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E&M_Edição 27_Julho 2020• Agro é negócio?

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OIL & GAS um olhar sobre o InvestImento no mercado global da energIa

EcOnOmIA o que a banca pede para reduzIr custo do crédIto à agrIcultura

prOduçãO caju, os cItrInos e a banana precIsam de atenção

AmbIEntE como a agrIcultura pode ser decIsIva na sustentabIlIdade

AGrO É nEGócIO?

É o sector que mais contribui para a riqueza, mas será o que mais carece de desenvolvimento.

Como transformar a agricultura num verdadeiro negócio, rentável para o País e para todos os Moçambicanos?

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Observação

Mudança no Malaui a imagem de tomada de posse do novo Presidente, Lazarus Chakwera que, traz a mudança necessária

8 Radar

Panorama economia, banca, Finanças, Infra-estruturas, Investimento, País

14 OIL & gas

LNG os contornos do financiamento de 15,8 mil milhões de dólares do projecto de gNL da Total

24 Nação

O que deve MudaR Na aGRicuLtuRa?

24 agro-negócio empresários, produtores e pesquisadores abordam os obstáculos à produção 30 apoio externo Pietro Toigo preconiza modelos de investimento que podem revolucionar a produção

36 indústria do caju gonçalo Correia fala sobre os factores de competitividade do mercado nacional

38 citrum Um bom exemplo de como o financiamento certo pode estimular a produção nacional

44 Merdado comum Um overview sobre o processo de funcionamento da Zona de Livre Comércio africana

48

MerCado e FINaNças

crédito ao agro-negócio banca reacende debate sobre os determinantes das taxas de juro e apresenta sugestões para as reduzir

54 SoCIedade

alterações climáticas

Um olhar ao papel que a agricultura pode desempenhar na redução da emisão de gases com efeito de estufa

65 ócio

68 escape Um passeio pela mafalala, o berço da liberdade

70 Gourmet Uma viagem pelas Índias do mokhsha 71 adega a história única dos vinhos verdes 73 arte Inadelso Cossa, um realizador moçambicano a despontar no mundo do cinema 74 ao volante o mais potente Lamborghini anda... no mar

58 emPresas

Reconice a história de um negócio local que transforma desperdício em mobiliário que não se pode perder

60 MegaFoNe

Marketing o que está a acontecer no mundo das marcas em moçambique e lá por fora

62 LÁ Fora

angola o dia-a-dia de uma sociedade que luta pela sobrevivência e tem de enfrentar as limitações impostas pelo isolamento

Dividir “o mal pelas aldeias” e eliminar a improdutividade

há sempre a percepção de que não há nada que se diga sobre a agricultura que as pessoas ainda não saibam. Pode até ser verdade, mas a sua complexidade, evolução e importância que vai assumindo no mundo dos negócios em Moçambique e lá fora criam sempre espaço adicional por explorar, neste caso, para tentar resolver uma antiga equação: um melhor aproveitamento do potencial para corrigir a improdutividade e a grande dependência dos mercados externos em alimentos.

Na presente edição, a E&M oferece-lhe a oportunidade de revisitar o dossier sobre o rumo do Agro-negócio em Moçambique, a possibilidade de conferir a visão de importantes intervenientes do sector sobre o contexto actual do mercado e os fundamentos do alcance da sustentabilidade e prosperidade.

Os leitores também terão a oportunidade de conhecer a história de empresas que operam em sectores que estão a despontar, como a castanha e a banana, para se apropriar dos corredores que possibilitam a sua afirmação no mercado.

Mas o aspecto particular a realçar, caro leitor, é que cada interveniente do Agro-negócio tende a ser juiz em causa própria: vê melhor as insuficiências dos outros actores na prossecução dos objectivos. Os produtores, por exemplo, querem uma Banca que compreenda o ciclo do negócio em toda a sua cadeia e que adapte as soluções de financiamento às suas reais necessidades. Os bancos – que dizem dispor de equipas especializadas e de instrumentos efectivos para assistir ao Agro-negócio e ocasionar o salto que o país anseia desde a Independência – exigem dos produtores uma melhor organização do processo produtivo para reduzir os riscos, e o custo do financiamento. Juntos, os produtores e as instituições financeiras apontam o dedo ao Estado, a quem pedem uma posição mais actuante na ampliação da rede de infra-estruturas que facilite a ligação dos centros de produção aos mercados e dos mercados entre si, para baixar o custo de transacções e, em último plano, ajudar a aliviar os custos de financiamento. Mas o conflito de ideias entre os intervenientes, por si só, reveste-se de grande utilidade para começar a traçar o rumo que se pretende: deixa a lição de que a resposta está na distribuição “do mal pelas aldeias”, o que não seria mais do que cada interveniente, nestas discussões, tomar partido do seu próprio papel para o bem comum. Afinal, estamos a falar de um sector que exige cada vez maior capacidade de produção, não só para competir, mas também para responder a uma cada vez maior pressão populacional, que em Moçambique deve saltar dos actuais 29 milhões para 33 milhões de habitantes dentro de cinco anos.

JULHO 2020 • Nº 27

MÊS ano • nº 01

EDITOR EXECUTIVO Celso Chambisso

JORNALISTAS Emídio Massacola, Cristina Freire, Elmano Madaíl, Rui Trindade PAGINAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Mariano Silva REVISÃO Manuela Rodrigues dos Santos DIRECÇÃO COmERCIAL Ana Esteves ana.esteves@media4development.com CONSELhO CONSULTIVO

Alda Salomão, Andreia Narigão, António Souto; Bernardo Aparício, Denise Branco, Fabrícia de Almeida Henriques, Frederico Silva, Iacumba Ali Aiuba, João Gomes, Narciso Matos, Rogério Samo Gudo, Salim Cripton Valá DIRECTOR EXECUTIVO Pedro Cativelos pedro.cativelos@media4development.com ADmINISTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBLICIDADE Media4Development Rua Ângelo Azarias Chichava nº 311 A — Sommerschield, Maputo – Moçambique; marketing@media4development.com ImPRESSÃO E ACABAmENTO

Minerva Print - Maputo - Moçambique TIRAGEm 4 500 exemplares PROPRIEDADE DO REGISTO Executive Moçambique NúmERO DE REGISTO 01/GABINFO-DEPC/2018

propriedade Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi

MalÁui, Julho de 2020

Uma nova lUz qUe brilha no país do ‘sol nascente’

Na tomada de posse, o novo Presidente do Maláui, país que já se chamou de Niassaland e cujo nome, hoje, se traduz no idioma local para ‘Sol Nascente’, Lazarus Chakwera pediu sacrifícios “para levantar o país”.

Este antigo pastor evangélico de 65 anos ganhou as eleições de 23 de junho com 58,57% dos votos à frente do chefe de Estado cessante, Peter Mutharika, que estava no poder desde 2014. Para Lazarus Chakwera, a repetição das eleições, após ter sido comprovada uma fraude generalizada no escrutínio de 2019, que reelegeu Mutharika mas acabaria por ser anulada, o combate que se aproxima é claro: “devemos ter a coragem de enfrentar a dura realidade se quisermos um dia desfrutar da plenitude da nossa nação. Somos todos parte dos problemas do Maláui e todos temos de ser parte da solução”, disse, no discurso inaugural do seu mandado. E foi ainda mais longe. Comprometeuse a divulgar anualmente a sua declaração de bens e a prestar contas ao Parlamento para combater a pandemia... da corrupção. “Antes de começarmos a reconstrução, devemos limpar as ruínas da corrupção, preguiça, dependência dos nossos doadores, impunidade, falta de profissionalismo ou incompetência”, disse o novo chefe de Estado.

fotogrAfiA D.R.

RADAR

SASOl dESIStE dO prOjECtO

OffShOrE EM BAzArutO

A multinacional Sasol abandonou o projecto de exploração do petróleo e gás no bloco 16/19 em Inhambane e em Sofala após várias críticas, incluindo as do Centro de Integridade Pública (CIP), diz que se referiu ao projecto como não sendo viável para a actividade turística.

Desde 2005, a multinacional Sasol detinha uma licença para a prospecção de hidrocarbonetos ao longo da zona do arquipélago de Bazaruto, em Inhambane, e parcialmente na província de Sofala. Mas no âmbito das consultas públicas sobre o impacto ambiental do projecto, houve protestos por parte da população, dos operadores turísticos e da sociedade civil que se mostraram desfavoráveis por entenderem que “mataria” a fonte de renda de muitas famílias. “A própria Sasol mencionou que uma das grandes causas está relacionada com questões ambientais”, afirma Inocência Mapisse, do CIP. “A outra causa que se advoga é que a Sasol estava com alguns problemas financeiros, porque realizou investimentos por via de endividamento e, actualmente não permitiam à Sasol avançar com o projecto porque não se apresentava potencialmente viável”, explica a investigadora.

Aliviados, os operadores turísticos em Bazaruto afirmam que o projecto da Sasol poderia danificar o ecossistema, causando o desaparecimento de muitas espécies marinhas que servem de cartão de visita.

ECONOMIA

Taxas de Juro. A consultora Oxford Economics considera que a descida do nível geral de preços registada em Junho em Moçambique se deve à descida de preços dos bens alimentares e dos transportes, o que abre espaço para uma redução das taxas de juro.

análise ao andamento da subida dos preços no País. Moçambique registou em Junho uma deflação mensal de 0,55%, de acordo com os dados publicados no boletim do Índice de Preços no Consumidor (IPC) do Instituto Nacional de Estatística (INE).

pacto económico do covid-19, nomeadamente através do cancelamento, suspensão ou renegociação da dívida, disse recentemente a embaixadora moçambicana em Pequim, Maria Gustava. A diplomata confirmou ao jornal China Daily que Moçambique “gostaria” também de obter da China uma ajuda financeira ou financiamento em condições favoráveis bem como assistência alimentar.

“Prevemos que a taxa média de inflação fique abaixo dos 2,8% registados em 2019, e vemos espaço para que o Banco de Moçambique baixe a taxa de juro de referência em 1,5 pontos percentuais até ao fim deste ano, devido à previsível fragilidade da economia em 2020 e às ainda relativamente altas taxas de juro”, escreveu o analista Gerrit van Rooyen numa

Aviação. Devido à crise provocada pela pandemia do covid-19, o início de voos para Moçambique da companhia aérea dos Emirados Árabes Unidos, Emirates Airlines, falhou em Junho passado. Entretanto, segundo o ministro dos Transportes e Comunicações, Janfar Abdulai, há indicação de que a companhia comece a voar para o País a partir de Agosto próximo. “Estava previsto que iniciasse em Junho, mas por causa do covid-19, houve morosidade. Temos a indicação de que, a partir de Agosto, começará a operar no espaço aéreo moçambicano”, disse Abdulai, recentemente, em entrevista à televisão pública, TVM. A afirmação do ministro aconteceu dias depois de o Presidente da República ter anunciado, em comunicação à nação, que o País vai autorizar a realização de voos internacionais para países seleccionados, em regime de reciprocidade, para permitir a entrada de especialistas, gestores e investidores para dinamizar o turismo e negócios.

Dívida pública. Moçambique irá precisar da ajuda da China para lidar com o im-

Segundo o jornal estatal chinês, Maria Gustava adiantou ainda que acredita que “há novas oportunidades para cooperação entre os dois países, apesar do impacto da pandemia no comércio e investimento bilaterais.”

Electricidade. O Governo moçambicano vai alocar, no presente quinquénio, mais de 560 milhões de meticais para electrificação rural em Cabo Delgado. A informação foi tornada pública pelo porta-voz do governo provincial de Cabo Delgado, Haggai Mário, durante a quinta sessão ordinária do Conselho de representação do Estado, que aconteceu na Cidade de Pemba, tendo sido apontadas as localidades e sedes de postos administrativos de 14 dos 17 distritos da província como beneficiários do projecto de electrificação rural.

Infra-estruturas. O projecto hidroeléctrico da Mphanda Nkuwa, para construção de uma nova barragem no centro do país, está avaliado

em quatro mil milhões de dólares, disse recentemente o director do Gabinete de Implementação.

“Este montante resulta de estudos feitos até agora e, aproximadamente 50%, será destinado à central hidroeléctrica e o remanescente à componente da linha de transporte de energia Tete-Maputo”, disse Carlos Yum, director do Gabinete de Implementação do Projecto Hidroeléctrico da Mphanda Nkuwa. Prevista há vários anos para produção de electricidade, a ideia de Mphanda Nkuwa foi relançada em 2018 pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, e poderá ser a segunda maior barragem de Moçambique depois de Cahora Bassa.

EXtrACtIVAS

Gás natural. O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) anunciou recentemente um financiamento no valor de 20 mil milhões de dólares para o projecto de Gás Natural Liquefeito (GNL) liderado pela Total na Área 1 da Bacia do Rovuma, a serem concedidos através de uma combinação de capitais próprios e empréstimos. Um comunicado do BAD cita o director do Departamento de Desenvolvimento Industrial e Comercial desta instituição, Abdu Mukhtar, a considerar este financiamento como uma nova era de industrialização para o país e para o resto da região. O projecto é considerado

como um dos maiores investimentos privados em curso em África e ganha particular importância pelo facto de ser celebrado num momento de incerteza imposto pelos ataques armados próximos dos campos de exploração.

Conteúdo local. O director-geral da Petrolífera Total em Moçambique, Ronan Bescond, defende maior envolvimento de empresas moçambicanas no projecto para exploração de gás natural de Cabo Delgado. “Queremos que cada vez mais empresas moçambicanas participem no projecto Mozambique LNG, pois o desenvolvimento de conteúdo local é parte integrante do nosso modelo de negócios e responde às prioridades enunciadas pelo Governo de Moçambique e outras partes interessadas”, disse Ronan Bescond, citado numa nota de imprensa da Total.

O director-geral da petrolífera falava durante um seminário online, que juntou mais de 100 empresas moçambicanas, com o objectivo de partilhar oportunidades de negócios no projecto para exploração de gás.

Rubis. A Montepuez Ruby Mining anunciou recentemente a paralisação das actividades como forma de intensificar a implementação das medidas necessárias para minimizar o risco de disseminação do covid-19 nas instalações do projecto, no distrito de Montepuez, província de Cabo Delgado.

A empresa garante estar a tentar garantir a segurança dos seus funcionários face à pandemia e que, por isso, “suspendeu as principais operações e reforçou os procedimentos de higiene, saúde e segurança no local, implementando um conjunto de medidas para mitigar o contágio, tanto em locais operacionais como na comunidade.”

Paradoxos da Globalização, Economia Deprimida ou Crise

Paradigmática?

Releitura Crítica sobre um Futuro de Incertezas (II)

Cripton Valá • PCA da Bolsa de Valores de Moçambique

os governos que menos seguiram os ditames neo-liberais são os que estão a actuar mais eficazmente contra a pandemia, independentemente do regime político, sendo bons exemplos os casos de Taiwan, Coreia do Sul, Singapura e China, mas também a Alemanha e os Países Nórdicos, estes últimos autênticos fortes “Estados Sociais de Mercado”.

A ideia conservadora de que não há alternativas ao modo de vida imposto pelo “capitalismo selvagem” em que vivemos é, no mínimo, questionável. Só enxergamos as alternativas quando ocorrem crises pandémicas, desastres ambientais, colapsos financeiros, terrorismo transnacional, imigração ilegal, disrupção tecnológica, crise energética ou desbalanço entre demografia e produtividade. Boaventura de Sousa Santos propõe uma viragem epistemológica, cultural e ideológica com múltiplas implicações, o que passa necessariamente por compreender que nos últimos 40 anos vivemos em “quarentena política, cultural e ideológica” de um capitalismo fechado sobre si próprio, ou seja, “a quarentena provocada pela COVID-19 é uma quarentena dentro de outra quarentena”.

A pandemia do novo coronavírus é mais uma manifestação, entre muitas outras, do modelo de sociedade que começou a impor-se com a implementação do “catecismo neoliberal”, sendo necessário, primeiro, superar a “quarentena do capitalismo”, passar a encarar o planeta como a nossa casa comum e ter mais amor e respeito pela natureza. No início do século ficou cada vez mais evidente que o paradigma assente no “Consenso de Washington” estava a perder a atractividade de outrora, o ritmo de adesão estava a desacelerar e os resultados alcançados estavam

aquém do previsto. Reputados economistas como Stiglitz (2002), Krugman (2006), Sachs (2009), Collier (2010), Krugman (2012), Chang (2013), Sharma (2013) e Lopes (2019) chamaram a atenção para o facto de o modelo neo-liberal estar a perder charme, capacidade explicativa e aderentes, e que, na realidade, temos estado a assistir a uma crise no paradigma dominante da economia de desenvolvimento. Vários analistas concordam que a globalização ajudou milhões de pessoas a alcançar melhores níveis de vida e fugir da “armadilha da pobreza”, como testemunha a realidade das economias como a China, Índia, Brasil, Rússia, Indonésia, Turquia, República Checa, Polónia, Filipinas, Argentina, África do Sul, Malásia, México, Vietname, Maurícias eTailândia, para não falar dos “Tigres Asiáticos”. Todavia, a globalização da economia beneficiou os países que souberam tirar partido dela, identificando novos e promissores mercados para as suas exportações e atraindo o investimento estrangeiro. Muitos dos países que foram bem sucedidos no contexto da globalização souberam fazer uma combinação equilibrada entre as forças do mercado e a intervenção oportuna do Estado para corrigir as falhas que o próprio mercado gerou, ou seja, a adopção criativa de políticas que promovessem a prosperidade económica, coesão social, estabilidade política e conservação do ambiente. Chang (2013), por exemplo, defende que é erróneo pensar que os países que seguem os “ditames do mercado livre” e da economia neoliberal, incluindo ingredientes como boa gestão macroeconómica e da moeda (inflação baixa), intervenção estatal reduzida, iniciativa privada, desregulamentação, privatização, comércio livre, abertura ao investimento estrangeiro e foco nas exportações leva automaticamente as nações para a prosperidade. O au-

Moçambique tem muitos factores a seu favor, como a localização geográfica estratégica, o seu potencial económico elevado e multifacetado, favorável a uma forte economia multissectorial

tor mostra que os actuais países ricos, incluindo os EUA e a Grã-Bretanha, usaram a protecção tarifária, subsídios e outras formas de apoio público nas fases de reforço da sua base industrial, e esses países poderosos estão a agir como “maus samaritanos” e “chutando para longe a escada com a qual subiram”, e advoga que as nações que tiveram melhor desempenho nos últimos 50 anos foram as que fizeram a abertura económica de forma selectiva ¯ com base na experimentação, ajustes e adaptações ¯, realizaram reformas e abriram a economia gradualmente. Quem procura desmistificar a ideia de que o Estado é desajeitado, excessivamente burocrático e inábil para assumir riscos é Mariana Mazzucato (2014). Baseada na evidência empírica, mesmo nos EUA, mostra que muitas vezes o sector privado só aposta em certas áreas depois de Estado ter feito os investimentos mais ousados e de maior risco. Exemplifica com os casos de investimentos arriscados por trás da internet, tecnologias limpas e indústria farmacêutica, que beneficiaram empresas como a Apple, Compaq, Intel, Google, entre outras. A autora sublinha que a crise económica profunda e persistente não se combate com medidas de ajustamento estrutural, austeridade ou injectando recursos nas instituições financeiras, exigindo intervenções ousadas e criativas como as adoptadas pelo Estado de Bem-Estar Social, assentes nas acções combinadas entre mercado livre e intervenções selectivas do Estado, entre a busca do crescimento económico e o combate à

pobreza e as profundas desigualdades sociais, entre a estabilidade macroeconómica e o desenvolvimento humano. Haverá um outro modelo económico a despontar para substituir o já enfraquecido, mas não morto?

A resposta é difícil de dar, mas parece que está mais próximo do modelo de “Estado Social do Mercado”, experimentado pelos Países Escandinavos, e o modelo de “Estado de Desenvolvimento”, adoptado por vários países asiáticos, incluindo a China.

Não se pode dizer, hoje, que exista uma outra ideologia ou modelo de desenvolvimento já bem estruturado e pronto a servir como alternativa, nem se pode dizer que o paradigma dominante, actualmente em “estado de coma”, não possa recuperar. O tempo o dirá, e mais rápido do que imaginamos…

1. Futuro Incerto ou como Moçambique pode tirar benefícios do contexto da transição paradigmática?

Moçambique tem muitos factores a seu favor, como a sua localização geográfica estratégica, o seu potencial económico elevado e multifacetado, favorável à pavimentação de uma forte economia multissectorial, os imensos recursos naturais disponíveis, a sua população jovem, a legislação favorável ao investimento estrangeiro, a existência de corredores de desenvolvimento que sirvam ainda mais o “hinterland”, que constituem importantes activos para o seu desenvolvimento. Mas também possui passivos de relevo, como um índice de pobreza de 46%,

“As nações que tiveram melhor desempenho nos últimos 50 anos foram as que fizeram a abertura económica de forma selectiva”

OPINIÃO

taxa de desnutrição crónica de 43%, taxa de desemprego acima de 21%, cerca de 66,6% da população a viver nas áreas rurais e dependendo fundamentalmente de uma agricultura de baixa produtividade, com uma taxa de crescimento do PIB a desacelerar pelo quinto ano consecutivo (previsão de 2,2% para 2020), uma renda per capita de 522 USD (2019), uma taxa de crescimento da população elevada na banda de 2,8%, uma dívida pública elevada de cerca de 100%, um défice orçamental de cerca de 6%, ambiente de negócios ainda constrangedor, capacidade da força de trabalho aquém da demanda do sector produtivo, elevado peso do sector informal, acesso difícil ao financiamento e elevado custo do dinheiro e ambiente de instabilidade na zona centro do país e na província de Cabo Delgado (Valá, 2019; Valá, 2017, e; INE, 2019). Não se pode fazer vista grossa ao contexto doméstico, em que factores como a corrupção, baixa competitividade e produtividade económica, instabilidade e conflitos, calamidades naturais e elevado endividamento se combinam com eventos e choques externos como as crises económico-financeiras, surtos epidemiológicos, volatilidade do preço das matérias-primas que exportamos e terrorismo transfronteiriço, para engendrar um círculo vicioso de pobreza, dependência e sub-desenvolvimento. A curto e a médio prazo, temos de ter uma atitude avisada para não cair na “dupla ratoeira da maldição dos recursos naturais e da doença holandesa”, sobretudo com o advento da exploração do gás natural na Bacia do Rovuma. Para isso, é vital muito mais do que boa vontade, dado que a fragilidade institucional, as agendas das corporações transnacionais, as expectativas dos diferentes grupos sociais e a elevada dependência externa são factores críticos a considerar (Acemoglu & Robinson, 2013; Collier, 2010; North, 1990). As Perspectivas Económicas Mundiais (2020), anunciadas pelo Presidente do Banco Mundial, David Malpass, no início de Junho de 2020, fazem menção a uma recessão da economia mundial na ordem dos 5,2%, a mais profunda em oito décadas, apesar das políticas sem precedentes adoptadas para a mitigação da COVID-19, sendo a mais profunda recessão desde a II Guerra Mundial e quase três vezes tão acentuada como a recessão global de 2009. Estão previstas quebras de 7% no agregado das economias avançadas, entre as quais a Zona Euro de -9,1%, EUA de -6,1% e Japão -6,1%1. Para 2021, o Banco Mundial antevê uma recuperação de 4,2% na economia mundial, com as economias avançadas a crescerem 3,9%, entre as quais a Zona Euro 4,5%, os EUA 4% e o Japão 2,5%.

