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Happy Days | Folha de Sala

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SINOPSE

Esta é a história de Winnie, a patética, aquela que, enterrada no solo, daí comanda o seu mundo de objetos e ilusões e neles integra o seu amor perdido, o seu amor nunca ganho. Winnie, a que está ali, ilusoriamente resistindo à passagem do tempo. Samuel Beckett opera a desconstrução da coerência das personagens –e seria mais apropriado falar da personagem – até ao extremo de uma grotesca imagem explosivamente reveladora da realidade. A linguagem, sucessão de encadeamentos, de fragmentos e repetições, vai progressivamente apurando uma musicalidade rítmica, indutora de uma elementaridade fértil, simples, mas muito longe de ser simplista.

BECKETT, AGORA. E SEMPRE.

Tenho uma relação quase religiosa com Samuel Beckett. Quando o leio, regresso a um ponto muito central dentro de mim. Um lugar de inteireza. Beckett reconduz-me a uma escuta profunda, a um estado de presença absoluta.

Para muitos, Beckett é um autor difícil, incómodo, quase maldito: fala do fim do mundo, da infelicidade, da escassez, do vazio, da noite — a noite da humanidade. Um autor de sombra e escuridão, associado à tragédia e aos conflitos mais intrínsecos do ser humano, que propõe um teatro da introspeção radical e da reflexão existencial levada ao limite.

Beckett, um dos fundadores do Teatro do Absurdo, é um autor que percebeu como poucos a falência das narrativas de sentido e a fratura entre linguagem, pensamento e mundo.

Mas, para mim, quando o leio — intuitiva, emocional e racionalmente — Beckett é luminoso. É positivo. Convoca esperança. As suas personagens e os respectivos percursos contradizem essa evidência superficial do caos e do fim. Beckett parece dizer-nos, num plano filosófico, existencial e quase anímico, que a luz só se encontra atravessando o inferno; que o nada é condição para tocar o todo; que a desesperança precisa de ser atravessada para que a esperança não seja sempre adiada para um futuro abstrato. Nesse sentido mais profundo, Beckett é um autor luminoso, diria mesmo que é optimista.

A sua aparente rigidez — o rigor extremo das didascálias, que constituem um texto paralelo — entendo-a como estrutura de suporte fundamental para entender a direção do caminho. Uma partitura hiperexigente para atores que gostam verdadeiramente de ser atores. Beckett é matemática pura, silêncio que tem som, pausa que vibra, som que é

também silêncio. Ausência com espaço interno. Tudo é métrico, milimétrico.

Essa hiperestruturação provoca a sua própria antítese: a liberdade. A pressão do rigor obriga-nos a encontrar o ponto de fuga certo, o ponto exato onde a libertação acontece. Uma lógica de acupuntura: é ali, e não ao lado. Quando finalmente se encontra esse ponto, a luz aparece. O caminho revela-se — sempre.

Estar do lado de fora com os atores — neste caso com a Mónica Garnel, mãe das minhas filhas e atriz que muito admiro, e com o Emanuel Arada, amigo de vida e companheiro de palco — tem sido um desafio intenso enquanto encenador e diretor de atores. Poder contar com a experiência, criatividade e sabedoria do Hugo F. Matos e do Rui Rebelo também foi um enorme privilégio para abraçar esta partitura que parece não ser emotiva, mas é profundamente emocional.

O desafio foi, assim, tentar encontrar, na subjetividade de cada artista, o contraponto que permita sentidos partilhados. E descobrir como, a partir da identidade humana e energética do outro, se afinam as cordas internas para que manifestem a sua mais delicada vibração — respeitando sempre essa essência Beckettiana do lugar onde o espanto é passível de acontecer.

Nesta personagem em situação-limite — enterrada, imobilizada, aprisionada — a palavra surge como ato de sobrevivência. Fala-se para existir. Para afirmar que se está vivo. Para não perder a memória que sustenta a identidade. Para não desistir.

Esta é, por isso, uma peça de resistência. E, como toda a resistência, é profundamente política. Um teatro que convoca a liberdade.

Agora e sempre.

