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E&M_Edição 42_Outubro 2021 • O Futuro Mora Aqui

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RENOVÁVEIS

COMO O MUNDO PODERÁ EVITAR OS EFEITOS NO NOVO CHOQUE ENERGÉTICO?

CIÊNCIA

STARTUPS MANIFESTAM CADA VEZ MAIOR INTERESSE EM INVESTIR EM PESQUISAS

ENTREVISTA

GONÇALO REIS, CEO DO GRUPO IPG, FALA DAS NOVAS OPORTUNIDADES DE INVESTIMENTO

INOVAÇÕES DAQUI

O QUE SÃO NFT E COMO ESTÃO A MOVIMENTAR MILHÕES NO MUNDO DA ARTE DIGITAL E NÃO SÓ

O FUTURO MORA AQUI

O Parque de Ciência e Tecnologia da Maluana é a aposta nacional de uma revolução que promete colocar o País na lista das economias mais competitivas de África. Iremos conseguir?

Nobel de Economia

Relação entre imigração e educação no trabalho leva à distinção de David Card, Joshua Angrist e Guido Imbens

“Os pagamentos electrónicos e os desafios da cibersegurança – breves notas, HRA Advogados

13 ESPECIAL ENERGIAS RENOVÁVEIS

14 Crise energética

Subida do preço do petróleo, carvão e gás faz temer aumento da inflação e exige maior foco nas renováveis

18 Explicador

O papel que o cobre desempenha nas economias com baixo teor de carbono

20 Catalyst Energy

Uma consultora que apoia as empresas a realizarem investimentos impactantes nas renováveis

24 OPINIÃO

Absa “Privacidade de dados – a nossa jornada”, Ruy Pedro de Morais, Business Continuity and Information Risk

28 NAÇÃO

CIÊNCIA E TECNOLOGIA

30 Inovação Parque da Ciência e Tecnologia da Maluana quer transformar-se no Silicon Valley do País e da região

36 Opinião “Copiar, Imitar & Adaptar: Inovação na Economia Informal”, João Gomes, Partner @ JASON Moçambique,

38 Entrevista José Nhampossa, um dos administradores do Parque, fala da ambição e dos desafios da infra-estrutura

42 Lá fora Como os bons exemplos africanos, como o Gana, Ruanda e Quénia podem inspirar Moçambique

66 Escape Uma aventura pela Cidade da Beira, fustigada pelo Idai e agora a braços com os efeitos da virose global

68 Gourmet O restaurante dinamarquês Noma ganha uma das maiores distinções da gastronomia mundial

69 Adega Saiba como os especialistas olham e valorizam a questão estética dos vinhos 71 Arte de dar vida ao barro que Josina Machaque tem nas mãos 72 Ao volante do Audi Grandsphere, a redefinição do conceito de carro

49 ESPECIAL INOVAÇÕES DAQUI

50 Criptoactivos

O mundo artístico está a assistir a uma rápida expansão dos NFT’S. O que são e como funcionam?

54 Paytek

A empresa que lançou o iMali, uma FinTech que traz o diferencial de não cobrar taxas de transacções

58 OPINIÃO

Banco Big “A aversão ao risco é inimiga do investidor?”, Cláudio Pondja, Head Of Wealth Management

60 MERCADO E FINANÇAS

Logística

CEO do Grupo português IPG, Gonçalo Reis, fala da intenção de roforçar investimentos em Moçambique

Silicon Valley da Maluana ou o poder da ambição?

Uma famosa frase do antigo Presidente do Brasil, Luís Inácio

Lula da Silva, diz que “um país que não colocar dinheiro em ciência e tecnologia e em pesquisa, não será nunca um país. Será um amontoado de gente sem perspectivas de futuro e de competir num mundo cada vez mais competitivo”. E o mundo já se apercebeu disso. É o grau de revolução científica tecnológica que distingue os Estados mais poderosos dos mais fracos. Que define quem dita as regras do jogo nos mercados que muito rapidamente vão substituindo as formas tradicionais de produzir riqueza. Por isso assistese, hoje, a uma corrida nunca antes vista no aprimoramento das startups – os novos actores da mudança – e a cada vez maior aposta dos Governos na criação dos Parques de Ciência e Tecnologia, verdadeiras fábricas de empresas que se inspiram no conhecido modelo criado na década de 1950 na Califórnia – o Silicon Valley (Vale do Silício, em português) – a sede das mais importantes empresas de alta tecnologia da actualidade. Cá, em Moçambique, também temos o Parque de Ciência e Tecnologia da Maluana, na província de Maputo. Funciona há sete anos quase que sem recursos, opera em prejuízos e procura apoios de todo o lado, incluindo do próprio Governo. Mas estas adversidades não matam o sonho de tornar Maluana numa fábrica de empresas competitivas. É que o Parque já está a investir na publicitação das suas incubadoras, além de mobilizar financiamentos para a montagem de laboratórios de pesquisas científicas. Os responsáveis já falam na subida do número de startups que recorrem aos serviços ali instalados e dezenas de outras interessadas em aderir. Um dos factos animadores é também a possibilidade, cada vez mais nítida, de conseguir congregar os stakeholders indispensáveis para que um Parque de Ciência e Tecnologia cumpra o seu papel, nomeadamente os cientistas, os engenheiros, os inovadores e os empreendedores. Quanto aos cientistas, há acordos com as universidades para transformar estudos já feitos em produtos e serviços úteis à sociedade; em relação aos engenheiros e inovadores, o País já testemunha uma evolução assinalável de startups de prestígio internacional. Já o sector privado, além dos acordos firmados, tem cada vez mais presente a consciência de que o Parque de Ciência e Tecnologia potencia a visibilidade e a rentabilidade dos empreendimentos. Só por aqui, os responsáveis do Parque acreditam que, até 2030, talvez aquela infra-estrutura seja digna de se designar Silicon Valley, claro, à dimensão de uma economia em desenvolvimento.

O administrador para o pelouro de Ciência, Tecnologia e Inovação do Parque da Maluana, José Nhampossa, chega a antever a possibilidade de superar a ambição de países que agora estão muitos degraus acima de Moçambique nesta matéria, como o Gana, o Quénia e o Ruanda. A ver vamos.

MÊS ANO • Nº 01

DIRECTOR EXECUTIVO Pedro Cativelos pedro.cativelos@media4development.com

EDITOR EXECUTIVO Celso Chambisso

JORNALISTAS Cármen Rodrigo, Cristina Freire, Elmano Madaíl, Jaime Álvaro, Ricardo David Lopes, Rogério Macambize, Rui Trindade, Yana de Almeida PAGINAÇÃO José Mundundo, Gerson Quive FOTOGRAFIA Mariano Silva REVISÃO Manuela Rodrigues dos Santos ÁREA COMERCIAL Nádia Pene nadia.pene@media4development.com CONSELHO CONSULTIVO Alda Salomão, Andreia Narigão, António Souto; Bernardo Aparício, Denise Branco, Fabrícia de Almeida Henriques, Frederico Silva, Hermano Juvane, Iacumba Ali Aiuba, João Gomes, Narciso Matos, Rogério Samo Gudo, Salim Cripton Valá, Sérgio Nicolini ADMINISTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBLICIDADE Media4Development Rua Ângelo Azarias Chichava nº 311 A — Sommerschield, Maputo – Moçambique; marketing@media4development.com

IMPRESSÃO E ACABAMENTO Minerva Print - Maputo - Moçambique

TIRAGEM 4 500 exemplares PROPRIEDADE DO REGISTO Executive Moçambique

EXPLORAÇÃO EDITORIAL E COMERCIAL EM MOÇAMBIQUE Media4Development NÚMERO DE REGISTO 01/GABINFO-DEPC/2018

propriedade Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi

OBSERVAÇÃO

NOBEL 2021

RESPOSTAS A QUESTÕES DIFÍCEIS NA ÁREA DO TRABALHO

Os laureados com o Prémio Nobel de Economia 2021, os economistas David Card, canadiano de 65 anos, Joshua Angrist, norte-americano de 61 anos, e o holandês Guido Imbens, 58 anos, estudaram os efeitos de salário mínimo, imigração e educação no mercado de trabalho. Perguntas como “de que forma a imigração afecta os salários e os níveis de emprego?” ou “Como uma maior educação pode afectar o salário futuro de uma pessoa?”, que a economia enquanto ciência tinha

grandes dificuldades de responder, foram analisadas através de pesquisas de situações da vida real que permitiram calcular os seus impactos no mundo. “Os economistas revolucionaram a pesquisa empírica nas ciências sociais e melhoraram significativamente a capacidade da comunidade de pesquisa de responder a perguntas de grande importância”, reconheceu a Real Academia de Ciências da Suécia. Os três vão partilhar um prémio de 10 milhões de coroas suecas (1,1 milhões de euros).

ECONOMIA

Energia. A Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) deverá produzir mais 29,6% de energia eléctrica até ao final de Dezembro do presente ano. Neste momento, a empresa conta com uma cifra de 70,4%, cerca de 10 899,79 gigawatts produzidos entre Janeiro e Setembro. Segundo um comunicado da HCB, a produção de electricidade está a um ritmo de 5,5%, sendo que a esperança é que, até finais de Dezembro do ano em curso, sejam produzidos 14 125,53 gigawatts.

Dívida pública. O Fundo Monetário Internacional (FMI)

GOVERNO

PREVÊ CRESCIMENTO ECONÓMICO DE 2,9% NA PROPOSTA DO ORÇAMENTO DO

ESTADO DE 2022

O Governo prevê um crescimento da economia na ordem de 2,9% em 2022, de acordo com a proposta de Orçamento do Estado (OE) para o próximo ano. Segundo o Executivo, a previsão é mais optimista que a do Fundo Monetário Internacional (FMI) que apontou, recentemente, para um crescimento de 2,5%.

A generalidade das previsões vai no sentido de um regresso ao crescimento depois de, em 2020, o País ter registado uma contração de 1,28% por causa da pandemia do covid-19. Este ano, o Instituto Nacional de Estatística (INE) já apresentou dados até Junho, em que revela que o PIB terá registado um crescimento de 1,05% no primeiro semestre.

As propostas do Programa Económico e Social (PES) e Orçamento de Estado para 2022 foram aprovadas numa reunião extraordinária do Conselho de Ministros para serem enviadas ao Parlamento.

Os documentos prevêem também uma taxa de inflação média anual de 5,3%, receitas de 293 mil milhões de meticais e despesas de 450 mil milhões de meticais, ou seja, um défice de 157 mil milhões de meticais, cerca de 14% do PIB.

alertou, há dias, que a dívida pública moçambicana vai continuar, este ano e em 2022, acima dos 100% do PIB. Também o ‘Fiscal Monitor’, apresentado recentemente em Washington pelo director do departamento de assuntos fiscais e antigo ministro das Finanças português, Vitor Gaspar, revela que o rácio da dívida pública aumentou em Moçambique.

Assim, segundo o FMI, Moçambique verá a sua dívida pública aumentar este ano, de 128,5% do PIB em 2020 para 133,6%, caindo depois para 127,6% no próximo ano. O Fundo não dá explicações para esta evolução da trajectória da dívida, apresentando apenas os números numa tabela.

Negócios. O Indicador do Clima Económico (ICE), que mede a confiança dos empresários, registou nova queda no terceiro trimestre, com um saldo médio de 81,3 pontos – menos 3,1 pontos que no trimestre anterior. Segundo dados do Instituto

Nacional de Estatística (INE), divulgados recentemente, o ICE “prolongou a tendência decrescente que vem registando desde o primeiro trimestre de 2021, facto que se deveu, fundamentalmente, à avaliação desfavorável da perspectiva de emprego”. Houve ainda uma queda relativamente à procura futura no mesmo trimestre. Mesmo com este cenário, o perfil do ICE “apresenta-se ligeiramente acima do verificado no trimestre homólogo de 2020”, nota o INE.

Logística. O porto da Beira introduziu, recentemente, o carregamento a granel de cobre exportado da África Austral como alternati-

va à actual crise no transporte de contentores. “Os transportes fraccionados são uma alternativa eficaz ao transporte de contentores de cobre para fora da Beira”, refere a Cornelder, empresa gestora.

A operação “foi bem-sucedida” com “15 000 toneladas de cátodos de cobre carregados entre os dias 30 de Setembro e 05 de Outubro de 2021, tendo o navio que recebeu a carga desatracado nas primeiras horas do dia 06 de Outubro”.

“Os prestadores de serviços de logística de carga do porto e do corredor da Beira estão empenhados em maximizar o potencial do transporte de carga fraccionada para aliviar a actual crise de contentores e continuarão a oferecer esta solução”, descreve a empresa.

Agricultura. Moçambique espera alcançar a auto-suficiência na produção do arroz dentro de cinco anos. Segundo o ministro da Agricultura, Celso Correia. “Tudo indica que nos próximos

cinco anos iremos atingir a auto-suficiência em termos de produção. O nosso desafio da balança de pagamentos começa aqui”, referiu.

O governante falava na cerimónia de relançamento da unidade de processamento de arroz do Complexo Agro-industrial de Chókwè (CAIC), na província de Gaza, sul do país, zona historicamente conhecida pela produção do cereal.

Aviação. A LAM – Linhas Aéreas de Moçambique – pretende retomar a ligação regular com a cidade de Harare, capital do vizinho Zimbabué, já no próximo mês de Dezembro. Segundo a programação disponível nos sistemas de vendas (GDS), a companhia de bandeira moçambicana irá iniciar o voo Maputo-Harare no próximo dia 19 de Dezembro, com três ligações semanais, utilizando aviões Embraer ERJ145. Desde Março de 2018 que a LAM não voa para o Zimbabué. Até essa data a companhia moçambicana tinha ligações regulares entre os aeroportos da Beira e de Harare.

Construção. Construtoras moçambicanas vão deixar de pagar garantias em concursos públicos. O Governo anunciou a substituição de garantias bancárias por declarações reconhecidas notarialmente, para aliviar o acesso de empresas de construção moçambicanas a concursos públicos, por entender que dificultam a sua competitividade.

EXTRACTIVAS

Carvão. A mineradora Vale anunciou, recentemente, que poderá encontrar um comprador para a sua mina de carvão de Moatize até ao final deste ano.

O CEO da empresa, Eduardo Bartolomeo, garantiu, numa entrevista, que “já fizemos duas visitas ao local e há mais pessoas vindo para nos visitar”. A Vale finalizou, no início deste ano, uma reforma em Moatize, que actualmente está a produzir 15 milhões de toneladas/ano e deve receber equipamentos para aumentar a produção para 18 milhões de toneladas/ano até o final do ano. A mina produz carvão metalúrgico e térmico.

Gás natural. A petrolífera norte-americana ExxonMobil continua a ter esperança no seu projecto Rovuma LNG, em Moçambique, apesar da instabilidade militar em Cabo Delgado, norte do País. O vice-presidente sénior da Exxon, Neal Chapman, destacou os desafios em torno da segurança em Moçambique. Falando recentemente, no Fórum de Inteligência Energética, Chapman disse que o Rovuma LNG representa “ um recurso muito grande e muito competitivo”. No entanto, o vice-presidente também observou que a empresa tinha suspendido o progresso.

Exploração do gás. A petrolífera TotalEnergies adiou por mais dois anos, para 2026, a previsão de produção de gás natural liquefeito em Cabo Delgado, de acordo com a mais recente informação a investidores. “Moçambique LNG (gás natural liquefeito, sigla inglesa) adiado para 2026”, lê-se no documento divulgado pela petrolífera.

OPINIÃO

Os pagamentos electrónicos e os desafios da cibersegurança - breves notas

Nas últimas décadas, os bancos passaram a sofrer, em vários países, fortes pressões concorrenciais advindas da entrada de novos competidores em áreas de actuação nas quais eram os actores predominantes. Isso ocorreu em virtude do processo de liberalização financeira que se caracterizou, entre outras medidas, pela extinção dos limites às actividades das instituições financeiras. No mesmo sentido, contribuiu o fenómeno de institucionalização da poupança financeira a partir do crescimento considerável do número de investidores institucionais, tais como os fundos de pensões, as seguradoras e os fundos mútuos de investimento. Os bancos passaram a concorrer com novos rivais, seja na intermediação da poupança financeira sob a forma de capital, dinheiro concentrado nas mãos das famílias e empresas dos países industrializados, seja na gestão dos meios de pagamento em razão do desenvolvimento de novas formas de moedas ou de “quase moedas”.

O monopólio dos bancos sobre os meios de pagamento começou a ser ameaçado aquando do lançamento dos fundos mútuos de investimentos no mercado monetário por instituições financeiras não bancárias. Tendo surgido nos Estados Unidos, nos anos 70, e se difundido rapidamente nos outros países industrializados, esse novo instrumento conta com mecanismos de compensação que permitem a utilização de cheques pelos clientes. Os bancos reagiram a essa nova pressão competitiva através da oferta aos seus clientes de contas de depósitos remunerados, de transferência automática de recursos entre os diferentes tipos de conta e de distribuidores automáticos de dinheiro. Os bancos também passaram a enfrentar a concorrência de instituições não bancárias na esfera institucional da gestão dos meios de pagamento. Os avanços tecnológicos consideráveis nas áreas de informática e de telecomunicação tornaram possível o desenvolvimento, por grupos privados não financeiros, de mecanismos electrónicos de transferên-

cia e compensação de fundos, bem como a oferta de centros electrónicos de serviços e de software de processamentos de dados de cartão de crédito. Várias inovações financeiras estão sendo introduzidas na esfera do sistema de pagamentos. A própria moeda tem sido objecto de inovações, como é o caso da moeda electrónica, utilizada para os pagamentos de pequenos montantes (retail payments) e, mais recentemente, a criptomoeda tem vindo a granjear cada mais seguidores, pese embora os sucessivas reservas que têm vido a ser veiculadas pelos Bancos Centrais e outras autoridades. Havendo a necessidade de adequar os desenvolvimentos tecnológicos, e de modo a acompanhar a nível legislativo tais mudanças, foram introduzidas algumas alterações por forma a garantir a segurança cibernética no território moçambicano. Destarte, a aprovação da recente Lei das Transacções Electrónicas (Lei nº. 3/2017 de 09 de Janeiro), - que manteve os mesmos princípios em relação aos serviços electrónicos -, introduziu mudanças no que concerne ao uso das Tecnologias de Informação e Comunicação para fins ilícitos (criminosos) no nosso país, a referida lei, constituindo, a traço grosso, um importante instrumento que dificulta a acção daqueles que usam as tecnologias de informação e comunicação para lesar o Estado e os cidadãos em geral. A sobredita Lei aplica-se às pessoas singulares e colectivas, públicas ou privadas, que apliquem tecnologias de informação e comunicação, nas suas actividades, nomeadamente transacções electrónicas ou comerciais e governo electrónico. Acresce que, no quadro internacional, em Junho de 2019, Moçambique ratificou a Convenção da União Africana sobre Cibersegurança e Protecção de Dados Pessoais, adoptada pela 23.ª Sessão Ordinária da Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana, a 27 de Junho de 2014, em Malabo, Guiné Equatorial. Em síntese, esta Convenção incorpora os compromissos existentes dos Estados-Membros da União Africana no plano sub-regional, regional e internacional, com vis-

Tem sido entendimento pacífico que os principais desafios para o desenvolvimento do comércio electrónico em África prendem-se com contingências relativas à segurança das transacções e correlativos pagamentos, contribuindo, para tanto, as lacunas que afectam a regulamentação...

ta à construção da sociedade de informação. A aludida Convenção visa definir os objectivos e as orientações gerais da Sociedade de Informação em África e reforçar as legislações existentes dos Estados-membros e das Comunidades Económicas Regionais (CER) em matéria das Tecnologias de informação e Comunicação (TIC).

