na voz de alcinda santiagO, directOra-geral da sOjOgO
Área 4
O jackpOt das mil e uma dúvidas
sociedade um nOvO Olhar para mOçambique
6 OBservAçãO
Eleições
A imagem de um dia em que se decidiu o futuro próximo do país
8 RADAr
Panorama economia, Banca, Finanças, Infra-estruturas, Investimento, País
12 MAcrO
Energia
A universalização do acesso à energia até 2030 é um desígnio nacional
22 nAçãO
O JOGO
22 Da sorte ou do azar? A e&M analisa um mercado emergente, impulsionado pelas apostas desportivas e jogos online. 30 na voz de... Alcinda santiago, a directora-geral da sojogo
34 PrOvÍNcIA
Montepuez
Na terra onde há rubis debaixo do chão, falta quase tudo à flor da terra
40 MercADO e FINANçAs
Gás
O que implica o lançamento da Decisão Inicial de Investimento da Área 4 do rovuma
44 EMPresAs
Susamati
Uma startup que encontrou o seu nicho nos equipamentos sanitários ecológicos
46 MegAFONe
Marketing
O que está a acontecer no mundo das marcas em Moçambique e lá por fora
59 ócio
60 Escape Uma viagem até Macau, a cidade das duas caras 62
Gourmet A descoberta do admirável mundo novo do Musashi
63 Adega A degustação de um bom Pinot Noir 64 Agenda
Música, livros, filmes 65 Arte Os super-heróis da BD africana
66 Ao volante O carro voador que Porsche e a Boeing preparam
48 fIgUrA DO MÊs
Vodacom
Lara Narcy, directora das relações corporativas da operadora fala sobre a nova Fundação vodacom
50 SOcIeDADe
Solidariedade
A história de uma acção que tentou levar, literalmente, um novo olhar a Moçambique
54 lÁ FOrA
Etiópia como os esforços rumo à pacificação valeram o Nobel ao Primeiro-Ministro Abiy Ahmed
Editorial
Moçambique já Votou
Iacumba Ali Aiuba
foram realizadas as eleições, em Outubro último, tal como havia sido programado, aguardando-se o pronunciamento do Conselho Constitucional, órgão de soberania ao qual compete especialmente administrar a Justiça em matérias de natureza juridico-constitucional e entre outras atribuições, apreciar o contencioso eleitoral e a validação dos resultados das eleições. De acordo com os dados anunciados pelo órgão de de gestão do processo eleitoral em Moçambique, o Partido no Poder terá conseguido uma maioria qualificada e o seu candidato a Presidente da República, uma reeleição com mais de 70% dos votos válidos.
Estes resultados, a confirmarem-se, colocam o partido vencedor e o seu candidato numa posição de responsabilidade acrescida, porquanto, o risco de se tornarem vulneráveis a excessos no exercício do poder, pondo em risco a consolidação da democracia, é muito alto, por um lado, e por outro, as eleições foram realizadas logo após o Acordo de Paz Definitiva, no âmbito do diálogo Político, oficialmente designado por Acordo de Paz e Reconciliação Nacional, entre o Presidente da República, o Presidente do maior partido da Oposição em Moçambique, para o estabelecimento de uma paz efectiva e duradoira, pondo assim termo, em definitivo, aos conflitos armados cíclicos pós-eleições gerais.
O acordo é constituído por dois instrumentos, nomeadamente, o Acordo sobre a Cessação de Hostilidades Militares assinado pelas partes no dia 1 do mesmo mês de Agosto e um anexo relativo a Estruturas de Implementação do Acordo de Paz e Reconciliação.
Este passo é o culminar de longas negociações entre as duas partes que iniciaram em 2015, que contaram com facilitadores internacionais. É um marco importante na história política de Moçambique dos últimos anos, que foi conhecendo conflitos armados pós-eleições. Representa a esperança de um povo, de um país, que já começa a dar passos nos caminhos do progresso promissor. É uma contribuição positiva assinalável para as expectativas dos investidores nacionais e estrangeiros, como indicador que permite conjecturar o futuro promissor, não muito longínquo, do ambiente de negócios deste país do Índico. A chave do sucesso deste acordo e da governação para o novo mandato de cinco anos reside na boa fé dos compromissos assumidos, no espírito e na letra dos documentos assinados, traduzidos em processos políticos, económicos e sociais transparentes, inclusivos e com tolerância.
Director
NOVEMbrO 2019 • Nº 20
PROPRIEDADE Executive Moçambique
DIRECTOR Iacumba Ali Aiuba
DIRECTORA EDITORIAL DO GRUPO
MÊS ano • nº 01
EXECUTIVE Ana Filipa Amaro
DIRECTOR EXECUTIVO Pedro Cativelos
COnsELhO EDITORIAL
Alda Salomão; António Souto; Narciso Matos; Rogério Samo Gudo
JORnALIsTAs Celso Chambisso; Hermenegildo Langa; Cristina Freire, Elmano Madaíl, Rui Trindade PAGInAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Jay Garrido REVIsÃO Manuela Rodrigues dos Santos PRODUÇÃO Executive Moçambique
PUBLICIDADE Ana Antunes (Gestora Comercial - Moçambique) ana.antunes@ executive-mozambique.com; iona@iona. pt/contacto@iona.pt (Portugal) ADMInIsTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBLICIDADE Executive Moçambique; Av. Salvador Allende, nº 1039, Bairro Polana Cimento, Maputo – Moçambique; Tel.: +258 21 485 652; Tlm.: +258 84 311 9150; geral@executive-mozambique.com
DELEGAÇÃO EM LIsBOA Telheiras, Rua Poeta Bocage, Nº 2 – 1º Escritório D • 1600233 Lisboa • Portugal; Tel. +351 21 381 3566; iona@iona.pt IMPREssÃO E ACABAMEnTO Minerva Print - Maputo - Moçambique TIRAGEM 4 500 exemplares núMERO DE REGIsTO 01/GABINFO-DEPC/2018
propriedade Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi
observação
MoçaMbique, seteMbro de 2019
O futurO fOi a vOtOs
Cerca de 13,1 milhões de eleitores moçambicanos foram, no dia 15 de Outubro, chamados a eleger o próximo Presidente da República, 250 deputados do Parlamento e, pela primeira vez, dez governadores provinciais.
O processo de apuramento dos resultados finais leva, por norma, até 15 dias para a divulgação oficial dos resultados, o que confere ao momento das eleições, o pré e o pós, um carácter de continuidade no tempo que nos remete... a outros tempos.
fOtOgRafia D.R.
RADAR
DívIDA púBlICA vOltA A CrEsCEr
O FMI prevê que a dívida pública de Moçambique suba para 108,8% do PIB este ano, projectando-se, assim, acima dos 100% até 2023.De acordo com o anexo estatístico ‘Fiscal Monitor’, divulgado em Outubro passado, em Washington, no âmbito dos Encontros Anuais do FMI e do Banco Mundial (BM), a subida do rácio da dívida pública face ao PIB aumenta dos 99,8% no ano passado, para 108,8% este ano e 106,8% em 2020.
ECONOMIA
Doing Business. Moçambique caiu três posições no ranking Doing Business 2020 para o 138º lugar com 55 pontos numa escala de zero a 100. O relatório, divulgado a 24 de Outubro pelo Banco Mundial, mede a facilidade de fazer negócios em 190 países.
208 passageiros de Janeiro a Setembro do ano passado). Segundo nota de imprensa da companhia, a melhoria verifica-se, igualmente, “na componente de pontualidade dos voos”, indicador que tem sido mensalmente partilhado com o mercado e que mostra “uma tendência de crescimento”.
de cimento custa entre 380 e 405 meticais no mercado.
A previsão do FMI aponta para que em 2021 e 2022 a dívida pública regresse à casa dos 108%, descendo depois para 101,7% em 2023 e decaindo ainda mais para 90,3% do PIB em 2024.
O FMI previu, de resto, para a economia moçambicana um crescimento de 1,8% do PIB, o mais baixo desde, pelo menos, as duas últimas décadas, podendo então acelerar para 6% em 2020 e para 11,5% em 2024.
Com esta classificação a economia nacional regressa aos patamares de 2018, em que tinha melhorado três posições, tendo voltado a regredir nesta edição do índice.
Dos nove países falantes de português, Moçambique está em posição mediana, à frente de Angola (177º), Guiné-Bissau (174º), São Tomé e Príncipe (170º) e Timor-Leste (181º), e atrás de Portugal (39º), Brasil (124º) e Cabo Verde (137º).
Transporte aéreo. As Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) registaram um aumento de 6,6%, no número de passageiros transportados nos primeiros nove meses deste ano, em comparação com igual período de 2018, ao transportar 415 741 passageiros (398
Aviação. A Fastjet suspendeu as suas operações no mercado nacional após dois anos de operações, e depois reportar prejuízos na ordem de mais de 2 milhões de dólares no primeiro semestre do ano. A suspensão abrange todos os voos, incluindo os do acordo de partilha de códigos com as Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) para Maputo, Tete, Beira e Quelimane. A companhia pondera regressar, mas só “quando a demanda geral por viagens aéreas no país aumentar significativamente”.
Cimento. O preço da matéria-prima poderá aumentar devido ao elevado custo de importação do clínquer (base para o seu fabrico) por via marítima. “Ao abrigo do Acordo de Paris, os organismos internacionais estão a impor aos transportadores marítimos um nível menos elevado de emissões de carbono. Assim, todos aqueles que têm navios antigos devem investir dois ou três milhões de dólares em máquinas novas, algo inviável face aos elevados preços”, esclareceu o director-geral da Cimentos de Moçambique, Edney Vieira, em Outubro. Actualmente, o saco de 50 quilos
Infra-estruturas. A província de Manica poderá dispor de quatro portos secos para ajudar a descongestionar o porto da Beira, na província de Sofala, disse recentemente o presidente do Conselho Empresarial Provincial de Manica, Samuel Guisado. A intenção de construção destas infra-estruturas consta do projecto de transformação de Chimoio em Zona Económica Especial (ZEE) , que foi tornado público durante um encontro recente entre a Agência de Promoção das Importações e Exportações (Apiex), Ministério da Indústria e Comércio, Direcção Provincial da Indústria e Comércio e o Conselho Municipal de Chimoio.
Recursos minerais. A empresa de mineração chinesa Jinan Hi Tech foi autorizada pela Comissão Nacional do Desenvolvimento e Reforma da China a adquirir uma participação de 34% na empresa australiana Triton Minerals, que opera a exploração de grafite em Moçambique, por 19,5 milhões de dólares australianos. O negócio pretende cimentar a presença chinesa na exploração deste minério, através de um projecto de nível mundial de grafite a ser desenvolvido em Ancuabe, província de Cabo Delgado.
BANCA
Absa. O Barclays Moçambique vai, oficialmente, passar a chamar-se Absa Bank já a partir deste mês (11 de Novembro), dois anos após o início da operação de alteração da designação. A mudança surge na sequência da decisão do grupo Absa de lançar a marca em todas as operações no continente. Em Moçambique já usa o novo logótipo nos balcões de todo o
país desde Outubro. O administrador-delegado do Barclays, Rui Barros, frisou que “todos os serviços permanecerão activos após a data da alteração e que a substituição será feita de forma gradual.”
Crédito. O Departamento de Estudos Económicos do Standard Bank prevê mais uma descida da taxa de juro de referência (taxa MIMO, actualmente fixada em 12,75%) no sistema financeiro, em resposta aos recentes anúncios de investimentos nos grandes projectos de exploração do gás na bacia do Rovuma. Segundo o economista-chefe do Standard Bank, Fáusio Mussá, o efeito da descida da taxa MIMO “poderá fazer induzir uma descida das taxas de juro a retalho, com impacto positivo na economia ao longo do próximo ano.”
PME. Cerca de 5 mil PME serão capacitadas em matérias de gestão de negócios nos próximos três anos, à luz de um memorando assinado pelo Barclays Bank e a African Management Services Company (AMSCO), empresa focada no desenvolvimento de capital humano em África. O memorando tem o objectivo de “melhorar” a relação entre as PME e a banca, porque “quando os bancos têm conhecimento de que a empresa que está a apresentar um projecto, solicitando crédito, está capacitada e tem um bom plano de negócios, estes não têm problemas em emprestar” explicou Pedro Carvalho, Director da Banca de retalho e Negócios Barclays.
Investimento. Moçambique está entre os países africanos com risco mais elevado de investimentos, embora com tendência crescente no retorno para os investidores, segundo o Índice Risco-Retorno 2019, um estudo elaborado pelas sociedades de consultoria Oxford Economics e Control Risks.
No estudo, a pontuação de risco de Moçambique é de 6,07. O Índice Risco-Retorno, que já vai na sua quarta edição, constata que “apesar do país continuar na lista negra melhorou na pontuação em relação aos 6,18 obtidos no ano passado.” Maurícias e Botsuana são os países africanos com menor risco, com pontuações de 3,43 e 2,41, respectivamente.
Diamantes. A maior empresa do mundo de mineração, processamento e comercialização de diamantes, a russa AIrosa, acredita que Moçambique “é um país rico” nesta pedra preciosa, segundo o seu Presidente da Comissão Executiva, Sergey Ivanov, que foi recebido em audiência pelo Presidente da República no quadro da cimeira Rússia-África.
Para a pesquisa no terreno, a Rússia irá enviar uma equipa de geólogos que iniciam pesquisas na fronteira com o Zimbabué, onde já operam. “Vamos focar-nos nas áreas de fronteira e os nossos geólogos vão discutir com o Ministério das Minas sobre possíveis outras áreas de cooperação. Temos a certeza de que o país pode vir a ser rico em diamantes”, disse Ivanov.
Financiar as empresas locais que actuam no ecossistema das multinacionais
Benson Nhambire • Head of Entreprise and Supplier Development
o ano de 2019 está a ser muito especial para a economia Moçambicana, com fortes progressos no desenvolvimento da indústria de petróleo e gás, tais como: a assinatura da Decisão Final de Investimento do primeiro projecto do Mozambique LNG no dia 18 de Junho; a decisão inicial de investimento do projecto do primeiro projecto onshore de Rovuma, anunciada à 8 de Outubro.
Na sequência destes marcos históricos, é importante debater a magnitude destes projectos, entender o ciclo de vida de exploração de cada um e em que momento as empresas locais terão a oportunidade de participar. No caso de Moçambique, as empresas locais terão o potencial de participação nas seguintes fases: 1) desenvolvimento - onde o foco diverge para construção das instalações de liquefacção, acampamentos, estradas, aeroportos ou portos para escoamento da produção, e ; 2) produção – esta fase é dedicada a produção e exportação do GNL.
A fase de desenvolvimento está projectada para decorrer durante os próximos cinco anos e prevê-se um investimento de quase 50 mil milhões de dólares, que será alocado ao desenvolvimento das unidades de produção, traduzindo-se em grandes oportunidades de emprego e de contratos para as empresas locais. A participação das empresas locais nestas cadeias de valor está condicionada por três aspectos muito importantes, nomeadamente: acesso ao financiamento, certificação e capacitação. Muito se tem escrito sobre estas últimas duas condicionantes. No entanto, gostaria de me debruçar sobre a primeira, ao mesmo tempo a mais controversa – o financiamento. Existem quatro modelos de financiamento que podem ser adoptados para aumentar a eficiência e o desempenho das empresas locais na cadeia de valor da indústria: financiamento vanilla, fundo co-financiado entre o Banco e outras entidades, gestão de fundos e, por fim, acelerador de receitas. A aplicabilidade de cada um destes modelos dependerá de vários factores, tais como: disponibilidade para participação num programa de financiamento das pequenas e médias empresas locais por parte das empresas contratantes e os seus respectivos subcontratados; histórico consistente e experiência das
empresas na sua área específica; e outros factores relevantes. É importante mencionar que existem prós e contras em cada um destes modelos de financiamento e que os mesmos devem ser considerados antes de se fazer a escolha sobre a qual recorrer. 1) O modelo de financiamento vanilla é o mais tradicional, com o banco a suportar o risco de incumprimento, requerendo, normalmente, colaterais que podem ser activos tangíveis ou activos líquidos. Num mercado como Moçambique, onde uma boa parte das empresas locais que participam nestas cadeias de valor estão em fase embrionária ou em crescimento, a disponibilidade de colateral é uma das grandes barreiras à contratação. Alguns bancos locais têm procurado métodos inovadores para cobrir o risco de incumprimento sem ter que requerer a colateral. Uma das formas de financiar as empresas locais sem ter que recorrer a colateral é por via de financiamento às empresas que fazem parte de uma cadeia de valor de uma grande empresa com risco de crédito muito bom. Mas é igualmente importante mencionar que, recorrendo a este modelo, o banco tem de procurar novos métodos de protecção contra o risco de incumprimento por parte da empresa beneficiária do financiamento como: desenvolvimento e suporte de negócios; e gestão do ciclo de vida do contrato com a empresa âncora, pós-empréstimo.
2) O co-financiamento entre a banca e outras entidades é um modelo de financiamento um pouco mais complexo comparado com o primeiro, pois implica alguns procedimentos adicionais tais como: a criação de um fundo para gestão dos montantes alocados, a criação de regras de gestão do fundo, a criação de um scorecard para a concessão de empréstimos, etc. As entidades que potencialmente compõem o fundo são bancos, empresas corporativas que têm como seus indicadores de desempenho “apoio financeiro à sua cadeia de valor” ou o objectivo de participação no financiamento da sua cadeia de valor, organizações não-governamentais e algumas instituições do Estado. A criação do fundo implica, dependendo das entidades a participar: criar uma comissão de gestão do fundo, decidir
Existem quatro modelos de financiamento que podem ser adoptados para aumentar a eficiência e o desempenho das empresas locais na cadeia de valor da indústria: financiamento vanilla, fundo co-financiado entre o Banco e outras entidades, gestão de fundos e por fim, acelerador de receitas
a participação de cada um dos membros na criação do fundo, o portefólio a financiar (no caso de uma empresa âncora, identificação dos seus fornecedores a beneficiar), o nível de imparidade aceitável para o poretfólio e o preço a ser aplicado aos financiamentos. Em muitos casos em que este modelo é adoptado para financiar empresas locais, os bancos é que são responsáveis por gerir a análise de crédito, o desembolso às empresas beneficiárias, a recuperação e a rentabilidade do fundo se aplicável. Este modelo é muito usado em certos países africanos onde existem políticas de preferential procurement ou conteúdo local, tal como a África do Sul com o modelo de BBBEE (Broad-Based Black Economic Empowerment). Neste modelo, o Governo fomenta a participação de empresas locais, detidas por nacionais oriundos de certas etnias, nos grandes ecossistemas, dando pontos às grandes empresas que concorrem a contratos do Estado, por apoiarem os seus fornecedores dessas etnias. Este modelo pode ser adoptado em Moçambique com base na definição de conteúdo local que finalmente foi aprovada em decreto-lei.
