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Te x to D o m Ph i l l i p s Fo to s Lu c i a n a Fa r i a
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EVA um tempinho até Criolo Doido conseguir entrar no show, em um galpão ao lado da represa do Grajaú, Zona Sul de São Paulo. Há colegas para abraçar, fãs que querem cumprimentá-lo e entrevista para um canal de internet e vídeo da revista internacional Vice. Alto, de camiseta do Corínthians, chapéu de palha na mão e com os pais, Cleon e Vilani, do lado, ele é difícil de ignorar. Lá dentro, em pleno final de tarde quente de domingo, o ambiente está intenso. O calor e a animação da plateia vão aumentar enquanto anoitece. “Tá gostando?”, diz a rapper Flora Matos, de boné e regata. A galera grita. São oito MCs, incluindo Emicida, Rincon Sapiência e Criolo. O Festival chama-se Dialeto 2, um evento independente que foi criado sem patrocínio. “Reunir pessoas é como um ritual indígena”, observa Criolo. “Não é só música. A diversão é 61 janeiro/fevereiro 2011
conhecer pessoas e suas ideias.” Dizem que o hip-hop nacional é marginal. Para essa galera do Grajaú, é fundamental. É no marginal de São Paulo que o hip-hop paulistano vive e respira. As periferias da cidade são o lar dos artistas mais originais e talentosos. É em lugares como o Grajaú que eles criam, fazem e tocam suas músicas. “O Grajaú tem mais de um milhão de habitantes. São pessoas que lutam para sua felicidade”, diz Criolo. Mais tarde vem a rima: “Um lugar esquecido dentro do Universo se chama Grajaú”. O hip-hop paulistano se identifica muito com o bairro, assim como o hip-hop no mundo inteiro. Porém deveria ser valorizado pelo mérito artístico, e não só pelo contexto social. O hip-hop é uma cultura flexível e funciona para os artistas paulistanos como uma plataforma na qual eles podem produzir poesias urbanas que refletem sua realidade. É música do povo, pelo povo; mas não é só isso. Os MCs têm ‘flow’ –
entrega – e letras vívidas. É música crua e habilidosa. No hip-hop paulistano, o médio é o método, como em toda arte válida. Quando Criolo finalmente entra no palco, de bermuda e camiseta do Corínthians, o ambiente fica elétrico: braços acenam no ritmo das batidas, a plateia canta as letras e o aplauso é geral. Criolo é do Grajaú e rima, em músicas como ‘Grajauex Ensaio’, sobre o lugar e seu povo. As batidas e os graves lembram rappers nova-iorquinos como Nas ou Wu-Tang Clan, mas seu estilo é puramente brasileiro. As letras gingam com facilidade, embora tenham força. Criolo é um cara inteligente e bem-humorado, mas também tem raiva e paixão. “Estamos em um dos extremos da geografia do estado, então, quando é conveniente aos nossos governantes, simplesmente ficamos invisíveis”, diz. O hip-hop dele reflete essa realidade. “Ter voz ou ter a sensação de ter voz é importante a qualquer nação.” www.mixmag.com.br
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Rincon Sapiência fala o que importa em sua ‘Música Preto’
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S INTEGRANTES DO PAGODE da 27 se vestem com as camisetas vermelhas do grupo, que parecem uniforme de um time de futebol. Mais cedo, no mesmo domingo, enquanto o calor perdura no ar na favela do Grajaú e as pessoas se sentam na calçada para conversar, os músicos do Pagode fazem um círculo com cadeiras de plástico em um bar da rua principal e cantam. O sorriso de Criolo está gigante – é uma música que ele escreveu. “Faz cinco anos, todo domingo, que eles tocam aqui”, diz Criolo. “Às oito você não vê o asfalto, de tão lotado.” O próximo disco de Criolo,
que sai em 2011, mexe com outros estilos, como o samba. Criolo vê uma ligação forte do hip-hop com o samba, ambos música de rua, de raiz. “O samba tem um jeito de descrever o cotidiano. Quem gosta de samba entende, é uma língua universal”, explica. Já saiu um vinil seu que tem um toque de jazz. Inclui uma versão nova de ‘Grajauex’, cheia de metais no refrão e com muito funky, e ‘Subirusdoistiozin’, uma faixa de balanço mais lento, melodias e samples de jazz e uma voz meio cantada, meio falada. Na casa onde mora com seus pais há um terraço com vista larga da
favela atrás de uma porta de metal cheia de grafites. Dentro, a família tem um monte de livros – literatura, história, filosofia – e um computador antigo. A mãe, Dona Vilani, toca uma ONG que criou, e uma vez por semana organiza um “café filosófico” na favela para treze pessoas. “Agora estamos começando a estudar e a discutir as obras do filósofo Michel Foucault ”, ela explica. Criolo tem 36 anos e começou a fazer rap em 1989. Está há muitos anos no jogo. “Digo que o rap, em especial, precisa de garganta e ideias. Na época, comprar um instrumento musical era algo praticamente impossível para minha família.” No
carro de seu amigo Nando, um cozinheiro que trabalha no Centro, descemos uma ruazinha que Criolo descreve como a ponte mais perigosa do tráfico. Aqui a subida é puxada, há árvores, grama e casas mais novas. “Há cinco anos atrás, aqui era só mata”, diz.
