticas públicas do poder municipal. “Em 2009 não tinha carnaval na cidade e um monte de gente não ia viajar. Eu estava em uma festa com amigos e decidimos criar um bloco. Como tinha um monte de arquitetos, alguém sugeriu Tico Tico Serra Copo como nome do bloco. Fomos chamando um tanto de amigos sem pensar no que daria. O dia do desfile, no domingo de carnaval, foi épico. Íamos sair da casa de uma amiga nossa no bairro Serra, ia passar na casa que eu morava - tinha muito essa coisa de passar por casas de amigos - e ia acabar em um bar, que estava fechado domingo, assim como a cidade inteira. Então, depois de quebrar a cara no bar, fomos andando, bebendo, tocando e procurando novos lugares. Carnaval tem muito isso de testar e provar a diversidade, fortalecer vínculos e amizades. Lembro que choveu, dançamos na chuva, entramos na sorveteria São Domingos, fomos para o Café Cultura e fomos expulsos do outro bar que passamos. Foi uma loucura só! Teve uma coisa muito forte, Estandarte Tico Tico/2009. Créditos: Arquivo do Bloco

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Tico Tico e Queixinho desfilando em 2010. Créditos: Elisa Mendes

um sentimento partilhado. Ninguém sabia tocar, nem cantar direito, mas no final simplesmente sabíamos que iria rolar. Dois dias depois teve o Peixoto e nessa época a gente não se conhecia. O Peixoto era mais organizado e mostrou que poderiam ter outros blocos e carnaval na cidade, tanto que no ano seguinte tiveram cinco blocos: o Guto decidiu fazer um bloco com a família dele no Santo Antônio, surgiu os Filhos de Tcha Tcha e o Tetê, a Santa, que já não sai mais hoje. Em 2009 também teve a saída do Approach. O Proa é uma banda, eles fizeram um filme que era um bloco em 2009 e saiu em volta do Mercado Central. Nós saímos nesse filme, inclusive. O bloco se desfez e a banda continua existindo, só que em forma de show. É uma banda muito boa, com uma música muito boa. Mas ficou caracterizado por bloco de palco e acabou se separando.

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Tico Tico em 2010, no Coreto do Parque Municipal. Créditos: Elisa Mendes

Em 2010, saímos no Parque Municipal, junto com os quatro meninos do Queixinho - eles dizem que o bloco começou esse ano. O Tico Tico saiu do coreto, deu a volta no parque, pegou o viaduto do Santa Tereza, entramos no túnel do metrô, o que foi perfeito para o bloco, já que era pequeno e coube toda a banda, o som ficava lindo, e depois fomos para a Praia da Estação, tomamos banho e muita cerveja lá. Em 2011, saímos na Rua Guaicurus e foi um ano muito louco porque o Queixinho cresceu e começaram a se organizar e ensaiar - foi o primeiro bloco que começou a ensaiar no pré-carnaval - na Av. Brasil com Afonso Pena, o que foi atraindo bastante gente; nós continuamos no nosso esquema avacalhado, e quando fomos sair, percebemos que todo o pessoal que tinha saído com a gente ano passado foi para o Queixinho, já que havia ensaiado com eles. A gente saiu na Guaicurus, tinham tipo

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Tico Tico em 2011. Créditos: Gabriel Castro

de dez a quinze pessoas e duas pessoas com instrumento; tinha muito menos pessoas que nos anos anteriores. No primeiro tinha saído umas 40 e no segundo umas 60, mais ou menos. Pensamos “Puts! Perdemos!”, saímos um pouco deprimidos na Guaicurus, só que foi juntando uns moradores de rua e umas putas - legal que foi no mesmo ano do Brilha!, é uma sintonia -, e descemos com aquela galera. Uns até falavam que era o bloco mais fedorento da cidade, mas pensamos que carnaval era aquilo ali, era juntar pessoas, era sentir a cidade e estar junto. Chegamos na Lagoinha, tocamos na Igreja, depois pegamos o metrô com aquela galera toda - cada integrante da banda comprou umas três passagens e saiu distribuindo para o pessoal - e fomos para o Santa Tereza, onde haveria o Alcova, em seu primeiro ano tocando em um palco em frente ao Bolão14. Foi um ano muito forte para a gente, já que passamos por um declínio e depois deu uma animada. 14 - Fundado em 1961, o Bolão é um dos restaurantes mais tradicionais da cidade. O restaurante do Santa Tereza fica na Rua Mármore, em frente à Praça Duque de Caxias.

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Seu Alegria cantando com o bloco em 2012. Créditos: Flora Rajão

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Em 2012 foi no bairro Lagoinha e também foi um ano épico para a gente. Foi lindo. Tocamos na Igreja, passamos em cima do túnel da Lagoinha, andamos na Avenida Antônio Carlos, passamos nos viadutos e caímos em frente a uma Vila Modernista, coisa linda. Ao entrarmos lá o Seu Alegria15, apareceu e começou a cantar “Adeus Lagoinha, Adeus…” que era o hino do samba deles. Depois pegamos o metrô e fomos para o bairro Santa Tereza, que já estava diferente, o Alcova já tocava no Coreto e já estava lotado. O carnaval já tinha outra vibe. É impressionante como o carnaval mudou de um ano para o outro. Em 2013, decidimos sair nas Torres Gêmeas16, na Vila Dias, no primeiro ano do bloco Pena de Pavão de Krishna. Lembro que começou a chegar um tanto de gente azul no Tico Tico. Foi um trajeto um pouco polêmico, tivemos um certo erro, porque foi longo, na Avenida dos Andradas, e não tinha banheiro nem boteco no caminho, o que foi dando um mal humor na galera. Quando estávamos passando na passarela para ir para o Santa Efigênia, uma galera foi descendo para o Santa Tereza, que já estava grande tendo o Alcova, Clube da Esquina, Filhos de Gaby; nós ficamos deprimidos chamando as pessoas no alto da passarela, a cada 30, 1 ficava com a gente. No final, ficou um cara de sopro e fomos andando cabisbaixos na Rua Frutal, no Santa Efigênia. No caminho passamos na casa de uma amiga e mãe dela desceu com uma torta de atum e abriram a casa para irmos ao banheiro, o que deu uma renovada. Depois achamos o Bar do Português aberto e começamos a beber lá. Do nada foi voltando uma galera e vimos que, depois de

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uma depressão, terminou bem. É aquela coisa mágica do

carnaval, né? É um desapego. O que parecia não ter um

fim apoteótico, teve um fim bizarro. E isso é o mais legal.

15 - Seu Alegria é um dos músicos do tradicional bairro da Lagoinha, reduto do samba de Belo Horizonte. A música citada é Adeus Lagoinha uma composição de Gervásio Horta. 16 - Forma como são chamados os dois prédios localizados na Rua Clorita, bairro Santa Tereza, que depois de ter sua construção abandonada em 1980, foi ocupado em 1996 por famílias de sem-tetos. <http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2012/07/19/interna_gerais,306868/vizinhosdas-torres-gemeas-festejam-remocao-da-ultima-familia-que-ocupava-imovel.shtml>. Acesso em: Outubro de 2015.


Tico Tico em 2012. Créditos: Flora Rajão

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Tico Tico em 2013. CrĂŠditos: Fabiana Leite

Tico Tico em 2013. CrĂŠditos: Fabiana Leite

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73 Tico Tico nas Torres Gêmeas. Créditos: Priscila Musa


Tico Tico em 2013. Créditos: Gabriel Castro

Em 2014 foi no Aglomerado da Serra novamente e foi superforte. Voltamos por causa da Flor, uma mulher que conhecemos no primeiro ano e que já tinha uma relação com a Escola de Arquitetura, uma vez que eles cuidam de um parque que tem uma nascente lá na comunidade. Nascente linda! Já tínhamos ido lá e pensado que seria um lugar ótimo para o bloco. Esse foi o primeiro ano do Bloco Tarifa Zero e o Pavão saiu lá do Salgado Filho, então tinha um ônibus que saia do Salgado Filho e ia para o Aglomerado. Nós nos reunimos bem no meio da favela e entramos no parque. Só que é uma trilha e o bloco já estava grande, então nesse momento a banda ficou longe de algumas pessoas e rolou um baixo astral. Na saída rolou um lance louco, os meninos da favela estavam vendendo pacotes de maconha em promoção e venderam tudo, depois caíram para dentro do bloco com a gente, nós que já estávamos em uma vibe meio funk, tocamos para eles e começaram a cantar “1, 2, 3, a Serra é de vocês”. Tudo isso foi muito forte para a gente. Nós terminamos em uma quadra no Cafezal onde ficou rolando um dinâmica meio quadrilha.

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Tico Tico em 2014. CrĂŠditos: Arquivo do Bloco

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Em 2015 foi no São Geraldo. Nós já estávamos com essa vibe meio Rio Arrudas - que não deu certo em 2013 - e tivemos muito trabalho, porque esse, nós planejamos. Tínhamos ido lá várias vezes e um dia encontramos com uma amiga do Glauco, do bloco Então, Brilha!, que morava lá e nos apresentou um trajeto bem massa. Nós construímos uma relação. Ao invés de ir ensaiar, igual os blocos fazem, nós conhecemos os lugares e tomamos cerveja lá. Tem umas coisas que parecem que o tempo delas chega, sabe?! Parece que é natural, todo mundo fala: “Nossa! É isso”. Eu lembro que amigos meus chegavam para mim e falavam “Ah não… Eu vou para o Rio” ainda em 2010, 2011 e até 2012 eu acho, não. Eu vou para o Rio, isso que vocês estão fazendo aqui é até legal, mas eu quero

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Tico Tico em 2015. Créditos: Glenio Campregher

Carnaval de verdade”. Muita gente não levou a sério no começo. Mas é assim mesmo, vamos ganhando as camadas aos poucos. Desde o início essa adesão foi progressiva. Tive inúmeras emoções em alguns blocos de carnaval desde 2009, assim como tive nas caminhadas do FIT17. Ao ver aquele monte de gente junto na rua, um momento bonito, parece que você consegue construir um sentido para aquilo tudo ali. Tipo o Tico Tico em 2015, quando chega lá naquele campo de futebol na pedreira, era só olhar para as pessoas e elas estavam maravilhadas, meio assim: “O que é isso?! O que é isso que está rolando?” Eu só tinha tido esses momentos em BH na década de 90, acho que eu não tive na década de 2000 toda, até a Praia da Estação. O carnaval elencou politicamente o estar nas ruas, estar junto, retomar esse lugar dos carros e

17 - O Festival Internacional de Teatro Palco & Rua (FIT-BH), promovido pela Fundação Municipal de Cultura, é bienal e teve sua primeira edição em 1994. O evento traz peças locais, nacionais e internacionais que são apresentadas tanto em teatros e centros culturais da cidade, como também em espaços públicos como parques, praças e ruas.

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Tico Tico em 2015. CrĂŠditos: Glenio Campregher

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permitir o protagonismo dos pedestres. Até essa coisa de como se vestir, a permissão de sair dos costumes e do dia-a-dia. Outro ponto importante é a saída do Tico Tico em lugares específicos como questão política. Sair em bairros que a gente não está acostumado a ir, ver o Rio Arrudas, o parque da Serra que está abandonado, assim como o Tcha Tcha, que por sair no Izidora, mobilizou pessoas para irem lá e lutar contra o despejo. O carnaval tem potência política sim, transformadora do contato, dos afetos. No início a gente ficava com medo desse crescimento matar essa espontaneidade, mas cada ano aparecem novos blocos, bloco grandes, médios e pequenos. O carnaval é vivo né? A potência dele é que ele é vivo. Ele foi inventado por algumas pessoas e no ano seguinte terão outras pessoas, algumas são as mesmas outras não. Ele sempre vai ser diferente, então não tem motivo para ficar receoso de acabar com a espontaneidade. A gente tem que preservar a diversidade, a diversidade, inclusive, de narrativas, por isso que a gente decidiu fazer as páginas do Tico Tico e do Tcha Tcha no Facebook, porque a achamos que a narrativa hegemônica começou a ser dos blocos grandes, como o Chama o Síndico, Baianas Ozadas, e Queixinho. Não que eles não possam ter a narrativa deles, mas a gente acha importante essa diversidade de narrativas, as pessoas saberem que esse carnaval é diverso. Então a gente decidiu assumir isso e fazer essa página. O bloco ficou um pouco maior depois da página, o que é normal. Mas, assim, a gente publica as fotos, a galera vê as pessoas saindo do meio da ocupação urbana, no morro do Arrudas ou naquela pedreira incrível no São Geraldo e vê que o bloco não é tão grande. Então essas outras narrativas começam a aparecer e a mostrar os diferentes carnavais que existem na cidade. Eu gosto de bloco pequeno, sempre gostei. Mas, com esse

crescimento, eu reparei dois fenômenos: em 2014, foi o

ano que vários novos blocos foram reinventando o

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carnaval, como o Pula Catraca18 e o Bloco do Estrela19, eles

eram meio avacalhados, cantando mal, me lembrou 2009

quando o povo cantava “se você fosse sincera, ôôô aurora”

e quando chegava na parte do liquidificador ficava

embolando porque ninguém sabia.

Outro fenômeno que é muito louco: existem blocos que chegam no ápice e depois vão perdendo adesão, como foi o caso do Mamá na Vaca. Esse ano resolvi ir e foi ótimo! O Guto estava super feliz satisfeito pelo bloco ter sido menor, consegui ver quase todo mundo. Mesma coisa com o Vira o Santo, que começou como um encontro de blocos na casa de um amigo nosso, explodiu de gente nos anos seguintes por causa da divulgação e hoje em dia é um bloco de 30 pessoas tocando na casa de amigos novamente. Todos nós vamos juntos. É quando a gente consegue chegar na diversidade, diversidade dentro de um só bloco. Ela vai sempre aparecendo, sabe? Eu acho que é muito mais tranquilo assim, vai ser sempre diferente do que foi. Vale ressaltar que a Prefeitura sempre tentou acabar com essa diversidade. Se dependesse dela, criaria um blocódromo, um lugar único de desfile, no qual só poderiam sair os blocos que avisassem a eles. Em 2011, a Prefeitura estava com uma fissura de que tinha que avisar para eles antes de sair. Só que nunca avisamos, principalmente o Bloco da Praia. O Tico Tico nunca pediu autorização para a Prefeitura, nem para a BHTrans, assim como o Tcha Tcha também não pede. Acho que nunca vamos pedir. Nesse ano, quando estávamos chegando ao bloco do Approach, no Brasil 4120 , a polícia começou a descer tiro e jogar bomba de gás lacrimogêneo na galera vestido de pirata, de marinheiro e de rei. Depois de 2012, eles perceberam que o evento cresceu e agora querem tomar para eles… eles deixam de ver os foliões como ativos e os tratam como uma empresa. Por exemplo: “Quais são os ativos dessa empresa?”, “Ah, nós temos 1 milhão de foliões.

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18 - O Bloco Pula Catraca foi criado pelo Tarifa Zero, movimento da sociedade civil que acompanha questões de mobilidade urbana na cidade e apresenta nova proposta de financiamento do transporte público. 19 - Bloco do Espaço Comum Luiz Estrela. Localizado na Rua Manaus, 348, no Santa Efigênia, o espaço é destinado a criação e compartilhamento artístico, político e cultural, aberto e autogestionado. Disponível em: <www.facebook.com/espacoluizestrela/>; <http://www.hojeemdia.com.br/ horizontes/hospital-psiquiatrico-infantil-abrigou-salas-de-tortura-em-bh-1.195496>. Acesso em: Outubro de 2015. 20 - Bar que fica na Avenida Brasil, bairro Santa Efigênia. Ele é da Dona Jacira, que sempre abriu as portas para a folia de carnaval.


Tico Tico em 2015. CrĂŠditos: Benedikt Wiertz

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O que isso vale, Skol?”. E, assim, eles cercam as áreas com atitudes ilegais, em que na área pública se obriga a vender só um tipo de cerveja. É realmente muito nefasto o que eles tentam fazer. A gente tem que fazer um enfrentamento a eles e continuamos fazendo. Eu acho que eles perderam esse ano na narrativa geral, porque deu muita crítica, críticas em jornais. No final o Lacerda faz aquelas declarações estabanadas dele, de que somos liberticidas, o que piorou a situação, porque ele terminou com “eu estou cansado desse assunto”21. Eles perderam esse ano na narrativa e acho muito difícil eles conseguirem o que eles queriam, que seria transformar o carnaval em um camarote da Skol.

A gente vai continuar saindo sem avisar a eles, a gente vai

pautar cada vez mais essas questões. Virou um campo de

disputa política mesmo. A gente tem que assumir que

é isso e lutar. Até esse tipo de trabalho que vocês estão

fazendo é um tipo de contribuição, todo mundo que

escrever sobre o carnaval vai estar contribuindo para

outras narrativas aparecerem.

Em relação ao diálogo com a Prefeitura, eu nunca participei muito, porque o Tico Tico não é um bloco grande do centro da cidade. Não dá para ser muito grande, por isso que a gente vai para longe, para poder dizer “quem está afim vai!”. No bloco, o banheiro é colaborativo, na casa das pessoas e isso é muito bonito, acaba gerando outras coisas. Então a gente optou mesmo por não fazer essa formalização, abrir mão de alguma infraestrutura, principalmente banheiro, porque o resto eu acho que não precisa, que pode fazer diferença, mas por uma escolha, para pensar e viver novos modos de relação. Mas o diálogo com a Prefeitura, eu acho que eles têm que prover o que o bloco precisa, não o que eles precisam para lucrar. Provem e acabou, não tem que fazer mais nada, ficar interferindo em itinerário de bloco, ficar vendendo

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21 - “Nós conseguiríamos conviver com 200 blocos tranquilamente, mas será sempre necessário, apesar dos liberticidas dizerem que tem que ser espontâneo e andar onde quiserem, o direito de outras pessoas não comporta esse tipo de reivindicação”. Declaração dada pelo prefeito Márcio Lacerda em entrevista à rádio CBN, no dia 24 de fevereiro de 2015, quando fez um balanço positivo sobre o carnaval da cidade em 2015, que contou com a participação de carca de 200 bloquinhos carnavalescos de acordo com a Belotur, deixando a entender que o número de blocos não deveriam aumentar nos próximos anos. <http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/02/24/interna_gerais,620929/prefeito-defendepatrocinio-na-folia.shtml>. Acesso em: Outubro de 2015


o patrocínio do carnaval. Eles estão me vendendo como folião, vendendo a você, vendendo os blocos. Quem eles acham que são para isso? Cada bloco reage da sua maneira, a gente abandonou a ideia de tentar agir com uma ação mais coesa dos blocos, em muitos momentos cada um faz como prefere. A gente não se inscreve, não se inscreve em nada, o Tcha Tcha também não e outros se inscrevem. Não acho que isso deslegitima nenhum bloco, inscrever ou não é uma escolha. Os blocos se unem para discutir questões mais fortes, como as questões da Prefeitura, da privatização do espaço público, do patrocínio, etc. Posso até me enganar, mas eu acho que no ano que vem, no carnaval, vai haver um posicionamento de uma massa grande de blocos, blocos relevantes da cidade, como o Queixinho, o Brilha!, o Síndico, com certeza, talvez até o Baianas Ozadas. Olho para todos esses blocos e penso lá no começo. Foi uma retomada que a gente nem sabia que ia ser uma retomada. Em 2009 saiu aquele bloco de 30 pessoas na chuva e quem é que ia dizer, sem ser chamado de delirante, que daí 5 anos iam ter 200 blocos na rua? Ninguém tinha a menor ideia disso, retomar o carnaval de BH? A ideia era sair com bloco e nos divertir! Essas pessoas eram da classe média, ligada a música ou a cinema, arquitetura, que estavam no Tico Tico e no Peixoto, estudantes da UFMG. O que eu acho interessante que começa a acontecer é que tem bloco na cidade toda, e por exemplo, a gente saiu na serra com o Tico Tico em 2014, e em 2015 a gente ficou sabendo que nasceu um bloco lá, que foi o bloco do Seu Vizinho, inspirado pela gente. Então são coisas que se contaminam, de alguma maneira o Tcha Tcha saiu por dois anos no Concórdia, ligado ao terreiro de Dona Isabel, e depois surgiu o Bloco do Concórdia lá também. Eu acho que a gente tem uma ferramenta potente aqui que é o carnaval, muito mais potente no sentido de ela abrir os poros das relações e colocar as pessoas em contato, e a gente decidiu explorar isso com alguns desses blocos. Eu tenho achado que está

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sendo super legal, eu nunca imaginava também - como urbanista e professor - que a gente conseguiria fazer experiências urbanas fortes com mill pessoas no São Geraldo. Depois do bloco, um tanto de gente falou comigo “nossa, mas eu não conhecia isso aqui!”. Isso para mim, como pensador da cidade, é incrível. Eu encaro o carnaval como uma ferramenta mesmo, para abrir esses poros, para essa deriva. Esse ano estou querendo ir mais para longe, acho que a gente vai lá no Ribeirão do Onça, lá no Ribeiro de Abreu beber a água do Onça. Eu achei muito louco quando eu vi a frase “Carnaval de Rua de Luta” estampada na capa do jornal “Tudo”, do Paulo César de Oliveira, que é distribuído em aeroporto, digamos que é um jornal de origem aecista. É impressionante como que essas narrativas, sem entender até que ponto isso é uma cooptação, fortalece a luta. Eu acho que talvez fortaleça. Essa frase surgiu como um contraponto à Prefeitura, a quantidade de blocos que se alinharam com a Prefeitura. Mas não sei se a palavra luta assim, exceto quando se tem de fato um contexto com as ocupações urbanas, eu não saberia falar se o Tico Tico usaria essa palavra, “da luta”. Penso muito mais nesse encontro com o outro, nessa experiência de cidade, esse enfrentamento a alguns modos hegemônicos em que a cidade é feita hoje. Talvez seria mais uma luta pelo direito a cidade, mas eu acho que é mais uma marca simbólica ampla que quer diferenciar o carnaval do consumo. A Praia da Estação, por exemplo, imprime uma marca de uma contestação à gestão. Eu tenho a sensação que essa é uma característica do carnaval, é uma contestação.

CARNAVAL DE RUA

DE LUTA

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Tico Tico em 2015. CrĂŠditos: Priscila Musa

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Em relação à proibição do carnaval em Santa Tereza, eu acho que é antidemocrático. Se eu posso ir lá fazer a festa no São Geraldo, parte-se do pressuposto que uma pessoa do São Geraldo possa vir aqui para fazer a festa. Eu não posso requisitar que no meu quintal seja diferente do outro, a gente reivindica poder passear pela cidade, eu acho equivocado o modo como está sendo abordado, teve cenas ridículas do Manjericão descendo do Sagrada Família para cá e ninguém deixar o bloco entrar no bairro como se tivesse um estado sitiado. Prenderam a Tita nesse dia, não pode ser dessa maneira, até porque é ilegal. Também acho que precisamos pensar políticas a favor de uma festa que respeite os moradores na cidade toda e o Santa Tereza de alguma maneira exemplifica isso, quando a festa fica muito concentrada em um lugar só, se a festa fica só em uma praça, no dia seguinte e ela está um lixo, tem xixi e sujeira por toda a parte… Mas as políticas não podem ser proibitivas, porque não tem nenhum sentido. Então, acho que tinha que aprimorar em muito, muito a limpeza urbana e criar incentivos e debates com esses blocos para que, se possível, se dissipem. Deveria ter um diálogo, mas sem nada de interesse no meio disso. Não acho que isso possa ser na base de uma proibição ilegal, é como se transformassem o Santa Tereza em um território da FIFA.”

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Diário

de Bloco Descobrindo uma cidade com as asas do Tico Tico

Coloquei minha roupa de pequena sereia, retoquei o cabelo vermelho com spray colorido e fomos eu e um amigo tentar achar o bloco do Tico Tico Serra Copo no bairro São Geraldo. Saí do bairro Santa Tereza, onde participávamos do cortejo do bloquinho Rola Moça, que desde 2013 desfila no bairro e que insistiu em sair na Praça Duque de Caxias, mesmo com as várias restrições legais. O Santa Tereza estava durante o carnaval, sob as regras de um Termo de Ajustamento de Conduta do Ministério Público, feito em 2014 e mantido para 2015, que entre as medidas proibia a saída de blocos nas praças Duque de Caxias e Ernesto Passini, e determinava o encerramento da folia às 18h. Já eram umas 17h e resolvemos pegar um táxi até a praça São Geraldo já que o planejado era que o bloco saísse de lá às 14h. Fomos sem saber se realmente conseguiríamos encontrar o grupo. Chegando ao local, a praça cercada de barzinhos se encontrava

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calma, com crianças brincando, e famílias fazendo lanches nas mesas. Brilhos no chão, restos de confetes e serpentinas eram indícios que o bloco já havia passado por ali. Perguntamos para os moradores para onde o bloco tinha ido e achamos mais um folião perdido. Nos juntamos a ele e começamos a seguir a avenida indicada pelos moradores, depois de andar três quarteirões encontramos um grupo de foliões desertores que voltava do bloco e avisou que o Tico Tico estava muito longe dali. Na mesma hora outra foliã perdida passou de carro perguntando pelo bloco. Respondemos que estávamos também à procura dele, e então entramos todos no carro daquela desconhecida e fomos para o caminho indicado pelo grupo que estava no bloco.

Começamos a subir pelas ruas do bairro, que se encontravam vazias e paradas - como normalmente fica a cidade em dias de domingo com o agravante de um feriado. Ao virar uma das ruas e encontramos uma multidão no meio do vazio. O bloco estava cheio e subia as ruelas adentrando cada vez mais o bairro. O Tico Tico tem a tradição de sair todo ano em um local diferente, sendo que seu cortejo sempre foge aos locais próximos do centro, ou convencionalmente tradicionais da folia. Era a primeira vez que eu saía com o bloco e logo nos unimos à multidão, que tomava dois quarteirões da subida íngreme da rua. Ao nosso redor as casas eram simples, os passeios irregulares e apesar de estarmos aproximando do fim da tarde o sol ainda estava quente. Entre os participantes do bloco os rostos azuis indicavam que muitos remanescentes do PPK estavam por ali. Na bateria a turma que sempre estava presente em blocos como Mamá na Vaca, da Praia da Estação, Então Brilha!, entre outros. Muitos daqueles foliões já estavam ficando nossos amigos - encontrávamos muitas daquelas pessoas quase todos os dias no mês anterior ao carnaval em ensaios abertos dos blocos que

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promovem encontros das baterias antes da festa, em outros desfiles ou em qualquer evento carnavalesco que tomavam a programação cultural da cidade. A bateria seguia no chão com seus regentes e contavam inicialmente com cerca de 80 instrumentistas. A multidão que imagino ser de mais de 300 pessoas seguia, sem o acompanhamento dos tradicionais ambulantes, que também são importantes para a festa já que são os responsáveis por fornecer as bebidas que abastecem os festeiros ao longo dos cortejos. Alguns participantes do bloco levaram suas bebidas em coolers, enquanto outros salvavam a multidão vendendo chup-chups alcoólicos ou não alcoólicos. Quanto mais o bloco subia o morro, mais simples ficavam as casas e as pessoas, que também aderiam à folia e participavam da farra. Alguns moradores colaboravam com formas de refrescar os foliões. Enquanto uns usavam suas mangueiras para molhar a multidão naquele dia quente, outros improvisavam enchendo garrafas pets que eram furadas para irrigar aquela massa sedenta por água. O bloco seguia ao ritmo das tradicionais marchinhas, funks, soul, e as músicas específicas do carnaval de BH. Entre os foliões, fantasias desde personagens da Disney - um homem vestia da madrasta má do filme A branca de Neve – até ídolos do pop. Uma menina usava uma peruca de cabelos azuis, short jeans e camiseta azul, com dois cupcakes nos peitos, imitando a cantora americana Katy Perry em um de seus clipes. Rostos pintados com tintas, brilhos, e a alegria do segundo dia de carnaval serviam de combustível para subir todas aquelas ladeiras cantando junto com

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o bloco. Já era quase seis horas da tarde e o sol ainda estava no céu. As casas continuavam ficando cada vez mais simples, algumas apenas no tijolo, com paredes sem reboco ou tinta. As larguras das ruas também iam se estreitando, junto com os laços afetivos com do grupo. Em um momento do desfile, entramos em uma pequena ruela, com o chão de terra. Ao final daquele corredor apertado, nos deparamos com uma paisagem inacreditável. Uma grande área aberta com um campo de futebol surgia como uma grande surpresa para a maioria esmagadora dos foliões. Como aquela imensidão poderia estar escondida de nossos olhos? À direita da pequena rua o campão de terra era cercado com grades e postes de iluminação, e guardava uma turma de oito crianças que jogavam futebol na tarde de domingo. Ao fundo do campo um paredão de pedra com mais de 30 metros cercava a lateral oposta do campo. No alto da pedreira era possível ver que as casinhas simples continuavam quase na beira daquele despenhadeiro. As casas também estavam presentes nas demais laterais do campo. No fim da rua, próximo ao campo um pequeno bar abria para aquela movimentação atípica. Estávamos mais à frente do bloco e chegamos momentos antes da grande multidão de foliões. Joguei os chinelos para cima e corri junto com os outros carnavalescos que chegavam maravilhados com a paisagem para participar da pelada com as crianças. O campo parecia ter as mesmas proporções de um campo esportivo de competições. O bloco também foi chegando ao local, e fez um pequeno cortejo até o meio de campo onde abriu uma grande

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roda com os instrumentos. Muitos foliões aproveitaram para sentar, e descansar apreciando a vista. O bloco ficou naquele local por mais de meia hora. Mas acabou retomando as ruas com um número menor de foliões tocando “Carinhoso”, de Pixinguinha. Com o início do entardecer, algumas pessoas iam deixando o bloco, muitos para acompanhar o desfile da Alcova Libertina que faria seu carnaval sobre um trio elétrico na Avenida dos Andradas. Apesar disso, o grupo ainda contava com um número razoável de instrumentos, com destaque para os sopros que fortaleciam o acompanhamento da bateria. Enquanto saíamos daquele lugar, acabei ficando para trás para esperar o meu amigo se despedir de um amor de carnaval. Enquanto esperava, o bloco continuava se afastando e a vida voltando ao normal naquele lugar. Senti que aquelas pessoas que antes estavam receptivas e amistosas, ficaram hostis diante de um beijo entre dois homens. Eles olhavam, e alguns chegavam a gritar ironias homofóbicas. Sentindo ameaçada por aquelas manifestações de preconceito, pedi ao meu amigo para que voltássemos a acompanhar o bloco. Compramos mais bebidas – não se sabia quando teríamos aquela oportunidade de novo já que não haviam ambulantes com o bloco - e seguimos o caminho, desta vez, descendo os morros. No trajeto alguns moradores abriam suas casas para os foliões pediam para usar o banheiro. Outros festeiros não se intimidavam e utilizavam os cantos das ruas, ou mesmo árvores para fazer xixi. Durante a descida do bloco, um carro de som com o porta-malas cheio de alto-falantes começou a tocar músicas, abafando totalmente o som da bateria que há essa altura já estava bem menor do que no início do bloco. Com jeitinho, o Guto Borges um dos participantes da bateria,

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conversou com o motorista que se encontrava estacionado na rua, para que ele abaixasse um pouco o som apenas durante a passagem do bloco. Atendido o pedido, a bateria seguiu com o som das marchinhas. E eis que de repente nos deparamos com outra paisagem inusitada. Uma ponte de madeira sobre um pequeno córrego que dava acesso à uma área verde, com uma mata. O bloco seguiu uma curta trilha e ficou por cerca de 10 minutos no local, que tinha uma vista maravilhosa para a cidade. Era como se a gente tivesse encontrado uma roça no meio da cidade grande. No meio daquele verde, no alto da serra era possível ver as casas, ruas e prédios que já começava a ligar suas luzes. Já começava a escurecer e o bloco retomava a trilha daquele oásis verde para voltar às ruas do São Geraldo. Neste momento um homem que aparentava já ter uns 40 anos e estava acompanhado da esposa nos parou e agradeceu pela festa, dizendo morar na região há anos sem nunca ter visto nada igual no bairro. Mesmo falando para ele que estava ali assim como ele, um folião, o moço continuava o seu discurso. Mais que simplesmente fazer a folia, senti a satisfação de estar vivendo um carnaval que leva a alegria da festa a lugares marginalizados pelo poder público e que não costumam ser palcos das grandes festividades da cidade. O carnaval comungava não apenas a vida, mas também a cidade e os laços que ela pode estabelecer entre as pessoas. O Bloco Tico Tico nos deu a oportunidade de conhecer lugares maravilhosos da cidade e realidades totalmente diferentes ao nosso cotidiano, em uma experiência única. Seguimos com o cortejo subindo novamente os morros do bairro, à essa altura já havia escurecido e o cansaço já começava a bater em nossos corpos. A música continuava sendo o alimento da folia, apesar do bloco se encontrar cada vez com um número menor de foliões, porém os resistentes

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seguiam firmes. No repertório músicas cada vez mais variadas, das clássicas “Aurora” e “Bandeira Branca” à sofrência do cantor de arrocha Pablo. Em uma das ruas que passamos, uma mulher acompanhava uma senhora idosa em uma cadeira de rodas, que havia saído à porta para ver a banda passar. A mulher contava que nunca tinha visto nada parecido no bairro e que a senhora a qual ela acompanhava já tinha 97 anos. Devido à idade avançada a senhora tinha sua fala limitada, mas tentava nos responder enquanto conversávamos com ela. Com os cabelos brancos e presos a um coque, vestia uma camisola clara. As rugas de seu rosto experiente aumentavam com um sorriso, ao receber beijos na bochecha e até um selinho de um dos foliões que paravam para cumprimentar e que seguiam seu rumo tocando o festejo. A falta de ambulantes fazia com que os botecos no meio do bairro se tornassem um achado para os participantes da festa. Na esquina seguinte encontramos um bar depois de andar por muito tempo sem beber nem uma gota de água ou cerveja. Aproveitamos para comprar cerveja, porém diante da falta de copos plásticos ou latões, precisamos improvisar um copo para podermos levar a cerveja sem o casco. Foi então que tive a ideia de pegar uma das vasilhas de plástico que guardavam as paçoquinhas e doces embalados do bar, para nos servir na falta dos copos. A estratégia acabou sendo adotada pelos demais foliões que esperavam na fila que havia se formado no boteco. Saímos com um balde de cerveja, compartilhando nossa bebida com os outros foliões e bateria. O bloco já estava retornando à praça que havia saído e teve que desviar uma parte do trajeto devido à um acidente fatal no caminho - alguns moradores diziam ser uma batida de automóveis.

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Quando chegamos na praça percebi que o número de foliões era muito inferior ao inicial, não passavam nem de 60 pessoas. Nesta hora o resto da bateria que era a maioria do bloco subiu no coreto e abriu uma roda. Ao som do funk tocado pelo bloco, algumas crianças dançavam o conhecido “Passinho do Romano” e competiam entre si. Os pequenos que no início se mostraram tímidos, depois de algumas batidas já entraram no clima e mostraram suas habilidades em requebrar ao som do tambor com os passos inusitados. Alguns dos instrumentistas cediam os seus tambores e trombones para que os meninos e meninas - que deveriam ter entre 6 e 11 anos - tocassem e brincassem. O bloco ia se encerrando por ali e quando percebi só haviam cerca de dez pessoas no local. Depois de beber todo o nosso dinheiro, eu e meu amigo precisávamos arrumar uma forma de voltar para casa. O Guto havia me falado de um Rafael que estaria indo para os lados do Santa Tereza e fui atrás dessa pessoa desconhecida para me dar carona. Sentada em um dos bares da praça bebemos, comemos e rimos com pessoas que havíamos acabado de conhecer e que mais pareciam amigos de uma vida toda. Presentes do carnaval. Me pergunto até hoje como couberam cinco pessoas, um surdão e um trompete dentro do fusquinha vermelho do Rafael na volta para casa. Por: Naiara Rodrigues

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CAPÍTULO 4 3 CAPÍTULO tico tico peixoto

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Solte o seu sorriso maroto, está chegando o Bloco do Peixoto Nian Pissolati e Elisa Marques são jornalistas de formação e criaram o tradicional Bloco Peixoto, que desfila desde 2009 durante o carnaval de Belo Horizonte, no bairro Santa Efigênia. O bloco tricolor - carrega as

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cores azul, rosa e branco - tem como símbolo uma baleia, e sai na terça-feira de carnaval, da Praça João Pessoa, em frente ao Colégio Arnaldo desaguando na Praça Floriano Peixoto. Nian: “O Bloco do Peixoto começou em 2009. Começamos a pensar no bloco no finalzinho de 2008. Ele surgiu de uma vontade mesmo de ficar em Belo Horizonte que, até então, se acontecesse carnaval na cidade não era às nossas vistas. E devia acontecer, hoje em dia, pensando sobre o carnaval a gente chegou à uma conclusão que ele nunca deixou de existir em Belo Horizonte, sempre esteve aí, mas em alguns lugares que a gente talvez não frequentasse. E surgiu dessa vontade de estar em BH, que ficava muito vazia - ao contrário do que é hoje, todo mundo viajava - e muito de uma vontade de aproveitar a cidade, de passear, de andar nas ruas, e justamente porque é um momento que não tinha carro na rua, né? Que é uma coisa cada vez mais rara”. Elisa: “Em 2008, estava começando a fazer parte da nossa vida essa coisa de ficar muito na rua. A nossa vontade de festejar o carnaval naturalmente já não era a de fazer uma festa em algum lugar, na casa de alguém, ou chamar pessoas para irem para um lugar tipo A Obra22, que a gente ia muito na época que tinha um carnaval legal. Então era natural que a gente tivesse vontade de fazer alguma coisa na rua porque nesse ano de 2007 e 2008 a gente já tinha começado a fazer umas coisas ligadas até aos nossos dois trabalhos de conclusão de curso da Comunicação Social na UFMG, que tinham a ver com percorrer muito Belo Horizonte. O Nian tinha feito o dele em 2008, eu estava começando a fazer o meu em 2009. Todos os dois tinham a ver com intervenção urbana, percorrer e conhecer Belo Horizonte. Então, quando chegou o carnaval, é natural que a gente quisesse fazer alguma coisa na rua”. Nian: “Realizamos os projetos junto à Fundação Municipal de Cultura, e calhou de os dois se proporem de andar a cidade em todas as suas 9 regionais. Então, desde 2007 a gente começou a conhecer uma cidade que até então a gente não andava muito.

22 - A Obra Bar Dançante é uma casa noturna em Belo Horizonte, bar clássico da cena alternativa da cidade

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Ir a bairros, conversar com pessoas que a gente nunca tinha estado ou conversado. Por isso, a ideia do trajeto do Peixoto era pensar um lugar que fosse agradável de andar. Isso era eu e a Elisa só. A ideia primeiramente foi pensar naquele lugar ali que começava ali na praça em frente ao Colégio Arnaldo, e terminasse na Praça Floriano Peixoto. Aquelas árvores lindas, aquela sombra maravilhosa, muito perto do centro da cidade e também muito perto da Regional Leste, porque a gente cresceu e nossa vida é toda na Leste. E cada vez mais buscamos interagir com essa regional, ao pensarmos que hoje em dia, inclusive, já nem existem vários dos Ficus lá perto do Arnaldo, é super simbólico isso, pensando hoje depois desses anos”. Elisa: “O bairro também tem umas casas mais antigas, tem uma população mais idosa que tem o hábito de ficar na porta, conversando, tem uns jardinzinhos. E, quando a gente escolheu o trajeto, tudo isso fez parte. Fizemos uns panfletinhos, com as cores que escolhemos para o bloco: azul, rosa e branco - já entrou um romantismo de ser tricolor - e fomos andando distribuindo esse panfletinho, conversando com os moradores. Foi uma desculpa para percorrer aquele caminho mesmo, entender quem morava ali, deixar umas mensagens meio incógnitas nas caixas de correios. Como se fosse jogar uns confetes na rua, sabe? Vendo um percurso que fosse agradável, que tivesse umas partes planas, mas que tivesse um morro para ter um momento animado de descer uma ladeira. E foi indo, e pensando em acabar na Floriano Peixoto, um outro marco, e por ter o Bar Brasil 41 e ter cerveja para a gente beber depois”. Nian: “Pensar que em 2009 surgiu também o Tico Tico, a Praia da Estação estava começando um movimento mais independente do pessoal, sabe? De proposição mais ativa em relação à cidade, tendo esse movimento de convergência para a rua. Foi muito engraçado: a gente encontrou o Roberto Andrés uma semana antes do carnaval, lá no Mercado Central onde o Proa estava gravando um clip com 4 pessoas. E aí chegaram eles do Tico Tico, a gente do Peixoto, e a gente se encontrou e um achando que o outro já era superexperiente do carnaval…”.

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Elisa: “Na época não tinha Facebook ainda e a gente, em geral, fazia blogs. Juntou eu, o Nian, o irmão dele, começamos a pensar o bloco mais alguns amigos e pensamos em convidar mais pessoas. Era mais pelo prazer, porque o blog23 era o espaço que tinha de criação estética das coisas. Independente se ele fosse alcançar muita gente ou não, era o lugar em que a gente ia experimentar esse bloco existir esteticamente de alguma maneira antes de existir de fato na rua. Era pensar uma imagem, que foi a baleia de símbolo, e as cores, uns textos, ficar publicado uns posts para animar o pessoal, umas contagens regressivas, e mandar por e-mail o link do blog... algumas pessoas amigas começaram a seguir. E aí alguém falou para a gente: “Já tem um blog24 que chama Tico Tico Serra Copo”. Aí eu entrei no blog deles e eles estavam super organizando oficina de chique-chique, ganzá e eu pensei: “que doido!”. Fazendo Estandarte, já pensando em outras coisas que a gente não estava pensando ainda. Aí pensamos: “Nossa gente, é mesmo, a música! E agora, que ninguém toca nada? O que a gente vai fazer?”. Marcamos de encontrar com eles, já que ia ter essa gravação desse clip do Approach que coincidiu que eles iam também, eu falei “Vamos encontrar no Mercado Central”. E quando a gente se encontrou na voltinha do Mercado Central a gente falou: “São vocês?”. Todo mundo da mesma idade e fazendo pela primeira vez, mesmo. Não nos conhecíamos, mas, vimos que a gente tinha muitas ligações depois, amigo de amigo”.

Aí pensamos: “Nossa gente, é mesmo, a música! E agora, que ninguém toca nada? O que a gente vai fazer?” 23 - Blog do Peixoto: http://blocodopeixoto.blogspot.com.br/. 24 - Blog do Tico Tico Serra Copo: http://blocodaserra.blogspot.com.br/

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Peixoto em 2010. Créditos: Flávia Mafra

Nian: “Se conhecia de vista só por frequentar lugares comuns. Mas é interessante pensar na importância política disso tudo e como é que desde então parece que isso foi aumentando exponencialmente. Em 2010 já era muito maior que 2009, todo ano era muito maior do que o ano anterior e continua sendo. Sempre assustamos, no bom e no mal sentido, com o tamanho que as coisas tomaram. Mas é muito legal ver como foi um tipo de aprendizado de cidadania. E que inclusive gerou outras formas de participação na cidade. Mas nesse primeiro momento foi um, porque quando você está na rua você tem que lidar com várias coisas que não foi planejado. Com

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as pessoas que chegam e você não previa, tem que começar a lidar com o Estado de uma maneira... conversar com polícia, todas essas representações do Estado. Elisa: “Nesse primeiro ano mesmo a gente falou: “mas e aí, será que a gente vai precisar de algum tipo de autorização?”. Uma pergunta que veio da gente, mesmo. Independentemente do tamanho que fosse tomar o bloco, se era um evento, se não era. E a gente começou a procurar, primeiro a regional, e cada um passava para o outro porque nem na Prefeitura ninguém fazia ideia de como configurar um bloco de carnaval. E aí eu lembro que acabou virando, a configuração que foi possível entrar era de passeata. Passeata e fazia uma diferença o fato de ter ou não ter som amplificado. E tinha que avisar a BHTrans, a polícia e a regional. Foi uma forma já de começar a entrar em contato com tramites burocráticos da cidade. Entender como a cidade é regulada”. Nian: “Deixar de ser passivo e começar a ser mais ativo porque a partir de então, a forma como a cidade trata hoje o carnaval mudou porque nós existimos e porque a gente começou a debater isso com a Prefeitura e as coisas foram mudando. Hoje em dia um bloco que surge hoje lida com a burocracia ainda, mas de forma muito diferente da qual a gente tinha que lidar no começo. E isso foi por uma coisa ativa nossa. Começou um diálogo mais efetivo, sabe? E aí, é claro, a Praia da Estação rolando em 2010”. Elisa: “O Márcio Lacerda nesse sentido tem um papel fundamental nessa movimentação toda. O Duelo de MC’s também acontecendo no Centro. E aí o começo do carnaval foi ainda esse movimento muito centrado na centro-sul, leste, mas ainda nessa nossa região onde nós moramos. E aí a expansão, isso que foi legal, como o negócio foi aumentando, e a tendência agora eu acho que é só sair do centro ou expandir”. Nian: “E multiplicar, porque uma coisa interessante é que o carnaval gerou vários

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carnavais dentro dele. Hoje você tem blocos muito diferentes para várias ideias, desde bloco de jazz até o bloco lá na Ocupação Eliana Silva. Então esse pessoal que está desde 2009, acho que teve uma tendência muito forte a se politizar cada vez mais e talvez por ver como esse diálogo, apesar de a gente estar falando que ele acontece, como é muito difícil e é muito na marra que as coisas vão acontecendo. Tem vários blocos que não tem essa preocupação, que não estão ligados nisso. Todo mundo que estava em 2009, hoje em dia tem um discurso político. E tem o uso da festa como político mesmo, né? Diz-se muito de uma maneira pejorativa: uma esquerda festiva. Mas se você entende a festa como de fato uma ação política, isso começa a mudar. Você começa a entender que a festa ali está trazendo várias questões para a cidade que em princípio ela não dá conta. Para começar, essa diversidade louca que é o carnaval. Foi uma coisa que a gente foi aprendendo ao longo dos anos a fazer, que é lidar desde com um cara que mora na rua e está lá transloucado, até com um menino de 17 anos que está transloucado por outros motivos, e tudo isso junto, ali, acontecendo. Até hoje a gente nunca vivenciou nada grave. Problemas e questões sempre existiram, que eu acho que é impossível não existir, mas sempre aconteceu de uma maneira muito tranquila”. Elisa: “Entrando numa particularidade do Peixoto, a única coisa que aconteceu foi essa primeira faísca de a gente falar: “vamos sugerir esse trajeto aqui, vamos criar um blog e chamar umas pessoas”. Ponto. Foi só isso. Desde então nunca mais teve nenhuma organização no sentido de como se estivéssemos promovendo isso para alguém. Muito rápido a gente entendeu isso. E se não entendesse também não fazia diferença porque ela acontece espontaneamente e o bloco é apropriado por todo mundo. Ele passa a acontecer totalmente independente de indivíduos, de pessoas individualmente. Hoje em dia a gente chega no horário que combina para o bloco e a praça já está cheia. Já não se sabe mais quem puxa o quê. E o Peixoto é um exemplo legal disso, porque nós não temos organização mesmo, nenhuma. Não tem formação

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de banda, não tem grupo no Facebook, não tem um regente. Não tem nada além de um trajeto e um dia. E até pelo fato de ele encher muito, de ser na terça-feira tem milhões de coisas que a gente ouve. Não sei se é esse nome, mas se criou uma aura em torno dele de um bloco tradicional. Ou talvez pelo fato do lugar ser um bairro tradicional de Belo Horizonte. Ele vai acontecendo. Essa associação à baleia, que a gente escolheu como símbolo dele: acho que o Peixoto é uma baleiona que vai nadando, e sempre fica essa coisa gigantesca, mas que flui. Uma água, mesmo, e vai com a maré sempre. E ao longo da nossa vida, no Peixoto, já tivemos muitas discussões entre nós e com mais pessoas, de que o Peixoto devia diminuir, que o Peixoto devia mudar de dia ou de lugar, nos perguntávamos será que isso foge do controle? E a gente foi vendo, cada vez mais, que são perguntas inócuas porque já não está no controle. Ele vai acontecer até quando? Não sei”. Nian: “A falta de controle também, é uma das coisas da força da festa, no carnaval principalmente. Até os blocos mais organizados, tem um planejamento muito maior, mas existe uma dimensão da falta de controle que inclusive é o que faz o carnaval ser o carnaval”.