3) Uma vez que o modelo de co-financiamento implica a existência de apetite dos bancos para financiar empresas com um risco elevado, o que nem sempre existe, uma alternativa é o modelo de gestão de fundos de terceiros (empresas, doadores ou entidades não governamentais) com o objectivo de financiar a cadeia de valor. Usando este modelo, elimina-se a necessidade de financiamento bancário e a banca apenas actua como gestor do fundo, de acordo com as regras estabelecidas pelo comité de gestão do fundo.
4) O acelerador de receitas é essencialmente o adiantamento das mesmas que pode ser feito de duas formas: Reverse Factoring e Factoring.
No caso do Reverse Factoring, o banco financia os recebíveis de vários fornecedores da empresa contratante. É uma solução de financiamento de contas a pagar. Estes programas são estruturados a pedido da empresa contratante que deseja fortalecer o relacionamento com os seus fornecedores estratégicos, garantindo que eles se beneficiem de financiamento e condições razoáveis de pagamento, mantendo assim o seu Working Capital num nível sólido. No lado contratual, o banco celebra um contrato principal com a empresa contratante enquanto é assinado um endosso com cada fornecedor disposto a fazer parte do programa. Alternativamente, em casos em que as empresas contratantes não estão dispostas a entrar em contratos directamente com o Banco, assumindo que existe uma obrigação irrevogável e incondicional de pagar no vencimento da factura, considera-se o Factoring directamente aos fornecedores, adiantando o montante da factura antes do final do prazo de pagamento da empresa contratante. Em conclusão, existe uma grande necessidade de estimular a economia local e o crescimento das empresas nacionais apoiando-as na participação dos grandes ecossistemas.
A banca pode ter um papel fundamental e existem várias formas de financiar a participação das mesmas.
A resposta é: não é assim tão difícil, só temos de diversificar as fontes de financiamento e utilizar a fonte adequada para o momento da vida das empresas.
Magnitude dos projectos de investimento anunciados tem justificado um debate sobre novas formas de investimento da banca às empresas nacionais
O desafiO de bem iluminar… mas ainda cOm p Ouca luz
A EdM avança rumo ao cumprimento da sua mais ambiciosa meta: a de iluminar todo o país até 2030. Mas as dívidas e a insustentabilidade podem comprometer o objectivo. Veremos é se há energia para tudo
se a expansão da rede eléctrica nacional continuar ao ritmo do que se verificado desde os tempos da independência nacional (em 1975 só 3% da população tinha acesso ao passo que hoje, 44 anos depois, esse número está nos 28%), serão ainda precisos mais de 100 anos para assegurar o acesso universal à energia preconizado pelo último Governo. Esta estimativa, apresentada em No-
vembro do ano passado pelas autoridades do sector da energia, e que, obviamente, toma em consideração a dinâmica do crescimento populacional, mostra a dimensão quase épica da luta que é preciso travar para fazer, em apenas pouco mais de uma década, o que, de acordo com o ritmo actual, só seria possível de conseguir em... um pouco menos de um século. Para se ter uma ideia da
Mil Milhões de dólares InvestImento necessárIo para garantIr o acesso unIversal à energIa eléctrIca até 2030
dimensão da tarefa, basta dizer que a necessidade financeira para esse objectivo está estimada em 12 mil milhões de dólares (quase 720 mil milhões de meticais). A receita da EdM foi de apenas 21 mil milhões de meticais em 2018. No entanto, a EdM acredita ser possível, baseando-se no facto de o país ser dotado de uma matriz energética diversa, acima do necessário para satisfazer a pro-
cura interna e capaz de fornecer soluções de baixo custo à região. Mas não parece haver ainda uma estrutura suficientemente amadurecida para começar a acreditar nesta grande “aventura”. Basta olhar, entre outros obstáculos, para o facto de, historicamente, a Electricidade de Moçambique (EdM, principal entidade à frente do projecto) estar a operar com uma série de dificuldades. A começar pelas tarifas de venda de energia que não cobrem os custos de operação (apesar dos aumentos sucessivos da factura energética para o consumidor final nos últimos anos), tornando os prejuízos numa regra quase inalterável. A empresa paga à Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), seu maior fornecedor, 15 cêntimos do dólar por Kw/h e vende a cerca de metade ao consumidor final. Que tal este negócio?
de prejuízo em prejuízo No ano passado, por exemplo, o prejuízo da empresa quase que duplicou (em relação ao que foi reportado em 2017), batendo na casa dos 3 500 milhões de meticais. E isso acontece quando seria de esperar que se reduzisse, a avaliar pelos agravamentos tarifários que têm vindo a ser feitos com este propósito (foram quatro os aumentos de preço desde 2016 a esta parte, como se pode ver no quadro ao lado).
Já a dívida com os diferentes fornecedores também tem sido vista com preocupação, estando avaliada em cerca de mil milhões de dólares.
“Iremos lá chegar”, garante o porta-voz da empresa, Luís Amado, que, embora conheça e reconheça a grandeza dos obstáculos, prefere focar-se na eficácia dos projectos em carteira e no quadro das várias medidas de reforma que a empresa tem vindo a assimilar e vai continuar, nas suas palavras, a levar a cabo na próxima década, sen-
do de destacar o (possível) arranque, em finais de Novembro corrente, da construção da linha Chimuara-Nacala, cujos contratos com dois empreiteiros (a espanhola Elecnor e a Larsen & Toubro da Índia), foram formalizados em Outubro.
Pela sua dimensão (capacidade de 400 kW numa extensão de 367 quilómetros), este projecto vai reforçar significativamente a capacidade de transporte de energia no Centro e Norte do país (regiões importantes para a meta que se pretende alcançar, visto serem as mais deficitárias em termos de energia e com maior concentração populacional) e dar resposta à procura nas zonas económicas de Mocuba, na província da Zambézia, de Nacala (província de Nampula) e aos grandes projectos em Cabo Delgado.
Com a sua primeira fase a ser concluída dentro de dois anos, a linha Chimuara-Nacala já tem assegurados 200 milhões de dólares financiados pelo Banco Islâmico de Desenvolvimento (BID), sendo que a EdM está à procura dos 400 milhões complementares. Aqui está um dos grandes problemas, se não o maior. Há muitos projectos em carteira, mas a sua conclusão ainda é incerta por essa razão. Basta lembrar os exemplos já bem conhecidos de Mpanda Nkuwa e da Central Norte da HCB.
mil e uma missões em pouco tempo Hoje, a empresa fala em realizar uma série de objectivos “com extrema urgência”. É verdade que conta com o apoio dos parceiros internacionais, entre os quais o Banco Mundial (BM), o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) ou o Banco Islâmico de Desenvolvimento (BID), que têm investido na materialização de inúmeros projectos (com uma matriz diversificada a ser explorada, que inclui a
CRONOLOGIA DOS AJUSTES TARIFÁRIOS
Na incessante busca pelo equilíbrio financeiro, sustentabilidade e expansão da rede, a EdM intensificou o agravamento de preços nos últimos tempos
Março de 2019
Clientes de baixa tensão pagam mais 21%, justificados pela “necessidade de prosseguir com os investimentos de expansão da rede”.
Agosto de 2017
Consumidores domésticos passaram a pagar 6,95 meticais por kW/h, face aos anteriores 5,14 kW/h; mantiveramse os 1,07 meticais para clientes da baixa renda.
Outubro de 2018
EdM anunciou a intenção de adicionar uma taxa à actual tarifa de Credelec, para apoiar a electrificação das regiões ainda sem cobertura.
Novembro de 2016
Consumidores de baixa tensão passaram a pagar mais um metical por kW/h, e os de média tensão 1,42 meticais. Consumo abaixo de 100 kW/h/mês) não alterou.
Dezembro de 2018
Consumidores de média tensão passaram para 549,42 meticais por kW/h, os de alta tensão passaram a pagar 346,31 meticais por kW/h.
transformação do gás, carvão, energia eólica, hídrica e solar).
“Existe grande confiança de que a breve trecho os projectos irão merecer a atenção dos financiadores, já que contamos com a ajuda de parceiros internacionais para o efeito”, refere Luís Amado, que explica que “a mobilização de fundos já está a acontecer e promete óptimas respostas nos próximos meses e anos”.
Depois, sobrepõe-se a necessidade de reduzir perdas significativas registadas pela empresa com as vandalizações, roubo de materiais e ligações clandestinas, que estão entre as tarefas mais difíceis.
No processo, a EdM joga um papel transversal, devendo encabeçar cinco acções consideradas fundamentais para o sucesso, nomeadamente aumentar a produção de energia, a eficiência e melhorar o profissionalismo, operar com tarifas que reflictam o custo de fornecimento, promover o desenvolvimento de infra-estruturas e definir o seu próprio papel no acesso universal.
Cada um destes pontos contém um conjunto de questões específicas, que fazem prever grandes dificuldades em conseguir o objectivo no prazo proposto.
ataque à corrupção e más práticas de gestão
Há relatos de fenómenos considerados determinantes na insustentabilidade em que a EdM está mergulhada, nem todos assumidos pela empresa, mas que inspiraram a realização de reformas previstas nos seus vários planos para o futuro, e que se resumem em tornar a empresa facilmente auditável ao mesmo tempo que se intensificam as auditorias externas.
Em Agosto de 2017, a imprensa publicou artigos reveladores de que cada membro do conselho de administra-
PREJUÍZO DISPAROU...
Há largos anos que a EdM opera na insustentabilidade, mas nos últimos dois o prejuízo quase duplicou
Em milhões de meticais
... E OS PREçOS TAMbéM
A EdM tem aumentado as tarifas “harmonizando-as com o que é praticado na região”. As estatísticas da Associação de Empresas de Electricidade da África Austral (SAPP) mostram que até 2017 a empresa aplicava tarifa mediana. Agora regista-se a tendência de seguir o exemplo dos mais caros
Em cêntimos do dólar por kW/h
nampowrer (namíbia)
tanesco (tanzânia)
sec (eswatini)
zesa (zimbabwe)
escom (malawi)
lec (lesotho)
edm (moçambique)
bcp (botwana)v
eskom (áfrica do sul)
zesco (zâmbia)
snel (rd congo)
rnt (angola)
ção aufere até 1,2 milhão de meticais por mês. Os números foram revelados no Relatório e Contas de 2016, que dava a conhecer que, agregados, os salários dos administradores chegaram a quase 101,2 milhões de meticais, mais 51,1 milhões relativos a pensões, enquanto que no ano anterior (2015), essas mesmas remunerações tinham totalizado 62,7 milhões de meticais, com as pensões na casa dos 31,5 milhões de meticais. Um aumento de cerca de 60%, agravado pelo facto de ter acontecido num ano em que o Governo tinha aprovado aumentos salariais de 13% para o sector de energia...
Três meses após a polémica, a empresa estatal veio a público esclarecer que “o valor real em dólares é o mesmo que os administradores recebem desde 2009”, garantindo que o que mudou terá sido, de acordo com a EdM, “o contra-valor devido à depreciação cambial do metical”. Além disso, são contabilizados, na rubrica de remunerações da administração, também os “nove membros do conselho de administração anterior”. Na altura, fez-se saber que a EdM paga cerca de 70% dos salários em dólares “enquanto forma de estimular os trabalhadores”, esclareceu, à época, um responsável não identificado da empresa.
Rede eléctrica nacional está a mudar e estão anunciados novos investimentos
funcionários “fantasma”
Mil
é o número de lIgações anuaIs que terão de ser feItas para o acesso unIversal à energIa, de acordo com os objectIvos do desenvolvImento sustentável
Em 2017, graças às reformas que se realizaram em busca de melhor desempenho operacional e financeiro, a EdM descobriu mais de 300 “trabalhadores-fantasma” que recebiam salários e outros benefícios (em montantes não especificados) além do excesso de chefias na instituição, de acordo com Mateus Magala, antigo PCA.
Na altura, de um total de 3 mil funcionários, 700 ocupavam cargos de chefia, um rácio de um chefe para cada quatro funcionários do quadro. A esse respeito, em 2017, realizou-se uma revisão estrutural que reduziu as chefias para 250. “Isto melhorou de
forma muito visível o controlo das contas da empresa mas, apesar de todo esse esforço, continuamos a acreditar que ainda há um espaço amplo para mais reformas”, afirma Luís Amado, prometendo a tomada de medidas adicionais para melhorar a gestão da empresa. Estas incluem, por exemplo, o facto de o recrutamento de talentos para ocuparem lugares de chefia passar a ser por via de concursos públicos internos e externos.
sobrefacturação de equipamentos No ano passado, Mateus Magala denunciou possíveis esquemas de corrupção na compra de contadores de
electricidade. Magala revelou que os contadores que eram comprados a 120 dólares custavam, na realidade, perto de 30 dólares. Ou seja, 90 dólares estariam a ser desviados.
Ao mesmo tempo, levantou a possibilidade dessa verba ser perdida no processo de procurement que era usado pela EdM na altura, por isso equacionou introduzir novas regras no processo de compra de material.
Já em Janeiro deste ano, poucos meses depois de Mateus Magala se afastar da presidência da empresa, a EdM acabou por vir a público prestar esclarecimentos, anunciando que a de-
RECEITAS DILUÍDAS EM PREJUÍZOS
Apesar de crescerem, as receitas internas não têm sido capazes de evitar a insustentabilidade. Já as de exportação caíram de 2017 para 2018.
“A EDM deve determinar como subsidiar tarifas de forma sustentável e, ao mesmo tempo, produzir lucros suficientes para financiar novos projectos… e verificar até que ponto pode actuar como agência de desenvolvimento ou como entidade comercial”
núncia não terá passado de um mero “equívoco”. Luís Amado explicou, na altura, que “desde que a empresa está a comprar contadores de Credelec, o contador monofásico sempre custou entre 55 e 60 dólares”, e que “o contador que custa 120 dólares é o trifásico”, pelo que “nunca houve qualquer valor desviado”.
À E&M, o porta-voz reiterou a sua posição argumentando que, “por não ter ocorrido qualquer irregularidade, não há qualquer alteração no sistema de procurement”.
tExto Celso Chambisso fotogrAfiA D.R.
Empresa estatal tem-se debatido com problemas internos
FONTE EDM
MoçaMbique continua p ouco coMpetitivo
a economia nacional caiu quatro posições, para a 137ª posição, no ranking de competitividade global (GCI, em inglês) de 2019. Longe, bem longe do primeiro lugar ocupado por Singapura, a economia mais competitiva do mundo, e demasiado perto do Chade, a pior. Abaixo de Moçambique são apenas quatro as economias menos competitivas, ao nível global, de todas as analisadas pelo World Economic Forum (WEF), nesta edição de 2019.
Com 38,1 pontos, o país caiu, então, quatro posições relativamente ao ranking anterior em que ocupava a posição 133. Ao nível das economias da África subsaariana, as Ilhas Maurícias lideram com 64,3 pontos (posição 52 no ranking mundial), sendo que nos países da CPLP, Portugal é o mais bem classificado com 70,4 pontos (34ª posição), seguido do Brasil (71ª posição) com 60,9 pontos. Também aqui, Moçambique é o menos competitivo.
PerforMance cinzenta
Moçambique não tem evoluído na maioria dos 12 itens em análise. Ainda assim, o ‘sistema financeiro’ é o mais bem pontuado, mostrando uma boa evolução
MoçaMbique na cauda do Mundo
Singapura é a economia mais competitiva do mundo, Chade é a pior, e Moçambique é apenas o 137º de um total de 141 países analisados pelo Fórum Económico Mundial. O país caiu quatro posições e registou menos 1,7 pontos face à última análise, de 2017
Em milhões de acções | Em unidades
q&a: o que é o Gci?
É um índice internacional que avalia a competitividade de 141 economias de acordo com o desempenho dos mercados de forma muito detalhada. O Global Competitiveness Report (GCR), relatório publicado anualmente
pelo Fórum Económico Mundial desde 1979, conta actualmente com 12 pilares divididos em quatro blocos e um total de 98 indicadores, derivados de uma combinação de parâmetros concretos e resultantes de uma pesquisa executiva
feita pelo Fórum Económico Mundial. O estudo reflecte, de forma cuidada, os dados económicos de 2018, mas inclui, ainda assim, um conjunto de pesquisas das expectativas realizadas já nos primeiros três meses deste ano.
OPINIÃO
A fragmentação da ordem comercial global
Manuel Muñiz • Decano da IE School of Global and Public Affairs e Catedrático da Fundação Rafael del Pino de Transformação Global
as tensões comerciais entre a china e os EUA abriram o debate sobre o futuro do regime comercial global. Será o choque actual um evento único, passível de se resolver mediante um acordo comercial? Ou estaremos nós a presenciar o início da fragmentação da arquitectura do comércio mundial?
