na voz De joão carlos Pó jorge fala sobre o futuro da laM
DoIng busIness as assiMetrias No MaPa dos Negócios eM MoçaMbique
socIeDaDe ‘café da goroNgosa’ vai ser coMercializado Pela NesPresso Mais Passageiros, voos e coMPaNhias aéreas dão Nova vida a uM segMeNto estruturaNte
6 Observação
A guerra dos tomates a imagem de uma celebração única no mundo, anualmente, no sul de espanha
8 Radar
Panorama economia, banca, Finanças, Infra-estruturas, Investimento, País
12 Macro
Idai o ponto da situação à ajuda pós-ciclones, com a garantia de que, até agora, “não há atrasos”
20 nação
AvIAçãO CIvIl
20 O futuro está no ar a e&M lança um olhar sobre a aviação civil e analisa o papel que terá no desenvolvimento económico do país na próxima década 28 na voz de... João carlos Pó Jorge, director-geral da LaM
32 ProvÍncIa
Matola a cidade mais industrial do país sofreu com a crise mas já dá mostras de recuperação
38 Mercado e FInanças
Doing Business relatório intercalar do banco Mundial assume as disparidades de fazer negócios no país
42 eMPresas
ADPP a história de uma associação que, fruto do seu trabalho, ganhou dimensão nacional
44 MegaFone
Marketing o que está a acontecer no mundo das marcas em Moçambique e lá por fora
46 fIgura do MÊs
federação das Câmaras de Comércio evaristo Madime fala da recém-criada Federação e da sua importância para o fomento do comércio em Moçambique
48 socIedade
Café do Gorongosa a história de um produto que faz da sustentabilidade uma marca para o mundo
52 lÁ Fora
Angola o desafio de contornar o vertiginoso e perigoso declínio das reservas Internacionais Líquidas
59 ócio
60 escape uma viagem até ao Lago do niassa 62 Gourmet a descoberta do socko café e dos ícones da gastronomia contemporânea 63 Adega o cem reis syrah 2016 celebra uma casta antológica 64 Agenda Música, livros, filmes 65 Arte resgate, uma produção independente de Mickey Fonseca e Pipas Forjaz 66 Ao volante gladiator assinala regresso da Jeep
Conferência sobre Transporte Aéreo: um espaço de reflexão
Iacumba Ali Aiuba
realizou-se em julho, a 1ª Conferência Internacional sobre o transporte aéreo, turismo e carga aérea, um espaço privilegiado de reflexão sobre os constrangimentos actuais dos vários operadores, troca de experiências de representantes de outros países e em que foram reconhecidas as várias oportunidades potenciais de negócios futuros, no contexto de realização de projectos no Norte de Moçambique relacionados com os hidrocarbonetos.
Mais uma vez, voltaram à tona as velhas discussões sobre taxas e impostos nos serviços de transporte aéreo que encarecem as tarifas e dificultam a fluidez do turismo inibindo o tráfego aéreo, a ineficiência da transportadora aérea de bandeira e a insustentabilidade crónica das empresas públicas em geral.
Estas conferências tornam-se ainda mais eficazes e úteis se as discussões ou reflexões forem levadas a sério e alinhadas com a visão estratégica do Governo, traduzindo-se em acções concretas e visíveis que permitam alterações estruturais nos sectores. Para que os benefícios sejam sentidos pelos vários actores e beneficiários dos serviços.
O país continua, ainda, a não imprimir mudanças estruturais, por exemplo, no sector empresarial do Estado que passou a contar com uma nova Lei que estendeu o leque empresarial, ao incluir, na alçada do IGEPE, as empresas públicas, muitas delas, representando um peso de centenas de milhões de dólares nas contas do Orçamento do Estado, algumas em situação de falência técnica, com insuficiência crónica de liquidez e sem capacidade de endividamento.
Estas empresas requerem uma visão estratégica clara para que se possam desenvolver acções alinhadas, consubstanciadas num plano estruturado capaz de provocar alterações profundas para o restabelecimento do equilíbrio patrimonial e das contas, e um melhor desempenho operacional, económico e financeiro, que se irá traduzir na melhor prestação de serviços a preços competitivos e na valorização das empresas. Tudo isto em conjugação com outras medidas estratégicas governamentais que influenciem positivamente mudanças nos vários sectores, que estimulem o tráfego aéreo de passageiros e carga pela via da redução ou eliminação de taxas e impostos e assinaturas de vários protocolos. Em suma, é necessária uma visão estratégica clara e integrada do Governo sobre os vários sectores, Empresas Públicas e Participadas, alinhadas com acções concretas, cujo impacto económico e social deve ser sentido de facto e mensurável.
MÊS ano • nº 01
AGOSTO 2019 • Nº 17
PROPRIEDADE Executive Moçambique
DIRECTOR Iacumba Ali Aiuba
DIRECTORA EDITORIAL DO GRUPO
EXECUTIVE Ana Filipa Amaro
DIRECTOR EXECUTIVO Pedro Cativelos COnsELhO EDITORIAL Alda Salomão; António Souto; Narciso Matos; Rogério Samo Gudo JORnALIsTAs Celso Chambisso; Hermenegildo Langa; Cristina Freire, Elmano Madaíl, Rui Trindade PAGInAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Jay Garrido
REVIsÃO Manuela Rodrigues dos Santos PRODUÇÃO Executive Moçambique PUBLICIDADE Ana Antunes (Gestora Comercial - Moçambique) ana.antunes@ executive-mozambique.com; iona@iona. pt/contacto@iona.pt (Portugal) ADMInIsTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBLICIDADE Executive Moçambique; Av. Salvador Allende, nº 1039, Bairro Polana Cimento, Maputo – Moçambique; Tel.: +258 21 485 652; Tlm.: +258 84 311 9150; geral@executive-mozambique.com DELEGAÇÃO EM LIsBOA Telheiras, Rua Poeta Bocage, Nº 2 – 1º Escritório D • 1600233 Lisboa • Portugal; Tel. +351 21 381 3566; iona@iona.pt IMPREssÃO E ACABAMEnTO Minerva Print - Maputo - Moçambique TIRAGEM 4 500 exemplares núMERO DE REGIsTO 01/GABINFO-DEPC/2018
propriedade Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi
observação
Agosto, Buñol, EspAnhA
A guerrA dos tomAtes
Nos arredores de Valência, a pequena vila de Buñol, tornou-se famosa mundialmente por La Tomatina, uma batalha sui generis que atrai dezenas de milhares de turistas de todo o mundo, motivados pela nobre arte de atirar tomates a quem estiver por perto, entre as 11h da manhã e o meio dia.
Calcula-se que, anualmente (este ano realiza-se a 28 de Agosto), sejam atirados mais de 100 mil quilos de tomate fornecidos por uma empresa que separa para a festa as unidades que não cumpram os requisitos básicos para serem comercializadas. Há quem diga que a Tomatina terá nascido em 1945, fruto de uma iniciativa publicitária da marca de polpa Guloso, que aproveitou para aí gravar um anúncio publicitário em que as pessoas se digladiavam com tomate. Mas outros dizem que não terá sido bem assim, e que tudo terá acontecido num acaso, quando alguém atirou o primeiro tomate, dando início a uma guerra sumarenta que nunca mais parou até aos dias de hoje. Fossem todas as guerras feitas assim, sem malícia e com muito sumo vermelho, just for the fun.
FoToGrAFiA D.R.
extractivas
Ouro. Foram descobertaz grandes reservas de ouro na província de Cabo Delgado, que se calcula que estejam entre as maiores da África, segundo uma pesquisa realizada pela Mwiriti, uma das maiores mineradoras do país. De acordo com Azghar Faqhr, director-geral da Mwiriti, Lda, “os primeiros resultados indicam uma reserva de ouro seis vezes maior do que a que foi descoberta na África do Sul”. Além da quantidade de mineral existente, a reserva é considerada especial devido à ocorrência de ouro, com quase 100% de pureza.
A reserva está localizada no distrito de Montepuez, concretamente no remoto posto ad-
ministrativo de Nairoto, onde já foi instalado um pequeno complexo mineiro no meio de uma densa floresta.
Gás. Um grupo de empresários moçambicanos e franceses assinaram, em Maputo, um protocolo de cooperação tendo em vista o negócio de gás e petróleo da bacia do Rovuma, Cabo Delgado.
O acordo estabelece que os franceses transfiram conhecimento em diversos domínios e firmem parcerias com empresas moçambicanas.
A delegação empresarial francesa era composta por cerca de 30 firmas com larga experiência na indústria do gás e petróleo, com destaque para a multinacional Total.
comércio
ZCL. Uma delegação moçambicana chefiada pela vice-ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Maria Manuela dos Santos Lucas, reafirmou “o compromisso relativo aos objectivos da Zona de Comércio Livre (ZCL) em África”, no princípio de Julho
Governo lança Projecto de habitação em larGa escala
Habitação. O Governo lançou um projecto de construção de 35 mil casas para jovens e funcionários do Estado, que pode arrancar no início do próximo ano, sendo 15 mil no Sul, 10 mil no Centro e igual número no Norte do país. O projecto insere-se na cooperação Moçambique – China e será implementado numa Parceria Público–Privada (PPP) entre o Fundo de Fomento de Habitação (FFH) e a gigante chinesa CITIC Construções. Foram, de resto, os próprios dirigentes das duas instituições que assinaram o acordo
passado em Niamey (Níger), durante a 12ª Sessão Extraordinária da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana (UA). Durante o evento, os Chefes de Estado e de Governo celebraram ainda o primeiro aniversário da assinatura do acordo que estabelece a ZCL e lançaram a fase operacional do Mercado Interno Africano. Na ocasião, os governantes decidiram que o Gana será a sede da ZCL Africana.
Despesa pública. Uma pesquisa da coligação de organizações da sociedade civil moçambicana, liderada pelo Fórum de Monitoria do Orçamento (FMO), concluiu que a despesa pública em sectores sociais esteve “aquém” do esperado nos últimos quatro anos. Divulgada em Julho, a análise
que viabiliza o projecto, um acto testemunhado pelo ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, João Osvaldo Machatine, e pela ministra da Juventude e Desportos, Nyeleti Mondlane. Machatine lembrou que a assinatura do acordo “fecha uma longa etapa de negociações com várias rondas entre Maputo e Pequim num modelo de parceria para jovens e funcionários públicos que ainda não têm casa própria”. O PCA do FFH estima que os preços das habitações irão custar até 40 mil dólares.
refere que 2018 “foi o ano mais crítico, principalmente nos sectores da saúde e saneamento.” No rastreio das despesas de Janeiro a Setembro, a coligação constatou ainda ter havido “falhas e limitações nas projecções” do Orçamento do Estado de 2018 e “no seu enquadramento com a realidade económica do país.”
As receitas do Estado só alcançaram 68,4% do previsto, uma falha de 6,6%, tendo os recursos externos alcançado 54% da meta prevista.
Sistema financeiro. O Banco Mundial (BM) considera que os actuais requisitos para abertura de uma conta bancária “excluem 50% dos moçambicanos”. O director do BM, Mark Lundell, defende, por isso, “mais reformas no sistema financeiro.”
A esse propósito, uma missão do Banco Mundial e da Aliança para a Inclusão Financeira esteve, em Julho, em Maputo, para a avaliação de médio prazo da Estratégia Nacional de Inclusão Financeira, que estabelece como meta 60% dos moçambicanos com idade adulta com acesso a uma conta bancária até 2022.
Cooperativismo. Um estudo da consultora WinResources projecta ganhos na ordem de 25 mil milhões de meticais para os cofres públicos até 2030, provenientes do negócio e movimento das cooperativas. “Acreditamos que essa contribuição pode ser ainda maior, uma vez que o movimento cooperativo está a crescer por todo o território nacional.”
Nesse sentido, foram identificadas muitas associações que, quando organizadas em cooperativas, “podem ultrapassar largamente esse valor (25 mil milhões de meticais)”, segundo Pedro Tivane, consultor da WinResources.
Caju. O Executivo está à procura de formas de reduzir custos de tratamento de cajueiros e atenuar perdas com as pragas. É que anualmente são desembolsados mais de 100 milhões de meticais para aquisição de químicos e pulverização das plantas.
A produção de castanha de caju em Moçambique é um negócio rentável, mas os produtores ainda não estão em condições de fazer o tratamento de cajueiros sem o apoio do Governo, devido ao alto custo dos químicos para o combate a doenças e pragas.
inFra-estrUtUras
Electrificação. O Banco Islâmico de Desenvolvimento (BID) vai doar 99,7 milhões de dólares para a construção de uma linha de transmissão de energia entre Temane (província
de Inhambane) e Maputo, e uma central de ciclo combinado, disse uma fonte do Ministério dos Recursos Minerais e Energia. A mesma fonte adianta que, com esta doação, ficam reunidos os 550 milhões de dólares necessários para a construção da linha de alta tensão com uma extensão de 563 quilómetros.
Há que recordar que o BM aprovou, em Junho passado, doações e garantias no montante de 420 milhões de dólares para o Projecto Regional de Electricidade de Temane (TREP), com a finalidade de reforçar a capacidade de transmissão de energia eléctrica doméstica e aumentar também a capacidade de produção através de investimentos do sector privado.
Ferrovia. Foi anunciada a compra de cinco novas locomotivas, 90 carruagens, 300 vagões e cinco automotoras, num investimento avaliado em 95 milhões de dólares. “Até finais de Maio de 2020, teremos os equipamentos disponíveis, devendo ser distribuídos pelas zonas Sul e Centro do país”, disse Carlos Mesquita, ministro dos Transportes e Comunicações.
O investimento vai ser realizado através de uma linha de crédito disponibilizada pelo Governo indiano, no âmbito do fortalecimento da cooperação entre os dois países.
Ponte. O Governo está a fazer esforços para conseguir os 25 milhões de dólares necessários para a construção de uma ponte sobre o rio Incomati, na província de Maputo, disse o Presidente da República. “Já fizemos o estudo e estamos a angariar recursos para a construção”, afirmou Filipe Nyusi. “Este projecto é antigo, mas não era, até agora, prioritário porque direccionámos os nossos recursos para comida e sementes”, acrescentou o chefe de Estado moçambicano.
certiFicado de dePÓsito como instrUmento imPUlsionador da comercialiZação aGrÍcola
O Certificado de Depósito (CD) é um documento em formato físico ou electrónico, emitido pela Bolsa de Mercadorias de Moçambique (BMM) e por entidades públicas e privadas por si certificadas para o efeito. CD pode ser registado num sistema de registo e de liquidação financeira, adquirindo a equivalência de título de crédito. A Central de Valores Mobiliários (CVM), enquanto entidade centralizadora do registo, pelo Decreto n.º 25/2006, de 23 de Agosto, fará o registo dos CDs, permitindo assim a sua transação na bolsas de valores, nos termos do artigo 6 do Decreto n.º 100/2014, de 31 de Dezembro, que cria e aprova o Regulamento do Certificado de Depósito.
O “Sistema de Certificados de Depósito” poderá impulsionar a comercialização agrícola através da (i) facilitação de acesso ao crédito bancário para os interveniente, através do uso da mercadoria armazenada como garantia; (ii) provisão adequada de informação sobre qualidade e quantidades, facilitando acesso a mercados relevantes, e elevando a competitividade; e (iii) gestão eficaz do risco nos mercados agrícolas.
O grande desafio da BMM é garantir a implementação integral do projecto, em benefício das partes interessadas: bancos, seguradoras, BVM, produtores, intermediários diversos, armazenistas, agro-processadores, exportadores, entre outros agentes.
Como projecto, há um pontencial para revolucionar o sistema de financiamento à agricultura, estando em curso os primeiros passos da sua implementação, sendo de destacar: o desenvolvimento e testagem da plataforma electrónica de interoperatividade; acordos com bancos comerciais; alinhamento técnico-legal para o registo dos CDs na CVM; seguro das mercadorias; campanhas de disseminação de informação e de serviços prestados às partes interessadas; entre outras acções.
Com o projecto, espera-se reforçar a inclusão financeira, com impacto positivo e directo para milhares de famílias, incluindo os pequenos produtores rurais.
telefone: (+258) 21 902503 ou pelo (+258) 84 3203371 email geral: info@bmm.co.mz
A administração e os robôs
Salvador
Aragón • Director Geral de Inovação da IE University e professor da IE BUSINESS SCHOOL.
frequentemente, os membros do conselho de administração questionam-se sobre se a abordagem aos negócios e o sucesso que tiveram no passado permanecem válidos num contexto de digitalização e inovação permanente. A minha resposta é convidar-vos para um exercício aparentemente simples: construir um robô.
O ponto de partida é um kit inicial de robótica que contém todas as peças e componentes desmontados, em que há um tempo limite para montar o robô, programá-lo e pô-lo em funcionamento. No comportamento mais comum, o “orientado para a acção”, os membros da administração lançam-se directamente para a montagem, tentando descobrir a funcionalidade de cada uma das peças e a maneira correcta de combiná-las.
Este processo de exploração é geralmente longo: há componentes que estão a faltar, partes que não se encaixam correctamente e, muitas vezes, tem de se desfazer e remontar.
Nada disso desencoraja os participantes que estão a aprender progressivamente. Até que cerca de 20 minutos depois, eles colocam as peças com sucesso e o robô ganha forma. Apesar dessa conquista, a fiabilidade dos vários componentes ainda está pendente. De cada pequeno motor do robô, sai um cabo que deve ser conectado a uma pequena caixa de conectores localizada no corpo central. Todos os cabos são os mesmos, não há instruções e cada um é identificado apenas por uma letra e um número: A1, A2 até ao C4. Os membros do conselho redobram esforços e optam por testar as soluções mais lógicas: os conectores A correspondem à cabeça e pescoço, B aos braços, C às pernas. Uma lógica impecável que, ao ligar o robô, se mostra, no entanto, incorrecta. E recomeça-se o processo, de tentativa e erro. Após mais 15 minutos, o robô já está funcional. Tempo total: 35 minutos. Resultado: um robô funcional e cinco membros do conselho satisfeitos. No entanto, de tempos a tempos, surge outro comportamento, a que chamo de “orientado para a integração”. Nesse caso, enquanto os colegas montam o robô, um dos membros tende a separar-se do grupo. Depois de alguns segundos de dúvida, ele pega no telemóvel e começa a procurar vídeos explicativos sobre como montar e configurar um robô e, em apenas um minuto, é possível localizar pelo menos meia dúzia de vídeos que detalham como concluir com êxito a tarefa. Dois minutos depois, os restantes estão a seguir as instruções
em detalhe e, em apenas cinco minutos, o robô está operacional. Tempo total: 8 minutos. Resultado: um robô funcional e cinco membros do conselho satisfeitos.
Estes dois comportamentos ilustram a maneira como as direcções ou administrações abordam a sua função principal: a construção de um portefólio de modelos de negócios. A abordagem mais comum implica que a organização tenha a maioria dos principais recursos necessários para o sucesso, a montagem do robô neste simples exemplo figurativo. Para isso, devemos acrescentar que esses recursos devem ser ajustados dinamicamente através de um processo baseado no método de tentativa e erro, o mais natural para construir relacionamentos dentro de uma organização; ou envolvendo fornecedores e parceiros de negócios.
Aabordagemminoritáriaéradicalmentediferente.Apremissa básica é que muitas vezes não é necessário desenvolver o modelo adicionando recursos e ajustando-os posteriormente por tentativa e erro. De facto, é muito mais eficiente explorar os modelos existentes primeiro e se eles são apropriados para prosseguir com a sua incorporação. “Assim podemos reinventar a roda seguindo as instruções”.