Elisa: “Porque é uma multidão, né? E cada um que está ali

está vivendo uma experiência completamente diferente.

A gente está ali no meio mais próximo de amigos tocando

umas músicas, o outro que está lá no fundo, nem está

ouvindo a música ou está lá na terceira música para trás

ainda, cantando, o eco que vai reverberando nas pessoas.

A gente não sabe como é... que eco é esse”.

Nian: “Tem essa política de ir se afastando do centro, fazendo o carnaval acontecer em outros lugares. Mas estar no centro, ao mesmo tempo, é uma política também. Então, uma coisa que a gente já conversa há um tempo, por exemplo, o Mamá na

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Bloco do Peixoto em 2013. Créditos: Flávia Mafra

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Vaca, o Tico Tico, foram mudando... o TicoTico sempre, o Mamá faz uns dois anos mudou um pedaço para passar dentro da favela. Mas o que a gente tem conversado entre nós e com os meninos também é como é importante fazer um carnaval desses, principalmente o Peixoto que talvez desses blocos, hoje em dia, é o menos organizado dos que surgiram em 2009... porque todos os outros talvez tenham um grupo que pense o bloco maior do que o Peixoto. Porque o Peixoto acaba que é a gente mesmo. Um bloco que acontece muito espontaneamente, cada ano acontece de uma maneira, e manter essa desorganização eu acho politicamente importante. Tem um movimento que veio da Prefeitura que é cada vez mais regularizar o carnaval. A gente está falando de toda essa dimensão não controlada, mas aí vem a Prefeitura e tenta de todas as maneiras ir cercando, no fim das contas para vender uma coisa que não é ela que faz. Isso que é muito doido, também: já faz alguns anos que o carnaval de Belo Horizonte está vendido depois desse ressurgimento, sendo que a participação da Prefeitura, de fato, em relação aos blocos, é pífia. É louco ver como é que a Prefeitura é despreparada. Porque de repente ela lida com o carnaval vendendo como uma coisa para atrair turista e gerar dinheiro, sendo que esse ressurgimento do carnaval está muito mais voltado para cidade nela mesma. A ideia é justamente essa, de nós andarmos na cidade, vivermos a cidade de uma maneira que a gente não pode fazer no dia-a-dia, conhecer lugares em que a gente normalmente não vai... Então esses blocos todos foram acontecendo assim e acabaram trazendo mais gente, mas é um carnaval que é muito voltado pra cidade, mesmo. Ao entrar na jogada e tentar se apropriar do carnaval, a Prefeitura tenta fazer o contrário que é trazer pessoas para dentro sendo que ela não consegue bancar o que ela está fazendo. Infraestrutura nenhuma. É totalmente mambembe até hoje. Por mais que ela anuncie, como neste ano que seria o maior carnaval da cidade, a infraestrutura é ridícula, a conversa é mambembe”. Elisa: “A conversa com eles não é sobre política, é sobre banheiro. Basicamente o

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grande conflito que acontece com eles, demanda dos blocos e negociação junto à Prefeitura é: quantidade de banheiro químico. Fica nesse nível”. Nian: “Então o saber fazer, a preocupação de se pensar o que está acontecendo, ela continua acontecendo entre nós”. Elisa: “Acontece que um bloco como o Tico Tico, que não pede autorização na Prefeitura, não tem negociação de banheiro e mesmo se tivesse não seria suficiente, acontece muito tudo no micro. Eles passam nos lugares antes, combinam com algumas pessoas, avisam aquelas que estão dispostas, abertas ao bloco, certamente vão estar nas suas portas jogando mangueirada de água para refrescar as pessoas, recebendo gente para fazer xixi, pessoas que lidam com isso de maneira interessante, tipo “olha, vou fazer um tropeiro para vender aqui barato para tirar uma grana”, “vou acompanhar o bloco vendendo cerveja”. E a infraestrutura acontece ali. E isso que é o ideal, a meu ver. Acho que tem vários carnavais rolando cada vez mais. Da dimensão do Bloco Baianas Ozadas que toma a Afonso Pena toda e que não poderia acontecer nesse micro, ao outro que é do diálogo com o lugar. Eu tendo a me interessar a fazer parte desse que conversa, mas acho demais também ter a experiência de multidão, igual existem milhões de carnavais no Brasil e no mundo. Eu não tenho a menor referência por ano para falar dos desfiles do Peixoto. Eu tenho que parar e pensar muito para saber como foi em 2013, por exemplo. Mas a primeira saída do Tico Tico em 2009, foi o prenúncio de muita coisa. Tem ali um núcleo duro de tudo que continuou acontecendo. A gente pensava antes ‘nossa, não vai vir ninguém, a gente vai chamar e não vai vir ninguém. Ninguém toca, ninguém é especialmente sambista ou carnavalesco, ninguém tinha aquele perfil que a gente associa ao carioca do carnaval’. Aí chega lá na porta onde tinha combinado, na porta da casa de uma amiga, e começa aquela coisa: ‘você veio, você veio’ e começa a rolar aquela coisa de Belo Horizonte. Fulano que chamou fulano, e acaba que estava cheio de amigos”.

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Nian: “E aí já garantia o do Peixoto também porque todo mundo que estava no Tico Tico ficou sabendo que ia ter Peixoto e falou ‘então terça-feira nós vamos lá’”. Elisa: “Pensando nos elementos todos do carnaval, começamos a improvisar a música de maneira divertidíssima, os caras levando os instrumentos de casa, um banjo, dois sopros, difícil pra caramba. Ninguém sabia cantar as marchinhas. Eu era a estante, eu andava com a partitura e a letrinha da música. Mas já dava para ver a galera super animada em fantasiar, gente com umas fantasias massas já nesse primeiro dia. E a onda de andar, porque o bloco não acabava. Esse primeiro bloco não acabava. Tinha a previsão de um trajeto, mas rapidamente ele transbordou isso e foi indo e caiu um temporal e gente ficou e foi indo. Chegou ali na Afonso Pena com Getúlio Vargas caindo um temporal, um dilúvio. Foi tendo uma sede mesmo e o negócio não acabava. A gente chegou até na Savassi, entrou num bar, outros saíram, começou a ficar uns trios, uns grupinhos continuando. Ninguém queria que acabasse, queria ir continuando para sempre”. Nian: “Foi já no primeiro que a gente começou a entender como é que o grupo te dá força e te dá autonomia para fazer umas coisas. Então, quando a gente chegou na Getúlio Vargas com Afonso Pena tinha um Bradesco e falamos: ‘vamos entrar aqui’”. Elisa: “Falou nada, a gente entrou, a coisa acontece. Cantamos “Me dá um dinheiro aí” e saímos”. Nian: “E foi maravilhoso. E aí você começa a ver as coisas que você está fazendo junto e fala “O que é isso, é muito legal, né?”. É muito forte mesmo. E esses blocos eram 10 horas de duração”. Elisa: “É, a gente chega mais perto de umas coisas que estão no imaginário nosso de transgressão e que as vezes tinha um caráter muito mais “nossa, que difícil, que pesado, que corajoso”, mas que você vê que ela pode acontecer. Pode acontecer de um jeito forte e leve ao mesmo tempo”.

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109 Bloco do Peixoto em 2014. Créditos: Flora Rajão


Nian: “Hoje está cada vez mais diluído, mas nesses primeiros anos era o mesmo grupo que cada dia fazia o carnaval em um bloco. A gente fazendo o carnaval em bloco que tinham nomes diferentes e que ficavam 12 horas todo dia. Então também tem isso: é uma intensidade de relação e desde então é muito engraçado como que a gente pensa “que saudade do carnaval”, porque é um momento em que as pessoas se veem durante muito tempo de uma maneira muito extremada durante muitos dias”. Elisa: “É bonito. Acaba o bloco, vai embora, aí chega o dia seguinte, a hora do bloco seguinte e já vem cada um chegando: “e aí, dormiu?”, relembra casos do dia anterior, aquela onda da ressaquinha, vai indo e o rito começa todo de novo. Um rito contínuo a cada dia. Até chegar ao ápice de novo, cantando as mesmas músicas que a gente cantou ontem, só que cada um fantasiado de outro jeito, então cada um está ali com uma outra energia. Em 2009 também tivemos o Bloco Approach também. Uma semana antes a banda Proa chamou pessoas para serem figurantes de um clipe. Na verdade, ele não falou “venham ser figurantes de um clipe”. Ele falou “o Proa está fazendo um bloquinho no Mercado Central, vamos lá”. Quando a gente chegou, não era um bloquinho, era uma cena para fazer um clipe que era a galera tocando e dando a volta no Mercado Central. E a gente ficava atrás jogando serpentina. Só que foi bom para conversar, encontramos o pessoal do Tico Tico. Depois a gente sentou na Praça Raul Soares e ficou tomando uma e mancomunando. E foi também a única vez que a gente fez um flyer manual do Peixoto, um flyerzinho com a baleia. Era uma xerox de papel rosa e papel azul, escrito de canetinha atrás”. Nian: “Distribuímos um pouco no centro, chamando. No outro ano a galera já fez outros blocos, mas que éramos nós todos também. Em 2010 a gente foi nos blocos Tcha Tcha, Tetê, a Santa, Mamá, a Praia. Os meninos do Queixinho, eles tinham a vontade de fazer o bloco, mas não fizeram em 2009. A gente encontrou com eles no Bar do Orlando25 , eles saíram em 2010”.

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25 - Bar tradicional no bairro Santa Tereza, que existe desde 1919, na Rua Alvinópolis, 460. Durante o carnaval promovem o Bloco dos Pescadores, desde 2011, uma referência ao antigo bar que funcionou no local na década de 1930 (Bar dos Pescadores), que funcionava como mercearia e também vendia artigos de pesca, para os pescadores do Rio Arrudas.


Elisa: “Estava tudo pipocando ao mesmo tempo: A gente chegou no Orlando para tomar uma cerveja, tinha uma galera, todo mundo com uma camiseta igual, e mandando bem demais no samba e sabendo cantar. E a gente doido para trocar ideia com eles, para ir lá cantar. E essa coisa não era tão espontânea assim de chegar e entrar num grupo. E aí fomos segurando até uma hora que não deu mais, o Nian pegou o surdo no carro, a gente entrou. E o Orlando, está até mudando isso, mas durante um tempo ficou sendo o lugar onde todos os blocos do Santa Tereza acabavam. Tudo acabava no Orlando. Uma coisa muito forte que começou a acontecer a partir de 2010 foi a organização da música, porque nem o Tico Tico nem o Peixoto foram blocos que deram um start para isso. Por exemplo no dia do Peixoto eu lembro que chegou uma galera do maracatu de surpresa. E que foi massa, acrescentou um volume, uma dimensão que a gente não imaginava. E que segurou uma percussão, porque antes estava bem no gogó, aquela coisa de bêbado pulando e tal” Nian: “A Chaya Vazquez apareceu em 2009, tocando grávida com barrigão. A gente conheceu ela no bloco do Peixoto. A galera do Maracatu apareceu no Peixoto a gente nem sabe como. Mas eles chegaram. É muito louco que até hoje o Peixoto funciona assim, tem ano que vai uma pessoa, tem ano que vai outra”. Elisa: “Eu não sei falar se era algum grupo específico, mas era uma mulherada do maracatu. E que já sabia tocar caixa. Eu lembro do Danielzinho, amigo nosso, a gente estava: tac, tac... batendo numa caixinha, assim. Aí chegou uma menina: prararara, tocando caixa super bem. E elas foram fundamentais. E que acabou dando um tom para como funcionava essas bandas desses blocos amigos, esse núcleo de blocos. Que começou a coordenar todas de um jeito bem parecido. Ela ensinou como que poderia ter uma regência, para pensar uma base para cada uma das marchinhas mais tocadas, começou a rolar uma composição de músicas para os blocos. A música passou a ser bem protagonista dessa história toda do carnaval”.

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Bloco do Peixoto em 2014. Créditos: Flora Rajão

Nian: “E até hoje, as convenções surgiram em 2009, 2010, e até hoje a gente toca com elas. O Peixoto, na hora que a gente falou, vamos fazer o bloco, a gente até fez a marchinha. Hoje é até engraçado comparar com as marchinhas que surgiram depois, que são marchinhas feitas por músicos, mais elaboradas. Mas a gente fez essa marchinha que até hoje é a música do bloco e fomos nós dois, sentados na cama, fazendo”. Elisa: “Tem uma coisa que eu acho importante e que me toca pessoalmente: é muito massa o caminho da música, ela é fundamental para a força que o carnaval ganhou, para a adesão das pessoas, porque não é uma coisa que a gente está promovendo, mas que as pessoas vão ter interesse em ir e participar se estiver bom e soando bem.

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A Chaya fala, “tem que estar gostoso, tem que estar bonito, ser bom de se ouvir”. Normal, acho massa, acho importantíssima a música e foi bonito para muita gente fazer parte disso. Hoje em dia as pessoas em Belo Horizonte sabem tocar. Você vai numa praça tem grupo de gente ensaiando percussão. O Nian passou a tocar surdo, foi melhorando a cada ano, eu me interessei pelo tamborim uma época. Uma coisa massa de fazer parte. Mas comecei a sentir falta do espaço para o folião se manifestar também, independentemente de ser músico ou não. De uma dimensão da fantasia, da alegoria, de pensar a decoração, de criar fantasias e estandartes e coisas para carregar, de ter espaço para as pessoas cantarem. A gente tenta puxar um grupo de coro que não consegue, porque a galera que canta, que não toca nada, é preguiçosa, só quer ficar bebendo. E aquilo é compromisso, porque se você está segurando um surdo, tem o compromisso de ficar lá no meio da bateria. Depois você está fodido, não consegue sair para pular porque está com aquele trambolho, carregando. E quem não toca nada está afim de ficar segurando sua latinha lá, e cantar um pouquinho e sair. Ótimo, também, eu sou super afim que isso seja possível, mas começou a rolar esses conflitos. Quem é da banda, quem não é da banda? Se tem cordão ou não tem cordão? Tamborim também é um instrumento safado. Você fica lá, de boa e fala “não, estou tocando tamborim aqui, deixa eu ficar aqui pertinho”. É superimportante isso pode acontecer, tem hora que atrapalha. Eu já fiquei puta com gente que faz isso, mas faço isso o tempo inteiro, eu acho que tem que ter espaço para isso. Mas a dimensão estética, da fantasia, é muito lindo quando acontece. O Bloco Pena de Pavão de Krishna faz isso de uma forma, o Tico Tico faz isso de outra. O Peixoto tem também. Tem a coisa do tema do mar, leva os peixinhos. Todo ano tem alguma coisa que a gente quer que faça acontecer. Mas é igual festa em casa: você planeja que as pessoas vão dançar aqui, vão fantasiar assim. E vê que todo mundo faz o que quer no final. Tem ano que cola umas ideias, tem ano que não. Todo ano a gente fica de cara com o crescimento do bloco”.

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Nian: “A gente sempre assusta, desde 2010 a gente vai só assustando cada vez mais. Em 2015 talvez tenha ficado mais estável a quantidade de gente, foi um ano que a gente estava assim: “vai ser muito difícil, a gente não vai conseguir sair do lugar”.E parece que, por estarem surgindo tantos novos blocos, está ajudando os blocos que estavam torando de gente a voltar a ser possível. Agora acontece o Juventude Bronzeada, o Magnólia, beirando ali o Peixoto, então isso deu uma dispersada boa. Agora é difícil pensar em número de público... público não, de folião, porque cada ano uma pessoa fala um número e a gente não faz a mínima ideia. Mas eu acho que pode falar tranquilamente que 2010 já era o dobro de 2009 e as coisas foram crescendo muito. 2009 dava 100 pessoas, no máximo, não dava 100 pessoas. Durante os desfiles tem muitos moradores que saem de casa para acompanhar o bloco. Hoje em dia existem casas que são tradicionais que jogam água, existem pessoas que se preparam para o bloco passar e fazem faixa, recebem mesmo o bloco. Tem umas velhinhas que sempre descem os prédios e vão lá ficar um tempinho quando o bloco está passando e voltam. Mas essa comunicação com o bairro a gente só fez no primeiro ano. Só no primeiro ano que a gente passou, deixou um bilhetinho, colocando as cores do bloco”. Elisa: “É uma coisa que eu até gostaria de voltar a fazer. Até para ter uma ideia de como é que anda a opinião das pessoas sobre isso. Até um entendimento. Será que as pessoas “ah, é mesmo, todo ano tem o bloco do Peixoto aqui na minha rua”. Não sei se tem uma clareza disso. Seria legal fazer isso de novo”. Nian: “Depois de 2009 existe um grupo de músicos que se interessou pelo carnaval. Eu não sei se foi por 2010 ou 2011. Em 2010, o Rafa Tcha Tcha era o produtor da banda Graveola. Então foi um bloco que já estava mais organizado musicalmente. Os meninos do Graveola estavam, com eles veio uma galera do sopro, apesar de que o João Paulo dos Prazeres que toca saxofone sempre esteve no Tico Tico e no Peixoto em todos os anos. Começou a ter esses músicos que se interessaram, aí começou a ter ensaio duas semanas antes do carnaval”.

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Elisa: “A Praia da Estação passou a ser um ponto de ensaio”

Nian: “O pessoal do sopro começou a ensaiar. Teve ensaio na Casinha, na Praia mesmo. Começaram a escrever as músicas, inventaram uma coisa de conseguir colocar a partitura nas costas do coleguinha para ficar lendo e tocando. A partir de 2011 que passou a ter mais foliões que queriam fazer parte da música mesmo. Hoje talvez isso esteja mais diluído, mas foi o que a Elisa falou: teve um momento que as pessoas queriam estar participando fazendo a música, quase todos os foliões queriam estar tocando”. Elisa: “E o Queixinho foi fundamental nesse processo. Foi o primeiro bloco que começou a investir em ensinar a tocar. Além de o Gustavo Caetano já ter uma experiência massa de percussão, eles convidaram um regente de bateria do Santa Tereza, o Laurinho, e pegaram firme em ensinar, do zero, qualquer pessoa que quisesse. Todo sábado, um longo tempo antes do carnaval. Muita gente passou por lá”. Nian: “O Laurinho é o regente do Queixinho junto com o Gustavo. E ele é um cara que mora no Santa Tereza e desde pequeno toca no Inocentes que é o bloco tradicionalíssimo do Santa Tereza. Então é um cara que não é da nossa turma, ele é mais velho que a gente, mas que participa disso tudo desde o começo. Ele sim, veio do samba, ele sim toca muito, ele participava de outros carnavais”. Elisa: “Os desfiles do Peixoto por ano não consigo falar. Até porque eu acho que o Peixoto é um ciclo que se repete. A cada ano tem uma característica do momento.

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Mas não teve, em nenhum ano, uma mudança radical. O trajeto foi sempre exatamente o mesmo, todos os anos. Teve um ano que rolou uma surpresa que foi uma delícia, em 2013 ou 2012 que foi consequência do crescimento muito grande: quando o bloco estava chegando no Brasil 41, o quarteirão já estava tomado porque as pessoas passaram para lá antes para ficar tomando cerveja esperando o bloco ou já tinham outras coisas rolando lá. E aí não daria para a gente chegar, ia embolar com essa multidão, não conseguiria passar para praça... O Rafa Tcha Tcha e a Milene, que fazia o bloco Tetê a Santa, sugeriu de a gente quebrar para a direita e pegar a Contorno. “Nossa, pegar a Contorno com essa multidão, que loucura”, e entramos pela Floriano Peixoto pelo lado. Foi uma mudança que rolou que acabou sendo incorporada. Pode ser que daqui para a frente vá rolar todos os anos. Agora, nesse ano, a BHTrans ficou puta, falou que a gente não tinha avisado que isso ia rolar. Foi a única mudança. Fora isso, o percurso é sempre o mesmo. E como a gente estava falando dessa coisa em torno do Peixoto, da tradição, a gente pessoalmente acaba que sente isso, um pouco como uma característica. A humanidade do Peixoto. Eu acho que todo ano é uma releitura. Em 2014 que a gente estava morando na França e começou a juntar as pessoas para organizarem. Usamos muito e-mail, grupo no Facebook. E rolou um encontro do Peixoto com o pessoal do Fica Fícus26. E a galera do Fica Fícus é bem coincidente com um outro bloco, que é o Cuequinhas do Papai, que acontece na terça-feira antes do carnaval no Brasil 41. São principalmente mulheres mais velhas. Amigos nossos desde que a gente começou a fazer o bloco. Também achamos importante se vincular à causa do Fica Fícus já que as árvores influenciaram a escolha do trajeto, e a concentração acontece praticamente debaixo dos Fícus. A gente até mudou a concentração lá para debaixo dos Fícus cortados, teve coisa para criança que é uma coisa que a gente curte, se fosse possível seria legal, mas quando o bloco começa a andar, já não é mais um lugar tão legal para criança porque fica muito cheio. Mas tem muita criança nas pontas”.

26 - Grupo ativista que nasceu do movimento em defesa dos Fícus da Rua Bernardo Monteiro e de todos os fícus de BH, e que reivindica também o aumento de áreas verdes na cidade.

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Bloco do Peixoto em 2014, quando os fundadores não puderam participar da festa. Créditos: Laura Fonseca

Nian: “Eu tenho um afilhado que tem 8 anos e ele foi em todos os blocos. Ele tem a idade do Peixoto. E adora o Peixoto, tem uma relação superforte com o bloco e vê o carnaval acontecer. Então a gente tem essa vontade de incluir as crianças. O que não é fácil mesmo. Porque no começo, o que eu acho que é uma característica do Peixoto, sempre teve velhos e crianças. Só que quando ele começou a ficar grande demais, começou a ficar mais complicado. Nos primeiros anos, tinha essa galera que não estava nos outros blocos. Acho que o trajeto contribuiu por ser mais tranquilo de andar, curto, e por essa região ter muitos avós e crianças. E a última coisa que eu ia falar, dessas mudanças, é o Fica Fícus, mas que é dentro dessa coisa política, né? Foi mais um ponto de discussão política para mim”. Elisa: “Mas é uma coisa boa para você pensar: Não tem muito uma lógica anual,

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eventual, a cada ano. É um bom jeito de estruturar o entendimento do Peixoto: são repetições desse mesmo princípio, desse dispositivo. E aí acontecem coisas que não importa muito em que ano que foi. Lógico que tem um acúmulo, mas é um rito que se repete. O Peixoto se inscreve sempre na Belotur, e acredito que o cadastro é uma conquista nossa. Porque hoje em dia se chama cadastrar, que parece que a gente está aderindo à uma política da Prefeitura, mas não é isso. Foi uma demanda nossa de que tivesse uma simplificação na burocracia, então fazer o processo via Belotur é só para não ter que fazer o processo de avisar em três instâncias: BHTrans, bombeiros, regional e Polícia Militar. Eu concordo em fazer porque mesmo tendo críticas em relação a como se dá essa regulação da cidade, não é uma proposta do Peixoto causar distúrbio nesse sentido prático da vida das pessoas daquela comunidade, daquele bairro. Essa vontade de conversar com os moradores de lá, para saber como é que anda a opinião lá sobre o bairro, sobre o bloco, como é que ele é visto, é porque para mim não faz sentido se estiver todo mundo odiando o bloco lá. Se depois que a gente vai embora ficarem putos porque está tudo mijado, porque o carro ficou preso, mesmo sabendo que é um momento de ter mais tolerância. Carro não tem tanta vez em época de carnaval quanto já tem demais vez e voz durante o ano todo. Enfim, essas nuances todas, mas acho que a gente está fazendo uma coisa na rua e a rua é de todo mundo. Cabe você avisar. E é útil. A BHTrans sempre ajudou pra caramba nessas horas de atravessar, proteger as pessoas. Começa a ter uma certa responsabilidade por quem está ali. A segurança e a possibilidade de estar ali de uma maneira viável. Só que começou a virar uma preocupação assim: até que ponto nós somos responsáveis por aquilo ali que está acontecendo? A gente vê que a gente não é responsável pelo tamanho do negócio porque a gente nunca planejou “vamos fazer um evento para 10 mil pessoas”. O carnaval acontece. Se a gente não estiver ali ele vai

acontecer do mesmo jeito. Eu não me sinto responsável

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pela integridade física daquelas pessoas, por exemplo. Se

tiver uma briga e alguém ficar ferido, será que eu sou?

Eu não sei. A gente tem dúvidas até jurídicas em relação a isso. E ao assinar lá na Prefeitura a gente deixou isso bem claro, a gente está avisando que o bloco vai acontecer porque a gente, além de todo mundo, sabe. Teve um encontro pós carnaval que um advogado presente que falou que a gente não é responsável, que isso é uma manifestação espontânea, e que o fato de ter avisado até nos redime dessa responsabilidade. Mas é uma dúvida mesmo, se isso acontecer algum dia em algum bloco, seja no Peixoto, seja outro, alguma coisa grave acontecer fisicamente com alguém, vai ser uma questão. Não sei o que pode rolar”. Nian: “O suporte que recebemos a partir do cadastro nunca foi suficiente, sempre foi deficitário. A gente sempre ouve reclamações das pessoas falando que não tinha banheiro suficiente. A cada ano a gente pede muito mais banheiros do que a gente consegue. Uma coisa que a gente sempre fez questão de conversar diretamente com as pessoas da Prefeitura envolvidas era uma limpeza para o dia posterior, e isso acontece”. Elisa: “O banheiro continua sendo aquém da necessidade. E também porque esse crescimento foi tão rápido, a coisa está sendo ainda... está se correndo atrás desse prejuízo. É ridículo não ter dinheiro para bancar banheiro e fazer essa propaganda que a Prefeitura faz. Maior carnaval de todos os tempos e não ter grana para banheiro. Mas fora isso, a BHTrans sempre ajudou nos pontos cruciais, não precisa de muita coisa mesmo. A questão é essa. É diferente. Acho que um bloco muito maior, tipo o Então, Brilha! e o Baianas Ozadas, que pegam ruas mais fundamentais da cidade, precisam de mais infraestrutura. Tem carro de polícia ajudando a fechar, walk-talk monitorando, tipo um eventão... No Peixoto é assim: a BHTrans ajuda em pontos cruciais, a polícia está presente, mas ainda bem que não é em um número muito grande, e em geral o diálogo com ela acontece bem ao longo do Peixoto. O conflito

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que teve não foi no dia do Peixoto, o que não tira a dificuldade em relação à entidade da polícia, mas no Peixoto eles sempre estão lá no começo, perguntam para a gente que horas a gente está pensando em sair, troca ideia e no final às vezes procuram a gente para saber se é isso mesmo. Enfim, nunca teve nenhum conflito com a polícia no Peixoto. E com a varrição no dia seguinte que acontece”. Nian: “É, mas acho que é o seguinte. A Prefeitura tenta se apropriar de uma coisa que ela não faz e o mínimo que lhe é solicitado, que justamente não é necessária muita coisa, ela não consegue fazer. E tem um outro ponto que a gente nem começou a conversar que é a relação com os blocos caricatos que é toda uma outra história. A Prefeitura resolveu o carnaval de BH deixando tudo na Belotur, ou seja, virou uma questão de turismo, a Prefeitura encara o carnaval a partir dos olhos da inteligência turística da cidade. Então isso já diz muito sobre onde está cada uma dessas vozes. Os blocos de rua e onde eles querem chegar. Diz-se que o carnaval já está vendido pra Skol há alguns anos. Que a Prefeitura já teve essa reunião com a Skol e ela já vendeu o carnaval. Então é um movimento muito contrário”. Elisa: “A Skol já entrou em contato com a gente, ligaram. E a gente nem entrou na conversa. Falamos: ‘Olha, não estamos interessados, por favor, não queremos nenhuma tentativa de vinculação do bloco à Skol, então não vamos participar’”. Nian: “E eles iam pelo problema principal, na época, que a Prefeitura não conseguia bancar os banheiros químicos. E eles falavam: “a gente consegue banheiros químicos se vocês deixarem a gente fazer…” Elisa: “’Ter exclusividade dos nossos ambulantes, vender só Skol’. A gente sabia que eles iam distribuir materiais deles. E em muitos blocos, mesmo assim eles foram. Teve que rolar uma galera gritando: ‘xô, sai pra lá!’” Nian: “E em 2014 a gente não estava, aconteceu isso e o pessoal conseguiu expulsar eles.

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Elisa: “Chegaram uns representantes com uns balõezinhos, do nada aquele tanto de gente da Skol. Aí a galera da bateria começou a ficar puta, mesmo: “sai fora, sai daqui”, já na concentração. E aí eles vazaram”. Nian: “Existe uma vontade e um interesse da Prefeitura no carnaval que é totalmente descolado do nosso. Nós que estamos fazendo o carnaval. Então existem várias questões políticas e várias das pessoas que hoje em dia fazem o carnaval começam a discutir: como é que o presidente da Belotur é colocado lá dentro, quem coloca ele lá dentro e porque ele está lá dentro? E esse cara é quem está, teoricamente, pensando sobre o carnaval de Belo Horizonte dentro da Prefeitura. E aí são questões mais sérias e que passam por questão de verba, de orçamento, de política pública que são totalmente decoladas. Até 2010, 2011, o grande evento que a Belotur promovia era a festa junina, que é uma dimensão incomparável com o que o carnaval é hoje, e desde então o evento principal da Prefeitura é o carnaval. Tem-se uma verba enorme hoje em dia que não se tem uma prestação de contas. A gente nunca conseguiu ter acesso à planilha deles que eles falam que não tem dinheiro, mas para onde vai esse dinheiro as pessoas não sabem. Então existe uma dimensão seríssima nisso”. Elisa: “Por parte da Prefeitura só existe essa vontade de se apropriar do carnaval à baixo custo sem fazer grandes coisas. Garantir o mínimo... aquilo que eu falei que a Prefeitura cumpre, não é uma vantagem, não é mais do que uma obrigação. Varrer, ter atendimento em relação ao trânsito e ter policiamento. Isso é básico. Não tem vantagem nenhuma eles estarem fazendo isso, estão cumprindo a obrigação. Mas daí a querer colocar o nome na programação e querer colocar a logo lá “Prefeitura promove bloco do Peixoto”, falar que isso faz parte da programação oficial, aí é outra. E ainda por cima vinculada à uma perspectiva de negócio, do turismo. E seria muito interessante ter um diálogo da perspectiva da cultura, muito mais condizente com o que o movimento é de fato. Mas não tem nenhuma iniciativa por parte da Prefeitura nesse sentido. Da gente tem, cada vez mais, organizar. No final desse carnaval a gente

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fez algumas reuniões tentando montar comissões e tentando pensar caminhos de propor uma abertura, uma demanda junto à Prefeitura nesse sentido. Talvez escrever um manifesto, fazer uma comissão. Tem caminhos pensados para isso e começaram a ser esboçados mais fortemente, mais disposto logo depois do carnaval, mas depois deu uma arrefecida. Mas eu acho que é o que tem que acontecer. Tinha um boato rolando de que ia surgir uma lei para determinar mais claramente as restrições em relação ao carnaval e a gente quer estar atento à isso, pra que a gente participe para que a lei incorpore mais nosso discurso do que o discurso empresarial e do investimento turístico. Levar isso para a Fundação Municipal de Cultura seria um caminho. Mas a gente sabe que também não é fácil, os recursos são poucos, a política praticada também é complicada. Tem um edital que rola para blocos participarem, mas a gente não sabe exatamente como é que rola essa seleção. Que tipo de bloco está mais pretenso a ganhar esse recurso. Se faz sentido um bloco ganhar um recurso ou se isso não deveria ser uma coisa de uma política geral. Tudo a ser pensado. E é importante que essa força que o grupo ganhou vire... aí sim... essa coisa que a gente estava falando da cidadania está aí, nisso. Agora que o carnaval ganhou essa dimensão, a gente tem que participar também de como ele vai ser tratado, que espaço ele vai ter, orçamentário, político… É uma coisa massa que tem rolado cada vez mais no Brasil e no mundo essas lógicas de comunicação multitudinárias e horizontais. A capacidade de mobilização, decisão e ação totalmente horizontal. Não é fácil, mas tem acontecido de maneira bem interessante e potente. Acho que aqui no Brasil tem a ver, sim, com as manifestações, com esses pequenos movimentos, até o próprio carnaval. Em Belo Horizonte a gente tem certeza que tem influência. Em outros lugares do país muito a partir das manifestações ou talvez com outras instâncias menores que aconteciam lá. Logo depois das manifestações passaram a ter as Assembleias Populares Horizontais. Aqui em BH teve muito debaixo do viaduto Santa Tereza. Começa a acontecer uma inteligência de organização. Por comissões, por temas. A comunicação por

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Nian e Elisa no Bloco do Peixoto em 2013. Créditos: Flávia Mafra

fóruns de internet, Facebook, acontece muito. E tem fluído. Está rolando agora, em Belo Horizonte um movimento muito forte que chama “Muitxs, Pela Cidade que Queremos” que é totalmente baseado nessa prática, nesse espírito de como fazer política de maneira horizontal. Então funciona em reuniões, assembleias, e tem que se respeitar a vez de cada um falar, são pessoas muito diferentes com opiniões muito diferentes… Em geral do carnaval, acontece logo depois e um pouco antes. Ao longo do ano ainda é mais ralo”. Nian: “Ao mesmo tempo tem essa coisa de que como nós somos amigos, desde 2009 a gente fala muito sobre carnaval quando a gente se encontra. Está numa festa, num

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show, num bar, a gente se encontra e está pensando na cidade, pensando no carnaval. Ele, hoje em dia, é um assunto constante na vida de muitas pessoas”. Elisa: “A pauta, em si, pode até variar, mas a questão toda é a cidade, é o pensamento de como está se apropriando do nosso espaço público, das decisões do legislativo, do executivo, das relações que a Prefeitura tem com a ocupação territorial, com a questão da habitação. Então a pauta varia, mas o movimento de discutir junto continua efervescente, cada vez mais, o ano todo. Então está sendo pensado o carnaval, mas que a pauta não está rolando tão incisivamente nessa coisa de montar uma comissão para que o carnaval seja visto como uma questão de cultura e não de turismo, mas o pensamento está caminhando como um todo. Quando chegar mais perto de novo provavelmente isso volta e flui fácil. Porque o diálogo está existindo, as instâncias de comunicação estão fortes”. Nian: “Existem algumas pessoas do carnaval que se interessam e agem para conseguir ocupar, de alguma maneira, a mídia também. Para tornar mais pública essa discussão. Mais do que isso já acontece nas assembleias, nessas discussões, mas querendo ou não, são pessoas específicas que frequentam esses lugares, essas conversas. O Roberto Andrés escreveu um texto em 2009, já, saiu no Hoje em Dia, sobre os dois blocos. E isso é legal que tem o Guto que é historiador, o pai do Guto que sempre esteve com a gente, ele sempre bateu nessa tecla de que a História é contada por quem se apropria e tem o poder de fala, então é uma luta também criar a história do carnaval. Porque se você deixar a Prefeitura contar a história do carnaval, ela vai ser bem diferente do que vocês estão fazendo. Uma coisa legal é que por essa característica do carnaval de BH ser mais político começaram a aparecer pessoas de outras cidades querendo trocar ideias, uma experiência com a gente. Do Rio, de São Paulo, que são pessoas também instigadas a fazer um carnaval mais político, que começaram a entrar em contato com a gente. Hoje em dia tem umas conversas entre cidades. Acabou que nesse sentido BH tem um reconhecimento à essa especificidade. Hoje em dia a gente

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pode dizer que é uma característica daqui, da cidade, que é bem diferente. Apesar do que, hoje em dia, São Paulo está começando a ter essa postura, mas que veio depois”. Elisa: “Mas pensando o carnaval na nossa vida, também é legal de ver nossos vizinhos começarem a ver isso se repetir, a gente chegar em casa ou sair de casa... O que é comum numa cidade como o Rio, por exemplo, não era, até a pouco tempo, aqui em BH, né? Você pega um ônibus no Rio durante o carnaval, vai ter gente fantasiada, fora o fato de já ser praia, as pessoas terem o hábito de andar de biquíni, de entrar numa livraria de biquíni. Muito diferente daqui. Se fantasiar em Belo Horizonte era muito difícil até a pouco tempo. E foi massa a gente ver isso acontecer na nossa rua. A gente saindo maquiadão, carregando instrumento, e a relação das pessoas com isso. A gente tem um interesse muito forte nessas coisas mínimas do dia-a-dia, como é que rola umas pequenas provocações, umas ações mínimas, mesmo”. Nian: “Acho que o carnaval tem papel fundamental nisso, que a gente entendeu que, de fato, a gente pode propor, fazer ações propositivas pra cidade e gerar conversas. Mesmo que a Prefeitura e outras instâncias dela assumam uma postura de como se não estivesse acontecendo nada, de fato eles estão, sim, vendo acontecer, eles estão discutindo, e está, sim, acontecendo uma série de transformações na cidade a partir dessa festa. Então eu acho que isso é um aprendizado para nós, nós todos mesmo, que estamos vivendo isso, de cidadania muito legal. E aí, por exemplo, pensando nas manifestações de 2013, é muito louco como é que a gente já tinha algum conhecimento do estar na rua naquele momento. Por mais que era uma situação muito mais repressiva”. Elisa: “Loucura que a gente tenha ido a pé até o Mineirão, nas manifestações. Acho que seria inimaginável para a gente se já não tivesse a experiência do carnaval, a possibilidade de andar a pé na cidade, um percurso desse tamanho”. Nian: “E era, de alguma maneira, um tipo de ação que a gente já estava ligado como

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era. E aí você vai aprendendo, mesmo, a conversar com a polícia, por exemplo. Você começa a ser mais estratégico. Tem hora que o embate não vai ser interessante, só vai ser pior para nós mesmos. Tem hora que o embate é fundamental. Então é quase estratégia de guerra. Guerra no sentido de enfrentamento. A gente começa a ter muito mais jogo de cintura, e consciência do que a gente está fazendo. No fim das contas, essas tensões, elas também vão mostrando... de fato, a gente vai perdendo ingenuidades e aprendendo a agir”. Elisa: “Mas a ingenuidade, ela existe no sentido de... sair na rua não passou a ser, longe disso, uma coisa só de “ah, estamos aqui”. Não é uma passeata, não é uma manifestação. Continua sendo um bloco com toda a dimensão lúdica dela, da felicidade. Das experiências sensoriais que rolam, o que move continua sendo isso. Porque, afinal de contas, o enfrentamento é para que a gente possa ter esse tipo de sensação na cidade. Que não fique só uma anestesia de sentimento. Que a gente se admire ao ver uma paisagem diferente, ou de cantar uma música muito poética, bonita, emocionante vendo uma pessoa na rua, na janela, sei lá. Entrar na casa de alguém para fazer xixi e trocar ideia com ela na hora”. Nian: “É muito louco como o carnaval é contagiante, mesmo. O Guto uma vez falou uma coisa que eu acho linda, em relação ao poder público: Como é que eles conseguiram esconder o carnaval da gente durante tanto tempo? Bastou dois bloquinhos de 20, 30 pessoas, para 5 anos depois você ter sei lá quantas mil pessoas na rua fazendo carnaval pulando, que é uma coisa que acontece desde sempre, e nunca deixou de acontecer nem vai deixar de acontecer. Eles podem tentar fazer isso de todas as maneiras, mas não tem jeito. E essa coisa que é batida falar, também, mas é o momento do corpo. A cidade tenta regular o corpo de uma maneira patológica. E o carnaval é o extravasamento disso: Está todo mundo pelado na rua, um encostando no outro, suando. Ao contrário do que a cidade normatiza”.

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Bloco do Peixoto em 2014. Créditos: Flávia Mafra


Diário

de Bloco Um passeio com o Peixoto

Saímos do desfile do Bloco Juventude Bronzeada, onde começamos nossa a terça-feira de carnaval, quando o bloco que vinha do bairro Floresta, já se aproximava da Rua Itambé. Fomos para a Av. Brasil, em frente ao Colégio Arnaldo, onde estava marcada a saída do Peixoto, às 14h. Já eram umas 17h e o bloco já não estava no local. Seguimos perguntando para os comerciantes, ambulantes e foliões desertores onde se encontrava o bloco. No caminho encontramos um amigo que nos aconselhou ir para o bloco de forró, Pisa na Fulô, que saía no Prado. “Só tem playboy aí”, alegou o Davi, que tinha nos acompanhado nos outros dias de carnaval. Apesar disso, seguimos em direção ao bloco através da Rua dos Otoni. Encontramos a bateria a mais de oito quarteirões da Praça Floriano Peixoto. O grupo estava grande e rodeado por uma multidão de foliões fantasiados. Um dos participantes levava um rolo de adesivo amarelo com o escrito, “oferta especial” em vermelho, como

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os utilizados em grandes supermercados, adesivando os foliões que entrassem na brincadeira. As roupas, muitas delas fantasias prontas, como as encontradas em lojas especializadas, mostravam as diferenças entre o grande público de blocos que saem mais próximos ao circuito carnavalesco montado na região centro-sul da cidade. Bairros como Savassi, Santa Efigênia e Centro recebem mais atenção poder público que oferece uma estrutura maior para a realização da festa, em que grandes palcos recebem a programação oficial da Prefeitura nas áreas mais visadas pelas classes mais altas da cidade - que costumam receber além de apresentações de bandas famosas, e de algumas bandas formadas a partir de blocos de rua da cidade. No meio da multidão, era possível reconhecer amigos e rever muitos dos foliões que no dia anterior haviam saído embaixo da forte chuva que transformou o chão em lama, no épico cortejo do Bloco Os Filhos de Tcha Tcha, nas Ocupações Izidora. Eram essas pessoas - aquele mesmo grupo que já vinha se encontrando desde as Praias da Estação realizadas no início do ano- que puxavam o bloco. Na primeira vez que fui no Peixoto, em 2013, lembro que o número de participantes não alcançava nem a metade de pessoas que se encontravam no desfile deste ano. O bloco contava com um naipe de sopros forte além da percussão. As marchinhas tradicionais e locais faziam parte do repertório, além da música do bloco: “Solte o seu sorriso maroto/ Está chegando o bloco do Peixoto”; entre os regentes se destacava o cabelo ruivo de Chaya Vazquez, artista independente que faz parte do grupo circense Trampolim. O som de seus apitos e gestos comandavam a bateria. Ao longo do caminho, casarões antigos, com grandes janelas, revelavam uma BH do início do século XX. A chegada do bloco à Praça Floriano Peixoto, foi pela Av. do Contorno e os foliões começaram a se dispersar, pela praça. A bateria seguiu até o meio da praça e seus batuques só se encerraram depois de anoitecer, por volta das 20h, os foliões se dirigiram ao tradicional reduto do bloco, no Bar Brasil 41, na Avenida Brasil, onde continuavam a festa.

Por: Naiara Rodrigues 129


CAPÍTULO 5 3 CAPÍTULO tico MAMÁtico NA VACA

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“Mamá na vaca, mamá na vaca, quem não quer?” Guto Borges é historiador, professor e músico, integrante da banda Dead Lover’s Twisted Heart. Participa do carnaval desde 2009, e criou com sua família o Bloco Mamá na Vaca, seguindo a ideia do tio Augusto Borges. O bloco sai nas ruas do bairro Santo Antônio no sábado da semana pré-carnavalesca. O

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trajeto termina em frente ao monumento da vaca de concreto, de 1980, do artista plástico Marcelo Nitsche, na Rua Princesa Leopoldina. O bloco traz a tradição de pintar todos os anos a dona-das-divinas-tetas. “O Mamá tem muito a ver com esse carnaval de 2009, do Tico Tico, Bloco do Peixoto. Na sexta-feira antes do carnaval fui até a Casa Ramalhete, um escritório de arquitetura que tinha no Serrra, de uma turma de amigos que eu tinha da época que trabalhei na Escola de Arquitetura. Conhecia aquele pessoal de lá, e o Roberto Andrés estava conversando sobre fazer o Tico Tico. Quando passei por eles, o Roberto me disse que eles fariam um bloco no domingo e que eu ira puxaria o bloco. Fiquei meio ‘what?’, mas topei. O plano era sair no bairro Serra e andar apenas dois quarteirões, meio no formato dos blocos do Rio que já tínhamos ido, e no fim teria uma mangueirada na porta da casa do Roberto. Ficamos sabendo que na terça também teria um outro bloco, entramos na internet e vimos o blog do Peixoto. Na época pensamos, nossa! Esses caras devem ter uns 40 anos de bloco e a gente fazendo de primeira viagem. Aí mandamos uma mensagem para eles super formal convidando-os para nosso bloco. ‘Prezado Bloco do Peixoto...’, já que achávamos que eles faziam carnaval há anos. Eles responderam super formais também. Aí fui embora para casa sem saber como ia fazer, eu nunca tinha puxado um bloco de carnaval até então, eu já tinha banda e tudo mais, mas com uma pegada mais rock, não tinha tanto essa relação com música popular brasileira na época. Eu morava no São Lucas e era vizinho do Lorencio, um amigo meu que tocava Clarinete, e pedi umas dicas. Contei que iríamos sair com o Tico Tico pela primeira vez, e ele me disse que tinha sido convidado para tocar no Peixoto. Foi quando me disse que era sua prima, Elisa, quem puxava o bloco. E todo mundo meio que se conhecia. Então juntamos e fizemos o nosso carnaval. No domingo de carnaval saímos na Serra e a galera foi animando. Eu fui tocando um banjo. E aí o negócio passou da mangueirada, fomos andando, entramos em uns lotes

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vagos. E eram umas cenas que, no começo, marcaram muito a gente: várias pessoas iam se juntando a nós, saindo nas janelas… porque uma banda passando na rua? Até então não tinha dessa de carnaval em BH, a cidade ficava vazia. E acontecia mesmo dos moradores descerem dos prédios, dar uma dançadinha com o bloco, e a gente gritava já na época “vem, vem para a rua vem!”, que depois virou papo de direitistas né? Fazendo um adendo, é importante dizer que este foi o primeiro ano da gestão do Lacerda e a cidade ficou um pouco sensibilizada, porque a eleição - o jogo que se formou entre PT e PSDB, a sinuca que colocou ele e o Quintão nas eleições de 2008, esse xeque-mate - já foi um golpe muito agressivo para a cidade. E até mesmo a gestão do Pimentel na Prefeitura já cantava várias das pedras, que seriam aprimoradas na Prefeitura do Lacerda. E o carnaval encenava muito essa imagem de uma cidade abandonada no fim das contas. Ir para a rua já era muito intenso para a gente, por causa do começo dessa defasagem. Em 2009, o carnaval era morto, ninguém vinculava nossa cidade27 ao carnaval. E se eu não me engano ainda acontecia fora da cidade , e tinha essa simbologia muito grande do carnaval ter sido expulso da cidade, literalmente, retirado da Avenida Afonso Pena, da Pólis, desse mundo político. Ele saiu do Centro e foi jogado para um espaço bem longe na cidade. Eu digo isso porque em 2008 eu fiquei e participei do carnaval do Bloco Inocentes, fui para o Santa Tereza, participei da quadra. Na época eu estava trabalhando no Festival de Verão da UFMG e a gente acompanhou filmando algumas coisas. Foi uma surpresa muito grande para mim porque na oficina que eu estava fazendo, a intenção era registrar o carnaval em BH, como a cidade ficava vazia. Ao chegarmos no Santa Tereza, a gente encontrou um ensaio do bloco caricato. O que nos surpreendeu porque a gente estava saindo para registrar a falta de carnaval na cidade e encontramos, pelo menos essa tradição do bloco caricato que, apesar de sair longe, tinha essa tradição de fazer um pequeno cortejo no bairro. Então além de uma expulsão do carnaval, existia um silêncio sobre

27 - O carnaval era realizado na Via 240, no Bairro Araão Reis, na região norte da Capital.