Há quem acredite que as economias da China e dos EUA estão de tal modo interligadas — e a interdependência das suas cadeias de valor é de tal modo arreigada — que uma ruptura estrutural entre as duas seria simplesmente demasiado onerosa. Esse custo, por si só, deveria bastar como argumento para evitar um conflito sustentado entre as duas economias mais fortes. Debrucemo-nos sobre os números que captam a ascensão da China e a sua rápida convergência com os EUA. De 1992 a 2017, o PIB da China disparou de 400 mil milhões de dólares para mais de 12,2 biliões. Isto significa que, em termos nominais, ronda os 64% do PIB dos EUA, que se situa nos 19,3 biliões de dólares. Trata-se de uma situação extraordinária, uma vez que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA não enfrentavam um rival geopolítico com um PIB superior a 40% do seu. Nem o Japão, nem a União Soviética se aproximaram.
A despesa militar chinesa, por outro lado, aproxima-se rapidamente dos 200 mil milhões de dólares, com o orçamento oficial deste ano só ligeiramente abaixo desse número, posicionando a despesa total da defesa chinesa para níveis equivalentes aos de todos os países da UE juntos. Assim sendo, os valores económicos e militares agregados, por si só, parecem ser suficientes para suscitar um certo temor em Washington sobre a capacidade dos EUA para reter a hegemonia global. Não obstante, determinadas tendências tecnológicas, muito em particular, poderiam agravar ainda mais estas dinâmicas. De facto, o impacto da tecnologia na dinâmica do mercado contribuirá para a colisão sino-americana. Na frente económica, observamos três desenvolvimentos que dificultarão possíveis acordos comerciais e de cooperação económica, entre os EUA e a China. Em primeiro lugar, a crescente disputa pelo talento. Temos bons exemplos, como Silicon Valley ou Shenzhen. A disputa pelo talento global só tende a acentuar-se nas próximas décadas e China e EUA irão, inevitavelmente, colidir. Em segundo lugar, os mercados digitais favorecem a escala e as empresas capazes de recolher e tratar dados de forma efectiva. Isto torna-se bastante evidente na concentração do mercado em determinadas indústrias e no acréscimo sustentado da
produtividade de certas empresas. Com efeito, o sector empresarial está a dividir-se em dois grupos: um formado pelas empresas capazes de aumentar a produtividade através da tecnologia e outro pelas empresas que não o fazem. A OCDE denomina o primeiro grupo de «empresas fronteiriças», com uma estimativa de crescimento médio da produtividade de 30% na última década. O restante sector empresarial, que representa cerca de 95% de todas as empresas, não experimentou semelhante crescimento da produtividade durante o mesmo período. Estes dados representam um força oligopolista — se não completamente monopolista — nos mercados digitais. Esta tendência gera, cada vez mais, mercados de vencedores e, portanto, de grandes vencedores e grandes vencidos, em toda a economia. A China e os EUA são as duas únicas economias que, até à data, parecem capazes de produzir vencedores nesse mercado digital. Longe de fomentar a colaboração, este mercado incentiva uma competição feroz pelo domínio do mercado digital. As duas tendências anteriores são agudizadas por uma terceira: a concentração da transferência tecnológica e o espírito empresarial em determinadas zonas do mundo. A China e os EUA dominam o panorama das novas empresas no mundo inteiro. A maioria dos unicórnios concentra-se, efectivamente, nestes dois países. Tendo, forçosamente, de se juntar às empresas classificadas como «fronteira», estas serão as mais produtivas e competitivas. Todos estes fatores prenunciam um mundo G2 com duas grandes potências a disputar o domínio em mercados altamente competitivos. Permita-me agora tentar responder à pergunta com que enceto este artigo: serão as tensões comerciais entre a China e os EUA um fenómeno passageiro ou a manifestação de algo mais estrutural?
Dado o crescimento económico da China e as características particulares dos mercados digitais diria que, de facto, estamos a entrar numa nova etapa da política global, que será dominada por tensões entre os EUA, os seus aliados e a China, e que não poderão deixar de afectar tanto o comércio mundial como outras áreas de cooperação internacional. Um dos focos de tensão será, muito em particular, o das empresas tecnológicas — o que faz com que o caso da Huawei não seja uma aberração e sim um prenúncio do que está por vir. O risco final será o surgimento de duas ilhas de dados, uma na China e outra nos EUA — e, possivelmente, na Europa. Estes dois grandes mercados não seriam permeáveis e desenvolveriam os seus próprios campeões.
A governança noutras áreas também se tornaria mais complicada. Instituições como a ONU ou a OMC transformar-se-iam em plataformas para a colisão de interesses entre China e os EUA
Nação
O jOgO da sOrte Ou dO azar?
Nos últimos anos começaram a surgir casas de apostas que aparecem como cogumelos, nas zonas de maior concentração de pessoas da cidade de Maputo e arredores. Da Baixa ao Zímpeto, anunciam-se prémios chorudos e os moçambicanos tentam a sua sorte. Para azar das suas carteiras, nem sempre ganham, alimentando uma indústria que está, de facto, a crescer. E não é só em Moçambique. A E&M olha este novo mercado
de uma loja de rua em manchester, bem perto de um pub, aos trabalhadores de escritório de Lagos, na Nigéria, descendo até à Baixa da cidade de Maputo, as mesmas apostas desportivas oferecem o mesmo destino aos apostadores: uma oportunidade de riqueza instantânea. Claro que o destino não é mais do que uma promessa e é preciso chegar à frente com o dinheiro e fazer um depósito na sorte. E tudo depende do resultado. Mas não são apenas as apostas no futebol que estão a crescer por toda a África. Casinos, lotarias e jogos pela Internet estão a crescer exponencialmente, alavancados pelo crescimento económico de uma classe média tenuamente emergente que procura entretenimento. Uma pesquisa de 2017 da GeoPoll constatava que 54% dos jovens em seis países da África Subsaariana (Nigéria, África do Sul, Gana, Tanzânia, Uganda e Quénia) já tinham jogado. O Quénia era o mercado com maior número de jogadores, com 76%, seguido pelo Uganda com 57%. Os quenianos entrevistados assumiram que o fazem, em média, uma vez por semana,
1,7 milhões de dólares
É a receita mensal estimada de todas as 15 empresas que se dedicam a jogos de sorte e azar em moçambique. cerca de 65% do mercado É ainda dominado pelo retalho, sendo que os jogos online têm vindo a crescer
principalmente no futebol, gastando cerca de 50 dólares por mês. Percebendo o modelo de negócio da maioria destas novas agências de jogos, entende-se que África é o continente ideal para o seu crescimento. Já lá vamos.
Moçambique dá sorte. dá?
Desde 2009, o país tem um verdadeiro quadro legal regulatório daquilo a que se convencionou chamar de jogos de fortuna e azar. Nessa reforma legislativa, com o objectivo fundamental de revisão de uma lei de 1994, a ideia era tornar o sector mais atractivo para os investidores, através da adopção de medidas susceptíveis de reforçar o fomento de empreendimentos promotores de desenvolvimento económico e social. Pensava-se nos casinos, mas estavam já previstos os jogos online que começavam a ganhar terreno por todo o mundo, estipulando-se regras claras para legalizar o mercado e facilitar a entrada de novos operadores. Na prática, em Moçambique, todas as entidades que queiram actuar neste mercado devem solicitar uma li-
Nação
O quE Está A fAZEr O JOgO crEscEr?
Classe média emergente, peso das comunicações móveis e facilidade nos pagamentos estão a alimentar um mercado com apetite voraz
telecomunicações
O sector das telecomunicações e o fornecimento de produtos e serviços móveis acessíveis permitiram o crescimento da indústria. E a maioria das empresas de telecomunicações está, também ela, envolvida no sector de jogos, seja através de pagamentos, marketing, soluções USSD ou, até mesmo, parcerias directas de jogos, como a Safaricom, a MTN e a Airtel.
O sector bancário alavancou o crescimento de produtos e soluções móveis. Depois, a Visa (reina na África Oriental) e a Mastercard (lidera na parte Ocidental) cresceram e ganharam milhões de clientes, facilitando os pagamentos. E os bancos também começaram a criar aplicativos e carteiras para transacções de pagamentos transfronteiriços.
E-commerce
Beneficiou do crescimento da social media em África. Com empresas como a Konga, Jumia, Iroko, Hellofoods, flowers.za e até lojas tradicionais como a Longarina ou o Pick and Pay trouxeram novas soluções ao mercado. E todas a apontar para a massificação dos dispositivos móveis.
Banca Pagamentos
Cresceram com a introdução de uma estratégia móvel em todo o continente. Aqui, entram as Fintech que têm desenvolvido novas formas adaptadas à realidade africana para facilitar as transacções em dinheiro. Os comerciantes africanos e várias empresas confiam cada vez mais nos agregadores e em novas soluções de pagamento móvel para alcançar um mercado de escala.
cença de jogo à Inspeção Geral de Jogos. E foi o que se fez. Hoje serão 15 os operadores do mercado. Quatro casinos (Pemba, Nacala, e dois em Maputo), e 11 empresas que disponibilizam jogos mais convencionais (lotarias, totoloto, totobola e joker), e plataformas de apostas desportivas (futebol, basquetebol, ténis, futsal) e lotarias virtuais.
Alguns deles, e são esses que lideram o mercado, fazem-no através de lojas físicas onde os apostadores se podem dirigir e depositar as suas apostas, acompanhando os eventos desportivos ou outros ali mesmo. É o caso da Premier Loto que terá, hoje, a maior fatia deste mercado de retalho, o mais procurado, dizem-nos, por questões relacionadas com alguma
desconfiança que ainda existe relativamente aos sites de internet locais, aos pagamentos dos prémios e segurança de dados. Depois, porque grande parte dos apostadores nacionais ainda o fazem em numerário, até porque a utilização de cartões de crédito, que muitos dos sites de apostas requerem para carregamento dos plafonds, ainda não estão generalizados pela população. Assim, se antes eram os casinos que mais lucravam, alavancados, primeiro, pelo turismo de negócios do início da década e depois pela migração oriental (proveniente da China) da segunda metade da década, esse cenário mudou. É por isso que, o já antigo Casino Polana, decidiu entrar também no mundo virtual, abrindo
um casino virtual, uma tendência seguida em outros mercados também. Olhando ao quadro geral, Moçambique tem agora uma das leis de jogo mais liberais do continente, depois de a legislação ter aberto o mercado, colocando os casinos em maus lençóis, e enfrentando a concorrência do admirável mundo novo dos jogos.
De acordo com Anuário Khan, da Trevo da Sorte, os jogos de apostas online são, ainda assim, um mercado em evolução: “é mais fácil para as casas de jogos online expandir os seus serviços, porque a partir de agora uma pessoa com um simples smartphone pode fazer uma aposta para qualquer tipo de desporto”. De resto, também para os cofres do Es-
milhões de meticais o valor pago, atÉ 19 de outubro, pela sojogo em prÉmios em todos os seus jogos (lotaria, totobola, totoloto e joker
tado, este crescimento do jogo tem sido benéfico. De acordo com dados fornecidos pela AT à E&M, actualmente está em vigor um imposto especial de 35% sobre as receitas brutas do jogo e, em 2018, essa receita chegou aos 643 milhões de meticais.
Buscar a sorte em tempos de azar O grande boom do mercado aconteceu a partir de 2016, quando verdadeiramente começaram a existir sites moçambicanos de apostas deportivas online a operar no mercado nacional, sendo que, até essa altura, a única opção era apostar nos sites de apostas estrangeiros. E numa altura de recessão económica o que, muitas vezes, não é despiciendo do crescimento do número de jogadores em busca da sorte, em tempos de azar. Não faltam, de resto, exemplos concretos dessa constatação. Em Portugal, durante a crise económica de 2012, registou-se um pico de crescimento das receitas das raspadinhas (um jogo de resultado imediato) de 81,7%, atingindo um valor astronómico de 376,5 milhões de euros em receitas. Moçambique é, no entanto, apenas um exemplo (ainda tímido) do crescimento deste mercado que, no mundo, atingiu, no final do ano passado, um valor de 449,3 mil milhões de dólares, com taxas de crescimento anual de 4,1% desde 2014. Espera-se que chegue aos 565,4 mil milhões de dólares até 2022, diz um estudo recente da consultora KPMG sobre o jogo em África. E é no continente africano que os números, ainda que menos expressivos, demonstram a dimensão da oportunidade para quem quer entrar negócio do jogo.
O tamanho combinado da indústria de jogos de azar no Quénia, Nigéria e África do Sul, os mercados que lideram ao nível do número de jogadores e volume de negócio, ultrapassava, no final do ano passado, os 37 mil milhões, em 2018. Sensivelmente três vezes o PIB de Moçambique.
Por cá, e de acordo com o que apurámos junto de alguns operadores devidamente certificados, esse valor anda na casa dos 1,7 milhões de dólares por mês, perfazendo 20,4 milhões por ano, de forma agregada. Desse volume, 65% do mercado está na área do retalho, sendo que o restante será online. Uma fatia que, garantem-nos, tenderá a crescer. E muito.
Porque aumenta a procura
Para além dos motivos conjunturais (baixa económica e aumento generali-
Nação
zado dos preços), os ingredientes deste crescimento, e isso não é exclusivo de Moçambique, são a urbanização rápida que propicia grandes aglomerados populacionais, o crescimento da utilização do telemóvel, o aumento do uso da social media por onde a publicidade a este tipo de jogos muitas vezes é disseminada e, como pano de fundo, a melhoria dos sistemas de pagamentos (via USSD e carteiras móveis).
No mundo, o segmento das lotarias ainda é o maior do mercado de jogos de azar, com 46,1%, e movimentando 207,3 mil milhões de dólares. No entanto, as apostas online ganham cada vez mais espaço no mercado, num segmento que cresce na casa dos 6,9% ao ano.
Olhando ao mapa-mundo dos jogos, a zona Ásia-Pacífico é, sem surpresa, a dominadora do mercado de jogos de azar, respondendo por 32,7% do mercado global em 2018. Segue-se a América do Norte e Europa Ocidental. Mas espera-se que África venha a ser a região que mais crescerá, na casa dos 7,7% ao ano.
a resposta dos governos
Em África, a penetração das apostas em desportos já se disseminou por 35 dos 54 países africanos, num mercado cujo maior volume de facturação é alavancado pelos grandes mercados da Nigéria, Maurícias, Gana, Quénia, Uganda, Senegal, Botsuana, Tanzânia, Costa do Marfim e África do Sul
Fruto desta “explosão”, alguns governos africanos começaram a encarar esta, como uma importante fonte de receita, mas, alguns deles, foram ‘obrigados’ a ponderar o reverso da moeda, e os problemas sociais que daí advêm.
Em Fevereiro, o Uganda tomou a acção, determinando que não fossem emitidas novas licenças para empresas de apostas desportivas e outros jogos de sorte e azar. Além disso, as licenças existentes não serão renovadas quando expirarem. Tudo porque a indústria cresceu demasiado no país, o que criou preocupações sérias com os vários problemas de dependência detectados, principalmente entre a população jovem. Yoweri Mu-
O JOgO EM MOçAMBiquE?
A oferta é claramente dominada por lojas físicas onde se depositam apostas desportivas, casino e lotos. Premier Loto domina o mercado
em percentagem da quota de mercado
JOgOs sOciAis/ APOstAs MútuAs
seveni, Presidente do Uganda, assume mesmo que o jogo desportivo on-line está “a desviar a atenção dos jovens do trabalho duro”. E não é a primeira vez que o país toma medidas para conter o jogo. Há dois anos, o Conselho Regulador Nacional de Lotarias e Jogos do Uganda introduziu um imposto de receita de 35% nas actividades de jogos de azar. Agora, endureceu a posição. Assim como vários outros países da região. Por exemplo, o Quénia, o terceiro maior mercado de jogos de azar na África, depois da Nigéria e da África do Sul (não é alheio a este posicionamento o facto de serem os três mercados africanos com maiores taxas de penetração de serviços móveis), anunciou, em Maio passado, a preparação de uma legislação específica para ‘domar’ o crescente vício e a expansão desenfreada desta indústria multibilionária.
Por enquanto, a publicidade de jogos de azar em todas as plataformas de social media foi proibida, assim como os anúncios entre as 6h e as 22h na rádio e
televisão, uma medida destinada a proteger os consumidores dos efeitos do jogo: “Queremos lembrar de que o jogo é um bem de demérito que tem o potencial de prejudicar o consumidor, com a possibilidade de levar ao vício e a algum distúrbio”, disse, então, o director da comissão regulatória do jogo no Quénia, Liti Wambua.
O governo queniano já havia introduzido, também, um imposto de 35% sobre as operadoras de jogos de apostas no início do ano passado. Mas essa medida seria posteriormente reduzida para 15% após um esforço de lobby da indústria de jogos de azar. Tiveram sorte, neste caso. Presentemente, é difícil de medir o verdadeiro impacto do jogo nos países do continente, porque o mercado continua a ser pouco estudado, até por ser alvo de um crescimento exponencial demasiado recente.
Além disso, há um poderoso lobby de defesa da indústria. E a política de jogo afecta o emprego, os negócios, o turismo, o entretenimento, a prestação de serviços sociais, património cultural e religião. A este respeito, é interessante notar que
quase todos os países de maioria muçulmana proíbem o jogo por motivos religiosos. Com excepção dos casinos, países como os Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Jordânia, Líbano, Brunei, Somália, Sudão, Egipto, Indonésia, Qatar e Líbano têm uma proibição oficial sobre o jogo.
E as proibições de jogos de azar são motivadas por preocupações relacionadas com lavagem de dinheiro, vício em jogos e, no caso de apostas desportivas, questões relacionadas com a integridade do próprio desporto.
E a verdade é que as apostas desportivas têm estado, nos últimos anos, no centro de uma série de casos relacionados com actividades ilegais, como manipulação de resultados de grandes ligas europeias.
Do outro lado, e para além das casas de apostas, estão outros defensores do jogo online, como a American Gaming Association, a Professional Golfers Association e a National Basketball Association, que argumentam que a proibição de apostas reduz a receita necessária ao crescimento económico dos seus negócios. Um segundo argumento avançado contra
a proibição é que esta simplesmente empurrará o jogo para a marginalidade, o que contribuiria para um aumento geral da criminalidade, incidentes de manipulação de resultados e perda significativa de receitas dos governos.
