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E&M_Edição 14_Maio 2019 • Beira - O caminho a seguir

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CAJU

Depois De DécaDas De quebra o país volta a ser um player

gás nAtUrAl como fica moçambique no negócio chevron-anaDarko

netflix a maior plataforma De streaming investe em áfrica

o CAminho A segUir quanto custa, o tempo que vai Demorar e como se vai

reconstruir a alma De um povo

6 Observação

Críquete a imagem do mundial deste desporto quase que exclusivamente ‘jogado’ em inglês

8 Radar

Panorama economia, banca, Finanças, Infra-estruturas, Investimento, País

12 Macro

Caju

depois de décadas de quebra, Moçambique finalmente recupera e quer liderar

26 nação

BeiRa

20 O caminho da recuperação a e&M faz todas as contas ao pós-Idai, na beira e no país

26 O que diz a economia a análise ao peso do Idai nas grandes contas da economia 30 na voz de... Pietro Toigo, o representante do banco africano de desenvolvimento

34 ProvÍncIa

Manica

Um olhar sobre a Província do ouro, onde nem tudo o que luz... é desenvolvimento

40 Mercado e FInanças

Rovuma o que muda com a operação de compra da anadarko pela gigante mundial chevron

44 eMPresas

PMe

Moz innovation Lab Uma empresa de modelos... de agro-negócio

56 MegaFone

Marketing o que está a acontecer no mundo das marcas em Moçambique e lá por fora

67 ócio

60 escape Um passeio pela Mafalala, o berço da liberdade 62 Gourmet Uma viagem pelos sabores do Jacarandá 63 adega a tequila de geroge clooney 64 agenda Música, livros, filmes 65 arte os Mabundas”, de gonçalo, santos e rodrigo 66 ao volante o novo range rover evoque

48 fIgUra do MÊs

Mais TV Meses após o início das emissões, simão anguilaze explica os objectivos do projecto

50 socIedade netflix a maior plataforma mundial de streaming investe cada vez mais. e agora quer entrar em África

54 LÁ Fora

angola as mudanças no sector petrolífero continuam. agora é a sonangol que vai ter de mudar

Período pós-ciclone

Idai – esperança de recuperação do Centro de Moçambique

a destruição de infra-estruturas, materiais e bens, bem como a perda de centenas de vidas humanas começam a dar lugar a esforços internos abnegados e apoios do exterior para os processos de reabilitação e recuperação social das zonas afectadas pelo ciclone Idai.

A solidariedade manifestada quer interna quer de vários países para o salvamento de vidas no período imediatamente após a passagem do ciclone pelo centro do país continua a estender-se para o pós-Idai visando a normalização da vida das populações, o mais rápido possível.

É de louvar a iniciativa do Governo de criar um Gabinete de Reconstrução Pós-ciclone Idai, a ser instalado na cidade da Beira, com o objectivo de coordenar as actividades de reparação de danos das infra-estruturas e no tecido social e económico, devendo para o efeito, acelerar o processo de mobilização de recursos para se implementar o Programa de Reconstrução Pós-Calamidades.

A indicação do Eng. Franciso Pereira, homem bastante experiente do sector de obras públicas e habitação, poderá tranquilizar os que se mostravam bastante cépticos quanto à gestão transparente dos fundos canalizados e a serem mobilizados para as acções de reconstrução e recuperação das zonas afectadas. Esperemos que os esforços não se focalizem em demasia na recuperação de infraestruturas, ou bens, negligenciando a recuperação social das famílias afectadas e traumatizadas em consequência das perdas materiais e dos seus entes queridos.

O sucesso das acções de reconstrução e recuperação social vai depender sobremaneira da coordenação e concertação das acções dos diversos actores do processo, da gestão transparente, equidade social e comunicação entre as partes interessadas.

A E&M encoraja os esforços que vêm sendo empreendidos para a normalização da vida das populações afectadas nas provincias de Sofala, Manica, Tete, Zambézia e o norte de Inhambane.

Director da revista Economia & Mercado

MÊS ano • nº 01

maio 2019 • Nº 14

PROPRIEDADE Executive Moçambique

DIRECTOR Iacumba Ali Aiuba

DIRECTOR EXECUTIVO Pedro Cativelos COnsElhO EDITORIAl Alda Salomão; António Souto; Narciso Matos; Rogério Samo Gudo JORnAlIsTAs Celso Chambisso; Hermenegildo Langa; Cristina Freire, Elmano Madaíl, Rui Trindade; PAGInAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Jay Garrido; Vasco Célio REVIsÃO Manuela Rodrigues dos Santos PRODUÇÃO Executive Moçambique PUBlICIDADE Ana Antunes (Gestora Comercial - Moçambique) ana.antunes@ executive-mozambique.com; iona@iona. pt/contacto@iona.pt (Portugal)

ADMInIsTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBlICIDADE Executive Moçambique; Av. Salvador Allende, nº 1039, Bairro Polana Cimento, Maputo – Moçambique; Tel.: +258 21 485 652; Tlm.: +258 84 311 9150; geral@executive-mozambique.com

DElEGAÇÃO EM lIsBOA Telheiras, Rua Poeta Bocage, Nº 2 – 1º Escritório D • 1600233 Lisboa • Portugal; Tel. +351 21 381 3566; iona@iona.pt

IMPREssÃO E ACABAMEnTO Minerva Print - Maputo - Moçambique

TIRAGEM 4 500 exemplares núMERO DE REGIsTO 01/GABINFO-DEPC/2018

propriedade Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi

observação

Grã-Bretanha, Maio de 2019 O mundO dO críquete desce à relva

É a 30 de Maio que se começa a jogar o Mundial de Críquete. Inglaterra e País de Gales organizam um torneio – agora reduzido a um formato de 10 selecções – pela quinta vez. Este jogo, também de 11 contra 11 e igualmente inventado pelos ingleses, espalhou-se, ao longo dos séculos, pelo antigo império colonial britânico que, ainda assim, nunca conseguiu conquistar o título mundial em sua casa. Por ali, nos verdes relvados da velha Albion, defrontar-se-ão parelhas que, noutro contexto, seriam improváveis. Muitos em busca de uma inédita conquista mundial. Da África do Sul ao Afeganistão, da Nova Zelândia ao Paquistão. Do Sri Lanka à Índia, claro, uma potência deste desporto. Até meados de Junho, é a Austrália a campeã de um velho mas novo mundo quase exclusivamente falante de inglês, e que será jogado e celebrado, ao longo de seis semanas, em 11 estádios e 48 jogos.

RADAR

BANCA MóvEl... EM MOvIMENtO

RápIdO

pARA lIdERAR O MERCAdO

A África Subsaariana está a registar um crescimento robusto do uso de contas móveis e já supera as contas tradicionais, segundo constatou o Fundo Monetário Internacional (FMI), no seu mais recente relatório sobre estudos económicos e financeiros.

As estatísticas apresentadas no relatório indicam que, até 2017, uma média de 500 em cada 1 000 adultos (50%) tinha conta de depósitos tradicionais, mas quase todos tinham conta móvel.

RECURSOS MINERAIS

Gás natural. Moçambique deverá vir a ser um dos dez maiores produtores mundiais de gás natural liquefei-

Gás canalizado. A Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) vai fornecer gás canalizado no modelo comercial pré-pago, na cidade de Maputo, ao contrário do que vem fazendo na província de Inhambane. A empresa já iniciou a fase piloto de ligação de gás canalizado para residências na capital moçambicana. Numa primeira etapa, o projecto beneficiará os moradores do bairro do Aeroporto, prevendo-se que a expansão para outras zonas da cidade seja de forma gradual. Recentemente, a ENH concluiu a expansão da rede de distribuição de gás natural no norte de Inhambane. Com a finalização dos trabalhos de expansão, o total de consumidores de gás canalizado é de 1 790 clientes.

preendimento necessitam de obras em profundidade, tendo a Sweco sido contratada para avaliar as necessidades e elaborar as especificações técnicas para o equipamento necessário, prestando apoio técnico na selecção de empreiteiros bem como no acompanhamento e verificação da execução dos trabalhos.

No caso de Moçambique, as estatísticas apresentam números relativamente baixos. Até 2017, só 400 em cada mil adultos estavam registados com uma conta móvel. De acordo com o FMI, o facto de a África Oriental ser a região onde mais se utiliza a conta móvel “permite tirar lições úteis, tomando em consideração que este avanço resultou do desenvolvimento de infra-estruturas que ampliaram a procura por serviços financeiros móveis na região.”

to a partir de 2025,” a par da Nigéria e da Argélia, pode ler-se na análise divulgada em Abril pela GlobalData, uma consultora de análise de dados e media, fundada em 1999. “Dentro de alguns anos, cerca de 30 milhões de toneladas por ano estarão a ser extraídos, devido aos depósitos existentes na bacia do Rovuma, onde foram já descobertos 125 biliões de pés cúbicos de gás natural”, sublinha a empresa no relatório. Nesta altura aguardam-se os FID das zonas 1 e 4, onde deverão ser anunciados investimentos de 40 mil milhões de dólares.

Electricidade. Moçambique e Malaui assinaram, em Abril, em Lilongwe, capital malauiana, um conjunto de cinco acordos técnicos e comerciais que visam a construção de uma linha de interconexão e transmissão entre os dois países para potenciar a venda de energia eléctrica ao Malaui. Avaliada em 127 milhões de euros, a linha deverá partir da subestação de Matambo, na província de Tete, percorrendo um total de 218 quilómetros, ligando o país vizinho. A concretização destes acordos poderá ser fundamental para o Malaui que se debate com uma crise energética tão profunda que paralisou alguns projectos industriais.

HCB. A empresa Sweco assinou um contrato de 5,2 milhões de dólares com a HCB, com vista a uma intervenção ao nível da modernização e aproveitamento da barragem de Cahora Bassa.

Em comunicado, divulgado em Abril, lê-se que, “ao abrigo do contrato, vão ser prestados serviços de consultoria, acompanhamento e verificação da instalação de novos equipamentos na barragem.”

É que as cinco turbinas do em-

Mineração. O Instituto Nacional de Minas (INAMI) revogou, no primeiro trimestre de 2019, 145 licenças mineiras por estarem em situação irregular, num universo de 323 títulos de exploração que estão na mesma situação.

A informação foi revelada em Abril passado pelo Director do Instituto Nacional de Minas, Adriano Sênvano. Entre as inúmeras irregularidades inscritas pelas empresas de mineração, as mais recorrentes foram a expiração dos prazos de operação concedidos e a não apresentação do relatório periódico de actividades, o que, segundo Adriano Sênvano, “é condição suficiente para revogar as licenças”.

FINANÇAS

Dívida pública. O FMI prevê que Moçambique deverá registar “a maior subida” da dívida pública da África Subsaariana este ano. O stock da dívida pública moçambicana deverá, então, situar-se nos 124,5% do PIB em 2019, face aos 100,4% registados no final do ano passado. Esta é, de resto, a maior subida dos 45 países da África Subsaariana analisa-

dos pelo FMI, cujo relatório foi divulgado em Abril passado. As previsões indicam, ainda, que a capacidade da economia nacional para fazer face às dívidas irá, todavia, melhorar em 2020, devendo, de acordo com as previsões do FMI, situar-se em 119,9%. Apesar das projecções desfavoráveis relativamente à dívida pública, o FMI prevê que o crescimento económico deste ano “seja superior” ao de 2018.

Reestruturação. A Correios de Moçambique encontra-se em situação de devedora, em mais de 50 milhões de meticais, perante os seus trabalhadores, situação que atribui “à crise financeira”, razão que poderá levar a empresa a despedir metade dos 650 colaboradores, e a vender capital no âmbito da reestruturação já aprovada pelo Governo. No mês passado, perto de 50 trabalhadores chegaram a paralisar as actividades para reivindicar o pagamento de salários em atraso. As dificuldades financeiras são antigas, mas pioraram quando o serviço Post-bus sofreu com os impactos do ciclone Idai.

Aeroportos. A empresa Aeroportos de Moçambique adiou, para o próximo ano, o início da execução dos projectos imobiliários concebidos para o Bairro da Costa do Sol, na cidade de Maputo. Trata-se de um conjunto de empreendimentos premium a serem erguidos numa área de, aproximadamente, 35 hectares no bairro da Costa do Sol cujas obras estavam

inicialmente previstas para arrancar este ano e que ficam, agora, reféns da mobilização, no exterior, de um financiamento na ordem dos 250 milhões de dólares.

Comércio. As trocas comerciais entre a China e Moçambique continuam a crescer de forma acelerada, tendo atingido os 442 milhões de dólares (aumento na ordem de 31,68%), no primeiro trimestre de 2019, face ao período homólogo de 2018. Segundo dados da administração tributária chinesa, o gigante asiático exportou bens no valor de 304 milhões de dólares (aumento de 38%) e as exportações de Moçambique foram no valor de 137 milhões de dólares (aumento de 9,49%).

Em relação aos países falantes de português, no mesmo período, o comércio chegou aos 23,5 mil milhões de dólares, um aumento de 15,61% em termos homólogos.

AGRICUltURA

Algodão. Dados do Ministério da Agricultura e Segurança Alimentar apontam para a redução da produção, na presente época agrícola, em 6 mil toneladas, das 54 mil toneladas do algodão previstas para a campanha 2018-2019, isto quando comparados com perto de 60 mil toneladas do volume global atingido na temporada agrícola de 2017-2018. O baixo preço do algodão no mercado, comparativamente a um conjunto de outras culturas de rendimento, associado a questões climáticas, são apontados como os principais factores que estão a determinar esta baixa previsão na produção deste ano. Há anos que a produção do algodão tem vindo a perder terreno para culturas como o gergelim e o feijão bóer.

Modernização da agricultura: ênfase no sector familiar e as lições do Brasil

o aumento mundial da produção de alimentos, ocorrido nas últimas seis décadas, não logrou distribuir igualmente as condições de segurança alimentar entre os países e dentro destes, nas áreas rurais. Em determinados contextos, a própria produção de alimentos gerou, paradoxalmente, insegurança alimentar, comprometendo não apenas a concretização do direito humano à alimentação adequada, mas também promovendo uma exploração insustentável, ambiental e social. Em alguns países, a passagem da agricultura tradicional (com uso de instrumentos rudimentares, força de trabalho humana e baixa incorporação dos benefícios da ciência e tecnologia), para um sistema agrário assente no uso de máquinas, equipamentos, insumos modernos e técnicas mais sofisticadas, marcou a transformação radical da agricultura e a penetração do capitalismo no campo, naquilo que foi conhecido como os “pacotes tecnológicos” da Revolução Verde. Segundo Hawken et al (2000), nos últimos 30 anos, o número de calorias alimentares disponíveis por pessoa na terra aumentou 13%, apesar do rápido crescimento demográfico, em que só a irrigação respondeu por mais de metade do crescimento da produção mundial de alimentos entre 1960 e 1980, e o uso de fertilizantes à base de nitrogénio aumentou 645%.

Porém, o modelo baseado no aumento da produtividade a qualquer custo expressou as suas próprias fragilidades. Josué de Castro (1946), que escreveu “Geografia da Fome”, traçou o panorama da fome e da sub-nutrição no Brasil, e mostrou que a alimentação precária de grande parte da população resultava mais de factores socioculturais que geográficos, defendidos pelas elites e pelo governo, como causas naturais. O autor apresenta uma forte crítica aos custos ambientais, sociais e culturais da imposição da monocultura destinada ao comércio externo, como o caso da cana-de-açúcar no nordeste brasileiro. Essa visão foi também partilhada por Rachel Carson (1962), na sua obra “Primavera Silenciosa”, em que a autora mostra como os agro-químicos, concebidos como solução para o controlo de pragas que atacavam as lavouras, se revelaram nocivos. A partir de finais da década 1960, o Brasil teve uma forte

influência na viabilização do modelo de transformação da agricultura, criando políticas e instrumentos facilitadores, como o crédito rural e as empresas estatais de pesquisa e assistência técnica. O crédito rural, subsidiado e abundante, foi favorecido pelas facilidades de captação externas, tendo sido considerado, no período entre 1965 a 1980, como a principal política que alavancou a modernização do campo. Durante o período de 1979 a 1985, foram transferidos para a agricultura cerca de 31,5 mil milhões de dólares. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agro-Pecuária (EMBRAPA) teve um papel preponderante na transformação da agricultura (geração de inovações, melhoria genética, controlo de pragas e doenças), tornando-se num importante órgão mundial de pesquisas tropicais para a agro-pecuária. Pela necessidade de completar a cadeia com a difusão, em 1974 foi criada a Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMBRATER), estatizando o serviço de extensão rural. Essas mudanças de políticas trouxeram resultados positivos no aumento da produção, produtividade e renda dos agricultores, mas ainda não davam uma atenção especial aos agricultores familiares. A partir de 1995, com o governo de Fernando Henrique Cardoso, foram tomadas medidas ousadas que resultaram na criação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), em 1996, apoiando o desenvolvimento rural através do potenciamento da agricultura de pequena escala, destinado a estimular a geração de renda e a melhorar o uso da mão-de-obra familiar. O foco desse programa esteve orientado para a geração de emprego e renda nas áreas rurais, viabilizar a infra-estrutura necessária à melhoria do desempenho produtivo dos agricultores familiares, elevar o seu nível de profissionalização através do acesso aos novos padrões de tecnologia, e estimular o acesso destes aos mercados de insumos e produtos (Guanziroli & Basco, 2010).