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É um ano solar do carnaval, porque a gente sai desse embate do pesado 2011, desse os lados, e começa aí osque grandes desdobramentos, em política, emque encontros O carnaval pesado do início, é maravilhoso e teve esse sentido meio virandoreais. um game Rafa sai do Santa Tereza em que 2012,euo tenho Tico Tico começa a ir cada vez para lugares mais histórico heroico. A impressão é que em 2012 a gente chega em um outro distantes, foi praosSerra. É o com princípio movimento deriva, fosseda esse registro com todos perigos, todosdesse os percalços. Tevedea ação dacomo PM noseBloco Praia, alvoroço de conhecer, dehavia se misturar, de reinventar, de guardar essepoderia sabor aíter derepressão 2009, e uma das conversas que se de ter com a Belotur era de que não no sentido detratava reinventar o carnaval a todo instante. policial e que se de uma manifestação pública. Teve esse dia que um comandante manda meter bala, a galera até comemora achando que era um foguete e quando foi ver era gás lacrimogêneo. O já bloco estava andando já, estava indo para o Brasil 41, nem chegou a dispersar não, a galera ainda se divertiu com a história, mas foi grave. E a gente foi lá e conversou sobre o absurdo que inclusive estava se repetindo. Essa é a sensação que eu tenho de 2012 que foram vários momentos bonitos, momentos de bons encontros, pessoas que não entendiam muito bem o carnaval, que estavam entendendo pela primeira vez. O tom que esses blocos tinham - por exemplo - o Bloco da Praia sempre foi isso, parava na frente da Prefeitura e lia lá um manifesto, cantava “Ei, Lacerda, seu governo é uma merda”. A gente vinha de um crescente de mobilização e ganhando forças. Em 2012 no final do ano, durante as eleições - um dos momentos mais importantes que eu acho e que não data do carnaval - é quando tem uma manifestação do Fora Lacerda que não está no carnaval mas tem tudo a ver porque você vê um tanto de bandeira do Fora Lacerda, a galera com um boneco do Lacerda, era uma grande manifestação contra o prefeito. Prevalecia esse tom que a gente estava com uma ideia de cidade, e inclusive a gente cantava isso nas marchinhas. Na verdade, era uma manifestação contra o prefeito, mas afirmando uma cidade. A gente queria uma cidade, começou-se a vislumbrar uma cidade, 2012 era o ano da eleição… e nesse dia do Fora Lacerda, o Dandara apareceu. Foi a primeira vez que a gente estava com a bateria do carnaval, as pessoas do carnaval, e aí aparece o pessoal da Dandara, cantando as músicas do Dandara… Esse dia é muito bonito, porque esse dia a gente se misturou. Foi esse ano que o movimento da cultura encontrou com o movimento das ocupações urbanas, e existe uma síntese da cultura com o movimento social que gerou um terceiro tipo, que é um movimento social mais carnavalizado e um carnaval mais ocupacionista, criando um ser híbrido que, para mim, vem do dia desse encontro que terminou numa Praia da Estação. Mudando uma ideia de que, até então, a Praia era um movimento rigorosamente de classe média, rigorosamente até 2012, eu acho que aí a coisa começa a se diversificar para todos

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Guto Borges com alto-falante no desfile bloco Mamá na Vaca, 2013. Créditos: Flávia Mafra

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o que se existia e era vendida essa imagem de uma cidade abandonada. Voltando a 2009, a gente saiu com o Tico Tico, e no dia do Peixoto choveu e nós fizemos um baile lá dentro do Brasil 41. No sábado, depois do carnaval, teve Vira o Santo, que já existia no Santo Antônio, e na verdade, se tratou de um encontro de blocos. A Sylvia que foi minha vizinha puxou, e já teve aquela história: “Carnaval só no ano que vem”. Esse ano foi muito importante porque essa história reverberou, foi muito marcante para esse grupo que atua até hoje, estava o Joviano (que mais tarde fez o bloco do Estrela), o Roberto Andrés, o Ceará (do Bloco Chama o Síndico), muita gente que ficou se conhecendo naquele ano. Em 2010, meu tio Augusto, que sempre morou na rua de cima da minha - moro na Rua Cristina -, pai do meu primo Dani, me chamou num canto e disse que a gente criaria um bloco. Aqui no bairro já existia o Santo Bando que já enfrentava problemas do povo que fazia xixi na rua, cercamento de rua, e inclusive passaram um período sem fazer o bloco. O meu tio preocupado, disse para gente chamar a BHTrans, pedir para fechar a rua e tal, e na época a gente já viveu um pouco um impasse familiar. O bloco era a minha família: meu tio, meus primos, eu e meu pai. Eu tentei explicar para ele sobre a espontaneidade do bloco, porque a gente não era um evento, e foi um começo para até mesmo nós pensarmos no que seria esse bloco. É importante lembrar que o Decreto do Lacerda foi do final de 2009, a Praia começou a acontecer no início de 2010, e os blocos Mamá na Vaca e Tetê a Santa surgiram no mesmo ano. Tinha que ligar e pedir pelo amor de Deus para um maluco que tivesse surdo viesse tocasse com a gente no bloco. Lembro de ir na Praia convidar as pessoas para irem no bloco, e muitas até duvidavam. “Bloco de carnaval em BH?”, o pessoal ria da nossa cara, mas rolou. Em 2009, a Chaya Vazquez estava grávida e tocou, mas 2010 a gente formou uma dupla de regência. E era uma coisa de louco porque nessa época a gente ficava tocando 12 horas por dia, os blocos eram sempre aquelas mesmas pessoas e a gente

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tocava direto e o tempo inteiro. Lembro de chegar em casa com as costelas doendo de tanto cantar, gritar nos bloquinhos. Não existia sopro, os blocos eram só no gogó, na caixa e no surdo. Eu ficava mais na função de puxar as músicas enquanto tocava uma caixa, e a Chaya mais voltada para a harmonia da bateria. Era praticamente um bloco de guerrilha, que tocavam todos os dias. Aí começou a coisa de já cantar outros tipos de música além das marchinhas, um axé, um Tim Maia. E eu insisti muito na questão das marchinhas no início e era até criticado, mas não tinha jeito porque era a música que todos sabiam cantar, e tinha que ser no coro. Não tinha microfone, ou a galera dos metais que tem hoje, e sustentar um repertório e a vibe por horas era difícil. E insistimos muito em cantar músicas da cidade também, principalmente depois quando fomos pra Praia, Peixoto e tudo mais. E é engraçado como depois esses estilos musicais foram setorizando, um bloco só de Tim Maia, outro só de axé, e por aí vai. Mas no começo o importante era explorar essas músicas do inconsciente popular mesmo. Em 2010 Fizemos o percurso do Mamá para passar atrás da FAFICH28 e chegar na vaca para pintá-la, que meu tio já tinha uma história. Depois a gente descobriu que nos anos de 1980 tinha um grupo de estudantes de Belas Artes que pintavam a vaca, faziam intervenções na tora mesmo, sempre renovando, e anos depois conversando com o Marcelo Nitsche que é um artista paulista que fez a escultura, ele disse que ficou sabendo disso uma época e achou demais a galera se apropriar da vaca. Isso era uma ideia do meu tio, de fazer essa coisa pequena, e pintar a vaca. Ele até chegou a conseguir a licença da Prefeitura para pintar a vaca todos os anos, não sei como. Vinha de uma história familiar, também do bairro, e de celebrar a cidade, aquele ícone e optamos em manter a espontaneidade, não registrar aquilo como um evento como era o Santo Bando. No dia do cortejo a gente chegou a enfrentar uns problemas, de carros e ônibus que queriam passar, mas era uma tecla que eu batia muito. De que aquilo era uma vez no ano, e que a gente tinha chegado mesmo, mas pesava que

28 - O antigo prédio da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), da UFMG, na Rua Carangola, 288, no Bairro Santo Antônio, que em 1990, foi transferido para o campus Pampulha. Disponível em: <http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2014/04/01/interna_politica,513892/em-memoria-da-resistencia-em-bh-predio-da-fafich-e-tombado.shtml>. Acesso em: outubro 2015.

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Desfile bloco Mamá na Vaca, 2013. Créditos: Flávia Mafra

esses problemas que passamos era muito por uma falta de credibilidade por não ter carnaval na cidade. As pessoas riam, não queriam ir, mas hoje brigam para tocar no bloco. Antes a gente custava para conseguir gente para tocar e instrumentos. Tinha gente que levava surdo de bateria, furava o surdo da banda tocando com a baqueta errada, era uma dificuldade. Em 2010 chega a Praia da Estação já performando uma política para a cidade. Em 2011, sentamos e definimos os dias dos blocos para o carnaval. Já tinha Mamá, Tetê, Peixoto e Tico Tico, então falamos que no sábado seria o Bloco da Praia - que terminou no Brasil 41 para encontrar o Approach - e ficou faltando a segunda, que ficou com o bloco Filhos de Tcha Tcha, que nasceu de uma conversa de boteco. Em 2011, ter um bloco era fazer um estandarte e ter uma música, até porque era um movimento que tinha muitos compositores. A regra era: levante um estandarte, cante suas músicas,

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e se não tiver, cante marchinhas. Tinha já muito isso de usar a internet para divulgar as marchinhas, e as informações. E aí as músicas tinham que ser compostas para ser cantadas, extremamente popular, porque a única forma de fazer o som era com a galera cantando. Bom, se é para ter carnaval, é pra ter carnaval em qualquer circunstância. Tenho que dizer que carnaval não são flores, principalmente em BH. Em 2011, choveu pra caramba. Foi o primeiro ano dos Filhos de Tcha Tcha e o pai de uma amiga nossa apareceu tocando trombone, na frente do Orlando. Foi lindo! Nesse ano que o Bloco da Praia tomou tiros da PM no Brasil 41, que fizeram um cerco gigantesco. Também aconteceu a treta da cerveja. A Regional Leste enviou um comunicado aos bares, informando que os estabelecimentos que vendessem cerveja para os blocos tomariam multa. O Brasil 41 tomou multa, e temos registro da Dona Jacira assinando um B.O. lá por distúrbio da ordem, essas coisas. O poder público estava agindo de forma repressiva. Em 2012, os jornais ligavam exigindo a programação, e nós nos mantínhamos resistentes. Foi nesse ano que sentamos para conversar com a Prefeitura pela primeira vez. O 2012 é um ano que as coisas começam a dar certo. Começa a ter banheiro, trânsito e estrutura. A gente viu que não dá para chegar e ocupar. Nós precisávamos de uma conversa com o poder público e eles vieram com o papo de cadastramento. Enfrentamos e dissemos, não vamos tirar alvará, não vamos virar um “evento”, não somos marca, não somos um CNPJ, nem geramos lucro. A gente era uma manifestação popular. Chegar em uma praça e tocar violão é o mesmo que chegar em uma praia para tocar violão, é uma manifestação pública, é uma manifestação popular. Nós somos um desejo da cidade. Não digo que somos a voz da cidade, mas a gente é a cidade também e isso demanda investimento público. A Prefeitura tem que botar banheiro, limpar no dia seguinte porque isso é a sociedade usando a cidade. Nós não somos um evento. E isso sequer estava no código de postura da cidade, não existia

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algo no radar da lei que entendesse que a sociedade podia se organizar, fazer um bloco de carnaval e que isso era uma manifestação pública. Naquela época ou era um evento privado, de um produtor ou de uma marca, ou não existia aos olhos do poder público. E aí tinha que ser toda essa parafernália de palco, cercamentos. Tanto que o Santo Bando parou de sair uma época por causa disso. A Prefeitura dizia que eles precisam de grade e os bombeiros diziam que não podia ter grade. As próprias instituições se contradiziam. O nível burocrático é grande, o que foi ficando claro pra gente que era um projeto de cidade do poder público. Um projeto que estava no código de postura da cidade, na ação da polícia, no desligar a fonte na Praia da Estação, no fingir que a gente não existe. Tinha um projeto de cidade em curso e que combateu o carnaval em Belo Horizonte. Que não apenas acabou com o carnaval, mas que tentou acabar com o seu renascimento na cidade, que tem um nome muito claro pra gente que é o Márcio Lacerda. Um projeto privatista de cidade, em que se resumia: não interessa ter um carnaval na cidade. A cidade é um acúmulo de mundos privados: casas, empresas e carros para as ruas. Não existe uma dimensão pública. Se um monte de gente se junta na rua para celebrar a cidade, é um caso de polícia. E isso nem era debatido com a gente, o que íamos discutir na Prefeitura era que o carnaval era uma demanda pública e a prefeitura tinha que arcar com isso. Porque o que acontecia era que a polícia e a BHTrans tiravam férias no carnaval, e na verdade o que era preciso era aumentar o efetivo dos órgãos públicos porque o carnaval começou a dar trabalho. E no fim do ano vem o Lacerda no debate político durante a sua campanha de reeleição tentando capitalizar isso desde então, de que em sua gestão o carnaval renasceu em BH com mais de 40 blocos. A gente se juntou e fez uma resposta e nota de repúdio junto de mais de 25 blocos29. E desde então a prefeitura tentando correr atrás do carnaval e no começo a gente conversava muito porque todos se conheciam. E falávamos muito disse que não 29 - Ver vídeo Quem não gosta de samba - Repúdio dos Blocos de Rua do Carnaval de BH ao candidato Marcio <https://www.youtube.com/ watch?v=i2bjAv4CwiI>. Acessado em: Outubro de 2015.

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poderia ficar só entre a gente, o carnaval tem que se dissipar e contaminar a cidade, seja pela ocupação ou pela criação de mais blocos carnavalescos. Além disso, tinha ainda a imprensa, órgão privado de comunicação, que sempre tentava capitalizar para vender a notícia e chegava querendo que a gente passasse uma programação para divulgação que a gente não tinha a obrigação de passar. Até porque BH tem essa mania de celebrizar um grupo, aí Belo Horizonte inteira vai correr atrás de um ou quatro grupos, pessoas, e jogar o cara lá em cima. E a gente tinha muito essa questão de disseminar, teve muita gente que passou um ano de carnaval com a gente, saiu e foi lá fez seu bloco. Tentávamos sempre disseminar, não queríamos ser marcados como “a turma do carnaval”. Sempre lutamos contra a Prefeitura e o mercado. Porque o mercado tem muito disso do pessoal simplesmente querer ir lá e consumir uma coisa pronta. De não querer fazer aquilo, como se o carnaval vendesse quatro dias de felicidade. De gente perguntar, que roupa eu tenho que vestir, qual é a cor que tem que usar nesse bloco? Onde é que horas? Vai estar legal? Era até uma forma de frustrar isso porque a gente não estava no caderno de cultura do jornal, não é uma indústria cultural. Em 2012, já teve o ataque da Skol, foi quando eu escrevi o texto “Confundir: carnavais e revoluções”30 e deu uma animada na galera, porque na época tinha muito bloco fechando um patrocínio com a Skol que não tinha nada de vantajoso para os blocos. Era uma proposta que o cara tinha que tocar no Granfinos, que o pessoal também tinha que deixar a marca colocar um balão dela no dia do desfile, umas selvagerias assim, e que aproximava muito do que fizeram no carnaval de Ouro Preto. Hoje em dia já não tem dessa da Skol ir conversar com os blocos, de negociar em balcão. Eles têm uma conversa nos bastidores, com a Prefeitura, vão direto na Belotur e compra o carnaval no atacado. Aí bancam os banheiros químicos, e a Belotur cerca áreas da cidade e vende aqueles espaços públicos para eles. Aí dentro daquelas áreas só se vende as cervejas deles. Fato similar ocorreu com a secretaria ligada ao turismo em

30 - Disponível em: <http://variavel5.com.br/blog/caps-lock-carnaval/>. Acesso em: Outubro de 2015.

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Estátua da Vaca na Rua Leopoldina. Crédito: Flávia Mafra

Ouro Preto com o patrocínio. Mas em 2012, o carnaval de Ouro Preto ainda estava salvando. As pessoas ainda estavam indo para lá. Hoje o Carnaval de Ouro Preto vem perdendo força por causa da cobrança, abadás e patrocínios. O que acabou com o carnaval de lá, porque fica nessas de se tem grana ok, se não tem não vai ter carnaval. A gente discutia muito sobre entrada de dinheiro e ainda discute, de talvez se perder essa espontaneidade e essa questão política do carnaval de BH. Os blocos não têm que pagar para a Belotur ceder espaço para eles usarem a rua. Além disso, o mercado de Belo Horizonte vem crescendo, né? Está todo mundo vindo para cá. E aí esse debate está muito ligado na questão de os blocos começarem a sair do centro. E eu cheguei a escrever um texto mais recente para o Jornal Estado De

31 - Horizontes de Rua e de Luta. Jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, 7 de março de 2015. Disponível em: <http://divirta-se.uai.com.br/app/ noticia/pensar/2015/03/07/noticia_pensar,165378/horizontes-de-rua-e-de-luta.shtml> acessado em outubro de 2015.

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Minas31 já falando da descentralização, sobre o fato do carnaval só ter sobrevivido por causa das áreas periféricas da cidade. Porque ele foi expulso do centro de decisões, e a memória só sobreviveu fora da Contorno - no sentido fora do traçado político de Belo Horizonte - porque dentro dos limites de controle da cidade o carnaval foi assassinado. E essa memória a gente só teve acesso quando os blocos foram para lá, para as ocupações, morros, o bairro Concórdia, Lagoinha. Porque a memória da cidade, do centro ela foi massacrada pela destruição do mercado, destruir a Praça Vaz de Melo para a construção de um viaduto, destruir casa antiga para dar lugar a um prédio novo. Digamos que o resquício de memória está fora dos olhos do poder, e isso está mantendo o carnaval vivo. No texto eu falo que o carnaval é uma memória fora da lei, porque o regime urbano é nocivo, fora da lei ainda é possível acessar uma memória da cidade na periferia. Os blocos saíram do radar, e dos olhos do poder, e ir por exemplo para o São Geraldo, a favela da Serra, que foi um dia especial para mim, porque é um território também muito visado - do candidato político apertar a mão do cara que vive lá, ao projeto social, a polícia, ao boy que quer pegar cocaína. No dia em que a gente foi com o Tico Tico, foi difícil romper isso, essa desconfiança, mas quando se rompeu foi um dos dias mais insanos da minha vida. Virou meio baile funk, meio carnaval, foi de chorar. A imagem mais forte que eu tenho de 2012. Nesse ano teve a Orquestra Voadora32 aparecendo de surpresa no meio do Mamá na Vaca, as coisas já estavam bem grandes. O Alcova Libertina já dando problema no Santa Tereza, a coisa já começa a ganhar ares de uma festa da cidade mesmo. E particularmente, para mim isso já não é mais eu e a Chaya Vazquez quase morrendo carregando o carnaval nas costas. 2012 tem um sabor de uma felicidade muito grande. A cena autoral, tem uma música nossa fazendo sucesso na cidade33. Ao mesmo tempo os blocos estão grandes, ainda estão dentro de uma proposta. A coisa do Então Brilha!. Em 2012 o Brilha já está grande, bonito, já encontra no fim do seu trajeto com a Praia, então a gente já tem esse calendário bem diverso, já tem o Manjericão.

32 - Formada em fevereiro de 2008 a partir de encontros em diversos blocos de carnaval de rua do Rio de Janeiro, a Orquestra Voadora alçou os primeiros voos pelas ruas da cidade apropriando-se do espaço público e dando início a uma renovação do conceito de ‘fanfarras’ no Brasil. <www. orquestravoadora.com.br> acessado em outubro 2014. 33 - Música “Apocalipse do Amor”, da Banda Dead Lovers Twisted Heart, a qual Guto Borges é integrante, do disco Lóvi lançado em 2012.

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Estátua da Vaca na Rua Leopoldina. Crédito: Flávia Mafra

Mas em 2012, o carnaval de Ouro Preto ainda estava salvando. As pessoas ainda estavam indo para lá. Hoje o Carnaval de Ouro Preto vem perdendo força por causa da cobrança, abadás e patrocínios. O que acabou com o carnaval de lá, porque fica nessas de se tem grana ok, se não tem não vai ter carnaval. A gente discutia muito sobre entrada de dinheiro e ainda discute, de talvez se perder essa espontaneidade e essa questão política do carnaval de BH. Os blocos não têm que pagar para a Belotur ceder espaço para eles usarem a rua. Além disso, o mercado de Belo Horizonte vem crescendo, né? Está todo mundo vindo para cá. E aí esse debate está muito ligado na questão de os blocos começarem a sair do centro. E eu cheguei a escrever um texto mais recente para o Jornal Estado De Minas31 já falando da descentralização, sobre o fato do carnaval só ter sobrevivido por causa das áreas periféricas da cidade. Porque ele foi expulso do centro de decisões,

31 - Horizontes de Rua e de Luta. Jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, 7 de março de 2015. Disponível em: <http://divirta-se.uai.com.br/app/ noticia/pensar/2015/03/07/noticia_pensar,165378/horizontes-de-rua-e-de-luta.shtml> acessado em outubro de 2015.

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e a memória só sobreviveu fora da Contorno - no sentido fora do traçado político de Belo Horizonte - porque dentro dos limites de controle da cidade o carnaval foi assassinado. E essa memória a gente só teve acesso quando os blocos foram para lá, para as ocupações, morros, o bairro Concórdia, Lagoinha. Porque a memória da cidade, do centro ela foi massacrada pela destruição do mercado, destruir a Praça Vaz de Melo para a construção de um viaduto, destruir casa antiga para dar lugar a um prédio novo. Digamos que o resquício de memória está fora dos olhos do poder, e isso está mantendo o carnaval vivo. No texto eu falo que o carnaval é uma memória fora da lei, porque o regime urbano é nocivo, fora da lei ainda é possível acessar uma memória da cidade na periferia. Os blocos saíram do radar, e dos olhos do poder, e ir por exemplo para o São Geraldo, a favela da Serra, que foi um dia especial para mim, porque é um território também muito visado - do candidato político apertar a mão do cara que vive lá, ao projeto social, a polícia, ao boy que quer pegar cocaína. No dia em que a gente foi com o Tico Tico, foi difícil romper isso, essa desconfiança, mas quando se rompeu foi um dos dias mais insanos da minha vida. Virou meio baile funk, meio carnaval, foi de chorar. A imagem mais forte que eu tenho de 2012. Nesse ano teve a Orquestra Voadora32 aparecendo de surpresa no meio do Mamá na Vaca, as coisas já estavam bem grandes. O Alcova Libertina já dando problema no Santa Tereza, a coisa já começa a ganhar ares de uma festa da cidade mesmo. E particularmente, para mim isso já não é mais eu e a Chaya Vazquez quase morrendo carregando o carnaval nas costas. 2012 tem um sabor de uma felicidade muito grande. A cena autoral, tem uma música nossa fazendo sucesso na cidade33. Ao mesmo tempo os blocos estão grandes, ainda estão dentro de uma proposta. A coisa do Então Brilha!. Em 2012 o Brilha já está grande, bonito, já encontra no fim do seu trajeto com a Praia, então a gente já tem esse calendário bem diverso, já tem o Manjericão. É um ano solar do carnaval, porque a gente sai desse embate do pesado 2011, desse carnaval pesado do início, que é maravilhoso e teve esse sentido meio que virando 32 - Formada em fevereiro de 2008 a partir de encontros em diversos blocos de carnaval de rua do Rio de Janeiro, a Orquestra Voadora alçou os primeiros voos pelas ruas da cidade apropriando-se do espaço público e dando início a uma renovação do conceito de ‘fanfarras’ no Brasil. <www. orquestravoadora.com.br> acessado em outubro 2014. 33 - Música “Apocalipse do Amor”, da Banda Dead Lovers Twisted Heart, a qual Guto Borges é integrante, do disco Lóvi lançado em 2012.

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um game histórico heroico. A impressão que eu tenho é que em 2012 a gente chega em um outro registro com todos os perigos, com todos os percalços. Teve a ação da PM no Bloco da Praia, e uma das conversas que se havia de ter com a Belotur era de que não poderia ter repressão policial e que se tratava de uma manifestação pública. Teve esse dia que um comandante manda meter bala, a galera até comemora achando que era um foguete e quando foi ver era gás lacrimogêneo. O já bloco estava andando já, estava indo para o Brasil 41, nem chegou a dispersar não, a galera ainda se divertiu com a história, mas foi grave. E a gente foi lá e conversou sobre o absurdo que inclusive estava se repetindo. Essa é a sensação que eu tenho de 2012 que foram vários momentos bonitos, momentos de bons encontros, pessoas que não entendiam muito bem o carnaval, que estavam entendendo pela primeira vez. O tom que esses blocos tinham - por exemplo - o Bloco da Praia sempre foi isso, parava na frente da Prefeitura e lia lá um manifesto, cantava “Ei, Lacerda, seu governo é uma merda”.

“Ei, Lacerda, seu governo é uma merda” .

A gente vinha de um crescente de mobilização e ganhando forças. Em 2012 no final do ano, durante as eleições - um dos momentos mais importantes que eu acho e que não data do carnaval - é quando tem uma manifestação do Fora Lacerda que não está no carnaval mas tem tudo a ver porque você vê um tanto de bandeira do Fora Lacerda, a galera com um boneco do Lacerda, era uma grande manifestação contra o prefeito. Prevalecia esse tom que a gente estava com uma ideia de cidade, e inclusive a gente cantava isso nas marchinhas. Na verdade, era uma manifestação 34 - Ocupação urbana surgiu em abril de 2009 com 150 famílias, no bairro Céu Azul, e hoje conta com mais de cinco mil famílias de acordo com o movimento Brigadas Populares.

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contra o prefeito, mas afirmando uma cidade. A gente queria uma cidade, começouse a vislumbrar uma cidade, 2012 era o ano da eleição… e nesse dia do Fora Lacerda, o Dandara apareceu. Foi a primeira vez que a gente estava com a bateria do carnaval, as pessoas do carnaval, e aí aparece o pessoal da Dandara34, cantando as músicas do Dandara… Esse dia é muito bonito, porque esse dia a gente se misturou. Foi esse ano que o movimento da cultura encontrou com o movimento das ocupações urbanas, e existe uma síntese da cultura com o movimento social que gerou um terceiro tipo, que é um movimento social mais carnavalizado e um carnaval mais ocupacionista, criando um ser híbrido que, para mim, vem do dia desse encontro que terminou numa Praia da Estação. Mudando uma ideia de que, até então, a Praia era um movimento rigorosamente de classe média, rigorosamente até 2012, eu acho que aí a coisa começa a se diversificar para todos os lados, e começa aí os grandes desdobramentos, em política, em encontros reais. O Rafa sai do Santa Tereza em 2012, o Tico Tico começa a ir cada vez para lugares mais distantes, foi pra Serra. É o princípio desse movimento de deriva, como se fosse esse alvoroço de conhecer, de se misturar, de reinventar, de guardar esse sabor aí de 2009, no sentido de reinventar o carnaval a todo instante. Então eu acho que 2012, mesmo sendo um ano solar, desencadeou alguns pontos que começam a se engessar, o rito começa a se repetir, começam a se formar cinturões de consenso e acho que é aí que começa esse movimento de querer seguir renovando, a gente no grupo se preocupa com isso. Nesse ano, tudo fluiu e depois de toda essa “fluição”, as pessoas começam a cobrar, “tem que ser assim”, “tem que fazer de tal jeito” e é sempre assim. Tem gente que acha que o Mamá na Vaca tem 20 anos, tem gente que acha que eu nasci tocando tamborim no meio da rua, sendo que na verdade, tudo isso foi inventado, todas essas cenas que a gente vê se repetir no carnaval, são todas inventadas, foram recuperadas. Me frustra um pouco ver a coisa se sedimentar, uma coisa que sempre me chamou a atenção e que eu sempre

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fiz questão foi nunca parar, para não ser facilmente lido, vendido, e ser absorvido, até 2012 estava muito clara essa coisa do mercado.Em 2012 ainda há a reeleição do Márcio Lacerda e a morte de uma amiga, a Ciça35. Isso eu acho que é um âmbito mais pessoal, foi um momento muito pesado para mim, foi uma figura que eu cresci bem próximo, estudamos na mesma escola quando criança. Em 2011 eu estive em Londres e a Ciça morava lá, eu estava há vários anos sem vê-la e ela estava super interessada por BH, queria voltar e ela sempre foi muito ligada à cidade, viveu a BH dos anos 1990 que foi muito interessante, eleição do Patrus, os projetos da Prefeitura (BH Popular) e quando ela vê esse negócio de que o Patrus está aqui, vem de cabeça nessa história, faz a campanha dele, mega se envolve, envolve no Fora Lacerda e na noite da eleição ela toma um tiro. Entram na casa dela e matam a Ciça, na noite da eleição. No dia seguinte era o dia da votação e o Lacerda ia ser

35 - Atriz Cecília Bizzotto foi assassinada em sua casa no bairro Santa Lúcia em outubro de 2012, durante um assalto. <http://www.hojeemdia. com.br/horizontes/atriz-cecilia-bizzotto-morre-baleada-dentro-de-casa-no-santa-lucia-1.42126> Acessado outubro 2015.

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Concentração do Bloco Mamá na Vaca na Praça Cairo. Crédito Flávia Mafra

reeleito. E isso acabou comigo, eu nem sei quantos dias eu fiquei de cama, quase não aguentei, porque era uma mistura de tudo isso. Foi uma frustração muito grande em todos os âmbitos e com um golpe muito forte, um desfecho muito agressivo, eu viajei - na época - tive que sair de Belo Horizonte, tive que ficar um tempo fora, mas acabei indo a um lugar muito pior. Fui para o Araguaia, fazer um trabalho sobre o Araguaia, foi um momento muito difícil. Então eu acho que vem disso um pouco, essa ressaca, tem um luto (eu falo pelo âmbito pessoal), mas tem um luto do movimento, o prefeito não só se reelegeu, como ele teria oito anos de Belo Horizonte, essa coisa de Fora Lacerda já não fazia tanto sentido, porque quando acabasse o período do segundo mandato, ou ele se candidatava à outra coisa, ou ele não se reelegia mais (o que vai acontecer no ano que vem). Já 2013 é um ano que eu não tenho bem claro na minha cabeça, uma das imagens

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Bloco Mamรก na Vaca em 2012. Priscila Musa

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muito fortes que eu tenho de 2013, que foi o ano da bandeira. Foi em 2013 que aconteceram aquelas manifestações, né… É o ano que a gente escreveu o Imagina na Copa . Foi quando começou o PPK, foi um dos momentos bonitos, o Tico Tico foi nas Torres Gêmeas, foi o ano que o Tico Tico foi ao Serra. A cena que eu tenho forte foi quando eu, a Sílvia, o Kenny e o meu primo Dani, subimos no viaduto e amarramos a bandeira do Fora Lacerda lá em cima. Nessa coisa de luto, a bandeira do Fora Lacerda virou até um pouco essa coisa carnavalesca, mais a gente vai seguir carregando isso, e amarramos no final do carnaval nesse símbolo de Belo Horizonte, essa coisa poética. E eu lembro que eu escrevi para o Dani, devo ter falado, alguma coisa nesses termos assim “agora a guerra começou”. E foi assim, eu tive um sonho logo depois do carnaval, um sonho meio de uma guerra, uma coisa muito violenta, em 2013, de uma confusão muito grande. E nos meus sonhos até então, tinham uma coisa, que a gente vinha do carnaval e não conseguia entrar na cidade, eu tinha um sonho em que a gente vinha e quando a gente ia entrar em Belo Horizonte a gente dispersava, ia cada um para um canto e a gente não entrava, é como se a gente viesse do carnaval e depois a gente se perdesse, uns dos outros. E nesse ano eu tive a impressão de que a gente entrou mesmo, o sonho que eu tinha era esse. E o engraçado foi que eu escrevi isso para o meu primo e li essa mensagem depois das manifestações, em um cenário de guerra e eu falei isso para o Dani, como essa bandeira mudou para mim o seu significado e como que no sonho a gente entrava na cidade e, de fato, o pau quebrava. As maiores marcas de 2013 eu acho que vieram nesse âmbito, e como o imagina na Copa era uma música inocente - a parte do que aconteceu mesmo, de fato, que foi para o Concurso36 - mas adiantava o que viria a ser mesmo o ano de 2013. A gente não imagina o nível de violência com o qual a polícia ia agir e como isso continua reverberando até hoje, é difícil de entender, né?! Igual à guerra, é difícil de falar, eu nunca falei - na verdade - 2013 eu estava até a tampa e eu nunca consegui falar, explicar o que aconteceu em 2013. Essa foi a época que eu comecei a colar mais forte

36 - Concurso de Marchinhas Mestre Jonas.

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na galera do funk, em 2013 aquela confusão toda começou a me jogar para uma outra visão. Tem uma história que eu sempre contei sobre 2013, uma das poucas coisas que eu consigo dizer, é essa história de um dia que eu estava lá na frente de confronto nas manifestações de junho, o pau quebrando, eu estava devolvendo bomba, esses negócios assim, e aí queimou minha mão, deixei o negócio cair e veio muito e eu meio que apaguei e só lembro de um menino muito baixinho me arrastando pra fora e falando “e aí guerreiro, tá tudo firmeza aí?” e aí eu saquei que quem estava na frente ali era só molecada de perifa. A para mim foi só funk em 2013 e fiquei só viajando nessa coisa de bandido, fora da lei e tal. Quando desci no Bloco do Viaduto no final do carnaval esse ano, virei para o Dani (meu primo Daniel), eu de Superman, ele com a mesma peruca de 2009, e comentei “Começou uma guerra”, afinal era um gesto que no fundo a declarava, alguns dias depois, mandei uma cartinha para ele. Alguns meses depois, ela veio de fato, inundando tudo. Ontem conversando sobre os signos não lineares da antecipação dela, a reli. “Engraçado, Dani, é que ano passado ao voltar dos blocos, dormia e sonhava todos os dias. Essa coisa dos sonhos me contaminou muito, era por dia, um carnaval acordado e outro sonhando. Num deles o Wando (porque 2012 foi o ano que o Wando morreu, ainda teve essa...) já morto apareceu para mim, já contei essa história várias vezes, num outro, na quarta-feira de cinzas eu sonhei que acordava em um ônibus e a gente voltava todo mundo de uma viagem, todo mundo vinha dormindo, com os instrumentos e tudo. Viajamos como quem volta para Belô, mas havia um problema de que não conseguíamos entrar na cidade, que a gente não podia entrar na cidade, não conseguíamos, descíamos e na ânsia de achar uma saída ou uma entrada nos perdíamos dos outros. Entre as ruas e os viadutos, sumíamos… Era esse o sonho, mas esse ano eu sonhei - no domingo, depois de nos encontrarmos na sua casa - que a gente seguiu em frente em um bloco. É engraçado como sempre houve uma utopia, desde 2009, um delírio mesmo de nossa parte

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que o Glauco definiu lindamente “A alegria de uma cidade inteira” e isso inclui a gente e profundamente nós mesmos, um carnaval lá fora, outro aqui dentro e de fato - hoje está mais claro para mim, esses dois mundos se refletem, como em um jogo de espelhos, como uma luz. Essa coisa da bandeira lá no alto do viaduto deu um tom diferente para tudo esse ano para mim, me tocou mesmo, porque me pareceu o início de novo. Uma nova jornada ainda mais alta e mais profunda. Acho que esse ano, essa bandeira do “Fora” ganhou um tom novo, estava no carnaval mais ampla, mais carnavalizada também, ganhou cara de um estandarte à alegria e a alegria mesma se encaminha ao mundo e do mundo em nós, um caminho em frente, ainda que seja para o alto e avante”. Ainda sobre 2013 eu acho que tem essa espécie de novo jogo, até hoje, a gente está falando já de três carnavais, a Prefeitura consegue ganhar, ter o carnaval na mão. Este ano teve essa resposta dos blocos à questão da Skol muito forte, que reverberou na imprensa que foi aquela carta repúdio ao uso da imagem dos blocos pelas agências de publicidade que foram autorizadas pelo patrocinador que comprou o carnaval na mão da Prefeitura. E aí os blocos disseram “Não! Esse carnaval não é da Prefeitura para eles venderem e negociarem por lá”, então aquela discussão de 2012 de alguma forma ainda é válida, a nossa festa continua sendo uma festa da cidade. E eu acho que foi ficando mais claro, principalmente para esses grandes blocos muito massivos, que é muito mais interessante para eles fazer o show deles do que ficar vendendo bloco, porque isso esvazia, e eu acho que é um tiro no pé do próprio bloco, porque ele fica com aquela cara de qualquer coisa e o bloco, na verdade, tem uma identidade muito mais forte, ele é autônomo e isso é importante, depois até para as carreiras de quem participa. Isso tem desdobramentos na cena, e quando eu falo de 2013 o reinício, eu também começo a enxergar a cidade de outra forma, começo a ter esse movimento em direção mais às periferias. Os blocos também começam a praticar de forma mais explícita e mais consciente esse deslocamento para a periferia e não é à toa que o meu texto esse ano é bem baseado nessa história.

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Foliões Fantasiados no Mamá na Vaca em 2014. Crédito Flávia Mafra

Começo a ver essa força mesmo, fora desse cinturão e isso me atrai muito, não só a mim, começa a ser um movimento da cultura, com toda dificuldade, mas começa a ser um movimento e que não é totalmente anônimo, porque as pessoas sabem disso, o carnaval sabe disso, a imprensa reverbera isso, desse gesto de ir às periferias. Teve o filme, né? Que também foi feito, Carnavais e Revoluções, filmado em 2014 e que saiu esse ano, e que teve também um respaldo grande. Uma das coisas é o deslocamento, as pessoas ficam meio: “que povo louco!”, que tá no centro com aquele tanto de gente, mas ao mesmo tempo está nas ocupações urbanas, está nas periferias. Esse traço do Dandara de 2012, em 2013, começa a ganhar mais força, essa coisa do Izidoro. Torna uma rede forte, afetiva, de cidade que foge disso aqui, eu falo sempre que as ocupações urbanas me soam como uma cidade por vir, que ainda vai existir, literalmente. Na rua que não está asfaltada, nas casas que estão sendo construídas,

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nos laços que estão sendo criados e a gente que está ali, vivendo um mundo com eles, colaborando com aquilo e não só no sentido da caridade, mas porque a gente vê também, aquilo ali é uma projeção importante de cidade. Uma perspectiva importante pra gente, afetivamente nós estamos ligados, acho que o carnaval teve esse papel nas ocupações, que as pessoas se ligaram, a cidade aumentou, entende? A cidade cresceu, eu sempre falo isso, no sentido do nosso senso geográfico e afetivo. A cidade cresceu para dentro. A cidade hoje em dia, para quem participou desse movimento, ela é muito mais rica, ela é muito maior, muito mais cheia de informações e a gente gosta muito mais dela por isso, sabe? Por esse motivo eu falo, esse disco37 tem as marchinhas que seguem, tipo o Pó Royal e eu falo com o Luiz Valente, da Vinyl Land Records, que faz todo o sentido 2009 e 2014, 2014 porque ainda tem essa história do Pó Royal e etc. Mudou tudo, porque ainda tem uma eleição de novo aí agora. Em 2015 o concurso de marchinha foi estranhíssimo, qual música ficou lembrada? Estranhíssimo… Não teve essa coisa, mudou depois de 2014. Eu acho que tem algo novo e é isso que eu estava te falando que a Praia do 7 de Setembro de 2015 foi muito marcante pra mim, porque eu falei: “Oh, esse primeiro desenho - de fato - encontrou alguns limites”, mas a gente tem novíssimos atores, ganhando essa geografia que está se expandindo ali do centro. A Virada Cultural também achei muito importante, essa coisa da Guaicurus ganhando força, além do Viaduto Santa Tereza fechado lá em cima, a Rua Sapucaí que consolidou também, essa coisa da Avenida Assis Chateaubriand ali que fechou para o rolimã… Eu acho que tem novos desenhos em curso, já não é mais a coisa de um grupo levando, eu acho que já tem um diálogo mais avançado e mais delicado também, em curso. A cidade em larga medida, eu estou falando alguns

termos que a Prefeitura já usa. Por exemplo, nesse

carnaval o Lacerda já usou termos como “ocupação do

espaço público”, então ele já tá tentando falar uma língua

37 - “Deita no Cimento”. LP Duplo Gatefold lançado pela Vinyl Land Records com 19 músicas marcantes do carnaval de Rua de Belo Horizonte entre 2009-14, com curadoria de Guto Borges.

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que é nossa, tentando apropriar dela nas entrevistas do

carnaval, que ele usa o termo “Liberticida”, inclusive

usando a coisa do carro, do trânsito né…

Falando que ficou uma hora parado no trânsito por conta de um bloco de carnaval, como se as pessoas não ficassem paradas horas no trânsito todos os dias. Então é delicado por isso, a gente já tem que começar a discutir uma qualificação, isso é uma coisa que eu tenho falado também, que já está na hora - a partir do momento que o poder está usando termos desse tipo - de a gente já qualificar o nosso termo, dá qualidade para ele, que ocupação é essa que a gente está falando? Eu acho que no caso da Virada Cultural, teve já uma Prefeitura ou uma Fundação Municipal de Cultura, que são várias instâncias ali naquela bagunça. Já cobrimos demanda reprimida que é aquela coisa de fechar a parte de cima do viaduto e ele ser amplamente ocupado e fazendo esse papel de legitimar alguns espaços que já estão sendo usados, seja o Viaduto Santa Tereza ou qualquer outro lugar… E sempre tem uma relação ambígua, né? Porque no caso do Viaduto Santa Tereza, fecha, mas prende o pichador. Reconhece que o Rap é o principal agente, hoje, daquele território, mas ao mesmo tempo a PM age perseguindo pichador, por fazer intervenção lá. Um discurso totalmente sem pé nem cabeça do Poder Público, mas acho que já tem alguma coisa, disso da Rua Guaicurus, de fazer esse movimento. São espaços que estão sendo legitimados, por causa do Brilha! ter comprado a história da Guaicurus com mais afinco, essa aproximação do Motel Brilhante. Então eu acho que a gente já tem uma nova geografia, novos atores, novos movimentos. O funk desceu, eu toquei funk no palco da Guaicurus com os meninos do passinho. Tiveram mil ações, né? É um pouco isso do que eu estou falando, a coisa continua a se renovar e a gente tem que ter olho para isso. Acho que todo esse movimento foi importante para desenvolvermos essa escuta da cidade, dessas demandas de cidade, essa leitura de cidade, complexificar a nossa cidade.

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A Página “carnaval de rua BH” 38 surgiu, não lembro bem, por volta de 2010/2011, para centralizar as informações sobre blocos e, de repente, a página foi ganhando um ar de página meio de balada e começou a surgir páginas de baladas de carnaval. “Carnavaliza BH”, que foi um termo que a gente utilizou no início e já teve gente que se apropriou desse termo e descontextualizou. O pessoal ficava assim: “E aí, galera?! Quem vai pro Bloco do Peixoto hoje?”. Essa página, no início, tinha milhares de administradores, é uma característica do início todo mundo fazer junto, mas aí ela foi ficando cada vez mais esquecida. Quando postamos alguma coisa, vamos fazendo em conjunto, como foi o caso do manifesto. O fato de ela ter ficado parada por um tempo se deve, em grande parte, por essa complexidade que começou a ter, no início era muito fácil, um grupo relativamente pequeno, que conseguia conversar e conseguia decidir as coisas. Em 2012 a gente ainda conseguia fazer isso, a maioria dos blocos é amigo do amigo e tal. A partir de 2013 foi fiando, já tinha a página da balada, já tinha os blocos com suas carreiras e páginas muito sólidas. Então a página virou uma maçaroca, mas a nota de repúdio foi algo que retomou um pouco o sentido da página, depois em 2013/14 a página deu uma caída, até no número de likes. E é muito engraçado, porque quando a gente soltou a nota de repúdio à Skol, teve uma galera que curte a página lá e disse: “Eu duvido que tanto bloco assinou essa nota aí”, e na verdade, a gente soltou aquilo e apareceu três vezes o número de blocos querendo assinar, e daí a gente teve que fazer um adendo. Eu fiquei impressionado com o tanto que esse espírito ainda é forte, de repúdio à Skol, repudio ao mercado, que não é a Prefeitura que faz o carnaval de Belo Horizonte. Esse discurso ainda é forte, ainda somos marcados por ser um carnaval que começou sem a Prefeitura. Em 2015, a Prefeitura armou uma opinião pública dentro dessa cena, que era uma casinha armada para uma criminalização. Então teve uma história lá no Santa Tereza, de que mataram um cara por causa de um bloco de carnaval. E assim, não colou. Essa história de bloco, tipo, Alcova Libertina na Andradas, não tinha nenhuma grade, né?

38 - Carnaval de rua BH. Disponível em: <https://www.facebook.com/carnavalderuaBH>.