Conscientes de que se destina a regular uma particularidade que envolve uma área tecnológica, e com vista a responder às grandes expectativas dos vários actores, muitas das vezes com interesses dissemelhantes, aquela Convenção fixa as normas de segurança essenciais para a criação de um espaço digital credível para as transacções electrónicas, protecção de dados pessoais e luta contra o cibercrime. Na verdade, tem sido entendimento pacífico que os principais desafios para o desenvolvimento do comércio electrónico em África prendem-se com contingências relativas à segurança das transacções e correlativos pagamentos, contribuindo, para tanto, as lacunas que afectam a regulamentação no que concerne ao reconhecimento jurídico da comunicação de dados e da assinatura electrónica; a ausência de normas jurídicas específicas que protejam os consumidores, os direitos de propriedade intelectual e dados de carácter pessoal e sistemas de informação; a ausência de normas, legislações relativas a tele serviços e teletrabalho; a aplicação de técnicas electrónicas para os actos comerciais e administrativos; os elementos de prova introduzidos pelas tecnologias digitais (carimbo da hora e data, bem como a certificação); as regras aplicáveis aos aparelhos e serviços de criptologia e a fiscalização da publicidade em linha. Conscientes de que, perante a situação actual da criminalidade informática, que constitui uma verdadeira ameaça para a segurança das redes informáticas e o desenvolvimento da sociedade de informação em África, é necessário definir as grandes orientações da estratégia de repressão da criminalidade informática nos Estados-Membros da União Africana, tomando em conta os seus compromissos actuais aos níveis sub-regional, regional e internacional. Com efeito, em matéria de repressão, Moçambique aprovou

em Dezembro de 2019 o mais recente Código Penal (maxime, Lei n.º 242019, de 24 de Dezembro), que entrou em vigor nos finais do ano 2020, sendo que este Diploma, no seu artigo 294, tipificou o crime de “Fraudes relativas aos instrumentos e canais de pagamento electrónico”, sistematicamente inserto nos “crimes relativos a outros instrumentos de pagamento”. Segundo aquele preceito, é considerado “instrumento de pagamento electrónico” o dispositivo ou registo electrónico que permite ao utilizador transferir fundos ou pagar a um beneficiário. Ainda cotejando a mencionada norma, brota que, entre outras, são criminalizadas as condutas que se consubstanciem na falsificação de um instrumento ou canal de pagamento electrónico; o acesso ilegal a um sistema de pagamento electrónico; a apropriação ilegal de instrumentos de pagamento electrónico de outrem, incluindo o correspondente código secreto; criação de programas informáticos, instrumentos, objectos e quaisquer outros meios preparados deliberadamente para a prática de infracções relacionadas com pagamentos electrónicos.

Por outro lado, ainda no domínio da repressão, aquele Diploma tipificou o crime de “Abuso de meios de pagamento electrónico” (vide, o artigo 295 do Código Penal), consignando que comete tal crime quem, abusando da possibilidade conferida pela posse de meios de pagamento electrónicos, levar o emitente a fazer um pagamento ou causar prejuízo a este ou a terceiro, punindo o agente da prática do crime com a pena de furto.

No que tange à moldura penal aplicável, anota-se que está prevista a pena de prisão de um a cinco anos e multa até um ano. Em suma, numa sociedade cada vez mais digital, em que o número de transacções e correlativos pagamentos electrónicos tem vindo a aumentar exponencialmente, a segurança que os deve nortear postula uma atenção e cuidados permanentes, não só por banda do legislador, como também das Autoridades de fiscalização. Moçambique tem vindo a ajustar a sua legislação nesse sentido, regulando as sobreditas transacções e pagamentos e sancionando, nalguns casos, condutas dos prevaricadores.

Os sistemas de pagamento têm vindo a testemunhar várias inovações, daí a necessidade de adequar os desenvolvimentos tecnológicos aos instrumentos legais

EspEcial EnErgias rEnovávEis

14 CHOQUE ENERGÉTICO

A recente subida do preço do petróleo, do carvão e do gás natural faz temer a iminência de uma grave recessão energética, riscos de inflação global e necessidade de uma aposta cada vez maior nas fontes renováveis

O papel do cobre numa economia de baixo carbono

O negócio que leva a luz às zonas menos favorecidas

As notícias sobre energias renováveis no País e lá fora

O choque Energético Chegou e Com Estrondo. E Agora?

Em Novembro, os líderes mundiais reunir-se-ão na cimeira COP26, em Glasgow, dizendo que pretendem estabelecer uma estratégia para que as emissões globais de carbono atinjam zero até 2050. Enquanto se preparam para assumir a sua parte neste esforço de 30 anos, o primeiro grande susto energético da ‘era verde’ está a desenrolar-se diante dos nossos olhos, com o aumento dos preços das commodities energéticas nas principais praças globais

Desde Maio, os preços do petróleo, carvão e gás subiram 95%. A Grã-Bretanha, o país anfitrião do carvão, voltou a ligar as suas centrais eléctricas alimentadas a carvão, os preços da gasolina americana atingiram os 3 dólares por galão, os apagões engoliram a China e a Índia, e Vladimir Putin acaba de recordar à Europa que o seu fornecimento de combustível depende da boa vontade russa. A alta imparável dos preços do petróleo e do gás natural, bem como de outras matérias-primas, está a desafiar a visão defendida por bancos centrais e economistas de que as pressões inflacionistas ao nível global serão temporárias

O pânico também expôs problemas mais profundos à medida que o mundo muda para um sistema energético mais limpo, incluindo investimento inadequado em energias renováveis e alguns combustíveis fósseis de transição, riscos geopolíticos crescentes e amortecedores de segurança frágeis nos mercados energéticos. Sem reformas rápidas, haverá mais crises energéticas e, talvez, uma revolta popular contra as políticas climáticas.

A ideia de uma tal escassez parecia ridícula em 2020, quando a procura global caiu 5%, a maior desde a Segunda Grande Guerra, provocando cortes de custos na indústria energética. Mas como a a economia mundial voltou a crescer, a

O pânico é um lembrete de que a vida moderna precisa de energia abundante: sem ela..., as casas congelam a banca

e que a recuperação económica não está em causa. O medo com a inflação elevada e persistente regressou em força ao radar dos investidores, o que está a provocar desvalorizações nos mercados accionistas. Estes receios estão a ser alimentados, sobretudo, pela subida dos preços do petróleo, com o WTI a negociar em máximos de sete anos acima dos 80 dólares e o Brent a transaccionar na casa dos 83 dólares, mais do que duplicando a cotação registada há um ano.

O pânico é um lembrete de que a vida moderna precisa de energia abundante: sem ela, as contas tornam-se inacessíveis e congelam a banca de negócios.

de negócios

procura aumentou e as reservas têm sido perigosamente reduzidas. Os inventários de petróleo são apenas 94% do seu nível habitual, o armazenamento de gás europeu está nos 86% e o carvão indiano e chinês caíram abaixo dos 50%. Os mercados são vulneráveis a choques e à natureza intermitente de algumas renováveis. Para já, a lista de interrupções inclui manutenções rotineiras, acidentes, muito pouco vento na Europa, secas que têm cortado a produção hidroeléctrica na América Latina e as inundações asiáticas que têm impedido as entregas normais de carvão. Aqui, Moçambique até foi beneficiado, com o aumento da

crise energética

compra de carvão por parte da China, por exemplo. Apesar de tudo isto, o mundo pode ainda escapar a uma grave recessão energética: as falhas podem ser resolvidas e a Rússia e a OPEC podem relutantemente aumentar a produção de petróleo e gás.

É preciso apostar nas renováveis

No entanto, no mínimo, o custo de tudo isto será uma inflação mais elevada e um nível de crescimento mais lento. Mais apertos deste tipo podem estar a caminho. E isto acontece porque existem três grandes problemas. Primeiro, o investimento em energia está a correr a metade do nível necessário para satisfazer a ambição de atingir as emissões de carbono NET zero até 2050. Gastar em energias renováveis é urgente. E a oferta e procura de combustíveis fósseis ‘sujos’ precisa de ser cortada, mas sem criar desajustes perigosos porque os combustíveis fósseis satisfazem 83% da procura de energia primária e isto precisa de cair para zero. Ao mesmo tempo, o mix energético tem de mudar do carvão e do petróleo ao gás, que tem menos de metade das emissões de carvão. Mas as ameaças legais, a pressão dos investidores e o medo dos regulamentos levaram o investimento em combustíveis fósseis a cair em 40% desde 2015.

O gás é o ponto de pressão

Muitos países, particularmente asiáticos, precisam que seja um combustível de transição na próxima década, até 2030, mudando temporariamente, à medida que se vão desfazendo do carvão, e antes que as energias renováveis se tenham massificado.

Para além de utilizar gasodutos por onde flui a maioria das importações de LNG, são muito poucos os projectos que estão a entrar em funcionamento, casos evidentes com os adiamentos dos projectos das áreas 1 e 4 da Bacia do Rovuma, em Cabo Delgado.

De acordo com a Bernstein, uma empresa de investigação na área energética, o shortfall global de LNG deverá aumentar dos actuais 2% da procura para 14% até 2030. O segundo problema é a geopolítica, uma vez que as democracias ricas desistem da produção de combustíveis fósseis e os turnos de abastecimento para autocracias com menos escrúpulos e custos mais baixos, incluindo a gerida por Putin.

A quota de produção de petróleo da

OPEC mais a Rússia pode aumentar dos actuais 46% para 50%, ou mais, até 2030. A Rússia é a fonte de 41% das importações de gás da Europa e a sua alavancagem irá crescer à medida que abrir o gasoduto Nord Stream 2 e desenvolve mercados na Ásia. O risco sempre presente é o de reduzir os fornecimentos.

O último problema é a concepção defeituosa dos mercados de energia. A desregulamentação que vem dos anos 90 tem visto muitos países passarem de indústrias de energia decrépitas para abrir sistemas em que os preços da electricidade e do gás são fixados pelos mercados, fornecidos por vendedores concorrentes que adicionam fornecimento se os preços dispararem. Mas estes estão a lutar para fazer face à nova realidade de declínio da produção de combustíveis fósseis, de fornecedores autocráticos e de uma quota crescente de energia solar intermitente. Tal como o Lehman Brothers dependia do overnight borrowing, assim também algumas empresas de energia

garantem às famílias e empresas fornecimentos que compram num mercado à vista pouco fiável.

O perigo é que o choque abrande o ritmo da mudança. Isto numa altura em que Li Keqiang, o primeiro-ministro chinês, disse que a transição energética deve ser “sólida e bem espaçada”, ou seja, ainda vamos ver o carvão a ser utilizado durante algum tempo.

A opinião pública no Ocidente, incluindo a América, apoia a energia limpa, mas esta poderá tornar-se mais macia à medida que os preços forem aumentando.

Os governos precisam de responder, redesenhando os mercados de energia. Maiores amortecedores de segurança devem absorver a falta de energia e lidar com a intermitência da energia renovável. Os fornecedores de energia deveriam manter mais reservas, tal como os bancos transportam capital.

Os governos podem convidar empresas a concorrer a contratos de fornecimento de energia de reserva. A maioria das reservas

Os governos têm de responder redesenhando os mercados de energia. Maiores amortecedores de segurança devem absorver a falta de energia e lidar com a intermitência da energia renovável

será em gás, mas eventualmente as tecnologias de baterias e hidrogénio poderão assumir o controlo. Mais centrais nucleares, a captura e armazenamento de dióxido de carbono, ou ambos, são vitais para fornecer uma carga de base de energia limpa e fiável.

Um abastecimento mais diversificado pode enfraquecer a adesão de petroestados autocráticos, como a Rússia. Hoje em dia, isso significa construir o negócio do LNG. Com o tempo, será necessário mais comércio global de electricidade para que países distantes, ventosos ou ensolarados, com energia renovável de reserva, possam exportá-la. Actualmente, ape-

nas 4% da electricidade nos países ricos é comercializada através das fronteiras, em comparação com 24% do gás mundial e 46% do petróleo. A construção de grelhas submarinas faz parte da resposta e a conversão de energia limpa em hidrogénio, na maioria das reservas, será em gás, mas eventualmente as tecnologias de baterias e hidrogénio poderiam assumir o controlo. Mais centrais nucleares, a captura e armazenamento de dióxido de carbono, ou ambos, são vitais para fornecer uma carga de base de energia limpa e fiável. Tudo isto exigirá que os gastos de capital em energia a mais dupliquem para 4 ou 5 biliões por ano. No entanto, na pers-

pectiva dos investidores, a política é desconcertante. Muitos países têm promessas netzero, mas nenhum plano sobre como lá chegar e têm ainda de enfrentar o público, que vê as facturas e os impostos a aumentar.

Os obstáculos tornam o investimento em projectos de combustíveis fósseis demasiado arriscado. A resposta ideal é um preço global do carbono que reduza incessantemente as emissões, ajude as empresas a julgar quais os projectos que fariam dinheiro, e aumentar as receitas fiscais para apoiar os perdedores da transição energética. No entanto, os preços cobrem apenas um quinto de todas as emissões.

A mensagem do choque é que os líderes do COP26 devem ir além das promessas e liderar o processo no qual se vai fazer a transição energética.

O primeiro grande susto da era verde revela graves problemas com a transição para a energia limpa. Como será o futuro imediato?

O Papel do Cobre Numa Economia de Baixo Carbono

As alterações climáticas estão no topo das preocupações de grande parte da população mundial e a transição para as energias renováveis e a electrificação exigirá toneladas de metais. O cobre tem sido considerado um material essencial para o homem desde os tempos pré-históricos. Na verdade, é o metal mais antigo conhecido, datando de há mais de 10 mil anos e um dos mais utilizados devido à sua versatilidade. Tem quatro propriedades chave que o tornam ideal para o armazenamento de energia, para propulsão para veículos eléctricos (EV) e para a energia renovável: condutividade, porque tem a mais alta taxa de condutividade eléctrica de todos os metais não-preciosos; ductilidade: por ser facilmente moldado em tubos, fios ou chapas; eficiência térmica, que é cerca de 60% superior ao alumínio; e, por fim, reciclabilidade, sendo 100% reciclável e podendo ser utilizado repetidamente sem qualquer perda de desempenho. Para além das suas propriedades únicas, o cobre permanece relativamente acessível, o que o torna uma parte essencial da transição energética.

Procura de cobre nas energias eólica e solar, 2020-2050

Capacidade anual (megawatts)

A procura por cobre nas instalações fotovoltaicas poderá duplicar até 2030.

Conteúdo de cobre (toneladas)

Conteúdo de cobre (megawatts)

Como o Cobre ‘Conduz’ Veículos Eléctricos

Veículos eléctricos requerem até quatro vezes mais cobre do que os veículos a gasolina.

Cobre requerido

369 kg (0.369 tonelada) 59 kg (0.059 tonelada) 38 kg (0.038 tonelada) 83 kg (0.083 tonelada)

Veículos com bateria eléctrica

Cobre requerido

toneladas
Onshore Wind Farms
Offshore Wind Farms toneladas
Autocarro eléctrico
Híbridos eléctricos plug in
Híbridos eléctricos
Fonte: Coper Development Association.
Fonte IRENA, Navigant Research, Copper Alliance.

renováveis

Catalyst Energy, Uma Luz Para os Investidores nas Renováveis

As energias renováveis têm-se revelado um mercado em ascensão com inúmeras oportunidades por explorar

TEXTO Hermegildo Langa • FOTOGRAFIA Ailton Panguana

Amatriz energética está a mudar radicalmente no mundo pós-pandémico e, em Moçambique, não é diferente. Há metas bem definidas para apostar no máximo potencial das energias limpas para uma expansão rápida da cobertura nacional que ainda é limitada. A este respeito, ainda recentemente, a Electricidade de Moçambique alertou que o País, actualmente com quase 70% da sua população sem acesso à rede energética, está longe de atingir a capacidade suficiente de geração de energia para responder à demanda nacional. E o problema está longe de se cingir ao território nacional. De acordo com a Agência Internacional de Energia, em 2019, o continente tinha mais de 580 milhões de pessoas sem acesso a electricidade, o que dá uma noção do espaço de crescimento do sector energético, especialmente no segmento das renováveis.

Um dos operadores que actua nesta área em crescimento em Moçambique é a Catalyst Energy, consultora na área das energias renováveis, fundada há três anos. Victor Mallet, director-geral desta consultora (também presente no Maláui, África do Sul e Namíbia), esclarece que a empresa está vocacionada para o desenvolvimento de projectos ligados às energias renováveis, nomeadamente a solar, eólica e hídrica. “Desenvolvemos estudos de mercado de forma a identificar os pontos onde a rede eléctrica não consegue chegar e as melhores oportunidades de investimento”, explica o responsável.

Neste momento, a Catalyst Energy está a desenvolver dois projectos de energia

hídrica nas províncias de Tete e Nampula, avaliados em um milhão de dólares e financiados por investidores internacionais nesta primeira fase. “Os dois estão ainda na fase inicial, pois acabámos de receber do Governo os despachos para a sua execução. Portanto, estamos agora em fase de estudo de viabilidade”, sublinhou Victor Mallet, acrescentando que “são projectos de pequena e média dimensão, que produzirão entre 20 e 30 megawatts de energia e estão localizados em áreas onde o fornecimento da rede eléctrica é muito fraca”. No entanto, complementa, “há capacidade e potencial para abastecer até 140 000 residências por um ano.”

A previsão é que ambos possam abranger pouco mais de 30 mil famílias, mas acrescenta que “tudo vai depender do estudo de viabilidade que estamos para iniciar em breve”, esclareceu. Para já, a consultora considera que o grande desafio que tem vindo a encontrar neste mercado tem que ver com questões burocráticas. “O que acontece muitas vezes é que as instituições levam demasiado tempo para responder aos despachos e cada passo leva bastante tempo o que acaba, não raras vezes, por levar à desistência dos investidores”, lamentou. A isso sobrepõe-se a falta de capacidade financeira do empresariado moçambicano para aproveitar as oportunidades que este segmento das renováveis abre, daí que a maioria dos investidores nesta área sejam, de facto, estrangeiros. Mas o objectivo mantém-se: “aproveitar ao máximo este tipo de energia para que a rede eléctrica chegue a todas comunidades e, claro, com qualidade aceitável”.