O acesso a linhas de crédito subsidiado para produção e investimento agrícola através do PRONAF, a obrigatoriedade de compra de alimentos da agricultura familiar pelas escolas

No Brasil, o crédito rural, subsidiado e abundante, favorecido pelo crédito internacional, tem sido considerado pelos especialistas da área, como a principal alavanca da modernização do campo

públicas, por via do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), bem como os serviços prestados pela EMBRAPA e EMBRATER, foram os principais instrumentos do Governo para mudar a agricultura. E o Estado do Paraná foi o caso paradigmático que representou um marco na luta pelo reconhecimento da agricultura familiar como um poderoso instrumento de combate à pobreza nas áreas rurais. Tornar-se uma potência no agro-negócio mundial não foi o resultado de um processo simples, no Brasil. Resultou de um conjunto de opções de políticas compreensivas e corajosas, estabelecimento de instituições relevantes e com capacidade de implementação das agendas definidas, uma abordagem gerencial multisectorial e de facilidades do Estado nos domínios do crédito, infra-estruturas, assistência técnica especializada, acesso aos mercados, ao ponto de o país ser líder mundial em culturas como soja, milho, café, carnes, frutas e etanol. As estratégias de desenvolvimento adoptadas no Brasil conectaram a agricultura com o desenvolvimento rural e a diversificação económica, focado na erradicação da fome e da pobreza, e procurando contrariar o efeito nefasto das mudanças climáticas, do desafio demográfico, do crescimento galopante da urbanização e a necessidade de manter a economia competitiva no concerto das Nações. Moçambique é um país eminentemente agrário, com elevado potencial no agro-negócio e com tudo a seu favor para erguer uma dinâmica economia multissectorial rural. Cerca de 68% da população nacional vive em áreas rurais e depende da agricultura de pequena escala como uma das principais fontes de rendimento e reprodução social, e o contributo do sector agrário para o PIB é de perto de 25%. A baixa produtividade

é uma das principais causas da pobreza, cuja incidência está acima de 46%, a insegurança alimentar está ao nível de 24% e a taxa de desnutrição é de 43%. Os agricultores familiares perfazem acima de 3,8 milhões (99,9% de todas as explorações), fornecem a quase totalidade dos alimentos produzidos (99,7%) e detêm uma área média de 1,4 hectares. O grau de integração dos agricultores familiares no mercado é limitado e a base tecnológica é de tal forma baixa que apenas 3,7% das explorações agrícolas usam fertilizantes, 2,5% utilizam pesticidas, 5,3% das explorações são irrigadas, 1,6% usam meios mecânicos (tractores) e perto de 0,3% têm moto ou electro-bombas. Os pequenos agricultores beneficiam de menos de 5% do crédito agrário e a cobertura da extensão rural é de 6,6% (Mosca, 2016; Mosca, 2015; Mosca & Dadá, 2014).

A agricultura é a base de desenvolvimento porque é a actividade que, de longe, mais influi na subsistência, emprego, rendimento e PIB das famílias moçambicanas. Com o incremento do turismo, do sector energético, da agro-indústria e das pescas, a agricultura vai ter de jogar o seu papel de “pivot” na nova economia pujante a edificar. O advento da exploração dos recursos minerais reforça o seu contributo no desenvolvimento económico. Por isso, a aposta em boas políticas, instituições fortes com capacidade transformativa, recursos com formação, aposta inequívoca nas PME, nas mulheres e jovens e na ciência, tecnologia e inovação, podem fazer a diferença. Um Estado que quer manter a agricultura como pilar do desenvolvimento rural e do combate à pobreza deve encontrar solução para os problemas do crédito agrário, comercialização rural, implantação de infra-estruturas e incremento tecnológico.

Viveiro de eucaliptos, em Sofala. Um bom exemplo de inovação numa área fundamental para o desenvolvimento como é a do agro-negócio

o que pôs o Caju a CresCer?

Moçambique foi, outrora, o maior produtor mundial de castanha de caju, mas perdeu competitividade nas últimas três décadas. No entanto, voltam a registar-se sinais encorajadores de recuperação. A E&M foi perceber porquê

na década de 70 do século passado, Moçambique era o maior produtor mundial de castanha, com uma produção média de 200 mil toneladas por ano. No entanto, a partir dos anos 80, e nas décadas que se seguiram, a produção começou a definhar e os seus níveis retraíram de forma drástica, para números na ordem das 80 mil toneladas por época, uma tendência que se foi arrastando em queda até 2012, ano em que a safra se ficou pelas 64 mil toneladas. Um estudo designado Mozacaju, desenvolvido pela TechnoServe, uma organização não governamental presente em 29 países, financiada pelos Estados Unidos, aponta precisamente nesse sentido, e chega a uma conclusão há muito

34,5%

Foi o aumento da produção desde 2016, um sinal de retoma de uma cultura essencial para 1,4 milhões de moçambicanos

conhecida: “o caju, para além de ser um aglutinador de valor por excelência, chegou a empregar mais de 50 mil pequenos e médios produtores que beneficiavam da venda da castanha em bruto às empresas de processamento, e também exportando para o mercado internacional. Mas com o tempo, verificou-se uma devastação de toda a cadeia de produção, desde as unidades fabris de processamento, e até das próprias árvores”, pode ler-se.

Tudo estava mal Ao longo de décadas, a cultura do caju foi sofrendo transformações, sobretudo depois da independência nacional e no período pós-guerra civil. No entanto,

a instabilidade do país não foi a única razão para a decadência de uma cadeia de valor tão importante, e alguns economistas também responsabilizam, no processo, o Banco Mundial, visto que o colapso da indústria do caju em Moçambique se iniciou na década de 1990, depois de a instituição ter encorajado a exportação da castanha em bruto para a Índia, o que veio fazer com que o sector transformador definhasse, e perdesse com isso grande parte da cadeia de valor entretanto estabelecida. Tudo isto terá feito despertar muitas consciências para fazer face ao problema.

sinais de retoma

A verdade é que, depois do pico negativo de 2012, os últimos anos da produção de caju têm revelado uma evolução bastante significativa, sobretudo nas regiões

Centro e Norte do país. Durante décadas, o caju ajudou a estruturar a economia das províncias de Nampula, Cabo Delgado, Zambézia, Inhambane e Gaza, os principais produtores.

E é por lá que estão a surgir os primeiros sinais de revitalização. Mas já lá vamos. O sector envolve, nesta altura, cerca de 16 fábricas, com uma capacidade instalada de 100 mil toneladas por ano, apesar de estarem a processar cerca de 70 mil nesta altura. O restante (outras 70 mil toneladas) seguem em cru para a Índia e Vietname, os maiores mercados compradores do caju nacional.

A E&M conversou com o director nacional do Instituto Nacional do CAJU (INCAJU), Ilídio Bande, instituição criada há duas décadas pelo Governo com o propósito de revitalizar o sector. E é por aí que começa: por uma mudança de paradigma em que “os actuais níveis tecnológicos são bem diferentes dos que existiam no passado. Naquela altura havia fábricas muito grandes, com maquinaria bastante pesada e que empregavam muita gente. Mas agora a maior parte dos processos estão automatizados”, argumenta. Depois, um outro dilema tem a ver ainda com as próprias árvores, a maioria já bastante velhas e sem a capacidade de produção de outrora. Um estudo recente feito pelo INCAJU constatou isso mesmo: existem no país cerca de 42 milhões de cajueiros, mas 30% deles estão bastante envelhecidos e já não oferecem garantias ao nível da capacidade de produção, em quantidade e qualidade. “Os que estão em condições de produção plena serão hoje cerca de 60% do total de árvores existentes, razão pela qual, embora

mil toneladas

Foi a produção total de caju em 2018. a quase totalidade Foi destinada à exportação, gerando uma receita entre 80 e 100 milhões de dólares

a população de cajueiros seja grande, a produção não seja elevada. Temos de desencadear uma grande campanha de substituição dos cajueiros velhos”, avança o responsável.

Os efeitos da aposta na industrialização e na reforma forçada dos cajueiros antigos dá os primeiros sinais, ilustrados por uma produção em crescendo nos últimos anos, numa inversão de tendência encorajadora para a economia.

Nas duas últimas épocas de colheita registou-se um incremento de produção na casa dos 35%, passando de 104 mil toneladas em 2016 para 140 mil toneladas, em 2018, um sinal que anima, e de que maneira, os cerca de 1,4 milhões de moçambicanos envolvidos directamente nesta cadeia produtiva.

o que foi feito

Esta melhoria tem, pois, a ver com um conjunto de acções desenvolvidas nos últimos anos, para ‘reacender’ esta preciosa colheita, até para as contas gerais do país.

O programa de intensificação de produção e distribuição de mudas para repovoar os campos, adoptado pelo Governo em 2009, foi uma das medidas que mais impulsionou o crescimento do sector nos últimos anos, e que culminou com a criação de um dos maiores viveiros de mudas de cajueiros do mundo, localizado no distrito de Meconta, na província de Nampula, que produz actualmente cerca de 800 mil árvores por ano.

É, de resto, nesse ponto, na produção de mudas que serão utilizadas para a substituição dos cajueiros velhos, que, de acordo com o INCAJU, está a incidir a maior parte dos investimentos no sector. Sem revelar valores, Ilídio Bande revela à E&M que “está a decorrer um investimento, de forma a poder produzir uma média anual de 4 milhões de novas mudas por ano que serão depois distribuídas e plantadas. Neste momento contamos com 20 viveiros de grande dimensão espalhados por todo o país”

Depois, também ao nível macro económico, o caju tem dado melhores frutos nos últimos anos. De acordo com o INCAJU, nos últimos três anos, a receita da venda para os mercados de exportação tem oscilado entre os 80 e os 100 milhões de dólares por ano.

Investimento externo

O projecto Mozacaju, financiado pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos da América), tem tido um

ProDUção AUMENtoU

34,6% DEsDE 2016

Durante as campanhas de 2016 a 2017, a produção de caju apresentou um crescimento significativo

impacto significativo para os sinais que hoje em dia o país começa a observar.

“Desenvolvemos várias campanhas de sensibilização e de formação dos produtores de castanha nas zonas Centro e Norte para melhorar aspectos da produção”, explica Jane Grib, directora-geral da TechnoServe, instituição mentora do projecto Mozacaju.

Para já, o desafio é chegar às 200 mil toneladas e voltar a ser um dos grandes players da região, num mercado global liderado pelo Vietname, Índia, Brasil, Nigéria, Costa do Marfim e Guiné.

Entre todos os países produtores de caju, os africanos contribuíram com 56,5% da produção global, enquanto os asiáticos se ficaram pelos 44%, em 2018. Nos últimos oito anos, o Vietname aumentou a sua presença de exportação para mais de 85 países e é responsável por 60% da produção mundial, com 1,65 milhões de toneladas por ano. É o maior fornecedor de caju para os Estados Unidos, China, Austrália, Canadá e Nova Zelândia, e um exemplo de uma política bem seguida. Há até quem diga que muitas das mudas que hoje, naquele país asiático, ajudaram a produzir estes resultados, vieram de Moçambique. Por outro lado, adoptou uma lógica de compra do caju cru, apostando no sector da transformação. Também aqui, é o maior comprador, a par da Índia (que segue a mesma lógica) de caju moçambicano, que depois exporta como produto vietnamita a um preço que pode multiplicar por cinco vezes o da compra, por ser um produto acabado.

As províncias de Nampula e de Cabo Delgado lideram a produção da castanha de caju, com 40% e 35% do total nacional

Mas para Moçambique voltar a constar deste ranking (é o 6º produtor africano) o caminho é ainda longo. Em África, Costa do Marfim e Guiné-Bissau têm uma produção anual de mais de 700 mil toneladas por ano, cinco vezes mais do que a de Moçambique.

Para tal, o Governo avança que há esforços em curso. O controlo de doenças e de pragas que afectam o caju e a instalação de novas indústrias de processamento estão em marcha. No entanto, fazendo fé nos dados facultados pelo INCAJU, apenas 5,2 milhões de cajueiros é que são assistidos e “é preciso fazer mais.”

aproveitar o que o cajueiro oferece Ainda assim, há duas décadas que não se falava com verdadeiro entusiasmo numa indústria de processamento de castanha de caju, como nos últimos anos. “Actualmente estamos com uma capacidade de processamento limitada, mas as indústrias que estão a ser instaladas agora, de médio e grande porte, têm um potencial de produção que nos vai levar para perto das 100 mil toneladas, aumentando a receita e alavancando a produção”, aponta o INCAJU. Mas, há mais por fazer e uma das questões por resolver no sector é o melhor aproveitamento de tudo o que um cajueiro produz, não se limitando ape-

nas ao fruto, tal como acontece agora. Por isso é que António Francisco, investigador do IESE, considera “não existir ainda” uma verdadeira política de aproveitamento da árvore, sublinhando que, até pelo seu valor económico, “o cajueiro já deveria ser considerado como a árvore de bandeira nacional. Metade da população moçambicana tem um cajueiro, pelo menos e há um potencial brutal que está a ser desperdiçado.”

O director nacional do INCAJU concorda. “O sector está ainda sub-aproveitado porque a castanha e a amêndoa do caju não são a totalidade do fruto, existindo o resto que ainda é dado como desperdício por falta de capacidade de transformação.”

É por isso que está em curso uma reforma de regulamentos e da comercialização que também poderá incluir o aproveitamento económico de outros derivados do cajueiro.

“Conseguimos que fosse reformulado o regulamento da comercialização da castanha, de forma a que se torne mais abrangente a toda a cadeia que fomenta. Também deve haver estabelecimento de preço de referência ao produtor, que até agora estava liberalizado”, explica.

texto hermenegildo langa fotografia jay garrido & d.r.

Ilídio Bande, director do Instituto Nacional do CAJU (INCAJU), está optimista com o aumento da produção
Em milhares de toneladas

Números em conta

a carga pronta e

metida

nos contentores do porto de maputo

o porto de contentores mais importante de Moçambique tem recebido investimentos, de forma consistente, ao longo dos últimos 15 anos. Entre 2003 e 2016, foram investidos 800 milhões de dólares e, nesta altura, a Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) tem em curso um pacote de investimentos orçado em 200 milhões de dólares, adjudicados a novos projectos portuários e ferroviários. O volume recorde, que já ultrapassa os mil milhões de dólares em década e meia, está alavancado pelo aumento dos lucros do transporte de contentores, devido ao trabalho de dragagem concluído no ano passado, que aumentou a profundidade mínima do canal de acesso para 14,3 metros, permitindo assim acesso de embarcações pós-Panamax, maiores volumes de carga e mais eficiência. Até 2033, Maputo deverá ser um dos principais da SADC e uma alternativa aos grandes portos sul-africanos.

200

milhões de dólares

O QUE FALTA

A próxima fase de melhorias portuárias já está em curso e irá fornecer acesso a navios de maior porte, encorajando as companhias marítimas a incluírem Maputo nos seus serviços intercontinentais. Estão a ser ampliados os berços 6, 7, 8 e 9 para uma profundidade de 15 metros, até Janeiro de 2020.

5,3

milhões de toneladas O CARVÃO

Além dos contentores, a carga mais importante do porto é o carvão escoado pelo Terminal de Carvão da Matola (MCT). Operado pela Grindrod, o MCT, que lida apenas com carvão sul-africano, embarcou um recorde de 5,3 milhões de toneladas em 2017, com a maior parte expedido para clientes asiáticos. A Matola está a ser ‘trabalhada’ como alternativa viável ao Richards Bay Coal Terminal, na África do Sul, o maior terminal de carvão no Hemisfério Sul. A Matola processa actualmente o minério extraído na província de Mpumalanga, mas está, de acordo com os especialistas do sector, bem colocada para receber carvão da Bacia de Waterberg, no extremo norte da África do Sul, que está a ser desenvolvida para substituir os campos de Mpumalanga.

1 000

milhões de dólares

O INVESTIMENTO

O nível recorde de investimento entre 2003 e 2019 foi possibilitado pelo aumento dos lucros do Porto, essencialmente explicado pelo aumento de carga transportada.

A CARGA...

As melhorias no Porto de Maputo fizeram aumentar os volumes de carga transitada, tendo sido estabelecido um recorde anual de movimentação, no ano passado

Em milhões de toneladas em cargas combinadas de importação e exportação

26%

FERROVIA

A proporção de carga que chega ao Porto por ferrovia, em vez de rodovia, aumentou de 18% em 2016 para 26% em 2018.

85

milhões de dólares

O QUE FOI FEITO

Maputo beneficiou de um trabalho de dragagem substancial ao longo dos últimos anos, concluído a um custo de 85 milhões de dólares. A profundidade mínima do canal de acesso foi aumentada de menos de 11 metros para 14,3 metros, permitindo o acesso de embarcações pós-Panamax.

O aumento de transporte de cargas combinadas de importação e exportação, em 2018, face ao período homólogo

... E OS CONTENTORES

A capacidade de manuseamento do terminal de contentores de Maputo foi aumentada

Carga por ano em TEU

Q&a: o que é a mpdc?

A Companhia de Desenvolvimento do Porto de Maputo (MPDC) é uma empresa privada nacional, que resulta da parceria entre a Caminhos de Ferro de Moçambique e a Portus Índico, constituída pela Grindrod, DP World e a empresa Mozambique Gestores. A concessão (até 2033) é operada pela Companhia de Desenvolvimento do Porto de Maputo (MPDC), propriedade da Grindrod (24,7%), DP World (24,7%), CFM (49%) e a empresa nacional Moçambique Gestores (1,6%).

A DP World, com sede nos Emirados Árabes Unidos, é uma das maiores operadoras portuárias do mundo. Já a Grindrod é uma empresa de logística sul-africana com interesses em toda a África Austral.

Um TEU, ou unidade equivalente de vinte pés, é o tamanho do contentor padrão da indústria (1) Previsão FONTE MPDC

Nação

à beira do que se segue

O tempo tem-se encarregado de lavar o conformismo face a tudo o que se perdeu, ao mesmo tempo que a solidariedade e a força de vontade em reconstruir o que foi com o Idai devolvem a esperança por dias melhores. Hoje, quase dois meses após o ciclone, ainda se apura a dimensão real dos danos em contas de somar e subtrair que só revelam o quão sinuoso é o caminho que está adiante. Disciplina, responsabilidade, transparência e coordenação são indispensáveis para vencer esta nova e longa batalha

É uma mobilização jamais vista e que, desde cedo, vem cobrindo, em donativos, toda a fase de emergência, que deve terminar no fim de Maio corrente.

Com diversas equipas de Avaliação das Necessidades Pós-Idai (PDNA na sigla em inglês) já no terreno, é tempo de fazer contas sobre como será o processo de reconstrução das infra-estruturas sociais e económicas, que vão desde vias de acesso aos sistemas de abastecimento de água e electricidade, passando pela reconstrução de escolas, hospitais, entre outras. No processo, terão de passar certamente muitas noites em branco. 500

milhões de dólares

É a estimativa do valor necessário para reconstruir toda uma região devastada que viu estradas, pontes, habitações, escolas, hospitais, indústrias e outras infra-estruturas serem completamente destruídas

o desafio de financiar…

As doações já feitas e as promessas de recursos para esta missão fazem prever facilidades que só o tempo se vai encarregar de testemunhar, já que não se sabe ainda quanto dinheiro será necessário (prevê-se que seja um valor acima dos 500 milhões de dólares), nem o que se vai conseguir mobilizar para as necessidades mais imediatas, na Conferência de Doadores, convocada pelo Governo para este mês. Por agora, vale dizer que a rectificação do Orçamento do Estado, anunciada pelo Executivo como uma das armas para financiar a reconstrução, é uma medida que divide as opiniões dos economistas ouvidos pela E&M. “Não faz sentido dizer que a reconstrução vai requerer um Orçamento rectificativo porque não se explica como se vai fazer isso”, defende António Francisco, economista e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE).

