Os grandes investimentOs em cursO nas fOtOvOltaicas
rEPOrTagEM na bEira a destruiçãO que fica e a esperança que permanece frangO
O OvO e a galinha? O mercadO vem primeirO
CâMbiOs
e&m fOi visitar um mercadO infOrmal em crescimentO a MulhEr MOçaMbiCana a e&m analisa O que ainda falta na ecOnOmia e nO país, para que se pOssa falar de igualdade
6 Observação
Idai a imagem de uma das maiores tragédias humanitárias da história de Moçambique
8 Radar
Panorama economia, banca, Finanças, Infra-estruturas, Investimento, País
12 Macro
ENQUADRAMENTO
12 Energia os grandes investimentos que estão a ser efectuados na área das fotovoltaicas
16 Frango Um dos poucos ramos da agro-indústria em que o país é auto-suficiente
24 Nação
A MUlhER MOçAMbIcANA
24 O que falta a e&M analisa o papel da Mulher na economia e na sociedade moçambicana
34 Na voz de... sofia cassimo, presidente do pelouro da Mulher empresária na cTa
40 ProvÍncIa
beira os efeitos do Idai na vida de uma Província que terá de recomeçar quase do zero
44 Mercado e FInanças câmbios o mercado cambial informal tem aumentado em Maputo. a e&M foi descobrir porquê
50 EMPresas
PME compuscan Melhor qualidade na informação e mais transparência no mercado do crédito
52 MegaFone
Marketing o que está a acontecer no mundo das marcas em Moçambique e lá por fora
54 FIgUra do MÊs
ATcM os planos de rodrigo rocha para mudar a face do desporto automóvel no país
56 socIedade
Gamers estão a surgir dezenas de novas startup de videojogos por toda a África
60 lÁ Fora
clima as mudanças climáticas estão, cada vez mais, a provocar mais e maiores catástrofes naturais
67 ócio
68 Escape Uma visita à reserva especial de Maputo
70 Gourmet o shawarma show, em Maputo 71 Adega Um brinde aos novos bourbons 72 Agenda Música, livros, filmes
73 Arte “(F)achadas”, a nova exposição de João roxo
74 Ao volante e-bikes, a reinvenção da bicicleta
Idai, o furacão que devastou o centro de Moçambique
Iacumba Ali Aiuba
o mês de março de 2019 ficará registado na História de Moçambique como um tempo de grandes e irreparáveis perdas, destruição de infra-estruturas, bens materiais e mais do que tudo, vidas humanas. Sempre demasiadas. Em consequência do ciclone Idai, de magnitude 4, registado no dia 12, acompanhado de chuvas intensas, que arrasou o Centro de Moçambique, em particular a cidade da Beira que ficou irreconhecível e os distritos circunvizinhos, foram igualmente atingidos pela tempestade e chuvas as províncias de Manica, Tete, Zambézia e o Norte de Inhambane, tendo o rasto de destruição e lamento percorrido não só o país, como quase todo o mundo. Perante esta tragédia, a Economia & Mercado não poderia ficar indiferente à onda do movimento de solidariedade interna e internacional jamais vista em Moçambique, que mobiliza todo o tipo de apoio às vítimas desta devastação monumental.
A equipa da E&M endereça por este meio as mais sentidas condolências às famílias enlutadas e manifesta o seu apreço e reconhecimento do esforço daquelas pessoas e instituições que não tiveram mãos a medir no movimento de apoio às populações afectadas, enviando equipamento de resgate, alimentos, água, medicamentos, pessoal médico e roupa para as tantas necessidades prementes.
Em homenagem aos afectados e aos heróis vivos desta calamidade, vai a nossa solidariedade.
MÊS ano • nº 01
ABRIL 2019 • Nº 13
PROPRIEDADE Executive Moçambique
DIRECTOR Iacumba Ali Aiuba
DIRECTOR EXECUTIVO Pedro Cativelos COnsElhO EDITORIAl Alda Salomão; António Souto; Narciso Matos; Rogério Samo Gudo JORnAlIsTAs Celso Chambisso; Hermenegildo Langa; Cristina Freire, Elmano Madaíl, Rui Trindade; PAGInAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Jay Garrido; Vasco Célio REVIsÃO Manuela Rodrigues dos Santos PRODUÇÃO Executive Moçambique PUBlICIDADE Ana Antunes (Gestora Comercial - Moçambique) ana.antunes@ executive-mozambique.com; iona@iona. pt/contacto@iona.pt (Portugal)
ADMInIsTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBlICIDADE Executive Moçambique; Av. Salvador Allende, nº 1039, Bairro Polana Cimento, Maputo – Moçambique; Tel.: +258 21 485 652; Tlm.: +258 84 311 9150; geral@executive-mozambique.com
DElEGAÇÃO EM lIsBOA Telheiras, Rua Poeta Bocage, Nº 2 – 1º Escritório D • 1600233 Lisboa • Portugal; Tel. +351 21 381 3566; iona@iona.pt
IMPREssÃO E ACABAMEnTO Minerva Print - Maputo - Moçambique TIRAGEM 4 500 exemplares núMERO DE REGIsTO 01/GABINFO-DEPC/2018
propriedade Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Executive Mocambique Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi lorem ipsum Liquatis nienis doluptae velit et magnis enis necatin nam fuga. Henet exceatem seque cus, sum nis nam iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in prae voles sant laborendae nihilib uscius sinusam rehentius eos resti dolumqui dolorep reprem vendipid que ea et eumque non nonsent qui officiasi
observação
Beira, março de 2019 IdaI, sInónImo de morte...
e esperança
A depressão tropical que se formou na costa leste de Moçambique atingiu o país com uma brutalidade nunca antes vista. Com ventos de 175 km/h, o ciclone de grau 4 passou, em Março, e deixou para trás um rasto de destruição inaudita. Entre as contas finais de um pesadelo vivido por milhões de pessoas, os números que ninguém esquece, e que contam mais de mil mortos e desaparecidos, 400 mil desalojados e milhões de meticais em prejuízos materiais. No entanto, a solidariedade de países como a Índia, EUA ou Portugal, de empresas nacionais e internacionais e de cidadãos com vontade de ajudar as populações afectadas também se fez sentir, como nunca antes, em Moçambique.
RADAR
ECONOMIA
Financiamento. Quatro convenções de financiamento a Moçambique, para o fomento do comércio, biodiversidade, agro-negócio e transportes, foram recentemente assinadas em Maputo, informou a delegação da União Europeia em Moçambique.
Com um valor total de 217 milhões de euros, os acordos fazem parte do programa PROMOVE e cobrem estas quatro áreas-chave de desenvolvimento, como a facilitação ao comércio, a gestão sustentável dos recursos naturais, a promoção da agricultura sustentável e do agro-negócio e a recuperação de estradas nas zonas rurais.
Investimento. A companhia petrolífera Anadarko anunciou que pretende investir cerca de 176 milhões de dólares no projecto de exploração de gás natural em Moçambique, ainda neste semestre, antes de avançar para a Decisão Final de Investimento (DFI).
De acordo com o relatório anual da empresa norte-americana entregue no regulador local, este valor “inclui a parte do custo da Anadarko associado à preparação em curso no terreno para a central onshore”. No documento, lê-se também “que os prazos estão a ser cumpridos para que a petrolífera anuncie a Final Investment Decision (FID)” igualmente neste primeiro semestre.
Tributação. África vai contar, a partir deste ano, com uma rede de comunicadores sobre assuntos de tributação no continente, visando alargar a base tributária.
Trata-se da Rede Africana de Media para Assuntos Tributários, que vai integrar jornalistas e técnicos de comunicação das autoridades tributárias dos vários países-membros do Fórum
MOçAMbIquE vAI tEr
INdústrIA dE lApIdAçãO dE pEdrAs prECIOsAs
Jóias. A Empresa Moçambicana de Exploração Mineira (EMEM) anunciou, recentemente, que pretende instalar no país uma indústria de corte e lapidação de gemas, para a produção de jóias. Para o efeito, a EMEM lançou um concurso público para a selecção da empresa, que fundamentalmente terá a missão de realizar um estudo de viabilidade técnica e financeira para a implementação da referida nova indústria. Na concurso, a EMEM explica que a instalação de uma indústria de
Africano das Administrações Tributárias ,ATAF (sigla em inglês). A decisão foi tomada no fim do II Encontro de Formação e Engajamento de Media em Assuntos de Tributação, realizado no mês passado, na capital ruandesa, Kigali.
Financiamento. Estão prestes a iniciar, este semestre, as obras de construção de uma fábrica de rações, incubadora e matadouro industrial, no distrito de Lichinga, província do Niassa. O projecto, financiado pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), orçado em três milhões de dólares, está a ser implementado através do Instituto para Promoção de Pequenas e Médias Empresas (IPEME). Segundo o Coordenador do Projecto de Gestão de Emprego e Melhoria de Renda na província do
corte e lapidação de gemas para produção de jóias tem como principal objectivo fazer aumentar o nível de receita deste subsector ao nível da tributação e na contribuição para o Produto Interno Bruto (PIB), uma vez que, até agora, o tratamento e venda de pedras preciosas nacionais é integralmente feito no exterior. Exemplo desta realidade, são os nove leilões de rubis de Cabo Delgado já efectuados em Singapura, com uma receita total de mais de 350 milhões de dólares.
Niassa, Romualdo Vaíla, a iniciativa visa impulsionar o “desenvolvimento agro-industrial com base numa classe jovem empreendedora.”
Formação de quadros. Portugal vai apoiar Moçambique na formação de quadros na área de turismo, para a gestão do património da Ilha de Moçambique. De acordo com a secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, aquando da sua visita de trabalho a Moçambique, “esta parceria será desenvolvida através de um instituto de formação a ser implementado na Ilha de Moçambique, como forma de contribuir para o aproveitamento do valor histórico e turístico local.”
A formação irá arrancar em Julho e vai abranger, numa primeira fase, professores na Ilha de Moçambique, sendo que, mais tarde, um alargado grupo de estudantes vão ser instruídos em matérias ligadas à importância do uso de métodos tecnológicos na divulgação do potencial da Ilha.
Logística. O Governo, através da empresa CFM-Portos e Caminhos de Ferro de
Moçambique, vai adquirir, ainda este ano, cerca de 90 carruagens e cinco locomotivas adicionais para o reforço do transporte de passageiros e mercadorias, nos sistemas ferroviários Sul e Centro. De acordo com o ministro dos Transportes e Comunicações, Carlos Mesquita, “a perspectiva é de que os referidos equipamentos estejam disponíveis e em circulação já no terceiro trimestre do ano em curso”, anunciou.
Capital. Os accionistas da Gapi-Sociedade de Investimentos aprovaram recentemente um aumento de capital, na ordem dos 300 milhões de meticais, sendo que o primeiro pacote, na ordem dos 100 milhões, já está parcialmente realizado. De acordo com o secretário-executivo da Gapi-SI, Victor Ribeiro, os accionistas deliberaram também que “oportunamente irão abrir o capital da Sociedade a outros investidores privados”, além de estarem a decorrer trabalhos de preparação para a sua inscrição na BVM.
rECursOs MINErAIs
Gás. A extração e processamento de gás natural no campo Mamba, no Bloco Área 4 da Bacia do Rovuma, no Norte de Moçambique, deverão ter início até 2024, informou recentemente, em Milão, o presidente executivo do grupo italiano ENI, Claudio Descalzi. No final da sessão de apresentação da estratégia da petrolífera para os próximos três anos, o presidente executivo da multinacional italiana disse esperar o início da produção até àquela data, “desde que a decisão final de investimento seja tomada este ano”, uma vez que o financiamento do projecto e a assinatura de contratos para a venda do gás “estão a decorrer dentro das previsões.”
Hidrocarbonetos. Um grupo de empresários dos Emirados Árabes Unidos anunciou a intenção de entrar no negócio do gás em Moçambique, através da criação de cadeias de logística para o desenvolvimento da indústria de hidrocarbonetos. Depois do grupo Qatar Petroleum anunciar, em Março passado, a aquisição de 25,5% da concessão da italiana ENI, no Bloco A5-A, agora a Câmara de Comércio do Dubai em Moçambique revelou a intenção de entrar na área da logística da indústria de hidrocarbonetos no país. “Estamos atentos às oportunidades de negócios na indústria de hidrocarbonetos e queremos ajudar com a nossa larga experiência neste sector”, apontou Omar Khan, director dos Escritórios Internacionais da Câmara de Comércio do Dubai.
Empresas. A Sahara Energy é o novo operador na área da importação de gás de cozinha para o país. O anúncio foi feito pela Importadora Moçambicana de Petróleos (IMOPETRO), e revela que a empresa suíça deverá importar 25 mil toneladas métricas (TM) para o consumo nacional ao longo dos próximos seis meses. A entrada da Sahara Energy no mercado do gás doméstico é o culminar de um processo de contratação que se iniciou em Dezembro último, com o lançamento do concurso público internacional, que tinha em vista uma mudança de importador, por forma a baixar a factura mensal de importação cifrada em 1,5 milhões de dólares.
Fundos Soberanos: As gerações vindouras, a qualidade do investimento, a aplicação racional dos recursos, ou ‘só uma moda’?
Salim
Cripton Valá • PCA da Bolsa de Valores de Moçambique
o aprofundamento do processo de globalização, particularmente na perspectiva financeira, fez emergir e colocar no centro da agenda de desenvolvimento económico a temática dos Fundos Soberanos (FS´s), como um instrumento financeiro ao serviço das Nações. A discussão do assunto tem levado a debates longos, polarizados e até gerado controvérsia entre economistas, gestores, planificadores, “fazedores de políticas”, governantes, parlamentares, sociedade civil, media, comunidade académica e parceiros de cooperação.
Por que razão esse assunto tem provocado grande polémica e até posições extremadas? Será que os diferentes grupos têm percepções e expectativas distintas sobre o seu papel, vantagens, como gerir e usar? Qual a razão porque muitas vezes se concentra mais nos mecanismos de gestão, transparência e governação e não na sua importância estratégica, sua utilidade prática, impacto e sustentabilidade?
Os FS´s são fundos de investimento administrados pelos Estados, criados para uma variedade de objectivos macroeconómicos e normalmente capitalizados por meio de transferência de recursos externos investidos numa perspectiva de longo-prazo. São instrumentos financeiros pelos quais os países utilizam parte das suas reservas internacionais ou da arrecadação fiscal para financiar projectos empresariais estratégicos de interesse do Estado e também adquirir participações em bancos e empresas nacionais e estrangeiras que existem desde a década 1950, quando foram criados com o objectivo de acumular, para uso futuro, as receitas da exploração de recursos naturais esgotáveis, na maioria dos casos o petróleo. O primeiro FS foi criado pelo governo do Kuwait, em 1953, com a finalidade de reduzir a dependência do Emirado de uma só “commodity”, baseado no pressuposto de que os recursos obtidos com a extracção do petróleo seriam investidos no mercado financeiro com vista a garantir a renda das futuras gerações. Depois, foi criado o FS de Kiribati, financiado pelas “royalities”
provenientes da venda de fosfato. Indicações do FMI (2008) e de Simas (2010) dão conta que, em 2012, os activos de diversos fundos atingiram os 10 biliões de USD, destacando-se entre os maiores FS´s, o Abu Dhabi Investment Authority e o Government of Pension Fund da Noruega, com 875 e 380 mil milhões de dólares, respectivamente. Singapura, Brasil, Rússia, Irão, Timor-Leste, China, Nova Zelândia, Chile, Hong Kong (SAR), Índia, França, Sudão, Canadá, Coreia do Sul, Angola, Argélia, Nigéria, Qatar, Venezuela, Arábia Saudita, Guiné Equatorial, entre outros, também constituíram FS´s. Os que o fizeram apresentam uma poupança interna média de 40% do PIB, e a evidência empírica dá conta que os dez países com maiores FS´s representam 89% do volume de recursos nesse tipo de instrumento financeiro, em que o predomínio de Estados exportadores de recursos naturais esgotáveis é atestado pelas exportações de combustíveis, que representam em média 52%.
Nas últimas décadas, a enorme acumulação de reservas internacionais, por parte dos países em desenvolvimento, levou à proliferação de FS´s, que passaram a ser usados para aumentar a rentabilidade de parte das reservas e reduzir o custo de carregamento. Os principais determinantes do seu estabelecimento são os superavits significativos de conta corrente, dependência das exportações de combustíveis e minérios e altos níveis de poupança interna.
Os países estabelecem FS´s visando: (i) proteger e estabilizar a economia dos choques ligados à volatilidade dos preços sobre as receitas e exportações; (ii) gerir as poupanças para benefício das futuras gerações; (iii) alocar recursos para fazer investimentos não tradicionais com maior rentabilidade; (iv) fundo de reserva de pensões, e; (v) direccionar para investimentos estratégicos na promoção económica, incluindo na internacionalização das empresas nacionais e na implementação de políticas industriais. Alguns desses objectivos são conciliáveis, podendo até alterar a prioridade e enfoque, com o tempo.
Existem desde a década 1950, quando foram criados com o objectivo de acumular, para uso futuro, as receitas da exploração de recursos naturais esgotáveis, na maioria dos casos o petróleo.
Por exemplo, a Noruega criou o seu FS em 1990, para ser um instrumento capaz de dar margem de manobra à política fiscal do país no caso de quebra de receitas provenientes do petróleo, o que aconteceu também com o Chile, que constituiu o fundo para enfrentar a volatilidade dos preços internacionais e os seus impactos cambiais e fiscais. O caso desses países mostra uma preocupação com as gerações futuras, apostando na diversificação da economia e na capacidade de gerar empregos. O Brasil, por sua vez, criou o FS em 2008 visando formar poupança pública, mitigar os efeitos dos ciclos económicos e fomentar projectos de interesse estratégico. Não sendo um país dependente de uma só “commodity” (como Angola, Guiné Equatorial ou Nigéria), mas com diversificação de exportações, incluindo no agro-negócio e manufactura, o fundo é uma ferramenta de política monetária e de ajuste fiscal. Já o FS de Abu Dhabi (Mubadala) passou a apresentar elevada rentabilidade a partir de 2012, sendo uma incubadora de tecnologia e empregos, investindo em tecnologia. Vários pesquisadores (como Ouriques, Vieira & Arienti, 2010 e Arrighi, 2009 ) têm apontando a China como uma potência em ascensão, destacando a possibilidade de o país ser o epicentro de um provável “Século XXI asiático”. Mas, até ali, os crescentes “superávits” comerciais estão a ser direccionados para o Fundo Soberano de Riqueza, criado em 2007. O China Investment Corporation (CIC), FS Chinês, vem despontando como um instrumento da transformação da China em actor fundamental no sistema global, especialmente devido aos recursos envolvidos e à sua actuação estratégica pois tem direccionado parte das suas reservas estrangeiras, através do CIC, para investir na energia, matérias-primas, agricultura e alta tecnologia no exterior. É bem verdade que a expansão de FS´s no mercado financeiro internacional ocorreu a partir da década 2000, marcando uma tendência mundial por parte dos países emergentes e ricos em recursos naturais, devido ao aumento do preço das
“commodities”, protecção contra as crises financeiras e crises cambiais da década 1990 e a necessidade dos governos concederem incentivos fiscais para manter as economias aquecidas. O Índice de Governação de Recursos, baseado nos Princípios de Santiago (2008), aponta casos bem sucedidos de gestão dos FS´s, como a Noruega, Timor-Leste, Chile e Canadá, mas também casos de deficiente gestão, como o Sudão, Venezuela, Arábia Saudita, Nigéria, Angola e Guiné Equatorial. Em Moçambique, a discussão sobre a constituição de um FS mantém-se, sobretudo com o advento da exploração dos recursos naturais, em particular o gás natural a ser extraído da Bacia do Rovuma. Há diversos documentos produzidos sobre o assunto, incluindo o feito pelo SPEED (2011) e Mimbire (2017), que advogam a relevância, acuidade e oportunidade da sua criação, para garantir a boa gestão de recursos significativos que o país vai obter, aplicar devidamente esses recursos, contornar o perigo sempre presente da “maldição dos recursos” e para adoptar medidas preventivas contra a eminência da “doença holandesa”. Os retornos de investimentos com elevada rentabilidade podem ser aplicados, na minha óptica, no incremento do capital humano, na agricultura e desenvolvimento rural, nas PME, na promoção da industrialização, nas infra-estruturas estratégicas e na ciência, tecnologia e inovação. Não é apenas por imperativo de adoptar uma “moda de natureza financeira” ou de teorias atractivas de desenvolvimento sustentável. A criação de um FS em Moçambique vai permitir que as reservas financeiras que advêm da exploração dos recursos naturais possam fugir à “febre de gastos públicos de má qualidade” sendo entregues à gestão de um FS de Investimento gerido por quadros de competência e integridade reconhecidas, com uma política de investimento consistente e escrutinável, adequado gerenciamento de riscos e adoptando padrões de governação e transparência acima de qualquer sombra de dúvida.
