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E&M_Edição 18_Setembro 2019 • 2019 - O caminho certo

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Florestas MoçaMbique perdeu Mais de Metade da Mancha florestal

na voz de ÂnGelo MacuÁcua , pca do fundo de estradas

Área 1

da occidental à total a nova ‘dona’ da anadarko

sociedade

“MoçaMbique devia ser patriMónio Mundial do MoviMento Moderno”

6 ObserVaçãO

Oktoberfest a imagem de uma celebração icónica a nível mundial

8 RaDar

Panorama economia, banca, Finanças, Infra-estruturas, Investimento, País

12 MaCrO

Florestas

Moçambique perdeu metade da sua mancha florestal em apenas três décadas

20 naçãO

AviAçãO Civil

20 Estradas a e&M analisa os planos de crescimento da rede de infra-estruturas rodoviárias no país

28 na voz de... Ângelo Macuácua, o PCa do Fundo Nacional de estradas

32 PrOVÍNCIa

Macaneta

Como cresceu esta localidade turística por excelência com a nova ponte

38 MerCaDO e FINaNças

Oil & Gas a história de todo o processo de compra da anadarko pela Occidental

42 EMPresas

Green Print a história de uma empresa que quer deixar uma impressão verde. Literalmente

44 MegaFONe

Marketing O que está a acontecer no mundo das marcas em Moçambique e lá por fora

59 ócio

60 Escape Xai Xai, quando achamos que já conhecemos o mar... 62 Gourmet Os aromas e sabores da África Oriental, no Kwetu 63 Adega Nederburg 1791, o charme discreto da casta Pinotage 64 Agenda Música, livros, filmes 65 Arte Fundação Celebra os 500 anos da morte de Da Vinci 66 Ao volante Mini lança edição especial 60 anos

46 FIgura DO MÊs

Wellington Soares

CeO do Corredor de Desenvolvimento do Norte e da CLN faz um balanço sobre a operação das empresas

48 SOCIeDaDe

Arquitectura

“Moçambique devia ser património Mundial do Movimento Moderno”

52 lÁ FOra

Angola a conclusão de que a salvação do banco público bPC passa pela alienação a privados

Conferências E&M

“Transformação Digital e Inovação no Sector Financeiro’

enquadrada no ciclo anual de Conferências da revista Economia & Mercado, vai ter lugar na última semana deste mês de Setembro, em Maputo, a Conferência sobre Transformação Digital e Inovação no Sector Financeiro. As novas tecnologias de informação e comunicação revolucionaram, como sabemos, o sector financeiro, sendo de destacar a banca. Além de torná-la mais dinâmica e eficiente, tornam-na, também, mais inclusiva. Num país como Moçambique, onde os índices de bancarização ainda são significativamente baixos, os custos operacionais das agências físicas são elevados, a transformação digital da banca e outros serviços financeiros digitais, assim como as novas plataformas de pagamento e transacção permitem não só a redução de custos, mas também uma maior inclusão financeira, que é um dos desígnios do nosso País. Inúmeros especialistas defendem que, se a inclusão financeira em economias mais desenvolvidas ocorreu por via da bancarização tradicional, em economias de países em desenvolvimento ela deve ser acelerada com a introdução de formas inovadoras e disruptivas de prestação de serviços financeiros. Assim, a Economia & Mercado, publicação de referência em Moçambique — reconhecida como Credível, Relevante e de Intervenção Positiva sobre todos os temas de actualidade Económica e Financeira com preponderância na Economia Nacional — juntamente com a Deloitte Moçambique, que tem vindo a participar nos últimos anos na implementação de múltiplos processos de transformação digital, ajudando desta forma as organizações a utilizar as metodologias e plataformas tecnológicas como veículo para melhorar a boa governação, combate à corrupção, inovação e produtividade, decidiram juntar os principais intervenientes do sector financeiro e das tecnologias de informação e comunicações. Para contextualizar o estágio actual, as oportunidades e desafios da transformação digital e a inovação no sector. Será debatida a dinâmica da bancarização no país à luz da evolução dos meios de pagamento e as perspectivas actuais e futuras ligadas ao Cyber Risk e ao branqueamento de capitais. E serão, ainda, apresentados casos de sucesso de toda esta nova dinâmica. Acreditamos que este evento vai ser uma oportunidade para partilhar experiências e perspectivar a evolução do mercado financeiro em Moçambique no contexto das novas tecnologias de informação e comunicação.

MÊS ano • nº 01

Setembro 2019 • Nº 18 Director

PROPRIEDADE Executive Moçambique

DIRECTOR Iacumba Ali Aiuba

EDITORIAL DO GRUPO

DIRECTORA

EXECUTIVE Ana Filipa Amaro

DIRECTOR EXECUTIVO Pedro Cativelos COnsELhO EDITORIAL

Alda Salomão; António Souto; Narciso Matos; Rogério Samo Gudo

JORnALIsTAs Celso Chambisso; Hermenegildo Langa; Cristina Freire, Elmano Madaíl, Rui Trindade PAGInAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Jay Garrido

REVIsÃO Manuela Rodrigues dos Santos PRODUÇÃO Executive Moçambique PUBLICIDADE Ana Antunes (Gestora Comercial - Moçambique) ana.antunes@ executive-mozambique.com; iona@iona. pt/contacto@iona.pt (Portugal) ADMInIsTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBLICIDADE Executive Moçambique; Av. Salvador Allende, nº 1039, Bairro Polana Cimento, Maputo – Moçambique; Tel.: +258 21 485 652; Tlm.: +258 84 311 9150; geral@executive-mozambique.com DELEGAÇÃO EM LIsBOA Telheiras, Rua Poeta Bocage, Nº 2 – 1º Escritório D • 1600233 Lisboa • Portugal; Tel. +351 21 381 3566; iona@iona.pt IMPREssÃO E ACABAMEnTO Minerva Print - Maputo - Moçambique TIRAGEM 4 500 exemplares núMERO DE REGIsTO 01/GABINFO-DEPC/2018

propriedade Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi

observação

AlemAnhA , PArque Theresienwiese, 22 de seTembro

A festA de OutubrO que cOmeçA em setembrO

Celebrada anualmente, em Munique, no estado germânico da Baviera, desde 1810, a Oktoberfest é hoje, porventura, a maior celebração mundial. A todos os níveis. Criado pelo rei bávaro Luís I para celebrar o seu casamento com Teresa, que deu o nome ao parque (Theresienwiese) que é, ainda hoje, o palco das festas, o festival de cerveja de Munique tem ganho, ano após ano, uma dimensão maior que na edição anterior. Por ali passaram, em 2018, perto de sete milhões visitantes que consumiram sete milhões de litros de cerveja nos 18 dias da celebração, sendo justo dizer que, ali, são as diversões, (jogos, comida tradicional e música animada) que acompanham a bebida. E, claro, a atmosfera é desenhada e vestida a rigor, com as vestes tradicionais da Baviera. Mas a Oktoberfest não cresce só na Alemanha, espalhando-se por todos os cantos do mundo onde há germânicos. De Cincinnati a São Paulo, viajando até Maputo onde também se celebra todos os anos. E com cerveja, claro.

fOTOgrAfIA ISTOCK

RADAR

valE rEvê prOduçãO EM baixa

Carvão. A mineradora Vale anunciou, no final de Agosto, a revisão em baixa da produção do carvão este ano, de 14 milhões de toneladas para 10 milhões, devido a intensas chuvas que caem no centro do país. As receitas da empresa situaram-se em 271 milhões de dólares no segundo trimestre deste ano, valor que representa uma redução de 15 milhões de dólares, em comparação com o trimestre anterior. “O volume de vendas está em linha com o primeiro trimestre, manteve-se na casa dos 2,2 milhões de toneladas e o que tivemos de impacto nas receitas foi por conta dos preços que recuaram no segundo trimestre se comparado com o primeiro”, informou Marcelo Tertuliano, director financeiro da mineradora.

Extractivas

Transparência. “Moçambique está no bom caminho quanto à gestão dos recursos do sector extractivo”, conclui a mais recente avaliação da Iniciativa de Transparência na Indústria Extractiva (ITIE). Moçambique aderiu à ITIE (padrão global que promove a transparência e governação

tia soberana para financiar a sua participação no projecto do gás natural da Área 1, da Bacia do Rovuma, cujas obras de construção da fábrica de liquefacção arrancaram no mês passado.

Mais-valias. Vêm aí mais receitas extraordinárias. A equipa interministerial está ainda a calcular o valor que o Estado deverá receber pela compra dos activos da Anadarko na Área 1 da Bacia do Rovuma pela Occidental, garantiu, em Agosto passado, o ministro dos Recursos Minerais e Energia, Max Tonela, citado pelo jornal “O País”. Apesar da incerteza quanto aos números, Tonela garante que o valor será pago ainda em 2019 e que o Governo está a acompanhar o processo que vai culminar com a passagem dos activos que eram da Anadarko para a Total por 55 mil milhões de dólares.

Combustíveis. A fornecedora de combustíveis Fienergy enfrenta dificuldades que já resultaram em alguns atrasos no abastecimento, em Agosto. O Governo diz estar a “monitorar a situação para que não se registe ruptura no abastecimento de combustíveis” tal como em anos anteriores. Caso a empresa continue a falhar deverá ver o contrato rescindido, tendo ainda de compensar a Imopetro pelos danos causados. A Imopetro, entidade detida por todas as empresas distribuidoras de combustíveis, avança ainda que já existem compensações ainda não calculadas que esta fornecedora deve pagar,

EcONOMia

do sector extractivo, possibilitando aos países uma melhor governação de recursos, com vista a melhorar o ambiente económico, político e social), em 2009. Em 2012, o país foi considerado como ‘cumpridor da iniciativa’, pela observação dos requisitos exigidos, como o acesso a informação e o envolvimento do Governo.

Hidrocarbonetos. O acordo de financiamento à Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH), no valor de 2 mil milhões de dólares, fecha em Setembro corrente. A garantia foi dada pelo PCA da empresa, Omar Mithá. A concretizar-se, a operação representará “um desfecho satisfatório de uma solicitação feita em 2018”, quando a ENH pediu ao Governo uma garan-

Petromoc. A empresa Petróleos de Moçambique - Petromoc precisa de uma injecção de 7 mil milhões de meticais para normalizar a sua actividade no mercado. Sobreendividada e com o seu principal accionista, o Estado, descapitalizado, a empresa desdobra-se para não declarar falência.

O Presidente do Conselho da Administração da Petromoc, Hélder Chambisse, reconhece as dificuldades da petrolífera pública, mas não quer passar, na totalidade, os encargos de recuperação da mesma ao Estado, por saber que se trata de um accionista também em dificuldades financeiras.

Dívida interna. O Governo garante eliminar a dívida com fornecedores de bens e serviços ainda no presente ano. Importa recordar que entre 2007 e 2017, o Executivo contraiu uma dívida de 29,7 mil milhões de meticais junto dos fornecedores sendo que, deste valor, assumiu o pagamento de apenas 19,5 mil milhões. Os pagamentos da dívida em atraso junto dos fornecedores de bens e serviços do Estado iniciaram-se em Novembro do ano passado. Numa primeira fase, o Governo priorizou as obrigações de até 60 milhões de meticais às Pequenas e Médias Empresas (PME). Esta medida mereceu o elogio da classe empresarial, representada pela Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), porque vai aliviar as contas das PME que são os fornecedores com menor capacidade financeira, mas com maior impacto económico e social.

Comércio externo. O volume das trocas comerciais entre Moçambique e China situou-se em 1 149 milhões de dólares no primeiro semestre

deste ano, representando uma queda na ordem de 5% face a igual período de 2018. O saldo da balança comercial continua a ser desfavorável a Moçambique. Entre Janeiro e Junho deste ano, as exportações nacionais foram de 285 milhões de dólares, menos 11,24% em relação ao período homólogo de 2018. Já as importações moçambicanas de bens provenientes do gigante asiático situaram-se, no mesmo período, nos 864 milhões de dólares (menos 2,81%), segundo dados dos serviços alfandegários da China, que não especificam as razões da quebra verificada.

Taxas de juro. O Banco de Moçambique voltou a reduzir a taxa de juro de política monetária em 50 pontos bases para 12,75% e, na mesma proporção, a Facilidade Permanente de Depósitos e a Facilidade Permanente de Cedência para 9,75% e 15,75%, respectivamente.

A redução da taxa de juro de política monetária é justificada pela melhoria contínua das perspectivas de inflação para o médio prazo. “A nossa avaliação dos riscos associados a essa previsão tornou-se mais favorável com o recente Acordo de Paz e consequente início do processo de desarmamento, desmobilização e reintegração. Contudo, persistem incertezas que justificam a postura conservadora da política monetária”, revela comunicado emitido pelo Banco Central no mês passado.

Reconstrução. O Governo já tem disponíveis 1,05 mil mi-

lhões de dólares dos 1,3 mil milhões prometidos na Conferência de Doadores realizada na cidade da Beira. Do valor disponibilizado, 930 milhões de dólares vão para reconstrução e 118 milhões para o Orçamento do Estado (OE). Durante a conferência havida na Beira, de 31 de Maio a 1 de Junho, os parceiros comprometeram-se a doar 1,2 mil milhões de dólares, mas de lá até agora o valor subiu para 1,3 mil milhões.

Ainda em Agosto, foi lançado o Mecanismo de Recuperação Social, uma plataforma através da qual vários parceiros vão canalizar fundos destinados à recuperação das zonas afectadas pelos ciclones Idai e Kenneth, com foco exclusivo em questões sociais.

ENErgia

Energia. Nacala-a-Velha, Nampula, terá uma central termoeléctrica a partir de 2022, ano em que serão concluídas as obras de construção da infra-estrutura. O empreendimento prevê a geração de 200 megawatts para suprir o défice energético daquela região do país, onde a disponibilidade de energia é de apenas 42 megawatts. A central será instalada pela Somagec Moçambique, subsidiária da chinesa CEEC, em cooperação com a EDM, e está orçada em de 21,7 mil milhões de meticais.

Electricidade. A Alemanha vai ajudar a financiar o projecto de interligação eléctrica Moçambique-Malawi, ao abrigo de um acordo assinado entre o banco alemão KfW e o Governo, representado pela Electricidade de Moçambique (EDM). O projecto consiste na construção de uma subestação de 400 KV e de uma linha de transporte de energia, com 218 quilómetros, entre Matambo (província de Tete) e Phombeya (Malaui).

A Campanha de Comercialização Agrícola 2018/2019, cujo lançamento oficial teve lugar no passado mês de Julho, na Província de Manica, decorre sob o lema “Comercialização Agrícola como Factor Dinamizador do Agronegócio e Competitividade Agrícola’’.

A Bolsa de Mercadorias de Moçambique (BMM), no âmbito das suas atribuições, auxilia os produtores na redução das perdas pós-colheita e na estabilização do preço das mercadorias, através do armazenamento (em armazéns e em silos), intermediação da compra e venda de commodities agrícolas e não agrícolas, entre outras actividades, embora, de momento, apenas as commodities agrícolas estejam abrangidas, com realce para milho, soja, gergelim, arroz, feijões e castanha-de-caju.

No âmbito da comercialização agrícola, a BMM tem um papel de facilitação do acesso ao mercado, ligando compradores e vendedores, bem como garantir o armazenamento, conservação e tratamento de commodities, incluindo em situações de emergência nacional, como se verificou, recentemente, aquando dos ciclones Idai e Kenneth.

Para dar mais ímpeto ao seu papel de facilitação de acesso ao mercado, a BMM está a realizar leilões, com vista a melhorar a competitividade do sector da comercialização, quer do ponto de vista de preço quer da qualidade dos produtos.

Os agricultores, agentes económicos do ramo do agronegócio e demais intervenientes da cadeia de comercialização podem se aproximar à BMM para receberem assistência na transacção dos seus produtos.

Trabalho: uma reforma suficiente?

como é público, o processo legislativo de revisão da lei do trabalho atingiu uma fase adiantada, tendo a respectiva anteproposta sido aprovada em Conselho de Ministros e enviada à Assembleia da República. Uma reforma global do regime das relações de trabalho, como a que está em causa, deve ser sustentada em objectivos claros e traduzir-se em normas perceptíveis para todos os cidadãos, de fácil interpretação, aplicação e cumprimento. Neste caso, a iniciativa legislativa foi promovida com os objectivos de flexibilização das soluções legais, também para melhorar o ambiente de negócios no país, aperfeiçoamento técnico e correcção das incongruências que a aplicação da actual lei foi revelando. Mas, a julgar pelas críticas que foram feitas, sobretudo do lado dos empregadores, o resultado parece não corresponder às expectativas criadas.

Para dotar as empresas de instrumentos de gestão facilitadores da adaptação às exigências e mudanças do mercado, são propostos novos modelos de contratação do trabalho subordinado, como sejam o pluriemprego, o trabalho intermitente e o teletrabalho. Este último assenta no desenvolvimento crescente das tecnologias de informação e comunicação para regular o trabalho à distância, fora do escritório – mais do que da fábrica –, muitas vezes a partir da própria casa do trabalhador, que assim fica dispensado da deslocação diária ao local de trabalho. Todavia, o teletrabalho depende fortemente da segurança e fiabilidade da rede de comunicações, sem a qual terá reduzida aplicação prática.

Também não se antecipa grande utilização para a nova figura do trabalho intermitente, que permite alternar a prestação de actividade com períodos de inactividade, durante os quais o trabalhador mantém direito a receber (alguma) remuneração. Este custo torna a solução menos apetecível para as empresas, por confronto, por exemplo, com a faculdade de contratação a termo com fundamento na sazonalidade das necessidades de produção.

Na perspectiva da flexibilização do trabalho, terá porventura maior importância a solução do trabalho em regime de alternância, modo de organização do tempo de trabalho que permite até quatro semanas de trabalho efectivo, seguidas de período de descanso de duração não inferior a metade dos dias de ac-

tividade. Nestes, o período normal de trabalho pode atingir 12 horas, com intervalo de descanso nunca inferior a 30 minutos. Trata-se, por isso, de regime particularmente adaptado a empresas com ciclos curtos, mas intensos, de produção.

Em contraponto, são desenvolvidos diversos direitos e garantias dos trabalhadores, desde logo os que respeitam à tutela da dignidade e da personalidade, mas também em matéria de promoção e protecção da maternidade e paternidade. Também o princípio do tratamento mais favorável ao trabalhador ganha maior relevo, tornando-se agora critério de escolha entre instrumentos de regulamentação colectiva negociais. Importante é, ainda, a regra que dispensa quem depende economicamente de outra pessoa de fazer prova da existência de contrato de trabalho entre ambos. Neste caso, caberá ao presumível empregador provar que as condições em que a actividade é realizada não revelam a existência da subordinação jurídica, ou seja, que o trabalho é realizado de modo autónomo, apesar da subsistência de quem o presta depender do rendimento assim auferido.