É que perante as dificuldades financeiras que o país atravessa, o Orçamento do Estado (OE) vem sendo definido com base em rigorosos critérios de austeridade à imprensa chegam, diariamente, ao longo dos últimos dois meses, boas novas que dão conta da entrada de donativos de organizações e pessoas de boa vontade, avaliados nesta altura em algumas centenas de milhões de dólares, para apoiar a reconstrução de tudo o que foi danificado. Também foi criado pelo Governo o Gabinete de Reconstrução Pós-Idai, que irá coordenar todas as acções de reposição das infra-estruturas destruídas pelo ciclone.

Nação

O furacão Katrina, que em 2005 atingiu Nova Orleães, nos EUA, vitimando 1 800 pessoas, é um dos exemplos da dificuldade em reconstruir infra-estruturas. Dez anos depois, ainda decorriam as obras, que acabariam por custar 108 mil milhões de dólares

e, ainda assim, já se previa um défice de 90 mil milhões de meticais, mesmo com todas as “gorduras” cortadas, pelo que o economista não vê em que sectores se poderá cortar mais para acomodar o objectivo da reconstrução pós-Idai.

A esse respeito, o Executivo não apresenta detalhes sobre como pretende reorientar os recursos do OE, já que “está tudo ainda a ser estudado”, segundo a porta-voz do Conselho de Ministros, Ana Comoana, na altura em que anunciou que a revisão orçamental estava a ser equacionada.

O economista Alfredo Mondlane assume uma posição similar à de António Francisco, afirmando ser “difícil, nas condições actuais, mexer no OE sem prejudicar as áreas sociais”, o que sugere medidas “minuciosamente estudadas, visto que esta revisão implica a retirada (e não adição) de recursos em rubricas que, desde cedo, estavam sujeitas a operar em défice”, considerou.

reconstruir sem rectificar

O FMI aprovou um montante de assistência financeira de emergência no valor de 118,2 milhões de dólares, no âmbi-

to da Facilidade Rápida de Crédito (RCF), abrindo excepção à postura assumida há três anos, quando cancelou todo o tipo de apoio ao país. Junta-se agora a vários outros intervenientes, para suprir o elevado défice orçamental e de financiamento externo decorrente das necessidades da reconstrução. Em comunicado, o FMI dá a entender que a solidariedade “é a resposta ao esforço das autoridades para com a causa. As autoridades continuam comprometidas com a estabilidade macroeconómica, que também será sustentada pelo financiamento do FMI. As principais medidas fiscais incluem a realocação das despesas de menor prioridade para a assistência de emergência para os mais pobres e para a reconstrução”. Este e outros apoios que vão chegando levam os economistas a acreditarem na possibilidade de se evitar a rectificação do OE. “Primeiro, é preciso saber os recursos que o Governo já recebeu em apoios para depois definir se será mesmo necessário recorrer ao orçamento rectificativo, porque o que o país já recebeu e o que já está prometido pelos doadores pode até ultrapassar o que se tem como défice do Orçamento”, defende

António Francisco, conhecido também por ser crítico em relação à forma como é gerido o OE. “É nestas alturas que acho que o Governo se aproveita para transferir recursos das actividades prioritárias para as não prioritárias”, criticou. Já Alfredo Mondlane defende que será o sucesso da Conferência de Doadores que levará o Executivo a “desistir do rectificativo”, por acreditar que ali “poder-se-ão mobilizar recursos suficientes, visto que o relatório das necessidades será já conhecido”.

elogios ao gabinete de reconstrução

Em relação ao Gabinete de Reconstrução Pós-Idai, António Francisco considera ser “uma oportunidade de apoiar o Conselho Municipal da Cidade da Beira na gestão das necessidades do espaço municipal. Mas desconfio que isso não aconteça. O Governo ficará ele mesmo a gerir o processo, tal como aconteceu com os ´sete milhões´ (fundos de apoio a iniciativas locais introduzidos no Governo do ex-Presidente Guebuza), criticou uma vez mais, vincando o seu descrédito em relação à capacidade de mobilizar recursos, justificado pelo facto de “os doadores não terem razão para confiar nos nossos gestores”, sendo desde já, necessário que “demonstrem com transparência como será gerida a ajuda, não dando azo a dúvidas.”

Ari Aisen, representante-residente do FMI em Moçambique, dá a entender que a criação do Gabinete de Reconstrução Pós-Idai seria mais uma janela para o restabelecimento da confiança pelas autoridades moçambicanas, que se perdeu há três anos. Aisen, que visitou a cidade da Beira em finais de Abril, entende que este Gabinete “será um sinal de busca pela boa governação e transparência.”

Para já, tudo está em dúvida. Mas as estimativas preliminares do Governo apontam para a necessidade de mais de 500 milhões de dólares e um prazo de, pelo menos, cinco anos para a reconstrução total da Beira e das zonas afectadas pelo Idai. “A primeira grande missão passa por desenhar um plano para recolocar infra-estruturas resistentes às intempéries”, considera José Forjaz, arquitecto de renome, há muito tempo radicado em Moçambique, sugerindo que isso exige muito dinheiro já que “requer a transformação do padrão anterior das construções. A equipa do Conselho Municipal está ciente disso e dispõe de pessoal com capacidade técnica para corrigir o que está mal, estou certo disso. Já o ambientalista Carlos Serra vai mais longe. “As projecções da cidade da Beira

Plano de recuperação após o Katrina, nos EUA, tem sido dado como exemplo da demora na reconstrução

os grandes números de uma... grande ajuda

a comunidade internacional está sensibilizada e os apoios vão chegando num ritmo que tem gerado alguma confusão entre os que se direccionam à situação de emergência e os que serão adjudicados à reconstrução pós-idai. eis alguns dos mais destacados:

300

milhões de dólares

A Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a revisão do seu programa de apoio à reconstrução de infra-estruturas destruídas pelo ciclone tropical Idai, passando de 200 para cerca de 300 milhões de dólares.

118,2

milhões de dólares

A assistência financeira aprovada pelo FMI no quadro da Facilidade Rápida de Crédito, que visa suprir os elevados défices orçamentais e de financiamento externo decorrentes das necessidades de reconstrução após-Idai.

100

milhões de dólares

Valor que o BAD vai disponibilizar a Moçambique, Zimbabué e Malaui para os projectos de reconstrução pós-Idai. O valor será repartido entre os países e Moçambique terá a maior fatia, visto que é o território mais afectado pelo fenómeno.

90

Milhões de dólares

Ainda em Março, o Banco Mundial havia prometido o desembolso de 90 milhões de dólares, no âmbito do programa de gestão de acidentes e riscos incluindo a minimização das consequências da passagem do ciclone Idai.

50

milhões de dólares

A Alemanha vai doar 50 milhões para a restauração do rio Chiveve e dos mangais que “deverão ter um efeito positivo a médio e longo prazo contra as mudanças climáticas”, de acordo com Detlev Wolter, embaixador alemão em Moçambique.

1,5

milhões de dólares

É o apoio do Fundo de Solidariedade criado pela CPLP para apoiar as regiões atingidas pela calamidade. A iniciativa surge após a reunião do Comité de Concertação Permanente, com representantes dos nove Estados-membros.

Nação

indicam que nos próximos anos poderá ficar submersa, a não ser que façamos grandes investimentos em infra-estruturas como diques, aterros, e todos os sistemas defensivos artificiais que custam muitos milhões de dólares”, defende. Ambas as intervenções consubstanciam o apelo feito pela diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para as Habitações (UN-Habitat), Maimunah Mohd, no sentido de se investir “em construções resistentes, para prevenir novos impactos climáticos, como aconteceu com o Idai”. O que ganha especial relevância após o pior ciclone tropical da última década, pelo menos, na região do sudoeste do Índico. Mas outros virão. Moçambique é o terceiro país africano mais vulnerável a desastres relacionados com fenómenos meteorológicos extremos, de acordo com o Global Facility for Disaster Reduction and Recovery (GFDRR), um grupo de trabalho ligado ao Banco Mundial e às Nações Unidas, que divulgou as suas conclusões há poucos meses. Felizmente, não faltam sinais de que é possível vencer as batalhas que se impõem. Mesmo antes da Conferência de Doadores, instituições como o Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento,

losserra

r

aC

ambientalista

“É preciso avaliar se valerá a pena continuar a apostar em áreas que sabemos que vão ficar abaixo do nível do mar nos próximos anos… repensar o tipo de cobertura dos edifícios, mesmo que o mais seguro saia relativamente caro”.

FMI e a UE, além de terem anunciado pacotes de apoio directo à reconstrução, comprometeram-se ainda a ajudar na mobilização de outros financiadores. Olhando às contas já fechadas, a EDM contabilizou 120 milhões de dólares para a reposição do sistema de abastecimento de energia afectado. Luís Amado, porta-voz da estatal explica à E&M que, para as redes de distribuição, está a trabalhar com a Norconsult, da Noruega, e com a Fishtner da Alemanha para as centrais de Chicamba e Mavusi, na província de Manica, que foram danificadas. Nesta altura, a EDM está a repor 7 000 torres de baixa tensão, 2 000 postes de média tensão e cerca de 3 000 mil quilómetros de rede eléctrica. “Todo este trabalho exige a mobilização de financiamento, consultores, empreiteiros, entre outros, levando a que o processo se possa estender por mais de seis meses, dependendo da entrada de financiamento. Por enquanto, ele ainda não chegou”, lamenta, recordando os 21 milhões de dólares já gastos. Já o sector da Educação avaliou em 30 milhões de dólares as necessidades para reconstruir e reabilitar mais de seis mil salas de aula nas quatro

Gabinete de Reconstrução Pós-Idai aponta para um período de cinco a dez anos para conclusão dos trabalhos

províncias afectadas pelo ciclone. Até aqui, o debate tem naturalmente estado centrado na reacção. E é legítimo que assim seja. Mas há uma discussão oportuna a desenvolver. A precaução. O ambientalista Carlos Serra entende que o Gabinete de Reconstrução Pós-Idai deverá tomar em conta a reposição do ecossistema no mapa da reconstrução. Para argumentar, avançou com o exemplo da experiência de 2004, ano em que um tsunami devastou 12 países da Ásia e África. “Vários estudos mostram que se, porventura, os ecossistemas costeiros não tivessem sido profundamente alterados e danificados (construção em locais impróprios, destruição de dunas, de vegetação costeira e de recifes de coral), o número de vítimas e de estragos materiais não teria sido tão elevado”. Trata-se de um exemplo aplicável à cidade da Beira “cujo ecossistema tem vindo a sofrer profundas alterações. Havia a formação de mangal que serve para proteger a costa da subida do nível das águas e as populações contra a

ónioFranCisCo

a n t

economista

“recorrentemente, não nos preparamos para este tipo de eventos. O Porto da Beira é um bom exemplo de que era possível fazer algo para evitar danos de maior envergadura… nunca atacamos estas situações com funcionalidade.”

acção dos ventos”, o que aumentou a vulnerabilidade da área. “O ciclone chegaria sempre. A grande diferença é que se efectivamente tivéssemos uma formação de mangal intacta, certamente não teríamos danos desta magnitude”. Serra faz também menção à necessidade de se fazer o ordenamento do território “que, mais do que desenhar ruas, passa por equacionar espaços públicos, drenagens de água, pontos de fuga ou saídas de emergência. sob pena de estarmos sujeitos a outro tipo de riscos, como o que aconteceu numa cidade da Grécia no ano passado, em que um incêndio matou muita gente que não conseguiu fugir a tempo porque os acessos estavam limitados”, descreveu, sublinhando a necessidade de se optar por alternativas de reconstrução que sejam mais seguras e por isso… mais caras. Veremos como, quando e com que cara, renascerá a Beira.

textO Celso Chambisso fOtOgrafia Jay Garrido, istoCk Photo

O que O IdAI levOu e O que A AjudA externA deIxArá nA ecOnOmIA

O Governo reviu em baixa o crescimento do PIB para não mais do que 2,8% este ano. É a previsão mais pessimista, mesmo que os apoios continuem a surgir, apesar do caso das dívidas ocultas, mostrando que Moçambique continua a ter muitos amigos lá por fora. Para já, o FMI autorizou um empréstimo de emergência de 118,2 milhões de dólares

se há coisa que o ciclone idai provou foi que Moçambique tem ainda, de facto, muitos amigos. A ajuda humanitária fez toda a diferença nos dias e semanas críticos que se seguiram à devastação provocada pelo Idai. Graças a aviões, helicópteros, barcos e pessoal treinado, a tragédia foi mitigada até onde foi humanamente possível. O apoio chegou de 15 países, além de várias dezenas de organizações internacionais como agências das Nações Unidas, Cruz Vermelha e Crescente Vermelho e Médicos Sem Fronteiras, organizações religiosas de todos os quadrantes e muitas empresas nacionais e internacionais.

2,8%

Taxa de crescimenTo do pib foi revisTa em baixa pelo governo

E a ajuda financeira também está a chegar. Pela primeira vez em alguns anos, o Fundo Monetário Internacional (FMI) vai voltar a desembolsar verbas após o escândalo das dívidas ocultas. A questão é: a ajuda dos amigos vai chegar para recompor o centro de Moçambique?

As contas que contam O primeiro a fazer as contas do impacto do Idai em Moçambique e a apresentá-las publicamente foi o ministro da Economia e Finanças, Adriano Maleiane que, publicamente, previu um verdadeiro trambolhão no crescimento económico inicialmente previsto para este ano.

dInheIrO AjudA mAIs dO que dOnAtIvOs

Um pouco por todo o mundo, especialmente em países de língua portuguesa e em muitos dos que têm missões de cooperação em curso em Moçambique, têm surgido iniciativas solidárias de recolha de donativos para enviar para Moçambique. No entanto, enviar uma dúzia de latas de salsichas, por exemplo, a partir de Portugal, pode custar até 200 euros, o mesmo valor que, por exemplo, o Programa alimentar Mundial (PaM) usa para alimentar 20 pessoas durante um mês, alerta Pedro Matos, coordenador de emergência do PaM. “eu e a maior parte das pessoas do mundo humanitário estamos convencidos que, efectivamente, a melhor forma de ajudar é fazer donativos em dinheiro. as pessoas têm a ideia de que o dinheiro pode ser desviado mas, na realidade, não há motivo nenhum para acreditar que isso acontece com o dinheiro, e não com o arroz, por exemplo”, adianta. O responsável do PaM admite mesmo

que “há qualquer coisa de enormemente recompensador na acção de comprar alguma coisa para dar”, mas insiste que os donativos em géneros acabam por se revelar “um problema”. e explica que isso se deve a questões logísticas. ”É preciso alguém para receber o contentor e distribuir os géneros, separar roupas, fraldas e alimentos que, muitas vezes, se encontram misturados” e tudo isso não passa de uma “gota no oceano das necessidades”, referiu. Por isso, “o ónus destas contribuições em géneros” recai nas próprias organizações humanitárias que estão no terreno e são, por exemplo, obrigadas a desviar pessoas para separar todos os bens, em vez de distribuírem alimentos.

O coordenador de emergência do PaM sugere, antes, que as pessoas ponderem na escolha de uma organização em que confiem plenamente e que procurem informações na internet sobre o destino que é dado aos seus donativos em sites como o www.charitynavigator.org.

Ashbourne, analista que segue Moçambique na consultora Capital Economics, e que considera que, apesar de ter sido devastador do ponto de vista humano, o ciclone deverá ter um impacto “surpreendentemente limitado” do ponto de vista económico. “A economia moçambicana é baseada apenas em alguns sectores, por isso, se estes continuarem a funcionar, os danos para a sociedade, de uma forma geral, podem não ser assim tão evidentes nos dados económicos oficiais”, nomeadamente no PIB.

Os sectores chave são a exportação de minérios e electricidade. “Desde que o comboio para Nacala funcione”, exportando carvão e outros minerais, “a disrupção pode não ser assim tão enorme”, conclui o economista, que se mostra mais preocupado com os prejuízos na infra-estrutura eléctrica de exportação para a África do Sul.

A Electricidade de Moçambique (EDM) está a avançar com as reparações, orçadas em 120 milhões de dólares, para reconstruir a grelha de distribuição destruída no centro do país.

Parte do montante será mobilizado através de fundos internos, sendo que o Governo e os parceiros internacionais vão cobrir o remanescente.

As suas previsões, foram, com ou sem surpresa, as mais pessimistas de todas, até agora. “Estimamos uma perda de dois pontos percentuais em função do que tínhamos projectado para 2019”, afirmou, referindo que as previsões nacionais anteriores apontavam para um crescimento de 3,8%. “Com este ciclone, pensamos que o PIB pode baixar para um intervalo entre 1,1% e 2,8%, portanto [o impacto do Idai] é muito forte”, declarou Adriano Maleiane, em Washington, na sede do Banco Mundial, no final de uma mesa redonda em meados de Abril sobre o ciclone Idai - um encontro que contou com representantes de 30 nações.

O ministro acrescentou que o Governo espera, ainda, uma subida da taxa de inflação - que no final de 2018 se situava em 3,8% - na ordem de um dígito, devido às enormes necessidades criadas pelo ciclone. No entanto, o Executivo vai esforçar-se para “minimizar o sofrimento dos mais necessitados” e “tudo fazer para que a inflação não atrapalhe”, declarou.

Impacto limitado?

A declaração de Adriano Maleiane contrasta, por exemplo, com a de John

foram os países que movimenTaram meios e pessoal para apoio: África do sul, angola, boTsuana, brasil, espanha, esTados unidos da américa, frança, índia, iTÁlia, quénia, marrocos, porTugal, reino unido, Tanzânia, Turquia.

A consultora EXX Africa perspectiva maiores dificuldades. Considera que “a capacidade de Moçambique recuperar rapidamente depois da tempestade e garantir a resiliência a eventos futuros deste género está em dúvida”, escreveu o director, Robert Besseling, num relatório sobre Moçambique.

