Mosaiko
inform
Nº 09 Dezembro 2010 Informação sobre Direitos Humanos e o trabalho do Centro Cultural Mosaiko Edição trimestral F Distribuição gratuita
D i reitos Humano s na
Entrevista Padre Augusto Farias pág. 13
“Enquanto houver gente acima da lei e Tribunais sujeitos ao Poder administrativo, nunca conseguiremos
Figura em
alcançar um nível acei-
destaque
tável de respeito pelos Direitos Humanos.” Ainda nesta edição
pág. 9
“O Yove veio para nos unir”
Dom José Manuel Imbamba pág. 8
editorial ÍNDICE A enunciação é uma condição indispensável para o reconhecimento, o respeito e a exigência dos Direitos Humanos. Mas não basta que tais
Editorial ...........................................................02 José Sebastião Manuel, op
direitos sejam enunciados. É necessário que sejam criados mecanismos e garantias de sua efectivação. Mas não basta que existam tais mecanismos e garantias em teoria, na lei. É necessário que sejam efectivamente realizados, funcionais. Assim, de facto, os meus Direitos Humanos só
Informando O estado dos Direitos Humanos na SADC ..03 Pe. Jacinto Pio Wacussanga Estórias da História
existem, isto é, só são efectivos, enquanto não forem violados nem por
Carta Africana dos Direitos Humanos
acção nem por omissão. Mas, por outro lado, só são efectivos enquanto
e dos Povos .....................................07
eu estiver seguro e livre do medo de que eles não serão violados. Contudo, sucede que, infelizmente, entre os humanos – e quão não é entre os angolanos – a realização efectiva, a não violação nem por acção nem
Lima de Oliveira Figura em destaque Dom José Manuel Imbamba ....................... 08 Centro Cultural Mosaiko
por omissão, dos Direitos Humanos não vêm trazidas como prendas em bandejas. Em tudo, rigorosamente em tudo, são fruto de muito e árduo trabalho, algumas vezes marcado de desprezo não já dos inveterados prevaricadores – agentes do Estado fazendo uso desviado do seu poder – mas, sobretudo, de gente de quem se esperaria solidariedade, com expressões
Construindo “ O YOVE veio para nos unir” ......................09 Barros Manuel Entrevista com Pe. Augusto Farias .................................. 13
como “não vais mudar nada. Este mundo, que está irremediavelmente estragado, começou antes de ti e vai continuar depois de ti. Tu e o que fazes não passam de uma ilusão”. Não fora o trabalho desgastante e persistente de muita gente, muita dela fora dos palcos criados pelos meios de comunicação social, tudo estaria pior. A presente edição do Mosaiko Inform apresenta-te algumas dessas pessoas, cujo trabalho deve ser merecedor
Mónica Guedes Reflectindo Revisão Periódica Universal: uma reflexão sobre o processo de reforma
da ONU e a RPU em Angola ............... 16 Emílio José Manuel
Breves ............................................................ 20
do teu apreço e da tua solidariedade. Em parte, o que usufruis é resultado do seu trabalho anónimo e continuado. José Sebastião Manuel, op
2
Mosaiko inform
Informando O estado dos Direitos Humanos na SADC A Comunidade de Desenvolvimento da
moverem as barreiras para o investimento e
África Austral é composta por 15 Estados-
a capacidade associativa transfronteiriça dos
membros (apesar da suspensão temporária
trabalhadores. Foca igualmente a necessidade
de Madagáscar) , fundada oficialmente pelo
de se harmonizarem as políticas de trabalho e
Tratado da SADC assinado em 1992 em Win-
remuneração, a nível de cada um dos países
dhoek. Fundada primariamente numa base de
membros.
1
cooperação estratégica, antecedida e marcada
Outro instrumento dos Direitos Humanos é
pela luta contra a África do Sul sob o regime do
a Declaração sobre Género e Desenvolvimento
apartheid, a SADC evoluiu para um organismo
que coloca ênfase na desigualdade real entre
com uma clara estratégia de orientação para
o homem e a mulher em muitos países mem-
o desenvolvimento regional 2 .
bros. O ponto de partida da Declaração radica
Falar de Direitos Humanos na região da
na igualdade entre o homem e a mulher, con-
África Austral é ambíguo, com práticas contra-
sagrada nos documentos da ONU, sobretudo
ditórias que variam de país para país. Eventual-
na Convenção da ONU sobre a Eliminação de
mente, dentro do mesmo país, não existe uma
Todas as formas de Discriminação contra a
abordagem equilibrada e harmonizada entre os
Mulher (CEDAW) 3 . Todos os países da SADC
vários tipos de Direitos Humanos, catalogados
ou já assinaram e ratificaram esta convenção,
tradicionalmente no paradigma de direitos
ou estão em vias de o fazer.
civis e políticos, direitos económicos, sociais
No entanto, os mecanismos estabelecidos
e culturais, direitos ambientais e direitos à
para a integração do género no combate à
transparência nos assuntos públicos.
pobreza, na afirmação dos direitos e no desen-
Definindo “Direitos Humanos na SADC”
e aleatórios ao nível doméstico de cada país, contextos de desigualdade entre países com elevado capital humano e recursos naturais e
internacionais e africanos (com especial re-
outros países com escassos recursos naturais
levância para a Carta Africana dos Direitos
e pobres em capital humano.
cujo foco principal é sobre as relações justas
Segurança na SADC e Direitos Humanos
no trabalho dentro da região. Esta carta foca
“A Segurança Humana é alcançada quando e
de forma especial, a necessidade de se re-
Nº 09 / Dezembro 2010
2
SADC, Towards the Southern African Development Community, a Declaration by the Heads of State and Government of Southern African states, in SADC, citado por Kaime, Thoko, SADC and Human Security, Fitting Human Rights into the Trade Matrix, p 2.
3
Declaration on Gender and Development.
sem mecanismos de revisão, sem se olvidar os
Africana, a SADC traduziu os instrumentos
dos Direitos Sociais Fundamentais da SADC
Madagáscar foi suspenso da SADC depois do golpe de estado liderado pelo antigo major de Antananarivo Andry Rajoelina (Vide From Wikipedia, the free encyclopedia, in http://en.wikipedia. org/wiki/Southern_African_Development_Community#Member_states
volvimento sustentável são ainda muito fracos
Como parte do sistema regional da União
Humanos e dos Povos). Dai, a chamada Carta
1
onde indivíduos e comunidades têm opções
3
o d n a m r o f in necessárias para acabar, mitigar, ou adaptar-
do governo e do fim da guerra civil na gene-
se às ameaças contra os seus Direitos Huma-
ralidade, não houve uma reforma estrutural
nos, ambientais e sociais; e têm a capacidade
do sector de segurança. Podemos apontar os
e a liberdade para exercer essas opções e
seguintes motivos: guerra de baixa intensidade
participarem activamente no processo de con-
entre a guerrilha da província de Cabinda e as
secução dessas opções” 4
Forças governamentais, o alto teor de inter-
A abordagem do conceito
venção militar que só recentemente terminou
de segurança holística é chave
e ainda tem forças em território congolês, os
para o desenvolvimento inte-
reiterados abusos de polícias contra os civis,
gral, criando-se o ambiente
as denúncias de organismos internacionais de
propício para a observância
constantes violações sexuais contra as mulhe-
dos Direitos Humanos, o for-
res congolesas nas províncias das Lundas, bem
talecimento das estruturas
como os maus tratos aos estrangeiros junto às
democráticas e do primado da
zonas de garimpo no leste do país.
lei, bem como a gestão transparente dos recursos naturais. As diversas componentes, no novo conceito de segurança, baseiam-se na soberania do povo e não de um
4
5
Lonergan, Steven, cited by Weissberg, Matthew, Conceptualising Human Security, p.5, in http://www.american.edu/ sis/students/sword/Back_Issues/1.pdf United Nations Development Programme, Human Development Report 1994, p. 24 -25.
http:hdr.undp.org/reports/global/1994/ en, citado por Balule, Badala Tachilisa, The Legal Environment of SADC-Civil Society Interaction in Pursuance of Human Security.