Os vários anos de aplicação têm evidenciado deficiências e lacunas da actual lei do trabalho, em matérias muito diversas, de que a contratação a termo, o poder e o processo disciplinar ou a cessação do contrato constituem meros exemplos. Até pelos objectivos anunciados para a reforma, esperava-se a correcção das inconsistências já identificadas e maior apuro técnico no enunciado das novas regras, mas o texto conhecido da anteproposta aprovada nem sempre o demonstra. Para além das indicadas, são numerosas as alterações previstas, com incidência em diversos domínios da relação de trabalho. Uma vez consolidada esta reforma laboral, isso obrigará a rever conceitos, estudar as novas soluções, adaptar documentos, de modo a corresponder às exigências decorrentes da lei e evitar as consequências negativas do seu incumprimento. Porém, não haverá muito tempo para preparação, pois o texto conhecido anuncia a entrada em vigor no dia seguinte ao da respectiva publicação. Prazo desnecessariamente curto para uma alteração com o significado e a importância em causa. Outro aspecto, por isso, em que a actual revisão da lei do trabalho mereceria maior ponderação e aperfeiçoamento.

São numerosas as alterações previstas, com incidência em diversos domínios da relação de trabalho. Uma vez consolidada esta reforma laboral, isso obrigará a rever conceitos, estudar as novas soluções de modo a corresponder às exigências e evitar consequências negativas

Florestas da memória... Futura?

Se a indústria extractiva é onde está o grande potencial para o futuro imediato da economia nacional, é nas florestas que cresce o futuro do país a longo prazo. Só que estas parecem ter sido, literalmente, abandonadas

sempre que se fala dos recursos naturais no país existem sempre questões que ficam sem resposta: se Moçambique dispõe de um enorme potencial em recursos naturais nunca se sabe ao certo a sua quantidade e muito menos quanto valem para a nossa economia. E o sector florestal também entra nessa incógnita. A única verdade que se tem é que há receitas que são perdidas, e de que maneira. Os estudos provam-nos isso. Só pela exploração e exportação ilegal da madeira o país perdeu, de 2003 a 2013, cerca de 540 milhões de dólares, segundo aponta um estudo feito pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a pedido da WWF (World Wide Fund for Nature).

Para Aristides Muhate, do Fundo Nacional

Especialista para a área de florestas na FAO diz que “a capacidade está a diminuir porque as florestas são exploradas para além do que é previsto”

de Desenvolvimento Sustentável (FNDS), há necessidade de se fazer a quantificação dos recursos florestais, visto que “não podemos falar de gestão desses recursos sem saber o que temos e qual é o seu valor económico”. E os estudos fazem menção a outro problema, no que se refere à exploração e gestão não sustentável dos recursos florestais no país. Prova disso é o que revela à E&M, Przemyslaw Walotek, especialista para a área de florestas na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO): “A capacidade das florestas está a diminuir porque exploramos muito além do que é previsto pelo inventário”. O director nacional de Florestas, Xavier Sakambuera, assume mesmo que

a gestão neste sector “ainda representa um enorme desafio para o país”, diz.

Potencial adormecido

A par do mar, a floresta é sinónimo de vida para qualquer país e fonte de riqueza económica e social. Tal como afirma a directora nacional do Fundo Mundial para a Natureza em Moçambique (WWF), Anabela Rodrigues: “as florestas não são apenas as madeiras, têm muito mais importância do que isso. É uma das matérias-primas para o desenvolvimento económico, é também capital natural e é um reservatório de bens, mas também de serviços”, sublinha a responsável. Na verdade, a floresta tem um valor económico que, de um modo geral, não está estimado ou contabilizado. Segundo dados da WWF, em 2016, o sector florestal no país gerou emprego para 22 mil pessoas, e contribuiu de forma directa e indirecta para 13,7% do PIB, cerca de 2 mil milhões de dólares.

E há muito potencial que ainda não está a ser aproveitado. Há cerca de 47 produtos florestais que teriam potencial de ser explorados e de contribuir para a geração de renda, como a produção de amarula e moringa, produtos que podiam gerar rendimento, conforme indica a WWF.

os perigos

Se na Europa e na América, o fogo vem pressionando os espaços verdes, em África, incluindo Moçambique, a exploração ilegal da madeira é a maior fonte de perigo para os recursos florestais. Actualmente, o corte ilegal de árvores constitui um enorme desafio para a criação e manutenção de mercados eficientes e práticas sustentáveis de extracção madeireira. Entretanto, as práticas ilícitas no sector madeireiro têm resultado no aumento de danos ambientais, sobretudo na degradação florestal e perdas de receitas para o Governo. Ainda assim, apesar de haver várias políticas empenhadas para preservar a floresta, que cobre 31% do planeta e absorve dois mil milhões de toneladas de dióxido de carbono, para além de ser também fonte de 75% da água que consumimos e habitat de 80% de todas as espécies, nota-se que a devastação florestal vem sendo uma realidade que ainda não tem fim. Mais do que isso, num momento em que as mudanças climáticas tendem a perigar o planeta, as florestas são imprescindíveis para a produção do oxigénio. No entanto, a devastação neste sector ten-

milhões de dólares

É o valor que o país perdeu de 2003 a 2013, devido à exploração e exportação ilegal da madeira, segundo aponta um estudo da WWF

de a ganhar proporções alarmantes no país. Um trabalho feito em 2016 pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em colaboração com a Direcção Nacional de Florestas (DINAF), mostra que Maputo é uma das províncias onde já não existem florestas, pois nos últimos anos perdeu 17 600 hectares de área verde, mormente devido ao abate indiscriminado de árvores para a produção do carvão.

E assim o jambirre, pau preto, umbila ou chanfuta, só para referir alguns exemplos de madeiras de alta qualidade que o país dispõe, através das quais é conhecido no mercado internacional, estão a deixar de existir.

es a n nazerali

Director de Financiamentos Inovadores na Biofund defende “a necessidade de melhorar a coordenação interinstitucional”

Um estudo divulgado pelo FNDS, em Maio deste ano, indica que, cada ano que passa, o espaço florestal tem vindo a diminuir de forma drástica.

Se em 1990, ano em que se fez o primeiro inventário florestal, o país dispunha de 71 milhões de hectares de cobertura, actualmente restaram apenas qualquer coisa como 31,6 milhões de hectares, o que significa que o país perdeu, em três décadas, cerca de 39,4 milhões de hectares, ou seja, metade de toda a sua mancha florestal.

Aristides Muhate revelou que há espécies que estão a ser muito danificadas pela acção humana, entre elas a Chanfuta, Mondzo, Nkula, Tule, Panga-panga e Pau-preto, sendo que o seu desmatamento se situa nos 267 mil hectares por ano. “Estamos a implementar projectos de recuperação da fauna e flora em nove distritos da província da Zambézia, onde o objectivo é reduzir cerca de 10 milhões de toneladas de emissão de dióxido de carbono até 2024, visto que o país emite anualmente cerca de 38,9 milhões de toneladas de dióxido de carbono”, anuiu Muhate.

Mas não é só a exploração ilegal da madeira que tem ameaçado a floresta. É também a prática da agricultura itinerante, bem como o abate de árvores para a produção de lenha e carvão, outras causas principais dos desmatamentos florestais no país.

Sean Nazerali, director de Financiamentos Inovadores na Biofund, defende que “apesar da boa legislação, enquanto não for bem implementada nada irá ser resolvido”. Aristides Muhate, do FNDS, está de acordo: “tem de, necessariamente, haver uma grande melhoria na coordenação interinstitucional, e teremos, sem sombra de dúvida, de passar a adoptar as melhores práticas de maneio sustentável”.

“Continuam a existir pessoas com alto peso que estão envolvidas na exploração ilegal de madeira, e há problemas a vários níveis ligados a essa questão”, considera o responsável da Biofund Sean Nazerali

licenças simples são um “grande fracasso”

Existem duas formas de explorar os recursos florestais no país: uma é por via das concessões, que são grandes áreas alienadas a empresas que devem fazer o processamento da madeira de acordo com licenças e planos de exploração sustentável. Outra, que á a grande fraqueza do sistema, nas chamadas licenças simples, que são atribuídas a cidadãos nacionais para explorar pequenas áreas. “É aqui que está a dor de cabeça, porque as áreas não estão bem delimitadas, e a sua exploração não é clara. Não há controlo se realmente o dono vai lá fazer esse corte ou exploração. O que acontece muitas vezes é que os compradores de madeira vão em parceria com os nacionais, que possuem essas licenças, e exploram maiores quantidades em relação àquelas que a lei prevê”, explica Sean Nazerali, da Biofund.

Fiscalização... não fiscaliza

Falar de fiscalização em todos os recursos naturais existentes no país é o mesmo que falar de uma acção quase nula. Primeiro, porque as entidades fiscais não têm quadros suficientes para fazer o controlo efectivo de todos os recursos disponíveis. E depois, porque os poucos efectivos não estão dotados de meios

técnicos e eficientes para o exercício da sua actividade.

João Carrilho, do Observatório do Meio Rural (OMR), explica à E&M que “existem inúmeras fraquezas dos serviços de fiscalização que acabam por ser aproveitadas pelos operadores ilegais que continuam assim nesta verdadeira fraude ao Estado e ao país”.

Mas não é só a falta de capacidade técnica do pessoal de fiscalização que faz com que estes não sejam mais actuantes. “Continuam a existir pessoas com ‘estatuto’ e peso que estão envolvidas na exploração ilegal de madeira e há sérios problemas a vários níveis ligados a essa questão”, considera o responsável da Biofund Sean Nazerali.

luz ao fundo túnel

Embora a situação no sector florestal seja crítica nesta altura, há que assumir que nem tudo está mal. Até porque existem alguns sinais de melhoria desde que o sector começou a ser remodelado, o que culminou com a proibição da exploração e exportação de algumas espécies. Hoje em dia já se nota algum interesse em trazer melhorias a este sector. “Só que há pessoas que ainda se beneficiam desse sistema fraco e disfuncional, e que obviamente gostariam de continuar

Em 29 anos, o sector florestal perdeu mais de metade do seu espaço de cobertura em todo o território

nos moldes actuais”, enuncia a Biofund. A FAO também acredita que os projectos de assistência técnica e de revisão do quadro concessional, que tem vindo a implementar em colaboração com o Banco Mundial, já começaram a dar sinais, embora estejam ainda na sua fase inicial.

À E&M, Xavier Sakambuera, Director Nacional das Florestas, explica que uma das grandes medidas tomadas pela DINAF resultou na redução no volume de corte anual. “O volume baixou de 600 mil metros cúbicos para 350 mil metros cúbicos e, até Agosto do presente ano, temos registo de 36 mil metros cúbicos até agora licenciados”, revelou a fonte. Já com a interdição da exportação de madeira em toro, o volume de madeira serrada produzida registou um aumento de 71% (648,560 metros cúbicos), em 2017, comparando com os 379,679 metros cúbicos de 2016. Já o volume de madeira em toro exportada reduziu em cerca de 53%, em 2017 (87,579 metros cúbicos), comparativamente a 2016 (187,747 metros cúbicos).

Depois de anos de abates ilegais, a legislação tenta repor a ordem natural das coisas num meio onde natural tem sido o abuso dos recursos existentes que são cada vez menos. E porque estão a cair drasticamente torna-se necessário agir para que o futuro seja, de facto, sustentável.

Queimadas para produção artesanal de carvão são outra das grandes causas da desflorestação
Em milhares de milhões de hectares
FONTE Inventário Florestal

Números em conta

O que custa a fOme

entre agosto e setembro do ano passado, o SETSAN - Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional procedeu a uma avaliação de Segurança Alimentar e Nutricional - em todas as províncias do país. De um modo geral, registou-se uma melhoria, mas os resultados da pesquisa que avalia o “Custo da Fome” indicam que, com as actuais taxas de desnutrição, cerca de um terço da mortalidade registada nos menores de cinco anos está associada a uma causa comum, com impacto na saúde de milhões de moçambicanos, mas também na economia e na sociedade. No geral, e analisando todas as províncias, verificou-se um aumento de agregados familiares com consumo adequado no período pós-colheita de 2017 a 2018, não obstante a redução significativa de agregados familiares com dieta adequada na ordem de 6% em Manica. Relativamente ao consumo inadequado, e a nível nacional, as províncias de Gaza e Cabo Delgado são as que apresentam uma situação mais preocupante.

Como resposta a este cenário, no primeiro trimestre do ano foram priorizadas 737 mil pessoas em 31 distritos, necessitando de intervenções de assistência humanitária.

60,2%

43,1% 26% da população moçambicana adulta já sofreu de desnutrição crónica infantil.

45,2%

das crianças subnutridas não recebem cuidados de saúde adequados. das crianças moçambicanas sofrem de desnutrição crónica. dos casos de mortalidade infantil estão associados à desnutrição.

q&a: cOmO fOi desenvOlvidO O estudO?

Para classificar a severidade da insegurança alimentar aguda foi usada a escala do IPC-InSAA (Classificação da Insegurança Alimentar Aguda em Fases) que classifica a insegurança alimentar aguda em cinco fases: mínima, stress, crise, emergência e fome, sendo que a partir da fase de crise a assistência alimentar é necessária e urgente.

O SETSAN realizou, em Junho de 2017, um inquérito de Segurança Alimentar que cobriu todo o país e os resultados mostraram que a situação de insegurança alimentar aguda foi classificada na fase 1 (mínima) em todas as províncias do território, mas havia cerca de 51 909 pessoas na fase 3 (crise), tendo este número baixado

para cerca de 25 473 pessoas no período de Outubro de 2017 a Março de 2018. Como resultado desta análise adicional foram priorizadas cerca de 814 mil pessoas em 31 distritos do país até Dezembro do ano passado, que foram alvo de uma intervenção urgente de assistência humanitária.

mil milhões de meticais ou 1,6 mil milhões de dólares (10,9% do PIB). É o terrível custo anual associado à desnutrição infantil em Moçambique.

é o impacto da mortalidade infantil associada à desnutrição na força de trabalho.

da taxa de insucesso escolar está associada à desnutrição crónica.

FONTE SETSAN 2017 Estudo sobre o custo da fome e o Impacto Socio Económico da Desnutrição Infantil em Moçambique.
Reabilitar a rede rodoviária é uma decisão óbvia, mas qual o modelo para a financiar?

a importância do eixo Norte-Sul e dos vários eixos Este-Oeste que ligam Moçambique à África do Sul e restantes países do chamado hinterland é inquestionável. O actual estado de deterioração de alguns troços representa um custo adicional para as operações logísticas e, consequentemente, a redução da competitividade do país.

Dos pontos de vista social e macroeconómico, os benefícios da reabilitação destes troços são óbvios, pelo que é preferível focar no maior obstáculo à renovação da rede rodoviária: o financiamento.

Existem quatro modelos base para o financiamento de infra-estruturas rodoviárias: empreitada de reabilitação e manutenção; concessão com pagamentos por disponibilidade; concessão com pagamentos de portagem virtual; e concessão com pagamentos de portagem real.

A aplicabilidade de cada modelo depende de vários factores: custo do investimento inicial, custo de manutenção, volume de tráfego de ligeiros e pesados, qualidade de crédito das partes envolvidas no contrato, prazo e outros factores específicos de cada troço a reabilitar.

Relativamente à aplicabilidade de cada modelo de financiamento às principais estradas nacionais existem prós e contras que é importante realçar.

1) O modelo de empreitada através de concurso público é normalmente o que apresenta o preço inicial mais baixo e tem o prazo de negociação mais curto. Em contrapartida, o risco de desvio no custo do investimento inicial e no custo de manutenção é mais elevado e implica que o Estado tenha acesso a fundos para pagar a obra à medida que vai sendo efectuada. No entanto, para investimentos com uma vida útil longa, o instrumento de financiamento deverá ter uma maturidade semelhante à do projecto. Tendo em conta o rating actual do país e as restrições à contratação de dívida comercial em moeda estrangeira, Moçambique apenas deverá conseguir obter

financiamento com maturidades longas se recorrer a financiamento concessional. Este factor limita a capacidade de negociação do preço da obra uma vez que este tipo de financiamento está condicionado à adjudicação da obra a uma empresa do país de origem.

2) O modelo de parceria público-privada com concessão de pagamentos por disponibilidade é mais utilizado em estradas já existentes, mas com pouco tráfego. Neste modelo, o privado efectua o investimento inicial de reabilitação, ficando com a responsabilidade de gerir a obra e angariar o financiamento. Após o término da obra o privado tem direito a receber uma renda do Estado que poderá ser reduzida como forma de penalização quando os troços de estrada não estejam operacionais ou incumpram os termos do contrato de concessão. As vantagens deste modelo incluem a transmissão do risco de construção e de manutenção para o privado, obrigando o mesmo a manter níveis de serviço elevados sob pena de perder parte da rentabilidade do investimento. Outra vantagem é o facto de as rendas que reembolsam o investimento inicial pagam os custos de manutenção e remuneram o risco dos privados, serem fixadas no momento da assinatura e pagas ao longo da vida da concessão, que normalmente coincide com a vida útil da infra-estrutura.

Ao falarmos de desvantagens importa destacar que o custo final é mais alto que no modelo de empreitada uma vez que o Estado terá de contratar equipas de monitorização e que os riscos assumidos pelos privados terão de ser remunerados, reflectindo-se esse prémio no valor do contrato.

3) As parcerias público-privadas com concessões de portagem virtual têm uma natureza muito semelhante ao modelo anterior com excepção aos pagamentos do Estado que estão indexados ao tráfego real.

Para além das vantagens referidas no modelo anterior, é importante referir que, neste modelo, os pagamentos do Estado

Existem quatro modelos base para o financiamento de infra-estruturas rodoviárias: empreitada de reabilitação e manutenção; concessão com pagamentos por disponibilidade; concessão com pagamentos de portagem virtual e concessão com pagamentos de portagem real

irão variar de acordo com o tráfego, pois o mesmo tem impacto directo no custo de manutenção e desgaste do troço, ao invés do modelo de disponibilidade em que os pagamentos são fixos. Da mesma forma, a rentabilidade dos privados estará indexada ao tráfego.

Entre as desvantagens, está a maior rentabilidade exigida pelos privados e um risco de insolvência do parceiro privado mais elevado, caso o tráfego seja menor que o previsto e consequentemente os pagamentos do Estado não sejam suficientes para cobrir os custos operacionais e de manutenção. 4) O modelo de concessão de portagem real, no qual os utentes da infra-estrutura pagam portagem pelo número de quilómetros percorridos, distingue-se dos anteriores porque permite a partilha do custo da infra-estrutura entre o Estado e os utentes dos troços. Dependendo do volume de tráfego e das tarifas praticadas, as receitas das portagens podem ou não ser suficientes para reembolsar o investimento inicial, pagar os custos operacionais e de manutenção e gerar retorno ao parceiro privado. Caso as receitas não sejam suficientes, é possível combinar o modelo de portagem real com qualquer um dos três modelos anteriores.