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MA batida e UM refrão de capoeira retumbam de dentro do galpão do show. É a faixa ‘Música Preto’, de Rincon Sapiência, outra atração. As faixas dele são menos americanas e mexem com outros estilos. Em ‘Elegância-Riscos’, suas linhas secas e eloquentes pegam carona em uma melodia futurística de pura música eletrônica. Hoje, Emicida é um dos grandes ícones da periferia paulistana
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Flora Matos, 22 anos, tem o dom da coisa: é a grande promessa da cena
Como todos os rappers da periferia, ele vê uma separação grande entre os bairros mais carentes e os bairros nobres da cidade. “As diferenças partem de uma longa história: colonização, monopólio, igrejas, extermínio de culturas que não são de origem europeia”, explica. O hip-hop nacional é político, ele não tem medo disso. O Chuck D, líder do grupo Public Enemy, disse que o hip-hop era a CNN da nação negra. Criolo concorda. “Se pegarmos a linhagem étnica das
“Estamos em um dos extremos da geografia do estado, então, quando é conveniente aos nossos governantes, simplesmente ficamos invisíveis” Criolo Doido pessoas que moram na periferia, encontramos o DNA dos colonizados, afrodescendentes e indígenas,” diz Rincon. Chuck D gostaria dessa frase. Nos Estados Unidos, o hip-hop sempre fez parte do mundo capitalista: a grana é um dos seus assuntos favoritos. O hip-hop entrou na cena musical americana com força comercial depois do
enorme hit ‘Walk This Way’, em 1986, da banda Aerosmith, com o grupo de rap Run DMC. O hit casou rock e rap. Virou uma parte da cultura mainstream. Hoje em dia seria impossível imaginar os hits de Madonna, Beyoncé, Lady Gaga ou Ke$ha sem os toques de hip-hop ou as colaborações de rappers famosos. No Brasil, o rap nacional existe desde a década de 80 e criou artistas como Os Racionais e Mano Brown. Apesar disso, nunca foi adotado com força pela classe média, como foi nos Estados Unidos depois do sucesso do grupo branco Beastie Boys. No Brasil, o hip-hop e as pessoas que o criam moram bem longe do centro, do mainstream. Tanto que quando a cantora pop Wanessa Camargo quis mexer com hip-hop, convidou um rapper americano – o Jarule –, e não um rapper brasileiro. O Criolo é um artista independente. Recentemente, Rincon assinou com o Selo Midas Music, do produtor Rick Bonadio. Porém, não é fácil ganhar a vida com hip-hop, ele informa. Rincon tem um filho de dois anos. “Nosso mercado ainda não é forte. Não basta somente ser bom, tem que saber jogar.” A situação poderia mudar. Um verdadeiro popstar do hip-hop brasileiro deve aparecer, mais cedo ou mais tarde. O rapper Emicida está fazendo barulho e sucesso na cena pop com seu som mais americano, mais comercial, mas suas letras continuam autênticas. Ele chega ao Festival Dialeto 2 no início da noite com uma turma e uma mala cheia de roupas. “Acho
Fotos D om Phillips
“Gosto da expressão do hip-hop pelo fato de não ser algo uniforme”, diz Rincon. “Posso ser revolucionário como Antônio Conselheiro, com o swing do samba, dançar no palco como fazia Michael Jackson, contar histórias como na música sertaneja, improvisar que nem jazz e partido alto, mas no final das contas, tudo acaba sendo hip-hop.” Aos 25 anos, Rincon é de Itaquera, Zona Leste de São Paulo, outro lugar onde o hip-hop tem relevância, no Conjunto Habitacional Itaquera 01. “É um bairro que tem pessoas influentes ligadas a música, teatro, esporte, movimento negro, política, entre outras atividades”, diz. “O bairro vai receber o novo estádio do Corínthians”, nota. “A abertura da próxima Copa será na minha quebrada, manja?” Mas isso não afasta a criminalidade. “É fácil o acesso à perdição. Andei fazendo uma retrospectiva da rapaziada que cresceu com a gente e é triste: alguns morreram, se perderam no crack, cocaína, alguns estão presos, e já vemos uma nova geração dando continuidade a esse ciclo de forma ainda mais precoce, mas isso não tira o brilho de um lugar abençoado como a Cohab.” Na sua faixa ‘Transporte Público’, ele pinta um retrato colorido do caos da cidade através de um sistema que afeta não só as vidas das pessoas da periferia, mais de todo mundo. “Gosto de mostrar a cara do cidadão paulistano, gosto de fazer música com a qual não só as pessoas ligadas ao rap se identifiquem.”