Direitos económicos, sociais e culturais e a gestão dos recursos
grupo ou oligarquia. O conceito de segurança
Na maior parte dos países da SADC existe,
passou do estágio de estato-cêntrico, espe-
mesmo de forma incipiente, o exercício da de-
cialmente depois da II Guerra Mundial até ao
mocracia, ao contrário de antes dos anos 90.
auge da Guerra Fria, para aquele centrado nas
No entanto, nem sempre existe a interligação
necessidades e capacidades humanas. Assim,
entre o exercício do voto como opção por um
a soberania e a defesa de uma nação, não se
projecto económico, social e cultural e a sua
baseiam mais, do ponto de vista de Estado,
implementação. A ligação entre os direitos
no aparato militar e de segurança baseada
económicos, sociais e culturais e a segurança
em meios de defesa preventiva e persuasiva,
humana é resumida na definição apresenta-
mas sim no desenvolvimento e na criação da
da pelo PNUD sobre o aspecto: segurança
segurança humana. Tal é relevante porque a
económica, segurança alimentar, segurança
maior parte dos países que saiu da guerra civil
de saúde, segurança ambiental, segurança
ou dos chamados conflitos domésticos para a
pessoal, segurança comunitária e segurança
gradual estabilização enfrentam como área fo-
política. 5
cal de violação dos Direitos Humanos, o sector
A maior parte dos países da África Austral
da segurança (militares, paramilitares, polícia,
está dotada de recursos naturais, mas é igual-
milícias armadas, população armada).
mente o lugar onde existe uma abjecta pobreza
Os estudos sobre Angola, enquanto país
e uma elevada incapacidade de serviços ao
pós-conflito, são omissos. No entanto, são
cidadão. As razões do contraste entre rique-
muitos os indicadores de que, apesar do desar-
za natural abundante e pobreza elevada são
mamento, desmobilização e reintegração das
complexas de explicar, mas de acordo com os
forças militares da UNITA dentro da estrutura
economistas, tal tem a ver com a excessiva
4
Mosaiko inform
informando dependência dos recursos naturais como fonte
Unidas, especialmente através do mecanismo
primordial de renda nacional, minimizando-se
de Revisão Periódica Universal, sobre todas as
a produção interna e a criação de mecanis-
violações dos Direitos Humanos, bem como so-
mos que levem à sustentabilidade 6 . Mas para
bre os mecanismos da institucionalização dos
além disso, o patrimonialismo, a corrupção, o
vários tipos de direitos dentro das estruturas
enriquecimento fácil e o clientelismo são fe-
regionais da SADC e dos países membros.
nómenos igualmente associados a economias de recursos naturais, o que aumenta de forma desproporcionada a dependência e a profunda pobreza. A economia dos recursos naturais é
O Tribunal da SADC e seu papel no reforço dos Direitos Humanos
dominada pelas elites que manipulam as ren-
O Tribunal da SADC foi estabelecido em
das, com uma má distribuição dos serviços.
1992, pelo Artigo n.9 do Tratado da SADC,
Os recursos naturais mais salientes e que
como uma das instituições da organização;
se enquadram nesta categoria são o cobre, o
os seus membros foram em-
petróleo, os diamantes, a madeira, o coltan.
possados somente em No-
O modo como os recursos são canalizados
vembro de 2005. A sede
afecta gravemente o cumprimento dos direitos
está em Windhoek,
económicos, sociais e culturais, com um en-
trabalhando em três
gajamento muitas vezes fraco dos actores da
línguas: inglês, por-
sociedade civil no sentido da transparência e
tuguês e francês.
da responsabilidade corporativa das empresas
O Artigo 17, 2, do
exploradoras e do próprio Estado influenciado
Tr a t a d o d a S A D C
pelas elites.
prevê que para as-
Mecanismos de cumprimento dos Direitos Humanos Existem alguns mecanismos muito limitados
segurar a sua independência, os seus membros serão guiados na sua acção somente pelo Tratado da SADC e não
para levar os países da SADC ao cumprimento
deverão receber orientações
dos Direitos Humanos.
Estado Membro ou outra autoridade externa
Para além do Secretariado que executa as deliberações, não existe, de forma explícita, um
de nenhum
qualquer. O Tribunal é uma instância de recurso quando não são possíveis outras vias.
órgão, paralelo à Comissão Africana dos Direi-
Em Junho de 2010, o Tribunal foi suspenso
tos Humanos e dos Povos que se encarregue de
pelos Chefes de Estado para ser revista a sua
monitorar e assegurar o cumprimento da parte
legislação. Tal foi visto como um golpe contra a
dos estados, da agenda dos Direitos Humanos.
independência e a democracia, pois representa
Este órgão seria encarregado de monitorar,
um retrocesso no progresso de litigação ao
em conjunto com a União Africana e com o
nível da SADC.
Conselho dos Direitos Humanos das Nações
Nº 09 / Dezembro 2010
5
6
Este fenómeno é referido como sendo a “doença holandesa” visto que foi na Holanda onde tal se manifestou depois da descoberta do petróleo nos anos 60. Vide Standing, André & van Vuuren, Hennie, Quem Amaldiçoou os Recursos Naturais na África Austral? P.8, in OPENSPACE, Extracção de Recursos e Transparência, Volu.1, N.4, Junho de 2006.
o d n a m infor A África Austral tem o maior potencial em
CONCLUSÃO A primeira constatação é a de que não existe, no quadro das estruturas da SADC, um órgão directamente encarregado para monitorar os Direitos Humanos nos países membros. No entanto, existem flagrantes contradições entre os mesmos países. Se no Congo, por exemplo, existem sérias violações, por outro lado existem países, como as Ilhas Maurícias, que são o exemplo do respeito pelos cidadãos, do primado da lei. Os instrumentos existentes que se referem
termos de recursos naturais, mas é paradoxalmente um dos lugares com o maior índice de pobreza em África. Para além da dependência de receitas de recursos (fenómeno chamado de “doença holandesa”), o clientelismo, o lucro fácil e a cultura de pouca transparência criam problemas sérios na observância dos direitos económicos, sociais e culturais. Quanto aos mecanismos de monitoria e implementação de Direitos Humanos, não existem de forma rigorosa. O Secretariado da SADC é um organismo executivo, que
de forma explícita ou implícita aos
recebe informações e não tem
Direitos Humanos (Carta dos
o mandato de abordar os
Direitos Sociais Fun-
desafios dos Direitos
damentais da SADC,
Humanos. O Tribunal
Declaração sobre
da SADC, depois
Género e Desenvol-
de inaugurado em
vimento, etc.) são
2006, está neste
conceptualmente
momento suspen-
incompletos e pra-
so para se rever a
ticamente desajusta-
sua legislação, o que
dos na abordagem glo-
leva os observadores
bal e holística da comple-
“não existe, no quadro das estruturas da SADC, um órgão directamente encar regado para monitorar os Direitos Humanos nos países membros.”
a serem críticos quanto à
xidade dos Direitos Humanos, tal como são definidos e articulados por sistemas globais e regionais. Além disso, muitos países continuam a primar por uma governação e relação internacional baseada no modelo estato-cêntrico, onde a protecção dos interesses das elites que governam tem primazia sobre a segurança e o bem-estar do povo. Esta distorção conceptual e prática tem efeitos nocivos na observância dos Direitos Humanos, sobretudo quando estão em causa os interesses das elites.
duvidosa independência entre os Estados da SADC e a respectiva instância. Muito tem de ser feito na área dos Direitos Humanos ao nível da SADC, desde os aspectos conceptuais (definição e institucionalizaçao de instrumentos legais) à monitoria e acompanhamento de áreas e componentes sensíveis de Direitos Humanos. Eventualmente, uma mobilização da sociedade civil é crucial para que tais mecanismos sejam considerados pelos líderes de Estado e de governo da SADC. Pe. Jacinto Pio Wacussanga
6
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estórias da História Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos A Carta Africana dos Direitos do Homem e dos
a Convenção da União Africana sobre a Prevenção
Povos é o conjunto de regras, denominadas arti-
e o Combate contra a Corrupção (2003); e o Proto-
gos, que garantem os Direitos Humanos e Liber-
colo à Carta Africana dos Direitos Humanos e dos
dades Fundamentais da Pessoa Humana, inclusi-
Povos sobre os Direitos da Mulher em África, que
ve certos Direitos dos Povos. É também conhecida
entrou em vigor em Novembro de 2005.