Por outro lado, a grande desvantagem deste modelo é o risco do tráfego ser inferior ao previsto, o que tem impacto na rentabilidade do projecto para os privados. O tráfego num troço rodoviário pode ser influenciado pela tarifa, tempo de viagem, vias alternativas, crescimento macro-económico, crescimento

do poder de compra, entre outros. Devido à dificuldade em prever todas estas variáveis, existem muitos exemplos de concessões em que o tráfego real foi muito mais baixo que o previsto, levando à insolvência do projecto.

No caso específico da renovação dos principais eixos rodoviários de Moçambique, a melhor opção poderá ser uma combinação de dois modelos dependendo da especificidade dos troços em termos de localização, tipologia de tráfego e objectivo socio económico.

Para a determinação do modelo mais eficiente é fundamental efectuar estudos detalhados de viabilidade técnica, financeira e operacional utilizando consultores com experiência em projectos semelhantes. Um plano desta natureza necessita igualmente de uma equipa de trabalho dedicada exclusivamente ao projecto, à gestão dos concursos públicos e implementação dos contratos de concessão. Desta forma aumentaremos a probabilidade de sucesso na redução do custo para o Estado e maximização da qualidade das infra-estruturas para os utentes. Este tipo de equipa de trabalho ainda não existe em Moçambique, mas pela experiência em países como África do Sul, Portugal e Reino Unido, foram possíveis melhorias significativas no processo de governação, decisão e implementação dos projectos.

Em conclusão, se o modelo for adequado ao projecto, o financiamento vai certamente existir e a um custo socialmente aceitável.

Os modelos de financiamento de infra-estruturas rodoviárias estão criados, resta saber qual será o caminho a seguir

Nação

O MesMO hOrizOnte... cOM nOvas estradas e destinOs

Dos 750 milhões de dólares necessários anualmente para construir, manter e reabilitar estradas, Moçambique dispõe de apenas 300 milhões, o que acaba por aguçar a consciência de que não há volta a dar se não privatizá-las para combater a elevada precariedade e conferir dinâmica à actividade económica. Mas a profundidade dos problema exige muito mais.

A E&M analisa os planos para a rede nacional de estradas

“não faz sentido que, até hoje, não tenhamos uma rede de estradas de Norte a Sul de qualidade e com padrões de segurança internacionalmente aceites. Andamos sempre nos remendos e quando são realizadas obras em determinados troços, estas são mal feitas, não têm durabilidade. Ainda assim, todos os dias se procede ao lançamento de novos concursos para a reabilitação de vias com valores exorbitantes”. Eis o desabafo de quem conhece as estradas de Moçambique, Junaide Lalgy (um dos mais importantes empresários da área dos transportes de Moçambique e da SADC), e que encaixa bem como ponto de partida para descrever a situação precária das vias, de um modo geral.

milhões de dólares É o que falta anualmente, ao nível das despesas de construção, manutenção e reabilitação de estradas em moçambique

Este é, de resto, um desabafo que também encontra eco nos dados da última avaliação do Índice de Competitividade Global do Fórum Económico Mundial, que classifica a rede nacional de estradas como a 8ª pior em 140 países avaliados. Uma desvantagem a ter em conta quanto à capacidade de competir com a maior parte das economias do mundo, e principalmente de uma região em processo acelerado de integração económica. Para se ter uma ideia, segundo dados do Fundo de Estradas, só 25% dos cerca de 30 mil quilómetros de vias classificadas estão pavimentadas. Países como a Namíbia apresentam quase 90% das suas estradas em boas condições e, por isso, com custos e tempos de transporte bem

Nação

EStá

Quem já percorreu distâncias por terra não se surpreende com estes números

O desnível entre vias pavimentadas e não pavimentadas é considerável em quilómetros

mais baixos do que os de Moçambique. “Isso pesa directamente nos custos das operações. E os exemplos são vários: na EN1, o troço Palmeiras – Xinavane está degradado, é estreito e muito susceptível a acidentes. O mesmo ocorre no troço Vilankulo – Rio Save que, de tão precário, não merece o estatuto de Estrada Nacional, ou com o troço Gorongosa – Caia, entre tantos outros, incluindo estradas recentes, mal feitas”, descreve com ar de revolta, o empresário Junaide Lalgy. Com uma rede cuja matriz vem da era colonial (até 1975, ano da independência nacional), o défice financeiro tem sido o maior obstáculo. É que o país só investe 300 milhões de dólares por ano, dos 750 milhões (estimativa do próprio Fundo de Estradas) que seriam necessários para a construção e reabilitação da malha rodoviária. Desses, cerca de 100 milhões são para pagar despesas de manutenção (de rotina periódica de todo o tipo de estradas, incluindo as não classificadas),

“A logística é um factor muito importante para a competitividade das nações. Se Moçambique quiser competir, sobretudo no quadro da integração económica da SADC, naturalmente precisará de estradas em qualidade e em quantidade”

sendo os restantes 200 milhões alocados à construção de novas estradas e pontes. A insustentabilidade deste modelo e o facto de não haver melhorias visíveis pelo país (ver gráfico) fez com que, nos últimos dois anos, a Administração Nacional de Estradas (ANE) tenha vindo a estudar os efeitos de uma mudança de paradigma através de uma aposta voltada para a privatização de algumas destas vias.

aposta de consenso Este é um cenário novo no país. Recentemente, foi anunciada para breve a concessão de cinco estradas nacionais a operadores privados, nomeadamente os troços: Marracuene – Xai-Xai, na EN1, com uma extensão de 185 quilómetros; Matola – Boane – Namaacha, na EN2 (65,9 quilómetros de extensão); Impaputo – Goba, na EN3 (31 quilómetros); Nampula – Namialo, Lúrio – Metoro, na EN1 e Nacala – Namialo, na EN12, totalizando 415 quilómetros de via.

estradas dO zaMbeze: experiência beM-sucedida

Mesmo com um histórico incipiente no que diz respeito à concessão de estradas, o país está em altura de apontar vantagens dignas de menção. “Quando as Estradas do Zambeze iniciaram a operação, em tete, desde o início da obra, em 2009, até ao arranque da actividade propriamente dita, em 2012, tínhamos índices elevados de acidentes, muitos deles resultando em perda de vidas. Quem entrava na província de tete por Changara e fazia todo o eixo principal da EN7 levava no mínimo cinco horas e arriscava-se a ter danos na viatura dada a quantidade de buracos na via. Hoje, o mesmo percurso é feito em duas horas e a sinistralidade rodoviária reduziu em mais de 150%. Estas são as vantagens de uma estrada concessionada”, explica sucintamente Joaquim dai, administrador das Estadas do Zambeze, concessionária da EN7. Outro bom exemplo foi destacado numa visita efectuada à EN4 pelo ministro das Obras Públicas, Habitação e recursos Hídricos, João Machatine, que reconheceu que a via que liga Maputo à África do sul é, também, “um exemplo de concessão, na segurança e tempo de viagem”.

Numa conversa com a E&M, o director-geral da ANE, César Macuácua, assegura que este é um processo que só está a começar: “as concessões irão continuar nos próximos tempos”, garante. Preferindo não avançar com mais detalhes, admite que este será o modelo a seguir, “e a melhor alternativa para libertar o Estado” dos elevados encargos com as estradas, concentrando esforços em prover outros bens primordiais à população (escolas, hospitais, habitação, segurança, etc.).

O PCA do Fundo de Estradas, Ângelo Macuácua, também reforça essa aposta na privatização. “As concessões de natureza comercial precisam de um significativo volume de tráfego. Nem todas podem ser concessionadas, daí que o sector esteja a avaliar outras alternativas de concessões, como por exemplo para a manutenção no sentido de gerar recursos que assegurem pelo menos a manutenção de estradas, tal

como acontece actualmente com a ponte Maputo-Katembe”, explicou.

Com pouca informação detalhada, tudo o que se assegura é que “existe interesse de várias empresas na gestão de estradas, mas há também muita coisa por estudar e acautelar. Talvez a principal seja o facto de não se saber ainda bem que estradas têm ou não o tráfego mínimo para se tornarem viáveis para um concessionário, ao nível da exploração comercial”.

“estamos no caminho certo”

Joaquim Dai, administrador da empresa Estradas do Zambeze (consórcio detido pela Ascendi Group, Mota-Engil Engenharia e Construção África e Infra Engineering), concessionária de 700 quilómetros de estradas na província de Tete, revela que “vários estudos já comprovaram que a concessão de estradas em muitas vias é, de facto, rentável para as concessionárias, o que reforça a ideia de que este modelo traz ganhos para todos e sobretudo para a economia do país”.

Segundo Dai, “nos últimos dez anos, o Estado gastou muito pouco com a manutenção de estradas em Tete porque existe uma empresa que faz esse investimento, incluindo a zona que gerava a maior despesa, o eixo principal, a EN7. As próprias contas que o Governo faz do resultado desta política, tanto com a TRAC como com a Estradas do Zambeze, encorajam-no a prosseguir”. Para o empresário Junaide Lalgy este é, de facto, o caminho a seguir: “é assim em todo o mundo e não se estará a inventar nada. Em Moçambique os corredores deviam ser concessionados. A EN4 por exemplo, concessionada à TRAC, apesar de apresentar diferenças de padrão (que é muito melhor no lado sul-africano do que no de Moçambique), é uma estrada transitável e de boa qualidade. Outro bom exemplo é do corredor da Beira, que oferece a possibilidade de concessionar os troços que vão a Machipanda (Província de Manica), Tete e Malaui, que têm muito tráfego, daí que sejam apetecíveis às concessionárias. Também se pode concessionar a estrada que está em construção, no corredor do Norte, que vai ligar Cuamba e Lichinga ao Malaui”, antevê. Lalgy também tem a imagem do que seria o ponto óptimo: “tendo estas estradas concessionadas, incluindo a EN1 (ainda que parcialmente) e se for construída outra estrada que ligue o Sul ao Norte (até Palma), com ramificações em Macuba

Nação

para ir a Cuamba e Lichinga, teremos o essencial quase resolvido no domínio das estradas”, enuncia.

privatizar com pragmatismo

Olhando para a má qualidade da rede viária e para a o grande défice de finanças do país, o PCA do Fundo de Estradas, sugere uma espécie de maximização da alocação do pouco que há disponível: “É preciso que olhemos para estas questões com pragmatismo, já que a concessão não deve ser vista como solução de todos os problemas do sector, porque uma concessão é para que os utilizadores possam contribuir para o desenvolvimento daquela estrada em particular. Agora, o benefício que há é que o financiamento alocado pelo Estado para manter as rodovias passa a reforçar outras estradas”. Isto, claro, desde que o Estado não desista de alocar os fundos que forem destinados ao sector mesmo quando a privatização for efectiva, apostando na melhoria da malha não concessionada. O estado precário de muitas estradas nacionais não é de hoje. Ao longo dos anos, vários concursos públicos foram

não havendo dúvidas sobre a necessidade de privatizar, o trabalho agora será definir a padronização das regras entre países vizinhos. por exemplo, a experiência mostra regras divergentes entre Moçambique e Malaui, na mesma estrada, que dificulta o seu uso nos dois lados

OperadOres rOdOviáriOs quereM ter vOz activa

Os privados que trabalham essencialmente na área do transporte rodoviário entendem que deviam participar activamente dos planos que se traçam para o sector, porque, embora (eventualmente) não tenham conhecimentos em engenharia, a experiência no terreno confere-lhes conhecimentos suficientes para partilhar com os decisores neste domínio. É da falta desse espaço que se queixa Junaide Lalgy. segundo o empresário, um dos problemas é a existência de várias organizações, associações que se supõe serem responsáveis por dar voz aos operadores e influenciar a acção dos decisores. “É com alguma frustração que digo que estas organizações não têm qualquer peso, servem para ‘show off’, clientelismo, lobby, negócios particulares. Não temos nada voltado para o bem comum no sentido de desenvolver este país” criticou, igual a si mesmo, o empresário, preferindo não indicar a quem se refere concretamente.

anunciados, mas pouco se fez, por razões que as autoridades do sector dizem desconhecer. Tudo dá a entender que o “sufoco” financeiro que o actual Governo enfrenta terá aguçado a consciência da privatização já que, desde Abril de 2016, os parceiros deixaram de apoiar o Orçamento do Estado e limitaram outras formas de ajuda ao país.

Joaquim Dai explica que “este pensamento (concessão de estradas a privados) foi tomado já há algum tempo, mas faltava a sua materialização, tendo começado a andar quando foi concessionada a EN4 à TRAC e depois a EN7 à Estradas do Zambeze.” Também admite nunca ter havido “tanto cometimento” em privatizar estradas como agora parece começar a acontecer. “Com os concursos lançados resta saber quem serão os vencedores e quando se iniciam as actividades. Garantidamente vamos verificar melhorias na qualidade das estradas”, antevê. No entanto, nesta nova abordagem do desenvolvimento dos projectos, há questões de fundo a serem salvaguardadas. Começando por um necessário e urgente levantamento sobre a rápida degradação

A rede de estradas em Moçambique ainda é predominantemente em terra batida

Nação

EntrE AS piorES rEDES DE EStrADAS Do MunDo

Moçambique tem a 8ª pior rede de estradas em 140 países avaliados pelo fórum Económico Mundial no quadro do Índice de Competitividade global de 2018. a realidade revela uma fragilidade preocupante se lançarmos olhar à competitividade no quadro da integração da sadC

Ranking Global

áfrica ainda distante… … dO restO dO MundO

Os governos não têm conseguido realizar investimentos satisfatórios para fazer crescer as vias de acesso

oS 10 piorES

a esse nível, as melhores estradas estão, sem surpresa, na américa do Norte, Europa e Ásia

top 10

da rede. Neste ponto, o Fundo de Estradas “garante” que os intervenientes do sector estão prontas a corrigir. Até porque, ainda hoje, mais de 90% do transporte de carga (e até de pessoas) que se movimenta dentro do país acontece por via das estradas o que mostra a necessidade de investir no desenvolvimento dos outros modos de transporte complementares.

Depois, há a não observância dos limites de carga por desobediência dos transportadores e falta de controlo das autoridades, a invasão das bermas para desenvolver diferentes actividades e a fixação de infra-estruturas de distribuição de água e energia, encarecendo em até 40% a eventual ampliação das vias. É por isso que o PCA do Fundo de Estradas garante que “não haverá estrada a ser intervencionada, daqui em diante, sem que a fiscalização aperte o cerco pelo cumprimento destas normas”.

contexto global e regional Obviamente que é nos países mais desenvolvidos que estão as melhores malhas rodoviárias (ver infografia) porque neste sector, os projectos são caros e, por isso mesmo, exigem grande capacidade e independência financeira, algo que Moçambique não tem. Na SADC, Moçambique só é melhor do que Angola e República Democrática do Congo, o que revela que parte para a integração económica regional em clara desvantagem. Mas há contextos que explicam a forma como os países se posicionam no ranking global. Joaquim Dai lança um breve olhar aos países da SADC e conclui que “é relativamente fácil ler os números. Países que tiveram guerra e os que não tiveram têm classificações diferentes, já que na guerra uma das principais armas de ataque são as emboscadas, em que se destroem estradas para que as viaturas se movam devagar facilitando ataques”.

Por outro lado, prossegue, “era impossível desenvolver novas estradas para ligar novas vias que estivessem dentro das zonas de conflito. Por isso a Namíbia (que nunca teve guerra) apresenta uma situação tão favorável, ao contrário da sua vizinha a Norte, Angola (que saiu da situação de conflito já neste século), têm um desenvolvimento ao nível das estradas tão diferentes entre si.”

tExtO Celso Chambisso fOtOgrafia Jay Garrido & d.r.

fonte fórum económico Mundial
fonte fórum económico Mundial

Na voz de...

“Temos

de melhorar os planos de expansão da rede de esTradas”

sem fundos suficientes para construir novas estradas, há que preservar as vias que já existem, através da manutenção periódica, melhoramentos localizados e fortalecimento da capacidade de lidar com emergências como enxurradas. Mas até para isso há pouco dinheiro. Há já muitos anos que se fala de uma rede de 30 mil quilómetros de estradas classificadas para um processo de reabilitação, mas começa a faltar o tempo de ampliar a grelha viária para responder aos desafios da competitividade e de desenvolvimento que o país se prepara para abraçar.

Ainda assim, o presidente do Fundo de Estradas, Ângelo Macuácua, mostra-se optimista quanto a essa mudança, muito por força da nova dinâmica das concessões de gestão para operadores privados, mas começa e encerra a conversa com a E&M com o mesmo apelo: a necessidade de uma planificação integrada para o futuro.

Parte dos factores que pesam na fraca qualidade das estradas parece remeter-nos à falta ou deficiente coordenação entre diferentes instituições do Estado. Referimo-nos, por exemplo, à colocação de infra-estruturas e instalação de outras actividades próximas às vias, bem como o incumprimento dos limites de carga. O que pode e deve ser melhorado a este nível?

Essencialmente, tem de se melhorar a coordenação e a articulação inter-institucional, levando a que cada uma das instituições envolvidas faça as devidas consultas a outras instituições antes de querer instalar infra-estruturas. Além disso,

TEMos rEcursos E não os EscoAMos nAs quAnTidAdEs nEcEssáriAs por dEFiciênciA ou FAlTA dE viAs. prEcisAMos dE uMA plAniFicAção inTEgrAdA

é preciso que qualquer instituição seja mais proactiva no sentido de olhar para o que acontece no país. por exemplo, se quisermos desenvolver uma plantação florestal, que leva entre 20 e 25 anos, é preciso sermos capazes de perceber que quando chegar a fase de maturação das árvores será necessário ter estrada para escoar a produção. o mesmo se aplica a todos os outros recursos do país. É necessário que haja capacidade de perceber que haverá necessidade de criar estradas enquanto se desenvolvem planos de produção e não pensarmos nelas quando estivermos na fase de produção comercial, como tem acontecido. Temos recursos e não os escoamos nas quantidades necessárias por deficiência ou falta de vias. Precisamos de uma planificação integrada.

Olhando para os dados da ANE vemos que a maior parte das estradas não revestidas se concentram no Centro e Norte do país. Que leitura se pode fazer desta realidade, sem perder de vista que as decisões de investimento em estradas tomam como determinante o nível de actividade produtiva dos locais? se calhar precisamos de aprofundar melhor a leitura dos dados. olhando para os investimentos que estão a acontecer, vejo mais projectos de revestimento de estradas no centro e norte. por exemplo, niassa é uma das províncias onde praticamente toda a rede era de estradas não revestidas, mas agora sente-se uma mudança, já que os investimentos do Banco Africano de desenvolvimento (BAd) estão concentrados nesta província. o projecto de estradas rurais (avaliado

Na voz de...

em 150 milhões de dólares) que nos preparamos para executar, vai revestir algumas estradas em 10 distritos nas províncias de Zambézia (Centro) e Nampula (norte). paralelamente, temos a En6 reabilitada com grande extensão na zona centro e a estrada Tica – Búzi, uma via estratégica para a província de sofala, também reabilitada. Portanto, não gostaria de olhar para a regionalização do investimento em estradas. As prioridades têm a ver com questões definidas pelo governo em função de vários elementos sociais e económicos que são considerados e em coordenação com os parceiros de cooperação.