As previsões para a África Subsaariana (ASS) são de uma recessão de 2,8%, onde todos os países lusófonos, à excepção de Moçambique (que cresceu 1,7% no primeiro trimestre de 2020), vão registar um crescimento negativo, antevendo uma retoma de crescimento de 3,1% em 2021. Este cenário global e regional antevê ainda algumas dificuldades económicas que o país vai enfrentar durante o ano 2021, e vai exigir uma gestão do equilíbrio entre os custos económicos e os custos sanitários.

A globalização não tem trazido os resultados positivos esperados para a África pós-colonial, em que não se registou, de forma abrangente e permanente, nem prosperidade económica, nem coesão social, nem estabilidade política. Apesar dos avanços económicos significativos na Nigéria, África do Sul, Egipto, Marrocos, Maurícias, Argélia, Tunísia, Botsuana, Gana, Quénia, Etiópia, Cabo Verde, Senegal,

“A curto e a médio prazo, Moçambique deve assumir uma atitude avisada para não cair na “dupla ratoeira da maldição dos recursos naturais e da doença holandesa”

Tanzânia, Costa do Marfim, Ruanda, entre outros, muitos dos países têm as suas economias baseadas no sector primário e são extractivas, ainda não conseguiram diversificar a economia, não procederam a transformação estrutural, têm um sector informal significativo, são muito dependentes do apoio externo, têm desequilíbrios na balança de pagamentos e um elevado e insustentável nível de endividamento. Grosso modo, são economias muito deprimidas, com dificuldades de fazer o “take of” e empreender o crescimento económico inclusivo e sustentável. Para tirar proveito da globalização, as empresas africanas precisam de ser mais dinâmicas, empreendedoras e competitivas, devendo participar mais activamente nos negócios internos dos países e além fronteiras, por iniciativa própria ou induzidas pelo Estado.

É fundamental produzir para o mercado interno, mas igualmente ter uma orientação para as exportações, identificando novos nichos de mercado promissores e agre-

gando valor aos produtos primários dentro do país, para promover a industrialização. Parcerias público-privadas de novo tipo devem ser accionadas, e é vital continuar a acarinhar o investimento estrangeiro e deles aprender os “segredos vitais” sobre capacidade técnica e gerencial, acesso aos mercados, mecanismos de financiamento, tecnologias e gestão do conhecimento.

A crise do paradigma dominante e o questionamento do “Consenso de Washington” é já um dado adquirido, mas o modelo neo-liberal é uma realidade ainda bem presente e em implementação em muitos países do mundo. As mudanças de paradigmas de desenvolvimento não são processos nem lineares nem automáticos, e fazem-se durante algum tempo de convivência do velho com o novo paradigma. A crise financeira de 2008 e a pandemia da COVID-19 ensinaram que: (i) é preciso ter uma visão estratégica de desenvolvimento, de longo prazo, assumida pelos principais actores sociais, e que se consubstancie no consenso da sociedade e do sistema económico e político; (ii) o Estado deve ser crescentemente mais eficiente, com burocracia estatal competente, alto grau de profissionalismo e tecnicidade, com legitimidade para orientar o desenvolvimento; (iii) o desenvolvimento económico deve ser assumido como uma prioridade central da governação, dando uma atenção especial ao reforço da competitividade do país, do sector pri-

vado e das empresas, em particular as PME; (iv) estabelecer uma forte componente social de distribuição de renda, redução das desigualdades sociais e compromisso firme com o combate à pobreza; (v) fazer pesados e massivos investimentos na capacitação de recursos humanos, na qualidade e relevância da educação, na ciência, tecnologia e inovação; (vi) manter a coesão da Nação e assegurar a legitimidade política validada pelos resultados concretos alcançados no domínio do desenvolvimento económico e social. Moçambique tem uma política externa assente no pressuposto do estabelecimento de boas relações de cooperação com todos os países do mundo. A estratégia da diplomacia económica exige que se pressione mais para a obtenção de resultados tangíveis no relacionamento com os países da SADC, PALOP, CPLP, UA, Commonwealth, OCI e ONU. Além das relações privilegiadas com a RAS, Moçambique precisa de estreitar ainda mais as relações económicas e comerciais com outros países da SADC e UA, ampliando o escopo de relações económicas com os países africanos e os países emergentes de outros quadrantes do mundo. Precisamos de reforçar o nosso papel na dinamização de uma eficaz e vantajosa integração económica regional, pois isso vai-nos tornar mais competitivos e com menos visão e ambições paroquiais (Wolf, 2008). Ninguém vai criar espaço para Moçambique agir e prosperar, pelo contrário, nós temos de balizar o que pretendemos ser daqui a 50 anos, e trabalhar árdua e incansavelmente para implementar criativamente o plano delineado. Cerca de 45 anos de independência ensinaram-nos alguma coisa… incluindo sobre como tirar proveito da globalização económica.

Num contexto de fricções e tensões comerciais entre os EUA e a China, e do impacto da crise provocada pela COVID-19, no quadro do processo do Brexit, da tensão entre a Arábia Saudita e da Rússia acerca do preço do petróleo, tendo em conta os interesses económicos dos diversos países a investir em Moçambique (EUA, Itália, China, França, Brasil, Reino Unido, Rússia, Índia, Austrália, África do Sul, Coreia, Japão, Portugal, Tailândia, Turquia, Emirados Árabes Unidos, entre outros), importa continuar a atrair mais investimentos do Eixo do Ocidente (EUA, Canadá e Zona Euro) e do Eixo Asiático (China, Índia e Japão), mas igualmente reforçar a acção em África, no Brasil e na América Latina, no Médio Oriente, no Sudeste e Leste Asiático e na Rússia e Leste Europeu.Momentos de transição paradigmática incorporam oportunidades soberanas para os países estreitarem laços económicos e comerciais frutuosos, e para forjar alianças económicas e empresariais fortes, que permitam esboçar e executar projectos estruturantes de desenvolvimento económico para promoção da diversificação da economia e a sua transformação estrutural.

A globalização económica vai prosseguir e temos de estar do lado dos que tiram benefícios dela; a nossa economia deve “descolar e manter uma tendência ascendente” e a crise do paradigma dominante pode ser uma oportunidade para Moçambique fazer vincar a sua “Agenda de Desenvolvimento Económico Inclusivo e Sustentável”. Uma agenda atractiva, que engaje e mobilize investidores e parceiros, porque bem fundamentada, consistente e compreensiva. Na verdade, é este o momento de Moçambique mudar a sua narrativa de desenvolvimento económico. As inúmeras possibilidades e oportunidades estão à nossa frente e ao nosso alcance.

oil & Gas

MoçaMbique LNG — FiNaNciaMeNto Fechado, caMiNho aberto. e aGora?

Depois de anos de espera, e meses após o anúncio da FDI, o projecto de financiamento da Área 1 está ‘fechado’ e há caminho aberto para o empreendimento entrar numa nova fase em que, de facto, os trabalhos vão entrar em velocidade cruzeiro

Texto de Pedro Cativelos Fotografia D.R

foi notícia, em julho, o anúncio feito pela Total relativo à assinatura de todos os contratos legais e financeiros para garantir os 15,8 mil milhões de dólares necessários para avançar com o investimento na bacia do Rovuma, na província de Cabo Delgado. Apesar do abrandamento no investimento em energia e das perturbações causadas pela pandemia de Covid-19 na economia global, a multinacional francesa assegurou o maior investimento directo estrangeiro de sempre no País, numa

operação intermediada pela sociedade de advogados White & Case LLP, que assessorou os financiadores. “A assinatura deste financiamento de projecto de grande escala, menos de um ano após a Total ter assumido o papel de operador do GNL de Moçambique, representa uma realização significativa e um marco importante para o projecto”, assinalava Jean-Pierre Sbraire, director financeiro da Total. “A conclusão do processo demonstra a confiança depositada pelas instituições financeiras no futuro a longo prazo do GNL em Moçambique”, enaltecendo “a dedi-

cação das autoridades moçambicanas e dos parceiros financeiros. quem são os parceiros?

O Moçambique LNG é o primeiro desenvolvimento de GNL onshore do país e inclui o desenvolvimento dos campos de Golfinho e Atum localizados dentro da Área Offshore 1 e a construção de uma fábrica de liquefacção com capacidade de produzir 13,12 milhões de toneladas de GNL por ano.

Olhando à constituição daquela a que se chama oficialmente como Total E&P Mozambique Area 1, uma subsidiá-

ria integral da Total SA que lidera a Área 1 com uma participação de 26,5% e que tem como investidores a Mitsui E&P Mozambique Area 1 Limited (20%), ONGC Videsh Rovuma Limited (10%), a Beas Rovuma Energy Mozambique Limited (10%), a BPRL Ventures Mozambique B.V. (10%), a ENH Rovuma Área Um (15%) e a PTTEP Mozambique Area 1 Limited (8,5%), percebe-se a complexidade da operação de financiamento que envolve mais de 20 entidades, entre bancos, agências financeiras de apoio ao desenvolvimento e agências de crédito à exportação. O que só valoriza a confirmação do pacote de financiamento de 15,8 mil milhões de dólares. ”Combinar tudo isto com uma quebra sem precedentes na procura de petróleo e gás e uma queda calamitosa no preço do petróleo (que é a base da maioria dos preços globais do GNL) fez com que tenham sido tempos muito difíceis para movimentar quantias desta ordem de grandeza. É um feito incrível”, considera Jonathan Ross, head of Oil&Gas Coverage do RMB, um dos bancos envolvidos, a par do Standard Bank e da Société Générale, consultora financeira do projecto.

Depois, há as agências de crédito à exportação e de financiamento ao desenvolvimento: o Banco Africano de Desenvolvimento, a UK Export Finance (UKEF), o US EXIM Bank, Japan Bank for International Co-operation (JBIC) e Thai Export-Import Bank (EXIM), a SACE da Itália, o sul-africano ECIC, o Atradius dos Países Baixos, todas a concederem empréstimos directos.

como vão entrar?

Se o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) aprovou um mecanismo de empréstimo de 400 milhões de dólares, a UKEF, a agência de crédito à exportação do Reino Unido, que até tem um departamento ministerial no Governo de Boris Johnson, irá entrar com 300 milhões de dólares através de empréstimos directos e mais 850 milhões de dólares em garantias para os bancos comerciais envolvidos. Pode parecer estranho o envolvimento britânico

nente”, assumiu então Kimberly Reed, presidente do ExIm Bank dos EUA. Olhando aos bancos, ao nível das 20 instituições que integram o consórcio, o Standard Bank contribuiu com um total de 485 milhões de dólares para a operação, sendo que também o Rand Merchand Bank (membro do First Rand Group, do qual o FNB Moçambique faz parte) integrou a operação. Higino Mutemba, Resources Sector Lead no FNB Moçambique, explica a importância de o RMB fazer parte do consórcio que assumiu o financiamento. “Tem uma importância grande para nós tendo em conta que acreditamos que este tipo de projecto tem o poder de criar um impacto económico positivo para o país. Ao nível interno, é muito importante para nós, enquanto FNB, investirmos neste crescimento. Uma vez que o nosso grupo participou no financiamento dos dois projectos de GNL que estão a seguir em frente (também

Projecto de financiamento envolve mais de 20 entidades, entre instituições bancárias, agências financeiras de apoio ao desenvolvimento e agências de crédito à exportação

na operação porque as empresas britânicas não detêm participações directas no projecto, mas o país espera retirar benefícios do mesmo. Pelo menos financeiramente, nesta altura, sabendo-se que os contratos de GNL de Moçambique apoiarão uma série de empresas britânicas e ajudarão a criar mais de 2 000 postos de trabalho a cidadãos britânicos. Caso semelhante, de resto, ao do norte-americano Exim Bank que, a 18 de Maio, alterava o âmbito do seu financiamento para o projecto de GNL de Moçambique e aumentava a parada na Península Afungi por forma a incluir o apoio à produção offshore do projecto, autorizando com isso um empréstimo de 4,7 mil milhões de dólares a ser utilizado tanto para os elementos onshore como offshore. Com esta movimentação, conseguiu agregar ao projecto um maior número de fornecedores norte-americanos, que aumentou de 37 para 68. “O financiamento do Exim para o projecto Moçambique LNG continua a apoiar fortemente a Iniciativa Prosper Africa, do Presidente Trump, para desbloquear oportunidades para as empresas americanas no conti-

participou no do projecto de FLNG), estamos focados em apoiar as empresas moçambicanas na cadeia de valor do gás natural”, diz. E, sem esquecer a conjuntura dos últimos meses, valoriza a dimensão do feito alcançado. “Com certeza que o clima actual teve impacto. Os preços do gás foram drasticamente afectados e o custo de financiamente em dólares também foi impactado. Mas este projecto e este financiamento têm de ser visto a longo prazo. Nessa óptica, as nossas perspectivas continuam positivas.”

Japão quer posicionar-se

O Japão é outro dos grandes interessados e intervenientes no financiamento de um projecto onde a nipónica Mitsui & Co detém uma participação de 20%. E foi por isso que, em parceria com o sector empresarial, o Governo japonês avançou que iria participar no desenvolvimento do gás natural liquefeito em Moçambique, garantindo parte do investimento necessário para o desenvolvimento de um campo de gás que se prevê que, em 2025, esteja a produzir 12,9 milhões de toneladas de GNL por ano. Assim, três

oil & Gas

“quereMos ser uM actor reLevaNte Na ecoNoMia MoçaMbicaNa”

Jonathan ross, head of Oil&Gas Coverage do rMB, explica à e&M os contornos deste complexo acordo de financiamento

de que forma o rMb faz parte de toda esta operação de financiamento?

entrámos neste acordo enquanto mutuante, ao abrigo da tranche coberta pelo eCIC, a Corporação de Seguros de Crédito à exportação da África do Sul que apoia as empresas que adquirem bens e serviços a partir da África do Sul.

como caracteriza o progresso da operação face ao contexto?

a Total e os seus parceiros optaram por prosseguir com o projecto de financiamento apesar dos vários contratempos, um esforço que deve ser louvado, e conseguiram assinar um financiamento apoiado por um grande número de bancos, instituições de financiamento ao desenvolvimento e agências de crédito à exportação, o que é um feito incrível e uma prova da crença dos patrocinadores e da comunidade financeira na força do projecto e na capacidade da Total. Uma questão chave, na altura em que o GNL de Moçambique chegou ao mercado, foram os custos de financiamento em dólares que aumentaram em todos os mercados, uma vez que os receios de crédito abundaram e só diminuíram com pacotes de estímulo. Os custos de financiamento são uma questão sensível a longo prazo uma vez que aumentam à medida que o prazo se torna mais longo. Neste ambiente, os bancos têm de ser mais selectivos nas transacções.

qual o envolvimento do grupo com este tipo de investimentos em Moçambique. haverá outros? estamos empenhados no desenvolvimento do gás em Moçambique, com o qual temos um profundo compromisso. a nossa presença, através do FNB Moçambique, vai no sentido de considerar que estes projectos terão um impacto transformador para o futuro do próprio sector, mas também para o país como um todo. Queremos ser um actor relevante na economia moçambicana. estamos sempre em busca de oportunidades para apoiar empresas de serviços relacionados com estes projectos e ajudar no seu sucesso, sem nunca esquecer o seu conteúdo local.

bancos privados japoneses e o banco estatal Japan Bank for International Cooperation avançarão com 3 mil milhões de dólares em financiamento da dívida para o projecto da Área 1. O posicionamento do Japão assenta numa estratégia conjuntural, se assim de pode dizer. Sabe-se que, desde o incidente de Fukushima, em 2011, todos os seus reactores nucleares foram suspensos e a maioria não foi, desde então, reactivada. Esta situação provocou uma tensão considerável na matriz energética do Japão e “obrigou” o país a ter de aumentar a sua já considerável aposta em centrais térmicas que utilizam gás natural como matéria-prima.

No entanto, isso levou a que o Japão já seja, hoje em dia, o maior importador e consumidor mundial de gás natural liquefeito. Depois, a questão conjuntural: no início deste ano, a segurança do aprovisionamento de LNG do país estava ameaçada pelo surto de coronavírus, colocando em risco o maior consumidor mundial de GNL que tinha, então, reservas suficientes para apenas duas semanas de consumo. O que apressou todo o processo e trouxe à evidência a urgência em “fechar” o investimento e garantir, sem mais atrasos, uma fonte energética geograficamente favorável e um precioso ‘asset’ para exportar, numa altura em que o mundo procura energias menos poluentes.

Mercados garantidos

Claro que toda a operação de financiamento assenta, em larga medida, no facto de cerca de 90% da produção já estar vendida através de contratos a longo prazo (20 a 25 anos) com os principais compradores de GNL na Ásia e

Europa “É preciso ter um bom nível de conforto com a empresa que estará a liderar o projecto. A Total é um líder global na área de exploração de hidrocarbonetos. Além disto, também foi necessário perceber e avaliar os compradores do gás com que a Total fechou acordos de venda”, explica Higino Mutemba.

Na verdade, o consórcio já tem contratos de venda estabelecidos e com datas marcadas para o início de fornecimento (2024), sobretudo para mercados asiáticos (China, Japão, Índia, Tailândia e Indonésia), mas também europeus, através da companhia de Electricidade de França, da Shell e da britânica Cêntrica.

No total, o projecto conhecido como Mozambique LNG terá um custo de 23 mil milhões de dólares e manteve os prazos, ao contrário do da Área 4, liderado pela Exxon Mobil (Rovuma LNG), que tinha a assinatura do FID prevista para Junho passado, entretanto adiada devido à descida dos preços e aos efeitos da pandemia na empresa norte-americana que se viu obrigada a desinvestir em alguns dos seus grandes projectos. Olhando ao presente, o director-geral da Total em Moçambique, Ronan Bescond, considera a operação de financiamento “um feito memorável”, assinalando a forma como se “conseguiu fechar, na conjuntura actual, o projecto financeiro”.

E, para já, parece inadiável que, ao fim de tantos anos de espera, Moçambique entre, finalmente, para o lote dos países produtores de GNL. A petrolífera francesa mantém o ano de 2024 como prazo previsto para a primeira entrega de GNL, esperando-se atingir a plena produção (13,12 milhões de toneladas por ano) em 2025.

Com o financiamento “fechado” os primeiros trabalhos iniciam-se ainda este ano

OPINIÃO

Oportunidades e desafios da governança e monitorização das actividades petrolíferas

opotencial de desenvolvimento da República de Moçambique decorrente da sua riqueza natural em hidrocarbonetos, aliado ao conhecimento e longa experiência das Empresas Internacionais de Petróleo (IOC’s) na liderança das operações, possibilitam a geração de importantes fontes de receita para o Estado a par com um reforço da formação e capacitação do pessoal nacional, através do seu envolvimento efectivo nas actividades petrolíferas. O País, alinhado com as práticas internacionais, recorreu ao modelo dos Contratos de Partilha e Produção (CPP’s) para o desenvolvimento do enorme potencial do seu sector petrolífero. Ao nível da gestão das operações, o Estado Moçambicano desenvolveu um modelo de governação que apresenta já uma clara separação de responsabilidades entre os vários organismos, por forma a evitar conflitos de interesse. Destaca-se a criação do Instituto Nacional de Petróleo (INP), como entidade reguladora, responsável pela administração e promoção das operações petrolíferas, e a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) responsável pela pesquisa, prospecção, produção e comercialização de produtos petrolíferos, sendo que esta intervém, geralmente, de forma directa no desenvolvimento das operações do país, pela aquisição de interesses participativos. Com o aumento dos investimentos e da complexidade das operações, surge a necessidade de desenvolver mecanismos e ferramentas de reporte, cimentados em sistemas de informação seguros, que permitam um controlo e monitorização efectivo das operações. Adicionalmente, os organismos governamentais deparam-se com a necessidade de desenvolver e melhorar as suas metodologias de inspecção, por forma a garantir a execução dos investimentos previamente orçamentados e aprovados, baseados em procedimentos objectivos e que terão como consequência directa a maximização das receitas do Estado.

Para além dos mecanismos internos de monitorização e controlo das operações mencionados, existe também a figura do Auditor Independente, que desempenha um papel relevante no escrutínio e validação da informação contabilística, avaliando e atestando a recuperabilidade dos custos incorridos nas diversas fases da operação (pesquisa, desenvolvimento, produção e abandono), conferindo maior confiança, credibilidade e transparência às actividades. Decorrente deste trabalho, é possível identificarem-se situações que impactam a recuperação dos custos incorridos, sendo exemplos os custos incorridos não aprovados ou incorridos para além dos montantes aprovados pela entidade supervisora, custos decorrentes de ineficiências na operação, custos que não se enquadram com as actividades petrolíferas, ausência de suporte adequado para registos contabilísticos e custos incorrectamente alocados a fases e a áreas (ring fence). As actividades de monitorização e controlo internas e externas são de extrema importância para a credibilidade das operações e qualidade do seu relato, funcionando como garante de um efectivo cumprimento das regras estabelecidas nos CPP’s e demais legislação. Atendendo ao período longo de duração destes contratos, no pressuposto da descoberta de reservas comerciais petrolíferas, poderá vir a revelar-se necessária a revisão das condições fiscais praticadas, por forma a acompanhar a tendência dos negócios e do contexto geopolítico a par com a evolução tecnológica, garantindo a manutenção de um sistema fiscal transparente e suficientemente atractivo a investidores externos e que, simultaneamente, maximize as receitas para o Estado.

É certo que os desafios que se avizinham são bastante exigentes, particularmente num ambiente de pandemia, mas certamente que estas oportunidades serão um motor para o desenvolvimento de pessoas e meios, potenciando a estabilização económica e social e o progresso do País.

Atendendo ao período longo de duração destes contratos, no pressuposto da descoberta de reservas comerciais petrolíferas, poderá vir a revelar-se necessária a revisão das condições fiscais praticadas, por forma a acompanhar a tendência dos negócios e do contexto geopolítico

Rui Silva • Senior Manager - Assurance & Manuel Mota • Partner - Audit and Accounting Services da EY

Números em conta

Quando a carne está fraca... o vegetarianismo só tem de vencer

a forma como as pessoas escolhem e consomem alimentos está a alterar-se de forma radical, de produtos alimentares de origem animal para bens alimentares de origem vegetal. Quer seja do ponto de vista do impacto ambiental, da crueldade para com os animais, ou apenas dos benefícios para a saúde, as dietas sem carne estão rapidamente a tornar-se no novo normal para pessoas de todo o mundo.