Esta dupla abordagem tem profundas repercussões estratégicas. Quem segue a segunda opção tenderá a explorar modelos de negócios existentes fora da organização para integrá-los rapidamente por meio de modelos de parceria que podem variar da aquisição à participação em ecossistemas empresariais ou até ao uso de novas plataformas. Pelo contrário, quem é propenso à primeira opção promoverá a construção de seus próprios modelos de negócios com base nas capacidades existentes. Qual destas duas modalidades é a melhor? A resposta é que todas as administrações devem ter uma representação adequada de ambas as abordagens que depende da volatilidade da sua actividade. Em sectores menos voláteis, como a mineração, a proporção pode ser de 5:1 a favor da abordagem orientada para a execução. Mas se, por outro lado, a empresa competir num sector muito volátil, a relação poderia ser perfeitamente a oposta. A diversidade do conselho de administração deve reflectir a diversidade desejada dos modelos de negócio sob sua responsabilidade. E tudo isso com uma interpelação pessoal. Agora a pergunta para si: O que teria feito para construir um robô?
“Muitas vezes não é necessário desenvolver o modelo adicionando recursos e ajustando-os posteriormente por tentativa e erro. De facto, é muito mais eficiente explorar os modelos existentes primeiro e se eles são apropriados para prosseguir com a sua incorporação”
“Não há atraso dos apoios à recoNstrução”
Parece haver sinais de abrandamento da ‘euforia solidária’ anunciada a seguir aos ciclones do primeiro semestre. Para o Gabinete responsável pela reconstrução não há, ainda assim, motivos de preocupação. Bem pelo contrário
dois meses após a conferência de doadores, apenas três parceiros de cooperação disponibilizaram a assistência prometida a Moçambique para a reconstrução pós-ciclones (Idai no Centro, e Kenneth no Norte). Trata-se do Banco Mundial (540 milhões de dólares), Banco Africano de Desenvolvimento (50 milhões de dólares) e as Nações Unidas (cujo apoio não é pecuniário, mas através da assistência técnica).
Se, desde cedo, a grande preocupação era o facto de se não ter conseguido alcançar os 3,2 mil milhões de dólares anunciados pelo Governo para uma cobertura integral das necessidades, hoje sobrepõe-se a (aparente) lentidão na dis-
MIL
Famílias vulneráveis perderam tudo nos dois desastres naturais, número que corresponde a cerca de 2 milhões de pessoas, segundo dados do gabinete de reconstrução pós- ciclones
ponibilização de 1,2 mil milhões de dólares garantidos em Maio passado.
A “demora” no desbloqueio do dinheiro tem sido tema dominante e parece resvalar para uma espécie de crítica aos doadores, dado o risco adiar o processo de reconstrução, elevar os seus custos, agudizar a difícil situação dos cerca de 2 milhões de pessoas afectadas e comprometer todo o processo já desenhado.
o alarme
“Estamos numa situação em que anúncios bombásticos foram feitos, mas a ajuda prometida não chegou”. Era a manifestação de aflição do Presidente Filipe Nyusi a 4 de Julho, quando visitou Portugal para
uma conferência de negócios entre ambos os países, sublinhando a importância da flexibilidade dos doadores já que, além da necessidade de repor infra-estruturas públicas (estradas, pontes, escolas e hospitais.), “muitas pessoas perderam casas e precisam de cimento e de começar a plantar, antes das chuvas começarem em Novembro próximo”. Motivos para alimentar a preocupação não faltam. Em comunicado de 11 de Julho, o ministro das Obras Públicas, João Machatine, disse que os doadores estão ainda a realizar um plano de reconstrução que será apresentado ao Conselho de Ministros a 13 de Agosto, o que sugere que os fundos dos doadores não estarão disponíveis até Setembro, não podendo, por isso, chegar a tempo de beneficiar os afectados antes do início das chuvas. “Temos insistido fortemente que não deve haver uma lacuna muito grande entre promessas e desembolsos, porque realmente precisávamos de recursos para ontem, mesmo antes de hoje”, disse na ocasião o governante.
cobrar prontidão aos doadores?
Se o dito popular “promessa é dívida” for levado em conta, faz todo o sentido. Mas não é só por aí. Para este caso, a cobrança conta com um importante adepto, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, por uma causa mais profunda que a simples promessa.
De visita a Moçambique, em Julho passado, Guterres defendeu ser “legítimo que Moçambique exija da comunidade internacional uma forte solidariedade e apoio, quer na resposta aos dramas criados pelas tempestades que assolam o país, quer na reconstrução para preparar o país para as situações futuras”. Guterres argumentou ainda que “Moçambique tem autoridade moral inegável porque é hoje claro que as alterações climáticas se reflectem com cada vez com maior intensidade… e Moçambique praticamente não contribui para o aquecimento global, mas está na primeira linha das vítimas desse fenómeno”. Um posicionamento mais ousado do que o do secretário-executivo do Gabinete de Reconstrução Pós-Ciclones, Francisco Pereira, que, mesmo reconhecendo essa responsabilidade da comunidade internacional, entende que esta não é “obrigada” a apoiar Moçambique.
afinal, está tudo nos eixos… Francisco Pereira é peremptório: “Não há atraso”, afirma na entrevista concedida
Muito ainda Por deseMBolsar
Do total prometido pelos parceiros na Conferência de Doadores, apenas
33% foram desembolsados
Em milhões de dólares
mundial
holanda
aga khan
espanha
itália
áfrica do sul
igreja maná guiné equatorial
1 174
milhões de dólares
Ajuda garantida pelos doadores só chegará, na totalidade, num prazo de até dois anos.
FONTE Gabinete de Reconstrução Pós-Ciclones
à E&M uma hora após manter reunião de concertação com cerca de 50 doadores, em meados de Julho passado. O responsável reconhece a relevância do “rápido desbloqueio das verbas” mas desdramatiza a situação, começando por explicar que “para se dizer que qualquer coisa está em atraso, tem de haver um calendário”. Algo que não foi ainda feito porque a realização dos compromissos assumidos na Conferência dos Doadores tem de ser antecedida de acordos de financiamento, já que os doadores (sejam eles o Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento, a Comissão Europeia ou outros) não têm habitualmente processos automáticos de canalização de fundos. “Eles identificam e fazem a avaliação dos projectos e é em função destes que se realizam os acordos de financiamento envolvendo o Ministério da Economia e Finanças e os próprios financiadores, num processo que chega a durar entre um ano e um ano e meio. Portanto, é completamente errado dizer que se registam atrasos”, esclareceu Francisco Pereira. Ainda de acordo com o nosso entrevistado, as necessidades que foram apresentadas na Conferência de Doadores (3,2 mil milhões de dólares) são globais e cobrem um programa entre cinco e sete anos. Pelo que “não era expectável que as organizações dessem todo o dinheiro que cobrisse a totalidade deste período. Mas o que foi recolhido, em termos de compromisso, dá para começar com os trabalhos de emergência e de médio prazo”.
Mesmo assim, “se conseguirmos, a partir de Setembro, começar a implementar algumas obras (de reconstrução), devemos considerar tratar-se de um facto inédito, porque normalmente isso não acontece. E se acontecer, não será por sermos melhores do que os outros (e por isso merecermos atenção especial por parte dos doadores), mas porque alguns projectos foram concebidos como sendo de emergência, o que leva a que o prazo dos desembolsos seja acelerado de um ano ou seis meses para apenas dois a três meses”, explicou o responsável.
No encontro entre o Gabinete e os doadores, estabeleceu-se como prioridade a informação sobre quando é que estará disponível a totalidade dos montantes prometidos. “Todos foram unânimes em comprometer-se a dar a informação a curto prazo sobre os prazos dos desembolsos. Nós sabemos da necessidade de alguma celeridade. Que cheguem rápido para aproveitarmos a época seca”, assevera.
macro
ajuda de emergência cumpriu o seu papel. Fundos para a reconstrução chegarão nos próximos anos
“as
necessidades apresentadas na Conferência de doadores cobrem um programa entre cinco e sete anos, pelo que não era expectável que dessem todo o dinheiro já”
… e o futuro pode trazer mais
As preocupações também devem ser afastadas em relação ao défice global de 2 mil milhões de dólares, porque já há “muitas promessas” de cobertura do que falta para planos de longo prazo. A USAID, por exemplo, já se predispôs a financiar (embora não se tenha referido ainda ao montante). A lista das novas promessas inclui Portugal, França e Banco Árabe para o Desenvolvimento Económico de África (que também não definiram o valor).
“Este processo irá continuar ao longo dos próximos anos. Por exemplo, integrei a comitiva do primeiro-ministro à Assembleia Geral das Nações Unidas, falámos com a Fundação Bill Clinton e outras organizações interessadas em apoiar e não sabiam ainda como, mas querem participar. E na recente visita do Presidente da República a Portugal fiz duas palestras sobre a reconstrução e há entidades interessadas em participar”, assegurou com optimismo.
Uma avaliação a fundo das necessidades indica que os 3,2 mil milhões de dólares levantados e anunciados na con-
ferência de doadores, segundo Francisco Pereira, provavelmente não abrangem a totalidade dos gastos, porque a dimensão do desastre é de tal forma grande que levará muitos anos a recuperar, sobretudo a vida das pessoas mais pobres, que perderam casas, machambas e outras fontes de rendimento. “Apoiar as pessoas mais vulneráveis a recuperarem os meios de subsistência é a parte mais desafiadora de todo este processo de reconstrução”, enuncia o responsável.
reconstrução já começou
Francisco Pereira aborda ainda o facto de já estar em curso o plano de emergência na área de estradas. Por ser habitualmente assistida pelo Banco Mundial, esta instituição mobilizou já cerca de 35 milhões de dólares. No sector das águas, foram entregues 10 milhões de dólares para obras de emergência, outros 10 milhões destinaram-se a projectos de agricultura, estando já 55 milhões de dólares a serem utilizados em vários dos pontos do plano de reconstrução. Depois, além dos grandes doadores, há os
mais pequenos. Por exemplo, já está a proceder-se à reconstrução de 150 salas de aula, através de um fundo designado por “Education cannot wait” (Educação não pode esperar), que pertence a um conjunto de organizações (UNICEF, UNESCO), que desembolsaram cerca de 5 milhões de dólares para este fim.
Assim, a fase imediatamente a seguir será a da assinatura dos acordos de financiamento, estando agora dois consultores (arquitectos da cidade da Beira) a colher informações dos sectores que gerem os diferentes projectos para saberem qual é o estágio dos mesmos, já que as obras não podem ser executadas por administração directa.
“Ninguém mais pode admitir que as construções caiam ao primeiro sopro. As facilidades de construção têm de ser determinadas, isto é, mesmo que façamos construções de baixo custo, temos de introduzir a noção de resiliência”, promete o responsável pelo Gabinete de Reconstrução Pós-Ciclones.
Nas construções relativamente precárias, o principal será ligar a cobertura ao resto das casas e criar sustentabilidade (houve escolas e outras infra-estruturas sem travamentos nas coberturas ou que não estavam correctamente ligadas às paredes que acabaram por ceder com relativa facilidade à força do vento).
Equipas técnicas, projectistas, fiscais, são agora chamados a observarem rigorosamente as regras de segurança no quadro da reconstrução, porque os eventos extremos terão tendência a acontecer com maior frequência.
Aliás, uma das questões em discussão com os parceiros é a protecção costeira da cidade da Beira, um empreendimento que deverá custar 150 milhões de dólares, estando ainda só garantidos entre 30 e 50 milhões de dólares, já que os parceiros dão apenas cobertura ao que foi destruído.
É aqui que reside um dos grandes desafios do Gabinete: ligar a reconstrução necessária ao desenvolvimento indispensável, o elemento-chave que irá servir de garantia a que todas as infra-estruturas recuperadas não voltem a ser um alvo demasiado fácil em eventos similares, e a segurança de que o vendaval que se abateu sobre as gentes do Centro e Norte do país não se volte a repetir.
texto Celso Chambisso fotogrAfiA D.R.
Números em conta
Os grandes númerOs da OPV da HCB
acabou a primeira fase da Oferta Pública de Venda (OPV) de 7,5% do capital da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) e o resultado foi uma procura “massiva” por títulos em praticamente todas as regiões do país. A Bolsa de Valores de Moçambique (BVM) anunciou assim, pela voz do Presidente do Conselho de Administração, Salim Valá, que a OPV sobre uma percentagem do capital da hidroeléctrica foi “um grande sucesso”, tendo sido vendidos 4% das acções da HCB, mais 1,5% do que tinha sido planificado para esta primeira fase da operação, o que “demonstra a eficácia da estratégia de comunicação de toda a operação, bem como dos veículos digitais utilizados para a subscrição (podia ser feita através de uma app desenhada para o efeito e por via de um código USSD, que não requer uma ligação do telemóvel à Internet)”. E foi esse o factor destacado, igualmente, pelo PCA da HCB, Pedro Couto, durante a cerimónia de apresentação dos resultados da OPV dos 7,5% das acções da empresa, atribuindo a decisão de alargar a oferta “a uma procura substancialmente acima das expectativas verificada nesta primeira fase.”
Quem investiu?
Adesão “massiva” explica-se pelo número de pequenos investidores de todo o país que investiram em lotes de acções da hidroeléctrica
3
297
mil milhões de meticais
O valor arrecadado pela venda de 4% das acções da HCB, alienadas a um custo unitário de três meticais, resultou numa receita de cerca de 53 milhões de dólares.
9 empresas cotadas
A completar duas décadas de existência, a BVM passa a ter 9 títulos cotados. Só no primeiro trimestre deste ano transaccionou o equivalente a 9,8 milhões de euros, atingindo no final do período uma capitalização bolsista total acumulada de 1,263 milhões de euros (cerca de 9% do Produto Interno Bruto de Moçambique).
Em milhões de acções | Em unidades
1 099
milhões de acções
Na primeira fase, a HCB tinha inicialmente colocado no mercado apenas 2,5% das suas acções, correspondentes a 680 milhões de unidades, mas procedeu à venda de mais 1,5% do que o inicialmente previsto.
191%
Só a operação da HCB fez crescer em 15 mil os novos investidores na BVM que tem agora um universo global de 23 257 investidores registados na central de valores mobiliários.
410,6
milhões de acções
Foi o volume de procura que ficou por satisfazer na OPV inicial e que levou ao aumento do número de acções disponibilizadas para venda.
Q&a: O Que é uma OPV e O Que signifiCa Para O merCadO de CaPitais?
A sigla significa Oferta Pública de Venda, é a quinta na história da BVM mas, pelos valores envolvidos, ficará registada como a, de longe, maior operação da história do mercado capitais em Moçambique.
De referir que a subscrição para a primeira fase de venda das acções da HCB decorreu entre os dias 17 de Junho e 12 de Julho, sendo que apenas eram elegíveis cidadãos, empresas e instituições nacionais. A operação foi efectuada através da Bolsa de Valores de Moçambique e executada pelo consórcio bancário composto pelo BCI (Banco Comercial e de Investimento) e BIG (Banco Internacional Global).
Os restantes 3,5% do capital serão colocados no mercado, ao que se sabe, no primeiro semestre do próximo ano.
Decisão Final de Investimento – Impacto Hoje ou Amanhã?
Bernardo Aparício • Head of Corporate and Investment Banking do Barclays Bank Moçambique
as imagens da assinatura do acordo para a Decisão Final de Investimento da Área 1 percorreram o mundo, mostrando que Moçambique está de regresso à primeira liga dos destinos de investimento.
Este anúncio coincidiu com a Conferência Estados Unidos –África, em Maputo, que contou, não só com um número histórico de chefes de Estado, mas também com centenas de empresas norte-americanas interessadas em investir em África, com um foco muito particular em Moçambique.
A estabilidade macro-económica dos últimos dois anos, combinada com a Decisão Final de Investimento, são os dois principais factores para o aumento da atractividade do país aos olhos dos investidores estrangeiros.
Caso se confirme o progresso na reestruturação das dívidas externas e a consequente melhoria no rating, Moçambique completará este ciclo negativo com instituições e politícas mais fortes, uma economia mais equilibrada e a confiança dos parceiros internacionais.
Com esta decisão, e a possibilidade bem real de uma similar para a Área 4, Moçambique volta a ser um país com excelentes perspectivas para as empresas que querem fazer parte de uma cadeia de valor que irá mover milhares de milhões de dólares de investimento e de exportações, e que a partir de hoje é uma realidade.
Mas será tudo isto imediato ou teremos de esperar dois, três ou mesmo seis anos, até que os Moçambicanos possam sentir o impacto das Decisões Finais de Investimento?
As perspectivas para os próximos 12 meses, o Hoje, são essencialmente: (1) o aumento do número de empresas estrangeiras a investir em Moçambique, com o consequente aumento dos fluxos de entrada de capitais; (2) a aceleração do crescimento económico no segundo semestre de 2019 e no primeiro
de 2020; e (3) a continuação de contenção na despesa e investimento público, resultado em parte do esforço que o Estado terá de efectuar nas zonas impactadas pelos furacões Idaí e Kenneth.
O impacto destes três factores nos indicadores macro-económicos será ainda muito ligeiro, com a expectativa do Investimento Directo Estrangeiro (IDE) aumentar 30% em 2019 e 31% em 2020, vindo de bases historicamente muito baixas em 2017 e 2018; o PIB crescer acima de 5% em 2020, comparado com os 2% a 3% em 2019; e a inflação situar-se em torno dos 5% a 7% em 2019 e 2020.
Importa referir que o aumento do IDE, combinado com uma inflação controlada, permitirá manter a estabilidade do metical face ao dólar, apesar do aumento já verificado nas importações.
No entanto, o verdadeiro impacto das Decisões Finais de Investimento irá verificar-se, numa primeira fase, num horizonte de dois a seis anos e, numa segunda fase, a partir de 2025, ou seja, no Amanhã.
Com um investimento de aproximadamente 50 mil milhões de dólares nos próximos seis anos, grande parte em equipamento e mão-de-obra especializada, iremos entrar numa nova era de investimento no país.
Deste montante, estima-se que cerca de 10% do valor de investimento seja em mão-de-obra, bens e serviços produzidos e disponibilizados localmente, o que representaria 5 mil milhões de dólares ao longo de seis anos de construção.
Para os mais cépticos, 10% de um projecto é manifestamente pouco, mas quando colocamos este valor em perspectiva, o contributo adicional de mil milhões de dólares por ano, para um PIB que actualmente se situa nos 14 mil milhões de dólares, representa um impacto de 7% ao longo deste período.
A estabilidade macro-económica dos últimos dois anos, combinada com a Decisão Final de Investimento, são os dois principais factores para o aumento da atractividade do país aos olhos dos investidores estrangeiros
Desta forma, prevê-se um aumento do crescimento económico neste período para níveis de 6% a 7%, que os níveis de inflação se mantenham controlados e o metical se situe entre 60 e 65 para o dólar.
Na segunda fase, que representa a de produção após 2025, iremos realmente assistir à revolução da economia Moçambicana, fruto das exportações de gás que poderão atingir 12 mil milhões de dólares por ano.
Para além destas, prevê-se um contributo anual proveniente de impostos, royalties e dividendos para os cofres do Estado Moçambicano de 3 a 5 mil milhões de dólares por ano, montante superior à totalidade das receitas fiscais angariadas actualmente.
O impacto desta segunda fase nos indicadores macro-económicos será obviamente muito elevado com o PIB a crescer próximos dos 10%, o metical a apreciar para níveis abaixo dos 60 e a inflação mantendo-se abaixo dos 10%. O principal impacto, no entanto, será ao nível das contas públicas e a retoma da capacidade de investimento público, que deverá ocorrer no período após 2025.
Este factor, tal como no passado, será um elemento multiplicador do crescimento económico e deverá contribuir de forma muito significativa para Moçambique voltar a ser um dos países com maiores taxas de crescimento em África e globalmente.
A conclusão principal que se pode retirar de um mês de Junho cheio de boas notícias é que a plataforma para o regresso ao topo da lista dos países que mais crescem no mundo está montada, que 2019 e 2020 servirão de rampa de lançamento, mas o período realmente transformacional ocorrerá na fase de produção. O que temos de fazer Hoje é continuar a preparar o Amanhã, se possível sem cometer os erros do passado.