Fundo Soberano da Noruega é um exemplo, a nível mundial, da utilização de recursos provenientes da exploração petrolífera em prol da economia nacional
Mapa energético de MoçaMbique desperta coM a luz solar
Moçambique é uma das zonas do planeta que mais raios solares recebe. Não espanta, por isso, que o país acolha projectos de grande dimensão e suportados por capitais estrangeiros que lhes conferem solidez
longe vão os tempos em que produzir energia a partir de raios solares parecia uma espécie de magia. Foi em 1839 - há quase 200 anos - que o cientista francês Alexandre-Edmond Becquerel observou, pela primeira vez, o efeito fotovoltaico, a criação de corrente eléctrica depois da exposição de determinado material à luz. Esse material são as células fotoeléctricas, aperfeiçoadas ao longo do tempo com a ajuda da Química. O objectivo
é que os electrões sejam ejectados da superfície dessas células quando elas são expostas ao Sol. A verdade é que, até à metade do século XX, os painéis fotovoltaicos eram coisa de cientistas. Hoje, uma breve pesquisa em sites de compras na Internet permite encontrar, mesmo em Moçambique, pequenos painéis a partir de 1 500 meticais. É certo que pouco mais poderão alimentar do que alguns gadgets ou iluminação de baixa potência, mas
126 hectares a área de painéis solares da central fotovoltaica de mocuba, na ZambéZia
são o exemplo acabado de que o conceito se massificou. Deixou de ser um assunto de cientistas e laboratórios, para saltar para a cultura pop. A utilização do Sol para produzir electricidade ganha impacto no ‘mix’ de novas fontes energéticas. Em 2016, foi mesmo a terceira entre todas as renováveis, na União Europeia. E Moçambique prepara-se para entrar definitivamente nesta arena e parece jogar em casa. Diferentes mapas (estudos
disponíveis na Internet) mostram que, analisado o efeito da nebulosidade, é uma das zonas do planeta que mais raios solares recebe ao longo do ano.
Não espanta, por isso, que o país tenha sido o destino de um crescente interesse, consubstanciado em vários projectos de grande dimensão suportados por capitais estrangeiros que lhes conferem solidez.
primeira central, Mocuba “Levar a energia eléctrica a 72% da população em 12 anos é um grande desafio que se coloca ao Governo”. A frase, do presidente Nyusi, foi proferida em Novembro passado, quando foi lançada a Estratégia Nacional de Energia, (Programa Energia Para Todos) e que tem como principal objectivo levar energia eléctrica a todo o país até 2030, criando as condições para a expansão da actual Rede Nacional através da sua densificação, bem como da diversificação das fontes energéticas. E é aqui que o Sol pode dar uma grande ajuda.
Aquela que será a primeira central de energia solar de Moçambique está instalada em Mocuba, na província central da Zambézia, e deverá começar a funcionar em breve, segundo a empresa pública Electricidade de Moçambique (EDM). “Vai ser a primeira central solar de grande escala do país e representa um passo importante na ambição de aumentar a percentagem de origens renováveis na produção de electricidade”, anuncia o grupo promotor.
Esta larga esteira de painéis solares vai ocupar um terreno de 126 hectares e resulta de uma parceria entre a empresa Scatec Solar (52,5%), o fundo estatal norueguês Norfund (22,5%) e a EDM (25%). A operação financeira já está, de resto, concluída: dos 76 milhões de dólares de investimento, 14 milhões foram
entregues pelos sócios, sete milhões resultam de donativos e 55 milhões através de dívida - negociada com o Banco Mundial, com a iniciativa Fundos de Investimento do Clima e ainda com o Departamento Britânico de Desenvolvimento Internacional.
O Governo norueguês vai apoiar o Estado moçambicano e cobrir a participação de 25% da EDM.
A empresa pública vai comprar a energia (que se estima chegue para abastecer 175 mil agregados familiares - produção de 40 MW) e distribui-la pela rede elétrica nacional. Um relatório da empresa pública de electricidade prevê que a central ajude a colmatar a falta de resposta da rede na metade norte do país (ainda hoje abastecida a partir de uma central flutuante instalada em Nacada, da empresa turca Karadeniz Powership) e ao mesmo tempo promover o desenvolvimento da região de Mocuba. Prevê-se que o empreendimento tenha um tempo útil de vida de 25 anos e que cubra 85% do consumo anual de energia da região onde vivem 216 mil pessoas, mas onde só 8% dos agregados tem electricidade.
A expectativa é que o projecto ajude a aumentar este valor para, a prazo, um quarto das famílias terem electricidade. Mas há mais impactos. Durante a fase de construção, a obra terá já dado emprego a 200 pessoas e impulsionado negócios locais nas áreas do alojamento, restauração, alugueres e venda de bens essenciais. Na fase de produção, o projecto prevê que 0,75% das receitas anuais, em valor não referido, seja aplicado em projectos sociais na região. O documento da EDM aponta o empreendimento como a opção mais económica para produzir electricidade e, ao mesmo tempo, garantir uma forma de abastecer facilmente o mundo rural e diver-
milhões de dólares é quanto vai custar a central de mocuba, a primeira fotovoltaica do país. será composta de uma larga esteira de painéis solares e vai abastecer 175 mil agregados familiares
sificar as fontes de energia. Para a empresa pública, o investimento é também uma forma de acumular experiência neste novo (no país) segmento de gestão de centrais fotovoltaicas, que têm ainda como vantagem, a rapidez de construção, quando comparados com as de produção hídrica ou as alimentadas por combustíveis.
abastecer cabo delgado Um outro projecto de grande dimensão está na forja. O governo moçambicano assinou em Dezembro do ano passado, com a empresa francesa Neoen, um acordo para construção de uma central eléctrica solar no norte do país, na província de Cabo Delgado. A infra-estrutura será capaz de servir 150 a 170 mil pessoas, e terá uma capacidade de 41 MW, semelhante à de Mocuba. Ou, por outras contas, será ali gerada uma quantidade de energia capaz de suprir 75% das necessidades de Pemba, capital provincial, a poucos quilómetros do local de implementação do projecto.
O investimento ronda os 50 milhões de euros e vai ser instalado em Metoro, esperando-se que as obras arranquem no segundo semestre deste ano, anunciou Max Tonela, ministro dos Recursos Minerais e Energia. “O Governo considera este projecto como prioritário”, garantindo maior “segurança e fiabilidade no fornecimento de energia ao país”. Ao mesmo tempo, “durante a fase de construção, o projecto irá criar 380 empregos”, referiu, elevando desta forma as expectativas da população.
Cyril Perrin, director da Neoen em Moçambique, destacou pela positiva o trabalho desenvolvido com o Governo e comunidades locais desde 2015. Tal como na Zambézia, espera-se que contribua para o aumento da electrificação rural, atendendo à
UMa pEqUENa pErcENtagEM
O Governo apresentou, em Setembro de 2017, a carteira de projectos de energias renováveis com a qual pretende garantir o acesso universal no país até 2030. Prevê-se a electrificação de cerca de 300 vilas com recurso a energia hídrica a que se deverão juntar outros tantos projectos de energia solar, de acordo com dados do Ministério dos Recursos Minerais e Energia. Actualmente, dos cerca de 29 milhões de moçambicanos, estima-se que apenas oito milhões tenham acesso a energia eléctrica da rede nacional, o correspondente a uma cobertura de cerca de 28%, graças a seis mil quilómetros de linhas de transmissão ao longo do país, segundo dados da EDM
Energia à escala familiar
A energia solar pode produzir electricidade à escala familiar, sem recurso à rede pública ou grandes empreendimentos. O Governo estima poder levar energia a cerca de dois milhões de pessoas graças a um destes modelos de produção, uma parceria público-privada com a empresa multinacional Ignite que “prevê a instalação de sistemas residenciais de energia solar em 300 mil habitações”.
Energia solar com responsabilidade social
Ventos de mudança na Namaacha
Um outro projecto de base renovável está em esboço no Parque Eólico de Namaacha, onde se avança para a fase de levantamento topográfico e geotécnico, com vista a estudar a localização, anunciou em Fevereiro o Banco Africano de Desenvolvimento, co-financiador do empreendimento. O parque, com uma capacidade prevista de 120 MW, é uma iniciativa da Eleqtra, empresa presente em vários países e com experiência na área de energia na África subsaariana.
A Fundação Galp e a Funae inauguraram, em Fevereiro, o primeiro de quatro sistemas solares fotovoltaicos e rede eléctrica em aldeias sem energia. No total, são mais de 1 400 habitantes beneficiados na “primeira Aldeia Solar” do projecto Energiza, uma iniciativa de responsabilidade social que, numa primeira fase, abrange duas povoações em Sofala, uma em Cabo Delgado e outra em Manica. A projecto prevê a instalação de sistemas solares fotovoltaicos, num investimento total de 600 mil euros e que vai gerar aproximadamente 50 KWh de energia eléctrica de origem renovável.
procura crescente na região. A central vai ainda dar apoio às minas de grafite de Ancuabe e Balama e ao projecto de extracção de areias pesadas de Moma O empreendimento vai ocupar uma área de 70 hectares onde vão ser instalados diversos equipamentos, entre os quais os módulos fotovoltaicos que vão captar a luz solar. De acordo com informação da Neoen, o financiamento é prestado pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), sendo que a empresa será detentora de 75% da central, ao passo que a EDM ficará com os restantes 25%.
O contrato já assinado prevê, ainda, uma concessão do Estado à nova sociedade por 30 anos e o projecto poderá injectar 52 mil euros por ano na economia local e em iniciativas sociais. Ainda a Norte, há mais planos para captar e distribuir a energia do Sol, mas ainda es-
Um outro projecto de grande dimensão está na forja. O governo moçambicano assinou em Dezembro de 2018, com a empresa francesa Neoen, um acordo para construção de uma central eléctrica solar no norte do país, na província de cabo Delgado, capaz de servir 150 a 170 mil pessoas
tão numa fase de planeamento menos adiantada que as de Mocuba e de Cabo Delgado. Um desses projectos é liderado pelo grupo Phanes, cujo foco são as energias renováveis. Sediado no Dubai, anunciou, em Maio do ano passado, a intenção de construir três centrais fotovoltaicas para abastecer a província. O governo local e o grupo, assinaram um memorando de entendimento que prevê a instalação de centrais em Lichinga e nos distritos de Mandimba e Marrupa. O investimento pode chegar aos 170 milhões de euros, numa zona do país onde, de acordo com dados oficiais, só um quinto dos 1,9 milhões de residentes tem acesso a energia.
tExtO Luís Fonseca, SERvIçO ESPECIAl
O OvO Ou a galinha? DO galinheirO... a tuDO O restO
Fruto de uma política proteccionista, é um dos poucos segmentos em que Moçambique conseguiu ser praticamente auto-sustentável, de há alguns anos a esta parte, algo impensável num passado recente
nos últimos anos, a produção nacional do frango tem vindo a crescer, impulsionada pelo surgimento de pequenos, médios e grandes avicultores, bem como de empresas de produção de rações e de abate que promoveram a actividade. Aliás, nesta última década, a indústria avícola do país tem estado a trilhar um rumo bem encorajador para toda uma cadeia de valor, tornando-se num sector que já consegue produzir ciclicamente frango em grandes quantidades capaz de abastecer a quase totalidade do mercado nacional.
O clique para este segmento começou com a decisão de banir a importação de frango
(sobretudo do Brasil, África do Sul e também do frango vivo da Suazilândia), tomada em 2016 pela presidência da República. Considerada à época e em vários sectores como “precipitada”, a verdade é que desde então se nota que ela veio dotar os produtores nacionais de uma musculatura financeira e técnica para passarem a ser os principais abastecedores do mercado nacional. Segundo dados da Direcção Nacional de Veterinária (DNAV), a produção da carne de frango cresceu de 75 mil toneladas em 2015 para 90,2 mil em 2017, um incremento de 18,8%, com impacto na redução da importação do frango em cerca de 70%.
Menos importação, mais produção nacional, menos factura para pagar ao exterior, mais postos de trabalho e, acima de tudo, um segmento de mercado em crescimento e com potencial, até, para exportar. E é isso que se percebe quando, analisando o mercado do ponto de vista quantitativo, se percebe que o sector avícola passou das 15 para as 18 milhões de aves em 2018, “um crescimento de cerca de 20%”, aponta a DNAV, projectando ainda para este ano uma produção nacional de 128 mil toneladas face a um consumo na ordem de 96 mil, o que irá gerar, pela primeira vez em anos, um superavit destinado a exportação.
Próximo passo é aumentar o consumo Entretanto, dados divulgados por Américo Marques, director comercial de uma das maiores empresas de produção de frangos e rações no país, a Higest, durante a XVI Conferência Nacional do Sector Privado (CASP) realizada em Maputo no mês passado, “o consumo de frango no país anda a volta de 6,5kg por pessoa. Se compararmos com os outros mercados à nossa volta, por exemplo na África do Sul, verificamos que a discrepância é enorme, onde o consumo do frango por pessoa anda à volta de 90 quilogramas”.
Perante este cenário, com a produção a subir e com um mercado que, tendencialmente, irá ter de consumir mais, os avicultores contactados pela E&M não têm dúvidas em afirmar que “a auto-suficiência já está à vista, embora seja necessário continuar a crescer”, dizem-nos.
Prova disso são as várias iniciativas privadas de construção de aviários automatizados e de matadouros, ao longo de todo o território nacional. Fátima Mussagy, presidente da Associação dos Avicultores de Maputo, entende que neste momento, já é possível alcançar a auto-suficiência sem que, para isso, venhamos a assistir a um aumento de preços para o consumidor final, desde que o governo e os avicultores unam esforços para o combate ao contrabando.
“Assumimos o desafio com muita responsabilidade, aumentámos as nossas capacidades de produção, investimos nos aviários de forma a crescermos”, justifica. Enquanto isso, para a Associação Moçambicana da Indústria Avícola (AMIA), uma agremiação criada há um ano, que congrega 11 das grandes empresas produtoras do frango e rações a nível nacional (entre elas a Higest no sul, Abílio Antunes no centro e Novos Horizontes no norte) considera “o sector não só cresceu em termos de quantidade, mas também a qualidade aumentou”, sublinha o secretário-executivo, Zeiss Lacerda. Que depois explica que “durante a recente quadra festiva, não houve falta de frango tal como vinha acontecendo nos anos anteriores, e isto graças ao crescimento da indústria”, congratula-se.
Produção local é tendência regional A aposta na produção local tem ganho expressão em vários países africanos, como é o caso do Zimbabwe e do Malawi. Aliado a isto, muitos países que antes eram dependentes das importações, como Moçambique, têm mudado o paradigma. As grandes exportadoras, que num pas-
mil toneladas É a produção de frango prevista para este ano face a um consumo interno na ordem das 96 mil toneladas
sado recente alimentavam o mercado nacional, já se ressentem da independência de Moçambique no que respeita à produção de frango. Segundo a agência brasileira Money Times, que faz estudos do mercado financeiro global, o preço do frango no mercado internacional tem vindo a cair ano após ano (16,7% em 2018 em relação ao ano anterior), o que acontece, explica, “devido à quebra das exportações provocadas pela sobretaxa imposta pelos países importadores”. Moçambique incluído, embora a Money Times não coloque o país nessa lista de importadores que decidiram agravar as taxas das importações, visto que o país não é considerado um dos grandes importadores mundiais. No entanto, terá o seu peso nesta matéria.
O alimento que agora... alimenta uma indústria Umadascausasque,nopassado,fizeramcom que a produção de frango não disparasse tem que ver com a matéria-prima utilizada para a produção das rações, sobretudo o milho e a soja. No entanto, actualmente, os avicultores decidiram procurar alternativas locais de forma a reduzir os custos. E, na verdade, foi uma prática que não tardou a trazer resultados: “Agora já não importamos muita ração e o que tem acontecido é que uma ou outra matéria-prima é que são importadas. Houve uma evolução muito grande nos últimos anos, e hoje, mais de 90% da soja que usamos é produzida no país”, diz o responsável da Higest. No entanto, apesar de existirem condições e um número razoável de avicultores familiares e industriais responsáveis pela produção do frango que é consumido no país, desengane-se quem pensa que todos os problemas foram remediados nesta cadeia de valor. Os avicultores contactados pela E&M não hesitam em reafirmar a capacidade para produzir consoante a procura, mesmo que ela cresça. É que, até agora, os avicultores do ramo industrial estão a operar a menos de 50% da capacidade instalada devido às fragilidades que o mercado vem apresentando ao nível da procura, e por um mercado ainda muito informal, algo que se percebe quando metade do consumo advém ainda da compra de frango vivo, que não passa pelos matadouros certificados. “Estamos a produzir consoante aquilo que o mercado consegue absorver, visto que, infelizmente, continuamos a deparar-nos com o contrabando do frango, sobretudo o vivo, que vem da vizinha eSuatine, e com um consumo ainda baixo”, sublinha. De acordo com os avicultores
produção informal de frango vivo compete com o sector agro-industrial
O mercado do frango nacional tem crescido ao nível da produção. No entanto, o consumo per capita, de cerca de 6,5 quilogramas por habitante, terá de aumentar consideravelmente
contactados pela E&M “não há dúvidas de que o país já produz o suficiente para cobrir toda a procura e sem depender de alguma importação”.
Porém, consideram também que, apesar de haver ainda essa fasquia dos 30% de importação, “existe no mercado nacional algum frango, sobretudo o vivo, que não se sabe em que circunstâncias entra no território nacional visto que o governo apenas agravou as taxas sobre a importação do frango congelado. A verdade é que existe capacidade instalada para produzir mais, e acabar de vez com a importação. Assim haja vontade de fazer ‘voar’ o mercado.
Concorrência desleal
“Existem no nosso mercado outros produtos que fazem concorrência, sobretudo os importados associados ao contrabando, e isso tem estado a bloquear o crescimento dos produtores nacionais.
O registo das importações avançado pela DNAV contradiz a realidade dos números do frango que é vendido no
prOduçãO INterNa COM
MaIOr pesO
Com quase dois terços da produção gerada internamente,Moçambique caminha a largos passos para atingir a auto-suficiência neste segmento
Em milhares de toneladas
mercado interno”, assinala a presidente da Associação dos Avicultores de Maputo. Já Fátima Mussagy considera urgente a necessidade de se apertar cada vez mais o cerco ao contrabando, por forma a “estimular o aumento da produção nacional, familiar e industrial”, reitera.
E explica ainda que “aquilo que devia acontecer para acabar com o contrabando não está a acontecer, uma vez que parecem existir agentes que não estão alinhados com o desafio assumido pelo governo e os produtores para diminuir as importações e reduzir as transacções no mercado negro.”
Cientes de que há algo de bom prestes a acontecer neste mercado, sabem que não são poucos os perigos à espreita para os avicultores, que não se bastam a lançar um alerta: “É urgente resolver-se a situação por forma a resgatar a dinâmica deste sector tão promissor”.
Mercado da construção está... eM reconstrução
moçambique foi, ao longo de 2018, o terceiro país da África Austral com maior número de projectos de construção de valor igual ou superior a 50 milhões de dólares. A conclusão surge no “Africa Construction Trends”, estudo da Deloitte referente ao ano de 2018. Assim, o mercado nacional foi responsável por 13,6% de todos os projectos de uma lista regional, liderada pela África do Sul, com 35,9%. A região austral de Áfri-
A evolução dos projectos
ca, que engloba África do Sul, Angola, Botsuana, Lesoto, Madagáscar, Malaui, Maurícias, Moçambique, Namíbia, Suazilândia, Zâmbia e Zimbabué, registou 103 projectos em 2018, com um valor combinado de 125,4 mil milhões de dólares. A região representou 21,4% de todos os projectos de valor igual ou superior a 50 milhões de dólares no continente africano e 26,6% em termos de valor de investimento.
Existem 103 projectos em curso na região onde estão 21,4% de todos os projectos de construção em África, com um valor global de 125,4 mil milhões de dólares. O volume de investimento aproxima-se, cinco anos depois, ao registado no final de 2015
CONSTRUÇÃO
O volume de investimento em projectos de construção nos países da África Austral, região que representa hoje 21,4% do total de projectos construídos em toda a África, e 26,6% do volume de investimento global.
125,4 mil milhões de dólares Número
ENERGIA
É o segmento que lidera ao nível do volume do investimento no continente. 42,4 mil milhões de dólares
lidera projectos, Governos
e a China constrói
TRANSPORTES
O sector líder, em número de projectos, nesta região. É seguido pela área do imobiliário com 25%. 32%
CHINA
FINANCIADORES
A China assume-se como um dos grandes financiadores, ocupando a segunda posição (21%), sendo ainda o segundo maior ‘exportador’ de empresas de construção para a região.