Já se pode, hoje, falar de uma indústria que irrompe numa teia lucrativa de sub-categorias que estão a aguçar o apetite dos investidores em todo o mundo.

Tendo uma visão holística do vegetarianismo, existem várias dietas diferentes a que as pessoas aderem tipicamente. Um vegetariano, por exemplo, não come carne mas, continua a consumir produtos animais, tais como lacticínios e ovos. Por outro lado, um vegano consome uma dieta estritamente baseada em plantas.

Com 70% da população global a reduzir o seu consumo de carne, o vegetarianismo tornou-se uma escolha de vida para muitos e, em 2026, prevê-se que este seja um mercado global que deverá valer mais de 24 mil milhões de dólares.

Mas, embora tudo isto pareça um fenómeno relativamente novo, a revolução sem carne tem vindo a construir-se silenciosamente há quase dois séculos.

A primeira sociedade vegetariana é formada em Inglaterra

O primeiro restaurante vegetariano do mundo abre na Suíça

6% de toda a população dos EUA afirma ser vegana

É criado o termo “vegan” 1847 2017 2014 2018 2020 1994 1898 1944

É lançado o documentário “Influential Breakout Cowspiracy”

Cerca de 8% da população mundial afirma comer à base de plantas

A aceitação de dietas vegetais tanto pela comunidade médica como pelo público em geral está no auge

Comprou uma fábrica alimentar chamada Sweet Earth onde irá sediar a sua produção de produtos vegetarianos.

A multinacional francesa de lacticínios adquiriu a fábrica da WhiteWace Foods, numa compra avaliada em 12,5 mil milhões de dólares.

A cadeia de fast food lançou recentemente o seu próprio projecto Vegan em parceria com a “Beyond Meat” e já apresenta os produtos veganos como alimento de base permanente no seu menu, registando um aumento de 80% nos clientes que compram estes produtos.

É introduzido o primeiro Dia Mundial Vegano

Alimentos Globais Veganos

Previsão do mercado

CAGR (2019-2026E): 9,1%

Tendência de procura por “Vegan” aumentou drasticamente no Google.

Vegan

Não consome produtos animais, incluindo lacticínios, ovos e mel

Vegetariano

Não consome carne, mas alimenta-se de produtos de origem animal

Flexitariano

Tem uma dieta composta maioritariamente por plantas, mas não exclui totalmente a proteína animal

Dublin, a capital, é um hub para vegans com mais de 21% dos restaurantes considerados “vegan friendly”.

Tem a maior percentagem mundial de lançamento de produtos vegan no mercado.

O Governo chinês insiste na meta da redução de consumo de carne para metade, até 2030, dos seus 1,3 mil milhões de pessoas.

Desde 2014, o número de pessoas que se identifica como vegan aumentou 600%.

Cerca de 38% da população assume-se vegetariana, a maior do mundo.

Com quase 2,5 milhões de pessoas, cerca de 12% da população consume uma dieta à base de plantas. É o terceiro mercado com mais rápido crescimento a este nível.

Superação dos efeitos do coronavírus: Contributo do financiamento ao Agro-negócio

aagricultura é historicamente um dos sectores mais importantes da economia moçambicana por ser responsável por empregar cerca de 80% da massa laboral activa do país e ser o maior contribuinte para o PIB. Enquanto a sua contribuição no PIB tem-se situado entre 21% e 24% nos últimos dez anos, o financiamento ao sector tem sido desproporcional, situando-se no intervalo entre 2% e 6% no mesmo período, não permitindo que se tire o pleno proveito das suas potencialidades.

Embora o sector se ressinta da actual crise económica decorrente da pandemia da COVID-19, a magnitude do seu impacto tem sido relativamente menor quando comparada com outros sectores, principalmente no que tange à redução de postos de emprego, níveis da produção e volume de negócio, o que aumenta de sobremaneira a sua relevância para a economia moçambicana. Como tal, estamos perante mais uma razão para que Moçambique reafirme a sua aposta em investir na agricultura e no agro-negócio como uma das bases do seu desenvolvimento.

Numa altura em que todos os esforços estão a ser direccionados para a recuperação da economia cujo crescimento, em 2020, está estimado em 0,6% pelo Absa Research, a determinação passa, necessária e estrategicamente, por investir em cadeias de valor em função das oportunidades de mercado local e internacional.

Desta forma, olhando para o mercado nacional, tendo em conta que o país apresenta uma taxa de crescimento populacional de 2,8%, um nível baixo de consumo de alimentos per capita (1,4 vezes menos consumo de cereais que a África do Sul) e ainda com focos de insegurança alimentar, é pertinente priorizar a concessão de financiamento de curto e médio prazo virados para projectos de pequena

e média dimensão de produção de bens alimentares básicos, como, por exemplo, cereais, frango e subprodutos, leguminosas de grão, oleaginosas e horticultura. Este tipo de produtos agrega valor e visa, no seu conjunto, o alcance da escala e eficiência necessárias de modo a proporcionar produção suficiente de comida para suprir a demanda doméstica e permitir o pagamento da dívida contraída por parte dos mutuários.

Porém, na abordagem à concessão de financiamento, as instituições financeiras de crédito devem desenvolver e pôr à disposição do público produtos financeiros a preços competitivos, ajustados aos modelos de negócio dos diferentes intervenientes de toda a cadeia de valor, desde os fornecedores de insumos e equipamento de produção agrícola e agroprocessamento, até aos distribuidores da produção, com atenção especial para os produtores e agentes agregadores.

Além de produtos para a agricultura formal, há que ter em conta a necessidade de desenvolver produtos estruturados de crédito rápido para o sector informal que emprega cerca de 80% da população economicamente activa, incluindo a do sector agrícola, e que contribui em cerca de 60% para o PIB.

Considerando o grande contributo que este segmento tem no movimento e distribuição dos produtos alimentares na sua forma bruta e/ou processada no mercado doméstico, o financiamento estratégico a estes intervenientes, que se caracterizam por elevada mobilidade, será um factor determinante para a restauração rápida do negócio agrário no país, no período pós crise em que iremos entrar.

Em relação aos mercados internacionais, prevendo para 2021 crescimento significativo de algumas economias de regiões do globo onde se localizam determinados países

Tendo em conta que o país apresenta uma taxa de crescimento populacional de 2,8%, um nível baixo de consumo de alimentos per capita e ainda com focos de insegurança alimentar, é pertinente priorizar o concessão de financiamento de pequena e média dimensão de produção alimentar

Agro-negócio deve merecer uma atenção coordenada envolvendo todos os actores da cadeia de valor: do Governo ao sector financeiro, passando pelas operadoras móveis

tradicionalmente importadores de alimentos, como a Ásia e Pacífico (destacando o Vietnam – 6,8% e China – 6,9%), Europa e Asia Central (realçando a Albânia – 8,8%, Uzbequistão – 6,6%, Croácia – 5,4% e Roménia – 5,4%), abre a porta para um aumento das exportações para o próximo ano. Neste sentido, Moçambique deverá financiar cadeias de valor que vão registando tendência crescente na demanda mundial (incluindo nos mercados local e regional), principalmente aquelas valorizadas cada vez mais por serem conotadas como benéficas à saúde, como, por exemplo, o gergelim, leguminosas de grão, macadâmia, abacate e banana. Neste caso, os financiamentos devem incidir sobre empreendimentos de média a grande dimensões com enfoque para a adição de valor e/ou agroprocessamento, disponibilizando tanto facilidades de crédito para financiamento de projectos, como facilidades estruturadas para o comércio. Além dos mercados supracitados, existem oportunidades de exploração para mercados Africanos, considerando o crescimento significativo e previsto na Africa Subsaariana.

Além do financiamento directo às actividades produtivas, o sector financeiro de crédito deve desenvolver e disponibilizar produtos financeiros para permitir que intervenientes nas cadeias de valor do agro-negócio tenham acesso a sistemas de gestão de fornecedores, stocks e clientes em tempo real, à base das tecnologias digitais desenvolvidas e disponibilizadas pelas Fintechs, contribuindo para o melhoramento da eficiência no controlo e crescimento do seu negócio, tirando vantagens do actual nível de cobertura das operadoras de rede móvel.

A colaboração e coordenação interinstitucional no financiamento ao agro-negócio em Moçambique, envolvendo os actores das cadeias de valor, Governo, sector financeiro, seguradoras, operadoras móveis, Fintech e parceiros de partilha de risco, torna-se imperiosa com o fim de maximizar o potencial e as oportunidades do sector e aumentar o seu contributo no desenvolvimento económico do País. Fica apresentada uma das fórmulas da contribuição do agro-negócio na recuperação sustentável de Moçambique aos efeitos da crise actual decorrente da pandemia da Covid-19.

Nação

O que p Ode (deve e tem mesmO de) mudar nO agrO -negóciO

Há um mês, o Presidente da República lançou a campanha de comercialização agrícola 2020 e, na ocasião, passou em revista questões de fundo sobre o agro-negócio, sector que, ao mesmo tempo que conhece uma rápida evolução, se debate com sérios problemas de sustentabilidade. Fórmulas para o revolucionar não têm faltado, mas a realidade prova ser difícil materializar o que se projecta, porque não se consegue harmonizar os três principais ingredientes: estratégia, coordenação e capital. Como resolver esta equação? A E&M traz o pensamento de quem tem as respostas

como todos sabem (mas vale a pena recordar), o agro-negócio é um subsector que envolve uma extensa e complexa cadeia de valor da agricultura. Desde a produção até ao consumo, passando pela comercialização, o agro-negócio comporta várias ramificações que incluem outras actividades subjacentes, envolvendo a transformação e até a embalagem – a agro-indústria. Uma nota a reter é que só a primeira parte desta cadeia, a produção agrícola, mesmo com o seu potencial subaproveitado, tem uma participação “brutal” de aproximadamente 25% no PIB. Imagine-se, então, o cenário de um maior aproveitamento do potencial não só de produção como do resto da cadeia agrícola! É uma ambição ainda longe de ser efectiva, apesar de, felizmente, já haver sinais encorajadores (mas isolados) para tentar alcançá-la. Mas como acelerar a busca pela sustentabilidade? Há muito que se fala em aumentar a produtividade, condição que comporta uma grande lista de requisitos de difícil alcance, e que encontra nas políticas públicas geralmente descontinuadas mais um obstáculo ao progresso. E se assim é, como se explica que alguns sectores do agro-negócio estejam a despontar? O que é feito particularmente na avicultura, na produção do açúcar, da banana, do caju e que tem sido determinante na sua afirmação como negócios prósperos? João Mosca, economista e pesquisador do Observatório do Meio Rural (OMR) – organização

sem fins lucrativos que realiza estudos com a finalidade de contribuir para a elaboração de políticas agrárias e de desenvolvimento rural – considera que o segredo está na protecção da produção nacional através de políticas públicas, sobretudo desencorajando a importação através da tributação, que até agora tem faltado.

Não é por coincidência que a avicultura e o açúcar sejam subsectores bem-sucedidos, afinal, foram fortemente protegidos por políticas públicas. Esta é uma evidência de que o crescimento industrial e agrícola em Moçambique, como em países menos desenvolvidos, exige mecanismos de protecção da produção nacional”, sublinhou o pesquisador, que é a favor da repetição e persistência em experiências que trazem resultados encorajadores. Além de João Mosca, quem sente falta da protecção pública à produção nacional é o representante do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), Pietro Toigo.

O que está bem e o que está mal

Uma imagem panorâmica do agro-negócio em Moçambique e o horizonte do que pode vir a ser no futuro, é-nos sugerida pelo representante-residente do BAD – um dos principais intervenientes no apoio à cadeia de valor agrícola em Moçambique. A começar pelas oportunidades, Pietro Toigo assinala que, nos últimos cinco anos, houve diversificação das culturas comerciais tradicionais, como o açúcar, tabaco, algodão e o caju, que no passado eram responsáveis

Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R.

Nação

Um dos pontos fracos do agro-negócio é o facto de o mercado viver de bens importados, sendo que os que são produzidos internamente são transformados apenas uma vez e depois exportados, como o açúcar

pela maior parte das exportações agrícolas. Assim, novas cadeias de valor como as horticulturas, banana, amendoim, feijão, ervilha, gergelim e o girassol entraram para esta matriz, tendo contribuído para a ampliação das exportações e para a comercialização no país, em resultado de investimentos privados recentes, combinados com o financiamento e assistência técnica apoiada pelos programas de desenvolvimento.

Por outro lado, a redução das taxas de importação de equipamento agrícola, a criação das zonas económicas especiais e o declínio dos preços dos produtos não-agrícolas, como o alumínio, o carvão e o gás natural desde meados de 2013 – cujas exportações caíram em 14% devido à lenta

recuperação económica global – levaram a um desempenho robusto das exportações agrícolas, principalmente após a liberalização do comércio agrícola e de exportações. Em relação à extensa lista do que está mal, o representante do BAD destaca o fraco financiamento ao crédito agrícola pelas instituições de crédito, devido a um ambiente de altas taxas de juro que resultam de desequilíbrios macroeconómicos que o Banco Central tenta ajustar. Outros factores incluem a fraca inclusão de pequenos produtores nas cadeias de valor agrícolas; a contínua importação de produtos alimentares, como o arroz e o óleo alimentar para abastecer centros urbanos devido à ausência das já referidas políticas de protecção da produção nacional; a ausência de projectos estruturantes que possam permitir uma maior agregação de valor na produção, processamento e todos os serviços auxiliares; e as questões climáticas adversas e cíclicas, como cheias e secas que têm afectado o País. Para Toigo, reflectir e agir em torno destes aspectos é um bom ponto de partida para influenciar mudanças.

PoRqUe é qUe o agRo-negóCio

RetRai investiDoRes?

grande parte do interesse na agro-indústria está virado para o sector externo, daí o grande alcance sobre o investimento externo. Mas o oMr mostra os factores que desestimulam o investimento externo e interno

Dimensão

o investidor externo não vem a Moçambique porque o mercado é pequeno. Apesar de já ter uma população relativamente grande, o consumo do moçambicano é baixo

Diversificação Riscos

não há consumo diferenciado, o que é contrário aos pressupostos da agro-indústria, que tem grande preocupação com padrões de qualidade.

É um país de risco empresarial relacionado com a instabilidade política, económica, fraco ambiente de negócios, etc. Só com contratos muito favoráveis o país atrai investidores

Competitividade

não existe produção nacional de qualidade, nem preços mais acessíveis do que os produtos importados, que garantam o abastecimento das fábricas a tempo inteiro.

Desfoco

internamente, a elite empresarial é tipicamente urbana, que não só está virada para o mercado urbano, como ela própria é urbana e não se interessa em viver e investir no meio rural por representar elevado risco.

e o que os próprios produtores dizem?

O presidente do Pelouro do Agro-negócio na CTA, organização que representa o empresariado nacional, Adelino Buque, fala da dificuldade de acesso a infra-estrutura, que compreende a mecanização, através, por exemplo, da facilitação da compra de electrobombas, retirando as taxas de importação em substituição das motobombas que, por utilizarem combustível, encarecem a produção em comparação com a electricidade; as vias de acesso que, grosso modo, são estradas de terra batida ou com manutenção deficitária; e, por fim, uma questão que é abordada em profundidade no artigo da Gapi-SI, página 38, que é a falta de organização dos mercados, sejam municipais ou rurais, que permita aos produtores colocarem as suas mercadorias de uma maneira mais aberta. querem a isenção do iva… É um apelo antigo. Adelino Buque chega a falar na “falta de vontade política” em concretizá-lo, por parte do sector público, que o entende como uma “fuga à res-

ponsabilidade fiscal por parte do empresário agrícola”. vO empresariado explica que, em alguns produtos o IVA é cobrado a partir da segunda transacção. Isto é, do agricultor ao primeiro comprador há isenção do IVA, mas daí em diante, os 17% do valor da mercadoria começam a ser cobrados. “Assim, sendo Moçambique um país de grande informalidade, este facto faz com que as empresas formais não intervenham com agressividade na área de comercialização agrícola, porque uns compram sem IVA e outros sentem-se desestimulados ao ter de arcar com este custo a partir da segunda transacção. Na nossa opinião, o IVA deveria ser isento até à transformação do produto porque, pela lógica, o valor acrescentado tem de resultar de alguma transformação”, defende o empresário.

Também seria desejável isentar as taxas de importação de pesticidas para o tratamento de culturas e de importação de sombrites, muito utilizadas na produção de hortícolas em tempo quente, para aliviar os custos de produção.

… querem facilidades de crédito Há, em Moçambique, noção do que significa financiar o agro-negócio? Os bancos dizem que sim. E até apresentam instrumentos e outras iniciativas concretas. Mas os empresários e estudiosos não concordam. “Se calhar, a questão que se deve pôr é se, de facto, o sector financeiro nacional tem a noção do que é financiar a agricultura”, questiona o sector privado. E explica: para financiar a agricultura é preciso tomar em consideração que a produção é um processo que obedece a várias etapas, que começam pala lavoura, vai à gradagem, preparação do solo através da sulcagem e depois a sementeira. Até à colheita, dependendo do tipo de cultura, toda a actividade leva não menos de sete meses. Depois vem a comercialização, que também leva o seu tempo. Mas a banca comercial, quando intervém com o máximo de vantagens ao produtor, obriga-o a começar a pagar três meses após a lavoura, quando ainda está na fase primária do processo. “A nossa banca comercial não tem a noção do ciclo de produção agrícola, sem falar nas taxas de juro, que são outro grande obstáculo”, desabafou Adelino Buque, mas também reconheceu que “é importante não perder de vista o facto de que, sendo a banca parte do sector privado, não se sente estimulada a investir num sector arriscado, sem políticas públicas que o favoreçam”.

… e outros incentivos à produção

O pesquisador do OMR, João Mosca, fala da necessidade de criar condições para a emergência de médios agricultores que possam gradualmente substituir a estrutura actual, feita, em grande medida, pelo sector familiar. Mosca entende que só os produtores de média dimensão são capazes de criar a possibilidade de armazenar e vender produtos em quantidades, que possam abastecer a indústria nacional a preços competitivos em comparação com os produtos importados. “Caso isso não aconteça, os industriais preferirão sempre importar”, avisou.

Depois, prosseguiu, é preciso criar condições para que haja transformação dos produtos para o mercado interno através dos incentivos antes referidos (fiscais, redução do custo do financiamento e política de protecção à indústria nacional) que, neste momento, não existe. Toda esta transformação não deve levar menos de 20 ou 30 anos, alertou.

“se o mercado comum da saDC fosse aberto hoje, Moçambique não passaria de mero consumidor da produção dos países vizinhos, porque não consegue crescer ao nível do rendimento por hectare”

a (des) ajuda da iniciativa pública Se as instituições de crédito têm objectivos comerciais a salvaguardar, o mesmo não se pode dizer das instituições públicas vocacionadas para dar atenção ao desenvolvimento do agro-negócio, nomeadamente o Banco Nacional de Investimento (BNI) e o Fundo de Desenvolvimento Agrário (FDA). Ainda assim, a intervenção de ambas as instituições está aquém da demanda do sector. “Primeiro, o BNI é pouco conhecido do ponto de vista do domínio público. Pode ser que as grandes empresas o conheçam, mas o agro-negócio é maioritariamente feito por pequenos produtores. Além disso, é um banco localizado, que não está na extensão nacional, pelo que há províncias que não têm, sequer, uma delegação ou representante que fale em seu nome. Pode ser que o banco esteja a desenvolver projectos importantes, mas nada que tenha impacto nacional”, constata o presidente do pelouro do Agro-negócio, Adelino Buque. João Mosca, ao referir-se ao impacto do apoio do FDA, destacou que, primeiro, os recursos são poucos. Segundo, as taxas de juro, embora sejam mais baixas que as da banca comercial, continuam a ser altas para impulsionar o agro-negócio. Terceiro, “quem beneficia das suas soluções são pessoas ligadas ao sistema do poder que, regra geral, não têm muito que ver com a agricultura. Utilizam o dinheiro do FDA para outros fins”, disparou. O sector privado, entretanto, está confiante que, no novo ciclo de governação, há uma tentativa de mapear todos os fundos de apoio ao agro-negócio para ver se se consegue uma resposta eficaz para os desafios.

pecuária foi esquecida?

Nem se fala na cadeia de produção da carne. É um segmento literalmente esquecido, apesar de o sector privado reconhecer, a avaliar pelo potencial, que “é possível que

Moçambique se torne competitivo na região”, onde há colossos como o Botsuana, uma das referências mundiais na exportação de carne bovina. A primeira indústria que prometia revolucionar o sector e tornar-se numa referência regional, a Matama, paralisou actividades por alegada insustentabilidade do negócio e já se fala em falência. Hoje, poucos operadores tentam sobreviver, caso do Mozbife, baseado em Chimoio, província de Manica. Segundo a CTA, neste momento, a maior parte do gado bovino está com problemas de brucelose, um tipo de doença que afecta o gado dificultando a sua reprodução, e que exige um tratamento que deve ser feito ao nível nacional.

Daí, a necessidade de intervenção do sector público para abranger animais cujos donos não tenham capacidade financeira para resolver a questão. Além disso, é preciso fazer cumprir a Lei de Sanidade Animal, evitando, entre outros aspectos, que o seu transporte seja feito de forma desregrada, o que concorre para o seu mau estado de saúde.

A cultura de valorização deste subsector foi com o colono. Naquela altura, havia os chamados tanques carracicidas para o banho dos animais e um sistema de transporte regulamentado. Hoje nada disso acontece, o que retira a competitividade do sector.

pressão populacional e as suas exigências

Uma coisa é produzir para crescer e competir, e outra é produzir para responder à pressão. Recentemente, o representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) em Moçambique, Hernani da Silva, trouxe números que mostram que aumentar a produção alimentar é hoje um imperativo, não só em Moçambique como no mundo. Internamente, projecções do INE apontam que a população aumentará dos actuais 29,3 milhões para cerca de 33,2 milhões até 2025. Para responder à pressão, a FAO sugere o uso efectivo da terra que ainda não está a ser explorada. Isto é, um aproveitamento racional dos 66,7% da população que vive no meio rural. Aumentar a produção ajudaria também a minorar os níveis de insegurança alimentar e desnutrição, que afectam a mais de 40% da população.

Nação

“Estamos a Estudar a instalação dE Zonas EspEciais agro-industriais”

piEtro toigo

Representante do BAD em Moçambique

Trata-se de um projecto estruturante que promete revolucionar o sector do agro-negócio e cujos estudos para a sua implementação estão na fase conclusiva, devendo ser divulgados em breve

Texto de Celso Chambisso • Fotografia D:R:

entre as instituições multilaterais presentes no país, o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) é dos mais interventivos no sector do agro-negócio em Moçambique, com programas concretos de apoio a toda a cadeia de valor, e com investimentos acumulados na casa dos 200 milhões de dólares nos últimos anos, sem contar com os mil milhões de dólares aplicados nas vias de acesso no Norte.