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Em compensação, na Liberdade tinha grade até no teto… Em grande parte, eu acho que isso é uma negligência que passa para vir para o lado da criminalização. Acontece é que não deu muita coisa errada, teve ocorrências graves de machismo, homofobia, mas não foi o tom de violência, então eles ficaram meio sem ter o que afirmar e tinha essa história do Lacerda que já estava engatilhado o blocódromo da cidade, que na verdade, o blocódromo é tudo que a Skol quer também. Eu não sabia tocar nada e eu fui aprendendo tocando. Carnaval é tocar sem saber, é festejar. Nas reuniões, rolou um papo de remunerar quem toca nos blocos, fui totalmente contra remunerar músico durante o bloco. E o cara que berra o tempo todo do lugar de folião? Não vamos remunerar esse cara? O bloco é uma hora de doação, se a gente insistir muito, isso é o ano inteiro, essa relação de patrão, empregado, comércio… Isso é o ano inteiro, vamos tirar quatro dias do ano inteiro e viver uma relação de oferta mesmo, de doação. As pessoas foram entendendo, até porque a coisa foi se transformando em dinheiro em outras situações, mas eu sempre vi esse desenho de igualdade muito grande no bloco, de ter esse negócio da horizontalidade. É um jogo, o que vale é o momento. Uma outra história que eu queria compartilhar foi de uma menina do Brilha! que trabalha no aeroporto e que me escreveu uma dia falando assim: “Olha, Guto. Eu trabalhava no aeroporto e, inclusive, no carnaval era a época que eu mais trabalhava, porque muita gente ia viajar para fora de Belo Horizonte. Então, muitos anos da minha vida foi isso, carnaval eu arrumava minhas coisas, pegava um ônibus e ia. Agora, antes de trabalhar, eu vou uniformizada para a Guaicurus, pouco tempo depois deixei o emprego para trabalhar com cinema e agora estou tocando no Então, Brilha!”. E eu achei isso o máximo e sempre tento dar a maior força. Se a gente quer formar uma tradição, ela só vai se formar assim. Uma tradição não vai se formar com quatro ou cinco pessoas tocando. Depender só de se ir até lá, é um saber compartilhado, se a gente quiser ficar nessa de ‘só eu sei’ e ‘só acontece se

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eu tiver lá’, está errado. Tem que ser um saber disseminado, não tem essa divisão do músico e do não músico, é uma outra dimensão da música. Se você quiser ter uma cultura de carnaval, é isso. E é essa a identidade do carnaval daqui, é assim que ela vai se construir e é assim que ela se forma culturalmente, e a cultura é o que? É cada vez ter mais gente, é os músicos irem se renovando, é gente entrando, é bloco surgindo, é bloco acabando, é vivo a coisa tem que respirar, a coisa tem que andar. É o Magnólia que surgiu, é o bloco do Black Sambá, que só toca Black Sabbath, entendeu? É ilusão achar que um grupo vai sempre ser responsável por todas as novidades. O interessante é que na sociedade a cultura vai recriando sempre. E você ter sensibilidade para isso, de perceber que está todo mundo mandando bem na sua viagem. Eu me identifico mais com algumas propostas, particularmente essas que tem esse aprendizado e essa renovação na agenda, eu me identifico com isso. Gente diversificada, de outros ramos, outras idades e que tem bloco e que estão cantando todos juntos, não tem regra. E para mim, cada vez mais é isso, não tem regra clara, existem várias formas e hoje o que ainda me move é o fato de a coisa ter sempre essa fagulha, de levar adiante. Em 2014 foi a primeira vez que o Mamá na Vaca fez o caminho de saudar a Vila Estrela. Escolhemos fazer isso por dois motivos: um deles é porque a gente já conhecia o lugar e estava virando muito um bloquinho de bairro, do passeio pelo Santo Antônio e de repente a gente deu essa quebrada no trajeto ali, que eu vejo como uma cortesia com o bairro porque - por incrível que pareça - tem gente que mora no bairro e não sabia que existia aquilo ali. É como se, para essas pessoas, a gente tivesse incorporando eles a um bairro... E a gente foi lá mais pela história da saudação, de saudar o bloco caricato do bairro e que tinha sido campeão. O engraçado foi que eu passei lá e falei assim com o Lu - que é o mestre de bateria: “Ô Lu, vamos passar aí e tal”, ele achou legal. É bacana também porque eles vendem um churrasquinho para ajudar no desfile, então juntamos os meninos e chegou lá aquela multidão, tentamos tocar 36 - Concurso de Marchinhas Mestre Jonas.

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junto, comemos o churrasquinho e depois seguimos para a Congonhas, por causa da ameaça da demolição na Congonhas. 2014 foi um ano bem legal para o Mamá na Vaca, para tirar um pouco do padrão classe média do bloco e conhecer caminhos diferentes. 2015 já foi bem mais caótico, né? Choveu e a bagunça foi muito maior. É muito difícil renovar, mas foi uma renovação impressionante. É essa coisa de carnaval, faz muito mais sentido se encontrar do que não se encontrar. Eu gostava bastante dessa coisa improvisada que existia no começo, mas vai ficando cada vez mais difícil a improvisação conforme o carnaval vai crescendo. A gente sempre falou isso: não ensaiamos, criamos o repertório de guerrilha, qualquer coisa pode acontecer. Eu não ensaiava não, eu ia pra Praia e ficava tocando lá, isso era um ensaio para mim. Era a formação também, porque a galera colava na Praia era bem recebida e colava o carnaval inteiro, era impressionante como cada ano era uma bateria completamente diferente. Cada ano uma galera diferente que se juntava. Para mim, nunca existiu essa história de ter que deixar alguém tocar, toca quem quer e de forma diferente de acordo com o propósito de cada bloco. O Brilha! tem uma simplificação também e se torna fácil de pegar, tem um trabalho meio pedagógico sobre isso, e o difícil hoje é lidar com uma galera muito grande, uma sonorização muito grande. O PPK está com esse problema também, o Chama o Síndico meio que chutou o pau da barraca esse ano, teve gente demais, foi uma coisa meio “foda-se”, não importa se der 6 mil pessoas, vai ser roots mesmo, entendeu? E eu acho isso muito massa, porque o bloco é do tamanho que é. A nossa ideia é: “O Mamá na Vaca é essa zona aqui e continuará sendo, quem tiver achando ruim, que procure por outro carnaval, o Mamá na Vaca é isso aqui, foi mal!”. O bloco meio que tem um tema todo ano, esse ano muito político veio daí, dessa coisa mais combativa, do picho. Teve ano que foram as meninas do Baixa Bahia, teve aquela coisa da doação, que todo mundo ajoelhou na frente da vaca, e o pintor colocou algumas coisas douradas na vaca, todo mundo fez uma oferenda, levou alguma coisa e a vaca ficou lotada de oferendas, uma

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coisa bem indiana, um tanto de gente colocou colar, umas folhas, dando parte das fantasias, foi doido demais! Uma coisa própria do Mamá na Vaca é a Contorno, como ele é o primeiro bloco a sair, tem uma expectativa, está todo mundo na maior ansiedade e quando a gente atravessa a Contorno. Eu sempre penso: “Caralho! Agora começou”. Eu tenho impressão disso demais, o Mamá na Vaca é meio destrambelhado, todo mundo meio ansioso pra ficar doidão, pra tocar e pra dar tudo certo demais, e quando passamos ali, é o sinal: “Nó, começou!”. O Mamá não tem ensaio, tem encontros onde eu converso com o pessoal, peço para que eles me ajudem, replicando a coordenação, porque a bateria vai ser gigante e vão todos ser regentes. É isso, é ilusão achar que há a figura do regente hoje em dia, tanto que rolou uma grande aberração no Mamá na Vaca esse ano, de duas músicas ao mesmo tempo. Alguém chegou para mim e disse: “Guto! Você não acredita… Estão rolando duas baterias” e eu falei: “Sensacional!!!”. Eu realmente achei isso demais, a bateria foi ficando para trás e virou duas baterias. Eu sinceramente estou institucionalizando a ideia de que quando o bicho pegar formar duas baterias: “Houston, desacoplar! Encontro vocês lá em baixo, gente… Tchau!”. É sério, imagina ter várias baterias no bloco?! Ia ser doido demais, todo mundo se diverte. Eu estive pensando… “em um regime público, político, o que é o lugar de igualdade?”. É você não oprimir ninguém e ninguém te oprimir. Esse para mim é um desenho utópico, mas é um dos traços dessa busca. Eu acho que tem uma coisa que permeia desde sempre, que se renova e se complexifica cada vez mais, impondo desafios a todo instante, que é de renovar a ideia de igualdade, da não opressão e a ideia de liberdade e de igualdade. Eu diria que a grande luta do carnaval - quando eu digo da não opressão, na verdade é a definição de liberdade - é construir uma língua para a liberdade, porque ela não existe, aqui não, aqui a gente está inventando essa língua. Que linguagem é essa? É uma língua que a gente vem criando. E a língua é viva, né? 36 - Concurso de Marchinhas Mestre Jonas.

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Crédito Flávia Mafra

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Ela não é fixa, isso seria uma ideia equivocada, uma ideia até conservadora. Essa língua de liberdade é a língua da não opressão, é a língua da igualdade, do todo e de todos. Todos na diferença, não é que a gente tenha que viver a igualdade no sentido da padronização do mundo inteiro fazendo a mesma coisa. É, na verdade, se você mora no morro e é um sujeito humilde, pelo jeito que você fala, que você se coloca, que você se porta, e nessa relação as presenças não se oprimem. O diferente não tem que ser agressor, tem que respeitar as diferenças. Carnaval de rua e de luta, né? Essa frase traz a ideia em si, porque é uma luta! Não é o uso simples da rua, por exemplo, “Ah, vamos para a rua! E vamos fazer o que a gente quiser na rua, na hora que a gente quiser e do jeito que a gente quiser”, não é isso. Existe uma luta muito grande pela rua e para se manter nela, é um jogo muito intenso e muito forte, inclusive, estar na rua sem praticar esse tipo de opressão, sem incorrer daquilo que a gente está lutando contra. É para valer, e não tem segunda chance. Te colocam na fogueira, você tem que resolver, tomar as decisões na hora e se você não tem uma imagem muito clara e muito cristalina sobre o que se está sendo feito, é muito fácil se reproduzir o erro do opressor, porque é a língua recorrente, é a mais falada nessa cidade”.

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Diário

de Bloco Vaquinha Leopoldina abre alas do carná

Sábado, dia 7 de fevereiro de 2015. Apesar de estar há uma semana do começo oficial da folia, aquele era o dia de pôr o primeiro bloco na rua. Se no mês de janeiro e início de fevereiro já tinham ensaios todos os dias da semana - de diferentes blocos e em diferentes espaços da cidade - nos encontros da Praia da Estação, cada vez mais frequentes nas tardes de sábados, os tambores, surdos, tamborins, caixas e repiques já rufavam de ansiedade para a chegada da festa. Às 11h uma chuva fina caía no bairro Santo Antônio, e deixava as ladeiras íngremes ainda mais escorregadias. Apesar disso, não era forte o bastante para conter a energia dos foliões que chegavam para o bloco Mamá na Vaca. Enquanto alguns se escondiam em baixo de árvores ou das marquises dos prédios vizinhos no bairro de classe média, outros não se importavam de se molhar na garoa e um círculo já estava formado no meio da praça acumulando cada vez mais músicos. Lá no meio a Chaya Vazquez

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já puxava a bateria marchinhas tradicionais do carnaval da cidade, junto com o naipe de sopros, com saxofones, trompetes, e outros metais, que carregavam presos aos instrumentos as partituras com notas musicais de marchinhas, axés, frevos, funks e arrochas. Entre os foliões diversidade e muitas fantasias. Vários deles, bovinos malhados com manchas de tinta espalhadas pelo corpo, outros até com orelhinha de vaca na cabeça, e rabo de pelúcia presos à roupa. Alguns estavam com camiseta da escola de samba de rua, como o Bloco do Queixinho se autodenomina, e mostravam as suas habilidades com os instrumentos. O bloco do Mamá na Vaca, não tem ensaios frequentes antes do desfile, como são feitos por grupos como o Então, Brilha!, ou o gigante Baiana Ozadas. A bateria não é fixa, é uma mistura dos amigos da Praia da estação e de muitos outros blocos que tomam as ruas da cidade. Tipo de formação que se repete em outros blocos na cidade. Minha fantasia do dia era de enfermeira: peruca loira, short e camiseta branca, arquinho, que imitava um chapéu com cruz vermelha na cabeça e o estetoscópio que peguei emprestado do kit de médico da minha sobrinha de oito anos. Me acompanhando estavam a minha amiga Paola, vestida em uma mistura de noiva cadáver e Beetlejuice, de Os Fantasmas se divertem, e o Cristiano, que pegou emprestado o meu vestido de babados preto, piteira e a tiara brilhante azul que trazia junto uma pena presa à uma pedra lapidada, para compor sua fantasia de melindrosa. É carnaval! O bloco estava com a concentração marcada para às 10h. E mais de uma hora depois começou a sua movimentação para sair da praça. O número de participantes do cortejo ia crescendo e tomando toda a pracinha. Tiramos uma foto com o Frango do Guto, uma mascote vestido de frango gigante, oferecia pedaços da ave assada como um tira gosto aos festeiros em uma ação promocional do restaurante que faziam

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entregas delivery de frango assado no bairro. Enquanto isso era possível avistar de longe Guto Borges, que junto com a sua família, criou o bloco que sai desde 2010. Guto estava com um short curto preto e uma camiseta amarela. Amarrado em seu pescoço colares, patuás e um tipo de capa feita de tiras de cordões de isolamentos aqueles utilizados por bombeiros, ou polícia para isolamento de áreas de risco. O rosto estava pintado de amarelo e uma faixa de tinta preta que imitava uma máscara rente aos olhos. Listras nas mesmas cores se empalhavam pintadas ao corpo. O cabelo descolorido com água oxigenada já tinha sido incorporado à sua estética cotidiana e não era mais fantasia de carnaval. Os músicos começavam a andar e bloco foi descendo a ladeira rumo ao encontro da vaquinha de concreto na Rua Leopoldina, dando uma volta pelo bairro. Na descida ainda cumprimentávamos amigos que não paravam de chegar. Fui descendo a ladeira tocando desajeitada tarol. Tinha comprado o instrumento fazia menos de dois meses e aprendi a tocar – se é que posso falar isso – precariamente alguns ritmos chaves, como as marchinhas, frequentando as Praias e os intensos ensaios de blocos carnavalescos. As ruas eram cercadas de prédios residenciais e moradores saíam à janela para ver a banda passar. Muitos deles idosos e crianças que se divertiam ao som das antigas marchinhas se juntavam ao bloco. Nas descidas a bateria, que já devia contar com mais de 80 instrumentos, ia se alongando cada vez mais e às vezes se dividiam, entre os ecos sonoros - em alguns momentos o grupo de músicos que estavam mais à frente no trajeto tocavam uma música, enquanto ao fim da bateria, outra música era executada. Um dos pontos especiais do trajeto foi durante a passagem na Rua Santo Antônio do Monte, em que o contraste social do bairro é nítido quando passamos próximo à Vila Estrela. Em meio a prédios residenciais envoltos de cerca elétrica, com cabines

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nas portarias e paredes azulejadas, encontramos um trecho da rua com casas simples. Muros sem rebocos deixavam à mostra os tijolos, tubões de esgotamento e encanamento das casas despadronizadas. Em algumas portinhas funcionavam pequenos comércios. Foliões aproveitavam os botecos para usarem banheiros e comprar uma cerveja gelada. O bloco permaneceu parado por mais de meia hora, no cruzamento com a estreita Rua São João Nepomuceno, que dá acesso ao aglomerado. Na esquina do cruzamento, o vermelho e branco coloriam um muro com uma estrela e as cores da bandeira da Acadêmicos Vila da Estrela. A “bateria pura cadência” do bloco caricato se juntou ao Mamá na Vaca e fez o som sob o sol que tinha aberto entre as nuvens. Do samba enredo ao funk, os moradores da comunidade mostravam samba no pé, e se integravam à folia. A caminhada continuou até a descida da Rua Leopoldina onde finalmente chegamos ao monumento da Vaquinha já ao anoitecer. No caminho, os corpos pintados pintavam outros corpos que ainda se mantinham limpos. A intensidade das relações estava nas batidas das baquetas, nos beijos e abraços arrebatadores e na sede dos corpos pela chegada da festa da carne. Sentir na pele o carnaval. Mesmo depois de passar pela vaquinha, um grupo de festeiros que não se entregava ao cansaço, continuavam a festa atravessando a Avenida do Contorno. Já eram mais de 22h e naquela altura, o bloco que em alguns momentos chegou a fechar 3 quarteirões de ruas com o mar de foliões, contava com menos de 50 festeiros que resistiam a chuva fina que voltou com o cair da noite. Por: Naiara Rodrigues

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CAPÍTULO 6 TCHA TCHA

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“o rafa Tcha Tcha de cada dia, dai-nos senhor, abençoai nossa folia” Rafael Barros, também conhecido como Tcha Tcha, é antropólogo e um dos fundadores do bloco Os Filhos de Tcha Tcha, surgido em 2010, a partir de um sonho presságio e que fortalece a festa de rua potencializando o gesto de descobrir cantos ocultos da cidade e fazer pessoas conhecerem bairros distantes.

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“Em 2009 algumas pessoas tinham ficado em BH e puxado a história da saída de alguns blocos de forma bem inconsciente e despretensiosa, saíram da Serra com o Tico Tico e na terça com o Peixoto. Os meninos do Approach tinham feito uma zoeira lá na Dona Jacira no Bar Brasil 41. Em 2010, estava se desenhando uma espécie de calendário de carnaval, no sábado anterior ia sair o Mamá na Vaca no Santo Antônio, no domingo, o Tetê, a Santa no Santa Tereza, puxado pela Sara, Milene e a Mari Lage, no sábado ia ter a Praia, no domingo ia sair o Tico Tico, como de fato saiu lá do Parque Municipal, aí já junto com os meninos do Queixinho e na terça ia ter o Peixoto, e no sábado ia ter o Vira o Santo. E a segunda-feira estava vazia, não tinha bloco. A gente ensaiava lá na Dona Jacira, era muito engraçado, porque os meninos fizeram um livrinho com as musiquinhas de carnaval de xerox, o Guto com Nian e Elisa, a Lucinha e Regina que faziam já o Cuequinha do Papai que era puxado lá da Dona Jacira na terça feira. E isso é interessante, porque em 2009 antes de eu ir para o carnaval de Recife, eu já tinha ido no Cuequinha, em 2008 e 2009, lá na Dona Jacira. Ele acontece na terça-feira antes do carnaval, e é super legal porque tem uma música que marcou muito o meu imaginário do carnaval que eu aprendi cantando com as meninas “Eva coava o café que Adão tomava, mas um dia ela o coador furou e nunca mais Eva coou”, essa eu acho que é a primeira marchinha que marcou a minha relação com a história do carnaval, era puxada lá no Cuequinha do Papai, e foi onde agente se encontrou em 2009, o Guto e o resto do pessoal. Ali ninguém sabia cantar nada, ninguém sabia tocar instrumento, o Guto não sabia tocar caixa, tarol, o Nian tentando a aprender a tocar surdo… Ninguém sabia tocar, ninguém sabia as letras das marchinhas. Todo mundo lembrava alguns refrões tradicionais, “mamãe eu quero, mamãe eu quero”, e aí não saía dos refrões das músicas e a gente ficava só repetindo. E como a galera lá, o Gerinha, que é pai do Guto, o tio dele o Augusto, Regina, Lucinha já tinham essa memória da vivência do carnaval de muito mais tempo - eles são de algumas gerações anteriores a gente - eles ficavam lembrando a música e tentando puxar o ritmo. Tentavam lembrar como era, quando saía do refrão e entrava para as

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estrofes da música, ficavam tentando lembrar como é que era a rítmica, a melodia da música e aí se dava aquela confusão superengraçada. Lembro que eu fui o único que fui fantasiado nesse dia do ensaio, e eu fui fantasiado de Carmen Miranda. Acho que eu só fui impelido a ir fantasiado por conta da experiência da Praia que já tinha sido uma experiência estética para a gente, super louca, que foi colocar calção e biquíni para sair em Belo Horizonte. Isso já tinha feito parte de uma experiência corporal com a cidade, e aí essa minha história com o carnaval de Recife principalmente, e do Rio de sair fantasiado todo dia e com a experiência da Praia, me inspirou a ir fantasiado, e fui eu fantasiado de mulher! De Carmen Miranda, uma fantasia que a gente tinha feito em Recife no carnaval de 2007. E nesse dia eu era aquele ser desconexo naquele carnaval desajustado, fantasiado duas semanas antes do carnaval, nessa brincadeira… Com essa história de não ter nada na segunda feira, eles começaram a provocar: “Não! Tem que criar um bloco para a segunda-feira”. A Jana foi uma das que mais ficou me cutucando, e aí a Flora Lopes que era da banda Graveola, veio conversar comigo falando que tinha tido um sonho na noite anterior com uma gincana e que uma das equipes da gincana eram os “Filhos de Tcha Tcha”. Segundo ela uma equipe que eu tinha organizado com os amigos, a gente estava participando e com esse nome

Rafa Barros fantasiado de Carmen Miranda no desfile do Peixoto em 2011. Créditos: Flávia Mafra

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de “Filhos de Tcha Tcha”. Tcha Tcha já era um apelido que tinha sido incorporado a mim, por conta de uma história minha com os Maxacalis40, de um projeto de pesquisa que eu participei com eles, e eles tem um termo que é “Bay xexka” para falar que uma coisa é muito boa, muito bonita, muito grande. Em uma das oficinas de vídeo que eu e a Carol Canguçu fomos monitores do Projeto Vídeo nas Aldeias41, Carol um dia falando que as imagens tinham ficado muito bonitas, ao invés de falar “Bay xexka”, falou “Bay Tcha Tcha” e eu com os Maxacali começamos a brincar com ela, zoamos com ela e eles começaram a usar “Bay Tcha Tcha”, e quando vinham para Belo Horizonte só ficavam no “Bay Tcha Tcha”. Aí Osvaldo incorporou essa coisa à minha pessoa, então já era Tcha Tcha, e por conta dessa história, e os meninos do Graveola ficavam me chamando de Tcha Tcha. Eu comecei a trabalhar com o Graveola também em 2007 - eles brincando de ser músico e eu brincando de ser produtor, éramos amigos de faculdade - e eles ficavam me chamando de Tcha Tcha e Os Filhos de Tcha Tcha da Flora veio dessa relação com o apelido. E aí Jana falou, “então nós vamos fazer Os Filhos de Tcha Tcha, na segunda feira de carnaval”. Só que isso ficou como uma ideia etérea, a gente brincando. No final de semana seguinte do carnaval, do Mamá na Vaca e da Tête, eu não estava aqui em Belo Horizonte, eu estava - por ironia do destino - no Rio de Janeiro, por conta do projeto de pesquisa com os Maxacali. Só que a Mari Lage, que puxava a Tête junto com a Milene, era jornalista no jornal O Tempo e no Pampulha soltou uma programação de carnaval, com os blocos de 2010 e na segunda feira estava o Filhos da Tcha Tcha, que saiu com a grafia errada. Jana me ligou lá no Rio, falando “Rafa, já era! Seu bloco já existe, ele já faz parte da programação oficial do carnaval de Belo Horizonte e já saiu no jornal” e eu falei “Que isso Jana, como assim?!” e ela, “É saiu no Pampulha, programação oficial dos blocos no final do semana, e seu bloco é na segunda-feira no Santa Tereza” e o endereço da minha antiga casa que onde a Jana continua morando, na Rua Dores do Indaiá, assim, a gente saiu com o bloco, nesse primeiro ano lá em casa mesmo.

40 - Maxakalis ou Maxakali é a denominação de um grupo indígena que habita três porções de terras descontínuas nos municípios de Santa Helena de Minas, Bertópolis, Ladainha e Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, no nordeste do estado de Minas Gerais, no Brasil. Disponível em: <http:// pib.socioambiental.org/pt/povo/maxakali>. Acesso em: outubro de 2015. 41 - Criado em 1986, Vídeo nas Aldeias (VNA) é um projeto precursor na área de produção audiovisual indígena no Brasil.

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Foi superengraçado porque aí os meninos do Graveola fizeram o samba enredo, que é a música do bloco, o Flávio, Yuri, Malpode, Zé Lu e Luiz Gabriel ficaram brincando com a minha história de vida, e a música vai narrando a minha história. É até engraçado que hoje eu me sinto super mal quando o pessoal canta o samba enredo no bloco, porque sinto que é algo muito referencial, é muito referente a minha pessoa e eu acho que o carnaval é uma experiência tão coletiva, sobretudo o processo aqui em BH que foi um negócio tão dissolvido na cidade, que me dá uma sensação ruim, parece que personaliza demais a coisa, né? Mas a história é super engraçada, a narrativa em que foi construída a letra, e eu não conhecia, foi uma surpresa no dia. Trouxeram uns ‘xeroquinhos’ com a letra e uma estrutura de som precária, nós botamos na garagem de casa, abrimos os portões da garagem para a rua e ficamos lá, assim foram aparecendo os amigos, os mesmos de todos os outros blocos de sábado, domingo e segunda feira, a mesma turminha minúscula, e umas pessoas que viram e foram aparecendo. Foi até engraçado, porque realmente eu lembro que a gente estava fazendo comida lá e de repente a gente estava dentro de casa e tinha umas pessoas que a gente nem conhecia entrando “Mas é aqui que é o bloco?”, “É!! Tô fazendo uma macarronada, fica aí e come” (risos), o povo sentou lá no quintal e comeu com a gente. Daí saímos aqui em Santa Tereza, praticamente ficamos ali tocando, aquele grupinho de gente na porta de casa e depois saímos e fomos para o Bar do Seu Orlando. Aí nos anos seguintes, 2011 e 2012, o Tcha Tcha continuou saindo aqui em Santa Tereza, já absorvendo um pouco de uma provocação da Sílvia Amélia de que a gente incorporou meio que uma lógica das Folias de Reis, que a ideia do bloco era percorrer o lugar do bloco desconhecido, conhecer os cantinhos e visitar casas que receberiam o estandarte do bloco - como se recebe o estandarte das Folias - e aí você dá alguma coisa em troca, seja uma bebida aos foliões ou uma comida. Foi nessa lógica que, em 2011, a gente já repensou o trajeto do Bloco do Tcha Tcha e o gesto de funcionamento dele. Saímos visitando algumas casas que a gente combinou anteriormente aqui no

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bairro, que receberam o estandarte do bloco e deram cachaça aos foliões. Aqui no Santa Tereza, no dia do Tcha Tcha chove para caramba, chove o tempo inteiro, o percurso do bloco é inteiro debaixo de chuva e o bloco caminhou até o final, até o Bar do Seu Orlando, em uma catarse, em um negócio muito emocionante, muito maravilhoso. Todo mundo achava que se chovesse, a chuva espantaria as pessoas, mas ao contrário, o bloco foi ganhando cada vez mais pessoas no trajeto, foi se fortalecendo e as cachaças que as pessoas iam dando nas casas onde deixávamos o estandarte foi deixando a galera mais louca, até que chegou no Seu Orlando todo Desfile do bloco no Bairro Santa Tereza. Crédito Flávia Mafra

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mundo muito louco. E é aí quando a gente sofre a primeira represália no Santa Tereza, que o Seu André da Parada do Cardoso, faz uma denúncia junto à polícia no Ministério Público e eu sou intimado a depor no Ministério Público Estadual como responsável por todos os blocos que saíram no Santa Tereza, como se eu tivesse puxado todos os blocos que saíram em 2011 no Santa Tereza, e aí já não era só o Tetê, a Santa no domingo e o Tcha Tcha na segunda-feira. Tinha tido já na quinta-feira o Moreré, no domingo o Alcova, e na quarta-feira o Manjericão. De repente eu apareço em uma ocorrência da Polícia Militar como responsável por todos esses blocos de carnaval no bairro Santa Tereza e o Seu André acusando o bloco de ter depedrado o Cardoso, de ter depedrado o estabelecimento dele, uma mentira infundada, algo super esquisito. Eu fui intimado para uma audiência e eu não fui para essa audiência, porque foi no dia do desfile da escola de samba Ainda que Tam Tam em maio de 2011 e eu tinha sido convidado para ser do júri para escolher o samba enredo. Eu ignorei completamente e não fui, não fiz a menor força. Não deixaria de ir ao desfile da Ainda que Tam Tam, para ir para o Ministério Público dar satisfação daquilo que era completamente inexistente. Aí eu fui intimado de novo e fui nessa intimação sem advogado, foi uma situação muito interessante, porque eu fiquei durante uma hora escutando a promotora, a Doutora Cláudia falando e comunicando uma série de moralismos que não tinham fundamentação e depois que ela falou, eu disse a ela “Agora, se a senhora me permite, eu queria falar um pouco da minha experiência de folião e da minha visão enquanto antropólogo, sobre o que é essa dimensão da festa e a dimensão política que significa para a cidade”, depois da minha fala ela ficou extremamente constrangida, porque ela viu que existiam vários elementos e várias dimensões envolvidas neste processo e, inclusive, vários direitos envolvidos, e que ela simplesmente havia negligenciado. Ela, então, resolveu fazer uma ata simples e solicitou que no ano seguinte essas manifestações fossem, minimamente, informadas aos poderes instituídos para que houvesse um conhecimento com relação a isso e para que a cidade se preparasse

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para receber alguma coisa que fosse em uma dimensão muito maior do que o espaço comportasse. Isso foi, de alguma forma, importante também, porque a medida que a festa foi ganhando uma outra dimensão, a gente também foi refletindo criticamente sobre a nossa responsabilidade em relação ao espaço e às pessoas, então ocupar o espaço, se apropriar do espaço, transformar o espaço e isso também nos trazia uma série de compromissos em relação ao cuidado com o espaço, qual o tipo de relação seria ali estabelecida, as pessoas que já habitam e usam aquele espaço em outros momentos, diálogo com essas pessoas e esses outros usos. Foram questões que foram surgindo, construídas e foram sendo elaboradas em um processo, com a cidade, e lógico que conflituoso. E aí, ao mesmo tempo esses próprios poderes, também tiveram que responder a isso, porque essa luta incessante entre o estado, a norma e a lei tentando castrar a dinâmica da vida e do outro lado a vida impondo a sua força em relação a essas instituições. Acaba que a lógica minimamente coerente desses processos de atrito é de que as estruturas das instituições, elas de alguma forma, se adaptam à dinâmica da vida, à força da vida, dentro desse processo conflituoso que são os embates, das várias dinâmicas, das várias esferas, e é isso que está em um processo contínuo, o estado tentando castrar, a gente tentando subverter. Esse jogo de negociação em um processo completamente consciente de que existem limites, de que existem responsabilidades, de diálogos que são necessários, de momentos de ruptura, mas ao mesmo tempo de momentos de retração, de apaziguamentos, de alianças. E é tão doido essa coisa de dimensão ordinária e precária, que eu lembro que no primeiro ano, em 2010, quando terminamos no Seu Orlando, eu terminei o bloco eram cinco horas da manhã, eu brigando com um morador de rua na porta do Seu Orlando por conta do estandarte que ele tinha pegado e eu bêbado falando “Esse estandarte é meu!”, e a gente brigando pelo estandarte do Bloco do Tcha Tcha. E já,

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no ano seguinte, termina no Seu Orlando uma quantidade bem maior de pessoas, sei lá… Talvez tivesse umas 150 pessoas no bloco, olha só a multidão, já tinha aumentado para 100, 150 pessoas, em uma catarse, uma experiência coletiva de carnaval, uma megafesta, as pessoas completamente embebidas. Acho que o que mais agrediu ao Seu André foi o choque moral dele de ter visto ali na porta, na rua, as pessoas felizes, de baixo de chuva, bêbadas, todo mundo se beijando, se pegando, aquela coisa de que é carnaval mesmo pela primeira vez - pela primeira vez não, talvez um retorno do que o Santa Tereza já tinha vivido muitos anos atrás e que tinha sido expulso e tinha sido podado daqui. No Santa Tereza, no Tcha Tcha em 2012, a gente saiu de novo, na mesma lógica de visitar as casas, terminando no bar do Seu Orlando, aí já tinha uma quantidade muito maior de blocos, foi um ascendente, né? Em 2009 eram três, em 2010 foram sete blocos, aí depois em 2011 já foram mais de vinte, 2012 foi um ano que já teve quarenta blocos, sei lá… O crescimento era exponencial e aí rolou um processo super foda aqui em Santa Tereza, que já tinha tido essa confusão anterior com o Ministério Público, um moralismo e algumas figuras de comerciantes aqui do bairro, de alguns moradores, e rolou um processo de inchaço muito forte do Santa Tereza. Era um misto, que continuavam sendo algumas experiências marginais de blocos, que ainda envolviam poucas pessoas e outras que foram trazendo muita gente. Por exemplo, a Alcova Libertina em 2012 trouxe uma multidão para o Santa Tereza, ao mesmo tempo que nesse ano o Tico Tico saiu das torres gêmeas aqui no Santa Tereza e foi para o Santa Efigênia. Em 2013 o Pena de Pavão de Krishna, que saiu pela primeira vez, desaguou em Santa Tereza no domingo. Foi incrível, quando o Pena chega aqui, ele chega aquela coisa pequena, uma coisa super próxima e tal, mas já tinham os blocos aqui em Santa Tereza e a coisa foi ficando tensa. Na conversa com o bairro, com a associação de moradores a gente acabou optando por levar alguns blocos a se deslocaram do Santa Tereza, para dar um alívio, um respiro

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para o bairro mesmo, na tentativa de amenizar com o bairro, porque isso começou a virar uma questão, de repente o carnaval foi ganhando uma dimensão tão forte, que ele foi arrastando multidões virando uma coisa enorme e isso foi criando uma quebra de paradoxos na cabeça da gente, é a ocupação do espaço público? Ou não é para gerar impacto? É criar, suscitar, é potencializar um imaginário de experiência da cidade de encontro das pessoas, mas não é gerar espetáculos, não é virar um evento. E esses antagonismos se instalavam o tempo inteiro no meio da cabeça da gente. Em 2013, a Prefeitura resolve, depois de três anos de enfrentamento ostensivo ela resolve se apropriar do discurso, e é o primeiro ano que a Prefeitura e a Belotur compram o discurso do carnaval e começam a se apropriar desse discurso. Vem essa coisa das regulamentações, do cadastramento de bloco, de oferecer infraestrutura e, logicamente, isso tem muito a ver com o tanto que o Lacerda apanhou, que a nota de 201242. A nota é, inclusive, em resposta ao Lacerda que se apropria do discurso do carnaval na campanha eleitoral e ao ser reeleito, em 2013 ele vai se incorporar para tentar diluir e começa a fazer isso muito bem, quer dizer, tenta fazer isso, mas enfrenta o processo de resistência. Foi o que aconteceu em 2012, quando a gente ainda era o grupo do carnaval, a resposta ao Márcio Lacerda foi muito rápida e foi muito tranquila, porque a gente pensava nas mesmas coisas, a gente acreditava nas mesmas coisas, vinha construindo as mesmas coisas e a gente estava com a relação em contato, a gente se organizou pela internet mesmo, construímos a nota. Eu lembro que eu estava com Priscilla Musa em Santo André, na Bahia, e eu fiz a base, a estrutura, o dorsal lá de Santo André, mandei para as pessoas no final de setembro e, de repente, já estava ali, dezenas de blocos assinando e contribuindo, dando seus pitacos, concordando, discordando, sempre na dinâmica do dissenso. E é em 2013 que a gente resolve sair com o Tcha Tcha aqui de Santa Tereza, já dessa conversa com os moradores, desse processo do conflito com a polícia e com o Ministério Público e a gente, então, toma a atitude - nessa mesma lógica que já 42 - Nota de Repúdio dos Blocos de Rua do Carnaval de BH ao candidato Marcio Lacerda. Disponível em: <https://www.facebook.com/notes/ carnaval-de-rua-bh/nota-de-rep%C3%BAdio-dos-blocos-de-rua-do-carnaval-de-bh-ao-candidato-marcio-lacerda/415176745212202>. Acesso em: Outubro de 2015.

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tinha aqui, que era de descobrir lugares, trajetos para chegar no Bar do Orlando por lugares mais diferentes e inóspitos - e a gente resolve, então, que iríamos ganhar a cidade nessa lógica da errância do Tico Tico. Isso tudo a gente conversando entre nós mesmos, a gente todos os anos encontrando para conversar, estar junto, pensar junto, construir junto com os espaços, com os moradores, essas relações políticas e ao mesmo tempo orgânicas com o bairro, pessoas a favor, pessoas contra, conflitos e ao mesmo tempo aquela efervescência, aquele desejo de que a coisa continuasse, o fabular mesmo de carnaval. Por conta, da minha relação com a Dona Isabel43, com o Congado, com o Terreiro e da relação do bairro Concórdia com a história do carnaval e do samba de Belo Horizonte, a Inconfidência Mineira como a escola de samba mais antiga lá, que o “Kalu” e o mestre Conga puxaram durante anos, a velha guarda do samba tem ali no Concórdia um dos seus berços e essa coisa da religiosidade e da cultura popular afro mineira muito forte, em 2013 a gente resolve sair lá no Concórdia, conversamos com a Dona Isabel, aí a gente percorreu o bairro pelos lugares também desconhecidos, conversou com pessoas, comerciantes, com o pessoal do Terreiro de Candomblé do Lisboa e saímos com o Tcha Tcha em 2013 no Concórdia. Deste diálogo com a Prefeitura, participei nos primeiros anos, em 2013 a gente solicitou banheiros públicos e informou a saída do bloco no Concórdia, atendendo a um pedido da Dona Isabel, porque ela solicitou que houvesse comunicado à Prefeitura, a polícia, porque é assim que ela faz com a festa do Congado e eu atendi, literalmente, uma demanda da pessoa que estava recebendo o bloco. Foi por conta dessa solicitação dela que se efetivou um diálogo maior e foi daí que fomos percebendo os descompassos, porque, por exemplo, eu tentei protocolar aqui em Santa Tereza, não só a saída do Tcha Tcha no Concórdia, mas a gente tentou protocolar a Tetê e o Manjericão. A Polícia Militar se recusou a receber os ofícios e a oficialização dos blocos, ao passo que a polícia se recusou porque a Prefeitura tentava concentrar, a Prefeitura não informou

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43 - Dona Isabel Casimira das Dores Gasparino era rainha da Guarda de Moçambique Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário, tradicional reinado localizado no bairro Concórdia há mais de 70 anos que realiza uma das principais festas de Nossa Senhora do Rosário de BH. Ela foi por 30 anos Rainha Conga de Minas Gerais, e reconhecida em 2014 pelo prêmio “Mestres da Cultura Popular de Belo Horizonte”, da Fundação Municipal da Cultura, que valoriza a perpetuação de tradições que compõem o patrimônio cultural imaterial da capital mineira. Faleceu em junho de 2015, aos 76 anos de idade.


Bloco Filhos de Tcha Tcha em frente Ă casa de Dona Isabel. CrĂŠdito Priscilla Musa

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à polícia de todas as saídas dos blocos, muito menos a BH Trans, ou seja, uma falta de diálogo absurda entre os órgãos e uma propaganda irresponsável do poder público. Em 2013 e 2014, chamando as pessoas para a festa na cidade que ela própria não estava preparada para receber. Em 2013 então, foi algo muito descabido, porque a Prefeitura fez propaganda para o carnaval, ela chamou uma multidão para rua, os blocos não tinham o alcance da propaganda da Prefeitura, eles não se colocaram neste lugar. A Prefeitura chamou uma multidão para participar do carnaval, ela impôs aos blocos uma multidão, para a qual eles não estavam preparados. A situação de conflito social que foi armada em relação ao carnaval em 2013, foi totalmente provocada de forma irresponsável pelo poder público, que se apropriou do discurso, que chamou uma pá de gente para uma festa, atravessando um processo orgânico da cidade. A Prefeitura impôs um outro processo para as pessoas que estavam fazendo a festa e que fazem a festa, sem dar a menor possibilidade de infraestrutura para a cidade e para os blocos de receberem essa multidão. O grande conflito de 2013 foi provocado por uma ação irresponsável do poder público, de apropriação de mau uso, de irresponsabilidade, falta de estrutura, enfim… uma série de coisas. Já em 2014, participei de forma menos incisiva no diálogo com a Prefeitura - ainda assim, participei - mas não cadastramos o Tcha Tcha em 2014 e nem em 2015. A gente só vai tentando catalisar, cada vez mais, o bloco para essa questão da dimensão política, da errância e de alargar essas fronteiras, essas relações. Aí com a situação da Isidora44, com a eminência do despejo, a gente então vai lá para as suas ocupações. Vai para a Rosa Leão, e conversa e constrói com o pessoal da Rosa Leão, do Ubirajara, a Zoca (que foi a primeira ocupação organizada ali daquela região) e levamos o bloco lá para a Rosa Leão em 2014. Que foi um negócio bonito demais da conta, no Concórdia já tinha sido uma coisa muito mágica, muito forte e que a gente viu que a gente precisava. Tinha uma potência muito forte nesse exercício do deslocamento, que era realmente de ampliar e de mostrar para a cidade que era preciso ampliar a

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festa nesse exercício de desconcentração, de que as pessoas tinham a potencialidade de criar os seus blocos nos seus bairros, se apropriando daqueles espaços. Sair dessa lógica eventuísta de espetáculo no centro, com grandes shows que era essa coisa que a Belotur já estava tentando emplacar. Já estava construindo essa potência aí e, uma coisa que é fundamental que é sempre, de alguma forma, manter um dissenso de não deixar essa coisa cair no deleite de apropriação do estado. E isso não é por conta de uma postura intransigente ou de um conflito besta, desproposital ou de picuinha, não, porque é de fato importante que haja um processo contínuo de rupturas. A coisa não pode ser enquadrada na plástica do estado,

do poder instituído assim, facilmente. Ela vai perdendo a

potência as possibilidades dela, a capacidade dela de

transformar, de subverter, de trazer questões de mostrar

realidades ocultas, marginais, de possibilitar outras

formas de experiência, de movimentação, de vida, de

transbordamento mesmo. Ao irmos para a Rosa Leão em 2014, isso aí vira um negócio incrível, um processo de relação da construção com o outro, de enfrentamento com os limites. Neste ano de 2015, que a gente está nesse eixo e vai para a Esperança e para a Vitória, que a gente tem a experiência que eu acho a mais radical. Engraçado isso, porque até pode ter uma coisa de proximidade afetiva, mas eu sinto que as duas experiências mais radicais - porque toda experiência tem a sua radicalidade, a sua tensão, sua voz de conflito - quando o Tico Tico vai para a Serra é maravilhoso, quando o Tico Tico sai em 2011 na Guaicurus e vai para a Lagoinha. Possibilita situações e momentos muito fortes e muito incríveis também dessa ideia da transformação pelo outro. Mas a situação da chuva no Tcha Tcha, em 2011, aqui no Santa Tereza com o final catártico, e a experiência da chuva este ano nas ocupações, foram dois momentos muito fortes, muito emblemáticos.

44 - Formada por três ocupações urbanas: Rosa Leão, Vitória e Esperança. De acordo com o Movimento Brigadas Populares conta com cerca de 1.500 famílias sem-terra e sem-casa que desde maio de 2013 começaram a ocupam o terreno, ao lado do Bairro Zilah Sposito, em Belo Horizonte e Santa Luzia, MG, na região norte de Belo Horizonte.

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Em 2015 foi um negócio muito louco porque foi uma situação limite em todos os aspectos. De se perceber os limites em relação à essa movimentação em direção à essa alteridade, esse outro radicalmente outro, potencialmente outro, como quem diz:

“Vamos devagar com o andor, porque o santo é de barro”

É sempre bom se medir, se calcular, porque de repente a gente chega e está em um descampado, no meio de uma tempestade, e uma tempestade de raio e de chuva, no maior lamaçal. Pessoas se feriram, teve gente que quebrou o pé, um monte de criança, não tinha muito para onde correr para se proteger, para você acessar, para tirar aquelas pessoas dali, aqueles que estavam com frio... Ao mesmo tempo é você aceitar esse risco, se colocar em risco, em algum momento de abdicar dessa zona de racionalidade, de razoabilidade, de proteção e dizer “Vamos nos colocar, vamos nos jogar, vamos nos entregar mesmo à essa relação, a esse encontro”. Só isso que faz com que a gente tenha, por exemplo, a possibilidade de sacar o que é a vida naquele lugar em uma situação limite, em uma situação daquela, que toda vez que chove é aquilo que acontece para toda aquela gente, aí a festa se dissolve, junto ao barro e à lama naquela realidade. E foi muito forte ver aquelas pessoas, como elas iam acolhendo o bloco e dando roupas, tirando as roupas molhadas dos foliões naqueles barracos de lona e de compensado, dando roupa seca e fazendo café para esquentar o corpo e acolhendo naquela precaridade material, ao mesmo tempo, gerando generosidade espiritual e afetiva com as pessoas. E nós, que fomos ficando no final do bloco para ajudar, para tentar apoiar e para resgatar, fomos vendo as pessoas que chegavam

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Tempestade transformou o caminho em lama no desfile de 2015, nas Ocupações Izidora. Créditos: Priscilla Musa

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do serviço em uma segunda-feira de carnaval. Carregando sacolas de supermercado, completamente lameados, escorregando naquele barro, se sujando, vindo de um dia de serviço. Ao ver aquele resto, aquele rastro de bloco, as pessoas fantasiadas, bêbadas, elas olhavam a gente e sorriam como se aquilo fosse um frescor, não só da chuva, mas um frescor de alegria diante daquela realidade. Foi uma mistura de muita coisa, de fato, um transbordamento. Eu chorei muito nesse dia e, quando a gente chegou, a Priscilla Musa ficou muito comigo, a gente muito preocupado com as pessoas que tinham se machucado e que não tivemos notícia. Tentando acolher uma figura que teve um ataque de epilepsia, a gente estava com ela, a Fátima que foi uma pessoa incrível, que é mãe do Ramon, uma senhora antiga das lutas sociais aqui de Belo Horizonte e estava lá no bloco. Foi uma mãe para a menina que passou mal. A gente lá acudindo e chegamos já no final, encontrando outras pessoas. Aí em um barzinho desses precários da ocupação, tinha um grupo de sobreviventes, foi onde encontramos o Guto, Morgana, Roberto Andrés, aqueles amigos todos que tinham parado ali naquele bar, e estavam bebendo o que tinha, Catuaba, Conhaque “Presidente” e em um êxtase efervescente incrível. Entramos ali, dá um respiro e eu me acalmo e a gente volta a beber e a falar “Nossa! Passou a tempestade...”. Quando esse grupo sai, já de noite, quando a gente chega no centro da Ocupação Vitória, está o palco e o povo da comunidade fazendo uma festa incrível e maravilhosa com quem resistiu, porque muita gente foi embora e eles estavam esperando, e rolou essa festa que foi até meia-noite. Todo mundo cantando, em um processo de uma experiência, de uma troca e nesses momentos efetivamente, acontecem encontros, que a gente vê que é quando você joga essa experiência e essa potência toda. Você aqui nos entrevistando, selecionou uma série de atores que fizeram parte dessa história, e que a gente que acompanhou essa história, sabe narrá-la - cada um a seu modo - a partir do seu lugar, do seu ponto de vista, da sua história. Mas essa é uma

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história que, na verdade, não tem forma, não tem contorno, porque ela não tem dono. A partir de 2014 e, principalmente em 2015 quando a Prefeitura tenta ir corrigindo essa apropriação descabida que tentava fazer do discurso do carnaval de rua, acaba se apoderando, tentando dar contorno, quando começa a estabelecer relação com patrocínio e cria, como consequência, um campo de força, que extravasava esses blocos e essas pessoas que tinham um discurso de enfrentamento político muito elaborado. É essa a iniciativa que precisamos impulsionar, dessa galera do carnaval tomar conta da cidade e todo mundo criar seus blocos, justamente para a coisa se transformar em uma quantidade muito grande e eles se transformarem em um pequeno grupo dentro de um grupo maior, e assim a gente vai conseguir estabelecer relação com esse grupo maior e eles vão se configurar como um grupo menor. É nesse momento que a gente toma as rédeas desse processo de construção e de manutenção mais específico da multidão. Só que isso acontece entre aspas, porque os blocos que - por uma questão de construção temporal e alguns de própria disposição - vão se afirmando no imaginário da cidade, e que vão arrastando multidões, são esses blocos que participam do processo anterior. Talvez com a exceção do mais tardio deles, que é o Baianas Ozadas, são blocos que vem desse processo de construção anterior, então o Mamá na Vaca arrasta muita gente no sábado antes do carnaval, o Então, Brilha! no sábado, junto com o Bloco da Praia e o Approach na dona Jacira, juntam uma multidão. No domingo de carnaval, o Queixinho e o Pena mobilizam muita gente. Na segunda feira de carnaval, o Baianas arrasta uma infinidade de gente e na terça-feira é o Peixoto que leva muita gente para a rua, assim como na quarta o Manjericão. E por exemplo, na terça-feira ainda tem os meninos da Juventude Bronzeada (que vem agora com o bloco recém-criado, mas que investiu muito em propaganda) e que acaba levando muita gente. Essas pessoas têm uma ligação direta com um processo de reflexão e construção histórica. Ao mesmo tempo a Prefeitura está refém desses blocos, ela é obrigada a conversar com eles e discutir essas questões, porque é muita

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gente que essa galera leva para a rua, e muitas pessoas vão atrás desses blocos e desse processo. O que aconteceu nesse ano quando os meninos embalam naquela coisa de fazer a divulgação dos blocos de axé, e aí lançam aquela coisa dos tutoriais, entra nesse aspecto mais publicitário, mais educacional - do Então, Brilha!, do Baianas Ozadas, do Juventude Bronzeada, e acho que o Tchanzinho também estava - acaba criando um grupo de blocos de axé, que eu acho super legal. Só que eu estava conversando com os meninos e refletindo que, ao mesmo tempo, eles deram um tiro em seus próprios pés, acabaram criando um dispositivo que os devorou. Quando eles perceberam, tiveram mais trabalho em tentar desconstruir a imagem negativa do que criar espaços e processos onde eles pudessem efetivamente conseguir se preparar para o carnaval ao invés serem engolidos por essa experiência eventuísta. Porque diferente de outros lugares do Brasil, onde a festa vai se preparando ao longo do ano, algo que as escolas de samba fazem, os blocos de carnaval aqui de belo Horizonte começam a se preparar e ensaiar muito próximos do carnaval. Eles precisam ter uma dinâmica de ensaio e de preparo para o carnaval que é necessária para tudo aquilo que eles construíram para eles mesmos. O Tico Tico, o Tcha Tcha não tem essa preocupação com a bateria, a bateria é formada por quem vai, quem participa dos outros blocos e ali vai, e os meninos puxam e o Guto puxa, e o povo vai puxando aquilo e vão bora. Mas os meninos criam uma narrativa que é super bonita, de uma performance musical também, que tem o seu lugar, mas aí é necessário ter ensaio, muita preparação, ter cuidado estético. E quando eles se assustam, de repente, o ensaio se torna um evento, vira uma festa também e os blocos acabam sendo devorados por uma coisa que eles vão criando, mas que acabam desconstruindo essa dinâmica que para eles é necessária e importante. Por isso essas coisas são superdelicadas, é preciso medir, é preciso ter muito cuidado, porque o limite de uma coisa passar de uma experiência para um espetáculo é muito tênue.