FONTE “Africa Construction Trends”, estudo da Deloitte de 2018
O género do empreendedorismo
Denise Branco • Investigadora e Consultora em Comunicação
Intercultural e Tradução para Fins Empresariais, Técnicos e Científicos
“Os seres humanos pensam através de narrativas e não através de factos, números ou equações, e quanto mais simples a narrativa, melhor.” Na sua mais recente reflexão sobre o estado da Humanidade, 21 Lições para o Século XXI, Yuval Harari convida a uma viagem provocadora sobre a(s) narrativa(s) da Humanidade, onde o actual estado de embriaguez dos sentidos, das dimensões intelectual, espiritual e emocional é analisada à luz dos desafios do Século XXI… e XXII. A hipoteca do asset humano é por demais óbvia, juntamente com a eminente falência de sistemas económico-financeiros e sociais considerados inabaláveis. Vivemos, como parte integrante da Humanidade, um momento de ruptura: perderam-se narrativas; não se sabe como substituí-las; fica um vazio que está ainda por ser compreendido na sua íntegra, mas que confirma que a mudança é uma constante que cada indivíduo, organização, sociedade, nação terá capacidade, ou não, de acompanhar, e com os respectivos efeitos colaterais. Ao olhar sobre os contextos do mundo, à procura dos padrões de novas narrativas que possam estar a surgir e a influenciar a forma como as coisas são feitas, acontecem e são comunicadas, há uma em particular que me chama a atenção: o activismo feminino e as suas diferentes expressões. Se, por um lado, esta é uma luta necessária e urgente, por outro, arrisca levar à perda de uma oportunidade não só de aprendizagem… mas de construção de uma narrativa de transformação. Vejamos o caso do empreendedorismo. Uma definição geral de empreendedorismo salienta a acção inovadora, o processo criativo de trazer valor acrescentado a uma organização, a uma sociedade por meio de produtos ou serviços. Significa agir. O que é então empreender no feminino? O que o distingue do masculino? Ao adjectivarmos acções como femininas, ou masculinas, estamos a convidar o perpetuar de modelos não inclusivos e, simultaneamente, a perder o produto final
de uma experiência transformadora, i.e., onde pessoas com percursos diferentes contribuem para o desenvolvimento de soluções globais, que incorporam várias facetas de um mesmo fenómeno. Ao encobrir uma narrativa falida adjectivando-a de feminina, perde-se individualidade e castra-se o potencial inovador de pensar e criar sem limites. Há ainda o risco de reforçar o efeito inverso (e perverso) que, na vez de optimizar as experiências passadas, compromete o desenvolvimento colaborativo e promove dinâmicas de oposição. Colaboração exige mais do que oposição. O masculino neste momento procura também redefinir-se, está em crise, e sabe que precisa de se reinventar, de criar as suas próprias novas narrativas a nível profissional e pessoal. Importa conseguir distinguir os contextos, identificando as causas pelos nomes, e evitando os perigos das generalizações para que o novo capítulo seja efectivamente novo, e não o perpetuar de discursos que possam implicar um favorecimento, ou compensação, pelo género e que mais uma vez assentem em princípios de poder.
Se hoje as neurociências nos mostram que a intuição é cada vez menos fruto do acaso e que é possível neuroprogramar indivíduos, importa também estar atento e preservar aquilo que mantém integras as comunidades humanas: o seu lado Humano. Mais do que ser contra, é importante estar a favor de uma mudança que acarinhe a Humanidade; que amenize o sofrimento, que nutra e fortaleça o corpo e alma para que a próxima viagem seja uma de colaboração na diferença, e olhando a diferença como um elemento enriquecedor e único para que o potencial máximo de cada indivíduo, de cada organização, de cada nação seja plenamente atingido, independentemente de questões de género. Importa estar a favor de processos transformativos e não apenas da mudança, pois estes por si só não garantem nem crescimento, nem desenvolvimento.
Mais do que ser contra, é importante estar a favor de uma mudança que acarinhe a Humanidade; que amenize o sofrimento, que nutra e fortaleça o corpo e alma para que a próxima viagem seja uma de colaboração na diferença, e olhando-a como um elemento enriquecedor e único
Nação
A mulher moçAmbicAnA , ou quAndo querer deveriA significAr poder
Era justo que tudo o que fosse valioso tivesse poder correspondente ao seu valor. Mas nem sempre é assim e todas as fontes apontam a Mulher como um infeliz exemplo disso. No mês em que se evoca a Mulher moçambicana, a E&M reacende uma antiga reflexão sobre o verdadeiro papel na economia, abrindo uma discussão nunca fechada, e tentando perceber até que ponto o espaço que lhe é reservado na economia e na sociedade lhe permite impor-se e melhorar a sua participação no desenvolvimento do país
no mês em que se celebra o dia da mulher moçambicana, importa relembrar que, ainda hoje, no país, 80% dos assalariados formais são homens, o que significa que os empregos que dispõem de melhores condições salariais estão, quase que por definição, concentrados na população masculina.
Do lado diametralmente oposto, em termos estatísticos, constata-se que 80% das mulheres que estão no mercado laboral concentram-se na agricultura, sem acesso aos empregos formais. As poucas que conseguem auferem apenas 63% do salário de um homem, mesmo quando desempenham funções similares.
“Se pudermos elevar estas cifras, imagine-se toda a produtividade que seria possível obter em Moçambique”, observa, em entrevista à E&M, Peter Holland, líder de programas do Banco Mundial.
Antes de mergulhar a fundo nesta questão da imparidade, importa referir que a desigualdade de oportunidades entre ho80%
dos assalariados em moçambique são homens. Por outro lado, 80% das mulheres que estão no mercado laboral concentram-se na agricultura, sem grande acesso a emPregos formais. e as Poucas que o conseguem auferem aPenas 63% do salário atribuído a um homem
mens e mulheres não é um mal do país, mas universal. Muitos especialistas, internacionalmente, entendem que nas sociedades capitalistas, historicamente, existe uma divisão em classes sociais e também de género no trabalho, ou seja, há um padrão social no qual homens e mulheres não ocupam, de facto, posições iguais. O entendimento de especialistas (sobretudo sociólogos e economistas) é que esta disfuncionalidade resulta de modelos sociais instituídos ao longo da História e que definem politicamente a organização da sociedade entre quem vai vender a sua força de trabalho, no mercado, e quem fica longe dele, a fazer o trabalho doméstico, também considerado trabalho de cuidados, essencial à manutenção de muitas sociedades ao longo dos séculos. Ao analisar a distribuição ocupacional da Mulher na economia nacional, conclui-se que, além de se aglutinar em sectores onde tradicionalmente os salários são mais baixos, este é o grupo mais numeroso
1
Acesso às instituições
Pontuação de Moçambique: 100
Ilustra quão aberto um país é para atrair e reter talentos (pessoas ou empresas), e de origens desfavorecidas sobretudo mulheres e pessoas idosas.
2
uso dA propriedAde
Pontuação de Moçambique: 100
Diz respeito à igualdade de direitos de firmar contratos e administrar bens, incluindo o direito à herança. A desigualdade no acesso a bens prejudica o poder de negociação das mulheres e a sua capacidade de participar em actividades económicas. Se a Mulher tiver acesso a activos (heranças, por exemplo), tem maior capacidade de investimento no seu futuro.
3
Acesso Ao emprego
Pontuação de Moçambique: 62
Sugere a eliminação da discriminação da Mulher por razões de casamento ou maternidade no trabalho. São bons exemplos desta realidade a proibição da demissão por gravidez e a adopção da licença de maternidade remunerada. restrições relativas ao trabalho das Mulheres limitam a sua capacidade de conseguir bons empregos e de maximizar a sua remuneração.
4
incentivos Ao trAbAlho
Pontuação de Moçambique: 60
Faz parte deste quadro o apoio às mães, por exemplo, através da disponibilização de cuidados infantis e consequente aumento da participação da Mulher na força de trabalho. O estudo refere que “gastos em ensino infantil e creches, por exemplo, podem aumentar a participação das mulheres na actividade económica e reduzir as desigualdades de género.”
os 7 indicAdores que colocAm A mulher (AindA)
longe do poder
um estudo do Banco Mundial intitulado “Mulheres, empresas e o Direito”, publicado em 2018, mostra que, embora haja em Moçambique um conjunto de leis que favorecem o empoderamento económico da Mulher, o país precisa de melhorar o quadro legal na luta contra a discriminação da Mulher no acesso ao emprego, no incentivo à criação de negócios e, principalmente, no acesso ao financiamento. Os dados cobrem um período de dez anos, em 187 países e só Bélgica, Dinamarca, França, letónia, luxemburgo e Suécia conseguiram a pontuação perfeita de 100 pontos.
Acesso Aos tribunAis
Pontuação de Moçambique: 100
A desigualdade de género pode afectar negativamente a capacidade das mulheres de aceder ao sistema jurídico. O relatório indica que o acesso à assistência jurídica civil pode reduzir a necessidade de programas de bemestar social, o tempo que as crianças passam em acolhimento familiar e a violência doméstica, o que melhora o envolvimento da mulher no trabalho.
umA bAtAlhA do pAís e de todo o mundo
Não é só em Moçambique que a Mulher tem menos oportunidades do que as que naturalmente deveria ter. A questão já inspirou várias pesquisas em todo o mundo. uma das mais recentes intitula-se “Mulheres, empresas e o Direito”, produzida pelo Banco Mundial (com contribuições externas), de dois em dois anos desde 2009. Na sua 5ª edição (2018) mede as diferenças de género no tratamento jurídico, com impacto no desempenho produtivo. Ou seja, toma a lei como o primeiro passo para fornecer uma medida objectiva de como regulamentações específicas afectam os incentivos das Mulheres para participar da actividade económica.
também ao nível da taxa de desemprego. A diferença de oportunidades no mercado laboral começa desde cedo nos bancos da escola. Dados do INE indicam uma clara desvantagem da Mulher em todos os níveis de ensino: a taxa de escolarização no nível primário é maior nos rapazes (120,6%) que nas raparigas (110,3%), embora seja satisfatória (superior a 100%, significando haver muitas crianças abaixo da idade escolar já matriculadas).
Só que a situação começa a tornar-se desigual, a partir do ensino secundário, em que a taxa de escolarização da rapariga cai para 23,5%, enquanto que a do rapaz se fixa nos 24%, o que mostra que a mulher começa aqui a ser menos competitiva que o homem. Há pesquisas que mostram uma realidade curiosa: a desvantagem das mulheres tem prevalecido mesmo quando a mulher tem melhor preparação académica e talento profissional.
6
Acesso Ao crédito
Pontuação de Moçambique: 60
Para elucidar a importância deste indicador, um exemplo: antes da promulgação da lei de Oportunidades Iguais de Crédito nos euA em 1974, os bancos tratavam mulheres e homens de maneira diferente. Quando a lei passou a proibir a aplicação de desconto na renda e a classificação de crédito baseada no sexo, houve impacto positivo no financiamento às mulheres.
O estudo, que abrange 189 economias de todo o mundo, introduz um índice estruturado em sete indicadores que cobrem diferentes estágios da vida profissional de uma Mulher, e que têm implicações significativas para a sua situação socio-económica, nomeadamente o acesso às instituições, uso da propriedade, acesso a emprego, incentivos ao trabalho, acesso aos tribunais, ao crédito e à protecção da mulher contra a violência de género.
“A divisão de género no trabalho, que se perpetua através de um conjunto de preconceitos e ideias antiquadas que buscam naturalizar a subordinação e inferioridade das mulheres face aos homens, expressa-se nos dados da pesquisa que apontam que as mulheres estudam mais, têm maior nível de instrução, mas recebem menores salários do que os homens”, revelam duas economistas brasileiras, Priscila Santana e Eline Matos, numa publicação de Junho de 2018, intitulada “Entendendo a economia: Mulher, mercado de trabalho e Desigualdade”, e que descreve a realidade do seu país.
7
protecção contrA A violênciA
Pontuação de Moçambique: 100
Nas economias em que os maridos podem proibir a Mulher de trabalhar, ou em que há uma alta prevalência de violência contra elas, têm menos chances de constituir uma conta formal, de poupança ou crédito. Ao mesmo tempo, o assédio sexual no trabalho mina a autoridade, reforça estereótipos de género e reduz a Mulher a um mero objecto sexual.
A boa nova da edição deste ano é que “desde o início da pesquisa, a percepção da importância do empreendedorismo e do emprego das mulheres aumentou significativamente, assim como a compreensão da relação entre a igualdade de género na lei e os resultados económicos das mulheres” na vida real, avança o prefácio do estudo, assinado por Kristalina Georgieva, directora-geral do Banco Mundial em Washington. No entanto, muito há ainda por fazer. “A nível global, mais de 2,7 mil milhões de Mulheres enfrentam restrições legais na escolha das suas actividades profissionais”, revela o estudo. A posição de Moçambique tem melhorado mas há ainda áreas em que muito existe por fazer.
*As pontuações para cada indicador variam de 0 a 100, sendo 100 o melhor resultado. Cada indicador, por sua vez, abarca outros sub-indicadores específicos, totalizando 50 pontos.
uma visão mais profunda
Em Moçambique não se pode referir a luta pela igualdade da condição de género sem se utilizar o termo “empoderamento”. É, no fundo, o reconhecimento de que se está a colocar na margem quem tem potencial para (também) estar no centro do processo de produção, do desenvolvimento e até de decisão. E liderá-lo até.
A E&M foi em busca da informação já veiculada a esse respeito. Mas, mais do que isso, buscou a visão de intervenientes de diversos sectores, para perceber a realidade a partir dos diferentes pontos de vista. “Ainda estamos numa sociedade que continua a ser machista. Uma sociedade em que se ela (a mulher) for casada, o marido não deixa grande espaço para que consiga desenvolver-se na medida em que tem as tarefas de casa. Então, ela luta não só contra os desafios que lhe surgem pela frente (gestão da carreira ou do seu negócio), mas contra os conflitos diários da dura realidade que ainda a ofusca”,
Nação
MulhErEs EM Maior NúMEro…
A proporção de população feminina tem aumentado ao longo dos últimos trinta anos, de forma ininterrupta
…. Mas MENos participativas
O índice de paridade de género mostra que, em quase todos os grupos etários, há maior participação de homens Em
*A pArtiCipAção nAs ACtividAdEs EConómiCAs mostrA Como As pEssoAs ContribuEm Com AlgumA ACtividAdE pArA A EConomiA (não nECEssAriAmEntE AtrAvés do EmprEgo formAl). A rECtA Cor-dE-lArAnjA (quAndo o índiCE dE pAridAdE do génEro é iguAl A 1) é o ponto dE Equilíbrio Em quE homEns E mulhErEs, hipotEtiCAmEntE, tEriAm A mEsmA Contribuição homens mulheres
considera a economista Tânia Tomé. Já a pesquisadora de assuntos relativos à Mulher do Observatório do Meio Rural (OMR), Aleia Rachide, anota que “a mulher rural trabalha muito, mas esse seu trabalho não é, muitas vezes, suficientemente visível, porque não se consegue converter em valor financeiro o que produz com o tempo dispendido em tarefas domésticas. O mesmo acontece com a sua contribuição na produção alimentar e no comércio, geralmente informal. O resultado disso é que no campo a pobreza tem de facto o rosto feminino”, reitera.
O peso da intervenção masculina sobre a independência económica da mulher ainda é marcante em Moçambique. “Há alguns anos, para uma Mulher obter crédito bancário tinha de ter autorização
economista
“É exactamente pelo facto de ter mais desafios que a Mulher tem mais poder de fazer a diferença. Por isso acho que nós, mulheres, devemos olhar pela perspectiva dos desafios que enfrentamos, e não a de sermos vítimas da sociedade onde nos inserimos”
de um homem, fosse ele esposo, irmão ou outro familiar” recorda Rosita Alberto Valoi, Presidente do Caixa Mulher, uma instituição de microcrédito criada para assistir às necessidades das mulheres empreendedoras nacionais. “Sabemos que o preconceito de género continua a ser o principal entrave ao empreendedorismo feminino, não só em Moçambique mas por todo o mundo. Mesmo nos mercados mais desenvolvidos, essa é uma realidade ainda muito presente. Mas há um caminho que tem vindo a ser feito, com sinais de progresso, só que ainda com muito por fazer”, refere Liliana Catoja, administradora do Millennium bim.
banco mundial: “mulher, o foco para a mudança” No fundo, tudo depende da remoção de barreiras que cortam o potencial
produtivo da Mulher. Muitos destes obstáculos, que não parecem ter qualquer relação entre si, e com os problemas do género que impactam a economia, incluem a violência de género, o acesso à educação e à saúde sexual e reprodutiva. ”Se quisermos erradicar a pobreza em Moçambique, nada há que tenha um maior impacto para o alcance desse objectivo do que colher o que se chama de dividendo demográfico, que é o rácio da população que contribui na economia em relação à população que está dependente dos demais”, argumenta Peter Holland, líder de programas do Banco Mundial, em entrevista à E&M.
Os cálculos do Banco Mundial prevêem que o PIB per capita, em 2050, poderá ser 31% mais elevado, em termos
reais, se a taxa de fecundidade se reduzir em um filho por mulher. “Esse poderia ser, de facto, um impacto gigantesco. Podemos dizer que nada pode, hoje, ser tão decisivo e fazer baixar de tal forma os índices de pobreza do que esta medida”, considera o especialista.
mas como é isso possível?
No meio urbano, cada moçambicana tem, em média, 5,9 filhos, uma das mais elevadas taxas de fecundidade em todo o mundo. Em 40% dos agregados mais pobres, nas zonais rurais, cada Mulher chega a 7,2 filhos em média sendo que as estatísticas do Banco Mundial apontam para um decréscimo para os 5,7 filhos. Estes números são assustadores e, de um modo geral, a taxa de fecundidade real é
há dez anos, nenhum país havia alcançado 100 pontos em todos os indicadores. hoje, são seis: Bélgica, Dinamarca, França, letónia, luxemburgo e Suécia conseguiram criar as condições para não haver distinção entre homens e mulheres
ásia oriental e pacífico
áfrica subsaariana sul da ásia
médio oriente e norte da áfrica
demasiado elevada e tem efeitos nefastos. Sociais e económicos. E, claro, também ao nível do género, porque se torna impossível imaginar como é que uma Mulher com cinco, seis ou sete filhos pode ter, de facto, uma participação efectiva na economia formal.
Outra forma de empoderar é, de acordo com os especialistas, atacar a violência baseada no género. Olhando para Moçambique, há indicadores preocupantes: 75% das raparigas dizem que a sua escola não é segura e 70% que contactam ou já tomaram contacto com professores que trocam favores sexuais pela aprovação de ano. “É uma questão fundamental a combater, num país em que 48% das meninas com menos de 18 anos já têm um bebé”, defende Holland, sublinhando que,
europa e ásia central
média mundial
américa latina e caribe
Nação
inclusão finAnceirA: A grAnde oportunidAde
Para o Banco Mundial, o mundo digital e a inclusão financeira são instrumentos encorajadores no empoderamento da Mulher, e com um considerável efeito multiplicador por toda a sociedade. e é essa a mudança que deverá possibilitar, e de forma muito rápida, que a Mulher consiga angariar poupança e a possa depois investir, ou reinvestir em actividades produtivas, de forma progressiva, até baixarem os índices de pobreza. “hoje há uma faixa de apenas 27% das mulheres que utilizam, de alguma forma, pagamentos digitais. Posso dizer que temos um projecto de inclusão financeira que vai elevar a cobertura até aos 40% nos próximos quatro anos”, revela Peter holland o representante do Banco Mundial, para quem o factor mais crítico nesta luta continua a ser a base de tudo: “a fraca protecção da rapariga ao nível da educação e da escola”, assume.
“se baixar a fecundidade dos adolescentes, haverá vários ganhos para a rapariga, não só porque terão mais tempo para frequentar a escola e se formarem nas mais variadas áreas de actividade profissional, mas porque, ao evitarem a gravidez precoce, evitarão mortes associadas a partos prematuros, ainda hoje um problema também endémico da nossa sociedade”. Tudo isto, para além de ganhos humanos e sociais, vem acompanhado de contributos efectivos no desempenho da economia nacional.
mais cumpridoras e melhores pagadoras… É factual, e o mercado financeiro reconhece-o, em números e nas acções e produtos disponibilizados ao mercado. Ao perceberem que a Mulher é considerada melhor gestora de capitais próprios e, ela própria, mais capaz de assegurar retorno dos empréstimos, os bancos não têm poupado esforços em iniciativas para o empoderamento feminino. Os exemplos são diversos e para todos os gostos. Começando pelas iniciativas de dimensão mais imediata, não é incomum, em todos os mercados da capital, coincidirmos com vários grupos de poupança
ao perceberem que a Mulher é considerada melhor gestora de capitais próprios e, ela própria, mais capaz de assegurar retorno dos empréstimos, os bancos não têm poupado esforços em iniciativas para o empoderamento feminino.
e associações de crédito formados com a intenção de apoiar a Mulher, sobretudo do sector informal. Ao mesmo tempo, vão proliferando os bancos e instituições de microcrédito com o mesmo propósito. Uma destas iniciativas com uma base assente no género é a Caixa Mulher. Sedeada na Cidade da Matola, nos arredores de Maputo, surgiu de uma iniciativa de 15 pequenas empresárias que há cinco anos juntaram fundos (de até 5 milhões de meticais) para facilitar a actividade produtiva da Mulher na economia. Mais tarde, a instituição veio a ser maioritariamente participada pela Gapi-SI, instituição de financiamento ao desenvolvimento de capital misto, público e privado, apoiada por mecanismos e fundos internacionais investimento para o desenvolvimento sustentável.
Ao longo dos anos terá apoiado e feito a diferença na vida de largos milhares de Mulheres da cidade e da província de Maputo. “Antes, a Caixa foi capaz de emprestar até 600 mil meticais para mulheres envolvidas em projectos estruturantes do sector agro-industrial, mas hoje os empréstimos variam entre 5 mil e 100 mil meticais, a uma
taxa de juro fixa de 4%, muito mais baixa do que a da banca comercial”, explica a PCA da Caixa Mulher, Rosita Valoi. Mas há outras iniciativas que visam beneficiar a Mulher, numa óptica de compensação das diferenças latentes, que ainda a afastam do real poder dos nossos dias: o de serem donas do seu próprio destino. E não são só micro-bancos, ou instituições focalizadas na ajuda ao desenvolvimento. A própria banca comercial tem vindo a despertar para estas questões. Liliana Catoja, administradora do Millennium bim, revela que a instituição “tem hoje um conjunto de produtos desenhados a pensar na Mulher”, e dá como exemplos o ‘Solução Mulher’ e o ‘Crédito Mulher Empreendedora’.