Como a agricultura representa mais de 20% do PIB e emprega quase 80% da força de trabalho, “o Idai vai ter um impacto imediato na vida da maioria dos moçambicanos”, escreve a consultora, acrescentando que, “além dos custos de reconstrução, várias importações de alimentos, particularmente milho, devem duplicar durante este ano devido à descida da produção interna”.

Orçamento rectificativo é hipótese Também o Standard Bank reviu em baixa a previsão de crescimento de Moçambique para este ano e em alta o crescimento da inflação, mas não de forma tão pessimista como o ministro da Economia e Finanças havia feito, dias antes. Aquele banco baixou a perspectiva de crescimento do PIB de 3,7% para 3,5%, aumentando a estimativa de inflação de 5% para 6,2%, referiu o economista-chefe, Fáusio Mussá. “As nossas previsões

Nação

A declaração de Adriano Maleiane contrasta, por exemplo, com a de John Ashbourne, analista da consultora Capital Economics que considera que, apesar de “devastador”, o ciclone deverá ter um impacto “surpreendentemente limitado” na economia

actualizadas reflectem um aumento dos riscos causados pelo impacto negativo do Idai, por pressões temporárias na liquidez em moeda externa e no câmbio, e por eventuais pressões fiscais devido às eleições gerais que, até há pouco tempo, se mantiveram muito discretas”, disse, apontando que “o Governo está a equacionar um orçamento rectificativo para acomodar os impactos do ciclone”. O Fundo Monetário Internacional (FMI) ainda não fez nenhuma actualização à previsão divulgada no último mês de Outubro referente ao crescimento da economia de Moçambique em 2019, mantendo-se em 4%. Mas, para já, o conselho executivo aprovou a concessão de um empréstimo de emergência no valor de 118,2 milhões de dólares destinado a apoiar Moçambique.

Esta verba enquadra-se num mecanismo específico: o FMI empresta, em situações de emergência, entre 60 a 120 milhões de dólares (cerca de 53 a 106 milhões de euros), no âmbito do Instrumento de Crédito Rápido (RCF, na sigla inglesa). “O desembolso [desta verba] ao abrigo do RCF vai ajudar nas necessidades imediatas de financiamento

do país e desempenhar um papel catalisador para captar fundos de doadores e da comunidade internacional”, destacou o director adjunto do FMI, Tao Zhang, em comunicado.

O dirigente realçou que os custos da reconstrução e da assistência de emergência são “enormes”, tornando o Idai no pior e mais caro desastre natural de sempre a atingir o país. Embora os gastos estejam a ser dirigidos à assistência de emergência, “o espaço de manobra é limitado e a maior parte da ajuda de emergência e das necessidades de reconstrução terão de ser cobertas pela comunidade internacional, sobretudo na forma de donativos, para assegurar a sustentabilidade da dívida”, acrescenta Zhang.

O responsável do FMI refere ainda que as autoridades estão a criar almofadas orçamentais para preparar e gerir futuros desastres naturais e procuram aliviar a dívida junto dos credores privados, “o que é importante para pôr a dívida pública numa trajectória descendente”.

Já em Maputo, Ari Aisen falava no âmbito da missão técnica do FMI a Moçambique

PIB já dAvA sInAIs de ABrAndAmentO

De acordo com os dados oficiais publicados pelo Governo, a economia de Moçambique cresceu 3,3% no ano passado, mas desde o terceiro trimestre de 2017 (quando expandiu apenas 1,4%) que a evolução da produção de riqueza, medida pela média trimestral, não registava um valor tão baixo como nos meses mais recentes: no último trimestre do ano passado, a economia cresceu 3,1%, abrandando para abaixo dos 3,2%, 3,4% e 3,3% que registou nos trimestres anteriores de 2018, e ainda mais abaixo do que os 4,9% que se registaram no último trimestre do ano de 2017.

(ao abrigo das consultas do Artigo IV, que ocorrem anualmente com os países-membros do FMI), e reafirmava o apoio da organização à economia nacional. “O FMI apoia Moçambique e estamos sempre juntos em assistência técnica, aconselhamento e política”, afirmou. Por seu lado, o Banco Mundial calcula que serão necessários 2 000 milhões de dólares para recuperar infra-estruturas e meios de sustento nos países afectados pela passagem do ciclone Idai (Moçambique, Malaui e Zimbabué), em Março passado, sendo que, a factura do lado moçambiçano nunca andará abaixo dos 500 milhões, estimando-se que possa chegar aos 750 milhões de dólares. Em comunicado, o Banco Mundial refere que mobilizou “recursos substanciais”, que não quantificou, para “reparar estradas e canalizações de abastecimento de água e esgotos, higiene, controlo e prevenção de doenças, agricultura e segurança alimentar”.

A instituição financeira internacional diz que vai “procurar ter acesso a recursos adicionais”, através de um trabalho em conjunto com doadores, para “mobilizar um fundo” e, numa fase seguinte, desenvolver esforços para a “reconstrução e recuperação a médio e longo prazo nos países elegíveis”.

textO Luís Fonseca, serviço especiaL da Lusa para a e&M fOtOGrafia d.r.

Com a fase de emergência a acabar começa o tempo da reconstrução

“Vamos financiar e mobilizar doadores para a reconstrução”

pietro toigo

Representante do BAD em Moçambique

o banco africano de desenvolvimento (bad) está, desde o momento da ocorrência do Idai, entre as instituições multilaterais mais interventivas no apoio às vítimas, e garante estar disposto a aumentar esse apoio em todas as fases de reconstrução de infra-estruturas e de reposição da normalidade diária, de quem tudo perdeu. Na entrevista com Pietro Toigo, representante do BAD em Moçambique, a E&M ficou a saber que esta instituição fez parte do desenho do Gabinete de Reconstrução Pós-Idai, embora sejam ainda pouco claros os caminhos efectivos que este Gabinete vai trilhar, já que tudo depende do levantamento dos danos, um processo que está a decorrer. E introduz um dado importante de que pouco se fala, mas que deveria integrar os debates sobre a resiliência climática a partir da lição do Idai: o Seguro Climático que existe num dos departamentos da União Africana, e que “apoiaria muito” as iniciativas de reconstrução, caso Moçambique tivesse aderido.

O BAD tem sido um dos actores mais interventivos no apoio à minimização dos danos nas áreas assoladas

pelo Idai em Moçambique, Zimbabué e Malaui. Até agora, como se resumem as acções do BAD?

A nossa abordagem tem três níveis. o primeiro é o imediato, de emergência, onde já mobilizámos 1,5 milhões de dólares para as regiões afectadas, dos quais um milhão só para Moçambique, canalizados através do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC). Esses fundos de emergência financiaram aspectos mais urgentes, como abrigo e comida a pessoas que estão sem esses meios nos centros de acomodação. Além disso, estamos a mobilizar fundos climáticos que nos podem ajudar neste período de emergência, sendo que ainda podemos contar com 1,7 milhões de dólares adicionais para este objectivo. os outros dois níveis onde poderemos intervir, mas que estão ainda em estudo, são de médio e longo prazo, portanto, posteriores a esta fase de emergência.

O que é possível avançar sobre o que se espera nessa fase posterior?

A médio prazo, coloca-se o grande desafio de ajudar as pessoas a regressarem às

QUEREMoS TER UMA ABoRDAGEM

MAIS AMPlA E, PARA TAl, ESTIMAMoS QUE PRECISAREMoS DE ENTRE 70 E 100 MIlhõES DE DólARES PARA oS TRêS PAíSES, QUE DEPoIS SERão REPARTIDoS

suas casas e retomarem as suas actividades económicas. Falo de pequenos comerciantes, camponeses... haverá uma grande necessidade de mobilizar recursos para ajudar as pessoas a regressarem à vida normal, o que incluirá o reassentamento de muitas delas em zonas não propensas a desastres naturais. A longo prazo, impõe-se o trabalho de reconstruir infra-estruturas, como estradas e pontes que caíram e que isolaram comunidades, reabilitar o abastecimento de água e de energia, que também são fundamentais na recuperação económica.

Olhando a experiências de outras geografias, como a do ciclone Katrina nos EUA, em 2005, devastações desta natureza exigem esforços que se arrastam por mais de uma década e a uma mobilização de recursos permanente… Ainda estamos a desenhar um pacote regional, mais consistente. o que posso dizer é que o corredor da Beira poderá ser prioritário porque é um bem público que beneficia os três países afectados pelo Idai e outros, no hinterland. Queremos ter essa abordagem mais ampla e, para tal, estimamos que precisaremos de entre 70 e 100 milhões de dólares para os três países, que depois serão repartidos. Também estamos a trabalhar com o Governo para darmos uma solução permanente à questão da sustentabilidade climática. Temos produtos de seguro climático já bastante desenvolvidos em África, através dos quais propomos uma solução que envolva outros parceiros, casos da União Africana (UA), que tem uma agência de seguros climáti-

Na voz de...

cos. Felizmente, este é um assunto que os representantes mais altos do Governo olham com grande interesse.

É verdade que a reconstrução pós-Idai é ainda uma ideia com muitos pontos por definir mas, por esta altura, já deverão existir luzes sobre por onde começar e como e a quem se deve tentar buscar financiamento. É assim?

Queremos apoiar o Governo na organização da Conferência dos Doadores, que tem em vista a mobilização dos recursos que serão necessários ao processo de reconstrução. obviamente, não temos estimativas precisas porque o trabalho de levantamento está a decorrer, mas sabemos que os custos são elevados e talvez acima das cheias de 2000 na província de Gaza (mais de 500 milhões de dólares, na altura). o que podemos responder com alguma propriedade é que, para fazermos a reposição dos danos sem prejudicar a trajectória de desenvolvimento do país, temos de mobilizar recursos. Neste sentido, o BAD pode e vai ajudar buscando a intervenção do sector privado africano e até de fora do continente, envolvendo outros doadores, como Fundações, incluindo aquelas que tradicionalmente não operam em Moçambique. o mais importante que se deve ter para haver clareza face à complexidade do que se espera é, antes de tudo, uma estratégia clara de entendimento com doadores durante a preparação da Conferência de Doadores que o Governo anunciou, e também estimativas precisas das necessidades prioritárias a serem apoiadas pela comunidade internacional Até nestes aspectos, o BAD já presta apoio.

Em Abril, o Governo aprovou a criação do Gabinete de Reconstrução Pós-Idai. Até que ponto este ins-

trumento vai ajudar na caminhada?

Tivemos a oportunidade de discutir com o Executivo alguns aspectos porque fomos consultados quando esse mecanismo foi desenhado. é muito positiva a ideia em si, e ainda mais pelo facto de se terem incluído como membros o gabinete do governador provincial, o presidente do conselho municipal da Beira e os líderes de diversos distritos numa estrutura inclusiva e ampla. Será um projecto complexo, multissectorial e que vai precisar de um mecanismo de coordenação especial. Considero ser muito importante a criação deste Gabinete. Resta-nos ver como vai funcionar, mas esperamos que funcione tão bem como na fase de emergência.

Na sua óptica, quais devem ser as linhas orientadoras da coordenação, no âmbito

“o BAD PoDE E vAI AjUDAR BUSCANDo A INTERvENção Do SECToR PRIvADo AFRICANo E ATé DE FoRA Do CoNTINENTE, ENvolvENDo oUTRoS DoADoRES, CoMo FUNDAçõES, INClUINDo AQUElAS QUE INClUINDo AQUElAS QUE Não oPERAM EM MoçAMBIQUE”

do Gabinete de Reconstrução Pós-Idai, em termos de prioridades?

é difícil para mim, sentado num escritório, dizer qual deve ser a prioridade. há equipas que estão no terreno a fazer levantamentos. Agora, é preciso ter uma ideia real dos danos no terreno. Não há qualquer sector que deva ser visto como prioritário, mas sim um conjunto de coisas que têm de ser feitas em simultâneo. As prioridades variam de área em área. Outro desafio enorme é o facto de muitas pessoas não poderem voltar aos locais onde estavam. Nestes casos, há que parcelar novos terrenos e instalar infra-estruturas mínimas de habitabilidade.

É possível estimar um prazo para a reconstrução? há um debate de longo prazo. Agora estamos na fase de emergência e dizemos que,

Reconstrução plena poderá prolongar-se ao longo da próxima década

oxalá no final de Maio, entremos no kick off das economias locais (agricultura e pequeno comércio). Depois temos o longo prazo, onde teremos de discutir, por exemplo, como vamos reconstruir as infra-estruturas de uma maneira a que sejam resistentes a choques climáticos, como vamos replanificar o crescimento da cidade da Beira tornando-a menos exposta a eventos extremos da natureza.

Falou no produto de seguro climático que está disponível em África. É um assunto que parece pouco abordado. Como funciona este seguro? há dois tipos de ferramentas desta natureza: os fundos de calamidades que o Governo até já criou, e que esperamos que possam financiar a reconstrução e a resposta a problemas climáticos. outra ferramenta é o seguro climático, que funciona como qual-

quer outro tipo de seguro. ou seja, o país tem de decidir o que quer cobrir (sejam secas, ciclones ou cheias) e se o quer fazer a nível nacional ou só nas províncias propensas a desastres naturais. Este instrumento funciona através de uma agência da União Africana que promove a partilha de risco em todo o continente. Felizmente há cada vez mais países a tomarem consciência dos riscos climáticos. Particularmente os da África subsaariana aderiram muito ao seguro climático nos últimos anos, embora não possa agora precisar quantos são. o Malawi (também assolado pelo Idai) aderiu há quatro anos e há mais países a exprimirem interesse, como Moçambique.

Então, Moçambique não tinha aderido e o Idai veio acelerar um pouco esta necessidade?

Não tinha aderido, mas a consciência e o interesse do Governo já existiam mesmo antes do Idai. Não tenho informação precisa sobre os custos, mas acredito que, antes, o Governo teve receio em aderir porque saía mais caro quando havia poucos países segurados. Além disso, é sempre difícil chegar a consensos sobre a decisão final, porque as pessoas geralmente não sabem como este tipo de instrumentos funciona.

Já existem casos de países subscritores que tenham beneficiado deste seguro?

Em que medida?

o seguro prevê uma certa celeridade na cobertura de danos climáticos com um máximo de 20 dias no prazo de pagamento. Senegal, por duas vezes, e Malawi já beneficiaram. Pode ser uma ferramenta essencial em futuros eventos deste género,

na província de ouro, nem tudo o que luz... é riqueza. Bem pelo contrário

No retrato de uma província tantas vezes esquecida, é importante lembrar que “nem tudo o que luz é ouro”.

E o adágio popular parece assentar que nem uma luva ao que se vive e se vê, ainda hoje, por toda a Província de Manica

a nível nacional, Manica é considerada a província de ouro, porque é lá onde este metal precioso mais abunda. No entanto, o desenvolvimento tarda em acontecer, até porque este recurso só enriquece verdadeiramente os garimpeiros ilegais (nacionais e outros vindos de países vizinhos, como malauianos e zimbabueanos), e pouco acrescenta à balança comercial de uma província onde ainda são poucas as empresas formais que se dedicam à exploração deste precioso minério.

Sabendo que, em termos de produção, a Província registou nos últimos cinco anos uma evolução gradual que se elevou

capital Chimoio

área 61 661 km²

Número de habitaNtes 21 911 237 região Centro províNcia mAniCA

dos 75 quilogramas, reportados em 2015, até aos 457 quilogramas do ano passado, continua a verdade corrente por aquelas bandas que este resultado fica, ainda assim, demasiado aquém da real produção extraída dos rios e minas de Manica.

riqueza informal

Existe, inclusivamente uma estimativa mais ou menos oficial, que atesta esta realidade, e de que a quantidade reportada andará mesmo pela casa dos 20% de um total que ninguém verdadeiramente pode estimar..

Dados obtidos pela E&M junto de fontes locais apontam que a extracção artesanal

de ouro em Manica é a principal actividade informal no domínio da exploração de recursos minerais na Província. Ali, os garimpeiros é que ditam as leis, não as autoridades, sendo que a Polícia não penetra no seu território sem avisá-los. “Os zimbabueanos, na sua maioria, saqueiam o ouro a seu bel-prazer em áreas concessionadas pelo Estado e, claro, Moçambique nada ganha com o negócio”, diz-nos uma fonte do governo provincial que prefere permanecer não identificada.

Até por esta percepção de alguma informalidade excessiva, tem havido movimentações para devolver alguma ordem à exploração de ouro na região. Ainda recentemente, com o anúncio da instalação de um entreposto comercial para a compra e venda de ouro por parte da Empresa Moçambicana de Exploração Mineira (EMEM), detida pelo Estado, um dos exemplos de investimentos em curso na área do garimpo.

Por via disso, o Governo de Manica acredita estar na formalização da actividade “a real solução para a captação de maiores receitas por parte do Executivo local.”

Contactada a Direcção Provincial de Recursos Minerais e Energia de Manica, esta disse à E&M que a exploração do ouro naquele ponto tem registado “uma evolução significativa em termos de quantidade”, mas assinala também que o que tarda “são as receitas”, algo que atribui “à proliferação de garimpeiros ilegais”, dizem-nos. “Não podemos afirmar que as receitas que conseguimos correspondem ao potencial do ouro existente, acho que é uma parte daquilo que devia ser”, considera Silva Manuel, director provincial de Recursos Minerais e Energia, para depois sublinhar que “ainda não nos sentimos confortáveis porque a nossa área é vasta e tem muita gente a trabalhar também de forma ilícita.”

Um estudo feito pelo Observatório do Meio Rural (OMR), em 2016, intitulado “Exploração Artesanal em Manica”, refere que durante a era colonial, a produção de ouro chegou a ser feita em escala empresarial, proporcionando emprego às populações locais, tendo baixado durante a guerra civil do pós-independência (19761992), pelo facto de muitos trabalhadores se terem refugiado nos países vizinhos. E as minas de ouro de Mimosa e Munhena, no distrito de Manica, de Bandire e de Tsetsera, no distrito de Sussundenga, e de Ngwawala, no distrito de Macossa, são até consideradas as cinco maiores minas de ouro no país.