BMoçambique, África do Sul, Maláui e Namíbia

Cooperação

EDP reforça

investimento no acesso à energia em países em desenvolvimento incluindo Moçambique

A EDP, empresa pública portuguesa de electricidade, reforçou para 22,5 milhões de euros o investimento em projectos de acesso à energia em países em desenvolvimento, sendo que este montante será para aplicar nos próximos cinco anos, de acordo com um comunicado daquela empresa.

Na nota citada pela Lusa, a EDP referiu que este anúncio “foi feito pelo presidente executivo do grupo, Miguel Stil-well d’Andrade, no contexto do UN Global Compact, conferência global promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU), que reuniu chefes de Estado, líderes empresariais, especialistas e representantes das Nações Unidas, para debater a emergência climática, as desigualdades sociais e a necessidade de reconstruir um mundo mais justo e equitativo, assente na cooperação internacional”.

Estes 22,5 milhões de euros são “um importante reforço face aos sete milhões investidos pela EDP na área de Access 2 Energy (A2E) entre 2018 e 2020”, detalhou o grupo.

“Deste montante global, previsto até 2025, 20 milhões serão alocados ao investimento em empresas já instaladas e promissoras, com soluções para acesso à energia em mercados emergentes, visando a promoção de energia sustentável para todos e dando seguimento a uma estratégia iniciada em 2018 e que culminou, até ao momento, com a aquisição de três empresas com operação em Moçambique, Maláui, Nigéria e Bangladesh”, salientou a empresa energética portuguesa EDP.

Investimento

Central fotovoltaica de Zimane entra em funcionamento

A instalação da central fotovoltaica para o fornecimento de energia eléctrica ao posto administrativo de Zimane, no distrito de Mabote na província de Inhambane, com capacidade para mais de 200 ligações, está concluída. O investimento custou aos cofres do Estado 65 milhões de meticais. Inserido no programa Energia Para Todos, e por ser uma região eco-

nomicamente estratégica pelo facto de ligar Gaza e África do Sul, o Governo, através do Fundo de Energia, investiu na electrificação e, em 2020, iniciou a instalação da central fotovoltaica de Zimane. “Olhámos para os postos administrativos como a plataforma que viabiliza a expansão da rede energética”, disse o administrador de Mabote, Carlos Mussanhane.

Energia Moçambique regulamenta acesso à energia em zonas fora da rede nacional

O Conselho de Ministros aprovou, recentemente, um regulamento de acesso à energia em zonas não cobertas pela rede eléctrica nacional, anunciou o porta-voz do órgão, Filimão Suaze. O documento refere-se ao fornecimento de energia “através de mini redes

Rede

até 10 megawatts” e de outros serviços energéticos, anunciou.

Em linha com as metas de electrificação do País (que prevê acesso universal até 2030), o objectivo é servir “zonas que estão fora do raio da rede”, adoptando “estratégias que permitam encontrar caminhos para levar energia a essas pessoas”.

O regulamento vai facilitar o mapeamento de locais sem acesso, bem como responder à crescente procura, explicou Filimão Suaze. “É uma estratégia combinada com o plano de electrificação que está em curso e que vai permitir que rapidamente se alcancem os objectivos que foram definidos”, concluiu.

FUNAE investe 3 mil milhões de meticais na expansão da rede eléctrica

Pelo menos seis postos administrativos já têm energia eléctrica produzida a partir de centrais solares e mini-hídricas locais resultantes de um projecto do Fundo Nacional de Energia (FUNAE). O investimento está avaliado em cerca de três mil milhões de meticais. Trata-se dos postos administrativos de Calanga, na província de Maputo, Majawa, na Zambézia, Alto

Changane, na província de Gaza, Zimane, em Inhambane e Matchedje, no Niassa.

Estão também em curso trabalhos de montagem de infra-estruturas para a iluminação dos postos administrativos de Gingapa, em Cabo Delgado, Progresso e Mapulanguene, na província de Maputo, Chimpera e Chintolo, em Tete.

Privacidade de dados – a nossa jornada

Ruy Pedro de Morais • Business Continuity and Information Risk Manager do Absa Bank Moçambique

Vivemos na segunda década do século XXI e somos confrontados com um mundo muito mais interligado do que muitos poderiam algum dia ter imaginado; nós, como indivíduos, inseridos neste mundo, fazemos uma escolha – a de partilhar os nossos dados pessoais com inúmeras organizações e entidades. Nos últimos dez anos, temos estado a acompanhar diversos incidentes significativos relacionados com a privacidade de dados muito orientados para a violação de dados (acesso não autorizado) ou para a utilização de informação pessoal (tanto de consentimento explícito como implícito). Grandes empresas como a Yahoo, LinkedIn, Adobe, MyFitness Pal e Facebook foram afectadas por este factor, onde milhões de contas de utilizadores ficaram expostas e, consequentemente, os seus dados pessoais também. Se se lembram, um dos maiores casos e mais mediático, do uso de dados pessoais para influenciar a informação, foi o da Cambridge Analytica durante as eleições presidenciais nos EUA de 2018. Além disso, se simplesmente percorrermos as redes sociais como, por exemplo, o Instagram ou o Facebook, somos invadidos por “anúncios direccionados” – e aqui fica claro que a nossa informação pessoal, os interesses e os conteúdos partilhados são utilizados para moldar este tipo de informação que nos é exibida nos nossos feeds de notícias, de uma forma espontânea e customizada.

Consequentemente, a nível global, tem havido uma forte pressão e uma grande preocupação acerca da privacidade dos dados e, como resultado, o crescente número de políticas reguladoras emitidas pelos governos, tais como o Regulamento Geral de Protecção de Dados da União Europeia (GDPR) ou a Lei de Protecção de Informações Pessoais da África do Sul (POPIA). Muito embora pareçam ser políticas europeias ou sul-africanas isoladas, não o são, pois o resultado é que qualquer entidade que opere nestas regiões geográficas passa a ter directrizes muito claras a implementar no que respeita à lei de privacidade dos dados. Isto significa que os Clientes destas entidades (como é o caso dos bancos e dos prestadores de serviços), em todo o mundo, estão a ganhar direitos (quando aplicáveis) relativamente à forma como os seus dados são recolhidos, armazenados, tratados e vendidos, bem como uma definição clara de responsabilidade quanto às más práticas de segurança de dados, sendo ainda mais importante o ganho

da percepção e consciência das suas expectativas neste tema. Para poderem dar resposta a esta evolução e à necessidade de se adaptarem, as empresas têm envidado esforços na melhoria contínua da sua segurança cibernética e privacidade de dados. É importante notar que, muito embora estes dois elementos sejam únicos e ,muitas vezes, tratados de forma isolada, eles estão interligados: enquanto a segurança cibernética, no seu ponto mais básico, é um conjunto de medidas que visam proteger contra o acesso não autorizado a um sistema informático por terceiros (tanto internos como externos), a privacidade de dados é um direito do Cliente sobre a forma como a sua informação pessoal pode ser recolhida, tratada, armazenada e/ou partilhada. Por outras palavras, a segurança cibernética pretende proteger a informação armazenada no sistema, enquanto a privacidade de dados deve garantir que quem está autorizado a ter acesso à sua informação o faça dentro dos limites e dos direitos do Cliente. Portanto, ambos se ocupam fundamentalmente da protecção de dados sensíveis contra possíveis ameaças.

Este entendimento é fundamental, bem como compreendermos a necessidade crescente de termos soluções dimensionáveis, adaptáveis e ágeis que possam ir ao encontro de um mundo interligado onde a transformação digital está em constante aceleração, impulsionada muito mais pela crise da COVID-19. A utilização destas soluções estão reflectidas no nosso dia-a-dia, no trabalho a partir de casa, nas chamadas em vídeo-conferência a partir de plataformas como o Zoom e Microsoft, acessos permanentes a VPN e ferramentas de colaboração, muito equiparado à forma como temos utilizado aplicativos como o WhatsApp, Facebook Messenger e Gmail para alavancar as nossas comunicações, em anos anteriores. Acabamos por continuar a confiar nestas soluções, muito embora no passado estas tenham sido denunciadas por recorrerem à utilização de dados pessoais para moldar anúncios com fins comerciais ou para terem uma força influenciadora na formação de opiniões, e agora estamos a estender essa confiança nas soluções que adoptámos para o trabalho remoto e para os nossos Clientes, mas continuamos a ter que ter cuidado - principalmente na gestão das infra-estruturas e das soluções de base, dadas as implicações para os requisitos de segurança cibernética e privacidade de dados. Torna-se imprescindível a compreensão do nosso papel para encontrar

Ao nível global, tem havido uma forte pressão e uma grande preocupação acerca da privacidade dos dados, daí o crescente número de políticas reguladoras emitidas pelos governos

As instituições precisam de cada vez melhores meios e sistemas de segurança e protecção de dados

uma solução, seja como indivíduos, como organizações ou como comunidade, e agora somos confrontados com o desafio de responder a estas necessidades. Embora pareça simples implementar as novas políticas (ou seja a GDPR e POPIA) e as melhores práticas, não é de todo fácil. As empresas enfrentam os desafios adicionais de avaliação e implementação de novas tecnologias para ajudar a impulsionar soluções inovadoras para os seus Clientes - que podem tanto apoiar como dificultar o cumprimento destas normas. Logo, torna-se cada vez mais um acto de equilíbrio em que cada empresa trabalha para assegurar que tanto os requisitos legais e regulamentares sejam cumpridos, como as expectativas dos Clientes sejam excedidas. Aqui deparamo-nos então com os dois principais actores: o indivíduo e os reguladores-legislador. Nós, enquanto indivíduos, já abraçámos várias mudanças tecnológicas e depositámos confiança nestas novas tecnologias transformadoras. Todos os que actualmente possuem um dispositivo com inteligência - tablet ou telefone – certamente já confiaram nas várias soluções às quais estiveram expostos, como o Facebook, Google, Microsoft, entre outras, que fornecem soluções que são adaptáveis e suportadas por uma tecnologia subjacente que muitos provavelmente já ouviram, mas poucos poderão eventualmente compreender - cloud. Cloud é um termo utilizado para descrever uma rede de servidores que operam remotamente em todo o mundo e que funcionam como um repositório único. Estes são concebidos para armazenar e gerir dados, executar aplicações, ou fornecer conteúdos e/ ou serviços. No entanto, nós, enquanto indivíduos, precisamos de garantir transparência na forma como os nossos dados são protegidos e a nossa privacidade é respeitada. É aqui que o segundo actor fundamental pode ajudar a impulsionar um ambiente inovador na prestação de serviços, auxiliando as empresas a encontrarem soluções escaláveis e, em simultâneo, que garantem a protecção do crescimento e do desenvolvimento do País, tirando partido destas novas tecnologias para impulsionar a temática da transformação. O nosso Governo e os reguladores têm um papel crucial e a responsabilidade de orientar e de fornecer os mecanismos necessários, que permitam o crescimento e o desenvolvimento sem colocar em causa a inovação, bem como o

de ajudar a proteger aquilo que consideramos um direito e uma obrigação legal para aqueles em quem depositamos a nossa confiança ao partilharmos os nossos dados. Uma possível solução nesta jornada poderá passar pela solução de uma cloud “soberana” - à semelhança da definição clássica relativa à “auto-governação”. Uma solução de cloud soberana garante que a infra-estrutura do local onde está a cloud opere seguindo o cumprimento das regras definidas pelo país anfitrião, protegendo os seus utilizadores, os dados e a independência (soberania). A cloud traria efectivamente os mesmos benefícios tecnológicos enquanto decorre a existência de uma solução maior. Imagine-se uma solução unicamente Google Drive de Moçambique que cumpra os requisitos regulamentares e legislativos do nosso País, mas que é actualizada e tem como base o mesmo padrão e entrega da solução Google Drive utilizada globalmente (pela Google).

Este é o novo modelo em discussão na Europa no âmbito do Projecto Gaia-X, impulsionado pelo conceito de Soberania dos Dados. Este não seria aplicado simplesmente às empresas privadas, mas poderá ser uma abordagem para impulsionar a transformação da prestação de serviços no sector público, fornecendo um modelo de cloud que um governo poderia adoptar. Para ser claro, esta não é a única solução que necessita de ser redimensionada do lado das expectativas digitais dos nossos Clientes, mas é uma solução baseada na cloud que permitiria que os requisitos regulamentares e legislativos específicos do País moldassem e impulsionassem a entrega de soluções. Logo, isto permitiria a entrega de soluções inovadoras locais, dando a oportunidade às empresas de se afastarem do modelo clássico dispendioso para poderem ter e gerir infra-estruturas. Tal como com a pandemia, estamos em contínua aprendizagem quanto à compreensão do nosso papel na comunidade e a nossa responsabilidade partilhada. Todos nós somos parte integrante da solução e precisamos espoletar a conversa em torno da segurança e da protecção de dados, com uma abordagem impulsionada para orientação, informação e compreensão ao invés de restrições ou aversão ao risco. Este será o caminho para alavancarmos uma mudança transformacional, necessária e, consequentemente, a compreensão dos nossos papéis ao longo desta jornada.

NÚMEROS EM CONTAA

AS VELOCIDADES DA INTERNET MAIS RÁPIDAS (E MAIS LENTAS) DO MUNDO

Com que rapidez é que a última página de Internet que consultou carregou? A resposta depende do dispositivo que está a utilizar, e em que parte do mundo se encontra. As velocidades médias da Internet variam muito de país para país.

Utilizando dados do Speedtest Global Index™, esta infografia classifica as velocidades de Internet mais rápidas (e mais lentas) em todo o mundo, comparando tanto a banda larga fixa como a móvel.

É importante compreender os factores-chave que afectam a velocidade da Internet de um país. De um modo geral, a velocidade da Internet depende da infra-estrutura ou do tipo de cabos (de cobre ou fibra óptica) que um país utiliza para suportar o seu serviço de Internet. Tipicamente, quanto mais recente for a infra-estrutura, mais rápida será a ligação. Como

também da proximidade/ligação a cabos submarinos, uma vez que estes enormes cabos submarinos de fibra óptica transmitem cerca de 97% dos dados de comunicação do mundo.

É preciso não perder de vista que o investimento faz a diferença, ou o quanto o Governo de um país dá prioridade à acessibilidade da Internet.

Claro que além destes, outros factores também podem influenciar a velocidade da Internet, tais como a regulamentação governamental e o estrangulamento intencional da largura de banda.

Singapura aparece em primeiro lugar, com uma velocidade de descarga de 262,2 mbps – mais do dobro da média global –, enquanto Moçambique se encontra na posição 177 a nível mundial, com uma velocidade de 8,8 mbps.

As velocidades são lentas devido ao acesso limitado aos cabos de fibra óptica submarinos que transmitem 97% do sinal de Internet em todo o mundo.

NAÇÃO

A PROMESSA DE UM SILICON VALLEY MOÇAMBICANO. SERÁ CUMPRIDA?

No mês do apagão do Facebook, a E&M foi visitar a Silicon Valley moçambicana para perceber o estado da arte de quem quer trazer o Futuro para Moçambique. Ou vice-versa. Mas com apenas sete anos de existência, o Parque de Ciência e Tecnologia da Maluana sempre funcionou a meio gás, por ainda não ter conseguido firmar-se como ponto de convergência de cientistas, engenheiros, inovadores e empreendedores. Mas há sinais de mudança graças ao crescente interesse de algumas empresas em aderir aos serviços ali instalados, bem como a novas perspectivas de investimentos na infra-estrutura, para dotar aquela que começou por ser uma bela ideia numa concretização real com efeitos na economia e no desenvolvimento do país.

Texto Celso Chambisso • Fotografia Sérgio Manjate

“Um parque de ciência e tecnologia é uma máquina de produzir empresas e fá-lo através da convergência de competências de diferentes valências. O País precisa de novas empresas para fazer o aproveitamento integral e correcto dos seus recursos naturais, culturais, intelectuais, artísticos, etc., e de tudo o que gera dinheiro, quando bem utilizado. É preciso pegar em todos estes recursos, que até temos em abundância, e converter em produtos e soluções comerciais para gerar fontes de renda para o Estado poder financiar investimentos públicos. É assim que devem ser entendidos os parques: como máquinas de fazer empresas”. A frase de Julião Cumbane, Presidente do Con-

selho de Administração da Empresa Nacional de Parques de Ciência e Tecnologia – entidade responsável pela gestão daquela infra-estrutura – explica melhor o ponto central desta questão que, apesar de bem compreendida, não é de fácil concretização em Moçambique.

A verdade é que o mundo assiste a uma cada vez maior aposta na ciência e tecnologia como factores de transformação económica e social rumo ao desenvolvimento. Nos países mais desenvolvidos este movimento começou há muito mais tempo e está bem mais avançado. Mas nos pobres, como Moçambique, além de recente, o avanço é, obviamente, muito mais modesto. É o caso do Parque de Ciência e Tecnologia da Maluana, na província de Maputo, criado com o propósito de liderar a transformação tecnológica

"É preciso pegar em todos os recursos que temos e converter em produtos e soluções comerciais para gerar fontes de renda para o Estado", Julião Cumbane

e económico-empresarial do País. Conhecido por ser insustentável – uma vez que nunca conseguiu atrair um número expressivo de empresas e outros stakeholders – tem sido visto com desconfiança e até como uma ideia votada ao fracasso. Basta visitar as peças noticiosas que se publicam sobre o desempenho daquela infra-estrutura. Aliado a isso, o País apresenta um dos baixos níveis de pesquisa científica do mundo, o que agrava a noção da inu-

tilidade do Parque. De acordo com o Livro de Indicadores de Investigação Científica e Desenvolvimento Experimental, a Despesa Bruta na Investigação e Desenvolvimento (DBID) como percentagem do PIB foi 0,33% em 2017, o que coloca ao País o desafio de aumentar o investimento na investigação e desenvolvimento de modo a alcançar a meta de 1% do PIB fixada pela SADC e NEPAD. Para ter uma ideia comparativa com os países bem posicionados neste aspecto, os indicadores da eficácia do sistema de ciência e tecnologia de um país, medidos pelo investimento na investigação e desenvolvimento, indicam que nos países industrializados a proporção de investimento financiada pelo sector privado é de 60% e os restantes 40% pelo sector público. Isso está muito distante da realidade nacional.

Ainda assim, nos dias que correm, há sinais de um movimento que tende a mudar esta realidade. A E&M foi ver de perto o que está a acontecer e o que se projecta no Parque da Maluana. Ali reina uma grande ambição de transformar a infra-estrutura no ˈVale do Silícioˈ nacional. ˈVale do Silícioˈ (Silicon Valley em inglês) é a designação do local onde nasceu o primeiro parque de ciência e tecnologia do mundo, na Califórnia, EUA, na década de 1950. Foi ali que se fabricou o primeiro transístor de estado sólido do mundo, o que revolucionou a indústria electrónica dos circuitos integrados. “Queremos que os parques de ciência e tecnologia de Moçambique se tornem no Vale do Silício de Moçambique, a começar por este. Estamos a caminhar para aí”, garantiu o PCA da empresa responsável pela gestão do Parque da Maluana.