Nação
O FuturO está nO ar
No início da década o mercado da aviação civil, a nível interno, transportava perto de 700 mil passageiros. Até ao ano passado, esse número quase duplicou e, só no primeiro semestre de 2019, registou-se um aumento de 17%. São os primeiros bons sinais da liberalização do espaço aéreo nacional. Mas há outros que mostram a forma como a aviação pode (e deve) estar ligada ao bom desempenho de sectores essenciais ao desenvolvimento do país
ao longo dos últimos anos, um dos debates que ‘aquecia’ qualquer conversa no espaço público era o da liberalização do espaço aéreo e de como a aviação civil poderia melhorar na oferta dos serviços, dos preços e da pontualidade, essencialmente. Era uma discussão antiga, essa, que vinha já desde o início do século, quando a legislação entreabriu a porta para uma possibilidade que, no entanto só seria consumada há pouco mais de dois anos quando o Executivo tomou pulso à iniciativa e começou a forçar o sector a abrir-se a novos players promovendo a concorrência de que qualquer área de actividade necessita para se ir aperfeiçoando. Na forma e no serviço prestado ao seu consumidor, neste caso, os passageiros mas também no seu contributo aos sectores económicos, que dele dependem, como o turismo, por exemplo.
Ventos de mudança
Quando os chefes de Estado africanos assinaram o tratado de Abuja, segundo o qual, até ao dia 31 de Dezembro de 2015, somente os aeroportos certificados deveriam receber tráfego internacional, a ideia era simples: concentrar o tráfego,
mil milhões
Em 2018, mais dE mEtadE dE toda a população do planEta andou dE avião, um númEro quE sE prEvê quE chEguE aos 7,2 mil milhõEs até 2035
melhorar as infra-estruturas e potenciar economicamente algumas regiões. Ao nível da SADC, estimava-se que a liberalização aí iniciada influenciasse toda a região. Da Tanzânia ao Malaui, do Zimbaué a Moçambique, claro. Mais tarde, com a aprovação, na Assembleia da República (AR), “em definitivo e por consenso”, da proposta de revisão da Lei de Aviação Civil, a aviação civil ganhava a base legislativa que a fez começar a voar. Depois, o IACM (Instituto de Aviação Civil de Moçambique) ganhava novas asas, e tornava-se a entidade reguladora do espaço aéreo nacional. Não tardou o anúncio da abertura de concursos para dar outras cores, de novas companhias, aos céus de Moçambique.
A primeira a aterrar, nesta nova fase da aviação civil, foi a Fastjet, uma operadora pan-africana de voos de baixo custo (detida pela Solenta Aviation, desde 2018) e que começou por ligar as cidades de Maputo e Beira, Tete e Nampula. Até aí, só a estatal Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) realizava de forma consistente a ligação doméstica a todas as províncias do país, mas os problemas de gestão e de falta de aviões que
Nação AviAção
A evolução do MercAdo 2002
Nas últimas duas décadas, o segmento da aviação civil mudou a sua face
com a revisão da politica do transporte, abria-se o segmento doméstico, regulando as restrições e impedindo o controlo monopolista do mercado.
Em Maio, o Governo aprovou o novo Regulamento sobre a concorrência nos Serviços de Transporte Aéreo de Moçambique, que estabelece regras para boas práticas competitivas nos serviços de transporte e trabalho aéreo, definindo práticas, acordos ou condutas que tenham um efeito anti-concorrencial. Em Setembro do mesmo ano, o instituto de Aviação civil anunciou o apuramento da Ethiopian Airlines e da Malawi Airlines (detida pela gigante etíope). As companhias iriam operar a par das outras já no mercado (Fastjet, MEX, cFM Transporte Aéreo e TTA).
2018
começa a vigorar a Decisão de Yamoussoukro, que visa a liberalização do mercado único de transporte aéreo africano, projecto lançado por 19 chefes de Estado africanos, em Addis Ababa, na Etiópia. Esta medida tem como objectivos aumentar a conectividade entre os países africanos, reduzir os preços de passagens e criar um desenvolvimento sustentável do mercado aéreo no continente. Em Setembro, foi aprovado o estatuto orgânico do iAcM para desempenhar as funções de regulação, supervisão, fiscalização e sancionamento no domínio da aviação civil.
2017 2019
Espaço aéreo aberto com a Solenta Aviation (detentora da Fastjet) e a Ethiopian Airlines Moçambique, para além da lAM. Moçambique sai das listas negras de inibição de voar para a União Europeia.
provocavam atrasos e cancelamentos de voos trouxeram um desgaste à reputação da LAM, algo que tem vindo a resolver-se na actual gestão (ver entrevista do director-geral na página 28). Seguiu-se a Ethiopian Moçambique, no segundo semestre do ano passado. A operadora moçambicana detida pela gigante aeronáutica etíope trouxe ao céu de Moçambique um dinamismo concorrencial que se reflectiu essencialmente nos preços dos bilhetes (baixaram, em média, entre 7% e 10%), e na diversidade dos voos. Mas claro que nem tudo é um mar (neste caso um ar) de rosas. “Internamente, há a melhoria dos preços, dos serviços, novas rotas, menos tempo de viagem e de
retenção nos aeroportos e escalas que já reduziram significativamente” diz o comandante João Abreu, PCA do Instituto de Aviação Civil. Por outro lado, prossegue, “as companhias também beneficiam com novas rotas, mais e melhor tráfego aéreo e a possibilidade de parcerias como a da Solenta com a LAM. Depois, a partilha de códigos já acontece e traz companhias como a Air France ou a KLM até nós. Mais serviços aéreos para os grandes projectos e a descentralização dos hubs para que cresça o peso do sector na economia nacional são o futuro da aviação”. O ministro dos Transportes e Comunicações também enaltece o trabalho em curso de reguladores e players do mercado “no quadro da liberalização do
PcA do iAcM diz que “há melhorias” nos preços, serviços, tempos de viagem e de retenção nos aeroportos
PASSAgeiroS AuMeNtAM
com a entrada de novos operadores a nível interno e externo, o número dos passageiros tem aumentado de forma consistente em todos os segmentos
espaço aéreo, da certificação dos aeroportos de Maputo e Nacala e de outras reformas em curso”, dizia, à margem da Conferência Internacional de Transporte Aéreo, Turismo e Carga Aérea (CITA), realizada em Julho passado, em Maputo. Já o primeiro-ministro (PM), Carlos Agostinho do Rosário, no seu discurso de abertura da Conferência, repisava o desafio “da aplicação de tarifas competitivas, porque só assim se pode assegurar que o transporte aéreo seja mais acessível para os cidadãos e um factor indutor do desenvolvimento do turismo, e da economia do país e da região.”
O director geral da SATA Açores, Gavin Eccles, concorda com a estratégia delineada: “Planeamento e promoção devem
funcionar em conjunto. Temos de construir aeroportos sustentáveis, perceber como podemos trabalhar em conjunto para desenvolver os destinos e mudar a percepção dos consumidores. Aumentar as rotas é captar turistas, e há que conciliar temperatura e preço, apostar no mercado dos charters. Cabo Verde é um bom exemplo disso. Até porque construímos hotéis e eles são suportados pelo transporte aéreo. A ordem é esta, não o contrário. Em Moçambique, muitas das questões como os vistos, a segurança, o conflito político, estão resolvidos, o que falta então?”, questionava, num dos painéis da Conferência.
A este respeito, o líder do IACM, anunciou estar em curso “a produção de um Masterplan a dez anos que vai envolver todos os parceiros do conselho aeronáutico.”
De casa até à praia
Apesar da mudança em curso, os turistas que entram em Moçambique pela via aérea para usufruir das praias, parques nacionais e oportunidades de negócio ainda estão aquém do desejável e do potencial que o país oferece.
Um paradoxo num continente que viu o número de entradas de turistas internacionais duplicar, entre 1995 e 2016, e a receita mais do que triplicar, gerando 47 mil milhões de dólares em 2016. Ainda assim, o continente responde por apenas 3% do movimento global de viajantes de avião e por isso é que este deverá ser um esforço regional.
Aviação e turismo estão directamente relacionadas, como é fácil imaginar. E o seu crescimento é, de resto, assinalável. Cerca de 3,9% em 2018, representando 10,4% do PIB mundial e contribuindo com uma receita recorde de 8,8 biliões de dólares, gerando 319 milhões de empregos e, pelo oitavo ano consecutivo, ficando acima da taxa de crescimento do PIB mundial (3,2%). Os números fazem parte da pesquisa anual do World Travel & Tourism Council (WTTC) sobre o impacto económico de um sector responsável por um em cada cinco novos postos de trabalho criados no mundo e que voa à frente da Saúde (+ 3,1%), Tecnologias da Informação (+ 1,7%) e Serviços Financeiros (+ 1,7%). Outro dado interessante tem que ver com o facto de 71,2% dos gastos em turismo, a nível global, serem provenientes de turistas nacionais, o que demonstra a importância do turismo doméstico. Mas para percebermos o peso da aviação civil no turismo, ficamos também a
Em milhares
Domésticos
FONTE AdM
Nação
OS DEZ INDICADORES A TER EM CONTA NO fACTOR pREçO
Em Moçambique, como em qualquer outro mercado, o custo das passagens aéreas é composto por diferentes elementos com um peso específico na estrutura de custos dos operadores. Saiba quais são e, especificamente, os que mais pesam no preço final dos bilhetes
combustível
O peso do JET A1 na estrutura de gastos operacionais directos varia entre os 29% e os 35% e Moçambique não é diferente do resto do mundo, situando-se nessa mesma margem.
Aluguer de aeronaves
Corresponde ao custo de utilização cujo valor poderá ser incorrido através de uma renda se existir leasing, ou por depreciação da aeronave quando esta tiver sido comprada e registada nos activos da companhia aérea.
Manutenção
Garante a fiabilidade e segurança da operação e permite efectuar as revisões intermédias do equipamento e substituição de peças.
Seguros
Obrigatórios para qualquer companhia certificada e credível, pois garante que estão segurados os tripulantes, o equipamento de voo (aeronave) e os passageiros.
taxas de aterragem
Sob gestão da ADM, Aeroportos de Moçambique, este valor é estabelecido e publicado para cobrança da utilização das pistas de aterragem, iluminação e ajuda na aterragem e na descolagem.
taxas de sobrevoo
O pagamento das ajudas de navegação aérea em território nacional ou estrangeiro sendo que o seu valor varia em função do seu posicionamento aéreo.
handling
Sob gestão da MAHS, a Mozambique Handling Services, o valor cobre o serviço de manuseamento de aeronaves e de outros equipamentos na placa.
Mão-de-obra
Directamente relacionada com a operação que inclui tripulações, tendo em conta que o custo por hora de voo é calculado observando os períodos de trabalho.
A falta de academias credenciadas para a formação de pilotos comerciais onera as operação das companhias aéreas com custos que os seus concorrentes internacionais não têm, como a contratação de pilotos estrangeiros qualificados ou a formação de pilotos em academias credenciadas e reconhecidas no mercado a ficar a expensas da companhia. Formação
outros serviços e custos
Os gastos com sistemas internacionais de reservas, sistemas de gestão de comunicação e relacionamento com os passageiros. E depois há os anúncios de reprogramação de horários e a acomodação de tripulação em escalas intermédias por limite de períodos de trabalho.
perceber que, em 2018, o sector da aviação contribuiu com 4 biliões de dólares para a economia mundial e vale 4% do PIB global, cerca de 300 vezes mais do que o que é gerado em toda a economia moçambicana num só ano.
... e PorQue São eleS cAroS eM MoçAMbiQue?
variáveis macroeconómicas
As variações cambiais, a inflação e as taxas de juro de mercado que, no caso moçambicano, são demasiado elevadas.
dimensão do mercado
Quanto maior o mercado, maior é a escala de utilizadores de serviço, o que naturalmente propicia um custo por passagem aérea mais baixo. Moçambique tem 2 milhões de passageiros enquanto a África do Sul está acima dos 18 milhões...
base operacional
Companhias aéreas cuja base operacional principal está sediada a uma distância curta em relação aos seus destinos beneficiam de custos operacionais mais baixos. Quanto menor for a distância média dos voos a ser operados por uma companhia, maior utilização das aeronaves será garantida o que resulta na redução dos custos fixos por assento.
tipo de operação e de serviço
Uma companhia que opera rotas longas com aeronaves de grande porte tem melhores condições de obter equilíbrios tarifários resultantes da partilha dos custos fixos.
horário dos voos (slots)
O horário mais conveniente para os passageiros permite taxas de ocupação mais elevadas, o que significa maior repartição do custo de operação por um maior número de passageiros.
tamanho e idade das aeronaves
As condições de desembaraço, manuseamento de aeronaves e atendimento de passageiros na escala de operações de voo irá determinar o tempo que a companhia leva a fazer a sua rotação, momentos que, a não serem eficientes, resultarão no atraso dos voos com todas as consequência que daí advêm. Período de rotação do voo
Número de operadores
Aeronaves de menor dimensão têm custos por assento mais elevados. Quanto maior e mais moderna for a aeronave, menores serão os custos associados e as condições para operar, porque serão repartidos por uma maior capacidade de lugares disponíveis para venda. É um dos pontos em que Moçambique mais peca devido às aeronaves envelhecidas com custos de manutenção, assistência técnica, peças e sobressalentes muito elevados.
O número de operadores a operar numa rota ditará o preço do serviço com base nas forças do mercado. Um maior número de operadores gera maior concorrência, e é um factor essencial à tendência generalizada de redução dos preços.
horários dos aeroportos
Em Moçambique os aeroportos operam em períodos bastante limitados e, em alguns deles, só é possível operar voos de manhã devido à falta de iluminação. Fora desses horários, eles são pagos.
Academias de formação de pilotos e outros quadros da aviação
A falta de uma academia de formação de quadros da aviação no mercado onde uma companhia aérea opera induz os operadores a incorrem em custos elevados de formação de quadros no exterior.
E quando já se fala do que aí vem na próxima década, com conceitos como a digitalização na aviação e do próprio turismo, tendo por base a redução da pegada ambiental, melhoria da segurança e o aperfeiçoamento da economia de custos e tempo, percebe-se que, em Moçambique, é preciso entrar em velocidade de cruzeiro. Para não se perder o comboio, ou o voo, no caso.
O mercado nacional
No país, o número de passageiros aéreos ressentiu-se da crise dos últimos anos. Como todos os outros sectores de actividade, aliás. E dos perto de 2 milhões (provenientes de voos domésticos, regionais e intercontinentais) que voaram em 2014 foi sempre a descer até aos 1,5 milhões registados no final de 2016. Só voltaria a aumentar consistentemente desde aí, recuperando até aos 1,9 milhões do ano passado, de acordo com dados do Governo. O tráfego doméstico, onde a LAM continua a predominar (companhia de bandeira transportou 524,9 mil passageiros no ano passado) teve uma quota de mais de 62% do total de passageiros transportados em todos os segmentos. Já os voos regionais, onde o predomínio vai para a South African Airways, são responsáveis por 30,5% de todo o mercado, tendo sido transportados 586 mil passageiros no ano passado. Por fim, os voos intercontinentais, com a TAP à cabeça, valem 6,4% do mercado da aviação civil, tendo movimentado 124,3 mil passageiros ao longo do ano.
No quadro geral, o tráfego de passageiros nos aeroportos de Moçambique aumentou significativamente na última década e meia, (829 mil em 2002), contribuindo hoje, de forma directa e indirecta, com 300 milhões de dólares (2,3%) para o PIB nacional. Mas, apesar do desenvolvimento dos dois últimos anos, o tráfego aéreo nacional tem crescido abaixo do PIB, algo que contrasta com o que acontece no Quénia (1,44% acima) ou na Tanzânia (mais 1,45%), países vizinhos que foram submetidos a uma substancial liberalização do mercado da aviação civil. “Fazemos muitas referências aos países vizinhos mas, a única dificuldade que temos, é não conseguirmos trazer para as nossas contas o que o turismo produz.
Nação
Em 1974 tínhamos 600 mil turistas. De lá para cá aumentámos para os 2,8 milhões de 2018 mas ainda queremos mais”, diz Silva Dunduro, o ministro da Cultura. No entanto, há previsões optimistas no horizonte, estimando-se que o número de passageiros em Moçambique aumente para aproximadamente 10 milhões até 2027, catapultando para o triplo a contribuição do sector do turismo no PIB.
A previsão surge plasmada na visão estratégica do Governo para a aviação civil, em que se reconhece o papel dos transportes como “catalisadores do desenvolvimento económico” e se identifica claramente como a aviação civil deve suportar o crescimento económico sustentável através da melhoria do seu alinhamento com as estratégias do turismo, agricultura, mineração, indústria e mega-projectos, através de mais e melhores mecanismos regulamentares, facilitando a negociação de acordos dentro da SADC e a nível internacional. Com esta base, a estratégia enuncia a criação de cinco geografias principais servidas por três aeroportos internacionais: Maputo para eventos e negócios, Gorongosa para o turismo cinegético (caça) e científico servida pelo aeroporto da Beira. Já a Ilha de Moçambique (turismo histórico-cultural), Niassa e Norte como zonas de aventura e o vector do desenvolvimento associado aos mega-projectos do gás natural serão abrangidos pelo eixo Nacala-Pemba, tendo por base o novo e moderno aeroporto de Nacala que será o grande hub logístico do Norte. Será ali onde se congregam, as infra-estruturas aeroportuárias, os caminhos-de-ferro e o Porto de Nacala que alimentarão assim toda a zona Norte, até à cidade do gás de Afungi.
reposicionamento em curso
Este é, até aos dias de hoje, o maior desafio que a aviação civil moçambicana enfrenta: atender à crescente demanda de transporte de equipamentos e de quadros empregues na construção das plataformas para a exploração do gás da Bacia do Rovuma. Por isso mesmo, “o problema da aviação civil no país deve ser partilhado pelo sector público e privado”, diz o vice-presidente da CTA, Castigo Nhamane. “É imperioso que continuem as reformas legislativas do sector, em particular, o pacote fiscal. Há uma necessidade de se aplicarem isenções de direitos aduaneiros na importação de aeronaves e outros equipamentos, pois só desta forma estaremos à altura de res-
Foram criadas cinco geografias principais servidas por três aeroportos internacionais: Maputo, beira e Nacala, onde será criado o grande hub logístico que vai alimentar cabo delgado
ponder à demanda dos mega-projectos.”
João Carlos Pó Jorge, director geral da LAM, coloca a tónica na liberalização como “oportunidade, mas também um grande desafio.” E explica: “Precisamos de maior formação e de uma correcta percepção do destino e dos níveis de qualidade do que Moçambique tem para oferecer. Temos aeronaves suficientes para o que aí vem? Se não, há que colocar os planos em marcha, e já o estamos a fazer através de parcerias”, enuncia. Caso da que já existe com a TAAG (para Angola e São Paulo, em Setembro do ano que vem) falando-se agora de uma outra com a TAP, para retomar os voos para a Europa já nos primeiros meses de 2020.
Os mega-projectos vão requerer mão-de-obra deslocalizada, matérias-primas, perecíveis, e fluidez de movimentação. Prevê-se que, no pico da obra da base logística para a exploração de gás, em Cabo Delgado, haverá 20 mil pessoas de vários pontos do mundo, em simultâneo. “Há um ano estivemos a reflectir sobre os desafios do transporte aéreo e concluímos que não estávamos preparados. Agora estamos. Quando digo nós, não sou só eu, ou a LAM, mas um conjunto de
instituições. A indústria do petróleo vem, e de repente, impõe uma explosão em tudo. O volume é enorme e o nível de exigência também, especialmente para a nossa indústria. Teremos de nos associar com parceiros aos quais não conseguimos chegar sozinhos. As certificações nacionais e internacionais são fundamentais, como as auditorias internas de processo sem as quais não seremos capazes de responder e servir os mega-projectos”, diz o director-geral da LAM. E prossegue: “Actualmente servimos todo o país, estamos a olhar para Harare e Cape Town, por causa também do petróleo. Temos pedidos de empresas, para criar charters entre Joanesburgo e o Norte. Com isto, estamos a dinamizar também o turismo. Assinámos com a GSA, que já nos trouxe a Thompsons e outros operadores turísticos para verem a oferta, em termos de natureza. Mas precisamos de melhorar as infra-estruturas”, diz. E até dá um exemplo da dimensão dos desafios que aí vêm: “ Fomos contactados por uma das empresas dos mega-projectos que vai precisar de transportar 5 mil ovos e galinhas por dia. Será uma empresa do extremo Oriente. Como fazê-lo com qualidade? Os desafios
de passageiros e carga serão enormes. Em Afungi estarão milhares de pessoas da Indonésia, Filipinas ou Malásia. A pontualidade é essencial e foi essa melhoria que permitiu com que até estejamos acima da média no cumprimento de horários (85%, enquanto que os outros operadores estão nos 80%)”, refere.