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É o número de empresas que detêm licenças de exploração. no entanto, deste número, apenas 20 É que estão a operar

A insuficiência das receitas provenientes da exploração tem também a ver com a localização das explorações de ouro junto à fronteira, não havendo para tal um controlo efectivo das fronteiras. “Temos esse problema, pois é uma área vasta e não conseguimos controlar tudo, porque isso significa que todo o minério devia ser vendido em Moçambique e não havendo contrabando. Mas a fronteira está aberta, temos controlo, mas não podemos dizer que é fácil fazer um controlo efectivo de toda a extensão”, justifica Silva Manuel. No entanto, este está longe de ser um mal exclusivamente nacional. Segundo uma pesquisa realizada pelo CDI EU-ACP (Centre for Development of Industry European Union, Africa Caribbean and Pacific) sobre o sector de mineração de pequena e média escala em África, a nível mundial, um quarto do ouro é produzido pelos sistemas de mineração artesanal ou de pequena escala.

Em Maninca, a maior parte do ouro é, todos o assumem, explorado em moldes artesanais e exportado ninguém sabe bem para onde. E este é um segmento que até tem crescido, sendo que hoje o garimpo ilegal de pequena escala atrai cada vez mais gente, de camponeses locais a migrantes que vêm do estrangeiro em busca de uma oportunidade (dourada) de enriquecer, sujeitando-se, por vezes, a condições de vida desumanas.

Fraca fiscalização

A E&M contactou o Conselho Empresarial (CEP) de Manica, que, simplesmente, não hesitou em apontar “a falta de fiscalização das áreas de exploração mineira” como a principal razão para a informalidade que tomou conta do sector da mineração de ouro, com resultado nas parcas receitas que a Província de Manica consegue angariar por via deste recurso tão abundante por ali. E não é só pelo garimpo ilegal, explica Samuel Guisado, presidente do CEP-Manica, pois, prossegue, “se olharmos para o nível do investimento feito pelas empresas que exploram ouro, notamos que não corresponde aos relatórios que eles publicam. Isto significa que o ouro que está realmente a ser produzido não corresponde ao que está a ser reportado pelas empresas. Depois, estamos a assistir a um nível de poluição crescente que está a contaminar rios e campos agrícolas” reitera a fonte, sublinhando que “até aquelas áreas que estavam definidas para a produção agrícola já estão todas ocupadas,

província

mas não sabemos quem as ocupou”. Ainda assim, para o sector empresarial nem tudo está perdido, visto que é possível haver uma solução para inverter esse cenário.

Para tal, o CEP-Manica enumera um conjunto de relatórios que mostram ser possível uma maior fiscalização desses grupos que fazem exploração mineira, bastando para tal a vontade do Governo provincial “em apertar o cerco”. mais do que ouro

Diga-se, em abono da verdade, que não é só pelo ouro que Manica é reconhecida, uma vez que existe abundância de outros metais preciosos e pedras ornamentais, como o granito, que no entanto ainda pouco pesam nas contas gerais da Província. Numa visita recente à região, o Presidente Filipe Nyusi não escondeu a sua satisfação com o que viu e leu nos documentos apresentados em várias reuniões e, por isso, na inauguração da fábrica de processamento de granito nos arredores de Chimoio, dizia que “apesar da crise e dos problemas, as coisas em

“O ouro que está a sair da Província não corresponde ao que está a ser reportado pelas empresas. E depois, estamos a assistir a um nível de poluição crescente que está a contaminar rios e campos agrícolas”

Manica e no país estão a acontecer”. A fábrica de processamento de granito, extraído nas minas de Moatize em Tete e Sussundenga em Manica, é disso exemplo. Trata-se de um investimento de cerca de 10 milhões de dólares de um total de 30 milhões que a proprietária da Helnin Mining pretende investir em Moçambique. Toda a cadeia de produção emprega perto de 200 pessoas e a fábrica terá capacidade de processar mais de 900 mil toneladas de granito por ano. Parte do produto final será comercializado localmente, mas a quase totalidade da produção será destinada à exportação para a Ásia e para a Europa. No entanto, também ao nível do agro-negócio, Manica apresenta-se como grande produtora de banana mas, dizem-nos, “com um enorme potencial por explorar”, no sentido de catapultar o desenvolvimento local através de uma cadeia de processamento e comercialização.

texto Hermenegildo langa fotografia d.r.

Poluição é evidente em muitos dos canais de água da Província, devido ao garimpo desenfreado

A inteligência assente nos dados. Que passos dar em Moçambique?

a inteligência artificial é habitualmente definida como a capacidade de uma máquina realizar funções cognitivas, tipicamente associadas à mente humana como a percepção de fenómenos, o raciocínio, a aprendizagem e a resolução de problemas.

A proliferação de dados e o aumento significativo da capacidade computacional e de storage catapultaram a Inteligência Artificial de um conceito exótico para a realidade. Lembro que os utilizadores de devices electrónicos geram 2,5 quintiliões de dados por dia e que 90% dos dados existentes no mundo foram produzidos nos últimos dois anos. Em cada minuto os utilizadores do Youtube vêem quatro milhões de vídeos e os utilizadores móveis enviam mais de 15 milhões de mensagens em diversas apps.

Com o auxílio de algoritmos de “machine learning” podem detectar-se padrões e fazer predições e recomendações, processando dados em vez de seguirem instruções de programação tradicionais. Estes algoritmos também se adaptam em resposta a novos dados e experiências para melhorar a sua eficiência com o tempo.

Os modelos podem, portanto, ser preditivos para antecipar ou prever acontecimentos e utilizados como fontes de insight para tomada decisões ou, de forma prescritiva, dando recomendações para atingir objectivos e metas.

Ao nível corporativo é particularmente útil a detecção de padrões, utilizando dados estruturados das várias bases de dados corporativas ou não estruturados, como os existentes em redes sociais.

É uma ferramenta poderosa de identificação das melhores ofertas e da propensão de consumo de vários clientes, que podem fazer a diferença no aumento das vendas e na captação de outros elementos de valor empresarial. Se alguma vez fez uma busca no Netflix ou comprou na Amazon, seguramente que um algoritmo de inteligência artificial foi usado para o auxiliar no seu processo de decisão. Se alguma vez se intrigou porque aparecem pop-ups para destinos de viagem ou para um produto que, por acaso, está neste momento

a ser equacionado em sua casa, tenha a certeza que foi baseado em algoritmos que monitorizam a actividade online. Outras áreas complementares de utilização de inteligência artificial nos domínios corporativos com impacto na top-line são, por exemplo, a optimização e personalização do pricing, a qualificação de oportunidades, o up-sell e cross-sell de produtos e a gestão de performance.

A transformação digital e o novo perfil de consumidor - mais bem informado e exigente - são igualmente forças motrizes na introdução deste paradigma, e na construção de um novo modelo de relacionamento com os clientes, que implica conhecer as suas preferências e fornecer um atendimento personalizado e proactivo.

Estas capacidades são particularmente relevantes em sectores com elevado nível de relacionamento com o consumidor final, como o retalho, o turismo, a banca e seguros e as telecomunicações.

Complementarmente, estes modelos analíticos podem igualmente focar-se na optimização do bottom line e em problemas operacionais específicos, como por exemplo: optimização de rotas, manutenção preditiva, de custos com combustível e previsão de gastos de energia. O espectro alarga-se a outros sectores como a indústria, os transportes e a energia.

Para quem viu o “2001 Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, o computador “HAL” era apenas um devaneio de ficção científica, mas hoje para aí caminhamos a passos céleres.

Em Moçambique, este tema ainda é embrionário, mas os dados existem quer nas bases de dados corporativas, ou em repositórios de informação externos como as redes sociais. Cabe aos vários gestores decidir por encurtar etapas e implementar, desde já, este tipo mais diferenciado de analítica nos seus planos empresariais. Afinal, Moçambique já o soube fazer de forma pioneira, em outras áreas, como os pagamentos móveis.

Uma vez que é comum, hoje em dia, dizer que “os dados são o novo ouro ou petróleo”, é importante tirar partido também deste recurso, em paralelo com os mega projectos extractivos, nesta interessante senda de crescimento que se avizinha.

Os modelos podem ser preditivos para antecipar ou prever acontecimentos e utilizados como fontes de insight para tomada decisão ou, prescritivos, meios para atingir objectivos e metas

Mais experiência e capital é o que a chevron proMete. Mas quando?

A sexta maior aquisição da história do sector do oil & gas gerou ondas de espanto. Em Moçambique também. Mas as consequências da mudança não deverão causar entraves ao processo já iniciado pela Anadarko

em abril de 2019, a Chevron anunciava ao mundo a aquisição da Anadarko Petroleum, por surpreendentes 33 mil milhões de dólares, mais a assunção da dívida de 17 mil milhões da empresa de petróleo e gás de Houston, o que eleva a operação para perto de 50 mil milhões de dólares, transformando-a no sexto maior acordo na área do petróleo e gás da História. A principal razão pela qual a Chevron — um gigante que na Fortune 500 está classificada como a terceira maior empresa norte-americana e uma das 20 maiores no mundo — avançou para a compra de uma empresa que nunca foi tão grande como os seus sonhos, a Anadarko não está, no entanto, em Moçambique. Na voz da grande maioria

dos analistas do mercado, fê-lo para fazer crescer a sua posição dominante em pontos estratégicos do sector petrolífero. Matt DiLallo, analista do sector, não esconde a sua surpresa pelo negócio. “A minha reacção ainda é de surpresa. A Chevron não necessitava de fazer negócios e, no entanto, aqui estão eles, a chocar-nos a todos com o sexto maior contrato de petróleo de sempre. Quanto mais investigo, mais entendo que é um bom negócio para a Chevron. Faz todo o sentido porque adiciona ao portefólio coisas que eles não tinham”, escreve. O que a Chevron na verdade pretende adquirir (a compra só ficará oficialmente selada no segundo semestre do ano, por estar dependente da aprovação dos

accionistas da Anadarko) é uma posição de liderança na Bacia Permiana (a zona de maior produção de petróleo dos Estados Unidos, que se estende pelo Texas e Novo México) onde compete com a Exxon Mobil, a Apache, a Occidental e a Concho Resources. Como a Chevron aponta, o acordo vai permitir a ligação de vários de seus campos, criando um corredor de 75 milhas de largura na Bacia, uma área que permitirá a perfuração de laterais mais longas, o aumento da produção de petróleo em cada poço e uma redução dos custos de produção por barril. Se a Chevron já era uma das maiores proprietárias de terras na região, esta aquisição impulsiona a área detida em 100 mil hectares, para mais de 550 mil

na Bacia de Delaware, a zona forte da nova economia que nasceu a partir da exploração do petróleo de xisto. Mas há mais benefícios desta mega-operação: é que o negócio também irá reforçar a presença da gigante do petróleo nas Rocky Mountains (no centro-norte da Pensilvânia e no Texas) onde a empresa já detém mais de 12 mil quilómetros de pipelines, e está envolvida no negócio de colecta, compactação, tratamento, processamento e transporte de gás natural, petróleo bruto e recolha e eliminação de águas produzidas. Assim, a Chevron garante imediatamente uma pegada dominante em todo este território. E fica igualmente com as posições de águas profundas da Anadarko no Golfo do México.

Por fim, um brinde que nunca é de menosprezar, mas que não passa disso mesmo nesta gigantesca movimentação de peças: o grande projecto de gás natural liquefeito (GNL) em Moçambique que irá colocar a Chevron “à mesa” com os seus rivais de sempre: a Shell, a BP e, particularmente, a Exxon Mobil, que também detém, como se sabe, activos importantes em Moçambique.

Robert Rapier, com mais de 25 anos de experiência no sector de energia como engenheiro e investidor, escrevia recentemente na edição norte-americana da Forbes que “a Chevron não tem sido um participante importante no ‘mid stream’, que envolve o transporte e armazenamento de petróleo e gás. Este acordo dá-lhe isso mesmo, através de uma participação de 55% na Western Midstream Partners, uma sociedade limitada de 16 mil milhões de de acções negociadas em bolsa. Os accionistas da Anadarko ficam, sem dúvida, satisfeitos com o aumento imediato de 37% no preço das suas acções, as várias outras concorrentes viram as suas acções subirem por arrasto. Todos ficam contentes”.

Por tudo isto, quando o acordo for oficializado, a Chevron tornar-se-á a segunda maior petrolífera do mundo ao nível da produção “Isto “tornará uma grande empresa numa maior ainda”, afirmou o presidente executivo da Chevron, Michael Wirth, aquando do anúncio do acordo com a Anadarko. Este prevê que a Chevron pague 7 mil milhões de dólares em dinheiro e entregue 200 milhões de acções à Anadarko, explica a agência Bloomberg. “É uma transacção que dá poder à Chevron”, diz Wirth, acrescentando que o negócio trará vantagens nas águas profundas do Golfo do México”

dólares

O valOr de cada acçãO da anadarkO, um acréscimO de 37% sObre Os 46,80 a que estavam as acções da petrOlífera nO mOmentO da cOmpra

e criará “oportunidades em áreas que reforçam as operações da empresa”.

o ‘brinde’ em forma de reserva à escala mundial Claro que, onde estamos, o brinde do Rovuma que a Chevron comprou no ‘pacote Anadarko’ é ‘só’ o factor em que assentaram as grandes expectativas e previsões de crescimento da economia nacional na última década.

Quem segue os envolvimentos e desenvolvimentos do processo de exploração das Áreas da Bacia do Rovuma saberá que não eram novos os rumores da compra da Anadarko. Eles têm ecos, pelo menos, desde 2014, quando já se falava insistentemente da aquisição “iminente” dizia-se, à época, por parte da Exxon Mobil. Acabou por ser a Chevron (a Occidental Petroleum também tinha feito uma oferta) a consumá-la, anos depois. Até porque a Exxon, se esteve para o fazer, preferiu optar por outro caminho, adquirindo uma participação de 25% na Área 4 de Moçambique (da ENI East Africa) em Dezembro de 2017, e assumindo, por essa via, uma postura mais activa no mercado, trabalhando para garantir outras concessões ao longo da costa de Moçambique. Casos dos “offshore” Delta Zambeze Z5-C, “offshore” Angoche – A5-B e “offshore” Angoche – Z5-D, nas províncias de Nampula, Sofala e Zambézia, que serão operados por um consórcio que, além da multinacional norte-americana, inclui a empresa russa Rosnef e a Empresa Moçambicana de Hidrocarbonetos (ENH). Voltando à Anadarko que sempre foi vista como companhia de ganhar concessões, lançar os projectos e passá-los aos grandes players, o seu destino parece, enfim, cumprir-se. No entanto, fez o seu trabalho. E não foi pouco. Fez avançar o processo, garantindo importantes acordos para a comercialização da exploração (já angariou clientes para adquirirem 8 milhões de toneladas cúbicas de gás por ano) e, por via disso, avançou na busca do financiamento necessário para avançar para a construção da fábrica de liquefação onshore, que teria um custo total na casa dos 20 mil milhões de dólares. Estaria por um trimestre a apresentação da decisão final de investimento. Estará ainda?

em Moçambique

Michael Wirth não esqueceu, de resto, Moçambique no momento da compra, considerando que o projecto de exploração de gás natural da Anadarko pode ser “um bom negócio” a longo prazo.

mercado e finanças

A Chevron tem experiência em regiões com conflitos em curso, alavancagem financeira, clientes e toda a cadeia de valor. E também herda um projecto quase acabado. O que falta?

O ‘longo prazo’ levantou celeuma, claro. Não faltou quem augurasse que todo o processo de exploração de gás no país pudesse estar, uma vez mais, comprometido. Wirth não foi, no entanto, conclusivo.

“A Anadarko tem um importante projecto de GNL que irá adequar-se bem ao nosso portefólio. Pensamos que o GNL é um bom negócio a longo prazo, de acordo com o objectivo mundial de se alcançar um mix de energia limpa, particularmente, para a produção de energia eléctrica”.

Embora grande parte do foco da aquisição seja a corrida para dominar a Bacia do Permiano, o que Moçambique pode dar à Chevron é uma nova e substancial expansão offshore na área do GNL. Porque, como sabemos, a Área 1 da Bacia do Rovuma, até agora liderada pela Anadarko, será uma das maiores instalações de exportação de GNL do mundo. Por outro lado, o que a Chevron pode dar, é a sua

experiência quando se trata de desenvolver operações deste calibre. Algo que, se recuarmos no tempo, foi muitas vezes apontado à Anadarko, especialmente pelas demoras ao longo do processo, que chegou a estar, no início da década, com previsão de conclusão para 2018. É que a Chevron tem no seu historial os colossais projectos australianos de Gorgon e Wheatstone para além de parcelas de capital no Angola GNL (Soyo), com uma capacidade de produção de 5,2 milhões de toneladas por ano. O que nos leva a uma conta simples: os 33 mil milhões da aquisição até podem parecer um preço significativo (até por superarem em 37% o valor actual das acções da Anadarko em Bolsa), mas diluem-se facilmente quando comparados com os 130 mil milhões de receita previstos para os 25 anos da concessão da Anadarko na Bacia do Rovuma onde será feito o maior in-

vestimento na História em África. Mas, para além do histórico, a Chevron tem o conhecimento e a capacidade financeira para ver o projecto de forma integrada. Não será a primeira vez que enfrenta questões como a insurgência rebelde” a que se assiste no norte de Moçambique, é uma empresa petrolífera internacional forte, experiente e bem capitalizada que, de acordo com os relatórios iniciais apresentados, tem todas as intenções de prosseguir com o cronograma de desenvolvimento proposto pela Anadarko cujo FID não se deverá manter para Julho, ao que se sabe, mas que poderá ser lançado no início de 2020. Ao nível fiscal, das mais-valias do negócio, o que se pode esperar é... pouca coisa. É preciso perceber quanto dos 33 mil milhões de dólares vale a operação de Moçambique. Não será muito, dada a dimensão do património da Anadarko noutros países e irá demorar meses até que se perceba quanto. Até lá, novidades aguardam-se.

texto Pedro Cativelos fotografia d.r.

Muda a concessionária, mantém-se o projecto. A questão estará, agora, nos timings do início da exploração

empresas

Um Negócio de modelos... de Negócio

é, de facto, verdade que uma das soluções para o desenvolvimento é o empreendedorismo. E há cada vez mais quem o abrace, em busca de respostas. Contudo, o segredo está nas perguntas certas. E é isso que a Moz Innovation Lab se propõe fazer: “Acompanhamos a implementação, porque conhecemos o ecossistema – sabemos onde ir buscar as empresas, como seleccioná-las, como dar as formações e que conteúdos são relevantes nesse contexto”, revela Elena Gaffurini, a co-fundadora e directora executiva desta incubadora e aceleradora de negócios moçambicana.

