Mosaiko
Nº 06 Março 2010
inform
Informação sobre Direitos Humanos e o trabalho do Centro Cultural Mosaiko Edição trimestral F Distribuição gratuita
Acesso à Justiça
Entrevista Pe. Bernard Duchêne Presidente da Comissão Mista de Direitos Humanos do Kuanza Norte
pág. 13
Figura em destaque Martin Luther King Jr. pág. 8 Confira nesta edição
pág. 9
O acesso à Justiça em Angola: Que desafios?
editorial ÍNDICE Todo o complexo conjunto das implicações ligadas ao acesso à Justiça, manifesta-se, em Angola, ainda como um grande desafio. Muitos passos positivos, felizmente, foram dados. Todavia, muitíssimo ainda há por fazer. Aliás, esta é uma tarefa sempre inacabada, algo sempre a fazer. As vitórias alcançadas só servem, por um lado, para nos darem aquele legítimo sentimento de satisfação, mas, por outro, para nos dizerem que o que alcançámos ainda não é nada em relação ao que desejamos e podemos alcançar. São vitórias inacabadas.
Editorial .......................................................... 02 José Sebastião Manuel, op Informando Estrutura Orgânica e funcional do Sistema Judicial Angolano ......................... 03 Lima de Oliveira Estórias da História A Conferência de Berlim ............................ 07 Hermenegildo Teotónio Figura em destaque
As múltiplas reflexões postas à nossa disposição são claras na afirmação de que nada melhorará sem o teu contributo, caro leitor, e o meu contributo. De toda a maneira, dentro de alguns anos os registos da história estarão aí para dizer o quanto estivemos ou não à altura de tamanha
Martin Luther King ..................................... 08 Hermenegildo Teotónio Construindo O Acesso à Justiça em Angola: Que desafios? ........................................... 09 Dr. Miguel Pessoa
empreitada. Não haja dúvidas de que a preocupação maior não poderá ser senão em relação às pessoas mais fracas entre nós: mais fracas nas oportunidades de acesso à informação e ao conhecimento, mais fracas nas oportunidades de acesso aos recursos e de auto-desenvolvimento económico, enfim, mais fracas no acesso ao Direito e à Justiça, nomeadamente aos agentes e à complexa rede da administração da Justiça.
De que falamos quando falamos de Justiça: Os vários tipos de Justiça .......................... 11 Juiz Francisco Bernardo Entrevista com Padre Bernard Duchêne ........................... 13 Mónica Guedes Reflectindo As responsabilidades do Estado e do Cidadão
O problema é mais real do que teórico, é menos de falta de leis e mais de carências na sua aplicação. O acesso à Justiça deve ser universal e
no acesso à Justiça ........................................ 16 Dra. Elizete da Graça Acesso à Justiça em Angola ........................ 17 Dr. Benja Satula
em condições de igualdade.
O Contributo do Mosaiko na Formação Cívica e Jurídica dos Cidadãos ................................ 19
Obrigado pela tua solidariedade nesta tarefa!
Faustina Icaia
José Sebastião Manuel, op
2
Breves ............................................................ 20
Mosaiko inform
Informando ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA JUDICIAL ANGOLANO
de ruptura familiar. No tocante à defesa da dignidade da pessoa humana, o Sistema Judicial defende os
O Sistema Judicial Angolano é composto pelos
direitos fundamentais e interesses legítimos dos
Tribunais e instituições afins com competência de
cidadãos e em especial o direito à vida, à honra e
administrar a justiça em nome do Povo (artº 174º
aos bens pessoais. Mais do que sancionar, o Sis-
CRA - Constituição da Repúblia de Angola). São os
tema Judicial Angolano tem como missão educar
Tribunais que garantem e asseguram a observância
os cidadãos com vista ao cumprimento das leis,
(ou o cumprimento) da Constituição, das leis e demais
contribuindo assim para a elevação do nível da
disposições normativas vigentes, a protecção dos
consciência jurídica de todos os cidadãos.
direitos e interesses legítimos dos cidadãos e das instituições (177º CRA).
Na comunicação proferida numa das sessões da III Semana Social Nacional , o Bastonário da (2)
O Sistema Judicial angolano funciona de acordo
Ordem dos Advogados, Dr. Inglês Pinto, defen-
com a divisão político-administrativa do País. Por
deu que «o bom funcionamento da administração
exemplo: a competência jurisdicional do Tribunal Su-
da Justiça, no seu sentido amplo, é condição
premo abrange todo o território nacional; a competência
para que haja justiça e segurança social. A paz
jurisdicional dos Tribunais Provinciais abrange as res-
social, o progresso, o desenvolvimento integral
pectivas províncias; e a competência jurisdicional dos
do indivíduo e da sociedade em geral, passa, ne-
Tribunais Municipais abrange apenas a circunscrição
cessariamente, pela segurança jurídica, pelo acesso
administrativa dos respectivos municípios.
ao Direito e à Justiça» – Justiça essa que é exercida
Com a aprovação da nova Constituição, o Sistema Judicial Angolano passa a ter a seguinte estrutura: Tribunais Superiores (Tribunal Constitucional, Tribunal Supremo, Tribunal de Contas e Supremo Tribunal Militar), Tribunais de Relação e outros Tribunais Comuns. Poderá haver ainda a possibilidade de se criarem os Tribunais de competências administrativa, fiscal e aduaneira encabeçados por um Tribunal superior, bem como a criação de tribunais marítimos. OBJECTIVO DO SISTEMA JUDICIAL ANGOLANO O Sistema Judicial Angolano tem como objectivo
ORGÂNICA E FUNCIONAL DO SISTEMA JUDICIAL ANGOLANO
pelos Tribunais. CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUNAIS COMUNS A nova Constituição da República introduziu grandes modificações na estrutura do Poder Judicial do Estado. Ainda assim, o Sistema Judicial comum continua a funcionar de acordo a Lei do Sistema Unificado de Justiça – aprovado pela então Assembleia do Povo sob a Lei nº 18/88, de 31 de Dezembro. A classificação mais conhecida é a dos Tribunais comuns: Os Tribunais Comuns ou ordinários são: Municipais, Provinciais, de Relação(3) e Supremo.
proteger e apoiar o sistema político, económico e
Os Tribunais Municipais exercem a competência
social do país, garantindo a defesa da legalidade e
jurisdicional num determinado Município e o valor da
a obediência da Constituição e demais leis que se
causa não ultrapassa os Kz 100.000,00. Em casos pe-
encontram em vigor; respeitar, proteger e defender
nais ou criminais, o Tribunal Municipal julga processos-
a propriedade pública, privada, mista, cooperativa e
crime instruídos pelos órgãos de investigação criminal,
familiar.(1) O Sistema assegura também a defesa dos
cuja punição vai até dois anos de prisão maior. Não
direitos sociais dos trabalhadores e o cumprimento dos
existem Salas, mas existem uma espécie de Secretaria
seus deveres.
Geral, que recebe os expedientes.
No âmbito da família, o Sistema protege a harmonia
Os Tribunais Provinciais exercem a competência-
e estabilidade da família, previne e resolve situações
jurisdicional (administração da Justiça) na Província.
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ESTRUTURA
3
1
Artigo 1º da Lei do Sistema Unificado de Justiça.
2
III Semana Social Nacional, Luanda, 6 a 10 Fevereiro 2007.
3
Os Tribunais de Relação, apesar de estarem previstas na Constituição, ainda não se encontram em funcionamento.
o d n a m r o f in Julgam casos (cíveis e penais) que acontecem em
dos actos administrativos contra órgãos locais
toda a extensão da Província e que ultrapassam a
do Estado sedeadas nos Municípios e Comunas
competência jurisdicional dos Tribunais Municipais. A
são da exclusiva competência dos Tribunais
competência interna dos Tribunais Provinciais é exer-
Administrativos (Sala do Cível e Administrativo
cida pelas suas respectivas Salas; cada Sala tem um
do Tribunal Provincial); enquanto que os crimes
poder funcional próprio que lhe permite julgar casos que
de natureza militar são julgados em Tribunais
se coadunam com a sua natureza funcional. As Salas
de foro próprio (tribunais regionais, tribunais
de que estamos a falar têm as seguintes designações:
de guarnição e, em última instância, o Tribunal
do Cível e Administrativo; da Família; do Trabalho; dos
Supremo Militar).
Crimes Comuns; dos Crimes contra a Segurança do
b) o valor da causa – é o valor da demanda, ou
Estado; Sala do Tribunal Marítimo e Sala do Julgado
seja, o valor limite que é atribuído a um Tribunal
de Menores.
menor – municipal ou provincial – para poder
O Tribunal Supremo tem a competência de dirigir,
julgar. Por exemplo: o artigo 38º da Lei do Sis-
controlar e supervisionar a actividade jurisdicional
tema Unificado de Justiça diz: «Compete aos
dos tribunais em todo o território nacional; apreciar
Tribunais Municipais preparar e julgar todos os
a situação da criminalidade no País e propor em
processos cíveis de valor não superior a Kz 100
conjunto com os organismos competentes do
000,00». «A alçada dos tribunais municipais em
Estado (Polícia Nacional, Forças Armadas, etc.) a
matéria cível é de Kz 50 000,00. Em matéria
sua prevenção e combate. Internamente, o Tribunal
penal o Tribunal Municipal não tem alçada»(4).