Conhecendo bem os aspectos críticos da competitividade nacional, o BAD, através do seu representante no país, Pietro Toigo, sugere a diversificação das soluções de financiamento e uma postura focada na estruturação dos projectos por parte dos próprios produtores.

O difícil acesso ao financiamento é um dos obstáculos ao desenvolvimento do sector do agro-negócio. De que instrumentos um mercado como o moçambicano se deve socorrer para afastar esta barreira?

As altas taxas de juro que foram necessárias para estabilizar a moeda externa na economia moçambicana, depois da grave crise financeira de 2015/2016 penalizaram especialmente o sector de agro-negócio, que também foi afectado pelo alto ní-

vel de risco devido a flutuações dos preços de produtos e pela alta vulnerabilidade climática. Se quisermos desenvolver este sector-chave para a diversificaçãção económica e o emprego em Moçambique, será necessário um trabalho coordenado para desenvolver produtos financeiros que possam mitigar esses riscos.

Primeiro, é preciso um conjunto muito mais vasto de garantias parciais da carteira denominadas de “first loss” para diminuir os custos de financiamento. Também é preciso desenvolver o mercado de seguros para poder oferecer produtos mais abrangentes que incluam a transferência de prémios relacionados com o risco climático.

Qual é o papel do próprio investidor neste processo?

É importante abordar alguns aspectos estruturais do lado dos produtores e processadores que podem aumentar os montantes de financiamento do agro-negócio. Por exemplo, projectos que são preparados com planos de negócio robustos e, se preciso, estudos de viabilidade socioeconómica e ambientais podem abrir o acesso a fontes de financiamento menos caras. Infelizmente, é frequente em Moçambique que as instituições que participam em agro-negócios não invistam suficientemente na

“No modelo de Zonas Especiais Agro-industriais, as instalações são compartilhadas para permitir que produtores, processadores e distribuidores agrícolas operem no mesmo local reduzindo custos de transacção e compartilhando serviços de desenvolvimento de negócios”

preparação e estruturação dos seus projectos. Estruturas onde pequenos produtores se aglutinam ao redor de um agregador de processamento suficientemente grande, e com a sua estrutura de gestão com uma larga experiência, podem atrair financiamento de investidores institucionais ou de instituições financeiras internacionais de desenvolvimento como, por exemplo, o BAD, beneficiando-se de custos de financiamento mais baixos. No agro-negócio há agentes de várias escalas, desde o produtor e operador de pequena e média escala, ao operador de grande escala.

Os instrumentos financeiros devem ser ajustados em termos de tempo e lugar. Também depende das cadeias de valor financiada. Isto é, o financiamento a fruteiras ou gado não pode ser igual ao financiamento para culturas anuais e avicultura. Esta diferenciação deve ser sempre tomada em consideração.

Numa situação óptima, que tipo de soluções financeiras podem estar à disposição dos investidores e como devem ser agrupados para responder aos diferentes segmentos e cadeias do agro-negócio?

Entre os instrumentos de financiamento, o destaque vai para os de crédito cuja ênfase é a estabilidade das taxas de câmbio e taxas de juro; os de gestão de risco, focados nos fundos de garantia e seguros; os de pagamento como dinheiro móvel; e ainda os fundos de renegociação de dívidas. Também existe um vasto leque de ferramentas auxiliares ao crédito.

Nação

Certamente há modelos de financiamento ou de garantias que estejam a ser utilizados com sucesso noutros países, sobretudo ao nível da África, e que possam encaixar na realidade moçambicana… Existem alguns modelos em alguns países da região como o Quénia, que usa créditos com períodos flexíveis de reembolso; no Maláui, há produtos específicos para inputs e comercialização/processamento; na Nigéria, existe o chamado crédito de campanha, que apresenta um esquema interessante de coordenação entre bancos para o crédito ao agro-negócio, e que foi lançado pelo presidente do BAD, Akinwumi Adesina, quando era ministro da Agricultura daquele país.

Em Maio de 2018, o BAD e o Governo moçambicano assinaram um acordo no valor de 1,5 milhão de dólares para a elaboração de um Plano Director com foco no desenvolvimento integrado do agro-negócio e infra-estruturas nas províncias do Niassa e Cabo Delgado. Quais são as linhas orientadoras deste plano?

A elaboração do Plano Director para o Desenvolvimento do Corredor de Pemba-Lichinga coloca-se numa estratégia de desenvolvimento integrado da região Norte do país que foi acordada com o Governo de Moçambique. Como se devem recordar, o BAD, nos últimos anos, investiu fortemente em infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias no Norte do país, com um valor de cerca de mil milhões de dólares. Na área rodoviária, o financiamento foi para a ligação Montepuez-Lichinga, Lichinga-Cuamba, além do troço Nacala-Nampula. Recentemente, arrancaram os trabalhos na estrada Mueda-Negomano, conectando o Norte de Moçambique à Tanzânia. Na área ferroviária, o BAD financiou a linha que liga o Porto de Nacala ao Distrito de Moatize. Estes investimentos em infra-estruturas rodoviárias são essenciais para promoverem uma integração económica entre as províncias de Niassa, Cabo Delgado e Nampula, garantindo assim o acesso dos produtores agrícolas, de insumos, da maquinaria e de toda a logística relacionada com o desenvolvimento do agro-negócio. A colocação destas infra-estruturas em zonas férteis interiores permitirá, num futuro breve, aumentar a procura por produtos agrícolas por parte dos projectos de gás, bem como a

MilhõEs dE dólArEs

É o valor investido pelo BAD nos últimos anos em infraestruturas rodoviárias e ferroviárias no Norte do país para integrar os mercados internos e facilitar o comércio com países vizinhos

colocação dos mesmos nos mercados globais através dos portos de Nacala e Pemba.

Restará, obviamente, desafiar a capacidade interna de maximização da produção para fazer valer todo este investimento na logística. O Plano prevê a coordenação plena de todos estes objectivos?

Sem dúvida. Os investimentos em estradas têm de ser complementados com investimentos no potencial produtivo agrícola, para estimular actividades de processamento e de agro-

negócio. Por isso, O BAD financiou a elaboração do Estudo do Plano de Desenvolvimento do Corredor Pemba-Lichinga com o objectivo de elaborar um plano director para coordenar e estimular investimentos de apoio ao agro-negócio de forma integrada, abrangendo energia, infra-estruturas e processamento. O modelo conceptual é denominado de Zonas Especiais Agro-Industriais que o BAD está a promover em vários países africanos. Numa destas zonas especiais agro-industriais as instalações são compartilhadas especificamente para permitir que produtores, processadores e distribuidores agrícolas operem no mesmo local para reduzir custos de transacção, compartilhar serviços de desenvolvimento de negócios e aumentar a produtividade e a competitividade. Crucialmente, este modelo permite agregar produtores mais pequenos ao longo da cadeia do valor, oferecendo-lhes oportunidades de aumentar a sua eficiência e produtividade, bem como de melhorar os mecanimos e oportunidades de comercializar os seus produtos.

O que se pode dizer hoje dos resultados desta iniciativa? Quais os pontos fortes e fracos?

Os estudos detalhados estão numa fase conclusiva, mas, infelizmente, a

pandemia do COVID-19 vai contribuir para a sua desaceleração devido à impossibilidade de viajar por parte dos vários peritos que estão a elaborar o estudo. Esperamos poder concluir os estudos preliminares nos próximos meses, para preparar a primera fase de implementação já no primero trimestre do próximo ano. Contudo, é importante destacar que o modelo das Zonas Especiais Agro-industriais não pode ser implementado da mesma maneira em cada país. Precisamos de adaptá-lo às circunstâncias locais. Em alguns casos, será necessário fazer um investimento preliminar nas cadeias de valor de produtos seleccionados, de mercado e de forte potencial agro-comercial, antes de entrar na fase de financiamento de uma zona industrial propriamente dita. Também será importante identificar e estimular investidores privados para se engajarem ao longo do corredor.

Quantos projectos de agro-negócio são actualmente assistidos pelo BAD e qual é o investimento global? Como estão distribuídos geograficamente e com que prazos e facilidade (taxas de juro) são acessíveis ao produtor? Actualmente, a maioria dos projectos são assistidos através da janela de financiamento público do BAD. O

que significa que a instituição está a disponibilizar fundos ao Governo para financiar vários projectos de apoio aos produtores, com um valor total aproximado de 200 milhões de dólares. Devido à posição insustentável da dívida pública moçambicana, esses fundos são disponibilizados em forma de donativos. Geograficamente, estes financiamentos concentram-se principalmente no Sul do país, com o objectivo principal de fortalecer a resiliência à seca e o apoio ao desenvolvimento de cadeias de valor, enquanto que no Centro do país apoiam a recuperação do ciclone Idai. No Norte, o BAD está a apoiar o fortalecimento das cadeias de valor do frango e, como explicado anteriormente, esperamos aumentar o enfoque, nos pró-

Africano de Investimento (African Investment Forum) que o BAD lançou no ano de 2018 para catalisar investimentos privados em África, além de parcerias como o Compacto Lusófono, que reúne o BAD, Países Africanos falantes de Língua Portuguesa, incluindo Portugal, para acelerar o crescimento do sector privado lusófono africano.

Uma das questões que se colocam a este nível é também a competitividade de Moçambique no quadro do mercado comum da SADC. E ainda não há capacidade para competir em pé de igualdade com a maior parte destes países…

Uma das estratégias do BAD está no fortalecimento da integração regional como forma de melhor promover as tro-

“Nos próximos anos pretendemos aumentar o nosso investimento directo em projectos privados de agro-negócio em Moçambique, especialmente no quadro das Zonas Especiais Agro-industriais através da banca e de firmas”

ximos anos, no desenvolvimento do corredor Pemba-Lichinga. Além disso, existem financiamentos directos ao sector privado moçambicano, através de donativos que apoiam estudos de desenvolvimento e de viabilidade de projectos que depois possam tornar-se bancáveis. Através dessa ferramenta estamos a apoiar o desenvolvimento de um projecto de aquacultura na província de Tete e de agro-procesamento de tomate na província de Gaza.

E em que deverá assentar a assistência do BAD ao país no futuro, uma vez ciente dos passos que se devem seguir?

Nos próximos anos pretendemos aumentar o nosso investimento directo em projectos privados de agro-negócio em Moçambique, especialmente no quadro das “Zonas Especiais Agro-Industriais”, seja através da banca local ou trabalhando directamente com firmas de agro-negócios. Mas para isso será preciso superar os constrangimentos discutidos anteriormente, inclusive o elevado nível de risco percebido que afecta o sector, reduzindo a dimensão dos projectos, e a falta de co-financiamento para o efeito, principalmente do “blended financing”. Por isso, queremos alavancar plantaformas, como o Fórum

cas comerciais, incluindo dos produtos agrícolas, através do apoio às vias de acesso já referidas. O desenvolvimento integrado do Norte de Moçambique vai permitir que o país se estruture e aumente a sua capacidade de exportar para países da SADC, bem como de obter receitas através da utilização dos corredores logísticos e dos portos, após investimentos significativos feitos na modernização e ampliação da capacidade operacional de movimentação e manuseamento de produtos agrícolas de exportação nos portos de Maputo, Beira e Nacala.

Este projecto integrado vai também promover o aumento da rede de infra-estruturas para atender adequadamente a todas as regiões produtoras. Ainda assim, desafios vão persistir, pois a capacidade de manutenção das vias de acesso, das infra-estruturas de logística intermédias e dos portos terá de ser equacionada. Para aumentar a competitividade, Moçambique deve também iniciar o reforço dos sistemas de extensão, laboratórios e certificação. Especificamente no agro-negócio, é importante que se criem grupos de integração em fóruns técnicos regionais com participação dos próprios operadores, onde há partilha de casos de sucesso e mal-sucedidos para estimular mudanças e assimilção de boas práticas.

Uma Vacina para a Pandemia “Fome-21”?

Éurgente intervir contra o alastramento de uma pandemia que vai agravar e suplantar a do Covid-19. Essa poderá vir a ser denominada pandemia “Fome-21”.

As raízes dessa pandemia estão a crescer por todo o continente africano. Moçambique é um dos países de mais alto risco e vulnerabilidade a esse fenómeno. No início de 2020, estimava-se que, por todo o continente africano, 257 milhões de pessoas viviam com fome, ou seja, 20% da população. Em Moçambique, o PMA estimava que “1,7 milhões de pessoas estavam nas últimas três fases de insegurança alimentar; cerca de 1,4 milhões, em situação de crise; e 265 mil, em emergência”.

O Índice de Desenvolvimento Humano de 2019 coloca Moçambique na posição 180 entre os 189 países avaliados.

O Covid-19 vai certamente agravar estas estimativas.

O Banco Africano de Desenvolvimento estima e adverte que, por toda a África, e por efeito dos impactos económicos e sociais do Covid-19, se juntem a partir de 2020 mais 49 milhões de pessoas ao “exército de pobres” (com um rendimento inferior a 1,90 dólares por dia).

Cerca de 49% das crianças moçambicanas estão subnutridas. Os fenómenos de instabilidade em Cabo Delgado e os efeitos dos ciclones Idai e Keneth agravam esta tragédia que se abate sobre as futuras gerações. Isto terá um enorme impacto negativo no futuro desenvolvimento do capital humano do país.

Ao avaliar esta informação surge naturalmente a pergunta: o que fazer para reverter este cenário? O mundo desenvolvido está a investir fortunas na busca de uma vacina para o Covid-19. Nós temos de investir numa vacina contra uma outra pandemia: a “Fome-21”. Noutras ocasiões já se mencionou que esta situação é em grande medida o resultado de políticas económicas que temos implementado ao longo das últimas décadas. O debate

sobre a reversão dessas políticas é necessário e urgente, mas não é este o espaço para o fazer. Concentremo-nos aqui em acções imediatas e ao nosso alcance.

Uma das várias intervenções possíveis, e no âmbito das políticas de fomento do agro-negócio, consiste em intervir já para que todo o excedente produzido pelos cerca de três milhões de agricultores familiares, presentemente em fase de colheita, não fique sem comprador ou seja arrematado pelos países vizinhos. Foi nesse sentido que se constituiu um Fundo de Comercialização Agrícola gerido pelo Instituto de Cereais de Moçambique (ICM). Esse instrumento permite fazer chegar cash às famílias dos camponeses, estimular a capacidade empreendedora de milhares de pequenos comerciantes rurais e dinamizar a economia local. Para se conseguir isto não é preciso mais estudos e criação de departamentos estatais. Basta reforçar a capacidade do ICM e desse instrumento.

Outra medida urgente é um apoio efectivo aos municípios para gerirem melhor a formalização do sector informal, integrando multidões de vendedores que se aglomeram em torno dos centros urbanos numa luta diária pela sobrevivência. Intervenções urgentes para que a estes micro-empresários sejam facilitadas o acesso a serviços financeiros adequados, melhoria das infra-estruturas sanitárias e de maneio de produtos alimentares nos mercados, entre outras, podem ter um impacto atenuante no que está por vir. Estas e outras medidas urgentes e possíveis são de importância vital para o futuro e estabilidade do País, que vai viver situações de alto risco, pelo menos até ao final de 2021. Estejamos conscientes que a “mão carinhosa” de doadores disponibilizando apoios diversos, incluindo em alimentos, está a sofrer de paralisia e artrites de natureza política e económica. As suas economias e sociedades estão a atravessar uma crise que limita a adesão a programas além-fronteiras.

Estejamos conscientes que a “mão carinhosa” de doadores disponibilizando apoios diversos, incluindo em alimentos, está a sofrer de paralisia e artrites de natureza política e económica

Nação

“Precisamos de garantias do governo Para obter financiamento”

gonçalo correia

Aicaju — Associação das Indústrias do Caju

Moçambique já foi o maior produtor mundial de caju. Caiu e reergueu-se na primeira metade da década passada mas, nos últimos anos, voltou a perder competitividade para aqueles que hoje são os grandes players do mercado, sobretudo a Índia e o Vietname

Texto de Pedro Cativelos • Fotografia Mariano Silva

são os dois gigantes que ditam, actualmente, as regras do jogo e que dificultam a consolidação da indústria moçambicana de transformação, tendo determinado a quebra da produção e, principalmente, a exportação acentuada nos últimos dois anos.

Se, nos anos 70, Moçambique chegou a ser o maior player mundial de caju, nas décadas seguintes perdeu esse lugar. Mas na viragem do século, começou a rejuvenescer e, com um crescimento paulatino e sustentado, conseguiu tornar-se, em 2016, o maior processador de castanha bruta em toda a África.

Estava provado que a conjugação de políticas de protecção equilibradas, juntamente com empreendedorismo local, podiam tornar um pais numa referência industrial.A indústria do caju foi, durante anos, a evidência de que uma indústria de agro-processamento, num pais em desenvolvimento, podia ser sustentável organicamente e por si própria, sem constantes intervenções do Estado ou de parceiros doadores. Só que o cenário mudou. Com a erosão das condições para o processamento no país amplificada pelas falhas dos “policy-makers”, especialmente na falta de actualização de políticas que garantam sustentabilidade ao sector, iniciou-se um processo de quebra acentuada no processamento, uma tendência ne-

gativa que se acentua. Moçambique tem hoje menos de dez fábricas a laborarem face a 2015, e muitas delas pararão antes de Agosto deste ano, devido a desafios de liquidez por parte da indústria. E pressente-se a quebra na vontade por parte dos processadores em trabalharem no ‘vermelho’. De uma capacidade total instalada de 100 mil toneladas, a AICAJU (Associação que congrega os industriais da área do caju) estima que o processamento não chegue nesta temporada a atingir as 35 mil toneladas, fruto, também, do impacto do Covid-19 nos maiores mercados consumidores. À E&M, Gonçalo Correia, membro da Associação e gestor na Condor, uma das maiores empresas transformadoras de caju no país, explica o que é necessário para recuperar a competitividade num área de actividade fundamental que emprega 20 mil trabalhadores de forma directa e 1,4 milhões de pessoas de forma indirecta. E há o peso nas exportações nacionais, tendo valido 70 milhões de dólares na última campanha. Um valor que tende a diminuir numa altura em que o país se vira para o exterior.

A quebra acentuada dos últimos dois anos tem essencialmente que ver com os preços de mercado. Como é que as políticas mais intervencionistas do Vietname e da

Transformação do caju emprega 20 mil trabalhadores de forma directa, enquanto a produção impacta 1,4 milhões de pessoas de forma indirecta. O peso nas exportações nacionais valeu 70 milhões de dólares em 2019

Índia impactaram nesta dinâmica?

Causaram mossa, mas não foram os únicos factores. Processámos, na campanha 2017/2018, cerca de 62 mil toneladas. No ano passado baixámos para 50 mil e, neste ano que ainda vai a meio, não prevemos mais do que 35 mil toneladas. No processamento, temos uma quantidade teórica instalada nas fábricas, ao nível nacional, entre 80 e 100 mil toneladas. Por essas e várias outras razões, e porque nunca conseguimos comprar castanha nessa quantidade, nunca atingimos essa capacidade instalada.

Quais foram as outras razões para os números baixarem?

Este não é um sistema fácil de perceber porque há muitas “moving parts”. Temos um preço internacional da matéria-prima, a castanha (chamamos matéria-prima à castanha e à amêndoa, produto acabado), que é estipulado pela procura e pela oferta dos mercados consumidores, nomeadamente a Índia, que é o maior mercado consumidor, mas também muito protegido e muito seguro que, de certa maneira, joga com regras à parte. Depois, estão todos os outros países, os EUA, a Alemanha, Espanha, Holanda, Portugal, África do Sul e todos os outros grandes consumidores da amêndoa de caju. Normalmente, no preço da castanha é sempre descontado o preço da amêndoa. Por isso, a amêndoa tem um determinado valor de mercado e sabe-se quais são os custos operacionais, qual é a margem de lucro teórica que se pretende ganhar e qual é o preço máximo que se pode pagar pela castanha aos produtores ou aos agregadores.

Nação

Como tal, as fábricas estão a competir directamente pela matéria-prima com os exportadores em bruto, porque enfrentam um preço da Índia e Vietname, que fazem a mesma coisa que nós fazemos. O que acontece é que, por uma série de razões, o que estas fábricas conseguem pagar pela matéria-prima através destes exportadores é mais atractivo do que o nosso, neste momento.

Como é que isso é possível?

O que acontece é que, muitas vezes, levantam-se uma série de vozes liberais que dizem “isto é um mercado livre, vivemos no século XXI”. Eu também acredito no mercado livre. Agora, temos de entender que aqui não estamos a jogar pelas mesmas regras porque eles podem pagar realmente um preço mais elevado pela castanha, já que também têm acesso a mercados para a amêndoa que nós não temos, nomeadamente os indianos que têm um mercado fortíssimo ao nível interno que paga muito mais. O que há é um mercado enorme e com capacidade de manipular o mercado internacional e colocar preços mais altos. Depois há o Vietname que tem uma série de fontes de receita que nós não temos.

A que nível?

Por exemplo, a farinha de caju, um dos sub-produtos da cadeia de valor, e da qual agora vendemos apenas 1% à Good Trading, enquanto eles vendem toda a produção. Os vietnamitas têm uma cadeia de valor tão grande que, por exemplo, os exportadores daqui podem vender a um armazenista de lá cujo negócio é meramente financeiro, sem qualquer stock, e que num determinado mês pode solicitar 100 toneladas, processa, e repete a operação no mês seguinte porque o ciclo de capital é muito mais curto do que o nosso. E eu posso dizer que aqui, dependendo das fábricas, dos custos justos de cada um dos players, se calhar 20% do nosso processamento, por toneladas, é para pagar juros.

Quem é que investe neste sector, a banca comercial?

Sim. Nós somos uma indústria exportadora por definição porque não vendemos praticamente nada aqui e temos acesso ao financiamento em dólares, uma vez que as nossas receitas são também em dólares. Obviamente, o nosso custo de financiamento é mui-

to mais baixo. Isto é um negócio muito financeiro também, mas o volume de gasto em matéria-prima que nós consumimos é uma brutalidade. Pagamos juros e mais juros, e esta é uma questão que nunca vamos conseguir resolver. A única forma de solucionar isto seria comprarmos uma parte do que precisamos agora, depois irmos comprar na Costa do Marfim, na Tanzânia e fazer a mesma coisa que eles fazem.

Sente que Moçambique está a enfrentar dificuldades de assegurar a sua indústria pelo facto de o segmento estar a ser, de algum modo, secundarizado?