A empresa existe há quase dois anos, e funciona como um acelerador no sector agro-alimentar, que implementa iniciativas e projectos financiados com fundos externos. Ela posicionou-se no mercado como um link entre a DEV Mozambique – consultora de serviços do sector alimentar que actua enquanto holding de outras empresas deste segmento – e um grupo de potenciais investidores nacionais (como a Gapi), e internacionais.

O posicionamento da Moz Innovation Lab no mercado pretende unificar o útil, que é fazer a diferença no seu mercado de actuação, ao agradável, que se traduz no objectivo de contribuir para o desenvolvimento sustentável do país. “Não só implementamos programas, também tentamos criar o mercado”, conta. Até então são já mais de 80 as empresas que participaram das formações, principalmente dos programas Future Agro Challenge e do FEMBIOBIZ. Dessas já trabalharam directamente com dez, algumas das quais já participaram em eventos e feiras internacionais e até estão a encetar processos de exportação.”É o caso de uma empresa do Chimoio,

O primeiro acelerador privado de agro-negócios no país nasceu há quase dois anos e aposta na sustentabilidade como a chave do desenvolvimento mozinnovationlab

revela: “temos um interesse da Sonae, em Portugal, em desenvolver uma linha de produtos (bolachas e cereais) a partir da farinha do malambe”. Mas há mais: “Há uma série de produtos que, com o enquadramento correcto, formação e boas práticas, irão começar a entrar em novos mercados. É por isso que focamos a nossa actuação no desenvolvimento pessoal (monitoria, formação e coaching) e do negócio (due diligence, estratégia, marketing e contabilidade).”

A área de actuação preferencial é o agro-negócio, até porque é aí, sublinha, “que há inúmeras oportunidades de crescimento”, diz-nos Elena que não esconde os objectivos da Moz Innovation Lab. “O ideal passa por ter representações a nível nacional, criar uma rede de incubadoras rurais de negócio e crescer no continente.”

No entanto, o alcance desses objectivos depende da resolução dos problemas incrustados nas pequenas empresas com que trabalham, como a educação financeira ou a melhoria da qualidade da mão-de-obra. “Tudo começa com a dificuldade em estabelecer uma empresa, porque isso determina o incentivo para as pessoas formalizarem o seu negócio. É por isso que temos uma visão de, mais do que formar, adquirir percentagens de capital das empresas incubadas e aceleradas que tenham mais potencial de mercado, estando efectivamente com elas no seu caminho, partilhando risco também e estando com elas todos os dias, a ajudar os seus negócios a crescerem.” Algo que já faz com algumas delas.

BemPresa Moz innovation Lab direCtora exeCutiva eLena gaffurini trabalhadores 5 Fundação 2017 ParCeiros barcLays, bci, gain, gaPi e gaPieL

ProJeCtos

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o future agro challenge (80 empresas participantes; 2 projectos incubados; 3 empresas aceleradas) e o sanbio fembiobiz (10 projectos incubados; 4 empresas aceleradas; 40 mulheres empreendedoras capacitadas).

emPreendedores

300

É o número de empreendedores que atenderam às formações de mentoring e coaching da Moz innovation Lab.

texto Pedro Cativelos & emídio massaCola fotografia Jay Garrido

Grupo Nas laNça serviço aeroportuário

“Oferecer serviços de engenharia e rampa, incluindo check-in, embarque, manutenção, limpeza, bem como movimentação e armazenamento de cargas de importação e exportação para as linhas aéreas programadas e adhoc em todos os aeroportos de Moçambique”, é o objectivo da National Aviation Services (NAS), prestadora de serviços de aviação.

Segundo Hassan El Houry, director-executivo do grupo, a NAS “pretende aplicar através destes serviços a sua experiência e conhecimentos globais para modernizar as operações e impulsionar a eficiência utilizando as mais recentes tecnologias e práticas operacionais no país.”

bci laNça Novo serviço para pme

O “Saldo POSitivo” é uma nova solução para as Pequenas e Médias Empresas (PME) lançada recentemente pelo BCI. Segundo o Presidente da Comissão Executiva do BCI, Paulo Sousa, o novo serviço confere aos clientes do banco, titulares de um POS com o serviço ‘Daki’, terem uma linha de crédito associada ao POS, em que o banco passa a poder adiantar até 20% da média mensal da facturação destas PME. O reembolso, segundo o PCE, “será efectuado diariamente, através da dedução de uma parcela do valor facturado, a uma taxa de juro fixa de 20%.

revista ÍNdico

FiNalista da “ world travel awards”

publicação da lam está nomeada no segmento das publicações de bordo em áfrica

a indicação para esta distinção foi feita pelos passageiros das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) e leitores que apreciam a Índico, que está assim entre as finalistas dos International World Travel Awards (WTA), considerados os ‘Óscares’ mundiais do turismo, e cuja cerimónia de entrega dos prémios decorrerá a 1 de Junho, nas Maurícias. Em Moçambique, a Índico já foi distinguida como Melhor Parceiro de Turismo, numa iniciativa da AVITUM – Associação de Agentes de Viagens e Operadores Turísticos de Moçambique, em 2013, e tem angariado leitores e parceiros ao longo dos últimos anos.

É tida, igualmente, como referência no domínio da educação, com o uso dos seus artigos para diversos estudos, para além de ser um meio de promoção do diálogo cultural, mercê da particularidade dos textos serem publicados em português e inglês, o que alarga o âmbito de divulgação e compreensão dos aspectos abordados de forma única e abrangente sobre turismo, lazer, cultura, gastronomia e sociedade, privilegiando o conhecimento profundo de Moçambique e a sua divulgação enquanto destino turístico global de excelência.

primavera iNtroduz Novo soFtware de Gestão de empresas

“Acelerar o trabalho administrativo e melhorar a resposta às obrigações legais e fiscais das empresas moçambicanas” é o propósito da introdução do novo software de gestão no portefólio da Primavera.

Avaliado em cerca de 2 milhões de euros, “surge na sequência de um reforço das boas práticas empresariais”, comunica a empresa, sublinhando a “capacidade de integração entre sistemas, que permite a fusão entre os dados das soluções instaladas nas empresas com as aplicações Web.”

Gapi e FaN criam FuNdo especial pós-idai para reabilitar pme

Fundada em 1988, a revista Índico é propriedade da LAM e está disponível a bordo das suas aeronaves, em edições bimestrais.

A revista é editada e produzida pela Executive Moçambique.

A criação e a implementação de um “Fundo Especial pós-Idai para a reabilitação de Pequenas e Médias Empresas (PME) e relançamento do sector privado de pequena escala” é a primeira acção conjunta entre a Fundação para a Melhoria do Ambiente de Negócios (FAN) e a Gapi-Sociedade de Investimentos, no quadro de um acordo de parceria estabelecido entre as duas instituições. A Gapi-SI mobilizou, até ao momento, cerca de 52 milhões de meticais com vista a dotar este fundo de recursos financeiros para financiar a reconstrução. Os projectos a serem apoiados “devem contribuir para a expansão e consolidação do papel do sector privado, com principal enfoque nas PME nacionais.”

o Mercado estranhou, Mas estaMos a conquistá-lo

é o mais recente canal de televisão a entrar na grelha, em Moçambique, num mercado em que existem perto de uma dezena de outros canais. Até por isso, o projecto da Media Mais se caracteriza por alguma diferenciação ao nível da abordagem ao meio audiovisual, assumindo-se enquanto “mais do que uma televisão, com interesses que vão da produção própria à área de eventos”. Simão Anguilaze, o director do canal, explica o projecto à E&M.

O que é a Media Mais TV? O grupo Media Mais foi formado em Dezembro de 2017 e está essencialmente virado para a exploração de negócios na área dos media. Temos várias unidades de negócio, nomeadamente a rádio, que foi o primeiro meio a ser criado e lançado, em Abril do ano passado, e que está a ter uma óptima aceitação em termos de audiência. Depois, a área do marketing, dos eventos e da produção própria, a Produções Mais. Vamos apostar também na pesquisa de mercado, a Data Mais, que até já fez duas sondagens no ano passado, para as eleições autárquicas. Por fim, a Academia Mais que irá formar, não só para o grupo, mas também para o mercado.

Como é que surge um projecto destes, numa altura

economicamente, vamos dizer, desafiante para o país? Bom, não tem sido fácil. Temos sentido isso desde a nossa chegada ao mercado. Fizemos tudo com fundos próprios dos accionistas (liderados por Paulo Muchanga, ex-PCA da HCB), porque nenhum banco nos quis dar dinheiro, certamente pelo risco associado à crise. São eles que aguentam e investem nesta operação, porque o projecto é ambicioso e todos acreditamos que o mercado vai melhorar neste, e nos próximos anos.

A que se refere quando fala em investir na produção nacional?

A informação é e será sempre o nosso forte, mas temos de ter factores diferenciadores dos nossos principais concorrentes e aí entra a ficção nacional. Queremos posicionar-nos como produtores de ficção nacional. Temos acordos com a TVI, de Portugal, que teve também essa ousadia de fazer ficção nacional, e ganhou a aposta gerando toda uma nova cadeia de valor que não existia, que vai das produtoras aos actores e todos os produtos e meios associados a esse tipo de produção.

encontrar uma nova forma de a pôr a funcionar. Investimos fortemente nos equipamentos, tudo 4K, estamos preparados para as plataformas digitais e temos vontade de fazer coisas novas.

E como é que o mercado acolheu a vossa ideia? Tem sido boa a reacção? O mercado acolheu com alguma estupefacção e estranhou. Têm-nos dito que somos corajosos para entrar nesta altura. Mas o facto de termos feito uma rádio de qualidade deu-nos a credibilidade para continuar e estamos a conquistá-lo.

Simão anguilaze tem uma carreira ligada aos media em Moçambique. Jornalista, chefe de redacção da t VM, chegaria a PCa da televisão pública. foi também vicepresidente da Comissão Nacional para a Migração Digital em Moçambique. em 2018 tornou-se director de programas da Media Mais t V.

O que é que uma empresa deste género traz de diferente para um mercado que já tem uma dezena e meia de canais de TV, a maioria deles em graves dificuldades financeiras?

Penso que a grande questão é essa — olharmos o negócio de uma maneira multidisciplinar. Temos várias áreas que se vão integrando e é por aí que nos diferenciamos. Claro que, naturalmente, a televisão é a âncora. E ela tem de ser diferente e ter qualidade. Pela minha experiência de televisão, ao longo dos anos, os principais canais fazem todos exactamente a mesma coisa, com estruturas muito pesadas. É verdade que a roda já foi inventada, mas temos de

Actualmente as empresas olham com alguma desconfiança os patrocínios às empresas de media... Sim, porque muitas televisões fazem pirataria de conteúdos e vão ter de deixar de fazer isso. Muitas vão cair. Nós fizemos uma aposta muito grande e, na verdade, penso que daqui a uns anos, só haverá quatro televisões de facto em Moçambique. E nós seremos uma delas.

O que é que espera para daqui a um ano? Espero já estar a pisar alguns calos à nossa concorrência e ter conteúdo nacional de qualidade ‘no ar’.

texto Pedro Cativelos fotografia Jay Garrido

Diferenciar

“Conteúdos próprios de qualidade são o caminho para fidelizar espectadores e parceiros”

sociedade

NETFLIX vaI INvEsTIr

ForTE Em ÁFrIca

Em Dezembro de 2018, a maior plataforma mundial de streaming cujo valor de mercado ultrapassa os 100 mil milhões de dólares, anunciou um investimento na produção de “Queen Sono”, uma série televisiva sul-africana, que marca assim uma mudança de rumo estratégica da Netflix com vista a expandir-se para fora dos Estados Unidos

depois de ter recentemente anunciado a aquisição dos direitos de distribuição internacional do filme nigeriano “Lionheart” – uma produção dos estúdios de Nollywood interpretada por Genevieve Nnaji, Nkem Owoh, Pete Edochie e Onyeka Onwenu –, a Netflix mostra agora, com este investimento na produção de “Queen Sono”, que está interessada em utilizar uma parte do seu orçamento de 8 mil milhões de dólares para este ano (2019) no desenvolvimento de projectos com “conteúdo local”, seja em África ou em outras regiões do mundo (recorde-se que em 2018 a Netflix já tinha investido numa série indiana intitulada “Sacred Games” e anunciou ter outras seis em carteira).

Numa conferência realizada em Londres, Erik Barmack, responsável da Netflix para a área internacional, confirmou que a empresa está “empenhada em diversificar o seu portefólio”, tendo em atenção o carácter cada vez mais global da sua operação e que o continente africano é um dos seus principais alvos.

Recorde-se que, já em 2017 a Netflix divulgou estar presente em 190 países sendo que 73 milhões dos seus 130 milhões de assinantes não são originários dos EUA. A excepção mais notória a este domínio global é a China onde a Netflix ainda não está presente. Na conferência, Erik Barmack afirmou que, de acordo com as previsões da empresa, dentro de alguns anos “metade dos dez conteúdos mais vistos na Netflix serão certamente provenientes de outros países que não os EUA”. Ao saber que a Netflix iria investir em “Queen Sono”, a actriz Pearl Thusi escreveu no seu Twitter que esta aposta “vai mudar muita coisa para os artistas africanos”, pois o “músculo financeiro” da Netflix vai permitir desenvolver projectos que, pelo volume de investimento necessário, nunca foram possíveis. Pearl Thusi tem razão ao antecipar o impacto positivo que este investimento da Netflix vai ter na indústria local ligada à produção de conteúdos televisivos e cinematográficos, mas há quem

milhões de assinantes

A netflix é hoje A mAior plAtAformA de streAming do mundo, e Assume umA importânciA globAl, já que 73 milhões dos seus AssinAntes - mAis de 50% - não estão nos estAdos unidos

veja esta entrada em força da Netflix em África como uma ameaça. Por exemplo, a Multichoice, a maior empresa de televisão no continente, detentora da DStv, realizou em 2018 um estudo para analisar as consequências da entrada da Netflix no mercado. E torna-se claro que a Multichoice vê a norte-americana como um competidor problemático, considerando a Netflix responsável pela perda de 100 mil assinantes do seu serviço no ano anterior à realização do estudo e de mais 40 mil em 2018. Para além do facto de que aderir à Netflix não representa qualquer custo para o consumidor, acresce que a assinatura do serviço não chega aos 12 dólares, enquanto que para obter o serviço Premium da DStv o consumidor tem de desembolsar 60 dólares (para além dos custos de instalação do serviço). É verdade que aderir ao serviço da Netflix pressupõe ter uma boa ligação à internet (coisa que em África está longe de ser um dado adquirido para grande parte da população e tem ainda

sociedade

um custo muito significativo). Mas várias sondagens recentes indicam que, sobretudo entre os consumidores urbanos de muitas cidades africanas, existe uma crescente insatisfação com os preços praticados pela DStv e, em particular, com a programação baseada em frequentes repetições (re-runs).

a guerra dos conteúdos

No entanto, considerar que o problema da Multichoice se resume ao facto de ter um portefólio de programas insuficiente e a uma política de preços inflacionada é não perceber que o que está em jogo são dois modelos de negócio distintos. Aliás, a “angústia” da Multichoice é semelhante à de muitos operadores no segmento da TV por cabo a nível global.

Um estudo publicado nos Estados Unidos no início de 2018 indicava que a expectativa era que, durante esse ano, mais de 5 milhões de consumidores norte-americanos iriam desisitir das suas assinaturas das televisões por cabo. Mas, de forma mais significativa ainda, esse estudo assinalava que estas “desistências” representavam um aumento de 685% desde 2016, altura em que a tendência dos consumidores migrarem da televisão por cabo para a internet começou a evidenciar-se como mais do que um mero epifenómeno conjuntural. De acordo com este estudo, as perdas estimadas para as televisões por cabo situar-se-iam, em 2018, na ordem dos 5,5 mil milhões de dólares. Ao analisarem as razões para a deserção em massa destes consumidores, os quais têm vindo a ser designados por “cord-cutters”, o estudo indicava, entre outras, duas razões principais: frustração e insatisfação com os preços praticados e a obrigatoriedade de aderirem a “pacotes” que incluem canais que não lhes interessam de todo.

Ao contrário de Hollywood, a Netflix não está no negócio de vender um filme a muitos consumidores. Pelo contrário, o seu modelo assenta na ideia de vender muitos filmes a consumidores do mundo inteiro

Mas a conclusão mais preocupante para as televisões por cabo era de que não apenas há uma tendência crescente no número de consumidores que pretendem “cortar com o cabo” mas, sobretudo, há sinais de um outro fenómeno a emergir: o dos “cord-nevers” (“cabo-nunca”), isto é, há um número expressivo de consumidores que nunca tiveram uma assinatura de televisão por cabo e não tencionam vir a fazê-la.

O sucesso da Netflix está ainda associado a um outro factor determinante: o investimento feito na produção de séries e filmes de excepcional qualidade. Muitos observadores imaginaram que séries como “House of Cards” ou “Orange is the New Black” – que atraíram milhões de espectadores e que a crítica saudou não apenas pela sua qualidade mas pelo facto

de trazerem para o universo televisivo temas arrojados – seriam um fenómeno irrepetível. Como é hoje evidente, enganaram-se. Séries como “Luke Cage”, “Stranger Thing”s e “The OA”, entre outras, confirmaram que os primeiros sucessos não tinham acontecido por acaso. Na verdade, a Netflix “leu” bem o mercado actual e compreendeu que os consumidores estão cansados de “formatos” que reproduzem à exaustão temas e modelos de entretenimento que já pouco dizem às novas gerações e às elites urbanas mais sofisticadas. Mais: a Netflix percebeu também que, dado que Hollywood, devido ao seu novo modelo de operar (que privilegia sobretudo grandes “blockbusters”) praticamente desinvestiu na produção de filmes “independentes” ou com forte componente “artística”,

tinha deixado muitos actores de primeiro plano “disponíveis” para projectos de qualidade. Isso permitiu-lhe aliciar grandes figuras, como Kevin Spacey em “House of Cards”, a integrar as suas séries e capitalizar, em termos reputacionais, com a sua participação. Em 2016, a Netflix investiu 5 mil milhões de dólares em conteúdos originais. No ano seguinte, cinco das dez séries mais procuradas nas pesquisas no Google tinham sido produzidas pela Netflix. Em 2017, a empresa subiu a parada e investiu 6 mil milhões de dólares na produção de mais de 1 000 horas de conteúdos originais, duplicando assim a sua oferta. E em 2019, esse investimento subiu para os 8 mil milhões. Para Tony Gunnarsson, da consultora Ovum, “a Netflix tornou-se, simplesmente, sinónimo de televisão”, destacando ainda que o que a

A Netflix está a apostar no mercado de produção nigeriano, conhecido como Nollywood

Netflix percebeu “foi que hoje os consumidores querem (para além de “qualidade” e temas que reflictam a realidade do mundo contemporâneo) é ter controlo sobre o que vêem ou deixam de ver, ou seja, uma total e irrestrita liberdade de escolha.”