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Não acho que o crescimento no número de foliões contribuiu para essa espetacularização. Eu acho que o que contribui para isso são duas coisas, fortemente implicadas, a ação do poder público, a forma como o poder público age, se apropria do discurso e coloca o carnaval, e a forma como alguns blocos tentam explorar esse momento de visibilidade com relação a alguma coisa para além do carnaval, então tem aí uma dimensão. E eu não estou falando isso do ponto de vista de um juízo moral, não estou julgando, se trata apenas de uma leitura, de que quando um bloco investe sobre ele, a partir de um momento que é o carnaval, de grande visibilidade e grande alcance, vai transformá-lo ao longo do ano em uma experiência de construção artística e de ganho monetário, profissional. Ele nasce enquanto bloco para se transformar em um grupo musical, que é por exemplo, Baianas, Chama o Síndico, Alcova, agora o Juventude Bronzeada, ou seja, você tem aí um processo que traz consequências, tem implicações com ele, geram outras implicações, outras relações, outras disposições. As pessoas têm que pensar nisso, se preparar para isso, ter consciência disso, então eu acho que esses dois movimentos eles tem potencializado mesmo, primeiro com o poder público e segundo com essas movimentações que vem a partir da coisa com o poder público. Ainda assim, penso que em BH ainda consegue ter uma história interessante, porque o carnaval de certa forma cresceu descentralizado. É muito interessante ver como é que, apesar de ter uma concentração na região centro-sul, leste da cidade, tem um número grande de blocos em outras regionais, em outros bairros e isso vai só aumentando a cada ano. Eu acho que o investimento é sadio, e seria interessante o poder público dar suporte e vazão para essa possibilidade de crescimento. E não de contração dele em determinados locais, porque um dos grandes equívocos do poder público nesse processo de apropriação da festa e do discurso, foi em criar um enunciado de construção de uma festa para fora da cidade. A gente o tempo inteiro fazendo uma discussão e construindo uma história de uma experiência da cidade para

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Cortejo do bloco em 2014, na Ocupação Rosa Leão. Foto Flora Rajão

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a cidade primeiro, do carnaval das pessoas que vivem nela. Do carnaval das pessoas que não tem condição de sair para outros carnavais (em um processo de reflexão histórica tinha essa dimensão também), tinham os que saíam e tinham os que não saíam, porque não tinham condição de sair, e por não ter condição de sair - seja por estarem trabalhando ou por falta de condição financeira de viajar - eram condenados a não poder viver o carnaval. Essas pessoas estavam no limbo, e aí a festa que surgia era também para essas pessoas que podem ter a possibilidade da experiência do carnaval aqui e mesmo, simplesmente, por ter a escolha de optarem por viver o carnaval da cidade onde elas moram. E a Prefeitura não, a Prefeitura já investe uma força em criar uma imagem de Belo Horizonte onde o carnaval renasceu e chamando as pessoas de fora. Nisso tem uma discussão política importante que é essa, e ela precisa ser posta o tempo inteiro, carnaval em Belo Horizonte é institucionalmente pensado e gerido por uma empresa de turismo, pela Belotur. O carnaval não é pensado enquanto política cultural e percebido no âmbito do espaço da política cultural, a Fundação Municipal de Cultura não participa do carnaval de Belo Horizonte, ela não discute o carnaval de Belo Horizonte, ela não pensa o carnaval de Belo Horizonte. Quando ele sobrevive na esfera pública, ele sobrevive como evento e até hoje permanece como evento, muito pior, ele está sendo capturado e potencializado enquanto evento. A cidade de Belo Horizonte reinventa um processo da cidade para cidade, a partir de uma dinâmica sócio cultural política incrível e o poder público vem capturar ele e potencializá-lo enquanto evento. Esse é o grande assassinato. Um ponto importante, é o fato do carnaval ter essa dimensão afetiva, dela não apenas ter sido gestada a partir de uma série de relações de amizade e de afetividade e de confiança que já existiam, como de ter proporcionado o surgimento de outras relações e outros vínculos. A potência está aí nesse crescimento, então o que o carnaval de 2009, esse processo ao qual estamos aqui nos referindo, até 2012 trouxe

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foi essa marcha de crescimento, de conformação de um grupo de pessoas. Para além do momento de carnaval construíram uma rede de relações de amizade e de afeto muito grande e muito poderosa, pessoas que já se conheciam ou que passaram a se conhecer e potencializaram, a nossa base, o nosso lastro é esse! De 2013 até 2015 houve um transbordamento gradativo desse núcleo. Em 2013, esse transbordamento era diminuto, então a gente conseguiu acionar a rede de blocos que cresceu para além desse ciclo e desses grupos, e ainda estabelecer relação e contato com essas pessoas. Já em 2014 e 2015, isso se perdeu, hoje, qualquer pessoa minimamente consciente consegue ver que esse núcleo é um grupo minguado dentro desse macro universo. Nós somos hoje um grupo, dentro de um grande grupo, mas somos dentro desse grande grupo, o único grupo que existe enquanto grupo, por conta desse processo de construção histórica, afetiva e relacional. Assim, conseguimos conversar enquanto grupo, nos mobilizar, nos articular, criar discursos, criar enfrentamentos, lutas e a partir disso, pautar outras pessoas e envolver pessoas que não tem consciência dentro desse discurso que a gente ajudou a construir para poder participar dele. E hoje, o que acabou acontecendo foi que com o carnaval também se potencializando e diluindo, e como a gente mencionou antes, alguns blocos se transformando em conjuntos musicais, o que dá a eles uma outra dimensão e também exige deles outra dinâmica, outros tempos, outros investimentos. E alguns pelo contrário, tentando potencializar por aquela dimensão inicial, o caminho da errância da experimentação, dos deslocamentos, das relações menos oficiais, foi criando uma nova dinâmica que impôs certo distanciamento. Aquilo que até 2012 era mais forte do ponto de vista organizacional, de encontros mais efetivos, a partir de 2013 acaba se dilatando e esse processo de organização vai ser efetivando nos momentos de crise. Nessas situações de enfrentamento forte, essa rede é acionada, e aí ela consegue se mobilizar, e quando o carnaval está chegando. Agora já está começando, a proximidade do carnaval cria uma ambiência, um movimento, um ritmo de reaproximação, de “reconversa” e os

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momentos de crise e de enfrentamento - “Prefeitura soltou um decreto!”, “Prefeitura baixou uma portaria!” - criam esse cenário de união de novo. Nunca houve uma organização formal desse processo, sempre foi uma organização orgânica, sempre aconteceu de forma muito espontânea e, a partir desses laços de afetividade, de amizade, de sonhos, de desejos e de vontade.

Não existe propriedade para isso, você pode estabelecer

relações, toda vez que você escuta as mesmas pessoas é

óbvio que você reforça o lugar dessas pessoas, mas a

verdade é que a história é uma areia movediça, fluida, na

dinâmica da vida, ela não tem contorno, não tem

domesticação, ela é muito maior.

E com certeza, nesses últimos anos muitas experiências como essa aconteceram e estão acontecendo na cidade, que a gente desconhece. Nem sabe que estão por aí e, que já aconteciam e continuaram acontecendo em espaços, em blocos, em grupos que mesmo com toda a realidade inóspita e refratária da cidade, por exemplo, durante o carnaval, e se mantiveram vivas. Se tem várias situações, experiência no Santa Tereza, no Sagrada Família, no Calafate, no Carlos Prates. Você tem experiência nas periferias, nas favelas, experiências vivas nas escolas de samba, de blocos caricatos que são espaços comunitários periféricos e que estão desde a década de 20, década de 30 em Belo Horizonte, mantendo essas histórias e essas experiências vividas. Uma coisa maravilhosa que o carnaval possibilitou para a gente, que foi a oportunidade de participação nestes grupos. Talvez, hoje, essa seja uma das grandes frentes de confluência que a gente precisa construir, que é potencializar essa aliança, com as escolas de samba, com os blocos caricatos. No sentido de não permitir que o afã da captura rápida e fácil da Belotur com a experiência dos blocos de rua, que atrai turismo, atrai a classe média e a classe alta de forma muito mais forte e potente, ajude a pagar ou a criar um espaço de

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visibilidade ainda maior dos processos das escolas de samba e dos blocos caricatos da cidade, e essa luta permanente em criar dissensos, em criar essas zonas de desconforto, de encontro e de transformação.

Créditos: Flora Rajão

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195 Créditos: Flora Rajão


Diário

de Bloco Entre a Esperança e a Vitória

O Bloco Os Filhos de Tcha Tcha estava marcado para sair nas Ocupações Izidora, localizadas na região metropolitana de BH, próximo à divisa da Capital com Santa Luzia. Para transportar os foliões, o movimento Tarifa Zero disponibilizou dois ônibus gratuitos que sairiam do Centro. Acordamos às 10h e saímos atrasados e sem almoçar por volta de 12h30 para pegar o último ônibus para a ocupação. Apesar de não saber de onde sairiam os ônibus fomos para a direção da Praça da Estação, que costuma ser ponto de partida em eventos como este. Descobrimos rapidamente o local de saída dos ônibus: a fila dos passageiros-foliões já dobrava a esquina das Ruas Bahia com Guaicurus, próximo ao cine104. Precisaria de uns 5 ônibus para transportar todas aquelas pessoas. Quando chegamos acabamos descobrindo que os ônibus de 12h30 ainda estava atrasado, além disso o movimento Tarifa Zero havia solicitado mais 2 ônibus de última hora para dar conta da demanda de passageiros.

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A fila que dobrava o quarteirão foi ponto de encontros e reencontros dos amigos de carnaval. Logo na chegada encontramos a Mel, que conhecemos no último ensaio do Então, Brilha!. Ela estava grávida de 8 meses, e já tinha desfilado por mais de 4h no desfile do Brilha! no sábado. Mel estava à principio sozinha e se juntou a nossa turma. Estávamos os três fantasiados como de costume. Ficamos mais de 40 minutos à espera do ônibus e o fato de ter chegado tarde não nos deixou em uma boa colocação na fila. Mesmo com todos os ônibus extra não caberia todos os foliões que ali esperavam. Decidimos então seguir com um grupo de cerca de 60 pessoas que iriam para a ocupação utilizando os ônibus urbanos comuns. Logo imaginei que iríamos viver uma experiência como as dos moradores daquele local, que também dependiam do transporte público regular para se deslocarem para o trabalho, e outras atividades. Caminhamos todos juntos para a estação do MOVE/BRT metropolitano que ficava ali próximo, na Av. Santos Dumont. Quando nos aproximamos da bilheteria do MOVE, já comecei a procurar inocentemente com os olhos a cabine da bilheteria do move. Como eu poderia ignorar o fato de que estava com grande parte do movimento Tarifa Zero BH? Ao som da música do bloco do movimento, denominado Pula Catraca, as pessoas não se intimidaram em seguir o seu caminho, ignorando as roletas da estação e fazendo um “catracaço” ao som de“Pula Catraca / Tarifa zero! /Pula Catraca/ Tarifa zero!/ Pula Catraca/ Eu também vou pular”. E foi assim que dei o meu primeiro pulão de catraca, junto daquela turma. Dentro da estação as músicas do movimento continuavam. Algumas pessoas que estavam dentro da estação se mostraram encabuladas com a situação. Não passou nem cinco minutos e a Polícia Militar já chegava na estação. Fardados e com cassetetes de madeira nas mãos e armas de fogo na cintura a PM chegou entrando na estação e fazendo uma limpa: eles tiraram a maioria das pessoas que estavam no local para pegar o transporte cotidianamente e transportaram em seus carros provavelmente para outro ponto

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do ônibus. Foi um momento de tensão entre os foliões. A incerteza do que poderia acontecer e a possibilidade de um confronto com a PM fez com que alguns dos participantes começassem a desistir daquele meio de transporte. Neste momento comecei a ficar mais tensa com a dissipação do grupo. A separação facilitaria uma ação de retaliação da PM com o bloco. Mesmo com medo, decidimos permanecer no local encorajados pela Mel com aquele barrigão de 8 meses – quem se mantinha firme diante da situação. Mesmo com o clima hostil, o grupo mantinha suas canções protesto: “Se você paga/ não deveria/ porque transporte não é mercadoria”, e chegaram até a cantar músicas pela desmilitarização da PM. Os policiais ocupavam o redor da estação com veículos com as sirenes ligadas, acredito que para colocar um pouco mais de terror nos participantes do ato. Não cedemos à pressão e permanecemos na estação até a chegada do ônibus. Ao estacionar posicionado em frente as portas da estação, a PM tentou impedir que o ônibus desembarcasse passageiros na estação e boicotar o embarque dos foliões. Apesar disso, o ônibus manteve o seu trajeto estacionando no local. Após o desembarque dos passageiros, o bloco inteiro entrou no Move. O ônibus que normalmente estaria vazio em uma segunda-feira de carnaval belo-horizontino, se encontrava tão cheio quanto às 6h30 de uma segunda-feira qualquer. Para que coubesse todos no ônibus - quem ficasse de fora com certeza teriam problemas com a polícia - foliões ajudaram uns aos outros. Os que já estavam dentro do ônibus davam à mão para aqueles que ainda não tinham conseguido entrar, até que todos festeiros da estação se encontrassem dentro do veículo. Grávidas acomodadas, seguimos a viagem. Um dos moradores que simplesmente pegavam o ônibus para ir para casa questionava: “Mas a festa de vocês não é para o outro lado?”. Explicamos que a festa hoje seria nas ocupações. À princípio muitos dos usuários frequentes do ônibus se encontravam com as caras fechadas, de poucos amigos. Mas com o trajeto, a música e as brincadeiras dentro do ônibus fez com que os rostos emburrados não resistissem e

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se desfizessem. O ônibus fazia viagem direta, o que é anormal, sem parar nas estações do corredor Antônio Carlos ou Pedro I, provavelmente pelo estado de superlotação do veículo. Seguimos cantando e batucando aonde podíamos - predes, janelas, barras de segurança - apesar de mal conseguir mexer naquela apertura que nos encontrávamos. No repertório axés, músicas de exaltação ao feminismo, à movimentos sociais, como Brigadas Populares, e outras adaptações como na marchinha Cabeleira do Zezé, que virou “Olha a cabeleira do Zezé, ele é o que quiser, ele é o que quiser”. Também cantamos músicas ícones do carnaval de BH: Fui me banhar na Praia da Estação, Baile do Pó Royall, Manjericão, entre outras. Durante o trajeto era possível perceber que quanto mais afastado de Belo horizonte menor a infraestrutura nas estações do Move, e maior a precariedade nos serviços. Depois da estação Vilarinho, as cabines do move já contavam apenas com as estruturas de ferro, sem nem ao menos terem as portas de vidro. Quando chegamos na última estação já em Santa Luzia, depois das 14h30 um ônibus do Tarifa Zero nos aguardava para transportar os foliões até a ocupação. Foi preciso duas viagens para abrigar todos os carnavalescos. As pessoas que estavam próximas à estação observavam com desdém a turma de malucos fantasiados, algumas delas olhando com caras de espanto. Ficamos na segunda viagem do ônibus, e enquanto aguardávamos a volta da primeira remessa de transporte quase comemos todo o cesto de balas que a Paola levava para as crianças. Quando embarcamos finalmente no ônibus, o veículo estava cheio, mas ainda com espaço para todos se acomodarem – alguns sentados, outros em pé. Ainda levamos uns 15 minutos até a ocupação. Dentro do ônibus o ambiente lembrava aqueles momentos de excursão de escola infantil, com músicas direcionadas ao motorista e brincadeiras. Naquele processo todo fiquei pensando quanto tempo demorariam um morador de lá em estados normais de deslocamentos? Nós demoramos com toda a certeza mais de duas horas e meia, contando com recursos que os moradores

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geralmente não contariam. Quando chegamos na ocupação, entramos para um terreno que a princípio tinha poucas casas construídas em tijolos inacabadas. Seguimos adentrando o caminho com o chão de terra, descendo morros entre um barranco e outro. Era impressionante, apesar de o lugar ser distante e de difícil acesso um grande número de pessoas aguardavam a saída do bloco com fantasiadas, tintas e instrumentos para carnavalizar as Ocupações Izidora. Ao chegar era possível ver a felicidade na recepção calorosa dos moradores. Continuamos descendo os morros de chão de terra vermelha. Os morros eram quase barrancos brutos, e já era possível ver ao seu fim algumas casinhas de tapume, lona e madeirite. Havíamos combinado de procurar alguma coisa para comer assim que chegássemos na ocupação, já eram mais de 15h30 e nem almoço tínhamos feito para enfrentar a maratona de festividades do dia. Como não existia ambulantes ou qualquer estabelecimento para comparar comida, ficamos aguardando. Acabei me separando dos meus amigos para me juntar à bateria, levando comigo apenas o meu tarol. O caminho era muito estreito, e o grande número de pessoas fazia com que a bateria ficasse extensa, o que dificultava a visibilidade da regência, que seguia no chão. O calor daquela tarde era muito grande, e o sol se mostrava quente e à pino no céu, que estava com algumas nuvens escuras. Os moradores saíam à frente de suas simples casas feitas de tapumes, madeirite e lonas. Mesmo com as condições precárias e sem saneamento básico eles nos recepcionavam com água, alguns com mangueiras improvisadas, outros jogavam a água nos foliões com panelas e vasilhas de cozinha, na tentativa de nos refrescar. A vida ali devia ser difícil, mas os moradores pareciam não se importavar em compartilhar o pouco que tinham conosco. O Bloco Os Filhos de Tcha Tcha seguiria o trajeto passando pelas três ocupações Izidora, começando pela Rosa Leão, seguida de Esperança e Vitória. Cada vez mais moradores

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se juntavam à folia. No local não haviam ambulantes, e só a partir do meio da ocupação Rosa Leão para frente conseguimos encontrar pequenos mercados e botecos para comprar cerveja ou água. Na medida que o bloco andava alguns desafios apareciam no trajeto como buracos e morros, ou barrancos íngremes para serem atravessados pela multidão de pessoas que seguiam pela ocupação. Acredito que o bloco contava com mais de quinhentos foliões. Em algumas partes do trajeto, o caminho em que se reduzia a pequenos corredores, como se fossem pontes improvisadas, dificultava a travessia dos foliões. Ao redor da estradinha de terra uma mata densa e fechada nos deixavam maravilhados. A comunhão da festa, da natureza, das ocupações e dos foliões aumentavam ainda mais a beleza da paisagem. Em algumas partes da ocupação era possível notar grande distância entre uma casa e outra. A extensão do caminho era bem grande. Em um dos momentos ainda na primeira ocupação o bloco fez uma parada no primeiro pequeno estabelecimento comercial. A proprietária da vendinha feita de madeira, Dona Marta, fez um breve discurso sobre a resistência da ocupação, e agradeceu à chegada dos foliões finalizando a rápida fala, que deve ter durado menos de 5 minutos, com um “ todos juntos e misturados”. Em seguida o Guto, um dos regentes do bloco, puxou um funk nos instrumentos junto de um grito com o nome da moradora do local “Uh! É dona Marta!” e em seguida “Izidora! Izidora!”. Mais do que curtir uma festa e poder levar a festa para áreas periféricas às políticas públicas básicas do município, o movimento carnavalesco também dava apoio e reconhecia, com a presença do bloco, a legitimidade daquelas ocupações, e a importância do uso social da terra e garantia do direito à moradia digna. Provavelmente um carnaval convencional não chegaria por ali. O bloco nos deu uma experiência de conhecer e compartilhar um pouco de uma realidade desconhecida por muitos dos foliões ali presentes, e vivida por pessoas que se encontram à margem das políticas, da estrutura do estado e das vistas da sociedade.

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Ver a alegria e a recepção acolhedora dos moradores com o grupo também marcava aquele bloco. Um dos pedidos no evento no chamado do bloco em sua rede social foi a solicitação de que os foliões levassem adereços ou fantasias para que os moradores também pudessem entrar no clima. Alguns foliões levaram tintas e pintaram as várias crianças que vinham acompanhar a passagem da festa e participar do bloco. Moradores se juntavam à bateria com instrumentos improvisados: baldes, vasilhas, colheres ou pedaços de pau viravam tambores e baquetas. Enquanto a folia se mantinha, uma chuva forte armava no céu, que ficava cada vez mais cinza. Quando as primeiras gotas começaram a cair não nos encontrávamos nem na metade do caminho que seria traçado pelo bloco. A chuva começou a cair um pouco antes de chegarmos à Ocupação Esperança. Apesar de nos refrescar à princípio do calor imenso que se fazia naquela tarde, a chuva trouxe um agravante para o nosso desfile. Com a terra molhando, algumas partes do caminho ficaram ainda mais difíceis de passar. Em algumas partes do trajeto a enxurrada fazia com que formassem pequenas cachoeiras de barro que atravessavam o caminho. Com o aumento da chuva a dificuldade de se acompanhar a bateria ficou ainda maior, já que a visibilidade que se encontrava comprometida pela grande extensão do bloco, ficou ainda mais prejudicada com a tempestade. Muito distante, as pessoas ao fundo não conseguiam acompanhar a regência que naquela altura quase não tinha mais contato visual com a maior parte do bloco. O fato de se precisar ficar atento ao caminho também fazia com que o cuidado no trajeto fosse redobrado. Por sorte encontrei o Rafael, quem havia conhecido na noite anterior no bloco do Tico Tico para me ajudar no trajeto, desde o início do bloco havia me perdido dos meus fieis companheiros de farra e seguia sozinha na bateria. Mas diante daquela situação já havia desistido de tentar acompanhar a bateria que estava mais à frente. Em um momento do desfile tomei um grande susto ao ver uma menina que estava do meu lado sofrendo uma convulsão no meio de toda aquela água e lama.

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A menina se contorcia toda e se rebatia depois de cair ao chão. Pedimos por socorro e médicos e enfermeiros que estavam no local como foliões ajudaram a tomar as medidas necessárias para controlar a crise. Fiquei me questionando se caso algo mais grave acontecesse, daríamos conta de prestar os socorros necessários. Os trovões batiam mais forte que os tambores e os raios cortavam o céu cinzento causando clarões momentâneos. A tempestade também me despertou para a dificuldade que deveria ser para os moradores da região em dias de chuva como aquelas com suas moradias frágeis, com a falta de saneamento básico - não havia água ou esgoto encanado nas residências precárias – ou transporte coletivo. Na chegada em Esperança, um arco-íris marcava o céu. Aquele fenômeno parecia mais significativo e de certa forma servia como motivador para continuarmos a caminhada. O cortejo do bloco naquela altura, sob a forte tempestade já tinha virado uma marcha para o fim da ocupação. A bateria precisava parar totalmente em alguns momentos para que conseguisse passar pelos percalços do caminho. Eu e o Rafael decidimos nos aproximar mais da bateria para tentar acompanhar e tocar alguma coisa. Em alguns momentos o fundo da bateria já tentava emplacar uma segunda música. Nos esprememos entre a multidão, a apoiando um no outro para conseguirmos atravessar aquele lamaçal. A cada passo patinávamos na lama e quase caíamos na terra que ficava cada vez mais encharcada, tornando quase improvável subir e descer todos aqueles barrancos do caminho. Continuamos seguindo, nem tão firmes, o caminho. A sensação de calor que sentíamos mais cedo tinha ido toda embora com as águas geladas que caíam sob a Região do Izidora. O frio piorava com o vento. Já tinha desistido de encontrar os meus amigos, quando de repente vejo uma saia verde brilhante numa pessoa saltitante no meio da multidão. Finalmente encontrei com o Cristiano, que já era conhecido por todo desfile como Ariel, acompanhado da Paola. Eles estavam totalmente bêbados e pulando de um barranco ao outro. Se para mim a sobriedade tinha me trazido questionamentos e

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temor por toda aquela multidão na tempestade, aqueles dois se divertiam com cada perigo que corriam. Cristiano que estava com o pé torcido, nem se lembrava da dor e seguia nadando e deslizando no lamaçal. Livres e libertinos os dois contavam sobre os vários amores de carnaval que eles haviam arrumados no trajeto, sendo alguns comuns. Mais uma vez eles haviam gastado todo o nosso dinheiro bebendo e ficamos sem nem uma grana para voltarmos para casa ou comer. Continuamos seguindo o trajeto e depois de andar mais algum bom pedaço de chão chegamos a Vitória. Rafael destacou algo válido durante o caminho: os nomes das ocupações ficavam claros depois de tanto penar no trajeto – Rosa Leão todos animados, sol brilhando, a passagem por Esperança momento mais crítico da turbulenta chuva, que nos deu força para continuar seguindo e finalmente a chegada. Vitória. Ficamos mais um tempo junto a bateria na ocupação, mas o frio que batia com o fim da chuva e o cansaço depois de tanto penar na chuva fez com que a gente procurasse o caminho do ônibus do Tarifa Zero para voltarmos. À essa altura o turbante que estava na minha cabeça já tinha virado uma coberta, que não funcionava muito por estar encharcada. André Veloso, um dos membros do movimento Tarifa Zero, avisava que devido ao grande número de pessoas que precisariam voltar em apenas dois ônibus, o seu trajeto seria reduzido. O ônibus que antes iria até o Centro, levaria os foliões somente até à Estação de metrô Vilarinho. Na volta, o ônibus nem parecia carregar as mesmas pessoas que estavam ali de manhã. A exaustão dominava os passageiros com as fantasias sujas de lama, pinturas do rosto derretidas e cabelos molhados. Eles tentavam se aconchegar da forma que conseguissem no ônibus: amontoando três ou quatro pessoas em um banco que caberia convencionalmente apenas duas, ou se pendurando nas barras de ferro para não caírem e ao mesmo tempo escorando o corpo cansado o máximo possível. Depois de desembarcar em frente à Estação Vilarinho entrei coberta de lama no Shopping Estação sendo vigiada por todos os seguranças, e sendo alvo de olhares desdenhosos das pessoas que passavam por

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ali. Por sorte, havia levado meu cartão de vale transportes e do banco, onde pude sacar dinheiro para caso de necessidade. Na volta o catracaço chegou a ser iniciado pelos foliões, mas por se tratar do metrô, com sua guarda ferroviária à postos, pular a catraca não era opção para aqueles que quisesse voltar para casa usando aquele modal. Pagamos as passagens com o cartão BHBus e seguimos no metrô quase vazio. Apesar de estar quase um zumbi, segui no vagão batendo os ritmos no tarol. As pessoas que sentavam ao nosso lado quando entravam no metrô, logo trocavam de lugar para se afastar do trio decadente. Ignorávamos os olhares de estranhamento e continuávamos cantando as músicas carnavalescas com as limitações que o nosso corpo nos oferecia naquele momento de exaustão. Depois de perder meu gravador no primeiro dia de carnaval, o celular no dia anterior no bloco do Tico Tico, tinha anunciado na manhã antes de sair de casa que não restava mais nada para perder. Perdemos a estação de desembarcar no metrô. Por: Naiara Rodrigues

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CAPÍTULO 7 3 CAPÍTULO ticoPRAIA tico

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“Fui me banhar na Praia da Estação, mas esqueci o meu filtro solar” Em dezembro de 2009 o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, sancionou o Decreto Nº 13.79845, que proibia eventos de qualquer natureza na Praça da Estação. A proibição levantou a discussão acerca do uso do logradouro público e a ocupação dos espaços da cidade, e se tornou uma pauta recorrente, dando início 45 - DECRETO Nº 13.798 DE 09 DE DEZEMBRO DE 2009. Disponível em: <http://portal6.pbh.gov.br/dom/iniciaEdicao.do?method=DetalheArtigo& pk=1017732>. Acesso em: Setembro de 2014.

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ao movimento Praia da Estação, em 2010, quando um grupo de pessoas passou a se reunir, em trajes de banho, em encontros que visavam ocupar a praça aos sábados. Como reflexo direto deste movimento surgiu, em 2010, aos sábados de carnaval, o Bloco da Praia. Encontros realizados por movimentos de ocupação de espaço público, como a Praia da Estação, foram se tornando cada vez mais comuns, e potencializaram a apropriação da cidade e a criação de novos blocos carnavalescos. Guto Borges: “A Praia da Estação e o carnaval são dois processos paralelos e que se intercruzam o tempo todo. A Praia foi identificada como um rolê da cultura e da música, por isso mais gente comprou a ideia e começou maior que o carnaval. A Praia nasceu da ideia de simular uma praia em Belo Horizonte, junto com o decreto que irritou muita gente. Lembro que quem ficava na cidade em janeiro, ficava com recalque de praia e atividades de lazer, já que não tinha Espanca!, nem Bordello46, por exemplo. Nós, que éramos amigos de banda e música, fomos todos solidários para lá. Mas, nesse dia, a fonte foi desligada, então foi um movimento de total invenção, pensamos em alugar um caminhão pipa. E assim, a Praia da Estação foi nascendo e se reinventando”. Rafa Barros: “Quando a gente pensou o Bloco da Praia, a gente não queria que o Bloco da Praia fosse somente um bloco de carnaval que levava o nome da Praia, porque só de carregar este nome já estaria no contexto político que a Praia estava inserida. Queríamos potencializar esse gesto, então surgiu a ideia de a gente lavar as escadarias da Prefeitura com um caminhão pipa. Ao invés do banho com o caminhão pipa ser na Praça da Estação, ele seria na porta da Prefeitura e a gente ia lavar (fazendo uma menção à lavagem das escadas do Bonfim), justamente porque as portas da Prefeitura estavam fechadas para o povo. Era uma forma da gente se apropriar da Prefeitura que tinha sido fechada, gradeada pelo Lacerda; e ao mesmo tempo uma forma de tirar de lá a “inhaca”, o peso do Lacerda à essa política de higienização. Todo mundo estava comedido e eu lembro que, de repente, eu peguei a mangueira do caminhão

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46 - Espaços culturais da cidade, localizados na Rua Aarão Reis, próximo à Praça da Estação. O Bordello era uma casa noturna que teve sua última atividade em maio de 2014, onde hoje funciona o BAIXO Centro Cultural, com a proposta próxima ao antigo estabelecimento. Já o Espanca! é uma companhia de teatro que mantém um espaço aberto a propostas artísticas de diversas linguagens.


Praia da Estação 2013. Créditos: Priscila Musa

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e comecei a lavar a fachada da Prefeitura inteira; os guardas, que estavam em cima, tiveram que recuar e sair da frente. Antes desse ato, o Fidélis Alcântara escreveu o Manifesto da Macumba47, que foi lido na hora da lavagem e foi incrível, porque ele falava os versos e todo mundo repetia para poder ouvir, já que não havia estrutura nenhuma. E assim, esse manifesto acompanhou a Praia por três anos consecutivos.

Manifesto da Macumba Marcio Lacerda, prefeito da capital Queremos lhe mostrar o carnaval. Veja esta cidade feliz Do jeito que você não quis. Lacerda vamos lhe pedir em forma de reza Um mantra, macumba para ver se pega. Lacerda seu desmiolado Não deixe o parque fechado. Lacerda seu incoerente Libere a praça para a gente. Lacerda seu mentiroso Não derrube a mata do Cardoso. Lacerda você nos une Reforme o Chico Nunes. Lacerda amigo dos empreiteiros O centro precisa de banheiros. Lacerda amigo do Aécio e do Pimentel Nós vamos te internar no Pinel. Lacerda isso não está certo Derruba o decreto!

47 - Manifesto da Macumba. Disponível em: <https://pracalivrebh.wordpress.com/tag/praia-da-estacao/>. Acesso em: Outubro de 2015.

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Teve uma cena superengraçada nesse dia, em que a gente estava lá no caminhão pipa molhando e apareceu um policial, que entrou no meio do povo. Eu dei um banho de mangueira nele e ele ficou muito nervoso, veio todo raivoso brigar comigo, foi quando eu disse: “moço, me desculpe, mas eu achei que fosse alguém fantasiado de Polícia. Está todo mundo fantasiado e o senhor estava ali no meio, como é que eu saberia que um policial de verdade estaria ali?”. Isso o desarmou completamente, porque ele ficou meio sem reação e acabou não conseguindo me deter ou criar uma outra situação de maior constrangimento com relação a isso. A Praia, então, saiu da Prefeitura e foi encontrar com os meninos da banda Proa, no Bloco do Approach no Brasil 41. Acho que ninguém esperava aquilo em 2010. A Prefeitura e o poder público do Estado não estavam preparados para isso. Foi um ano tão louco”. Nian Pissolati: “Agora, pensar que em 2009 surgiu também o Tico Tico e essas pessoas começaram a se encontrar e formarem um grupo que fazia parte de um universo comum. Éramos uma turma, mas antes não tínhamos relações próximas igual temos hoje. Muitas das relações hoje em dia que existem foram feitas nesse momento. Era um momento em que estavam acontecendo, espontaneamente, vários movimentos em direção à rua, é só olhar para a Praia da Estação. Às vezes me pergunto se tem alguma coisa a ver uma idade também? Fazia pouco tempo que todos nós tínhamos saído da faculdade, tínhamos formado há poucos anos e estava começando um movimento mais independente do pessoal de proposição mais ativa em relação à cidade. Como estava tendo esse movimento de convergência para a rua, acho que foi o momento em que todo mundo entendeu que aquilo ali iria acontecer. Tanto é que foi uma coisa que não teve que ter uma formalização”. Janaína Macruz: “A Praia da Estação, 2010 é um marco em Belo Horizonte. Simplesmente fez com que todo mundo se conhecesse, mesmo sem querer. Eu vinha da música, o Guto vinha da música, já fazíamos algumas coisas na rua juntos. Eu fragava algumas coisas de teatro, de cinema, de movimento social, mas não conhecia

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o pessoal. E 2010 fez todo mundo se conhecer. A galera da faculdade, as pessoas da cultura, movimentos sociais... acho que eclodiu isso. Sem contar que foi um movimento de ocupação muito importante para a cidade, juntamente com o Bloco da Praia. O carnaval aqui é completamente político mesmo, veio da onda da Praia, de ocupação e você vê a mudança da cidade em relação a isso”. Rafa Barros: “A gente já tinha combinado que o sábado era o dia de puxar o Bloco da Praia, porque já tínhamos antecipado uma postura da Prefeitura de achar que, como o carnaval na cidade era completamente vazio, a cidade ia estar totalmente vazia e a Praia que vinha em um movimento ascendente, talvez fizesse com que o pessoal ficasse na cidade. Nessa época, a Praia acontecia todo sábado, a primeira aconteceu no dia 16 de janeiro de 2010, e era um movimento encontro, da ocupação, da experiência e passamos a fazer conversas sobre a cidade às terças ou quintas na Praça da Estação. Discutíamos sobre a Praia, a ocupação do espaço público, as outras questões da cidade. Então, nada mais coeso do que o Bloco da Praia acontecer no sábado. Lembro que foi nesse sábado de carnaval que as fontes da Praça da Estação foram religadas, já que haviam sido desligadas desde o início do movimento como forma de boicote da Prefeitura com a Ângela Gutierrez e o Museu de Artes e Ofícios. Eles diziam que estavam desligadas porque estragaram, mas a gente sabia que era boicote. Tanto que do nada, no carnaval, elas foram ligadas de novo. Só que a gente estava lá para fazer a Praia e o Bloco da Praia com o primeiro mar de cimento. Há uns dois anos ela foi desligada de novo, não só em boicote à Praia, mas também por conta de uma apropriação que os moradores de rua fizeram da fonte, sempre teve uma perseguição muito grande da Guarda Municipal que impedia os moradores de tomarem banho na fonte, e com a Praia isso se diluiu, porque não tinha como impedir os moradores de usarem a fonte se todo sábado um tanto de gente ia lá se banhar. E como houve uma multiplicação de moradores de rua se apropriando da fonte, ela foi desligada de novo. É absurda a falta de política pública de proteção à essa faixa da

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Bloco da Praia em 2010 em frente à Prefeitura. Créditos: Flavia Mafra

Bloco da Praia em 2015. Créditos: Maxwell Vilela)

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sociedade, né? Atualmente ela foi ligada novamente por causa da inversão de ir para a Praia da Savassi. O medo do povo invadir a Savassi é muito maior do que a invasão no baixo centro”. Nian Pissolati: “As coisas são muito impressionantes mesmo, eu acho que hoje em dia a gente tem essa discussão horizontal, são várias pessoas discutindo e propondo várias coisas, não só no carnaval. A gente já conversou várias vezes sobre o poder e a conversa direta que a Praia da Estação tem. Essa coisa de ela ter acontecido na Savassi e automaticamente eles religaram a fonte da Praça da Estação”. Rafa Barros: “É muito doido, porque 2011 foi um ano que choveu para caramba, e no sábado, começou um conflito com a polícia, quando a Praia chegou para desaguar no Approach, no Brasil 41 de novo. A polícia e os fiscais da Prefeitura, já com a movimentação anterior e com a saída dos blocos no final de semana anterior e durante a semana, acabaram se direcionando para constranger esse movimento, e aí é muito doido, que não existe essa reflexão crítica. As coisas se apagam com uma velocidade muito grande, no sentido de que houve deliberadamente uma postura da Prefeitura em uma clara oposição ao movimento de carnaval, de ocupação da Praça da Estação e a potência que ele significou, em enfrentar o carnaval, em lutar contra esse processo do carnaval, porque ele se apresentava como um processo de discussão crítica, política, da administração do Márcio Lacerda, ao pensamento que essa administração comportava em relação à ocupação do espaço público e isso se fez muito forte lá no sábado. Não só no sábado, na própria Prefeitura - porque a gente chegou na Prefeitura e tinha um contingente policial imenso na porta da Prefeitura - e depois quando a gente chega no Brasil 41 tinha a polícia com os fiscais da Prefeitura, com a guarda municipal que tentaram multar Dona Jacira, porque ela não tinha autorização para estar fazendo aquilo ali, que se tratava de um evento e que ela iria ser multada. Então, combinamos que iríamos para a Praça Floriano Peixoto “e aí, quem vai ser multado?”, porque a praça é pública, esse bloco não tem responsável, não tem

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quem puxe, é um aglomerado de gente, “quem vocês vão responsabilizar por isso?” Foi quando houve esse primeiro grande enfrentamento, que a gente fechou ali, na tora mesmo, eu fui para cima da polícia, teve enfrentamento físico mesmo, quando fechamos a Domingos Vieira ali perto do batalhão em frente à Floriano Peixoto e aí depois o bloco se dissolve”. Janaína Macruz: “Agora a gente já está em outro patamar, mas eu lembro em 2011 ou 2012, quando a gente fez um bloco na Praia e ia pegar o metrô para vir para o Santa Tereza, e acabamos fazendo um bloco dentro do metrô! Chegamos na estação e a funcionária disse: “Vocês não podem pegar metrô assim todos caracterizados”. Ficamos sem entender e eu perguntei “Qual é a maior festa do Brasil?”, ela respondeu “Carnaval”, eu respondi “mas você não gosta de carnaval não?”, ela disse “Gosto” e eu retruquei: “Então, nós estamos fantasiados, é carnaval, nós estamos no Brasil!”. Ela ficou sem palavras e se limitou a dizer: “Peraí que vou chamar minha gerente”. Eles não queriam deixar a gente entrar só pelo fato de estarmos fantasiados, com instrumento e a gente nem estava fazendo barulho. É um estranhamento, né? É uma novidade uma funcionária do metrô ver uma galera chegando daquele jeito. Quando a gerente chegou ela disse que poderíamos entrar, mas não tocar ou cantar. Lembro da gente descendo para o trem, foi uma das cenas mais lindas que já presenciei! Não teve jeito… a gente começou a brincar, recitar as marchinhas (“alala ô, ôh oh oh”) igual mantra, porque a gente não podia cantar. Depois que entramos no trem foi só festa! Hoje em dia a gente pode entrar fantasiado no metrô. E esse estranhamento era do novo mesmo”. Elisa Marques: “No dia da Praia a gente fica de biquíni, todo fica mundo molhado no meio da Afonso Pena, entra no Palácio das Artes e na Prefeitura. Eu lembro que teve um dia que eu queria fazer xixi, eu me afastei um pouquinho e vi pessoas que estavam na vida normal do lado de fora e eu só de biquíni. Pensei “puta merda, e agora? Como é que eu vou agachar aqui no meio da Afonso Pena, sozinha para fazer xixi?”. Senti

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que estava dentro de uma bolha mesmo. Foi louco ver esse contraste: como é que ali dentro tinha um regime corporal e lá fora já era outro. Talvez não tivesse espaço para isso ou para a discussão se era mulher, se era perigoso, se eu ia embora sozinha de biquíni ou se não ia... mas cada vez mais a gente se sente segura a fazer isso. Essa força de entender “uai, porque não? ”. Porque é que não pode? O mesmo se aplica para o carnaval. Se fantasiar em Belo Horizonte era muito difícil até a pouco tempo. E foi massa a gente ver isso acontecer na nossa rua. A gente saindo maquiadão, carregando instrumento e as pessoas já verem isso de uma forma diferente”. Rafa Barros: “A marchinha atual da Praia da Estação era a do Bloco do Tcha Tcha, feita pelo Miguel Duarte. Aquela assim: “Fui banhar na Praia da Estação, mas esqueci o meu filtro solar, agora saio no bloco que da Tcha Tcha fantasiado de camarão”. Ele absorveu o erro ortográfico de uma publicação no jornal, depois com o tempo, não houve a correção do canto, já que o bloco se transformou em Filhos do Tcha Tcha e a marchinha foi repassada para o Bloco da Praia, porque a gente sempre cantava ela lá”. Elisa Marques: “Em 2011 teve um confronto da PM com os foliões na Praça Floriano Peixoto, no final do Bloco da Praia. Isso fez com que ficasse mais explícito o incomodo que estava acontecendo, do que a gente representava na cidade. E isso acontecer no Bloco da Praia é emblemático, não é por acaso. Tinha sido num dia especial. A gente tinha caminhado da Praça da Estação, passando pela Afonso Pena toda, entramos no Palácio das Artes e desaguamos na Prefeitura, onde a lavamos. A invasão no Palácio das Artes foi demais, foi lindo! As pessoas que estavam lá piraram achando que ia ser uma baderna, que ia ser uma pilhagem total. Apenas entramos e saímos na maior tranquilidade. Como que pode uma multidão agir em uma sintonia só? Uma sincronia muito bonita mesmo, pareceu coreografado. O contrário do que é mesmo. Ao sairmos da Prefeitura, andamos na Avenida Brasil toda. Outra coisa que foi massa nesse dia é que a gente passou pela área hospitalar e a gente começou a cantar muito mais baixo. Rola umas ondas engraçadas, né? Uns romantismos. Foi

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mais ou menos assim: “gente, estamos na área hospitalar, vamos fazer silêncio” e todo mundo fez “shhh” e cantou baixinho. Passamos da área hospitalar e estava todo mundo felicíssimo. Quando chegamos na Praça Floriano Peixoto, que é o batalhão, estavam lá os policiais esperando qualquer motivo para agredir. E, do nada, começou um confronto direto, foi horrível. Era ridículo de ver. Todo mundo só estava pulando e cantando e os caras mandando spray de pimenta e gás lacrimogêneo. Foi muito revoltante. Assim que acontece uma ação dessas e todo mundo se mobiliza na mesma hora. Repressão também instiga uma ação de fortalecimento do grupo, de entender que “opa, a gente não está tão inocente aqui assim”. Precisa ter mesmo uma postura de enfrentamento”. Nian Pissolati: “No confronto de 2011 tinha gente que estava mais exaltada e estava prestes a ser presa. Mas tinha uma turma, de fato mais tranquila, que foi conversar com os policiais. Mas o bloco e as todas as pessoas, voltaram para o centro da praça Floriano Peixoto e nós ficamos lá um tempo ainda, até o negócio sossegar, e depois a gente voltou para o 41, onde estava tendo o Bloco do Approach”. Elisa Marques: “Posteriormente na conversa com a Prefeitura, o confronto foi colocado em pauta. Gerou processos para pessoas individualmente. Começa a trazer qual é, de fato, a dimensão do negócio. E vem sendo assim, com negociações prévias, a Prefeitura passou a chamar os blocos para conversar antes do período do carnaval. Mas, em geral, alguns blocos possuem uma postura bem clara de acontecer independente de uma burocratização, de uma formalização... a Praia nunca entra em conversa nenhuma com a Prefeitura, os blocos que acontecem em ocupações. Começaram a aparecer blocos em ocupações, que já é uma questão que vive isso diariamente, de confronto com a polícia. E fica sempre nesse limiar. Você vê a polícia lá, presente e a qualquer momento pode rolar algum conflito. É bem tênue”. Janaína Macruz: “Em 2012 teve bomba de efeito moral no Bloco da Praia, mas o pessoal já estava saindo de frente da Prefeitura. Na hora eu nem entendi o que estava

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Créditos: Maxwell Vilela

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Créditos: Maxwell Vilela


acontecendo e que a polícia estava jogando bomba. Eu ouvi o barulho, mas não entendi. O Bloco da Praia sempre saia da Praça da Estação, passava pela PBH e desaguava no Bloco do Approach, um bloco que ficava parado no Brasil 41. No meio desse trajeto maravilhoso, a gente invadia banco, invadia o Palácio das Artes, momentos bem divertidos. Quando a gente entrava no Palácio das Artes, por exemplo, a galera ficava bem desesperada, mas era rapidinho. Entrávamos, curtíamos, gritávamos “eeeh!” e saíamos. Quando a gente entrava no banco, tocávamos, jogávamos tudo para cima e saíamos fora. Era só zoeira mesmo. Era carnaval”. Rafa Barros: “Em 2012 a Praia sai de novo com a mesma lógica e tem a ação da Prefeitura, que chama a tropa de choque para o Bloco da Praia. Tem um confronto, com a explosão de bomba de gás lacrimogêneo, uma coisa superagressiva e extensiva nesse processo da represália e é um ano que pela primeira vez a Praia não vai para o Brasil 41. Neste ano a gente desce para a Praça Raul Soares. Tinha até havido uma discussão porque os meninos do Approach, junto com outros blocos, como o Moreré, em 2012 tinham aceitado o patrocínio da Ambev. Rolaram algumas discussões, uma resistência de alguns blocos em relação aos que tiveram uma relação mais formal e oficial com lei de incentivo, incentivo da empresa de cerveja e a gente fazendo uma discussão mais crítica em relação a isso, mas - na verdade - o motivo que fez com que a Praia não fosse pra Dona Jacira, foi o fato de ela já estar muito grande em 2012. Lá na Dona Jacira estava muito cheio e ir para lá iria causar um transtorno. E aí a galera falou: “vamos pra Praça Raul Soares, vamos desviar o fluxo, vamos descer pra Praça, lá tem uma fonte e a gente deságua a Praia em uma outra Praia da Raul Soares!”. É um ano que, pela primeira vez, muda o fluxo da Praia, que é o que se repete depois, consecutivamente, todos os anos. Foi maravilhoso também, porque a apropriação da Praça Raul Soares, daquela fonte, foi uma coisa maravilhosa ainda mais depois dessa carga do enfrentamento político, com as bombas, com a tropa de choque, e a Prefeitura insistente nessa postura de tentar frear, lutar contra essa força e de ver uma ameaça nesse processo do carnaval”.