Supremo é dividido em três Câmaras, a saber: a
c) a hierarquia - tem a ver com a competência que
Câmara do Cível e Administrativo; dos Crimes Co-
os tribunais superiores têm em apreciar e julgar
muns; dos Crimes contra a Segurança do Estado,
recursos emanados dos casos julgados (em
cada uma delas com competência própria para
1ª mão) por tribunais inferiores sobre conflitos
apreciar os recursos que lhes são apresentados
de competência e de acções propostas contra
por uma das partes do processo proferido pelo
magistrados judiciais ou do Ministério Público
Tribunal de 1ª instância (Tribunais Provinciais e
em virtude das suas funções. Por exemplo:
Tribunais Municipais).
os Tribunais Provinciais apreciam recursos
COMPETÊNCIA DOS TRIBUNAIS A competência dos Tribunais é o conjunto dos seus poderes funcionais, atribuídos por lei, para julgar determinados casos que lhes dizem respeito. Os Tribunais angolanos têm dois tipos de competência: a interna e a internacional. A competência interna dos Tribunais manifesta-se na distribuição dos poderes jurisdicionais (poderes de julgar) a diferentes tribunais segundo: a) a matéria – isto é, a competência de se julgar casos de acordo com a natureza e o tipo do Tribunal. Por exemplo: casos de divórcio, da Artigo 41º da Lei do Sistema Unificado de Justiça
4
filiação e da paternidade são da exclusiva competência doTribunal de Família (Sala de Família do Tribunal Provincial); impugnação
4
provindos dos casos julgados pelos Tribunais Municipais; enquanto que o Tribunal Supremo aprecia recursos dos casos julgados pelos Tribunais Provinciais; d) o território - é o poder funcional atribuído a um tribunal de poder julgar os casos que acontecem na circunscrição territorial onde estiver sedeado. Por exemplo: se acontece um caso na Comuna de Yambala, Município do Cubal, em princípio, só o Tribunal Municipal do Cubal pode conhecer e julgar o mesmo caso. O caso só pode ser julgado pelo Tribunal de outro Município se na referida localidade não houver Tribunal para tal. Para além da competência exercida pelo Tribunal Municipal do Cubal, só
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informando o Tribunal Provincial de Benguela poderá exer-
aos juízes dos Tribunais Provinciais. O mesmo pode
cer a competência territorial do caso, se o seu
participar das sessões da Assembleia Nacional e do
conteúdo ultrapassar a competência material
Conselho de Ministros mas sem direito a voto.
do referido Tribunal Municipal.
O Presidente do Tribunal Provincial O Tribunal Provincial é constituído por um juiz-presi-
GESTÃO INTERNA DOS TRIBUNAIS Em cada Tribunal existe uma direcção que coordena
dente, coadjuvado pelos juízes das Salas e assessores
os serviços e gere a vida administrativa da instituição.
populares. O Presidente do Tribunal Provincial tem a
Essa direcção é composta por magistrados judiciais
competência de representar e dirigir o Tribunal; cumpre
(juízes). Em princípio, só os juízes podem exercer a
e faz cumprir as orientações e resoluções superiores;
chefia dos tribunais, porque a categoria hierárquica dos
assegura o funcionamento do Tribunal e dirige o pesso-
tribunais angolanos, permite uma prestação de contas
al; comanda a distribuição dos processos no Tribunal;
dos tribunais menores aos tribunais superiores. Cada
cumpre e faz cumprir as funções disciplinares, nos
juiz-presidente é responsável pela gestão do tribunal
termos da lei; dá posse aos juízes municipais já nome-
(que dirige) perante o juiz-presidente do tribunal supe-
ados ou eleitos; elabora o relatório anual de prestação
rior. Exemplo: o juiz do Tribunal Municipal presta contas
de contas; recebe e analisa as reclamações do público
ao juiz-presidente do Tribunal Provincial; este, por
relativas ao funcionamento do Tribunal Provincial e dos
sua vez, presta contas
Tribunais Municipais da
ao Juiz-Presidente do
respectiva jurisdição.
Tribunal Supremo.
Cada Sala (do Cí-
O Presidente do
vel e Administrativo; de Família; do Trabalho;
Tribunal Supremo O Tribunal Supremo é constituído pelo
dos Crimes Comuns;
saber que a lei
dos Crimes contra a
proíbe o uso dos
Segurança do Estado)
Presidente, Vice-Presidente e os Juízes que integram o Plenário e
do Tribunal Provincial é
meios de força
composta por um juiz e
com o fim de rea-
dois assessores popu-
as Câmaras. Apesar de
lares. O presidente do
haver um Presidente, o Plenário do Tribunal Supremo é o verda-
o próprio direito,
das Salas.
salvo nos casos e
Tribunal Municipal
fiscaliza e controla o funcionamento dos Tribunais do país. O Plenário anali-
O Tribunal Municipal é constituído por um juiz e dois
sa, por outro lado, a situação da criminalidade no país e
assessores populares. O juiz do Tribunal Municipal tem
propõe junto dos órgãos competentes do Estado medi-
a competência de representar o Tribunal em toda a sua
das para a sua prevenção e combate. Aprecia também
vertente funcional e assegurar o seu funcionamento.
o mérito profissional de todos os juízes no país.
Quanto à apreciação e julgamento dos casos, o juiz
O Presidente do Tribunal Supremo tem a função
municipal prepara os processos, realiza todos os actos
(tal como o juiz-presidente do Tribunal Provincial e o
que competem a um juiz de causa, preside aos julga-
juiz municipal) de representar e dirigir o Tribunal; para
mentos e impõem a disciplina do processo.
além disso, o presidente tem a competência de desig-
AGENTES DA ADMINISTRAÇÃO DA JUSTIÇA
nar os juízes presidentes das Câmaras e de dar posse
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Os agentes da administração da Justiça são 5
lizar ou assegurar
Tribunal preside uma O Juiz do
deiro órgão que dirige,
O cidadão deve
dentro dos limites declarados na lei
o d n a m infor pessoas com funções e categorias diversas, que ela-
NA VIDA SOCIAL
asseguram o aceleramento ou a
A existência de um Sistema Judicial traz consigo a
estabilidade do seu andamento.
paz e a estabilidade social, já que a sua principal tarefa
Quem são essas pessoas? São
é resolver os conflitos de interesses que aparecem
os Magistrados Judiciais ou Juízes,
durante as relações pessoais e sancionar os actos que
os Magistrados do Ministério Públi-
colocam em causa a ordem e a tranquilidade pública,
co ou Procuradores, os Escrivães,
bem como a própria convivência social. Por isso, é muito
os Ajudantes de Escrivão, os Ofi-
importante que todos os cidadãos colaborem para o
ciais de Diligências e, por último,
normal funcionamento das instituições de Justiça do
os Advogados, apesar de não
país, adquirindo uma consciência jurídica capaz de aju-
fazerem parte dos quadros dos
dar os Tribunais na resolução de muitos casos que não
Tribunais. Os juízes têm a função
deveriam inundar desnecessariamente os cartórios. O desconhecimento das leis, a falta de divulgação
apresentados; os Procuradores
da informação jurídica, a morosidade no andamento
têm a função de cumprir e fazer
dos processos judiciais, os altos valores dos impostos
cumprir a lei, isto é, de fiscalizar se tudo está a decorrer
de justiça, o baixo rendimento da maior parte dos cida-
de acordo a lei ou não. Os Escrivães são chefes do
do para com a
dãos, são alguns dos factores que impedem o acesso
Cartório (espécie de Secretaria do Tribunal) que têm
à Justiça. Ainda assim, o cidadão deve saber que a lei
comunidade é
a missão de coordenar e supervisionar a preparação
proíbe o uso dos meios de força com o fim de realizar
do expediente que permite ao juiz agir ou executar as
ou assegurar o próprio direito, salvo nos casos e dentro
decisões que ele tomou no pleno exercício das suas
dos limites declarados na lei.(6) Quer se dizer que a
funções; também velam pelo bom cumprimento dos
Justiça é pública e não privada; por isso, cabe somente
prazos para a prática dos actos quer pelos magistra-
ao Estado (através dos Tribunais) fazer justiça.
res do Advoga-
pugnar «pela boa aplicação das leis, pela
dos, quer pelas partes e pelos próprios funcionários
rápida adminis-
Cabe ao Estado criar todas as condições necessá-
do Cartório. Os Oficiais de Diligências têm a função
rias para que os cidadãos possam exercer, de facto, os
tração da Justi-
de elaborar as notificações de todos os despachos
seus direitos e cumprir cabalmente os seus deveres. A
pertinentes que lhes forem incumbidas pelos seus
importância do Sistema Judicial ou da administração de
superiores hierárquicos.