O que vai mudar… e o que está em falta?

A primeira boa-nova é que há um crescimento substancial de startups que procuram trabalhar nas incubadoras do Parque. De apenas três até 2019, o número de empresas subiu para dez (ainda que muito abaixo da capacidade actual de 90 empresas) e há cerca de 30 interessadas em instalar-se no Parque. “Sentimos que existe interesse. Temos potencial, estamos a trabalhar na publicitação do mesmo e temos uma boa resposta porque as incubadoras estão a ser ocupadas por empresas do ramo das TIC e vemos movimento satisfatório”, constata Julião Cumbane.

Entretanto, o PCA do Parque reconhece haver dificuldades para pô-lo a funcionar em pleno, com o argumento de que a Empresa Nacional de Parques de Ciências e Tecnologias é muito nova, com apenas nove anos de existência legal e sete anos de existência operacional. Além disso, há outros centros por implantar em espaços reservados daquela infra-estrutura. Até agora, o centro que está disponível, de acordo com o responsável, é o de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico, mas falta o Centro de Pesquisa em Água, o Centro de Pesquisa Etnobotânica e o Centro de Biotecnologia. “Só assim completaremos a parte de suporte à pesquisa científica”, explicou Cumbane, esclarecendo também que, para tal, o Parque está a mobilizar financiamentos, no valor de até 20 milhões de dólares.

Mas nem tudo exige uma intervenção de raiz, afinal, o Centro de Pesquisa Etnobotânico existe e está em Namaacha, província de Maputo; o Centro de Pesquisa em Água está em instalações alugadas na Cidade de Maputo; o Centro de Biotecnologia também existe. O que se está a fazer agora é pedir aos directores destes centros que levem ao Parque da Maluana os projectos de construção que já têm espaços

Muita infra-estrutura instalada no Parque de Ciência e Tecnologia da Maluana está ociosa, daí as campanhas para trazer mais utentes a esta casa

reservados no Parque. Também falta dinheiro para construir os laboratórios, já que cada um destes centros vai precisar de cinco laboratórios para funcionar em pleno. Outro grande plano é a criação de infra-estruturas de pesquisa para que as universidades possam realizar estudos no Parque, já que não é qualquer universidade que tem condições para criar o seu próprio centro de pesquisa. “Se tivermos os centros de pesquisa criados, os parques tornar-se-ão atractivos, primeiro para os cientistas, a seguir para os engenheiros e inovadores e, por fim, para os empreendedores. É por isso que estão reservados cerca de 950 hectares no Parque da Maluana, estando ainda reservados outros 1000 hectares para cada um dos futuros Parques de Ciência e Tecnologia de Dombe (província de Manica), Mocuba e Nacala (província de Nampula)”, assegurou Julião Cumbane. Quando aos outros Parques de Ciência e Tecnologia, “estamos a mobilizar financiamentos para criarmos a infra-estrutura necessária para os tornar atractivos. Por enquanto estamos muito concentrados no da Maluana, mas a legalizar o Direito de Uso e Aproveitamento de Terra (DUAT) em Dombe e Mocuba. Para Nacala já temos um DUAT provisório”, explicou.

A modernização já trouxe um ˈDigital Oceanˈ

A modernização é uma das estratégias de crescimento do Parque e, nesta componente, muitas novidades vão marcando a transição para um futuro promissor. É o caso do lançamento, recentemente, do “digital ocean” moçambicano designado “MaluanaBytes”. Digital Ocean refere-se a uma infra-estrutura que funciona como provedora de serviços de computação e armazenamento em nuvem. Com

DE QUE É COMPOSTO O PARQUE?

A infra-estrutura física, tecnológica e equipamento do Parque da Maluana é actual e principalmente composta por salas de formação, laboratórios de TIC (hardware, software e redes), centro de dados, sala de conferências com capacidade para 200 pessoas, uma casa de hóspedes, centro social e uma área com cerca de 950 hectares, quase inexplorada. As salas de formação têm capacidade para 25 alunos cada, tendo actualmente oito áreas, nomeadamente Programação e Excel Avançado. Também tem um centro de operação de rede de dados com uma capacidade de armazenamento de sete Terabytes, sendo que estão em curso investimentos para ampliar essa capacidade para 50 Terabytes. Existem, igualmente, quatro laboratórios nomeadamente Hardware, Open Source, Redes e Microsoft. Entretanto, a maior parte dos equipamentos encontra-se obsoleta necessitando de uma actualização. É notório o desgaste de algumas áreas internas do principal edifício com destaque para os tectos, paredes e chão, o que exige um plano de manutenção/reabilitação de áreas degradadas.

o “MaluanaBytes” o parque vai poder contribuir para o melhoramento do posicionamento e armazenamento de informações de empresas e desenvolvedores moçambicanos na internet de modo a que não seja mais necessário recorrer aos provedores internacionais dos referidos serviços. Também vai assegurar o cumprimento de um dos requisitos legais que obrigam a que empresas sediadas em Moçambique devem dispor de um provedor destes serviços num raio de 50 km no mínimo, melhorando a comunicabilidade das empresas no acesso aos serviços.

Localização estratégica, um ganho

Todos os Parques projectados para o País estão localizados ao longo dos corredores de desenvolvimento. O da Maluana está ao longo do Corredor de Limpopo, com uma ferrovia e a EN1 muito próximas. O de Dombe está no Corredor da Beira, junto à estrada e linha férrea que vai ao Zimbabué. O de Mocuba está no Corredor de Milange, junto ao Porto de Macuze, ligando Moçambique, Maláui e Zâmbia. Por fim o parque de Nacala, junto ao Corredor de Nacala, que junta Moçambique, Maláui e Tanzânia. Assim, a ideia é que as empresas que se vão instalar nesses locais possam fazer comércio facilmente ao longo dos corredores de desenvolvimento.

Défice energético, uma preocupação

O Parque da Maluana tem enfrentado cortes frequentes de corrente eléctrica, o que prejudica a sua imagem perante as empresas que querem comprar os serviços ali criados. Mas há soluções à vista. “Por exemplo, conversámos com a Electricidade de Moçambique (EDM), que vai produzir energia a partir de diversas fontes, porque também queremos que os parques sejam centros de demonstração de tecnologias de geração de electricidade para vender o excedente”, revelou o PCA. Isto é, a empresa pretende que cada um dos parques tenha a sua própria central e que concorra com a rede pública no fornecimento ao mercado de energia de qualidade. “Se assim for, teremos conseguido

RAIO-X DO PARQUE DA MALUANA

Há riscos e oportunidades a considerar na luta pela construção de um Parque competitivo, segundo o Plano Integrado 2021/25 concebido pela Empresa Nacional de Parques de Ciência e Tecnologia. Conheça-os

PONTOS FRACOS

PONTOS FORTES

• Zona económica especial com potencial para atrair clientes e parceiros

• Localização do Parque de Ciência e Tecnologia da Maluana junto de infra-estruturas públicas (estrada e linha férrea) que pode facilitar a atracção de investidores

• Master Plan indicativo dos investimentos futuros

• Braço do Estado para a área de ciência e desenvolvimento tecnológico

• Infra-estruturas com potencial de revitalização/actualização

• Espaço de 950 hectares para expansão

• Reduzida capacidade para atrair fundos para investimento para o desenvolvimento dos Parques de Ciência e Tecnologia

• Recursos humanos que não correspondem à estrutura organizacional da Empresa

• Falta de Instrumentos de Gestão Interna como Plano Estratégico e de Negócios, Plano de Marketing

• Baixa exploração do Parque e reduzida capacidade institucional, para responder às exigências do mercado

• Fraca sustentabilidade do Parque visto que a maior parte das actividades desenvolvidas são de carácter social

• Parte de infra-estruturas e equipamentos encontram-se obsoletos e desactualizados;

• Energia eléctrica de fraca qualidade no Parque de Ciência e Tecnologia da Maluana;

• Falta de uma direcção comercial, o que compromete a divulgação da empresa e dos serviços prestados

FONTE Pesquisa “Sector Informal, Microfinanças e Empresariado Nacional em Moçambique”, de António Pinto de Abreu

A BioMec, uma das startups moçambicanas mais conhecidas no mundo e que produz próteses, é uma das acreditam no potencial e no futuro da Maluana

tornar o Parque num lugar atractivo, sem dúvidas, até mesmo porque vamos praticar tarifas concorrenciais”, prometeu, sublinhando que a realidade actual ainda está muito longe deste sonho.

Maluana na voz dos seus utentes

A E&M ouviu três das dez startups que poderiam estar a operar no centro da cidade, mas ignoraram os 60 quilómetros de distância e foram instalar-se no Parque da Maluana. A primeira ideia que deixam é a certeza de que a infra-estrutra tem condições para se consubstanciar em mais-valias para os seus negócios e para a economia. “Vejo um futuro promissor e revolucionário para os projectos que queremos implementar nele (o Parque), teremos a oportunidade de contribuir para o desenvolvimento do uso das TI em Moçambique e colocar o nosso país no radar dos contribuintes em soluções de TI”, disse Roberto Mavume, dono da Ping Serviços, empresa que presta serviços na área das TI. Marta Uetela, fundadora da BioMec, empresa premiada internacionalmente por produzir próteses ortopédicas com base em material reciclado (redes de pesca e garrafas PET resgatadas no mar), também acredita que “o Parque pode, sim, tornar-se no Silicon Valley em Moçambi-

que, possibilitando a diversos jovens testar conceitos, ideias e desenvolver soluções locais para os nossos problemas”. Tanto a Ping Serviços quanto a BioMec foram atraídas pela “facilidade de realizar pesquisas”, assim como a “possibilidade de trocar impressões com outros jovens criativos de diferentes áreas e acesso a instalações apropriadas para uma linha de produção”. “Descentralização é a palavra de ordem há alguns anos, acho interessante e ousado que iniciativas deste género optem por localizações que não sejam necessariamente o centro da cidade. Há muito potencial e oportunidades por explorar e o Parque de Ciência e Tecnologia da Maluana é um exemplo disso”, concluiu Marta Uetela.

Na mesma linha, Obadias Pelembe, fundador da PagaLu, uma fintech que fornece um serviço que agrega todos os métodos de pagamento, entende que “a localização do Parque fornece uma nova experiência na perspectiva de inclusão das comunidades remotas, sendo esta uma das nossas grandes metas e objectivos de pesquisa, facultando assim uma melhor interacção no campo para colecta de dados bem com ensaio de hipóteses”.

Pelembe não tem dúvidas que “para novos operadores que aderirem ao Parque de Ciência e Tecnologia da Maluana e pequenos empreenderores de tecnologia, o parque fornece recursos activos para ensaio e testagem de soluçöes tecnológicas” e que soluçöes inovadoras poderão surgir graças a essa capacidade de fornecer recursos necessários e primários, que impulsionam e motivam os empreendedores a criar seus produtos e serviços”.

Copiar, Imitar & Adaptar: Inovação na Economia Informal

Eeste artigo faz parte de uma trilogia que dediquei ao tema da Economia Informal (adiante “EI”) 1 E vem o tema muito a propósito porquanto foi recentemente lançado, dezasseis anos depois, o 2º inquérito ao sector informal 2021-2022, em Moçambique.

Vai ser instrumental para esta análise a seguinte definição de Inovação 2: “… é a introdução [em mercado(s) informais] de um bem ou serviço novo ou significativamente melhorado, no que se refere às suas características ou usos previstos, ou ainda, à implementação de métodos ou processos de produção, distribuição, marketing ou organizacionais novos ou significativamente melhorados” 3 Vejamos, em 11 pontos, as principais características da Inovação na Economia Informal (adiante “IEI”).

1- Lugar de origem: a “IEI” não nasce em laboratórios de R&D, mas nas ruas, nos mercados e bairros periurbanos, em pequenas oficinas sem quaisquer condições de trabalho decente, e sem infra-estruturas de suporte.

2- Iniciativa: a “IEI” não é de iniciativa colectiva, mas nasce do génio individual do mico-empreendedor/a informal.

3- Clientela: a “IEI” não resulta de estudos de mercado, ou de exercícios em focus group, mas da enorme proximidade relacional do micro-empreendedor/a informal com a sua clientela, a base da pirâmide (BOP) 4, os 2.7 biliões de pessoas que vivem com menos de USD $2.50 por dia.

4- Necessidades endereçadas e incentivo para inovar: a “IEI” não visa avanços tecnológicos, mas resolver a aspiração maior daqueles que se encontram na base da pirâmide, e que é progredir socialmente, de forma a poderem aceder ao nível seguinte, à “Classe do Meio” 5 e fazer parte dos African Lions 6 5- Fontes de geração/apropriação da inovação: a “IEI” não se baseia na pesquisa, invenção ou co-criação, mas devido à falta i) de conhecimento, ii) de aconselhamento, iii) de equipamentos, iv) de recursos financeiros e v) do apoio do sistema científico e tecnológico, o micro-empreendedor/a informal apropria-se dos processos de produção, distribuição, marketing ou

organizacionais novos ou significativamente melhorados através da cópia, da imitação e da adaptação. Esta é também conhecida por Inovação Commoditizada, Inovação Adaptativa, Inovação BOP, Inovação Frugal ou JUGAAD 7

6- Elemento de Novidade e/ou de Melhoria Significativa: a “IEI” não se traduz na criação de produtos, processos, distribuição, marketing ou organização novos ou significativamente melhorados. É na capacidade do micro-empreendedor/a adaptar produtos/serviços ao ambiente local (v.g. preferências; gostos; cultura; tradição local) que reside a sua mais-valia. E esta capacidade criativa advém do conhecimento prático (on-the-job training), e da partilha informal de “segredos do ofício” no seio familiar (a unidade organizativa por excelência da “EI”), ou na associação na qual o micro-empreendedor/a está inserido.

7- Conteúdo local: a “IEI” não importa do exterior i) know-how, ii) matérias-primas, iii) tecnologia. Mas muito conhecedora das preferências da sua clientela, por via da grande proximidade, o micro-empreendedor/a lança mão, improvisa, adopta & adapta recursos indígenas/locais (v.g. produtos, equipamentos e matérias-primas em estado de uso) para introduzir bens ou serviços novos ou significativamente [adaptados] Neste contexto, e em reacção a esta característica da “IEI”, se percebe porque grandes companhias multinacionais adaptam os seus produtos para poderem vendê-los em mercados informais (“BOP as a Business Opportunity”) 8

8- Propriedade intelectual: dadas as peculiares características da “IEI” já assinaladas; ao diminuto valor em causa das inovações geradas; à complexidade e custo associados ao processo de protecção 9; e ao “horror” do micro-empreendedor/a informal a tudo o que seja burocracia, a “IEI” não se encontra protegida por i) patentes, ii) modelos de utilidade, iii) direito autoral, iv) desenho industrial, v) marca registada, ou outras formas de garantia de recebimento, por determinado período, de recompensa pela criação intelectual.

A Inovação na Economia Informal não nasce em laboratórios de R&D, mas nas ruas, nos mercados e bairros periurbanos, em pequenas oficinas sem quaisquer condições de trabalho decente, e sem infra-estruturas de suporte... também não resulta de estudos de mercado...

João Gomes • Partner @ JASON Moçambique

A economia informal não beneficia de qualquer ecossistema de suporte de pesquisa, mas, mesmo assim, é uma fonte de geração de inovação

9- Velocidade de resposta ao mercado: Antes, e por se basear essencialmente na cópia, imitação e/ou adaptação, o micro-empreendedor/a da “EI”, para garantir a recompensa pela sua criação, tenta ser o primeiro na colocação das suas inovações no mercado e beneficiar do FMA First-Mover Advantage. E, neste contexto, é de assinalar a extrema velocidade do ciclo da “IEI”, quando comparada ao ciclo de inovação na economia formal.

10- Diferenciação e escala: Como consequência de não poder proteger, por exemplo, a marca, na perspectiva da clientela torna-se mais difícil para estes diferenciar os bons produtos/serviços, dos maus. E como copiar é a norma na “EI”, os produtos e serviços são verdadeiras commodities, logrando o micro-empreendedor/a obter apenas rendimentos marginais da inovação, impossibilitando assim o acumular de capital para investir i) em equipamentos, ii) na contratação de recursos humanos qualificados, iii) na melhoria das condições de higiene e segurança e, bem assim, iv) alcançar economias de escala. Em consequência, sem poder aumentar a sua produtividade e base patrimonial, afastar-se, assim, do acesso a crédito bancário para financiar a sua actividade. 11- Políticas públicas: a “IEI” não beneficia de um ecossistema de suporte (universidades, laboratórios de pesquisa), nem tão pouco de políticas públicas de promoção baseadas em incentivos financeiros, fiscais, treino, e assistência técnica. Antes, os Estados em vias desenvolvimento, como o Moçambicano, têm progressivamente adoptado uma postura que começou por ser i) repressiva/supressiva das práticas “IEI”, muito sob pressão das grandes marcas, prejudicadas pela cópia dos seus produtos/serviços; a qual migrou para um estágio seguinte de ii) tentativa de regulação e disciplina (em domínios como a higiene e segurança; fiscalidade; protecção social; protecção do consumidor); iii) para um estágio ulterior de tentativa de formalização. Todas sem sucesso, como aliás tem acontecido nos países com elevado nível de economia informal. Em conclusão

A Economia Informal é uma fonte de geração de inovação de produtos, serviços, processos de produção, distribuição, marketing e organizacional. A grande proximidade do micro-empreendedor/a com a sua clientela BOP (Base da pirâmide) permite-lhe, aliada ao seu génio individual, extrema

agilidade e sentido de oportunidade - e apesar dos inúmeros obstáculos - copiar, imitar, adaptar soluções que elevem as aspirações de todos a pertencerem à Classe do Meio.

A ausência de mecanismos de protecção das criações inovadoras na “EI” não permite aos seus autores a necessária diferenciação e escala.

Mas a commoditização da “IEI” não é uma inevitabilidade: a progressiva intervenção dos Estados assumindo, cada vez menos, posturas repressivas da economia informal, em benefício de acções concretas no sentido de criação de um ambiente propiciador, facilita o reconhecimento e a criação de valor por esta via. A par da promoção de uma maior ligação (linkages) entre as empresas da economia formal e os micro-empreendedores da “EI” ajudarão a tornar mais produtivas e mais sustentáveis as economias como um todo.

1 GOMES, João “Escolas de Negócios & Economia da Bolada”; “ Informal é Normal”. Revista E&M e Jornal Diário Económico.

2 OCDE, “Manual de Oslo”. OECD/EC/Eurostat, 1997.

3 Tipos de inovação promovida por micro-empresas da “EI”: de Produto = 10%; Inovação de Processo = 3,9%; Inovação de Marketing = 5,7%. Fonte: “African Innovation Outlook 2019”.