como um tratado regional de Direitos Humanos, à
Desde a sua entrada em vigor, todos os Esta-
semelhança da Convenção Europeia dos Direitos
dos-membro da actual União Africana promete-
Humanos e da Convenção Americana dos Direitos
ram respeitar os direitos e liberdades garantidos
Humanos. Todos fazem referência à Declaração
na Carta. Para fiscalizar o cumprimento do seu
Universal dos Direitos Humanos, publicada em
conteúdo, foi criada a Comissão Africana, com a
Dezembro de 1948.
missão de emitir recomendações devidas aos Es-
O que influenciou a elaboração da Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos foi a
tados Partes – que são muitas vezes ignoradas pelos seus governos.
realização de diversas conferências, nas décadas
A Comissão Africana, de facto, não é um órgão
de 1960 e 1970, pelas Nações Unidas, Governos
judicial e, por isso, muitos peritos apelaram para
africanos (já independentes do colonialismo euro-
a criação de um Tribunal Africano dos Direitos Hu-
peu) e Organizações Não Governamentais. O ob-
manos e dos Povos. Em Junho de 1998, a então
jectivo destas conferências era apresentar ideias
OUA adoptou um protocolo que tem como objecti-
para projectar um sistema regional africano que
vo o estabelecimento deste Tribunal.
promovesse e protegesse os Direitos Humanos e
O Tribunal tem a função de complementar e re-
liberdades fundamentais à luz das normas inter-
forçar o trabalho da Comissão Africana e apreciar
nacionais.
casos de violação de Direitos Humanos apresen-
No começo da década de 1980, a então Organi-
tados pela Comissão, pelos Estados e, em alguns
zação de Unidade Africana (OUA) adoptou o pro-
casos, directamente pelas próprias vítimas ou pe-
jecto da Carta Africana como instrumento legal que
los seus representantes, incluindo as associações
vincularia a todos os Estados Partes. No dia 27 de
e ONG`s.
Junho de 1981, os Chefes de Estado e de Governo
Apesar disso, subsistem enormes desafios no
africanos, reunidos em cimeira no Quénia, apro-
tocante ao cumprimento do que está escrito na
varam por unanimidade o instrumento que adop-
Carta, porque se assiste ainda a muitas violações
taram por Carta Africana dos Direitos Humanos e
dos Direitos Humanos na maioria dos Estados
dos Povos. A mesma só entrou em vigor em 1986,
Partes.
isto é, cinco anos depois da sua adopção.
Só a boa-vontade dos próprios signatários é
De lá para cá, foram adoptados vários protoco-
que poderá ditar o sucesso do seu cumprimento,
los para alargar os direitos específicos garantidos
porque todos os meios de garantia dos Direitos
pela Carta Africana, nomeadamente: a Carta Afri-
Humanos são públicos e a ninguém é autorizado
cana dos Direitos do Bem-estar da Criança (1999);
fazer justiça por mãos próprias. Lima de Oliveira
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e u q a t s De
m e a r u Fi g
Dom José Manuel Imbamba Ficha Técnica Mosaiko Inform Propriedade Centro Cultural Mosaiko NIF: 7405000860 Nº registo MCS-492/B/2008
José Manuel Imbamba nasceu a 7 de Janeiro de
tífico da UNESCO para o Diálogo Inter-Regional de
1965, na localidade de Boma, Lwena-Moxico. É filho
Filosofia e desde 2008 da Revista Religiões e Estudos
de Moisé José Massanga e de Maria Satembo.
do Ministério da Cultura da República de Angola.
Fez os seus estudos primários em Lwena e a partir
D. José Manuel Imbamba é autor do livro “Uma
de 1979 começou a sua caminhada vocacional, tendo
Nova Cultura para Mulheres e Homens Novos”. A
partido, nesse mesmo ano, para o Seminário Menor
obra, lançada em 2003, é dedicada “ao povo angola-
de Malanje, onde frequentou o ensino secundário.
no, cuja dignidade continua a ser pisada e esvaziada
Redacção Belarmino Márcio Cardoso Fernando da Silva Florência Chimuando Júlio Candeeiro, op Mónica Guedes
Em 1982 foi transferido para o Seminário Maior
de valor, e a todos aqueles que se batem por uma
de Luanda, onde frequentou o ensino médio, no fim
cultura da paz, da palavra, do amor, da verdade e do
do qual foi transferido para o Seminário Maior do Uíje,
desenvolvimento integral”.
Colaboradores: Barros Manuel Dom José Manuel Imbamba Emílio José Manuel Lima de Oliveira Pe. Jacinto Pio Wacussanga Técnico Gráfico Gabriel Kahenjengo Contactos Centro Cultural Mosaiko Bairro da Estalagem Km 12 - Viana Caixa Postal 6945 C Luanda - Angola Telefones 923 543 546 / 912 508 604 Endereço electrónico minform@mosaiko.op.org Sítio na internet http://mosaiko.op.org Impressão Indugráfica, Lda Fátima - Portugal Tiragem: 2 500 exemplares DISTRIBUIÇÃO GRATUITA
onde frequentou o curso de Filosofia.
Convidado a intervir durante a III Semana Social
Em 1987 regressou ao Seminário Maior de Lu-
Nacional (uma iniciativa da CEAST e organizada pelo
anda, frequentando o curso de Teologia. Terminou
Centro Cultural Mosaiko), que decorreu de 6 a 10 de
os estudos com êxito em 1991, ano em que foi or-
Fevereiro de 2007, José Manuel Imbamba tratou da
denado sacerdote na Diocese do Lwena. Aí trabalhou
questão da Justiça Social na Revelação e na Tradi-
como Pároco da Sé Catedral, Delegado Diocesano
ção. Da sua comunicação realçamos a seguinte de-
da CARITAS, foi Director do Secretariado Diocesano
claração “A vida humana é sempre um projecto social
da Pastoral, Vigário Geral da Diocese e professor de
que se deve realizar com o concurso responsável de
Filosofia e Língua Portuguesa no IMNE e IMS, res-
todos, para que possam gozar os mesmos direitos e
pectivamente.
benefícios e cumprir os respectivos deveres. Esta é a
Em 1995 seguiu para Roma, onde se doutorou em
razão de ser da sociedade com as suas leis, institui-
Filosofia, com especialidade em Antropologia Filosófi-
ções e estruturas, que concorrem para o desenvolvi-
ca, na Pontifícia Universidade Urbaniana.
mento e realização de todos os seres humanos (…)”.
De 2001 a 2008 foi Secretário-Geral da Universida-
Actualmente, é Bispo da Diocese de Dundo e Ad-
de Católica de Angola, coordenador das cadeiras Éti-
ministrador Apostólico da Diocese de Saurimo. A nível
cas e professor de Justiça Social nos cursos de Direito,
da CEAST é membro do Conselho Permanente, Dele-
Engenharia Informática, Línguas e Literatura e Psi-
gado da CEAST no SCEAM (Simpósio das Conferên-
cologia Clínica. Foi também professor convidado em
cias Episcopais de África e Madagáscar), Presidente
diversas instituições: na Universidade Agostinho Neto,
da Comissão Episcopal da Comunicação Social.
nos cursos de Mestrado, no ISCED do Lubango, no
Como bispo do Dundo e Administrador Apostólico
Instituto Superior João Paulo II, onde ministrava a ca-
da Diocese de Saurimo bate-se muito pela melhoria
deira de Antropologia Filosófica e Axiologia, no Centro
das condições sociais básicas dos povos daquelas
de Estudos Superiores D. Bosco, onde ministrava a ca-
paragens e contribui, através da sua acção pastoral,
deira de Antropologia Filosófica e no Seminário Maior
para o resgaste de valores numa sociedade onde a
de Luanda, onde ensinava a cadeira de Ontologia.
violência doméstica, o suicídio e o fenómeno “feitiço”
A partir de 2005 até a altura da sua nomeação como Bispo dirigiu o Gabinete de Imprensa da CEAST
contribuem para a degradação das sociedades das Lundas Norte e Sul.
