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Ta l v e z o g r a f i t e i r o i n g l ê s B a n k s y não seja amplamente conhecido no Brasil, mas ele é o maior ar tista plástico da atualidade. Em abril, levou a ar te de rua para o cinema, dirigindo um filme que já ecoa polêmic a e admiração. Em sua obra há espaço para quase todos os tipos de emoções, menos a indiferenç a. “Uma parede é uma arma muito poderosa. É uma das coisas mais nojentas com a qual você pode atingir alguém” Banksy Ele tem mais ou menos um metro e meio de altura e cabelos pretos, mas não consigo lembrar muito mais de sua aparência”. O jornalista inglês John Mitchell tenta puxar pela memória, mas já faz muito tempo - 13 anos - que entrevistou o mítico Banksy. Ele foi, aliás, uma das poucas pessoas, se não a única, que entrevistaram o grafiteiro cara a cara. “Eu fui até uma garagem minúscula na área de Easton, em Bristol. Passamos a maior parte do dia juntos”. Quando peço para John descrever o estúdio de Banksy, a resposta é exatamente o que eu imaginava. Quase um clichê do que se pensa sobre o modo de vida de um artista de rua: “era um espaço escondido, surrado, cheio de lonas, rascunhos, latas de spray vazias, garrafas velhas de cerveja e pontas de 64 JUNHO/JULHO 2010
cigarro...” Já Tom Bingle, nome real do grafiteiro Inkie, que foi parceiro de Banksy durante alguns anos, vai além: “seu espaço de trabalho é tão esfarrapado quanto ele próprio” e ri. No meio da década de 90, Banksy ainda evoluía para a condição de superstar do grafite e das artes plásticas. Hoje, sua alcunha virou uma grife de sucesso, alimentada pela mitologia criada em torno de sua identidade secreta. Apesar das teorias, ninguém ainda conseguiu bater o martelo sobre o verdadeiro dono da mão que fez com que o público comum abrisse os olhos para o grafite - não só na Inglaterra -, através de estampas criativamente contundentes, gravadas em paredes, carros, fachadas e onde mais ele achasse espaço. Você mata o que é um Banksy na primeira olhada. “Quando eu o conheci, seu estilo ainda estava num estágio embrionário”, lembra John, “mas já dava para ver os elementos pelos quais ele ficou famoso”. Banksy ataca a mediocridade da sociedade, frequentemente retratando homens como ratos ou macacos segurando armas de destruição em massa ou fazendo chacota
sobre o vazio e o excesso de pompa dos ingleses. Seu trabalho carrega um tom pacifista que escancara manobras escusas dos engravatados do poder e desdenha a truculência das autoridades - a gravura de dois guardas se beijando e de outro urinando na parede são algumas das mais conhecidas. A notoriedade de suas obras cresceu com o tempo a níveis estratosféricos, assim como seu valor de mercado: em 2006 sua ilustração da Rainha Vitória tendo relações lésbicas com uma prostituta foi arrematada por Cristina Aguilera por 43 mil dólares, o que não é pouca coisa. Mas hoje, a marca Banksy chega tranquilamente a um milhão de dólares, dependendo do trabalho. Sua arte também decora as casas de Brad Pitt, Angelina Jolie (o casal chegou a gastar U$ 2 milhões em apenas um leilão), Dennis Hopper, Jude Law, Ashley Olsen, entre outros. Este ano, Kate Moss ofereceu cerca de 300 mil dólares para que ele pintasse um muro de sua casa - Moss já foi tema de uma série de seis pinturas em que Banksy, a la Andy Warhol, inseriu o rosto da atriz na cabeça de Marylin Monroe. John Mitchells, lamentavelmente, teve menos sorte: “ele me ofereceu na época suas gravuras por 50 libras cada, mas eu estava sem dinheiro e recusei a oferta. Me arrependo disso.” Certamente ele poderia estar mais rico hoje. “Você poderia dizer que grafite é feio, egoísta e que é só a manifestação de gente que busca algum tipo patético de fama. Se isso for verdade, é só porque os grafiteiros são exatamente como todo mundo dessa merda de país” Banksy www.mixmag.com.br