No meio de tantos desafios, uma questão que vem sendo mencionada é a necessidade de uma via alternativa à EN1, por ciclicamente apresentar troços de difícil transitabilidade chegando ser mesmo intransitáveis em determinadas ocasiões. Que lugar ocupa esta questão nas prioridades do sector? É um projecto já concebido em termos de pensamento estratégico, mas não em termos de planeamento de médio prazo. olhando para os recursos existentes, a prioridade tem sido a En1. para pôr em condições só a EN1 (reabilitar os troços mais degradados e realizar a manutenção periódica) precisamos de mais de 600 milhões de dólares.

De um total de 750 milhões de dólares, Moçambique só tem disponível um orçamento de aproximadamente 300 milhões para atender às necessidades do sector. Considerando o facto de este défice ser permanente, será correcto aferir que temos a condição das estradas a piorar progressivamente com o passar do tempo? o que ocorre é que, com recursos limitados, temos de definir prioridades e peneirar o que é absolutamente necessário que é manter as estradas, sobretudo as que produzem maior benefício económico para o país, estradas que ligam zonas de alto padrão de produção principalmente agrícola e pesqueira. Também é prioritária a manutenção de rotina e melhoramentos localizados. se olharmos para os nossos índices de actividade, uma das áreas em que não conseguimos ter grande realização é a manutenção periódica, que é a que assegura a preservação do activo rodoviário. se ela não é feita, tem implicações no futuro, ou seja, quando chegar a vez de investir, por cada dólar que

“As

prioridAdEs TêM A vEr coM quEsTõEs dEFinidAs pElo govErno quE são considErAdos E EM coordEnAção coM os pArcEiros dE coopErAção”

não realizamos em manutenção, acabaremos por investir 3 a 4 dólares quando estivermos a reabilitar.

E por causa disso há uma ginástica permanente que se faz para mobilizar financiamento junto dos parceiros internacionais… o nosso orçamento tem uma grande participação do financiamento externo (cerca de 70%) porque a filosofia do financiamento ao sector de estradas é de que os recursos internos, não só de Moçambique mas de todos os países em vias de desenvolvimento, têm de assegurar a manutenção de estradas. depois, através das alocações adicionais do or-

çamento do Estado, mais o financiamento dos parceiros, faz-se assistência a novos projectos de asfaltagem e reabilitação de estradas.

A esse nível, quais são, actualmente, os principais parceiros externos de financiamento?

instituições como o BAd ou o Banco Mundial (BM) e todas as outras são muito importantes. indispensáveis mesmo. os parceiros multilaterais são, de facto, os principais financiadores do sector de estradas. São bastante activos e financiam projectos concretos. O volume de financiamento depende um pouco da maturidade do projecto, não há financiamentos

ao orçamento geral do sector, por isso não há valores fixos. Por exemplo, no ano passado terminámos o projecto financiado pelo BM para as estradas de emergência da província de gaza. portanto, vínhamos com um ritmo de execução financeira bastante elevado porque os projectos já estavam na fase de maturação. Agora estamos a implementar um projecto de 150 milhões de dólares para as estradas rurais, estando ainda no primeiro ano, que é essencialmente de estudos, pelo que as alocações financeiras são ainda diminutas, apesar de ter sido activada a componente de emergência por causa dos ciclones, à luz da qual o Banco Mundial já disponibilizou 35 milhões de dólares já na fase de execução. no caso do BAd, estamos a implementar a Estrada do niassa e o corredor de nacala.

Qual é a extensão das estradas rurais a ser construída nos diferentes projectos e em quanto tempo?

no caso do Banco Mundial, o pacote de 150 milhões de dólares contempla qualquer coisa como 4 mil quilómetros de estradas. não será para asfaltar todas, visto que parte das intervenções vão beneficiar de estruturas hidráulicas mais robustas e outras, sim, poderão vir a ser asfaltadas. Estamos, nesta altura, a terminar a avaliação das necessidades. no caso do financiamento da União Europeia (uE) não temos dados exactos, mas acredito que devem ser entre 1 000 e 2 000 quilómetros.

Recentemente nota-se um esforço visível das autoridades do sector em avançar com a concessão de estradas a privados. É um tema que já vinha sendo ensaiado há muito tempo, mas não se conseguia ir longe. Porquê? A realidade objectiva mostra-me que a melhor concessão, que é citada como exemplo em áfrica, é a da En4. somos pioneiros de uma das concessões mais exemplares no continente por causa da natureza e dos resultados que trouxe, nomeadamente ao aumentar o comércio entre Moçambique e a África do Sul e pelo facto de que acabávamos de sair de uma guerra. Há uma concessão para a Estradas do Zambeze que incide sobre as estradas da província de Tete. Com alguns desafios que enfrentou, a Estradas do Zambeze tem sido uma concessão também de sucesso. Houve outros concursos que não tiveram a efectividade que se esperava e não estudei esses dossiers para me poder pronunciar com propriedade. Mas estamos esperançosos que as novas concessões tragam bons resultados.

Se, no passado, existiram projectos de concessão que não avançaram, que progressos foram realizados para mudar o rumo das coisas?

Há muito interesse dos investidores. o próprio sector privado tem estado a solicitar a concessão de estradas. por outro lado, sentimos que, na fase em que estamos, os próprios utentes compreendem melhor o conceito de utilizador-pagador e a vontade de pagar é fundamental para que a concessão possa vingar. Estamos numa fase de maturação do conceito de utilizador-pagador e as condições estão criadas para que as coisas avancem de forma mais firme.

Uma preocupação geralmente levantada é a fraca qualidade das estradas logo na fase de construção.

As próprias autoridades criticam aquilo a que já se assistiu por diversas vezes: estradas mal executadas, que cedem a uma qualquer primeira intempérie. Como pode ser feita uma melhor salvaguarda do interesse público?

A qualidade é uma questão importantíssima no investimento rodoviário. os sistemas activados para que haja qualidade incluem o empreiteiro, fiscal da obra e a supervisão que é feita pela AnE. Também existe o Laboratório de Engenharia de Moçambique (LEM) que atesta e certifica os materiais utilizados nas obras. Existe também o departamento técnico que acompanha a execução da auditoria e de procurement aos projectos de estradas, contribuindo para que estas tenham, de facto, melhor qualidade. do nosso lado (Fundo de Estradas), temos estado a fortalecer o departamento de auditoria técnica colocando mais pessoas qualificadas e experientes para que façam este trabalho. A questão da qualidade também tem que ver com a forma como a estrada é utilizada. por exemplo, os técnicos podem avisar (até mesmo com a devida sinalização) que determinada estrada é de baixo volume de tráfego, mas em alguns momentos passam por ali veículos com excesso de carga que a danificam. Aos olhos de quem não esteve na definição dos padrões do projecto de construção, pode parecer que está diante de uma estrada de baixa qualidade, daí que não devamos olhar somente para a desonestidade dos empreiteiros ou má fiscalização.

Que desenvolvimentos podemos esperar de tudo isto, ao longo dos próximos anos?

Acredito que estamos à altura dos diversos desafios. Estamos no bom caminho, mas é necessário que não canalizemos atenção exclusivamente para as estradas. Temos de olhar para outros modos de transporte, porque se continuarmos a transitar muita carga por estradas, com o aumento do volume de produção que se perspectiva na economia, não seremos competitivos. Teremos igualmente de desconcentrar a rede de estradas da zona litoral e olhar com maior atenção para o interior onde também há muita produção, sobretudo agrícola, que precisa de ser escoada,

tExto Celso Chambisso fotografia Jay Garrido

Macaneta ganhou vida coM a ponte

Com a construção da ponte sobre o rio Incomáti, o turismo passou, definitivamente, a ser o mais valioso cartão de visita da Macaneta. É claro que essa mudança também trouxe desafios. Saiba quais

Às portas de maputo (a pouco mais de 40 quilómetros) mora um paraíso natural, ainda hoje, pouco explorado. Apesar da proximidade da capital, a Macaneta nunca foi, no entanto, o destino principal de férias de quem vivia em Maputo. Muito por culpa das dificuldades do acesso que tinha de ser cumprido, morosa, e desorganizadamente, como muitos certamente se lembrarão, por via de um batelão que fazia prolongar uma viagem, hoje feita em 30 minutos, numa penosa aventura de duas horas. No entanto, esses problemas são hoje

província

Maputo

Distrito De Marracuene

área 703 kM²

Habitantes 61 000 região Sul

apenas memórias longínquas. Tudo porque a partir de Novembro de 2016, foi inaugurada a ponte que atravessa o rio Incomáti que liga a Vila de Marracuene e a localidade de Macaneta. Assim, passados quase três anos de funcionamento da infra-estrutura, e se no passado aquele destino turístico conseguia receber pouco mais de 100 mil turistas por ano (de acordo com estimativas dos empresários locais), mesmo com todas as questões relacionadas com a transitabilidade, acredita-se que hoje o número quase tenha triplicado, visto

que lugares de atracção de turistas — mais de 110 — é o que mais abunda na pequena localidade, entre os que estão em funcionamento ou os que ainda estão em fase de projecto.

O desenvolvimento turístico é, pois, um dos exemplos que elucidam a evolução trazida pela nova infra-estrutura, sendo que muitos agentes turísticos que lá operam não hesitam em afirmar à E&M que Macaneta “se transformou num dos pólos de maior desenvolvimento turístico do país”, dizem-nos.

As opiniões, multiplicam-se. “Já não temos motivos para reclamar, a ponte galvanizou tudo”, garantiu Elvis Barros, gestor da Sunrise Lodge Macaneta.

Mais negócios

Quem já começa a esfregar as mãos de contente são os operadores turísticos, claro, porque o negócio começou a fluir como nunca. E nos dias que correm, turistas é o que não falta por ali, mesmo que, na sua maioria, ocasionais, de fim-de-semana, para apreciar a paisagem das águas azuis e tudo aquilo que a natureza ainda pouco tocada pode oferecer.

Para o presidente da Associação dos Agentes Económicos de Marracuene (AGEM), João das Neves, “a ponte veio aumentar de forma significativa a procura de serviços de turismo na região. Não há dados estatísticos, mas sente-se que o nível de receitas provenientes do turismo triplicou nestes dois últimos anos, em resultado da disponibilidade da ponte”, assegura, para depois sublinhar que “há uma grande oferta de serviços de hotelaria e restauração ao longo da praia, mas muitos outros estão ainda em construção”.

Mais do que isso, a ponte não só fomentou o número de turistas, como também acabou por facilitar a instalação de novas estâncias turísticas dinamizando o desenvolvimento no local até pelo facto de, segundo João das Neves, “haver pessoas da cidade de Maputo que agora começaram a instalar as suas residências e negócios na Macaneta. E a razão não seria outra, se não estar mais perto do local de lazer tendo, com isso, melhor qualidade de vida.”

A mesma fonte explica também à E&M que a Estrada Circular de Maputo (que liga a capital a Marracuene) é um outro factor que veio impulsionar o turismo em Macaneta, pois acaba por facilitar a circulação de pessoas e bens. “Naturalmente que veio aliviar as dificuldades que a população tinha de se aproximar do desenvolvimento e trouxe, por outro

É o número de estabelecimentos existentes na macaneta, entre complexos que estão a funcionar e aqueles que estão em construção

lado, uma oportunidade para os agricultores e pescadores da Macaneta, facilitando as suas vidas para levar os produtos aos grandes mercados de Maputo”, considera o presidente da Associação dos Agentes Económicos de Marracuene. Carol Dias, gestora do Lodge ‘Lugar do Mar’, destaca os benefícios que a ponte trouxe à localidade da Macaneta, afirmando mesmo que “veio colocar Macaneta num lugar de topo, onde sempre devia ter estado ao nível da província de Maputo. Agora já não temos motivos de queixa. Por exemplo, na quadra festiva passada, esgotámos todas as reservas,”, enfatizou.

turismo doméstico com muito peso

Se, por um lado, a entrada em funcionamento da ponte sobre o rio Incomáti galvanizou a entrada de investimentos públicos e privados na localidade e aproximou toda a província de Maputo das praias de águas azuis e areias brancas, por outro, estimulou a prática de turismo doméstico que, antes, se deslocava para as praias do Bilene, Xai Xai e Ponta do Ouro. No entanto, nem tudo é positivo. “De certa forma, a enorme afluência afugentou uma parte daqueles turistas que tradicionalmente vinham visitar a Macaneta”, explica João das Neves. No entanto, apesar disso há que assumir que o sector turístico de Macaneta esteve sempre, ao longo das últimas décadas, muito vinculado ao mercado sul-africano. E o surgimento, em força, do turismo doméstico fez com que alguns turistas sul-africanos que, tradicionalmente, eram os mais avistados por ali, e que tiveram um importante papel no desenvolvimento do turismo de Macaneta, se retraíssem e escolhessem outras paragens. Já ao nível dos preços, e mesmo com a entrada em funcionamento da ponte, continuam a ser competitivos e a inflação não se fez notar. É isso mesmo que nos garantem alguns agentes locais, e uma observação no local. “Os preços continuam a ser muito competitivos e acessíveis para o mercado da classe média, em relação a outros pontos turísticos da região”, garante a gestora do ‘Lugar do Mar’.

problemas ambientais são um grande desafio São questões que se colocam sempre que o desenvolvimento chega em forma de crescimento urbanístico, multidões e automóveis, com as consequências imediatas da erosão num sistema que não está preparado ao nível das infra-estruturas sanitárias e sociais. É por isso que a

província

gestão ambiental, sobretudo dos resíduos sólidos, já se tornou um desafio para a comunidade da Macaneta, sobretudo para os operadores turísticos, aqueles que mais recebem (e de forma directa) reclamações dos turistas.

Segundo João das Neves, o desenvolvimento que se torna hoje facilmente observável na Macaneta “não é estruturado e muito menos planificado a médio e longo prazos.” Desse rápido crescimento, que se vai verificando em outras zonas do país em situação semelhante (como na Ponta do Ouro, após a entrada em funcionamento da nova estrada e ponte, por exemplo) não está a ser acompanhado das necessárias infra-estruturas básicas, sobretudo de segurança, saúde e saneamento. “É preciso que se trabalhe no plano de desenvolvimento de toda a região, envolvendo os actores locais. O que acontece agora é que os problemas ambientais, sobretudo relacionados

“A ponte veio aumentar de forma significativa a procura de serviços de turismo na Macaneta”

com a existência de mais resíduos sólidos, já estão a tornar-se evidentes, e a levar à necessidade de criação de mecanismos de desenvolvimento estruturados de modo a transformar a Macaneta num destino turístico de excelência”, defende o empresário João das Neves. Mais do que isso, questões relacionadas com a segurança (em terra e no mar) também se têm mostrado como um novo desafio às autoridades locais, uma vez que, segundo contam os operadores turísticos da Macaneta, o número do pessoal do corpo de salvação “é ainda muito reduzido” e não são poucas as notícias de afogamentos provocados pela agitação marítima. A seu tempo, iremos perceber se a maré cheia de turismo se traduz, de facto, em maior desenvolvimento.

texto Hermenegildo langa fotografia d.r.

Ponte demorou a chegar mas, quando abriu, alargou os horizontes de quem apostou na Macaneta, nas áreas do imobiliário e turismo

OPINIÃO

Droga, um mal que consome o país

Hermenegildo Langa • Jornalista da Economia & Mercado

o consumo e tráfico de drogas ilícitas está a atingir níveis preocupantes no país. Dados do Gabinete Central de Prevenção e Combate à Droga indicam que, entre 2012 e 2016, foram apreendidos 27 mil quilos de “cannabis sativa”, vulgo ‘soruma’, seis toneladas de haxixe, mais de uma tonelada de efedrina e 553 quilogramas de heroína. Entretanto, em 2017, as autoridades apreenderam cerca de oito toneladas de soruma, das quais 73,39% na província da Zambézia, no Centro do país. Este mal atinge sobretudo adolescentes e jovens, considerados os grupos mais vulneráveis.

O relatório das Nações Unidas de 2019 também aponta que cerca de 35 milhões de pessoas sofrem, em todo o mundo, de transtornos por uso de drogas, mas apenas uma em cada sete recebe tratamento médico adequado.

Até aqui, nota-se que o país já se encontra num nível preocupante, mas o mais grave, pelas informações que vêm sendo reportadas pelos órgãos de comunicação social, é que o país se tornou, nos últimos tempos, num corredor aberto ao tráfico para abastecer o exterior, sobretudo a África do Sul e um conjunto de países da Europa. E, pela permeabilidade das nossas fronteiras, os traficantes exploram a vasta fronteira terrestre e os cerca de 2 500 quilómetros de costa.

Na verdade, esta é uma situação grave para qualquer país que luta contra o enriquecimento ilícito, sobretudo pela lavagem de dinheiro que já tomou conta de inúmeros segmentos económicos em vários países africanos, e não só.

A questão aqui é simples: sabemos que o país é usado, há tempo de mais, como corredor para o tráfico de drogas. Mas de onde vêm essas drogas? Quem são os produtores? E por que o nosso país é usado como corredor? Nesta senda, muita coisa existe por ser esclarecida, a bem da

saúde pública. No entanto, o que a realidade mostra é que, em regra, não passam duas semanas sem que as autoridades reportem alguma apreensão. Mesmo assim, os traficantes não se cansam de desafiar as autoridades.

Leva-me a pensar que, para lá do que é apreendido, existam muitas outras coisas que escapam dos radares das autoridades. E, quando isso acontece, pode crer-se que a ousadia terá valido a pena. Se a má fama se transformasse em pontos para ganhar algum Óscar, o nosso país seria um dos mais cotados no tráfico de droga, marfim ou madeira.

É recorrente as nossas autoridades apreenderem cidadãos nacionais ou estrangeiros transportando drogas, mas, mesmo sabendo desde logo que esses não são os verdadeiros donos, nunca convocam a imprensa para apresentar os legítimos donos dessas maléficas mercadorias, o que suscita muitas dúvidas sobre a eficácia desse combate.

O comportamento das nossas autoridades leva-nos a pensar que simplesmente se “contentam” em prender os cidadãos usados para transportar essas drogas.

No meu modesto entender, seria interessante um dia ouvir da Polícia que conseguiu deter os verdadeiros donos dessas drogas que tanto mal criam na nossa juventude.

Sem menosprezar o esforço das autoridades da Lei e Ordem, acho que há necessidade de envidar mais esforços, se realmente as nossas autoridades gostariam de ganhar crédito no seio da sociedade.