– Conferência Episcopal de Angola e São Tomé. Desde 2006 a 2009 foi membro do Conselho Cien-
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Centro Cultural Mosaiko
Mosaiko inform
Construindo “O Y.O.V.E VEIO PARA NOS UNIR!” Em 2007, os Padres Espiritanos voltaram a
resolução “em conselho” dos problemas econó-
residir na Missão Católica da Ndjinga após 30
micos, sociais e culturais, entre outros, que os
anos de ausência por motivos da guerra fratri-
cidadãos e instituições vão enfrentando nas lo-
cida que assolou o país. A situação encontrada
calidades da região.
naquela região reclamava por uma urgente in-
No primeiro semestre de 2009, o Centro Cul-
tervenção que promovesse a paz e o desenvol-
tural Mosaiko foi solicitado pelo Y.O.V.E para
vimento integral e integrado, na Missão da Nd-
formar 40 activistas em Direitos Humanos, Re-
jinga, em particular, e nos Municípios do Bocoio
solução de Conflitos e Liderança Participativa.
e Balombo. A Missão Católica da Ndjinga, na
Depois daquela formação, em 12 meses de tra-
pessoa do Pe.José Tchivangulula, fez algumas
balho levado a cabo através da divulgação dos
diligências pedindo apoio à CRS (Catholic Relief
Direitos Humanos com palestras, teatros, semi-
Service) e dela recebeu apoio para implementar
nários, sensibilização, acompanhamento e re-
o Projecto que ajudasse naquela região a unir
solução pela mediação de casos de conflitos, o
as pessoas.
projecto começou a consolidar-se administrativa
Este projecto iniciou-se a 30 de Setembro de
e institucionalmente.
2008 e recebeu, sob proposta do Bispo Emérito
No seu trabalho com as comunidades, até fim
da diocese de Benguela, D. Óscar Braga, a de-
de 2009, o projecto Y.O.V.E formou em Direitos
nominação de Projecto “Yakela Otchili, Vindikiya
Humanos, Resolução de Conflitos e Liderança
Esunga”, com a sigla Y.O.V.E.
Participativa cerca de 26.275 mulheres e 21.660
Y.O.V.E, em português, quer dizer “Lutar pela
homens (perfazendo um total de 47.935 pes-
Verdade e proteger a Justiça”. Foi por este facto
soas) entre Administradores Comunais, Rege-
que o projecto definiu como objectivo principal
dores, Sobas, Catequistas, Pastores, membros
“ajudar as pessoas que vivem nas comunidades
de Partidos Políticos, Professores, Enfermei-
rurais dos municípios do Bocoio e do Balombo
ros, mulheres da Promaica, mulheres da OMA,
a conhecerem e defenderem os seus direitos a fim de serem capazes de criar iniciativas locais que contribuam para o desenvolvimento político, económico, social, religioso e cultural das suas comunidades”. (Relatório do Departamento de Justiça e Direitos Humanos do Mosaiko, 2008) O Y.O.V.E. procura, no seu trabalho a nível local, unir, pela mediação, os cidadãos em conflitos, procura propor caminhos para o melhor funcionamento das várias instituições. O Y.O.V.E vai sendo um espaço de auscultação, debate e
Nº 09 / Dezembro 2010
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construindo mulheres da LIMA, jovens da JMPLA, agentes da
mas do incêndio. O caso chegou ao conheci-
Polícia Nacional e militares das Forças Armadas
mento dos activistas do Y.O.V.E que no dia 24
Angolanas.
de Fevereiro acolheram as duas senhoras que
Porque razão o povo dos municípios do Ba-
pediam socorro para serem protegidas porque
lombo e Bocoio diz “o YOVE veio para nos unir”?
corriam o risco de serem massacradas pelo se-
terminou com a
Vamos analisar algumas das razões que estão
nhor, que, desde que queimou a casa, aparecia
detenção do acu-
na base deste elogio:
todos os dias no bairro drogado, bêbado e com
O caso Tchavaia
sado pela Polícia
1) Caso Tchavaia No dia 19 de Fevereiro de 2009, quinta-feira,
e as duas senho-
às 20 horas, ocorreu um incêndio na aldeia da
ras, hoje, vivem
Tchavaia (Missão da Ndjinga) causado por um
em paz. Elas di-
cidadão residente naquela aldeia. O incêndio destruiu totalmente a residência
zem que: «Sem a
de uma senhora, de 59 anos de idade, onde
intervenção dos
ela tinha todos os seus haveres, ficando ela e
activistas do Pro-
a sua filha sem casa, cama, comida e cerca de 50.000,00 Kwanzas.
faca na mão. Os activistas recorreram ao Comandante Municipal da Polícia Nacional do Balombo. O caso terminou com a detenção do acusado pela Polícia e as duas senhoras, hoje, vivem em paz. Elas dizem que: «Sem a intervenção dos activistas do Projecto YOVE não haveria justiça nem viveríamos em paz».
2) Caso de acusação de feitiçaria
A questão complicava-se porque recebia-
No dia 5 de Março de 2009, pelas 8h00, apa-
se informações dos populares daquele bairro
receu no escritório do Y.O.V.E uma senhora de
de que no momento do incêndio recorreu-se ao
50 anos de idade. Expôs o seu problema dizendo
nem viveríamos
Posto Policial do Monte-Belo para participar a
que tinha sido acusada de feiticeira, juntamente
em paz»
ocorrência e não houve nenhuma reacção. Mes-
com o marido e o seu tio de 78 anos de idade. Os
mo assim, a vítima recorreu ao Posto Policial do
populares da aldeia da Tchavaya acusavam-nos
Monte-Belo no dia seguinte (sexta-feira) para
de serem responsáveis pela falta de chuva na
expor o sucedido, mas os agentes da Polícia não
região. Os acusadores convocaram uma reunião
compareceram ao local para fazer o levantamen-
em casa do soba para os devidos esclarecimen-
to dos danos e o suposto autor andava à solta,
tos, mas, faltando provas, o caso não procedeu.
passeava pela vila da Comuna do Monte-Belo,
Mesmo assim, essas pessoas que acusavam
falando convencido de que ninguém o ia prender
não recuaram e continuaram a acusá-los de feiti-
e ainda acrescentava que ia concluir o seu pla-
ceiros. Os acusados sentiam-se envergonhados
no de matar a sua ex-esposa e a ex-sogra, víti-
e abalados psicologicamente com este nome de
jecto YOVE não haveria justiça
feiticeiro que lhes foi imposto. Sendo assim, eles não sabiam como apagar esse nome feio que lhes tinha sido atribuído. Os activistas do Projecto Y.O.V.E organizaram, então, uma sessão sobre Direitos Humanos, Resolução de Conflitos e Liderança Participativa no dia 07 de Março de 2009, onde todos os participantes concluíram que não fazia sentido aquele tipo de atitude e reprovou-se com veemência aquela onda de acusação de pessoas como
10
Mosaiko inform
construindo sendo feiticeiras. A partir daquela data os habi-
propagandas políticas sem causar conflitos nem
tantes da aldeia da Tchavaya pediram desculpas
tumultos. As pessoas dizem «o trabalho dos Di-
públicas à senhora ofendida, fizeram uma espé-
reitos Humanos precisa de ser consolidado para
cie de juramento perante os activistas compro-
continuar a unir-nos».
metendo-se a abandonarem tal prática e decidi-
4) Caso das quatro aldeias
ram aderir logo ao projecto Y.O.V.E. Na aldeia, hoje, reina a harmonia, a amizade, a paz e a união.
3) Caso de agressão física
No dia 14 de de
Setembro 2009,
activistas
os dos
No dia 23 de Março de 2009, pelas 13h35,
Direitos Huma-
apareceu no escritório do Y.O.V.E um cidadão
nos, quando se
de 57 anos de idade. Ele veio expor o problema
encontravam
que se passou com ele, dizendo que tinha sofri-
em
do uma agressão física.
de sensibilização, receberam informação de
actividade
Inquirido sobre quem tinham sido os agres-
que quatro aldeias, nomeadamente Kalonundu,
sores e os motivos da agressão, explicou: “Os
Ngolo I, Ngolo II e Munana apenas viram os pro-
agressores são ambos líderes do Comité do
fessores no momento da matrícula, em Janeiro.