Justiça deve ser muito divulgada para que haja maior in-
ça e pelo aperfeiçoamento das instituições jurídicas»
6
boram os processos orientados e
de julgar os casos que lhes forem
Um dos deve-
5
IMPORTÂNCIA DO SISTEMA JUDICIAL
Artigo 3º, al. a), do Estatuto da Ordem dos Advogados de Angola. Artigo 1º do Código de Processo Civil.
Os Advogados não são agentes directos da admi-
teracção entre os destinatários da lei (os cidadãos) e os
nistração da justiça, mas estão para colaborar na «ad-
aplicadores da lei (os Tribunais). Por isso, os Tribunais
ministração da Justiça, pugnar pela defesa do Estado
devem estar mais próximos do cidadão comum, para
Democrático de direito e defender os direitos, liberdades
que os seus direitos sejam assegurados e defendidos,
e garantias individuais dos cidadãos». Um dos deveres
sobretudo quando são violados frequentemente pelo
do Advogado para com a comunidade é pugnar «pela
abuso do poder. Cabe ainda ao Estado exortar e sensi-
boa aplicação das leis, pela rápida administração da
bilizar os cidadãos a recorrerem aos serviços de Justiça
Justiça e pelo aperfeiçoamento das instituições jurídi-
pública, em casos de conflitos ou de criminalidade.
cas » , inclusive dos órgãos que compõem o Sistema
Esta sensibilização deve ser sempre acompanhada de
Judicial Angolano.
condições que dignifiquem a pessoa humana, no seu
(5)
todo, para se evitarem actos de vingança ou de justiça feita por mãos próprias. Lima de Oliveira
6
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estórias da História A Conferência de Berlim No século XIX, o continente africano foi alvo de
no continente africano.
muitas cobiças por parte das principais potências
No decorrer da conferência, Portugal apresentou
coloniais, que pretendiam aumentar o seu domínio.
um projecto, conhecido como “Mapa cor-de-rosa”,
O facto do continente afri-
que tinha por objectivo ligar
cano possuir matérias-
Angola a Moçambique,
primas, necessárias para
para facilitar a comuni-
o
da
cação, o comércio e o
indústria, causou concor-
transporte de mercadorias
rência entre os países co-
entre as duas colónias.
lonizadores, o que gerou
Apesar de todos concor-
disputas entre eles.
darem com o projecto, a
desenvolvimento
Daí a necessidade,
Inglaterra, supostamente
na altura, de se definirem
um antigo aliado dos por-
as fronteiras dos países e
tugueses,
partilhar o continente afri-
com a negação do referido
cano. A partilha de África
projecto e fez um ultimato,
surpreendeu
tem início, na Conferência de Berlim, no final do
conhecido como “ultimato britânico de 1890”, ame-
século XIX. A conferência foi realizada entre 19 de
açando guerra se Portugal adoptasse o projecto.
Novembro de 1884 e 26 de Fevereiro de 1885 e ins-
Com essa atitude da Inglaterra, Portugal teve de
tituiu normas para a ocupação, a serem aplicadas às
renunciar ao projecto do Mapa cor-de-rosa.
potências coloniais.
Alemanha não possuía ainda colónias em África,
A Conferência foi proposta por Portugal e orga-
mas tinha esse desejo e viu-o satisfeito, passando
nizada pelo Chanceler Otto Von Bismarck da Ale-
a administrar o sudoeste africano (actual Namíbia)
manha (país anfitrião). Estavam presentes países
e o Tanganhica.
como: Grã-Bretanha, França, Espanha, Itália, Bél-
Como resultado da conferência, a Grã-Bretanha
gica, Holanda, Dinamarca, Estados Unidos da Amé-
passou a administrar toda a África Austral, com ex-
rica, Suécia, Áustria – Hungria, Império Otomano,
cepção das colónias portuguesas, o sudoeste de
Bélgica e Turquia.
África, toda a África Oriental, e partilhou a costa oci-
Todos os países presentes, com interesses par-
dental e o norte com a França, a Espanha e Portu-
ticulares, tinham situações totalmente diferentes. Os
gal; o Congo, que estava no centro da disputa, con-
Estados Unidos possuíam uma colónia em África (a
tinuou como prioridade da Associação Internacional
Libéria), não obstante a guerra civil (1861-1865), por
do Congo, cujo principal accionista era o rei Leopol-
causa da abolição da escravatura; a Grã-Bretanha
do II da Bélgica. Este país passou a administrar dois
tinha abolido a escravatura no seu império em 1834;
pequenos reinos, o Ruanda e o Burundi.
a Turquia, não possuía colónias em África, mas era
A partilha foi feita de maneira arbitrária, não res-
o centro do Império Otomano e os seus interesses
peitando as características étnicas e culturais dos
estavam voltados para o norte de África. Os res-
povos, o que contribui para muitos dos conflitos ac-
tantes países, presentes na conferência, que não
tuais no continente.
foram “considerados” na partilha, igualmente eram Hermenegildo Teotónio
potências comerciais e industriais, com interesses
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m e a r u g Fi Ficha Técnica Mosaiko Inform Propriedade Centro Cultural Mosaiko NIF: 7405000860 Nº registo MCS-492/B/2008 Redacção Belarmino Márcio Cardoso Fernando da Silva Florência Chimuando Júlio Candeeiro, op Mónica Guedes Colaboradores: Dr. Benja Satula Dr. Miguel Pessoa Dra. Elisete da Graça Faustina Icaia Hermenegildo Teotónio Juiz Francisco Bernardo Lima de Oliveira Técnico Gráfico Gabriel Kahenjengo Contactos Centro Cultural Mosaiko Bairro da Estalagem Km 12 - Viana Caixa Postal 6945 C Luanda - Angola Telefones 923 543 546 / 912 508 604 Endereço electrónico minform@mosaiko.op.org Sítio na internet http://mosaiko.op.org Impressão Indugráfica, Lda Fátima - Portugal Tiragem: 2 500 exemplares DISTRIBUIÇÃO GRATUITA
e u q a t s e D Martin Luther King
Martin Luther King, Jr. foi um pastor protestante e
para as comunidades mais pobres do país. E é tam-
activista político americano. Membro da Igreja Baptis-
bém nesse ano que Luther King profere o seu famoso
ta, tornou-se um dos mais importantes líderes do ac-
discurso “Eu tenho um Sonho” (“I have a dream”) em
tivismo pelos direitos civis (para negros e mulheres,
frente ao Memorial Lincoln, em Washington, durante a
principalmente) nos Estados Unidos da América e no
chamada “marcha pelo emprego e pela liberdade”. Este
mundo, através de uma campanha de não-violência e
discurso simboliza a visão de um mundo mais justo:
de amor para com o próximo.
“Viemos também a este lugar sagrado para lem-
Luther King nasceu a 15 de Janeiro de 1929, em
brar à América a grande urgência da hora presente.
Memphis, Atlanta, numa família humilde. O pai era
Chegou a hora de cumprir as promessas da democra-
agricultor e a mãe, pastora. Graduou-se no Morehouse
cia. Chegou a hora de sair do negro e árido vale da
College, com um bacharelado em Sociologia onde teve
segregação para a estrada soalheira da justiça social.
como mentor Benjamin Mays, um activista dos direitos
Chegou a hora de arrancar a nossa Nação às areias
civis. Depois, formou-se no Seminário Teológico Cro-
movediças da injustiça social e implantá-la no rochedo
zer, em Chester, Pensilvânia, tornando-se pastor da
sólido da fraternidade. Chegou a hora de fazer da jus-
Igreja Baptista, em Montgomery, Alabama; fez também
tiça uma realidade para todos os filhos de Deus. Não
o Doutoramento em Teologia Sistemática pela Univer-
haverá sossego na América enquanto o Negro não vir
sidade de Boston.
garantidos os seus direitos de cidadania. Os turbilhões
Luther King casou-se com Coretta Scott King e tiveram quatro filhos que seguiram os passos do pai como activistas de direitos civis, apesar de as opiniões e as crenças serem bastante diferentes entre eles.
da revolta continuarão a abalar os alicerces da nossa Nação até que nasça o radioso dia da justiça” Em 04.04.1968, foi assassinado por James Earl Ray, um racista branco, na cidade de Memphis. Dias
Participou da fundação da Conferência de Lide-
depois da sua morte, o presidente americano Lyndon
rança Cristã do Sul (CLCS), que tinha como objectivo
Johnson assinou uma lei que acabava com a discrimi-
organizar o activismo em torno da questão dos direitos
nação racial.
civis. A CLCS era constituída principalmente por co-
Em 1983, quinze anos depois da sua morte, foi
munidades negras ligadas às igrejas Baptistas, e King
criado um feriado nacional nos EUA para homenagear
manteve-se na sua direcção até à sua morte.