A primeira é um cartão de débito personalizado com acesso a um seguro de saúde. Dispõe de cobertura de despesas de parto e tratamentos médicos para enfermidades como o cancro do colo do útero e o cancro da mama. E também inclui descontos em estabelecimentos comerciais parceiros. O cartão tem ainda uma componente de responsabilidade social, uma vez que cada transacção efectuada corresponde a um apoio à formação “Líder em
Maior dEsEMprEgo fEMiNiNo ENtrE os iNstruídos…
há mais mulheres desempregadas com o grau de escolaridade concluído a partir dos 15 anos
…. E os Não iNstruídos
Maior parte das ocupações que não exigem nível escolar também são realizadas por homens
Mais MulhErEs... só MEsMo Nas actividadEs MENos rENtávEis
Olhando aos sectores de actividade, há uma maior concentração na agricultura do que na indústria índice de paridade de género
agricultura, silvicultura e pesca comércio e finanças outros serviços indústria transformadora serviços administrativos energia transportes e comunicações indústria extractiva e minas construção
quAndo o índiCE dE dispAridAdE do génEro for iguAl A 1, há iguAldAdE dE pArtiCipAção EntrE homEns E mulhErEs; quAndo for mAior quE 1, o dEsEquilíbrio é fAvorávEl às mulhErEs E; quAndo infErior A 1 é fAvorávEl Aos homEns.
Mim”, integrada no projecto Girl Move Academy, uma instituição que, na Beira, promove o empreendedorismo feminino, e que consiste num plano de poupança com base num depósito a prazo com juros atractivos, acima da média do mercado. Já o ‘Crédito Mulher Empreendedora’ foi desenhado para permitir acesso a um crédito que facilita a concretização de projectos profissionais, e o empreendedorismo feminino. Mas é justo referir que quase todos os outros bancos comerciais do mercado têm começado, nos últimos anos, a olhar para a Mulher de forma específica nos seus produtos, casos do BCI, Único, Moza, Barclays, Standard Bank ou do Banc ABC.
esquecidas no meio rural
Se, ainda assim, a Mulher consegue ter alguma visibilidade e melhores oportunidades nas grandes cidades, o mesmo não se pode dizer da realidade no meio rural. Aleia Rachide, pesquisadora do OMR para a área de género, explica que, nesse contexto, “e porque a agricultura é normalmente voltada para a produção alimentar de subsistência e não de culturas de rendimento, a sua capacidade de melhorar
a renda e os índices de qualidade de vida é ainda mais complicada”, explica. Para fazer face à pressão da pobreza, a mulher rural adopta o comércio informal de produtos alimentares, alguns dos quais processados, sendo comum colocarem bancas de venda de sal, açúcar ou óleo alimentar.
A dificuldade deste grupo é depois agravada pelo seu fraco nível de escolaridade (ver quadro na página seguinte).
Aleia Rachide considera que “despertar a sensibilidade dos decisores em empoderar a mulher rural passa por avaliar quais seriam os danos económicos das comunidades se as Mulheres se retirassem do seu trabalho dentro da família, na produção de alimentos ou no comércio.” Seria algo impensável, mas daria para ter uma noção da sua real importância, tantas vezes invisível aos olhos (e contas) da grande economia.
E a pesquisadora consubstancia a sua opinião de que “é, de facto, preciso que os diferentes sectores tenham, efectivamente, maior e melhor coordenação estratégica. Existem vários pequenos programas e planos de género adoptados por algumas instituições públicas, mas que
Nação
não estão a ser implementados com o rigor e a abrangência necessários. Precisamos de bons programas de educação, formal e informal, porque é aí que está a semente de uma mudança que, dia após dia, tarda para milhões de mulheres moçambicanas”, alerta.
vontade de mudar
A este nível, a consciência de empoderar a Mulher já resultou em diversos programas públicos que visam uma intervenção efectiva. Criticados ou não por estarem a ser implementados ou pela sua (in) eficiência, eles existem, e não são poucos. O Banco Mundial considera que “o empoderamento tem uma forte dimensão da componente da saúde sexual e reprodutiva, onde entram em jogo aspectos culturais socio-económicos. E já trabalha com o Ministério da Saúde para oferecer mais e melhores serviços e cuidados a este nível. Em relação a este aspecto, existe o Programa Baseado em Resultados, cuja ideia é elevar dos actuais 9% para 20% o número de Mulheres que recebem, pelo menos, quatro visitas pré-natal na fase de gestação e até aos três anos. “Se o Governo conseguir elevar essa cifra irá receber
É quanto deverá aumentar o rendimento
Per caPita, em moçambique, atÉ 2050, se a taxa de fecundidade baixar um filho Por mulher, de acordo com os cálculos do banco mundial
EM dEsvaNtagEM taMbéM Na Educação
A cobertura do ensino, a todos os níveis, é maior nos homens do que nas mulheres, apesar de a população feminina do país ser superior (52%)
*no Ensino primário, A tAxA brutA dE EsColArizAção médiA é ACimA dE 100%, porquE ExistEm Alunos mAtriCulAdos quE não Estão nA idAdE ofiCiAl pArA frEquEntAr A EsColA fontE inE
10 milhões de dólares de incentivo para criar programas similares”, compromete-se Peter Holland. E o Banco Mundial também está a financiar programas de educação, em parceria com o Ministério da Educação e Cultura, que visam a melhoria da performance dos professores, e a qualidade do ensino de um modo geral, avaliados em 250 milhões de dólares. Aí, uma das áreas de intervenção prioritárias incide no acompanhamento da rapariga orientado para um trabalho coordenado com as comunidades através do Ministério da Juventude e Desportos no sentido de manter as raparigas na escola, garantindo-lhes materiais adequados, uniforme escolar (porque este é um dos maiores custos indirectos que retiram a rapariga da escola), e a oferta de bicicletas para que tenham melhor mobilidade, como prémio para as que transitam do nível primário para o secundário. Na Zâmbia e na Índia, a ideia resultou. Em Moçambique, será necessário mais do que isso. Só que lhes seja feita justiça.
Ensino primário Ensino secundário
Educação é a base do problema. E a sua principal solução
textO Celso ChaMbisso FOtOGrAFIA Jay Garrido, istoCk Photo
“Há oportunidades mas não sabemos onde, nem como aceder a elas”
soFia cassimo Presidente do Pelouro da Mulher Empresária na CTA e vice-presidente da Federação das Mulheres Empresárias e Empreendedoras
o enquadramento e a importância da Mulher na economia não difere, na essência, do papel que assume noutros domínios da vida em sociedade. Sofia Cassimo, Presidente do pelouro da Mulher empresária na CTA – entidade que representa oficialmente o sector privado nacional –fala, por isso, de uma evidente “desigualdade de oportunidades”, e foca a raiz do problema na “falta de instrumentos que orientem o empresariado ponto de vista legal”, uma lacuna “que pesa mais sobre as empresárias”, especialmente as jovens. Sendo que o seu pelouro é dos mais recentes a terem sido criados, já a luta com que se depara, em busca de ferramentas para empoderar a Mulher moçambicana é já bem antiga.
Que fundamento levou à criação do pelouro da Mulher Empresária na CTA?
Se olharmos para a demografia vemos que existem mais mulheres no país. E, só por aí, não pode ser verdade que estes grupos não tenham capacidade de desenvolver empreendimentos de sucesso.
O que acontece é que, sistematicamente, é sempre o mesmo grupo que tem acesso a oportunidades de negócio e aos meios para criar rendimento e é preciso reverter essa tendência. É nisso que temos estado a trabalhar.
Há certa confusão em definir o que são empresárias, e quem são, sobretudo porque muitas proprietárias de micro-negócios são geralmente assim chamadas. Qual é a fronteira que permite uma distinção clara? E temos, de facto, um empresariado feminino assim tão representativo? na minha opinião, temos empresárias e empreendedoras. O empreendedor traz um factor distintivo, quer no modelo de negócio, quer no desenvolvimento do tipo de produto ou serviço que oferece ao mercado. Ou seja, vê uma oportunidade de mercado ou uma demanda que não está a ser suprida e cria uma solução.
Segundo essa lógica, há mais empresárias do que empreendedoras… Claro que sim. infelizmente, o ine não nos consegue dizer
do ToTAl do Pro
CuremenT PúbliCo
AdjudiCAdo A emPreSAS nACionAiS, Só 17,2% vAi PArA
AS mulhereS e SAbemoS que eSTeS São ConTrAToS muiTo grAndeS
quantas empresas detidas por mulheres temos em Moçambique, nem as áreas em que elas operam ou, muito menos, quantas mulheres são accionistas em empresas.
Muitas vezes, não parecem claros os motivos pelos quais se atribui à mulher um potencial elevado, quando a realidade de muitas delas passa por ter de lidar com a informalidade e limitações financeiras e de literacia… Haverá algum estudo que demonstre o seu real potencial? um relatório do departamento para o desenvolvimento internacional (dFid, na sigla em inglês) refere que as mulheres perfazem 82% da informalidade em Moçambique. Destes, 37,5% consegue um volume de negócios de mais de 600 mil meticais. Se estão dentro da informalidade, significa que estão limitadas de explorar em pleno a sua competitividade porque não podem firmar contratos. Além disso, do total do procurement público adjudicado a empresas nacionais, só 17,2% vai para as mulheres. E sabemos que estes são contratos muito grandes. Se juntarmos estes 17,2% (que conseguem adjudicações do Estado) aos 37,5% (com volume de negócios de mais de 600 mil meticais) e se os potenciarmos, conseguiríamos um volume considerável de recursos, em termos de encaixe, para a economia, provenientes só de mulheres (não todas) do sector informal.
Há inúmeros factores que dificultam a imposição da mulher no ramo empresarial. Quais são os principais? Falta-nos muito disciplina e
Na voz de...
boas práticas. Muitas mulheres usam a empresa como se fosse a sua conta bancária, o que não pode ser. Desde o ano passado, temos trabalhado, como pelouro, na tradução deste tipo de informação para evitar erros de comportamento no ramo empresarial. Por exemplo, o banco Mundial anunciou um fundo que poderá apoiar a actividade produtiva da mulher empreendedora de Moçambique. Estamos a receber muito interesse de candidatas, mas está tudo ainda na fase embrionária (falta mapeamento, criação de um comité, definição das áreas prioritárias de incidência do fundo), mas garanto, desde já, que quem não tiver o seu negócio bem estruturado, incluindo a contabilidade organizada, não terá acesso, mesmo sendo verdade que as mulheres são financeiramente mais responsáveis do que os homens.
Os obstáculos, certamente, vão muito além da disciplina e boas práticas… O ponto de partida é a falta de informação a todos os níveis. Como registar uma empresa, porquê o pagamento de impostos, ou como e quando pagar. Toda esta informação tem de ser disponibilizada em linguagem acessível, já que o nível de literacia no nosso país é ainda fraco. Daí que uma das coisas que o nosso pelouro quer elaborar, ainda este ano, é um manual do empreendedor onde estará aglutinada toda a informação necessária a este respeito. Também iremos criar uma app com todos os procedimentos que deve tomar e os prazos de pagamentos do iSPC, inSS, entre outras obrigações.
A carga fiscal tem sido muitas vezes colocada pela CTA como um dos obstáculos ao desenvolvimento do empresariado nacional… Sem dúvida. Essa é uma das nossas áreas prioritárias de
intervenção enquanto pelouro. Entendemos que pessoas com micro-negócios, como carpinteiros, canalizadores, pequenos comerciantes, por exemplo, não deviam pagar o iSPC, e poderiam ser taxadas pelos municípios, como acontece no brasil e noutras geografias. os municípios, por sua vez canalizariam parte (até 40%) destes impostos à Autoridade Tributária (AT). Esta medida permitiria reduzir a carga de trabalho da AT em ter de controlar os pequenos comerciantes, direccionando os esforços na adopção de políticas para os contribuintes que mais lhes interessam (com maior volume de negócios), ao mesmo tempo que aliviaria a carga fiscal dos micro-empresários.
“enTendemoS que PeSSoAS Com miCronegóCioS, Como CArPinTeiroS, CAnAlizAdoreS, PequenoS ComerCiAnTeS, Por exemPlo, não deviAm PAgAr o iSPC, e PoderiAm Ser TAxAdAS PeloS muniCíPioS, Como AConTeCe no brASil e nouTrAS geogrAFiAS”
o quénia e o ruanda aplicaram esta regra e, em pouco tempo, reduziram a informalidade em mais de 70%.
Em Moçambique sinto que as políticas são descoordenadas, sem qualquer perspectiva de médio ou longo prazo.
Qual será o papel da Mulher no debate do conteúdo local? Temos uma grande discussão em torno da lei de Conteúdo nacional, que já vem de há anos e percebemos que não havia nada plasmado para as mulheres e jovens. neste aspecto, propusemos que a lei previsse que os grandes empreendimentos definissem, por exemplo, 30% do procurement nacional destinado a mulheres, e privilegiasse também as portadoras
Desafio da formalização ainda está em cima da mesa em milhares de pequenos negócios
de algum tipo de deficiência, uma vez que temos muitos deficientes que já têm os seus negócios. na SAdC isto acontece ao nível do procurement público e privado. não acredito que não haja empresas de mulheres (catering, despachantes aduaneiras, etc.) que não sejam capazes de prestar bons serviços. Vemos sistematicamente que as oportunidades andam por aí, mas não sabemos onde estão nem como ter acesso a elas.
Que avanços foram já alcançados pela CTA?
O pelouro é muito jovem, foi criado neste mandato da CTA, em 2017, e levámos os primeiros 18 meses a fazer o mapeamento do sistema. Primeiro, procurámos encontrar
casos de mulheres que têm negócios de escala e que realmente devem ter acesso às mesmas oportunidades que os outros têm. E depois juntámo-nos ao Governo para que, enquanto legislador, possa ajudar a criar sinergias para que as grandes preocupações relacionadas com o género e a juventude sejam debatidas. Quando se criam políticas na Autoridade Tributária, somos chamadosaparticiparnodebate.
Ainda recentemente, aquando da revisão do regime tributário do iSPC, enviámos a nossa proposta, que refere não ser justo que haja uma carga fiscal elevada sobre os empresários, sobretudo os de pequena dimensão, embora percebamos que os impostos são um fundamento importante para a definição do oe Por isso propusemos a criação de um imposto anterior (inferior) ao iSPC, para pequenos negócios – como se faz na índia e no brasil, por exemplo –, assumindo-o como imposto a ser cobrado sobre empreendedores com melhor capacidade financeira.
Se fosse possível remover todas as barreiras que impedem a Mulher de explorar o seu potencial produtivo, até onde chegaria a economia moçambicana? Seríamos capazes de trazer grandes mudanças ao país. Tenho estudado países como o ruanda, uganda ou quénia, que, há cerca de 15 ou 20 anos, se aperceberam que tinham de apoiar mulheres e jovens para assegurar que este grupo de milhões de pessoas contribuísse para o desenvolvimento económico. E isso aconteceu. Às vezes fechamo-nos muito cá dentro e não vemos o que acontece à volta, e há bons exemplos nestas matérias, aqui bem perto. Porque não segui-los?
texto Celso Chambisso fotografia Jay Garrido
O Mercado de Capitais como catalisador para o Desenvolvimento económico
Patrícia Darsam • Head of Markets and Transaction Banking do Barclays Bank Moçambique
há 11 anos tive a oportunidade de entrar para uma das áreas que pessoalmente considero das mais interessantes do sector financeiro, a área de mercados. Este segmento, principalmente em Moçambique, tem algumas particularidades que, na verdade, são comuns a muitos dos países africanos pela natureza da sua economia: por serem detentores de diversas matérias-primas e, ao mesmo tempo, serem deficientes na indústria de processamento e de transformação. Nessa perspectiva, as políticas macroeconómicas têm-se focado fundamentalmente a tentar resolver questões estruturais da economia, voltadas para políticas de controlo cambial, uma vez que estas economias apresentam uma balança de pagamentos deficitária, pois o país importa mais do que exporta e, nessa medida, a moeda local apresenta uma vulnerabilidade elevada a choques económicos. Numa outra perspectiva, o aumento do consumo interno, fruto do crescimento da população e do PIB per Capita, impacta os níveis de inflação e condiciona a gestão da política monetária. Neste contexto, os dois mercados que mais sobressaem neste tipo de economias são o cambial e o monetário. Entretanto, nesta ânsia de controlar as principais variáveis macroeconómicas, acaba por se negligenciar, de certa forma, o terceiro mercado, que é o mercado de capitais e que, no meu entender, é igualmente de grande importância para a estabilidade do mercado financeiro e para o crescimento e desenvolvimento social e económico de um País.
É através do mercado de capitais e dos seus intervenientes que os agentes superavitários e desejosos em rentabilizar o seu capital e os agentes deficitários à procura de se capitalizarem se encontram. Um mercado de capitais eficiente e líquido passa a ser uma alternativa de financiamento ao tradicional financiamento bancário e uma alternativa de investimento aos tradicionais depósitos a prazo.
Um mercado de capitais desenvolvido e activo, significa que as pessoas ou agentes económicos são mais conscientes dos seus
papéis na sociedade, têm uma visão de futuro e estão dispostos a sacrificar algo “hoje” para benefícios futuros. Naturalmente, não podemos ignorar o facto de que é difícil instituir uma cultura de poupança e de investimento quando as pessoas mal têm o que comer e estão preocupadas em sobreviver. Mas esta mudança de mentalidade tem de ser iniciada de forma a permitir que gerações futuras tenham melhores níveis de vida. Introduzir educação financeira nas escolas e universidades para que os jovens de hoje ganhem essa consciência e passem a controlar de maneira mais consciente o seu futuro deve ser uma preocupação da nação. Em Moçambique, a cultura de investimento ainda é pouco estimulada, quer seja por desconhecimento deste mercado, pelo baixo nível de renda e poupança ou até por medo ou receio de investir. Diversos autores consideram o desenvolvimento do mercado financeiro como um dos principais sinais do aperfeiçoamento económico de uma nação. O desenvolvimento dos países europeus e dos EUA, por exemplo, foi impulsionado pela contínua evolução e sofisticação do mercado de capitais e pela eficiência na gestão de poupanças. Estudos indicam que uma economia com um mercado de capitais desenvolvido pode gerar emprego e aumentar a renda da população e quanto mais desenvolvida é uma economia, mais activo é o seu Mercado de Capitais e toda a sociedade é beneficiada à medida que este cumpre aquelas que são as suas quatro principais funções: mobilização da poupança, gestão de riscos, alocação eficiente de recursos e aumento da disciplina corporativa através da partilha de informação por parte das empresas que captam os recursos, o que induz a maior disciplina e transparência do mercado. O resultado é que toda a sociedade é beneficiada com mais emprego, renda, investimento e crescimento económico.
O mercado de capitais está disponível a investidores de todos os escalões sociais, permitindo desta forma que a sociedade no geral tenha acesso a oportunidades de multiplica-
Entretanto, nesta ânsia de controlar estas variáveis macroeconómicas, acaba por se negligenciar, de certa forma, o terceiro mercado, que é o de capitais e que, no meu entender, é igualmente de grande importância para a estabilidade financeira e para o crescimento e desenvolvimento social
ção da poupança e de geração de renda, promovendo dessa forma um desenvolvimento social equilibrado e inclusivo. Isto só acontece quando as operações públicas de subscrição tanto de acções como de obrigações requerem um valor mínimo de subscrição reduzido e ao alcance de detentores de pequenas poupanças
Através do mercado de capitais, não só poupanças locais são captadas como também a poupança externa, o que aumenta a entrada de capitais estrangeiros no País. Para as economias em desenvolvimento, como é o nosso caso, e com uma balança deficitária, como mencionei acima, a entrada de capitais externos contribui para um maior equilíbrio do mercado cambial. Um dos principais motores do mercado de capitais é a Bolsa de Valores, o ambiente de negociação no qual os investidores podem comprar ou vender os seus títulos com o auxílio de intermediários financeiros. Actualmente a Bolsa de Valores de Moçambique tem uma capitalização bolsista de cerca de 1,4 mil milhões de dólares, cerca de 9% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto que, se olharmos para a nossa vizinha África de Sul, a capitalização bolsista esta acima de 1,1 biliões, correspondendo a 316% do PIB, comparando com uma média da região africana de 55% do PIB. Quero com isto demonstrar que o mercado moçambicano de capitais ainda não atingiu os níveis de actividade próximos dos observados em outras praças da região, e que ainda não é um instrumento que motive o crescimento económico. Há, dessa forma, a necessidade de fazer crescer o número de empresas cotadas na Bolsa de Valores, que conta apenas com sete entidades, de aumentar o número e volume de ofertas de subscrição e fazer igualmente crescer o volume de transacções diárias para que as entidades locais e os investidores, possam beneficiar de um mercado de capitais transparente, líquido e eficiente.
Eventualmente, para atingir estes objectivos, haverá necessidade de se proceder a algumas reformas ou ajustamentos das políticas de investimento em bolsa, de forma a atrair mais investidores e cada vez mais empresas. Outras melhorias passam por plataformas electrónicas e de fácil acessibilidade, parcerias com as bolsas da região e, quiçá, reformas a nível fiscal, de forma a atrair mais investimento local e estrangeiro para que o mercado de capitais possa contribuir para um desenvolvimento económico e social sustentável.