MPLA na Comuna do Tchingongo”. Explicou tam-
Depois, os alunos nunca tinham tido aulas. Os
bém que o seu sobrinho já tinha ido à Polícia
activistas reuniram com os sobas e organizaram
para fazer a queixa, mas aqueles agentes da
algumas aulas de alfabetização para as crianças
Polícia do Posto do Tchingongo não reagiram.
daquelas aldeias enquanto o grupo pressionava
Por isso, acharam por bem aparecer no escritó-
a Repartição Municipal da Educação do Balombo
rio “dos Direitos Humanos” a fim de explicarem
para a regularização da situação daquelas crian-
o sucedido.
ças que ficavam sem aulas. A regularização da
Recebida a informação, naquele mesmo
situação culminou com a substituição de todo o
instante, uma equipa “dos Direitos Humanos”
pessoal que funcionava na repartição municipal.
As pessoas di-
deslocou-se para o Comando da Polícia, con-
Hoje, felizmente, todas aquelas aldeias já têm
tactou imediatamente o Comandante e o Chefe
professores que trabalham com pontualidade e
zem «o trabalho
da Investigação Criminal. Estes declararam que
regularidade.
tinham conhecimento da situação e que iriam resolver o problema segundo a lei. Os activistas fizeram algumas recomendações que levaram o Comandante e o Chefe de Investigação Criminal a chamarem a atenção aos supostos agressores para que a partir dessa data não se verificassem actos do género a serem praticados por eles. O povo comenta que o projecto Y.O.V.E veio para unir as pessoas e ajudar a apagar as mágoas sofridas durante a guerra. Graças às palestras dos activistas, hoje, as pessoas exibem as suas
Nº 09 / Dezembro 2010
5) Casos de saúde a) Na mesma Comuna do Cubal do Lumbo, “os Activistas dos Direitos Humanos” avisaram o Administrador Comunal sobre a crise de cólera que assolava aquela região. Quando tomou conhecimento, o Administrador Comunal, participou o caso à Direcção de Saúde que, além de tomar as devidas medidas de combate, disponibilizou meios de prevenção às populações pondo em vigor medidas de saneamento básico naquelas aldeias, o que permitiu erradicar a epidemia.
11
dos Direitos Humanos precisa de ser consolidado para continuar a unir-nos».
o d n i u r t s n co
Os líderes religiosos e dos partidos políticos mostram-se muito satisfeitos e estimulam o grupo a prosseguir com o
b) Ainda naquela área, na Balança, as
ao senhor que tinha a esposa doente. O caso
mulheres da PROMAICA deram a conhecer aos
foi apresentado aos activistas do Y.O.V.E que,
“Activistas dos Direitos Humanos” que sofriam
por sua vez, o encaminharam às autoridades da
por falta de uma maternidade perto. Os partos
saúde do Município do Bocoio para inspecciona-
eram atendidos por enfermeiros particulares que
rem o funcionamento dos Postos de Saúde pri-
cobravam cinco mil kwanzas quando corria bem
vados que muitas vezes violam os direitos dos
e três mil e quinhento kwanzas quando o parto
cidadãos. A inspecção confirmou que tal Posto
corria mal, isto é, quando a criança morria. As
visava apenas extorquir o dinheiro das pesso-
mulheres da Promaica
as que a ele recorriam,
pediam para que fossem
situação que levou a
respeitados os Direitos
inspecção a tomar dili-
da Mulher. A missão do
gências que terminaram
Bocoio
manifestou-se
com o encerramento de-
sensível com a situação
finitivo do referido Posto
e decidiu construir um
Médico.
posto médico que está a
O
Y.O.V.E,
neste
ser subvencionado pelo
ano, participou da pri-
Estado.
meira fase de formação
c) Um senhor tinha
sobre “os Direitos fun-
a esposa doente. Por
damentais e sua pro-
isso, foram ao Posto de
tecção em Angola”, que
Saúde de um senhor que vive no bairro do Tchi-
decorreu no mês de Maio, em Viana, Luanda.
seu trabalho em
lungu. A esposa fez análise e pagou mil trezen-
O projecto organizou no Balombo um seminário
Direitos Humanos
tos e cinquenta kwanzas. O enfermeiro entregou
sobre a “nova Constituição”, entre outras activi-
apenas o resultado e não quis entregar a receita
dades que visam contribuir de forma directa ou
e obrigou que o
indirecta para a diminuição dos conflitos partidá-
doente se tratas-
rios e até mesmo da violência doméstica e dos
se no seu Posto
conflitos familiares. Os líderes religiosos e dod
de Saúde, pa-
partidos políticos mostram-se muito satisfeitos e
gando mais três
estimulam o grupo a prosseguir com o seu traba-
mil e quinhentos
lho em Direitos Humanos.
kwanzas. Como
O Y.O.V.E vai desempenhando um papel de
a paciente con-
grande relevância a nível local; o projecto trans-
fessou que não
formou-se em Associação com a mesma deno-
tinha tal dinhei-
minação Y.O.V.E. No dia 24 de Outubro de 2009
ro, o enfermeiro
fez-se a proclamação da Associação Y.O.V.E, de
decidiu não en-
âmbito local, na Comuna de Xindumbo. Actual-
tregar a receita
mente, a Associação continua a trabalhar enquanBarros Manuel
12
Mosaiko inform
Entre... As Comissões “Justiça e Paz” existem em Angola e assumem um papel relevante nas comunidades onde estão presentes. É o exemplo da Comissão “Justiça e Paz” da Gabela. Criada em 1996 “a Comissão procurou ao longo destes anos criar nas pessoas e nas comunidades a consciência cívica através do conhecimento dos Direitos, Deveres e Liberdades de todos os cidadãos”. Desde 1999, o Mosaiko tem vindo a facilitar seminários de formação aos membros desta Comissão. Para saber mais sobre o seu percurso, entrevistamos o Padre Farias (PF), que foi responsável pela Comissão durante treze anos.
MI: A Comissão “Justiça e Paz” da Gabela existe desde 1996. Pode contar-nos como é que ela surgiu?
MI: Como avalia a dinâmica dos Direitos Humanos durante e depois da guerra? PF: A paz, só por si, não trouxe a consciên-
PF: A Comissão “Justiça e Paz” começou a ser pen-
cia às pessoas dos seus direitos e liber-
sada a partir dos acontecimentos dolorosos de
dades. Se durante a guerra havia uns
1992, na Gabela, que ensanguentaram esta ci-
atropelos, surgiram outros depois dos
dade e outros municípios do Kuanza Sul. O Pá-
acordos: ajustes de contas, acusações
roco da altura já tinha pensado nalgumas pesso-
de feitiçaria, ameaças de expulsão dos
as e estava a dar a primeira formação. Quando
populares das terras onde habitavam
tomei conta da Paróquia, em Fevereiro de 1995,
por parte dos fazendeiros que compra-
assumi esse compromisso, mas não conhecia
ram essas terras, mas com esse povo
as pessoas. O grupo esteve em formação quase
lá colocado pelo Estado. As mudanças
um ano. Só em 1996 foram escolhidos os ele-
socio-políticas só por si não resolvem
mentos que nos pareceram ter perfil e capaci-
nada enquanto as pessoas não toma-
dade para assumir tão grande responsabilidade
rem consciência da sua dignidade e en-
naquele momento tão melindroso.
contrarem por si ou por outras vias os
MI: Quais são os objectivos da Comissão? PF: Num primeiro momento a Comissão foi constituída para ser sentinela contra os atropelos que se cometiam diariamente pelas tropas de
meios para se defenderem. MI: Qual foi sendo o contributo da Comissão para a promoção dos Direitos Humanos na Gabela?
ambos os lados da guerra e também por gente
PF: Para além de ajudar a resolver situações pon-
que se considerava dona de tudo e de todos.
tuais que nos eram colocadas, a Comissão pro-
Era necessário que se denunciassem situações
curou ao longo destes anos criar nas pessoas
gritantes num tempo em que reinava o medo de
e nas comunidades a consciência cívica atra-
retaliações e vinganças. Numa segunda fase,
vés do conhecimento dos Direitos, Deveres e
alargou-se o âmbito da nossa acção de modo a
Liberdades de todos os cidadãos, e que estão
envolver mais gente tornando as pessoas mais
consignadas na Constituição da República e
conscientes dos seus direitos e deveres e com
nos demais diplomas legais através dos quais
capacidade crítica para intervir nos diversos
se organiza a vida do povo. Todos estes encon-
âmbitos da vida e da sociedade.
tros de formação em seminários, especialmente
Nº 09 / Dezembro 2010
13
vista
vista
entre...