4 PRAHALAD, CH “The Fortune at the Bottom of the Pyramid. August 2004.

5 GOMES, João “A Classe do Meio”. Revista E&M e Jornal Diário Económico. Junho 2021.

6 VAN BLERKE, Hendrick, “African Lions: Who are Africa´s rising middle class?”. IPSOS Views, February 2018.

7A JUGAAD, expressão do norte da Índia que significa “milagre”: inovação para obter lucros, baseada em soluções de aplicação rápida e de muito baixo custo, provavelmente insegura, e não muitas vezes ignorando ou “torcendo” a lei.

8 É popular o exemplo da redução do tamanho das embalagens de shampoo na Índia. LAZLO, Chris “The Business of Sustainability”. 2010.

9 Código de Propriedade Industrial entrou em vigor em Moçambique no dia 31 de Março de 2016. Este novo código foi aprovado no dia 31 de Dezembro de 2015 pelo Conselho de Ministros de Moçambique e foi publicado nos termos do Decreto nº. 47/2015.

NAÇÃO

“QUEREMOS TRANSFORMAR O PARQUE EM CLOUD NACIONAL”

A ambição e o potencial estão lá. Mas estão também lá vários obstáculos para tornar verdadeiramente funcional o Parque de Ciência e Tecnologia da Maluana. No equilíbrio de forças, felizmente, os responsáveis reiteram que o Parque irá vingar e impor-se

Texto Celso Chambisso • Fotografia Sérgio Manjate

José nhampossa, administrador para o pelouro de Ciência, Tecnologia e Inovação do Parque da Maluana, traz uma visão técnica sobre o que ali se faz e se pretende operacionalizar. Na sua óptica, um “empurrãozinho” de 20 milhões de dólares faria toda a diferença na operacionalização daquela infra-estrutura ao nível do que se projecta. Mas também vê a necessidade de maior envolvimento do Estado no processo, o que poderia melhorar a face do Parque num intervalo de três anos e até colocá-lo no patamar dos

melhores de África em 2030. Afinal, falta tão pouco quanto isto?

Assiste-se, em Moçambique, a uma evolução visível na área tecnológica, a avaliar pela rápida difusão das startups, parte das quais de prestígio reconhecido mundialmente. Há espaço para considerar que essa evolução é resultado do crescimento na pesquisa científica? A lógica da proliferação das startups é que elas têm de resultar de um trabalho de pesquisa. Ou seja, identificam um problema real no mercado e procuram resolvê-lo, mas não de

qualquer maneira, e sim através de métodos científicos. Isso implica criar condições para estudar o problema e trazer todas as opções de solução, e depois seleccionar a melhor resposta para o problema. Uma vez encontrado o caminho para solucionar tais problemas, pode estar encontrado também o ponto de partida de um negócio. Mas, para tal, são precisos elementos como uma equipa de profissionais e outros interessados nessas soluções. É assim que nascem as startups, que por sua vez desenvolvem outros meios para crescerem de pequenas para médias, grandes e até atingir patamares

empresariais mais elevados. Entretanto, muitas das startups que temos no País não resultam, necessariamente, de um trabalho de pesquisa científica. Surgem por questões de oportunidade, mas com o mérito que não pode ser negado por parte dos seus criadores.

Qual é a diferença, em termos práticos, entre uma startup que nasce pela ciência e a que não tem origem na pesquisa científica?

A vantagem de recorrer à pesquisa é a possibilidade de massificar as iniciativas de empreendimentos e

ampliarmos a possibilidade de criar novas empresas da área tecnológica. Veja que poderíamos, simplesmente, ir para as universidades ou para as instituições de pesquisa que são tantas em Moçambique, onde há muitos trabalhos de licenciatura, de mestrado, de doutoramento e de outros graus de formação, mas que estão esquecidos nas prateleiras. Esses trabalhos podem ser operacionalizados em incubadoras como as deste Parque. Isso consistiria em atribuir meios aos autores das pesquisas, para transformarem os seus estudos em utilidades e negócios, isto é, vendendo as soluções da sua pesquisa. Isso teria um efeito muito grande na multiplicação de empresas e na aceleração do crescimento socioeconómico.

Isto está a acontecer no Parque de Ciência e Tecnologia da Maluana? Começámos com algumas dificuldades, mas a meta é conseguirmos esse objectivo e estamos mesmo nesse caminho. Temos uma enorme lista de instituições, de projectos, de pessoas, de empreendedores, empresários, parceiros internacionais com os quais assinámos memorandos de entendimento em que estão expressas as vontades de vir para o Parque dadas as vantagens que oferecemos também na componente aduaneira e fiscal. Por exemplo, há descontos aduaneiros na importação de equipamentos e também a isenção dos impostos nos

Então, qual é a real mais-valia do Parque neste momento? Que diferencial trazem as startups aqui instaladas em termos de competitividade e soluções para o mercado? É aqui onde está instalada a startup que, usando uma tecnologia 3D, pode imprimir próteses (braços e pernas) através de plástico reciclado. A ser produzido aqui, será muito acessível para quem precisa destes produtos. Outro exemplo é de uma startup que acaba de concluir o projecto de computador solar, que pode ser utilizado em qualquer parte do País.

Uma das utilidades seria no sector da Educação, onde cada carteira de estudante se pode associar um computador solar, podendo também facilitar e expandir o ensino à distância, já que tem capacidade de carga de oito horas em termos de energia. O que precisamos agora é de alguém que possa massificar este produto. Temos outra startup cujo foco é o desenvolvimento de sistemas para a gestão de instituições académicas, isto é, permite que as universidades e institutos superiores façam a gestão académica dos estudantes, recursos humanos, logística, património, etc., e que já está a ser praticado por algumas instituições de ensino superior em Moçambique. É um sistema muito utilizado noutras partes do mundo, mas com a particularidade se ser tão caro que não seria acessível às instituições nacionais, daí que o sistema que foi desenvolvido no

“Temos uma agenda concreta que, acredito que com o mínimo de financiamento necessário, seremos capazes de superar as melhores iniciativas do género que conhecemos do nosso continente”

primeiros cinco anos, de 50% a partir do sexto ano e 25% a partir do 11º ano. Se até agora houve poucos avanços foi por causa da pandemia do covid-19. Havia muitas empresas que tinham projectado estabelecer infra-estruturas para a geração de energia solar, transmissão de dados e alojamento de sistemas, estabelecimento de academias para oferecer formação em várias áreas, sobretudo nas TI, como a Microsoft e muitos outros, mas a situação ficou retardada. Mesmo sem fazermos tanta publicidade, temos muitas manifestações de interesse de instituições públicas e privadas.

País, por ser mais acessível, é uma mais-valia. Há muitos outros bons exemplos.

Fale-nos do Parque enquanto promotor da pesquisa científica num país em que a academia enfrenta desafios estruturais. Com que instrumentos trabalha e quais serão as grandes ambições na componente da cientifização do Parque?

É importante sublinhar que o Parque não está para fazer pesquisas. Não somos pesquisadores. Estes estão nas universidades e instituições de investigação, sendo a cidade de Maputo a

“O Estado não está preparado para investir nos parques de ciência e tecnologia. Ainda assim, nunca desistimos de tentar convencê-lo de que é aqui onde ele deve investir se quiser um futuro promissor para o País”

principal praça. A utilidade do Parque é criar condições para que os produtos resultantes da pesquisa não morram nas gavetas e tenham utilidade. Temos memorandos com as universidades que abrem a possibilidade de ligar a teoria à prática, já que temos cá laboratórios para a realização de pesquisas.

Mesmo assim ainda enfrentamos constrangimentos. Para começar estamos no mato. Quem vem pela EN1 vê o nosso edifício lá no fundo e não sabe do que se trata. O acesso ao Parque é um pouco difícil, ao que se sobrepõe uma distância de 60 quilómetros em relação à cidade de Maputo. Estes obstáculos são mais expressivos para quem ainda não veio para cá. Mas no dia em que os stakeholders (cientistas, engenheiros, inovadores e empreendedores) nos vêm visitar esquecem tudo e passam a ver mais vantagens do que desvantagens, até mesmo porque temos transportes para fazer o trajecto de ida e volta à cidade de Maputo.

Outro aspecto é a comunicação. Não temos um bom programa de comunicação ainda. É essencialmente isso que ainda nos trava. Mas já estamos a desenvolver um programa.

Que acções o Parque está ou vai desenvolver para materializar as intenções dos privados em cá vir?

O plano integrado de negócios que pretendemos implementar traz matérias relativas ao acesso e à segurança para melhorar, e que poderão servir de chamariz. Mas o que nos trava é a questão do investimento.

É que o Estado não está preparado para investir nos parques de ciência e tecnologia. Ainda assim nunca desistimos de tentar convencê-lo de que é aqui onde ele deve investir se quiser um futuro promissor para o País e evitar a importação de todas as soluções no campo da ciência e da tecnologia. Para compensar temos parceiros internacionais interessados em vir trabalhar cá. Temos mobilizado a comunidade internacional para a instalação de indústrias, de centros de dados, etc., e é aqui onde acaba por pesar a questão da pandemia do covid-19 (está tudo fechado). Mesmo assim vejo um futuro risonho. Dias melhores virão até porque já percebemos o que é que tem de ser feito. Temos um plano muito concreto que não é um simples sonho, é algo realizável que, em dois ou três anos, poderá fazer uma grande diferença no País.

Então está em vista um “vale do silício” à dimensão do dos países mais ambiciosos de África, como o Gana, Ruanda, Tanzânia ou África do Sul? Para quando? 2030 talvez?

Acredito que sim. Temos uma agenda concreta que, acredito que com o mínimo de financiamento necessário, seremos capazes de superar as melhores iniciativas que conhecemos do nosso continente, porque este parque foi desenhado e projectado para ser um centro de excelência não só em Moçambique como na África Austral. Infelizmente, o défice de investimento é que paralisou o desenrolar do plano. Esta infra-estrutura foi construída, mas nunca houve investimento público para ela poder arrancar, por isso estamos a funcionar com algumas limitações. E, como dizia, é possível rentabilizar esta infra-estrutura com um pequeno investimento avaliado em 20 milhões de dólares. Se o Estado investisse esse montante, pela capacidade aqui instalada, éramos capazes de devolver o dinheiro em pouco tempo. Consigo imaginar todas as empresas que estão na cidade de Maputo representadas aqui no Parque porque a Lei obriga a que todas as empresas tenham um “backup” de dados dentro de Moçambique, o que coincide com a agenda que temos de transformar este lugar na cloud nacional, mas é preciso investir na infra-estrutura.

Terá dado a entender que está a faltar o envolvimento do Estado na causa do desenvolvimento do Parque…

Este parque foi criado pelo Estado para servir o próprio Estado e aos cidadãos deste País. Sendo uma casa aberta, tem de ser utilizada. Portanto, o Estado tem de ser o primeiro a usá-lo para evitar que as suas instituições utilizem plataformas dispersas para armazenar os seus dados, como tem acontecido até agora. Por exemplo, um ministério gasta dinheiro para comprar vários servidores para cada uma das instituições onde funciona, uma opção onerosa e menos segura. Tudo isso é possível fazer aqui no Parque. Outro exemplo: não é perceptível porque é que a fábrica de cerveja que está no distrito de Bobole, perto do Parque, e que é do Estado, não foi instalada no Parque, que também foi concebido pelo Estado para albergar empresas desta natureza e envergadura.

NAÇÃO

O QUE ESTÃO OS OUTROS PAÍSES A FAZER?

África ainda produz pouca tecnologia, mas já apresenta iniciativas que podem servir de inspiração para implantar parques de ciência e tecnologia impulsionadoras do desenvolvimento. Vamos visitá-las

Países como o Gana, Ruanda, África do Sul, Quénia, Tanzânia, entre outros, têm ambições como as que Moçambique tem em relação ao parque da Ciência e Tecnologia da Maluana. A diferença, porém, é que os projectos daqueles países são muito mais mediatizados. Razões para isso haverá, de certeza. Mas antes que visitemos o que se está a fazer nessas geografias, importa começar por dizer que África, enquanto bloco único, já tem clareza sobre o estágio actual do desenvolvimento tecnológico, os pontos fracos e a estratégia para tornar os parques de ciência e tecnologia em verdadeiros pólos de mudança rumo ao desenvolvimento. O Projecto de Estratégia de Transformação Digital para África, saído da reunião de peritos no 4º Comité Técnico Especializado de Finanças, Assuntos Monetários, Planificação Económica e Integração ao nível da União Africana, realizado em Março de 2020 no Gana, permite-nos resumir os aspectos de destaque nesta matéria.

Mercado em rápido crescimento… De acordo com a União Africana (UA), o continente conta com mais de 400 pólos tecnológicos em 93 cidades e 42 países. Mais de 130 novos pólos foram abertos nos últimos dois anos (até 2020). Verificou-se um aumento anual quase quadruplicado do financiamento total recebido para as empresas emergentes em 2018. Além disso, o número de acordos de financiamento mais do que duplicou e as empresas emergentes no continente estão cada vez mais a receber grandes retornos,

de mais de 5 milhões de dólares. Ainda em 2018, as empresas emergentes africanas, principalmente as TIC, atingiram um recorde de 1,1 mil milhões de dólares. Os empresários africanos têm estado na vanguarda das tecnologias digitais para criar soluções inovadoras para problemas de desenvolvimento. Em cada problema, restrição ou desafio, estes inovadores vêem oportunidades. Algumas experiências, como o dinheiro móvel e o sistema de pagamento de energia solar por repartição “pay as you go solar”, deram à África a esperança de que também pode ser um actor dinâmico e inovador.

Mas existe o chamado “fosso digital na inovação”, que significa que nem todos os ecossistemas são iguais, quer em termos de contributo de talentos (intelectuais e criativos), investimento e recursos, quer em termos de resultados tecnológicos, sociais ou financeiros. Isto quer dizer que algumas comunidades e ecossistemas estão a desenvolver-se e a beneficiar das tecnologias emergentes e da inovação centrada nas TIC, enquanto outras dependem de tecnologias mais antigas ou têm pouco acesso às TIC.

… Com muitos desafios

Apesar da forte mentalidade empreendedora e do número crescente de intermediários empreendedores digitais, África não traduziu o seu potencial num ecossistema empresarial digital vibrante ou abrangente, com centros digitais comerciais que podem gerar talentos e empreendimentos para competir ao mais alto nível mundial. O fosso na inovação resulta, em

parte, de ineficiências na utilização ou afectação de recursos no ecossistema de inovação, da falta de apoios, políticas e outros elementos essenciais de um ambiente propício, bem como da necessidade de uma maior colaboração entre as partes interessadas, com vista a desenvolver um ecossistema completo através de actividades coordenadas de apoio.

Estas constatações da UA acabam por confirmar a realidade de Moçambique expressa no artigo anterior pelo administrador para o pelouro de Ciência, Tecnologia e Inovação do Parque da Maluana, José Nhampossa.

Qual deve ser o caminho?

Assim, a UA entende que “o foco deve estar em todo o sistema, em vez de simplesmente investir em insumos, e na necessidade de não sub-utilizar ou utilizar por excesso a intervenção do Governo e garantir um regime coe-

Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R

O WestPark do Gana está preparado para assistir projectos industriais de toda a África Ocidental, nas áreas de processamento de alimentos e bebidas, veículos e equipamentos, materiais de construção, entre outros

so e integrado de políticas relacionadas com o ecossistema”. Para a UA, os Estados-membros terão de continuar a conceber intervenções personalizadas para reforçar os seus ecossistemas empresariais específicos de componentes, que se reforçam mutuamente e que incluem uma base de conhecimentos digitais e um mercado das TIC; um ambiente digital favorável às empresas; acesso ao financiamento; competências digitais e liderança electrónica; e uma cultura empresarial.

“A concretização da visão da transformação digital em África exigirá uma agenda política adequada de inovação digital e desenvolvimento do empreendedorismo, em conformidade com os Objectivos de Desenvolvimen-

to Sustentável e a Estratégia de Ciência, Tecnologia e Inovação para África 2024 (STISA), para aumentar a competitividade do sector privado africano, apoiar o crescimento na utilização das TIC, desenvolver e reforçar a capacidade institucional. É necessário que África desenvolva o seu próprio modelo de inovação e evite a reprodução de modelos que, embora possam ter sido bem-sucedidos em outros lugares, não aderem necessariamente às realidades socioeconómicas do continente africano”, sugere o órgão. Entretanto, e como dissemos anteriormente, há modelos que vale a pena conhecer para uma melhor percepção do caminho que se está a traçar a este nível no continente.

Gana projectou e concretizou

Em 2013, o então Presidente do Gana, John Mahama, anunciou a intenção de erguer um parque tecnológico na capital, Accra, no valor de 10 mil milhões de dólares, parcialmente financiados pela iniciativa privada e que deveria incluir o prédio mais alto do continente, com 270 metros.

Inicialmente a ideia era de que o parque deveria estar focado em empresas do sector de Tecnologia da Informação (TI) e servir de local de trabalho para mais de 50 mil pessoas, e de residência para, pelo menos, 25 mil pessoas, além das funções de negócios.

Dessa intenção veio a nascer o Accra WestPark, que, além do Gana, está actualmente focado nas oportunidades de toda a África Ocidental.

Hoje devidamente publicitado e respeitado, o WestPark está preparado para atender a projectos do sector da indústria de toda a região, nomeadamente

Em 2020, o Ruanda anunciou a construção do seu Silicon Valley avaliado em 420 milhões de dólares, para transformar-se no centro de tecnologia e negócios da África Oriental e tornar-se num país de renda média até 2035

de processamento de alimentos e bebidas, veículos e equipamentos, materiais de construção e edifícios, calçado e vestuário, electrónica e aparelhos, e petroquímicos.

Mas a ambição deste país não pára por aqui. Recentemente, o Governo anunciou o arranque, em Outubro corrente, do projecto da Cidade Industrial de Kumasi, avaliado em 100 milhões de dólares, financiados pelo Banco Mundial, e que poderá criar, pelo menos, 5000 empregos directos e mais de 12 000 indiretos para o crescimento da economia local. Também se espera que as empresas de alguns sectores prioritários tenham a oportunidade de operar na cidade industrial sob o regime de zona franca, sendo sectores prioritários os de processamento do cacau, manufactura industrial leve, manufactura industrial pesada, armazenamento, logística, serviços e uma aldeia cibernética. Graças a esta visão, o Gana está entre as economias

mais promissoras de África com o PIB na casa dos mais de 72 mil milhões de dólares em 2020 (muito superior aos 14 mil milhões de Moçambique) e um PIB per capita de mais de 2,3 mil dólares (450 dólares em Moçambique).

…Ruanda segue o exemplo

Este país, que vem surpreendendo o mundo pela capacidade de contrariar um passado recente de um genocídio histórico, miséria sem precedentes e conflitos armados persistentes, vem surpreendendo também por grandes realizações ao nível do desenvolvimento socioeconómico. No ano passado, a imprensa internacional destacou a construção, pelo Governo ruandês, de um parque de inovação orçado em 420 milhões de dólares para transformar o país no centro de tecnologia e negócios da África Oriental.