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ANKSY é o mais importante artista plástico da atualidade. Especula-se que ele tenha nascido em Yate, South Gloucestershire, perto de Bristol. Fruto da cena underground de Bristol do começo dos anos 90, começou desenhando á mão livre, mas percebeu que poderia fazer montagens mais complexas e em menos tempo - e portanto fugiria mais rápido quando a polícia aparecesse - se trabalhasse usando estêncil (tinta aplicada sobre uma máscara de papel), sua marca registrada até hoje. Suas ações, como as de um mito que se preze, tem sido lendárias: já deixou um boneco inflável vestido como prisioneiro de Guantanamo na Disney, pregou sorrateiramente uma versão sorridente da Monalisa no Louvre, passou por alguns momentos de tensão com as forças de segurança israelenses no período em que desenhou nove imagens ao longo do Muro da Cisjordânia, rediagramou a capa e o encarte do CD de estreia de Paris Hilton - fazendo montagens da socialite nua e trocando os nomes das músicas por títulos como “Por Que Sou Famosa?” e “Para Quê Eu Sirvo?”, distribuindo 500 cópias adulteradas por mais de 40 lojas pela Inglaterra (o disco falso vinha com remixes não autorizados das canções originais pelo DJ Danger Mouse). Os mais românticos o consideram o maior anti-herói desses tempos. O vingador mascarado que infringe as leis, gera discussão usando a arte, mas passa despercebido aos olhos públicos. Ele comenta suas improváveis investidas, filosofias e reune fotos em preto e branco de suas obras em três livros curtos lançados entre 2001 e 2004. São quase manifestos. Estão todos esgotados, mas podem ser encontrados em sebos virtuais e sites de leilão on-line. Em 2005, lançou Wall And Piece, outro compêndio de obras e pensamentos, desta vez com uma distribuição mais ampla (disponível na Amazon.com). “Se quer que alguém pare para ouvir o que tem a dizer, você precisa usar uma máscara. Se você quer ser honesto, precisa viver uma mentira” Banksy Em 2004, Banksy contemplou algumas paredes da Jamaica, incluindo o muro de um pub, em Mona Road, onde desenhou uma garota de cabelos esvoaçantes esticando o braço para o que parecem ser dois pássaros estilizados voando. Quatro anos mais tarde, o muro foi extraído num mutirão fotografado pelo artista jamaicano Peter Dean Rickards, que apareceu no eBay pedindo um lance inicial de 100 mil dólares só pelas fotos da ocasião. O muro iria de brinde para o comprador. Ninguém se arriscou e a página com a oferta não está mais no ar. Mas Peter não armou todo esse circo por admiração a Banksy. Pelo contrário. O jamaicano, que também é editor do site de arte contestatória Afflicted Yard e da revista First, é desafeto do grafiteiro britânico, o qual declarou ser “um baixinho com dentes de rato arrogante que se sente superior por ser famoso por pichar coelhos e ratos em Londres.” Ele fotografou Banksy durante sua passagem pela Jamaica em 2004 e enviou as fotos para jornais ingleses. Mas o assunto não teve tanta repercussão nessa época. www.mixmag.com.br
Foi só em 2009 que a identidade mais bem guardada do mundo da arte moderna ficou realmente ameaçada. O tablóide inglês Daily Mail fez ampla pesquisa depois que uma pessoa em Bristol identificou o homem da foto feita na Jamaica como sendo Robin Gunninghan, seu antigo vizinho. O jornal foi fundo, entrevistou de pessoas que moram na região a antigos colegas de colégio e parentes do tal Robin. Se a história estiver correta, Banksy foi criado num subúrbio de classe média em Bristol e frequentou uma boa escola. O número de coincidências é enorme, mas pessoas mais próximas ao astro, claro, não confirmam nada. “Não posso comentar nada sobre isso”, Tom