Apesar de tudo, e voltando ao ponto de partida, o crescimento que se espera para o mercado será impulsionado pelos mega-projectos mas será o turismo a colher os frutos desse grande impulso, dando-lhe um cunho de sustentabilidade a médio e longo prazo. “Iremos crescer economicamente como país, a criar serviços para estas grandes obras, gerando turismo interno em quantidade e qualidade. Está a fazer-se um esforço ao nível das infra-estruturas, como em Nacala, o melhor aeroporto da região em termos técnicos, mas é preciso mais hospitais, estradas e hotéis para que o turismo possa ser de facto a chave do desenvolvimento”, diz João Carlos Pó Jorge. Para já, o previsível crescimento da procura parece aguçar a vontade de gigantes internacionais começarem a incluir Maputo nos seus destinos.
Ainda recentemente, a Aeroportos de Moçambique (AdM) anunciou a vontade de atrair a Emirates para iniciar os voos para o país, à luz de um entendimento com a DNATA, empresa que presta serviços de check in e manuseamento de cargas (handling) no aeroporto do Dubai. Nesse sentido, o Governo, anunciou a assinatura de um contrato de cedência das suas acções à DNATA, que vai ser o player responsável por “atrair novas companhias internacionais” para o espaço aéreo nacional. A informação foi avançada pelo PCA da AdM, Emanuel Chaves. “Decidimos que devemos atrair um parceiro estratégico para ser um elemento de atracção de companhias aéreas para o país. Estamos, neste momento, a negociar com a DNATA para fecharmos o contrato de cedência das nossas acções no MAHS para que possam participar da estratégia de desenvolver novas rotas. A Emirates pode colocar o país na rota internacional.” Assim, propulsionado por um crescimento económico alavancado na exploração de gás natural, a aviação civil de Moçambique parece querer deixar para trás muitas décadas de letargia, e estar finalmente pronta para se fazer à pista e descolar. Até porque o futuro está no ar.
TEXTo Pedro Cativelos
FoToGRAFiA Jay Garrido & d.r.
Na voz de...
“Privatização da LaM deve ser avaLiada coM rigor”
com apenas um ano de “cockpit”, comandando as Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), a nova administração tem um ambicioso plano de reformas que deve começar a dar resultados visíveis a partir do próximo ano, quando tiver em operação cerca de dez aviões e com a operacionalização de novas rotas domésticas, regionais e até intercontinentais. Os progressos, entretanto, não significam que estejam ultrapassadas as (já com “barbas brancas”) dificuldades financeiras, mas resultam de uma estratégia assente no redimensionamento gradual das necessidades e da alocação dos recursos que a companhia tem, em função das necessidades e das oportunidades que começam a surgir no horizonte, sendo já uma certeza a necessidade de atacar a dinâmica indústria do oil & gas. E porque os problemas estão todos em torno das finanças, a capitalização da companhia é um imperativo para o sucesso da LAM, que está, inclusive, avançada na busca de parceiros nacionais e multilaterais. Privatização? Não está descartada. João Carlos Pó Jorge, director-geral da companhia, reconhece as suas vantagens, mas mostra-se céptico quanto à sua eficácia.
Uma das grandes dificuldades que se arrasta há vários anos na LAM é a insuficiência da frota. Quais são os planos desenhados para ultrapassar esta questão e em que estágio está hoje a LAM? Temos de identificar primeiro os desafios que temos pela frente. Como foi dito na Conferência Internacional sobre Transporte, Turismo e Carga Aérea, nós temos dois componentes – o de carga e o de passageiros. Dentro desta, temos movi-
João carLos Pó Jorge Director-geral da LAM
A
CoMPoNENTE DE sErvIços, DA ACEITAção Ao CLIENTE
E DA PoNTuALIDADE rECuPErou bAsTANTE A IMAgEM DA EMPrEsA, DE TAL MANEIrA quE foMos busCAr EM MArço uM boEINg 737–700 ADICIoNAL EM LEAsINg quE Nos foI CoNCEDIDo NEssA bAsE, Por sE ACrEDITAr NA CAPACIDADE DA EMPrEsA E No MErCADo A quE vAI TEr ACEsso Por CAusA DEssA NovA CAPACIDADE
mento intenso de pessoas para as plataformas e para as fábricas de transformação de petróleo e gás e depois temos o componente do turismo e família. Assim, o ideal é termos voos combinados para transportar estas diferentes demografias do mercado. Paralelamente, há dois aspectos na questão da frota: aumentar a capacidade e a flexibilidade, o que implica ter aviões maiores e outros não tão grandes, mas que possam fazer voos entre os diferentes destinos nas áreas de exploração mineral, de turismo e pontos familiares. Também é necessária a modernização da frota porque estes são mercados exigentes e a nossa intenção é oferecer produto moderno com facilidade na conectividade e informação videográfica dentro do avião. Mas como iremos buscar tudo isto? obviamente que precisamos de financiamento e a LAM não tem capacidade de se financiar internamente, ao passo que externamente a capacidade de obtenção é neste momento dificultada pelo facto de a empresa ter uma fraca folha de balancete e pelos juros na banca continuarem elevados. Ainda assim, a componente de serviços, da aceitação ao cliente e da pontualidade recuperou bastante a imagem da empresa, de tal maneira que fomos buscar em Março um boeing 737–700 adicional em leasing que nos foi concedido nessa base, por se acreditar na capacidade da empresa e no mercado a que vai ter acesso por causa dessa nova capacidade.
Ao nível do financiamento, quais são os parceiros identificados?
Estamos a falar com a banca local e com instituições externas, como o banco Africano de Desenvolvimento (bAD) para
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saber se, na perspectiva de desenvolvimento, teremos acesso a linhas de financiamento que não nos sejam tão onerosas na reconstrução da frota. A esse respeito, aproveito para dizer que temos alguns aviões já encomendados à boeing e com uma parte dos depósitos pagos que provavelmente virão até 2022 ou 2023.
Face ao que hoje o mercado oferece e olhando aos desafios que se avizinham no transporte de passageiros e carga, qual seria o número ideal de aeronaves?
Ao nível das aeronaves de passageiros (que também levam carga no porão) teremos quatro aviões boeing 737 até ao próximo ano e dois ou três aviões bombardier q-400. A nível de cargueiros, para o mercado doméstico e regional, estamos a procurar aviões alugados com tripulação na África do sul, estando estes na fase final de negociação. Depois queremos garantir o contrato que nos permite trazer um boeing 737 com porta de carga, podendo contar com dois destes aviões até ao próximo ano, número que pode aumentar caso a demanda o justifique.
Já admitiu que a realização destes objectivos encontra sempre a barreira da dificuldade financeira. Quanto dinheiro a LAM prevê investir no reforço da frota, nesta primeira fase? quando falamos em adquirir um avião novo, o financiamento ronda os 50, 60 milhões de dólares. Mas um avião usado, operado em leasing, vem com custos na ordem de 200 a 250 mil dólares por mês, incluindo a manutenção. Portanto, a operação mensal dos leasings normalmente é paga pela renda de bilhetes, embora também haja casos em que é necessário capital para financiar o depósito inicial de cerca de meio milhão de dólares. Em princípio, iremos combinar as duas modalidades e estão ainda a ser estudados os detalhes que serão determinados pelas oportunidades de aquisição que nos sejam viáveis.
Há já algum tempo que se fala na necessidade de uniformizar a frota em termos de modelos para facilitar a gestão, poupar nos custos, melhorar a definição dos fornecedores. Essa perpectiva foi prioritária?
Já estamos a uniformizar a frota, uma vez que estamos a reformar os aviões Embraer 190 e a basear a nossa frota nos q-400 e nos boeing 737. Neste momento temos os Embraer 145 operados pela
“NuMA PrIMEIrA fAsE vAMos fAzEr LIgAçõEs
PArA
HArArE (zIMbAbué), vITorIA fALLs E LusAkA (zâMbIA), CAPE TowN (ÁfrICA Do suL) E LuANDA (ANgoLA) EM CooPErAção CoM A TAAg”
MEX, mas provavelmente vão ficar mais posicionados no Norte, essencialmente para o segmento de charter. A intenção é, gradualmente, uniformizar com os modelos bombardier q-400 e boeing 737-700.
A abertura de capital, até como solução para a entrada de financiamento, estará a ser equacionada? obviamente que a abertura de capital terá de ser feita com base numa reflexão que o Estado vai ter de fazer. saiu agora o decreto sobre o sector empresarial do Estado e nós estamos sob a alçada do Instituto de gestão das Participações do Estado (IgEPE) com uma série de outras estatais. Terá de ser uma decisão que deve ser tomada olhando para cada indústria para saber onde se deve abrir o capital. fazê-lo tem o grande atractivo de trazer uma nova gestão e capital vivo que pode fazer mover a empresa a uma velocidade maior. Mas também tem ou-
tra parte que é o facto de a empresa ter efectivamente um interesse estratégico muito grande e, por via disso, poder trazer benefícios sociais pelo facto de ser total ou maioritariamente do Estado, daí que seja preciso avaliar o peso desses benefícios. Por exemplo, aquando dos ciclones, nós servimos as necessidades do país porque somos uma companhia de bandeira. uma empresa puramente privada poderia não ter condições para o fazer. ou seja, ao abrir o capital a empresa terá de funcionar como puramente privada. É uma reflexão que tem de ser feita pesando os prós e contras, para depois tomar a decisão.
A LAM prevê também abrir novos destinos olhando para a dinâmica da economia e à medida que se for robustecendo através de novos investimentos na frota e formação de capital humano. Que mudanças irão ter lugar a este respeito, a partir de quando, e
que novos pontos poderão ser ligados a nível doméstico e internacional?
A LAM tem direito de tráfego aéreo para vários países, o governo está a assinar acordos com o maior número possível deles. Numa primeira fase, vamos fazer ligações para Harare (zimbabué), vitoria falls e Lusaka (zâmbia), Cape Town (África do sul) e Luanda (Angola) em cooperação com a TAAg. Mas depois, estamos a pensar, provavelmente a partir do princípio do próximo ano, retomar a rota de Lisboa (fala-se de uma parceria com um operadorr europeu, a este respeito), que é bastante rentável dado o elevado número de passageiros, além de que há uma diáspora muito grande que é preciso servir, o que é para nós um grande privilégio. Paralelamente há tráfego no sentido contrário, de portugueses para Moçambique, e que podemos também servir. Também estamos a equacionar ligar são Paulo através de voos operados em parceria com a TAAg a partir de Luanda, o que está previsto que se inicie em setembro de 2020.
Que transformações os mega-projectos vão trazer ao sector de aviação em Moçambique, de um modo geral?
o petróleo e o gás terão uma demanda que vai crescer exponencialmente a partir do próximo ano com a fábrica de processamento que está a ser iniciada em Afungi (Cabo Delgado), podendo atingir cerca de 17 mil estrangeiros e 6 ou 7 mil moçambicanos na fase de pico. A LAM será, naturalmente, o principal candidato a começar a transportar tanto moçambicanos como pessoas para e da região. é uma grande oportunidade para nós. obviamente, queremos levar os estrangeiros para destinos turísticos do país e os moçambicanos que lá trabalharem das zonas de origem até ao seu posto trabalho. Isso vai ajudar-nos a acelerar a capacidade de resposta às necessidades do mercado.
Logisticamente, como irá funcionar? Nesta primeira fase, estamos já a projectar a colocação permanente de aviões nas bases onde estão os operadores petrolíferos, o que explica o tal investimento no aumento da frota em pelo menos dois aviões (um boeing 737 e um bombardier q-400).
Um dos desafios da LAM é a formação de técnicos, incluindo pilotos. O que é que se está a fazer neste domínio e qual é o peso desta componente nas contas? o Ministério dos Transportes e Comunicações tem grande preocupação com esta questão e mandatou um grupo de especialistas para repensar a formação de pilotos moçambicanos e outros técnicos da aviação. Temos, noutra área, o caso da Escola Náutica que já está a formar com bastante sucesso e queremos fazer o mesmo com a Escola Aeronáutica, que já foi uma das referências da região, tendo formado profissionais de quase todos os países da sADC. Isso é essencial porque como moçambicanos vamos poder crescer. Mas, para participar neste crescimento, a formação é essencial. só que isso é caro e requer tempo e um piloto ou um mecânico levam cerca de dois anos a serem formados.
Como avalia o estágio das competências técnicas do capital humano que a LAM tem hoje?
Temos uma grande falta de pilotos, de mecânicos, de alguns técnicos de outras especialidades como, por exemplo, nas áreas de marketing e comerciais, mas asseguro que temos a vantagem de uma equipa jovem e muito motivada, com alguma formação básica, e que facilmente poderemos formar para os desafios.
A questão dos quadros externos é um problema?
Neste momento temos quatro estrangeiros e o plano é que saiam num intervalo de até um ano e meio. Temos, por exemplo, um piloto estrangeiro que deve entrar para a reforma e que nos tem dado bastante apoio trazendo a experiência de que precisamos. Estamos a introduzir pessoas que estão a iniciar a carreira e algumas que estão a ser convertidas para comandantes. Acabámos de converter agora a primeira comandante do boeing 737 e interessa-nos ter pessoas com muita experiência. Nas outras áreas tivemos estrangeiros que saíram porque já tinham formado moçambicanos capazes e temos um plano de formação de quadros para substituir os estrangeiros que cá estão. De um total de 850 trabalhadores, só quatro são estrangeiros, pelo que não se trata de problema de proporção, mas de melhorar o nível de competências para responder aos níveis de exigência de uma competitividade maior, num mercado cada vez mais exigente e dinâmico.
Que balanço faz da evolução do desempenho da LAM na era da sua administração e que perspectivas tem para o crescimento da empresa?
A primeira fase da nossa actuação foi virada para dentro, num processo de reestruturação em que todas as transformações realizadas foram feitas com base na estrutura de pessoas e de recursos já existente. Pela confiança depositada pelo governo, as pessoas sentiram-se capazes de demonstrar o que valiam e sabiam fazer e isso teve resultados na pontualidade e qualidade do serviço. Portanto, começaram a ter sucesso a partir da sua própria capacidade e foi necessário começar a contar essas histórias. A partir daí, abrimo-nos bastante à imprensa, abraçando-a como parceira e não como nossa controladora, porque faz chegar ao público histórias interessantes desde que nós as contemos. queremos ter uma comunicação sistemática e repetitiva para participar em conferências de meios de comunicação que nos ajudem a divulgar o que somos. Isto para além de continuar a comunicar pelos nossos meios próprios, que são as redes sociais e a nossa revista de bordo (a Índico).
texto Celso Chambisso fotogrAfiA Jay Garrido
Uma receita de sUcesso qUe passoU a crise e agora bUsca a revitalização
A Matola ficou, ao longo dos anos, conhecida como a casa das máquinas e o dormitório do país, algo que nem sempre gerou uma convivência pacífica. Agora, depois de anos de abrandamento económico, há sinais de retoma
Quando se fala de indústria no país, nenhuma cidade moçambicana é símbolo maior dessa realidade do que a Matola. Algo que se afere até pelo facto de a maior parte das suas receitas fiscais terem proveniência precisamente aí, no sector industrial.
É aqui mesmo, nos arredores de Maputo, que, as diversas (e grandes) indústrias instaladas respondem por praticamente 80% das receitas da cidade e de toda a província de Maputo.
E se a capital financeira e administrativa de Moçambique fica alguns quilómetros
ProvínCia Maputo
Cidade Matola área 333 kM² PoPulação 1,6 Milhões região sul
a caminho do Índico, a capital industrial do país é, efectivamente, a cidade da Matola. Até por ser ali que foi instalado o parque de Beluluane, o maior pólo industrial do país (e onde se encontra a fábrica de alumínio da Mozal). Mas é também naquele distrito que encontramos outras grandes indústrias de referência, como a Companhia Industrial da Matola, uma das maiores da área alimentar no país, a par da concorrente Merec, a poucos quilómetros, na Avenida das Indústrias, na Machava. Há também a Cimentos de Moçambique
e o terminal de combustíveis, que alimenta todo o mercado nacional. Claro que, sendo uma região eminentemente residencial (mais de milhão e meio de pessoas), há problemas relacionados com a poluição de muitas destas grandes empresas que se colocam no dia-a-dia de muitos moçambicanos e que, mais cedo ou mais tarde, terão de ser resolvidos, a bem das populações e de um crescimento económico sustentável.
o sol volta a brilhar
Olhando meramente ao contexto económico, os últimos anos foram complicados na região, fruto do abrandamento económico súbito que se abateu sobre o país na segunda metade da década, e que levou algumas indústrias à falência (pequenas e médias empresas de construção e comércio local, essencialmente) enquanto outras sobreviviam num aperto partilhado pelos moçambicanos.
Mas desde o ano passado que o pior parece ter ficado para trás, e notam-se pequenos sinais de que a economia local está a a ganhar alento. À E&M, o director provincial da Indústria e Comércio de Maputo, Ernesto Mafumo, confirma esta tendência e revela que nos últimos dois anos o volume global de investimentos cresceu para 2,2 mil milhões de dólares o que conferiu à província o segundo lugar em termos de investimentos a nível nacional, logo a seguir à cidade de Maputo, que registou 2,9 mil milhões de dólares, e antecedendo a província de Cabo Delgado.
No entanto, embora a Matola volte a dar sinais, ténues é certo, de recuperação, nota-se que ainda não conseguiu atingir os níveis da retoma a que se assistiam antes da crise, quando o crescimento económico anual rondava os 5%. O director da Indústria e Comércio lembra “a quebra de 2016 e 2017”, quando o crescimento se quedou apenas nos 2%, mas confirma que “o sector industrial registou uma ligeira recuperação para um crescimento de 3,5%. Esperamos para este ano uma continuação dessa recuperação, já que não se espera a queda do preço do alumínio”, fenómeno que em 2017 prejudicou o mercado, com reflexos claros na redução da produção global da província. “A Mozal sempre foi determinante para as receitas do sector industrial da província”, recorda Mafumo. Mas onde se nota a recuperação não é apenas nos grandes projectos, havendo novos e diversificados investimentos de pequena e média dimensão que estão a 2,2
mil milhões de dólares
É o volume global de investimentos registado nos últimos dois anos. dessa fatia a indústria transformadora foi responsável por 550 milhões de dólares
gerar emprego e, sobretudo, novas e importantes fontes de colecta de receitas fiscais para o Estado.
Com isso o Governo distrital já esfrega as mãos de contente, visto que só a indústria transformadora que por ali se estabeleceu nos últimos anos trouxe um investimento global de 550 milhões de dólares.
maior procura por espaços
Anualmente, a Matola tem vindo a registar uma crescente pressão de empresários nacionais e estrangeiros que procuram por espaço para instalar as suas indústrias e empresas. Com efeito no preço por metro quadrado. A aposta dos investidores deve-se ao facto de estar nas imediações das Estradas Nacionais número 4 e 1 (EN4 e EN1), consideradas como principais corredores para a entrada de matéria-prima e para o escoamento de mercadorias para o resto do país e toda a região da África Austral, via África do Sul.