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Guto Borges:

“A Praia incomodava e sempre incomodou muito.

A gente ficava lá jogando frescobol, bebendo e se divertindo, e a polícia - armada rondando em volta da praça. Ficou muito claro a posição da Prefeitura em 2011, nem tanto em 2010 porque foi muito inédito, completamente fora do radar. A Praia e o Bloco da Praia, criado em 2011, veio de um crescente, literalmente, de mobilização. Vinha ganhando força mesmo”. Elisa Marques: “O diálogo e o embate que começa com a Prefeitura é pelo momento político que a cidade está vivendo. A Prefeitura impôs uma série de restrições que não condizem com a cidade que a gente experimenta, que a gente se dá o direito de experimentar eventualmente no carnaval e que a gente vê que deveria e poderia existir o ano todo. E que de fato, está começando a acontecer. A Praia acontece o ano todo e outros eventos na rua começaram a acontecer. A prática e o aprendizado de se estar na rua começou a rolar, junto com a ideia contestar esse direito, né? Logo depois teve a proibição de pipoqueiro, umas coisas absurdas começaram a rolar e o carnaval passou a ser um momento de concentração do pensamento crítico, e que vem se tornando uma prática cada vez mais constante”. Roberto Andrés: “Eu acho que a gente viveu uma década de esvaziamento do espaço público mesmo aqui em BH e acho que em outros lugares. Foi uma década muito voltada para o consumo, é notável nas políticas nacionais com esse aumento de carros nas cidades, por exemplo. Há uma carência da cidade, do estar junto, que vem se mostrando nesses últimos anos. Ultimamente vejo que estamos utilizando mais o espaço público da forma que ele deve ser utilizado, porque a década de 2000 é marcada por um esvaziamento da cidade, e as pessoas passaram a desejar utilizar

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o espaço público que lhe pertence, vemos muito isso na Praia da Estação. Há um desejo de estar na rua, há um potencial transformador que atinge as pessoas. Eu lembro as emoções que eu tinha quando eu era adolescente em Belo Horizonte na década de 90 e tinham aquelas caminhadas grandes do FIT (Festival Internacional de Teatro Palco & Rua), evento que foi muito forte para mim e para as pessoas que atuam no Carnaval e na Praia, por isso que esses eventos nasceram e tomaram a rua e os espaços públicos”. Rafa Barros: “Acho o carnaval muito transformador. Eu olho a Praia da Estação hoje e vejo como ela foi se transformando e a cidade foi se apropriando e a transformando. Vi o pessoal das periferias descendo para a Praia e ela se tornando negra em todos os aspectos, não só em uma questão fenotípica, mas na potência dessa transformação e o poder disso, que está além das pessoas, que está além de qualquer relação pessoal que se possa estabelecer, ou que se queira ter”. Bloco da Praia em 2012. Créditos: Flora Rajão

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Praia da Estação em 2013. Créditos: Flora Rajão

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CrĂŠditos: Maxwell Vilela

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CAPÍTULO 8 3 CAPÍTULO tico tico manjericão

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“Não vou comprar manjericão, eu vou plantar no meu jardim” Janaína Macruz é produtora cultural em Belo Horizonte, participa do movimento Praia da Estação desde sua origem e é uma das fundadoras do Bloco do Manjericão, formado em 2011, que durante seus três primeiros anos saía no Bairro do Santa Tereza. Ela também participou do processo de criação do Bloco Alcova Libertina.

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“O Carnaval daqui veio muito com a força da Praia da

Estação. Tiveram dois blocos em 2009, carnaval de um

grupo super pequeno de amigos que não viajaram e

resolveram se juntar.

Mas o lance da apropriação do espaço público, que foi a grande pauta da Praia, misturada com a festa e lazer deu origem ao carnaval de Belo Horizonte. Em 2010 nós piramos e fizemos um bloco por dia. Eram umas 300 pessoas e estavam em todos os blocos, as mesmas pessoas tocando nos mesmos blocos. 2010 foi um marco. E teve o Bloco da Praia, né? Isso foi muito importante. Então rolou um movimento para organizar o carnaval de 2011. Organizar assim: vamos pensar o carnaval do ano que vem. Jogamos no Facebook e marcamos uma reunião na Casinha, um espaço cultural da cidade, no segundo semestre de 2010. Chegaram muitas pessoas, a gente nem imaginava que ia ter aquele tanto de gente, nem imaginava que teria bloco, ideias novas. Nessa época, como não tinha muito bloco, a gente pensava as agendas coletivamente para um bloco não esbarrar em outro. Foi com esse movimento que começou tudo, fizemos até um livretinho com a programação e cada bloco começou a gravar as suas marchinhas. Tinha um cara nesse grupo que estava trabalhando em uma gráfica e disse ter um crédito de impressão e conseguimos imprimir o suficiente para distribuir durante o carnaval. Foi um momento de muita ocupação nessa época. Eu morava na esquina do seu Orlando, no Santa Tereza, numa casinha verde, eu e o Cabelinho, quem fez o hino do Pena de Pavão de Krishna, e a gente amava manjericão. Todo dia a gente comia manjericão. A nossa casa era verde, o que fez a gente começar a chamar a casa de manjericão. O Cabelinho também era da Alcova Libertina, decidimos, na mesma época, fazer o Bloco da Alcova e o do Manjericão também. Tanto eu quanto ele, variávamos um pouquinho no carnaval, quando tinha dinheiro ia pra Recife quando não tinha ficava no Rio. Nós ficamos inspirados nisso, o Manjericão também tinha

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uma simbologia com a maconha, tem o Bloco do Segura A Coisa, que sai na quartafeira de cinzas à noite lá em Olinda, e também é super legal. Ficamos pirando e nisso e criamos o Bloco do Manjericão, porque manjericão é lindo e significa mil coisas. Em 2011, nós compramos um tanto de manjericão, mas muito manjericão. Queríamos perfumar o trajeto. Tínhamos a ideia de plantar também, mas em cima da hora não rolou. Colocamos o monte de manjericão na porta e todo mundo que vinha pegava. Realmente, se você estivesse distante do bloco você sentia o cheiro do manjericão. O primeiro ano foi maravilhoso, lembro que o Rafa Tcha Tcha se pintou de verde e fez um Hulk. Mas 2011 já era um ano que tinha mais gente. Os blocos já tinham duplicado ou triplicado, já tinham 600 ou 800 pessoas. O Alcova Libertina deu duas mil. Eu lembro que a gente delirou: “nossa tem gente para caralho, que doido”. Hoje em dia já pensamos diferente. Mas na época era êxtase total, e todo mundo junto querendo ir em todos, era muito articulado, foi um movimento da cidade mesmo, e de pessoas que nem estavam tão juntas assim. O movimento musical também foi muito legal, as pessoas queriam gravar, e todo mundo alimentou a ideia de criar o band camp com todas as marchinhas. Cada bloco tinha que fazer a sua, é claro que os sopros eram poucos, e tocaram em todos, mas foi se articulando, um pouco gravaram no estúdio Contato, que é uma ONG ali na Serra, outro tanto foi no Queijo Elétrico - inclusive tinha o Bloco do Queijo, que chamava Beijo Elétrico, que já acabou. Isso em 2010, que começou a articulação para 2011, nessa época o Luiz Valente, da Vinyl Land Records, já queria lançar o vinil de carnaval com as marchinhas. Começou a rolar umas tretas e ele acabou deixando para lançar o “Deita no cimento”, em 2015. O lance da marchinha foi isso, foi juntando. Lembro de estar na Savassi, de encontrar o Batista, do Grupo O Porco, que falou: “Aqui estamos pirando na marchinha do Manjericão, é meio ligado à maconha, tem quarta-feira, que é quando a galera já

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começa a trabalhar, vamos pensar nisso?”. A Laurinha Lopes chegou um dia com uma mais elaborada. Eu tenho um caderninho que tem várias versões. Estava chegando o carnaval e a gente tinha que gravar, fui para o Alcova e tinha umas sete pessoas lá, e começamos a pirar na marchinha e nesse dia criamos coletivamente. Tipo, o Tiakov falava: “vamos ver o que rima com larica”, aí fazia uma lista do que que rimava. Cabelinho chegou com esse lado mais axézinho, que é a parte do “hoje comigo ninguém pode não vou ficar de bode, não vale dizer não”. Até me incomoda hoje vendo os protagonismos que vão surgindo, porque foi tudo tão coletivo, até as criações das marchinhas sabe? Todo mundo participou o tempo inteiro e fomos gravando, quem estava lá fazia. A do Manjericão e a do Alcova foram coletivas. É engraçado porque quando eu e o Cabelinho chegamos lá na reunião do Alcova, falando que ia ter o bloco deles, aí teve uma galera: “mas eu não gosto de carnaval”. Mas uma pessoa

Bloco do Manjericão. Créditos: Flávia Mafra

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deu ideia, “mas e se for de rock’n’roll?”. O pessoal comprou a onda, e foi legal a galera se achar no carnaval. Havia um tanto de gente que não gostava de carnaval, mas por causa desse processo de participação e de acontecer na cidade, começou a adorar o carnaval. O Rafael Ludicanti, cantando, a Flávia Mafra na fotografia, e outras várias pessoas que não gostavam de carnaval começaram a viver e ver um outro lado. O Manjericão - estou até com medo porque estou falando muito de maconha - é realmente um bloco de maconheiro. Não é um bloco que ensaia, não tem músicos, não tem página na internet, então é quem está a fim de ir, vai. Lógico que a Chaya Vazquez, o Guto Borges e o Yuri Vellescano, por exemplo, sempre estão lá. Os músicos curtem muito o Manjericão porque é quando o grupo está mais afinado, no final todo mundo já está tocando junto. O ensaio do Manjericão é o carnaval.

Bloco do Manjericão em 2014. Créditos: Flávia Mafra

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Já pediram várias vezes para fazermos festa, mas não rola, primeiro porque o bloco não tem a ver com isso, não é que eu sou contra, mas o bloco não vai dar show; segundo porque não tem banda, pode ser que um dia chegue lá e tenha três músicos. Acho que nunca vai acontecer mas pode ser que aconteça. O Bloco do Manjericão é isso a gente decide um lugar e não tem organizações maiores. Esse ano, inclusive, eu estava tão desorganizada que eu nem comprei manjericão direito porque não pude e muita gente levou baldes de manjericão, sabe? Então é muito aleatório, anárquico. Até 2013, o bloco saía no Santa Tereza. Na verdade, os blocos na maioria não tinham noção de trajeto, a gente marcava um ponto de encontro, que era lá em casa, e a gente saía assim. Minha casa era subindo a Rua Dores do Indaiá, e ao lado morava o Rafa Tcha Tcha. E a gente saiu lá em 2011 e 2012. Só que em 2013 veio o Bloco I Wanna Love You, e eles queriam sair também na quarta-feira. Tentamos chegar em um consenso porque eu queria ir no bloco deles. Sabíamos que uma hora isso iria dar pau, mas tentamos conciliar os horários. Eles fizeram a festa na Pirô 69, uma pizzaria no Santa Tereza, que era próximo ao Ateliê das Meninas. Eles fizeram cedinho, às 12h, e o Manjericão saiu de lá. 2013 foi um ano muito especial, durante o bloco eles fizeram o pópôcor48. Não sabíamos o trajeto direito e pessoal falou para irmos para uma pracinha, e quando chegamos lá a Juliana Perdigão falou: “Vamos fazer o Bloco do Almas Peladas?” Acabou o Manjericão e ficou todo mundo ali, começando um bloco novo. Carnaval nunca acaba, né? O povo começou meio tímido, e de repente um tirou a roupa o que fez todo mundo tirar também. A gente andou a rua inteira, juntou nós e só uns três músicos. A rua é sem saída, mais deserta, e fomos até lá. Do nada começaram uns fogos de artifício, que desviam ser de jogo do galo, mas a gente nem sabia que tinha jogo, e estávamos achando que era para a gente. Era isso: o trajeto nada definido, era pelo Santê. Até que começou o desgaste da zoeira e proibição do carnaval no bairro e decidimos que iríamos sair de lá. E um dia, eu e o Rafa fomos visitar uma 48 - Pó que é jogado para cima e deixa os foliões coloridos.

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Bloco do Manjericão em 2014. Créditos: Flávia Mafra

amiga no Sagrada Família e vimos uma rua chamada Cabrobó, com uma praça. Foi quando eu decidi que o Manjericão sairia dali. O Ceará, do I Wanna Love You, não queria mudar de jeito nenhum, ele tinha gostado muito da Pirô, só que eu joguei no grupo do Facebook e todo mundo apoiou, menos o Ceará contra. Mas no dia que ele conheceu a praça, se apaixonou. Porque é linda, tem uma vista da cidade, e a gente saiu de lá sem saber ao certo o trajeto, pensamos em parar na Gruta, na Rua Pitangui, que fica próximo do Estádio do Independência. Em 2014 rolou uma confusão entre os policiais, já que estávamos na frente do Estádio e teria jogo em meia hora a rua seria utilizada para que os ônibus com os jogadores passassem para acessar o estádio. Eu retruquei: “pois é, eu não consigo tirar essa galera daqui também”. O policial foi superaberto, não foi grosso ou agressivo, e conseguiu desviar a rota dos transportes. No final, ele ainda nos alertou: “não vai para

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o Santa Tereza. O Ministério Público colocou regras, não vão para o Santa Tereza”. E a gente tinha a ideia de fazer o Bloco Almas Peladas de novo, voltei falei com a galera para deixar a poeira baixar, o bloco já estava acabando mesmo, a gente esperava uma hora e fazia o Almas Peladas. Só que não adianta, tem sempre um pessoal bêbado no carnaval que não sabe das coisas. Uma galera desceu para o Santa Tereza e uma viatura de polícia foi seguindo. E a galera louca rebolando em cima do carro da polícia, limpando o carro e a polícia começado a ficar puta. Não podia tocar, mas a galera subia tocando, e a Tita passou em frente ao Bartiquim dizendo: “nós estamos no carnaval e eu não posso tocar essa caixa”, e tocava. Claro que começou uma confusão, levaram ela presa, foi uma loucura, empurra-empurra com a PM e assim, acabou o nosso carnaval. O povo que ficou lá diz que fez o Almas Peladas em frente a Gruta em homenagem a Tita. Depois disso eu comecei a pensar sobre ser itinerante também, pesquisei nomes de rua, e etc. Um dia fui almoçar no restaurante do Zé Pretinho, na Serra, e reparei que fica na Rua Erval… claro que eu faria lá, né? Trocamos uma ideia com o Zé Pretinho, ele amou e fizemos lá em 2015. A ideia, na verdade, era, ou começar nadando da cachoeira no Parque das Mangabeiras e sair andando com o bloco, ou o contrário. Só que o parque estava fechado e a gente não fez. Até saímos da porta do Parque das Mangabeiras, mas rolou uma crítica: “mas o Manjericão saindo da porta do Minas Tênis Clube 2, Jana? Que paia.” Eu falei: “depende dos olhos de quem vê, porque para mim a gente estava saindo da porta do parque”. O próximo ano não sei onde vai ser, tem uma rua que chama Manjericão lá em contagem, mas é longe do metrô, tem que pensar essas coisas também. A cidade demorou para acostumar com o carnaval. A Prefeitura também. O Santa Tereza, principalmente, a galera fez abaixo-assinado e tudo. O André, dono da Pizzaria Parada do Cardoso, era, inclusive, um dos nossos inimigos. Eu frequentava as reuniões da Prefeitura, da regional leste, e lembro que ele brigava muito com a gente.

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Bloco do Manjericão em 2014. Créditos: Flávia Mafra

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Mas, de fato, o Santa Tereza começou a ficar muito bombado. Os moradores não tinham espaço, festa começava de dia e acaba antes de 22h, mas a galera pilhada queria continuar. E como não tinha mais nada para fazer, porque os blocos terminavam cedo, vinha para o Santa Tereza, ou já ficava por aqui. Só que começou a vir muito carro de som, muito e ficavam até umas 4h da manhã. Quando procuravam a polícia, ela logo se esquivava colocando a responsabilidade nas mãos da Prefeitura. É quando você vê que as próprias instituições estavam brigadas entre si, e a gente rachou de rir. Nós lutamos pelo carnaval de rua, e de repente estávamos ligando para polícia querendo acabar com o carnaval porque é na porta de casa. Fiquei sabendo que a Prefeitura estava entrando em contato com o Rio e com Recife para ver o que fazer com a festa depois de 22h. Tem uma galera que aguenta e fica o dia inteiro, né? Pensamos que poderia ter eventos na Praça da Estação ou eventos fechados e pagos. Mas é foda, né? Pagar para ir no carnaval é paia. Carnaval é rua. No início resistimos muito em sair do Santa Tereza, a ia nas reuniões das associações, brigávamos, mas iam muito mais moradores do que pessoas de bloco. As vezes eram uns três representantes de blocos e o resto todo de morador, gente envolvida com o bairro. A gente já lutou muito pelo Santê, mas ele estava virando uma Vila Madalena, tudo muito caro, um bairro da cultura em BH. Mas acho que é isso o Santê, e fomos ficando com preguiça dessa história. Já pensamos até em sugerir o Santê para ser um lugar de curtir, proibir carro, acho que em 2015 eles já proíbem nas grandes vias. Isso já é muito bom, é preciso ter uma política diferente para o bairro. Nem o Alcova não cabe mais na praça. Não adianta falar que cabe, porque não cabe. Vai dar pau. É o que o Humberto Mundim fala um pouco: você vai fazer uma coisa para 50 mil pessoas, tudo tem que ser pensado para não destruir o bairro. A partir de 2013, a PBH começou a comprar essa onda, de ver que o carnaval era incontrolável e que era preciso criar espaços para esse público. Mas antes de pensar estrutura, já fazem propaganda para o Brasil todo vir para Belo Horizonte no carnaval.

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A Prefeitura mesmo não põe grana, ela resolveu vender o carnaval, então já veem isso como empresa. Em 2010 a gente não teve diálogo nenhum com a PBH, assim como em 2011. Conversar com a Prefeitura era discutir. Só que cresceu e precisávamos de estrutura, precisávamos desse diálogo. Em 2012, começa uma conversa mais firme com a PBH, porque eles falam que a gente já é evento de pequeno porte e precisa de alvará. Todo bloco que eles consideravam que era um pequeno evento. E a gente ficou numa discussão longa e teórica e baseada na lei que era uma manifestação popular e não era um evento. O grande embate de 2012 era isso. Porque se você é um evento, você tem que tirar alvará e pagar taxas. E nós falamos “não, somos manifestação”. Depois disso, eles enfim assumiram que não éramos evento e criamos um formulário junto com eles e a Prefeitura começou uma interlocução com os outros órgãos. Com o Alcova, a conversa foi diferente, já que eles eram bloco de palco, precisavam de estrutura. Nós, desde o começo, queríamos a Alcova andando, mas não conseguíamos. Já chegamos a orçar trios elétricos, trocar ideia com a Prefeitura, mas eles falavam que tinha vários casos no estado de acidentes com trios, e que precisa de uma vistoria técnica. A Belotur chegou em 2013 tentando fazer da gente um evento, impondo o cadastramento dos blocos. A Prefeitura tem que saber lidar com os vários blocos, já tem que estar pensando nisso antes. E esse é o nosso carnaval, não somos um evento, nem um camarote da Skol. Hoje em dia eu estou até meio fora dessas reuniões, ano passado eu não fui em nenhuma, esse ano ainda não. Para 2016 já teve uma reunião que deu umas 200 pessoas, de blocos novos, então é muito importante a gente está lá para contar a história do carnaval, para as coisas não se perderem. O cara está indo lá pela primeira vez e não fraga, as vezes pode aceitar coisas que acha que é normal, mas não é. E a gente que tem essa vivência. Em 2014, fizemos uma nota falando que o carnaval de BH ainda é político, em 2015

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Bloco do Manjericão em 2014. Créditos: Luiza Ananias

teve uma nota de repúdio à Skol. Acho que o primeiro movimento forte foi lance de patrocínio da Skol em 2013. Ela não tinha comprado o carnaval que nem em 2015, mas se apropriou dos blocos. Foi uma putaria porque eles pegaram um projeto de Lei de Incentivo que nem era deles, e quiseram tirar vantagem disso. Era tipo assim: a Skol não estava te dando grana, por causa do Projeto, era apenas um incentivo fiscal. Eles queriam que tocássemos em uma festa já paga e o lucro da bilheteria era nosso, em troca a Skol faria propaganda com o nome do nosso bloco. Eles fizeram uma jogada mentindo para galera, “eu estou te dando um negócio em contrapartida. Não tem contrapartida, eles não estavam te dando nada”. Em 2015, por motivos pessoais, eu não cheguei a sair muito, mas fui em três blocos:

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Bloco do Manjericão. Créditos: Luiza Ananias

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Créditos: Flávia Mafra

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o Tico Tico, o Tcha Tcha e o Manjericão. E eu fiquei muito feliz por causa de duas coisas. A primeira era do bloco continuar pequeno, mesmo em um carnaval que está dando 100 mil pessoas, porque há muitas opções e você pode escolher em que bloco ir. E a gente divulga, só não queremos divulgar na Rede Globo, não queremos sair no Estado de Minas. A gente quer continuar pequeno, qual o problema? Se você coloca no Estado de Minas vai dar muita gente, é uma questão de escolha, ação e reação. Quem conhece o bloco, e tiver a fim de ir, vai saber onde é. Divulgamos o Manjericão esse ano na terça-feira 23h porque estávamos indecisos, e na quarta-feira às 9h estava lotado. Quem está a fim já sabe que existe e vai procurar saber. Além disso, eu fiquei muito feliz de ainda conseguir viver um carnaval assim. Em 2015, eu vivi um carnaval, saí no Tico Tico e tinham umas 800 pessoas, foi maravilhoso conseguir isso num bloco que começou em 2009. O Filhos de Tcha Tcha também foi sensacional. Me vem muito na cabeça o tanto que a gente viveu a ocupação da cidade. Foi tudo lindo, colorido, muito amor. E você vai vivendo e de repente, por exemplo, o Brilha!, ano passado não me pegou tanto. Eu era apaixonada com Brilha!, mas virou a mesma coisa, eu já não me interessei tanto. Em 2015 a gente faz um trajeto maravilhoso no Tico Tico, e eu descobri a cidade, dei de cara com um paredão gigante. É uma sensação de que a cidade é gigante. Basta deslocar e renovar sempre. No Tcha Tcha, apesar de tudo que aconteceu de tenso, a gente conseguiu juntar tudo e se divertir. Nos divertimos numa lama, com a galera da ocupação, bem onde eles moram. Até o Manjericão, que deslocou menos, foi redescobrir a Serra. O Zé Pretinho estava felizasso!”

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Diário

de Bloco

NÃO VOU FICAR DE BODE

O Bloco do Manjericão é tradicional para a quartafeira de cinzas do carnaval. Na manhã do último dia acordamos apenas eu e a Paola, sozinhas em casa e em clima nostálgico de último dia de carnaval. Foi um grande alívio quando Cristiano ligou pela manhã avisando que já estava a caminho para irmos juntos para o Manjericão. Antes mesmo de tomar o café da manhã, começamos a arrumar nossa bagunça do carnaval . Guardar a fantasia era colocar na mala toda a magia do carnaval, e as mudanças efêmeras que a festa trazia para toda a cidade que a gente gostaria que durasse para sempre. Antes disso, escolhemos a dedo a última fantasia da festa e uma das minhas preferidas: a de palhaça - com a suspensória de bolinhas, saia de filó, nariz e rosto pintado. Tomamos um café da manhã reforçado ao som das músicas religiosas que tocavam em alto-falantes na Igreja e na Praça Duque de Caxias. Apesar de sentir o peso do fim da festa saímos com a vontade de aproveitar ao

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máximo os últimos momentos de folia com o agravante de fazer tudo o que ainda não tinha feito na folia. Fomos no supermercado fantasiados para adquirirmos nossos manjericões, nas ruas as pessoas que já seguiam a sua vida pós-carnaval nos olhavam estranho. Descobrir o local de desfile do Manjericão é sempre uma dificuldade. Na primeira vez que eu participei do desfile em 2013, havia sido no bairro Santa Tereza, e fiquei sabendo conversando com as pessoas na rua do bairro. Já no ano passado, o desfile foi em uma praça do bairro Salgado Filho, que ficamos sabendo também através do boca-a-boca. Como o bloco não possui uma organização evidente, e nenhum canal oficial de comunicação – o grupo não conta nem se quer com uma fanpage, como outros que utilizam as redes sociais para a divulgação de locais e hora do desfile. Apesar disso, foi através do Facebook de amigos, que descobrimos o local de saída do bloco, que seria em frente ao Minas Tênis Clube 2. Mais uma vez recorremos ao taxi para ir ao desfile. Chegando no local distribuímos nossos manjericões, como de tradição. O bloco costuma até ter um cheiro típico, proveniente dos ramos trazidos pelos foliões, e que faz alusão à outra folha presente na natureza, porém utilizada para fins recreativos e psicotrópicos. Ao chegar à pracinha, cerca de 40 pessoas já se encontravam reunidas, e um pequeno círculo concentrava a bateria. A regente do bloco Chaya, já se estava a postos no local junto de outros instrumentistas experientes. O clima de restinho de carnaval parecia arrebatar todos aqueles foliões que de certa forma já traziam a nostalgia daquele carnaval que estava chegando ao fim nos rostos de cansaço que resistiam ao quinto dia consecutivo de farra. Alguns de óculos escuros, outros com as olheiras evidentes. O círculo que contava à principio com cerca de 15 instrumentos começava o hino do bloco que já havia sido tocada inúmeras vezes em outros blocos da cidade. Peguei o meu tarol e me juntei ao

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grupo. A música traz em sua primeira parte uma certa lentidão que se assemelha ao estado iniciante do bloco, o da marcha lenta.

“Não vou comprar Manjericão/ Eu vou plantar no meu Jardim/ Se todo mundo plantar um Manjericão/ Não vai faltar para mim/ Manjericão é muito bom/ Manjericão é natural Manjericão Para Bronquite/ Manjericão para abrir o apetite Vão Manjericão! / Depois te encontro na larica do Bolão”. Na medida que fomos tocando o hino a animação do carnaval e a aceleração da segunda parte da letra da música que tem o seu início marcado sonoramente pela virada na caixa, e mudança de marcha lenta para marcha rápida, parece que acelerava também o ritmo e o desenvolvimento dos membros da bateria e foliões.

“Hoje comigo ninguém pode / Não vou ficar de bode Não vale dizer não / Vem, não dá pra / viver sem / E a gente sempre tem No Bloco do Manjericão/ Vão Manjericão! Depois te encontro na larica do Bolão”. Largamos a nostalgia e lentidão de lado. Em menos de 20 minutos de o que podemos chamar de aquecimento dos tambores, já foi o suficiente para aumentar o número de instrumentos na bateria a ponto de ser necessário começar a formação do cortejo por não caber mais pessoas no círculo inicial de músicos, que foi se expandido até não poder mais. Começamos a descida dos morros do bairro Mangabeiras. O bairro se situa em uma área alta e nobre da cidade, contando com muitos prédios grandes e luxuosos. Na medida que a bateria passava pelas ruas, tocando muitas

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Bloco do Manjericão. Créditos: Luiza Ananias

pessoas saíam as suas janelas para ouvir o grupo. Senhoras mais de idade ficavam maravilhadas ao reconhecer as músicas de sua juventude carnavalesca tocadas pelo Bloco do Manjericão que sempre inicia com as tradicionais marchinhas de carnaval que fazem parte da memória coletiva brasileira. Porém não apenas as marchinhas tradicionais se encontram no repertório do grupo. A legalização da maconha é a pauta trazida pelo Bloco do Manjericão e a alusão a planta era feita não somente no hino tocado pelo grupo, mas também a outras músicas cantadas durante o desfile. Um exemplo disso é a Marcha do Regador, adaptação feita da Marcha do Remador tocada pelo grupo:

“Se o Brasil legalizar ole ole olá / Eu vou plantar/ Se o Brasil legalizar ole ole olá / Eu vou plantar / Rega, rega, rega, regador / Vou cuidar da planta com amor / Quando a planta já tiver

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grandinha / Corta e bota fogo na verdinha”. Desisti de tocar o tarol e decidi ir beber com os amigos, passei o meu instrumento para outro amigo feito durante os dias de folia, Joviano Mayer, que havia deixado sua caixa em casa. Passado o bastão, fui atrás do Cris e da Paola, que também tinha levado o seu agbê para se juntar ao grupo. Enquanto Paola tocava eu e o Cristiano seguimos o trajeto bebendo e brincando com as pessoas. Havíamos levados sprays de cabelo, e fomos pedindo para pintar os cabelos dos foliões de verde, seguindo a cor predominante que marcava a identidade do bloco. Durante o trajeto o Cristiano recebeu o estandarte do Bloco do Mendonça para carregar enquanto o bloco passava. Segundo os organizadores do bloco Ciro e Rodrigo, o Mendonça que tem o costume de sair na segunda-feira de carnaval depois do Bloco do Tcha Tcha, da Praça Raul Soares até o segundo andar do Edifício Maletta, iria ter uma segunda edição naquele carnaval continuando o batuque depois do Bloco do Manjericão. Durante o trajeto do bloco, o Manjericão ia arrastando cada vez mais pessoas para as ruas. Muitos moradores das casas saíam as ruas para ver o movimento e acabavam seguindo com o bloco, avós, filhos e netos se juntavam a folia para pular o último dia de carnaval. Seguimos bebendo, cantando, beijando e tocando no bloco que marcava o último dia consecutivo de festa. Na bateria trocávamos os instrumentos entre os batuqueiros, toquei ora surdo, ora tarol, ora caixa ou tamborim. A bateria do bloco assim como as demais baterias, também enfrentou as dificuldades resultantes do crescimento do número de seus membros e instrumentos. Para aquele bloco que não realiza encontros prévios, podemos afirmar que os ensaios são os desfiles anteriores, a maioria da bateria era formada por rostos conhecidos e pessoas que tocaram em outros blocos. O fato de a quarta-feira de cinzas contar com um número menor de grupos na rua, é relevante para se pensar no grande número de

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instrumentistas que o Manjericão sempre acumula em todos os anos de desfile. A chuva também resolveu desfilar e caiu um pouco antes do bloco chegar ao seu destino final, o Bar do Zé Pretinho, na Rua Gravataí. A água ajudou a dispersar os foliões e os que resistiram se mantiveram firmes na bateria. Nos abrigamos por um tempo no bar, onde comemos e bebemos e em seguida fomos embora para casa, com a ajuda de uma moradora da região. Depois de ficarmos mais de meia hora sob a chuva procurando por um ônibus ou táxi para ir embora, fomos abrigados em um prédio por uma desconhecida que nos viu tomando chuva e nos ofereceu abrigo, toalhas secas e conseguiu chamar um táxi para que fossemos embora. Ao carnaval devo muitas alegrias, principalmente gratidão pelas pessoas maravilhosas que encontramos ao longo da festa. Por: Naiara Rodrigues

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CAPÍTULO 9 3 CAPÍTULO

tico tico alcova libertina

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“Chuta, chuta, chuta, chuta a família mineira!” O músico Humberto Mundim é um dos fundadores do Alcova Libertina, um bloco que toca todo domingo de carnaval e apresenta ao público releituras carnavalescas de clássicos do rock, como Beattles, Rolling Stones e Led Zepellin. “Alcova era um ateliê de arte e a gente já tinha o costume de ficar lá tocando músicas. Todos nós éramos

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Alcova Libertina em 2015. Créditos: Arquivo do Bloco

muito envolvidos com o rock, todos tinham bandas, e às vezes íamos para lá fazíamos festas e tocávamos alguns clássicos juntos até tarde. Quando começou essa história de carnaval a gente já era muito amigo de pessoas que estavam envolvidas, como o Guto, que criou o Mamá na Vaca. Um dia estávamos tocando no ateliê, e a Jana deu a ideia de criarmos um bloco de carnaval e decidimos que ele seria um bloco de rock’n’roll. Nisso, começamos a pegar o violão e tocar alguns ritmos, e vimos que encaixavam muitas coisas, como Beatles em ritmo de marchinhas, aí começamos a brincar com isso. A gente não tinha muita ideia de como tocar percussão, mas conhecíamos o trabalho pessoal do grupo Fritos na Hora. Eu então fui falar com a Chaya, que participa do grupo, e chamei ela num dia em que ela tocava com um bloco no Bar do Orlando, foi a primeira vez que conversamos. Falei com ela que queríamos montar um bloco de rock’n’roll, e ela topou na hora. Reunimos algumas vezes, e em um dos encontros à noite decidimos que o bloco

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tinha que ter uma marchinha. Começamos a fazer a marchinha e o Rafael Ludicanti nos ajudou na letra. Foi feita em uma noite a marchinha, numa noite muito louca. A gente não teve tempo de ensaiar direito e, a primeira vez, saímos embaixo da marquise do Bar do Bolão, no domingo de carnaval. Queríamos tocar no coreto da Praça Santa Tereza (oficialmente Praça Duque de Caixias), mas não tinha ponto de energia. Estava ameaçando uma chuva, foi o carnaval mais chuvoso, e mesmo assim foi divertidasso. A gente pegou instrumentos emprestados de amigos, e muita gente que nem toca mais hoje com a gente participou, como o Luiz Gabriel do Graveola. Foi uma apresentação apoteótica, porque a gente não fazia ideia do que ia tocar ao certo, foi muito de improviso e foi um dos shows mais lindos porque estava todo mundo muito emotivo e emocionado de estar fazendo aquilo. Então a primeira vez que nós tocamos deu umas 2 mil pessoas embaixo de chuva. Lembro de tocamos um “Hey Jude” apoteótico, que ficou uns 10 minutos cantando “na na na na”. Para 2012, resolvemos montar uma banda mesmo e fazer uma coisa mais organizada, começamos a ensaiar mais. Convidamos todos que estavam na primeira apresentação e algumas pessoas do Frito Na Hora, além do pessoal que tocava em bandas e se juntava ao Alcova. Lembro que a gente tinha muitos membros, por exemplo, 3 baixistas, 4 guitarristas e cada um puxava seu ritmo e dava sua ideia, começamos os ensaios no fim de 2011, e fizemos uma coisa muito intensa. A gente sempre ensaiava no galpão do Frito na Hora, onde tinha o Grupo Trampolim, e fazíamos geralmente de três a quatro horas de ensaio com muita cerveja e zoação. Neste primeiro ano não tínhamos ensaio, então quando tinha era um “intensivão”. A gente teve que lidar pela primeira vez com toda a burocratização da Prefeitura. Nosso maior desafio foi não ser caracterizados como um evento, porque eventos acarretam em um monte de regras. Acho que essa batalha foi maior com o Bloco da Alcova, já nós não éramos um bloquinho que não precisava de dar satisfação na Prefeitura porque precisava de uma estrutura, como equipamentos de som, e muitas

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vezes essa organização era vista como um evento. Conseguimos um alvará para tocar na praça, mas usamos o palco que era do Minas ao Luar, do SESC, e aí já usamos a licença de palco deles. Alugamos um som com nosso próprio dinheiro - sempre foi assim, ainda mais nessa época que ninguém conhecia a gente, não fazíamos shows nem nada. Mas fizemos uma festa depois do Carnaval, e deu super certo porque conseguimos repor todo dinheiro gasto para o aluguel do som. E foi lindo, a nossa primeira vez no palco, lotou e deu umas 6 mil pessoas.

Em 2013 fizemos um show no coreto da praça de Santa

Tereza e foi muito mais organizado, já que conseguimos

ensaiar regularmente por quatro meses, já estávamos

começando a tocar em shows porque começaram os

convites para tocar em festas e eventos fora do carnaval.

Foi quando percebemos que já era preciso ensaiar

ao longo do ano todo.

Tentamos renovar as músicas e adicionar coisas novas no repertório. A própria banda se renovou, o Rafael Ludicanti que era um dos vocalistas saiu, mudou um pouco esse caráter bagunçado e louco que a gente era ainda mais libertinos no sentido de tentar desconstruir moralidades, expectativas. Alugamos um som com Bruno Correia e o som estava ótimo. A galera adorou e tivemos um público de 15 mil pessoas, lotou a praça toda, tampou as ruas laterias, não dava nem para entrar no bairro direito. Mas isso nem só por nós o bairro já fica assim quando tem alguma coisa. Foi maravilhoso, todo mundo cantou. Só que depois desse carnaval, como Santa Tereza ficou muito lotado, os moradores se reuniram na associação, porque o bairro já não estava suportando. Passamos a frequentar as reuniões para discutir essas questões e a gente fez um acordo de sair do bairro pelo bem-estar dos moradores, inclusive porque nós também somos. Os moradores decidiram que não haveria mais carnaval aberto ao público no bairro, já

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Alcova Libertina em 2015. Créditos: Arquivo do Bloco

que ficou muito bagunçado e sujo. A vitória dos moradores foi tão ampla sob o carnaval no bairro, com a proibição, que acho que não existe mais uma instância de diálogo para que ocorra o carnaval no bairro. Durante o carnaval tem blitz no bairro inteiro, toque de recolher e foi controlada a entrada de carros no bairro. E se fosse só para carros de som, música mecânica, mas não. Não pode ter bloquinhos mais, proibiram o carnaval nas ruas do Santa Tereza. O carnaval é um período de flexibilização das regras e de contestação da ordem política, né? Assim, foi feito um acordo com a Prefeitura e em 2014, o Alcova foi convidado pelos organizadores do evento S.E.N.S.A.C.I.O.N.A.L, que eram nossos amigos, para tocar no palco da Savassi. Foi delicioso, mas só que nós sentimos que estávamos perdendo nossa essência. Ficamos animados, porque estávamos com várias músicas novas e lotou também. Só ficamos um pouco pé atrás já que íamos tocar em um lugar que não era nosso, com um público que não era muito nosso, então foi meio deslocado.

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Só que nós tínhamos um sonho de andar com o bloco, de deslocar pela cidade, então foi uma oportunidade de sair conhecer novos lugares. Em 2015 nós, enfim, conseguimos alugar a nossa “caravela” - o trio elétrico do Alcova - desde o primeiro carnaval um sonho nosso era de andar pela cidade. Eu já tinha desenhado a caravela Psicoativa Psicotrópical da Libertinhagem bem no começo, que era uma caravela com uma vela e a gente projetar vídeos enquanto andava. Mas só que para a gente andar teria que ser uma estrutura muito boa, porque somos quatro vozes, quatro pedais, não podia ser na rua mesma. Outro sonho nosso é ter uma estrutura que permita microfones sem fio, instrumentos sem fio, para a gente poder andar tocando no meio do público, talvez um dia a gente consiga isso. Agora com a caravela foi maravilhoso, ficou provado que conseguimos andar e que tínhamos nosso lugar na cidade, e que o bloco tem que sair andando mesmo. Passamos pela Avenida Andradas, próximo à Praça da Estação e do Shopping Boulevard. Olhávamos para multidão e era um mar de gente. Tinha muita gente! E tocamos Kashimr do Led Zepplin, umas coisas muito diferentes. Só que nesse ano tivemos um pequeno problema com a PM. Tínhamos combinado com Felipão, o produtor da Belotur, que terminaríamos perto da praça da Estação. Só que ele virou para a gente em algum momento, do nada, e disse que a teríamos que terminar, sendo que não estávamos nem perto da praça e no meio do nosso repertório, faltavam, mais de 10 músicas. Tivemos que parar por ali mesmo, já como todo mundo estava cansado depois de um dia inteiro de carnaval. O problema com a PM mesmo foi dois dias depois, quando formos tocar no palco da Praça da Estação. Foi completamente compreensível dada a situação, já que estava um clima meio estranho, tinha gente armada no público. Nós fazemos sempre aquele discurso liberal de pró-aborto, pró drogas, tipo libera geral. Só que quando estávamos falando, vimos que a situação estava meio tensa, os PMs ficaram meio tensos enquanto o público gritava ao nosso favor, e também porque a gente sempre

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fala sobre a desmilitarização da polícia, e naquele momento não era uma situação muito propícia para falar essas coisas, porque a gente não tinha muito tempo pra falar como se fazer esse processo. E no meio de uma música pediram para que parássemos de tocar abruptamente. A polícia subiu no palco com cerca de 10 policiais e falaram para pararmos naquele momento e tivemos que acatar, não deu para terminar nem a música. Quando o público percebeu, começou a xingar e a vaiar o Lacerda. Desde que a gente desceu do palco percebemos a situação continuava tensa. Até se falou de prender o meu irmão, que havia feito o discurso no palco. Um amigo advogado apareceu falando para a gente embora, pois estávamos correndo o risco de sermos presos. Ficamos no camarim até a poeira baixar depois de meia hora conseguimos ir embora. Foi uma situação tensa. Desde 2012, tivemos que ter um diálogo com a Prefeitura, porque a nossa estrutura demanda uma participação do governo. Todo ano vamos lá bem antes do carnaval para conversar. Procuramos fazer isso da forma mais clara e objetiva possível. Não somos um bloco normal, então anteriormente tínhamos dependência de palco. Mas todo ano, muda tudo, os produtores, um tipo de diálogo diferente, de uma forma diferente. O único ano que foi mais fácil, foi esse ano que teve Felipão de novo, que já era amigo do pessoal. Então a conversa é sempre nova, né? Não é tão fácil quanto parece. A gente não escolhe os lugares, eles são sugeridos. Temos que variar os lugares possíveis. Em 2013, a gente tinha montado um palco de 75 centímetros, perguntamos para a Prefeitura e para Belotur o tamanho do palco e eles disseram que poderia ser qualquer tamanho. Só que no dia os bombeiros não deixaram a gente tocar no palco porque ele tinha 75 centímetros e só podia 65. Eles ameaçaram prender a gente se pisássemos no palco. Então tivemos que tocar no coreto, com o palco estruturas montadas ao nosso lado! Sacanagem, né? Eles nem sabem o que estão falando. A gente liga para todos os setores e ninguém assume o problema para si, vai repassando para todos.

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Alcova Libertina em 2015. CrĂŠditos: Arquivo do Bloco

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Não existe sistematização de como e quando ser feito. Não sei como vai ser o próximo ano, espero que eles tenham aprendido. Como nós somos as mesmas pessoas que estamos lá desde sempre, há 5 anos, eles nem se preocupam. Falam tipo “ah, relaxa que vai rolar”, e a gente tem que ficar esperando vendo as coisas não acontecerem. Os patrocinadores chegaram no carnaval de BH, mas não querem colocar dinheiro diretamente no bloco. Não que isso tenha que acontecer, mas cada bloco tem que tomar o seu próprio caminho. Alguns blocos são inviáveis de permanecerem simplesmente na boa vontade, enquanto alguns são só pegar os instrumentos e sair nas ruas. Mas blocos grandes como o Então, Brilha!, o Alcova, o Baianas Ozadas precisam de uma estruturação maior, e cada um tem que seguir o seu caminho. Eu acho que o patrocínio aconteceu de forma equivocada e maliciosa, porque você estabelece que uma marca de cerveja vai ser dona do carnaval de uma cidade, e aí você obriga os blocos a fazer o cadastro na Prefeitura, sendo que essa inscrição liga você àquela marca. Isso é que está equivocado, porque o carnaval tem que acontecer com liberdade, quem quiser ser patrocinado que seja. A Prefeitura fagocitou o carnaval, e era quem nos três primeiros anos fazia de tudo para abafar o carnaval. Até ver que ele era incontrolável e, mais ainda, que dava dinheiro. Existe um jogo de interesses que não são bem discutidos, entre quem faz e quem autoriza. Aliás quem tem que autorizar o quê? Autorizar é o caralho, tem é que ser muito discutido. Mais do que isso, tem que ser operacionalizado, de um jeito mais interessante para quem faz o carnaval do que para quem o vende. Eles tinham que fazer algo interessante para quem faz o carnaval, para os blocos, não para eles mesmos, nem para a Skol. O Léo Burguês divulgou a nossa foto em um post falando que ele é apoiador do carnaval, dando a entender que de alguma forma o Alcova foi apoiado por ele. Só que a gente não fez nada, só mandamos uma mensagem e ele respondeu pedindo desculpa. Vários blocos soltaram uma nota de repúdio, aí acabou que a equipe do Léo Burguês colocou a culpa no estagiário. Isso não é um erro, é uma tática maliciosa. A

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Alcova Libertina em 2015. CrĂŠditos: Arquivo do Bloco

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gente quem fez o carnaval. Aí a Prefeitura e os políticos aparecem com o patrocínio e tomam conta de tudo? É sacanagem. E eles ainda ameaçam que sem Prefeitura não tem carnaval, não tem palco. Mas como assim? Bom, o Alcova vem crescendo, são 2, 6, 15, 25 e 50 mil pessoas por ano, respectivamente. Eu acho que a gente tem que dar um jeito de conversar e se entender, o carnaval só tende a crescer. Temos que começar a pensar onde as coisas acontecem, com 50 mil pessoas tem que ter estrutura de banheiro, de segurança, senão vai sobrar xixi e lixo na rua. Eles colocam 100 banheiros para 50 mil pessoas, claro que isso é pouco. Eles dizem que não tem estrutura, dinheiro ou pessoas para trabalhar, tem sim. Na Copa do Mundo tinha muito policial. Cadê eles? É só pensar a estrutura, e eles tem conhecimento necessário para isso. Eu acredito que o modo como surgiu é a grande diferença do carnaval de BH. Além disso cada bloco tem seus princípios, tem sua política e seu jeito. Uns são mais família que outros, outros mais políticos. O Alcova é político a distância. A gente defende a nossa liberdade, liberdade de todos, o que acaba sendo visto como libertinagem, mas libertinagem também é amor. O jeito que a gente lida com as nossas liberdades, drogas, bebidas e amor também é uma forma de libertação. É uma forma da gente contestar o status quo e os valores cristãos. O carnaval é uma festa anticristã, é o questionamento de uma moralidade imposta. A gente teve inclusive conversas diretas com o padre de Santa Tereza, porque a gente tocava em frente à igreja na praça, então a gente tinha que negociar. Que horas começa a missa? A gente vai começar depois da missa. Ou seja, a festa pagã tendo que negociar o horário com a igreja do bairro. E mesmo combinando, as carolas do bairro muitas vezes não aceitavam alterações no horário, porque elas não podiam rezar às 18h, tinham que rezar às 19h porque era o costume. O carnaval é de rua e de luta e as lutas são várias, dentre elas essa questão de como

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viver a cidade, não só como espaço físico, mas os direitos que provém dela, como mobilidade e igualdade. Carnaval é igualdade, né? Você veste máscaras. De alguma maneira, mesmo que seja temporário e ilusório, existe uma flexibilização dos status sociais, você pode fazer o que quiser e ser o que quiser. É um jogo, é uma dica, é um ponto de vista de como que as coisas poderiam ser. Vemos “petista” abraçando “aecista” e brincando. As pessoas estão mais abertas ao afeto e as diferenças não fazem diferença.