A verdade é que se formos a olhar para a indústria do caju no país, veremos que até há dois anos éramos o maior processador de castanha em África, acima do Benin, da Costa do Marfim, Nigéria, Guiné Bissau e Tanzânia. E é preciso valorizar o mérito de quem tornou isso uma realidade, o que aconteceu porque houve uma política que permitia o processamento. O grande problema é que houve uma crise mundial que nada teve que ver com os processadores nem com os políticos moçambicanos, e a Índia e o Vietname olharam para isto e questionaram: “como é que nós vamos resolver esta situação para evitar-

mos a falência?” Mudaram, portanto, uma série de coisas: adoptaram mais protecções aduaneiras, baixaram preços, houve uma super-produção em 2017 e o preço da amêndoa do caju também atingiu valores que eram insustentáveis mesmo para nós.

Numa altura em que se está a reestruturar a área do caju com a criação de um novo instituto, qual seria a solução para reactivar esta cadeia produtiva, no imediato?

As coisas mais importantes que precisamos incluem um pacote de garantias por parte do Governo ou de algum financiador, que permita à banca comercial reconquistar a confiança que foi perdida nos últimos dois anos na área do caju. Acreditamos que a relação entre o preço de compra e o preço de venda da castanha e da amêndoa tenha sido reestabelecida, mas é preciso haver um sistema que dê garantia aos bancos comerciais. Não houve falências, mas os bancos estão mais na defensiva e isso é normal porque a capacidade de repor os financiamentos por parte dos processadores nacionais está cada vez mais lenta. Deve haver um pacote que nos permite, nesta campanha, obter o financiamento que precisamos para comprar a castanha para encher as fá-

bricas. A campanha arranca já em Setembro, e temos três meses para tratar disso. Já apresentámos esta preocupação ao Ministério da Agricultura.

Que garantias ou colaterais são usados neste tipo de financiamento?

Estes investimentos são sempre implementados através de um banco comercial, que faz o “doing dilligence” para averiguar se existe ou não capacidade por parte do processador de pagar o empréstimo de uma maneira comercial. Existem duas garantias: uma do Fundo de Desenvolvimento Agrário (FDA) e outra por parte do Ministério da Indústria e Comércio que foram dadas neste momento, mas que não têm escala para o processamento nacional e muito menos para poder colateralizar uma parte dessas 60 mil toneladas que gostávamos de voltar a transformar. Essa é a primeira parte da proposta. A segunda é ver uma efectivação do que se chama de direito de preferência da indústria nacional ao abastecimento da castanha. Existe um regulamento que diz que as fábricas têm preferência no abastecimento da castanha, mas não estipula como é que isso é feito e o que acontece é que não se consegue exportar a castanha em bruto sem o aval do Incaju que representa os industriais.

O covid-19 não veio ajudar em nada, imagino... Há uma incerteza enorme e obviamente temos de ser resilientes, estamos a continuar a trabalhar apesar de a nossa indústria estar debilitada, até porque também já temos a castanha e temos de andar para a frente. Acreditamos que, eventualmente, no próximo ano haja uma correcção dos preços da castanha de acordo com o mercado da amêndoa, porque no ano passado pagámos a castanha a um preço mais elevado. O que vai acontecer ainda não sabemos. Mas há eventos que nos servem como lição: há dois anos o presidente da Tanzânia disse que havia um preço mínimo que tinha de se pagar e esse preço mínimo não estava em consonância com o que mercado internacional queria

mos a começar a olhar para o processamento secundário, especialmente para as coisas que são geradas naturalmente pelo processamento primário da castanha de caju e que não têm aproveitamento – caso das farinhas que podem ser depois transformadas em manteiga ou CNSL (sigla em inglês para Cashew Nut Shell Liquid), um óleo que pode não apenas ser usado como matéria-prima na produção de tintas, como também, adicionalmente, para o fabrico de tubos de grande resistência e que suportam temperaturas muito altas e baixas.

Estamos a considerar vir a fazer investimentos numa pequena fábrica de óleos, em que vamos só moer a frio os grãos não exportáveis, que são os mais pequenos. Existem agora duas fábricas, uma em Angoche e a nossa

“Muitas vezes, levantam-se vozes liberais que dizem que isto é um mercado livre. Eu também acredito no mercado livre. Agora, temos de entender que aqui não estamos a jogar pelas mesmas regras que a Índia e o Vietname”

pagar. O resultado é que a maior parte da castanha ficou na mão dos produtores e depois o Governo comprou a castanha e não encontrou o comprador internacional para isso. Por medo de não haver castanha, os exportadores que não conseguiram comprar não conseguiram encontrar um preço de referência na Tanzânia. Resultado: vieram todos para cá e fizeram apreciar o preço da castanha que saiu a 200 dólares. Isso foi muito mau porque tivemos a castanha inflacionada. Este é um exemplo de como por vezes, mesmo que façamos tudo bem, temos de ter alguma sorte com a conjuntura. Mas, sem dúvida, há muito por melhorar ao nível interno.

Não existe ainda por cá um grande aproveitamento dos vários sub-produtos do caju, caso das farinhas, as manteigas ou os óleos, por exemplo, que agregariam muito valor e diversidade à cadeia produtiva. Por que não se avançou ainda mais nesta matéria, sendo Moçambique um histórico do caju no mundo?

Se tiver visto farinha de caju num supermercado é possível que tenha vindo de umas das nossas fábricas. O processamento final desta farinha é um negócio que está a começar e que, por isso, ainda tem pouca escala. Mas esta-

(do grupo Condor) em Anchilo, na província de Nampula, que representou um investimento de 400 mil dólares.

E o que é que é possível fazer-se com o próprio fruto do caju?

Em Moçambique faz-se um aproveitamento residual do fruto, mais até da bebida tradicional alcoólica que se bebe no campo. No Brasil e no Vietname, por exemplo, produz-se um tipo de bebida designado por cajuína, um sumo natural de caju. O grande problema é não conseguirmos agregar quantidade. Só seria possível um melhor aproveitamento se arrancássemos com os cajuais em bloco. A esse nível, temos agora um projecto em parceria com a Gapi-Si, o Malaipa, numa vila com o mesmo nome, perto de uma das nossas fábricas, onde pedimos um DUAT com 500 hectares e criámos uma associação onde irá funcionar um cajueiro comunitário. A ideia é darmos um ou dois hectares a cada uma das famílias para fazerem a produção em bloco. Nós ficamos com a gestão e a estratégia de exploração e eles oferecem trabalho e ganham uma receita fixa. No final, a única coisa que queremos é que exista uma certa obrigatoriedade, a preços do mercado, de a castanha ser entregue à nossa fábrica.

Citrum, uma semente que já dá (bons) Frutos no Vale do umbeluzi

A Citrum é uma das muitas empresas moçambicanas que foram afectadas pelo processo das nacionalizações no período pós-independência. Viria a ser salva pela entrada da Gapi-SI no capital social que a reestruturou e preparou para a chegada de um grupo de empresásios nacionais

apesar de moçambique dispor de condições privilegiadas para o agro-negócio, este nunca foi uma aposta preferencial para grande parte dos empresários nacionais. Não só porque exige tempo e paciência, desde o investimento inicial até à colheita de benefícios, mas também por depender de variáveis, por norma, imprevisíveis e tantas vezes incontroláveis, como os desastres naturais, os efeitos das mudanças climáticas, as pragas ou o comportamento dos mercados externos. Depois, há factores de base que afastam os investidores do negócio, como o muito problemático (e caro) acesso ao

crédito comercial, pouco direccionado para o modelo de actividade agrícola tal como está implementado em Moçambique.

A Citrum é um exemplo bem-sucedido da luta contra todas estas barreiras, com um pomar de citrinos (o último organizado no país) e uma vasta plantação de bananeira. Ali, a pouco mais de 30 quilómetros de Maputo, no vale de Umbeluzi, corporiza-se uma história de sucesso do que pode ser um pequeno ramo de uma força maior, que se espera que o agro-negócio venha a ser nas grandes contas do País; uma empresa de agro-negócio, detida por um grupo de investidores moçambicanos, através da reestruturação de

duas explorações agrícolas com baixo desempenho ao longo das últimas décadas do século passado. Com planos de reabilitação e plantação intensiva, as despesas iniciais concentraram-se na compra de equipamento agrícola e na reabilitação da infra-estrutura de irrigação, bem como em assumir a formação de conhecimentos técnicos para minorar o impacto da escassez de água no local, muito dependente da Barragem dos Pequenos Libombos.

essência do investimento Quando, no período pós-independência, a antiga Lomac se começou a esboroar, foi a Gapi-SI que a salvou primeiramente. E literalmente. Porque

Texto de Pedro Cativelos & Hermenegildo Langa • Fotografia Mariano Silva e D.R.

a história desta farma conta-se mais pelo número de momentos de dificuldades do que por grandes sucessos, pelo menos até ao início deste século, quando esteve na iminência de declarar falência e de enviar centenas de pessoas para o desemprego. “Este empreendimento é um dos casos concretos da intervenção da Gapi em promover o sector empresarial nacional, sobretudo as Pequenas e Médias Empresas (PME)”. Para António Souto, fundador e antigo presidente da Comissão Executiva da Gapi, e agora seu consultor, a intervenção de uma instituição financeira como a que representa, feita em coordenação com o Ministério da Agricultura, teve duas razões fun-

damentais, explica: “a primeira era de salvar cerca de 300 postos de trabalho na província do Maputo. A segunda razão é simbólica, já que esta empresa era o último sítio de Moçambique onde havia um pomar organizado de citrinos”, explica.

E prossegue, dizendo que “salvar este pomar comercial e os seus postos de trabalhos era um activo para economia deste País. Nenhuma outra instituição financeira tem este cariz que a Gapi tem, de injectar capital, assumir o capital social de uma empresa estratégica para o desenvolvimento sustentável e captar, depois, o interesse de investidores nacionais capacitados que pudessem susten-

tar e levar o projecto mais à frente, criando riqueza e valor acrescentado para os seus negócios, como para os trabalhadores como, no fim de contas, para o país”.

E foi, neste contexto, que, depois de anos de reestruturação, chegou o momento quando, em 2015, um grupo de investidores moçambicanos, em colaboração com a Gapi, decidiu desafiar todas as barreiras associadas à actividade agrícola e colocar em acção um plano audacioso: fazer regressar os tempos de glória a uma empresa que tinha tudo para dar frutos.

e o verde voltou a brilhar

Hoje, três anos depois de um novo grupo accionista, composto por investidores moçambicanos das mais diversas áreas, a Citrum começa a ganhar um novo alento graças ao processo de reestruturação que tem vindo a ser desenhado.

Não está ainda no break even ao nível, na difícil contabilidade, entre custos e receita líquida, mas o crescimento da produção tem sido encorajador. Sendo aquela uma zona forte da produção de banana, é naturalmente este o produto forte, na sua maioria exportado, mas o cultivo de citrinos continua a ser um emblema da empresa. Até no próprio nome.

Carmen Ramos, a directora-geral da Citrum, tem um longo historial de ligação ao agro-negócio. Que vem do tempo em que este ainda não tinha esse nome tendo estado ligada à criação do Instituto do Açúcar e à gestão da açucareira da Maragra. “Anualmente, são aqui produzidas cerca de quatro mil toneladas de banana, o que corresponde a uma produção mensal de 300 toneladas, e cerca de 1 100 toneladas de citrinos, toranjas que já chegaram a vencer prémios de melhores do mundo, e laranjas, claro.”

São números que começam a afastar os maus prenúncios que se avistavam bem presentes há poucos anos. “Foi necessária uma enorme ginástica financeira para readaptar o projecto ao actual contexto que é muito desafiador. Afinal, são cerca de três milhões de dólares já investidos no local desde 2017”, recorda a directora-geral.

“Até aqui, a empresa ainda não conseguiu cobrir todas as suas despesas operacionais através das receitas advindas da sua produção. Estamos a trabalhar para cobrir o défice ope-

Nação

racional e a direccionar uma parte significativa para novos investimentos ao nível do aumento da área de cultivo da banana, da melhoria das instalações de lavagem e de armazenamento da mesma, bem como da melhoria da eficiência do sistema de rega que, aqui, é gota a gota, uma vez que é preciso ser cuidadoso com a gestão da água, tendo em conta que vivemos um período de seca desde 2015”, explica.

Postos de trabalho assegurados

Se a intervenção da Gapi-SI permitiu que a Citrum não entrasse em falência, garantindo que nenhum trabalhador perdesse o emprego, mesmo com o processo de reestruturação, muitos deles ainda por lá estão. José Cutane é um desses homens que hoje “respira melhor” pelo facto de a empresa não ter acabado. Casado e pai de um filho, recorda como a sua vida tem vindo a mudar desde que passou a fazer parte da Citrum. “Já tenho casa própria graças a este emprego”, lembra.

Outro caso é o de Venâncio Jossias, que é chefe da equipa de colheita na Citrum. E que recorda a evolução que a empresa tem vindo a observar desde que foi reestruturada. “A produção tem vindo a aumentar e para nós, os trabalhadores, isso é um bom sinal”.

“Sem a intervenção da Gapi não estaríamos aqui hoje, nem a empresa teria continuado, e os 300 trabalhadores que hoje estão aqui já teriam perdido emprego”, lembra Carmen.

“Este é dos projectos mais antigos do portefólio da Gapi. Este tipo de iniciativa precisa de investimentos de longo prazo. Estamos aqui há 20 anos, e só nós últimos três, quatro anos, é que a empresa já estava num ponto em que se tornou interessante para um conjunto de investidores privados assumirem o projecto. É também este o papel de uma instituição financeira, o de ajudar ao desenvolvimento”, complementa António Souto.

Colheita plena ainda longe do fim Embora a farma esteja num bom momento, os gestores não dão por concluído o processo de reestruturação.

A operar em 121 hectares, num total de 600, sendo 107 hectares para a plantação de bananeiras, e outros 14 para citrinos, a empresa pretende agora alargar o seu espaço de produção e aumentar a cadência produtiva e a receita anual. “Estamos com 107

4 000

tOneladaS

É a produção anual de bananas, que corresponde a uma produção mensal de 300 toneladas

1 100

tOneladaS

A produção anual de citrinos numa área de 14 hectares

107 hectareS

É o espaço plantado de bananeiras, sendo que a previsão é atingir 140 hectares até 2021

“Sem a intervenção da Gapi não estaríamos aqui hoje, nem a empresa teria continuado. Os nossos 300 trabalhadores estariam agora no deemprego”

hectares plantados de bananeiras que não estão todos ainda em produção e esperamos até 2021 atingir os 140 hectares plantados. Aí estaria completada a primeira fase do projecto”, afirma o engenheiro Romeu Rodrigues, antigo director-geral da construtora Ceta e que, nos últimos anos, “se virou, por gosto e vontade”, para o meio agrícola, diz com algum humor. No entanto, apesar da recuperação, há ainda contratempos. “Quando iniciámos o projecto,

em 2017, depois de termos esses 140 hectares de bananeiras, pretendíamos pegar noutra unidade e plantar os 180 hectares. No entanto, os atrasos que houve e a chegada da doença do Panamá ao Norte e Centro do País desencorajaram muito os investidores. Daí que estejamos a analisar a nossa extensão do investimento e a ponderar que outras formas existem de rentabilização, nomeadamente através da criação de uma unidade de produ-

ção de fruta enlatada, por exemplo de toranjas. Mas ainda estamos, a esse nível, numa fase de ponderação”.

Ainda assim, os planos de crescimento mantêm-se, embora não descarte a hipótese de abrir espaço para a aposta numa outra cultura rentável, numa segunda fase do projecto. “Queremos fazer um estudo cuidadoso para ver se o mais rentável é fazer os 180 hectares da banana ou de uma outra cultura. Quanto aos citrinos, iremos manter, mas teremos de apostar em algumas variedades mais modernas dos mesmos, porque as tendências do mercado mudaram nos últimos anos”, explica.

Com a pandemia à porta, os responsáveis garantem, ainda assim, que não causou grandes embaraços à produção e à exportação. Contudo, estão em alerta, considerando um possível impacto que possa levar à paralisação das actividades essencialmente devido às restrições de água, mais necessária, do que nunca, em Maputo, devido à higienização obrigatória para combater o vírus.

“Estamos em contacto com a ARA-Sul (que gere a água da Barragem que alimenta a capital), mas é possível que, a qualquer momento, para que não falte água em Maputo, ela nos fal-

te aqui. Em todo o caso, esperamos que nada aconteça”, declarou a responsável da Citrum.

Numa altura de mudanças ao nível mundial, que impelem cada região a redimensionar os seus esforços produtivos, de forma cada vez mais sustentável, não deixa de ser interessante encontrar tão grandes respostas, aqui tão perto da capital. E o tal sentido levado à prática, para lá das parangonas que clamam pelo tal de agro-negócio como se ele se erigisse sozinho. “Dá muito trabalho e são precisos anos, mas é, sem dúvida, uma actividade rentável”, dizem-nos os investidores.

“Todos esTão compromeTidos com a Zona de comércio livre”

Essencial para o escoamento de produtos agrícolas e industriais, a Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA), inicialmente prevista para 1 de Julho deste ano, foi adiada devido à pandemia. Apesar disso, o recém-eleito secretário-geral, Wamkele Mene, sublinha que os governantes africanos continuam “plenamente comprometidos” com o acordo alcançado sobre aquela que será a maior zona franca de comércio no mundo

de osmane Simball • Fotografia D.R.

concebida para impulsionar significativamente os fluxos comerciais intra-africanos e a industrialização através da maior zona comercial do mundo, a Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA na sigla em inglês) é uma zona franca que inclui 28 países. Criada pelo Acordo de Livre Comércio Continental Africano entre 54 das 55

nações da União Africana, esta é uma iniciativa de carácter transformador com impacto esperado no crescimento do comércio intra-africano entre os 15% e os 25%, ao passo que o impulso dado ao comércio de bens industriais irá acelerar a tão esperada diversificação das economias africanas. No entanto, os Países Menos Avançados (PMA) africanos também terão a ganhar. Com base na modelização da

Comunidade Económica Africana (CEA), os ganhos em termos de impacto na industrialização seriam maiores para os PMA. Com efeito, se, em média, dois terços dos ganhos totais nas exportações intra-africanas ficariam concentrados na indústria, este valor eleva-se a três quartos nos PMA africanos. Impedida de avançar pela pior pandemia mundial de que há memória, a data prevista para o início do comércio

Texto

livre foi adiada. Para Wamkele Mene, o recentemente eleito secretário da AfCFTA, explica: “Porque as fronteiras estão fechadas, não há voos, cerca de 42 países africanos instituíram medidas de bloqueio e contenção e, mais importante, de forma bastante sensata e responsável, os governos estão a concentrar-se no combate à pandemia. Esta é a sua prioridade e assim deve ser. A União Africana está muito determinada em coordenar uma luta pan-africana contra a pandemia”. No início do Covid-19, chegou a haver discussões sobre se a AfCFTA deveria continuar o seu calendário, mas, como esclarece Mene, “havia demasiados obstáculos a ultrapassar, incluindo os técnicos. Coisas tão simples como o organizar uma reunião virtual nas quatro línguas oficiais da União Africana, garantir a estrita confidencialidade dos documentos de negociação e o agendamento de reuniões para ter em conta os seis fusos horários diferentes em toda a África, bem como a necessidade de consultas regionais antes das negociações.” Ainda assim, confirma que a decisão sobre o início das negociações “es-

tá a ser analisada” pela Assembleia de Chefes de Estado. “Nós próprios estamos também a prestar aconselhamento não só em relação a que outros instrumentos comerciais podem estar disponíveis para cada país individualmente, mas também ao nível pan-africano, para combater a pandemia” Sendo África, em muitos aspectos, uma região ainda periférica ao nível das grandes decisões, o responsável fala da necessidade de adopção de uma abordagem comum e concertada. “Quando olhamos para os esforços da Organização Mundial de Saúde, o G20, penso que todos eles são louváveis, mas é lamentável que não tenhamos uma unificação de propósitos em todo o mundo, de todos os países, para combater a pandemia, tal como tentámos responder à crise financeira global em 2008/2009, que foi um exemplo perfeito de solidariedade e de coordenação global”. olhando o futuro Muitos estão a antecipar uma recessão global pós-covid-19, e Mene não

implementar as regras de comércio e investimento que acordámos, de modo a tornarmo-nos um destino de investimento muito mais atractivo. “A crise pandémica é uma oportunidade para redobrarmos os nossos esforços e olharmos realmente para a nossa estratégia de desenvolvimento industrial do ponto de vista da implementação e para uma execução realmente rápida deste acordo”, diz.

resolução de desacordos

Com tantos países envolvidos no acordo, parece inevitável que, após o covid-19, surjam desacordos. Nesse aspecto, Wamkele Mene fala do mecanismo de resolução de litígios criado especificamente para este mercado, “para que não se acabe constantemente por cair em impasses, como acontece recorrentemente na OMC”, comenta. “Irá funcionar de forma independente, em que os árbitros serão escolhidos pelas partes em litígio. Haverá um tribunal de primeira instância, um órgão de resolução de litígios

“Não ouvi certamente um único ministro ou chefe de Estado dizer que a pandemia nos vai atrasar para além do que hoje prevemos”

é excepção. No entanto, prevê claramente que o comércio regional e uma maior integração serão “uma solução” para sair desta potencial recessão económica. “A sensação que tive na reunião dos ministros do Comércio (em Maio passado), e fiz questão de o dizer na minha declaração de abertura da reunião, foi que, quando se olha para o que está a acontecer em países de todo o mundo, eles têm o espaço das políticas monetária e fiscal para proporcionar pacotes de ajuda económica muito significativos”, afirma. “Os EUA e a União Europeia têm biliões de dólares para injectar crescimento e dinamismo nas suas economias. Só que essa opção não está disponível para muitos países africanos”.

“Se estamos a olhar para um mundo pós-covid-19, se estamos a olhar para a recuperação, a única ferramenta à nossa disposição que pode impulsionar essa recuperação é a implementação do AfCFTA e fazê-lo de forma a impulsionar significativamente o comércio intra-africano e a efectivar o acordo de forma a melhorar o nosso perfil de investidor. Temos também de

e um painel decidirá sobre a questão. E quem não gostar do resultado tem o direito de recorrer da decisão para um órgão recorrente. É muito semelhante à OMC e o papel do Secretariado consiste simplesmente em assegurar que o mecanismo de resolução de litígios do AfCFTA, no seu conjunto, disponha dos recursos adequados para funcionar correctamente”, explica. Quanto ao momento em que a Área de Livre Comércio Continental Africana irá entrar em vigor, Mene faz uma última observação: “Todos os Chefes de Estado continuam muito empenhados neste acordo e nós continuaremos a estar lá. O compromisso político para o fazer continua a existir. Não ouvi certamente um único ministro ou chefe de Estado dizer que a pandemia nos vai atrasar para além do que hoje prevemos e quero assegurar a todos que somos ainda mais resolutos como Africanos para garantir que, quando as condições forem adequadas e quando for a altura certa, retomaremos o nosso trabalho e fá-lo-emos até com um vigor renovado”

Estou flexível!

na cultura moçambicana é sobejamente comum o uso da expressão “estou flexível”, normalmente associada ao momento em que as pessoas tratam de agendar dia, hora e local para levar a cabo encontros de natureza formal ou informal.