É por isso que, apesar de nos últimos anos estarem a surgir novos focos industriais, sobretudo no Centro e Norte do país, em resultado dos mega-projectos, o director provincial da Indústria e Comércio, em Maputo, não tem dúvidas de que Matola “vai continuar a ser o maior parque industrial do país.” Aliás, Mafumo revela à E&M que Matola quer “posicionar-se cada vez mais como um player na prestação de serviços para os mega-projectos”. Segundo o Governo local, existe um programa que surge de uma iniciativa da Anadarko para o desenvolvimento de fornecedores, que preconiza a criação de uma unidade de desenvolvimento empresarial na qual a Matola se vai encaixar como pólo principal de prestador de serviços. “É um programa que não nos permite ficar de fora e apenas a depender de circunstâncias, pois tem uma acção direccionada para reforçar estas ligações da nossa indústria às oportunidades que vão nascer nos próximos anos”, considera.
parque industrial de beluluane ganha uma nova vida
Considerado o maior do país e dotado de capacidade para acomodar mais de 500 empresas, o Parque Industrial de Beluluane andou durante anos desprovido de investimentos. O baixo nível de exploração da capacidade instalada no parque, que até ao ano passado tinha apenas 38 empresas em funcionamento (7,6% da sua capacidade), denunciava problemas
província
conjunturais e estruturais, como a fraca disponibilidade de energia e água para o seu normal funcionamento. No entanto, existem várias mudanças em curso. De acordo com a administradora do distrito da Matola, Anastácia Quitane, “há novos ramos de actividade que vêm permitindo a diversificação das indústrias” e que, com isso, levaram mais investimento para dentro do parque. E dá exemplos: “Assistimos à expansão da indústria química de produção de materiais de construção, de tubagem, reservatórios e outros utensílios”, exemplifica. Ernesto Mafumo concorda, e explica esse movimento recorrendo ao exemplo da recém-criada “infra-estrutura que permitiu a disponibilidade de mais energia no parque e o que de bom isso trouxe.” Já para o gestor de desenvolvimento de infra-estruturas no Parque Industrial de Beluluane, Onório Manuel, “o futuro só pode ser de sucesso” porque, prossegue, “os constrangimentos enfrentados a nível de fornecimento de energia e de água já estão a ser acautelados. Caminhamos para termos um nível de
Se a Matola já viu chegar e partir empresas históricas como a Vidreira de Moçambique, a Texlom, a Zuid, a Metal Box, a Ceres, a Fábrica de Cápsulas, a Lusalite ou a Tudor, hoje há novos e diversificados investimentos de pequena, média e grande dimensão que estão a gerar emprego e, sobretudo, receitas para o Estado. E até se assiste ao regresso de algumas das antigas fábricas que faliram há várias décadas
infra-estruturas estáveis, situação que, conjuntamente com a janela de oportunidades que representa para as empresas estarem ali, nos deixa esperançados de que poderemos, de facto, fazer aumentar o número de empresas das actuais cerca de 50 para mais perto das 500, de acordo com o nosso plano estratégico”, garante. Se a Matola já viu chegar e partir empresas históricas como a Vidreira de Moçambique, a Texlom, a Zuid, a Metal Box, a Ceres, a Fábrica de Cápsulas, a Lusalite ou a Tudor, hoje há novos e diversificados investimentos de pequena, média e grande dimensão que estão a gerar emprego e, sobretudo, receitas para o Estado. E até se assiste ao regresso de algumas das antigas fábricas que faliram há várias décadas. Como a antiga Texlom agora convertida em Moztex, unidade fabril detida pela Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN). Será assim que se tecem os novos tempos da Matola.
texto Hermenegildo langa fotografia d.r.
Para Ernesto Mafumo, director provincial da Indústria e Comércio de Maputo, a “Matola quer posicionar-se na prestação de serviços para os mega-projectos”
Três
mitos sobre o
emprego
jovem em África e as estratégias para a mudança
Louise Fox • Chief Economist da USAID
mito um: a África Subsaariana enfrenta um desafio demográfico único. África enfrenta um desafio sem precedentes em relação ao emprego para jovens. Os factos para sustentar apontam para a causa demográfica, e por ser o continente mais jovem do mundo, dizendo-se muitas vezes que, até 2050, o número estimado de jovens a entrar no mercado de trabalho será superior ao do resto do mundo combinado. Mas os dados contam uma história diferente. É verdade que as transformações demográficas e económicas em África estão bem atrás do resto do mundo - em parte porque a maioria dos países africanos iniciou esses processos mais tarde, com instituições económicas, sociais e políticas menos desenvolvidas.
Mas a juventude dos africanos, ou a parcela de sua população em idade activa no seu nível máximo, chegou a cerca de metade do pico das populações jovens do Leste Asiático, sendo mesmo 20% menor do que o pico registado no sul da Ásia. Na verdade, a força dos jovens africanos na força de trabalho atingiu o pico neste século, com 38% (apenas 4% acima dos picos asiáticos), e agora até está em declínio. E todas as outras regiões passaram por este período de pico de participação, sem enfrentar uma crise.
Mito dois: o dividendo demográfico. O que é único em África é a lentidão com que a participação dos jovens na população em idade activa deverá diminuir. Enquanto se pensa que a elevada participação de jovens na força de trabalho gerará um dividendo demográfico que ajudará a impulsionar o crescimento económico, os dados históricos voltam a contar uma história bem diferente dessa. Sendo que os dez países com maior fertilidade estão, de facto, em África. No Quénia ou no Gana, por exemplo, essa taxa tem diminuído constantemente na exacta medida em que aumenta a expectativa de vida, que é a essência da transição demográfica. No entanto, mesmo nesses países, a transição não fará o rápido progresso que pudemos observar noutras regiões, em parte devido à teimosa parcela de jovens mulheres com filhos, abaixo dos 18 anos (8% no Quénia e 7% no Gana, comparados com apenas 4% no sul da Ásia).
Mito três: formação é a solução para a situação de desemprego da juventude. A melhoria dos sistemas educacionais poderia ser decisiva para a construção das capacidades fundamentais da futura força de trabalho no continente. No entanto, instituições educacionais não criam empregos. Empresas e pessoas é que o fazem. O emprego assalariado surge com novas empresas, ou quando as existentes expandem a produção, encontrando novos mercados. Isso leva tempo, provavelmente décadas. Na verdade, pode argumentar-se que, devido à melhor política educacional do que económica, os jovens africanos são excessivamente qualificados para as suas economias, o que é uma das razões pelas quais o desemprego é, estatisticamente, mais elevado entre os jovens mais instruídos. Na falta de oportunidades de usar as suas capacidades, a maioria dos jovens africanos, de todos os níveis de competências, terá de aproveitar para criar a sua própria vida através do trabalho por conta própria, muitas vezes com membros da família, em explorações agrícolas ou em sectores não agrícolas. Algumas pessoas, tipicamente 2% a 5% da força de trabalho, serão capazes de criar um negócio orientado para o crescimento e empregar cinco ou mais pessoas. Issodesafiaoimpulsomaciçoemdirecçãoaoempreendedorismo juvenil como a solução para o desafio do desemprego na região. Infelizmente, as empresas jovens - operando em ambientes económicos hostis, com capital, redes e know-how limitadostendem a permanecer pequenas e sustentáveis, servindo os mercados locais.
A educação é necessária para, mais do que ganhar dinheiro, possibilitar todos os aspectos da transição da juventude da dependência para a independência.
Perguntemos se todo o dinheiro gasto em pequenos projectos de jovens com resultados minúsculos fosse investido em infra-estruturas, conectividade, facilitação do comércio e melhor gestão nos sectores público e privado para facilitar a criação de empregos no sector formal? Difícil de fazer, mas é o que os jovens realmente precisam.
Opinião publicada no Capítulo 3 do relatório Foresight Africa 2019 da Brookings Institution
A educação é necessária para, mais do que ganhar dinheiro, possibilitar todos os aspectos da transição da juventude da dependência para a independência
mercado e finanças
Os velhOs prOblemas e Os nOvOs desafiOs
dO dOing
business
Os obstáculos ao bom ambiente de negócios são, afinal, bem mais profundos e começam a nível local. A realidade é desvendada no mais recente estudo do Banco Mundial que não deixa de acrescentar (boas) recomendações
É uma verdade de que já suspeitávamos: Em Moçambique, “a regulamentação de negócios varia com a localização geográfica e os empresários enfrentam diferentes tipos de constrangimentos regulatórios dependendo de onde estabelecem os seus negócios”.
Mais grave ainda: “Nenhuma província domina a classificação dos indicadores (que avaliam o ambiente de negócios)”, o que acaba por não permitir que “todas as localidades aprendam umas com as outras em termos de boas práticas”. Estas são conclusões marcantes de uma avaliação ao ambiente de negócios, publicada pelo Banco Mundial em Junho passado, no primeiro relatório de avaliação sub-nacional do Doing Business, em Moçambique.
Posição que MoçaMbique Poderia ocuPar no doing business se rePlicasse todos os bons exeMPlos de cada Província na cidade de MaPuto. actualMente está na 135ª Posição eM 190 Países avaliados
A pesquisa, que compara os processos regulatórios em dez províncias do país (considerando Cidade e Província de Ma113ª
Dos dez indicadores tradicionalmente avaliados, a pesquisa sub-nacional baseou-se em apenas quatro que se consideram determinantes e mais susceptíveis de variar em função do espaço geográfico, nomeadamente a ‘abertura de empresas’, ‘registo de propriedades’ e ‘execução de contratos’. O quarto indicador mede as ‘transacções do comércio internacional’ através dos três principais portos marítimos – Beira, Maputo e Nacala – e uma travessia de fronteira terrestre de Ressano Garcia. génese das incoerências
puto como uma só), revela que a maioria dos regulamentos e leis para abrir uma empresa e executar contratos se aplicam a nível nacional, mas são administrados a nível provincial.
Em ‘registo de propriedades’, por exemplo, as autoridades provinciais e as autárquicas aplicam leis nacionais. Tanto a Autoridade Tributária como as Conservatórias do Registo Predial são regidas a nível nacional e operam a nível provincial, enquanto as repartições de finanças autárquicas e departamentos de planeamento urbano autárquicos funcionam a nível da cidade. Desta forma, mesmo em áreas regidas por regulamentos nacionais, medidas tomadas localmente por um tribunal ou operador portuário, por exemplo, podem incidir negativamente sobre o grau de complexidade e eficiência do processo regulamentar. É a partir destas constatações que nasce a primeira sugestão de descentralização. É que “o processo de descentralização em curso em Moçambique tem atribuído, progressivamente, mais poderes às províncias e autarquias, o que desloca o centro de atenção da agenda de reforma para a melhoria da prestação de serviços a nível local”, revela o Banco Mundial.
se assim não for… Vejamos exemplos práticos destas assimetrias detectadas pelo Banco Mundial: É mais fácil abrir uma empresa na Cidade de Maputo, onde um empresário consegue registá-la e publicar os estatutos da sociedade no Boletim da República no mesmo local - a Conservatória do Registo de Entidades Legais (CREL). E é por isso que o processo de abertura de uma empresa pode ser até três semanas mais célere na Cidade de Maputo (onde demora, em média, apenas 17 dias) do que nas outras nove províncias do país, em que a média é de 35,2 dias para o mesmo processo. Mas também em Maputo cidade se regista um menor número de procedimentos (dez, comparados com 10,9 da média nacional) para a abertura de negócios.
Outro exemplo é o da Zambézia, a província que apresenta o melhor desempenho no registo de propriedades, devido a um processo de aprovação de transferência simplificado a nível autárquico, digitalização avançada dos planos cadastrais e implementação de um sistema de informação geográfica. O tempo de registo de propriedade pode ir até aos 39 dias, substancialmente
MudAnçAs estruturAis
Das sugestões e recomendações do Banco Mundial para mudar o actual quadro do ambiente de negócios resulta a noção de um longo caminho a trilhar, com a necessidade de reordenar e harmonizar processos a nível nacional. Para cada província, e em relação a cada um dos três indicadores avaliados (lembrando que o quarto está ligado ao comércio externo), o Banco Mundial apresenta uma extensa lista de recomendações específicas, mas de um modo geral, as sugestões estão distribuídas da seguinte forma:
Abertura de empresas
Melhorar a implementação da Certidão da Mera Comunicação Prévia no Balcão de Atendimento Único (BAÚ); simplificar as tabelas de emolumentos actuais para a incorporação de empresas e torná-las disponíveis publicamente na Conservatória de Registo de Entidades Legais e online; melhorar a coordenação entre as partes interessadas e reforçar o fluxo de trabalho administrativo no BAÚ.
registo de propriedade
Reforçar a transparência no sistema de gestão fundiária urbana; agilizar o processo de pagamento do imposto de transferência; melhorar a coordenação entre as entidades relevantes estabelecendo sistemas de comunicação entre conservatórias do registo predial e autarquias; e aumentar a informatização dos planos cadastrais e dos títulos de propriedade.
execução de contratos
Publicar leis e julgamentos; melhorar a formação dos juízes e do pessoal de apoio judiciário; aumentar a responsabilização dos juízes, através da realização de inspecções judiciais periódicas e de estatísticas de desempenho; utilizar o mapeamento de processos para identificar constrangimentos no sistema judiciário.
menos do que os 47 da média nacional. E ali são necessários apenas sete procedimentos (face aos 7,4 da média nacional), a um custo que representa 5,2% do valor da propriedade (a média nacional é de 5,7%).
Já a resolução de um litígio comercial é mais facilitada em Manica, graças a processos judiciais relativamente rápidos e aos baixos honorários cobrados pelos advogados. Em Manica, a execução de contratos leva 380 dias contra uma média de 612,5 do país.
Pelo lado positivo, um dado a ressalvar, transposto no facto de praticamente todas as províncias, com excepção de Sofala e Tete, se posicionarem nos três primeiros lugares em pelo menos um indicador dos quatro medidos.
Já em relação ao comércio internacional, medido de uma outra forma face aos outros três por não ter abrangência nacional, a travessia de fronteira de Ressano Garcia supera o desempenho dos três portos marítimos medidos. Ressano Garcia regista tempos mais curtos e custos mais baixos relativos aos serviços de processamento de carga em terminais e menos requisitos documentais. O seu bom desempenho é também resultado da implementação gradual do projecto de Fronteira de Paragem Única, conforme o acordo de 2007 entre Moçambique e a África do Sul para melhorar os processos de desembaraço aduaneiro para carga comercial na fronteira e reduzir os tempos de espera.
A grande conclusão a que o Banco Mundial chegou, do cruzamento de todos os dados recolhidos, é que “se a Cidade de Maputo adoptasse todas as boas práticas que, ainda assim se encontram nas restantes províncias do país, a classificação geral de Moçambique na medição global Doing Business subiria 22 posições (para 113ª)”. afinal, o que explica esta desconexão? Ninguém parece ter certezas. O estudo trouxe à tona um problema face ao qual as autoridades ouvidas pela E&M nunca haviam reflectido, por falta de dados conclusivos. A E&M ouviu a entidade responsável por questões relativas ao ambiente de negócios e que tem vindo a trabalhar com o sector privado nas reformas pelo alcance de melhor posicionamento do país no Doing Business (a Direcção Nacional de Apoio ao Sector Privado a nível do Ministério da Indústria e Comércio). Nicolau Sululo, o director, começou por assumir a legitimidade
mercado e finanças
deseMpenhO disfOrMe
As dez províncias avaliadas apresentam abordagens diferentes relativamente aos mesmos indicadores do ambiente de negósios
Pontuação | Registo de Propriedade
Ranking Nacional
Abertura de empresas tem sido a área com mais reformas, mas ainda há espaço para melhoria, já que o processo leva uma semana a mais, requer mais três procedimentos e custa o triplo da média das economias da sAdC
Abertura de Empresas
Contratos
das constatações da pesquisa. “É caricato que as províncias apresentem comportamentos diferentes sobre procedimentos previstos na mesma Lei. Se o Governo aprova uma legislação sobre o processo de licenciamento das empresas, por exemplo, é lógico que, como gestor central, eu espere que esta legislação seja uniformemente aplicada. Mas não é o que acontece. Em Tete aplica-se de uma forma, na Zambézia de outra… são estes aspectos que revelam a disfunção das normas que resvala nas deficiências de
interpretação com efeitos nefastos no ambiente de negócios”, admite Sululo. e daqui em diante…?
“Este relatório vai dar lugar ao início, agendado para breve, das actividades de implementação das recomendações (que serão abordadas mais adiante) à escala nacional”, afirmou o director de Apoio ao Sector Privado no MIC. Nicolau Sululo diz estar já a ser planificado um programa de disseminação do relatório para que as províncias aprofundem estas questões. E deixa
cidade de maputo
gaza (xai-xai)
inhambane (inhambane)
manica (chimoio)
sofala (beira)
tete (tete)
zambézia (quelimane)
nampula (nampula)
cabo delgado (pemba)
niassa (lichinga)
uma crítica: “Muitas províncias não estão, de facto, a levar a sério os indicadores sobre ambiente de negócios, daí que o programa vá consistir em debater o relatório olhando para a situação específica de cada uma delas”, afiança. Em princípio, e ainda de acordo com Sululo, as reuniões irão integrar equipas do Ministério da Indústria e Comércio, do Banco Mundial e governos de cada uma das províncias e consistirão na análise profunda sobre os aspectos que minam o ambiente de negócios, visando encontrar um modelo de concertação dos procedimentos transformadores a aplicar nos próximos anos.
A grande certeza que parece haver, entretanto, é que a descentralização dos processos (em resposta a uma das
recomendações mais importantes do Banco Mundial) será efectiva. A partir deste ano, o Governo vai trabalhar no programa já a ser desenhado e uma das mudanças iminentes é que as decisões a nível central começarão a submeter-se às de nível local. Assim, “os governadores provinciais terão autonomia de decidir sobre questões pontuais em matérias que visam melhorar o ambiente de negócios”, antecipou Nicolau Sululo. “A descentralização vai municiar as províncias de ferramentas para observar com mais seriedade os indicadores sobre o ambiente de negócios. Terão balizas sobre como poderão monitorar e aplicar as medidas previstas para torná-las capazes de atrair mais e melhores investimentos.”
O caminho: criar e replicar bons exemplos
De acordo com a análise dos resultados publicada pelo Banco Mundial e, de um modo geral, nenhuma província dominar a classificação dos indicadores, a pesquisa confirma a importância do que devem ‘aprender’ umas com as outras nos aspectos em que tiverem melhor pontuação.
Este será, de igual forma, um princípio a ser seguido pelo Governo nas próximas reformas que estão a ser actualmente desenhadas. “Há uma combinação de factores positivos de cada uma das províncias, que deve ser feita para gerar impacto positivo no ambiente de negócios em geral”, defende Nicolau Sululo. No entanto, não há tempo a perder, até porque se fossem feitas algumas pequenas mudanças, o posicionamento modesto da economia nacional poderia alterar-se drasticamente. No sentido ascendente, claro, com tudo o que isso traria de bom. No que respeita à execução dos contratos, por exemplo, uma localidade na qual se resolve um litígio comercial em 348 dias (como em Tete), com um custo de 21,8% do valor da dívida (como em Manica) e pontua 8,5 no índice da qualidade dos processos judiciais (como na Cidade de Maputo, Nampula, Sofala e Tete) posicionar-se-ia em 35º na classificação global desse indicador - 132 lugares acima da classificação actual de Moçambique entre 190 economias, de acordo com o Doing Business 2018. Outro exemplo de como a conjugação de boas práticas, de forma uniformizada, seria positiva: ao nível do registo de propriedades, uma localidade em que o processo leva 37 dias (como em Inhambane) custa 5,2% do valor da propriedade (na Cidade de Maputo e Zambézia), exige sete procedimentos (como em seis províncias) e tem uma pontuação de 10 no índice da qualidade da administração fundiária (como em Tete) classificar-se-ia em 113º lugar. Isso representaria um salto de 20 lugares na classificação global do país no ranking global anual do Doing Business, ultrapassando economias mais avançadas, como a do Quénia. No entanto, “todo este processo vai requerer muito trabalho e é possível que, mesmo que se comece já este ano, os resultados não se façam sentir na classificação de Moçambique no ranking de 2020”, avisa Rafael Saúte, economista do Banco Mundial.
tExto Celso Chambisso fotogRAfiA D.R.
empresas
ADPP, Pequenos gestos grAnDes Acções
A associação chegou a Moçambique em 1982, focada na área da educação, tendo evoluído para projectos ligados à saúde, agricultura e renováveis
o altruísmo que caracteriza a Associação de Desenvolvimento do Povo para o Povo (ADPP) teve a sua génese no Zimbabué e na Namíbia, no início da década de 1980, mas só chegou em definitivo a Moçambique, em Abril de 1982. “Começámos a trabalhar depois da Independência do Zimbabué com refugiados que estavam em campos de deslocados, em Moçambique”. Foi assim que surgiu a “primeira ideia de ficar a trabalhar por cá”, conta Birgit Holm, a directora executiva da ADPP Moçambique desde a sua fundação.