As regras mudam e se invertem. Nós somos muito permissivos no carnaval. Isso me lembra que a mercantilização faz o oposto disso. Ela coloca barreiras onde não precisa. Deixa o espaço livre! A gente vê assim o ano inteiro, deixa diferente no carnaval! Não precisamos pagar R$ 150,00 e nem vestir um abadá para se divertir no carnaval. Provamos isso desde 2009. O triste é que existem alguns blocos podem se abrir para o abadá. Enquanto isso a gente continua tentando esse diálogo, condenando a mercantilização e levando liberdade e amor para o coração das pessoas”.

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Alcova Libertina em 2015. CrĂŠditos: Arquivo do Bloco

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Diário

de Bloco Um Libertino nunca trai seu coração

Eu e meu namorado saímos de casa às 13:00 no domingo para aproveitar melhor o dia e fomos ver o Queixinho na Savassi. Permanecemos lá até às 18:00 aproximadamente e em seguida fomos para a Avenida dos Andradas, em frente à Câmara Municipal. La já estava em movimento o enorme caminhão de som da Alcova Libertina. O público era predominantemente jovem, entre 18 e 35 anos, de ambos os gêneros, maioria branca, classe média. Havia muitas pessoas empolgadas, pois, essa era uma das poucas oportunidades de ouvir ou dançar rock no carnaval. Com a chegada de mais pessoas, apenas uma via (a do sentido centro) da Avenida dos Andradas não foi suficiente e o grupo começou a se dispersar ocupando a outra pista criando uma enorme confusão entre motos, carro, ônibus, motoristas bravos e música alta. Alguns condutores e passageiros dos veículos parados interagiam com o público aproveitando ao máximo aquele tumulto, outros fechavam os vidros e portas,

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com medo da multidão. Havia ainda aqueles que tentavam arrancar o carro a todo custo. Porém isso não foi um problema, não houveram brigas ou acidentes. Enquanto isso, em cima do caminhão a banda estava organizada em instrumentos harmônicos, cantores e percussão. Não havia uma bateria acompanhando o bloco a pé. Todos os ritmistas estavam em cima do caminhão, todos usavam fantasias bem humoradas e de tempos em tempos entoavam o canto que tornou famosa a Alcova: “Chuta, Chuta, Chuta a família mineira!” e músicas próprias que usam um tom jocoso para criticar o moralismo e outras mazelas sociais. Um grande pênis de pano foi colocado na frente do caminhão e vez por outra algum dos integrantes o segurava na frente do corpo, representando que ele tinha aquele enorme órgão sexual. As vezes o tecladista da banda, que estava vestido de Papagaio de Pirata, se sentava na frente do caminhão e balançava as pernas, numa posição quase infantil e arriscada. Eu também arrisquei algumas manobras, subindo nas arvores, postes e muros do entorno da avenida para ver do alto aquele mar colorido. As segundas melhores fantasias do carnaval desse ano, as melhores estavam na Corte Devassa, estavam naquele desfile. Havia uma grande criatividade e irreverencia por parte do público e da banda. Enquanto os outros blocos compartilham as baterias grandes e muitos integrantes, a Alcova prioriza o som. Na maioria dos blocos, devido ao número de pessoas e as distancias dos cortejos, era praticamente impossível ouvir a maioria das músicas, dançar ou acompanhar o repertorio, porém na Alcova o som era apoteótico, as enormes caixas de som irradiavam música de boa qualidade. Os gifs de guitarra podiam ser sentidos e o uso da distorção e de microfones dinâmicos do tipo Cardióides faziam com que as letras das músicas e a voz do vocalista fossem perfeitamente audíveis. Com certeza, nesse aspecto, é o único bloco capaz de carregar uma multidão envolvida, que muito mais do que a festa em si, deseja também aproveitar os inúmeros

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sentidos proporcionados pela música e o espaço. Enquanto o desfile acontecia, já se iniciava a concentração de outros grupos na Praça da Estação para os shows que iriam acontecer naquele espaço. Por esse motivo, a Policia Militar buscou um acordo com a produção do bloco para encerrar o desfile antes do previsto e assim evitar qualquer transtorno ou tumulto na Praça. Assim, o desfile foi encerrado por volta de 21 horas próximo à Alameda Ezequiel Dias. Na terça feira dia 17/02 a banda se apresentou na Praça da Estação. Eu saí cedo de casa e fui em outros blocos, passando pelo Juventude Bronzeada (Floresta) e o Peixoto (Santa Efigênia). Após horas na rua, fui para a Praça da Estação, onde fui para o backstage para acompanhar melhor o show da banda. Após os shows de Thiago Delegado e de Aline Calixto, a Alcova subiu ao palco às 00:20 e assim que entraram no palco já entoaram os cantos de contestação social e política, ao que foram altamente ovacionados pelo público. Embora estivessem tocando em um evento da Prefeitura, recebendo cachê pago pela mesma, os vocalistas não pouparam protestos contra o prefeito Marcos Lacerda e outras figuras e instâncias da administração pública do município. Eu assisti todo o show do palco e foi realmente uma surpresa ver a PM munida de cassetetes e armas em punho subir ao palco e ameaçar todos que ali estavam com voz de prisão. As pessoas que, assim como eu estava assistindo ao show dali pedimos para que eles permitissem que a banda terminasse a música, o que não foi atendido. Eles tiveram que parar de tocar no meio da música, e enquanto o público vaiava a ação da polícia, os vocalistas ainda disseram palavras de ordem e diziam que tinham que sair do palco pela repressão policial, ao que foram acusados de insuflar o público contra os policiais. Encerrado o show às 00:40. Fui para casa pensando nessa maravilha que é o carnaval e em como é ruim acabar assim, falei com as pessoas que estavam comigo que terminar o carnaval sem a última música equivale ler um

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livro ótimo e alguém arrancar a última página. Se eles tivessem tocado só aquele restinho de música seria já um consolo, teríamos nos preparado. Mas não houve essa chance. Fica o gosto amargo na boca por um tempinho. Pelo tempo de 360 dias que nos separam do próximo carnaval”. Por: Camila Coeli

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Caravela Polirrítmica Psicotropicalista dos Libertinos Libertinagem foi a palavra de ordem. Inaugurando o carnaval noturno em Belo Horizonte, o bloco da Alcova Libertina saiu no fim da tarde do domingo recrutando foliões, que chegavam de outros blocos, para desfilarem em uma avenida dos Andradas nunca vista até então. Gente de todo tipo se reuniu para celebrar essa festa que no sábado havia terminado cedo demais, quem ansiava por mais folia e aguentava muita animação com certeza estava junto à Alcova, que se mostrou como um dos melhores blocos do

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carnaval de 2015, superando as expectativas. Eu e meu grupo de amigos que estávamos desde o meio dia no bairro Santa Efigênia tentando seguir o Bloco dos Ordinááááários pensávamos em ir para casa, quando mais uma vez pelo “boca a boca” fomos convencidos a estender a festa e resolvemos sair do ponto onde estávamos, no Brasil 41 no fim da Av. Brasil e fomos caminhando até a Av. dos Andradas próximo ao shopping Boulevard. Durante esse trajeto era possível ver grupos como o nosso, com pessoas fantasiadas, parados em frente as lojas de conveniência de postos de gasolina, padarias ou mesmo seguindo na mesma direção de nosso destino. Ao chegarmos ao shopping nos demos conta de que havia muita gente pensando em esticar a folia dominical e percebemos que o centro de compras serviria como um posto de reabastecimento para os foliões, ao entrarmos para comer vimos um mundo de gente dentro do shopping ocupando as filas dos restaurantes, banheiros e caixas eletrônicos, foi divertido ver a reação das pessoas que frequentavam o local sem o espírito carnavalesco, alguns surpresos outros irritados com a baderna daquilo que parecia mais ser o bloco do Boulevard. Os seguranças que tentavam controlar a entrada de foliões portando bebidas alcoólicas pareciam ter desistido, visto o número de pessoas que entravam e saíam do shopping a todo tempo. As entradas ficaram tomadas pelos grupos fantasiados que aproveitavam o pit stop para descansar, sentavam-se no chão, mas não perdiam a animação por nada, alguns utilizavam megafones que puxavam a galera e fazia com que todos cantassem do axé ao funk. Por volta das 19h seguimos ao encontro do bloco que já havia avançado bastante a avenida dos Andradas saindo da estação de metrô Santa Efigênia. A folia que ocupava um sentido inteiro da via era grandiosa, caminhamos por muito tempo no sentido do som, sem sequer enxergarmos o carro que levava as caixas que distribuíam as músicas para a multidão. Muito rock para representar um carnaval que

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tinha espaço para todos os ritmos e gostos, dos Beatles ao Led Zeppelin, de The Doors ao Pink Floyd, todos numa pegada muito mais eufórica do que de costume. Ao nos aproximarmos do carro de som, uma surpresa, o caminhão dos libertinos era enorme e imponente, de tamanho equivalente ao dos trios elétricos baianos. A bateria pela primeira vez – dentre os blocos que acompanhei – trazia o batuque decima do trio e isso permitia aos foliões enxergar cada detalhe do amor e da força que aplicavam em seu som. Uma amiga que já não aguentava mais estar no meio de tanta gente, me alertou que estávamos de pé desde as 10 da manhã e que na segunda ainda teríamos mais festa, disse ainda que iria embora para se recuperar para o dia seguinte, titubeei antes de recusar a carona, mas não resisti, era preciso continuar ali. O ambiente era agradável, desta vez não se podia reclamar do sol a pino sobre nossas cabeças, as pessoas eram todas muito respeitosas e mesmo as que não conheciam a história da Alcova estavam ali pelo objetivo único de não acabar com a fantasia, de permanecer na farra enquanto ainda houvesse um batuque de percussão e as pernas ainda dessem sinal de vida. Tudo era muito animador com toda aquela gente cantando junto os clássicos do rock, até que um novo repertório elevou os níveis de euforia de todos que partilhavam daquele espaço. Quando a banda, do alto do trio, anunciou as marchinhas, de teor crítico, velhas conhecidas do povo belo-horizontino a Andradas foi abaixo. Hits como “Chuta a Família Mineira” e o “Baile do Pó Royal” foram cantados por todos, os que não sabiam a letra arriscavam e tudo ultrapassou os limites felicidade no meio da festa. O ápice do bloco contou com a marchinha mais cantada pelos libertinos acoplada à uma dança que chutava, literalmente, todo o preconceito e os tabus de nossa sociedade. Uns mais eufóricos não souberam se conter em meio a tanta excitação e decidiram atravessar o Ribeirão Arrudas que divide os dois sentidos da avenida dos Andradas

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passando por vigas consideravelmente estreitas, dançando, outros casais apaixonados declaravam-se, se beijando frente ao risco da situação. Logo o trio parou e pediu aos foliões que não tentassem tal manobra, pois era arriscado e podia trazer tragédias à festa que até ali se mostrava tão bonita. Aos poucos o viaduto Santa Tereza ia se aproximando e a sensação era clara de que não teríamos ainda muito tempo de amor, liberdade e paz junto aos libertinos. O trio parou poucos metros antes do viaduto e continuou tocando canções de cunho social e político, o que só aumentava a empolgação dos foliões, eu e meu grupo de amigos subimos no canteiro central que dividia o lado onde o trio estava do lado onde fica o parque municipal, dali era possível observar a emoção (e também exaustão) da banda que tocava lá de cima, ao mesmo tempo que podíamos também ver de perto a reação dos foliões que mesmo com o aproximar das onze da noite, se mostravam intactos. A última canção que a banda tocou foi A Praieira da banda Nação Zumbi e fez com que eu implorasse que meus olhos fossem capaz de captar, registrar e guardar aquelas imagens tal como uma câmera fotográfica, é difícil descrever mas não me lembro de ter visto na vida tanta gente tão feliz reunida em um só lugar, alguns amigos não se contiveram e pularam do canteiro para partilhar aquele momento com as pessoas que se abraçavam e dançavam como se fosse o último dia de carnaval, ou mais que isso, o últimos dias de suas vidas. Eu me contentei em ficar dali só observando, pensando em como uma data do calendário cultural de um país pode mexer tanto com seu povo e emocionada por ver pela primeira vez uma manifestação tão saudável, grandiosa e plena em minha própria cidade. Por: Melissa Ribeiro

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CAPÍTULO10 3 CAPÍTULO tico tico entÃo, Brilha!

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Créditos: Lorena Nicácio

“Esse é o nosso lema: gente é pra brilhar” Glauco Gonçalves é engenheiro civil e foi um dos criadores do Então, Brilha!. Com o lema “gente é para brilhar”, o bloco sai todo sábado de manhã na rua Guaicurus, em frente ao Hotel Brilhante. “Carnaval, para mim, é carnaval da família. Moro em Raposos, lá a gente sempre se fantasiava e ia para a rua brincar com a família. Desde os cinco anos tenho memórias de carnaval. Eu voltei a morar em Belo

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Glauco, seu primo Gonzo e um amigo no carnaval de 2015. CrĂŠditos: Laura Fonseca

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Horizonte até 2012 e depois voltei para Raposos. Em 2009, eu morava com meu primo Rafael Gonzo, o criador do PPK e do Brilha!, e com o Jazão e criamos a banda Suor Tropical. E nessa brincadeira, tocamos em um monte de lugar. Nessa época, ensaiando axés e pagodes, lemos uma poesia do Maiakovski, que diz que gente é para brilhar e ficamos com aquilo na cabeça, mas nem deu em nada. Nesse carnaval, eu fui pra Recife e o Gonzo para o Rio. Em 2010, o Gonzo tinha ido pra Cuba. Quando ele voltou, pegou esse poema - que é finalizado com “então brilha” - e fizemos várias camisetas brilhantes, um estandarte com a estrelinha e fomos para o Rio de Janeiro. O Brilha! saiu pequeno no Rio, mas todo mundo que esteve presente brincou de bloco com estrelas na testa. Voltamos na quinta-feira e descobrimos que teria Vira o Santo, no sábado, na Rua Cristina. Chegando lá me deram uma caixa - não sei como descobriram que eu tocava caixa -, tocamos e ficamos por dentro dos blocos. Em 2011, nós, que éramos 15 pessoas, decidimos sair na terça-feira de carnaval, em frente ao brilhante, na Guaicurus, também com cores brilhantes variados, casais vestidos iguais, tocando marchinhas de carnaval e com estrelas na testa. Saímos de lá e fomos encontrar com o Peixoto em frente ao colégio Arnaldo. No meio do percurso encontramos com o pessoal do antigo Bordelo e fomos todos juntos, os 30, até o Peixoto. Nesse primeiro ano fomos em vários bloquinhos para viver o que estava acontecendo. Em 2012, fiquei muito na Praia da Estação e me veio na cabeça que tínhamos que tocar coisas diferentes. Decidi que iríamos tocar axé e teríamos duas cores. A Paula, hoje minha esposa, disse seria rosa e dourado, sem motivo. Também determinei que o bloco sairia sábado de manhã, do mesmo local de sempre. Pensamos que não haveria ninguém, já que sairia sábado de manhã tocando axé. Queríamos concentrar às 9h, às sair 11h e entregar para o Bloco da Praia às 12h. Nesse ano começamos a

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fazer ensaios, fazíamos festinhas nas nossas casas e nessas festas conhecemos o Cris e o convidamos para reger o bloco. Os ensaios eram sempre uma farra, e começavam mais ou menos um mês antes do sábado de carnaval. O Brilha! nunca ensaiou mais de um mês. Saímos, então, puxando um carrinho de catador, com o som amplificado, tocando axé. Tinha mais ou menos 60 pessoas saindo com a gente 11h da manhã, curtindo, bagunçando, e quando fomos chegando na Praça, o pessoal da Praia veio subindo e encontramos com umas 300 pessoas. Cheguei lá emocionado, foi uma brincadeira. Essa é a ideia que estava na minha cabeça: brincar carnaval. Fomos o bloco revelação desse ano, blocos novos aparecem e as pessoas ficam com vontade de ver. Em 2013, tentei trocar as cores do Brilha! e não me deixaram. Ficamos para sempre com rosa e dourado. Começamos a ensaiar na Praça da Estação a noite e fomos crescendo. Abrimos bastante o bloco para as pessoas tocarem, como diz nosso hino. Em 2013, quando o Brilha! desaguou no Bloco da Praia. Créditos: Priscila Musa

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Assim, saímos com um triciclo com um som plugado em três baterias. Cada ano fomos colocando mais potência no som e cada vez mais pessoas foram entrando na bateria. Em 2014 tinham 400 pessoas na bateria. Esse ano tinham 5 mil pessoas no bloco. Acabou ficando grande desse jeito. Acho que em 2015 conseguimos fazer aquele negócio de “gente é para brilhar”, tanto que abrimos um bandeirão na Guaicurus. Queremos trazer essa força cada vez maior no Carnaval.

Escolhemos a Guaicurus por causa do hotel Brilhante. Na época não tinha nenhum vínculo com a luta, mas hoje eu posso dizer que tem. Quando tinham 15 pessoas na Guaicurus em 2011, não conseguiríamos pensar naquilo. Queríamos mesmo ter um local com brilho no nome. Depois fomos vendo que fincar ali como nosso local foi importante para dar visibilidade para essas questões. No começo, quando falávamos que sairíamos de manhã na Guaicurus, criava uma tensão. Hoje não vemos mais isso. Meninas vão de roupa curta, homens vão só de sunga. Pessoas hoje, por conta do Brilha!, vão para lá sem medo, olhando com um olhar diferente. Mas não foi direcional, o caminho foi indireto. Assim como a questão da prostituição, fomos trazendo para a gente em um caminho de construção. O carnaval tem uma potência muito forte. As pessoas vão para a rua, se fantasiam, fazem coisas que não estão habituadas a fazer, cantam e perdem a vergonha. Carnaval é para brincar. Isso é forte para Belo Horizonte, que foi uma cidade inventada, sem uma cultura própria. O carnaval está recriando vínculos e criando suas novas brincadeiras.

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Brilha! 2015. Créditos: João Viegas

Criamos uma identidade popular através da brincadeira. O Brilha! desistiu de fritar a respeito de prefeitura, independência e cadastramento, a gente sabe que mesmo se não marcar, o bloco sai. Todos sabemos que o Brilha! sai 9h da manhã na Guaicurus. O mais legal é que a gente se permite no carnaval, a gente brinca e não tem filtro não tem limite, não tem julgamento. Por exemplo, eu sempre pintei o meu cabelo de colorido no carnaval: já fui loiro, já fui rosa. Isso é o mais importante, é a permissão e o desprendimento. O carnaval passa pela transformação social, é uma transformação profunda. Por exemplo, eu conheci pessoas incríveis que eu jamais conheceria no meu dia a dia, conheci o Guto e o Rafa. Então é isso! As pessoas se transformam, as relações se transformam e a cidade se transforma. A luta é uma bandeira de alguns blocos, mas não de todos. A gente quer conciliar a luta da cidade com a festa. A festa é o mais importante, por isso que falamos em pequenas lutas. Não estamos contra nada, mas a favor de muitas coisas. A gente

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Brilha! 2014. Crédito: João Viegas

defende gente. Meu gosto pessoalmente é a festa, assim as pessoas começam a fazer parte dessa luta. Nesses 4 dias tente esquecer do mercado que compra e do Estado que te controla. São dias para descolorir o cabelo, para se transformar, para viver experiências estéticas únicas. A gente sempre foi às reuniões da prefeitura, o cadastro era para ser uma forma suporte, estrutura e organização, mas acaba sendo uma forma de controle do carnaval. Era para dar segurança para as pessoas, para ter banheiros químicos e para não sujar as ruas, ser um meio para o carnaval continuar crescendo da maneira bonita e espontânea que estava crescendo, ao invés de ser um jeito de controlar e se apropriar do evento como mérito seu. Em 2013 a prefeitura viu que não teria como combater, então, o cadastro foi o jeito, só que depois virou mercado, produto. O certo seria você voltar para sua casa depois do Carnaval maravilhado com a festa, com a proporção que ela tomou, com que pessoas jovens conseguiram fazer de forma

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livre e espontânea, assim como aqueles que vão para o Maranhão ver o boi voltam maravilhados ao perceber como pessoas sem poder aquisitivo conseguem fazer, uma festa tão bonita, tão livre, tão do povo. A gente vai para conversa com a prefeitura, mas os ouvidos deles ainda não estão preparados para o que estamos dizendo porque para eles o que vem primeiro é o mercado. Mas nós temos que fechar esse acordo com a prefeitura porque nós precisamos da estrutura e segurança para os nossos foliões. No final de tudo, sabemos que eles só querem lucrar em cima disso, não se preocupam com pessoas. Aí aparece na Globo que a Skol fez o nosso patrocínio e quem vê pela televisão fica sabendo disso, e quem não vai para a rua vivenciar que o Tico Tico faz na periferia e o que a gente faz na rua não sabe o que é o carnaval. Cada ano muda quem faz a produção do carnaval. Então esse diálogo é muito mais distorcido porque ele não é continuo. Todo ano ele é novo, ano passado foi o Felipão cara legal de conversar, porque é ele quem faz produção do pop rock. Mesmo assim, ele é comercial, não tem jeito. Esse ano foi uma cara novo e colocaram Felipão como consultor. Tinham que colocar o Guto Borges, o Chapinha ou o Tcha Tcha nesta função. Precisava ter uma comissão com interlocutores de cada tipo de evento para saber diretamente o que eles precisavam. Por exemplo, poderia ter uma pessoa das escolas de samba, dos blocos, das bandas. E assim saberiam do que realmente precisam. É claro que tem alguns blocos que querem patrocínio, mas o Tico Tico não quer, o Brilha! não quer, o Tcha Tcha não quer. Em 2014 a prefeitura queria colocar a gente na Andradas. Poxa, a gente sempre saiu da frente do Hotel Brilhante, não que a gente não possa mudar, mas não porque a prefeitura quer. Não vamos perder a nossa identidade. Em 2013 eu avisei para a Belotur que o bloco seria grande, mas eles não fecharam o trânsito, então, tivemos que desviar pela Santos Dummond no meio da obra do BRT. Em 2015 queríamos e pedimos para descer a Guaicurus toda, só saímos para Andradas porque as pessoas

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impediram o tráfico. Esse ano surgiu efeito, eles fecharam a Guaicurus para a gente. Foi uma vitória. Se eles oferecessem um patrocínio livre, poderíamos usar como uma força para os blocos, já que é difícil de conseguir pagar aquilo que a gente precisa. Em 2014, a gente fez uma festa para arrecadar dinheiro para consegui sair. Tudo foi com muito esforço. No começo a gente pagou do nosso bolso, eu comprei um triciclo, o som foi emprestado do Baianas e a bateria conseguimos através de permuta de serviço de engenharia para uma loja de bateria. Sempre muito perrengue. Pensando em perrengue. No ensaio desse ano, tinham mais espectadores que no bloco de 2014. Foi resultado da fanpage, todo mundo passou a seguir o bloco. Só que no ensaio não demos conta de todos, até porque as pessoas não entendiam que era somente um ensaio, não a festa. A galera estava tomando cerveja e conversando, pedindo para a gente tocar, mas era um ensaio, tínhamos que dar orientações. Não era só curtição. A gente saiu caminhando para a praça, puxei o hino e todo mundo cantou, foi bonito demais. É uma alegria e uma dificuldade, né? Nossa bateria tem mais de 400 pessoas, é uma coisa megalomaníaca, mas é espontâneo e isso é lindo. O mais legal de abrir a bateria é dar essa ideia de participação para todos. A experiência da bateria é algo surreal, é lindo.É legal ver pessoas que nunca tocaram aprenderem alguma coisa.

Isso é sensacional. É vitória ter gente que não sabe tocar, tocando. É demais. 278


Brilha! 2015. CrĂŠditos: 279 Paulo Henrique de Oliveira


Quando o bloco tinha 50 pessoas, eu podia abraçar todo mundo antes desse sair. Nesse ano, o bloco estava marcado para sair 9h, eu cheguei 7h20 e já tinham umas 20 pessoas e eu consegui abraçar todo mundo. O mais legal é isso. A gente tira gente 7h da manhã de casa, para ir para o baixo centro, para ver o nosso bloco. Eu fico com saudade quando bloco era pequeno, fiquei alegre ao ver o bloco crescendo. É surreal ver uma coisa que você criou crescendo. Mas sinto saudade. Ainda existem blocos pequenos e a gente vai, a gente consegue viver essa experiência. O Magnólia, por exemplo, é um bloco pequeno que toca jazz e a gente compartilha isso. É magia do carnaval. O nosso bloco ficar desse tamanho foi e não foi uma escolha. Não queríamos visibilidade, queríamos todo mundo. O carnaval não é show da Ivete Sangalo, não é megaevento. É carnaval, é desorganizar, é desrespeitar ordem, é seguir um caminho Brilha! 2015. Créditos: Flávia Mafra

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Diário

de Bloco Sábado é dia de brilhar!

Era 8:30 quando cheguei na Guaicurus, ainda tinham poucas pessoas, mas já dava para ver a expectativa brilhando nos olhos de todos os que lá estavam. Em 30 minutos a avenida já estava tomada. Tinha gente amarela, dourada e rosa por todo lado. Tinha gente fantasiada de todos os tipos, tinha gente com flores coloridas na cabeça e gente com roupas de praia, sem nenhum tipo de vergonha. Era carnaval. Ninguém julga ninguém pela roupa, todos se divertem juntos, seja pela fantasia hilária do outro, seja pelo excesso de cores ou apenas curtindo o momento. Antes mesmo do bloco sair, as pessoas já cantavam, bebiam e se divertiam. O calor estava de matar, mas não parecia incomodar a maioria. Nada parecia incomodar: nem o calor, o empurra-empurra, o preço das bebidas e o horário. Aliás, era carnaval! Programado para sair às 9h, o bloco saiu com um atraso de 30 minutos. No início, foi difícil fazer o bloco sair do lugar devido à grande quantidade de pessoas na rua, mas aos poucos foram conseguindo e

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finalmente o trio composto por pessoas com vestes rosas e amarelas, com dois balões rosas e que tinha pendurado os dizeres “Diga não ao machismo” começou a descer a Guaicurus rumo à Praça da Estação, onde vários blocos se encontrariam para dar início ao Bloco da Praia. A alegria de todos era contagiante, todos os foliões cantavam alto “gente é para brilhar. Então, brilha, brilha! ô ô ô ah ah”. Foi naquele momento que eu vi amigos de infância, amigos de faculdade, jovens, idosos, trans, negros, brancos, gordos, magros, crianças e animais dividindo o mesmo espaço, com o mesmo propósito, com o mesmo brilho no olhar. Aquilo ali valeu a pena, valeu a pena ver que todos ali tinham o mesmo propósito: se divertir e ao mesmo tempo, engajar uma luta. Todos que estavam ali brilharam, em todos os sentidos. O que mais me marcou nesse dia, além da felicidade dos foliões, foi ver a felicidade estampada nos rostos dos trabalhadores e comerciantes que estavam nos arredores. Via pessoas indo, saindo ou em seus trabalhos fascinados por estarem vendo tanta gente colorida e animada em um lugar tão incomum de ter folia durante o ano. Além disso, os travestis que não estavam no bloco, saíram em suas janelas para acenar e tirar fotos do bloco, que por sua vez gritou e retribuiu com carinho o aceno. O comércio estava aberto, oferecendo comida e até banheiro aos foliões. Os vendedores ambulantes estavam por toda parte, tinha até pessoas vendendo chup-chups e comidas artesanais em busca de tirar um trocado por fora na folia - além de estarem se divertindo. Por: Fernanda Lacotix

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A cor dessa cidade é o brilho “Ta pensando o quê?! Não dou dois anos para a gente colocar Salvador no chinelo!”. Ouvir esta frase às nove horas da manhã de um sábado, primeiro dia oficial de carnaval, sem conseguir distinguir de quem partia a conversa no meio de uma multidão foi surpreendente. Não que fosse normal ver tanta gente reunida tão cedo em Belo Horizonte, mesmo com as notícias que avisavam que 2015 seria a vez da capital mineira “botar a cara no sol” e as estações de previsão meteorológica prevendo a onda de calor, era difícil acreditar, naquele momento, que tudo não passava da mais pura verdade. Muita gente e muito sol faziam com que os detalhes precisassem ser percebidos, reparados, vistos e ouvidos. Desta vez foi diferente, já não se via somente aqueles rostos conhecidos de fulano que estuda história com um parente ou ciclano que já é arroz de festa em ensaio de bloco. É claro que eles também estavam lá, mas deixaram de ser predominantes - tampouco se tornaram minoria - passaram a fazer parte de uma Belo Horizonte múltipla, diferente e que pela primeira vez se viu brilhar de maneira tão heterogênea. A Guaicurus não se trata de uma larga avenida e assim, foi o cenário perfeito para o estreitamento de espaço e das relações que se davam por ali. Algumas ruas que cruzavam o caminho da euforia brilhante passaram a ter o importante papel de afluentes do bloco e direcionavam pessoas de todo o miolo do centro de BH até o objetivo comum, o de se carnavalizar. Era difícil acompanhar o ritmo do bloco. Os que precisavam de mais espaço para dançar e mais ar para respirar iam em direção às ruas perpendiculares à Guaicurus e de lá podiam ouvir claramente a música e o agito dos que não precisavam de tanto

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espaço e oxigênio para estarem ali, o gás que os movia era outro, um tipo diferente e que não tem nome, o oposto dos gases nobres, de coloração amarela e rosa, gratuito e abundante na natureza de gente feliz. Cada um se divertiu como quis e conforme suas condições. O tio do isopor sorria, a tribo dos engenheiros que levaram seus capacetes para a obra da caça às moças aproveitava a bebida geladinha em seus coolers e a colocou à venda (para atrair a “freguesia” ou seria para garantir uma graninha extra para a folia de domingo?), as mulheres gato iam comprar as bebidas dos engenheiros e por ali ficavam, ou saiam e iam flertar com o tio lá do isopor. Os pais pegavam carona nas sombrinhas dos filhos para se abrigarem do sol, as vovós estavam acompanhando seus netos, mas estavam também de cílios postiços e biquínis. Muita gente despreocupada com o modo como apareceriam nos retratos, e justamente essa “terra de ninguém” foi o que mais retratou que gente é para brilhar, e quando brilha faz ficar bonito de se ver. Sobre Salvador, deixemos o seu carnaval - não no chinelo - mas no lugar onde ele queira estar. É certo que esse lugar não haverá de ser igual ao nosso, o carnaval de Belo Horizonte veio chegando de mansinho e nesse sábado mostrou o local onde quer estar. Na rua, na praça, na política, e onde mais não queiram que ele esteja, porque ele já está no povo. Por: Melissa Ribeiro

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Brilha! 205. Créditos: Lorena Nicácio

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BrilhAR COM UM BRILHO ETERNO Acordamos cedo com a barriga gelada de ansiedade. Muitas expectativas no primeiro dia de carnaval, ainda mais quando iria colocar em prática tudo aquilo que aprendi nos ensaios durante todo mês de janeiro. “Será que aprendemos mesmo? Vai sair tudo certinho, vou entender todos os sinais do regente, controlando todos os instrumentos de cima do trio?”. No carnaval, eu e meus amigos sempre vamos de malas prontas (compostas basicamente pelas fantasias do carnaval) para a casa da minha irmã Poliana, que mora em frente à praça Duque de Caxias, no bairro Santa Tereza. Chegamos na sexta-feira à noite e só vamos embora na quarta-feira de cinzas, para ficarmos mais próximos da folia, e ser mais fácil de nos deslocarmos na cidade. No sábado dormi o máximo que pude: acordei às 6h40. Na hora de arrumar para o desfile, as cores do bloco Então, Brilha! – amarelo e rosa - iam tomando os nossos corpos e almas. Essa preparação foi a primeira cerimônia carnavalesca. O Bloco Então, Brilha! marca o alvorecer do carnaval nas ruas de BH. O brilho estava até no queijo do pão de café da manhã – nada que tocássemos poderia escapar do banho de brilho dourado, que tomamos com potes de gliter. Mas aquele brilho não vinha só de uma aparência, ele vinha de dentro de nós. A típica sensação de não caber em si, sentida em tempos carnavalescos. Uma busca insensata pela felicidade, celebração da vida e vontade de sair despidos de qualquer preocupação, preconceitos, ou qualquer limitação que nos impeça de ser felizes. Chegamos na Guaicurus faltando dez minutos para as oito horas. O Trio elétrico já se encontrava posicionado ao centro do quarteirão. O automóvel era bem menor do que os trios elétricos comuns em grandes carnavais como os de Salvador, mas o suficiente para arrastar uma multidão e conduzir a bateria até a Praça da Estação, onde se

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encerra o desfile. Por volta de 8 horas já era possível notar a bateria e foliões chegando ao local, além de ambulantes que vendiam desde água e cerveja, até saquinhos de chup-chups alcoólicos. As pessoas que chegavam usavam adereços, fantasias, e estavam pintados, principalmente, nas cores do bloco. Muitos deles utilizavam roupas que aparentemente foram criadas em especial para aquela ocasião. Coletes, vestidos, perucas, rostos e corpos pintados marcando a identidade do bloco, onde não apenas a bateria, mas os demais foliões também se encontravam caracterizados. A chegada ao local me chamou a atenção para uma característica essencial da folia, a promoção de encontros. Logo na chegada pude encontrar muitos rostos conhecidos dos ensaios, amigos e conversar sobre a chegada do grande dia. Por volta de 9h a rua já se encontrava bastante cheia, e ainda estavam chegando membros da bateria. A princípio estava temerosa quanto ao pequeno número de instrumentos que se encontravam no local inicialmente, mas vi que muitos estavam chegando a partir de 8h30, incluindo alguns regentes dos naipes. O Guto, regente dos tamborins estava com uma calça legging dourada, e a maioria do corpo coberta de tinta vermelha e estrelas douradas. Ao redor de pescoço, tinha colares e patuás com símbolos de alguns blocos e um tecido com listras douradas e rosas enrolado em seu pescoço. Outro regente Rodrigo Castriota, responsável pelas caixas durante os ensaios, também se encontrava todo ornamentado com um short curto rosa, e com lustras douradas, rosto pintado com rosa, com os olhos marcados com lápis preto, em suas costas, pintado com tinta rosa era possível ler “#ABAIXOABELOTUR”. Já passava das 9h e o sol se encontrava à pino. Nesta hora fiquei feliz por ter comprado um boné dourado na mão de um ambulante um pouco antes da formação. Na hora de me preparar para o desfile, havia me lembrado de pintar uma faixa rosa no olho, e

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colar brilhos ao seu redor, pintar os cabelos com spray rosa, mas o filtro solar que era o principal foi esquecido. O boné então cumpriu o papel de proteger meu rosto não só das queimaduras, mas também de ajudar a tampar o sol para que pudesse ver a regência. A bateria estava terminando de se posicionar e já era possível ver que a lateral da rua já se encontrava tomada de gente. Os microfones anunciavam e agradeciam a presença do grupo requebra, formado por mulheres que dançavam e fizeram uma ala para abrir os caminhos do trio. O “pode chegar que festa vai é começar agora...” já anunciava que a hora de dar início ao desfile se aproximava. Nesse momento as vozes do público e bateria já acompanhavam o solo na voz, apenas com o “ô-ô-ôâ-â”. Não tem como ouvir o hino, estar fazendo parte daquela festa toda e não se emocionar. No microfone, os cantores já agradeciam à Rua Guaicurus, vibravam com o fato de terem saídos daquele local e pediam licença para passar pelo local de origem do bloco. Na fala de agradecimento, o desfile era dedicado à rua e às pessoas que faziam parte dela. O cantor recitou partes do poema de Vladimir Maiakovski, que inspirava o hino do bloco e o seu lema “gente é para brilhar e que tudo mais vá para o inferno”. A bateria acompanhava como de costume o início do hino marcando o ritmo nas baquetas e soltando a voz. Assim foi feito até que se cantou por uma vez a letra inteira. Um pouco antes de terminar o solo, o regente já anunciava a entrada da bateria na sequencia seguinte. Dessa vez as primeiras batidas firmes da bateria faziam a marcação da canção, pontuando a sua letra: “Pelas Avenidas/ Andando pelas ruas/ esse é o nosso lema/ gente é para bilhar/ No embalo dessa onda/ O axé que contagia/ Gente é para bilhar/ Então Brilha! / Brilha! ”. Gritos, fogos de artifícios e aplausos dos foliões. O coro da música ficou ainda mais forte com a chegada do refrão e a entrada completa da bateria na música. Aquele momento era de grande emoção e se tornou ainda mais mágico quando a surpresa preparada pelo bloco aconteceu. Da sacada do prédio que se encontrava ao lado do local de desfile, surgiu uma enorme bandeira preta com o escrito “GENTE É PARA BRILHAR”, em rosa, com contornos dourados. Ao se desenrolar, a bandeira deixou cair inúmeras estrelas recortadas em papel celofane

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dourado, fazendo chover aquelas estrelinhas por toda rua. Por um bom tempo fiquei olhando perplexa aquele acontecimento. O som era estrondoso, e a vontade de bater forte nas caixas e tambores ressonavam a felicidade e o amor não só àquele bloco, mas também a chegada do carnaval. O hino seguiu e apesar da emoção era preciso ficar atenta à regência para acompanhar os momentos em que a bateria parava e viradas da caixa. Um bastão de fumaça, como aqueles de torcidas organizadas, era aceso em alguns momentos do hino no alto do trio, fazendo com que por instantes o regente se perdesse dentre a nuvem rosa, e reaparecesse aos poucos na nuvem de fumaça. No repertório algumas músicas sofriam adaptações em suas letras como a música Charme da Liberdade, de Daniela Mercury, que virou “Quem é que desce a ladeira da Guaicurus? E a coisa mais linda de se ver? É o Ilê Ayê!”, tocada durante a descida da rua, depois de muitos pedidos para liberação da via. Com a movimentação do bloco, foi possível começar a ver o grande número de foliões que estavam no local. O dia era quente e o calor não vinha só do sol irradiante daquela manhã, mas também dos corpos suados e aglomerados na multidão amarela e rosa. Durante o desfile alguns colaboradores do bloco passavam entre a bateria oferecendo bebidas. Algumas delas doadas pelos foliões para ajudarem a abastecer o bloco. As bebidas que iam desde água até chup-chups e cerveja, hidratava e alegrava a bateria. Durante a descida da Guaicurus, no quarteirão seguinte ao cruzamento com a Rua Rio de Janeiro, chegou o momento esperado do solo dos timbaus. Esse ponto do desfile havia sido treinado em dois dos 4 ensaios do bloco no mês anterior e exigia concentração e participação de outros instrumentos. O timbau contava com um número menor, se comparado aos demais instrumentos como caixa, surdos, agbês, repiques ou tamborins. Nesta hora todos os demais instrumentos se abaixam, e os timbaus foram conduzidos pelo regente a diferentes pontos da bateria de forma com que os timbaleiros, que incialmente se encontrava próxima ao trio elétrico, se

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dispersassem entre a bateria. Apesar do solo inicialmente ser apenas com toques da levada do timbau, em um segundo momento contava com a participação dos instrumentos agudos e surdos. Nem todo o bloco conseguiu acompanhar o solo devido à sua grande extensão e a demora para uma resposta imediata do fim da bateria. Neste momento pude encontrar e identificar alguns amigos que estavam entre os foliões. Terminado o solo da banda o bloco retomou o seu ritmo normal seguindo com sucessos que marcaram o axé baiano no fim do século XX, como Daniela Marcury, Netinho, é o Tchan, Banda Eva, Banda Mel, Oloudum, entre outros grupos. Um pouco antes de chegar à Rua Espírito Santo, em que o bloco iria virar à esquerda para pegar a Avenida dos Andradas, uma nova surpresa para os foliões. Um grande tecido com longas faixas grossas verticais nas cores rosa e amarelas acetinadas começou a passar por cima da bateria, sendo trazido cada vez mais ao fundo até tampar por completo todo o bloco. O pano era como um grande bandeirão que é aberto em estádios de futebol, em baixo dele agitávamos o tecido sob os tons das cores do bloco. A transparência e a cor do tecido faziam com que a bandeira se tornasse um grande filtro colorindo a luz que a atravessava. À princípio a farra com a surpresa estava evidente na alegria de todos sob aquele enorme sombreiro, que aliviou por alguns instantes o sol forte daquele dia. Mas, em pouco tempo o alívio da sombra foi interferido pelo calor daquela massa agitada, quente e suada que se encontrava sob o tecido. Já era hora do bandeirão retornar ao seu lugar de origem, sendo levado novamente pelas mãos dos foliões e bateria até o trio Elétrico. Em seguida o bloco retomava o seu trajeto novamente entrando na Rua Espírito Santo e caminhando para o seu fim, na Praça da Estação. Para a sua virada, o Bloco contou com o auxílio dos foliões que fizeram uma corrente humana, dando os braços um ao outro, para que a bateria se mantivesse junta. Com esse auxílio foi possível juntar mais a bateria, e começamos a organizar novamente as fileiras com cada naipe, que a essa altura já se encontravam todas misturadas. Ao chegar na Avenida dos Andradas, a largura da via ajudou o bloco para que a bateria pudesse se manter unida. O clima já era de

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despedida e comemoração do desfile que mesmo com algumas dificuldades havia saído com muito amor e alegria. A sensação de satisfação se misturava à nostalgia de todos os ensaios. Já está chegando ao fim? Sério que já aconteceu o desfile? Mesmo com o cansaço, a vontade era de tocar no Brilha! o dia inteiro. Quando já estávamos em frente à praça da estação o desfile foi chegando ao fim e o hino mais uma vez marcou o fechamento dos trabalhos do grupo. O regente do alto do trio soltava balões em forma de estrela. A estrela dourada subiu lentamente cortando o céu limpo e azul. Ainda com mais emoção tocamos e cantamos aquela música que para mim pontua uma das principais qualidades da humanidade, que no carnaval fica ainda mais translúcida. Não existiria outra forma melhor de abrir o carnaval da cidade se não fosse com esse lema: “Gente é para brilhar!”. Por: Naiara Rodrigues

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CAPÍTULO11 3 CAPÍTULO

tico tico PENA DE PAVÃO DE KRISHNA

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aflorou, afoxé... ritmo da nossa fé” Formada em Arquitetura e Urbanismo na UFMG, Flora Rajão, é uma das fundadoras do Pena de Pavão de Krishna, um bloco que traz o sagrado para a festa da carne, com os seus foliões pintados de azul fantasiados da deusa Krishna. O PPK, como também é conhecido, desfila todo domingo de carnaval trazendo ritmos diferentes para o carnaval com o afoxé, fazendo uma mistura da Índia com a Bahia em sua inerência que faz com que os cortejos variem o trajeto de um ano para o outro.

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“Eu passei o primeiro carnaval aqui em 2011, desde então passo sempre. Sei que desde 2009 o pessoal começou a fazer o movimento, a partir do Tico Tico e do Peixoto. Em 2010 já havia crescido bastante e eu via fotos no Facebook dos meus amigos aqui e se divertindo no carnaval, então eu resolvi ficar no ano seguinte. Em 2011 foi bem grande. Várias pessoas ficaram e se reuniram. Já tinha o Tico Tico, Tcha Tcha e o Manjericão. Muitos blocos surgiram em 2011 e muita gente passou a ficar na cidade. E foi encantador para mim! Nos anos passados eu tinha ido pra Olinda achando que seria tranquilo, mas foi uma loucura, coisa de outro mundo. No ano que fiquei aqui pela primeira vez foi tranquilo, mesmo debaixo de chuva era uma vibe muito boa, foi naquele momento que soube que ficaria sempre em Belo Horizonte. Em 2012 já foi muito maior e eu fiz vários amigos. No final de 2012, fiquei muito amiga do Gonzo, o Rafael Gonçalves, criador do Então, Brilha!, e ele já estava com a ideia do PPK na cabeça, já tinha um nome, queria cantar afoxé e ter uma relação com os orixás. Ele tem uma relação muito forte com as culturas afro descentes, com a Bahia, queria algo tipo Filhos de Gandhy49. Ele tinha observado que em 2012 os blocos já estavam muito cheios e queria um bloco de 20 amigos para resgatar a ideia de “olhos nos olhos, queríamos ter mais proximidade e cantar para os orixás. Começamos em janeiro de 2013 e fizemos tudo muito rapidamente. Lembro que em 2012 eu saí fantasiada de Krishina, toda de cara azul no carnaval e isso chamou atenção do Gonzo, que tinha viajado para a Índia naquele ano, e nós decidimos que no nosso bloco íamos todos de cara azul, fantasiados de Krishina também. Aí tudo aconteceu.

No início iríamos tocar apenas músicas de 294

49 - O afoxé Filhos de Gandhy, é um bloco da Bahia inspirando princípios de não violência e paz de Mahatma Gandhi, traz a tradição da religião africana ritmada pelo agogô nos seus cânticos de ijexá na língua Iorubá. Utilizaram lençóis e toalhas brancos como fantasia, para simbolizar as vestes indianas. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Filhos_de_Gandhy. Acesso em: Outubro de 2015.