Um recUo imensUrável
Nada nem ninguém permanecerá o mesmo na cidade da Beira, depois do ciclone de Março passado. Das várias lições aprendidas, o valor da solidariedade é a mais impressionante de todas. Um aprendizado decisivo para uma sociedade que não teria outra alternativa de sobrevivência que não fosse o “cada um por si”. Permaneceu o “Todos pela Beira”
quanto tempo será necessário para devolver estrutura a uma província que, em poucas horas, perdeu tantas vidas? Em quanto tempo é possível recuperar a economia construída ao longo dos 112 anos de uma cidade? Por onde começar? Como agir e o que esperar da vida na cidade da Beira e em toda a província de Sofala daqui em diante? Todos estão ávidos de respostas a estas questões. A reportagem da E&M esteve na cidade da Beira e testemunhou cenários de sofrimento e destruição, mas também de esperança num novo começo, que abre espaço para o rápido reerguer de todo um povo. Por ali, todos parecem apressados em reconstruir as casas, estaleiros e empresas que não aguentaram, firmes, a força devastadora do Idai.
capital Cidade da beira área 68 000 km² população 2,2 milhões região Centro província sofala
A Construa, por exemplo, uma das mais importantes empresas de materiais de construção da cidade da Beira, sofreu danos e estava encerrada até ao fecho deste artigo. Com 90% das casas sem tecto (em pontos da cidade onde as construções tinham melhor consistência), e habitações totalmente desfeitas (onde a qualidade das construções era relativamente inferior), toda a cidade se mobilizava em busca de meios para refazer os danos, na primeira tentativa de retomar a vida normal depois do pior.
Mas aqui o poder de compra provou que nem sempre é uma solução infalível para problemas desta natureza. Para já, em finais de Março, centenas de pessoas estão em centros de acolhimento espalhados pela cidade, por tempo
indeterminado, simplesmente porque não têm para onde ir. Perderam tudo. Já os que estão no centro da cidade têm aquilo que, perante tudo o que se vive por ali, é um privilégio: permanecer em casa, ou quatro paredes, mesmo sem tecto. Muitos edifícios, de facto, têm agora lonas no lugar do telhado, uma solução temporária para lidar com as chuvas que ainda caíam nos dias que se seguiram à catástrofe. Resultado disso é que o preço do próprio improviso quase duplicou. “Entra muita água e praticamente chove dentro da minha casa. A solução adequada seria encontrar e montar telhas e fibrocimento (mais conhecido por lusalite), mas o mercado não tem. E esta lona custou-me quase o mesmo que o material apropriado”, revela José Paulo, engenheiro civil residente no bairro Macuti.
A fome
“Nada pode ser tão mau que não possa piorar”. O dito popular encontra eco nos eventos que se vivem na cidade da Beira. Não bastasse não poder escapar à destruição das chuvas e dos ventos de 170 km/h, veio a fome. Dezenas de padarias cederam à fúria do Idai e os cerca de 540 mil habitantes da cidade (segundo o anuário estatístico do INE de 2017) foram, durante dias, alimentados por apenas três panificadoras. As consequências são óbvias: o preço quase duplicou e o consumo do pão tornou-se um privilégio de poucos, não só pelo preço, como pela incapacidade das unidades em funcionamento em atender a demanda, em forma de fila interminável, na porta. Também subiram desregrada e acentuadamente os preços de praticamente todos os produtos alimentares, perante uma crónica falta de dinheiro na cidade, principalmente ocasionada pelo apagão que, por vários dias, impossibilitou operações financeiras electrónicas (em bancos ou via mobile). A farinha de milho, por exemplo (um dos alimentos que não faltam à mesa dos beirenses), custava 40 meticais o quilo e passou para os 70 meticais. O abastecimento da água, electricidade, combustíveis, telecomunicações e outros serviços públicos começava, nos últimos dias de um mês para esquecer, a dar sinais de regressar à plenitude, quando passavam duas semanas após a tragédia. Mas não se deve esperar a mesma coisa em relação aos preços que, segundo empresários com quem a E&M manteve contacto, “devem continuar elevados por mais tempo”, já que dependem da “retoma da estabilidade e sobretudo da
os grAndes números de UmA enorme trAgédiA
Os números da devastação causada pelo idai eram massivos até ao fecho desta edição (29 de Março)
As feridAs AbertAs...
O idai foi tão grande, quanto inesperado em tudo. Da força dos ventos até à enormidade das consequências
PoPulação afectada (Pessoas) 794 035 Pessoas salvas 128 941 alunos afectados 90 756 culturas totalmente destruídas (ha) 36 747 GruPos vulneráveis 6 563 salas de aula 3 140 feridos 1 522 Óbitos 501 unidades sanitárias 45
... os meios AlocAdos
O mundo tem estado a ajudar Moçambique a lidar com as cruéis consequências da catástrofe
esPecialistas de busca e resGate 120 barcos 37 telefones via satélite 30 helicÓPteros 18 camiões 8 aviões 4 fraGatas 2
reposição das vias de acesso”, dizem-nos. A E&M falou com três dos considerados mais influentes empresários da Beira. Todos fazem as contas a perdas incalculáveis. Immran Mohamed, proprietário de armazéns para comércio externo, teve todos os imóveis danificados (vários apartamentos em dois condomínios), incluindo a residência própria. Destaque merece um dos hotéis de referência da cidade da Beira, o Hotel Manga, que tinha acabado de ser reabilitado e alugado a operadores chineses. O empresário perdeu, igualmente, os oito armazéns no centro da cidade, cujas paredes e tecto desabaram por cima de mercadorias pertencentes a clientes, e que deviam seguir para o hinterland. Tudo se perdeu. “São compromissos nossos. E como iremos honrar esses compromissos? Nem todos (os fornecedores) poderão ter sensibilidade porque estamos a falar de acordos comerciais. De certeza que os nossos clientes vão lamentar e vão querer sobrecarregar as nossas contas, o que será mais doloroso. Um novo pesadelo começa agora e não será nada fácil”, prevê o empresário que ainda não acabou de fazer as contas aos prejuízos. Outro empresário influente, Nagib Amade, estima em 5 milhões de dólares os prejuízos, só no terminal de contentores e num armazém que recebe carga diversa, inaugurado em 2016 numa área de 4 800 metros quadrados. Ficam por calcular os prejuízos em 12 apartamentos situados no bairro do Estoril que ficaram muito danificados. Augusto Martinho Álvaro, proprietário da AMA Equipamentos, grupo com actividade imobiliária, portuária, mineira e de equipamento médico, fala de perdas de até 2 milhões de dólares só na sua actividade. Para este empresário, a crise só tem um lado minimamente construtivo, que tem que ver, como não poderia deixar de ser, com os esforços de reconstrução.
investimentos não segurados
Muitas das perdas dos empresários serão difíceis de recuperar uma vez que, muitos deles, não estão segurados porque, dizem-nos, “não há seguros que cubram danos causados por desastres naturais”. A E&M foi em busca de uma confirmação. Olívio Melembe, da Índico Seguros, deixa um meio termo. É que este tipo de seguros é específico e deve ser, dessa forma solicitado. “Acontece que muitos, por não estarem à espera que ocorra algum ciclone (já que são fenómenos atípicos em Moçambique), não vêem a necessidade
província
A reconstrução de infra-estruturas é uma das primeiras preocupações de Governo e empresários locais
“É
preciso encontrar financiamento com taxas de juro bonificadas para as empresas. E será necessário recorrer aos donativos, estando ainda por definir a que áreas alocá-los”
de solicitá-lo”, explica, sublinhando a urgência em “se levar este assunto cada vez mais a sério.”
dinheiro terá de ser barato
No final de Março, o Presidente da República, Filipe Nyusi, anunciou medidas para minimizar o impacto do ciclone Idai no centro do país, num pacote que inclui a redução de taxas em electricidade e transportes e assistência médica gratuita. Decidiu suspender todas as taxas cobradas no Sistema Nacional de Saúde e está a organizar uma campanha de vacinação contra a cólera. Na distribuição de electricidade, o Executivo vai reduzir para metade o valor da factura da indústria e comércio, e os agricultores da região vão beneficiar de uma distribuição gratuita de mil toneladas de sementes, além de 100 mil utensílios agrícolas. Nos transportes ferroviários, o Governo também vai reduzir em 50% as tarifas para os passageiros nas linhas de Sena e Machipanda. Apesar destas medidas, os empresários da Cidade da Beira, que per-
deram mais de 80% dos seus empreendimentos, condicionam a sua recuperação à forte intervenção da banca através de juros bonificados. A E&M sabe que os principais bancos estão a trabalhar nesse sentido, para criar linhas de crédito bonificado para a reconstrução.
“Primeiro, é preciso encontrar financiamento com taxas de juro bonificadas para assistir às empresas. Depois, será necessário recorrer aos donativos, estando ainda por definir a que áreas alocar esses fundos. O mais importante, porém, é que a banca e o Governo encontrem taxas de juros competitivas para os empresários de Sofala”, sugere Ricardo Conhaque, Presidente do Conselho Empresarial provincial. Na mesma linha, Augusto Martinho Álvaro defende que “esta fase fará a ‘filtragem’ das empresas. Se não tivermos um sistema financeiro à altura, as pequenas empresas não conseguirão recuperar. E espero que, diante da situação de elevado risco de financiamento que o ciclone trouxe, aliada às dívidas que as empresas
já têm com a banca, esta não resolva agravar ainda mais o custo do dinheiro, porque, se assim for, não haverá saída. Teremos de encerrar empresas.”
O empresário defende mesmo a criação de um “fundo de desenvolvimento empresarial, que não podendo repor os danos causados pelo ciclone, seguramente vai minimizar o seu impacto. Este fundo deve ter taxas bonificadas em diferentes áreas de actuação e deve ser controlado por um organismo de fiscalização para evitar desvios de aplicação ou o aparecimento de beneficiários que não foram afectados pelo ciclone”. O referido fundo, segundo o empresário, poderia ser criado “através da comparticipação do empresariado e do Governo.”
Ainda sobre o financiamento às empresas, o presidente do Conselho Empresarial de Sofala lembra que “eles (os bancos) também sofreram com o ciclone em Sofala. Mas é preciso que se entenda que quem capitaliza a banca é o sector privado e se este não tiver recursos para a economia fluir, então a banca não terá como ter dinheiro. Ou seja, é preciso que os bancos invistam em quem produz e agora precisa, mais do que nunca”, refere.
A força da solidariedade
Nunca o aeroporto da Beira registou tamanho movimento ao longo da sua história. Foi ali o centro das operações, onde se concentraram todos os serviços de assistência humanitária, a todos os níveis, provenientes de todos os continentes. É este “ombro amigo” – de países como a África do Sul, Quénia, Angola, Portugal, Índia ou Brasil, entre tantos outros, com forças treinadas para este tipo de eventos – que tem estado a amenizar o impacto dos danos causados pela catástrofe. Das operações de resgate de milhares de pessoas em zonas de risco (destaque para o distrito de Búzi); ao abastecimento ininterrupto de alimentos e assistência médica às comunidades reassentadas.
Mas o valor da solidariedade e o espírito de luta pela superação é também visível dentro de portas. Várias iniciativas, com destaque para a organização “Unidos pela Beira”, juntaram esforços e enviaram quantidades significativas de mantimentos (76 contentores), numa manifestação de solidariedade que é, sem dúvida, um legado de futuro para uma zona de um presente ingrato. Que o futuro comece aqui.
textO Celso Chambisso fOtOgrafia Jorge rUNgo
‘Show me the money’, ou o dilema do mercado cambial irregular
O negócio das casas de câmbio tem vindo a fragilizar-se, ao mesmo tempo que se nota o robustecer dos operadores informais que vão surgindo um pouco por toda a parte, o que sugere problemas de fiscalização e um crescente risco de exposição a crimes de branqueamento de capitais e até dinheiro falso. A E&M foi ver como funciona este mercado
em quase todos os mercados da capital, é comum ver gente aparentemente desocupada a conversar, sem qualquer mercadoria visível a vender, e sempre cautelosa em abordar os clientes.
Muito longe de desocupados, estes estão entre os (senão mesmo os mais) bem sucedidos comerciantes destes espaços. E tudo porque comercializam um dos mais preciosos bens (e também não tão abundantes como todos pretenderiam) de que um país e uma economia podem dispor – as divisas, nomeadamente dólares.
Num mercado (rigorosamente) regulado, o assunto ganha dimensão digna de abordar porque se reconhecem riscos associados a práticas informais de trocas
200 metros
É a distância entre a principal praça informal de compra e venda de dólares e o banco de moçambique, o regulador do mercado
cambiais, sendo o mais temido o de facilitar a circulação de dinheiro de proveniência criminosa.
Até aqui, o tema poderia continuar a ser pouco relevante para merecer uma abordagem mais profunda, mas ocorre um fenómeno de que muito pouco se fala, e que acaba por se revelar contrário aos princípios da legislação cambial em vigor. É que hoje, os operadores informais de câmbio ganharam uma pujança que ameaça cada vez mais os operadores licenciados, as casas de câmbio. O volume de divisas transaccionado informalmente, e embora não haja dados oficiais que o comprovem, é igual ou superior ao das casas de câmbio,
o que justifica a preferência dos agentes económicos (pessoas singulares e até de inúmeras empresas) pelo mercado informal, o que tem suscitado protestos das casas de câmbio. Pior que isso, elevam o risco de o país se tornar num corredor facilitador da lavagem de dinheiro e branqueamento de capitais.
o mercado cambial informal
Antes de procurar entidades oficiais para explicar o que realmente se passa, a E&M foi a três verdadeiras praças financeiras informais da capital (mercados Central, Xiquelene e Compone, os dois últimos de dimensão relativamente menor), medir o nível de actividade ali realizado.
Também visitámos duas casas de câmbio da cidade de Maputo. Todos os intervenientes convergiram ao relatar a realidade.
No mercado central da capital, na baixa de Maputo, está a maior praça informal. Curiosamente, fica a cerca de 200 metros do Banco de Moçambique, o regulador do mercado. Ali, a E&M simulou pretender comprar cinco mil dólares a um operador. Havia prontidão em atender à procura. Mas numa das casas de câmbio de referência, também próxima ao Banco de Moçambique, não havia dólares disponíveis para venda, tal como também não havia noutras casas. Como se explica?
burocracia, preço e desconfiança
A unidade do dólar no mercado informal custava 68 meticais a 20 de Março passado. E porque nas casas de câmbio custava 64,4 meticais, mais ou menos o mesmo valor da banca comercial, a E&M simulou que optaria pelas alternativas oficiais.
O comerciante avisou, desde logo, que o problema do mercado oficial era a escassez de divisas e muitas exigências de documentos para registar as operações, o que viemos a confirmar nas pesquisas de campo que se seguiram.
Já numa das casas de câmbio, ao questionar sobre como é lidar com a concorrência informal, que tem sempre o dólar disponível, o operador tratou a concorrência com certo respeito. Surpreendentemente. “Se não existissem aqueles (informais), isto caía de vez. São eles que garantem que haja dólares no mercado agora. Aqueles são sempre os ‘celeiros infalíveis’ nesta época de escassez do dólar”, admitiu à nossa reportagem. Mas, de seguida, afirmou que até os ban-
oS grandeS perigoS do câmbio informal
Tomemos o caso do Brasil, onde um estudo recente demonstrava os males a que estão sujeitas as economias onde este fenómeno acontece. Num artigo publicado em Agosto do ano passado com o título “Câmbio negro: o que é, como funciona e por que não vale a pena”, é revelado que muitos operadores informais facilitam a compra e venda de moeda no mercado paralelo para remessas de dinheiro por meio de contratos fraudulentos, já que estas transacções não são registadas. “Adquirir dólar no mercado paralelo muitas vezes é tentador porque, nele, a moeda é encontrada por um valor mais baixo do que o do dólar de turismo, mas você pode-se enganar com a suposta vantagem”. É que “a compra ilícita de moeda estrangeira não é segura, estando associada ao risco de ser vítima de um crime e acabar por receber notas falsas”.
cos, quando se ressentem da falta crónica de divisas, têm recorrido a negociações com os informais para se abastecerem. A desconfiança não é confirmada pelos bancos, nem poderia ser, mas reforça o poder que estes operadores detêm, hoje, no mercado.
Quem alimenta os informais?
Além da preferência que os singulares têm pelo mercado informal, há sinais de que empresas também realizam trocas com este sector, o que acontece à margem da lei. E isso foi confirmado por um operador informal do mercado Central. O ex-presidente da Associação Moçambicana das Casas de Câmbio (o actual toma posse em Abril corrente), Custódio Ricardo, explicou que a disponibilidade de moeda externa, sobretudo o dólar, nos bancos comerciais e nas casas de câmbio, depende das regras de política monetária do Banco de Moçambique, que os vende ou compra conforme o movimento que é preciso fazer para salvaguardar a estabilidade cambial do metical e as reservas internacionais. Já “os informais conseguem ter permanentemente divisas disponíveis porque operam à margem das normas, transaccionando, por exemplo, com empresas, através de taxas mais atractivas”, explicou Custódio Ricardo.
O privilégio de realizar operações cambiais com empresas é atribuído apenas aos bancos comerciais, de acordo com um regulamento da Lei cambial, introduzido em 2011, e que retirou esse direito às casas de câmbio, colocando-as em concorrência directa com os informais. Custódio Ricardo, que falou à E&M com brevidade e por telefone, revelou que “o negócio das casas de câmbio está a perder fôlego” perante a concorrência com o sector informal, mas essa queda já vem da altura em que entrou em vigor a interdição de contar com as empresas como clientes, uma vez que perfaziam mais de metade do seu volume de negócios.
há disciplina na banca
A E&M procurou ouvir os principais bancos comercais a actuar no mercado nacional, para saber como lidam com o fenómeno do câmbio informal, bem como com os respectivos riscos que isso coloca à economia. As respostas, por e-mail, vieram (até ao fecho deste artigo) do Millennium bim e do BCI.
“Agimos sempre dentro das normas do regulador e dos princípios formais que
mercado e finanças
A regulamentação do mercado cambial é rigorosa, mas há lacunas de fiscalização que desenvolvem o mercado cambial, resultando em riscos de práticas de branqueamento de capitais
regem a nossa actividade. Não temos qualquer ligação com o sector informal. Temos todas as operações cambiais registadas como a lei estabelece porque estamos cientes do perigo que isto representa”, reagiu o Millennium bim à possibilidade aventada de os bancos serem alimentados pelo sector informal em situações de escassez de divisas, que foi levantada à nossa reportagem, por diversos operadores das casas de câmbio de Maputo.
Como não poderia deixar de ser, também o BCI se distancia, de igual forma, deste tipo de ‘proximidade’ com o sector cambista informal, não deixando, ainda, de reconhecer, que “a informalidade do mercado cambial é um tema preocupante da economia nacional”.
A instituição reforça também o papel do Banco de Moçambique, “que tem sido rigoroso na vigilância deste mercado através de decretos que visam as me-
lhores práticas do mercado, a estabilidade cambial do metical e a disponibilidade de divisas”, refere o banco.
bancos vs casas de câmbio. um caso de concorrência desleal?
É a disputa de posições entre quem tem de regular e salvaguardar a estabilidade do mercado e da moeda (o Banco Central), e aqueles para quem fazer negócios e obter lucro (as casas de câmbio) não têm de obedecer às regras do mercado formal.
Desde 2011, a lei geral que proíbe a realização de trocas cambiais com empresas vem sendo criticada pelas casas de câmbio que, à época, argumentaram que não era “justo” que se lhes retirassem o principal grupo de clientes (empresas) a favor dos bancos comerciais, cujo core business, apontavam, é outro (captar poupança e conceder crédito).
Na altura, o Banco Central argumentou
que a medida visava “liberalizar a balança de transacções, controlar a lavagem de fundos e evitar a exportação ilegal de moeda externa fortalecendo assim a balança comercial”. Com o mesmo objectivo, o Banco Central tinha aprovado a limitação da movimentação de contas em divisas superiores 5 mil dólares sem a sua autorização, medida que veio a ser revogada recentemente.
regulação vigorosa
“O Banco Central tem sido muito assíduo em legislar sobre o mercado cambial”, disse o assessor de comunicação da instituição, questionado sobre a fiscalização da informalidade por parte do BM. Instado pela E&M a comentar a reivindicação de um maior espaço no mercado, por parte dos operadores informais, o mesmo responsável aproveitou para anunciar uma resposta mais alargada por parte do Banco Central. Algo que acabou por nunca chegar até ao fecho desta edição.
Verdade é que, do ponto de vista dos regulamentos vigentes, o mercado prevê severas punições para a compra e venda de moeda por entidades não autorizadas, caso dos operadores informais, por exemplo, e nas quantidades e valores contrários aos definidos pelas normas do Banco Central. Pelo que “todas as operações devem estar sujeitas a registo”, algo que, naturalmente, os informais não fazem.
As multas para este conjunto de infracções variam entre os 10 mil e os 100 mil meticais, se o infractor for pessoa singular, ou entre os 40 mil e os 400 mil meticais, se o infractor for pessoa colectiva. Caso este cometa, simultaneamente, mais do que uma contravenção cambial, incorre, assim, num agravamento da multa de 20 mil a 200 mil meticais para pessoas singulares e de 100 mil a um milhão de meticais se o infractor for, por sua vez, pessoa colectiva.
Neste processo, “as autoridades policiais e serviços públicos devem prestar todo o auxílio necessário a uma correcta averiguação e instrução dos processos da competência do Banco de Moçambique”, estabelece a Lei Cambial em vigor.
No entanto, isso parece ainda insuficiente para travar o crescimento da informalidade da compra e venda de dinheiro nas ruas e ruelas da capital.
TexTo Celso Chambisso foTogrAfiA D.R.
Banco de Moçambique tenta regular um mercado cada vez menos controlável
O que esperar até ao fim de 2019?