Nesta crónica pretendo dar nota, e proporcionar aos nossos leitores, a oportunidade de poderem avaliar se, ao nível das suas organizações, poderão dizer também que ”Estamos flexíveis”.

E vem este tema a propósito do esforço de adaptação das organizações aos enormes desafios do meio ambiente (e este é o conceito de flexibilidade que aqui adoptaremos), em resultado do actual contexto pandémico.

Avaliemos, sucessivamente, as várias dimensões da flexibilidade organizacional: a funcional; a numérica; a tecnológica; de mercado; a salarial e de benefícios; de cumprimento das obrigações fiscais e da segurança social.

1. Flexibilidade funcional: Nesta dimensão haverá que avaliar as condições objectivas (v.g. treino) para os actuais colaboradores poderem, sem precarização da relação laboral além da sua actual carta funcional, assumir outras funções com ela parcialmente relacionadas, ou não (flexibilidade múltipla e paralela), de modo a permitir a adaptação da força de trabalho à demanda do mercado.

Um exemplo é o caso de equipas forçadas à paragem prolongada por virtude de programas de manutenção preventiva ou correctiva das respectivas linhas de produção.

2. Flexibilidade numérica: Nesta dimensão haverá que avaliar as condições objectivas (v.g. sazonalidade do negócio) para fazer variar a quantidade de colaboradores necessários, positiva (i.e. implicando o aumento) ou negativa (i.e. implicando a redução), em linha com a variação da demanda do mercado.

Um exemplo é o caso de negócios sujeitos a ciclos sazonais (período natalício, época alta turística, época de colheita, etc.).

3. Flexibilidade tecnológica e geográfica: Nesta dimensão haverá que avaliar as condições objectivas para a implementação da chamada “prontidão digital” dos indivíduos e, bem assim, das equipas de trabalho, a par da aptidão para o trabalho remoto. Um exemplo, agora muito em voga e impensável antes da pandemia chegar a Mo-

çambique, tem que ver com a deslocalização da força de trabalho para ambiente doméstico, garantindo a ligação à organização por via das novas tecnologias de informação.

4. Flexibilidade de mercado: Nesta dimensão haverá que avaliar as condições objectivas para, junto da cadeia de fornecedores e de clientes, obter: uma redução dos custos (“haircut”) dos inputs; ii) e destes, uma antecipação dos recebimentos. Em ambos os movimentos, o objectivo primordial é o de manter viável a tesouraria.

Um excelente exemplo disso em Moçambique é o caso de um banco da praça que identificou fornecedores estratégicos e procedeu ao pagamento antecipado de serviços, de modo a garantir a continuidade da sua cadeia de suprimento.

5. Flexibilidade salarial e de benefícios: Nesta dimensão haverá que avaliar as condições objectivas para, com o acordo expresso dos colaboradores, se proceder ao ajustamento temporário e excepcional quer do valor do salário, quer dos respectivos benefícios. Paralelamente, deverá ficar objectivamente claro até quando? E como? O retorno ao “novo normal” salarial deverá ocorrer.

Um exemplo disso é o caso de empresas que, perante a circunstância de terem de encerrar, ajustaram com os seus colaboradores um mecanismo de co-partilha do custo da mão-de-obra durante o período da pandemia.

6. Flexibilidade no cumprimento de obrigações fiscais e da segurança social: Nesta dimensão haverá que avaliar as condições objectivas previstas pelo Estado Moçambicano para as organizações flexibilizarem quer as condições, quer o perdão parcial de dívidas perante o Fisco e a Segurança Social.

Um exemplo disso é a possibilidade de obtenção de perdão total das multas e eventuais juros de mora, nos termos do n.º 2 do artigo 3 do Decreto n.º 22/2020, de 23 de Abril.

Conclusão: Os enormes desafios que o ambiente externo vem colocando, em virtude da pandemia, às organizações em Moçambique, no mínimo requerem — diria melhor, exigem — que os gestores, os trabalhadores, os fornecedores, os competidores, os clientes, o Estado, enfim, que todo o eco-sistema se equipe das necessárias seis flexibilidades referidas nesta crónica. E assim podermos afirmar, com toda a propriedade, que, em Moçambique, mais do que “Estarmos Flexíveis”, “Somos Flexíveis”.

As várias dimensões da flexibilidade organizacional: a funcional; a numérica; a tecnológica; de mercado; a salarial e de benefícios; de cumprimento das obrigações fiscais e da segurança social

Mercado e finanças

O que Os bancOs já dãO e O que p Odem ainda dar aO agrO -negóciO

Ao mesmo tempo que é condição necessária, o acesso ao crédito é o maior obstáculo ao desenvolvimento do agro-negócio. Os bancos respondem até onde podem, mas afiançam que podem fazer mais se a agricultura for abordada mais a sério

ae&m procurou saber dos bancos o que estão a fazer, o que pensam do seu próprio papel no agro-negócio e qual é o ponto de equilíbrio que se deve encontrar para ajustar as necessidades da produção ao elevado risco de financiamento.

O Banco Comercial e de Investimentos (BCI) começa por explicar que existe um grande potencial de negócio ainda subaproveitado na agricultura e que reconhece que o esforço até aqui empreendido pelo sector financeiro na disponibilização de soluções de financiamento tem limitações, por razões essencialmente associadas ao estágio de desenvolvimento do sector agrícola no País, que continua em grande medida assente numa agricultura de subsistência e não formalizada. Segundo o banco, Moçambique, necessita de uma mobilização conjugada de esforços dos vários stakeholders, nomeadamente o Estado, parceiros multilaterais e sector privado, por forma a empreender uma transformação

estrutural do sector e das cadeias de valor, que assegure maior competitividade e sustentabilidade. “Será através da mitigação dos principais factores de risco que se poderá vir a assistir a um investimento mais massificado na agricultura, sustentado e apoiado pelo sector financeiro”, sugere o BCI. Na mesma linha, o Standard Bank entende que só é possível apostar no financiamento ao agro-negócio quando houver conhecimento especializado e que permita uma estruturação, mensuração e mitigação dos riscos específicos da actividade. Segundo o banco, há vários exemplos de países africanos como a Zâmbia, Quénia e África do Sul onde o agro-negócio é financiado com sucesso, “o que nos indica que em Moçambique também pode ser feito”, apesar de entender que “o quadro interno para maior e melhor financiamento ao sector ainda carece de muitas melhorias, incluindo em relação ao amplo conhecimento técnico especializado, extensão e qualidade de infra-estruturas, cadeias de valor fragmentadas, etc.” No ano passado, o Banco de Moçambi-

que estimou que os níveis de financiamento interno à agricultura nos últimos cinco anos permanecem baixos, concretamente em torno de 3% a 4% ao ano, o que sugere medidas mais arrojadas para alterar a realidade.

partilha de responsabilidades

Para o BCI, o segredo do sucesso está na partilha de responsabilidades e na acção coordenada e simultânea dos vários intervenientes. O banco faz menção ao papel de cada actor. “Como principal stakeholder, o Estado tem um papel fundamental a desempenhar, como, por exemplo, o desenvolvimento de infra-estruturas (vias de comunicação, energia nas zonas rurais, entre outros), a definição de políticas públicas especiais para a agricultura, o melhoramento dos sistemas de irrigação, incremento dos investimentos para aprimorar a qualidade dos insumos agrícolas (principalmente sementes e suas variedades), bem como a regulação do mercado que ainda é dominado por produtos importados”, o que até aqui tem sido pouco realizado,

Texto de Celso Chambisso • Fotografia D.R.

constata o BCI. Avança também que é fundamental apostar na formação e desenvolvimento académico e vocacional das próximas gerações de agricultores e incorporar as novas técnicas e tecnologia de um sector que está em constante mudança e evolução. Aos actores da cadeia que procuram financiamento para desenvolver os seus projectos, o BCI aconselha que “mais importante do que as garantias que possam vir a apresentar, é verificar se os projectos estão suportados em pressupostos sólidos e que possam resultar em negócios sustentáveis capazes de gerar retorno suficiente para, entre outros, fazer face ao serviço da dívida”. Há dois anos, o Millennium bim tinha assumido, em conferência do Observatório do Meio Rural (OMR), que, pelo elevado risco, o financiamento aos produtores deveria passar pelo estabelecimento de uma parceria tripartida, que envolvesse o Governo, a banca e o produtor requerente. O Standard Bank tem, obviamente, ideias similares às das suas

4%

Peso do crédito à economia que é direccionado ao sector agrícola nos últimos cinco anos, segundo o governador do Banco Central

congéneres. Mas acrescenta a necessidade de os operadores do agro-negócio, em toda a sua dimensão, adoptarem a contabilidade organizada e, de preferência, tentarem integrar-se em cadeias de valor de potencial comprovado e já estabelecidas, ou seja, continuar a melhorar o desempenho dos fazedores da cadeia de valor do agro-negócio individualmente e do sector no seu todo, como forma de agregar valor e reduzir o risco do negócio.

juros menos agressivos?

Enquanto o sector privado reclama pelas taxas de juro elevadas, próximas dos 20% e com prazos apertados para a natureza do agro-negócio, os bancos, sem mencionar números, falam da oferta de assistência a custos relativamente baixos. O BCI revela que oferece linhas especiais de financiamento que tendem a privilegiar projectos de pequena e média dimensão, dirigidas ao apoio à tesouraria ou ao investimento e, normalmente, com taxas de juro abaixo das de mercado (não especificando), especialmente quando estas linhas estão suportadas em fundos concessionais, contribuindo para diminuir o custo de funding. O risco/retorno depende do desempenho dos projectos que são financiados ao abrigo destas linhas. “Felizmente a experiência do BCI é positiva e temos tido oportunidade de apoiar vários projectos com muito sucesso”, revela a instituição.

Já o Standard Bank assume que o custo do dinheiro continua alto para um sector como o do agro-negócio, mas a seguir minimiza o problema ao referir que, olhando para o histórico das taxas de juro aplicáveis ao sector, algum progresso tem sido feito na sua redução. Neste banco, “as taxas de juro aplicadas são de acordo com as condições do mercado financeiro num determinado momento, após ajuste do factor de risco associado ao financiamento específico”. O Standard Bank também não é preciso quanto às taxas de juro, mas deixa uma ideia de que o elevado risco do agro-negócio não facilita a oferta de soluções baratas. uma razão adicional para ser ter um Fundo soberano

O Standard Bank usa da sua experiência secular para lançar uma sugestão que teve resultados visíveis na facilitação do financiamento ao

COmO

ChegAr à fACilitAçãO dO CréditO?

Os bancos assumem uma posição que deve ser tomada a sério pelos fazedores de política e todos os intervenientes do agronegócio para que haja resultados

Aos actores da cadeia que procuram financiamento, o BCI aconselha que mais importante do que as garantias que possam vir a apresentar, é verificar se os projectos estão suportados em pressupostos que possam resultar em negócios sustentáveis capazes de gerar retorno suficiente para, entre outros, responder ao serviço da dívida.

O Standard Bank fala da necessidade de os operadores do agronegócio, em toda a sua dimensão, adoptarem a contabilidade organizada e, de preferência, tentarem integrar-se em cadeias de valor de potencial comprovado e já estabelecidas, ou seja, continuar a melhorar o desempenho dos fazedores da cadeia de valor.

O Millennium bim já havia sugerido que, pelo elevado risco, o financiamento aos produtores deve passar pelo estabelecimento de uma parceria tripartida que envolve o Governo, a banca e o produtor requerente. A ideia revela o grande receio que há em confiar crédito a um sector que não tem certeza da capacidade de gerar retornos.

agro-negócio noutras geografias. “A esse respeito, Moçambique poderá colher algumas experiências de outros países em situação de taxas de juros similares, como, por exemplo, uma potencial utilização de parte do futuro fundo soberano como um instrumento de suporte às taxas de juros dos bancos comerciais a sectores prioritários como a agricultura. Esta é apenas uma possibilidade, haverá outras de certeza”, desafiou. Mas enquanto isso não acontece, o Standard Bank acredita que, a médio prazo, as taxas de juro ao agro-negócio irão continuar com uma trajectória decrescente, e novos instrumentos de suporte à redução das taxas de juro dos bancos comerciais envolvidos no sector agrário poderão emergir no mercado para estimular um maior nível de financiamento.

O que os bancos efectivamente oferecem Na voz dos próprios bancos, não há sector ou cadeia do agro-negócio que não tenha instrumentos próprios de assistência financeira. Dito nestas palavras, fica a ideia de que o único problema é a acessibilidade dessas mesmas soluções. No artigo de abertura, o presidente do Pelouro do Agro-negócio ao nível da CTA, a principal organização patronal do país, Ade-

lino Buque, já se tinha referido a este aspecto, criticando os moldes com que a banca vem assistindo ao agro-negócio. Na sua óptica, as instituições de crédito não consideram as particularidades deste sector. Deixando de lado o aparente conflito, o certo é que os bancos têm uma palavra a dizer sobre o que se passa no mercado. a intervenção do bci…

Toma por base o facto de a agricultura constituir uma fonte de sustento para mais de 80% dos agregados familiares, representando quase um quarto do PIB e 20% das exportações nacionais, para assegurar que tem no agro-negócio uma das suas grandes prioridades. De acordo com a instituição, há 19 anos que vem apostando na criação de soluções de financiamento ajustadas às necessidades dos operadores deste sector, sendo que nos últimos 10 anos consolidou o seu posicionamento no ramo agrícola, agro-industrial e da indústria alimentar. A assistência aos produtores é orientada por um gabinete especializado, o Agro Desk, composto por uma equipa com conhecimento do mercado.

Ao longo dos anos, o BCI tem disponibilizado um conjunto diversificado de soluções que procuram adequar-se

Para o Banco de moçambique, o fraco nível de financiamento interno à agricultura sugere a necessidade de tomada de medidas mais arrojadas por parte de todos os intervenientes

a diferentes necessidades dos clientes e dos projectos. “Dispomos de linhas de crédito com condições especiais, orientadas quer para as necessidades de curto prazo (tesouraria) bem como necessidades de investimento de médio e longo prazo. Noutra vertente, temos disponíveis para pequenas, médias e grandes empresas, soluções para importação e exportação de mercadorias e bens, assim como soluções especializadas de leasing e leaseback para financiamento imobiliário, de equipamento ou de viaturas”, detalhou a instituição.

… Os apoios do standard bank Também com uma equipa de especialistas dedicada ao sector, o Standard Bank tem um envolvimento directo em vários subsectores do agro-negócio, como o dos cereais (particularmente o milho e a mandioca), açúcar, avicultura, tabaco, banana, etc. “A título de exemplo, o Banco é um forte parceiro da indústria de fomento e processamento de milho financiando

algumas das maiores unidades fabris localizadas no País, incluindo na província de Maputo, em Chimoio e em Catandica, na província de Manica, entre outros.

“Em relação a soluções de financiamento, também temos estado progressivamente a aumentar, incluindo produtos de curto, de médio e de longo prazo adequados ao ciclo de vários tipos de negócios agrários”, enumerou. Assumiu, entretanto, que é preciso fazer mais. “Como Banco, temos consciência de que temos de continuar a aumentar e diversificar, cada vez mais, as soluções de apoio ao agro-negócio se pretendemos continuar como uma referência deste sector”.

… O foco do bim

Faz parte de um grupo de quatro instituições que assumiram a responsabilidade de financiar as micro, pequenas e médias empresas ligadas ao sector da agricultura, através de um crédito bonificado, à luz de um acordo firmado em Setembro do ano passado

com o Banco de Moçambique, no valor de 10 milhões de euros disponibilizados pelo Banco Alemão para o Desenvolvimento (KFW).

O bim também está à frente de uma iniciativa que pretende disponibilizar, para jovens empresários agrícolas moçambicanos, recursos técnicos e financeiros para que possam, facilmente, implementar ou desenvolver as suas actividades, tendo por base projectos de investimento, estudos de mercado e planos de negócio para cada exploração agrícola. O projecto resulta também de uma parceria, mas, desta vez, com a Associação dos Jovens Agricultores de Portugal (AJAP), firmada no ano passado.

O papel das finanças públicas

Ao nível do sector público, existem dois instrumentos que têm prestado apoio ao agro-negócio, nomeadamente o Fundo de Desenvolvimento Agrário (FDA), criado em 2006 e que está sob tutela do Ministério da Agricultura, e o Banco Nacional e de Investimento (BNI), criado em 2010. Ambos são alvos de críticas pelo sector privado que alega ausência de foco para cumprir os objectivos para que foram criados. Até ao fecho desta edição, ambas as instituições não tinham respondido às questões da E&M sobre o real impacto da sua intervenção no mercado e as limitações que têm enfrentado. Mas a E&M tem conhecimento de algumas das suas acções relevantes no mercado.

Por exemplo, cientes da dificuldade de acesso ao crédito, ambas colocaram à disposição, numa iniciativa conjunta, uma solução financeira que cobre até 80% das necessidades dos pequenos e médios agricultores, bem como de associações de produtores ou projectos de investimentos no sector, para as cadeias de valor de cereais, leguminosas, hortícolas, fruticultura, produção animal, entre outros.

Além disso, o BNI anunciou, há um ano, uma linha de cerca de 60 milhões de dólares disponibilizada pelo FIDA para projectos agrícolas a serem desenvolvidos por cinco anos.

Paralelamente, existe um acordo rubricado com a Empresa Moçambicana de Seguros (EMOSE) para a criação do seguro de riscos da actividade agrícola. Infelizmente, ainda não há informação sobre o estágio de andamento de ambas as iniciativas.

A parceria sino-lusófona: porque é importante?

Fabrícia de Almeida Henriques • Managing Partner da HRA Advogados & Un I Wong • Advogada chinesa na Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados

desde a implementação da reforma e abertura em 1978, a China tem passado por mudanças enormes em todos os aspectos, abraçando e implementando um modelo económico aberto ao mercado externo. Após três décadas como beneficiário de investimento directo estrangeiro, a China emerge agora como país de origem para o investimento directo no estrangeiro, concretizado na Estratégia de “Sair” (Going Out Policy). Em 2013, o actual Presidente da China, Xi Jinping, lançou a proposta de construção da Faixa Económica da Rota da Seda e da Rota Marítima da Seda do Século XXI, habitualmente designada por “Uma Faixa e Uma Rota” (Belt and Road Initiative), que visa promover um caminho de paz e conectividade entre os continentes asiáticos, europeus e africanos, melhorando os fluxos comerciais e estimulando o crescimento económico global a longo prazo.

A cooperação Sino-Lusófona – um objectivo comum

A relação entre a China e os países de língua portuguesa tem já uma longa história, começando pelas trocas comerciais. Desde a independência em 1975 que a China tem vindo a estabelecer sucessivamente relações de cooperação e desenvolvimento com os países de língua oficial portuguesa.

Em 2016, a China e Moçambique estabeleceram uma Parceria Estratégica Global, destinada a elevar as relações diplomáticas e a cooperação bilateral em todas as áreas, tendo sido assinados acordos de cooperação nos sectores da energia, da indústria, da cultura, da tecnologia e da agricultura. A cooperação sino-lusófona multilateral foi-se desenvolvendo em paralelo. Em 2003, a China e os países de língua portuguesa estabeleceram o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa na Região Administrativa Especial de Macau (“Fórum de Macau”) que marcou o início da cooperação mul-

tilateral entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Esta cooperação tem-se aprofundado com uma relação mais estreita entre governos e com visitas frequentes de alto nível. Nos últimos anos, o comércio e o investimento têm crescido significativamente.

No Plano de Acção (2017-2019) da Quinta Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau), os participantes no Fórum valorizaram os resultados alcançados e salientaram a importância de continuar a reforçar a cooperação.

Ao abrigo deste Plano de Acção, o Governo da China comprometeu-se a fornecer empréstimos aos países de língua portuguesa membros do Fórum para promover a conexão industrial e a cooperação da capacidade produtiva, bem como para reforçar ainda mais a cooperação na área da construção de infra-estruturas. Na cooperação para o desenvolvimento, foram negociados, por exemplo, apoios a projectos na agricultura, na facilitação do comércio e do investimento, na prevenção e combate à malária, e na pesquisa em medicina tradicional, isentando os países membros do pagamento de dívida já vencida proveniente de empréstimos anteriores, entre outras medidas. Na vertente da cooperação humana e cultural, o Governo chinês disponibilizou bolsas de estudo, e no domínio da cooperação marítima, os participantes decidiram apoiar em conjunto o desenvolvimento de instalações contra desastres marítimos e mudanças climáticas, como o observatório meteorológico marítimo.

China – um dos maiores investidores estrangeiros e parceiro comercial de Moçambique

Em Maio de 2016, os líderes da China e de Moçambique anunciaram uma declaração conjunta sobre o estabelecimento de uma parceria estratégica global, através da assinatura de importantes documentos bilaterais como o

A China comprometeu-se a fornecer empréstimos aos países de língua portuguesa membros do Fórum para promover a conexão industrial e a cooperação da capacidade produtiva, bem como para reforçar ainda mais a cooperação na área da construção de infra-estruturas

Acordo Quadro para o Desenvolvimento da Cooperação sobre Capacidade Produtiva e um Memorando de Entendimento sobre a Promoção da Construção de Zonas Económicas de Cooperação Exterior, tendo elevado a cooperação sino-moçambicana a uma fase qualitativamente superior. Em 2017, a China e Moçambique reforçaram a coordenação bilateral em áreas-chave de cooperação, tendo promovido activamente os modelos de investimento Build–Operate–Transfer (BOT) e Public Private Partnership (PPP) para a construção de infra-estruturas, para o aumento da capacidade produtiva e para o desenvolvimento de parques industriais agrícolas. No âmbito do intercâmbio cultural, estão em construção o Centro Cultural Moçambique e China, o Instituto Confúcio e as novas instalações da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane.

A vontade política e as dificuldades burocráticas

Apesar de os governos sino-lusófonos terem objectivos comuns de crescimento e cooperação, o investimento chinês enfrenta vários desafios, especialmente ligados à incapacidade de cumprir devidamente as leis e práticas laborais locais, dificuldades na gestão, falta de recursos adequados e dificuldades na transferência de know-how.

A barreira linguística e as diferenças culturais justificam boa parte destes desafios. Por outro lado, a escassez de recursos qualificados, a falta de informações locais ou tradu-

ção das mesmas, o fraco desenvolvimento do sistema regulatório e o desconhecimento de direitos locais também aumentam as dificuldades de concretização dos projectos. Cada vez mais, o caminho passa por encontrar parceiros de trabalho que consigam expressar-se na língua nativa dos investidores, entendendo a sua cultura. À medida que o tempo passa, as dificuldades serão apenas os percalços iniciais de uma relação bem-sucedida se devidamente enfrentadas.