Perfil de Pe. Augusto Farias Natural de Agadão, Portugal. Fez o Curso do Seminário no Instituto Superior de Estudos Eclesiásticos do Porto e Licen-
organizados para isso, eram depois multiplica-
que outras pessoas da Igreja também fossem
dos nas comunidades através dos membros da
formadas para haver uma maior consciência
Comissão que se deslocavam, aos domingos,
cívica colectiva. Como conhecia desde a pri-
com os missionários e aí se reuniam com o
meira hora da sua chegada a Angola, os Fra-
povo. Recordo um desses encontros realizado
des Dominicanos, e os visitava algumas vezes,
numa capela enorme da Igreja Assembleia de
tomei conhecimento directo do seu trabalho de
Deus Pentecostal por duas senhoras da nossa
formação e sensibilização para os Direitos Hu-
Comissão. No final, quando passei para as re-
manos. Depois dum contacto sobre o que era o
colher, esperavam-me alguns fiéis dessa Igreja
Centro Cultural Mosaiko, apresentei numa das
para me agradecer esse ensinamento dado por
reuniões da Comissão a proposta de iniciar uma
elas acerca da obrigação que todo o cidadão
formação mais ampla e consistente. Esta ideia
tem de exercer o seu direito de voto. Foi uma
foi imediatamente acolhida porque as pessoas
grande pregação, diziam eles.
estavam mesmo à espera disso.
MI: Como foi sendo a relação entre a Comissão e as autoridades locais no âmbito dos Direitos Humanos?
MI: Quem eram os participantes dessa formação? PF: Foi muito interessante a nossa caminhada tanto dentro da Comissão como na relação com o
PF: Houve uma grande evolução. Quando iniciámos
Mosaiko. Primeiro pensou-se em ser uma for-
havia suspeita e até ameaças veladas. Quando
mação para membros mais activos da Paróquia.
as pessoas foram chamadas e aceitaram ser
Alguém na Comissão levantou a ideia de alargar
formadas e começaram a conhecer os Direitos
o âmbito a membros de outras Igrejas. Mas foi
Chegou a Angola em 1971,
Humanos e a vantagem da participação activa
a Direcção do Mosaiko que nos sugeriu que fos-
realçando-se as seguintes fun-
dos cidadãos na vida pública, começaram a mu-
se uma formação aberta a líderes de todos os
ções exercidas: Vigário coope-
dar e têm pela Comissão uma grande conside-
serviços municipais e com intervenção pública:
rador na Missão do Dumbi,
ração e pedem a sua colaboração em várias in-
directores de serviços, Polícia, FAA, partidos
Cassongue (4 anos); Director
tervenções do governo local. Hoje, a Comissão
políticos, sobas, associações locais, Igrejas.
do Secretariado Diocesano da
Paroquial “Justiça e Paz” é uma instituição com
Essa sugestão foi bem acolhida pela Comissão
crédito e muito apreciada localmente, embora
porque era isso mesmo que todos queriam, mas
ainda haja gente que mantém reservas porque
não sabiam a quem o Centro destinava essa
tem medo de perder algumas regalias bem sus-
formação.
ciatura em Teologia Pastoral, na Pontificia Universidad de Salamanca.
Pastoral do Sumbe e Pároco de Porto Amboim (8 anos); Pároco da Gabela (14 anos). Actualmente vive no Seminário da Boa Nova, no Bairro da Estalagem, Viana. É respon-
peitas.
MI: Que avaliação faz das instituições de defesa
MI: A partir de quando é que a Comissão começou a solicitar a colaboração do Mosaiko?
dos Direitos Humanos do Estado, nomeadamente a IX Comissão da Assembleia Nacional, a Procuradoria da Justiça e a Procuradoria Ge-
sável pela animação espiritu-
PF: Creio que foi em 1999. A Comissão começava
al do Seminário e é Superior
a dar os seus primeiros passos a partir duma
Regional dos Missionários da
formação inicial ainda muito incipiente. A de-
PF: As instituições não fazem nada. Quem faz ou
Boa Nova em Angola.
manda e sobretudo os desafios começaram a
não são as pessoas que lá trabalham. A Co-
aumentar mas não havia capacitação e matu-
missão Paroquial “Justiça e Paz” da Gabela
ridade para enfrentar certas situações. Depois
tem casos concretos em que recorreu directa-
era importante que esta consciência cívica não
mente à Presidência da Assembleia Nacional,
se ficasse apenas por um pequeno núcleo, mas
ainda não havia a IX Comissão, e foi atendida
14
ral da República?
Mosaiko inform
entre...
vista
imediatamente e com intervenção directa na
tiva já tem no terreno muitos parceiros que a
sua reivindicação. Estou a referir-me ao caso
poderão ajudar no desempenho das suas fun-
dos desalojados da linha de Cambambe/Gabe-
ções. Seria até o organismo normal para onde
la em que se demoliram as casas sem alterna-
as Comissões Paroquiais e Diocesanas de
tivas e apresentando o caso na comunicação
“Justiça e Paz” e outras organizações cívicas
social como grande sucesso. Outros casos
poderiam encaminhar muitos casos. Poderia
apresentados ao Ministro da Justiça, ainda
agilizar muitos processos que algumas vezes
não havia Provedor de Justiça, e que tiveram
ficam pelo caminho e sem resposta, porque
intervenção rápida e eficaz. Outros casos,
fazendo parte do governo direccionaria essas
porém, apresentados à Assembleia Nacional
casos para quem de direito dentro do próprio
não só não mereceram a devida apreciação,
Executivo. Temos de esperar para ver, mas
mas até serviram para questionar a acção da
oxalá que funcione. Seria bom para todos e
Comissão. Por isso, repito, quem faz ou não
em todo o país e não apenas no Kuanza Sul.
são as pessoas. Que haja estas instituições é muito bom e sinal de que se quer avançar, mas mais importante é que as pessoas se empenham nesta matéria. MI: No âmbito da organização do novo executivo, foi criada a Secretaria de Estado para os Direitos Humanos. O que é que espera desse órgão na prestação de apoio ao trabalho de organizações cívicas dos DH espalhados pelo
MI: Como perspectiva a promoção, protecção e defesa dos Direitos Humanos em Angola? PF: Creio haver todos os mecanismos jurídicos e legais para uma progressiva melhoria dos direitos e liberdades de todos os cidadãos. Há já imensas instituições a trabalhar nesse sentido: Igrejas, ONG`s, rádios, jornais…e até
Enquanto houver
organismos do Estado, quer formando a cons-
gente acima da lei
ciência popular quer agindo em determinados casos. Mas acontece que há ainda muita im-
e Tribunais
PF: Atendendo ao país em que vivemos e com
punidade. Enquanto houver gente acima da
sujeitos ao Poder
todos os antecedentes de guerra que houve
lei e Tribunais sujeitos ao Poder administra-
seria muito oportuna esta nova instituição
tivo, nunca conseguiremos alcançar um nível
governamental. Mas como disse antes, os or-
aceitável de respeito pelos Direitos Humanos.
nunca conseguire-
ganismos e instituições só por si não fazem
Isso não se consegue em parte nenhuma do
nada. Quem pode intervir são as pessoas que
mundo e aqui ainda com mais dificuldades.
mos alcançar um
as compõem. Tenho medo, porém, que seja
É sempre um tema pendente e um desafio
nível aceitável de
mais uma super estrutura onde umas tantas
à nossa frente. Mas não se podem baixar os
pessoas se estão a “arranjar” com bons venci-
braços, porque a defesa dos pobres e oprimi-
respeito pelos
mentos e outras benesses em nome dos des-
dos é uma tarefa legada pelo nosso Deus e a
graçados que continuam a ser espoliados dia-
primeira condição para que o Reino de Deus
riamente dos seus direitos e liberdades, tanto
vá acontecendo entre os Homens. Creio, po-
mais que isso de Direitos Humanos vai mexer
rém, que esta e outras Comissões precisam
com pessoas da nomenclatura que são intocá-
de muito apoio, mesmo jurídico, para poderem
veis, como é o caso dos generais e outros se-
acompanhar certos casos que é necessário
nhores que estão a tornar-se donos de tudo.
encaminhar para os Tribunais.
país?