Bloco PPK em 2013. Créditos: Flora Rajão

Caetano e Chico, mas depois vimos que tinham mais coisas além deles. Tínhamos o plano de chamar o Túlio, do Bloco I Wanna Love You, e já fizemos uma seleção de músicas. O bloco mistura da Bahia, e da Índia. No primeiro ano cantamos muito Caetano e Gil. Um amigo meu ligado ao afoxé, assim que ficou sabendo do bloco, me escreveu com uma parte do “Aflorou”, e disse para eu terminar de completar, para termos o nosso próprio afoxé. O Anjinho, outro amigo, criou o “Quilombo Oriental”, que também foi uma mistura. Depois disso vários amigos foram mandando músicas e ficamos com uma parte autoral. Fizemos quatro ensaios antes do carnaval, o primeiro começou dentro de casa,

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depois fomos para o quintal e no último já estava cheio de gente. No dia do bloco, fomos para a rua com 200 pessoas, saímos da Praça Comendador Negrão de Lima, no bairro Floresta e fomos para a Praça do Santa Tereza, que já tinham umas 500 pessoas preparadas para sair com o Tico Tico. Acho que o que atraiu mais gente para o bloco foi a estética, e o fato de ser um bloco mais tranquilo, amoroso, com uma música mais lenta e se tratar de Krishina, uma figura divina. Acho que esse bloco foi a minha missão, Krishina não faz nada por acaso. E foi ele que mandou uma menina filmar o momento final do bloco, o momento mais lindo, e quando ela postou no Facebook e atraiu várias pessoas, que também acharam lindo e ficaram com vontade de participar. Em 2014, saímos em uma praça no Jardim América e entramos na Vila Ventosa, éramos 2 mil pessoas! E como o som ainda era precário, muita gente não conseguiu acompanhar, porque a gente nem imaginou que iria crescer tanto. Em 2015, saímos em uma praça no Lagoinha e saímos com, aproximadamente, 5 mil pessoas. A escolha do trajeto do bloco passou a ficar complicada, porque o bloco começou a crescer muito e não podíamos mais ir para locais que tem ruelas menores, como na Índia. A gente queria, no primeiro ano, sair perto do Tico Tico no Santa Tereza, então pensamos em uma pracinha do Floresta que tinha alguma relação com a Índia que eu não lembro direito. No ano seguinte, pensamos no Ventosa, que lembrava muito as ruas pequenas da Índia e queríamos também levar o bloco para lugares que ainda não tinha carnaval. Se dependesse de mim, sairia sempre em morros e aglomerados, lá que lembra a história da Índia. Só que esse ano, em 2015, tivemos que nos inscrever na Prefeitura, já que o bloco havia crescido e precisávamos de estrutura. Assim, o nosso trajeto teve que ser diferente do que queríamos, com rua maiores, por isso pensamos no Bonfim. Nos demais anos não nos inscrevemos no cadastro da Prefeitura por política e

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Bloco PPK em 2013. Créditos: Flora Rajão

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Bloco PPK em 2013. Créditos: Flora Rajão

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Bloco PPK em 2013. Créditos: Flora Rajão

porque achávamos que não precisamos de permissão para usar a rua. Mas em 2014 tivemos um boom de público e como a Prefeitura ficou mais rígida, achamos que não conseguiríamos sair sem essa autorização. Esse ano nos inscrevemos pelo cuidado com o nosso público, tínhamos que cuidar do trânsito e colocar banheiros públicos. Porém a Belotur cometeu um erro conosco esse ano, já que os banheiros chegaram depois da saída do bloco, não pudemos dar esse cuidado adequado para o público. Sinto que falta diálogo, falta reciprocidade. Eu acho que essa retomada das ruas e da liberdade veio muito com a Praia da Estação, onde a ocupação da rua foi uma conquista, foi um momento de inconsciente coletivo. E foi por causa do Marcio Lacerda e sua péssima gestão, que conquistamos tanto espaço e unimos tanta gente. Teve Tico Tico, teve Praia da Estação, teve as Ocupações,

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o Duelo de MCs, o Baixo Centro, as Bicicletas. Um tanto de coisa aconteceu ao mesmo tempo por causa dessa luta por liberdade, por democracia social, por espaço. No fim de tudo, eu acho que esse bloco tinha que acontecer. Era pra ser. Eu era vegetariana, o Gonzo também, não bebíamos. A gente queria trazer essa visão e esses costumes para o carnaval também. Foi uma missão. Até o Rafael Gonzo sentia, ele veio me falar que tinha que fazer esse bloco também. E mesmo as pessoas não deixando de beber ou fumar, a gente vê que o mantra marca as pessoas, que elas sentem a energia. E isso é muito forte. E tudo isso aconteceu muito naturalmente, por dois motivos. O primeiro é por causa do nome do bloco e o segundo por causa da nossa caracterização mais indiana, cantando sobre orixás e afoxés. No bloco conseguimos atingir uma paz interior muito grande, e é isso o que importa no fim de tudo”.

Bloco PPK em 2013. Créditos: Flávia Mafra

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Bloco PPK em 2013. Créditos: Flávia Mafra

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Diário

de Bloco Sinta a energia!

No domingo, acordei às 6:30 para poder acompanhar o bloco Pena de Pavão de Krishina, que foi tão pertinho de casa que deu para ir caminhando. Pintei meu rosto de azul e saí ao encontro do bloco. Chegando na Praça 15 de Julho do Bairro Bonfim, uma cor predominava: o azul! A maioria das pessoas tinham seus rostos pintados com turbantes coloridos na cabeça. Nesse dia, o calor continuava queimando, mas os foliões continuavam não se importando. Todos estavam energizados, azuis e felizes com o dia do pavão. Haviam crianças, jovens, adultos, idosos, pessoas de todas as idades, com suas famílias e amigos, de rosto pintado, compartilhando tintas e enfeites, passeando com incensos e distribuindo docinhos de Krishna. Era bonito de se ver, fiquei em um canto só observando todos que passavam, todos que sorriam e se energizavam. Nunca vi uma reunião tão mágica de pessoas buscando paz interior. Dava para ouvir o som da alma dos foliões cantando a música do bloco “aflorou,

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afoxé, ritmo de nossa fé…”. Tenho certeza que esse canto estará gravado para sempre na memória de todos que ali estavam. Energia. Acho que o que define esse bloco é energia. Ele vai além da festa do carnaval, da contestação política ou qualquer outra coisa do tipo. É energia, é união, é uma coisa que toca lá no fundo da alma. Por: Fernanda Lacotix Bloco PPK. Créditos: Flora Rajão

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Amor em blocos No segundo dia de carnaval, repetimos a nossa rotina de acordar cedo para aproveitar a manhã nos blocos. Como não estava nos planos irmos ao PPK, pois tocaríamos no Bloco Rola Moça à tarde, fui pular carnaval com a minha fantasia de Ariel, a pequena sereia da Disney, com uma saia verde feita especialmente para o carnaval, e cabelos vermelhos. O Bloco PPK, tem nos rostos e corpos azuis um dos principais elementos de identidade do grupo, que usa a cor de Krishna, inspiração sagrada para aqueles que aparentemente se mostram foliões e seguidores de uma ideologia de vida. Saímos de casa por volta de 9h. Ao chegar no local do desfile do bloco, a praça já se encontrava tomada por pessoas azuis. A maioria dos foliões se encontravam caracterizados com a temática sagrada do bloco: turbantes coloridos nas cabeças, rostos e corpos pintados de azuis. Alguns usavam piercings ligados com correntinhas metálicas, panos enrolados no corpo e outras indumentárias que fazem parte da cultura indiana. Incensos perfumavam a pequena praça com grandes árvores na Lagoinha. Dentre os foliões um homem grande pintado de dourado, com panos enrolados no corpo, com adereços que simulavam uma tromba e orelhas de elefante, se vestia de Ganesha, caracterizado por ser sábio, sendo dos mais populares deuses hinduístas. Um sentimento de deslocamento do não azul me bateu a princípio por não estar na mesma sintonia aparente daqueles foliões. Um grande número de crianças que estavam no local com seus pais para acompanhar o desfile do bloco. Um casal se escondia do sol, que já estava quente, próximo à um mercadinho em uma das esquinas da praça, carregando no colo a filha de dois anos, que às vezes se arriscava no chão, dando alguns de seus passos atrapalhados. Os três usavam um turbante rosa, com detalhes em azul e um pingo de tinta azul entre as sobrancelhas.

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Bloco PPK. Créditos: Flora Rajão

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Enquanto aguardavam a saída do bloco, muitos foliões ainda se pintavam de azul, uns com os auxílios dos outros. Enquanto alguns pintavam apenas os rostos, outros se lambrecavam de tinta da cabeça aos pés e perfumavam as ruas com o cheiro de incensos. Entre aqueles foliões existiam pessoas que realmente seguiam aquelas crenças e filosofia de vida, ou se era apenas mais uma fantasia de carnaval? Em uma rua lateral da praça, o trio elétrico que iria conduzir o bloco já se encontrava desde cedo parado. Atrás do bloco a bateria se reunia e afinava os instrumentos. Uma faixa rosa com os cumprimentos “Namastê & axé” se encontravam na parte de trás do trio saldando a bateria e os foliões já mostravam um clima diferente dos outros blocos de carnaval da cidade. Traziam o sagrado e o espiritual junto a festa profana da carne. Antes de começar o cortejo, um mantra era proferido pelos integrantes da bateria. O “OM”, som sagrado no hinduísmo e ícone espiritual de religiões indianas, reverberava pela praça e trazia uma vibração única, trazendo uma intensa sensação de harmonia entre as pessoas. Um pouco depois, volta das 10h30 o bloco iniciou o seu desfile com o hino “Aflorou”, mostrando de vez que o PPK vinha com um outro ritmo para a festa. O momento do hino é um dos mais marcantes e simbólicos de todos os desfiles. A música iniciou com os solos de violão e violino, instrumentos que seguiam do alto do trio, com o auxílio de microfones:

“Aflorou, o afoxé Ritmo da nossa fé É Belô, afoxé Todo mundo andando a pé No carnaval,

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Te conheci Transcendental te segui Amor em blocos A dor da cor A Flor de Lotus, o tambor”. Inicialmente a canção foi acompanhada por esses instrumentos junto da voz dos foliões e bateria. A música era puxada do alto do trio pelo músico Gustavito. No PPK, o som mais lento do afoxé é bastante marcado pelo grande número de agogô, e de agbês na bateria. Os sons graves ficam por conta dos tambores: além de surdos a percussão do grupo também conta com tambores artesanais como as caixas de folias, típicas do congado, e as alfaias, tambores utilizados no maracatu, em que se utiliza não só com o couro, mas também o aro do tambor para tirar os sons. A percussão é diferenciada dos demais blocos, com o ritmo Ijexá. Era possível notar também que os gestos e formas de marcações da regência diferenciava dos demais blocos. Antes da mancha azul formada pela bateria do bloco que se enfileirava atrás do trio, um pavão com cerca de 4 metros puxava o caminho seguido de grupo de dançarinos abre-alas do bloco. Escolhi ficar parada em um ponto da praça para ver a passagem da bateria, o número de pessoas que estavam lá para seguir o cortejo sem participar da bateria do bloco era grande, e muitas vezes, esse público junto dos ambulantes que paravam no meio da rua, tornavam ainda mais lento a caminhada do bloco, que tinha uma área estreita para se deslocar. Em algumas partes do caminho a bateria seguia quase em fila indiana, e o seu estreitamento fazia com que algumas pessoas se deslocassem tocando os seus tambores suspensos no alto de suas cabeças. O bloco ia arrastando muitos

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foliões para descer a rua lateral da praça, que era ainda mais estreita. A partir desse momento esperamos que toda a bateria passasse para começarmos a acompanhar o seu trajeto, e dentro do bloco vários rostos conhecidos ressaltando uma característica do carnaval: muitos foliões participam de diferentes baterias da festa se encontrando com frequência nos cortejos. Como estava em um grupo grande de amigos, e ainda carregávamos um cooler preferimos nos manter ao final do desfile. No repertório do bloco, músicas de artistas como Gilberto Gil, Caetano, e letras de exaltação da cultura baiana e deuses das religiões africanas, também de crenças de origem indiana. Não pude acompanhar todo o desfile do bloco, mas um pouco antes de ir embora, desci até o trio, que devido às dificuldades de manobrar nas ruas apertadas e com carros estacionados em seu entorno, precisou de fazer um desvio para que o desfile continuasse. Saímos do bloco já era quase 13h e o desfile ainda continuava, mesmo com os percalços. O bloco azul continuava o seu caminho transbordando energias positivas pelas ruas do Lagoinha. Por: Naiara Rodrigues

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Bloco PPK. Créditos: Flora Rajão

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CAPÍTULO12 3 CAPÍTULO tico tico QUEIXINHO

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“Hei de te encontrar por esses carnavais no samba queixinho” O jornalista Gustavo Caetano foi um dos criadores do Unidos do Samba do Queixinho, o bloco underground baticum que sai todo domingo de carnaval, desde 2010, puxando marchinhas, samba enredo e axé. “Meu nome é Gustavo Caetano, tenho 40 anos, sou jornalista e trabalho com o samba desde criança. Sou do Santa Tereza, junto com o Mestre Lauro, lá é uma tradição o samba, escola de samba e a gente nasceu

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disso. O Queixinho nasceu no réveillon de 2009 para 2010, quando a gente cismou de fazer um bloco, mas o pessoal não deu muita ideia. O nome do bloco, você sabe, porque “quem não tem samba no pé tem no queixo”. Eram 10 pessoas, e não tinha mais carnaval em Belo horizonte, a gente nem sabia que o Peixoto e o Tico Tico tinham saído em 2009. Como eu sou do Santa Tereza, a gente decidiu ficar no Orlando, na sexta-feira de carnaval ano de 2010 e fizemos um desconcentra, mas não sai com poucas pessoas. Eu levei umas camisetas do bloco, fiz camisetas para mim e para os meus amigos, eles nem esperavam que eu fosse fazer isso, porque falamos na virada e eu realmente levei a sério. No sábado a gente foi para o Parque Municipal, fizemos um desfile bem legal e o pessoal ficou super animado, porque realmente não tinha nada. Coincidentemente, o Tico Tico estava no Parque, a gente nem sabia que eles estariam lá. Queixinho em 2015. Créditos: João Viegas

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Estandarte do Queixinho em 2010. CrĂŠditos: Elisa Mendes

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Queixinho em 2010. Créditos: Elisa Mendes

A bateria de todos os blocos eram umas quatro pessoas só e começamos a tocar juntos, íamos revezando também, quem quisesse tocar, tocava. Eu tinha uma experiência com os instrumentos, mas não dava para usar nada né? Porque o pessoal realmente estava ali na raça, e eu estava ali de folião tocando. Mas foi uma festa, a gente tocou em quase todos os blocos. O Queixinho, nos 6 últimos anos, saiu da Praça da Liberdade, por uma questão política, para pontuar nosso desgosto pelo Aécio Neves. Na Praça da Liberdade contestávamos a liberdade. Liberdade de quê? Se a gente não poderia ocupar os espaços públicos. A Praça da Liberdade é um lugar simbólico, tem o Palácio do Governo e a gente fez um protesto na frente. O Queixinho não é um bloco de elite, ele não quis ficar na Savassi por comodidade, ficou ali por uma questão política. É claro que a gente ficou na região centro sul porque foi um lugar que todo mundo foi criado. O trajeto sempre foi na Savassi porque é tradicional, a gente gosta de manter a tradição. A nossa base

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Queixinho em 2013. Créditos: Fabiano Aguiar

é de escola de samba, as nossas camisetas são uma tentativa de resgate dos blocos caricatos que tinham aqui, o mestre de bateria também veio disso. Essa coisa de deixar a bateria com um formato de escola de samba veio da nossa ideia de querer manter a tradição. E desfilar na Praça da Liberdade conta mais com isso, porque a gente quer pontuar politicamente um lugar que a gente fincou o pé naquela época, o que não quer dizer que a gente fique parado ali porque o primeiro mote principal da criação dos blocos é uma questão política de ocupação das ruas. Acho que já conseguimos isso e acho que agora temos que avançar e conquistar outros desafios. Eu acho que a gente tem que lutar pela cultura da cidade e por inclusão, nós tratamos muito da invisibilidade, que é o morador de rua, as pessoas que moram em periferias, em favelas, pessoas que para a classe média são invisíveis, não tem visibilidade. Então, essa é uma batalha que a gente quer pensar bastante, discutir a rua, porque a rua excluí. Queremos pensar também na questão das

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escolas de samba, porque é lá que as pessoas que ainda gostam de samba estão, principalmente o povão. Porque até agora o carnaval de blocos da cidade está sendo feito pela classe média. Mas o povão mesmo que está na periferia, nos aglomerados, estão no carnaval oficial da Prefeitura. Eles estão lá em baixo desfilando. Então acho que temos que nos mobilizar para tornar esse carnaval deles mais visível. Eu acredito que tem que se discutir com eles para saber qual é a vontade deles. Se é importante que um capital externo entre para ajudar? Porque ali gera renda, né? O Carnaval do Rio de Janeiro gera renda, tem gente que trabalha o ano inteiro. Uma luta também pessoal minha é tornar o carnaval de Belo Horizonte uma questão permanente, para o ano inteiro e não deixar datado só para aqueles quatro dias. Acho que isso é importante porque vai gerar renda, é um ambulante que vai estar na rua ganhando o dinheiro dele. A gente pode fazer ensaio o ano todo, qual é o problema? É cultura, porque lá no Rio tem ensaio todo o ano, as escolas estão tocando todos os finais de semana e aqui não pode. Então é isso, é buscar uma forma de ajudar essa galera a aquecer a economia deles, o serralheiro, o escultor, a moça que faz adereço, o ritmista, que está ali tocando. Assim conseguimos ir evoluindo. A formação musical feita pelo Queixinho já vem de uma necessidade, porque quando montamos o bloco, muita gente queria fazer um som, mas ao mesmo tempo não tinha ninguém para fazer, o pessoal estava sofrendo porque não sabia tocar direito. Então como eu já toco, com o tempo eu queria trazer essa experiência da musicalização do bloco, porque eu acho que isso é importante. Não é só ocupar o espaço, é passar essa experiência que você tem para os outros. Tem também a questão da colaboratividade, a troca de informação, a questão da extensão social também, você criar laços, porque a rua é isso. Você está tocando com um cara ali que você não conhece, vai estabelecer uma relação, às vezes, o cara é muito simples e você é um chefe de empresa. Então, pensamos nisso, é uma forma de capacitar a galera, formar ritmistas, ensinar a galera a tocar e é isso. A gente não tem compromisso com ninguém e ninguém tem compromisso com a gente. Tem muitas pessoas que criticam, dizendo que somos

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“um regime militar”. Eu acho que tem uma questão de opinião: “eu não gosto desse tipo de coisa, eu prefiro ir para um bloco que eu tenha liberdade de tocar do jeito que eu quiser”. Eu também gosto disso, mas aqui dentro a minha escolha foi por capacitar. Tanto que tem muita gente que toca conosco, sai com a gente o ano todo, mas vai tocar em outros blocos e não desfila com o Queixinho. Eu não estou nem aí para isso. Vários blocos saíram daqui de dentro, então para mim o que importa é ensinar o pessoal a tocar, ter liberdade e ocupar a cultura em Belo Horizonte. Antigamente, era ocupar os espaços públicos, hoje é ocupar a cultura. Nós sempre fizemos ensaio, desde de o começo, e já fomos muito criticados por isso. Fomos os primeiros a fazer ensaio. O Queixinho não é mais um bloco de rua, esse é um outro diferencial, é uma escola de samba de rua. As pessoas tinham que entender isso, não adianta comparar com um bloco, a gente não é bloco. E quando for comparar, é claro que a pessoa vai achar ruim mesmo porque, de certa forma, a gente dá uma engessada no negócio, a pessoa não se sente tão à vontade de chegar no dia e tocar. Então, ensinamos, o ano todo. A gente faz oficina duas vezes durante a semana, e ensaio todo fim de semana. Queixinho 2015. Créditos: Fabiano Aguiar

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Queixinho 2015. CrĂŠditos: Fabiano Aguiar

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As baterias de escolas de samba de Belo Horizonte e os ritmistas foram desaparecendo. Muitos viraram evangélicos, perdemos muitos para o funk e muitos deixaram de gostar disso, porque a Prefeitura não ajuda em nada essas escolas de samba. Então vimos uma necessidade nisso, de ocupar, de ensinar a galera, é importante isso. Eu tenho um compromisso com o pessoal, e eles esperam isso de mim, que eu cobre eles de tocar do jeito certo. Pelo menos no Queixinho eles vão aprender isso Eu vejo isso mais como uma questão de autoajuda também, uma auto conquista. A pessoa entra tímida, tem vergonha de tudo, com o tempo ela vai aprendendo a tocar e depois no final ela aprende a tocar e pode tocar em qualquer lugar. Agora, em relação ao diálogo com a Prefeitura, no começo foi bem difícil porque ninguém estava entendendo direito o que estava acontecendo. Então, em um primeiro momento nem era tão difícil porque você só chegava lá e comunicava que você era manifestação cultural e beleza. Só que quando a PBH quis bater na gente, nós reagimos e eles viram que não adiantava bater na gente. O Márcio Lacerda teria que baixar a bola dele mesmo, não adianta bater que vai ser pior. Só que aí eles tentaram inserir regras para a gente seguir, quis padronizar, engessar e fazer do jeito que eles quisessem. E nós falamos que não, que eles não estavam entendendo, que aqui era uma questão política e que estávamos aqui para demonstrar que nesses quatro dias a gente quer ocupar do jeito que a gente quisesse. Além disso, ele tentou burocratizar, mas a gente não aceitou. Fomos colocando isso aos poucos, com o diálogo, porque tem que pontuar que a postura do prefeito é uma, mas as pessoas que trabalham ali também são pessoas que tem que respeitar, muitas vezes estão ali a fim até de ajudar. Eles entenderam isso e agora a maioria das coisas que a gente pede, hoje em dia eles tentam fazer do melhor jeito, mas é importante que a gente lute por um carnaval estado pela Fundação Municipal de Cultura, não pela Belotur. Não é questão pessoal com eles, é porque a Belotur está voltada para o turismo, o turismo está voltado para o dinheiro; e a gente não quer um carnaval voltado para dinheiro - isso os blocos de rua. O carnaval de escola de samba, lá em baixo, acho que tem que entrar dinheiro

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Queixinho em 2015. Créditos: Fabiano Aguiar

sim porque ele gera renda. Mas eu acho que o carnaval de bloco de rua não, então a nossa luta é para manter essa questão de manifestação popular cultural e garantir esse direito da gente. Os cadastros de blocos sempre foram feitos pela Belotur e o Queixinho sempre se cadastrou. O que tem que entender é o seguinte: porque é manifestação cultural. Isso está na constituinte, é um direito que nós temos e a gente tem vários tipos de manifestação popular cultural, como o folclore, o jongo, entre outros. No início a gente tinha que ir nos órgãos responsáveis que eram os bombeiros, regional centrosul, polícia e em cada um desses a gente tinha que passar um ofício, ou seja, a gente não deixava de cadastrar. Na época quem era o diretor da Belotur era o Fernando Rios, e eu sugeri a ele que fizesse um documento único. Eles perguntaram o que a gente achava melhor para resolver essa questão e eu falei com ele para unificar o processo. Então não foi a Belotur que criou esse mecanismo, é uma conquista nossa,

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de não ter que ir em cada. Tem determinadas coisas que foram lutas nossas que a gente que conquistou. O carnaval de rua Belo Horizonte ele é feito na boa vontade, espontaneamente, qualquer pessoa que quiser chegar na rua. Porém existe um gasto oficial, eles entenderam que não tinha como lutar contra isso, contra o gasto. Porque há aumento de contingente policial, nessa época do carnaval eles davam férias para todo mundo, até para segurar o cofre público. Essa é a conversa da Prefeitura né? Só que eles viram que não ia ter jeito, que ia ter que botar mais segurança na rua, mais polícia, o que eu não acho que seja necessário, mas queriam botar mais segurança, mais agente da BHTrans, ou seja, isso no entendimento deles, aumenta o gasto público. Eles têm um dinheiro, uma verba pública destinada a investimento no carnaval de Belo Horizonte, que é pouco irrisório e é mal colocado. Além disso, eles quiseram aumentar esse orçamento do carnaval estrutural que eles pensavam que era o melhor para a cidade: colocando grade, impedindo o ambulante, cercando o carnaval de rua de BH, colocando quase uma PPP ali, uma parceria pública privada. Eles queriam vender um

Queixinho em 2012. Créditos: Fabiano Aguiar

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monopólio, vender o carnaval de Belo Horizonte, usar essa conquista que a gente teve, inclusive na mídia, para vender o carnaval para o capital externo. A gente não aceitou isso. Tem gente que pode aceitar, para algum cara pode ser interessante, mas a gente não aceita. A Skol tentou se apropriar de umas imagens nossas. E eu fui e avisei para tirarem porque estavam usando uma imagem nossa, num totem, e ameacei entrar com um processo. A gente é contra isso, vai bancar o carnaval lá de baixo, vai dar dinheiro para as escolas de samba, vai bancar uma escola de samba. Ao invés da Prefeitura dar 20 mil reais para uma escola de samba faltando uma semana, dá um milhão de reais para essas caras, dá quadra, ajuda a bancar a bateria, vai pagar um mestre de bateria, um escritório. Eu acho que é isso, tem que ter essa grana, mas voltada para escola de samba. Eu acho, mas não sei a opinião deles. Esse crescimento trouxe um desafio para o Queixinho lá no começo, quando não tinha instrumento em Belo Horizonte para comprar, não tinha público, não tinha ritmista. Naquela época foi difícil. Hoje não tem dificuldade para nada. A bateria do Queixinho tem 300 pessoas, se eu não regular tem 500. Se eu não segurar a informação para

Queixinho em 2013. Créditos: Léo Fontes

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a imprensa dá 100 mil pessoas na rua. Então, eu não vejo dificuldade nenhuma, eu acho que tem lutas. Para o Queixinho, especialmente não, mas eu acho que tem lutas. A primeira luta que a gente conquistou foi a questão da ocupação dos espaços públicos, acho que agora tem essa questão de dar visibilidade para as pessoas que estão nas ruas e são invisíveis, de criar novas possibilidades para a mulher. O espaço da mulher na cultura mineira, principalmente no samba e na música, é muito pouco, você não tem mestras de bateria. Tem um discurso muito grande que o carnaval é para todo mundo, mas cadê as mestras de bateria, porque não formam mestras? Tem poucas, tem a Nara, a Bel, mas precisa de mais Tem a Jaíne, que para mim é uma das principais mestras do Brasil. Então acho que são pautas pulverizadas e a gente tem que fazer micro-revoluções”.

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Queixinho em 2015. CrĂŠditos: Fabiano Aguiar

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de Bloco Quem não tem samba no pé, tem no queixo Chegando na Praça da Liberdade bastante atrasada, ouço os tambores da bateria do Queixinho. Uma das maiores e mais bem organizadas do carnaval de BH, a “Kabulosa” (a bateria do bloco tem esse nome), tem aproximadamente 300 integrantes, segundo os dados da matéria do Tempo sobre os blocos de carnaval da cidade. Embora não use nenhum som mecânico, dá para ouvir de longe a potência do grupo. E quando chego fico ainda mais surpresa, esse ano, além de uniformizados eles homenageavam a figura mexicana da Santa Morte, todos estavam usando uma maquiagem bastante elaborada de bocas costuradas e a palidez mortal, além disso as roupas em vermelho e preto, embora em diferentes modelos chamavam a atenção pela sincronia. Muitos dos integrantes da bateria são músicos e dá para perceber pelo ritmo e precisão das batidas que mesmo quem não é se preparou muito. Mas isso não

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Chegando na Praça da Liberdade bastante atrasada, ouço os tambores da bateria do Queixinho. Uma das maiores e mais bem organizadas do carnaval de BH, a “Kabulosa” (a bateria do bloco tem esse nome), tem aproximadamente 300 integrantes, segundo os dados da matéria do Tempo sobre os blocos de carnaval da cidade. Embora não use nenhum som mecânico, dá para ouvir de longe a potência do grupo. E quando chego fico ainda mais surpresa, esse ano, além de uniformizados eles homenageavam a figura mexicana da Santa Morte, todos estavam usando uma maquiagem bastante elaborada de bocas costuradas e a palidez mortal, além disso as roupas em vermelho e preto, embora em diferentes modelos chamavam a atenção pela sincronia. Muitos dos integrantes da bateria são músicos e dá para perceber pelo ritmo e precisão das batidas que mesmo quem não é se preparou muito. Mas isso não é novidade, amigos que participam do bloco sempre comentam dos ensaios, que desde o ano retrasado rolam o ano todo. Corro para alcançar o bloco, mas paro a cada passo para cumprimentar o grande número de amigos e conhecidos. A maioria está a anos nos rolês de BH e o consenso é que no Queixinho encontramos, quase sempre, o povo das antigas. Driblando com alguns “olás” de longe consigo chegar perto do bloco já na esquina da Claudio Manoel. Subo numa árvore para ver melhor, a multidão é muito grande e não é possível ver o bloco e nem saber quem está na frente ou ver detalhes das roupas e instrumentos. E aí meu olhar vai para o mar de gente colorida, mais uma vez é no Queixinho que estão as melhores fantasias, grupos inteiros vestidos com temas variados. Eu estava só com uma humilde peruca ruiva, desejei ter preparado uma fantasia mais criativa. O Bloco das Esquinas (de homens e mulheres de meia idade) desce ao som do Queixinho, com as plaquinhas azuis na cabeça simulando as esquinas mais famosas da cidade e outras bem engraças como Av Brigadeiro com Granulado e Copa 2014 com Libertadores 2013, esse ano os “tiozinhos” arrasaram. Identifico uma liga inteira de super-heróis e quase caio da arvore quando vejo uma Caveira puxando o bloco,

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não consigo nem identificarquem é. A porta bandeiras é um pavão com umas penas azuis. Além dos personagens infantis e das enfermeiras, bombeiros e fantasias mais ortodoxas, um grupo de rapazes, usava umas fantasias parecidas com os funcionários da BHTrans, que fizeram o BHtransa. Embora acompanhe o bloco a um tempo, não sei muito da história, surgimento ou curiosidades sobre o bloco. Seria uma coisa para pesquisar daqui para frente, porque hoje a minha observação está mesmo focada nas fantasias. São crianças, idosos, homens e mulheres, a grande maioria dando vazão a imaginação com todo tipo de adereço e creio que esse é um dos blocos mais coloridos e diversificado. Não há, como no Brilha! e no Sindico, uma maioria de certa classe etária ou grupo cultural ou com cores e estilos muito definidos. Tem todo tipo de gente, com todo tipo de ideologia ou falta dela. O desfile termina na chegada da Afonso Penna e o pessoal começa a dispersar, corro, pego um taxi e sigo para a Alcova. Ainda tem um bocado de carnaval para aproveitar. Por: Camila Coeli

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PARTE 3 “Vira o Santo, meu bem! Vira o Santo, meu bem! Carnaval só no ano que vem!” Hino do Vira o Santo

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CAPÍTULO 14

RUMOS DA FOLIA FUTURA

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O que a gente espera para os prรณximos carnavais? 331331


Flora Rajão: “A Prefeitura quer fazer um blocódromo, um lugar comum para todos os blocos saírem. Em 2015 eu fiz uma página “Carnaval de amor e de luta” e criamos um manifesto50 sobre o que queremos. Mostramos que não vamos dar aquilo que eles querem, eles têm que ceder também. Sempre teve diálogo, mas eles nunca cederam. E se continuar assim, continuaremos unidos e lutando”. Janaína Macruz: “O Carnaval foi uma coisa que veio da cidade, de uma empresa que falou vamos fazer um carnaval, ou da Prefeitura. Foi uma coisa popular. Agora uma vez um cara aqui de um bloco antigo que era aqui do Santa Tereza e acabou, ele falou assim: “é.. vai vendo aí galera porque uma hora vocês vão cansar. O negócio vira gigante fica insuportável fica gigantesco.” Foi isso o negócio ficou tão gigantesco que ele acabou com o bloco porque não dava mais para segurar as pontas. O carnaval vai se reinventando mesmo e eu acho que até eu morrer vai existir um carnaval em Belo Horizonte, e acho que o negócio é manter a memória, porque é muito facilmente destorcida as coisas. E precisamos continuar levantando as pautas. O Bloco Tarifa Zero, Luiz Estrela, cada vez levantando blocos novos com pautas novas, e levando isso também para os nossos blocos. Porque acho que já é uma ação política você está na rua levando um monte de gente, né? Sobre a descentralização já fizemos um pouco isso, mas acho que a gente tem que fazer mais, lógico que ir para as ocupações foi maravilhoso, ter rolado lá por dois anos o Tcha Tcha e tudo, mas acho que a gente tem que fazer mais. Mobilizar mais blocos, ou ir a gente mesmo, eu ficaria muito feliz de ver blocos em Venda Nova, Juliana, Jaqueline, e eu ficaria muito feliz”. Roberto Andrés: “Vai ser muito forte a disputa pelo carnaval, porque é ano eleitoral, né? E muita gente ligada ao carnaval está se propondo a participa mais ativamente desse processo aí, a gente vai ser acusado também, vai ter de tudo assim, vai ser interessante e curioso”. Glauco Gonçalves: “Para os próximos anos, eu quero mais pessoas se divertindo e gente sendo transformada. Quero que o poder público entenda que não é 50 - Carnaval é do povo: manifesto de repúdio à Skol. Disponível em: <https://www.facebook.com/carnavalderuaBH/photo /a.140392249357321.28066.137013919695154/861870807209458/?type=3&permPage=1>. Acesso em: Outubro de 2015.

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mercadoria, que a Skol patrocine carnavais que querem ser patrocinados. Quero firmeza, independência e alegria para o carnaval. Queremos manter vinculação com a cidade, uma manifestação popular e representação para a cidade. Que cada um encontre seu carnaval. Tem todo o tipo de carnaval possível. Que tenha vida longa!”.

O que nós sabemos é que essa história ainda será escrita…

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Blocário 2009

Bloco do Approach Cacete de Agulha + Unidas dos Grandes Lábios Unidos do Samba Queixinho

Tico Tico Serra Copo

Tico-Tico Serra Copo

Bloco do Approach

Caminhão Elétrico do Bloco do Grito

Bloco do Peixoto

Bloco da Alcova

2010

Os Filhos de Tcha Tcha

Bloco da Praia Bloco do Approach Os Filhos de Tcha Tcha Bloco do Peixoto Tico Tico Serra Copo Mamá na Vaca Bloco Samba do Queixinho

Unidos do Barro Preto Bloco do Nelson Coletivo do Delírio Bloco do Peixoto Boco do Manjericão + Bloco do Fusile Bloco Vi Uvas Vira o Santo

Bloco da Tetê, a Santa

2012

Vira o Santo

Bloco da Tetê, a Santa

2011

Mamá na Vaca

Mamá na Vaca Podia Ser Pior Bloco do Angu Bloco da Cidade Tetê, a Santa Bloco de Moreré Caminhão Elétrico do Bloco do Grito Bloco do Beijo Elétrico Bloco da Praia

Bloco do Pirulito Bloco Chama o Síndico Bloco do Moreré Bloco Cães de Alfama Beijo Elétrico Bloco Empresta 10 Então, Brilha! Bloco da Praia Bloco do Apporoch Bloco De Qué-Qué

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Bloco do Queixinho

Bloco Passa na Matéria

Tico Tico Serra Copo

Bloco Golo - Pré-carnaval do Santa Inês

Batiza esse Nenê

Bloco Estabeleça

Alcova Libertina

Bloco Pop Corn

Bloco Coletivo do Delírio

Bloco Pirulito

Liberdade ainda que agora

Bloco Rola Moça

Bloco do Grito

Bloco Moreré

Bloco Genoveva

Bloco Tchanzinho Zona Norte

Bloco Corte Devassa

Bloco Beijo Elétrico

Os Filhos de Tcha Tcha

Bloco Tô de Bôa! Arreda aí!

Unidos do Barro Preto

Então, Brilha!

Bloco do Manjericão

Bloco da Praia

Vira o Santo

Bloco Approach

Bloco Pula Catraca

Bloco De “Seu Bento” à “Dona Lúcia”

2013 Mamá na Vaca Bloco Caricato Acadêmicos da Vila Estrela Bloco Trema na Lingüiça Bloco AVAM Folia Bloco O Gato da Madrugada Bloco Cai & Çara Bloco Duro Bloco Carne de Lata Bloco Peruca Bloco A Santê e o Os Inocentes Bloco Sarava Bloco Pão Molhado

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Bloco Cacete de Agulha Bloco Esquina Alcova Libertina Bloco Du Seu Pai e Filhas de Gaby Bloco Batiza Baianas Ozadas! Bloco João Careca Unidos do Barro Preto Os Filhos de Tcha Tcha Bloco Corte Devassa Bloco Bom Bloquiu Bloco Coletivo do Delírio Bloco SBC (Samba, Bobagem e Cerveja) Bloco Não Bloco


Pena de Pavão de Krishna

Grupo dos dados e dadas

Tico Tico Serra Copo

Enche Meu Copo

Bloco do Queixinho

Bloco do Boto de Santê

Bloco do Manjericão

A Transferência do Interior para a Cidade

Bloco 2 lá 2 cá

Grande

Bloco Pula Catraca

Bloco Impresta 10

Bloco Me Lambe

Bloquim du Bem

2014 Mamá na Vaca Bloco Tô de boa, arreda aí Cidade Love De seu Bento à dona Lúcia Bloco du seu pai e as filhas de Gaby Perigosas da Centro-Sul Pavão Misterioso Jângaleiros Bloco do Approach Bloco da Calixto Bloco das Esquinas Magia Negra Mary in Hell Lavô tá novo Bloco do Zé Rabugento Bloco Saravá Barba, cabelo e bigode Bem te viu, bem te vê Veludo

Debaixo da saia da vovó só não vai quem já morreu Circuito SoundSystem Quem não se comunica se trumbica Tambor Mineiro Só Frituras Pura Pedreiragem Bloco do Csamba Bloco do Batiza Bloco da Esquina Santa Tereza Ordináááários! Nas Entrelinhas - quem disse que o Brasil não lê? Genoveva Papuda Fúnebre Cai e Pira Afoxé Bandareré Veludo Então, Brilha! Bloco da Praia Os Filhos de Tcha Tcha

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Tico Tico Serra Copo Trovão das Minas

Beagá

Blocos das Fofoqueiras

Bloco dos Valetes

Bom Bloquiu

Bloco Camafeu, Bloco Odara, Bloco Fita

Força na Peruca

Amarela e Chico Amaral

Arruaceiros

Bloco da Dalva

Bloco dos Bateras

Mamá na Vaca

Baianas Ozadas!

Bloco do Toninho

Pena de Pavão de Krishna

Bróquio do Xai Xa

SBC - Samba, Bobagem e Cerveja

Bloco Deixa Falar

Let’s go

Atrás do Acarajé

Maria Baderna

Blocão Animalle Mundo Pet

Magnólia

Acabou a Brincadeira

A Santê e os Inocentes

Fera Neném

Baque de Mina

Diz, que me ama, pô

Bloco do Manjericão

Bloco da Peruca

Alcova Libertina

Bloco Vexame

Bloco do Peixoto

Tá Mole Mais é Meu

Bloco do Queixinho

Bloco do Golo

Saidera

Bloco do Padreco

Bloco Tarifa Zero

Bloco do Feijão e do Paixão

Bloco Pula Catraca

Energia na Folia

Bloco Me Lambe

Bloco do Bando

2015 Tô Aflito Diz, que me ama, pô Trema na Linguiça

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Bloco Santo Bando Bloquinho Bloco Cai & Çara Bloco do C.S.H


Zen Noção

Macaia

Bloco Bateria Imperador e Cavaleiros

Mocidade Dependente de Deus

de Jorge

Concentração: a partir das 13h

Não Põe no Meu

Rua Manoel Macedo, 360 – Igreja Batista

Bloco Faz Vergonha

da Lagoinha – São Cristóvão

Imagina que…

Beijo Grego

Bloco Camafeu, Bloco Odara, Bloco

Bloco Fúnebre

Fita Amarela e Chico Amaral

Sexta Ninguém Sabe

Bloco do Coreto do Alípio de Melo

Tira o Queijo

Trio Elétrico Fepê & Amigos

Então, Brilha!

Bloco das Deslumbradas

Bloco da Praia

Padecendo na Folia

Bloco Muringueiro

Bloco do Pão Molhado

Bloco Rei

Bloco Pé de Canna Serra

Diz, que me ama, pô

Bloco Show

Bloco Afro Fala Tambor e as Sambadeiras

Bloco Bundeirantes

Bloco da Calixto

Bloco Carnavalesco As Virgens do

Dragão da Vila São Jorge

Formigueiro Quente

Quem Não se Comunica, se Trumbica!

Me beija que eu sou pagodeiro

Afoxé Bandarerê

Perereca Assanhada, Assanhada mas

Mocidade Dependentes de Deus

de família!!

Beagá

Bloco da Praça Cairo

Bloco do Csamba!

Bloco do Chapéu

Daqui nóis num arrada o pé

Bloco do Feijão e do Paixão

De Seu Bento à Dona Lúcia

Barimbar

Narcosados

Bloco Estabeleça

Toco Crú pegando fogo

Mocidade Independente Amigos do

Bloco da Língua

Aglomerado da Serra

Bloco Real

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Bloco Du Seu Pai e Filhas de Gaby

Fita AMarela e Chico Amaral

Bloco Camafeu, Bloco Odara, Bloco

Grupo dos Dados e Dadas

Fita AMarela e Chico

Bloco do Queixinho

Tico Tico Serra Copo

Bloco do Peixoto

Pena de Pavão de Krishna

Bloco Seu Vizinho

Bloco da Capoeira

Bloco do Muringueiro

Bloquim Dubem

Trovão das Minas

Bloco Muringueiro

Bloco das Primas

Bloco Dazíndias

Vai Tomar no Cooler

Bloco Receba a Galinha Pilando

Baianas Ozadas

Bloco das Primas

Mocidade Dependente de Deus

Só Frituras

Beagá

Ordináááários

Daqui Nóis Num Arreda o Pé

Mocidade Dependente de Deus

Bloco do João Careca

0s Filhos de Tcha Tcha Tcha

Alcova Libertina

Baianeiros

Bloco Muringueiro

Jângalovers

Bloco Magnólia

Bloco Oficina Tambolelê

Bloco Pescoção

Bloco dos Magnatas

SBC Coletivo

Daqui nóis num arreda o pé

Beagá

Toco Crú Pegando Fogo

Bloquim Dubem

Bloco dos Valetes

Bloco dos Magnatas

Bloco dos Carecas

Bloco Enche Meu Copo

Bloco Enche Meu Copo

Bloco Camafeu, Bloco Odara, Bloco Fita

Bloco Real

AMarela e Chico Amaral

Conexão Tribal

Pisa na Fulô

Macaia

Aloprado

Bloco Camafeu, Bloco Odara, Bloco

Bloco Dois Lá Dois Cá


notas sobre as autoras 341341


Camila Coeli nasceu em Belo Horizonte no dia 14 de junho de 88. Cresceu no Bairro Palmeiras, zona oeste da capital, e sempre foi muito apaixonada por Carnaval. Esperava, todos os anos, pela tradição carnavalesca de sua família: frequentar os bailes regionais da prefeitura e a matinê do Clube Colina, nos quais ia sempre com fantasias confeccionadas por sua mãe. Acompanhava os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e sonhando alto, aos cinco anos, escreveu uma carta para Dona Ivone Lara pedindo para desfilar como rainha de bateria da Mangueira. Embora não tenha recebido uma resposta até hoje, a combinação do verde e rosa ainda a emociona. Ela não chegou à Sapucaí, mas sambou bastante na Afonso Pena, sendo primeira passista da Mocidade Unida de Vera Cruz em 1999 e porta bandeira nos dois anos seguintes. Mãe do Gabriel, quase jornalista, produtora e hiperativa, ela ainda busca seu lugar no mundo, mas aos 27 anos não abre mão de improvisar suas fantasias e pôr a cara no sol do Carnaval de BH.

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Fernanda Lacotix de Ávila nasceu no dia 30 de dezembro de 1993 em Curitiba, já morou em Porto Alegre, São José do Rio Preto e agora reside em Belo Horizonte por mais de dez anos. Acredita que todas as mudanças em sua vida fizeram com que ela amadurecesse de forma sem igual. É formanda em Comunicação Social, com ênfase em jornalismo, pela UFMG. O curso abriu ainda mais sua cabeça e fez com que ela aprendesse coisas inimagináveis, principalmente pessoas, culturais e sociais. É apaixonada por música, cinema, cultura, amor, comida, sua cama e pelo carnaval. Frequenta o carnaval de Belo Horizonte desde 2013 e desde então não arreda mais o pé. Lá conheceu várias pessoas especiais e o amor de sua vida, que desde então vem carnavalizando os seus dias. Além de tudo, o carnaval fez com que ela percebesse que quando unimos forças, somos mais fortes e que nada nesse mundo é impossível se houver luta. Avante, sempre!

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Melissa Ribeiro acreditou um dia em seu amor pela escrita e dali em diante rascunhou um caminho entre a faculdade de Jornalismo e o curso de Engenharia Civil. Aos vinte e um anos está prestes a se tornar a recém-jornalista mais inexperiente de todos os tempos, todavia, carrega no olhar a mesma paixão louca desenfreada pela profissão que sempre admirou. Nascida entre as montanhas mineiras, acostumou-se a dizer que sua carne não é de carnaval, mas entregou a ele seu coração quando caiu de paraquedas no Bairro Santa Tereza em 2013. Foi ali que percebeu a potencialidade da folia belohorizontina. Era sua primeira experiência carnavalesca, ainda assim, algo dizia que aquilo não poderia ser visto em outro lugar do Brasil. Pouco depois, ao encontrar os conterrâneos despidos de pudor e armados de união em seus trajes de banho na Praia da Estação, teve certeza. O Carnaval de Belo Horizonte não pode ser visto de fora, não é um evento a se comparecer, ele precisa ser vivido, experimentado, celebrado em sua constante dinâmica de construção.

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Naiara Rodrigues Rocha é jornalista, nasceu no dia 13 de maio de 1993 e cresceu ouvindo que BH não tinha carnaval. Tirando os trabalhos escolares anuais sobre a festa (em que copiava sempre o mesmo texto da Barsa e fazia relatório sobre as escolas de samba campeãs do Rio de Janeiro), só tinha vivido a experiência de carnaval na infância, quando foi algumas vezes foi para Sabará com os pais. Na adolescência conheceu o carnaval de Prados, no interior de Minas. Passou o de 2012 em Diamantina. Começou a participar do carnaval de BH em 2013 quando, a partir de então, brincou no Peixoto, nadou nas águas refrescantes da praia, brilhou como um farol em frente ao Hotel Brilhante, descobriu a cidade com o vôo do Tico Tico, chamou o síndico depois de mamar na vaca, se pintou de Filhotenho e saiu fantasiada de camarão no Bloco do Tcha Tcha. Aprendeu amar cada rua e praça da cidade em que passou, fez amigos e amores. Desde então sofre de depressão nas segundas-feiras depois do Vira o Santo.

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Referências Bibliográficas ARQUIVO PÚBLICO. Compilação das notícias sobre o Carnaval 1980 2015. BARRETO, A. O primeiro carnaval de Belo Horizonte. Minas Gerais, Belo Horizonte, 1929BELOTUR. Relatório dos carnavais de Belo Horizonte desde 1980. FIGUEIREDO, H. Glórias, conquistas, perdas e disputas: as muitas máscaras dos carnavais de rua em Belo Horizonte (1899 1936). UFMG, abril, 2006. MUSEU HISTÓRICO ABÍLIO BARRETO. Compilação das notícias sobre o Carnaval 1986 - 2015. TEIXEIRA, C. A. Pernas Pro Ar Que Ninguem E De Ferro!!! Lembranças Da Banda. Belo Horizonte, 2005, Historiarte. Carnaval de Rua de Belo Horizonte 2011: programação e marchinhas. Realização: carnaval de rua bh: www.facebook.com/carnavalderuaBH. Sites Carnaval de Belô. Disponível em: <http://carnavaldebelo. no.comunidades.net/sobre-o-carnaval-de-bh>. Acesso em: Julho de 2015. O Carnaval de Belo Horizonte. Disponível em: <http://www.carnavaldebelohorizonte.com.br>. Acesso em: Agosto de 2015. Prefeitura de Belo Horizonte. Disponível em: <http://portalpbh.pbh. gov.br/pbh/ecp/contents.do?evento=conteudo&idConteudo=44426&c

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hPlc=44426>. Acesso em: Agosto de 2015. O CORTEJO ERRANTE. Texto de Roberto Andrés. Disponível em: <http://piseagrama.org/o-cortejo-errante/>. Acesso em: Agosto de 2015. Deita no Cimento. Por: Vinyl Land Records. Disponível em: <https:// soundcloud.com/vinyl-land-records>. Acesso em: Setembro de 2015.

Pessoas ouvidas Carlos Magno Mendonça Donelisa da Velha Guarda do Samba Elisa Marques Flora Rajão Glauco Gonçalves Gustavo Caetano Guto Borges Humberto Mundim Janaína Macruz Nian Pissolati Rafael Barros Roberto Andrés

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