Este é já considerado o principal programa do Governo para criar um ecossistema de alta tecnologia centra-

do na inovação e no talento e tem como modelo a cidade-estado de Singapura, bem como o Silicon Valley, o maior símbolo do ecossistema ao nível do mundo. A ambição do Ruanda com este tipo de investimento é clara: tornar-se num país de renda média até 2035 e de renda alta até 2050.

Actualmente, o PIB ronda os 10,3 mil milhões de dólares e o per capita em torno de 800 dólares.

Quénia, uma referência em infra-estrutura Em 2013, o Quénia anunciou planos para erguer a “Savana de Silício da África” (Savannah Silicon) ao custo de 14,5 mil milhões de dólares, com potencial para criar mais de 200 mil empregos nas próximas duas décadas. E o resultado já é uma realidade. O próspero parque tecnológico do Quénia é considerado o lar das startups mais avançadas do continente. Gozando de uma das velocidades de internet móvel mais rápidas do mundo, graças ao seu cabo de fibra ótica submarino, o Quénia é agora visto como um país verdadeiramente conectado. O seu ecossistema de tecnologia de mil milhões de dólares oferece um espaço para

O QUE TEM DE MUDAR?

A União Africana arrola várias recomendações que acredita serem cruciais para a viragem de uma economia continental, que vive de raras iniciativas de desenvolvimento tecnológico, para uma economia da predominantemente digital. Maior parte é de âmbito regulamentar

1

Desenvolver um quadro jurídico, institucional e regulamentar eficaz e uma agenda política para apoiar o desenvolvimento da inovação digital, do empreendedorismo e da investigação & desenvolvimento.

3

Estabelecer um Fundo para a Inovação a partir do qual o crescente grupo de empreendedores trabalhadores e bem-sucedidos possa explorar recursos para estimular a inovação digital, o desenvolvimento do empreendedorismo e a comercialização através de parcerias público-privadas.

2

Criar um portal para os empresários africanos, empresas iniciantes e PME comercializarem os seus serviços e habilidades e incentivar os Estados-membros da UA a obter serviços de empresários listados para apoiar o comércio intra-africano.

Criar regulamentos adaptados e de antecipação dos sistemas jurídicos e regulamentares, que promovam o empreendedorismo académico e outras formas de empreendedorismo. 4

Com a criação do centro de inovação iHub em Nairobi, o Quénia, que já é uma referência africana, deu origem ao movimento de hub da África, inspirando o surgimento de hubs de tecnologia em todo o continente

empreendedores, investidores e tecnólogos, com empresas estabelecidas como Facebook, Microsoft, IBM e Intel. Aliás, é preciso não esquecer que este é o berço do serviço Mpesa, que representa o revolucionar das FinTech. Outro exemplo de destaque é a VirtaMed, uma empresa suíça que fornece simuladores de realidade virtual de última geração usados para treinar médicos quenianos num procedimento simples de controlo de natalidade, que pode ser realizado em menos de 10 minutos. Médicos locais relataram amplamente o sucesso deste simulador.

Com a criação do centro de inovação iHub em Nairobi, o Quénia também deu origem ao movimento de hub da África, inspirando o surgimento de hubs de tecnologia em todo o continente. O sector oferece uma oportunidade única para as empresas suíças se envolverem com técnicos que entendem o ambiente local e podem associar-se para criar soluções dinâmicas.

África do Sul, a maior promessa?

A maior potência económica e industrial de África não fica para trás. Com uma longa história de inovação, invenções famosas como a tomografia computadorizada e o primeiro trans-

plante de coração descobertos lá, há quem acredite que este país pode ser o próximo foco de inovação. É o caso de Rob Hoehn, co-fundador e CEO da IdeaScale – a maior plataforma de software de inovação aberta do mundo, que se baseia numa série de iniciativas ali desenvolvidas. Um dos exemplos que avança é o da chamada Iniciativa do Cabo de Silício, que é uma comunidade da região do Cabo, de empreendedores de tecnologia, desenvolvedores, criativos, investidores-anjo que são apaixonados pelo empreendedorismo. Rob Hoehn acredita que estes poderão desempenhar um papel importante no futuro da África do Sul. Na verdade, na última década, a África do Sul introduziu várias inovações comercialmente viáveis no mercado, incluindo o Pelebox – um drone de plantação de árvores –, entre muitas outras inovações. Para tornar ainda mais expressivo o seu peso na área da ciência e tecnologia, a África do Sul assinou, em Dezembro do ano passado, um acordo com a China para a criação de parques científicos conjuntos em ambos os países, e que actuem como trampolins para a inovação transfronteiriça e o desenvolvimento industrial. O primeiro passo do acordo é o Centro de Inovação

da África do Sul criar uma incubadora e showroom de inovação num parque científico em Xi’an, uma das cidades mais antigas da China. O parque científico chinês em Xi’an fará o mesmo no Centro de Inovação em Pretória e espera-se que estas infra-estruturas entrem em operação em 2021. No próximo ano também haverá intercâmbios entre os dois locais e o início de uma campanha para atrair inquilinos comerciais interessados em aproveitar os benefícios transfronteiriços da iniciativa.

Mas são precisos meios e capital humano Apesar dos avanços, há questões pontuais que, se desbloqueadas, podem colocar o continente na rampa do desenvolvimento. Segundo a UA, quase 300 milhões de africanos vivem a mais de 50 km de uma ligação de banda larga por fibra ou cabo, pelo que a falta de disponibilidade generalizada de Internet de alta velocidade (banda larga) continua a ser um obstáculo significativo para que África tire pleno partido de todo o potencial da transformação digital. Os dispositivos móveis continuam a ser a principal forma pela qual as pessoas acedem à internet, e as conexões específicas à internet pelos lares e escritórios são praticamente inexistentes, excepto em algumas capitais.

Paralelamente, há um défice de competências digitais no continente, pelo que é necessário considerar o potencial humano formado localmente, que os países africanos lutam para manter e utilizar ao nível nacional. Este fosso agrava-se quando se inclui o fosso entre homens e mulheres. Além disso, uma explosão demográfica da população jovem resultará em 375 milhões de jovens a entrar no mercado de trabalho até 2030.

“É fundamental garantir a disponibilidade generalizada de competências digitais que permitam aos cidadãos e às empresas aproveitar as oportunidades e prevenir os riscos da economia digital”, recomenda a UA, referindo-se a medidas como a revisão de currículos escolares, de acordo com a evolução das necessidades e tendências da economia e da sociedade digitais; revisão dos currículos escolares com ênfase nas Ciências, Tecnologia, Engenharia, Arte e Matemática, e numa combinação de competências digitais do século XXI e do comércio electrónico, em todas as áreas de aprendizagem; promover quadros e políticas de educação inclusiva de género e impulsionar oportunidades relevantes de educação, entre outros aspectos.

EspEcial Inovações DaquI

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O que são NFT e como estão a movimentar milhões no mundo da arte digital e não só 50 NFT’S E OS CRIPTOACTIVOS

56 IMALI PANORAMA

Uma FinTech sem custos de transacção para aguçar a concorrência do mercado

As notícias da inovação em Moçambique, África e no Mundo

Dão Dinheiro, mas Pouca Gente Entende Como Funcionam. O Que São os NFTs?

É a tecnologia da moda no mercado de criptoactivos e tem movimentado quantias milionárias em áreas como a música ou a arte. Por isso, mas não só, desperta o interesse do público em geral e dos investidores em particular. Mas antes de recorrer a este tipo de activo é importante entender o que é e como funciona a indústria dos tokens não fungíveis até porque, na verdade, quase ninguém o consegue

Antigamente, quem podia, claro, pendurava os seus Picassos de 40 milhões de dólares nas paredes das suas mansões. No entanto, como os NFT são apenas dados, os coleccionadores de peças criptográficas estão na sua maioria a olhar para os ecrãs.

Mas como, porquê?! Andando um pouco para trás, vamos ao início da história: com o crescimento do valor das criptomoedas, o spotlight centrou-se nas tecnologias que recorrem à blockchain como o DeFi (Decentralized Finance” ou, em português, finanças descentralizadas, e um conceito amplo que abrange toda

dos em NFTs e leiloados por centenas, milhares ou mesmo milhões de dólares. Até o New York Times participou neste “loucura”, quando o seu repórter de tecnologia Kevin Roose criou um NFT de uma das suas colunas e leiloou-o por uma soma de cerca de 560.000 dólares, no dia da sua venda, com os lucros a reverterem para obras de caridade. Na verdade, ainda ninguém concorda inteiramente com o significado desta corrida ao “ouro” digital. Se perguntarmos aos campeões da Bitcoin — os “nativos criptográficos”, como eles próprios se auto-intitulam —, os NFTs são um presságio do futuro da propriedade digital. São um

“The first 5,000 days”, do artista Beeple, foi vendido na leiloeira Christies por 69,3 milhões

USD.

Antes, uma obra sua valia... 100 USD

a tecnologia disruptiva) e, mais recentemente, os Tokens não Fungíveis, os chamados NFTs (Non-fungible Tokens, na sigla em inglês).

Ultimamente, os NFT têm sido objecto de inúmeras manchetes, uma loucura que começou em Dezembro do ano passado, quando o criptoartista Beeple vendeu um grupo de obras por mais de 3,5 milhões de dólares. Meses mais tarde, uma série vertiginosa de ficheiros digitais – videoclips de LeBron James a fazer afundanços, ou o primeiro tweet do inventor da rede social Twitter, Jack Dorsey –, estavam a ser cunha-

vislumbre do dia que há-de chegar, e em que as pessoas gastam os seus rendimentos em artigos digitais que podem trocar, revender ou acumular como investimento; quando o Governo perder o seu poder único de cunhar moeda e proteger a propriedade, porque as pessoas confiam na matemática implacável da blockchain. Mas há riscos e desvantagens abundantes nesta visão NFT, sobretudo os custos ambientais. A rede Ether funciona com grandes quantidades de energia, aproximadamente a mesma quantidade por ano que a Hungria, por uma estimativa. E os cépticos dos NFT também consideram

TEXTO Luís Ribeiro • FOTOGRAFIA Istock Photo , D.R

o cenário como sendo ainda mais zeloso do ponto de vista criptocópico, o que significa principalmente manter as pessoas a falar de moedas criptográficas para que os preços do Etherium e do Bitcoin se mantenham elevados.

Desde que esta ‘NFTmania’ se instalou, são cada vez mais os beneficiários e vencedores desta economia moderna da atenção, desde celebridades e marcas tradicionais até pessoas comuns que vendem um meme que gerou milhares de milhões de cliques. Paris Hilton, por exemplo, vendeu uma série de NFTs de imagens digitais por mais de um milhão de dólares; os Golden State Warriors, equipa de basquetebol da NBA, leiloaram NFTs de uma colecção de recordações digitais; ou Jorge Mendes, empresário de Cristiano Ronaldo, fez quase dois milhões de dólares a vender imagens exclusivas dos atletas que representa (a maioria de CR7). O mercado da arte é mesmo que, de forma mais palpitante, vive esta onda de NFTs. Os coleccionadores criaram galerias de realidade virtual para poderem amarrar os seus óculos e ver a sua arte numa pare-

de virtual e convidar amigos a juntarem-se a eles para verem as festas. Mas outros evitam este tipo de exibição e simplesmente puxam a sua arte para os seus iPhones ou navegadores de computador, como se fossem fotos do Instagram.

Terceira obra mais cara de sempre... é digital

Naquele dia, na casa de leilões Christie’s, ninguém levantou a mão para fazer um lance, nem se ouviu o martelo soar sobre a madeira. E, no entanto, aconteceu um dos leilões mais disputados dos últimos anos. “The first 5,000 days”, do artista conhecido como Beeple, foi vendido em 11 de março por 69,3 milhões de dólares. “É o terceiro preço mais alto já alcançado por um artista vivo”, aponta Beatriz Ordovás, directora do departamento de arte do pós-guerra e contemporâneo da Christie’s em Espanha. Mas esta venda representou um marco não tanto pelo preço, mas sim por ser a primeira vez que uma grande casa de leilões oferecia uma obra de arte digital, paga em criptomoedas e leiloada on-line. A autenticidade da obra estava garantida por um token não

fungível (NFT). Num mundo no qual tudo pode ser replicado com um simples copia-e-cola, os NFTs conferem singularidade a uma imagem, e garantem um valor de exclusividade. “Funcionam como uma garantia de autenticidade”, diz Ordovás. A obra de Beeple, uma enorme colagem composta por 5000 ilustrações, pode ter um valor artístico. Mas é o NFT que lhe dá valor económico. Há quem veja nestes activos uma revolução que mudará para sempre o mundo da arte. E quem denuncie o crescimento de uma bolha económica – a qual, quando estourar, só deixará um monte de fumaça e muito dinheiro gasto pelo caminho.

Antes de fazer história na Christie’s, o valor médio de uma obra de Beeple rondava os 100 dólares. “Os artistas digitais não podiam vender a sua arte como os que trabalhavam com suporte físico e os NFTs acabaram com esta discriminação”, explica Primavera de Filippi, pesquisadora do Centro Berkman-Klein de Internet e Sociedade da Universidade Harvard e do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França. De Filippi tem uma visão optimista desta tecnologia. Acredita que ela

valoriza o trabalho de artistas como Beeple, replicando no mundo digital as limitações do suporte físico: “Os NFTs criaram artificialmente uma forma de escassez digital, e isto revaloriza uma obra”. A especialista considera que esta tecnologia permitiu a entrada de novos artistas no mercado da arte. E também de novos compradores.

Segundo o site NonFungible.com, plataforma que monitora o mercado de NFTs, o segundo trimestre de 2021 representou mais um recorde para o sector. De Janeiro a Março deste ano, o volume total negociado chegou a quase 509 milhões de dólares, sendo que entre Abril e Junho atingiu os 754 milhões, mais 48%, o que se compararmos com o trimestre homólogo de 2020, (apenas 40,2 milhões de dólares), mostra um salto de incríveis 3 490%.

O que são?

São uma espécie de certificado criptográfico atrelado a um produto digital, a modalidade, que temos visto em notícias como sendo o veículo de trocas milionárias em leilões de arte, por exemplo, e que vem atraindo investidores famosos. Porém,

antes de pensar em recorrer a este tipo de activo é essencial saber o que são NFTs e como esse mercado funciona na prática. Começando pela palavra token, trata-se de uma representação digital. Ou seja, funciona como uma senha ou uma chave criptografada. Contudo, no caso dos NFTs, mais do que um código, os tokens representam, na verdade, activos e bens não fungíveis. Neste ponto, saber o que significa não fungível é mais um passo para ter uma ideia de onde se está a investir. Em economia, bens não fungíveis são aqueles que são únicos, não são intercambiáveis e muito menos fraccionáveis. Dessa forma, os NFTs são, basicamente, registos de activos ou bens em formato digital, que funcionam como um contrato que garante a sua autenticidade. São únicos, exclusivos e não podem ser reproduzidos. Além disso, esses certificados de propriedade digital são registados pelo mesmo sistema usado para comprar e vender crip-

é conhecida a blockchain, não podendo, portanto, ser apagada. Até porque, toda a transacção passa a ser um novo bloco que é adicionado a esse activo permanecendo como parte da corrente, sendo completamente rastreável. Além disso, no código do token não fungível – construído por meio de um padrão próprio -, existem campos como o nome, símbolo, proprietário, aprovação de posse, transferência, metadados, entre outros elementos que se assemelham a um contrato inteligente. Enfim, tudo formatado para garantir que o NFT seja um selo de autenticidade digital verdadeiro, impossível de ser corrompido, reproduzido ou violado.

Como são vendidos?

Quando alguém adquire um NFT, não é como se passasse a ter os direitos autorais sobre o activo ou bem que o token representa. Está apenas a comprar um certificado de posse que, mais adiante e se assim desejar, poderá revender. Já o criador do referido activo detém os direitos autorais

Os NFTs são, basicamente, registos de activos ou bens em formato digital, que funcionam como um contrato que garante a sua autenticidade

tomoedas, sendo também transaccionados por via dele, no caso, via blockchain.

Ok. Mas e na prática?

Mas que tipo de activos ou bens não fungíveis esses criptoativos representam? O que pode ser comercializado com eles? Devido ao seu valor único e por não poderem ser reproduzidos, apenas veiculados, são comummente usados para vender produtos digitais autorais. Nesse rol entram tanto itens que vieram do mundo físico como aqueles originalmente digitais. Como exemplo, imagens, músicas, vídeos, jogos filmes, itens coleccionáveis, mensagens de redes sociais e até mesmo os famosos memes da internet.

E, por estarem atrelados à segurança da tecnologia blockchain, esses activos permitem que todo o tipo de produto digital seja vendido com segurança, prevenindo fraudes. Afinal, possuem uma protecção criptográfica praticamente inviolável, mantida e validada por milhares de computadores conectados, de modo que, sempre que um NFT é vendido, a operação fica registrada nessa espécie de grande livro de registo público, como

e poderá obter ganhos tanto na primeira negociação quanto nas futuras vendas. Actualmente, os principais NFTs são vendidos na rede blockchain da Ethereum, uma das criptomoedas mais famosas do mercado. No entanto, a escolha da rede ou da criptomoeda vai depender da plataforma onde o NFT foi criado. Entre as mais populares estão a OpenSea, Rarible, SuperRare, Nifty Gateway e a Binance. Ainda de acordo com o NonFungible. com, o mercado de NFTs, que incialmente se concentrava em artes e jogos, agora está mais polarizado do que nunca em torno do segmento de itens coleccionáveis, que sozinho respondeu por 60% de todo o volume negociado no segundo trimestre deste ano. Já a arte posiciona-se como um segmento secundário com apenas 14% do volume em dólares, enquanto os jogos ficam com apenas 5% . Segundo o Relatório NFT 2020, o valor da arte digital cresceu 299%. E isso é apenas a ponta do iceberg: esta tecnologia pode ser associada ao mercado do luxo, aos videogames, à música… Resta saber se é apenas o começo de um admirável mundo novo. Admirável, sim, bom ou mau, iremos descobrir.