TEATRO

Com uma atividade ininterrupta desde 1992, o Teatro Meridional continua a privilegiar como principais objetivos da sua atividade artística, a construção de espetáculos que surjam da urgência de comunicar, que encontrem no desempenho do ator o foco principal dessa comunicaçã e que façam da edificação de cada projeto artístico um desafio de pesquisa e experimentação nas suas diferentes áreas expressivas.

Desde 2005 sediado em Marvila, o TM acolhe no seu Espaço de trabalho, outras Companhias e Projetos pontuais de várias áreas artísticas, direcionados para diferentes públicos, assim como continua a associar-se a parceiros nas áreas de intervenção social e artística, num percurso de exigência e rigor. No Polo II, também em Marvila, desenvolve desde 2021 um projeto intenso de formação e ainda de acolhimento de ensaios de outras estruturas.

As principais linhas de atuação artística do Teatro Meridional prendem-se com a encenação de textos originais (desafiando autores a arriscarem a escrita dramatúrgica), a criação de novas dramaturgias baseadas em adaptações de textos não teatrais (com relevo para a literatura da Lusofonia), a encenação e adaptação de grandes textos da dramaturgia mundial e a criação de espetáculos onde a palavra não é a principal forma de comunicação cénica.

Tendo realizado até à data 78 produções num continuado trabalho de itinerância, já apresentou internacionalmente os seus trabalhos em 21 países dos 5 continentes Angola, Argentina, Bolívia, Brasil, Cabo Verde, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, EUA, França, Itália, Jordânia, Marrocos, México, Paraguai, Roménia, Rússia, São Tomé e Príncipe, Timor e Uruguai - para além de concretizar uma itinerância anual por Portugal Continental e Ilhas.

Desde a sua formação, os espetáculos do Teatro Meridional foram distinguidos 37 vezes a nível nacional e 10 a nível internacional, relevando-se: Prémio Acarte/Madalena Perdigão (Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal), 1992; Prémio Nacional da Crítica (Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, Portugal), 1994, 2004 e 2014; Prémio do Público (FIT Almada, Portugal) 1994, 1999, 2012 e 2014; Globo de Ouro para o melhor espetáculo de Teatro (SIC/Revista Caras, Portugal), 2004; Prémio Homenagem (FESTLIP, Rio de Janeiro, Brasil), 2018; Prémio Europa Novas Realidades Teatrais, 2010.

FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA

texto SAMUEL BECKETT tradução JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA encenação

MIGUEL SEABRA interpretação EMANUEL ARADA (Willie) e MÓNICA GARNEL (Winnie) espaço cénico e figurinos HUGO F. MATOS desenho de luz MIGUEL SEABRA assist. de encenação TELMA MEIRA e FILIPA GARCIA (estágio) assist. de cenografia

MARCO FONSECA e SÉRGIO REIS realização de figurinos REGINA FRANCO fotografia

TELMA MEIRA e ANA LOPES GOMES direção de cena MARCO FONSECA montagem

ANDRÉ REIS e MARCO FONSECA operação técnica ANDRÉ REIS limpeza CLAUDIONOR

SILVA, ELISABETE RODRIGUES e PAULA CAPELO assistência de produção e comunicação

CATARINA PEREIRA design gráfico TERESA SERRA NUNES comunicação THALITA

ARAÚJO produção executiva BRIGITE OLEIRO direção de produção SUSANA MONTEIRO direção artística do Teatro Meridional MIGUEL SEABRA e NATÁLIA LUIZA

produção TEATRO MERIDIONAL (2026)

agradecimentos CUCHA CARVALHEIRO, MARIA MENEZES, RUI MANUEL e RUI REBELO

duração: 1h35 classificação etária: M/12

data de estreia: 29 JANEIRO 2026

local: TEATRO MERIDIONAL, LISBOA temporada TM: 29 JAN a 1 MAR 2026

conversa com o público: 15 FEV sessão LGP: 22 FEV

Folha de sala digital, disponível através do QR Code ou no site

Próximo espetáculo (Reposição)

Do Amor e da Glória de Luís Vaz de Camões 26 a 29 MARÇO 2026

fotografia ANA LOPES GOMES (ensaio)

TELMA MEIRA (capa) design WUNDERMAN THOMPSON composição gráfica
TERESA SERRA NUNES

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