“Os níveis de corrupção destas sociedades tendem a criar um cenário em que há um benefício percebido no dinheiro rápido e fácil. A forte publicidade dos fornecedores mostra milionários instantâneos. E esta é uma proposta incrivelmente atraente para quem precisa de esperança por causa do alto desemprego“, diz Victor Owuor, pesquisador associado da OEF Research. “O meu problema com estes jogos é que eles podem transformar-se em algo inimaginável, e a sua disseminação em cada esquina é claramente o maior perigo” diz.
O que nos leva a pensar que há ainda muito jogo pela frente, para que se chegue ao resultado final. Qual será?
Vai uma aposta?
TExTO Pedro cativelos
FOTOgrAFIA Jay Garrido
Jogos da Premier League concentram as atenções de apostadores por toda a áfrica
“Há
um potencial de crescimento grande”
alcinda santiago
Directora-geral da Sojogo
a sojogo existe em moçambique desde 2004, uma época em que o mercado dos jogos de sorte e azar era substancialmente diferente do que é hoje, em que essencialmente é dominado pelas apostas e os novos jogos online.
A esse respeito, o facto de ser uma associação sem fins lucrativos inspirada no modelo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, em que parte das receitas da lotaria, totobola, totoloto e joker são aplicadas, para além do pagamento dos prémios, em fins de cariz social, faz da Sojogo um caso diferente no panorama nacional.
Numa altura de mudanças de paradigma neste segmento, não só em Moçambique como por todo o continente africano, Alcinda Santiago explica à E&M os próximos passos da Sojogo para competir com os novos players digitais do mundo dos jogos e poder cumprir, na plenitude, a sua missão de contribuir para projectos sociais.
Como é que a Sojogo tem estado a evoluir, 15 anos após ter entrado no mercado?
A Sojogo começou em 2004, a pedido da ELAM (Empresa de
Lotarias e Apostas Mútuas de Moçambique) para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (cujo departamento de jogos tem por objectivo assegurar a exploração dos jogos sociais do Estado português em regime de exclusividade), entrar nesta associação sem fins lucrativos. A Santa Casa entrou com o material e com o know-how.
Entre 2004 e 2015 a operação, pelo menos do ponto de vista exterior, parecia não ter grande expressão no mercado. O que mudou desde então?
Continuámos a vender quatro jogos: lotaria, totobola, totoloto e joker (acoplado ao totoloto ou ao totobola). Mas, em 2016, verificámos que a empresa precisava realmente de um refresh, porque o mundo estava a mudar, especialmente com as apostas. Chegámos à conclusão que a Sojogo estava desactualizada nos canais de distribuição e havia alguns constrangimentos logísticos. A mudança começou quando percebemos que aqui em Moçambique uma grande aceitação do uSSd, das carteiras móveis, e começámos a estudar a hipótese de pôr os
QuANdo NoS dEfiNiMoS
ENQuANto
ASSoCiAção SEM fiNS LuCrAtivoS EStipuLáMoS
QuE uMA pArtE dE todA A rECEitA ENtrA pArA préMioS, ENQuANto QuE o rEStANtE é dEStiNAdo A fiNANCiAr A opErAção E A diStribuir oS LuCroS pELoS projECtoS E ASSoCiAçõES dE SoLidAriEdAdE SoCiAL doS NoSSoS pArCEiroS
nossos jogos nessa plataforma utilizando as capacidades da carteira móvel do bCi tínhamos de nos preparar para toda esta mudança que já se sabia que aí vinha e que agora verificamos pelo ritmo da abertura de casas de jogo, em que até os sites começaram a crescer no mercado.
Há uma diferença dos jogos sociais da Sojogo e os demais. Em que medida? Quando nos definimos enquanto associação sem fins lucrativos nas apostas múltiplas — totobola, totoloto e joker — estipulámos que uma parte de toda a receita, neste caso 50% da semanal desse jogo especificamente, entra para prémios, enquanto que restante é destinado a financiar a operação e a distribuir os lucros pelos projectos e associações de solidariedade social dos nossos parceiros. A distribuição de resultados é feita directamente às 13 associações definidas nos estaturos (fundação Lurdes Mutola, fundação de desporto e Acção Social entre outras) e aos seus projectos sociais. Ainda não conseguimos atingir este objectivo mas esperamos que venha a acontecer brevemente, quando os resultados desta mudança operacional estiverem consumados.
A confiança por parte do mercado é fundamental. Imagino que os custos em segurança sejam elevados, é assim?
Sem dúvida. A extracção semanal da lotaria que é transmitida pela tvM, por exemplo, obriga-nos a um júri que
Na voz de...
tem sempre alguém da inspecção-geral de jogos aqui mesmo nas instalações que inaugurámos. o sorteio não avança enquanto todos os boletins não estão digitalizados e devidamente arquivados e guardados no servidor. E há muitas outras regras de segurança, acompanhadas de uma avaliação constante dos procedimentos. A Santa Casa vende jogos há mais de 200 anos e sempre foi assim.
Apesar de tudo, os prémios têm uma dimensão considerável para a realidade nacional...
Sim, mas há um potencial de crescimento ainda grande em Moçambique. E, devo dizer, a operação já foi bem maior, já tivemos muito mais apostadores do que aqueles que temos hoje. A lotaria é um jogo bancado, ou seja, quando imprimimos os bilhetes com cinco fracções, (como exemplo, se forem 50 mil bilhetes, falamos de 250 mil fracções), sabemos que cada bilhete se habilita a um prémio total de dois milhões, dois milhões e meio, ou quatro milhões de meticais. A lotaria é um jogo diferente que muitas vezes dá prejuízo a quem o promove até. posso dizer-lhe que, só este ano, a Sojogo já pagou oito primeiros prémios perfazendo um valor agregado de 17 milhões de meticais. E, no total, em todos os seus jogos (Lotaria, totobola, totoloto e joker), esse valor ultrapassa já os 57 milhões de meticais.
Como dizia, o mercado mudou. Como é que se posicionam face a essa mudança, até dos hábitos de jogo dos moçambicanos? desde 2017 que a operação sofreu um pouco com essa mudança, mas sobretudo pela concorrência. A legal, que é salutar para o mercado, mas também da desleal, que existe. Nós temos aqui a noção que, possivelmente, ainda não está
“o QuE prEtENdEMoS é SiMpLESMENtE rEpoSiCioNArMo-
NoS No MErCAdo pArA podEr diStribuir oS rECurSoS pArA o fiM SoCiAL QuE EStá NA bASE dA idENtidAdE dA Sojogo AQui EM MoçAMbiQuE”
tudo regulamentado e que há muitos sites que só estão aqui em território moçambicano, mas nem pagam cá impostos, pelo que se sabe. Mas acreditamos que o regulador irá continuar a fazer um trabalho de acompanhamento do mercado. Estamos em contacto com o regulador no sentido de dar o nosso know-how, e sempre disponíveis a ajudar. o que pretendemos é simplesmente reposicionarmo-nos no mercado para poder distribuir os recursos para o fim social que está na base da identidade da Sojogo aqui em Moçambique.
Face a essa concorrência, a Sojogo pondera mudar o
foco do negócio e adaptá-lo a essas novas tendências, por exemplo, das apostas desportivas e dos novos jogos online? para já, não. temos neste momento 45 agentes espalhados por todo o Moçambique. o que pretendemos é diversificar e ampliar a forma como as apostas são colocadas, fazê-lo de forma digital, cortando nos custos e na complexidade operacional que envolve o envio de milhares de boletins semanalmente para Maputo. Avançando com todo o processo de jogar no totoloto ou outro jogo, de forma digital, mais prática e cómoda para o apostador de qualquer região do país, e com o
capital de confiança que os apostadores foram adquirindo na Sojogo, irá, por si só, fazer uma grande diferença no nosso volume de apostas semanais e na receita operacional da Associação.
Como é que se controlam os valores dos impostos sendo que, na maioria destes jogos, não há facturas? bem... eu sei como nós fazemos, e é tudo claro, há boletins, e está tudo contabilizado. Como os outros fazem, não sei. repare: quando os concursos fecham, toda a informação é gravada num Cd que é selado, e posto num cofre. é dada uma cópia também selada ao inspector dos jogos.
No dia seguinte, quando se faz o sorteio, efectua-se depois a validação do prémio. Como lhe dizia, é tudo digitalizado, desde as matrizes a toda a informação do jogo. portanto, nós temos uma dinâmica muito rígida em termos de segurança e de credibilidade. A todos os níveis. depois, a nossa receita, está no nosso site. Quando se vai consultar os resultados de cada um dos jogos, está lá informação toda, desde a receita de cada jogo até aos valores de cada prémio atribuído.
Qual é o futuro imediato da Sojogo?
A mudança efectuada em 2016 foi feita para pôr as contas em dia, fazer a reestruturação financeira, instituir auditorias anuais (Ernest&Young). depois, a segunda fase foi arranjar dois novos canais de
distribuição (o uSSd e o site), e uma plataforma de jogo que gerisse essa parte. Hoje em dia, conseguimos pagar directamente os valores abaixo dos 25 mil meticais no dia seguinte através da carteira móvel do BCI. Por fim, a terceira fase é essa modernização e transição para o digital de toda a operação, ao nível nacional, de que falava.
Qual é o jogo que tem mais impacto e por que canais recebe o maior número de apostas?
A lotaria é o que tem mais peso, até porque, nesta altura, o digital não tem ainda o impacto que esperávamos.
Como é que uma lotaria semanal concorre com os novos jogos, mais imediatos e dinâmicos?
Neste tipo de jogos há, como é lógico, uma dinâmica diferente. falamos de algo semanal, não diário e os apostadores querem ganhar rápido, também sabemos. por isso é que temos de ser dinâmicos, e criar novos jogos e formas de interagir com as pessoas. Estamos a preparar dois jogos para o ano, com base numa nova dinâmica na nossa força de vendas. A lotaria e o totobola são jogos com apostadores muito fiéis, porque são jogos específicos. Verificámos isso quando o totobola não estava a sair e acumulou um jackpot de cerca de quatro milhões de meticais. Houve, de imediato, vendas brutais porque para além das pessoas que já apostavam regularmente o valor do prémio atraiu um grande número de novos apostadores. Em portugal, a Santa Casa tem sorteios todos os dias e cria essa dinâmica. Aqui, isso só acontece aos Sábados. Há ainda muito para crescer mas sabemos o que pretendemos fazer, de forma muito clara.
texto Pedro Cativelos fotografia Jay Garrido
Rubis na mão, mas falta dinheiRo nos bolsos em montepuez
Com a descoberta de abundantes recursos naturais, a esperança do desenvolvimento vai renascendo em várias províncias do país. Montepuez não é diferente, mas falta quase tudo para lá chegar
num país como moçambique e não só, (é justo dizer), acontece amiúde, uma coincidência entre a abundância de recursos naturais e níveis assustadores de pobreza. O distrito de Montepuez, sobretudo a localidade de Namanhumbir, não foge a essa regra. Apesar de ser um lugar rico em recursos naturais (rubis, mármore e grafite), sobretudo pedras preciosas, é no entanto uma terra pobre ao nível do desenvolvimento económico, social e humano. Foram os rubis que tornaram a localidade de Namanhumbir conhecida e
província cabo delgado
Distrito De Montepuez área
17. 874 kM²
Habitantes 218 Mil região norte
reconhecida nos grandes mercados de venda de pedras preciosas, sobretudo os orientais, como Singapura ou Hong Kong. Mas, por ali, a vida de todos os dias permanece como sempre foi: pacata, pobre e desprovida dos esboços primários do que se pode considerar crescimento e, claro, desenvolvimento.
Ali, encontrar leite fresco ou mesmo um sumo de pacote é, nos dias que correm, um verdadeiro luxo. E a fome, o desemprego e a pobreza extrema são realidades que se observam em cada esquina, apesar de toda a riqueza no subsolo
preocupações e mais preocupações Na verdade, preocupações são algo que não falta nesta comunidade, e em todo o distrito de Montepuez, onde garimpeiros ilegais são acusados pela população de estar a roubar produtos agrícolas e a escavar as machambas dos camponeses locais à procura de pedras preciosas, especialmente o rubi. As comunidades têm-se mostrado revoltadas com esta situação que está aparentemente fora do controlo da polícia. Depois, a população de Namanhumbir tem vindo a denunciar irregularidades na gestão dos fundos destinados ao desenvolvimento local, resultantes dos impostos pagos ao Estado pela exploração de rubis. Segundo informação avançada na altura pela imprensa, a comunidade recebeu cerca de 24 milhões de meticais ao longo dos últimos três anos, valor referente a 2,75% dos impostos pagos pela exploração do rubi em Montepuez, que deveriam ter sido adjudicados à execução de projectos de desenvolvimento local, segundo prevê a Lei de Minas.
Apesar desse valor ter sido aplicado na construção de infra-estruturas como salas de aula, mercados e na compra de sementes de milho para distribuição aos camponeses, a população não estava satisfeita com o processo de planificação e gestão dos fundos, inclusive com a qualidade das obras realizadas.
No entanto, a Administração do Posto de Namanhumbir reconheceu, na altura, “algumas preocupações da comunidade”, mas garantiu que os fundos “estavam a ser geridos de forma criteriosa”.
Cenário tende a mudar
Ainda que Namanhumbir continue a apresentar uma situação de pobreza extrema, por outro lado, nota-se que, aos poucos, esta face poderá mudar uma vez que a empresa Montepuez Ruby Mining (MRM), entidade responsável pela exploração daquela reserva de rubis detida pela multinacional Gemfields, avança à E&M estar a desenvolver actividades de forma a tirar a região do fosso. Segundo garantias dadas pelo grupo, o cenário tende a mudar de face.
Para tal, o grupo MRM diz à E&M que “desde que a empresa iniciou as suas operações tem contribuído de forma significativa no desenvolvimento económico do distrito de Montepuez e da localidade de Namanhumbir.”
À E&M, começa por explicar que uma das acções mais recentes do seu contributo para o desenvolvimento daquele
2,7
milhões de dólares
O valOr investidO pela MOntepuez ruby Mining eM acções de respOnsabilidade sOcial até 2019. só este anO, a previsãO é de uM investiMentO tOtal de 1,2 Milhões de dólares
distrito foi “a aquisição de uma nova unidade de selecção e classificação de rubis com tecnologia de ponta, sendo a primeira do género na indústria de pedras preciosas coloridas no mundo”, uma acção que, para a mineradora, “significa um grande impulso para o desenvolvimento do distrito, até porque implica a contratação de um maior número de trabalhadores ao nível local. Esta infra-estrutura obedece a um investimento de 15 milhões de dólares e vai aumentar de forma significativa os nossos níveis de produção, exigindo uma crescente contratação de trabalhadores locais e fazendo também aumentar a prestação de serviços ao nível do distrito”, revela a direcção da MRM. Como forma de trazer desenvolvimento económico na localidade de Namanhumbir, o grupo MRM enuncia ainda “um conjunto de acções de responsabilidade social, sobretudo nas áreas da saúde, agricultura e educação” que se enquadram numa política de investimentos sociais da empresa na localidade. “Até ao ano de 2018 já foram investidos 2,7 milhões de dólares, sendo que a previsão até ao final deste ano aponta para um volume total de 1,2 milhões de dólares.”
E a Ruby Mining vai ao detalhe: “no âmbito das acções de desenvolvimento comunitário, a MRM construiu um centro de formação técnico-vocacional para a capacitação de mão-de-obra local, com cursos como carpintaria, electricidade, pedreiro, canalizador e pintor de construção civil. Ademais, as comunidades beneficiam das oportunidades de emprego criadas e dos diferentes investimentos sociais feitos pela empresa, no âmbito da sua responsabilidade social corporativa”, garante a direcção. “Neste momento, a MRM emprega mais de 1 300 pessoas. Deste número, cerca de 700 são de Cabo Delgado e mais de 300 são mesmo provenientes das comunidades ao redor do empreendimento operado pela Ruby Mining”, complementa a mineradora, em resposta à E&M.
mais receitas e menos desenvolvimento Enquanto as comunidades de Namanhumbir reclamam pela pobreza que ainda prevalece naquela localidade, o mesmo já não se pode dizer quanto às receitas que estas pedras preciosas têm gerado para o Estado. Segundo dados revelados pelo grupo MRM, a exploração dos rubis já resultou em 117 milhões de dólares para o Governo moçambicano, na forma de impostos sobre a exportação e royalties resultantes da
província
venda. A esse respeito, e no que toca à comercialização de rubis nacionais em leilões realizados nos principais mercados orientais, os seus resultados não mostram outra coisa senão sucesso nas vendas. O que se comprova quando, até ao momento, a MRM já participou em 12 leilões, desde Junho de 2014, dos quais resultaram 512,6 milhões de dólares de receitas. E, de acordo com os resultados apresentados pela Gemfields, só em 2019 (no primeiro semestre) foram ‘garimpados’ 1,1 milhões de quilates. Entretanto, na localidade onde as pedras são exploradas, se algum desenvolvimento se nota, este parece caminhar ‘a passo de camaleão’.
Questionadas pela E&M, as autoridades ainda não se pronunciaram mas o que se sabe, até ao momento, é que Namanhumbir não está ainda em situação de se orgulhar de ter o maior reservatório de rubis ao nível mundial.
Num estudo desenvolvido em 2018 pela SEKELEKANI, uma instituição moçambicana independente, sem fins lucrativos, de promoção de comunicação para o desenvolvimento,concluía-sequeascomunidades
Desde Junho de 2014, a MRM já participou em 12 leilões internacionais de rubis que resultaram numa receita de 512,6 milhões de dólares
locais de Montepuez “não tiram proveitos socioeconómicos da exploração das minas de rubis”. De Namanhumbir, o director executivo da SEKELEKANI, Tomás Vieira Mário, dizia que “há um contraste entre o volume de pedras extraídas e vendidas com a realidade social da região.”