Nuno Tavares • Director-Geral da REC – Real Estate Consulting, Lda.
com o primeiro trimestre concluído, importa “afinar” aquilo que prevemos que o futuro poderá trazer, continuando a fazer um pouco de futurologia, contribuindo para que as empresas se preparem para as oportunidades e desafios que virão. Testemunhámos durante Março, a Natureza a castigar a zona Centro do país, trazendo morte e destruição a uma grande extensão de território. Estes fenómenos demonstram a fragilidade das nossas organizações na prevenção e resposta e, ao mesmo tempo, os efeitos das mudanças climáticas.
Em Março, o FMI esteve em Moçambique a rever outro tipo de devastação criado pelo processo das dívidas ocultas que acabou por ditar a suspensão de apoio pela comunidade internacional. Em Novembro de 2018, na última avaliação do FMI, regozijámo-nos com o tom aprovador de um desenvolvimento positivo em grande parte das matérias em monitorização. É imperativa uma revisão do actual “status quo” que tem devastado o tecido empresarial, ao nível do emprego, consumo e consequentemente impactado bem-estar social das famílias. É crítico anunciar-se um “Staff Monitored Program” e a Comunidade Internacional mudar a abordagem de utilização da ‘caçadeira’ para impor dor colectiva, por armas de precisão que atingem os (poucos) envolvidos. O que se vê nas províncias são níveis de pobreza alarmantes e uma fraca actividade económica. As infra-estruturas, desde centros de saúde às condições nas estradas, sofrem de ausência de manutenção. A nossa percepção do bem-estar das pessoas e empresas é bem pior do que a reportada nas estatísticas oficiais. No que diz respeito à paz, e contrariamente ao que muitos diziam, a oposição não disparou um único tiro desde o cessar-fogo, mostrando não só maturidade, como também disciplina. Nas nossas expectativas, 2019 será o ano em que as Final Investment Decisions (FID) serão anunciadas tendo como referência Abril e Setembro de 2019. Caso estas previsões se mostrem correctas, teremos a primeira venda do gás em 2023/24. Vamos então agora ver o que a nossa bola de cristal nos mostra para o remanescente de 2019. Com excepção das áreas sociais (educação e saúde) não contamos com grande actividade por parte do Estado por inexistência de fundos para executar os grandes projectos. Dentro desta visão, prevê-se a expansão do princípio “utilizador-pagador”, particularmente ao nível de estradas com portagens e a eliminação de subsídios a alguns produtos e serviços que eventualmente ainda estejam em vigor. A grande
ausência no relatório do Fundo Monetário Internacional sobre Moçambique foi o muito desejado anúncio da retoma de assistência financeira ao País, ficando agora essa possibilidade adiada para 2019 e refém de algumas condições que viremos a saber. Prevemos o início de um processo de privatizações e ou concessões em moldes ainda não conhecidos, podendo ir desde a alienação à abertura de capital a parceiros estratégicos, ou até mesmo à terceirização da gestão. Estarão englobados neste rol a maioria das grandes empresas públicas (energia, transportes, comunicações), mas também as três empresas envolvidas no caso das dívidas soberanas.
Potencialmente associado a este processo, ao lançamento dos projectos de gás e à necessidade de os agentes económicos mobilizarem outras formas de financiamento, prevemos o relançamento da Bolsa de Valores de Moçambique, entidade que deverá durante os próximos anos ganhar destaque nos meios financeiros. Moçambique negociará acordos com todos os detentores da dívida soberana e consequentemente será readmitido aos mercados financeiros internacionais. Resultado disso, anunciará financiamentos concedidos por entidades internacionais para financiar a sua participação nos dois projectos de oil&gas (com valores que representam cerca de cinco vezes o actual PIB nacional). Ao nível financeiro, o câmbio no primeiro trimestre tem sofrido pressão com a procura a exceder a oferta e com o regulador a intervir e a regular a actividade obrigando à constituição de reservas obrigatórias em dólares de 36%. Perspectivamos uma desvalorização suave e gradual de 10% durante o ano. O Estado prevê um mecanismo para liquidar dívidas que tem com as empresas, nomeadamente em torno do reembolso do IVA bem como de obras públicas contratadas, o que será um balão importante para as empresas do sector da construção. Resultado da quebra no consumo das famílias, o retalho permanece em crise, com espaços comerciais a encerrarem a um ritmo alarmante. Os escritórios continuam em desequilíbrio, com oferta significativa por escoar e, ao nível social, não prevemos nenhum programa de construção de habitações em grande escala. Em ano eleitoral, as negociações sobre aumentos salariais para 2019 serão complexas e penalizantes para todos os sectores e um aspecto que o Estado pretenderá realizar cedo no primeiro trimestre para que não seja tema nos manifestos eleitorais. Ainda no tema dos recursos humanos, prevemos uma grande dificuldade na retenção de quadros, caso as FID venham a con-
Ao nível financeiro, os câmbios têm sofrido pressão com a procura a exceder a oferta e com o regulador a intervir e a regular a actividade. Prevemos uma depreciação de 10% até ao fim do ano
firmar-se. As PME moçambicanas terão grande dificuldade em concorrer com o poderio das multinacionais mais bem capitalizadas, dos mais diversos sectores de actividade. O desenvolvimento de estratégias para retenção de talentos vai requerer muita criatividade de todo o tecido empresarial, privado e público. Decisões de investimento que requeiram recurso a financiamento nacional continuarão a ser adiadas por razão de taxas de juro, ainda que em decréscimo, bastante penalizantes. O desenvolvimento imobiliário continuará refém desta política de juros altos, mesmo contando com o influxo expectável de quadros e empresas que se avizinha. O Norte do País, nomeadamente Cabo Delgado, será a locomotiva do desenvolvimento do País, e contamos com os investidores para assegurarem que uma fatia razoável do procurement, ao longo da cadeia de valor, seja adjudicado a MPME nacionais cujo envolvimento será crucial para assegurar que algum knowhow e riqueza sejam retidos em Moçambique. Por um lado, a ausência de “windfall tax”, de concursos públicos de grande dimensão, um ano eleitoral, a dependência da agricultura em factores não controláveis como cheias, seca e pragas, são factores que pesam pela negativa na nossa análise. Por outro, a substituição do Estado como locomotiva da economia pelo sector privado (privatizações, indústrias extractivas e ONG´s a continuarem e a expandirem o trabalho social dos doadores que antes canalizavam fundos para o OE), um Estado menos despesista, a eliminação de factores de interferência nos mercados e o aperfeiçoamento de legislação específica, a instabilidade politica e social na África do Sul impactando positivamente o câmbio, contribuem para uma menor inflação nos custos de produtos de lá importados, e ajudam na retoma do consumo privado doméstico. Depois, o aumento da produção agrícola, pesqueira e de madeiras aliado a descidas nos principais indicadores económicos, a manutenção do crescimento do PIB no mínimo de 4%, a aprovação de legislação sobre Conteúdo Local e os preços dos commodities a mostrarem a continuação de um ciclo sustentável de subidas, são factores que positivamente nos influenciam. Este poderá ser o ano em que saímos colectivamente do fundo do poço e iniciamos a recuperação económica rumo ao boom de 2020-23. O maior desafio do Estado será fazer este potencial passar a realidade e ser inclusivo.
Terminamos com um sopro de esperança, testemunhando que, não obstante as dificuldades existentes, os Moçambicanos têm mostrado uma resiliência sobrenatural e uma solidariedade, quer perante o ciclone Idai, quer perante a ostracização da economia nacional, e têm demonstrado aquilo que é a verdadeira unidade nacional do País.
empresas
Dar créDito ao créDito
Melhorar a qualidade da informação e a transparência no mercado é o objectivo da Compuscan, o primeiro bureau de crédito em Moçambique
um bureau, ou central de registo e análise de crédito, serve para fornecer dados e informações sobre consumidores e empresas, contribuindo dessa forma, através da disponibilização de relatórios, pontuações de crédito, verificações de identidade, avaliações de acessibilidade e de colectas para prever riscos e reduzir fraudes no sistema financeiro. A descrição ajuda a perceber que, sem um mecanismo deste género, dificilmente o mercado poderia ser minimamente desenvolvido. “O rápido e fácil processo de análise de crédito facilitado pelo bureau de crédito incentiva o consumidor a buscar o acesso ao financiamento, o que, por sua vez, contribui para a inclusão financeira, um dos desígnios do país”, explica Lara Cangi, a country manager da Compuscan em Moçambique.
A multinacional de origem sul-africana, criada em 1994 por Remo Lenisa, é a primeira e, até ver, a única autorizada pelo Banco Central a operar em Moçambique. “Este é, digamos, o primeiro passo para passarmos a ter taxas de incumprimento mais reduzidas e, gradualmente, taxas de juro mais baixas” complementa a responsável.
Até agora, esse ónus recaía, quase por inteiro e de forma pouco completa e articulada, no Banco Central, bem como nos próprios bancos que, por isso, não dispunham da possibilidade de cruzar informações com todo o restante sistema financeiro.
“Agora, todos os bancos comerciais e instituições de microfinanças, bem como outros fornecedores de crédito, como telecomunicações, retalhistas, serviços de utilidade pública, seguros, entre outros
players do mercado terão acesso a um mais fiável retrato do país, porque iremos gerar informação relativa aos tomadores de crédito, que permitirá a sua avalição segundo o seu bom e mau comportamento no mercado.”
Uma informação relevante para a construção de históricos e de concessão de garantias de reputação, algo que poderá, depois, produzir efeitos ao nível da diferenciação das taxas de juro, por exemplo, de acordo com o grau de exposição do cliente ou, até, levar à criação de novos serviços de crédito por parte de grandes superfícies, ou de micro-créditos direccionados de curta-duração. “Somos supervisionados pelo Banco Central. Por lei, a banca comercial e as micro-finanças têm a obrigatoriedade de reportar a uma central de registo de crédito e agora ela existe. Não somos ainda capazes de fazer pontuações de crédito (credit rating), porque não temos acesso à informação histórica, que não nos foi concedida pelo Banco Central, mas iremos disponibilizar o acesso aos relatórios de crédito aos bancos e às outras instituições nossas clientes, que podem ver qual é a exposição do cliente, onde ele está a cumprir e incumprir, podendo basear-se nisso para poderem uma análise de raiz na qual conseguem perceber qual a capacidade de endividamento ou a taxa de esforço. Queremos trazer clareza e informação ao mercado e isso é fundamental para desenvolver os serviços de crédito no país.”
BemPresa CompusCan Fundação 1994 número de Funcionários 400 subsidiária CompusCan moçambique sede TeChnopark sTellenbosCh, ÁfriCa do sul
13 mercados
a multinacional de informação de risco de crédito de origem sul-africana criada em 1994 é a primeira e única autorizada pelo Banco Central a operar em moçambique. também está presente na África do sul, uganda, namíbia, etiópia, Lesoto, Botswana, Quénia, Zâmbia, tanzânia, malawi, filipinas, austrália.
texto Paulo manjacaze fotografia jay Garrido
banco Único lança novo cartão crédito
“Alargar e diversificar cada vez mais a sua oferta de cartões, oferecendo soluções e benefícios dirigidos a cada segmento, assim como responder de forma eficaz às necessidades específicas dos seus clientes”. É desta forma que o recente lançamento no mercado de um cartão de crédito designado “Cartão Único Voyager”, do Banco Único, é apresentado. Lançado em parceria com a South African Airways, com duas ofertas, Classic e Gold, o cartão irá permitir aos clientes do banco acumularem milhas em voos pela SAA e nas suas compras do dia-a-dia, em qualquer parte do mundo.
Phc soFtware volta a bater recorde de Facturação
Pelo quarto ano consecutivo, a PHC Software, multinacional portuguesa de desenvolvimento de ferramentas informáticas de gestão, regista uma melhoria na facturação anual.
Trata-se, assim, de um novo recorde fixado em 11,5 milhões de euros, que resultam de um crescimento de 6,3% do volume de vendas. A este respeito, Moçambique, onde a empresa detém uma importante fatia do mercado, é um dos países que sustentam este resultado.
Com presença em Angola, Peru, Espanha, Argélia e Cabo Verde, a PHC está no país há 19 anos e notabilizou-se pelo sucesso da sua operação local e crescimento da sua quota de mercado.
iPeMe e anadarko aliaM-se
na caPacitação das PMe
acordo visa potenciar formação e capacitação do pessoal dos centros de apoio e orientação ao empresário de Maputo e cabo delgado
o acordo firmado entre o Instituto para a Promoção de Pequenas e Médias Empresas (IPEME) e a multinacional Anadarko insere-se no âmbito das acções das duas entidades orientadas para a dinamização e desenvolvimento das Pequenas e Médias Empresas (PME) e do Programa de Desenvolvimento de Fornecedores da Anadarko.
Recorde-se que a petrolífera norte-americana anunciou recentemente um investimento global de cerca de 2,5 mil milhões de dólares em empresas moçambicanas, ao longo dos cinco anos do período de construção da fábrica da GNL, que deverá iniciar-se no próximo ano.
Para o Ministro da Indústria e Comércio, Ragendra de Sousa, “com este memorando espera-se que as partes possam operacionalizar o projecto a curto e médio prazo e que o mesmo esteja orientado para os legítimos benefícios da economia nacional”, disse.
Já Steve Wilson, vice-presidente e director-geral da Anadarko em Moçambique, o documento representa “a continuação do trabalho conjunto entre o governo moçambicano e a Anadarko, por forma a melhor desenvolver as empresas nacionais, de modo a aumentar a sua capacidade e competitividade para aceder às oportunidades do mercado”.
Fábrica da cervejas de MoçaMbique eleita ‘a Melhor de áFrica’
Num universo de 32 fábricas africanas que fazem parte do grupo ABInBev, que lidera o segmento das cervejas a nível mundial, a unidade fabril da CdM de Nampula foi eleita a melhor do continente africano. “O nível do consumo de água, a observação das normas de segurança, a produtividade, qualidade dos produtos e o grau de capacitação dos trabalhadores” foram os critérios que determinaram que a fábrica de Nampula da CdM fosse elevada ao topo na lista das melhores do continente. Actualmente a unidade emprega cerca de 130 trabalhadores e produz a Manica, 2M e Laurentina Preta.
técnica industrial Passa a ser rePresentante da Marca jeeP eM MoçaMbique
O IPEME é uma entidade pública com autonomia financeira e administrativa orientada para a dinamização e desenvolvimento das PME nacionais. Já a Anadarko Moçambique é uma subsidiária integral da Anadarko Petroleum Corporation, operadora da Área 1 Offshore do Rovuma, onde detém uma participação de 26,5%.
A marca Jeep, nos seus vários segmentos SUV, onde se destacam os modelos Renegade, Compass, Cherokee, Wrangler e Grand Cherokee, passou a ser representada exclusivamente em Moçambique pela Técnica Industrial. Com a entrada da Jeep, a Técnica Industrial, detida pelo Grupo João Ferreira dos Santos (JFS), complementa a sua gama de marcas representadas e que abrangem os vários segmentos, desde ligeiros aos SUV, passando também pelas viaturas comerciais, pick up e camiões, através das outras marcas representadas, como a Alfa Romeo, Mitsubishi e Fuso.
Mudar a face do desporto autoMóvel eM MoçaMbique
rodrigo rocha
Advogado e presidente do Automóvel e Touring Clube de Moçambique
é o típico caso em que, é justo dizer, se junta a fome com a vontade... de correr. Será consensual que o desporto automóvel, com um trajecto feito de paixão e tradição há já largas décadas no país, parecia estar ‘em ponto morto’. E é por isso que o último acto eleitoral no Automóvel Touring Clube de Moçambique (ATCM) ganhou relevância, após quase duas décadas de mandato da direcção cessante. Venceu Rodrigo Rocha (obteve 142 votos, contra 109 do seu oponente, Ricco Alibai), um conhecido advogado, reconhecido também como um apaixonado pelos automóveis. À E&M, ele explica o projecto que, ao longo dos próximos quatro anos, quer levar até ao fim, para restaurar a credibilidade do desporto motorizado no país.
Quais são os objectivos desta nova direcção?
O ATCM é um clube com mais de 70 anos de existência. Toda a gente diz que o desporto automóvel é um desporto de elite, mas qualquer um levado a sério o é, até o xadrez. Durante anos, tivemos no clube uma gestão muito particular... até que chegámos ao ponto de querer fazer mais. Em poucos dias de mandato, criámos condições para que quem esteja a correr nas vias públicas possa fazê-lo na pista, em segurança, e já organizámos quatro eventos desportivos.
O desporto motorizado é caro. Como pretende alargar a base de associados, e massificar a sua prática?
Vamos apostar numa lógica de aproximação do desporto com os pilotos e todos os agentes do mercado. Se olharmos para as modalidades que atraem mais adeptos, como o drift ou o drag racing, uma das questões que nos tinham pedido era que fosse instalada uma máquina de mudar pneus. Arranjámos um patrocínio da Trentyre Moçambique que colocou cá esse serviço e opera-o sem custos para o clube. Estamos nessa fase, de procurar sponsors que possam disponibilizar combustíveis a valores mais baixos e que forneçam óleos e combustíveis na própria pista.
O que vai mudar no calendário?
Vamos integrar os campeonatos nacionais de todas as modalidades motorizadas, bem como daquelas em que ainda não existe campeonato, porque só aqui é que existem condições para serem realizadas. Depois, a aposta em troféus monomarca, como o que foi recentemente lançado com a Kia, o Picanto Cup, que se irá realizar este ano. Queremos ainda começar uma modalidade nova em Moçambique, o Rally Cross, em que as viaturas têm de fazer quatro voltas em dois pisos diferentes. Vai haver muitas pro-
(ATCM)
cvcurriculum vitae
rodrigo ferreira rocha é um conhecido advogado, especializado em Direito do Consumidor e energia, Petróleo e gás. em outubro de 2012, torna-se sócio da Abreu Advogados. em Janeiro deste ano assumiu a presidência do AtCM.
ATCM
vas a realizarem-se no nosso autódromo que já está pronto e estamos a tentar requalificar algumas das construções que aqui foram feitas e que atentam contra a integridade da própria pista. Temos aqui muita terra, mas não significa que ela esteja disponível. Saindo um pouco da parte do desporto, a forma como foi esquartejado o património do clube e a própria gestão era complicada... É por isso que estamos em auditorias às contas, que não eram aprovadas pelos associados há já alguns anos.
Está a falar de lotes alienados pela anterior direcção? Exactamente. Esta localização, em plena Costa do Sol, é
valiosa. Há várias pessoas ilustres que só por terem sido membros do governo ficaram com lotes, incluindo alguns que, pela forma e locais como estão atribuídos, nem sequer permitem acesso à via pública, a não ser passando por cima da pista, algo que não iremos nunca permitir. Aliás, temos um muro aqui à frente, com um portão virado para a pista que pertence ao senhor Manuel Chang.
Ao nível da receita e do investimento, qual é o plano?
O Baía Mall é um empreendimento do qual detemos 80% do capital (o Autódromo, o Baía Mall e o Hotel pertencem à AGIL, que tem a sua estrutura societária com 80% do capital obtido pelo ATCM).
No Baía temos duas lojas que estão arrendadas, a bomba de gasolina que está junto ao hotel e hospedamos três antenas de telecomunicações, embora com algum incumprimento de duas delas que já levaram à rescisão do contrato. Por algum motivo escolheram um advogado para estar aqui. Quando não há cumprimento reiterado de um contrato ele será rescindido com as consequências necessárias.
Ao nível dos associados, como está a situação? Temos hoje 866 sócios dos quais 250 são pagantes. A mudança começa de cima, e temos de criar condições no autódromo e levar o ATCM a desempenhar um papel de promoção do desporto e da segurança rodoviária. Pensamos trilhar um caminho similar ao de um ACP em Portugal, com seguros específicos para automobilistas e vantagens para os associados. Tenciono aproximar o clube dos sócios, para conseguirmos mudar a face do desporto automóvel em Moçambique.
texto Pedro Cativelos fotogrAfiA Jay Garrido
“Criámos
condições para que quem esteja a correr nas vias públicas possa fazê-lo na pista”
Mudar
sociedade
Videojogos,
o nascimento de uma um noVa indústria africana
Estão a surgir inúmeras pequenas empresas dedicadas ao desenvolvimento de videojogos, especialmente na Tunísia, Egipto, África do Sul, Nigéria, Gana e Quénia.
E algumas delas estão mesmo posicionar-se num mercado global que já movimenta 140 mil milhões de dólares anualmente, mais do que o do cinema
ainda adolescente, o sonho de Madiba Guillaume Olivier era mudar-se dos Camarões (seu país natal) para a Europa ou os Estados Unidos. Apaixonado pelos videojogos, Madiba queria transformar essa paixão numa carreira profissional. O seu pai tinha uma pequena loja de aluguer de videos e foi aí que começou a desenvolver um intenso interesse pelos videojogos.