Entretanto, se esta Secretaria de Estado tiver pessoas capazes e com capacidade interven-
Nº 09 / Dezembro 2010
15
Mónica Guedes
administrativo,
Direitos Humanos
o d n i t c e Refl Revisão Periódica Universal: uma reflexão sobre o processo de reforma da ONU e a RPU em Angola Para falarmos do mecanismo de Revisão Períódica Universal (RPU) criado no âmbito das
valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados.
reformas em curso na Organização das Nações
A DUDH reuniu duas categorias de Direitos
Unidas (ONU) temos que abordar o processo
Humanos (duas “gerações”): os Direitos Civis e
que desencadeou no RPU.
Políticos, dum lado, e os Direitos Sociais, Eco-
1
A Organização das Nações Unidas nasceu
nómicos e Culturais, do outro. A DUDH marca
oficialmente em 24 de Outubro de 1945, data da
uma nova era de direitos para os indivíduos e in-
promulgação da Carta das Nações Unidas, assi-
fluencia o direito costumeiro internacional, bem
uma nova era de
nada na época por 51 países. Criada logo após a
como as constituições modernas.
direitos para os
2ª Guerra Mundial, o foco de actuação da ONU é
Foram criados dois Pactos: o Pacto sobre os
a manutenção da paz e do desenvolvimento em
Direitos Civis e Políticos e o Pacto sobre os Di-
todos os países do mundo.
reitos Económicos, Sociais e Culturais. Os dois
A DUDH marca
indivíduos e influencia o direito costumeiro internacional, bem como as constituições modernas.
A missão da ONU parte do pressuposto de
“Pactos”, segundo a vontade da Assembleia Ge-
que os diversos problemas mundiais – como a
ral, deviam criar um quadro jurídico, uma obriga-
pobreza, o desemprego, a degradação ambien-
ção contratual, porque os países podiam/deviam
tal, a criminalidade, o HIV/SIDA, a migração e o
aderir. Nestes dois Pactos, as duas gerações
tráfico de drogas – podem ser mais facilmente
de Direitos Humanos foram separadas. Foram
combatidos por meio de uma cooperação inter-
adoptados pela Assembleia Geral em 1966 e
nacional. As acções para a redução da desigual-
abertos a assinaturas. Só em 1976 foi atingida
dade global também podem ser optimizadas sob
a quota mínima de 35 membros para que estes
uma coordenação independente e de âmbito
pudessem entrar em vigor.
mundial, como as Nações Unidas. No dia 10 de Dezembro de 1948 foi adoptada, pela Assembleia Geral das Nações Unidas,
1
2
Sobre a reforma da ONU consultar a webpage: http://www2.ohchr.org
Sigla em Inglês.
O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas
a Declaração Universal dos Direitos Humanos
Aos 15 de Março de 2006, a Assembleia Ge-
(DUDH), pela aprovação de 48 Estados, com 8
ral (AG) da ONU, o corpo central inter-governa-
abstenções. A inexistência de qualquer ques-
mental, votou substituir a Comissão dos Direitos
tionamento ou reserva feita pelos Estados aos
Humanos (CHR), pelo Conselho de Direitos Hu-
princípios da Declaração, bem como de qualquer
manos (HRC) aprovado pela resolução A/60/L.48
voto contrário às disposições, confere à DUDH
da AG. O Conselho de Direitos Humanos (HRC) 2
o significado de um código e de uma plataforma
é, na ONU, o corpo chave inter-governamental
comum de acção.
responsável pelos Direitos Humanos, é respon-
A Declaração consolida a afirmação de uma
sável por todos os mandatos, mecanismos, fun-
ética universal ao consagrar um consenso sobre
ções e responsabilidades previamente confia-
16
Mosaiko inform
reflectindo das à extinta Comissão de Direitos Humanos.
a uma revisão em Direitos Humanos, em ciclo
O Alto Comissário para os Direitos Huma-
de 4 anos (48 países por ano). De acordo com a
nos (OHCHR) age como um Secretariado para o
Resolução 60/251 da Assembleia Geral e a Re-
Conselho de Direitos Humanos, como fez para a
solução 5/1 do Conselho de Direitos Humanos,
Comissão dos Direitos Humanos.
esta revisão visa avaliar o cumprimento por par-
3
O Conselho de Direitos Humanos é um corpo
te dos Estados das obrigações e compromissos
político de 47 membros, com base em Genebra,
internacionais assumidos em matéria de Direitos
em substituição da Comissão dos Direitos Huma-
Humanos. A Sociedade Civil desempenha um
nos. Enquanto a Comissão dos Direitos Huma-
papel crucial para que a RPU e o Conselho de
nos era um órgão subsidiário do Conselho Social
Direitos Humanos tenham êxito.
Económico (ECOSOC), o Conselho de Direitos
O RPU foi criado para combater a selectivi-
Humanos foi elevado a um órgão subsidiário da
dade e hiper-politização que sofreu a Comissão
Assembleia Geral. O seu papel é endereçar in-
de Direitos Humanos, a pouca cooperação e
fracções de Direitos Humanos, incluindo infrac-
atenção a todo o espectro de Direitos Humanos.
ções sistemáticas, e promover a coordenação
O RPU tem como objectivos:
eficiente e integral dos Direitos Humanos dentro
a) melhoria da situação dos Direitos Huma-
do sistema da ONU.
O mecanismo de Revisão Periódica Universal: RPU A Revisão Períodica Universal (RPU) é o mecanismo mais inovador do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Este mecanismo
nos; b) cumprimento das obrigações de Direitos Humanos; c) constatação dos desenvolvimentos positivos e desafios; d) melhoria da capacidade do Estado e da assistência técnica;
determina que todos os Estados-membros da
e) partilha das melhores práticas;
ONU (192) sejam submetidos, periódicamente,
f) cooperação no campo dos Direitos Hu-
3
Nº 09 / Dezembro 2010
17
Sigla em Inglês, o uso das inciais em Inglês servem para diferenciar a Comissão dos Direito Humanos e o Conselho de Direitos Humanos, porque as duas sigla teriam as mesmas inciciais – CDH.
o d n i t c e refl manos, em particular com instituições das
ao papel da TROIKA, isto é, os três Estados-
Nações Unidas.
As fases do processo As Organizações
O processo de revisão obedece quatro fases:
Não Governamen-
Fase 1 – elaboração dos relatórios;
tais e outros actores podem enviar informações ao Alto Comissa-
É necessário fazer referência à existência e membros do Conselho de Direitos Humanos que servem de relatores. O papel da TROIKA, antes da revisão, é o de receber as questões colocadas antecipadamente e transmití-las, através do
Fase 2 – diálogo interativo;
Secretariado ao Estado em Revisão. Depois da
Fase 3 – adopção do relatório final; Fase 4 – acompanhamento da implementação das Recomendações e preparação para a próxima revisão.
revisão, prepara o relatório do Grupo de Trabalho, com a assistência do Secretariado e a ampla participação do Estado em Revisão.
Fase 2 – Diálgo interactivo
riado das Nações
Fase 1 – Elaboração de Relatórios
Unidas para os
Três relatórios servem de base para a revi-
lho de Direitos Humanos, reune-se em Genebra
são de cada país: um relatório nacional elabora-
para consideração dos relatórios elaborados na
do pelo Estado em Revisão, um relatório com in-
fase 1.
Direitos Humanos
4
formações provenientes da Sociedade Civil e um
O Grupo de Trabalho (GT) 5 , composto pelos 47 Estados-membros e Observadores do Conse-
O Estado sob Revisão apresenta oralmente o seu relatório, responde a perguntas e recebe comentários e recomendações.