“Seria injusto afirmar que Namanhumbir está na rota do desenvolvimento, porque há muitos problemas. O grupo MRM tem feito a sua parte, mas o desemprego, a pobreza e o problema das vias de acesso são questões que devem continuar a preocupar todo o cidadão que vive em Namanhumbir”, garante, por sua vez, Rosário Calfim, um dos agentes económicos de Namanhumbir contactado pela E&M.
Na verdade, os rubis de Montepuez são hoje mais valiosos do que as suas gentes. Veremos se o seu futuro será tão precioso como o seu presente, até agora, envevenado.
Os 34,9 mil hectares de exploração de rubis de Montepuez são o maior depósito mundial desta pedra preciosa
OPINIÃO
A FinTech está a modificar o mundo bancário
Brett King • É autor, cofundador e CEO da Moven, uma startup de mobile banking sediada em Nova Iorque
durante o huawei financial services industry (fsi) summit, em Shanghai, exibiram-se os maiores players de serviços financeiros da China. Casos como do ICBC, o maior banco do mundo, juntamente com a China Life e outros, acabaram por falar das suas estratégias digitais no mundo do Banco 4.0. Houve uma grande discussão de ideias em torno do desenvolvimento e arquitectura da “A-P-P”, o termo para aplicações de software de smartphones móveis na China, juntamente com discussões sobre como a Inteligência Artificial, a “Internet of Things”, a “Cloud” e a “Edge Computing” estão a mudar os serviços financeiros.
Ma Yue, a vice-presidente da Huawei Enterprise BG e presidente da EBG Global Sales, disse, no seu discurso de abertura: “A indústria de serviços financeiros entrou na era 4.0. Os serviços financeiros estão a tornar-se omnipresentes impulsionando as instituições financeiras a construírem plataformas e ecossistemas para permitir a criação de novos modelos de negócios e serviços. A Inteligência Artificial e a big data tornaram-se forças motrizes fundamentais que permitem a inovação financeira nos negócios.” É evidente, num ecossistema onde a Ant Financial e a Tencent tiveram um impacto tão marcante nos pagamentos bancários do dia-a-dia, que toda a indústria terá que se adaptar rapidamente. Jason Cao, o presidente da Huawei EBG Financial Services Industry, anunciou a Financial Services Industry Advisory Board (FIAB), que incluía directores digitais de bancos da Rússia, Turquia, Malásia, Europa Oriental e América Latina. A este respeito, a Huawei espera obter feedback do sector sobre as prioridades para o seu mapa tecnológico e ofertas no espaço de serviços financeiros. Nas discussões, ficou claro que os bancos com as melhores hipóteses de realmente se transformarem devem pensar de forma muito, muito diferente do banco médio - na verdade, eles estão a ser forçados a tal. O ICBC e a Bradesco apresentaram as suas tecnologias de Inteligência Artificial, como os chatbots e assistentes de IA
baseados em voz que poderiam responder a inquéritos de call center com cerca de 95% de precisão, e o ICBC discutiu tecnologias biométricas que permitem que os seus parceiros possam usar o reconhecimento facial em actividades comerciais diárias na China. Claramente, ambas as tecnologias já estão a ser amplamente usadas pelos gigantes da tecnologia destes lados. O ICBC deixou claro que se vê como uma plataforma para incorporar os bancos no mundo dos seus clientes e, para isso, reconhece que a mudança mais significativa é que eles não estão a investir onde os clientes vão à procura dos seus bancos. Assim, o ICBC investiu biliões no desenvolvimento de várias tecnologias que permitem que o Governo, FinTechs e StartUps, empresas de tecnologia e muito mais façam parcerias com uma ampla gama de recursos. Seja isso fornecer um financiamento, “basic banking”, gestão de identidade, capacidades antifraude, gestão financeira e de fluxo de caixa, entre outras, através desta plataforma.
O ICBC fez uma parceria com a Huawei no desenvolvimento de uma série dessas tecnologias-chave. Para as capacidades da Inteligência Artificial, grande parte dos recursos do ICBC vieram da própria arquitectura da Cloud da Huawei e agora são como “chipsets” dedicados à IA. A ICBC Big Data Cloud, em parceria com a Huawei, mantém cerca de cinco terabytes de dados acessíveis em forma anónima e agregada por parceiros integrados no ecossistema do ICBC. Quantos bancos com sede nos EUA ou na UE estão a ir além dos requisitos bancários abertos para realmente criarem pesquisas de Big Data que as FinTech, parceiros de comércio electrónico e tecnologias podem alavancar? Conheço três, em todo o mundo. Também bancos como o Starling, N26, Monzo e a Moven têm permitido este acesso API por anos, é claro.
A segunda parte deste artigo será publicada na edição de Dezembro da Economia & Mercado.
É evidente, num ecossistema onde a Ant Financial e a Tencent tiveram um impacto tão marcante nos pagamentos bancários do dia-a-dia, que toda a indústria terá que se adaptar rapidamente
mercado e finanças
o jackpot das mil e uma dúvidas
Enquanto a velocidade com que se ruma à produção de LNG continuar maior do que criação de condições para a retenção dos benefícios, a “maldição” parecerá mais certa que a “bênção”. Em 2024 teremos a resposta
não têm faltado razões para “esfregar as mãos” à espera dos petrodólares. Em Junho deste ano, a Decisão Final de Investimento (DFI) pelo consórcio que opera a Área 1 na Bacia do Rovuma sinalizava a prontidão para arrancar com a construção das plataformas de liquefacção de gás na Bacia do Rovuma e já havia dissipado quaisquer dúvidas sobre o ingresso de Moçambique na lista dos maiores produtores de gás do mundo.
A certeza da entrada, em breve, de grandes volumes de investimentos ficou, depois, reforçada, em Outubro passado, quando as multinacionais proprietárias do projecto Rovuma LNG, que operam a Área 4 da Bacia do Rovuma, nomeadamente a Exxon Mobil (EUA), Eni (Itália), CNPC (China), Galp (Portugal), ENH (Moçambique) e Kogas (Coreia do Sul), anunciaram a Decisão Inicial de Investimento (DII, um passo importante para a DFI, já no
15,2
Milhões de toneladas é o volume da produção de GNl projectado pelos operadores da Área 4 No projecto rovuma lNG
próximo ano) na produção, liquefacção e comercialização de gás do campo Mamba, que prevê produzir 15,2 milhões de toneladas de gás por ano.
É a oportunidade pela qual, há muito, o país espera. O plano traçado pelos parceiros da Área 4 preconiza, desde já, um pacote de investimentos na ordem de 520 milhões de dólares em actividades preparatórias (reassentamento e primeiras infra-estruturas). Mas é na segunda fase, que se inicia no próximo ano, que os investimentos ‘explodem’, apontando-se para um valor entre 27 e 33 mil milhões de dólares, dos mais elevados da história do continente, com ganhos nominais estimados para o Estado na ordem de 46 mil milhões de dólares (ao longo do período de concessão de 25 anos) e 3,8 mil milhões para a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH). Além disso, só neste projecto, prevê-se
a criação de 5 000 postos de trabalho, os mesmos previstos pela Área 1, onde serão investidos 25 mil milhões de dólares até ao início da produção e exportação de gás em 2024.
“O desenvolvimento do Rovuma LNG impulsionará a industrialização do país em benefício das gerações vindouras. Moçambique tornar-se-á num dos principais exportadores mundiais de GNL e num importante actor de energia no contexto global”, assumiu o vice-presidente da Exxon Mobil Upstream Oil and Gas, Peter Clarke, na altura em que anunciou a DII.
tempo aperta, dúvidas crescem
Muito dinheiro entrará, o PIB irá inevitavelmente crescer e até disparar para um ritmo a dois dígitos ao ano. Isso tem sido motivo de euforia depois de anos de espera nervosa. No entanto, riqueza para o país é uma outra história, pelo menos enquanto não houver clareza sobre o que se vai fazer com o dinheiro de um recurso que é esgotável…
A E&M ouviu um académico e uma pesquisadora de assuntos relacionados com a indústria extractiva. Trata-se de Constantino Marrengula, professor da Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) e Inocência Mapisse, economista do Centro de Integridade Pública (CIP).
A leitura que fazem sobre o evoluir da situação é de certa intranquilidade, por entenderem haver muito poucos sinais que demonstrem capacidade de transformar em desenvolvimento os petrodólares que virão. Pela primeira vez “o Estado vai arrecadar receitas suficientes para eliminar o défice orçamental e tornar-se auto-suficiente, mas não há sinais de que vá aplicar esta capacidade na diversificação da economia”, defende o académico Constantino Marrengula, argumentando que já seria tempo de se promover discussões abertas sobre o modelo de investimento nas áreas prioritárias (na sua opinião agricultura, educação e saúde), e “não esperar pelo dinheiro para depois pensar, que é o que parece estar a acontecer”. Marrengula lembra mesmo que países ricos em recursos que falharam o objectivo do desenvolvimento, como a Nigéria, “tiveram um percurso parecido com a fase actual de Moçambique, em que os problemas são teoricamente abordados, mas com pouca efectividade prática”. Aponta o Botsuana como o país onde Moçambique deveria buscar refe-
rências e adaptá-las à sua realidade. E criticou ainda o facto de as discussões sobre a Lei de Conteúdo Local demorarem a produzir consensos entre o Governo e o empresariado, o que “poderá limitar o ‘abrir de torneiras’ ao sector privado nacional favorecendo as empresas estrangeiras que já se movem para estas oportunidades”.
Já a pesquisadora Inocência Mapisse vê os erros que vierem a ser cometidos como o prolongamento dos que já vêm sendo associados ao processo, referindo-se ao que chama de “vantagens fiscais desnecessárias aos mega-projectos, sobretudo da indústria extractiva”, há muito criticadas pela organização que representa, o CIP. Mapisse diz ser nos impostos que o Governo deve procurar maximizar os benefícios da exploração do gás e avança o exemplo da Kenmare Resources (mineradora australiana que explora areias pesadas de Moma, Nampula) como um erro a evitar. Em Agosto deste ano, um estudo do CIP, da autoria desta economista, concluiu que, devido aos benefícios fiscais dados à Kenmare, “o Estado teria perdido cerca de 30 milhões de euros entre 2011 a 2018, período em que terá acumulado lucros na ordem de 300 milhões de euros. O que mostra que a contribuição destes projectos não está nem sequer perto do potencial que eles deviam trazer para o país”, conclui a pesquisadora, temendo que isto se repita quando for a vez de explorar o gás. Por isso sugere maior transparência na exploração de todos os recursos naturais.
De resto, há muito tempo que o sector privado procura assegurar uma posição de vantagem (e já vai atrasado), mas as condições não o favorecem: fraca capacidade financeira, taxas de juro elevadas (cerca de 30%) e fraco domínio das boas práticas empresariais. Já as multinacionais garantem prontidão a estabelecer parcerias com empresas moçambicanas em todas as fases dos projectos, mas está quase tudo desorientado internamente. Os empresários, na sua maioria, não sabem por onde começar para obterem vantagens das imensas oportunidades que se avizinham. Apesar das inúmeras limitações, a CTA entende que a situação não é irreversível, já que “existem empresas capazes de participar nos projectos”, mas admite que estas “precisam de parcerias internacionais para adquirir ‘know how’”, de acordo com Abreu Muhimua, presidente do pelouro dos recursos minerais, hidrocarbonetos e energia da CTA.
Benefícios de MoçaMBique no projecto rovuMa LnG
Inúmeros investimentos sociais deverão acompanhar o desenvolvimento do empreendimento, enquanto outros serão provavelmente anunciados no momento da DFI. Para já, é possível conhecer algumas projecções do que o país pode reter como ganho
46 000 000 000
27 000 000 000 de dólares em receitas ao longo do período de exploração
de dólares em investimento directo na primeira fase
3 800 000 000
de dólares de receitas para a ENH
5 000
milhões de pés cúbicos de gás serão canalizados para consumo interno 500 empregos directos para moçambicanos
mercado e finanças
De acordo com o projecto aprovado, o investimento de 27 mil milhões de dólares inicia-se em 2020
É esta a nova orientação da CTA, que recentemente rubricou acordos de cooperação com um conjunto de empresas brasileiras experientes em matérias de fornecimento de bens e serviços a empreendimentos petrolíferos. Enquanto isso não acontece, as oportunidades vão favorecendo as empresas estrangeiras mais bem preparadas. Dados apontam que, só em 2018, “registaram-se em Moçambique 270 empresas, maioritariamente da África do Sul, Brasil e Portugal, de olho nas oportunidades do gás”, de acordo com o presidente da Comissão de Conteúdo Local e Ligações Empresariais da CTA, Florival Mucave. conteúdo local: instrumento da discórdia Nem por esta via se consegue avançar com celeridade. A Lei de Conteúdo Local é o principal instrumento de que Moçambique deve dispor para proteger o interesse nacional (prevê, entre outras vantagens, que as multinacionais sub-contratem um parceiro nacional que comparticipe com 15%). Mas tem merecido críticas por parte da CTA por demorar a ser aprovada, depois de mais de 12 anos de preparação e mesmo com a pressão do tempo. Por exemplo, a Lei não será aplicável à Área 1, porque até á data da DFI, em Junho, ainda não tinha sido aprovada.
liF i pe Nyusi
“a exploração dos recursos minerais não se deve transformar em ‘maldição’, tal como noutras realidades… Queremos e devemos fazer diferente… Continuem (multinacionais) a apostar na formação de nacionais para que ascendam aos potenciais empregos”.
Mucave entende ser por “interesses lobistas” a falta de interesse em ter a Lei de Conteúdo Local. Refere-se à possibilidade de haver grupos que ganham comissões por trazer empresários estrangeiros ao país, o que não aconteceria se houvesse uma legislação específica.
O Governo, através do director nacional de Estudos Económicos e Financeiros do Ministério da Economia e Finanças, Vasco Nhabinde, tinha prometido, em finais de Maio, que a lei seria aprovada antes do fim de 2019. Em Agosto foi aprovada pelo Conselho Económico, dando luz verde para avançar para o Parlamento, mesmo sem reunir consenso por parte da CTA, na cláusula que diz respeito à participação de 15% adquirida por via da BVM. No entanto, a proposta de lei só será debatida na AR no próximo ano.
A construção das plataformas está aí à porta. Há alguns anos o Governo elaborou um plano de formação no exterior, à luz do qual enviou jovens estudantes para se formarem em diversos países. Mas não há qualquer feedback sobre a disponibilidade desta mão-de-obra.
Em entrevista à edição de Julho da E&M, o PCA da ENH revelava preocupação em relação a esta questão. “Precisamos de saber quantos moçambicanos poderão ser empregues no período de construção dos projectos, que é a fase em que há maior procura de mão-de-obra diversificada ao nível das empreitadas que estão a ser elaboradas. Penso que aí, Moçambique poderá ter uma grande oportunidade, mas é preciso formar pessoas”, avançava o responsável, atribuindo votos de confiança ao Exectivo, através dos ministérios do Trabalho e dos Recursos Minerais e Energia que, no seu entender, “realizaram grande esforço no sentido de estabelecer balizas e termos de referência para formar moçambicanos que possam substituir estrangeiros no período de construção”. Mithá é da opinião que o quadro preparatório para que o gás não seja uma maldição “está a ser tomado em conta, porque há um sério envolvimento do Govero”. E avança como exemplo o facto de o Executivo “ponderar a criação de um Fundo Soberano”. Mas avisa que será “importante que as despesas que forem aprovadas sejam conscientes, muito bem estudadas e que não sejam apropriadas por um grupo de pessoas”.
texto Celso Chambisso FotograFIa istoCk Photos
empresas
Uma ideia ‘fantástica’ mesmo no lUgar certo
A Susamati é uma startup que encontrou o seu ‘nicho’ na produção de vasos sanitários ecológicos. E até já venceu prémios no estrangeiro por isso
longe vão os tempos em que era pouco habitual vermos projectos moçambicanos dedicados a criar soluções sustentáveis, sobretudo relacionadas com o meio ambiente. O projecto Susamati, uma startup recém-criada (um ano de funcionamento) por um grupo de jovens moçambicanos, é a prova de que é, de facto, possível fazer mais pela Natureza principalmente nos dias que correm, em que os recursos hídricos tendem a escassear devido às mudanças climáticas. E foi por isso que criou um conceito interessante, com um nome ainda mais sugestivo — “pia fantástica” — que, de fantástico, tem o facto de apresentar uma poupança de mais de 95% de água quando comparado com os vasos sanitários convencionais, segundo a explicação do Manuel Alberto, o jovem fundador do projecto. “O nosso projecto tem uma componente muito importante para o meio ambiente, que é o facto de este dispositivo usar apenas o equivalente a um copo de água para fazer a descarga. O facto de ela não ter o sifão, mas uma tampa no fim da descarga, permite que se use uma ínfima quantidade água”, explica. O seu valor de aquisição é também substancialmente mais acessível, se comparado com os vasos sanitários convencionais. “O equipamento está a ser colocado no mercado por apenas 800 meticais, enquanto o vaso sanitário convencional, feito de porcelana, varia entre 1 250 e 1 500 meticais”, frisa o fundador. O sucesso do projecto Susamati mede-se até pelo destaque que tem tido ao nível nacional e em toda a África. Ainda recentemente, no ClimateLaunchpad, a maior competição global de ideias de negócios verdes, na qual participam mais de 2 500 ideias de mais de 50 países, foi classificado como um dos melhores projectos de negócios verdes do continente africano, um feito alcançado durante a fase regional deste concurso de soluções relacionadas com as
piafantástica
mudanças climáticas que decorreu em Nairobi, capital queniana, a 11 e 12 de Outubro. No evento, oito países estiveram representados, num universo de 30 startups a competirem pelos lugares de pódio. De entre todas as melhores africanas, a Susamati ocupou a terceira posição (acompanhada de um outro projecto moçambicano, o Nsila, que também foi distinguido como um dos oito melhores do continente). Antes, e poucas semanas após o seu lançamento, já a ‘pia fantástica’ havia merecido, uma distinção no concurso da startup da TOTAL, em 2018.