Sabe-se que não é tarefa fácil chegar a estes barões, mas é preciso que a nossa Polícia comece a valorizar o seu juramento. Se isso acontecer, acredita-se que essas pessoas que usam Moçambique como corredor de drogas, e até mesmo os seus consumidores, poderão se sentir-se minimamente ameaçados.

As nossas autoridades da Lei e Ordem devem envidar mais esforços, se realmente gostariam de ganhar crédito no seio da sociedade

Da OcciDental aO DesafiO tOtal a que se vai assistir nO rOvuma

A nova detentora dos activos da Anadarko diz estar “comprometida” com o projecto da Área 1 da bacia do Rovuma, depois de, em Agosto passado, ter fechado a compra da totalidade das acções e a sua venda posterior à Total

“a anadarko moçambique área 1 (“AMA1”) tem o prazer de confirmar a conclusão bem-sucedida da aquisição da Anadarko Petroleum Corporation (“Anadarko”) pela Occidental Petroleum Corporation, (ou apenas ‘Oxy’ no New York Stock Exchange), no dia 8 de Agosto de 2019.” Como resultado da fusão, garantia-se também, “a Anadarko Moçambique continuará a existir como subsidiária integral da Occidental, com os accionistas pré-fusão da Anadarko a deterem aproximadamente 16% das acções ordinárias da ‘Oxy’”. Depois, e conforme

mil milhões de dólares foi o valor que a ‘oxy’ pagou pela anadarko, batendo os 33 mil milhões que a chevron havia oferecido

anunciado a 3 de Agosto, a Occidental “celebrou um contrato de compra e venda definitivo com a Total, segundo o qual esta irá adquirir todos os activos da Anadarko na Argélia, Gana, África do Sul e Moçambique, incluindo todas as participações da Anadarko na AMA1”, lia-se, num outro comunicado da Anadarko. É o epitáfio bolsista de “uma jornada extraordinária, especialmente para uma empresa que começou com alguns poços de gás no Vale Central da Califórnia”, e que se encontrou, finalmente, com o seu “destino enquanto empresa de

classe mundial, no centro do lugar mais dinâmico de toda a indústria global de petróleo”, escrevia Daniel Yergin, autor de “O Prémio: A Busca Épica por Petróleo, Dinheiro e Poder”. Título sugestivo, sem dúvida. Até para a Anadarko que, depois da desconfiança inicial demonstrada, através do seu presidente-executivo, Al Walker, elogiou o resultado da licitação, dizendo em comunicado estar “orgulhoso do substancial prémio” que entrega aos accionistas.

mas quem é a ‘Oxy’?

De certa forma, a difícil batalha da aquisição da Anadarko é um retrocesso para um capítulo muito diferente da história da Occidental. De 1957 a 1990, a empresa foi liderada pelo magnata Armand Hammer, que fez grandes e arriscados negócios na Líbia e em outros pontos do mundo em desenvolvimento, com a ideia de transformar a Occidental num grande player do mundo do petróleo. Ao nível do público desinteressado pelo sector não conseguiu. Mas os negócios multiplicaram-se, e sob a sua administração, a empresa tornou-se um conglomerado com interesses em outras áreas, para lá do ouro negro, como a criação de cavalos ou o empacotamento de carne.

No entanto, nas últimas décadas, a Occidental mudou e... recuou na diversificação. Concentrou-se na Bacia Permiana, que recentemente se tornou o campo de petróleo mais produtivo do mundo e entrou na batalha de aquisições a que por ali se assiste. Quando aconteceu o colapso global dos preços do petróleo, há cinco anos, dezenas de companhias americanas faliram. Mas ali, entre o Texas e o Novo México, uma combinação de inovação tecnológica, investimentos agressivos e abundantes camadas de petróleo de xisto, transformaram um corredor outrora esgotado, no maior produtor mundial de petróleio. Disputada nos últimos anos pela BP, a Shell, a Exxon Mobil, a Concho Resources a Apache, a Chevron e a Anadarko (para além da Oxy, claro), a Bacia tornou-se o foco da empresa que, nos últimos anos, estava praticamente empatada com a Chevron no número de acres de exploração que tinha na zona.

E é nesse ‘desempate’ que se encontram os motivos pela vontade, primeiro, da Chevron tentar ‘abocanhar’ a Anadarko (que também é um importante player da Bacia) e o da ‘vontade de comer’ a Anadarko, consumada pela ‘Oxy’, que nunca fez segredo que o foco dessa aquisição eram, de facto, os activos da Anadarko.

A Anadarko Moçambique Área 1, agora detida pela Total, irá operar a Área 1 Offshore com uma participação dominante de 26,5% da concessão quem CONTROLA A ÁReA 1

Percentagem da participação no consórcio

E que vão ser agora combinados com os seus próprios recursos na Bacia, conseguindo uma posição bem mais competitiva numa região, já fortemente disputada por outros competidores esfomeados.

E foi isto que a Oxy pagou: os 600 mil acres da Anadarko na região, que estão entre os mais lucrativos dos EUA, a presença nos campos de águas profundas do Golfo do México onde a produção tem vindo a aumentar e, claro, as operações em África.

Biliões no feminino Vicki Hollub, directora executiva da Occidental Petroleum, tem-se mantido discreta desde que se tornou a primeira mulher a liderar uma companhia petrolífera norte-americana desde há três anos. No entanto, nos últimos tempos, começou a perder a timidez: avançou para a maior operação no oil & gas a nível mundial dos últimos anos, e até expressou publicamente o “desgosto” pelo facto de a Anadarko ter inicialmente recusado a operação da Occidental, que havia oferecido mais do que a Chevron. Ainda assim, nem todos parecem felizes com a operação pensada por Hollub. As acções da empresa caíram mais de 6% nos dias que se seguiram ao anúncio da operação que alguns analistas de Wall Street classificaram como “uma aquisição demasiado cara.”

A Moody’s, empresa de rating, dizia mesmo que o acordo “poderia aumentar a dívida da Occidental em 40 mil milhões de dólares e que o esforço para vender activos, reduzir custos e integrar efectivamente a Anadarko poderia stressar significativamente as operações da empresa.”

Greig Aitken, director de pesquisa sobre fusões e aquisições da Wood Mackenzie, escrevia mesmo que alguns investidores da Oxy “podem achar perturbador o facto de a sua empresa estar a pagar muito mais do que a Chevron estava disposta a fazer.”

Já a Chevron, ultrapassada no negócio, pondera a aquisição de outras empresas activas na Bacia Permiana, incluindo a Pioneer Natural Resources, a Concho ou a Diamondback Energy. Mas, até ver, o mercado até reagiu bem à derrota. “A Chevron demonstrou o seu compromisso com a disciplina de capital e políticas financeiras conservadoras”, disse Pete Speer, vice-presidente sénior da Moody’s ao New York Times. E complementava: “Se a Chevron tivesse

ONGC Videsh
BeAs ROVumA eNeRGy
BPRL VeNTuRes
fonte Anadarko

mercado e finanças

acrescentado mais dinheiro à sua oferta, como a Occidental fez há alguns dias, ela teriaaumentadomaterialmenteasuaalavancagem financeira mas enfraquecido em demasia o seu perfil de crédito”, enuiu.

aprovação total

A oferta de aquisição da Anadarko pela ‘Oxy’, oficialmente aprovada por 99% dos seus accionistas numa assembleia geral extraordinária até pode ter sido o maior negócio no sector, em décadas, mas colocou a petrolífera numa posição complexa e desafiante: porque comprou um activo caro e endividado, apesar de com muito potencial para ser explorado, claro. Com a passagem dos activos moçambicanos da Anadarko, agora no balanço da Oxy e com a recente FID aprovada em Junho passado, não andará longe de se tornar um novo grande player do mercado de oil & gas a nível mundial. E é nesse sentido que nada irá mudar pelo menos no que importa a Moçambique. São os próprios (novos) donos da Área 1 que o afirmam: “A Occidental está fortemente comprometida em garantir que, durante o período em que for proprietária da AMA1, a direcção e o cronograma do projecto permaneçam inalterados. Durante as minhas discussões com o CEO da Total, Patrick Pouyanné, este expressou o forte compromisso da Total para com o projecto e de construir sobre as bases sólidas estabelecidas pela Anadarko. Como resultado, estou confiante que a estreita parceria que a Anadarko

A oferta de aquisição da Anadarko pela ‘Oxy’, oficialmente aprovada por 99% dos seus acionistas numa assembleia geral extraordinária até pode ter sido o maior negócio, em décadas, no sector, mas colocou a petrolífera numa posição complexa e desafiante

a tOtal nO munDO

A nível global, é um dos principais grupos de exploração de oil & gas. Opera 14 311 estações de serviço no mundo, sendo que a distribuição de derivados de petróleo equivale a 50,8% das suas vendas. A multinacional francesa também actua na produção de energia a partir de centrais de gás de ciclo combinado e energias renováveis, na transformação de químicos e produtos de petróleo, transporte, armazenamento e vendas de gás natural, GNL, GLP e carbono. As vendas líquidas dividem-se da seguinte forma: Europa, 47,5%; França, 22,8%; África, 10,6%; América do Norte, 10,6% e outras localizações, 8,5%.

estabeleceu irá continuar e tornar-se-á mais forte”, afirmou Vicki Hollub. Já Pouyanné, CEO da Total, reafirmava também o compromisso da empresa, referindo-se a Moçambique como “um activo único que se encaixa perfeitamente” na estratégia e competências da petrolífera francesa. “Tenham, por favor, certeza do nosso compromisso em trazer o melhor das nossas capacidades humanas, técnicas e financeiras para fortalecer a execução do projecto sobre as bases sólidas estabelecidas pela Anadarko e seus parceiros, e implementar o projecto no interesse de todos os envolvidos, incluindo o Governo e o povo de Moçambique”, complementava.

A Total, de resto, conhece bem Moçambique onde está presente no negócio dos postos de abastecimento há já largos anos. Mas na história da empresa no país há também alguns capítulos de pesquisa de hidrocarbonetos, que interrompeu há três anos nas áreas 3 e 6, por falta de descobertas que justificassem o investimento.

Agora, prepara o regresso à extracção, numa altura em que está entre os líderes de produção de gás natural liquefeito (GNL) a nível mundial, posição que será reforçada quando o consórcio da Área 1, que agora lidera, começar a produzir resultados, em 2024.

TExTO Pedro Cativelos FOTOGrAFiA d.r.

Presença da Total no país vai deixar de ser apenas no retalho (downstream) passando para o upstream

empresas

Uma impressão ecológica

BNOME DA EMpREsA green Print REspONsávEL

DaviD Malauene FuNDAçãO 2017

ENDEREçO ONLINE www.greenprint.co.mz

40

cLIENtEs da banca, saúde e empresas de consultoria fazem parte do portefólio da green Print

num ambiente de negócios, nenhuma empresa se deveria orgulhar de não ter clientes. Porém, e por estranho que pareça, a Green Print é das poucas que se orgulha dessa realidade visto que no lugar de considerá-los assim, prefere chamar-lhes de parceiros ou amigos... do ambiente.

Um primeiro sinal da diferença, na forma de se posicionar no mercado desta empresa criada em 2017, que vende os seus produtos através de uma plataforma online, também como forma de minimizar a pegada ecológica, e com o foco em fazer acreditar que é possível aliar preocupação ambiental, redução de despesas e maior efectividade comercial. Criou por isso um serviço integrado denominado Escritório Verde através do qual reduz o consumo de impressões, papel, água e energia dos seus clientes. David Malauene, fundador da Green Print, não hesita em afirmar que “tivemos aceitação logo desde o início, uma vez que acreditamos que qualquer negócio pode vingar sem ter de contribuir para a devastação do meio ambiente. O que nos mantém resilientes às adversidades do mercado é reduzir a pegada ecológica do cliente e superar as suas expectativas a nível de inovação tecnológica”, justifica o gestor. No entanto, Malauene entende que trabalhar com os toneres remanufacturados ainda não é uma realidade mainstream do mercado nacional, visto que “o mais comum é falar dos reciclados recarregados”. Para tal, explica que “os tóneres remanufacturados são, de facto, uma grande inovação que a Green Print tem e que a diferencia dos competidores”. Mas o que são afinal tóneres remanufacturados? O gestor exemplifica: “Pegamos num tóner antigo e desmontamos totalmente. Depois lavam-se todos os seus componentes e volta-se a montar um

A Green Print actua no segmento de venda de artigos e serviços de tecnologia de informação com uma preocupação ambiental, tendo na gestão de impressão em vários formatos o seu core business pegadaecológica

novo, usando a carcaça e peças do antigo. Diferentemente do reenchimento, nos remanufacturados algumas peças são substituídas por novas equivalentes às originais e consegue-se garantir que haja um tóner com qualidade equiparada ao original e com uma durabilidade assinalável”. Ou seja, o cliente ganha uma peça nova ao preço de uma antiga. O ambiente agradece.

Ainda assim, existem outros produtos que fazem a Green Print assumir-se como diferente das concorrentes. “Por exemplo, o Ezigo ou Laptop Stand é uma base que se coloca por baixo do laptop a fim de dar uma pequena inclinação que faz muita diferença ao usuário, sob o ponto de vista do conforto e da postura. Ela é produzida por meio de plástico totalmente reciclado que provém da reciclagem de cartuchos de toneres”, releva. Contudo, não é só a qualidade ou a ausência de danos para o ambiente que o cliente procura no mercado: o preço é também fundamental. E para isso, o gestor da Green Print afirma que, também a esse nível, a empresa quer causar o mínimo impacto nos custos operacionais dos seus parceiros: “o tóner é vendidoa40%dopreçodooriginal,eissoéum ganho para as empresas que escolham este produto. E mais do que isso, os nossos toneres têm a certificação ISO9001 e ISO14001 de qualidade e do ambiente”, reitera o gestor.

Como em qualquer empresa, embora esteja a registar sucesso no seu negócio, existem sempre desafios. E para a Green Print, estes passam por continuar “a satisfazer o cliente garantindo-lhe a qualidade e respeitando, acima de tudo, o meio ambiente.”

megafone

MediMoc vai ser vendida

Através do Instituto de Gestão de Participações do Estado (IGEPE), o Governo vai alienar a empresa estatal de importação e distribuição de medicamentos, Medimoc.

Em anúncio público, o IGEPE refere que pretende alienar a Medimoc a uma entidade nacional ou estrangeira, que já tenha realizado negócios similares e com capacidade técnica e financeira comprovada para dar continuidade ao negócio da empresa. Segundo o Governo, esta venda enquadra-se no processo de reestruturação do sector empresarial do Estado.

A Medimoc é uma das oito empresas estatais cujo processo de reestruturação foi concluído no ano passado.

Karpowership doa bens aliMentares a crianças de orfanato eM nacala

Em mais uma acção solidária inserida no programa de responsabilidade social associada à celebração do Eid AL-Adha, celebração muçulmana, a companhia eléctrica Karpowership doou bens alimentares às crianças do Orfanato African Muslim Agency, em Nacala.

Segundo os responsáveis da empresa, a iniciativa “vem no seguimento de outros projectos de responsabilidade social que a empresa está a desenvolver no país, em que o objectivo é contribuir activamente para a melhoria das condições de vida das comunidades.”

banco

Único

cria cartão “#geração deMais”
cartão direcciona-se ao target universitário

“criar uma geração que vai além do expectável, que se supera e surpreende, e ao mesmo tempo acrescentar um valor real a este segmento, estimulando valores e atitudes vencedoras, para que sejam bem-sucedidos tanto na vida académica, como na vida pessoal e profissional” é o foco do Banco Único ao criar este projecto.

Através do Cartão Demais, a instituição bancária acredita que, “mais do que ser um simples cartão, é também um símbolo de uma geração que vai diferenciar os melhores estudantes dos outros.”

Segundo António Correia, Presidente da Comissão Executiva (PCE) do Banco Único, o lançamento deste novo projecto “é sinónimo de orgulho” da instituição que lidera e prossegue: “Torna-nos cada vez mais inovadores no mercado. Acreditamos que esta é a geração que vai marcar o futuro e, mais uma vez, queremos estar ao lado e acrescentar valor real de quem tem o potencial de fazer a diferença”, sublinhou o PCE.

‘MillenniuM

biM solidário’ chega ao distrito de nhaMatanda

O Millennium bim, juntamente com a seguradora Ímpar, lançou em Agosto passado, no centro de Reassentamento de Kura, na província de Sofala, a primeira acção de Voluntariado Empresarial associada à campanha “Millennium bim Solidário”, para a angariação de fundos para apoiar as populações afectadas pelas cheias e pelo ciclone Idai. Os colaboradores das duas instituições, clientes e cidadãos entregaram bens alimentares, vestuário, e outros materiais de primeira necessidade a 163 famílias. As actividades decorreram com a supervisão do Conselho Cristão de Moçambique.

1º edição do préMio jornalisMo cdM

aMbiente

O Banco Único está entre os seis maiores bancos de retalho do sistema financeiro moçambicano e opera no mercado desde 22 de Agosto de 2011, estando presente em oito cidades do país.

O Prémio de Jornalismo CDM Ambiente surge no âmbito da parceria entre a cervejeira e a Cooperativa de Educação Ambiental REPENSAR e faz parte do seu modelo de inclusão educacional para a preservação do Ambiente. A iniciativa visa promover a conservação, destacar a importância do Ambiente para a sociedade e premiar os melhores trabalhos jornalísticos produzidos em 2019 sobre uma variedade de temáticas ambientais tais como a protecção do Ambiente e envolvimento da Comunidade, reciclagem e ecologia em Moçambique.

figura do mês

Há um enorme potencial de crescimento

a caminho dos três anos de funcionamento operacional, a CDN (Corredor de Desenvolvimento do Norte), pela voz do CEO, Wellington Soares, faz um balanço positivo de uma operação que ainda não ‘anda sobre carris’. No transporte de carvão, operação gerida pela CLN (Corredor Logístico de Nacala, que gere também a infra-estrutura ferro-portuária), e da qual é também o CEO, mas também no transporte de carga geral. Até porque, apesar do “enorme potencial do carvão”, será esse o factor decisivo para o grande crescimento do Corredor “que chegará com o desenvolvimento económico do país”, diz à E&M.

Que desafios encontrou e como os resolveu desde 2014, quando chegou?

Nessa época, o Corredor de Nacala estava em reabilitação e não se tinha iniciado a operação. A linha foi inaugurada em 2017 com capacidade total de transporte de 18 milhões de toneladas de carvão e 2 milhões de carga geral. No carvão, oriundo de Moatize com direcção a Nacala, tem sido feito um trabalho de evolução. Neste momento há dificuldades de operação na mina, é sabido, mas irá chegar aos 18 milhões de toneladas por ano. No outro negócio, o da carga geral (gerido pela CDN), tem havido uma evolução constante nos negócios de fertilizantes, trigo, contentores, o que

demonstra a confiabilidade que é o Corredor do Norte. Temos uma operação segura, confiável e isso tem sido um motor para esta evolução. No ano passado transportámos 500 mil toneladas de carga geral e já no ano que vem chegaremos às 700 mil.