Enquanto esperava que essa oportunidade de emigrar se materializasse, Madiba começou a dedicar muitas horas do seu dia a tentar aprender as noções básicas do design de videojogos na internet. Quando entrou, em 2003, para a universidade de Yaoundé, na capital dos Camarões, onde foi estudar ciências da computação, Madiba conheceu alguns outros jovens que, como ele, partilhavam a sua paixão e, juntos, começaram a desenvolver um projecto de videojogo a que chamaram Aurion: Legacy of the Kori-Odan. A trama do jogo girava em torno da fi-
milhões de dólares o mercado dos videojogos em África passou de 105 milhões de dólares, em 2014, para 570 milhões. ainda pouco, numa indústria global que vale 140 mil milhões, mas um crescimento assinalÁvel, em apenas quatro anos
gura do príncipe Enzo e da sua noiva os quais, depois de terem sido traídos por um familiar, tentam recuperar o poder perdido no seu planeta Auriona. Uma vez terminados os estudos e enquanto trabalhavam já como webdesigners, Madiba e os seus amigos continuaram a desenvolver o projecto: melhorando a história, adquirindo novas competências em termos de game design e de interacção por forma a conseguirem chegar a um produto suficientemente robusto para ser lançado no mercado. Madiba acabou por nunca saír dos Camarões. Em 2011, depois de inúmeras revisões e mudanças ao guião original, ele e os seus amigos, acabaram por lançar o jogo no mercado local.
um novo mercado no continente Dois anos depois, e perante um enorme e inesperado sucesso, fundaram a sua própria empresa, a Kiro’o Games, o primeiro estúdio camaronês inteiramen-
sociedade
te dedicado à produção de videojogos. Convictos de que havia um mercado para videojogos com um conteúdo inteiramente africano, isto é, cujas histórias assentavam em mitos e lendas tradicionais, mas às quais era incorporado um registo gráfico inovador e uma dinâmica contemporânea, lançaram, em 2016, uma campanha de crowdfunding, através da plataforma Kickstarter e, deste modo, conseguiram lançar Aurion: Legacy of the Kori-Odan no mercado internacional através da Steam, uma plataforma de distribuição global.
Este lançamento deu à Kiro’o Games enorme projecção internacional sendo hoje considerada uma referência na emergente indústria dos videojogos em África. Refira-se que, logo em 2017, Madiba Guillaume Olivier foi nomeado para integrar a lista das personalidades mais inovadoras do continente pela publicação norte-americana Quartz aquando da sua conferência anual Africa Innovators.
Neste momento, a Kiro’o Games é uma equipa constituída por 18 pessoas (artistas e programadores) e pretende posicionar-se como uma plataforma criativa capaz de desenvolver, para além de videojogos, bandas desenhadas e filmes. O sucesso da Kiro’o Games não é um caso único no continente e a edição de 2018 do festival FEJA (Festival de l’Électronique et du Jeu vidéo d’Abidjan), que decorreu no passado mês de Novembro em Abidjan (Costa do Marfim), foi um indicador interessante do crescimento e da diversificação da indústria dos videojogos no continente africano.
Mesmo se há quem questione a existência de uma verdadeira indústria de videojogos em África ninguém contesta o facto de que, ao longo da última década, se deu um salto significativo nessa direcção.
Surgiram inúmeras pequenas empresas dedicadas ao desenvolvimento de videojogos – especialmente na Tunísia, no Egipto, na África do Sul, na Nigéria, no Gana e no Quénia – sendo que algumas destas conseguiram mesmo posicionar-se já no mercado internacional, e grandes feiras como a FEJA ou a Africa Games Week, em Cape Town, na África do Sul, têm sido um sucesso não apenas em termos de público mas também pela capacidade que têm demonstrado em atraír programadores de todo o continente interessados em envolver-se neste novo sector e, de forma talvez mais decisiva, têm visto aumentar nos seus
A nível mundial, o consumo de jogos através do telemóvel está em crescimento acelerado. O “mobile gaming” já ultrapassou os 70 mil milhões de dólares, mais de metade do mercado mundial
eventos a presença de grandes players internacionais como, por exemplo, a Ubisoft. Esta nova realidade foi particularmente evidente na edição do FEJA 2018 onde estúdios independentes como o Masseka Game Studio (República Centro Africana), o Studio Lomay (Madagáscar), o Mog Media Design (Níger), o Weza Interctive (Quénia) e o Frontfire (Algéria) despertaram de tal forma o interesse dos participantes internacionais que acabaram por marcar presença em certames de primeiro plano como a Paris Game Week (França) ou a Gamescom em Colónia (Alemanha). A Paradise Games, a entida-
de que organiza o FEJA, tem tido, aliás, um papel muito importante neste processo de internacionalização pois é uma das plataformas mais activas no desenvolvimento da indústria dos videojogos em África. Apesar de, como refere Sidick Bakayoko, da Paradise Games, não existir ainda um “modelo de negócio” claro para o desenvolvimento desta indústria no contexto africano, a aposta da maior parte das empresas tem sido investir em jogos para telemóveis e tablets. O que não surpreende se atendermos ao facto de que a penetração dos smartphones em África é uma das mais eleva-
África ultrapassou a fase da computação e abraçou rapidamete o mobile
das do mundo e foi também no continente que surgiram meios de pagamento electrónico como o M-Pesa. Recorde-se que, em apenas dois anos, entre 2014 e 2016, o número de smartphones em África duplicou, atingindo hoje os 226 milhões de pessoas conectadas, ao mesmo tempo que os preços baixaram, em média, dos 230 dólares para os 150 dólares. Um estudo recente da Pew Research indicava, por exemplo, que 89% da população na África do Sul tinha um telemóvel, uma percentagem praticamente idêntica à dos Estados Unidos, e que países como a Tanzânia estão já perto dessa taxa de penetração (73%).
o impacto dos telemóveis
Estes indicadores mostram como o crescimento acelerado da utilização de telemóveis tem tido um impacto sig-
nificativo no consumo de videojogos. De acordo com Serge Thiam, responsável da Stay Connect, em 2014, havia em África 23 milhões de consumidores de videojogos (de todas as proveniências). Em 2018, esse número de “jogadores” atingia já os 500 milhões. “Há efectivamente aqui um enorme potencial porque em África os telemóveis ocupam um papel central e decisivo na vida das pessoas – acrescenta Sidick Bakayoko – e, portanto, não faz muito sentido estar a desenvolver jogos para consolas ou computadores”. Convém sublinhar que, a nível mundial, o consumo de jogos através do telemóvel está em crescimento acelerado. Segundo os últimos indicadores, relativos a 2018, o mercado do “mobile gaming” ultrapassou os 70 mil milhões de dólares, o que representa mais de metade do actual mercado dos videojogos em termos globais.
A tendência é, de acordo com vários estudos, nomeadamente da Newzoo, que os smartphones venham mesmo a tornar-se na plataforma de eleição para o consumo de videojogos ultrapassando as consolas e os computadores.
Mais uma razão, portanto, para pensar que o continente estará bem posicionado (se certas condições se materializarem) para ocupar um lugar destacado, a prazo, no mercado global.
mercado local com expansão global
Ainda de acordo com a Stay Connect, no mesmo período de quatro anos (20142018), o mercado dos videojogos em África passou dos 105 milhões de dólares para os 570 milhões.
Estes valores não incluem, por exemplo, as vendas de hardware pelo que Serge Thiam calcula que o mercado africano, considerado em termos globais, poderá representar, actualmente, algo como mil milhões de dólares. Ora, este número, apesar de relevante, significa ainda muito pouco em termos globais. A indústria global dos videojogos atingiu, em 2018, os 140 mil milhões de dólares, ultrapassando, assim, a indústria cinematográfica (100 mil milhões de dólares). Por isso, para a Stay Connect (como para outros analistas), para o continente conseguir entrar, a sério, neste mercado mundial, existem ainda muitos constrangimentos que têm de ser ultrapassados.
Em primeiro lugar, as ligações à internet continuam, de um modo geral, a ser penosamente lentas, pouco confiáveis e os custos de utilização da banda larga proibitivos. Outro factor de constrangimento
é o custo excessivamente elevado do hardware, o que torna a vida dos programadores muito difícil e complicada. A um outro nível, o enquadramento jurídico, sobretudo no que toca às questões da propriedade intelectual e do copyright, é desadequado ou inexistente deixando as empresas vulneráveis a todo o tipo de práticas predatórias. Mas um dos pontos mais críticos é a falta de investimento na formação de recursos humanos. O talento existe, o potencial é enorme (basta lembrar que um quinto da população no continente está na faixa dos 15-24 anos), mas a maior parte dos governos parece não ter ainda compreendido que este é um sector que pode gerar milhões de empregos e representar uma “porta de entrada” na nova economia do conhecimento.
faltam pessoas qualificadas para crescer mais Como dizia Wilfried Ouonouan, um game designer costa-marfinense que faz parte do estúdio Work’d, baseado em Abidjan, e que esteve presente no FEJA, “nós aprendemos a desenvolver videojogos através do You Tube e da internet. E criámos a nossa empresa graças ao YouTube. Hoje precisamos de crescer, enquanto empresa, para poder entrar no mercado global, mas lutamos, deseperadamente com a falta de pessoas qualificadas”. Esta é uma queixa generalizada. Em alguns casos, como o da Kiro’o Games, devido ao seu sucesso internacional, a opção, face às necessidades de crescimento, foi desenvolver os seus próprios programas de formação para conseguir incorporar novos talentos. Mas nem todos têm esta capacidade. Como nota Sidick Bakayoko, da Paradise Games, referindo-se ao contexto da Costa do Marfim, “estamos naquela situação típica do ovo e da galinha: os responsáveis governamentais querem que demonstremos primeiro que este é um sector que está a funcionar e tem potencial e, portanto, não investe; como não investe, temos de procurar fundos, por nós próprios, o que é um processo lento e envolve um investimento da nossa parte. Depois, como nem sempre dispomos dessa capacidade para ir procurar fundos também não conseguimos demostrar que o sector tem potencial.” Um jogo difícil de vencer, mas que está a ser jogado por todo o continente.
texto Rui TRindade fotografia d.R.
LÁ FORA alertas para salvar o planeta e a humanidade
Receia-se que até ao final do século a temperatura global aumente mais de três graus, caso se mantenha a tendência actual de subida. Em África, aumenta a frequência de catástrofes naturais que afectam as principais fontes de subsistência das populações, como aconteceu recentemente na Beira, enquanto na Europa se trava a luta contra as emissões de CO2
O discursO da salvaçãO do planeta e da humanidade pode parecer religioso e uma mera divagação sobre questões sobrenaturais, mas, na verdade, tem tudo a ver com a realidade.
No seu último relatório “Living Planet”, o Fundo Mundial para a Natureza (WWF, da sigla em inglês) afirma que o planeta se encontra hoje numa encruzilhada, mas, felizmente, nunca antes houve tantas ferramentas ao nosso dispor para decidirmos que caminho seguir.
Na nota introdutória do relatório, o director-geral da WWF Internacional, Marco Lambertini, recorda que, conscientemente, há muitos anos que se tem explorado o planeta ao limite e cita como exemplo “o surpreendente declínio nas populações de animais selvagens” em 60% nos últimos de 40 anos. “É um lembrete sombrio e talvez o indicador final da pressão que exercemos no planeta”, defende, acrescentando que “a ciência nunca tinha sido tão clara sobre as consequências do impacto das acções do homem no ambiente” como actualmente, mas, felizmente, também nunca tinha havido “mais consciencialização nem investimento tão rápido para encontrar soluções. Hoje, temos o conhecimento e os meios para redefinir o nosso relacionamento com o planeta”. O relatório “Living Planet 2018”, lançado no final do ano passado, cita a reflexão do pesquisador Max Roser, da Universidade de Oxford, que alerta que desde 1800 a população mundial cresceu sete vezes, ultrapassando os 7,6 bilhões, mas a economia global cresceu 30 vezes mais. “Foi realmente nos últimos 50 anos que o desenvolvimento económico impulsionou um aumento fenomenal na demanda por energia, água, terra e petróleo, o que está a mudar fundamentalmente o comportamento da Terra”, lê-se no documento, que esclarece, entretanto, que o aumento da procura por recursos naturais não se deve à ascensão da população mundial em si, mas sim ao desenvolvimento económico e ao crescimento das classes médias. “Este crescimento melhorou a vida de bilhões de pessoas. A expectativa de vida média global é de mais de 70 anos. Doenças como a varíola foram erradicadas, mais crianças atingem a idade adulta e menos mulheres morrem durante o parto. A pobreza está num mínimo histórico”, aponta o relatório, de acordo com o qual “essas melhorias exponenciais de saúde, conhecimento e padrão de vida têm um custo enorme para a estabilidade dos sistemas naturais que nos sustentam”. Ou seja, “o impacto do homem na natureza
atingiu agora uma escala que interfere profundamente com a biodiversidade”. O relatório “Living Planet” revela que as emissões de gases de efeito estufa aumentaram em taxas alarmantes e em Abril de 2018, os níveis de dióxido de carbono na atmosfera atingiram uma média de 410 ppm (partes por milhão) durante todo o mês, representando o nível mais alto em pelo menos 800 mil anos.
Acima da Antártida, foi descoberto em 1985 que os produtos químicos fabricados haviam criado um vasto buraco na camada de ozono. Mais: quase 20% da Amazónia, conhecida como o pulmão do Planeta, desapareceu em apenas 50 anos.
oportunidade única
De acordo com pesquisas, mais de 8.500 espécies de animais e vegetais são ameaçadas de extinção devido, entre outras causas, à exploração excessiva da natureza e à prática de agricultura. Entretanto, além destes dois factores, as espécies invasoras são mais uma ameaça frequente à sobrevivência de outras. Mas a poluição e a perturbação, provenientes dos incêndios, da exploração agrícola, hidráulica e mineira, são fontes adicionais de pressão. “A mudança climática desempenha um papel crescente e já começa a ter um efeito em ecossistemas, espécies e até mesmo no nível genético destas”, atesta o relatório que mostra, entretanto, que a acção do homem se afigura como um dos “grandes assassinos” da biodiversidade. Ou seja, a exploração excessiva de recursos naturais e a agricultura em constante expansão são impulsionadas pelo consumo humano em espiral. “Nos últimos 50 anos, a nossa Pegada Ecológica – uma medida do nosso consumo de recursos naturais – aumentou cerca de 190%. A criação de um sistema mais sustentável exigirá grandes mudanças nas actividades de produção, abastecimento e consumo humano. Para isso, precisamos de uma compreensão detalhada de como esses componentes complexos se conectam”, lê-se. Para o director da WWF Internacional, a agenda de conservação da natureza não consiste apenas em garantir o futuro das espécies em extinção, mas sim a continuidade da humanidade. “A vida quotidiana, saúde e meios de subsistência dependem de um planeta saudável. Não pode haver um futuro saudável, feliz e próspero para as pessoas num planeta com um clima desestabilizado, oceanos e rios esgotados, terras degradadas e florestas vazias, todas
EmissõEs dE CO2 Em alta
As emissões de dióxido de carbono (CO2) aumentaram pela primeira vez em quatro anos, de acordo com dados avançados em Novembro passado pelas Nações Unidas, em Paris (França). Se a tendência actual persistir, a temperatura global pode vir a aumentar mais de três graus até ao final do século.
O estudo mostra que os esforços que estão a ser feitos a nível mundial para mitigar as alterações climáticas estão longe das metas definidas. As emissões globais de CO2 atingiram níveis históricos de 53,5 gigatoneladas de gás carbónico equivalente e os cientistas alertam que a temperatura global pode subir pelo menos três graus Celsius até ao fim do século.
Depois de as emissões globais de CO2 terem estabilizado entre 2014 e 2016, o documento aponta agora para o crescimento económico como principal causa da sua subida em 1,2%, em 2017. Para ir ao encontro dos objectivos previstos no Acordo de Paris, os países devem triplicar os esforços para manter o aquecimento global até 2030 abaixo de dois graus Celsius ou quintuplicar as acções para limitar o aumento da temperatura abaixo de 1,5 graus. Apenas 57 países, que representam 60% das emissões globais, estão no caminho para atingir a meta em 2030, informa o documento da ONU, que teve em consideração as medidas que
60%
é quanto decresceu a população das espécies animais e vegetais, entre 1970 e 2014.
a américa central e do sul registaram um declínio ainda mais dramático, com uma perda de 89% desde 1970
os mais de 190 países-membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima apresentaram nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), como resultado do Acordo de Paris, assinado em 2015. No âmbito deste Acordo, cada nação estabeleceu um compromisso diferente de redução das emissões de CO2, com metodologias variadas de acordo com a sua realidade. Ao lado da China e do Japão, o Brasil é citado no relatório como um dos três países integrantes do G20 cuja meta prevê que até 2030 a redução das emissões de gases de efeito de estufa seja de 43%, atingindo, assim, as metas definidas para 2030. Já a Austrália, a Argentina, o Canadá, o Reino Unido, os EUA, a Coreia do Sul, a Arábia Saudita e a África do Sul são países aos quais a ONU “aponta o dedo” por não estarem a cumprir aquilo a que se propuseram. O relatório da ONU projecta ainda que a mitigação das mudanças climáticas possa ser reduzida com a revisão das acções no sector privado e o aproveitamento máximo do potencial de inovação e financiamento sustentável. Além disso, é sugerido aos governos que adoptem políticas fiscais de subsídio a alternativas de baixa emissão de carbono e que elevem as taxas ao uso de combustíveis fósseis, de modo a estimular investimentos no sector de energia e reduzir as emissões de CO2.
desprovidas de biodiversidade, a teia da vida que nos sustenta a todos”, defendeu Marco Lambertini.
declínio ambiental afecta, e de que maneira, o crescimento económico
O Fundo Mundial para a Natureza entende que toda a actividade económica depende, em última análise, dos serviços prestados pela natureza, estimados em cerca de 125 triliões de dólares por ano.
Para a ONG, à medida que se compreende melhor a dependência humana dos sistemas naturais, fica claro que a protecção e conservação da natureza não são apenas uma “boa ideia”, mas sim uma necessidade.
Para WWF Internacional, a solução está na mudança de paradigma de consumo. “Embora a mudança climática seja uma
LÁ FORA
dEsEnvOlvimEntO vs amBiEntE
Os dados revelados no relatório “Living Planet”, do WWF, deixam bem claro que foi sobretudo nos últimos 50 anos que “o desenvolvimento económico impulsionou um aumento fenomenal na demanda por energia, água, terra e petróleo, o que está a mudar fundamentalmente o comportamento da Terra”.
Bio diversidade está seriamente ameaçada
nívEis dióxidO
dE CaRBOnO (CO₂)
Concentração
% de redução das principais espécies
ameaça crescente, os principais propulsores do declínio da biodiversidade continuam a ser a exploração excessiva das espécies, a agricultura e conversão de terras”, defende a organização. Actualmente, a questão das alterações climáticas assume um lugar de destaque na agenda política internacional, em função do impacto que vários fenómenos naturais têm tido na economia global. Em África, onde a população depende em larga escala da agricultura, pesca e floresta, assiste-se a um crescente número de vítimas de secas ou inundações, o que, segundo o especialista, afasta ainda mais as soluções possíveis para a segurança alimentar no continente.
O climatologista do Grupo de Análise do Sistema Climático da Universidade da Cidade do Cabo (África do Sul), Peter Johnston, considera que a segurança alimentar é a grande questão futura, tanto mais que muitos governos não têm dinheiro para importar alimentos em quantidade suficiente para as populações quando as colheitas falham.
Numa entrevista à Deutsche Welle, agência noticiosa alemã, concedida no final do ano passado, o especialista afirmava que as temperaturas elevadas “são, de facto, uma grave ameaça, sobretudo,
para o rendimento das colheitas”, disse. Recorde-se que, em 2017, os eventos climáticos extremos resultaram em consequências dispendiosas para os países.
Moçambique é, de resto, um exemplo desta mudança que traz, consigo novos fenómenos climatéricos extremos a regiões em que eles não eram, de todo, habituais. Como se comprova pela catástrofe do mês passado na Beira, após a passagem do ciclone Idai, que deixou um rasto de centenas de mortos, e milhões de dólares de prejuízos, ainda por contabilizar na sua totalidade.
Dos dez desastres naturais que causaram o maior número de mortos no primeiro semestre desse ano, oito envolveram deslizamentos de terras.
De resto, as temperaturas cada vez mais elevadas e outras ameaças relacionadas com o clima foram também a principal causa de deslocações, com os últimos dados a mostrarem que 76% das 31,1 milhões de pessoas deslocadas ao longo de 2016 foram obrigadas a abandonar as suas casas em consequência de eventos relacionados com o clima.
TExTO SebaStião vemba
FOTOGRAFiA iStockphoto
Valores em milhares de milhões
NOVOS ÂNGULOS
O Barco do Amor
Pedro Cativelos • Director Executivo da Economia & Mercado
dizem-nos as notícias que Março foi um mês desgraçado. Na Beira, todos fomos sabendo o que se passou. Continuamos a descobrir, e a redescobrir, diariamente. Na medida desmedida dos números que se avolumam, baptizados com os nomes de pessoas que se perderam no vendaval mais do que esperado. Mas que, ainda assim, não foi contrariado. Essas contas serão para mais tarde multiplicar, porque há ainda demasiadas vidas para salvar, enquanto escrevo. E é aí que o esforço deverá recair, por dias, semanas e meses. Moçambique voltou a ser notícia, cá dentro e lá por fora. E Sofala, a Província com a capital na Beira, o lugar que se tornou manchete de sites, revistas e jornais, e abertura de noticiários. Por todos os lugares em que há gente que gosta de outra gente, e ainda são muitos, as notícias foram levadas pelo vento, e trouxeram a ajuda em forma de lamento. Mas de esperança também. O Brasil enviou dois aviões com ajuda, equipas de resgate e salvamento. A América, onde mora Trump mas também boa gente, também o fez, enviando 3,4 milhões de dólares de ajuda humanitária. E Portugal, África do Sul, Angola, Índia e tantos outros que se juntaram aos beirenses, num abraço próximo, estando ali para os ajudar a reerguer. Mas não foi só o mundo que o fez. Moçambique também se ajudou. E se um país são as suas gentes, ele, este país, será hoje bem maior do que algum dia foi.