Impacto em cascata

Também a indústria cinematográfica tem sentido o efeito “disruptor” do seu modelo de operar. Durante décadas, Hollywood baseou o seu negócio num modelo de distribuição faseado. Os filmes começavam por ser lançados nas salas de cinema e só posteriormente eram colocados no circuito das lojas de retalho (primeiro através da vendas dos DVD’s e depois sob a forma de aluguer) e, muito mais tarde, ficavam acessíveis nas televisões.

Este esquema baseava-se numa análise do comportamento dos diversos segmentos de público existentes e no valor que cada um deles atribuía ao visionamento de um filme. Assim, por exemplo, os estúdios consideravam haver um segmento (os “impacientes”) que estava disposto a pagar um valor mais alto assim que um filme era distribuído numa sala de cinema, pois sabiam que teriam de esperar alguns meses para o ver em DVD. Outros não sentiam essa urgência e aceitavam esperar pela saída do filme em DVD. Deste modo, o faseamento no lançamento de um filme (que a indústria designava como “janelas” de distribuição) era crítico, pois permitia extrair o máximo valor dos diversos segmentos impedindo uma “canibalização” precoce do seu produto pelos diversos segmentos. Mas os tempos mudaram, sobretudo com a internet, a sua ubiquidade e permanente acessíbilidade. Os primeiros filmes da Netflix foram lançados em streaming e nunca chegaram sequer a passar

numa sala de cinema. Mais recentemente, e em casos esporádicos, a Netflix lançou, em simultâneo, alguns filmes na sua plataforma e em algumas salas de cinema. Como entender então esta opção? A razão é simples: ao contrário de Hollywood, a Netflix não está no negócio de “vender um filme a uma grande variedade de consumidores” mas, pelo contrário, o seu modelo de negócio assenta na ideia de “vender muitos filmes a consumidores individuais”. O sucesso deste modelo, que Hollywood e a indústria cinematográfica perceberam tarde e a más horas, levou recentemente a uma série de fusões (Disney/Fox e ATT/Warner Brothers) cujo objectivo é adoptar, em parte, um modelo semelhante ao da Netflix por forma a competir com o que pressentem ser a mudança de paradigma do mercado. O que não significa que alguns dos actores do “velho sistema” não continuem a tentar bloquear a ascendência da Netflix. Como aconteceu, em 2018, no Festival de Cannes quando os organizadores impediram os filmes produzidos pela Netflix de participarem “por não terem sido projectados em salas de cinema”. Já este ano, filmes como “The Irishman”, de Martin Scorsese, com Robert de Niro e Joe Pesci, e “The Laundromat”, de Steven Soderbergh e protagonizado por Meryl Streep, tiveram sorte semelhante. Apesar de, após muitas disputas e controvérsias, a Netflix ter sido finalmente aceite como membro da Academia de Hollywood e os seus filmes terem ganho este ano quatro Óscares, ninguém tem dúvidas de que, nos próximos anos, esta é uma “guerra” que irá continuar pois o que está em causa é o confronto entre dois modelos de negócio. Neste caso, quem beneficia somos nós.

texto Rui TRindade fotografia d.R.

Lá Fora

o renascimento da sonangol

Depois de os cinco membros do Conselho de Administração da Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANPG) terem tomado posse, em Fevereiro último, a gigante estatal deixou de ser a concessionária oficial de petróleos de Angola

o novo organismo, liderado por Paulino Fernando de Carvalho Jerónimo, assume a tarefa de regular, fiscalizar e promover a execução das actividades petrolíferas, pelo que o registo de vendas de petróleo bruto deixa de ser feito pela Sonangol. Com efeito, as receitas arrecadadas pelo Grupo Sonangol, que em 2018 atingiram os 17,7 mil milhões de dólares, incluem assim 50,1% de vendas de petróleo que cabem agora à ANPG, um valor de 8,9 mil milhões que resultou da exportação de 126 milhões de barris de petróleo, entregues à concessionária pelas operadoras ao abrigo dos Contratos de Partilha de Produção. Pela venda do petróleo, a Sonangol terá ficado com 445 milhões de dólares dos 8,9 mil milhões, uma vez que fica com 5% do valor arrecadado. Do total do valor arrecadado, uma parte é proveniente das empresas do Grupo

40 milhões de dólares é quanto custa regenerar a sonangol e centrá-la na exploração de hidrocarbonetos

(com 19 subsidiárias) e das participadas, valor a que a petrolífera terá de se habituar agora sem o montante que lhe era devido enquanto concessionária, colocando-a assim num dos seus maiores desafios: focar-se no sector dos hidrocarbonetos, em regime de concorrência. Numa conferência de imprensa realizada em Fevereiro, a petrolífera angolana, no âmbito do seu 43º aniversário, revelou que as suas actuais principais actividades tiveram resultados negativos, apesar de ter ensaiado um bom programa de poupança.

Por exemplo, a empresa revela ter atingido tais resultados negativos, em 2018, no que respeita à logística, segundo os administradores, devido à desvalorização do kwanza face ao dólar norte-americano, aos altos custos de importação dos combustíveis e à ausência de

liquidez das empresas. É que o Grupo Sonangol produz o combustível, a nível interno, a um preço alto em relação ao que vende. O impacto negativo prende-se ainda com o facto de a sociedade gastar muito dinheiro com a importação de combustíveis para suprir as necessidades internas do país a preços altos. A E&M sabe que 80% dos combustíveis e outros derivados de petróleo são adquiridos fora do país, em moeda estrangeira, e comercializados no mercado interno em moeda nacional.

A saída para este problema é a aposta no aumento da capacidade de refinação, estratégia já reconhecida pela companhia. “O aumento da capacidade de refinação nacional é a única solução que garante viabilidade à empresa”, refere o economista António Estote.

Segue-se ainda a actualização do custo de produção. O administrador Baltazar Miguel revela que um novo modelo de cálculo dos preços dos combustíveis está a ser avaliado pelo Executivo, depois de a petrolífera nacional anunciar um impacto negativo de “mais de mil milhões de dólares”, em 2018, na Sonangol Logística e na Sonangol Distribuidora. “A falta de liquidez decorrente do preço fixo dos combustíveis provocou um impacto negativo de mais de mil milhões de dólares no Grupo. Neste momento, no caso da Sonangol Logística, os resultados de 2019 já estão comprometidos. Já a Sonangol Distribuidora, e caso se mantenha a depreciação do kwanza e a subida nos custos de importação (aumentaram 30% em relação a 2017), também está a caminhar para uma situação muito complicada”, esclareceu.

Sabe-se que o novo modelo de preços dos combustíveis, dependente de uma decisão política, terá, em princípio, em consideração a questão do petróleo nos mercados internacionais e terá também em conta as alterações na taxa de câmbio e o seu impacto no preço final para o consumidor. Este modelo abre a possibilidade de implementação de preços flutuantes dos combustíveis, que poderão ser reavaliados em curtos espaços de tempo.

os desafios na concorrência

Com uma estratégia que deve passar por focar-se na refinação e não na exploração e produção, a Sonangol prevê agora que a Refinaria de Luanda aumente a sua produção de gasolina para 1.200 toneladas, até finais de 2021, contra as 300 toneladas produzidas actualmente. De acordo com o presidente da Sonaref, Joa-

Com a aNPg a assumir a função de concessionária nacional, resta à Sonangol recentrar-se no seu negócio nuclear em torno da cadeia de valor do petróleo bruto e do gás natural e ao Ministério dos recursos Minerais e Petróleos o reforço do papel e a liberalização completa do sector de comercialização e distribuição, tendo, para este efeito, sido criado o instituto regulador dos Derivados de Petróleo (irDP). a nova agência procederia à transferência de activos da Sonangol para a aNPg durante o primeiro dos três períodos de implementação –preparação da transição (até ao final de 2018), transição (de Janeiro a Junho de 2019) e optimização e transição (de Julho de 2019 a Dezembro de 2020). o plano foi desenhado de modo a não causar perturbação no trabalho das duas instituições, mas a economist intelligence Unit (eiU) considerou recentemente que o desmembramento da Sonangol “é um passo essencial para a reforma no sector petrolífero angolano”, sem deixar de alertar “que a escala da reestruturação é um grande desafio.” os peritos do economist exemplificam que “ainda não é claro” se a gestão das actuais concessões vai ser transferida ou se os contratos actuais vão ser cumpridos.“esta incerteza pode preocupar os investidores”, que devem enfrentar também algumas “guerras de poder” entre a Sonangol, a aNPg e o novo Ministério dos recursos Minerais e Petróleos. Já a economista Laurinda Hoyggard não prevê os receios acima apontados, e entende que a entrada em funcionamento da aNPg, que terá a seu cargo a realização das licitações de novas concessões petrolíferas e a gestão dos contratos de partilha da produção e representação do estado na divisão dos lucros do petróleo nas concessões petrolíferas, é o concretizar de uma reivindicação antiga. e acrescenta que “a condição em que se mantinha a Sonangol era desfavorável para o mercado”. o modelo da aNPg, enquanto agência, ajusta-se às práticas de países que têm uma indústria petrolífera mais madura, como o Brasil, que em 2007 criou uma agência, em função dos problemas que havia com a Petrobrás.

quim de Sousa Fernandes, esse aumento está previsto num projecto conjunto entre a Sonangol e a Italiana ENI, que visa a criação de outra unidade de refinação para gasolina. A concretização da iniciativa depende de um acordo de parceria entre as duas empresas e vai reduzir o défice do mercado em 20%.

Mas esta previsão optimista não é partilhada pelo jornalista e investigador do Centro de Estudos da Universidade Católica de Angola, José Oliveira, para quem o país “vai continuar a viver da importação de combustível” porque a modernização da Refinaria de Luanda e a construção das refinarias de Cabinda e do Lobito “vão ainda levar alguns anos”.

Vender sim, mas não tudo!

Com o objectivo de desfazer-se de activos não estratégicos para a petrolífera nacional Sonangol, o IGAPE (Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado) prepara-se para, a 21 de Maio, realizar o acto público de comunicação aos candidatos interessados na adjudicação de sete unidades que pertenciam à petrolífera, dando assim início ao processo de alienação de um total de 52 empresas, localizadas na ZEE.

Ainda não será desta que a Sonangol vai desfazer-se de todos os negócios fora do seu core porque vai manter os seus investimentos na Galp e no Millenium BCP. Em entrevista à RTP, o Presidente da República, João Lourenço, afirmou que, no caso da Galp, “não há razão” para a Sonangol sair da empresa.

Quanto ao banco Millenium BCP, a administração da Sonangol considera a participação de mais de 800 milhões de dólares como “um investimento estratégico”, de acordo com o Relatório e Contas da empresa, a que a E&M teve acesso.

Para já, também não será agora que a petrolífera vai alienar a participação de 25% na estrutura accionista da Unitel, embora haja muitos interessados na compra da sua parte no capital social. O PCA da Sonangol anunciou, em Luanda, que pretende “chegar a acordo” com os restantes accionistas em relação aos novos órgãos sociais da operadora. Ou seja, a Sonangol pretende ver a empresa mais organizada e transparente para depois avançar com uma venda que compense o investimento,, explicou Carlos Saturnino.

texto Adão Gil fotografia d.R.

NOVOS ÂNGULOS

O princípio e o fim no fim dos princípios

dizem-nos as notícias que o Deutsche Bank iniciou o processo de fornecer os registos financeiros ao procurador-geral do Estado de Nova Iorque, em resposta a uma intimação de documentos relacionados com um conjunto de empréstimos duvidosos contraídos pelo agora presidente, quando ainda só um empresário. Donald Trump é sempre um bom alvo para quem o queira achincalhar. Porque não passa despercebido. Pela cor e corte do cabelo que não se percebe se o é, de facto, pela primeira-dama de olhar bonito e sorriso pré-fabricado quase sempre a seu lado, pela gravata agarrada com fita cola, descoberta por um paparazzi, ou pelo que anuncia no Twitter que vai fazer, a altas horas de madrugada. Há, no entanto, pouca gente que o julgue pelo que realmente ele faz. Dá mais trabalho essa análise, é certo, e não serei eu a fazê-la. Interessa-me mais perceber como hoje não se vivem tempos de aprofundar a formação de uma opinião, seja ela qual for. No caso, era mais eficaz para os argumentos utilizados, mesmo para quem não gosta dele. E razões para isso não faltam, claro. Mas não estão no Twitter, nem na gravata.

O Deutsche Bank foi, ao longo dos anos, um dos poucos grandes bancos internacionais a dar crédito à Organização Trump, a quem concedeu mais de 300 milhões de dólares para financiar um campo de golfe na Flórida e a construção de hotéis em Chicago e Washington. Nada de mal aqui.

Até que, no mês passado, a Procuradora Geral de Nova Iorque, Letitia James, emitiu intimações para que sejam revelados os registos dos financiamentos de vários projectos da Organização Trump, e abriu uma investigação civil ao ex-advogado do actual presidente, Michael Cohen, depois de este ter testemunhado perante o Congresso e revelado que Trump inflacionou os seus bens para garantir os empréstimos.

O banco terá de entregar os documentos, incluindo e-mails e formulários dos empréstimos assinados por Trump, sendo que o próprio banco já é, ele próprio, objecto de uma investigação conjunta entre os comités de Inteligência e Serviços Financeiros da Câmara sobre os negócios e a lavagem de dinheiro do antigo empresário e talk show host. Recorde-se que, já em

Janeiro de 2017, o Deutsche teve de pagar uma multa de quase 630 milhões de dólares na sequência de uma investigação das autoridades britânicas e norte-americanas sobre o branqueamento de capitais oriundos da Rússia. Logo depois, o Federal Reserve dos EUA ordenou uma multa adicional de 41 milhões de dólares, devido às lacunas detectadas na (falta) de vigilância do banco sobre movimentações de lavagem de dinheiro utilizando algumas das suas filiais. Meses depois, o branqueamento do dinheiro russo voltaria às manchetes, com o maior banco de crédito da Dinamarca, o Danske Bank, a admitir que dezenas de milhar de milhões de euros de transacções suspeitas passaram por uma sua filial na Estónia, que, a par de Malta, Letónia e Chipre, são as plataformas giratórias do dinheiro soviético na Europa. Em vários bancos.

Claro que a questão russa obrigou os legisladores norte-americanos a exigirem informações sobre o relacionamento do Deutsche com o seu presidente e quaisquer outras ligações financeiras que ele possa ter com entidades russas, num caso que irá ser interessante de seguir nos próximos anos. Daria um bom enredo com e muitas audiências, se transposto para série do Netflix. Pelo menos, a parte da espionagem, sempre apelativa e com boas sequências de acção, não contabilística de preferência, pelo meio.

Quanto ao resto da história, na verdade, não me parece que tivesse grande sucesso na angariação de assinantes na maior plataforma de streaming dos nossos dias.

Afinal, gente poderosa do mundo que se vende e pede crédito sem ter como o pagar só é uma história mais original do que a de gente sem qualquer poder no mundo, que se vende e pede dinheiro sem ter como o pagar. Um tão pouco original como, demasiadas vezes, já repetido enredo.

Mudam os valores, faciais, no caso, até porque, para muita gente, a diferença só está, como sempre esteve, no dinheiro. Uns, menos, com mais numerário, digital, imobiliário ou académico. Outros, cada vez mais, com cada vez menos. O que é péssimo para o espectador. Os mesmos princípios de sempre, e sempre o mesmo final.

Gente poderosa do mundo que se vende e pede crédito sem ter como o pagar só é uma história mais original do que a de gente sem qualquer poder no mundo, que se vende e pede dinheiro sem ter como o pagar. Um tão pouco original como, demasiadas vezes, já repetido enredo

ócio

60

Nesta edição visitamos o Bairro da Mafalala, no coração de Maputo

62

O Jacarandá é o lugar onde Moçambique se junta, no prato, com a gastronomia portuguesa

63

A escolha da Adega recai numa arrojada escolha de Tequilas

(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio

Maputo

o Bairro onde

o futuro coMeçou

o bairro da mafalala está às portas da cidade de cimento de Maputo. As suas ruas continuam a ser de terra avermelhada e a vida continua a viver-se no rés-do-chão, em quintais onde os vizinhos se juntam. Na verdade, sempre foi aquela informalidade que fez o bairro e as suas gentes. Foi graças a isso, aliás, que ali viveram dois presidentes, um primeiro-ministro, artistas, poetas e desportistas. Ivan Laranjeira diz que “a Mafalala cria pessoas únicas porque é um bairro único”. Presidente da Iverca, uma associação de cerca de 30 jovens do bairro que decidiram mostrar a Mafalala ao mundo, Ivan é um dos quatro guias a fazer o “Tour A Pé” da Mafalala, um passeio de três horas que acontece sob marcação

e que cativa estrangeiros e nacionais, já que o legado deste bairro é de todos. Samora Machel, Joaquim Chissano, Pascoal Mocumbi, Noémia de Sousa, José Craveirinha, Armando Caliano, Fany Mpfumo, Ricardo Chibanga ou Eusébio da Silva Ferreira são alguns dos filhos mais sonantes da Mafalala. E Ivan fala em todos eles com orgulho. No início do século XX, deu-se o grande boom da exploração do ouro em Joanesburgo e tanto o porto de Maputo como o caminho-de-ferro de Moçambique, tiveram de se desenvolver para responder à demanda. A cidade cresceu e com ela cresceu também a necessidade de fazer um plano urbano. Assim nasceu a Estrada da Circunvalação, tendo de um lado a cidade

de cimento, a desenvolvida, a branca. E do outro, o bairro da Mafalala, onde residiam apenas os negros. Para passar de um lado para o outro, tinha que se mostrar a “Caderneta Indígena”, ninguém entrava na cidade de cimento sem ela. Não demorou até começar um movimento de crítica ao sistema, liderado pelos artistas. Daí até serem criadas sociedades civis de luta pela igualdade foi um passo. Por isso, Ivan diz orgulhoso que na Mafalala está “a alma e a paixão de Moçambique”. O que hoje existe começou ali, naquelas ruas e becos, em conversas caladas e sussurros contra o regime colonialista. João Albasini, José Craveirinha, Noémia de Sousa foram os primeiros a acender a chama. Entretanto, a cidade continuava a crescer e cada vez mais pessoas vinham para Maputo, na altura

Bairro da Mafalala

Lourenço Marques. Todos ficavam neste bairro. Ainda hoje, 80% das línguas faladas em Moçambique podem ser ouvidas na Mafalala. Quando começou a nascer a hotelaria na capital, recrutaram-se pessoas das ilhas, razão pela qual também as gentes descendentes das Comores, de Cabo Verde e de Zanzibar partilham o bairro. Samora Machel tirou o curso de enfermagem hospedado numa residência do bairro. Começou os seus primeiros anos de trabalho no Hospital Central e foi ali que começou também a sua consciência política. Acabou por ser transferido para Inhaca. O regime temia que as suas ideias crescessem e se tornassem acção, mas o futuro já era mais forte e Samora acabou por fugir de Inhaca para Dar Es Salaam, na Tanzânia, dando assim início ao seu percurso político fora da clandestinidade.

diversidade cultural

A Iverca fez uma sondagem entre os moradores do bairro para saber a que associavam a Mafalala. Desporto, literatura e diversidade cultural foram as respostas mais ouvidas. Por essa razão, a associação trabalhou na criação de três murais feitos por artistas nacionais e dedicados a cada um dos três temas. Preocupada com a reabilitação do bairro e sobretudo com a sua sustentabilidade, esta associação de jovens existe desde 2009 e já criou não só este tour, mas também o Festival da Mafalala e uma biblioteca comunitária dentro de uma escola. Embora se diga que ali foi criada a famosa dança Marrabenta, o Tufo, a dança proveniente de Nampula, é o verdadeiro cartão de visita do bairro. Os planos da associação Iverca são muitos e passam sobretudo por mostrar como a Mafalala é importante na História do país.

a história das histórias da Mafalala cresceu livre pelas ruas e nos Becos, eM conversas caladas e sussurros contra o então regiMe colonialista

roteiro

CoMo ir

Para poder fazer o “Tour

A Pé” na Mafalala, deverá marcar previamente junto da Associação iverca. O ponto de encontro para o início do passeio é, normalmente, marcado junto à entrada do bairro.