De que forma a obra de reconstrução do Porto de Nacala, agora em curso, terá impacto nos níveis de carga transitada e em toda a operação da CDN e da CLN?

A obra do Porto incide no aumento da capacidade instalada, na melhoria das infra-estruturas, equipamentos, em questões de drenagem e na parte eléctrica, benefícios que o irão transformar numa infra-estrutura mais moderna. Isso terá um impacto grande na operação porque vai duplicar a capacida-

cv

curriculum vitae

engenheiro mecânico de formação, tem uma carreira que se iniciou na Vale, em 2002. Chegou a Moçambique em 2014. Lidera a CDN desde 2018.

de de manuseamento de carga do Porto de 2 para 4 milhões de toneladas por ano. A sintonia com a política geral das infra-estruturas do país é constante, claro. O Porto vai evoluir por duas vias: na confiabilidade e eficiência da operação. E depois, vai ser adicionada capacidade a um Porto que tem vocação natural para ser um hub, uma vez que está próximo da região de Pemba e dos grandes consumidores de commodities, como a Índia e a China. O próprio Governo tem uma expectativa forte e estamos em total sintonia. Da nossa parte, o projecto é desenvolver, crescer e gerar emprego. A CDN emprega aproximadamente 400 pessoas no Porto e a ferrovia cerca de 700 pessoas de forma directa, e mais de mil indirectamente.

Como funciona a interligação entre a CDN e a CLN? São dois negócios independentes. O controlo accionista pertence 50% à japonesa Mitsui e 50% à mineradora Vale, sendo a gestão independente. A CLN, com o carvão, tem um cliente fixo que é a Vale, que tem a operação de ferrovia e do Porto. E na CDN, onde temos o negócio de carga geral, há vários clientes. A parte operacional tem de funcionar de forma harmónica porque a ferrovia é a mesma e o centro de controlo é um único. E aproveito para dizer que é o mais moderno

de África e comparável aos da Europa e Estados Unidos. E totalmente operado por moçambicanos, é de salientar.

Havendo outros players a extrair carvão, eles poderão utilizar a linha?

Neste momento, não utilizam porque nunca fomos demandados para isso, mas o terminal de carvão é multiusuário e pode ser utilizado por qualquer empresa.

Qual é o grande potencial de crescimento no Corredor de Desenvolvimento?

O carvão vai crescer, é certo, mas o potencial ilimitado, digamos assim, está no negócio de carga geral que já está em desenvolvimento. Sempre foi um negócio deficitário, mas a partir do momento em que chegarmos às 700 mil toneladas por ano atingimos o break even. O movimento ainda é, hoje, de 80% a ir para o hinterland e 20% a ser exportada via Nacala mas, a cada ano, a tendência é crescer porque há oportunidades.

Que projectos existem de ligação a outros corredores de desenvolvimento?

Já estamos ligados à Linha do Sena e estamos a avaliar a ligação com a Zâmbia que conecta depois ao corredor Atlântico e ao de Dar-Es-Salam.

A CDN também faz o transporte de passageiros, que fará uma enorme diferença na vida das pessoas da região, embora seja uma operação pouco lucrativa, imagino... Sem dúvida. O comboio trouxe uma mudança grande. Só no ano passado, foram transportadas 500 mil pessoas. Temos muito orgulho nisto, até porque é um bem social. Para nós, é prioritário porque representa uma alavanca de desenvolvimento em toda a região.

texto Pedro Cativelos fotografia d.r.

CresCer e desenvolver “Estamos a avaliar a ligação com a Zâmbia que conecta depois ao Atlântico e a Dar-Es-Salam”

sociedade

“MoçaMbique

deVia ser patriMónio

Mundial do MoViMento Moderno”

Incontornável na paisagem urbana da cidade da Beira e no panorama arquitectónico nacional – quiçá mais além, segundo os especialistas – o edifício dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) e a respectiva gare estão a ser objecto de estudo profundo patrocinado pela Fundação Getty, visando a sua conservação e reabilitação

a instituição sediada em Los Angeles, nos Estados Unidos da América, premiou com 160 mil euros o projecto apresentado pela Universidade do Minho (UMinho), de Portugal, que lidera uma equipa multidisciplinar com técnicos dos próprios CFM, que são proprietários do edifício, e da Universidade Eduardo Mondlane (UEM). A intervenção no singular prédio, se já era imprescindível volvido meio século do acto inaugural, após a destruição do ciclone Idai, que varreu as províncias da Beira e Sofala em Março passado, tornou-se mais urgente. Para desenvolver novas funções e devolver a dignidade a um dos maiores ícones do Movimento Modernista. Em Moçambique e no mundo inteiro.

Vários técnicos para problemas diversos “A nossa intervenção tem várias vertentes: em termos do construído, além dos problemas devidos a 50 anos de uso –como as fissurações, o revestimento em mosaico de vidro, partido em muitas zonas, a maioria das ferragens dos quebra-luzes, que já não funciona, o sistema de iluminação embebido nas coberturas das plataformas estar apodrecido... – acrescem os danos do ciclone Idai, que

ocorreu já depois da nossa candidatura, nomeadamente pela destruição de caixilharias e quebra-luzes da fachada sudoeste. Temos, portanto, uma série de problemas que é preciso avaliar para apresentar propostas”, explica o arquitecto Elisário Miranda, professor da Escola de Arquitectura da UMinho e um dos elementos da equipa financiada pelos dólares da Getty.

Para lá da resolução das patologias construtivas que o prédio apresenta, a equipa, que integra também um sociólogo, irá abordar a vertente utilitária da obra inaugurada em 1966: “Propomos estudar e avaliar a utilização actual do edifício e redinamizar os espaços, adequando-os às necessidades actuais e repensando o papel que a estação pode desempenhar nas dinâmicas sociais da cidade da Beira”, acrescenta Miranda.

estação das utopias

Enquanto este não fica estabelecido pelo estudo ora em curso, o papel simbólico que a Estação Central da Beira desempenhou, durante a vigência do regime colonial em Moçambique e em prol do Estado Novo, ficou claramente definido pelas autoridades de então – ela foi, a seu

tempo, a expressão de uma dupla utopia. “O edifício é uma declaração política. O Porto da Beira e os Caminhos-de-Ferro da Beira são nacionalizados em 1949, numa operação a que as autoridades chamam de “resgate”, e se a estação é inaugurada a 1 de Outubro de 1966 é para comemorar dois eventos importantes para o regime: esse “resgate”, que ocorreu a 1 de Outubro; e, simultaneamente, os 40 anos da Revolução Nacional que deu origem ao Estado Novo (1926)”, explica o académico minhoto.

“A Estação Central da Beira é, no dizer dos governantes de então, um símbolo do progresso e da permanência de Portugal em África. Este edifício significava a utopia da arquitectura moderna (a qual, por si só, teria de ter a capacidade de mudar a sociedade), internacionalista e democrática, que é utilizada por outra utopia – a do Portugal pluricontinental, plurirracial e pluricultural alardeada pelo Estado Novo. Assim, a Estação Central da Beira é um edifício muito significativo”, garante Miranda.

Mas, mais do que a hermenêutica dos devaneios utópicos de outrora, interessa à Getty a concretude da arquitectura

Palácio das Repartições (Governo da província do Niassa), Aerogare do Aeroporto.

Dependência do antigo BNU; Cinema Montalto (actual Centro Cultural Académico do Instituto Superior Politécnico de Manica).

o mapa da Arquitectura Modernista em Moçambique

Arquitectura Neoclássica Correios de Moçambique

Art Déco

Cine Teatro Gil Vicente; Rádio Moçambique; Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição/ Catedral de Maputo; Clube Ferroviário de Moçambique; Hotel Cardoso; Cinema Scala; Edifício Ruby; Edifício Cardiga.

Cine Pemba, Paço Episcopal, Palácio das Repartições (Governo da Província de Cabo Delgado).

Edifício da Companhia de Seguros Nauticus / Hotel Portugal; Hospital Egas Moniz (actual Hospital de Nampula).

Palácio das Repartições (Governo Provincial da Zambézia); Paço Episcopal; Complexo comercial, turístico e habitacional Montegiro (quarteirão do Hotel Chuabo); Fábrica Cerâmica e Aglomerado Residencial Monteiro & Giro; Dependência do antigo BNU (actual Banco de Moçambique).

Escola Primária da Manga; Cine-Teatro São Jorge (actual Centro Cultural da Universidade Pedagógica); Igreja do Imaculado Coração de Maria (Igreja da Manga); Pavilhão de Desportos do Clube Ferroviário; Instituto Liceal Dom Gonçalo da

Silveira; Clube da Beira/ Automóvel & Touring Clube de Moçambique (actual Palácio dos Casamentos); Igreja do Sagrado Coração de Jesus (Igreja do Macúti); Estação Central; Aerogare do Aeroporto Sacadura Cabral (actual Aeroporto Internacional da Beira).

Escola Técnica dos Caminhos-deFerro (actual Escola Superior de Hotelaria e Turismo da UEM); Escola dos CTT (actual Direcção Provincial dos Transportes e Comunicações).

Estilo Português Suave

Antiga Reitoria; Villa Algarve.

Movimento Pop e Brutalismo

Cinema Dicca; Estúdio 222 (Cinema Gungu).

Arquitectura Modernista

Padaria Saipal (actual FIPAG); Edifício Leão que Ri; Edifício Montepio; Igreja de Santo

António da Polana; Escola Técnica Elementar Governador Joaquim de Araújo (actual Escola Secundária Estrela Vermelha); Abrigo dos Pequenitos de Nossa Senhora ou Infantário Piramidal (actual Nhoxani); Filial do antigo BNU (actual Banco de Moçambique); Hospital Central Sede do Grupo Entreposto; Residência de Estudantes Khovolar; Escola Secundária da Polana.

per si. E, nesse aspecto, a Estação Central da Beira merece todos os encómios. Ex-libris da cidade e término do sistema ferroviário que liga o porto da cidade ao hinterland africano, composta por três corpos distintos articulados entre si – átrio, bloco da administração e zona do cais – foi desenhada pelos arquitectos Francisco José de Castro, João Garizo do Carmo e Paulo de Melo Sampaio. Foi a sua linguagem ortodoxamente filiada na arquitectura do Movimento Moderno internacional do pós-guerra (pilotis, quebra-luzes, arcos e abóbadas parabólicas e catalãs, grelhagens de ventilação, murais cerâmicos, entre outros) que a tornou elegível para figurar entre os dez edifícios marcantes do século XX, a nível mundial, que são agora apoiados pela Getty. Uma dezena de obras – onde figura também o Museu Nacional do Uganda – que irá beneficiar de 1,4 milhões de euros no âmbito da iniciativa “Keeping It Modern”, e que já contribuiu, em cinco anos, para planear e investigar a conservação de 64 edifícios modernistas em todo o mundo.

quantidade e qualidade em Moçambique Assim sendo, é possível que haja outros edifícios, em Moçambique, a merecer a atenção da Getty no futuro. Porque não faltam, em todo o território, obras de relevo, de altíssima qualidade, tanto no desenho como na construção, legadas pelo Movimento Modernista.

Abundância que se explica, segundo Miranda, pela conjugação de factores que tornaram a África lusófona no laboratório vivo de uma arquitectura cujo exercício, paradoxalmente, estava vedado na metrópole. “O regime do Estado Novo não permitia, em Portugal, esta arquitectura nos edifícios oficiais até meados da década de 1950. Naquela epoca, havia uma linguagem oficial que se expressa na escolha de alguns estilos arquitectónicos para os principais edifícios oficiais e religiosos: a arquitectura inspirada no neoclassicismo nazi alemão e fascista italiano, como na antiga agência do Banco Nacional Ultramarino, actual Banco de Moçambique, na cidade da Beira, em que tudo se destina a esmagar o indivíduo numa afirmação de poder; a mistura eclética de estilos originários da História da Arquitectura, como nas fisionomias neobarrocas do Banco de Angola, em Luanda, e da Catedral de Nossa Senhora de Fátima, em Nampula; ou ainda na sobreposição estilizada de formas da arquitectura popular portuguesa no chamado estilo

Edifício dos Caminhos-de-Ferro, na Cidade da Beira, é “testemunho político” e marco arquitectónico do país

é possível que haja outros edifícios, em Moçambique, a merecer a atenção da Getty no futuro. Porque não faltam, em todo o território, obras de relevo, de altíssima qualidade, tanto no desenho como na construção, legadas pelo Movimento Modernista

Português Suave, como se convencionou chamar a esta invenção dos ideólogos do regime, tal como é patente na Villa Algarve, em Maputo”, enumera. “Mas”, continua Elisário Miranda, “nas províncias ultramarinas, as necessidades eram outras. A seguir à II Guerra Mundial, temos um programa de desenvolvimento acelerado, de industrialização, de infra-estruturação onde se fomenta o crescimento das cidades já existentes. Surgem assim necessidades novas, havendo que executar tudo muito rapidamente e com os meios disponíveis”, historia o arquitecto. “E o que havia para isso era o betão, o ferro, o vidro, por permitirem uma construção mais rápida e mais barata do que os métodos anteriores, que implicavam, também, uma mão-de-obra especializada que não existia naquelas regiões”.

as inovações do brasil Especializados eram os técnicos que, partindo da metrópole, deveriam conceber os edifícios institucionais que dessem corpo ao plano desenvolvimentista do Governo autocrata de Oliveira Salazar. E esses tinham já ideias muito diferentes do estilo cultivado pelo Estado Novo:

“Houve muitos jovens arquitectos que foram para África, principalmente aqueles formados na escola do Porto, que era muito mais progressista do que a de Lisboa, e levaram com eles o ideário conceptual e formal do Movimento Moderno”, diz Miranda.

Um ideário que postulava a funcionalidade dos espaços e a pureza das linhas – ficou célebre a frase “less is more” (menos é mais) cunhada por Mies Van der Rohe, um dos nomes maiores do Modernismo, a par de Le Corbusier, em França, ou Frank Lloyd Wright nos EUA –mas que, internacionalizada, levantava questões de adaptação climática. Como fazer esta arquitectura de grandes planos de vidro em zonas tropicais? – interrogavam-se os mestres de então.

“Os brasileiros são os grandes adaptadores da adequação climática da Arquitectura Moderna às condições dos trópicos. E introduzem várias inovações, como os sombreadores da Estação Central da Beira, as grelhas de betão que permitiam a circulação do ar e davam leveza aos edifícios, as lâminas de vidro orientáveis, as coberturas duplas... Todas estas características vão influenciar uma arquitectura mundial e os arquitec-

Capitalizar o patriMónio CoM turisMo Cultural

A capital moçambicana é ainda, não obstante a destruição irresponsável que a gula dos promotores imobiliários vai promovendo, um imenso mostruário das diversas escolas e estilos da arquitectura do século XX. A começar pelo desenho do plano urbano. “É muito interessante. Concebido pelos engenheiros Joaquim José Machado e António José de Araújo, conhecido pelo “Plano Araújo”, cujo anteprojecto foi concluído em 1887, tem a forma de uma malha quadriculada, abstracta, mas que, ao pousar naquele terreno ondulado, se torna muito orgânica, com a relação que estabelece com a baía através daquelas avenidas transversais”, refere Miranda.

“Outra característica interessante é esta sobreposição de estilos arquitectónicos de várias épocas”, realça, oferecendo um rol de exemplos ainda visíveis em Maputo: a arquitectura eclética e neoclássica das Belas-Artes (Correios de Moçambique); o estilo internacional

do ferro, na ruas da Baixa, com pilares de ferro e chapas de zinco; o estilo Art Déco, que tem uma quantidade enorme de exemplares espalhados pela cidade, principalmente nos programas de habitação unifamiliar ou colectiva; e, em simultâneo, alguma arquitectura do estado Novo, como a Villa Algarve, com o estilo Português Suave, que também ganhou certo interesse, até pelo exotismo naquele lugar; e, depois, toda a arquitectura dos anos 50, de qualidade, Modernista; e ainda os anos 60, ligados à arquitectura Pop e ao Brutalismo, como em algumas obras do Luís Vasconcelos ou do João José tinoco. Uma profusão de estilos e exemplares que deveria ter, enfim, melhor sorte que o camartelo, podendo ser rentabilizada para benefício de todos, moçambicanos e forasteiros: “Com toda essa riqueza, e não só em termos arquitectónicos, a cidade de Maputo poderia ser um pólo importantíssimo, em termos culturais e turísticos, na África Austral”.

tos portugueses em particular”, refere o docente minhoto.

Essa influência explica-se, desde logo, pelo vínculo privilegiado da língua comum, mas também pela relevância e difusão que a arquitectura modernista brasileira, absolutamente revolucionária à época, alcançou graças à exposição que, então, decorreu no Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova Iorque, em 1943, chamada “Brazil Builds”.

“Para essa exposição foi enviado ao Brasil um fotógrafo para fazer o levantamento da arquitectura colonial (barroca) de origem portuguesa e, simultaneamente, documentar a arquitectura que se estava a desenvolver naquela época.

preservar e acrescentar

O catálogo da exposição teve um grande impacto: todos os arquitectos em Portugal tinham o “Brazil Builds” nos gabinetes...”, diz Miranda. De modo que esses jovens arquitectos que acabaram por se espalhar pelas colónias portuguesas de África tinham tudo: o espaço, os materiais e todos os conhecimentos técnicos que também decorriam do

conhecimento dessa publicação. Acrescentar conhecimento é também um dos objectivos da equipa liderada pelo professor catedrático da Escola de Engenharia da UMinho, Paulo Lourenço, e da qual constam, além de Elisário Miranda, Maria Manuel Oliveira (UMinho), Luís Lage (UEM), o engenheiro Fernando Ferreira e o arquitecto Edmundo Cândido (CFM).

Deverão compilar desenhos históricos, fotografias e histórias orais para complementar um dossier a partilhar com a África lusófona, visando elevar o nível e as práticas de conservação do património arquitectónico Modernista, bem como o conhecimento das ferramentas de última geração existentes neste âmbito. E não falta trabalho, dada a profusão de exemplares relevantes no país. De tal modo extensa que Elisário Miranda não hesita em considerar que “Todo o Moçambique, e Maputo em particular, deveria ser considerado património mundial da arquitectura do Movimento Moderno”.

teXtO Elmano madaíl fOtOgrAfiA d.R.

SALVAÇÃO DO BPC PASSA POR ALIENAÇÃO A PRIVADOS

Em menos de três anos passaram já pelo BPC, que em 2018 somou prejuízos pela terceira vez consecutiva, quatro conselhos de administração. No ano passado, perdeu também o título de maior banco em activos

a estratégia, até ao momento, utilizada pelo Estado angolano para resgatar o maior banco público nacional, o BPC, que enfrenta um processo de reestruturação baseado fundamentalmente na injecção sistemática de capitais, continua a não dar resultados do ponto de vista prático.