Nota final

A verdade é que a cooperação sino-lusófona tem visado uma complementaridade de vantagens e partilha de benefícios, razão pela qual as áreas de cooperação aumentaram de sete em 2003 para mais de 20 em 2017, representando uma cooperação cada vez mais abrangente, que inclui não apenas o comércio, o investimento e cooperação empresarial, a agricultura e pescas, a engenharia e infra-estruturas e os recursos naturais, mas também a educação, a ciência e tecnologia, a protecção ambiental e a saúde, entre outros.

Olhando para o futuro, o desenvolvimento da cooperação bilateral e multilateral entre a China e os países lusófonos continuará a ser aprofundado no quadro de “Uma Faixa, Uma Rota”, criando novas práticas na cooperação internacional e construindo em conjunto uma comunidade de destino comum entre a China e os países lusófonos.

Filipe Nyusi esteve reunido com Xi Jinping em Abril do ano passado e garantiu querer exercer um papel activo no sucesso da iniciativa “Uma Faixa, uma Rota”

sociedade

AgriculturA Assume um pApel

centrAl nA redução dAs emissões

Mais de um quinto das emissões mundiais de gases com efeito de estufa (GEE) provêm da agriculturamais de metade de produção animal. A menos que estas emissões sejam activamente abordadas, haverá, provavelmente, um aumento entre 15% e 20% até 2050, à medida que a população da Terra aumenta

alimitação do impacto das alterações climáticas exigirá mudanças no que comemos, quanto desperdiçamos, e como cultivamos e utilizamos a nossa terra. Não há um plano definido para eliminar totalmente as emissões agrícolas. No entanto, uma série de transformações está ao alcance da indústria alimentar e do mercado agrícola em geral. Historicamente, a inovação agrícola tem surgido em pontos de intersecção com outras indústrias como empresas criativas emprestadas e construídas com base em avanços de áreas como a saúde humana, produtos químicos, engenharia avançada, software e análises avançadas. Oportunidades transversais retratam a próxima geração de inovação para reduzir as emissões agrícolas através do aumento da

Embora os custos de redução variem e as oportunidades de mercado continuem a evoluir, o aumento da eficiência nos processos alimentares poderá reduzir as emissões em cerca de 20% a 25% até 2050

eficiência dos processos alimentares. Embora os custos de redução variem e as oportunidades de mercado continuem a evoluir, as medidas de mitigação poderiam reduzir as emissões entre 20% a 25% até 2050. Neste artigo, destacamos as três principais medidas negativas ou neutras em termos de custos, nas quais os agentes empresariais deverão desempenhar um papel decisivo. A intensificação destas soluções exigirá investimento, inovação tecnológica e mudança comportamental - especialmente entre os agricultores de todo o mundo.

equipamento agrícola com zero emissões A maior quantidade de redução de emissões a partir de uma única medida pode ser alcançada através da mudança de equipamentos tradicionais de combustíveis fósseis - tais como tractores, ceifeiras e secadores - para os

Texto de daniel aminetzah, Joshua Katz e Peter Mannion, Mckinsey • Fotografia d.R.

sociedade

seus homólogos com emissões zero. Esta transição, por si só, permitiria uma economia de custos de 229 dólares por tonelada de dióxido de carbono equivalente (tCO2e) e transformaria a indústria global de equipamentos agrícolas de 139 mil milhões de dólares. Infelizmente, a actual penetração no mercado de equipamento com emissões zero é menor na agricultura do que nos veículos de consumo: os líderes de mercado estão apenas na fase de testes-piloto de conceito. Os investimentos certos dos fabricantes de maquinaria tornariam possível alcançar a paridade de custo total de propriedade entre, por exemplo, tractores alimentados por motores de combustão interna e tractores alimentados por fontes de emissões zero (como a energia eléctrica a bateria) até 2030. Tal como os primeiros investidores em veículos eléctricos de passageiros (VE), os investidores em tecnologia de VE agrícola estão agora preparados para beneficiar da vantagem de serem os primeiros a chegar. AGCO’s Fendt, Rigitrac e Escorts Farmtrac são os modelos de tractores eléctricos a pilhas e com fio. Se o equipamento agrícola eléctrico captasse apenas 10% do mercado em 2030, tal representaria uma oportunidade de 13 mil milhões de dólares. A capacidade da bateria e as velocidades de carregamento têm sido os principais obstáculos à adopção de equipamento eléctrico agrícola. No entanto, o peso da bateria é menos problemático para o equipamento agrícola do que para os veículos de passageiros. Uma rápida redução nos preços das baterias, que por si só representam até 40% dos custos dos componentes dos tractores, ajudará a ultrapassar ainda mais os obstáculos à adopção deste equipamento.

controlo da saúde animal

De acordo com as pesquisas, alcançar um caminho de 1,5 graus de aquecimento exigiria uma redução significativa no consumo humano de proteína animal.

O sector agrícola tem um papel importante a desempenhar ao satisfazer as necessidades mundiais de proteína animal com menos animais mais saudáveis, que geram menos emissões da fermentação intestinal e ao melhorar a gestão do estrume. Estas medidas poderiam reduzir as emissões em mais de 400 milhões de toneladas de dióxi-

Se o equipamento agrícola eléctrico ganhasse

10% do mercado em 2030, tal representaria uma oportunidade de 13 mil milhões de dólares

do de carbono equivalente (MtCO2e) até 2050 (realizando poupanças de 5 dólares por tCO2e), e gerar benefícios de produtividade que melhorariam a economia agrícola.

As tecnologias biológicas emergentes e as capacidades informáticas, tais como a sequência genética e a inteligência artificial, permitem aos agricul-

tores detectar doenças precocemente — e mesmo preveni-las — aplicando algoritmos de previsão às fontes de dados existentes bem como às novas. Por exemplo, a Moocall, uma empresa irlandesa que colabora com a Vodafone, pretende reduzir as taxas de mortalidade das vacas devido a complicações relacionadas com o parto em até

80%, colocando na cauda do animal um sensor do tamanho da palma da mão alertando os agricultores sobre o seu tempo de parto.

Na América do Norte, que tem o terceiro maior inventário de vacas (depois do Brasil e da China), as melhorias globais na produtividade do gado bovino poderiam atingir 8%. No entanto, a implementação destas tecnologias revelou-se dispendiosa, e ainda não são bem compreendidas ouabraçadas pelos agricultores. Modelos de negócio inovadores e investimento comercial serão necessá-

rios para ultrapassar estas barreiras. Por exemplo, a empresa global de tecnologia Fujitsu desenvolveu um serviço de “vaca conectada” baseado em algoritmos para tornar a produção de leite mais rentável. É expectável mais investimento comercial nos próximos anos, dado o declínio contínuo do custo de tais tecnologias e as suas múltiplas aplicações, incluindo novas vacinações e diagnósticos avançados.

reprodução focalizada nos gases de efeito estufa Novos programas de melhoramento genético através de técnicas avan-

çadas de selecção genética podem ajudar a reduzir a fermentação intestinal, reduzindo potencialmente as emissões globais em 500 MtCO2e, praticamente sem custos, até 2050. Actualmente, a reprodução para eficiência de metano atingiu uma variação de 20% na sua produção. Serão possíveis mais programas centrados nos GEE à medida que a crescente procura de proteína animal continue a impulsionar o crescimento do mercado de produtos genéticos de origem animal (no valor de 4,2 mil milhões de dólares em 2018).

Enquanto os programas de reprodução genética ainda estão na sua primeira fase, os governos e a indústria estão a liderar o esforço para impulsionar a sua adopção. Em Novembro de 2019, um consórcio financiado pelo sector agrícola da Nova Zelândia e pelo Governo do país lançou um programa genético “primeiro global” para a criação de ovinos que produzem menos metano por cada boca cheia de erva.

Mesmo com tais programas, a adopção em larga escala em todo o sector exigirá incentivos económicos ¯ pagamentos de mercado ou créditos para reduções de metano. Para implementar soluções à escala, serão necessários investimentos adicionais em capacidades de selecção genética para enfrentar a imaturidade e a falta de especificidade de raça da maioria dos programas genéticos. Novas técnicas de reprodução, tais como as que utilizam o CRISPR-Cas9, poderão reduzir as barreiras à entrada de investidores e permitir uma maior especificidade.

Será necessário um novo ecossistema agrícola para mitigar o aumento das emissões de gases com efeito de estufa na agricultura, ao mesmo tempo que se vai ao encontro das necessidades alimentares do mundo.

A curto prazo, a redução das emissões dependerá em grande medida das tecnologias e oportunidades actuais. Mas também são necessárias tecnologias de próxima geração, tais como edição genética, novos aditivos alimentares e arroz aeróbio. Os actores das várias indústrias ¯ desde a automóvel à energia até aos produtos farmacêuticos ¯ têm papéis importantes a desempenhar. Será necessária uma aldeia para alimentar a nossa aldeia global.

empresas

Transformar lixo em obras de ‘encher o olho’

Dar utilidade ao que já não serve à sociedade não é uma ideia nova, mas não deixa de ser surpreendente, principalmente o que daí resulta. Já o meio ambiente é uma testemunha grata de iniciativas do género

de Celso Chambisso • Fotografia de mariano silva

reconice resulta da associação de “recolher” ou “reciclar” com o termo ingês “nice” tão utilizado, como sabemos, em Moçambique. O produto final é um tipo de mobiliário que inclui mesas, cadeiras, bancos, sofás, cabeceiras, entre outros artigos de escritório, para espaços públicos como restaureantes, bares e hotéis. Tudo feito a partir de de desperdícios como pedaços de madeira, pneus ou carcaças de electrodomésticos. Como em qualquer empreendimento bem-sucedido, há algo de inusitado por detrás da constituição da Reconice. “Foi a necessidade de contribuir para a sustentabilidade ambiental que deu origem à ideia de transformar lixo em algo reutilizável”, recordam os co-fundadores da empresa. Manuel Gungulo é formado em Gestão e Cláudio Ferrão é ambientalista. Acreditando no bom resultado da junção das suas competências, partiram para a acção. “Não conhecíamos a verdadeira dimensão do problema dos resíduos sólidos em Moçambique. Mas ao vermos a enorme quantidade de lixo nas lixeiras e até pelas ruas da cidade, e perante a incapacidade das autoridades municipais em reciclar, decidimos desenvolver uma pesquisa sobre a utilidade de todos esses materiais”, explicam. Mas para chegar ao objectivo era preciso contar com uma equipa de profissionais que entendessem de pintura, soldadura, carpintaria e, em alguns casos, de mecânica. “Começámos apenas com a ideia e tiveram de ser estes profissionais a ajudarem-nos a tornar real o que nos ia à cabeça”, revelam os empreendedores, responsáveis pelo design dos projectos. Claro que, para que o projecto se desenvolva o que nunca pode falta é... lico. E

por isso, para assegurar processo produtivo, a Reconice faz parte de várias entidades de uma cadeia envolvida no reaproveitamento do lixo. Nesse sentido, estabeleceu uma parceria com uma empresa especializada na recolha e aproximou-se das entidades que fazem a recolha de resíduos sólidos. Criada em 2016 e em operação desde 2018, a Reconice já tem alguns clientes destacados no mercado. Por exemplo a petrolífera Total que, no âmbito dos seus projectos de responsabilidade social, acaba de encomendar a construção de um conjunto de equipamentos lúdicos para serem colocados em jardins infância de algumas comunidades adjacentes ao mega projecto do gás natural que irá nascer em Cabio Delgado, a partir de materiais reciclados e trabalhados pela Reconice. Depois, além de fabricar mobiliário, a empresa oferece serviços de formação em educação ambiental para escolas e empresas, o que também tem resultado em contratos de formação do pessoal de empresas como a tecnológica chinesa Huawei, o Millennium bim e a PSI, que produz preservativos. Quanto à facturação, Manuel Gungulo e Cláudio Ferrão preferem não revelar números definitivos, apesar de não terem dificuldades em admirit que o empreendimento “é rentável”. Preferem, antes, salientar a satisfação em contribuir para a causa ambiental, até porque o sonho passa por instalar um sistema mais desenvolvido de gestão de resíduos sólidos na Cidade de Maputo. Para isso, já visitaram alguns países com as melhores práticas, entre os quais a África do Sul, e estão em busca de modelos na Europa e no Japão que possam, como não podia deixar de ser, reciclar para implementar em Moçambique.

BEmprEsa Reconice ano dE criação 2016 colaboradorEs 3

Texto

STANDARD BANK ADOPTA NOVO SLOGAN

O Standard Bank investiu num novo posicionamento estratégico no mercado adoptando o slogan “É possível”, e assumindo-se assim como uma marca mais criativa, inovadora, curiosa e com um espírito empreendedor. A mudança, de acordo com o banco, visa responder às expectativas do público, particularmente dos clientes e colaboradores. Segundo o administrador-delegado da instituição, Chuma Nwokocha, a nova opção é o culminar de um trabalho árduo que se iniciou há cerca de dois anos.

A promessa da marca é de se focar apenas no cliente visando encontrar novas formas de realizar os seus sonhos.

LAM NOMEADA EM DUAS CATEGORIAS DO WORLD TRAVEL AWARDS

A companhia aérea moçambicana está referenciada, pelo segundo ano consecutivo, para a eleição na categoria de companhia aérea africana com os melhores serviços na classe económica. Paralelamente, a revista Índico figura entre as finalistas na categoria de melhor revista de bordo. A participação nestes prémios resulta da sugestão feita pelos passageiros e leitores que depois da respectiva avaliação da comissão do World Travel Award concluiu que a LAM e a revista de bordo “têm a excelência exigida” para estar entre os finalistas.

IPEME, ABSA E VODACOM REALIZAM

A 4ª EDIÇÃO DO NETWORKING

ESPECIAL PME

As sessões são uma iniciativa que visa consolidar o apoio adequado às PME, estimulando a criação de parcerias entre os empresários

a 4a edição do networking especial pme realizada na segunda semana de Julho pelo Instituto para a Promoção das Pequenas e Médias Empresas (IPEME), em parceria com o Absa Bank Moçambique e a Vodacom Business, foi a primeira de várias a decorrerem online.

Denominada “Networking PME Especial Webinar”, a edição teve como objectivo analisar o impacto do covid-19 no negócio das PME e apresentar as principais soluções digitais e medidas alternativas destas parceiras do IPEME. “O nosso negócio tem de andar. Então, vamos gerir o Estado de Emergência usando as plataformas online que se nos oferecem”, disse o director-geral adjunto do IPEME, José Libombo Júnior. Por seu turno, o director-executivo da Vodacom Business, José Correia Mendes, garantiu que vai apoiar as PME através da criação de websites, marketing digital, teletrabalho e segurança cibernética.

BIM ALIA-SE AO GOVERNO NA PROMOÇÃO DE PRÉ-PROFISSIONALESTÁGIO

O Millennium bim e a Secretaria de Estado da Juventude e Emprego rubricaram um acordo que visa capacitar jovens recém-graduados ao nível nacional nas áreas de Engenharia Informática, Auditoria e Contabilidade, Matemática e Estatística. Para o programa serão seleccionados 20 jovens provenientes do ensino público e privado que estejam inscritos nos Centros de Emprego ou no Portal de Emprego. “É através do estágio pré-profissional que nascem empreendedores, inovadores, profissionais do sector financeiro no seu todo e investidores que multiplicam as oportunidades de negócio e de emprego”, disse o Secretário de Estado da Juventude e Emprego, Oswaldo Petersburgo.

RAPOSO SUBTIL E ASSOCIADOS REFORÇA EQUIPA DE ADVOGADOS EM MOÇAMBIQUE

O Instituto para a Promoção das Pequenas e Médias Empresas (IPEME) foi criado em 2008 pelo decreto 47o de 3 de Dezembro e tem como atribuições assegurar a implementação da Estratégia para o Desenvolvimento das Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME) bem como criar mecanismos de assistência e orientação empresarial, incubadoras de empresas, proceder às ligações empresariais e mobilizar recursos financeiros de apoio ao desenvolvimento empresarial.

A RSA LP, Rede de Serviços de Advocacia de Língua Portuguesa, criada pela Raposo Subtil & Associados em Portugal, reforçou a sua presença em Moçambique com a associação de advogados moçambicana CF&A, Carlos Freitas Vilanculos e Associados, cuja equipa local é composta pelo sócio Carlos Freitas Vilanculos, a associada Áurea Guinda e a consultora Stela Cabral. O objectivo é fortalecer a sua presença na lusofonia uma vez que já está em Angola, Brasil e Cabo Verde.

A lutA de AngolA pelA sobrevivênciA no estAdo de emergênciA

Este artigo narra a realidade de Angola, mas as semelhanças com Moçambique fazem acreditar que a história se repete nos países pobres, onde os rendimentos das famílias caíram drasticamente devido ao Estado de Emergência

entre ficar em casa para proteger-se do COVID-19 e sair à rua para matar a fome, arriscando-se não só ao contágio por uma doença invisível, mas também a represália policial – nem sempre pacífica e dentro dos limites da lei –, as famílias angolanas optam por sair à rua. Os mercados informais e as pequenas actividades, como carpintaria, sapataria e alvenaria, continuam a garantir o sustento de muitas famílias, embora os rendi-

mentos tenham baixado, devido à diminuição da procura desses serviços. Alberto Rosa, pedreiro, é responsável pelo sustento de uma família composta por nove pessoas, entre elas sete filhos, que estão matriculados em escolas públicas, o que é um alívio, uma vez que, apesar da ausência de aulas, não é obrigado a pagar metade das propinas, como os encarregados de educação que têm os filhos em instituições de ensino privadas. Antes do COVID-19 e da vigência do Estado de Emergên-

cia no país, Alberto Rosa sustentava a família com o que ganhava da execução de pequenas obras de construção civil. Mas, desde o final de Março até à reabertura de actividades comerciais não essenciais, em finais de Abril, afirma ter vivido um martírio para prover o mínimo de sustento à família. Alberto Rosa recorreu aos apoios de alguns parentes e de uma instituição religiosa, que proveram recursos que o ajudaram a mitigar a carência por que passavam. “Ajudaram-nos com al-

Texto de Cláudio Gomes • Fotografia Istockphoto & Carlos aguiar

guns bens de primeira necessidade. Estes apoios foram muito importantes, porque ficar 60 dias confinado, sem sair de casa e sem poder realizar nenhuma actividade lucrativa, não foi fácil para nenhum chefe de família”, desabafou o também técnico de obras, residente no bairro da Corimba, distrito urbano da Samba. As dificuldades, de acordo com a fonte, já eram sentidas antes da pandemia do novo Coronavírus, mas aumentaram substancialmente com as limitações impostas pelo Decreto Presidencial sobre o Estado de Emergência. Embora levantada a anterior situação de excepção constitucional, a família de Alberto Rosa continua a enfrentar dificuldades para auto-sustentar-se, uma vez que os contratos de obras de alvenaria são actualmente escassos. Mas esta situação é similar à de várias outras famílias angolanas, em particular em Luanda, isolada do resto do país em cerca sanitária. A actividade de moto-táxis foi uma das mais afectadas pelo Estado de Emergência, sendo que permaneceu proibida durante dois meses.

Mas a fome falava mais alto do que a represália policial e risco de contágio pelo COVID-19. No distrito urbano do Nova Vida, a circulação dos famosos “kupapatas” foi interrompida apenas na primeira quinzena do Estado de Emergência. Nos períodos a seguir, os moto-taxistas saíram, assolados pela fome, e aceitavam apenas transportar passageiros cujo destino não era vigiado pelas autoridades policiais. Apesar de o Decreto nº181/20, que regulariza o exercício da actividade de transporte de passageiros, permitir o regresso normal da actividade de moto-táxi, João Artur Manuel (nome fictício de um moto-taxista) não poderá trabalhar livremente, considerando que o documento permite apenas o exercício da actividade em 17 províncias do País, com excepção de Luanda, depois de cerca de dez semanas de paragem. Segundo João Artur Manuel, não falta vontade para respeitar os parâmetros de segurança pessoal e de passageiros – uso de produtos de desinfec-

dos a aceitar menos por uma corrida que custaria, por exemplo, 300 kwanzas (35 meticais). “Nem sempre conseguia transportar passageiros. Havia dias que levava apenas três pessoas, outros dias conseguia levar cinco”.

oportunidades na crise

No mundo dos negócios, mesmo nas crises, há também oportunidades. Ao nível empresarial, o COVID-19 acabou por acelerar processos de digitalização, intensificou o uso das telecomunicações e permitiu o surgimento ou solidificação de vários negócios de vendas e entregas ao domicílio. De igual modo, actividades como a alfaiataria voltaram a ganhar importância. Adão Salazar, proprietário de um pequeno atelier de costura, instalado no bairro Gamek à Direita, abraçou a oportunidade de, em tempos de pandemia, produzir máscaras faciais. Uma máscara custa entre 500 e 2 000 kwanzas (entre 60 e 240 meticais), dependendo dos acabamentos. “Por altura do Estado

No mundo dos negócios, as crises criam oportunidades, e, ao nível empresarial, aceleraram os processos de digitalização, telecomunicações e vendas

ção e higienização nas motorizadas, assim como a obrigatoriedade do uso de máscaras faciais para o condutor e passageiro. Tal como muitos dos seus companheiros de actividade, pesa sobre ele grande parte da responsabilidade de sustentar uma família, que inclui os seus pais, irmãos e sobrinhos. Para tal, refere o moto-taxista residente no bairro Rocha Pinto, terá de continuar a infringir a lei, recorrendo ao suborno dos agentes da polícia, sempre que necessário. “Algumas vezes tenho mesmo de fugir da Polícia. Já fui detido, mas há sempre aquela conversa com os agentes”, admitiu, tendo acrescentado que, actualmente, apenas ele e a mãe conseguem rendimentos para a casa, ao passo que o pai, que trabalhava para uma empresa de segurança, viu o seu contrato de trabalho suspenso por conta da pandemia. E porque as dificuldades são transversais, referiu a fonte, o negócio de moto-táxi também não vive, obviamente, o seu melhor momento, sendo que, além da redução de clientes devido ao receio de contágio, às vezes são obriga-

de Emergência nacional, muitos ateliers chegaram a produzir milhares de máscaras por dia, que eram rapidamente compradas por vendedores ambulantes”, revelou.A produção de máscaras, de acordo com o costureiro, compensou a baixa procura que se registou em peças de roupas africanas, principal produto de venda do seu atelier. “A procura pelo produto chegou a superar o fabrico de vestuários feitos com tecidos típicos africanos, que normalmente lideram as preferências dos clientes”, reforçou Adão Salazar. Entretanto, no último mês, de acordo com fontes da E&M, a procura de máscaras tem registado baixas consideráveis, tendo em conta, entre outros factores, a durabilidade dos produtos. Para Adão Salazar, a diminuição da procura também se deve à negligência de muitos cidadãos que desrespeitam a obrigação de usar máscaras em locais públicos. E, pelo mesmo motivo, adianta o empreendedor, o preço da máscara de fabrico artesanal varia entre os 200 e os 1 000 kwanzas (correspondentes a 25 meticais e 120 meticais, respectivamente).