Preços

O “Tour a Pé” pela Mafalala fazse em inglês, português, ronga e macua. Tem uma duração de cerca de três horas e o preço varia de acordo com o número de pessoas do grupo. Custa 1 000 meticais por pessoa para grupos de cinco a 15 pessoas, 1 200 para três a quatro pessoas e a 1 500 para duas pessoas.

ContaCtos

As reservas para os passeios podem ser feita através do número +258 824 180 314 ou do e-mail geral@iverca.org

todos reconheceMos, seM dificuldade, os eleMentos de Base que constitueM a essência de uM

BoM restaurante. o Menu do “Jacarandá” reflecte uMa tradição culinária

todos reconhecemos, sem dificuldade, os elementos de base que constituem a essência de um bom restaurante. A qualidade da matéria-prima, isto é, a excelência dos produtos que são o fundamento da oferta gastronómica. Mas sem o saber, ou melhor, sem a arte capaz de os transformar numa iguaria cujo desfrute os torna memoráveis, é óbvio que só a qualidade não basta. Existem certamente outras componentes, ainda que num plano subsidiário, que ajudam a fazer a diferença: um serviço competente e atencioso e uma atmosfera acolhedora. É a combinação de tudo isto que distingue os bons restaurantes e transforma a degustação num ritual que convida à constante repetição da experiência.

Mas se esta constelação de factores são os traços distintivos de todos os bons restaurantes, o que verdadeiramente traça uma linha divisória entre estes e aqueles que se encontram num patamar superior de excelência é o “suplemento de alma” que neles encontramos.

Jacarandá, onde a coMida teM alMa

Ou seja, é a percepção de que a qualidade da experiência vivida (em todas as suas dimensões) resulta de um investimento afectivo incondicional e reflecte, mais do que um “saber fazer”, uma entrega que faz do “acto culinário” um elemento existencial constitutivo da própria vida e não, tão só, uma “prática” meramente “profissional”. E é isto que encontramos no “Jacarandá”. Mas de onde vem este “suplemento de alma”? Porventura do facto de este ser, assumidamente, um projecto familiar e, enquanto tal, tecido pelas memórias profundas do que, para as três mulheres que são os pilares desta aventura (Florinda, Carla e Sandra Costa), marcaram a sua história “culinária”, e os gostos e os

sabores que alimentaram o seu percurso. É, sem dúvida, por isso que Carla Costa gosta de definir a oferta do “Jacarandá” como “aquilo que gostávamos de comer em casa: o medalhão com natas e cogumelos, o strognoff, o arroz de pato, o bacalhau com natas ou à braz....”. E, nesse sentido, o “Jacarandá” é, essencialmente, ‘comida de casa’. “Nós queremos que as pessoas que aqui vêm comer se sintam como se estivessem em sua casa ou na dos pais ou dos avós...”. O menu do “Jacarandá” reflecte, em larga medida, a tradição culinária portuguesa. Apesar de Carla e Sandra terem nascido na Zambézia, as suas raízes (e a longa estadia que tiveram em Portugal antes de regressar ao país) levaram-nas,

compreensivelmente, a desenhar uma ementa mais “portuguesa”, mesmo que dela constem pratos como o arroz de garoupa à zambeziana, ou o caril de camarão. E ainda bem, pois a qualidade da oferta é insuperável. Experimentem, por exemplo, o pernil de porco com castanhas portuguesas, acompanhado de grelos salteados e batata frita, o arroz de garoupa e camarão, o arroz de pato ou o medalhão com natas e cogumelos e verão que esta é, genuinamente, a “comida da casa” que qualquer um desejaria poder desfrutar.

TexTO rui trindade fOTOgrAfiA Jay Garrido

casaMigos tequila reposado

País

México

Cor

Ouro pálido

saBor

Rico e cremoso com notas de caramelo e cacau

teor alCoóliCo

40%

casaMigos tequila añeJo

País

México

Cor

Clara, brilhante, âmbar dourado saBor

Macio e sedoso com notas de caramelo e baunilha teor alCoóliCo

40%

José cuervo especial

País

México

Cor

Dourada saBor

Notas herbáceas de carvalho com final longo e picante teor alCoóliCo

38%

tequila só é... tequila se tiver sido produzida coM os agaves da região

de Jalisco

casaMigos a

tequila de george

clooney surpreendeu o Mercado

não é certamente por acaso que os mexicanos se têm batido, ao longo dos anos, pelo direito à exclusividade do uso da designação da palavra tequila. Reclamam que a tequila genuína, com os seus típicos 40% de teor alcoólico, só é verdadeira se tiver sido feito com os agaves da região de Jalisco, cidade mexicana a 65 quilómetros de Guadalajara. Apesar da variedade de tequilas produzidas, e da existência de famosas marcas de referência, o mercado foi surpreendido, no início de 2013, com uma tequila com características únicas. Designada Casamigos, tinha também uma outra particularidade: um dos seus criadores era o actor norte-americano George Clooney que, com um seu amigo e empresário Rande Gerber, tinham por hábito passar férias juntos no México. Conta Rande Gerber que “os barmen recomendavam tipos diferentes de tequila. Depois de alguns meses, o George virou-se para mim e disse: por que é que nós não fazemos a nossa própria tequila?.” E foi isso que fizeram. Depois de consultarem amigos que viviam na região, a dupla trabalhou com um mestre destilador em Jalisco, no México, para achar o exacto perfil de sabor de que estavam à procura — sem queimar e sem ser pungente. Gerber e Clooney tinham inclinação por uma Reposado — tequila suave, equilibrada, que é envelhecida em barris de carvalho por meses — e foi por aí que iniciaram a sua actividade. A sua primeira opção foi pôr uma mistura de agave 100% Blue Weber cozida lentamente num forno de tijolos e deixada em fermentação por bastante tempo. Na realidade, o processo da fermentação é extra lento, mais do dobro do padrão das convencionais 80 horas de maturação das leveduras.

O resultado é uma tequila bastante suave cujo sabor não precisa ser mascarado por sal e limão. A marca começou por lançar dois sabores, o Blanco e o Reposado. A Casamigos Reposado é uma tequila suave, limpa, com notas de caramelo, enquanto a Casamigos Blanco é nítida e clara com toques subtis de baunilha. O sucesso da Casamigos superou todas as expectativas e venceu alguns prémios internacionais. Entre 2016 e 2017, as vendas cresceram 54% e com o valor da marca em alta, Clooney e Gerber venderam a Casamigos à Diageo por mil milhões de dólares, num grande negócio sem ressaca no dia seguinte, por certo.

tequila Blanco

País México

Cor

Nítida e clara

saBor

Citrinos, baunilha e agave doce teor alCoóliCo

40%

música filmes livros

eXposiçÕes

OS MABUNDAS

GONçAlO, SANtOS e RODRiGO

MABUNDA

Camões - Centro Cultural Português em Maputo

Aberta até 31 de Maio

Horário: Segunda a Sexta das 11h às 18h

SéRGiO SANtiMANO/MAURO

PiNtO/FiliPe BRANqUiNhO/ YASSMiN FORte exPOSiçãO cOlectivA De FOtOGRAFiA

Fundação Fernando

Leite Couto

inauguração: 2 de Maio

Hora: 18h

Patente até 31 de Maio

MÚsica

FeStA DA UNiãO eUROPeiA

DiNO D’SANtiAGO / BRANkO / RhODAliA

celeBRAçãO DO DiA DA UNiãO eUROPeiA

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia 10 de Maio

Hora: 20h30

SeSSãO De cONveRSA e cONceRtO

liZZY - BeRliN MeetS MAPUtO –let´S DRUM it UP!

UMA PeRFORMANce úNicA

De UMA BAteRiStA FeMiNiNA , vOcAliStA e cOMPOSitORA De BAteRiA , qUe DeSeNvOlveU UM NOvO iNStRUMeNtO qUe AcABA

SeNDO PARte DA iNDUMeNtÁRiA ,

APeliDADO De 3DDD

cONviDADA: ORlANDA DA cONceiçãO qUARtet

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia 15 de Maio

Hora: 20h30

teatro

teAtRO iNFANtO-jUveNil

“O PeqUeNO PRÍNciPe” / ceNtRO De RecRiAçãO ARtÍSticA

textO ORiGiNAl: O PeqUeNO

PRÍNciPe, De ANtOiNe De SAiNt-exUPéRY

ADAPtAçãO: GiGliOlA ZAcARA

eNceNAçãO & DRAMAtURGiA: GiGliOlA ZAcARA

iNtéRPReteS: FeRNANDO MAcAMO, iSAc SUMAil e heleNA teMBe

FiGURAçãO: ilDA ARMiNDO

MúSicA: céliA MADiMe

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia 25 de Maio

Hora: 10h

ANtÍGONA: AS lUZeS e AS SOMBRAS

cOORDeNAçãO De PRODUçãO: FFlc

ADAPtAçãO DRAMAtúRGicA: ANtóNiO cABRitA

APOiO à eNceNAçãO: veNâNciO cAliStO

ActOReS: hORÁciO GUiAMBA, MilSA USSeNe, SiDóNiO MONDlANe

SONOPlAStiA: NANDele

FiGURAçãO: ilDA ARMiNDO

MúSicA: céliA MADiMe

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia 31 de Maio

Hora: 18h

• em destaque

“Guerra dos Tronos” dVd (Temporadas 1 a 7) (www.fnac.pT)

Baseada no livro “A Song of ice and fire”, de george r r Martin, “guerra dos Tronos” é uma saga épica que se inspira na luta pelo poder - presente em todas as sociedades humanas - e no que essa luta revela sobre a natureza humana. Nesta perspectiva, a série evoca não só os grandes clássicos da literatura (a começar em Shakespeare) como remete para ensaios como o “Leviatã” de Thomas Hobbes (“o homem é lobo do homem, numa guerra de todos contra todos”) publicado no século xVii

iNFlUx De PAk NDjAMeNA

Centro Cultural

Franco-Moçambicano

Dia: 22 de Maio

Hora: 19h

APARÊNciAS. e viveRÁS DO teU SUOR. FeStivAl kiNANi – OSvAlDO PASSARivO

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia 23 de Maio

Hora: 18h

cenoGrafias pós-coloniais & esTudos sobre liTeraTura moçambicana ana mafalda leiTe ediTora colibri (2018)

Ana Mafalda Leite é investigadora e Professora Associada com Agregação da faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. escreve a autora na introdução a este volume: “este livro reúne ensaios realizados entre 2006-2016. Na primeira parte, intitulada Cenografias Pós-Coloniais e na segunda parte do livro organiza-se um conjunto de estudos dedicados à História da Literatura Moçambicana e também um roteiro de ensaios sobre a Literatura Moçambicana”.

BlUSh De WiM vANDekeYBUS DOcUMeNtÁRiO

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia 7 de Maio

Hora: 18h

PANDZA lAND DOcUMeNtÁRiO

Fundação Fernando

Leite Couto

Dia 21 de Maio

Hora: 18h

“os MaBundas”, de gonçalo, santos e rodrigo MaBunda

como a tonalidade das paredes, a luminosidade, a presença de textos, entre outros elementos. O público poderá assim ver um conjunto de cerca de 40 obras dos irmãos Mabunda, que durante o seu percurso desenvolveram linguagens muito particulares, tal como técnicas diferenciadas e específicas de expressão artística. A exposição “Os Mabundas” –Gonçalo, Santos e Rodrigo reúne um conjunto abrangente de obras produzidas recentemente, que inclui um painel colectivo produzido propositadamente para a ocasião. Santos e Rodrigo Mabunda têm exibido o seu trabalho, sobretudo, em exposições colectivas a nível nacional, enquanto emergem como criadores artísticos. Já Gonçalo,

a Mostra teM uM traBalho curatorial conJunto do arquiteto guilherMe godinho e do director do caMÕes – centro cultural portuguê

um dos artistas com méritos reconhecidos e apreciados internacionalmente, já se afirmou há muito no competitivo circuito da arte contemporânea, tendo passado por algumas das salas de maior relevância e visibilidade globais. As suas obras são expostas em diversas galerias de Paris, Londres e Nova Iorque, de Macau ao Dubai. Em África tem sido apresentado em praças como Marraqueche, Dakar, Joanesburgo e Maputo. Gonçalo recorre à escultura e soldadura metálica, tendo como elemento distintivo o uso de material de guerra descontinuado. Santos tem feito a evolução de um desenho monocromático para trabalhos que, embora utilizem a cor, mantêm a mesma sobriedade das suas obras iniciais. No caso de Rodrigo, o mais “caçula” dos irmãos, o suporte utilizado para os seus desenhos, também monocromáticos, mas neste caso feitos a esferográfica, são caixas de cartão reutilizadas.

De Segunda a Sábado, entre as 11h00 e as 17h30

caMÕescentro cultural português eM Maputo no camões – Centro Cultural Português em Maputo, está patente até ao final do mês de Maio a exposição “Os Mabundas”, uma apresentação inédita do trabalho dos artistas moçambicanos, Gonçalo, Santos e Rodrigo Mabunda. Esta arrojada iniciativa, que conta com o apoio do Barclays Bank Moçambique, tem como objectivo mostrar, na cidade onde nasceram os artistas, a singularidade e excelência dos trabalhos apresentados e divulgar o fértil trabalho criativo de três dos mais talentosos artistas plásticos de Moçambique na actualidade. Nesta mostra familiar, as obras seleccionadas são apresentadas dentro de um discurso curatorial que envolve não só a disposição espacial das obras em harmonia com o ‘genius loci’ da sala do Camões, mas também factores

Patente até 31 de Maio

range rover evoque evolução sofisticada

acabado de lançar, o novo Range Rover Evoque marca o nascimento da segunda geração do SUV britânico. Foi em 2010 que a Land Rover agitou as águas do mercado dos SUV compactos com o lançamento do Range Rover Evoque. Com as vendas a atingirem cerca de 800 mil unidades em sete anos e mais de 217 prémios internacionais, percebe-se a prudência que presidiu ao redesenho do novo Evoque que mantém, no essencial, os traços que o tornaram tão distinto. Coisa, aliás, assumida pela própria Land Rover que prefere sublinhar tratar-se de “uma evolução sofisticada do perfil distinto do coupé, caracterizada pelas suas linhas do tejadilho descendente e linha de cintura ascendente que identificam a família Range Rover”. Se esteticamente as diferenças são mí-

nimas, já em muitos outros aspectos há diferenças substanciais. A mais significativa tem a ver com a base em que assenta esta nova geração, a chamada Arquitectura Transversal Premium da Land Rover, que não só está preparada para a electrificação, como veio permitir que o novo Evoque ofereça mais espaço interior e maior volumetria da bagageira. De acordo com a Land Rover, a nova plataforma é 13% mais rígida do que a anterior e filtra melhor o ruído e as vibrações que chegam ao habitáculo, estando apta a receber motorizações mais amigas do ambiente pois, segundo a marca, “é isso que os clientes querem”. Daí que a evolução mais significativa

o novo range rover evoque Marca, e de que Maneira, o nasciMento da segunda geração do suv Britânico

nesta nova geração do Evoque seja a introdução de um sistema mild hybrid de 48 V, uma estreia na gama do fabricante britânico. No que diz respeito ao interior, um dos aspectos mais inovadores é o novo retrovisor ClearSight. O espelho pode converter-se num écran de alta definição, que reproduz uma imagem de 50 graus da traseira, captada por uma câmera embutida na antena. De acordo com a Land Rover, a tecnologia ClearSight “proporciona um campo de visão mais amplo e uma visibilidade superior em condições de luz -ambiente reduzida”. Mas o que realmente impressiona é o sistema Ground View, que usa três câmaras (duas nos retrovisores e uma na frente) apontadas para o chão e que dão a sensação do carro ser transparente. As imagens são combinadas por um computador e mostram a projecção do piso à frente do carro.

O novo motor 1.5 turbo de três cilindros e 200 cv (família ingenium) terá um motor eléctrico de 108 cv alimentado por uma bateria de íons de lítio de 11,3 kWh

Preço

MéDio 65 000 USD range rover evoque

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