O pano de fundo de então era o combate ao regime do Apartheid, o ideal que trouxe a jovem dinamarquesa até África. “Essa luta fez com que muito rapidamente fizéssemos muitos aliados na África Austral. Depois de Moçambique, vieram Angola, Malaui, Zâmbia”. Mas, desde esses primeiros tempos, muito mudou. “Na altura éramos poucos, hoje temos quase três mil trabalhadores de vários níveis, todos assalariados”, conta. A história da ADPP guarda, em si, capítulos da História de Moçambique. Mais, ou menos felizes, mas todos vividos com o sentimento de dever para com os moçambicanos. Das lágrimas sentidas no tempo da guerra, quando tiveram de se desfazer da Escola de Produção e Formação de Professores de Matutuine, ou depois, mais duramente, quando o orfanato da Costa do Sol foi atacado. “Quando chegámos ainda nem havia legislação para enquadrar ONG’s, a fome era endémica e a guerra civil estava em curso... era tão difícil. Hoje tudo é diferente”, recorda. E é por isso que a dirigente associativa coloca o ano de 1992 como “um marco histórico”, da evolução do país e da própria pegada da ADPP no desenvolvimento sustentável de centenas de comunidades. Ao nível dos projectos, a actuação da associação assenta hoje em quatro pilares: educação que, fruto de um acordo com o
Governo, deu origem a 12 escolas técnicas de formação de professores em todo o território; saúde, cujos projectos auxiliam as comunidades na prevenção e tratamento de várias doenças, principalmente, da tuberculose e HIV/SIDA; agricultura, para a melhoria da segurança alimentar e dos meios de subsistência nas zonas rurais através da criação de Clubes de Agricultores; e as energias renováveis, que preconizam soluções para projectos de irrigação e não só: “também temos trabalhado com biogás e fogões poupa-lenha”, revela. O alinhamento dos pilares de actuação da ADPP, até porque a instituição depende, em larga medida, de doadores externos, foi sendo alinhada com as grandes agendas globais, e com os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. “O nosso trabalho baseia-se no humanismo solidário e esse é um foco que se mantém desde o primeiro dia. É o que nos guia.”
É por isso que, após quase quatro décadas de acções com impacto directo sobre milhões de moçambicanos, a ADPP se tornou sinónimo de algo bom. A fundadora sorri. “Sim... em qualquer sítio no país vamos sempre ouvir as pessoas reconhecerem a ADPP. Talvez porque a nossa filosofia sempre foi a de querer fazer o máximo e com maior abrangência, combinando estes quatro princípios de actuação. Há que ter qualidade e uma base para realmente criar desenvolvimento e fazer um trabalho sério”.
Atenta a uma realidade em constante mudança, Birgit alerta ainda para o facto de, com os grandes projectos que o país está a conhecer, “haver uma grande oportunidade de ser um exemplo e de fazer realmente a diferença. Mas é também um grande desafio.”
desenvolvimentosocial
BdesiGnação: aDPP direCtora exeCutiva: Birgit Holm Fundação: Abril de 1982
2 milhões
3 000
60
12 de beneFiCiários trabalhadores
ProJeCtos esColas em todo o País
texto Pedro Cativelos & emídio massaCola fotografia Jay Garrido
megafone
Vale reVitaliza ViaS de aceSSo em moatize
“Melhorar o acesso e a mobilidade das comunidades circunvizinhas à mina de Moatize” é o objectivo das obras de revitalização da estrada que dá acesso ao Bairro 1º Maio, e às comunidades de Calambo, Bwambwe, Ntchenga, Chipasse e Nhance. Desenvolvidas pelo Grupo Vale Moçambique, os troços têm uma extensão de aproximadamente dez quilómetros.
Inserido nos projectos “Fazer acontecer” e “Crescer e Evoluir Juntos”, o acesso irá contar com trabalhos de colocação de lombas de segurança nas proximidades das escolas e sinalização beneficiando cerca de 1 800 famílias dos bairros adjacentes.
Vumba financia reabilitação de orfanato
Cerca de 111,5 mil meticais é o valor que a Sociedade Águas Vumba decidiu disponibilizar para as obras de reabilitação do orfanato da Associação dos Amigos de Crianças Órfãs de Sida (AACOSIDA), localizado na cidade da Matola. O apoio será destinado à compra de material de construção para a reabilitação de uma instituição que alberga uma média de 80 crianças, entre os 4 e 18 anos, das quais a maioria são meninas vítimas de doenças, violência doméstica, abuso e abandono.
A Vumba tem um total de 176 trabalhadores, e em 2014 foi distinguida com o Prémio Internacional de Sabor e Qualidade na Área Alimentar nos ITQI Awards.
SaSol conStrói centro de formação em inHaSSoro
petroquímica sul-africana prossegue com acções de responsabilidade social
“melhorar o nível de vida e mão-de-obra local” é o objectivo anunciado pela multinacional sul-africana Sasol, durante o lançamento da primeira pedra da construção do Centro de Formação Profissional de Inhassoro, na província de Inhambane.
O investimento pressupõe ainda a construção de três oficinas de electrotecnia, uma de mecânica e uma outra de soldadura, incluindo infra-estruturas de apoio, com mobiliário e equipamento para uma capacidade de cerca de 460 formandos por ano. Segundo a multinacional, “foi também adjudicado um contrato de 4,5 milhões de dólares para a construção do centro de formação técnica permanente da CETA”, uma empresa 100% moçambicana.
O custo total da instalação, incluindo móveis e equipamentos, deverá superar os 17,6 milhões de dólares.
fundação Galp e Helpo entreGam bicicletaS no norte do paíS
O Projecto ‘Educar para o Futuro’ tem o objectivo de apoiar comunidades com a atribuição de bolsas de mérito e bicicletas que ajudam os alunos a encurtar distâncias e a continuar o percurso escolar.
A Fundação Galp completou assim, em Julho passado, a entrega de bicicletas previstas para o primeiro ano do Projecto, em parceria com a HELPO ONGD, a alunos de escolas do Norte do país. Nas actividades que decorreram durante todo o mês de Julho foram entregues 28 bicicletas aos melhores alunos nas comunidades de Natoa e Nampula na inauguração do novo posto de abastecimento da gasolineira.
SoJoGo diStribui 29 milHÕeS de meticaiS em prémioS
A Sasol é uma empresa integrada de produtos químicos e energia fundada em 1950 na África do Sul, com actuação em 32 países. Em Moçambique, o grupo opera nos blocos de Pande e Temane, na província de Inhambane, onde explora reservas de gás natural que é transportado através de um gasoduto de 865 quilómetros até à fronteira a Sul de Moçambique.
A SOJOGO, associação a que está confiada a gestão da exploração de Lotarias e Apostas Mútuas no país, distribuiu até ao final do primeiro semestre do ano, 29 milhões de meticais em prémios. Só na Lotaria, foram sorteados cinco primeiros prémios, no valor de 18 milhões de meticais. O Totobola foi o segundo jogo mais premiado, com 7 300 milhões de meticais, seguido do Totoloto, com 3 300 milhões e, por fim, o Joker, com 547 mil meticais. No conjunto dos quatro jogos sociais da SOJOGO foram registadas quase 3,2 milhões de apostas que resultaram em 160 mil prémios.
Queremos tornar as câmaras de comércio mais interventivas
evaristo madime
Presidente da Federação das Câmaras de Comércio de Moçambique
mais de uma dezena de câmaras de comércio surgiram no país ao longo das últimas duas décadas, um fenómeno motivado pelos sinais encorajadores que a economia nacional registou até 2015, mas também pelo desenvolvimento de acordos de comércio com a União Europeia, a SADC, a China e os Estados Unidos.
Agora, a ideia passa por criar mecanismos de articulação para que estas câmaras deixem de funcionar isoladamente e passem a ser integradas na recém-criada Federação das Câmaras de Comércio de Moçambique. O que vai mudar? É o que nos explica, a seguir, Evaristo Madime.
Com que objectivo foi criada a Federação das Câmaras de Comércio de Moçambique? É um organismo que surge porque existe a necessidade de reforçar o associativismo empresarial, sobretudo o networking, congregando todas as câmaras de comércio que já estão, hoje, a funcionar na economia moçambicana. Como se sabe, temos mais de uma dezena de câmaras bilaterais e existe a percepção de que, se sozinhas, têm desempenhado
acções significativas, em conjunto poderão fazer ainda mais e melhor, sobretudo em aspectos de interesse comum, como por exemplo na área regulamentar. Quando nos juntamos numa federação, temos um grupo maior e com mais força. Repare que estamos a falar de mais de 300 empresas filiadas nas várias câmaras e isso é fundamental.
Esse alinhamento será então o foco do seu mandato?
Podemos esperar um enorme contributo por parte da Federação que vai, certamente, contribuir para catapultar o empresariado ligado às câmaras bilaterais para um papel cada vez mais interventivo. Com a existência da Federação podemos reforçar a nossa acção em questões como a melhoria do ambiente de negócios ou na mobilização de investimento externo, porque as câmaras de comércio são a porta de entrada do investimento. É assim que vamos contribuir para o aumento da produção, competitividade, qualidade e certificação.
Em que fase está o trabalho da Federação?
Estamos ainda em processo de legalização e desenvol-
vimento institucional e num processo de criação do nosso plano estratégico que espelha a visão da nossa equipa. Mas ainda não temos uma focalização em relação a sectores de actividade. Em princípio, os nossos membros, que são as várias câmaras de comércio, e que têm essa visão em relação aos vários sectores, serão assimilados pela Federação que irá funcionar enquanto plataforma ideal de networking entre as várias câmaras. Mas iremos também intervir, tendo em conta a vontade e estratégias dos membros nos vários sectores em que eles intervêm.
cevaristo Madime é economista e gestor, membro do Conselho de administração da arterial Network e da Câmara de Comércio Moçambiqueestados Unidos.
Comércio
Há uma visão de que Moçambique pouco tem aproveitado os vários acordos de parcerias económicas. Qual é a sua ideia em relação a esta questão?
A exploração dos mecanismos bilaterais de comércio tem que ver um pouco com conhecimento. Moçambique, embora não tenha uma oferta larga, tem oferta. O que se passa é que os operadores não conhecem bem os vários mecanismos de facilitação do comércio bilateral. Há um conjunto alargado de mecanismos com potencial para apoiar o crescimento das exportações moçambicanas. O que é preciso é que sejamos capazes de aproveitar todos eles da melhor forma. Até aí, ao nível das câmaras e da federação, pensamos que no futuro teremos de dar um forte contributo para que esses mecanismos sejam mais conhecidos e que sejam também mais aproveitados por empresas e empresários com vontade de exportar. E tendo sempre presente que o objectivo das câmaras é a promoção do comércio bilateral entre os países e os mercados.
texto Hermenegildo langa fotografia Jay garrido
Integrar e ajudar a melhorar o trabalho da dezena e meia de câmaras de comércio
Visão
sociedade
Um café para conservar o sabor da natUreza
Depois da Guerra Civil e do mais recente conflito foi o abate descontrolado de árvores a ameaçar a Serra. Mas, o projecto do Café da Gorongosa quer inverter o sistema, criando uma marca de desenvolvimento sustentavél
o projecto desenhado em 2010 pelo Parque Nacional da Gorongosa para a reflorestação dos locais afectados pelo abate das árvores não teve grande sucesso junto da população, uma vez que os pequenos agricultores não obtinham daí qualquer rendimento. Era então preciso mudar de estratégia e criar um plano com mais impacto que servisse dois pontos essenciais: reflorestar e gerar renda. Em 2014 teve início a planificação do Gorongosa National Parks’ Coffee Agroforestry Under Shade, um projecto piloto de cultura de café Arábica à sombra, de forma a conhecer a sua viabilidade, uma vez que em Moçambique não havia histórico da cultura deste arbusto da família das rubiáceas. Era necessário saber se uma montanha coberta por uma floresta tropical iria receber bem esta nova cultura que ajudava à reflorestação e, simultaneamente, agregava valor aos rendimentos dos agricultores que ali habitam. Depois de conferida a viabilidade, que teve apoio de especialistas na cultura de café, oriundos da Universidade Federal do Espiríto Santo, no Brasil, foram reunidos os líderes comunitários que abraçaram a ideia e hoje existem muitas famílias produtoras
de café como revela à E&M Matthew Jordan, responsável pela iniciativa. “O Café da Gorongosa está actualmente a trabalhar com mil famílias que vivem na Serra mas temos planos para chegar às três mil muito em breve. Estamos todos alinhados numa relação integrada entre o uso sustentável da terra, o desenvolvimento comunitário e a manutenção da biodiversidade”.
Através da implementação de práticas agrícolas mais sustentáveis os pequenos produtores aprenderam a semear em fileiras e, ao mesmo tempo, verificaram que podem tirar partido da rotação de culturas, entre cada fila de cafezeiros. Assim não perdem milho e legumes o que também se traduz em rentabilidade para o solo, uma vez que ajudam a produzir nitrogénio mantendo a terra fértil, reduzindo a necessidade de procurar novos locais de cultivo, e por isso mesmo, evitando o corte e a queima da floresta tropical. Ao mesmo tempo torna-se possível travar a erosão dos solos, fazendo a retenção da água das chuvas.
moçambique na rota do café Sem se alterar a natureza, foi assim criado na Serra da Gorongosa um viveiro onde se aproveita a sombra das ár-
3mil famílias
“O Café da GOrOnGOsa está aCtualmente a trabalhar COm mil famílias que vivem na serra mas temOs planOs para CheGar às três mil muitO em breve”
vores que já existem, para que os agricultores possam ter formação e treino de modo a saberem fazer as respectivas mudas. Matthew Jordan explica que “a primeira equipa modelo começou a trabalhar com a comunidade para promover a cultura junto de outros produtores, uma vez que os resultados começaram a ser visíveis. Em pouco tempo foi gerado um mosaico sustentável de arbustos de café e hoje podemos observar cerca de trezentos mil pés plantados, numa extensão de perto de 100 hectares.”
Mas estes arbustos não estão sozinhos. Como era necessário realizar o reflorestamento de muita da área abatida nos últimos anos, têm sido plantadas, à razão de 10% do plantio de café, árvores nativas (cerca de três mil árvores até ao momento). O objectivo, diz-nos, “é crescer em cerca de duzentos mil arbustos por ano, ao longo dos próximos cinco anos, para alcançar um milhão de pés de café plantados e continuar a expansão ao longo desse período de tempo”. A safra registada este ano, a primeira desde o final da fase piloto do projecto, chegou às dez toneladas de grãos de Arábica de qualidade superior. E se tudo se confirmar, na próxima década, é esperado um rendimento anual a ron-
sociedade
dar as 800 toneladas, o que fará com que Moçambique venha a ter alguma expressão junto dos países produtores de café da região.
Mas para que nada falte ao Café da Gorongosa, até porque o seu aroma único está a isso directamente ligado, toda a cadeia de valor acontece ali mesmo na zona da Gorongosa, da secagem à torrefacção, finalizando no empacotamento.
Tudo realizado no Parque Nacional da Gorongosa, onde ainda foram criadas as áreas da comunicação, vendas e distribuição. E assim as bagas vermelhas do Arábica recém colhidas mantêm a identidade que se bebe e onde se sente Moçambique na sua essência.
agro-negócio de inclusão social com geração de renda Todo o projecto Café da Gorongosa foi pensado no bem-estar da comunidade, onde se incluem os beneficiários directos, milhares de pequenos produtores ou extensionistas e os beneficiários indirectos, que são os familiares de cada um. No que diz respeito aos produtores, estes foram capacitados com técnicas agrícolas, aprenderam gestão financeira através do programa Farm Business School e foram sensibilizados para a conservação das espécies. Para os beneficiários indirectos, a grande preocupação é a redução do absentismo escolar, principalmente das meninas. Por isso, foram criados clubes de sensibilização e construídas várias escolas para que possam frequentar as aulas perto de casa. Há também grandes campanhas de sensibilização sobre noções básicas de saúde e vacinação. E, como nos confessa Matthew Jordan, “tudo isto acontece em paralelo com a produção do café porque quando falamos em desenvolvimento sustentável, temos de avançar em várias frentes”.
A capacitação é fundamental aqui. E para que ela possa ser
Projecto tem uma forte componente social e envolve centenas de famílias da região da Gorongosa
A entrada no mercado europeu está também prevista através de uma parceria com a Nespresso, em cápsulas próprias para as máquinas da marca
efectiva, foram criadas sinergias com a Universidade de Lisboa, a Cooperação Portuguesa, a Cooperação Brasileira e a Universidade de Espírito do Santo, no Brasil, o que levou até à Goronogosa dezenas de estudantes de agronomia moçambicanos e de outras nacionalidades ao longo dos últimos três anos, ali concluindo Teses de Mestrado e Doutoramentos no estudo da produção de café e conservação da biodiversidade em sistemas agro-florestais. E não é nada incomum o projecto ser visitado por inúmeros técnicos internacionais que, fascinados pela plantação de café de qualidade superior à sombra da floresta, chegam à Gorongosa para aprender e ensinar.
O princípio de toda esta história começa com o filantropo Greg Carr que, através da Fundação com o seu nome e em conjunto com o governo da Noruega e o Global Environment Facility, que agrupa 183 países e instituições inter-
nacionais, conseguiram juntar fundos para contrariar a tendência de desflorestação e ajudar esta enorme comunidade de pequenos agricultores na província de Sofala.
contas e café
As mudas e os serviços de extensão oferecidos aos pequenos agricultores têm um custo elevado, difícil de quantificar. Contudo, o investimento anual centra-se nos 500 mil dólares, sendo a parte que vai para os agricultores, operacionais de momento, é perto de mil dólares per capita. Aqui não estão incluídas despesas com os serviços de saúde, educação ou insumos mais complexos. Sabemos que o café é um commodity com preço variável que se situa hoje nos 2,5 dólares por quilo. Contudo, o Café da Gorongosa, por ser Arábica de qualidade premium e devido ao impacto social que abrange, pode chegar até aos sete dólares por quilograma. Feitas as contas ao café, as
margens de lucro são encaixadas no Projecto Gorongosa para que exista uma continuidade na assistência à saúde e escolar. Aos produtores é pago um preço considerado justo por cada quilo de café no momento da colheita, de modo a constituir um incentivo para que as plantações sejam sempre de alta qualidade e ao mesmo tempo contribuam para a conservação e sustentabilidade da Serra da Gorongosa. Até 2024 é esperado um investimento de um milhão de dólares, e será esse, estima-se, o ano do break even do projecto.
partir para outras terras Em Moçambique, o Café da Gorongosa pode ser encontrado em dois tipos de moagem - uma para expresso e outra para cafeteira - em alguns supermercados, cafés e dentro do próprio Parque Nacional. Mas a vontade dos mentores do projecto é que os grãos da Gorongosa possam perfumar
a serra sagrada
Diz a lenda que a Serra da gorongosa é sagrada porque Deus viveu ali com os povos da montanha Naquele tempo, os seres humanos eram gigantes e passavam o tempo a pedir favores ao Criador. Cansado por ser importunado, ter-se-á, então, mudado para o céu. Mas mesmo assim, os gigantes não desistiram e subiram a montanha para continuar a fazer os seus pedidos. É então que Deus decide colocá-los na ordem e torna esses seres em homens comuns. terá sido aí que a vida começou a ficar difícil... para todos na Serra.
chávenas de café de grandes mercados internacionais, estando já em avançadas negociações para a entrada nos Estados Unidos da América onde até já é vendido no Boise Zoo, em Idaho.