Manuel Alberto reconhece que as distinções, atribuídas tanto dentro como fora de portas, marcam “o reconhecimento de longos anos de trabalho e de pesquisa aplicada para trazer ao mercado a solução que é esta ‘pia fantástica’”, regozija-se. “Estas vitórias não teriam sido possíveis sem o apoio incondicional das entidades organizadoras deste evento e de todos os que acreditam no projecto e nos incentivam a crescer. É mais um elemento catalisador e motivacional para a Susamati”, garantiu o fundador do projecto. Quanto à aceitação das “pias fantásticas”, Manuel Alberto não hesitou em afirmar que as vendas correm a bom ritmo. “Hoje em dia, recebemos solicitações de pessoas que vivem em diversas províncias do país. Além disso, conseguimos vender uma média de 12 vasos sanitários por mês, e para nós isso é um bom sinal tendo em conta que estamos a falar de uma solução ambiental com apenas um ano de existência”, sublinhou o responsável. E Manuel Alberto acredita que é possível chegar ainda mais longe. “O nosso desafio é conseguir disponibilizar cerca de mil vasos sanitários por mês. É difícil, mas acreditamos neste produto fantástico”.
Bempresa SuSamati Fundação 2018
Fundador manuel alberto Colaboradores 6
12
número de vasos sanitários vendidos por mês
texto Hermenegildo langa fotografia Jay garrido
megafone
Estratégia PME+ do Banco Único PrEMiada
“Acrescentar valor real e contribuir de forma tangível e eficaz para a promoção da inclusão financeira, assim como a construção de uma economia mais sólida e robusta”, foi o propósito da criação do projecto de responsabilidade social designada PME+, no qual o Banco Único mereceu a sua primeira distinção internacional pelo portal financeiro Global Business Outlook.
Para o Banco Único, liderado por António Correia, este reconhecimento internacional é motivo de satisfação, visto que “é a confirmação de uma aposta certa”. Mais do que isso, a instituição bancária refere que a sua “ambição e compromisso é de fazer a diferença no mercado e no país, contribuindo de forma relevante para acrescentar valor na vida de todos os seus stakeholders”.
laM vai aMPliar frota Para introduzir rotas intErnacionais
companhia aérea quer beneficiar do fim da proibição de voos para a Europa
as linhas aéreas de moçambique (lam) vão investir até 120 milhões de dólares em novos aviões e intensificar a sua presença nas rotas africanas, tencionando ligar África do Sul a Lisboa. Segundo o director-geral da empresa, João Carlos Pó Jorge, esta quer ainda intensificar a sua frequência para Dar-Es-Salaam (Tanzânia), Harare (Zimbabué), Lusaka (Zâmbia) e Gaborone (Botsuana).
“Em África queremos penetrar mais no mercado sul-africano e também queremos disponibilizar a Portugal o acesso a este mercado”, afirmou o gestor, à margem de um evento em Lisboa. “Já estamos a trabalhar com as companhias (desses países) para que isto suceda logo que o mercado cresça não só ao nível regional como também internacional”, reforçou.
colaBoradorEs da PuMa caPacitados EM sEgurança rodoviÁria
Contribuir para a redução dos acidentes de viação no país é o objectivo da campanha de sensibilização da Puma Energy, realizada recentemente. Trata-se de uma acção que visa sensibilizar os trabalhadores da empresa sobre as consequências que advêm dos acidentes rodoviários. Para Ivanilson Machado, director-geral da empresa, “a campanha é importante para os trabalhadores, visto que todos temos um papel fundamental a desempenhar. O objectivo é formar. Se cada um fizer a sua parte evitaremos acidentes’’, afirmou, realçando a “responsabilidade de cada cidadão no combate à sinistralidade rodoviária”.
ruanda lança
PriMEiros sMartPhonEs fEitos EM África
MinErva E continEntal criaM novo concEito dE loja
Aliar o espaço de venda de livros com “uma oferta de pastelaria, cafetaria e restauração de alta qualidade” é o propósito anunciado da inauguração do novo espaço “Minerva & Continental”. Trata-se de um novo conceito, localizado na baixa de Maputo (antigo café Continental) avaliado em mais de 150 milhões de meticais, que será inaugurado em Novembro, na baixa de Maputo e que criará 50 postos de trabalho nacionais.
A LAM foi, originalmente, criada em 1936 com a designação de Direcção de Exploração de Transportes Aéreos (DETA). Evoluiu até ao que se conhece, nos dias de hoje, sendo a companhia de bandeira nacional e líder destacada do mercado doméstico. Actualmente tem quatro aviões a jacto (Boeing 737-700, Boeing 737500, Embraer 190), e um turbo-hélice (Q300).
“Mara X e Mara Z” são os primeiros smartphones “Made in Africa”, com sistema operacional Android, fabricados inteiramente no Ruanda.
Dotados de tecnologia totalmente africana, desenvolvida pela empresa Mara Group, os dois smartphones são anunciados como “um impulso às ambições do país de se tornar um centro de tecnologia regional.” Os modelos pretendem competir no mercado local com a Tecno e a Samsung, num investimento de cerca de 24 milhões de dólares que tem, para já, uma produção prevista de até 1 200 telefones por dia.
figura do mês
Chegámos a um ponto de maior ConsistênCia na nossa intervenção”
Lara narCy
Directora de Relações Corporativas da Vodacom
a vodacom é, como se sabe, líder de segmento das comunicações móveis no país mas, nos últimos anos, também tem feito aumentar a sua contribuição na área da responsabilidade social, estando já anunciado que 1% da receita da empresa irá passar a ser dedicada precisamente a esta vertente. É nesse sentido, de resto, que, à imagem do que acontece noutros mercados, a partir do próximo ano, será lançada a Fundação Vodacom que se irá ocupar de um investimento social que é indissociável do valor que a marca quer agregar ao mercado nacional.
A Vodacom tem aumentado os recursos adjudicados à responsabilidade social. Quais são as guidelines deste investimento?
A responsabilidade corporativa da Vodacom não se esgota no campo social e a empresa esforça-se por ser responsável em todas as suas áreas de intervenção. É também uma questão de sustentabilidade: garantir que na nossa actuação protegemos as pessoas e o planeta, mas também que conduzimos o negócio de forma a gerarmos a riqueza necessária para conseguirmos garantir o nosso propósito e alcançar o impacto
positivo que desejamos. Nesse sentido, o foco do nosso investimento social é no sector de Educação, através do ‘Vodacom Faz Crescer’ porque acreditamos que a educação é a base da transformação social e do desenvolvimento inclusivo. Investimos em inovação, juventude e capital humano através de uma parceria com a Embaixada da Holanda para apoiar o Orange Corners Maputo, também através da qual os nossos executivos leccionam Masterclasses e fazem mentoria a jovens empreendedores. Outro exemplo é o Code Like a Girl, uma iniciativa que traz jovens raparigas do ensino secundário à Vodacom para aprenderem a programar. Além disso, a Vodacom
cvcurriculum vitae
Lara Narcy é advogada de formação e directora de relações Corporativas da Vodacom Moçambique.
faz algumas doações (sementes para camponeses desfavorecidos e combate à malária) e tem memorandos de entendimento com o INATTER, (através do qual promovemos a educação cívica para a segurança rodoviário), ou com o INGC, (que nos permite ajudar imediatamente em caso de resposta a emergências). Finalmente, realço a Iniciativa de Impacto Social dos colaboradores, que busca promover o voluntariado e o engajamento dos nossos colegas com causas sociais.
O ‘Faz Crescer’ é um marco na vossa actuação e tem tido impacto nacional. É para continuar e, eventualmente, alargar o âmbito do programa? É aquilo a que chamamos o Hero Project (cada mercado do grupo Vodafone tem um). O programa tem como principal objectivo levar a inclusão digital às escolas, através do apetrechamento de salas de informática, formação de professores, fornecimento de internet gratuita e de um acervo de livros e conteúdos digitais. O programa está a ser ampliado para incluir hortas escolares, com o envolvimento de professores, alunos e suas famílias e já a ser equacionadas outras
componentes. Até meados de 2019, em cerca de um ano e meio, interviemos em 23 escolas, entregando 390 computadores, 8 000 livros e 1 150 GB de Internet. Só em 2018, a Vodacom alcançou quase 38 000 alunos.
Em que ponto está, nesta altura, a Fundação Vodacom? Chegámos a um ponto em que era preciso dar mais consistência à nossa intervenção, para a tornar mais sustentável e ampliar o seu impacto, aumentando também a nossa capacidade para monitorar e avaliar os resultados que alcançámos. Consideramos que a melhor forma de o fazer seria através de uma entidade legalmente independente e com autonomia, que assegure estrategicamente os objectivos de investimento social e de impacto da empresa, de forma descomprometida e independente das decisões de negócio. A actuação da Fundação é enquadrada pelos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e pela agenda nacional de desenvolvimento. As suas principais áreas de intervenção vão ser a educação, a inovação e o “empoderamento” de jovens e mulheres.
A título pessoal, e sendo alguém com formação noutra área, o que leva de tudo isto? É extremamente gratificante. Nós vivemos num país em que falta fazer quase tudo... Poder trabalhar na área de investimento social é um desafio para mim. Como digo, estou um bocadinho fora do meu meio, mas todos os dias redescubro como ajudar mais e o que se pode melhorar. Um dia, vou sair daqui uma profissional melhor, com mais experiência, mais exposição e, sem dúvida, uma noção muito maior do que é o nosso Moçambique.
texto Pedro Cativelos fotografia Jay Garrido
desafio constante
“Poder trabalhar na área de investimento social é um desafio para mim”
sociedade
olhar por MoçaMbique
A vontade de ajudar a população da província de Nampula juntou uma ONG, uma multinacional e uma universidade moçambicana com o objectivo de fazer um rastreio visual e oferecer óculos a quem mais precisa
a helpo é uma ONG para o Desenvolvimento, em Moçambique desde 2008, com base de actuação nas províncias de Cabo Delgado, Niassa, Nampula e Manica onde, em conjunto com outras instituições locais, procura minimizar a exclusão das populações mais vulneráveis.
Direccionada para a educação e nutrição materno-infantil, tem tido um papel fundamental na inclusão das comunidades locais através da construção de escolas, centros de nutrição, sistemas de aproveitamento de águas pluviais, entre outros aspectos de igual valor.
E foi ao caminhar pela terra vermelha do norte do país que Carlos Almeida, coordenador de projectos da Helpo em Moçambique, verificou que ali havia um incontável número de crianças que não viam com nitidez a cor do chão e as letras dos livros da escola. É do conhecimento público que Moçambique ainda não conseguiu formar optometristas em número suficiente para atender um país tão vasto e com tantos problemas.
Não estamos a falar de médicos que operam e tratam
doenças ocularesm, mas de especialistas capazes de medir o grau de visão e através de um par de óculos com lentes apropriadas, colocar os olhos a verem tudo à volta tal como é. “A Grandvision Multiopticas já trabalhava connosco em Portugal e quando trocámos impressões acerca das dificuldades que existem em Moçambique para as pessoas conseguirem comprar óculos que minimizem os seus problemas, a resposta foi ‘nós vamos ajudar’”, relata Carlos Almeida à E&M. Mas para que a acção fosse mais abrangente era preciso envolver os alunos finalistas do curso de optometria ministrado na Universidade de Lúrio.
Tudo começa na vontade Também aqui a resposta foi positiva, com a vice-reitora Sonia Maciel a apoiar a iniciativa. Estava assim criado o projecto piloto baptizado a partir de um conceito simbólico e cheio de sentido: “Olhar por Moçambique”. Antes de partir, a empresa portuguesa Multiopticas deu início a uma campanha na qual os clientes poderiam doar os seus óculos que já estavam desajustados aos seus
1000
rastreios visuais
InIcIalmente estavam prevIstos apenas 600, mas a procura excedeu as expectatIvas e foram maIs de um mIlhar os moçambIcanos abrangIdos
olhos, para que fossem depois restaurados e levados em conjunto com mais lentes e equipamento de rastreio visual para Moçambique. O objectivo da acção passava por assinalar o Dia Mundial da Visão onde ela é um bem escasso. E Moçambique foi o destino escolhido, não só pela proximidade da língua como também pelas dificuldades que as populações nas zonas recônditas enfrentam a este respeito. E foi dessa forma que, com o apoio das transportadoras aéreas TAP e LAM, que ofereceram isenção de taxa na bagagem extra, uma equipa de seis pessoas partiu então para Maputo, onde fez escala para chegar a Nampula, preparada para fazer 600 rastreios de optometria a uma população previamente rastreada pelos técnicos da Helpo. À sua espera estavam 13 alunos finalistas do curso de optometria e um professor da Universidade de Lúrio.
No caminho da terra vermelha Os locais escolhidos para este projecto piloto foram a Ilha e Marrere, ambos em Nampula, e os 600 rastreios iniciais acabaram por aumentar para os mil. Durante
11 dias, passaram pelas mãos dos optometristas profissionais e estudantes finalistas, crianças, jovens, adultos, militares, polícias e até a ministra da Saúde, Nazira Abdula, que estando nas redondezas, foi fazer um rastreio e apoiar politicamente a iniciativa. Mas a missão não era só dar qualidade de vida à população. Havia também a vontade de oferecer um estágio a dois alunos da universidade que se destacassem no terreno, ao mesmo tempo que todo o equipamento levado de Portugal seria doado, para complemento técnico ao curso de optometria.
Ana Portugal, que na GrandVision Portugal, grupo ao qual a MultiOpticas pertence, assume o departamento de Responsabilidade Socia,l refere que “o valor em óculos, armações e lentes foi cerca de 13 mil euros ao que se juntaram
mais 20 mil em equipamento doado” para acrescentar que “este valor não é nada quando comparado com o bem que foi feito, especialmente em jovens que tinham perda de visão já muito avançada e alguns nem sabiam o quão grave era”.
Carlos Almeida reforça essa opinião, falando de pessoas que foram encontradas com uma falta de visão já num nível bastante avançado: “após os primeiros rastreios percebemos que havia quem precisava de dez dioptrias, o que numa linguagem mais acessível quer dizer que estas pessoas já estavam num nível de miopia alta e não viam praticamente nada.”
Esta doença ocular não tem cura, sendo o uso diário de óculos a única forma de conseguir um controlo efectivo já que a operação não é, como se pode imaginar, uma solu-
Em 2014, Moçambique contava com cerca 24 oftalmologistas, dos quais 16 estrangeiros, para uma população que ultrapassava, então, os 24 milhões de habitantes
ção ao alcance das populações com menores rendimentos. Ana Portugal salienta que este projecto foi muito especial tanto para a empresa como para si própria, revelando que se sentiu muito próxima das dificuldades que encontrou junto das comunidades da Ilha e de Marrere, até porque já sofreu de miopia, recorda.
“Este foi o nosso primeiro projecto além-fronteiras e tenho muita vontade de voltar, talvez com mais tempo, para que possamos fazer um pouco o balanço e perceber o retorno de toda esta acção, até porque deixámos algumas populações por onde passámos que não conseguimos atender, com a promessa de que tentaríamos voltar.” As crianças foram o alvo principal deste programa, por estarem ainda em idade de correcção mas, não sendo o objec-
Helpo e Grupo Multiopticas conseguiram juntar cerca de 33 mil euros em óculos e equipamento de rastreio visual
tivo principal, tornou-se impossível ignorar os adultos que vieram ter connosco”.
Óculos com histórias
Claro que, numa acção como esta, há sempre imprevistos: “Na Ilha de Moçambique havia pessoas muito cépticas com a iniciativa porque, anteriormente, houve uma organização que entregou um saco de óculos usados e velhos aos padres, que os distribuíram por quem dissesse que via mal, isto sem qualquer rastreio. E assim se entregam 7 800 óculos sem qualquer preocupação”, lamenta Carlos Almeida.
Ana Portugal prefere, por sua vez, atribuir um reconhecimento à Universidade de Lúrio: “Verificámos que os alunos do último ano do curso de optometria estavam muito bem preparados apesar de, naturalmente, mais em termos teóricos, devido à falta de equipamento. Mas agora creio que com o equipamento que doámos a Universidade vai conseguir melhores resultados.”
Desta troca de experiências resultou um prémio que foi oferecido aos dois alunos finalistas que mais se destacaram na operação no terreno. “O Rafael e a Clarisse vão chegar a Portugal no próximo mês de Janeiro”, salienta Ana Portugal acrescentando que “não é só um estágio. Vamos até às universidades portuguesas com curso de Optometria para que consigam fazer as equivalências e assim, se entenderem, ficarem a trabalhar connosco por uns tempos e depois levar essa experiência para Moçambique”.
os olhos de Moçambique
Em 2014, Moçambique contava com cerca de 24 oftalmologistas, 16 dos quais estrangeiros, para uma população que ultrapassava os 24 milhões. O que ilustra que, não só continua a existir uma grande falta de médicos e técnicos especialistas da visão, como os
recursos disponíveis pelo Governo não são suficientes para cobrir os custos de atendimento médico ocular. Isto leva a que sejam as ONG e parceiros de desenvolvimento a terem de preencher esta lacuna. Também não existe um seguro de saúde no país, que cubra este tipo de despesas oculares. Os programas que correm pelas escolas para realizar rastreios são, na sua maioria, efectuados através de ONG’s e outros dependem de fundos internacionais. O acesso a óculos é muito limitado e se nos afastarmos da cidade de Maputo é ainda mais raro encontrarmos alguém com óculos devido ao elevado custo para o nível de rendimentos da esmagadora maioria da população. Um dilema de saúde pública que é acentuado pelo sol e poeiras das estradas, que provocam graves danos oculares em crianças e adultos. Mas nem tudo é menos bom: o país já conseguiu graduar diferentes profissionais de saúde ocular como oftalmologistas, optometristas, técnicos de oftalmologia, ortoptistas e ópticos. É no Hospital Central de Maputo que são formados os oftalmologistas enquanto os optometristas são formados na Universidade de Lúrio à razão de 20 por ano. Este ano foram contabilizados 236 profissionais oftálmicos, sendo 74,2% técnicos de oftalmologia, o que resulta em cerca de seis por um milhão de habitantes. Númertos ainda longe dos recomendados pela Organização Mundial de Saúde para África, que apontam o mínimo de dez para um milhão de pessoas.