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Porta-vozes da comunidade: Rincon, Emicida (ao lado) e Flora Matos
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O hip-hop é uma cultura que se adapta bem – seja pop, seja underground. “O hip-hop é universal”, diz Criolo. Na África, o Tupac Shakur é um ícone igual a Bob Marley. Na Colômbia, grupos como Bomba Estéreo e Systema Solar misturam música eletrônica, o estilo champeta e o rap. Em Londres o rap se chama ‘grime’ (sujeira, em inglês), usa bastante melodia dissonante e batida eletrônica, mesmo com o sotaque meio londrino, meio jamaicano, e produziu astros como Dizzee Rascal – hoje em dia, popstar nacional. “Cada país, de acordo com sua realidade, adapta a cultura de sua forma”, conclui Rincon. “Não existe uma cartilha. Por mais que existam pessoas conservadoras, para mim, o grande charme da cultura hip-hop é a liberdade de expressão. Se algum dia a liberdade se perder, a cultura também se perderá.”
www.myspace.com/rinconzl www.myspace.com/floramatosmc www.myspace.com/criolomc O grupo Pagode da 27
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ORA do show e do calor intenso, a rua oferece uma bela vista para a represa, cercada por um parque cheio de àrvores, coisa rara em São Paulo. “Só nos bairros nobres, tipo o Jardins, tem arvores”, diz Nando, o amigo de Criolo. “Na periferia não tem nada disso. Só asfalto.” Mesmo em Nova Iorque, essa selva de concreto inspira a música. O Rio tem natureza, praia e samba. São Paulo tem o hip-hop. “Porque aqui é tudo concreto”, diz Lucinaira Sousa, uma cantora e fã de hip-hop que mora em Guarulhos. “Acho que o lugar tem muito a ver com sua música.” Nessa selva de concreto, a poesia tem de vir de dentro das pessoas, da imaginação e da criatividade. E vem mesmo. Criolo diz que o hip-hop nacional quer muito mais. “No Brasil o hip-hop tem compromisso com a melhoria do nosso povo, eleva a autoestima, gera renda e conscientiza as pessoas de seus direitos.” Ele dá um sorriso, mas em seus olhos não está brincando.
Lucinaira Souza, de Guarulhos
Fotos D om Phillips
importante que a gente faça esse tipo de coisa”, Emicida fala sobre o festival. “Me dá muito orgulho. É um evento bonito.” Emicida cresceu na Zona Norte de São Paulo – outra periferia. Hoje em dia, ele é uma figura conhecida fora do hip-hop, mas ainda não entrou para o mainstream da cidade. “Nos bairros como Jardins, Pinheiros, a gente não se sente confortável. Acabei visitando muito menos do que gostaria”, confessa. “Hip-hop é a voz da favela. O jeito é cru. A gente está construindo uma história.” A rapper Flora Matos, de 22 anos, é outra MC com grande potencial comercial. Filha do músico e compositor baiano Renato Matos, ela sabe bem o que quer. Canta tão bem que rima e troca um estilo por outro sem que você note a diferença. “Desde sempre faço música”, diz. “Desde os catorze tentei fazer rap, porque frequentava os bailes e me identificava com a música.” Ela gosta tanto do rap americano quanto do rap nacional. “O rap nacional tem uma consciência política”, diz. “São poucas mulheres, mas elas estão chegando.” Seu mixtape “Flora Matos vs Stereodubs” é bem produzido, profissional e cheio não só de melodias contagiosas, mas também de hits potenciais. Ela mora na Bela Vista, no centro de São Paulo. No palco, toca um som mais duro e mostra uma garra que deixa o público gritando por mais. Na faixa ‘Pretin’, lança uma batida de funk carioca puro com a letra “você me deixa louca”. Enquanto isso, do seu lado, um rapaz com boné e camiseta de Tupac Shakur apoia seu skateboard deitado no chão. A Flora Matos tem blog, tem site, já apareceu no Multishow tocando ao vivo e está construindo uma carreira com um pé no mundo mais roots do hip-hop e outro na cena de pop geral.
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