A entrada no mercado europeu está também prevista através de uma parceria com a Nespresso, em cápsulas próprias para as máquinas da multinacional suíça detida pelo grupo Nestlé.
Em todas as cidades do mundo as pessoas sentam-se para saborear o café. E é por isso que não constitui surpresa que este aromático grão seja, hoje, a terceira bebida mais consumida do mundo, depois da água e do chá.
A ideia é que, um dia, este fruto de Moçambique possa espalhar-se pelo mundo, contando a história da Serra da Gorongosa e das suas gentes.
texto Cristina Freire fotografia Brett Kuxhausen, GoronGosa Media
lá fora
O desafiO de cOntOrnar O vertiginOsO declíniO das ril
Depois de, no ano anterior, Angola ter acumulado Reservas Internacionais Líquidas de 32,2 mil milhões de dólares, em 2014, o montante desceu 27,7 mil milhões, caindo novamente no ano seguinte, numa notória tendência decrescente dos activos externos de disponibilidade imediata preocupante para a economia
sob o controlo da autoridade monetária, e destinadas ao financiamento de desequilíbrios da Balança de Pagamentos, as Reservas Internacionais Líquidas (RIL) do país passaram de 24,3 mil milhões de dólares em 2016 para 10,8 mil milhões em finais de 2018, servindo apenas para cinco meses de importação de bens e serviços, contrariando todas as garantias do Governo que apontavam para cerca de oito meses.
A queda das RIL, numa assinalável (e preocupante) redução de 65% desde Abril de 2014, deveu-se ao que já imaginamos: a
65%
foi quanto baixaram as reservas internacionais Líquidas de angoLa entre 2014 e 2018
baixa do preço da sua principal (e praticamente única) fonte de receita, o petróleo. Estudos apontam ainda que, apesar dos avultados recursos registados entre 2013 e 2017, a economia não teve uma redução proporcional de despesas, o que resultou em défices fiscais sistemáticos financiados por meio do endividamento interno e externo. “Não houve uma transformação estrutural da economia”, diz o economista Fernandes Wanda, investigador da Universidade Agostinho Neto, para quem a referida transformação deveria e deve ainda passar por um
rápido processo de industrialização.
À E&M, o economista e sociólogo guineense Carlos Lopes, que esteve recentemente em Angola, elege igualmente a transformação, aliás, tema do seu livro que o levou a Luanda.
O também Alto Representante da União Africana para as Negociações com a Europa é categórico: “Transformação estrutural passa pela industrialização. Esse debate da diversificação é muito lento. Precisamos de falar de política industrial, num debate mais vigoroso e interventor”. E é isso que parece faltar. É que, no início da queda das Reservas Internacionais Líquidas, em 2014, o então ministro dos Petróleos, Botelho de Vasconcelos, reconhecia que Angola necessitava de um preço médio de 80 dólares por barril para equilibrar as suas finanças públicas, embora as estimativas apontassem para 95. Assim, já naquele ano, receava-se um preço de 60 dólares, o que levaria naturalmente ao défice de receitas petrolíferas de 25 mil milhões de dólares, mesmo para uma produção de 1,9 milhões de barris. “O que está para vir não é seguramente bom”, concluía assim o Relatório Energia em Angola 2016, do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola.
A previsão não podia estar mais certa. Angola não pôde estruturar alternativas às suas receitas de exportação, perpetuando uma situação de “quase reclusão estrutural”, como lhe chamou o relatório, sendo prova disso a recente revisão do seu Orçamento Geral do Estado (OGE) cujo preço de referência passa de 68 para 55 dólares, revelando que o país não evitou o que já se receava em 2014. Paga-se, assim, por se terem adiado reformas genuinamente estruturantes que levassem à construção de uma economia de exportação diversificada e com crescimentos económicos mais endógenos e duradouros.
A revisão do OGE elevou os receios de a economia entrar novamente em recessão, já que bastará que o sector petrolífero se torne mais negativo na variação da sua produção para isso acontecer. “Os países ganharam uma mentalidade rentista, que pode vir de um produto que nos dá conforto financeiro ou pode vir da ajuda ao desenvolvimento utilizado da mesma maneira”, explica Carlos Lopes, confirmando os receios de nova recessão devido à volatilidade do preço do petróleo, principal fonte de receitas de Angola.
A tendência decrescente das reservas leva o presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), José Severino,
A previsão não podia estar mais certa. Angola não pôde estruturar alternativas às suas receitas de exportação, perpetuando uma situação de “quase reclusão estrutural”, como lhe chamou o relatório, sendo prova disso a recente revisão do seu
Orçamento Geral do Estado (OGE) cujo preço de referência passa de 68 para 55 dólares, revelando que o país não evitou o que já se receava em 2014. Paga-se, assim, por se terem adiado reformas genuinamente estruturantes
a deixar uma posição contundente. “Não é sustentável a continuação desta importação, em dez anos foram 40.000 milhões de dólares. Não temos infra-estruturas, não temos dinheiro para comprar máquinas e equipamentos”, observou.
Em 2018, 47,7% das divisas disponibilizadas pelo Banco Nacional de Angola (BNA) foram canalizadas para a importação de mercadorias, muitas das quais podiam ser produzidas localmente. Importa assinalar que, em 2017, a percentagem destinada foi maior, 61%.
Tal descida, não explica necessariamente um aumento na produção nacional, mas encontra amparo na diminuição das próprias reservas, bastará para isso olhar para o peso da agricultura no Produto Interno Bruto (PIB) angolano, que teve um crescimento insignificante de 6,03% para 6,21%, de 2017 a 2018.
Veja-se que, por exemplo, a África do Sul apresenta um peso de 16%, a Nigéria de 21% e Moçambique de 22%.
O próprio BNA reconhece que só o “desenvolvimento do sector primário da economia, concretamente da agricultura e toda a sua cadeia de valor garantirá maior robustez à economia angolana, permitindo-lhe amortecer os choques provenientes da volatilidade dos preços das commodities”.
O Banco Central adianta ainda que se o país mantiver os actuais níveis de importação e adiar a produção local, as suas reservas não serão suficientes para fazer face à demanda.
Contudo, de 2017 a 2018, Angola passou de 11 meses de importação para sete meses, numa tendência decrescente que se mantém mais ou menos constante.
Só no primeiro trimestre de 2019, Angola já gastou 583,1 milhões de dólares para importação de bens alimentares, enquanto nos últimos anos a média anual foi de 3 mil milhões.
c orrida contra o tempo
De acordo com o BNA, factores como a diminuição do preço do petróleo e da produção interna resultaram na redução das reservas internacionais, acrescentando ainda que estas se encontram agora num patamar insustentável devido ao aumento da importação dos bens mais essenciais.
Assim, parte da resolução do problema deve passar pela produção dos 54 bens essenciais para a redução das importações.
Um valor de 434 milhões de dólares será o montante a ser financiado por nove bancos comerciais, no âmbito do Programa
lá fora
de Apoio ao Crédito (PAC), destinado a apoiar os empresários nacionais do sector. O financiamento é resultado dos memorandos de implementação do PAC, rubricados entre o Ministério da Economia e Planeamento (MEP), o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), o Fundo de Garantia de Crédito e oito bancos comerciais de direito angolano.
O programa dará prioridade aos operadores económicos que já produzam alguns dos 54 produtos e que pretendam expandir a sua actividade.
Além dos memorandos de implementação do PAC, com os oito bancos comerciais, foram também assinados outros memorandos entre o MEP e as ordens profissionais dos advogados, contabilistas, economistas e engenheiros de Angola.
Com peso significativo nas importações, a cesta básica das Forças Armadas Angolanas (FAA) e da Polícia Nacional vai ser, brevemente, assegurada por bens produzidos no país, segundo o MEP. A E&M sabe ainda que o PAC será destinado tanto para as pequenas, médias e grandes empresas, com taxas de juros que irão até 7,5%, estando já registadas na sua plataforma 4 000 empresas nacionais com possibilidade de produzirem os 54 produtos seleccionados para a implementação do Programa de Apoio à Produção e Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (PRODESI).
Enquanto o PAC é operacionalizado, a Companhia de Bioenergia de Angola (Biocom) revela um exemplo que se deveria estender a vários sectores. É que a empresa permitiu ao país poupar, de 2015 a 2018, cerca de 170 milhões de dólares, com a produção nacional de açúcar e etanol, na ordem dos 55% e 50%, respectivamente. Em 2020, prevê-se uma poupança de divisas na ordem dos 80 milhões de dólares, com a produção local de 110 mil toneladas de açúcar (mais 37 mil que em 2018) e 19 mil metros cúbicos de etanol neutro (mais dois mil), 8 500 dos quais serão exportados para os mercados europeus de França e Suíça.
Perspectivas de crescimento levam o ministro da Agricultura e Florestas a ter uma visão optimista, que sempre caracterizou as retóricas do Governo mais do que os resultados: “Angola poderá atingir, nos próximos cinco anos, a auto-suficiência alimentar em quase todos os produtos agrícolas, como resultado dos programas em curso de apoio à agricultura familiar, do aumento das áreas de cultivo e da subvenção do preço dos combustíveis”. Um tal resultado significará necessaria-
Estudos apontam que, apesar dos avultados recursos registados entre 2013 e 2017, a economia não teve uma redução proporcional de despesas, o que resultou em défices fiscais sistemáticos financiados por meio do endividamento interno e externo.
mente uma reduzida pressão nas receitas petrolíferas, fonte das RIL. Mas Carlos Lopes deixa um outro alerta: “Se fizermos uma transformação estrutural na base, unicamente, de uma grande dependência externa, vamos continuar a falar de coisas que não são as mais prioritárias. Vamos fazer coisas que não são as melhores para a economia angolana”. E esclarece ainda o professor da Mandela School of Public Governance: “Se eu produzo papaia e passo a produzir de igual forma o ananás, isso significa que diversifiquei, mas acabei por não transformar coisa alguma e continuo na mesma dependência. Transformação estrutural passa pela industrialização e não pela diversificação apenas”.
a transformação que pode vir do petróleo Além da importante descida do preço do petróleo no mercado internacional, a acentuada queda nas Reservas Internacionais Líquidas deve-se igualmente a várias restrições técnicas e operacionais que causaram uma redução na produção de petróleo e, em consequência, provocaram um rombo na arrecadação de receitas fiscais. A isso junta-se o facto de o país importar cerca de 80% dos derivados de petróleo devido à falta de capacidade interna de refinação. Assim, está em marcha o Programa de Desenvolvimento e Consolidação do Nível de Petróleo e Gás, que faz parte do Plano Nacional de Desenvolvimento 2018-2022, e compreende três grandes metas: a substituição de reservas para atenuar o declínio acentuado da produção; a auto-
economista e alto representante da União africana para as Negociações com a europa
“Se fizermos uma transformação estrutural na base de uma grande dependência externa, vamos continuar a falar de coisas que não são as mais prioritárias”
UM diferencial cOM QUe nÃO se cOnta
o oge revisto de 2019 preconiza, como podemos ler no artigo, um valor abaixo dos 60 dólares por barril de petróleo, valor de que se receia desde 2014 por apresentar défice de receitas petrolíferas. angola parece assim afundar-se nas suas próprias contas pelo facto de apresentar “uma estimativa do preço do petróleo consideravelmente mais conservadora”, descendo de 68 dólares para os 55 dólares. e, ao longo da sua execução orçamental, o diferencial do preço deverá servir para “encurtar o prazo do pagamento dos atrasados”.
todas as dívidas em atraso a fornecedores, sobretudo as “constituídas dentro das regras de execução orçamental”, serão, no entanto, liquidadas em 2019 sendo que as restantes serão pagas até 2021. Com isto, angola, que já tem vindo a perder inúmeras e sucessivas oportunidades para transformar estruturalmente a sua economia assente num só produto de exportação, deve contar com cada vez menos recursos para, ao longo dos próximos anos, poder dinamizar todo um conjunto de sectoreschave que levariam à tão desejada diversificação das suas fontes de receita macro-económicas.
-suficiência de produtos refinados através da construção de novas refinarias; e a melhoria da rede de distribuição de combustíveis e lubrificantes por via da expansão da capacidade de armazenamento. Uma das principais prioridades do Governo é a construção das Refinarias do Lobito e de Cabinda e a reabilitação da Refinaria de Luanda. É com estas apostas que o Executivo de João Lourenço pretende aliviar e reverter o quadro decrescente das RIL, já que só a redução das importações de derivados na ordem dos 40% poderá poupar ao país, em 2022, cerca de dois mil milhões de dólares, segundo cálculos da E&M
texto Adão Gil fotografia d.r. e cArlos AGuiAr
NOVOS ÂNGULOS
O aquecimento global e o esquentamento localizado
Pedro Cativelos • Director Executivo da Economia & Mercado
dizem-nos as notícias que... não há notícias. Boris Johnson é o novo primeiro-ministro britânico, o que já toda a gente sabia. E também nos vão mostrando que se assemelha a Donald Trump, na estética capilar, sobre a qual não me vou pronunciar por falta de argumentos válidos para tal, como nas palavras. Faltam os actos mas ainda é cedo para os julgar poucos dias depois de ter tomado posse. O britânico, que já foi jornalista, tornou-se famoso por dizer coisas controversas em colunas de jornais e em plataformas públicas: é o número 15 milhões a consegui-lo. E até nos highlights que lhe são atribuídos, dizendo que as mulheres que usam véus em rostos islâmicos parecem “caixas de correio”, ou ter recorrido a termos racistas para descrever pessoas da Commonwealth faz descansar a novidade. Boring. O que mostra que a fama está cada vez menos exigente e já abraça qualquer idiota que, hoje, pode aspirar a, no contexto certo, deixar de ser um qualquer alguém anónimo se disser umas parvoíces. Até pode chegar a presidente, ou primeiro-ministro. Mas, repreendendo-me a mim próprio, na realidade, qual é a notícia disso se, pensando bem, sempre foi assim? Johnson, como Trump, que já foi uma estrela da TV e acha que continua a ser, também favorece a redução de impostos para os mais ricos. Só que, ao contrário do impaciente norte-americano, não é um proteccionista e acredita ser o Brexit que lhe vai fazer entrar o mundo pelas portas da economia do Reino Unido, passando por cima, ou ao lado, da União Europeia. Claro que, entre Boris e Donald, as semelhanças são mais marcantes do que as assimetrias e que, valha a verdade, vão ter muito que conversar sobre um possível acordo de comércio entre ambos, que dificilmente será mais vantajoso para o Reino Unido do que uma saída limpa negociada com a UE. O que provocará um esquentar de relações arrefecidas. Ou vice-versa, dependo de onde se está a olhar. Talvez até provoque alguma notícia a sério. Mas só lá mais para a frente. Por falar em acordos comerciais, um em particular ficou selado há semanas, entre os países do Mercosul e UE, e que preconiza a criação de uma das maiores áreas de livre comércio do planeta. O que já não é notícia porque foi em Junho. Juntos, representam 25% da economia mundial e um mercado de 780 milhões de pessoas, num acordo que vai
eliminar as tarifas de importação para mais de 90% dos produtos comercializados entre os dois blocos. Quando se considera o número de envolvidos e a extensão territorial, o acordo só perde para o Tratado Continental Africano de Livre Comércio, que envolve 44 países africanos, assinado em Março passado. Que também já foi notícia. Trade será, por isso, uma das palavras do ano. Por ser em inglês americanado como é moda (e não novidade), e um tema quente do momento. Logo numa altura em que quente é palavra que ferve. Pelo menos no hemisfério Norte onde é Verão (no news) embora tenha sido no Sul, aqui mesmo em Moçambique, que o secretário-geral das Nações Unidas António Guterres, de visita ao país, voltou a defender “a necessidade imperiosa de um combate às mudanças climáticas”. De visita ao Centro de Reassentamento de Mandruzi, numa província de Sofala ainda abatida pelo Idai, Guterres lembrou que “sempre houve ciclones”, mas que eles “nunca foram tão fortes, tão frequentes, tão intensos e com tantas devastadoras consequências.” Por isso, avivou a necessidade “de se ouvir a comunidade científica” e relembrou que “não podemos permitir um aumento da temperatura superior a 1,5 graus até ao fim do século.”
As tempestades que recentemente aconteceram na região são exemplos do “impacto dramático e devastador da mudança climática em África, do avanço da seca em áreas como o Sahel num continente que praticamente não contribui para as mudanças climáticas, mas onde o seu efeito é maior.” E a notícia é?! Claro que o ideal seria dizê-lo aos senhores de cima. Do texto e do tecto do mundo. A Trump, que anunciou, mal tomou posse, a saída do Acordo de Paris, afirmando querer “dar primazia à produção de energia americana.” E aos outros todos. Até a nós próprios. Alcançado na capital francesa em 2015 foi, então, considerado um compromisso histórico para reduzir a emissão de gases com efeitos de estufa e travar o aquecimento global. Mas quatro anos depois, é na mesma Paris onde, no final deste mês de Julho, os termómetros batem os 45 graus centígrados e um recorde de décadas. O que nos leva a pensar que não há desacordo que não valha uma sombra, nem um mergulho que não faça esquecer uma boa ideia. No fim, a não notícia de parecer natural que Paris, a cidade do amor, esteja a arder. Sem se ver.
Como um conjunto de não notícias nos podem dar algumas novidades. Ou, porque é que, afinal, tudo muda tão depressa, embora pareça que não saímos do lugar?
ócio
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Nesta edição visitamos o Lago do Niassa que, pela sua dimensão e beleza, faz inveja a um oceano
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À descoberta do Soko Café, onde se brinca, à mesa, com os ícones da gastronomia contemporânea
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O Cem Reis Syrah 2016 celebra uma casta de culto
(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio
RESERVA NACIONAL DO NIASSA
Visitas
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eUm LAgO DE fAzER INVEjA
A Um OCEANO
o lago niassa banha Moçambique, uma parte do Malaui e da Tanzânia, mas não só. Ele é, pela sua dimensão, uma verdadeira metáfora de um oceano, e foi ali, onde se forjou ao longo dos séculos, uma onda de afectos que se espalhou pelas várias etnias que por lá vivem, na sua orla. Com 560 quilómetros de comprimento, 80 quilómetros de largura, uma profundidade máxima de 700 metros e uma área estimada de 31 mil quilómetros quadrados, é um tesouro de água com que se pode tudo.
Vê-lo de qualquer parte do lado moçambicano é um deslumbramento. A sua água é azul-turquesa, cristalina e com a inocência de um reservatório natural ainda no seu estado imaculado e puro. Ali, a tentação para um mergulho é imensa e as tempe-
raturas amenas, que oscilam entre os 22º e os 29º, convencem os mais resistentes. Logo à saída nordeste de Lichinga, capital de Niassa, pela Estrada Nacional Número 249, decentemente alcatroada ao longo de cerca de 106 quilómetros, os maciços cobertos de um lençol verde gabam-se de não lhes faltar a água do lago.
Do lado de Cóbué, a cerca de 200 quilómetros de Lichinga, o lago é propício ao desporto aquático como snowboarding, vela ou scuba diving. “O desporto é melhor durante o mwela season, a estação dos ventos do sul. Aparecem boas ondas para competição, apesar de a prática desportiva ainda ser muito esporádica”, conta Patson Chambo, trabalhador malauiano de um dos lodges que se encontram na orla do Niassa.
O turismo de sol e mar na parte moçambicana tem ou-
tro ponto de grande referência, a praia de Chwanga, em Metangula, a 106 quilómetros de Lichinga. É uma pequena varanda para o lago Niassa e a enorme esplanada de cimento e tecto de caniço e colmo completam-lhe a coreografia.
No Inverno, o local fica mais ou menos despovoado, acolhendo maioritariamente os nativos, mas quando chega o Verão transforma-se numa autêntica romaria para turistas internos e estrangeiros. Na praia de Chwanga, torna-se delicioso testemunhar as habilidades dos nyanjas na natação.