Martin Luther King, o chamado Dia de Martin Luther
Organizou e liderou marchas para conseguir o direito
King e que passou a ser sempre na terceira segunda-
de voto para os negros, o fim da segregação, o fim das
feira do mês de Janeiro, data próxima do seu aniversá-
discriminações no trabalho e outros direitos civis bási-
rio. Em 1993, pela primeira vez, o feriado foi cumprido
cos. A maior parte destes direitos foi, mais tarde, agrega-
em todos os estados do país.
da à lei americana, com a aprovação da Lei de Direitos Civis (1964) e da Lei de Direitos Eleitorais (1965). A partir de 1965 o líder negro passou questionar as
Luther King recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1964. Tinha apenas 35 anos de idade, tornando-se assim na pessoa mais jovem a receber esse Prémio.
intenções americanas na Guerra do Vietname, fazendo
A história reserva para Marthin Luther King o lugar
sérias críticas ao papel que os EUA desempenhavam
do maior líder negro na história americana que lutou
na guerra.
pela conquista da dignidade dos negros. E passados
Em 28.08.1963, liderou uma campanha pela justiça socio-económica, contra a pobreza (a Campanha dos Pobres), que tinha por objectivo principal garantir ajuda 8
44 anos desde seu célebre discurso, o sonho de um mundo mais justo para todos continua vivo!
Hermenegildo Teotónio
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Construindo O ACESSO À JUSTIÇA EM ANGOLA: QUE DESAFIOS? Para Aristóteles, a justiça deve ser a base das
investigadores afectos à Investigação Criminal pre-
relações na “polis” (cidade) e com ela assegurar-se a
paração técnica bastante para executarem as suas
participação de todos os cidadãos na gestão do que é
atribuições?
de todos, a “res publica” (coisa pública), o que, aliás, só é pensável em democracia.
Uma juíza, num tribunal, tendo encontrado o signatário, por sinal Advogado, a conferenciar com o es-
O Homem, enquanto ser eminentemente social,
crivão sobre um processo a consultar, de modo pou-
tem a Justiça como um direito natural e inalienável,
co cordato, impediu-o alegando que o Advogado não
sendo hodiernamente, nos estados constitucionais,
tinha procuração nos autos. Ora, Advogado tem de
tanto o direito à Justiça como o direito ao acesso à
ter procuração nos autos para os consultar? Parece-
mesma um direito humano fundamental, entendendo-
nos que não, e a resposta pode ser encontrada na
se, pois, como direito fundamental todo aquele que,
conjugação das disposições do artigo 193º da CRA
pela sua importância e dignidade, encontra consagra-
- Constituição da República de Angola que estabe-
ção destacável nas constituições políticas dos Esta-
lece a advocacia como uma instituição essencial à
dos.
administração da Justiça. Sem uma advocacia exerci-
Chegados, à modernidade, ao sistema de justi-
da por profissionais independentes, não há Justiça. A
ça pública, em substituição, da justiça privada, a re-
resposta pode também ser encontrada na disposição
alização da justiça, tornou-se monopólio do Estado,
do artigo 168º do CPC - Código de Processo Civil (ou
cabendo a este, por via de regra, a sua execução,
ainda nas leis especiais, como o artigo 72º e 73º do
embora subsistam resquícios justificados do sistema
CPP - Código de Processo Penal), onde se consagra
anterior para acudir o particular carecido, em situa-
que a consulta de processos pendentes ou arquiva-
ções excepcionais e concretas, quando o recurso à
dos por profissionais forenses, na secretaria, é livre,
força pública em tempo útil possa pôr em causa a
exceptuando os processos de divórcio, anulação de
própria realização da Justiça.
casamento e impugnação de paternidade. Todos os
Ora, sobre o acesso à Justiça em Angola, várias perguntas se colocam.
demais processos podem livremente ser consultados,
Tem o cidadão comum conhecimento efectivo
e pensamos nós que, con-
desta realidade? E por outro lado, tem a grande maio-
trariamente a uma hipotéti-
ria dos cidadãos recursos financeiros para de modo
ca falta de interesse directo
relativamente célere, ter acesso à Justiça, sempre
comummente aludida quer
que necessário? Tem o Estado legislação bastante
pelos funcionários do car-
para regular e acautelar todas estas situações? Tem
tório quer por magistrados,
o Estado disponíveis e suficientes recursos financei-
sejam estes judiciais ou do
ros, humanos e materiais (infra-estruturas, tribunais e
Ministério Público, os pro-
instituições policiais) que permitam aos contribuintes
fissionais têm sempre um
facilmente aceder aos serviços da Justiça? Têm os
interesse igual ou até mes-
funcionários dos cartórios dos tribunais, instrutores e
mo superior ao directo,
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construindo
As palavras do
um interesse profissional pois, não se aprende ape-
gimento de menor a abandonar a residência dos pais
nas com a própria experiência, mas também com as
(artigo 343ºdo CP), o agente da polícia, que diz ser
dos demais.
instrutor processual há mais de 20 anos, mostrou não
Lamentável são aqueles, muitos dos quais nos-
saber que quando um pai expulsa os filhos de casa,
sos colegas de carteira até à formatura, que che-
sendo esses menores, assume pois condutas típicas
gando à magistratura, manifestam, até mesmo em
previstas e puníveis nos termos acima referidos.
desrespeito à Constituição e à lei, uma doentia e
Não gostaria de terminar, aliás não seria justo ter-
inexplicável aversão aos advogados, buscando pelos
minar, sem referir também alguns aspectos positivos
mais diversos meios, obstaculizar o exercício pleno
que se assistem nos nossos Tribunais e obviamente
da advocacia, inviabilizando, claro está por essa via,
ligados ao tema em abordagem, como quando, pela
em última análise e na verdade o próprio acesso à
primeira vez, o signatário fez uma defesa forense
Justiça e ao Direito. Afinal a causa pela qual lutamos
no Tribunal Provincial do Kuanza-Sul o presidente
é exactamente a mesma, a Justiça.
da sessão, por coincidência o presidente do Tribu-
Se tais constrangimentos são vividos até mesmo
nal, dirigiu ao defensor palavras simpáticas dizendo:
pelos advogados, fácil será, pois imaginar as contra-
“Temos felizmente nesta sessão como advogado de
riedades vividas pelos cidadãos.
defesa, um profissional que, embora estagiário, vai
A uma semana atrás uma cliente ligou-me às
certamente, marcar a diferença” no final congratulou-
21 horas, aflita porque o marido, que para além de
se o meritíssimo juiz de direito porque realmente o
insultá-la, proferiu ameaças de morte, sendo aliás
signatário havia feito diferente do habitual, pois o réu
portador de uma arma, posse certamente ilegal, tinha
detido há mais de um ano veio a ser absolvido por-
corrido com ela e com os 3 filhos menores. Pedi-lhe
quanto o crime não havia sido cometido por ele mas
que se acalmasse, que iria ao seu encontro, para em
pelo irmão.
juiz, além de sim-
seguida apresentar queixa à polícia, para que aquela
As palavras do juiz, além de simples e sinceras,
ples e sinceras
em observância da lei (artigos 5º, 6º/1 e 7º da Lei
encerravam sobretudo uma forma distinta, diria mes-
nº18-A/92, de 17 de Julho, a lei da prisão preventiva
mo notável de olhar a advocacia como um contributo
em instrução preparatória), prendesse o infractor.
inestimável ao exercício do direito ao acesso à Justi-
encerravam sobretudo uma forma distinta, diria mesmo notável de olhar a advocacia como um contributo inestimável ao exercício do Direito ao acesso à Justiça.