Bingle, o Inkie, se esquiva quando toco no assunto. Ele foi parceiro de rua de Banksy entre 1997 e 2000 e, vira e mexe, fala com o amigo ilustre. “Só posso dizer que sua persona pública foi construída com muito marketing esperto”, e fim de papo. Os pais do suposto Robin foram pegos de surpresa pela reportagem inglesa, mas negaram até o fato de terem um filho homem. “Só tenho uma filha”, declarou a mãe. Jogo de cena ou erro do olfato jornalístico? EM 2010, Banksy ganhou ainda mais altura no show business lançando seu primeiro filme: “Exit Through The Gift Shop” (saída pela loja de presentes) - o título tira sarro daquelas lojas de bugigangas por onde as pessoas são obrigadas a passar ao sair dos parques da Disney. O anúncio do filme carregou a expectativa de que finalmente descobriríamos quem é Banksy, o que não se confirmou depois da première, no Festival de Berlim. Em 89 minutos, o longa trata mais do registro feito por Thierry Guetta, videomaker francês e fã de grafite, que passou oito anos filmando artistas de rua como Shepard Fairey e o próprio Banksy em ação. Conta-se que Banksy encorajou Guetta a também criar arte, fazendo com que o francês escolhesse para si o codinome de Mr. Brainwash. Sua jornada, até se tornar uma figura pop nos EUA (ele ilustrou a capa do álbum “Celebration”, de Madonna), enquanto exibe cenas inéditas de pesos pesados da street art em seus ambientes de trabalho é o mote do filme. Há quem diga que é tudo fake ou que Brainwash e Banksy são a mesma pessoa ou ainda que o filme em si é mais uma das intervenções artísticas do grafiteiro inglês. Em uma mensagem em vídeo, de capuz e com voz sintetizada, Banksy jurou que nada é mentira. Nem todo mundo acreditou. “Esse filme não me atraiu. Acho que todo o hype criado é um pouco exagerado”, diz Inkie, que alfineta mas em seguida,
defende o amigo: “não acho que seja fake. Eu acho que ele está apenas apresentando um ponto de vista irônico sobre a street art.” O ARTISTA plástico que começou grafitando muros de uma cidade de 20 mil habitantes, ganhou exposições na Tate Britain, em Londres, e no Museu de Arte Moderna de Nova York, levou a street art para o cinema e vê seu preço de mercado subir a cada dia, só sabemos o que dizem sobre ele. “Ele me pareceu um cara muito inteligente, generoso e engraçado”, conta John, ainda sobre aquele único encontro que tiveram. “Não percebi nele muito ego ou o desejo de ser famoso e nem mesmo de ganhar tanto dinheiro.” Tom Bingle conta que ele é um bom amigo, apesar de não terem mais tanto contato. “Nós dois estamos muito ocupados e eu tenho dois filhos”, se justifica o hoje diretor de criação que trabalha na Sega. Tom confirma que Banksy é uma pessoa generosa e simpática. “Quando nos conhecemos, eu estava pichando uma loja de skateboarding e ele se aproximou de mim, me convidando para pichar com ele no Festival de Glastonbury.” A dupla chegou a ser chamada pela imprensa de “parceiros no crime”. “Uma vez, quase brigamos pendurados em cordas, pintando a parte de fora da Estação Paddington”, dá risada. “Eu acredito que ele está nessa para ter seu trabalho e suas ideias reconhecidas e apreciadas”, conjectura John. “É um rapaz educado, graças ao seu background de classe média britânica. Ele tem muita confiança e crença em si e no que faz”. Mas, como tudo a seu respeito, a incerteza ainda é grande. Faz parte do jogo que ele criou e está ganhando faz tempo.
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Ego ferido Banksy fez uma brincadeira com um painel bastante antigo de Robbo, grafiteiro old school de Londres (ao lado). Sua intervenção incomodou tanto que, pouco tempo depois, Robbo pintou seu nome em letras enormes sobre a arte de Banksy e o chamou de metido.
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