Os mais pequenos esgueiram-se agilmente, em mariposa ou de costas, para um pouco longe, com um sorriso pretensioso mal avistam estranhos. “É proibido não saber nadar. Todos os que vivem perto do lago Niassa aprendem a nadar desde pequenos”, diz Chirwa Pilinga, trabalhador de
uma estância turística local. Do Nkwichi Lodge, que está a 30 minutos de barco de Cóbué, é possível fazer um passeio de barco, que pode levar até às ilhas malauianas de Txizumulo e Likoma, em pouco menos de meia hora.
biodiversidade de encher o olho
O Niassa é a casa da maior variedade de peixes do mundo, cerca de 1300 espécies, das quais 350 são endémicas, assim como acolhe cerca de 450 espécies de pássaros. Esta rica biodiversidade levou a UNESCO a declará-lo Património da Humanidade, em 1984.
Mais recentemente, o Governo de Moçambique atribuiu-lhe o estatuto de Reserva Parcial do Lago Niassa (RPLN) como medida de protecção do ecossistema. Noventa e nove por cento das espécies de peixes de água doce de todo o mundo só ocorrem dentro deste lago.
O fascínio do Niassa não está apenas no seu imenso lençol de água. O meneio com que a viagem Lichinga-Cóbué serpenteia o complexo montanhoso Maniamba-Aramanba alimenta a fantasia de um alpinismo que se faz de carro. E para os mais aventureiros, algumas das serras que ladeiam as suas margens convidam ao montanhismo.
A densidade da floresta de alguns trajectos do troço que leva aos vários miradouros do lago e o avistamento fugaz de macacos e babuínos proporcionam a experiência de um pequeno safari.
“Que não venha o petróleo, cujas pesquisas Malaui e Tanzânia disputam ferozmente, porque será o fim do lago e do seu ecossistema”, sentencia Patson Chamba. Enquanto isso não acontece, e esperando que não aconteça, o capricho da natureza, que é o Niassa, está lá, para proporcionar momentos de lazer inesquecíveis.
QUEm
textO José Machicane fOtOgRafia Vasco célio
ROtEIRO
coMo ir
Partindo de Maputo ou de outro destino qualquer do país, pode apanhar os voos da LaM que o levarão até Lichinga. No aeroporto poderá alugar um carro que o levará até ao Lago.
o que fazer
apreciar a beleza do Lago e as suas espécies diversificadas de peixes. Pode também nadar, fazer surf, snowboarding, vela ou scuba diving. Nas serras é possível fazer montanhismo.
onde dorMir
Se quiser ficar no centro da cidade de Lichinga, opte pelo Hotel girassol (telefone: +258 27121280; e-mail: girassollichingahotel@ visabeira.co.mz). Se preferir uma aventura fora da cidade, escolha o Nkwichi Lodge, onde deverá fazer uma reserva prévia (site: www.nkwichi.com; e-mail: info@nkwichi.com).
tEm Um LAgO ASSIm, COmO O pOVO NyANjA , DA pROVíNCIA DE NIASSA , NãO pRECISA NEm INVEjA Um OCEANO
o menu proposto pelo “soko” ilustra, de forma exemplar, um conceito que se aplica a muitas áreas criativas: “less is more”. Se a lista parece curta, em termos de oferta, é porque a opção foi pegar em alguns ícones contemporâneos da gastronomia mundial – como o Hamburger, o Hot Dog, a sopa Ramen ou os Huevos Rancheros – e dar-lhes uma “interpretação” personalizada.
E, não haja dúvidas, este é hoje o factor diferenciador por excelência. É uma equação “simples” desde que, pelo menos, duas condições de base estejam asseguradas: a qualidade dos ingredientes e, claro, a mestria do “intérprete”. Quando a estes pressupostos essenciais se acrescenta o cenário adequado (uma boa ambiência e uma apresentação cuidada e elegante do produto gastronómico) e um serviço atento e eficiente, estão reunidas as condições fundamentais para o sucesso. E é o que acontece no “Soko”. Vejamos, então, mais em detalhe alguns dos itens do menu.
UmA VIAgEm pELOS íCONES DA CULtURA gAStRONÓmICA
Comecemos pelo Hamburguer. Reza a história que o Hamburguer, tal como hoje o conhecemos, se tornou popular, nos Estados Unidos, a partir do início do século XX. No entanto, a sua massificação só acontece mais tarde, com o aparecimento do conceito de “fast food” desenvolvido pela McDonald’s na década de 50. Na viragem para o século XXI, com a progressiva implosão do modelo massificado que caracterizou a “sociedade de consumo” da segunda metade do século passado, também o Hamburguer começou a ser objecto de uma “reinvenção”. O “Hamburguer à Soko” é um bom exemplo disso: envolvido num pão especial amanteigado, a carne é embebida num molho de café e acompanhada por repolho vermelho com maionese. Duas outras propostas no menu do “Soko” merecem um destaque especial: a sopa Ramen e o Bunny Chow, um clássico de Durban, na África do Sul.
A sopa Ramen, um ícone da cozinha japonesa, tornou-se popular, em anos recentes, à escala mundial. A tal ponto que existe mesmo hoje um museu (o Shin-Yokohama Raumen) que lhe é inteiramente dedicado. Apesar de ser considerado um prato típico da gastronomia nipónica, a verdade é que a sopa Ramen é oriunda da China. Embora seja designada como sopa, devemos considerá-la mais apropriadamente como uma “sopa-refeição”, tantos e tão variados podem ser os seus ingredientes. No “Soko” existem três variantes: a vegetariana, com camarão ou com picanha. E todas elas são merecedoras de uma prova. Quanto ao Bunny Chow, as suas origens são indianas e a sua identificação como um prático típico de Durban parece remontar ao início do século XIX quando muitos imigrantes indianos vieram trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar da região do KwaZulu-Natal. Crê-se, aliás, que a grafia “Bunny” é uma adaptação para o inglês da
designação indiana original: “baniya” ou “banyan”. O “Bunny Chow” é um prato feito à base de curry caldoso que pode ser de legumes, carneiro, frango, peixe ou marisco, que depois de pronto é colocado dentro de uma metade de pão escavado. No “Soko”, o “Bunny Chow” é proposto nas variantes de frango ou camarão e há a opção, para além da versão tradicional no pão, de ser acompanhado com arroz branco.
Mas se estes são os pratos que optámos por destacar, há vários outros que devem merecer igual atenção, como as saladas, as tostas de carne desfiada (porco ou vaca), os ovos mexidos com queijo feta e cogumelos, etc. Para acompanhar as refeições, o “Soko” propõe ainda uma lista variada de bebidas (que vão das alcoólicas aos sumos e aos chás). Tudo boas razões para não deixar de experimentar uma visita ao “Soko”.
textO rui Trindade fOtOgRafia Jay Garrido
Avenida Kim Il Sung, 83 Maputo
hERDADE DO ESpORãO
SyRAh 2013
País Portugal
reGião Alentejo (Herdade do Esporão)
casTa Syrah
cor Vermelho denso e concentrado
aroMa Nariz compacto, com sugestões de aromas de cacau, eucalipto e ligeiras notas de café torrado
Paladar Revela fruta negra com taninos sólidos e acidez que equilibra o conjunto e lhe confere personalidade
final Longo com boa persistência
Teor alcoólico 14,5%
ERmELINDA fREItAS
SyRAh 2016
País Portugal
reGião Setúbal (Casa Ermelinda Freitas)
casTa Syrah
cor Granada
aroMa Reminiscente de conservas de frutas escuras muito maduras e toque de balsâmico
Paladar Aveludado e cheio no paladar, com taninos muito bem integrados
final Longo com boa persistência
Teor alcoólico 14,5%
CRAStO SUpERIOR
SyRAh 2014
País Portugal
reGião Douro (Quinta do Crasto)
casTa Syrah
cor Roxo escuro
aroMa Frutos silvestres e notas de cacau fresco
Paladar Bom volume e estrutura, taninos frescos, textura aveludada e notas florais
final Equilibrado com boa persistência
Teor alcoólico 14%
Cheio e redondo final firme com boa persistência Teor alcoólico 16% SyRAh 2016”
País
Portugal reGião alentejo (Herdade da Maroteia) casTa Syrah cor Violeta escuro aroMa exuberante, notas de frutos pretos, mentoladas, terminando com amêndoa tostada Paladar
A SyRAh tORNOU-SE UmA DAS
CAStAS mAIS ApRECIADAS
Em tODO O mUNDO
CEm REIS SyRAh 2016
CELEbRANDO UmA CAStA DE CULtO
apesar das muitas especulações em torno das suas origens (seria proveninente da cidade persa Chiraz ou da Síria, onde existia uma variedade de uva conhecida por Syriaca, para citar apenas dois exemplos) e da existência de igual número de teorias para explicar a sua chegada à Europa, a verdade é que, depois do trabalho desenvolvido por cientistas contemporâneos, no final da década de 90, ficou comprovado que a Syrah é originária do Vale do Ródano, em França, e que resulta de um cruzamento entre duas castas aí existentes: a Mondeuse Blanche, branca, e a Dureza, tinta. Contudo, apesar do seu berço ser francês, a fama do Syrah começou a surgir com o boom dos vinhos australianos entre os anos 1980 e 1990. Parte do prestígio chegou quando o Penfolds Grange Hermitage – criado pelo enólogo Max Schubert- ganhou, em 1995, o prémio de vinho do ano da revista “Wine Spectator” e projectou o nome da casta tornando-a tão conhecida quanto outras já mundialmente famosas como a Cabernet Sauvignon, a Merlot e a Pinot Noir. De acordo com dados recentes, a casta é a sexta no mundo com maior área plantada. França (70 mil hectares) e Austrália (42 mil hectares) são os países onde o seu cultivo é mais proeminente mas noutros países - como Espanha, Argentina, África do Sul, Estados Unidos, Itália, Chile e Portugal - tem também já uma presença assinalável.
Mas qual é razão do sucesso dos vinhos Syrah? O facto de a uva ter uma personalidade forte é talvez a que conta mais. Os vinhos feitos a partir dela apresentam bom corpo, são potentes e cheios de sabor. As suas notas mais características variam entre frutas negras (como mirtilos e amoras), violetas e azeitonas pretas, além de especiarias picantes, muitas vezes pimenta preta, às vezes branca. Com o tempo, as dimensões aromáticas evoluem e costumam surgir notas terrosas como as associadas ao defumado, ao couro e às trufas.
Entre as muitas opções possíveis, a nossa sugestão deste mês vai para um Syrah português, o “Cem Reis Syrah 2016” da Herdade da Maroteia. Como aconteceu noutros países, até à década de 90, a casta era pouco conhecida em Portugal, mas ultrapassou já as plantações de uvas clássicas como Tinta Barroca, Vinhão/Sousão e Alvarinho.
Com 16 meses de estágio (50% em barricas de carvalho francês e 50% em barricas de carvalho americano), o “Cem Reis Syrah 2016”, do enólogo António Maçanita, é um Syrah poderoso, concentrado, com uma estrutura firme e persistente e carregada.
EXpOSIçÕES
música filmes livros
WORLD PRESS CARTOON
Camões - Centro Cultural
Português em Maputo
Patente até 23 de agosto
Horário: Segunda a Sexta das 11h às 18h
MEMÓRIAS
ExPOSIçãO DE ULISSES
Fundação Fernando
Leite Couto galeria
inauguração: 8 de agosto às 18h
Patente até 31 de agosto
4ª ExPOSIçãO
ANUAL DO PROJECTO
MUSEU DO CINEMA
Centro Cultural
Franco-Moçambicano
Sala de exposições
inauguração: 13 de agosto
Hora: 18h30
MARIA ChALEN
16Neto – Espaço Criativo
Dia: 21 de agosto
Hora: 18h30
CINEmA
CONDITIONED BODIES –DECLARATION Of INDEPENDENCE
TINA KRUgER
Centro Cultural
Franco-Moçambicano
Dia: 15 de agosto
Hora: 19h
À ESPERA
SÓNIA ANDRé E NIvALDO
vASCONCELOS
Centro Cultural
Franco-Moçambicano
Dia: 19 de agosto
Hora: 19h
fERRO EM BRASA
LíCINIO DE AzEvEDO
Fortaleza de Maputo
Dia: 19 de agosto
Hora: 16h
ShIPITO – A LENDA DO MAPIKO
ATANáSIO NyUSI E ALEx DAU
NhENhA – ANfRé BAhULE
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 20 de agosto
Hora: 18h
mÚSICA
TA ByLA yESU – ROSA NOvELA (LANçAMENTO DE CD)
Teatro Avenida
Dia: 3 de agosto
Hora: 18h
SMOLLER
16Neto – Espaço Criativo
Dia: 14 de agosto
Hora: 19h
MARRABENTA vELhA gUARDA
Museu da Mafalala
Dia: 16 de agosto
Hora: 18h
• em destaque
TexTo AnA
Queiroz/ilusTrAções PAulo Queiroz edição: escolA PorTuguesA de MoçAMbiQue
“tangerina”, de ana Queiroz e ilustrações de Paulo Queiroz, conta a história de uma menina que se confronta com o dilema de recuperar o seu lugar no quarto dos pais, após o nascimento da sua irmã, ou enfrentar as primeiras dores de crescimento.
Publicado pela escola Portuguesa de Moçambique, este é o 26º título dedicado aos mais novos no âmbito do trabalho desenvolvido na edição na literatura infanto-juvenil. ana Queiroz estudou Cinema, em Portugal, na escola Superior de teatro e Cinema. Desde aí, participou na escrita de vários documentários entre Portugal e Moçambique. Publicou na Revista CaLiBaN, na Revista 365, e foi destacada entre os Jovens Criadores 2009. Paulo Queiroz estudou pintura na faculdade de Belas-artes da Universidade de Lisboa. enquanto artista plástico participou na exposição “Quinta do gato Cinzento” como membro do colectivo Mesa-de-Luz. trabalhou ainda como assistente de produção e curadoria de artes Visuais na associação Cultural ZDB em Lisboa.
MAvUNDJA
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 22 de agosto
Hora: 18h
gOSPEL - SARA MANhIqUE
Centro Cultural
Brasil Moçambique
Dia: 31 de agosto
Hora: 16h30
tEAtRO
INCêNDIOS WADJI MOUAWAD
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Dia: 9 de agosto
Hora: 20h30
NKARINgANA WA NKARINgANA ALBERTO MAgASSELA
Centro Cultural Brasil Moçambique
Dia: 13 de agosto
Hora: 18h30
fALA COMIgO DOCE COMO A ChUvA TENNESSE WILLIAMS
Centro Cultural
Brasil Moçambique
Dia: 24 de agosto
Hora: 18h30
BRINCANDO NO ESCURO (TEATRO INfANTIL)
CARLOS ANTONhOLLI
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 31 de agosto
Hora: 10h30
“RESgAtE
a estreia da longa-metragem “Resgate” nos cinemas Lusomundo (Maputo e Matola) é um acontecimento que merece, por diversas razões, um destaque especial.
Não apenas pelas suas qualidades cinematográficas mas, em especial, pelo que representa em termos do seu modelo de produção, pois reflecte a procura de alternativas, em termos de financiamento, aos mecanismos tradicionais. Filmado entre 2017 e 2018, “Resgate” é uma obra cinematográfica independente com realização e guião de Mickey Fonseca e direcção de fotografia e edição de Pipas Forjaz. Os dois fundadores da Mahla Filmes são também os produtores executivos desta que é a sua primeira longa-metragem.
O filme conta a história de Bruno que, depois de passar quatro anos na famosa Cadeia
” , A pRODUçãO
INDEpENDENtE DE mICKEy fONSECA E pIpAS fORjAz
Central de Maputo por roubar carros, é finalmente um homem livre e quer distânciar-se do seu antigo gangue. Com o apoio de Mia, sua namorada, abre uma pequena oficina de mecânica. A vida parece estar no caminho certo quando Bruno é surpreendido por um misterioso empréstimo bancário feito pela falecida mãe. Em desespero, a única saída é fazer alguns ‘jobs’ para o seu antigo gangue. Não tarda, porém, a envolver-se até ao pescoço numa rede de raptos violentos que só beneficiam o implacável novo ‘boss’ do gangue. A ideia para o filme surgiu há alguns anos quando os raptos, abordados no filme, se tornaram mais frequentes no país.
mODELO DE pRODUçãO REfLECtE A bUSCA DE ALtERNAtIVAS AOS mODELOS tRADICIONAIS DE fINANCIAmENtO
No entanto, e tendo em atenção o tema, para Mickey Fonseca e Pipas Forjaz, era essencial ter total liberdade criativa nesta sua primeira longa-metragem. Daí que tenham decidido investir uma parte significativa dos rendimentos da Mahla Filmes - que se dedica maioritariamente à produção publicitária - em equipamento que permitisse reduzir o orçamento de “Resgate”. E, posteriormente, tenham lançado também uma campanha de crowdfunding através das redes sociais. A sua estreia em sala representa, por isso, um sinal inequívoco de que é possível produzir cinema independente em Moçambique. O elenco do filme combina o estreante Gil Alexandre, no papel do protagonista, com alguns actores já conhecidos como Arlete Bombe, Tomás Bié, Laquino Fonseca e Cândido Quembo.
“RESgAtE”
Julho
Cinemas Lusomundo (Maputo e Matola) estreia 19 de
jEEp gLADIAtOR
Motor V6
3.6L a gasolina que debita 285 cv e 353 Nm de binário
vgLADIAtOR ASSINALA REgRESSO DA jEEp
a nova pick-up jeep gladiator foi apresentada, no final do ano passado, durante o Salão Automóvel de Los Angeles. Segundo Tim Kuniskis, responsável da marca para a América do Norte, este regresso deve-se ao facto de haver “uma enorme procura deste tipo de modelo por parte dos nossos tradicionais clientes Jeep e de compradores de pick-ups de todo o mundo”. O modelo exibe uma estética robusta, de design distinto, imediatamente identificável com os tradicionais elementos de estilo Jeep. A equipa de design manteve a lendária grelha de sete entradas já conhecida do Wrangler, mas com as aberturas alargadas para aumentar a entrada de ar, de forma a compensar a maior capacidade de reboque. O topo da típica grelha foi ligeiramente dobrado para trás para melhorar a aerodinâmica. A Gladiator baseia-se, no essencial, no conhecido modelo Wrangler, mas apresen-
AO SEgmENtO DAS pICK-Up
ta diferenças significativas. É 79 centímetros mais comprida e a distância entre eixos foi alongada em quase 50 para acomodar a caixa traseira de 1,52 metros. Tal como no Wrangler, a Gladiator pretende diferenciar-se da concorrência pela oferta de recursos únicos (como pára-brisa rebatível e opção de tecto removível), e outros atributos que evidenciam a sua capacidade off-road (incluindo diferencial traseiro bloqueador, barra estabilizadora desconectável e pneus de 33”).
A construção é baseada numa estrutura chassi separada da carroçaria e oferece reboque de quase 3 500 quilos (a melhor marca para uma pick-up média), carga útil de 730 quilogramas e imersão de 75 centímetros. Em termos de motorizações, a Gladiator
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vaicontarcomdoismotoresV6. O primeiro é um 3.6L a gasolina que debita 285 cv e 353 Nm de binário. A partir de 2020, a Jeep vai oferecer a Gladiator com um motor Diesel V6 de 3.0L que debita 260 cv e 599 Nm de binário, podendo ser equipada com caixa manual de seis velocidades ou com automática de oito.
A Gladiator será vendida em três versões: Sport, Sport S e a topo de gama Rubicon. Entre os equipamentos disponíveis estão faróis de LED, diferenciais dianteiro e traseiro com bloqueio electrónico e desconexão da barra estabilizadora.
Há ainda uma câmara frontal que transmite imagens para a central multimédia. E dependendo da versão do equipamento, o écran dessa central multimédia pode ser de 5, 7 ou 8,4 polegadas compatíveis com os sistemas Apple CarPlay e Android Auto. O Gladiator 2020 oferece mais de 80 recursos de segurança e proteção activos e passivos.