Alegando que era noite, furtou-se a polícia de
ça cuja consolidação passa resumidamente por uma
efectuar a prisão do infractor tendo na ocasião pro-
profunda reforma dos serviços que directamente in-
metido fazê-lo no dia seguinte, manobra cobarde e
tervêm na administração da Justiça, nomeadamente
dilatória que se veio a revelar depois, manifestando
os afectos aos Tribunais e à Polícia mormente a de
claramente ignorância gritante da lei da prisão pre-
Investigação Criminal, sem esquecer as Conservató-
ventiva e, mais grave, dos crimes em presença. Já o
rias, os Serviços Notariais, etc, a divulgação da lei que
instrutor de serviço, por sinal estudante do 4º ano do
regula a assistência judiciária, o Decreto-Lei nº 15/95
curso de Direito, como ele mesmo nos revelou, com
de 10 de Novembro, a recuperação da figura do Juiz
a falsa alegação de que o crime não era doloso e que
de Instrução e o separar das águas entre o Ministério
era particular, fundamentos bastantes em seu enten-
Público fiscalizador da legalidade e Ministério Público
der para não se prender o infractor, quando o que na
titular da acção penal, bem como a qualificação ou
verdade ficou demonstrado era uma deprimente ig-
a capacitação dos respectivos recursos humanos, a
norância das suas competências e atribuições tendo
criação de condições dignas de trabalho que se po-
igualmente ficado claro o desconhecimento da tipifi-
dem colocar ao serviço do cidadão para a promoção
cação dos crimes de exposição e abandono de infan-
do seu bem estar social, cultural e material.
te (artigo 345º do CP - Código Penal), o de constran
10
Dr. Miguel Pessoa
Mosaiko inform
Questionando-se sobre o que seja a Justiça, decerto que, em qualquer mente, ocorre a impressão de anterioridade e a universalidade de sua petição, porque a Justiça, propõe-se sob o aspecto de esperança frustrada, exigência revigorada por uma constatação de injustiça, denunciada como escândalo que clama por julgamento. A Justiça corresponde a uma das mais antigas aspirações do Homem, em todas as sociedades, para lá da sua organização ou do seu sistema, por-
construindo De que falamos quando falamos de Justiça: Tipos de Justiça
que o Estado, sempre se constituiu baseado na função da Justiça, tanto assim é que na Antiga Grécia, a função da Soberania, teve um papel comparável ao que se manteve nas grandes Civilizações do Médio Oriente, em que o Rei, mantendo um vínculo com os deuses, esse vínculo fazia dele um “mestre de Justiça”. A elaboração conceitual da noção da Justiça, relaciona-se com a emergência da razão através dos processos judiciários da Grécia Clássica. O julgamento, na Grécia Clássica, era inicialmente a consequência da conclusão deduzida de uma formalização de mate-
sentimento de Justiça, e daí que, não há que haver surpresa, face a dificuldade em determinar e estabilizar o conceito de Justiça, porque provém de um julgamento meditativo ficticiamente corrector de uma situação de iniquidade. O conflito entre as diversas concepções de Justiça, remonta à Antiguidade. Platão observou que o desacordo dos Homens, no que diz respeito ao que é justo ou injusto, é tal que eles são capazes de se matar. Aristóteles considera que as querelas em torno de um conceito de Justiça colocam-no diante do desafio de efectuar uma
riais de inquérito, antes de
análise filosófica sobre o bem
ser analisado pelos filósofos
e o justo.
na sua única dimensão lógi-
Enfim, os Séculos e os
ca, ou antes que se ques-
Sistemas políticos sucedem-
tionassem sobre a questão
se e os Homens nunca estão
da essência dos valores
de acordo sobre a justiça que
que implicam julgamento de avaliação,
gostariam de promover. Não
particularmente
se encontra consenso, mes-
moral.
mo na mais profunda reflexão,
Essas avaliações não
os filósofos não chegam a um
partiam de um conhecimento claro do que seja a Justiça, foram antes de tudo, as trevas e a amargura das situações ou dos acontecimentos, que ferem a alma humana, que traçaram o caminho de uma reflexão sobre o que é a Justiça, à qual, os Homens aspiram. Portanto, é a injustiça, experiência mais comum dos Homens, que suscitando revolta, faz nascer o
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acordo sobre os princípios da Justiça e os Juristas ficam sempre tentados pelo Positivismo que corta o nó górdio entre o Direito e o Facto em beneficio do estado das coisas. E daqui resulta que haja da Justiça: 1. Justiça distributiva, em que as representações parecem ser o ideal, é algo como um esquema que é emprestado ao Registo da Partilha, da distribuição, tendo-se as partes na igualdade,
11
o d n i u r t s n co O conceito de Justiça, envolve uma normatividade estabelecida e normas instituídas, sem as quais,
igualdade das relações ou proporções, de modo
Entretanto, nesses moldes, vêm-se escalpeliza-
que a cada um, aquilo que é seu (função distri-
das a virtude de Justiça, a Justiça social, a Justiça
butiva da justiça).
política e a Justiça Judiciaria. A polissemia do termo
2. O Gládio e a Balança, dois pesos, duas medi-
“Justiça” indica que com essa noção, encontrar-nos-
das, símbolo da justiça herdado do Egipto Anti-
emos diante de um jogo decisivo para a existência
go. A balança sugere que a medida e o equilíbrio
humana. Trata-se de restituir a cada um aquilo que
são seus atributos eficientes acompanhados do
lhe é devido de maneira a estabelecer ou restabele-
gládio que se abate sobre aquele que compro-
cer uma igualdade, uma simetria quebrada. Trata-se
meta a paz, que a lei faz reinar. A justiça, é apre-
de reivindicar algo, de encetar processos em tribu-
sentada como uma virtude individual e depois
nais ou de reconhecer a rectidão ética e coragem
é apresentada como qualidade das estruturas
dos “Justos” em tempos difíceis, tempos cheios de
básicas de uma sociedade concebida como pro-
terror, em que a Justiça se põe em questão, como
cesso distributivo. O senso comum compara a
virtude excelente.
Justiça, à qualidade, mas também é tida como
O conceito de Justiça envolve uma normativida-
algo que se exprime na decisão judiciária e diz-
de estabelecida e normas instituídas, sem as quais
se, “a Justiça é feita”, como se a pena aplicada
a coexistência humana é abandonada ao caos. Des-
ao culpado, restituísse o equilíbrio que o crime
se modo, a questão da justiça, convida-nos a uma
donada ao caos.
rompeu. Ainda, a Justiça é tida como um poder,
reflexão sobre a ética, que é o estudo normativo so-
Desse modo, a
exercido por aquele que é encarregado de per-
bre os bons costumes, reflexão sobre as maneiras
severar o direito de cada um e diz-se, “a Justiça
de viver e de agir, desembocando na instauração de
decidirá”. Ainda, a Justiça é tida como Institui-
regras de vida.
a coexistência humana, é aban-
questão da Justiça, convida-nos à uma reflexão sobre a ética e sobre as maneiras de viver e de agir, desembocando na instauração de regras de vida.
ção, uma administração, tribunais onde a Jus-
A Justiça depreende-se ainda da sede do justo
tiça é aprendida, sendo o Ministério da Justiça,
que o Homem sente no seu coração, na expectativa
a Instituição que carrega variados Sectores aos
de reparação dos danos sofridos, uma necessidade
quais se indigita a mediação jurídica (Justiça Ju-
que está além do desejo de vingança; exigência da
diciária).
inteligência ávida de saber quem é o culpado, onde
3. A Justiça, relacionada à prática Social, pressu-
está o mal; porque a razão apaixona-se pela clareza
põe o conceito de um direito Supremo, de uma
e escandaliza-se com o facto de os culpados não
obrigação absoluta a respeito da humanidade de
serem castigados, indignando-se quando a verdade
cada um, inclusive dos criminosos, têm direito à
é dissimulada.
defesa, sendo conceito condutor de Justiça o de
Por isso, eu concordo que a Justiça tem como
não tomar a violência e o arbítrio como principio
tarefa fundamental encontrar o equilíbrio entre os
de comportamento ou como argumento. Nesse
interesses conflituantes, proferindo o direito de cada
sentido, a Justiça contêm um grau de norma-
um e remetendo os Homens à uma co-responsabili-
tividade Suprema e esse grau qualifica-se de
dade relativa à sua própria organização real, já que
“moral” no sentido estrito do conceito, ideal nor-
a Justiça deve almejar o bem comum, levando em
mativo que permite julgar e criticar o poder polí-
consideração os interesses de todos, sem excepção,
tico, Instituição encarregada de fazer respeitar a
tendo em mira um bem que transcenda a particulari-
legalidade. A Justiça é tudo isso e muito mais.
dade de cada um para dar vida à comunidade.
12
Juiz Francisco Bernardo
Mosaiko inform
Entre... A Comissão Mista dos Direitos Humanos do Kwanza Norte (CMDHKN) foi criada em 1999, na sequência de um Seminário de Formação sobre Direitos Humanos que foi orientado pelo Centro Cultural Mosaiko, a pedido do pároco da Sé Catedral. Nascida em contexto de guerra, foram muitas as dificuldades encontradas pela Comissão para levar a cabo a sua missão: promover os Direitos Humanos no Kwanza Norte. Mas nunca desistiu. E em 2009, data em que a Comissão comemorou 10 anos de existência, os seus estatutos foram publicados no Diário da República. Para saber mais sobre as actividades da CMDHKN, o MI entrevistou o seu presidente, o padre Bernard Duchêne(PD). MI. O que é a Comissão Mista dos Direitos Humanos do Kwanza Norte?
missão que continuasse o estudo, e sobretudo se preocupasse em fazer conhecer esta mesma
PD. A Comissão é uma Associação de âmbito provín-
DUDH. A Comissão com os seus 15 membros
cial cujos Estatutos foram publicados aos 13 de
fundadores chamou-se Comissão Mista dos Di-
Abril de 2009 no Diário da República. O objectivo
reitos Humanos. “Mista”, em consideração à di-
geral é divulgar e promover os Direitos Humanos
versidade dos seus membros vindos de diversas
no Kwanza Norte, colaborar com os diferentes
Igrejas. O primeiro presidente eleito fui eu, Padre
sectores da sociedade para a promoção da convi-
Bernardo Duchêne, pároco da Paróquia S. João
vência social pacífica e encaminhar casos de vio-
Baptista, o vice-presidente, o
lação dos direitos fundamentais às autoridades
Reverendo Pastor Afonso
competentes e acompanhar a sua tramitação.