E, não podemos esquecer que em Moçambique moram olhos que sorriem a todos os que por aqui passam. E que é preciso mantê-los sãos. Até para que vejam um futuro melhor.
texto Cristina Freire fotografia D.r.
lá Fora
um passo rumo à pacificação de uma região conturbada
Com apenas ano e meio no Governo, o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, deu passos importantes na resolução de conflitos que duravam há décadas com a vizinha Eritreia acabando por merecer o Prémio Nobel da Paz
a imagem da etiópia está muito associada à pobreza extrema e a guerras étnicas que perpetuam o espectro da miséria. Por muito tempo, o que mais se ‘vendeu’ daquele país da África Oriental foi a imagem de um lugar que as pessoas nunca escolheriam para viver, e onde os maiores árbitros de conflitos do mundo sempre tiveram dificuldades em pôr fim aos jogos sangrentos pelo poder. Mas, recentemente, uma intervenção bem-sucedida na pacificação desta região
milhões de COROAs sUeCAs É O VALOR ATRIBUÍDO AO PRÉMIO NOBEL DA PAZ, O EQUIVALENTE A 60 MILHÕES DE METICAIS.
acabou por merecer uma das mais prestigiantes distinções – o Prémio Nobel da Paz. Em linhas gerais, “o primeiro-ministro Abiy Ahmed Ali foi galardoado “pelos seus esforços em prol da paz e da cooperação internacional, em particular pela sua iniciativa decisiva de resolver o conflito fronteiriço com a vizinha Eritreia”, indicou a presidente do Comité Nobel, Berit Reiss-Andersen.
Filho de mãe cristã e pai muçulmano, Abiy Ahmed chegou ao poder em Fevereiro de 2018, após a demissão de Hailemariam Desalegn, no contexto de uma profunda crise política. Tornou-se no líder mais jovem de África (hoje com 43 anos). Chegado ao poder, tentou conter os confrontos, libertou centenas de presos políticos, retirou o estado de emergência, nomeou um governo paritário e permitiu o regresso à Etiópia de figuras destacadas da oposição que se tinham exilado, além de ter assinado acordos de paz com a vizinha Eritreia a 9 de Julho de 2018 (com apenas três meses no trono).
A fricção entre vizinhos era quase cinquentenária. A Eritreia, que lutava pela independência desde 1961, só conseguiu a libertação em 1993, levando a que a Etiópia perdesse a sua única faixa marítima (sobre o Mar Vermelho). Entre 1998 e 2000, os dois vizinhos travaram uma guerra que provocou pelo menos 80 mil mortos, com a questão da delimitação da fronteira a figurar entre as razões do conflito. Desde então, os dois países mantinham numerosas forças ao longo da fronteira comum, de mil quilómetros, apesar de terem assinado em 2000 um acordo de paz em Argel, que nunca foi implementado. O clima entre os dois países foi sempre bastante instável. Não havia guerra aberta, mas também nunca houve paz. É na governação de Abiy Ahmed que, finalmente, quase tudo começa a caminhar para a pacificação.
Com a sua premiação vieram também os elogios: os jornais locais tratam-no como “um símbolo de paz e justiça numa região onde os líderes políticos têm governado com violência, tirania e violação dos direitos humanos”, ou apelidam-no de “líder transformacional em equidade e direitos humanos dentro da Etiópia”.
uma premiação prematura?
A presidente do Comité Nobel Norueguês, entidade responsável pela distinção, Berit Reiss-Andersen, prevê que, apesar do “mérito” do primeiro-ministro etíope, “algumas pessoas acharão que este prémio está a ser
atribuído demasiado cedo”, já que há ainda muito caminho por percorrer até se estabelecer a paz efectiva dentro da Etiópia e entre o país e a Eritreia. Outra razão para temer críticas é o facto de a atribuição do Prémio Nobel da Paz ao antigo Presidente dos EUA, Barack Obama, há dez anos, também ter sido vista como “precipitada”. E foi. Para Berit Reiss-Andersen, é legítimo que se faça este reconhecimento ao ministro Abiy agora, porque os seus esforços “merecem reconhecimento e precisam de ser encorajados”, além de que “o Comité Nobel Norueguês espera que os acordos de paz tragam mudanças positivas para todas as populações da Etiópia e da Eritreia”.
O Comité Nobel Norueguês também não concorda que se tenha precipitado em conceder o prémio ao chefe do Governo da Etiópia por reconhecer as suas “intenções de levar a cabo eleições democráticas no próximo ano… definitivamente, há muito que já foi conseguido em termos de fazer reformas democráticas na Etiópia, mas há ainda um longo caminho a percorrer. ‘Roma não foi feita num dia‘ e a paz e o desenvolvimento democrático também não são atingidos num curto espaço de tempo”, defende a presidente.
Havia forte concorrência
Para muitos, o primeiro-ministro da Etiópia seria uma segunda opção para o prémio, já que as apostas apontavam como favorita a jovem sueca de 16 anos, Greta Thunberg, activista em defesa do clima. Mas acabou por não ser escolhida pelo comité Nobel.
Entre os nomes falados estavam também o da chefe do Governo neo-zelandês, Jacinda Ardern, pela sua resposta ao atentado terrorista contra as mesquitas de Christchurch, bem como de organizações como a Repórteres Sem Fronteiras ou o Comité para a Protecção dos Jornalistas.
A premiação de Abiy Ahmed é a 24ª atribuída a um africano, de um total de 99 distinguidos, motivo de orgulho para o continente, cujos líderes já se manifestaram através das redes sociais, felicitando o primeiro-ministro etíope.
Através do Twitter, a Amnistia Internacional instou o líder etíope a aproveitar a distinção para respeitar os direitos humanos. “O primeiro-ministro da Etiópia recebeu o Prémio Nobel da Paz. Este prémio deve servir para motivá-lo a fazer face aos grandes desafios de direitos humanos que possam reverter os
reconHecimento não agradou a todos
apesar de elogiado pelas suas reformas, ahmed vem fazendo esforços para conter as crescentes rivalidades étnicas no país. a imprensa internacional relata episódios de protestos em apoio ao opositor do primeiro-ministro, Jawar Mohammed, que acusa o governo de lhe ter retirado o esquema de segurança da sua residência na capital, addis abeba autoridades etíopes negaram a informação. os manifestantes chegaram a queimar cópias do livro da autoria de abiy
ganhos alcançados até agora”, desafiou-o. O Nobel será oficialmente entregue a 10 de Dezembro e vale 9 milhões de coroas suecas, o equivalentes a 930 mil dólares (quase 60 milhões de meticais).
mundo reconhece abiy ahmed
O secretário-geral da ONU, António Guterres, emitiu um comunicado a saudar o chefe de Governo da Etiópia. “Disse várias vezes que ventos de mudança sopram por toda a África. O primeiro-ministro Abiy Ahmed é uma das razões.
A sua visão ajudou a Etiópia e a Eritreia a chegarem a um entendimento histórico e sinto-me honrado em testemunhar a assinatura do acordo de paz no ano passado. Isto abriu oportunidades para a região tirar partido da paz e da segurança e a liderança do primeiro-ministro Ahmed é um magnífico exemplo para os outros e para além de África, no sentido de se ultrapassar a resistência causada pelo passado e de pôr as pessoas em primeiro lugar”, disse.
A Comissão Europeia também reagiu à distinção do chefe do Governo etíope no Twitter: “Congratulamos o vencedor do Prémio Nobel da Paz, o primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed Ali. Com a sua coragem, ele constrói pontes na região, recomeçando as conversações de paz depois de 20 anos de impasse com a Eritreia. Estamos ao lado da Etiópia na sua caminhada para a democracia e a paz”.
etiópia orgulhosa
Reagindo ao prémio, o governante revelou sentir-se “humilde e emocionado... muito obrigado. Este é um prémio para África, atribuído à Etiópia. Posso imaginar que os restantes líderes de África vão vê-lo como algo positivo e trabalhar no processo de construir a paz em todo o continente”.
Através do Twitter, o seu gabinete declarou: “Expressamos o nosso orgulho na escolha do primeiro-ministro da Etiópia para Prémio Nobel da Paz de 2019. Este reconhecimento é um testemunho dos ideiais da unidade, da cooperação e da coexistência mútua, que o primeiro-ministro tem vindo consistentemente a defender”.
Em Maio deste ano, Abiy Ahmed já tinha sido laureado com o Prémio de Paz Félix Houphouët-Boigny, da UNESCO.
texto Celso Chambisso FotograFia istoCkphoto
NOVOS ÂNGULOS
To do or not to do(ing) business em África
Pedro Cativelos • Director Executivo da Economia & Mercado
dizem-nos as notícias que o mundo não anda muito Shakesperiano. Ou talvez até ande. A tensão entre a China e os Estados Unidos é latente. Até em África. E a Rússia espreita sobre os seus ombros, procurando intrometer-se entre eles, tentando ver melhor. Sobretudo África. Será para o seu bem (de África), ou acabará o continente em Tragédia, como Hamlet, o Príncipe da Dinamarca.
Na primeira cimeira Rússia-África, que reuniu 40 governantes africanos e o presidente russo, Vladimir Putin, estiveram em destaque a exploração de recursos minerais, as relações comerciais e a venda de armamento.
Um menu, interessante, sem dúvida. Pouco literário, no entanto. Em relação aos recursos, foram assinados acordos com o Ruanda, o Sudão do Sul e a Guiné Equatorial. E de acordo com o chefe de Estado moçambicano, Filipe Nyusi, um conjunto de empresários russos também manifestou interesse em investir no sector dos recursos minerais e nos transportes, no país.
Ao nível comercial, o Presidente russo fez saber que a cimeira Rússia-África é para continuar e passará a realizar-se de três em três anos. E revelou que, nos próximos cinco anos, a Rússia espera que as trocas comerciais com o continente africano cheguem aos 40 mil milhões de dólares, duplicando o valor actual. Em relação ao armamento, os avanços também foram claros, apesar do tema se dar a uma certa obscuridade: “Actualmente, contamos com cerca de 12 mil milhões de dólares em contratos assinados e já pagos. Vinte países africanos estão actualmente a cooperar connosco”, confirma Alexandre Mikheev, presidente da empresa pública de venda de armamento da Rússia, Rosoboronexport. Putin foi incessante e ofereceu-se ainda para mediar o impasse que se tem arrastado na construção da barragem no Nilo que, nos últimos dias, tem feito aumentar os focos de tensão entre o Egipto e a Etiópia. Mas ainda há mais: outra das curiosidades da cimeira foi o convite feito à empresária angolana Isabel dos Santos (que tem ascendência russa) e ao Presidente de Angola, João Lourenço, que suscitou acusações veladas de ‘provocação’.
Para regressar ao princípio do texto, e à alusão a um dos maiores textos da literatura (apesar de a Rússia também contar na sua História com alguns nomes que poderiam ter escrito este argumento, como Dostoiévski, Tolstói ou Tchekhov). Na cimeira de Sochi, o enredo começou pelas trocas comerciais, passou pelos segredos bem guardados, e armas foram negociadas, num cenário onde se desenrolaram cenas de união, que não deixaram de ser pinceladas por momentos de suspense e alta tensão dignos de obra-prima. Para, no fim, acabar tudo bem, com promessas de parte a parte.
E foram vários os líderes africanos que se mostraram “satisfeitos e esperançosos” com a intenção do aumento do investimento da Rússia no continente. Olga Kulkova, investigadora do Instituto de Estudos Africanos da Academia de Ciências da Rússia, falou à agência DW sobre como “a Rússia quer encontrar o seu nicho e a sua direcção com parcerias em África com objectivos comerciais ambiciosos.”
Sabe-se como a Rússia passou as últimas décadas, e tem despertado economicamente, alavancada, nos últimos anos pelos recursos naturais (detém as maiores reservas de gás natural do mundo, por exemplo), apesar de ainda distante na sua dimensão económica (PIB de 1,5 biliões de dólares) dos seus dois gigantes concorrentes pelo continente africano: Estados Unidos (19,3 biliões) e China (12,2 biliões).
Por falar em fazer negócios, foi anunciado o relatório anual do Doing Business, elaborado pelo Banco Mundial. Moçambique voltou a cair (depois de uma subida registada no ano passado) porque, de acordo com a CTA, “tardam a entrar em vigor” as reformas necessárias para que seja, efectivamente, “mais claro, transparente e acessível, o mundo dos negócios no país.”
Moçambique voltou, assim, a cair no índice regredindo da posição 135 para 138, de entre as 190 economias avaliadas. Talvez porque para fazer novos bons negócios seja indispensável conhecer os bons velhos clássicos. Porque eles nunca deixam de ser actuais e dão sempre jeito para nos ajudar a ver o mundo como ele verdadeiramente é.
Na cimeira de Sochi, o enredo começou pelas trocas comerciais, passou pelos segredos bem guardados, e armas foram negociadas, num cenário onde se desenrolaram cenas de união, mas que não deixou de ter picos de suspense e alta tensão dignos de obra-primas
ócio
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Desta vez, a sugestão de Escape leva-nos até Macau, a cidade onde o Ocidente e o Oriente se misturam
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À descoberta do admirável mundo novo do Musashi
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Uma degustação de Pinot Noir, uma casta elegante e sofisticada
(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio
Direcção dos Serviços de Turismo
+853 8397 1120
eMacau
cidade coM duas caras
be M diferentes
a’ché – como todos a chamam – e tou tai, o Deus da Terra, partilham um pequeno templo há 12 anos. Ela vende incenso, ele acolhe os fiéis. A ela não lhe falta fé. Nele e em A-Ma, a Deusa dos Navegantes, adorada a escassos metros, num dos mais emblemáticos templos de Macau.
A-Ma, venerada na região sul da China, é vista por muitos como uma protectora da cidade. Disso e dos casais que conseguem ter filhos depois de lhe rezar, garante. “É um mito muito bonito,” diz A’Ché, olhos solenes, recordando um incêndio que uma vez atingiu parte do monumento. “A estátua da deusa A-Ma só ficou escura, não ardeu”.
Construído na encosta da colina da Barra há mais de 500
anos, nos tempos da Dinastia Ming, o Templo de A-Ma é o mais antigo de Macau. Pensa-se que terá sido a partir da baía de A-Ma – A-Ma gau, em chinês – que terá surgido o nome que os portugueses dariam à cidade, quando ali chegaram em meados do século XVI. Segundo a lenda, A-Ma – ou Mazu, ou Tin Hau, como também é conhecida – seguia num dos vários barcos que navegavam perto daquela zona quando uma terrível tempestade se abateu sobre o mar. O pescador da embarcação onde seguia – o único que tinha aceitado transportá-la – saiu ileso da intempérie, ao contrário dos outros. “Por isso é que qualquer pescador que vá para o mar vem aqui pedir protecção primeiro”.
Qualquer visita a Macau impõe um périplo pelos lugares de culto que retratam o ambiente de tolerância religiosa que sempre pautou o território. Mas há muito mais a não perder, como o Farol da Guia – o mais antigo da China e um dos monumentos mais queridos da população local – ou o célebre Largo do Senado com a sua arquitectura neoclássica bem no coração da cidade. As Ruínas de São Paulo são o ex-libris de Macau. Delas fazem parte a imponente fachada da antiga Igreja da Madre de Deus, e os vestígios do antigo Colégio de São Paulo, ambos destruídos por um incêndio no século XIX. Com uma população de pouco mais de 647 mil habitantes espalhados por cerca de 30,3 quilómetros quadrados – entre a península de Macau e as ilhas da Taipa e Coloane —, Macau é uma das ci-
Macau
Largo do Senado, Edifício Ritz, Macau
dades mais densamente povoadas do mundo. A melhor forma de explorar o património cultural de Macau é enveredando a pé por ruelas, becos e pátios. Além dos monumentos listados pela UNESCO, a história da cidade descobre-se também nos mercados – como o Mercado Vermelho –, no cais do Porto Interior, nos vendedores ambulantes, nos yam t’cha das tasquinhas chinesas, nos restaurantes macaenses, na velha vila da Taipa, ou na Colina da Penha que vigia o lago artificial Nam Van.
duas cidades numa só Macau esteve sob administração portuguesa até Dezembro de 1999, quando se tornou numa região administrativa especial da China. Ao longo dos mais de dez anos em que A’Ché vende lisonjas na Barra, a cidade mudou. Macau recebe mais de 30 milhões de turistas, a maioria vinda da China continental. É o resultado da liberalização do sector do jogo, formalizada em 2002, e que trouxe à cidade investidores, jogadores em massa e grandes apostadores.