Imali, o Poder de Manusear Moeda Com Segurança e sem Custos

As fintech estão entre os produtos tecnológicos que mais rapidamente evoluem pelo mundo, principalmente em África. E não param de surpreender na oferta de novos produtos e facilidades

TEXTO Yana de Almeida • FOTOGRAFIA Mariano Silva

Num país cada vez mais fértil para o florescimento da economia digital, a inovação é um imperativo social. Foi olhando para esse cenário emergente que a fintech moçambicana, Paytek, desenvolveu o iMali, que como muitas soluções que tem trazido novas facilidades de manusear a moeda, veio acrescentar inovação ao nível dos meios de pagamentos digitais. Criado em 2018 na primeira sandbox Regulatória do Banco de Moçambique, o iMali configura-se como um ecossistema de serviços de pagamentos digitais que não acarreta custos de transacção associados e utiliza a leitura do código QR, estando disponível em lojas físicas e sites de comércio electrónico. “Depois de fazer uma análise de mercado, descobrimos que existem ainda algumas oportunidades muito ligadas aos preços e taxas aplicadas neste tipo de serviço. Achamos que conseguimos competir e aplicar taxas mais baixas”, afirmou Gerson Zandamela, responsável pela área de negócios da Paytek. Lançado em Maio deste ano, na Universidade Eduardo Mondlane, local pioneiro na utilização desta App, o iMali permite, para além da realização de pagamentos com a leitura do código QR, a compra de recargas telefónicas, credelec, pagamento de facturas de água, pacotes de televisão e envio e recepção de dinheiro. Em fim, tudo o que todas as plataformas digitais tradicionais já conseguem proporcionar aos consimudores. “Acreditamos que a UEM seja um ambiente fértil para testar esta nova solução de pagamento por reunir jovens em processo de transição para

a vida adulta. Queremos acompanhá-los na organização do dinheiro digital e ao mesmo tempo obter deles os feedbacks necessários para melhorar ainda mais a nossa plataforma”, afirmou Gerson Zandamela. Com um nome emprestado de diferentes línguas (“i”, de innovative em inglês e “male” do changana “dinheiro”) o “dinheiro inovativo”, iMali permite fazer operações de forma simples, rápida e gratuíta. “Temos um serviço de pagamento completamente operacional que já pode ser utilizado em qualquer estabelecimento e temos pré-acordos com a visa para sermos um serviço de com cartão visa directamente associado a conta iMali que pode ser utilizado em qualquer parte do mundo”. Quem já usa o imali, contabiliza ganhos. Para Gizela Alexandre, directora comercial da 4food, empresa que explora o centro social na Faculdade de Ciências da UEM, local onde o iMali é uma realidade diária, esta nova app é indispensável para o contexto actual marcado pela pandemia da covid-19. “Numa fase como esta, com a covid-19, com o iMali, evitamos pegar dinheiro e fazer trocos. Através do código QR, bem distante do caixa, o cliente pode fazer o pagamento sem contacto físico e nós fazemos simplesmente a confirmação”, concluiu. Em relação evolução da conta digital iMali o futuro mostra-se optimista. A Paytek espera fazer o lançamento de novas funcionalidades na app como cartões de débito contactless e virtuais, planos de poupança inovadores, sistema de gestão de finanças pessoais e outros serviços de valor acrescentado.

Pesquisa

EUA financia investigação para fortalecer o tratamento da malária em Moçambique

O governo dos Estados Unidos, através da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), concedeu, recentemente, um donativo de 800 mil dólares ao Centro de Investigação em Saúde da Manhiça (CISM) para a investigação da malária e da saúde materno-infantil.

A doação irá financiar estudos sobre a eficácia da vacina pneumocócica e dos medicamentos e tratamentos anti-maláricos. A USAID, o CISM e o Ministério da Saúde de Moçambique (MISAU) colaboraram para identificar estes tópi-

Saúde

cos como sendo críticos para combater a malária e melhorar os cuidados de saúde materno-infantil em Moçambique. O primeiro estudo concentra-se na eficácia dos medicamentos e tratamentos anti-maláricos. O foco será a compreensão da resistência aos medicamentos pelo Plasmodium falciparum – o parasita responsável pelos casos mais graves de malária em Moçambique. O segundo estudo concentrar-se-á no impacto que a vacina pneumocócica teve nas taxas de pneumonia, meningite, sepse e outras infecções relacionadas, em crianças.

AstraZeneca e Royal Academy of Engineering firmam parceria para impulsionar HealthTechs em África

Em 2014, a Academia Real de Engenharia fundou o Prémio África para a Inovação em Engenharia, um prémio que apoia os inovadores em toda a África subsariana. Após um período de formação e orientação de oito meses, o vencedor recebe um prémio de 30 mil dóla-

Investimento Google vai aplicar

A gigante tecnológica norte-americana Google vai investir cerca de mil milhões de dólares em África para apoiar a “transformação digital do continente” nos próximos cinco anos. O plano de investimento foi divulgado pelo CEO da Google e da Alphabet, empresa detentora do gigante tecnológico, Sundar Pichai, através de um vídeo divulgado na rede social Twitter. O orçamento disponibilizado irá cobrir “uma variedade de iniciativas”, desde a melhoria da conecti-

res, enquanto três vice-campeões recebem 15 mil cada um.

Como parte da nova colaboração, a AstraZeneca oferecerá apoio de formação aos empreendedores do Prémio África, dando-lhes acesso a conhecimentos e experiência à medida para os ajudar a desenvolver os seus projectos.

A AstraZeneca também participará numa série de webinars para a rede de ex-alunos do Prémio África e para a actual coorte, partilhando conhecimentos e perspectivas sobre tecnologia da saúde e outros temas.

Ao ligar os empreendedores do Prémio África à Rede A.Catalyst, à cadeia de fornecimento AstraZeneca e a um ecossistema mais vasto (incluindo investidores), a parceria espera ajudar a fomentar o talento local e reforçar a inovação no sector da saúde em África.

Covid-19

Vacina em adesivo promete resposta imunológica superior ao método tradicional

Apesar de os adesivos com micro-agulhas estarem em desenvolvimento há vários anos, os fabricantes têm mostrado dificuldades na produção em massa. Por outro lado, adaptar o adesivo aos diferentes tipos de vacinas também pode ser um desafio.

Contudo, um novo estudo mostra, agora, que é possível superar estes problemas que foram condicionando o desenvolvimento do adesivo. Os avanços deram-se através de uma técnica de impressão 3D avançada denominada produção de interface líquida contínua (CLIP).

O método usa luz ultravioleta e uma resina especial para criar os adesivos que são consistentes em tamanho, forma e espaçamento de agulha, independentemente da quantidade em que são produzidos.

vidade até ao investimento em ‘startups’, sublinhou Sundar Pichai, citado pela agência EFE. O dinheiro será aplicado em quatro áreas principais, nomeadamente o acesso facilitado e desenvolvimento de produtos para utilizadores africanos; a assistência a empresas para a sua transformação digital; o apoio a empreendedores para impulsionar tecnologias de nova geração; e o apoio a organizações sem fins lucrativos que trabalham para melhorar vidas em África.

“A nossa abordagem permite-nos imprimir directamente as micro-agulhas em 3D, o que nos dá margem para fazer as melhores micro-agulhas do ponto de vista de desempenho e custo”, refere o microbiologista Shaomin Tian, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill.

A facilidade e a velocidade com que estes adesivos de micro-agulha podem ser desenvolvidos pode levá-los a um uso muito mais amplo, referem os investigadores em comunicado.

A aversão ao risco é inimiga do investidor?

Em períodos de incerteza e maior volatilidade nos mercados, é comum os investidores adoptarem uma postura de aversão ao risco como forma de proteger o seu capital, reduzindo a sua exposição a instrumentos de maior risco, e aumentando a sua exposição a classes de activos mais líquidos ou conservadores, nomeadamente os depósitos a prazo. Contudo, uma postura prolongada de elevada aversão ao risco, particularmente numa economia com taxas de inflação elevadas, é negativa para o investidor no médio-longo prazo, pois não permite gerar retornos reais acima da inflação, nem extrair benefícios da exposição a uma carteira de activos diversificada. A título de exemplo, um investimento de $100 em 1965, no índice S&P 500 (índice norte-americano composto por 500 das maiores empresas deste país), valeria em 2021 mais de $26.000, o equivalente a um retorno médio superior a 10% ao ano, e muito acima da inflação neste período, apesar das várias recessões ou crises que ocorreram entre estes anos. Em Moçambique, apesar de não existirem muitas tipologias de activos financeiros, ainda assim, os poucos que existem apresentam diferentes graus de risco, liquidez e potencial de rentabilidade, permitindo construir uma carteira de investimento relativamente diversificada.

Apesar de ainda existir algum desconhecimento e desconforto de como tirar partido dos investimentos no mercado de capitais, a rejeição da sua utilização pelo argumento da aversão ao risco pode ter efeitos negativos para o investidor e nos seus objectivos de poupança e acumulação de riqueza. Desta forma, é fundamental melhorar a literacia financeira dos investidores e compreender alguns aspectos chave que lhes permitam tirar melhor partido das suas poupanças e investimentos, mesmo em plena volatilidade do mercado de capitais.

No momento de investir no mercado de capitais, é importante construir uma carteira de investimento adequada aos seus objectivos, sejam estes, por exemplo, um complemento para a reforma, o financiamento para a edução dos filhos, a preservação do capital existente, o crescimento da

base de riqueza, entre outros. Independentemente do propósito e dos objectivos de investimento, existem três princípios de elevada relevância que devem ser observados na construção de uma carteira de activos:

I. Definir o horizonte temporal do investimento, de forma a adequar o nível de risco e a maturidade dos activos em carteira (tipicamente, investimentos para um horizonte temporal de longo prazo deverão ter maior exposição a activos de maior perfil de risco-retorno vs. uma carteira com um horizonte temporal de curto prazo).

II. Diversificação dos investimentos (por classes de activos, sectores de actividade e moeda, se possível), de forma a proteger a carteira, para que um investimento em específico que apresente baixa performance não afete significativamente o desempenho de toda a carteira.

III. Alocação de uma parte da carteira em activos com elevada liquidez, de maneira a que, no caso de uma emergência, possa resgatar esses investimentos de forma rápida e eficaz, sem impacto material no valor dos mesmos. Portanto, saber quando comprar e vender um activo financeiro no momento certo é, de facto, importante para um investidor e, relativamente aos activos financeiros mais voláteis, é importante saber identificar qual é o nível mais baixo que um título pode assumir e qual o valor mais alto da sua cotação, no qual se deverá comprar ou vender o mesmo. É importante também, após a aquisição do título, fazer um acompanhamento da performance do mesmo, e não se deixar levar por ondas de optimistas ou pessimistas que atravessem o mercado sem uma justificação sustentada, analisando fria e determinadamente as oscilações dos preços. Para finalizar, deixo algumas frases interessantes para reflexão:

• A poupança é a forma mais inteligente de precaver o futuro;

• A construção da reforma que queremos começa hoje;

• O investimento de longo prazo deve ser tanto mais diversificado quanto possível;

• Conhecer o seu perfil de risco é conhecer-se a si próprio enquanto investidor.

É importante também, após a aquisição do título, fazer um acompanhamento da performance do mesmo, e não se deixar levar por ondas de optimistas ou pessimistas que atravessem o mercado sem uma justificação sustentada, analisando fria e determinadamente as oscilações dos preços

MERCADO E FINANÇAS

“TEMOS MUITO ESPAÇO PARA CRESCER EM MOÇAMBIQUE”

Gonçalo Reis, CEO do Grupo IPG, empresa portuguesa de engenharia, ambiente e serviços, desmancha os nós sobre a já anunciada intenção da empresa em reforçar e desenvolver novas oportunidades de negócio em Moçambique, país para o qual prevê um fututo promissor

Texto Pedro Cativelos • Fotografia D.R

ogrupo ipg está no mercado moçambicano há 23 anos, tendo atravessado vários ciclos da vida nos vários segmentos em que está presente, áreas críticas para o desenvolvimento e com impacto na economia, como projectos de engenharia, facility management (gestão de instalações), imobiliário, logística e serviços de gestão.

Numa altura de transformação económica no País, Gonçalo Reis, CEO do Grupo IPG, explica à E&M como as várias empresas do grupo se querem apresentar ao mercado.

Quais são os pontos fortes da empresa, numa altura em que cresce o número de provedores com uma vocação similar?

Eu diria que temos três pontos muito fortes na nossa actividade em Moçambique que são de facility management, ou seja, a gestão de redes de balcões, de manutenção de edifícios e de infra-estruturas. Na empresa PLM, por exemplo, trabalhamos com vários bancos a operarem em Moçambique, cobrindo uma extensão geográfica muito significativa e com níveis de serviço exigentes porque os clientes estão cada vez mais atentos à fiabilidade de serviços. Outra área que é bastante forte é a dos transportes e logística. Trabalhamos muito com ONG’s, que são instituições de referência que necessitam, no fundo, de transportar bens para várias zonas do País e nós aí beneficiamos não só da capacidade instalada como também da nossa presença a nível nacional, com delegações por todo o território. Por fim, o imobiliário, sobretudo na área de consultoria e avaliações, através da PI-Advisers estabelecida nesta área há bastante tempo, tem conhecimento concreto sobre o mercado.

Nota-se que há uma vontade em dinamizar estas áreas, e identificá-las com o grupo. É assim?

Esse é o ponto, e faz muito sentido num País como Moçambique, em que os clientes pretendem ter cada vez mais serviços integrados e estão receptivos em ter service providers em diversas áreas. Isso é algo que nós temos sentido e, portanto, há um potencial de cross-seling. Foi isso que eu verifiquei numa visita recente a Moçambique, em que visitei uma série de clientes. Faz sentido apresentarmo-nos como Grupo IPG que presta serviços integrados nas áreas de engenharia, gestão de projectos, imobiliário e logística.

Mas isso implica uma reestruturação da vossa parte?

Mais do que reestruturação, é uma postura face ao mercado. É uma postura de querermos crescer com os clientes, de irmos atrás das suas necessidades, de garantirmos bons níveis de serviço. Temos uma equipa sólida, que conhece bem o mercado. Conhecemos os principais projectos dos nossos clientes e temos uma rede sólida em termos de representação geográfica. Por outro lado, estamos a falar de um conjunto de competências técnicas significativas. No conjunto temos 220 trabalhadores.

Olhando para o potencial do imobiliário moçambicano, é ainda incipiente, embora com perspectivas de

No ano passado, o Grupo IPG juntamente com a Galp Energia inaugurou o terminal logístico da Matola, investimento avaliado em 100 milhões de dólares crescimento. É esta a sua perspectiva?

Fazemos avaliações, consultoria e apoiamos projectos, apoiamos os investidores, e aquilo que se apresenta num estudo recente que lançámos sobre o mercado imobiliário em Moçambique é o reconhecimento de que o mercado se ajustou e isso é evidente no contexto da pandemia com o abrandamento de alguns investimentos. Mas também se dá nota de que tem havido melhoria de oferta, nomeadamente da qualidade de escritórios, por exemplo. Em termos de perspectivas futuras há uma grande relação entre a concretização dos grandes projectos de investimento, que vai atrair toda uma capacidade e um conjunto de de profissionais, nomeadamente estrangeiros. A dinamização da economia terá um impacto no ramo imobiliário que, tipicamente, é um sector que evolui em consequência da concretização do crescimento da economia e, no caso de Moçambique, da concretização dos projectos de investimento.

É também um player forte na área de logística. Tem alguns projectos ou parceiros ligados ao Oil & Gas em Moçambique?

A nossa área de logística trabalha sobretudo com ONG’s e também algumas empresas de distribuição e de telecomunicações. Mas estamos disponíveis e interessados em capitalizar o desenvolvimento do sector do Oil & Gas.

Há sempre a impressão de que nem todas as empresas portuguesas se sabem internacionalizar e posicionar nos mercados em que actuam. Há uma receita para saber como uma empresa ou Grupo se deve internacionalizar em mercados como o de Moçambique? Qual é a formula certa?

Eu apontaria algumas razões ou alguns factores: creio que o tema da persistência é muito importante, ou seja, estar lá e continuar, aprender, lutar e desenvolver, portanto, persistência em primeiro lugar. Em segundo lugar, foco nas áreas onde temos vantagem competitiva. Ou seja, crescer nas áreas em que temos know how, em que temos capacidade técnica e temos capacidade de inovação e poder de resposta aos clientes. E não nos dispersarmos. Eu acho que esses são pontos absolutamente fundamentais. E depois há um outro, que é desenvolver uma infra-estrutura de competências, ou seja, equipas adequadas, bem formadas e com presença regional.

Quando chegaram a Moçambique, ainda na década de 90 do século passado, as perspectivas do país eram diferentes. Não havia gás ou carvão e tudo mudou. Como é que se adapta a estratégia de uma empresa a tudo isto? Eu sou um gestor e não um historiador (sorri). Sou capaz de falar do presente e do futuro. Acho que temos que ter presente as nossas competências, aquilo que sabemos fazer e temos que ir adaptando as nossas competências às necessidades do País, dos clientes, da economia em cada momento. Os serviços que prestamos são de apoio ao desenvolvimento da economia que atravessa vários ciclos. Ou seja, apoiamos as empresas nas áreas de desenvolvimento das

infra-estruturas, de exploração de matérias-primas em termos de logística e de expansão regional.

Fala-se cada vez mais em sustentabilidade, especialmente no pós-pandemia. Sendo uma área que está no portefólio de serviços do grupo, irá introduzi-la em Moçambique?

Em Portugal temos duas componentes que desenvolvemos e que não temos em Mocambique: uma na área de consultoria na saúde e outra interessante para Moçambique, de facto, que é a área do ambiente e eficiência energética. A verdade é que mesmo recentemente, visitando vários clientes, tivemos uma receptividade crescente para esses temas e estamos a equacionar levar essas áreas a este país. Temos bastante know-how e experiência nessa matéria e é algo que vale a pena analisar. Os temas de ambiente, eficiência energética, tratamento de água, tratamento da qualidade do ar são áreas em que temos muita experiência e é evidente que estão na ordem do dia e estão a chegar muito rapidamente a Moçambique. Portanto, aí está uma via de crescimento. Mas devo dizer que, no imediato, o objectivo primordial não é trazer novas actividades,

“Moçambique tem um potencial significativo muito relacionado com a execução de grandes projectos nas áreas de exploração de Oil & Gás, entre outros...”

novas áreas de negócio, mas sim explorar as áreas que já estamos e fazer crescer.

Qual é a sua opinião sobre o presente e o futuro da economia moçambicana?

Estou moderadamente optimista em relação ao país, ou seja, Moçambique tem um potencial significativo muito relacionado com a execução de grandes projectos nas áreas de exploração de Oil&Gás, no desenvolvimento de infra-estruturas e também no desenvolvimento de outros projectos relacionados com os recursos naturais. Moçambique, como outros países da África subsaariana, tem tido situações de oscilações e de alguns interregnos em termos de decisões. É um facto. O tema da concretização antecipada dos projectos é fundamental. Acho que Moçambique tem dado passos significativos no sentido de passar uma mensagem de

segurança e do bom funcionamento de instituições para a comunidade internacional e isso é muito relevante. E depois de uma situação de “esperar para ver”, creio que começam a estar reunidas as condições para o relançamento da execução dos projectos, o que vai ter um impacto muito significativo e vai criar muitas oportunidades para empresas prestadoras de serviços, como é o nosso caso.

E o que é que lhe ficou mais na memória na sua recente visita a Moçambique?