Fase 3 – Adopção do Relatório Final O relatório que foi preparado durante a sessão do GT, pelo Secretariado do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, é adoptado formalmente na segunda sessão regular do Conselho de Direitos Humanos, após o Diálogo Interativo (Março, Junho ou Setembro). É nesse momento que os Estados sob Revisão aceitam ou rejeitam, de maneira definitiva, cada uma das Recomendações. Durante esta fase as ONG`s com estatuto Consultativo junto do Conselho Económico, Social e Cultural podem participar da sessão de 4
5
RoadMap: Folheto informativo: Passo-aPasso para a Participação da Sociedade Civil na Revisão Períodica Universal da ONU – RPU. Produzido pela Conectas Direitos Humanos e International Service for Human Rights (ISHR). Nota: o Grupo de Trabalho se reune 3 vezes ao ano – Fevereiro, Maio e Dezembro. Em cada sessão são revisados 16 Estados.
relatório com informação das Nações Unidas re-
adopção do Relatório. Esse é o único momento
ferente ao Estado em Revisão. As Organizações
onde as ONG`s presentes na sessão, em Ge-
Não Governamentais (ONG`s) e outros actores
nebra, têm direito a voz. Assim, participar da
podem enviar informações ao Alto Comissariado
sessão regular pode ser tão ou mais importante
das Nações Unidas para os Direitos Humanos,
que participar do Diálogo Interativo. A sessão de
que por sua vez resumirá as informações recebi-
adopção do relatório é transmitida ao vivo pela
das num relatório.
internet. Caso alguma ONG não possa participar,
18
Mosaiko inform
reflectindo pode pedir que parceiros, em Genebra, assistam
Fevereiro de 2010 com a apresentação do Rela-
presencialmente à sessão e a mantenham infor-
tório. Os Estados-partes endereçaram ao Esta-
mada.
do angolano 166 Recomendações - e em Junho
Fase 4 – Acompanhamento da implementação das Recomendações e preparação da próxima Revisão
de 2010, o Estado angolano acolheu o Relatório das recomendações. As ONG`s angolanas também participaram deste processo. Em 2009, vinte ONG`s, após uma capacitação sobre o Sistema de Protec-
Todos os Estados são revisados de 4 em 4
ção de Direitos Humanos da ONU e da União
anos e a implementação das recomendações é a
Africana, com enfoque no Conselho de Direitos
base de revisão seguinte. Nesta fase as ONG’s
Humanos, nomeadamente, o Mecanismo de Re-
devem desempenhar o papel de disseminar o
visão Períodica Universal e o Sistema Africano
conteúdo do relatório a nível do país e monitorar
de Protecção dos Direitos Humanos, decidiram
como têm sido implementadas as recomenda-
criar um grupo de trabalho, o qual culminou com
ções endereçadas ao Estado em Revisão.
a produção de um relatório subscrito por dez or-
A Revisão Periódica de Angola Angola, enquanto membro da ONU, tem participado no processo de reforma em curso e na criação do Conselho de Direitos Humanos. Em 2009, para a elaboração do seu relatório, o Estado angolano convidou especialistas do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, para realizarem uma formação sobre elaboração de relatórios períódicos. Participaram desta acção formativa representantes dos diferentes Ministérios do Governo, Institutos e Organizações Não Governamentais. De modo a responder à demanda de interacção com o sistema da ONU, o Governo angolano criou uma Comissão inter-governamental para a elaboração de relatórios, que é constituida por: Ministério das Relações Exteriores (coordenação), Ministério da Justiça, Ministério do Interior, Procuradoria Geral da República e Secretaría do Estado para os Direitos Humanos. Esta Comissão tem a incumbência de elaborar os relatórios oficiais sobre a situação dos Direitos Humanos em Angola. O processo de revisão de Angola ocorreu em
ganizações. O processo da PRU em Angola não foi inclusivo nem participativo, e muito menos foi divulgado, partilhado ou discutido o seu conteúdo, como manda a ONU, e que deve acontecer nas fases I e IV das regras orientadoras do RPU. O relatório apresentado pelo Estado angolano não foi publicado nem publicitado dentro do país, nem tão pouco debatido, quer em fórum, quer através da abertura de contribuições com grupos temáticos. Até ao momento o Relatório apresentado bem como as 166 Recomendações endereçadas ao Estado angolano não foram tornados públicos em Angola. Contudo, estes documentos estão disponíveis online, na página da ONU, nas cinco línguas de trabalho, Inglês, Francês, Espanhol, Russo e Árabe, mas não estão disponíveis na língua oficial de Angola – o português. O Estado angolano deve realizar um conjunto de acções durante quatro anos, altura da próxima Revisão Periódica Universal, para melhorar a situação dos Direitos Humanos. As 166 Recomendações devem ser acolhidas e devem ser realizadas acções concretas para ultrapassá-las. Emílio José Manuel
Nº 09 / Dezembro 2010
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s e v e r b Liu Xiaobo, Prémio Nobel da Paz 2010
PNUD lança Relatório de Desenvolvimento Humano 2010
O Prémio Nobel da Paz 2010 foi atribuído a Liu Xiaobo, pela “sua
O Relatório de 2010 – “A Verdadeira Riqueza das Nações: Vias para
longa e pacífica luta por direitos humanos fundamentais na China”, de
o Desenvolvimento Humano” – foi lançado no dia 4 de Novembro de
acordo com a declaração de atribuição emitida pela Academia Nobel, no
2010 pelo Secretário-Geral Ban Ki-moon, a Administradora do PNUD
dia 8 de Outubro de 2010.
Helen Clark e o laureado com o Nobel Amartya Sen, que ajudou a ideO regime chinês imediatamente bloqueou as notícias sobre o assun-
alizar o IDH para o primeiro Relatório do Desenvolvimento Humano em 1990 com o falecido economista Mahbub ul Haq, fundador da série.
to na TV e na internet, censurando
“O Relatório revela que, em geral, as pessoas têm actualmente mais
mensagens na rede com o nome do
saúde, maior riqueza e melhor educação do que antes”, realçou H. Clark.
dissidente.
A maior parte dos países em vias de desenvolvimento fez progres-
Há dois anos, Liu foi co-autor de
sos profundos, ainda que frequentemente subestimados, na saúde, na
um documento exortando o governo
educação e nos padrões de vida básicos nas décadas mais recentes,
chinês a conceder mais liberdade ao
com muitos países mais pobres a apresentarem os maiores ganhos,
país e a acabar com o domínio ab-
é o que revela uma nova e pormenorizada análise das tendências de
soluto do Partido Comunista sobre a
longo prazo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no Relatório
política chinesa. Devido a essa car-
do Desenvolvimento Humano 2010.
ta, o Prémio Nobel 2010 foi condenado no ano passado a 11 anos de prisão, pena que cumpre actualmente numa cadeia de Pequim.
O mesmo prossegue a tradição de inovação na medição pela introdução de novos índices que abordam factores de desenvolvimento cru-
O anúncio em canais televisivos como a americana CNN foi ime-
ciais não directamente reflectidos no IDH: o Índice de Desenvolvimento
diatamente censurado; sites da internet que fazem a cobertura da pre-
Humano Ajustado à Desigualdade (IDH-D); o Índice de Desigualdade de
miação foram bloqueados, como também não foi possível o envio de
Género (IDG) e o Índice de Pobreza Multidimensional (IPM).
mensagens de texto por telemóvel sobre “Liu Xiaobo”.
Os primeiros 10 países na classificação do IDH de 2010 são Norue-
Liu tem defendido uma mudança política pacífica e gradual, em vez
ga, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos, Irlanda, Liechtenstein,
da confrontação com Pequim. O dissidente participou dos protestos da
Países Baixos, Canadá, Suécia e Alemanha. No final da classificação
Praça da Paz Celestial duramente reprimidos pelo governo em 1989.
do IDH de 2010 para os 169 países analisados estão, por ordem: Mali,
O presidente do comité do Nobel disse que Liu é um símbolo da luta pelos Direitos Humanos na China.
Burkina Faso, Libéria, Chade, Guiné-Bissau, Moçambique, Burundi, Níger, República Democrática do Congo e Zimbabwe. Para mais informações visite: http://hdr.undp.org
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