Zumu,
MI. Quando é que foi fundada e quem é que esteve envolvido nesse processo? PD. A nossa Comissão foi fundada em 1999, após a realização de um seminário, na Paróquia S. João Baptista de Ndalatando, conduzido pelo Centro Cultural Mosaiko sobre o tema da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A iniciativa foi do CCM com o qual estavamos em contacto através dos estagiários enviados pelo ICRA- Educadores Sociais. Esses Educadores Sociais formados no ICRA começaram a estagiar na nossa Paróquia a partir de 1997, especialmente na área da alfabetização, mas com muita abertura à dimensão dos Direitos Humanos. No primeiro seminário de Abril 1999 participaram 78 convidados, na maioria quadros tanto do Governo Provincial, como do Ministério do Interior, do Tribunal, das Autoridades Tradicionais e Religiosas e mais Professores, Catequistas e Jornalistas. Depois de cinco dias de estudo sobre os artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a assembleia decidiu, com um certo entusiasmo, criar uma Co-
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Superintendente
da Igreja Metodista Unida em Ndalatando. Os membros, tanto os da direcção como os outros, eram todos pessoas adultas com responsabilidade profissional, apenas dois ou três eram jovens estudantes, e uma religiosa, a Irmã Julieta da Congregação JMJ, ficou como Secretária da Comissão. O contexto de guerra não facilitava o trabalho das nossas reuniões quinzenais e muitos membros foram-se afastando, a começar pelos jornalistas. Ainda que só com o estudo da DUDH e da sua presença nos artigos da Lei Constitucional o impacto era discreto; era frequente ouvir, mesmo com uma certa reserva já, que em tempo de guerra não há Direitos Humanos. Contu-
13
vista
vista
entre... do, um dos membros, o hoje falecido Francisco
Afonso Mbinda, tirar da comarca dois detidos que
Correia, Secretário do Governador, conseguiu
tinham cumprido a sua pena havia mais de 18
levar uma comitiva constituída por membros do
meses. Outros casos depois de dois, três e mais
Governo Provincial e Municipal a realizar uma
anos não tiveram solução até hoje.
visita à Comarca de Ndalatando para inteirar-se das condições de vida dos detidos; o resultado foi o envio pelo MINARS de colchões e outros bens
MI Quais são os casos que a CMDH acompanha e em que fórum? PD. Os casos tratados são excesso de prisão preventiva, procura de liberdade condicional, negligência
aos detidos. MI. Quais são as principais actividades da Comissão para alcançar os seus objectivos? PD. Durante os primeiros anos o esforço era orientado para o conhecimento e a divulgação da DUDH com as suas referências na Lei Constitucional. Em paralelo, o esforço para entender um pouco o funcionamento da Justiça porque as queixas
médica, feitiçaria, pequenos furtos, homicídios, litígio habitacional, terrenos, prisão arbitrária. A Comissão acompanha, faz-se presente no dia do julgamento e em alguns casos participa no processo, há queixas apresentadas à Procuradoria, há intervenções junto da DPIC. MI. Quais são os critérios de selecção dos casos?
Perfil de
eram muitas. E aqui destacamos o Seminário so-
Pe. Bernard Duchêne
bre os mecanismos legais de defesa dos Direitos
PD. O grande critério é o sentimento de frustração
Humanos com o jurista Bessa. Este seminário foi
que pode ter o detido ou a sua família perante a
repetido por diversos Juristas, mormente Lima de
situação na qual ele se encontra. É por isso, que
Oliveira e Lemos. Palestras foram feitas na Co-
queremos um acesso bastante fácil à Comarca
marca e nos Municipios e no Hospital Provincial,
para podermos ouvir o detido e, eventualmente,
bem como por um debate de duas horas na Rádio
convencê-lo a se conformar se tudo parece legal.
É natural de Baugé, França. Fez a licenciatura em Teologia,
na
Universidade
Provincial... Outra actividade simples mas bem
Só podemos propôr a nossa intervenção quando
Gregoriana de Roma, entre
acolhida e eficaz: a distribuição do calendário de
a pessoa está sem recurso financeiro ou huma-
1965 e 1969.
parede editado pelo Mosaiko e pela ADRA sobre
no para se defender. Nos casos de acusação de
Camarões
os Direitos Humanos aos Comandos da Polícia,
violação gostaria que fossemos mais presentes
França,
aos Governos Provincial e Municipais, ao Minis-
porque há perigo que a acusação seja, às vezes,
tério do Interior, ao Tribunal, Procuradoria, DPIC,
logo uma condenação.
Trabalhou
nos
(1969-1972),
em
(1972-1976) e desde 1977 está em Angola. Assumiu a paróquia
da
Sé
Catedral
Escolas etc ... Logo no princípio, assumimos a tentativa de defender detidos que nos pareciam
MI Tem havido morosidade na resolução dos casos que encaminham às autoridades?
terem qualquer motivo para ser ajudados, o que
PD. A maior dificuldade com a qual nos deparamos
rapidamente exigiu o apoio de um advogado esta-
é na DPIC, é lá onde parece nascer o maior sen-
giário. A primeira foi uma Senhora, a Dr Celmira,
timento de frustração, em particular por pessoas
depois o Dr. Afonso Mbinda, o Dr. Eugénio, o Dr.
analfabetas que se queixam de não terem sido
Pessoa e, ultimamente, as Dras Flora e Faustina.
nos do Kwanza Norte na
ouvidas ou que não foram tomadas em considera-
Há a assinalar também a tentativa de programa
qual ocupa o cargo de Pre-
ção. Depois, as declarações da DPIC chegam ao
na Rádio Provincial sobre os trâmites da Justiça,
sidente.
Juiz como verdades, certezas. Há outros casos
mas deu muito pouco porque era em parceria com
que mesmo sem serem arquivados vão se per-
o pessoal da Procuradoria e do Tribunal, que di-
der no silêncio e no esquecimento. Se a lentidão
ficilmente encontra tempo para esse serviço. Em
pode ser uma virtude da Justiça, às vezes pode
geral, estávamos mais ou menos bem sucedidos.
aparecer como pretexto para enterrar casos. Ou-
O melhor foi conseguir, pela perseverança do Dr.
tras vezes somos reenviados da Comarca para o
de
Ndalatando
em
1995
até à actualidade. É membro fundador da Comissão Mista de Direitos Huma-
a
14
Mosaiko inform
entre... Tribunal e vice-versa, mormente quando se trata da famosa “cópia de sentença” para a liberdade condicional.
vista
MI. Que mensagem deixa para as pessoas que trabalham para que haja mais justiça? PD. Se me permitem, gostaria de transmitir a meto-
MI. Qual é a relação entre a Comissão Mista de
dologia da CMDH : “Dar a conhecer e, na medida
Direito Humanos do Kwanza Norte e as Insti-
do possível, dá-la a conhecer às próprias auto-
tuições Públicas?
ridades que deveriam ser, por norma, os seus
De maneira geral e isso desde a sua fundação em
primeiros defensores, já que estes Direitos se
1999, a nossa Comissão tem recebido bom aco-
encontram na Lei Constitucional. Anunciar esses
Direitos Huma-
lhimento da parte dos órgãos estatais e podemos
Direitos Humanos, não como grito de vingança,
dizer compreensão e, muitas vezes, apoio para
mas como proclamação de uma boa nova que
nos, não como
facilitar o nosso trabalho. Os mesmos órgãos a
ilumina e reconforta, muitas das vezes em primei-
grito de vingança,
nível dos municípios do interior da Província reve-
ro lugar, os encarregados de fazer aplicar a Lei
mas como procla-
lam-se, às vezes, com desconfiança mas normal-
porque reconhecem que poderiam fazer respeitar
mente conseguimos ultrapassar estas reacções.
a Lei sem se atirar, em nome da autoridade que
Certamente que a publicação no Diário da Re-
detêm, à violência e outras violações dos direitos
nova que ilumina
pública dos Estatutos da CMDHKN é um “passe”
da pessoa humana e, assim agindo, respeitar os
para identificar os membros da Comissão na Sede
direitos da pessoa humana, obedecendo à Lei.
e reconforta os
e nos Municípios contribui para este clima de con-
Neste sentido, o descobrir como a DUDH está na
encarregados de
fiança. Todos os Seminários organizados desde
Lei Constitucional liberta a consciência de quem
há dez anos foram abertos pelo Governador ou
quer agir bem. Esta descoberrta, tomada de cons-
fazer aplicar a Lei
por um dos seus representantes e em geral foram
ciência, alegra e reconcilia o cidadão que supor-
facilitados pelo Governo. A Segunda Conferência
tava passivamente as violações dos seus direitos
cem que poderiam
Provincial da Sociedade Civil do Kwanza Norte,
e os do vizinho, porque, por ignorância, tinha um
realizada em 2009 teve o apoio do Governo Pro-
olhar pessimista e resignado sobre a realidade.
fazer respeitar a
vincial, do qual recebemos uma verba. MI. Como tem sido a relação com a Igreja local e as Organizações da Sociedade Civil? Quais são os desafios que antevê nesta relação?