O que me ficou mais é, por um lado, uma grande vontade das instituições, das empresas e dos quadros de voltar a carregar no acelerador. Há disponibilidade para virar a página e para voltar aos trilhos de uma lógica de crescimento do País. Por outro lado, também há a questão de várias das empresas que visitámos e de clientes com quem reunimos, que têm necessidades cada vez mais crescentes em termos de qualidade de serviços. Ou seja, a exigência, os níveis que as empresas exigem dos seus fornecedores estão cada vez mais sofisticados o que implica uma enorme capacidade de resposta por parte das empresas prestadoras de serviços.

ócio

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Vamos passar pelas ruas de uma urbe que resistiu aos ciclones e se refaz da pandemia - a cidade da Beira

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Nesta edição, conheça os 50 melhores restaurantes do mundo na actualidade

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A adega reservalhe um debate aceso dos especialistas sobre os vinhos de luxo

(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio

BEIRA Os monumentos históricos e uma paisagem que resiste às adversidades

O destino

e BEIRA, UMA VIAGEM

chego à cidade da beira quando já se viviam os dias cinzentos impostos pela pandemia, com as máscaras nos rostos que impediam que se visse o verdadeiro rosto da cidade. Se o olhar nos transmite o espírito, a boca e o sorriso são o cartão de visita do rosto. Na marginal, sopra uma brisa impregnada de sal, adolescentes jogam futebol na margem possível como que a ignorarem a revolta de um mar que parece querer engolir tudo. O bar em que me sento, mesmo à beira mar e que parece que se vai esvair a qualquer momento, é dos poucos lugares em que ainda se podem ver os rostos sem máscaras, em que qualquer conversa se torna num momento de liberdade.

Com a pandemia a impor dias menores, Beira pedia passos mais rápidos, mais largos, uma corrida em contra-relógio, como se tivéssemos medo de que a qualquer momento o nosso roteiro fosse desfeito, que tudo de repente se esfarelasse na mão dura do tempo.

A cidade parece estar em metamorfose constante, num pêndulo que nunca tem pouso fixo. A luz sépia do passado é ainda presente e não dá para deixar nada para o futuro de que não temos ga-

EM CONTRA-RELÓGIO

rantias que chegará. Na dúvida, é melhor abarcar tudo o que o olhar permitir, na mesma ambição de Pahom, de Liev Tolstoi, na esperança de que tenhamos um final mais feliz. E tudo em nome da memória futura, que será tudo o que teremos quando a memória física deixar de existir. O antigo Palácio dos Casamentos começa a ceder ao peso das águas. Mas o mural do artista plástico Chicani, a conservar o azul céu, como se fizesse as vezes do mar que estava com as cores das monções, permanece intacto. Mas nunca sabemos até quando. Então ficamos ali a pensar em quantas fotografias foram tiradas depois de juras de amor eterno e desejamos que o amor seja mais eterno do que as paredes do edifício que ouviram as juras. Bem perto, há o Grande Hotel, um monstro vítima da sua grandeza, a guardar a imponência que lembra outros tempos… tempos muitos distantes e que não voltam mais. O futuro chegou demasiado cedo e demasiado cedo virou passado. Agora, há ali outras vidas e outras histórias para serem contadas. Mas não deixa de ser um

bom espécime do Movimento Moderno dos meados do século passado, em que também se insere a Casa dos Bicos mais para o centro da cidade. Era a Arquitectura a desafiar os padrões demasiadamente comedidos. Mas nem tudo é luz sépia. Há um verde vibrante no Parque de infra-estruturas Verdes e talvez seja por aqui que uma Beira do futuro renasça. E para ajudar na drenagem das águas das chuvas e ajudar a proteger a costa, ao mesmo tempo que se reactiva o mangal. Mas mais do que isso, tem uma espécie de exposição permanente com esculturas e murais de artistas consagrados, como Idasse Tembe, aos que são o futuro como AfroIvan. Tem também casas de restauração. E Ambiente, e Turismo, e Arte, e Cultura, e Comércio. Tudo no mesmo espaço a provar que podem ter soluções integradas. Talvez para lá voltaremos, para uma viagem mais demorada, sem a pressão do medo de que talvez a mão dura do tempo esfarele tudo.

O GRANDE HOTEL É UM BOM ESPÉCIME DO MOVIMENTO MODERNO DOS MEADOS DO SÉCULO PASSADO, EM QUE TAMBÉM SE INSERE A CASA DOS BICOS MAIS PARA O CENTRO DA CIDADE

COMO IR

Há voos directos da LAM de Maputo à cidade da Beira, além de ligações regionais.

O QUE FAZER

Os edifícios que marcaram um tempo pedem sempre uma visita, talvez a última possível. Deixar-se caminhar pelo Parque de Infra-estruturas Verdes vale sempre a pena ou mesmo pela marginal com a brisa impregnada de sal.

ONDE COMER

Há cozinhas diversas na Beira, com varias casas de restauração. Peça, pelo menos uma vez, que lhe seja servido “o que não se pode sair da Beira sem provar”.

ONDE DORMIR

Há uma infinidade de hotéis. De pensões modestas aos Hotéis de padrões internacionais. Mas ficar num lugar que lhe permita chegar com a urgência possível nos locais em que quer visitar é sempre melhor. ROTEIRO

Restaurante dinamarquês Noma distinguido com um dos maiores prémios da gastronomia mundial

g THE WORLD’S 50 BEST — ‘NOMA’

o ano de 2021 tem sido um prolífico para o chef René Redzepi e para o seu famoso Noma. Depois de um 2020 degustado ao sabor das incertezas causadas pela pandemia, o restaurante dinamarquês voltou a abrir com as suas habituais listas de espera para conquistar um dos maiores prémios da gastronomia mundial. Esta distinção reconhece a “atenção impecável” do chef René Redzepi e da equipa do Noma, no trabalho com produtos da época cultivados localmente e à construção de um menu criativo e complexo. Com duas estrelas Michelin, o Noma agora ocupa o topo do ranking, no lugar que era, até agora, do francês Mirazur. “O Noma é, sem dúvida, o restaurante mais influente da sua ge-

ração”, explica o director de conteúdo do World’s 50 Best

Restaurants, William Drew.

Na cerimónia de gala realizada em Antuérpia, Bélgica, a cozinha dinamarquesa ocupou, de resto, um lugar de destaque na lista dos melhores de 2021. Além do Noma, outro restaurante de Copenhaga, Geranium, ficou na segunda posição.

A fechar o ‘pódio’, pelo segundo ano consecutivo, o Asador Etxebarri (País Basco) foi eleito o terceiro melhor do mundo.

Juntamente com os Estados Unidos, Espanha é, de resto, o país com mais restaurantes entre os 50 primeiros. São seis no total, quatro deles no País Basco.

Já o continente africano é representado por apenas um restaurante, o Wolfgat

COM A VITÓRIA, O NOMA EMPATA COM O LENDÁRIO EL BULLI, PELO MAIOR NÚMERO DE VITÓRIAS DE SEMPRE — CINCO

VOLTA A SER O MELHOR

DO MUNDO E HÁ UM SUL-AFRICANO NA LISTA

em Paternoster, na vizinha África do Sul.

Com um forte enfoque na sustentabilidade, o restaurante do chef Kobus van der Merwe’s em Paternoster, uma das mais antigas vilas de pescadores na Costa Oeste da África do Sul, a cerca de 150 quilómetros da Cidade do Cabo, serve um menu de sete pratos, construído com base em ingredientes indígenas locais, inspirado na paisagem e atmosfera circundantes. Com capacidade para apenas 20 comensais por sessão, o restaurante tem uma ambiência intimista e, mais importante ainda, faz da sustentabilidade um ingrediente principal, tudo servido num edifício com mais de 130 anos e um terraço sobre o oceano, fazendo do Wolfgat o local perfeito para admi-

rar a vista deslumbrante.

Na lista dos 50 melhores do mundo estão estabelecimentos espalhados por 26 países dos cinco continentes. Desde que a lista foi lançada, em 2002, apenas sete restaurantes ocuparam o primeiro lugar, isto porque a maioria foi número um mais do que uma vez. Com a vitória do Noma, o restaurante dinamarquês empata assim com o lendário El Bulli, pelo maior número de vitórias de sempre — cinco, mais concretamente. Criado em 2002 pela revista gastronómica britânica Restaurant para competir com o sistema de estrelas do guia Michelin, o ranking World’s 50 Best Restaurants é desenhado com base na votação de 1000 pessoas, entre chefs, jornalistas e especialistas gastronómicos.

O VALOR ESTÉTICO, SIGNIFICADO E RECONHECIMENTO SÃO PROPORCIONAIS À EXPERIÊNCIA, ASPIRAÇÕES E PERSPECTIVAS CULTURAIS DO INDIVÍDUO”. PORTANTO, O VINHO DE ALTA GAMA ESTÁ NOS OLHOS DE QUEM O VÊ

VINHOS DE LUXO, O DEBATE CONTINUA

sarah ahmed, jornalista e crítica de vinhos britânica, “The Wine Detective”.

Em 2019, Carlos Raposo lançou os Vinhos Imperfeitos. Vindos do Dão, Vinho Verde e Vinho Verde/Dão (um lote inovador), os emocionantes vinhos brancos de 2018 do antigo enólogo da Niepoort ostentavam preços ‘emocionantes’ (80€−300€) a acompanhar. Recentemente, provei dois novos vinhos de altos voos: Vinha dos Ultras Criação Velha 1os Jeirões 2019, da Azores Wine Company (202€) e Herdade do Rocim Júpiter Single Amphora 2015, envelhecido em talha durante uns assinaláveis 48 meses. Com um valor estratosférico de 1.000€ a garrafa, este belo tinto de vinhas velhas em ‘field blend’ da Vidigueira eleva firmemente a escala para o território do luxo. Não são apenas os preços que são provocadores, mas os próprios vinhos. Deixando de lado o status regional, o produtor ou o rótulo são millennial ou totalmente novos. E/ou os vinhos ou técnicas de vinificação são inconformistas. Que admirável mundo novo é este? Devemos saudá-lo com regozijo ou cepticismo? Este posicionamento de preço é baseado em ilusão ou realidade? Se as vendas de lançamento servirem de guia, metade da produção de 800 garrafas de Júpiter foi vendida em 72 horas... Enquanto hesitava no valor redondo (“porque não 1.320€ ou 765€”), para Raymond Reynolds (importador da Vinhos Imperfeitos no Reino Unido), “a confiança crescente na indústria e nos enólogos estava fadada a chegar a um ponto em que um vinho como este apareceu”. “É bom que assim seja”, diz ele, acrescentando, “para o benefício de Portugal, estes vinhos devem ser partilhados para estimular e inspirar uma comunidade mais ampla e uma base de notoriedade”. O ‘Fine Minds 4 Fine Wines’, grupo de reflexão internacional, considera o conceito de ‘fine wines’ um tanto elástico. Na terceira edição do ‘Define Fine Wine White Paper,’ da Areni, Andrew Caillard MW capta-o, com brilhantismo, desta forma: “o Fine Wine é o imobiliário da nossa consciência. O valor estético, significado e reconhecimento são proporcionais à experiência, aspirações e perspectivas culturais do indivíduo”. Portanto, o vinho de alta gama está, até certo ponto, nos olhos de quem o vê. No caso do Júpiter, a autoridade e credibilidade por trás do posiciona-

mento de sucesso devem muito às relações cultivadas por Cláudio Martins com clientes mundiais de elevadíssimos rendimentos durante a sua carreira internacional na corretagem de vinhos e consultoria. A experiência em Moscovo deu-lhe “uma perspetiva diferente sobre bilionários versus milionários” que, observa Martins, “precisam de algo incrível, único e diferente”. “A minha reputação depende da qualidade do que está na garrafa”, diz, mas enfatiza “tudo ao seu redor - a narrativa, a embalagem, as redes sociais e o marketing - tudo ajuda na construção da marca”.

Faz parte de uma colecção de nove ‘Vinhos do outro mundo’ adaptados especificamente para as altas expectativas e estilo de vida da sua clientela. Longe de acumular poeira em caves subterrâneas, 70% dos clientes de Cláudio Martins querem vinhos para exibir e beber agora em festas exclusivas. No que se refere a António Maçanita, da Azores Wine Company, a exclusividade e a capacidade de beber o vinho são importantes porque uma nova geração de consumidores não está apenas a comprar um produto, “mas a pagar pela experiência de provar algo diferente”; o preço do Vinha dos Ultras não está apenas relacionado com a sua pequena produção ou com as exigentes condições de cultivo do Pico. Da mesma forma, Tamara Grischy, chefe de leilões de ‘fine Wines’ da Langton, relata que os leilões online mobilizaram uma base de clientes mais jovem, predominantemente masculina e internacionalmente diversa, que “está a aceder a óptimos vinhos, prontos para beber agora, para gratificação instantânea” (em vez de se destinarem à adega ou como investimento).

Além disso, observa, “os compradores amam a tecnologia do jogo e a diversão do leilão”, reforçando ainda mais os comentários de Caillard sobre os motivadores contextualmente complexos em torno da compra de vinhos de alto gabarito. O surgimento de vinhos de altíssimo nível ‘out-of-the-box’ reflecte um mercado cada vez mais dinâmico e diversificado –uma admirável nova ordem mundial. Para poucos, não muitos; mas há algum consolo para aqueles com bolsos menos fundos. Possam almejar as estrelas por muito tempo, porque todos beneficiamos com a arte e a beleza das suas criações.

A ARTE DE DAR VIDA AO BARRO

as mãos pintadas simulam movimentos orientados por uma mente que armazena as vivências do seu povo e que só descansa depois de transformá-las em arte. Josina Machaque, ou simplesmente Júlia, nome pelo qual fora baptizada no mundo das artes, tem o poder de fazer falar o barro. Com as suas mãos, coloca a cultura maconde à disposição dos apreciadores da sua arte, transformando as histórias, lendas e contos típicos da região em esplêndidas obras em cerâmica. De 52 anos de idade e nascida em Cabo Delgado, Júlia sempre quis transportar, por onde quer que passasse, a história e cultura do seu povo. Após ter passado uma parte da sua adolescência na Tanzânia, regressou a Moçambique, para a capital do país, onde reside até hoje, mas quis arranjar uma forma de trazer Cabo Delgado até si. E assim o fez. Observando o trabalho rea-

A ARTISTA,

ATRAVÉS

lizado pela renomada ceramista moçambicana Reinata Sadimba, Júlia começou a ensaiar os primeiros passos para a concretização do anseio de transformar a sua imaginação em arte.

“Comecei a trabalhar o barro no dia 31 de Julho de 1994. Não me esqueço nunca deste dia, pois é como o dia do meu nascimento. Conhecia a Reinata Sadimba e a partir do que a via fazer com o barro, comecei a fazer as minhas primeiras obras”. Com o passar do tempo, foi aprimorando a sua arte e as suas mãos já contavam histórias mais detalhadas sobre o seu local de origem por meio das obras de cerâmica. “Procuro mostrar a história e cultura moçambicanas, concretamente da minha província e assim me conecto com a minha gente”, confessou.

É no Núcleo de Arte em Maputo, que a artista tem inúmeras conversas com o barro e encontra um espa-

DAS SUAS OBRAS

FEITAS EM BARRO, PROCURA RETRATAR A HISTÓRIA E TRADIÇÕES DE CABO

DELGADO

Os trabalhos da ceramista Júlia podem ser encontrados na Núcleo de Artes, na cidade de Maputo

ço para deixar a arte em si falar. É nesses diálogos entre as suas mãos e o barro, que depois passa pelo forno, que surgem obras como o “homem cobra”, os “gémeos que partilham o coração”, as “tartarugas”, figuras que dominam o imaginário do povo maconde. “Sinto-me muito feliz quando faço cada um destes trabalhos. Não consigo imaginar a minha vida sem trabalhar o barro”, confessa a ceramista, com o olhar a denunciar emoção.

A artista, que lamenta os efeitos da pandemia sobre o seu trabalho, mostra-se optimista em relação ao futuro e espera poder levar Cabo Delgado ao mundo, através da cerâmica. “A pandemia abalou-nos bastante como artistas, mas até em momentos de crise há sempre espaço para a esperança. Acredito que tempos melhores ainda estão por vir”, concluiu a artista.

TEXTO YANA DE ALMEIDA FOTOGRAFIA MARIANO SILVA

O Audi Grandsphere está equipado com condução autónoma de nível 4, acompanhado por uma motorização 100% eléctrica

vAUDI GRANDSPHERE CONCEPT, A

a audi apresentou o segundo dos três concepts considerados cruciais para o futuro da marca. O Grandsphere revelado é um concept com mais de cinco metros que mostra uma nova forma de viajar. O Audi Grandsphere é a prova de que, aos olhos da Audi, a condução não vai ser o mais importante nos automóveis do futuro, mas sim a experiência dos passageiros. Para tal, o concept está equipado com condução autónoma de nível 4, acompanhado por uma motorização 100% eléctrica.

A plataforma tecnológica do Audi Grandsphere Concept é a PPE (Premium Platform Electric), dedicada exclusivamente a sistemas de direcção eléctrica. Com base na plataforma PPE, este veículo vai estar equipado com dois motores eléctricos

REDEFINIÇÃO DO CONCEITO DE CARRO

e uma bateria de 120 kWh de capacidade. O nível 4 de direcção autónoma dispensa a presença de um condutor. O Audi Grandsphere Concept não tem volante, pedais ou displays. Tudo para dar ao usuário uma nova dimensão de liberdade, segundo a marca. “O banco da frente torna-se um lounge de primeira classe com máximo espaço, vistas mais livres e acesso a todas as funções de um ecossistema digital holístico no qual o Audi Grandsphere está integrado”, pontuou a Audi. Se por dentro o carro promete ser um luxo só, o sedã-conceito da marca alemã também quer impressionar no visual externo e no motor. O visual não lembra, nem de longe, o de um sedã tradicional e assemelha-se

O AUDI GRANDSPHERE CONCEPT NÃO TEM VOLANTE, PEDAIS OU DISPLAYS. TUDO PARA DAR AO USUÁRIO UMA NOVA DIMENSÃO DE LIBERDADE, SEGUNDO A MARCA

mais a um desportivo, como o Avus, conceito da marca nos anos 1990.

Os dois motores eléctricos do Audi Grandsphere Concept são capazes de fornecer uma potência total de 530 kW e um torque de 97,89kgf/m. Essa motorização é equivalente à encontrada numa Ferrari F8, por exemplo, já que os 530 kW representam 720 cavalos de potência. De acordo com a fabricante, o conjunto potência + torque faz a aceleração do Grandsphere ir dos 0 aos 100 km/h em pouco mais de 4 segundos. O carregamento do sedã eléctrico é de 800 volts, por isso, a bateria pode ser carregada com até 270 kW num tempo muito curto em estações de carregamento rápido. Segundo a marca, após apenas dez minutos de carga, o sedã está pronto para rodar 300 quilómetros. Em menos de 25 minutos, o utilizador pode carregar a bateria de 120 kWh de 5% a 80%.

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