Macau é uma cidade com duas cidades dentro. É a Macau multicultural, da fusão de sabores e tradições – a que se vê na arquitectura de matriz ora Ocidental ora Oriental, a que se lê nas tabuletas escritas nas duas línguas oficiais (chinês e português) e a que se assume politicamente como ponte entre a China e os países de língua portuguesa. Mas Macau é também, fora dos discursos oficiais de promoção turística, a Macau “Las Vegas do Oriente” – é a capital mundial do jogo, com casinos, entretenimento, restaurantes de estrelas Michelin e luxuosos empreendimentos hoteleiros, muitos deles localizados no Cotai, uma espécie de equivalente à strip de Las Vegas.
centro Histórico de Macau é PatriMónio da unesco e uM “testeMunHo” do encontro “entre o oriente e ocidente”
roteiro
como ir
a forma mais comum de chegar a Macau é apanhando um voo para Hong Kong. Daí, apanha-se um ferry para Macau directamente do aeroporto ou do centro da cidade.
onde dormir
No The Parisian Macao, um dos últimos hotéis a abrir no território. Com 3 000 quartos, piscina e um teatro com capacidade para 1 200 pessoas, o hotel mudou a paisagem da zona ao incluir uma réplica – a meia escala – da Torre Eiffel.
onde comer
Para provar a verdadeira comida macaense, o restaurante riquexó é uma boa opção. Uma experiência igualmente genuína é numa tasca ao ar livre localizada na rua 5 de Outubro, que abre todos os dias a partir das 17h – desde que não chova.
imPerdível
Subir ao topo da Torre de Macau é uma oportunidade para ter uma vista magnífica de 360 graus sobre a cidade e arredores.
TExTO Sofia JeSuS, em macau fOTOgrafia iStock Photo
Mais do que entrar nuM restaurante, a sensação é de que se acede a uM esPaço faMiliar
a primeira coisa que sobressai quando se entra no Musashi é o carácter acolhedor do espaço. A decoração minimalista, ajuda a criar, de imediato, um sentimento de intimidade. Mais do que entrar num restaurante, a sensação é de que se acede a um espaço familiar onde, quase como se tivéssemos sido pessoalmente convidados pelos donos da casa, nos é proposto experimentar e partilhar a sua “própria” comida. Como é óbvio, o Musashi é, para todos os efeitos, um restaurante e não uma casa particular. Mas não é dispiciendo sublinhar que esta capacidade de nos fazer sentir “em casa” não está ao alcance de qualquer um e é, certamente, um dos seus méritos.
Esta sensação de se aceder a um espaço íntimo e familiar reflecte-se no próprio menu e nas propostas culinárias apresentadas. Deste ponto de vista, o Musashi é talvez o restaurante que, em Maputo, melhor ilustra a variedade da gastronomia nipónica. Vejamos então alguns exemplos. Um deles é o Gyudon, um prato tradicional e que faz parte do dia-a-dia dos japoneses. A palavra Gyudon significa “tigela de carne bovina” e é uma junção de gyu (“gado bovino”) e don (abreviação de donburi, um tipo de tigela ja-
Morada Av. Armando Tivane 941, Maputo
+258 849 686 3533
MusasHi e o adMirável Mundo da gastronoMia jaPonesa
ponesa). O prato consiste numa tigela de arroz coberto com finas fatias de carne bovina e cebola, cozidas num molho levemente adocicado feito com dashi (caldo composto de algas e peixe), shoyu e sake ou mirin (vinagre adocicado de arroz). Ao longo do tempo, outros ingredientes foram sendo adicionados, de modo opcional, como shirataki (um tipo de macarrão feito com batata), tofu, ovo e vegetais diversos, como forma de complementar o prato do ponto de vista nutricional. O Gyudon também já tem versões de porco, chamadas butadon ou tondon, e peixe, embora o tradicional continue a ser a forma mais comum de consumo. A versão disponível no Musashi é a tradicional. Interessante também é a diversidade de pratos baseados no Karaage, uma técnica culinária japonesa que consiste numa fritura muito particular de diversos tipos de alimentos (sobretudo frango, mas também várias car-
nes e peixes). O Karaage é de origem chinesa, como muitos outros pratos da cozinha japonesa (por exemplo o Gyoza e o Ramen), mas foi adaptado e recriado ao longo dos séculos, constituindo hoje, um dos pratos típicos da culinária nipónica. No Japão, o mais popular dos pratos Karaage é o que tem como base o frango (frito ou panado). O que dá um sabor especial ao Karaage é o tempero, onde encontramos uma mistura de alho, gengibre, sake e shoyu. Depois de ficar a marinar neste tempero, o frango é coberto numa camada de farinha fina e frito num óleo leve. É deste modo que o frango Karaage fica não só totalmente crocante por fora e muito macio por dentro como rico em sabores e aromas. No Musashi pode experimentar o frango mas, se preferir, também há um Karaage de polvo e um outro de vegetais.
Um outro prato que poderá experimentar no Musashi (e que não é muito comum encontrar em Maputo) é o “caril japonês com arroz”. No Japão é designado por Karê, que é a pronúncia japonesa do curry (caril), de origem indiana, e que, depois de introduzido, adaptado e difundido no Japão, se tornou um dos pratos mais apreciados no país. O prato consiste num ensopado encorpado de carnes, legumes (como cebola, cenoura e outros) e batata, temperado com caril e servido com arroz branco. Refira-se, por fim, que o menu propõe ainda vários pratos com o conhecido e muito apreciado molho Teriyaki (cuja receita original é à base de sake, vinagre, açúcar e, por vezes, mel) e uma variedade apreciável de opções de sushis e sashimis.
TExTO rui trindade fOTOgrafia Jay Garrido
cortes de ciMa Pinot noir 2015
PaíS Portugal
reGião Alentejo
cor Granada
aroma Frutos de bagos vermelhos maduros com notas de morango, especiarias e baunilha
Sabor Paladar suculento e vivo, agradavelmente equilibrado com fruta cremosa e bons taninos
final Longo e Equilibrado teor alcoólico 13%
Maison louis latour cuvée latour bourgogne 2015
PaíS França
reGião Borgonha cor Vermelho rubi-brilhante
aroma Delicado, muito vivo, lembrando frutas vermelhas, cassis e alcaçuz
Sabor Corpo médio, personalizado, revelando taninos finos
final Longo e Vigoroso teor alcoólico 13%
taraPacá gran reserva Pinot noir 2018.
PaíS Chile
reGião Valle de Leyda cor Rubi claro
aroma Fruta vermelha e especiarias, além de notas de baunilha e tostadas
Sabor Encorpado com destaque para notas minerais, taninos maduros teor alcoólico Equilibrado e persistente teor alcoólico 14%
Pinot noir tinto 2015
PaíS
Portugal reGião
Douro cor Vermelha e intensa aroma frutas vermelhas e leves notas de talos maduros Sabor
Compacto, apesar da sua leveza, sendo fresco e muito sedutor final
Longo com excelente equilíbrio e um paladar fresco teor alcoólico 12%
originária de borgonHa, eM frança é uMa casta delicada e exigente
Pinot noir uMa casta elegante e sofisticada
é uma das castas de uvas mais antigas havendo indicações do seu cultivo desde há mais de 2 mil anos. É hoje aceite que é uma uva originária de Borgonha, na França. A casta é delicada e exigente no que toca ao seu lugar de cultivo. Precisa, sobretudo, de regiões com clima moderadamente fresco para amadurecer por completo. Apesar da sua delicadeza, a família das Pinots (Noir, Blanc, Gris, Meunier) é hoje cultivada em quase todo o mundo e é possível encontrar excelentes vinhos provenientes de regiões tão distintas como a Nova Zelândia, Austrália, Argentina, Portugal, África do Sul ou Estados Unidos.
Mas, como seria de esperar, os Pinots produzidos na Borgonha continuam a ter uma importância especial e são uma escolha preferencial. O nosso destaque deste mês vai para o Niepoort Pinot Noir Tinto 2015. Possuindo uma bela cor vermelha, no nariz este Pinot Noir apresenta aromas de frutas vermelhas, como morango e framboesa e leves notas de talos maduros. Vibrante e muito expressivo, tem uma presença que nos lembra os melhores Pinot Noir da Borgonha.
Uma outra opção igualmente interessante é o Cortes de Cima Pinot Noir 2015. Tanto mais interessante quanto a sua proveniência, (uma propriedade na costa alentejana a poucos quilómetros do mar e de solo de areia) que não parecia indicar, à partida, reunir as melhores condições para um Pinot Noir. Sob a batuta dos enólogos Hamilton Reis e Hans Jorgensen, o Cortes de Cima mostra vivacidade e frescor de origem mineral e é leve e agradabilíssimo. No entanto, se quiser ir directamente “beber à fonte”, isto é, experimentar um genuíno Pinot Noir da Borgonha, uma sugestão, entre muitas possíveis, poderá ser o Maison Louis Latour Cuvée Latour Bourgogne 2015. De cor vermelho rubi-brilhante, tem aromas delicados, e ainda assim vivos, lembrando frutas vermelhas, cassis e alcaçuz. Na boca tem corpo médio, revelando taninos finos e o seu final é longo e vigoroso. Para completar a sua experiência do Pinot Noir sugerimos, por último, o chileno Tarapacá Gran Reserva Pinot Noir 2018. De cor rubi clara, o seu aroma é muito típico desta variedade com notas a fruta vermelha, especiarias, e apontamentos de baunilha.
exPosiçÕes
música filmes livros
Super-HeróiS: Banda deSenHada e VideojogoS de África organização: feStiVal Maputo faSt forward (MoçaMBique) / coMexpoSed (ziMBaBué)
Camões - Centro Cultural Português em Maputo aberta até 29 de Novembro
Horário: Segunda a Sexta das 11h às 18h gradeS lourino zandeMel a curadoria: joão roxo organização: feStiVal Maputo faSt forward
Fundação Fernando
Leite Couto aberta até 13 de Novembro
futurar Maputo – projectoS de identidade ViSual para a cidade de Maputo organização: feStiVal Maputo faSt forward coordenação: Mélio tinga e adeliuM caStelo (plataforMa deSign talk)
Livraria Minerva (Baixa) inauguração: 8 de Novembro
Hora: 18h
final do préMio eloquência
caMõeS 2019
Camões - Centro Cultural Português em Maputo
Dia: 8 de Novembro
Hora: 14h30
na eSteira de MBonga coM o eScritor SuleiMan caSSaMo SoBre o liVro “a carta de MBonga”,
Fundação Fernando Leite Couto
Dia: 26 de Novembro
Hora: 18h
cineMa literatura
31ª edição do curSo de literaturaS e língua portugueSa
Camões - Centro Cultural Português em Maputo
Dias: 4 a 7 de Novembro
Hora: 18h-20h
ai weiwei: neVer SorrY docuMentÁrio de aliSon klaYMan
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 5 Novembro
Hora:18h
“doMinique MercY danSe pina
BauScH” régiS oBadia (frança, 2003, 56’)
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Dia: 25 de Novembro
Hora: 19h
conVerSa coM oS realizadoreS jorge antónio, licínio azeVedo e joão riBeiro Moderada por antónio caBrita
Camões - Centro Cultural Português em Maputo
Dia: 26 de Novembro
Hora: 18h
• em destaque “a árvore mágica”
Da autoria de Lurdes Breda conta com ilustrações do artista plástico roberto Chichorro. “a Árvore Mágica” é um conto estruturado numa linguagem híbrida entre o Português e uma das Línguas Bantu de Moçambique − o changane − e tem como público-alvo crianças e jovens. É a história de um embondeiro que trocou o sono pela imaginação. Durante muitas luas ficava de pétalas abertas a ver os meninos brincarem atrás das borboletas, por entre os ramos de palavras em flor. até que, por magia, eles desapareceram, entrando no seu coração.
Este livro é uma edição Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP).
iiº SiMpóSio internacional de dança - kanda Yetu 2019
feStiVal kinani – plataforMa internacional de dança conteMporÂnea
Centro Cultural Franco-Moçambicano “incêndios” de Victor de Oliveira (Moçambique)
Dia: 21 de Novembro
Hora: 18h
“all Eyes On” de Teresa Vitucci (Suíça)
Dia: 22 de Novembro
Hora: 18h
“Life in numbers” de anna Till e Kátia Manjate (alemanha e Moçambique)
Dia: 22 de Novembro
Hora: 19h
conVerSaS no ÂMBito do feStiVal kinani
Camões - Centro Cultural Português em Maputo
Dias: 19 e 20 de Novembro
Hora: 10h
“À eSpera de godot ” (de SaMuel Beckett) | grupo de teatro MBeu adaptação e encenação: elliot alex
Fundação Fernando Leite Couto
Dia: 6 de Novembro
Hora: 18h
o jardineiro e a erVa daninHa (teatro infantil) texto de BuanaMade aMade
Fundação Fernando Leite Couto
Dia: 16 de Novembro
Hora: 10h30
Fundação Fernando Leite Couto
Dia: 14 de Novembro
Hora: 18h30
dezaine conference: deSign & afrotopiaS organização: plataforMa deSign talk
Centro Cultural Brasil-Moçambique
Dias: 14 e 15 de Novembro
o s “suPer-Heróis” na bd de áfrica
em anos recentes, tem-se assistido na Banda Desenhada e em Videojogos produzidos no continente africano ao aparecimento de um conjunto de obras cujos protagonistas centrais são “Super-Heróis”. Esta tendência tem sido referenciada pelos media internacionais, analisada por comentadores e críticos especializados, e merecido mesmo a atenção da comunidade académica (veja-se, para citar apenas um exemplo, o número da revista “Journal of African Cultural Studies” cujo dossier principal – “Afro-Superheroes: Prepossessing de Future” – lhes é dedicado). A figura do “Super-Herói” tem sido objecto de uma reapropriação, em particular no Médio Oriente, na Ásia e em África, na qual os protagonistas assumem e incorporam agora mitos, lendas e tradições locais. Alguns dos “Super-heróis” apresentados nesta exposição – como The True Ananse, Guardian Pri-
me e Captain South Africa – são exemplo desta reapropriação da figura do “Super-Herói” através da qual se recontextualizam lendas, tradições e figuras que fazem parte de muitas culturas africanas. No entanto, a ancoragem destes “Super-Heróis” na tradição é acompanhada, em termos narrativos e estéticos, por componentes de hiper-modernidade que evidenciam o desejo de criar e projectar uma imagem e uma ideia de futuro cosmopolita (ou afropolitan, a definição de Achille Mbembe). Deste ponto de vista, a revisitação da tradição anda a par com uma reformulação dos paradigmas identitários e a aspiração a criar novos imaginários na perspectiva de uma reinvenção do futuro do continente. Esta exposição – intitulada “Super-Heróis: Banda Dese-
esta nova tendência teM Merecido
as atençÕes dos Media internacionais
nhada e Videojogos de África” - é produzida conjuntamente pelo festival Maputo Fast Forward (Moçambique) e pelo festival Comexposed (Zimbabué), com o apoio do Camões – Centro Cultural Português. A exposição pretende dar a conhecer algumas das obras produzidas no continente, os estúdios criativos e os autores e, sobretudo, contribuir para uma contextualização deste “fenómeno” através de uma reflexão sobre as características particulares destes “super-heróis”, no quadro da emergência de “novas narrativas” em África e do “afro-futurismo”.
A exposição, que inclui trabalhos produzidos por sete estúdios criativos de África-Leti Arts do Gana, Comic Republic e Spoof Animation da Nigéria, Sigma Digital, CCX, Bill Masuku do Zimbabué e Black Hut da Zâmbia – vai estar patente até 29 de Novembro no Centro Cultural Português.
instituto Camões, Maputo - Centro Cultural Português 22 de Outubro a 29 de Novembro
veMPresas quereM desenvolver uM veículo que exPlore o Mercado PreMiuM da Mobilidade aérea PorscHe
PorscHe e boeing anunciaM Projecto de carro-voador
a boeing, uma das empresas líderes mundiais na construção de aviões, e a marca de automóveis Porsche, acabam de anunciar uma parceria com o objectivo de desenvolver um carro-voador eléctrico. Ao anunciar esta parceria, Detlev von Platen, da Porsche, referiu que as empresas querem desenvolver um veículo que “explore o mercado premium da mobilidade aérea e a extensão do tráfego urbano para o aéreo através de um veículo que descola e aterra na vertical e que será totalmente eléctrico”.
Detlev von Platen acrescentou ainda que as duas empresas estão apostadas em trabalhar no sentido de estarem presentes naquele que já é visto como um novo segmento de mercado e “a terceira dimensão de viagem”. Por seu turno, Steve Nordlund, da Boeing NeXt, unidade da empresa que trabalha em novas gerações de veículos e aeronaves, afirmou: “Juntas, a Porsche e a Boeing vão trazer inovação para acelerar a mobilidade aérea urbana”. Embora ainda não sejam conhecidos detalhes sobre este novo veículo, a verdade é que a Boeing já tinha apresentado,
há alguns meses, um veículo capaz de levar dois a quatro passageiros e com uma autonomia de voo de 50 quilómetros. Na altura do voo inaugural, a imprensa especializada sublinhou o facto de que este era o primeiro sinal claro da competição que ja está em andamento entre as duas maiores construtoras mundiais de aeronaves. De facto, um pouco antes, a Airbus (em parceria com a Audi) tinha revelado, durante o Salão Automóvel de Geneve, na Suíça, o protótipo de um veículo com 4,40 metros de comprimento, movido por oito motores eléctricos capazes de debitar 217 CV de potência e com uma autonomia a rondar os 50 quilómetros. Este protótipo tem capacidade para voar e andar em estrada. Mas não são apenas a Boeing e a Airbus que estão nesta corrida para desenvolver veículos deste tipo. Vejamos alguns outros casos. Várias empresas
eléctrico
japonesas decidiram juntar-se – com apoios estatais – para desenvolverem carros voadores capazes de ocuparem o espaço aéreo do país até 2030. Entre os projectos mais avançados encontra-se um modelo da Nec Corp que se assemelha bastante a uma espécie de drone gigante e que, numa primeira fase, irá ser sobretudo utilizado para entrega de mercadorias.
Outro exemplo é o da holandesa Pal-V que promete colocar no mercado, já em 2020, o seu carro voador: o Liberty Pioneer poderá atingir, em estrada os 160km/hora e os 180km/hora no ar. O preço de venda está estimado em 500 mil euros.
Também os chineses da Ehang aprontam, neste momento, um modelo de veículo voador (o Ehang 184) com capacidade para dois passageiros e velocidade máxima de 130km/hora.