MI. Qual é o reconhecimento da Comissão pela população e as autoridades do trabalho desenvolvido no meio local? PD. Fomos convidados duas vezes a participar na
Anunciar esses
mação de uma boa
porque reconhe-
Lei sem se atirar, em nome da autoridade que detêm,
Com a Igreja Católica, pelo menos com o seu
reunião trimestrial da” Família da Justiça” do
à violência e ou-
Bispo Dom Almeida Kanda, as relações são exce-
Kwanza Norte, convidados em 2007 para a elabo-
lentes. Com as outras Igrejas poderiam ser mais
ração dos Relatórios dos Tratados Internacionais
tras violações dos
intensas. Mas encontramos a mesma dificuldade
de Direitos Humanos de Angola, orientada pelo
direitos da pessoa
com a Igreja Católica, poderia ter mais cristãos
Ministério das Relações Exteriores; convidados
humana.
comprometidos sobretudo na Comissão da Sede,
nos CACS Municipais e no Provincial.
Ndalatando. Desde 2008 é a nossa Comissão
Quanto ao Povo em geral, podemos medir o seu
que reúne as várias Associações e ONG da Pro-
conhecimento da CMDH KN e o impacto desta na
víncia para preparar a Primeira e depois a Segun-
vida social da Província pelo facto de que sempre
da Conferência Provincial da Sociedade Civil e a
há quem venha recorrer aos nossos serviços para
Sub-Comissão de Dondo/Cambambe foi escolhi-
assuntos que dizem respeito à Justiça, mesmo se
da para preparar, no Dondo, a Terceira Conferên
muitas vezes não conseguimos grande coisa.
cia Provincial da Sociedade Civil este ano.
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15
Mónica Guedes
o d n i t c e Refl e colaboração dos cidadãos sob pena de ficar sem
As responsabilidades do Estado e do Cidadão no Acesso à Justiça
elementos suficientes para decidir o que é bom e o que não é, o que é justo e o que não é, enfim, sob pena de ficar sem elementos para fazer justiça. Continuando, afirmamos ser responsabilidade do Estado aproximar cada vez mais as instituições de Justiça dos cidadãos, desburocratizá-las, torná-las céleres de tal modo que o recurso às mesmas não seja sinónimo de perda de tempo, desgaste físico,
O Estado, enquanto órgão que age em representação dos cidadãos politicamente organizados, tem a obrigação de criar condições de índole política, legislativa, judicial, administrativa, humana, técnicas, materiais, financeiras, etc.
Somos Seres Humanos, portadores de direitos e
emocional e quiçá patrimonial para os cidadãos a
deveres dentre eles o direito à Justiça nas suas mais
ponto destes abdicarem desse direito básico; é ain-
variadas nuances: conhecimento, acesso, exercício,
da responsabilidade do Estado garantir que o acesso
protecção … que fazem dele um direito cívico, um
à Justiça seja feito de modo contextualizado às ne-
direito de cidadania, um direito de que tanto se pode
cessidades reais dos cidadãos e do país a ponto de
usufruir como abdicar.
encontrar formas alternativas legalmente aceites de
Partindo do princípio que a constatação supra é
fazer justiça que sejam eficazes na salvaguarda de
verídica constatamos que não basta termos cons-
direitos fundamentais dos cidadãos sempre que haja
ciência que devemos recorrer à Justiça para fazer
efectiva ou se esteja na eminência de violação dos
valer os nossos direitos, tem de haver no outro pólo,
mesmos.
e como responsabilidade do Estado, enquanto órgão
Quanto à nós recorrer, aceder, accionar os ór-
que age em representação dos cidadãos politica-
gãos de Justiça sempre que for necessário fazer va-
mente organizados, a obrigação de criar condições
ler os nossos direitos responsabiliza-nos e muito pois
de índole política, legislativa, judicial, administrativa,
só assim, para além de salvaguardarmos as nossas
humana, técnica, material, financeira, etc. que não
legítimas expectativas, defenderemos o direito ao
só atestem a natureza básica de tal direito como per-
acesso à Justiça, elevando-o sempre e bem alto a
mitam ao cidadão aceder à Justiça e sentir que ela é
padrão de direito fundamental, essencial, básico e
eficaz ao realizar e assegurar os seus direitos.
por isso constitucionalmente consagrado.
Questionamo-nos: quem tem afinal responsabi-
Concluindo, quanto mais recorremos e acedemos
lidades no acesso à ustiça? O Estado? O Cidadão?
à Justiça, accionando os órgãos vocacionados para o
Ambos porque estão irremediavelmente ligados, os
efeito - Polícia, Procuradoria, Tribunais, Provedoria,
dois caminham juntos, um (Estado) em regra só ac-
… - mais o Estado melhora a qualidade dos serviços
tua se for accionado pelo outro (cidadão), ou um (Es-
prestados nessa área, serviço esse que, para além
tado) presta um serviço de qualidade quanto mais for
de ser visto e sentido pelo cidadão, porque próximo
accionado e subsidiado pelo outro (cidadão), ou ain-
a si, actuará pedagógica e preventivamente evitando
da um (Estado) só é accionado pelo outro (cidadão)
o recurso à justiça privada, a práticas costumeiras
na medida em que conheça os seus órgãos, os sinta
atentatórias da dignidade e direitos da pessoa hu-
próximos de si e neles confie; até naqueles casos em
mana, a falta de transparência, etc. Pelo que, exor-
que se diz que o Estado é o dono da acção e pode
tamos: queremos ter acesso à Justiça? Recorramos
realizá-la lançando mão do seu poder coercivo (ex:
a ela.
nos crimes públicos) tem de contar com os subsídios
16
Dra. Elizete da Graça
Mosaiko inform
reflectindo Acesso à Justiça em Angola Relativamente ao acesso à Justiça surpreende-
natureza. As garantias fundamentais de processo
se, no novo quadro constitucional e não só, um dis-
saíram reforçadas e com elas os mecanismos de
tanciamento entre o acesso à Justiça consagrada
salvaguarda do direito à Justiça.
e pretendida e a prática recorrente dos agentes e
Não nos restam dúvidas de que o quadro
fazedores do Direito e garantes da Justiça e do seu
jurídico-constitucional está, quanto ao acesso à
acesso. O quadro constitucional angolano consa-
Justiça, conforme o exigido universalmente, não
gra o “Direito a julgamento justo e conforme” (artigo
obstante faltar a consagração expressa do princí-
72.º), “direito de petição, denúncia, reclamação e
pio do acusatório, corolário da imparcialidade dos
queixa”(artigo 73.º), “Direito de acção popular” e se
Tribunais e dos Juízes, que pressupõe uma fase
vê complementado na DUDH(1) (artigos 10.º e 11.º
de investigação dominada pelo Ministério Público,
n.º 1), no PIDCP (artigo 14.º), e na CADH
em que se define o objecto do processo e uma fase
(2)
(3)
(ar-
tigo 7.º).
de julgamento dominada pelo Juiz, impondo uma separação funcional entre o MP e o Juiz e entre o Juiz da pronúncia e o Juiz da causa. A garantia de que o Juiz de julgamento não esteja implicado na definição do objecto do processo é conatural a imparcialidade do próprio Tribunal. O princípio do acusatório representa, pois uma concretização constitucional do princípio da imparcialidade do Tribunal, apesar de se poder extrair do disposto do predito artigo 72.º da CRA. À margem do quadro jurídico-costitucional e das normas ordinárias, anteriores à CRA, que irão reclamar uma reforma, existe uma praxis e um modus operandi que ficam aquém do desejado, nomeadamente:
Assim, do ponto de vista da teoria, temos uma
1. Uma mentalidade judicial e judiciária virada e
consagração substantiva do direito à Justiça e
“formatada” para a presunção da culpa. Tradu-
aquelas disposições da CRA(4) fazem parte de um
zindo-se em detenções, prisões e condenações,
todo, quando conjugados com o conteúdo do arti-
que violam o princípio da verdade material e do
go 67.º também da CRA, aplicável mutatis mutandi
corpo de delito, fundadas apenas na convicção
a todos os processos independentemente da sua
de que quem instruiu o processo fê-lo tão bem
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17
1
Declaração Universal dos Direitos Humanos.
2
Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos.
3
Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos.