Depois de já ter gasto mais de 568 mil milhões de kwanzas desde 2016, o Estado prepara-se para injectar este ano mais 230 mil milhões, dos quais 180 mil milhões de kwanzas para aumentar o capital social do banco e 50 mil milhões para comprar crédito malparado, segundo indica o Plano Anual de Endividamento 2019 do Governo.

Numa primeira fase, o Estado vai injectar 100 mil milhões de kwanzas no BPC

mil milhões de kwanzas é o valor já gasto pelo estado angolano, desde 2016, para resgatar o BpC

para garantir que a entidade bancária mantenha a actividade normal, segundo um Decreto Presidencial de 30 de Janeiro deste ano. O documento autoriza o Ministério das Finanças a recorrer à emissão de Obrigações do Tesouro com prazo de reembolso a quatro anos e a uma taxa de juro de 16,5% ao ano para possibilitar que o BPC “cumpra na sua plenitude a missão para a qual foi criado”.

No entanto, esta estratégia governamental de injecção de dinheiro fresco, praticamente todos os anos, no maior banco comercial público nacional começa já a preocupar não só os especialistas na matéria, mas também o próprio Governo que, através do Ministério das Finanças, já se revelou incapaz de continuar a socorrer a instituição bancária, através da mobilização de recursos financeiros adicionais.

O economista Victor Hugo de Morais, que critica a política de resgate adoptada pelo Estado, defende que um dos caminhos para resolver a situação de “falência” do BPC seria o Estado, na qualidade de único accionista, alienar parte do capital do banco a um grupo de privados que pudesse rentabilizar a instituição.

“O Estado deveria ceder pelo menos 30% do capital a um grupo de privados que pudesse mudar a estrutura funcional do BPC, dotando-o de uma nova dinâmica e, assim, rentabilizar o banco”, defendeu o economista, acreditando ser esta uma das formas do Estado limitar a sua intervenção nas operações da instituição com a injecção sistemática de capitais.

Victor Hugo de Morais revela-se perplexo pelo facto de o Estado insistir em segurar sozinho o BPC, mesmo estando o banco a apresentar só prejuízos nos últimos anos. O economista atribui, por isso, responsabilidades ao próprio Estado pela situação actual por que passa o banco, “algo incompreensível”, na sua opinião, e que só se explica pelo facto de o “accionista insistir em financiar acções incorrectas do próprio Estado”.

Lucros no vermelho

Aquele que até há pouco tempo era o maior banco em activos do sistema financeiro nacional – sendo que perdeu esta posição para o BAI, em 2018 – tem somado, nos últimos três anos, prejuízos nos seus principais indicadores de desempenho, sobretudo no capítulo dos resultados líquidos.

Nos últimos oito anos, os lucros do BPC atingiram o vermelho pela primeira

vez em 2016, cinco anos após Paixão Júnior, então PCA da instituição, ter assumido o cargo, com os resultados desta rubrica a atingirem um saldo negativo de 21,6 mil milhões de kwanzas.

Mas foi em 2017, já sob o comando de Ricardo Viegas d´Abreu – actual ministro dos Transportes – que o maior banco público do país registou o maior prejuízo de sempre da banca nacional: 73,1 mil milhões de kwanzas.

No ano passado, por exemplo, altura em que o banco era já dirigido por Alcides Safeca, os resultados líquidos voltaram a atingir o vermelho ao registar um saldo negativo avaliado em 26,7 mil milhões de kwanzas.

O economista Juvelino Domingos também defende a abertura da estrutura accionista a privados como uma das soluções para que o BPC ultrapasse o mau momento actual. “Não é necessário pensarmos numa privatização total”, realça, acrescentando, no entanto, que pode optar-se pela redução da participação do Estado nestes bancos (públicos) sem que este perca o controlo dos mesmos.

“Uma estrutura accionista maioritariamente privada para estes bancos garante uma gestão capaz de colocá-los em níveis de desempenho que satisfaçam tanto o interesse do Estado como do sistema financeiro”, defende, sugerindo, todavia, que a estratégia do BPC deve essencialmente focar-se na recuperação do crédito, no aumento da eficiência por via da redução da estrutura de custos, quer em termos de quadro de pessoal, quer em termos de canais físicos não rentáveis, de modo a que a actividade gere cash flow suficiente para que a operação do banco ande por si.

Os motivos do calvário por que passa o BPC – que além da redução dos activos e dos lucros teve de fechar 74 dependências bancárias e reduzir 550 postos de trabalho no ano passado – estão relacionados essencialmente, segundo os analistas, com o crédito malparado que em 2017 atingiu, em todo sistema bancário nacional, a cifra mais elevada dos últimos cinco anos. Dos 33% de nível de malparado registado naquele ano, 84% couberam ao BPC e 16% ao resto do sector bancário.

De acordo com o jornal “Expansão”, ao todo, a Recredit – empresa criada para comprar o crédito malparado do BPC – já adquiriu processos no valor de 297 mil milhões de kwanzas ao maior banco comercial público, não correspondendo este montante ao total do crédito malpa-

2015

último ano em que a entidade BanCária registou aumento de luCros.

rado do banco, sendo que o valor em causa representa apenas a primeira carteira adquirida. Consta que, para este ano, está prevista a aquisição de mais 50 mil milhões de kwanzas.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) manifestou, em Junho de 2018, a preocupação com o crédito malparado no BPC, recomendando ao Governo que novas injecções de liquidez ficassem condicionadas à concretização do plano de reestruturação, mantendo-se proibida a concessão de novos empréstimos.

“O Governo está a desenvolver uma estratégia para restaurar a viabilidade financeira do BPC. Uma vez que nos apresentem essa estratégia, forneceremos o nosso conselho, baseado nas boas práticas internacionais para lidar com situações semelhantes”, ressaltou Max Allier, representante do FMI em Angola, em recentes declarações à Economia & Mercado, durante a nova edição do Fórum Banca, realizado pelo jornal “Expansão”, em Luanda.

Já em 2017, o relatório de auditoria externa às contas daquele ano do BPC, elaborado pela UHY - Auditores & Consultores, alertava que a “capacidade do banco para continuar as operações depende do sucesso das suas actividades futuras, da manutenção dos depósitos dos seus clientes e da continuação do suporte financeiro dos seus accionistas”.

Fusão fora de hipótese

O processo de reestruturação agora em curso na instituição dirigida por André Lopes, ex-presidente do Banco Yetu, inclui, entre outras medidas, a redução de agências e de pessoal, mas descarta, para já, qualquer possibilidade de haver um processo de fusão que, no caso, seria com o congénere BCI, também estatal, como admitiam inicialmente alguns analistas.

A fusão entre as duas entidades, na opinião do economista Victor Hugo de Morais, não é viável de momento devido, sobretudo, aos prejuízos e demais passivos do BPC nos últimos três anos.

“A fusão é feita por duas entidades que nos últimos anos mostraram uma capacidade de rentabilidade minimamente satisfatória. Quer o BPC, quer o BCI são bancos falidos. E não se pode fundir duas entidades bancárias falidas. O que deve fazer-se, neste caso, é permitir a entrada de capital no BPC e privatizar-se por completo o BCI”, defendeu o também docente universitário que critica, no entanto, o Estado por ter dois bancos no mercado o que, a seu ver, representa

foNtE Relatórios e Contas BCP 2017 e 2018
Valores em mil milhões Kwanzas

Lá fora

uma concorrência desleal às demais entidades do sistema bancário nacional. Sobre este mesmo assunto, uma fonte conhecedora do sistema bancário, que preferiu o anonimato, defendeu, em declarações à Economia & Mercado (E&M), que o Estado devia estar presente na banca em apenas duas instituições bancárias: um banco universal com foco na inclusão financeira e no serviço universal, no caso o BPC, e um outro de desenvolvimento económico e social, neste caso o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA). Para a mesma fonte, um dos motivos que levaram o BPC ao seu estado actual foi o facto de o accionista Estado nunca ter definido, claramente, qual a sua missão. “Uma das missões do BPC é fazer aquilo que os bancos comerciais não fazem, ou seja, marcar presença em todos os municípios. O BPC deve entender-se como um banco de complemento e não como mais um para concorrer com os demais. É também um banco com uma função moderadora e reguladora dos preços”, referiu. A um banco com essa missão, segundo este especialista, não se pode exigir que tenha uma rentabilidade igual à dos bancos

A Recredit – empresa criada para comprar o crédito malparado do BPC – já adquiriu processos no valor de 297 mil milhões de kwanzas ao maior banco comercial público, não correspondendo, este montante, ao total do crédito malparado do banco, sendo que o valor em causa representa apenas a primeira carteira adquirida

privados. “Mas também não pode dar prejuízo”, advertiu, acrescentando que “o Estado como accionista desse banco devia definir uma janela de rentabilidade dos capitais investidos (entre 5% e 10%) e não mais do que isso. O banco devia, assim, elaborar os seus planos estratégicos com base nessa janela de rentabilidade”. Na opinião desta mesma fonte, foi um grande erro levar o Instituto Nacional de Segurança Social (INSS) e a Caixa das Forças Armadas a investirem no BPC. “Estas instituições deviam investir, sim, nos bancos mais rentáveis e mais bem geridos da praça para salvaguarda dos fundos que gerem”, defende.

A saída do Estado da banca, ainda segundo a fonte da E&M, seria uma grande oportunidade para desenvolver o mercado de capitais porque, considera, os bancos são das poucas ou únicas empresas bem geridas e com prestação de contas regulares, algo que ocorre por força da regulação do BNA.

texto António nogueirA fotografia istock photos

Injecção de capitais no BPC não está a dar resultado e o banco público de Angola vai ter mesmo de mudar de vida

NOVOS ÂNGULOS

A sombra das sombras

dizem-nos as notícias que a amazónia tem estado a arder nas últimas duas semanas de Agosto. As queimadas, tradicionais da época, tal como acontece também em África, por esta altura, ganharam proporções que não tomariam noutros tempos, quando as épocas traziam certezas imutáveis e as chuvas chegavam só porque era tempo de elas caírem.

E o fogo alastrou para consumir o que o clima tem vindo a deixar secar nos últimos anos, com apetite voraz que, enquanto escrevo, ainda não está saciado.

Não vou falar do clima que aqueceu, no geral, ou enumerar tudo o que a Amazónia nos dá sem pedir de volta. Na verdade, esta será a floresta mais conhecida do mundo, uma espécie de estrela Pop do mundo natural. Aquela que todos reconhecem desde os tempos de escola, nem que seja só por isso, apesar de pensar que, se calhar, tal como todas as estrelas de qualquer coisa, só bem poucos a conhecem de facto. Mas é única e é importante. É o que chega, e já é muito. Há, no entanto outras florestas, pelo mundo, menos reconhecidas, para não dizer que são mesmo completamente anónimas para todos nós quando comemos carne, atestamos o carro ou deitamos uma garrafa de plástico no lixo. Algumas delas estão (estiveram) aqui mesmo em Moçambique. Revelamos nesta edição que, em três décadas, mais de metade de toda a mancha florestal do país, simplesmente desapareceu. Pelo abate ilegal que alimenta uma indústria criminosa e pelo consumo de carvão das famílias que, em muitas zonas do país, ainda utilizam a madeira carbonizada de árvores vivas como fonte energética. Será este, a desflorestação, um dos pontos em que o país anda à frente da média mundial. O que, a este nível, também não é brilhante, diga-se. A área florestal mundial diminuiu de 31,6% da área terrestre do mundo para 30,6% entre 1990 e 2015, segundo um relatório divulgado pela FAO, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.

Na sua edição de 2019, o estudo sobre o “O Estado das Florestas no Mundo” alerta que o desmatamento “é elevado”, embora tenha abrandado na América Latina, na África Subsaariana e no Sudeste da Ásia, “regiões onde há maior exploração de recursos vegetais, como a lenha, e onde há menos planos de protecção dos solos e da água potável.”

Taisplanos,sãoessenciaise,quesesaiba,inexistentes.Oqueé preocupante, num país em que as principais riquezas ou alavancas de crescimento e desevolvimento não são propriamente,

como sabemos, limpas ou isentas de impacto ecológico. Longe disso. Sem a necessidade de uma aturada pesquisa, lembramo-nos que as três maiores fontes de receita do país, actualmente, e nas próximas décadas, são ambientalmente arriscadas: o carvão, maior fonte de receita de exportação da economia nacional, alimenta toda uma indústria altamente poluente que, por isso mesmo, tem vindo a ser descontinuada na Europa, nos Estados Unidos (embora Trump a tenha reactivado) e até na China (que, pelo abandono dos EUA desta corrida ecológica, tem assumido a dianteira na busca de soluções energéticas renováveis, por incrível que pareça). Depois, a segunda maior exportação nacional, o alumínio. Como é consensualmente aceite, também não está isento, ao longo da sua cadeia de valor, de uma série de impactos ambientais. Por fim, o gás natural, a maior de todas as riquezas do país que, sendo uma fonte energética mais limpa que o carvão, também causa mossa nos ecossistemas marinhos junto às zonas de exploração, ainda para mais numa zona tão rica em termos de biodiversidade como Cabo Delgado. Mas há outros exemplos que nos levam a questionar os modelos de desenvolvimento ou que, pelo menos, devem servir para que se estudem devidamente os seus impactos nocivos. Como o caso da grande exploração de pasta de papel que será ‘semeada’ na Zambézia, outro exemplo de indústria poluente que requer estudos e planos para minimizar o seu impacto. Depois, a floresta do país reduziu para metade e ainda Moçambique não chegou ao ponto de ter uma agricultura de escala, um dos grandes motivos do desmatamento na Amazónia, em que alguém se terá lembrado que era preciso abater árvores centenárias para semear a soja de crescimento rápido, ou aumentar os acres da área de pasto para o gado bovino engordar as exportações totais de carne, decisivas na economia brasileira (aumentaram 27% só no primeiro semestre deste ano em comparação com igual período de 2018, atingindo as 828 669 toneladas, qualquer coisa como 3,1 mil milhões de dólares, de acordo com números da Abrafrigo, a Associação Brasileira de Frigoríficos).

Voltando a Moçambique, faz-me pensar que se, metade das árvores que demoram vidas a crescer morreram em menos de meia vida, e sem sofrer tanto com a agricultura ou a indústria, que sombras aí vêm com os novos ventos de crescimento que começam a soprar. Que sombra teremos daqui a 30 anos?

A floresta do país reduziu para metade e ainda Moçambique não chegou ao ponto de ter uma agricultura de escala, um dos grandes motivos do desmatamento na Amazónia

ócio

Nesta edição visitamos o Xai Xai, quando achamos que já conhecemos o mar... 62 60

O charme discreto da casta Pinotage, no Nederburg 1791

(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio
Os sabores da África Oriental do Kwetu

Província de Gaza

Xai Xai

eQuando achamos Que já

conhecemos o mar...

a pouco mais de três horas da cidade capital, Maputo, para norte, está deitada no Índico a antiga Vila João Belo, hoje Xai Xai. A cidade frenética que acorda ao nascer do sol com as cores das capulanas das mulheres moçambicanas, é atravessada pela EN1. E tem aos seus pés as maiores praias de Moçambique, escondidas e protegidas por dunas. Para conhecer tanto mar, pode optar por um fim-de-semana prolongado ou por uma semana inteira. Ao redor da cidade há imensos locais para pernoitar, quase todos com self catering. O mesmo é dizer que pode comprar frutas e legumes na cidade e peixes ou mariscos aos pescadores locais e cozinhá-los ao seu gosto. Se para si descanso não é sinónimo de cozinha, não se preocupe, todos os lodges têm restaurante, com deliciosos pratos temperados com aromas da terra. A vantagem de tudo tão perto é que pode dormir

num e aproveitar para almoçar ou jantar nos outros. Com tanto mar para escolher, começámos por Chizavane. Depois de dez quilómetros de terra batida, em bom estado, chegamos. Aqui somos os donos da praia e perdemo-nos ao olhar para o horizonte. O sol é mais brilhante e o mar azul tem um intenso cheiro a maresia. As ondas são feitas de espuma branca que nos dá vontade de mergulhar para sentir na pele o leve toque do sal. Ao longo da praia, que não tem fim, há um cordão de rochas que na maré baixa ajuda a formar pequenas piscinas naturais e deixa à vista mexilhão e ostras, prontos a serem degustados pelo palato mais exigente. Aconselhamos que leve para a praia, além do protector solar, um canivete e limão. Garantimos um bom repasto antes de a maré voltar a subir. Se os moluscos não são o que mais aprecia, pode fazer uma longa caminhada à beira mar. Pela

areia, além do sorriso das gentes locais, só se encontra a si. E quando as ondas desaparecem e o mar fica raso, há um delicioso silêncio que caminha ao seu lado. No fim da tarde, acontece a magia africana, o céu vai ganhando tons que vão do laranja ao vermelho vivo e o dia abraça a noite. E, porque um sítio tão bonito merece que se fique mais uns dias, escolhemos pernoitar no Nascer do Sol, um local abençoado pela natureza que se completa com várias casas, um parque de campismo e um restaurante. Depois do jantar pode deixar o corpo repousar numa das confortáveis espreguiçadeiras que estão na varanda da casa e observar milhares de estrelas que vivem por cima de nós, tudo ao som das ondas. No dia a seguir e, logo pela manhã bem cedo, vai ser acordado pelos inúmeros pássaros que fazem das árvores as suas casas. É sempre um bom momento para observar as aves enquanto saboreia o pequeno-almoço e decide o que vai fazer. Tem várias opções.

Pode juntar-se aos pescadores locais e ir à pesca, fazer snorkeling e observar peixes e corais. E caso viaje entre Maio e Setembro, é sentar-se num local alto e ver as baleias que passam no mar, mesmo à nossa frente, no seu percurso migratório.

areia branca, corais, peixes e mais mar

Ainda há tanto mar e areia por explorar. A paisagem pode ser muito igual mas não cansa, só descansa. Nem que seja por 48 horas. Vale a pena. A praia de Xai Xai é também um local de pausa obrigatória. Oferece areia branca, água transparente e é deserta. Aqui existe um dos melhores restaurantes da localidade, o Café Pescador, situado no Reef Resort. O chef moçambicano faz magia na cozinha e para a mesa vem um distinto conjunto de sabores que dão vontade de voltar. A mariscada é soberba mas a gula leva-nos até às sobremesas. E aí o doce pecado foi o petit gateau de chocolate, crocante por fora e cremoso por dentro, acompanhado de uma bola de gelado. Se a refeição o deixou sem forças para voltar a conduzir, pode ficar no resort ou passear na praia. Ao fim do dia chegam os barcos com os pescadores carregados de peixe e sorrisos. E é tão bom ver tanta felicidade envolta em tanta simplicidade. Neste éden virado para o Índico, além de descansar, há muito para fazer. Os resorts têm actividades para todos os gostos. Há pesca em alto mar e em terra, no recife. Pode andar de canoa e visitar as piscinas naturais que a maré baixa deixa atrás de si. Visitar a cidade e o mercado local, onde vai com certeza comprar fruta, legumes e algum artesanato, é outra opção. Não se esqueça de comprar capulanas, os panos que dão vida e cor a todo o Moçambique.