NOVOS ÂNGULOS

O negócio dos negócios

dizem-nos as notícias que o continente africano perde consistentemente, ano após ano, qualquer coisa como 3,9 milhões de hectares de florestas, com a agravante de este número aumentar em todas as décadas desde 1990, alerta o Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

De acordo com os dados divulgados no final de Julho, em Genebra, se a desflorestação reduziu substancialmente nos últimos dez anos na América do Sul, apesar do aumento do corte ilegal de árvores para aumentar o solo destinado a agricultura intensiva, aumentou substancialmente no continente africano, lê-se no relatório.

O planeta tem, hoje, uma área total de 4060 milhões de hectares de florestas que ocupam 31% da superfície terrestre, mais de metade das quais está em cinco países: Rússia (20%), Brasil (12%), Canadá (9%), Estados Unidos (8%) e China (5%). Desde 1990 perderam-se 178 milhões de hectares a nível global. Já em Moçambique, 267 mil hectares de floresta são consumidos, anualmente, de acordo com o Banco Mundial. Mal consumidos, diga-se, porque o termo correcto seria “devorados”, pelo corte ilegal que alimenta uma indústria criminosa, pelas queimadas e para gerar carvão. Destruir sem semear, apenas para cortar, cultivar ou queimar, não pode ser uma resposta aceitável.

Quando se fala em agricultura, deve tomar-se em conta a sua sustentabilidade e não apenas os ganhos que dela podem resultar. O que me leva a reflectir no porquê de, tantas vezes acontecer que se torna quase aceitável, quando se agrega a palavra negócio numa qualquer terminologia, neste caso passando de agricultura para agro-negócio, de repente, se ignorem comummente alguns princípios básicos e essenciais que são, eles próprios, uma importante raiz daquilo que somos enquanto espécie. O que se torna sintomático, até pela conjuntura dos últimos meses, e pelo modo como ela ameaça tornar-se permanente.

A esse respeito, dei por mim a ler um artigo, sobre como a pandemia nos oferece uma oportunidade “inigualável”. “Só” precisamos de começar por fazer as perguntas certas. “Levamos o mundo de volta para onde estava antes da crise ou redesenhamo-lo? Cabe-nos inteiramente a nós decidir,

e não deve ser apenas sobre como pôr a economia a funcionar novamente”. A frase é do Nobel Muhammad Yunus, num artigo publicado no italiano La Repubblica, em Abril deste ano, estávamos já em plena época de pandemia. O “banqueiro dos pobres” sabe do que fala. Ganhou o Nobel depois de tentar acabar com a pobreza recorrendo aos instrumentos do capitalismo, através de um banco que fundou e do qual foi presidente, o Grameen Bank, que oferece soluções de microcrédito a milhões de famílias, conta com 2 185 agências e, desde sua fundação, emprestou o equivalente a 5,72 mil milhões de dólares a 6,61 milhões de mutuários, 97% dos quais mulheres, com uma taxa de recuperação de 98,85%. Um bom exemplo de como se pode utilizar a palavra negócio, sem dela varrer alguns princípios básicos do desenvolvimento humano. E mesmo assim, ter sucesso. É preciso semear, para colher, alguém terá dito um dia. É um lugar comum, é certo. Mas só funciona pela ordem correcta, e não na inversa. “Antes de começarmos de novo, precisamos de decidir que tipo de economia queremos. Em primeiro lugar e acima de tudo, ela é uma ferramenta que nos pode ajudar a perseguir os objectivos que nós próprios estabelecemos. Não nos deve fazer sentir atormentados e impotentes. Não deveria agir como uma armadilha letal armada por algum poder divino para nos infligir uma pena. Nunca devemos esquecer-nos, nem por um instante, que a economia é um instrumento criado por nós, Humanos. Portanto, devemos continuar a projectá-lo e reconfigurá-lo até que nos deixe a todos felizes. É uma ferramenta desenvolvida para alcançar a máxima felicidade colectiva possível.” Porque é o negócio que está na base da economia, talvez seja bom revisitar o seu sentido. Na raiz latina da palavra, não mais é do que apenas a negação do ócio. Não obriga a que muitos percam para que poucos ganhem. Pelo contrário. Bem aplicado o conceito, implica trabalho, cedência e vontade. Até por isso, porque se calhar se foi desvirtuando com o passar das eras, e com a complexificação do que é, de facto, um negócio, agora que todos abrandámos um pouco, será bom voltar à raiz das coisas. E, tal como na Natureza, são as raízes que nos agarram e definem o quanto crescemos. Ou não. “Será que devemos voltar a esse mundo? A escolha é nossa.” Diz Yunus. Quem não concorda?.

Porque é o negócio que está na base da economia, talvez seja bom revisitar o seu real sentido. Até porque na raiz latina da palavra, não mais é do que apenas a negação do ócio

ócio

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Nesta edição visitamos o Bairro da Mafalala, no coração de Maputo

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O Moksha é um verdadeiro mosaico gastronómico da Índia. E fica aqui mesmo, em Maputo

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Uma viagem pelos Verdes que devem ser julgados (e saboreados) bem para lá da sua cor

(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio

Maputo

o Bairro onde

o futuro coMeçou

e o bairro da mafalala está às portas da cidade de cimento de Maputo. As suas ruas continuam a ser de terra avermelhada e a vida continua a viver-se no rés-do-chão, em quintais onde os vizinhos se juntam. Na verdade, sempre foi aquela informalidade que fez o bairro e as suas gentes. Foi graças a isso, aliás, que ali viveram dois Presidentes, um primeiro-ministro, artistas, poetas e desportistas. Ivan Laranjeira diz que “a Mafalala cria pessoas únicas porque é um bairro único”. Presidente da Iverca, uma associação de cerca de 30 jovens do bairro que decidiram mostrar a Mafalala ao mundo, Ivan é um dos quatro guias a fazer o “Tour A Pé” da Mafalala, um passeio de três horas que acontece sob marcação e que cativa estrangeiros

e nacionais, já que o legado deste bairro é de todos. Samora Machel, Joaquim Chissano, Pascoal Mocumbi, Noémia de Sousa, José Craveirinha, Armando Caliano, Fany Mpfumo, Ricardo Chibanga ou Eusébio da Silva Ferreira são alguns dos filhos mais sonantes da Mafalala. E Ivan fala em todos eles com orgulho. No início do século XX, deu-se o grande boom da exploração do ouro em Joanesburgo e tanto o porto de Maputo como o caminho-de-ferro de Moçambique, tiveram de se desenvolver para responder à demanda. A cidade cresceu e com ela cresceu também a necessidade de fazer um plano urbano. Assim nasceu a Estrada da Circunvalação, tendo de um lado a cidade de cimento, a desenvolvida, a branca. E do outro, o

bairro da Mafalala, onde residiam apenas os negros. Para passar de um lado para o outro, tinha que se mostrar a “Caderneta Indígena”, ninguém entrava na cidade de cimento sem ela. Não demorou até começar um movimento de crítica ao sistema, liderado pelos artistas. Daí até serem criadas sociedades civis de luta pela igualdade foi um passo. Por isso, Ivan diz, orgulhoso, que na Mafalala está “a alma e a paixão de Moçambique”. O que hoje existe começou ali, naquelas ruas e becos, em conversas caladas e sussurros contra o regime colonialista. João Albasini, José Craveirinha, Noémia de Sousa foram os primeiros a acender a chama. Entretanto, a cidade continuava a crescer e cada vez mais pessoas vinham para Maputo, na altura Lourenço Marques. Todos ficavam neste bairro. Ainda hoje, 80% das línguas

Bairro da Mafalala

faladas em Moçambique podem ser ouvidas na Mafalala. Quando começou a nascer a hotelaria na capital, recrutaram-se pessoas das ilhas, razão pela qual também as gentes descendentes das Comores, de Cabo Verde e de Zanzibar partilham o bairro. Samora Machel tirou o curso de enfermagem hospedado numa residência do bairro. Começou os seus primeiros anos de trabalho no Hospital Central e foi ali que começou também a sua consciência política. Acabou por ser transferido para Inhaca. O regime temia que as suas ideias crescessem e se tornassem acção, mas o futuro já era mais forte e Samora acabou por fugir de Inhaca para Dar Es Salaam, na Tanzânia, dando assim início ao seu percurso político fora da clandestinidade.

diversidade cultural

A Iverca fez uma sondagem entre os moradores do bairro para saber a que associavam a Mafalala. Desporto, literatura e diversidade cultural foram as respostas mais ouvidas. Por essa razão, a associação trabalhou na criação de três murais feitos por artistas nacionais e dedicados a cada um dos três temas.

Preocupada com a reabilitação do bairro e sobretudo com a sua sustentabilidade, esta associação de jovens existe desde 2009 e já criou não só este tour, mas também o Festival da Mafalala e uma biblioteca comunitária dentro de uma escola.

Embora se diga que ali foi criada a famosa dança Marrabenta, o Tufo, a dança proveniente de Nampula, é o verdadeiro cartão de visita do bairro. Os planos da associação Iverca são muitos e passam sobretudo por mostrar como a Mafalala é importante na História do país.

a história das histórias da Mafalala cresceu livre pelas ruas e nos Becos, eM conversas caladas e sussurros

contra o então regiMe colonialista

tExtO Marta Curto

fOtOgrafia VasCo Célio

roteiro

CoMo ir

Para poder fazer o “ tour a Pé” na Mafalala, deverá marcar previamente junto da associação iverca. O ponto de encontro para o início do passeio é, normalmente, marcado junto à entrada do bairro.

Preços

O “ tour a Pé” pela Mafalala fazse em inglês, português, ronga e macua. tem uma duração de cerca de três horas e o preço varia de acordo com o número de pessoas do grupo. Custa 1 000 meticais por pessoa para grupos entre cinco a 15 pessoas, 1 200 para três a quatro pessoas e 1 500 para duas pessoas.

ContaCtos as reservas para os passeios podem ser feita através do número +258 824 180 314 ou do e-mail geral@iverca.org

a jornalista gastronómica Jeanine Lewis disse um dia que a pretensão de descrever exaustivamente a “culinária indiana” é quase tão complicada como tentar explicar as leis da termodinâmica a um leigo. Ao longo dos mais de cinco mil anos da sua história, a Índia incorporou uma multitude de influências provenientes dos muitos povos e tradições que passaram pelo país. Dos mongóis aos britânicos há um extenso legado histórico que é preciso rastrear para se compreender a extrema diversidade da sua gastronomia. Por isso, não é possível falar em “culinária indiana” sem compreender o papel das religiões (Hindu e Muçulmana) na definição e elaborações das práticas alimentares. Alguns exemplos “regionais” ajudam a compreender esta diversidade. Assim, se olharmos para a “cozinha do Pun-

restaurante Moksha

jab”, que muitos estudiosos acreditam ser de origem Mongol, vemos que ela é marcada sobretudo pelo estilo tandoori (termo que provém do forno de barro usado). Nesta cozinha, são principalmente empregues carnes marinadas (galinhas, peixes) e naans (pães feitos com leite, manteiga, iogurte e ovos). Embora a influência Mongol – povo que ocupou a Índia durante um longo período – esteja amplamente disseminada pelo país, há regiões, como em Delhi, onde ela é particularmente notória.

A “cozinha Mongol” define-se pela sua sofisticação, com o uso de molhos elaborados, temperos complexos como o curry e o consumo de carnes diversas em que o molho de gengibre está sempre pre-

ao longo dos Mais de 5 Mil anos da sua história, a Índia incorporou uMa Multitude de influências provenientes dos Muitos povos e tradições. descuBra-as no Moksha

indiana

sente. Da shorba (sopa simples de caldo de galinha ou carne) à sopa de pétalas de rosas (kulfi), a comida mongol é uma das mais difundidas internacionalmente. Se nestas “cozinhas” há uma indelével marca muçulmana, já a “cozinha de Goa” demonstra, por via da presença portuguesa, uma clara influência cristã. E a confecção de muitos pratos reflecte elementos da culinária portuguesa. O uso da carne de porco preparada à moda vindaloo (molho de pimentas vermelhas, vinagre, pimenta do reino, sementes de cominho, coriandro, gengibre, alho, açúcar mascavado) e o apimentado sarapatel (cozido de carne, língua, fígado e coração de porco, gengibre, sementes de cominho, alho, pimentas, cinamomo, vinagre, cebolas, sal, e sangue de porco) são disso um possível exem-

plo. A população de origem religiosa hindu prefere as carnes de cordeiro, enquanto os cristãos são grandes consumidores de carne de vaca. Uma sobremesa deliciosa é a bebinca, elaborada com leite de coco, farinha de trigo e açúcar.

A sul, a “cozinha de Andhra Pradesh”, Estado que tem como capital a cidade de Hyderabad, é conhecida como a mais condimentada e picante de toda a Índia. São empregues muitos condimentos exóticos, frutas desidratadas, castanhas e amêndoas. Nesta “cozinha” um destaque especial deve ser dado aos biryanis (arroz misturado com carnes e vegetais) e aos chutneys produzidos com vegetais e frutas. No Moksha, depara-se com a possibilidade de ter uma experiência multifacetada e um leque de pratos de todas estas raízes culturais confeccionados com apuro e sofisticação.

941, Av. Julius Nyerere, Maputo
Moksha
uM Mosaico da gastronoMia

poeMa - vinho verde doc reserva alvarinho Branco 2014

País: Portugal

região: Região Demarcada dos Vinhos Verdes/ Sub-Região Monção Melgaço

Casta: Alvarinho

Cor: Amarelo ligeiramente dourado

aroMa: Apresenta notas de frutos tropicais, com nuances fumadas e fruta de polpa branca

Paladar: Apesar da idade, um branco ainda fresco, frutado, de enorme volume e alguma complexidade

Final:Termina com médio comprimento teor alCoóliCo: 13º

doc vinho verde loureiro

Branco 2017

País

Quinta de santa cristina vinho verde avesso Branco 2017

País: Portugal

região: Região Demarcada dos Vinhos Verdes

Casta: Avesso

Cor: Amarelo cítrico pálido

aroMa: Apresenta aromas cítricos, muita frescura, nuances florais e algum pêssego

Paladar: Bom equilíbrio de acidez, vinho simples, atractivo, volume ligeiro e gás suave sem estar em excesso

Final: Termina com médio comprimento teor alCoóliCo: 12,5º

Quinta de santa cristina vinho verde azal Branco 2017

País: Portugal

região: Região Demarcada dos Vinhos Verdes/ sub-região de Basto

Casta: Azal

Cor: Amarelo cítrico límpido

aroMa: Tem um bouquet entre notas cítricas, lima, laranja, maçãs verdes, e herbáceos

Paladar: Vinho fresco, acidez viva e evidente, frutado e um ligeiro gás que o torna espirituoso

Final: Termina com um comprimento curto teor alCoóliCo: 12,5º

Portugal região região Demarcada dos Vinhos Verdes Casta Loureiro

Cor

Cor amarelo palha límpido

aroMa impacto muito tropical, com nuances florais, notas de manga, papaia, pêssego e camomila

Paladar acidez viva, levíssimo, corpo muito simples, mas de sabor frutado intenso

Final termina com média persistência teor alCoóliCo 11,5º

existe eM diversas variedades e pode ser

Branco, rosado, tinto ou até MesMo espuMante

loureiro Branco 2017 curvos doc vinho verde

a origem do vinho verde e da sua designação está ligada ao local onde é produzido e não à sua cor. Produzido exclusivamente numa região localizada no Noroeste de Portugal, nenhum outro lugar do mundo é capaz de produzir vinhos verdes. Este vinho é chamado de “verde” devido à sua alta acidez, o que deriva do perfil das uvas produzidas na região, a que se somam os solos de origem granítica, responsáveis pelas características únicas deste tipo de vinho, que se traduzem numa leveza, frescura e elegância inimitáveis. Apesar de a Região Demarcada dos Vinhos Verdes ser, no que respeita à sua delimitação geográfica, relativamente pequena, a verdade é que ela tem tantos microclimas que foi dividida em nove sub-regiões. Cada uma delas tem diferentes castas e é esta variedade que permite aos vinhos verdes, apesar de uma identidade muito própria e definida, ter um leque de oferta tão estimulante. Os enólogos costumam definir os “verdes” como vinhos leves, de frescura vibrante e notas frutadas e florais. Pode-se dizer que essas qualidades gustativas e aromáticas marcantes estão presentes na maioria dos vinhos verdes. Os “verdes” podem ser brancos, de cor citrina ou palha, aromas ricos, frutados e florais, dependendo das castas que lhes dão origem. Na boca são harmoniosos, intensos e evidenciam uma grande frescura. Os vinhos verdes rosados revelam uma cor levemente rosada ou carregada, aromas jovens, frescos, lembrando frutos vermelhos. O sabor é harmonioso, fresco e persistente. Já os verdes tintos apresentam cor vermelha intensa e, por vezes, espuma rosada ou vermelha viva, aroma vinoso, com destaque para os frutos silvestres. Por fim, o Espumante de Vinho Verde mantém o perfil, com reforçadas características de frescura aromática, associadas a uma maior complexidade gustativa. A nossa principal sugestão deste mês vai para o Curvos DOC Vinho Verde Loureiro Branco 2017. Produzido a partir da casta Loureiro, e exibindo uma cor amarelo citrino, tem uma aroma mineral com notas cítricas intensas e evidencia um sabor elegante, equilibrado, com a acidez a balancear a doçura, possuindo um final persistente. Combina bem, em termos de harmonização, com frutos do mar, peixes de água salgada e saladas.

entre hollYWood e “cineMa del Mondes”

hÁ uM MoçaMBicano Que deixa sua Marca

ironicamente, a vida deste realizador dava um filme, que ainda não tem um guião pré-definido e que se vai se fazendo a cada nova conquista. Apesar disso, tem um protagonista moçambicano, Inadelso Cossa, de 35 anos, recentemente convidado pela famosa Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para integrar uma organização, da qual farão parte outros 818 colegas seus, entre artistas e executivos, de múltiplas paragens do mundo. No seu caso, irá compor o grupo de jurados que vai escolher o vencedor do Óscar para melhor documentário.

“Vamos sentar-nos e discutir quem serão os nomeados, votamos de forma democrática para escolher o vencedor do Óscar” disse o

realizador numa entrevista à Radio France International (RFI), frisando, no entanto, que os trabalhos já estão em curso. O convite para Inadelso Cossa integrar o grupo de trabalho dos Óscares chegou no âmbito da iniciativa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas “A2020” que visa a diversificação de nacionalidades que participam da eleição e, caso os convidados aceitem os convites, a Academia ficará com 9 412 membros. Dos novos, 45% serão mulheres e 36% serão convidados de comunidades étnicas e raciais sub-representadas. Um outro convite para o realizador moçambicano veio de França, outro dos berços do cinema contemporâneo, neste caso o Europeu. Inadelso Cossa faz par-

docuMentÁrio do realizador

MoçaMBicano estarÁ eM cannes

te de uma lista restrita de dez cineastas seleccionados pela “Fabrique des Cinémas du Monde”, uma iniciativa do Institut Français durante o Festival de cinema de Cannes que apadrinha projectos cinematográficos em curso.

Por esta altura, o realizador moçambicano prepara a sua segunda longa metragem. No quadro do Festival de Cannes, este ano em versão online, o instituto francês e parceiros abriram um pavilhão virtual dedicado ao Cinema do Mundo com vista a apresentar projectos dos laureados de La Fabrique e a expor novos projectos à indústria cinematográfica. Entre os 12 projectos seleccionados encontra-se a primeira longa metragem moçambicana “As Noites Ainda Cheiram a Pólvora”, de Inadelso Cossa, que, segundo o próprio, se centra na evocação das “vozes do sul que não são ouvidas e que agora conseguem gritar”.

“as noites ainda cheiraM a pólvora”

Documentário

de inadelso Cossa

tecnoMar for laMBorghini 63

Motor Dois motores

MaN V12

PotênCia 2 000 cv

VeloCidade 111 km/h

taManho 24 toneladas e 63 pés (19,2 metros)

Preço 3 milhões de euros

vlaMBorghini Mais potente

já são conhecidos os primeiros esboços do iate de luxo que a Lamborghini está a desenvolver com a Italian Sea Group. A imagem ficou a cargo do Centro Stile da Lamborghini, que se inspirou nas linhas futuristas do hiper-desportivo Lamborghini Sian FKP. Contudo, modelos tão icónicos quanto o Miura ou o Countach, ambos desenhados por Marcello Gandini, também não foram esquecidos. O resultado é uma silhueta desportiva e vanguardista, que promete fazer com que este Tecnomar for Lamborghini 63 não passe despercebido em nenhum dos sete mares.

O casco e a estrutura foram criados com materiais leves e rígidos, a partir de uma armação de alto desempenho desenvolvida por engenheiros navais especializados em ciências hidrodinâmicas. E, tal como acontece com os automóveis da marca de Sant’Agata Bolognese, a fibra de carbono surge

do Mundo... anda na Água

em grande destaque, permitindo que este iate seja classificado como ultraleve. Ao todo são 24 toneladas e 63 pés de comprimento, o equivalente a 19,2 metros. Quanto ao “hard top” também foi inspirado nos “Roadster” da marca italiana. Além de proteger os ocupantes do vento e do sol, promete melhorar a aerodinâmica deste iate, que ainda tem faróis na proa inspirados no Lamborghini Terzo Millennio e no Lamborghini Sian FKP.

A inspiração nos modelos da marca italiana também se faz sentir no interior, com o cockpit e todos os sistemas de navegação e comandos náuticos a serem integrados num painel de instrumentos que tenta seguir aquilo a que a marca da Sant’Agata Bolognese nos tem habituado nos seus desportivos. O botão “Start and Stop” é exactamente o mesmo que

se encontra nos modelos com quatro rodas. Por outras palavras, quem se sentar ao leme deste barco irá ter a sensação de que está aos comandos de um verdadeiro “Lambo”, e esse é mesmo um dos maiores feitos desta criação.

“É uma parceria valiosa e uma cooperação que preserva a essência do estilo e da experiência de ambas as empresas em mundos diferentes, que culmina num produto final especial, exclusivo e revolucionário”, afirmou Stefano Domenicali, CEO da Automobili Lamborghini.

Recorde-se que, à imagem do que acontece com os Lamborghini de estrada, também este iate poderá ser personalizado de acordo com o programa Ad Personam, que permite criar uma configuração única e à medida das exigências do cliente mais caprichoso.

este passarÁ a ser o laMBorghini Mais potente da história e a aliMentÁ-lo estarão dois Motores Man v12 de 2000 cv

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