4
Constituição da República de Angola.
o d n i t c e refl que ao arguido cabe provar o contrário e um
através dos distintos órgãos e meios de comu-
“comodismo investigativo” do Juiz da causa
nicação;
quer na sindicância da instrução preparatória,
5. Uma (in)consciência popular de presumir que
quer na quase ausente “ousadia” para requer
uma pretensa denúncia nos meios de comuni-
vistorias, exames e perícias na maioria dos ca-
cação social sirva para defender as suas legíti-
sos;
mas expectativas.
2. Ausência marcada na instrução de processos
Tudo isto faz-nos depreender que, sendo o Di-
relativos às arbitrariedades dos “agentes” da
reito uma ciência prática, estuda o ordenamento ju-
administração pública na concessão de terre-
rídico na perspectiva da positividade; tendo em vista
nos e a consequente expropriação, despejos
a intencionalidade normativa, interpreta as normas
e demolições sem causa e fundamento legais
vigentes, elabora conceitos e ordena-os com o fim
e desacompanhada da competente compensa-
de resolver os casos concretos. É a via da dogmá-
ção;
tica jurídica que indica e deve presidir a qualquer
3. Deficiência funcional dos Tribunais, quer por exiguidade de Magistrados, quer pela ausência efectiva de Tribunais. Desproporção percentual entre o número de Tribunais para cada percentagem de habitantes. Ausência efectiva de Tribunais em quase toda a extensão territorial do país, caracterizado pela “capitalização” dos Tribunais, o que impede que cidadãos residen-
ilação sobre “o que é”. Entretanto esta dogmática
tes nas circunscrições administrativas distantes
bem concebida contrasta, no ordenamento jurídico
das capitais provinciais ignorem a existência de
angolano, com o distanciamento efectivo do aces-
Tribunais que assegurem os seus direitos e le-
so à Justiça, o que nos permite concluir que há,
gítimas expectativas.
na prática, uma efectiva fragilidade no acesso à
4. Surdina dos Magistrados competentes para
Justiça.
abrir inquéritos e apurar a veracidade das informações veiculadas por denúncias populares
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Dr. Benja Satula
Mosaiko inform
reflectindo Um dos maiores pilares para o crescimento de termos de orientação qualquer país é a educação dos seus cidadãos. Sendo cívica e jurídica, e um aspecto multifacético, a educação abrange mais do por isso temos a que a instrução propriamente dita, ela deve ser global, responsabilidade e como traço fundamental temos a educação cívica e de fazê-lo bem, jurídica dos cidadãos.
pois a questão da
Em Angola, a educação moral e cívica e principal- educação mente o conhecimento básico dos direitos e deveres pode
cívica
tornar
do cidadão pelo próprio, ainda é muito fraco. Este fac- pessoas
as
agressi-
to deve-se não só à falta de pessoal qualificado para vas à medida que formar e fazer face a um nível de exigência educacio- se vão apercebennal tão grande, como também ao deficiente acesso a do de determina-
O contributo do Mosaiko na formação cívica e jurídica dos cidadãos
algumas aldeias e comunidades, à língua, bem como das realidades e particularidades inerentes aos diferentes povos exis- da quantidade de direitos seus que têm sido violados. tentes (factor cultural), o que leva maioritariamente à Mais do que formadores, somos hoje formadores de inexistência de cultura “cívico-jurídica”, entre nós.
formadores, uma vez que, desde o seu surgimento, o
Ao longo dos anos, o Centro Cultural Mosaiko CCM deu o seu contributo para a formação de várias (CCM) foi crescendo e marcando passos. Claro que pessoas individuais e colectivas que vão transmitindo tem enfrentado vários obstáculos. Considerado como o que aprenderam e vão incentivando outras pessoas um dos principais veículos na transmissão das men- a criarem o gosto pela cultura cívica e jurídica. sagens, a barreira linguística, ultimamente, tem vindo
No sentido de ampliar o seu campo de actuação e
a ser ultrapassada com a colaboração de tradutores melhor fazer chegar a sua mensagem, o Centro Cultulocais.
ral Mosaiko tem publicado alguns manuais que servem
Trabalhando em educação cívico-jurídica desde de referência e reforço não só dos seus formadores 1997, temos na bagagem centenas de seminários e mas de todas as pessoas interessadas em transmitir palestras bem como outras participações de vária or- os conhecimentos cívicos e jurídicos. Podemos citar o dem, várias publicações, tanto na língua oficial, como manual de formação em Direitos Humanos, que serve em línguas nacionais, a edição de documentos que não só de auxílio aos formadores do Mosaiko como já dão um maior ênfase a transmissão da sua mensagem referimos, mas serve também de material de consulta às populações. O CCM tem deixado a sua marca na para estudantes de Educação Moral e Cívica e estusociedade angolana, e hoje é, um dos colossos em ter- dantes de Direito. Outro grande passo dado no sentido mos de educação cívica e jurídica dos cidadãos.
de eliminar barreiras foi a publicação da brochura “ O
Por outro lado, notamos que vai aumentando a cidadão e a política” que foi traduzida para várias línresponsabilidade social, não só do CCM, como tam- guas nacionais, aumentando e diversificando assim os bém de outras organizações no sentido de levar estes seus destinatários. conhecimentos às comunidades. Isto advém de um
Todo este trabalho é resultado de muito esforço e
reconhecimento do grande trabalho que este organis- dedicação, pois, aquando do seu surgimento, em 1997, mo tem realizado, individualmente ou em conjunto com com apenas duas pessoas a trabalharem a tempo inoutras organizações, aumentando o seu espaço de teiro e uma, a tempo parcial, nunca se pensou atingir abrangência. Assim se vão desbravando outros terre- os patamares que foram atingidos. Hoje podemos connos e não são raras as vezes que se ouve dizer “nunca cluir que somos mais do que uma agulha num palheiro nos tinham dito isso”.
em termos de educação cívica e jurídica.
O CCM foi um dos primeiros, se não o primeiro organismo a ter contacto com certas comunidades em
Nº 06 / Março 2010
Dra. Faustina Icaia
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s e v e r b R evisão P eriódica
A provada
universal de
nova
C onstituição A ngolana
A ngola
No dia 1 de Setembro de 2009, foi enviado ao Alto Comissariado
A Constituição da República de Angola
da ONU para os direitos humanos, um relatório sobre a situação dos
de 2010 foi aprovada pela Assembleia Cons-
direitos humanos em Angola elaborado por um grupo de 10 ONG’s e
tituinte a 21 de Janeiro de 2010 e submeti-
associações de Angola.
da à apreciação do Tribunal Constitucional
A sessão aconteceu em Genebra- Suiça, no dia 12 de Fevereiro de
que produziu o Acórdão nº 111/2010, de 30
2010. Estiveram presentes diversos Estados com representação junto
de Janeiro de 2010. Este Acórdão permitiu
do Conselho de Direitos Humanos, como a Santa Sé, oficiais do Alto
a correcção e a aprovação final da Consti-
Comissariado para os Direitos Humanos e representantes dos relatores
tuição pela Assembleia Constituinte a 3 de
especiais dos direitos humanos da ONU. Angola fez-se presente por
Fevereiro de 2010 e a assinatura do Presi-
uma delegação sua.
dente da Assembleia Nacional. O Presidente da República promulgou-a a Analisando o relatório do
5 de Fevereiro de 2010.
Estado Angolano, a maior
Esta Constituição contém 244 artigos e reparte-se em 8 títulos. Os
parte dos países presentes
títulos, por sua vez, são divididos em capítulos e os capítulos em secções.
reconheceu os esforços em-
A Lei-Mãe de Angola está estruturada da seguinte forma:
preendidos por Angola, entre
> Título I - Princípios Fundamentais (artos 1º a 21º)
outros, na recuperação de in-
> Título II - Direitos e Deveres Fundamentais (artos 22º a 88º)
fra- estruturas sociais e eco-
> Título III - Organização Económica, Financeira e Fiscal (artos 89º a 104º)
nómicas, na consolidação da
> Título IV - Organização do poder do Estado (artos 105º a 109º)
paz e na normalização insti-
> Título V - Administração Pública (artos 198º a 212º)+
tucional, mas também reco-
> Título VI - Poder Local (artos 213º a 225º)
nheceram várias violações de direitos humanos. Estas intervenções
> Título VII - Garantias da Constituição e Controlo de Constitucionalidade
basearam-se em grande parte nas informações disponibilizadas pelo
(artos 226º a 237º).
Estado angolano. No dia 10 de Junho do corrente ano, o Estado Ango-
> Título VIII - Disposições Finais e Transitórias (artos 238º a 244º)
lano vai pronunciar – se diante da Comissão de Direitos Humanos sobre
Se, no título dos direitos fundamentais o novo texto constitucional tem
as recomendações e sugestões apresentadas pelos estados membros
reunido consenso, o mesmo já não se diz da organização do poder polí-
nesta fase, aceitando-as ou recusando, no todo ou em parte.
tico.
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