Xai Xai tem aos seus Pés as maiores Praias de moçambiQue, escondidas e ProteGidas Por dunas

roteiro

Como ir

Pode viajar com a LaM até inhambane ou Maputo. Depois, alugue um carro no aeroporto, aconselhamos um 4X4.

o que Fazer aproveitar a maré baixa para usufruir das piscinas naturais que ficam junto ao recife. Pescar em alto mar. fazer snorkeling e visitar a cidade e o mercado.

onde dormir a nossa escolha recai no lodge Nascer do Sol , em Chizavane. aproveite e veja o nascer do sol, é uma experiência única. Os preços vão desde os 2 500 meticais por noite/pessoa numa casa pequena, até aos 14 500 meticais por noite/pessoa numa casa para dez.

onde Comer

No Café Pescador. Situado na praia, a decoração oferece um ambiente intimista e o chef de cozinha leva-nos a pecar pela gula. Qualquer prato que esteja no menu deve ser experimentado. e atenção às sobremesas, são divinas.

teXtO Cristina Freire
fOtOgrafia riCardo FranCo

o kwetu tem tido, até agora, uma presença discreta na cidade. O que não significa que seja um espaço desconhecido ou ignorado. Pelo contrário, é o exemplo consumado de como um projecto com uma identidade muito própria se pode tornar, de modo quase imperceptível, num lugar de peregrinação obrigatória. Antes mesmo do desfrute gastronómico, o sentimento que primeiro perpassa, quando se chega, é o de se “estar em casa”. Esse sentimento não seria possível, certamente, se esse não fosse também o desígnio de quem o concebeu. Ter conseguido materializá-lo é o primeiro dos méritos do Kwetu. Mas o que significa este “estar em casa”? Alguns restaurantes fazem-nos sentir “em casa” sobretudo por via da confecção dos alimentos. Porque evocam em nós, pelo empenho num esmerado preparo artesanal, memórias que nos remetem para a afectividade e a intimidade das refeições caseiras que outrora vivenciámos.

Esta componente “familiar”

KWetu, aromas e sabores da áFrica orientaL

também está presente no Kwetu. Mas o que torna diferente e dá outra dimensão ao “estar em casa” que se sente no Kwetu assenta mais numa perspectiva que se poderia dizer de ordem “existencial”, ou seja, decorre do facto de que a informalidade do espaço propicia um sentimento de liberdade e de comunhão incomum.

Por ser um espaço aberto sobre a rua, no qual não se “entra” mas para o qual se transita sem esforço e, pela mesma razão, por estar na rua, não propôe o tradicional hermético confinamento restaurativo, mas está aberto ao fluxo dos passantes, o Kwetu induz a um “estar em casa” que é mais amplo e abrangente. É esta configuração que propociona algumas iniciativas que são particularmente atractivas e cativam, de imediato, quem procura espaços alternativos na cidade. Uma delas é o buffet dos sábados, é o eXemPLo de como um Projecto com uma identidade muito PróPria se Pode tornar num LuGar de PereGrinação

uma excelente oportunidade para ficar a conhecer a variedade da oferta do Kwetu. Refira-se que a matriz inspiradora da sua ementa é a cozinha da África oriental. Isto deve-se ao facto de o fundador do Kwetu (Ndori Kambari Sady) ser nativo do Ruanda. Do arroz pilau às almondegas, do frango com leite de coco às diversas saladas, do café ruandês ao chá balacate, é todo um programa de aromas e sabores inesquecíveis. Convém, em particular, estar atento às edições do Kwetu Neighbourhood Market, uma feira que mistura, entre as 12h e as 19h, para além do buffet, manifestações musicais (dj’s ao vivo), moda, arte... e muitos e inesperados cocktails.

A outra iniciativa a que convém estar atento é a “Kwetu Pop Up Cozinha Vegana”. Mesmo para quem, à partida, não se identifica com o “espírito vegan”, vale a pena experimentar. Talvez tenha uma boa surpresa. Num dos últimos “pop ups” realizados, a emen-

ta propunha: nas entradas, badjias, mandioca frita, banana frita e beringela assada; nos pratos principais, abóbora com leite de coco, matapa, feijoada, imvange de ervilha, sukumawiki (um refogado de couve) e quiabo; disponíveis ainda vários tipos de acompanhamento (arroz de coco, arroz biryani, mucapata, apas), saladas, sumos naturais e bolos. Se ficar “adepto” poderá mesmo frequentar as “oficinas de comida vegan” e aprender como confeccionar em casa o que experimentou no Kwetu.

Mas independentemente destes dias especiais (o buffet dos sábados, o Kwetu Neighbourhood Market, ou os “pop up” de cozinha vegan) o Kwetu convida a visitas repetidas. Pelo prazer de comer, certamente. Mas sobretudo porque a “vibração” é boa, aconchegante, descontraída e cosmopolita.

teXtO rui trindade fOtOgrafia Jay Garrido

Av. Márires da Machava 133 Maputo

barista

PinotaGe (2018)

País África do Sul

reGião Paarl

Casta Pinotage

Cor Cereja intensa

aroma Intenso e rico a café, chocolate e baunilha com notas de amoras maduras, ameixas e cerejas

Paladar Equilibrado com taninos suaves

Final Picante com boa persistência teor alCoóliCo 13,5%

L’avenir

PinotaGe (2016)

País África do Sul

reGião Stellenbosch

Casta Pinotage

Cor Rubi intenso com reflexos violáceos

aroma Frutas vermelhas e pretas maduras, como cerejas, amoras e framboesas, notas herbáceas e de especiarias, além de toques de chocolate e couro

Paladar Equilibrado com taninos firmes

Final Boa persistência marcado por frutas vermelhas maduras e notas de chocolate

teor alCoóliCo 13,5%

neethLinGshoF estate

PinotaGe 2015

País África do Sul

reGião Stellenbosch

Casta Pinotage

Cor Rubi com reflexos violáceos

aroma Frutas negras maduras, como ameixas e notas de frutas secas e especiarias, como canela Paladar Frutado, equilibrado, taninos macios e boa acidez

Final Equilibrado e persistente

teor alCoóliCo 14,5%

n 1791 PinotaGe (2018)

País

África do Sul

reGião

Paarl

Casta

Pinotage

Cor

Vermelho rubi com reflexos de cor púrpura

aroma frutado (ameixa e mirtilo) e notas picantes de alcaçuz

Paladar

Seco, frutado e com taninos

suaves

Final Boa persistência teor alCoóliCo 14%

Fundada no sécuLo Xviii, é uma das PrinciPais marcas vínicoLas da áFrica do suL

nederburG 1791

o charme discreto da casta PinotaGe

a áfrica do sul tem-se destacado por produzir vinhos brancos e tintos de altíssima qualidade e com um estilo muito próprio, e posiona-se, actualmente, entre os dez maiores produtores a nível mundial. Esta realidade é o resutado de uma longa tradição na produção de vinhos. A história da vinicultura na África do Sul tem início, ainda de forma rudimentar, no século XVII, quando colonos holandeses se instalaram na região de Table Bay (Cidade do Cabo), plantando vinhas importadas de França e da Espanha. O primeiro vinho de produção sul-africana surgiu em 1659. Ao longo do tempo, plantações foram sendo espalhadas por outras regiões do país. Constantia foi a principal delas, elaborando vinhos com nível elevado de qualidade e tornando famosa a produção da África do Sul. As castas tintas mais comuns são: Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinotage, Pinot Noir e Shiraz. As principais brancas são: Chardonnay, Chenin Blanc (Steen), Sauvignon Blanc e Sémillon. Outras também são cultivadas em terras sul-africanas, mas a uva característica do país é a Pinotage, um cruzamento raro e bem sucedido de duas variedades diferentes: a Pinot Noir e a Hermitage. Para se ter uma ideia da importância da Pinotage na África do Sul, mais de 20% dos vinhos tintos do país são produzidos com esta variedade. O resultado é um vinho rico, complexo e cheio de especiarias. A nossa proposta principal deste mês é, precisamente, um dos exemplares mais bem conseguidos produzidos com esta casta: o Nederburg 1791 Pinotage (2018). A Nederburg está entre as principais casas vínicolas do país (senão mesmo a principal) e a designação 1791 que o rótulo ostenta faz referência ao ano em que ela começou quando o imigrante alemão Philippus Wolvaart comprou os seus primeiros hectares, na região de Paarl. O Nederburg 1791 Pinotage apresenta-se com uma cor profunda. É vermelho rubi com reflexos de púrpura. Os aromas mais presentes nesse vinho são os frutados que remetem a frutas maduras escuras como ameixa e mirtilo com notas picantes de alcaçuz que são, aliás, muito típicas da casta Pinotage. Na boca, o Nederburg 1791 Pinotage é um vinho frutado e muito fácil de beber com taninos bem suaves. Uma outra sugestão, igualmente interessante, é o Barista Pinotage, vinho criado por Bertus Fourier, um dos mais famosos enólogos sul-africanos. É um vinho exuberante em aromas e sabores, com notas de café sem que nenhum grão de café seja utilizado no Barista.

eXPosiçÕes

música filmes livros

“Eu Ich MoI Yo Lo BEM / cItYX –Eu Maputo”

DorIs Graf

parcErIa: ccMa / EMBaIXaDa

Da aLEManha E ccfM

Centro Cultural

Franco-Moçambicano

Sala de exposições

inauguração: 3 de Setembro

Hora: 18h30

Patente até 28 de Setembro

coMo uM fIo DE ÁGua MIGuEL césar

Fundação Fernando

Leite Couto

galeria

inauguração: 11 de Setembro

Hora: 18h

Patente até 3 de Outubro

“BIoDIvErsIDaDE aMEaçaDa E MoçaMBIquE”

Centro Cultural

Franco-Moçambicano

inauguração: 23 de Setembro

Hora: 17h30

Patente até 30 de Setembro

thunDEr souL (DocuMEntÁrIo)

MarK LanDsMan

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia: 3 de Setembro

Hora: 18h

KarInGana: LIcEnça para contar

DE MônIca MontEIro (BrasIL , MoçaMBIquE , anGoLa, 2017, 72’)

Centro Cultural

Franco-Moçambicano

Dia 9 de Setembro

Hora: 19h

IMpunIDaDEs crIMInosas DE soL DE carvaLho (MoçaMBIquE , 2013, 75’), sEGuIDo DE convErsa coM as actrIzEs EspErança naIEnE E LucrécIa paco

Centro Cultural

Franco-Moçambicano

Dia 2 de Setembro

Hora: 19h

sIzoDIvana MasX 20 –

BanDa hoDI

convIDaDos: IrMãos BEIrEnsEs

Centro Cultural

Franco-Moçambicano

Dia 5 de Setembro

Hora: 19h

chEnY Wa GunI

KonGoLEtI sEssIons

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia: 5 de Setembro

Hora: 18h

Jazz p aprEsEntação Do ÁLBuM sELf GrInDInG

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia: 12 de Setembro

Hora: 18h

• em destaque

Serotonina

Michel houellebecq editora alfaguara

No romance-profecia de um futuro pouco perfeito, Michel Houellebecq reafirma-se uma vez mais como um cronista impiedoso da decadência da sociedade ocidental, um escritor indómito, incómodo e por isso imprescindível. em “Serotonina” acompanhamos florent-Claude Labrouste que tem 46, é funcionário do Ministério da agricultura e detesta o seu nome. Divide o apartamento na periferia de Paris com Yuzu, a namorada japonesa, muitos anos mais jovem.

Cínico, profundamente desesperançado e intimamente só, tudo lhe parece insuportável: a frança está à beira do precipício, a europa ameaça ruir, a sua vida é um beco sem saída. romance lírico, irónico, cruel, cirúrgico e profético, Serotonina – que venceu o Prémio de Literatura europeia - é uma radiografia do futuro que nos espera, atravessada pelo olhar sempre provocador de Michel Houellebecq.

roX MazIto rhoDÁLIa sILvEstrE , onésIa MuhoLovE E XIXEL LanGa

Centro Cultural

Franco-Moçambicano

Dia 13 de Setembro

Hora: 20h30

LÁ na MorGuE MahaMBa cpa

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia: 17 de Setembro

Hora: 18h

Moça Das Docas corEoGrafIa: GIGLIoLa zacara; IntErprEtação: YucK MIranDa E osvaLDo passIrIvo

Centro Cultural

Franco-Moçambicano

Dia 18 de Setembro

Hora: 19

DorotEIa

Fundação Fernando Leite Couto

Literatura

Dia: 26 de Setembro Hora: 18h sarau DE poEsIa trIButo ao poEta, EscrItor E actIvIsta cuLturaL José pastor

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia: 19 de Setembro

Hora: 18h

na ofIcIna DE “crIME E castIGo” DE DostoIEvsKI

DÁLIa MatsInhE

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia: 24 de Setembro

Hora: 18h

Fundação ceLebra da vinci nos 500

este ano celebram-se os 500 anos da morte de Leonardo da Vinci. Pintor, escultor, matemático, arquitecto, urbanista, físico, astrónomo, engenheiro, naturalista, químico, geólogo, cartógrafo, criador de engenhos bélicos e inventor de instrumentos musicais. Leonardo nasceu emAnchiano, pequena aldeia toscana perto de Vinci, na região de Florença em Itália, a 15 de Abril de 1452, e morreu a 2 de Maio de 1519, em Ambroise, na França. Autor de algumas das mais emblemáticas pinturas de todos os tempos (“Mona Lisa”, “A Última Ceia” e “Homem Vitruviano”), Leonardo da Vinci corporizou, como nenhum outro, os ideais do Renascimento explorando todas as áreas do conhecimento.

Foi um dos primeiros a sondar os segredos do corpo humano através da dissecação de cadáveres, observou o voo dos pássaros e insectos, o crescimento das plantas, as formas, sons e cores da natureza. Como inventor criou centenas

anos da sua morte

de projectos de hidráulica, cosmologia, geologia, mecânica, música e engenharia. Na década de 1960 descobriram-se, em Madrid, mais de 700 páginas de desenhos sobre aviação, arquitectura e engenharia mecânica, datadas entre 1491 e 1495. Muito embora a maioria de seus projectos nunca tenha saído do papel a sua contribuição para as ciências é hoje inegável.

As celebrações dos 500 anos da morte de Leonardo da Vinci vão acontecer não apenas em Itália, mas em muitos outros países e decorrem ao longo do ano.

Mas começando por Itália, o Governo anunciou, no passdo mês de Março, que estão previstas mais de 500 iniciativas envolvendo escolas, museus, bibliotecas e instituições públicas e privadas. Deste vasto programa destaca-se a exposição “Leonardo da Vinci: Desenhado o Futu-

as ceLebraçÕes dos 500 anos da morte de da vinci vão acontecer não aPenas em itáLia, mas em muitos outros Países

ro”, na cidade de Turim em que serão exibidos mais de 50 desenhos, entre os quais o famoso “Códice sobre o Voo dos Pássaros”, “O Rosto de uma Menina” e o seu também famoso “Auto-retrato”. Mas será em Milão, onde Leonardo passou uma parte significativa da sua vida – e onde deixou a sua marca com trabalhos como “A Última Ceia” - que irá acontecer, no Castello Sforzesco, uma das mais ambiciosas exposições deste vasto programa que lhe é dedicado. De referir ainda a exposição “A Ciência antes da Ciência”, em Roma, com mais de 200 peças de Da Vinci. Outras exposições estão programadas também fora de Itália, nomeadamente em França, Polónia, Reino Unido e Estados Unidos (para referir apenas alguns exemplos), numa homenagem que pretende sublinhar a “universalidade do génio” de Leonardo da Vinci. Também em Moçambique, a Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo, irá dedicar a sua programação de Outubro à sua figura e obra.

fundação fernando
Leite Couto
Outubro Leonardo da vinci

mini edição esPeciaL 60 anos

Cooper 1.5 136cv, Cooper S 2.0 192cv) e duas versões Diesel

(Cooper D 1.5 116cv, Cooper SD 2.0 170cv)

Preço 35 000 dólares

vmini ‘edição esPeciaL 60 anos’ um carro de coLecção

em 1959, Alec Issigonis criou um ícone de design intemporal que captou o espírito de uma geração. Inteligente, fascinante e carismático, o Mini original era diferente de todos os outros automóveis. Para celebrar os seus 60 anos, os designers da Mini elevaram a fasquia para criarem um automóvel de colecção único, fascinante de qualquer perspectiva: o Mini Edição Especial 60 Anos irradia estilo e atitude – assumindo o passado de glória com os olhos postos no futuro.

A apresentação deste Mini Edição Especial 60 Anos foi um dos pontos altos da edição deste ano do Festival de Velocidade de Goodwood – um dos mais importantes eventos do automobilismo em Inglaterra, realizado no ínicio do passado mês de Julho, em West Sussex. Assim, um amplo espaço denominado Electric Avenue (“Avenida Eléctrica”) celebrou o universo da fabricante de Oxford exibindo momentos marcantes do seu passado - como uma instalação que recriava um anúncio publicitário da

Mini de 1959 - e o presente, representado por lançamentos actuais, como os novos Mini Clubman e Mini John Cooper Works Clubman, para lá do inédito Mini John Cooper Works GP 2020 (ainda como um protótipo de testes).

De referir ainda que, também no passado mês de Julho, a marca revelou o novo Cooper SE, o seu primeiro modelo totalmente eléctrico.

O aparecimento do Mini está directamente ligado à conjuntura histórica da década que o viu nascer e que foi marcada pela chamada “crise do petróleo”. O que a Morris pediu a Alec Issigonis foi que concebesse um carro pequeno com, no máximo, três metros de comprimento, que transportasse quatro adultos com relativo conforto,

o

fosse barato e consumisse pouquíssima gasolina. Apresentado ao público britânico em Agosto de 1959 o mercado foi surpreendido por um carro compacto (apenas 3,05 metros de comprimento) e leve (pesava apenas 620 kg). Mas para além das suas inúmeras características inovadoras e da acessibilidade do seu preço - que o definiu, na época, como um carro “classlessness”, isto é, para todas as classes sociais - o que tornou o Mini um carro de culto não pode ser dissociado da “revolução” que marcou a década de 60, durante a qual emergiu a “cultura pop”, que definiu um novo “estilo de vida” e um “imaginário” que caracterizaria as décadas subsequentes. E até os “Beatles” adoptaram o Mini como o seu carro.

Que tornou o mini um carro de cuLto não Pode ser dissociado da

“revoLução”

Que marcou a década de 60 e o surGimento da cuLtura PoP

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