E três dias e noites longas, no Porto de Maputo comprovam-no. Foi ali, na Baixa da capital, para onde a ajuda foi desaguando, em litros de água, quilos de farinha e arroz,
paletes de sabão, óleos, fraldas, sumos. Ela veio de mercados e supermercados, de gente que é só gente, de empresas que são só isso mesmo. Mais umas para ajudar e que, só por isso, acabaram por se tornar mais do que só isso. Perto de duas mil toneladas formaram uma montanha de bondade no Porto da capital, enchendo dois armazéns. Lá fora, um navio em espera. O objectivo eram 50 contentores, que se deveriam pôr ao caminho, por via marítima, ao longo dos três dias que se seguiriam, com destino à Beira. Faltavam braços, pernas. Mas nunca chegaram a faltar. Porque ao longo dessas 72 horas, mais de mil pessoas iguais a nós ali estiveram. Na parede, logo à entrada, a lista de quem assinou presença. Ossemanes, Joões, Julies, Bubacares, Naydas e Augustos, lia-se. De todas as cores, idades, identidades, via-se. Juntos, a desfazer sacos pesados, empurrando paletes, empunhando quilogramas de força e vontade de fazer a diferença, transpirando coisas boas, num arrepio colectivo que vemos pouco, e quase só quando o mundo nos castiga.
Mas que vemos, ainda. O barco que levava o amor de certas gentes por outras tantas gentes iguais lá zarpou com 74 contentores.
E chegou à Beira no tempo previsto.
Terá feito alguma diferença. Porque para deter a força imparável de um vendaval, nada mais pode haver do que a onda gigante de um povo que quer ser maior do que si próprio. Uma vaga sem cor, nem idade, nem credo, feita de vontade pura de voltar a ser o que se é, afinal. Humano.
O barco que levava o amor de certas gentes por outras tantas gentes iguais lá zarpou com 74 contentores. E chegou à Beira. Terá feito alguma diferença
ócio
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Nesta edição, visitamos a Reserva Especial de Maputo
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O Shawarma Show, em Maputo, leva-nos pelos sabores do Líbano
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(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio
A escolha da Adega recai na nova vaga de bourbons americanos
ReseRva especial de Maputo
eReserva especial de Maputo
o Reino dos aniMais
junto ao Índico
o verde intenso e perfumado de humidade da floresta e o chilrear de centenas de pássaros faz-nos acreditar que entrámos no reino dos animais. Estamos na Reserva Especial de Maputo, a escassos quilómetros da capital. Os eucaliptos partidos, há pouco, dizem-nos que há elefantes por perto. O nosso guia, conhecido por “pai dos bichos”, Rodolfo Cumbane, conduz devagar. “Estão ali, e têm uma cria que deve ter dias”, alerta. Era uma manada de elefantes, um deles avançou ligeiramente. Ficámos a saber que mostram agressividade quando há crias. “Se estiverem sozinhos são mais controlados, mas daqui podemos observá-los sem perigo”, recomenda. Também nos confidenciou que estes enormes bichos têm uma mania muito peculiar: coçam as costas nas árvores. E de facto encontrámos algumas sem qualquer vestígio de ramos, até uma altura de mais de dois metros. “É muito engraçado ver um
animal tão feliz, até ri, estou aqui há 32 anos, já vi muito, mas isto que os elefantes fazem é bem divertido”, conta Rodolfo a rir.
Deixámos os elefantes e entrámos numa planície dourada. Por entre as poucas árvores, e quase camuflada, caminha em passo majestoso, mais uma família. São girafas. Olham-nos calmamente e decidem avançar um pouco. Ficamos a observá-las, enquanto o nosso guia nos diz: “A Reserva tem cada vez mais animais jovens e isso é bom”. Mais uns quilómetros e mais animais, desta vez o Boi-cavalo, são muitos e fazem poeira. Na continuação da viagem, quase sempre acompanhados por cabritos vermelhos e algumas impalas, encontrámos inúmeras lagoas. As maiores abrigavam centenas de variados pássaros, hipopótamos e crocodilos. À nossa passagem, as aves voam em bando, enquanto os outros continuaram pachorrentos e indiferentes à nossa presen-
ça. “Podemos avançar a pé e ver mais perto. Há mais crocodilos mas eles são matreiros, ficam quietos, parecem pedras”, explica o “pai dos bichos”.
Depois de tanto verde, descemos uma duna. Chegamos a uma praia onde os nossos olhos não conseguem alcançar o fim. Aqui apetece fazer tudo menos ir embora. Apetece rebolar na areia fofa até à água azul e ficar na conversa com as ondas. Também é possível pernoitar na reserva. Em Dezembro, inaugurou o lodge Anvil Bay, em Ponta Chemucane, com várias casinhas espalhadas pela enseada. O Anvil Bay, que quer dizer “árvore do bem”, é uma parceria entre um privado e a comunidade, até agora o único negócio com estas características no país. Com a lua no caminho e depois dos animais irem dormir, ficámos a saber que a reserva existe desde 1932 e será para sempre conhecida como a reserva dos elefantes.
tExtO Cristina Freire
fOtOgRAfiA Mauro Pinto
poR entRe as poucas áRvoRes, e quase caMuflada, caMinha eM passo Majestoso, Mais uMa faMÍlia de giRafas
CoMo ir
Vindo da fronteira de Ressano garcia, siga pela EN4 até ao Shoprite, entre à sua direita na EN2 até Boane e depois siga em direcção à Ponta do Ouro. A partir daí, prepare-se para viver uma aventura emocionante, atravessando a ponte sobre o rio Umbelúzi, junto da linha férrea, de onde se podem avistar as populações a lavar roupa, a nadar ou a cultivar as suas machambas. Vastas áreas de floresta natural e belas paisagens serão uma constante companhia ao longo dos 134 Km de estrada, com uma duração de aproximadamente 3 horas. goze estes momentos ao ritmo da natureza. Da Katembe para a Reserva distam 80 Km, cerca de 50 minutos. A estrada dentro da Reserva inclui troços de terra batida e outros de solo bastante arenoso. Recomenda-se a utilização de veículos 4×4.
onde dorMir
Junto à costa, existem locais de alojamento para acolher visitantes que podem juntar o gosto pela fauna e o mergulho.
RoteiRo
Rua Armando Tivane (entre a 24 de Julho e a Sekou Touré)
+258 841 002 001
o shawarma show abriu recentemente as suas portas, bem no centro da cidade de Maputo, e a sua proposta, assente na culinária libanesa, é uma excelente introdução às tradições gastronómicas daquele país. O espaço é amplo, agradável e acolhedor, o atendimento não desmerece e o menu é extenso e variado. A culinária libanesa é uma das mais famosas e populares em todo o mundo. Isso deve-se, em grande parte, ao contexto que marcou a história do Médio Oriente entre os séculos XVI e XX, nomeadamente à influência que os povos mediterrâneos e europeus exerceram na antiga Fenícia, actual Líbano.
A miscigenação cultural regional ocorrida nesta época contribuiu para o surgimento de uma gastronomia rica e singular que se difundiu, com grande sucesso, não apenas por todo o Oriente mas também pelo Ocidente. Assim, e de forma muito resu-
shawaRMa show
mida, podemos dizer, a título de exemplo, que dos turcos foram herdados o gosto e o uso do azeite, dos pães, dos vegetais recheados, das frutas secas e da coalhada, e que do período marcado pela presença francesa resultou a adopção de vários pratos franceses.
A culinária libanesa é repleta de aromas, temperos, especiarias e ervas, frutas, verduras e legumes frescos, conservas, azeite, trigo, lentilhas, açafrão, canela, gergelim, pimenta, cravo, noz-moscada, cominho, paprica, coentro, cebolinho, salsa e hortelã.
Num típico almoço ou jantar libanês, seja em casa ou em restaurantes, começa-se sempre pelo tradicional “mezze” (entrada). “Mezze”, apesar do acento francês da palavra, vem da expressão árabe “alloumaza”, aquilo que é de-
a culináRia libanesa é Repleta de aRoMas, teMpeRos, especiaRias, eRvas, fRutos, veRduRas e leguMes fRescos
delÍcias libanesas eM Maputo
gustado e saboreado delicadamente com a ponta dos lábios, e consiste em várias porções de conservas e iguarias servidas em pequenos pratos.
Ao tradicional “mezze” seguem-se, geralmente, as saladas como a Tabouleh ou a Fattouch. Tanto a Tabouleh como Fattouch são preparadas com tomate, pepino, hortelã e salsinha, porém, na Tabouleh acrescenta-se trigo fino cru, e no Fattouch apenas pequenos pedaços de pão árabe torrados.
Outras saladas que importa também experimentar são a Hummus e a Baba Ganoush. A Hummus é feita à base de grão-de-bico, que é cozido e espremido, e leva sumo de limão, alho, sal, tahine (pasta de gergelim) e azeite. Trata-se de um prato que não é só consumido no Líbano mas em todo mundo árabe. Já a Baba Ganoush é uma mistura muito saborosa de puré de beringela
com tahine e sumo de limão. A beringela pode ser grelhada ou assada. Após as saladas vêm os pratos principais. As sanduíches libanesas tornaram-se, sobretudo a partir do século XX, das mais consumidas em todo o mundo. O exemplo mais conhecido é a Shawarma, que é feita com fatias finas de carne ou frango, que são assados num espeto vertical, e é depois servida dentro de pão árabe, juntamente com pepino em conserva, tomate, cebola, coalhada seca ou pasta de alho e, muitas vezes, também, batatas fritas. No Shawarma Show é possível experimentar muitas destas delícias. Desde as saladas (Tabouleh, Fattouch, Hummus, Baba Ganoush) até várias opções de Shawarma ou, num outro registo, o também muito conhecido Soujouk (salsichas picantes). Há ainda uma variedade de sumos tradicionais a não perder.
shawaRMa show
MakeR’s MaRk
País
EUA região
Kentucky aroMa Frutas vermelhas, calda de caramelo e baunilha sabor
Xarope de maple, caramelo, especiarias, baunilha, frutas vermelhas teor alCoóliCo
45%
País
EUA região
Kentucky aroMa
Baunilha, caramelo, laranja e notas florais sabor
Chocolate, baunilha, especiarias e notas de madeirao teor alCoóliCo
56,4%
few bouRbon
País
EUA região
Illinois aroMa
Caramelo, malte, especiarias, canela. sabor
Caramelo, pimenta do reino, cravo e canela; final longo e floral teor alCoóliCo
46,5%
w ReseRve distilleR’s select
País
EUA região
Kentucky aroMa
Laranja e caramelo. Ao contrário de outros bourbons, o aroma de baunilha é muito subtil, ainda que presente sabor Levemente picante, com bastante caramelo e açúcar mascavo. Baunilha e laranja subtis teor alCoóliCo
43,2%
a históRia do bouRbon quase se confunde coM a pRópRia históRia dos estados unidos
dos whiskies aMeRicanos bouRbon a nova vaga
o bourbon é considerado por muitos a bebida nacional dos EUA. A sua designação vem do facto de ter tido origem no condado de Bourbon, no Kentucky. Na verdade, a sua história quase se confunde com a do país, pois o início do seu fabrico está ligado à chegada, em finais do século XVIII, de imigrantes alemães, escoceses e do norte da Irlanda que trouxeram consigo não apenas a tradição do consumo do whisky mas também os conhecimentos de destilação que estão na sua base. Porém, enquanto os whiskies do Velho Continente são essencialmente feitos com centeio, os norte-americanos são feitos a partir do milho. Um bourbon, para se poder assim chamar, tem de ter no mínimo 51% de milho.
Existem muitas marcas que são bem conhecidas dos apreciadores (Jim Beam, o Wild Turkey, o Elijah Craig, etc.), mas um facto interessante, em anos recentes, tem sido o destaque dado a bourbons com características particulares e distintivas. Um facto que atesta bem como os factores de diferenciação pesam cada vez mais no mercado. Um exemplo notório é o Maker’s Mark. Promovido como o “único bourbon artesanal do mundo”, é feito de trigo doce e vermelho, milho e cevada.
O Maker’s Mark é, certamente, um pioneiro mas a verdade é que a tendência para a produção artesanal, enquanto garante de “autenticidade”, vem ganhando força e seria de admirar se, também no que diz respeito aos bourbons, ela não se verificasse. Daí que não possamos deixar de mencionar o Few, um bourbon relativamente seco e apimentado feito de 70% de milho, 20% de centeio e 10% de cevada.
A nossa sugestão principal deste mês vai, no entanto, para o Woodford Reserve Distiller’s Select que tem sido incluído, de forma consistente, no lote dos melhores bourbons actualmente disponíveis no mercado. Feito de forma 100% artesanal, é produzido por uma das mais antigas destilarias dos Estados Unidos.
Um dos aspectos que lhe confere uma personalidade muito particular é o facto de ser composto de 72% de milho, 18% de centeio e 10% de malte de cevada, com uma fermentação mais demorada. As barricas virgens de carvalho onde matura são produzidas na Brown Forman Cooperage, também responsável por fabricar as usadas pela Jack Daniel’s. Isso permite que a destilaria escolha apenas as melhores barricas para maturar o seu bourbon durante sete anos, quase três anos a mais do que a maioria dos Jack Daniel’s.
wild tuRkey RaRe bReed
eXposiÇÕes
música filmes livros
DANÇAR - NARRATIVAS TRÍPTICAS
ADIoDATo GomeS | CuRADoRIA: uTe FeNDleR
Centro Cultural
Franco-Moçambicano
Sala de Exposições
inauguração: 2 de Abril
Hora: 18h30
Aberta até 11 de Maio
mulHeR, SoCIeDADe e DeSAFIoS
exPoSIÇão ColeCTIVA
De mATxAkHoSA e AbÍlIo mAHumANA
Fundação Fernando
Leite Couto galeria
inauguração: 3 de Abril
Hora: 18h
liteRatuRa
lANÇAmeNTo Do lIVRo “DICIoNáRIo De PARTICulARIDADeS lexICAIS e moRFoSSINTáCTICAS DA exPReSSão lITeRáRIA em PoRTuGuêS: moÇAmbIque” De mICHel lAbAN
Centro Cultural
Franco-Moçambicano
Dia: 3 de Abril
Hora: 16h
PeDRo PeReIRA loPeS eSCRIToR Do mêS
SeSSão DINAmIzADA PoR mbATe PeDRo
Camões - Centro Cultural Português em Maputo
Dia: 16 de Abril
Hora: 17h
fotogRafia
WoRkSHoP De FoTojoRNAlISmo
oRIeNTADo PoR joão PINA (APeNAS PoR CoNVITe)
Camões - Centro Cultural Português em Maputo
Dias: 9 a 13 de Abril
cineMa
NoCeS De STePHAN STRekeR (bélGICA , 2017, 98’)
SemANA DA FRANCoFoNIA|
PARCeRIA: embAIxADA DA bélGICA
Centro Cultural
Franco-Moçambicano
Dia: 1 de Abril
Hora: 19h
PINA
ReAlIzAÇão: WIm WeNDeRS
Fundação Fernando
Leite Couto
inauguração: 4 de Abril
Hora: 18h
MÚsica
THe mIll
umA ColAboRAÇão áFRICA
Do Sul e SuÍÇA
Centro Cultural
Franco-Moçambicano
Dias: 5 de Abril
Hora: 20h30
AbRAHAm meNNeN quARTeT (ÀFRICA Do Sul)
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 10 de Abril
Hora: 18h
• em destaque
“Black leopard, red Wolf” Marlon JaMes ed. riverhead Books
Depois de ter ganho, em 2015, o prestigiado Man Booker Prize pelo seu livro A Brief History of Seven Killings (Breve História de Sete Assassinatos, publicado em língua portuguesa pela editora Relógio d’Água), o escritor jamaicano Marlon James, actualmente a residir nos Estados Unidos, acaba de lançar “Black Leopard, Red Wolf”, o primeiro volume da sua the Dark Star trilogy.
O “New York times” descreve a geografia imaginária de “Black Leopard, Red Wolf” como um cruzamento entre o universo mágico do escritor gabriel garcía Márquez e a pintura delirante de Hieronymus Bosch, sublinhando ainda múltiplas influências que vão dos super-heróis das bandas desenhadas da Marvel à saga “guerra dos tronos” de george RR Martin. Com efeito, a acção decorre num “lugar inventado” localizado em África: “Eu queria um mundo que, de certa maneira, não fizesse qualquer sentido, ou que não estivesse realmente no nosso plano de existência, porque em muitas histórias africanas verdadeiras, não há separação entre realidade e sonho, ou realidade e fantasia, ou entre mortos e vivos.”
teatRo
oS moNÓloGoS DA VAGINA GRuPo CulTuRAl HANyA ARTe
ADAPTAÇão e eNCeNAÇão: mARIA CloTIlDe
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 5 de Abril
Hora:18h
CeNAS CuRTAS A CoNSTRuÇão
D o PeRSoNAGem: PRo CeSSo S e bARReIRAS (CoNVeRSA/ DebATe)
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 25 de Abril
Hora:18h
“(f)achadas”, a nova
de joão RoXo
o designer João Roxo, um dos fundadores da Anima – Estúdio Criativo, tem vindo a desenvolver, nos últimos anos, uma série de projectos individuais marcados por uma forte dimensão autoral.
Um exemplo particularmente ilustrativo dessa sua capacidade de gerar uma linguagem estética cuja expressividade a torna inconfundível (e imediatamente reconhecível) foi a exposição “Objectos em Trânsito”, realizada em 2018 no Camões – Centro Cultural Português, no âmbito do festival Maputo Fast Forward.
O que distingue o trabalho de João Roxo deriva da sua capacidade de ir além dos códigos inerentes e previsíveis à linguagem do design para incorporar uma diversidade de outros registos que o posicionam claramente como um artista visual com um espectro de recursos dignos de sublinhar.
Mas o que confere uma distintiva genuinidade ao seu
trabalho decorre do exercício de pesquisa conceptual que vem desenvolvendo de forma meticulosa ao longo dos últimos anos e que se traduz na tentativa de formulação do que ele designa como o “terceiro espaço do design”, espaço esse que, dito de forma muito simplificada, seria definido por uma emancipação em relação aos modelos de “comunicação visual” impostos pelo Norte e pela capacidade de incorporar e combinar a linguagem da “informalidade” prevalecente no Sul na narrativa dominante, de modo a dar corpo a um novo território de “representação”.
O seu novo projecto, intitulado “(F)achadas”, presente na 16Neto – Espaço Criativo, continua nessa senda exploratória. Nesta exposição, João Roxo ensaia uma “desconstrução” das formas arquitectónicas dominantes na cidade de Maputo através de um exercício criativo de matriz gráfica no qual, uma vez mais, se revela o seu traço sempre muito distintivo.
joão RoXo, uM dos fundadoRes da aniMa – estÚdio cRiativo, teM vindo a desenvolveR, nos ÚltiMos anos, uMa séRie de pRojectos individuais
eXposiÇão
Na introdução à exposição, João Roxo escreve: “Com o crescimento desenfreado da trama urbana, a ortogonalidade intencional planeada conflui em percursos capilares entrelaçados, aparentemente desprovidos de lógica ou funcionalidade.
Esta cidade, como qualquer outra, é um arquivo vivo e a memória nela inscrita é ocultada por novas camadas sobrepostas pelo tempo e impostas pela promessa de um desenvolvimento definido pelos índices de crescimento económico. Nesta requalificação do edificado, presenciamos a lenta distorção de um panorama urbano que metaforiza uma linha temporal. Assim se distorcem narrativas e lentamente se instala a amnésia generalizada. Numa série de impressões gráficas, Roxo apresenta desconstruções de formas arquitectónicas encontradas nas fachadas de edifícios da cidade de Maputo.
Em analogia à construção desregrada, estas formas geométricas transformam-se e criam outras narrativas, distorcidas, contorcidas.”
tExtO rui trindade fOtOgRfiA d.r.
João Roxo 16Neto – Espaço Criativo
Av. Agostinho Neto, 16 –
Maputo
Patente até 26 de Abril
(f)achadas
e-bikes
B-52, da Stealth velocidade de até 80 km/h e autonomia máxima de 100 km
Stromer ST5 velocidade de até 45 km/h e autonomia
máxima de 180 km
ve-bikes, a ReinvenÇão da bibicleta
a introdução de motores eléctricos veio revolucionar o conceito tradicional da bicicleta e, segundo dados da consultora Navigant Research, estima-se que em 2020 haverá 38 milhões de unidades a circular no mundo, algo nunca visto. Esta mudança resulta da conjugação de um conjunto de factores muito diversos, desde as preocupações ambientais ao cada vez mais insustentável congestionamento urbano que leva muitos a optarem por meios de transporte alternativos. Mas o aparecimento de um número cada vez maior de e-bikes reflecte também o facto de, com os investimentos que grandes marcas como a BMW, a Volkswagem ou a Tesla estão a fazer no desenvolvimento de carros eléctricos, tornou-se inevitável que essa reconversão tecnológica fosse também alargada a um
mercado que tenderá a crescer exponencialmente nos próximos anos.
O mercado das e-bikes apresenta hoje uma oferta muito diversificada com modelos especificamente concebidos para diferentes tipos de actividade (mobilidade urbana, estrada, montanhismo e trilhas, etc.). E as revistas da especialidade têm vindo a destacar, desde o início do ano, algumas das e-bikes que consideram mais bem posicionadas para obter a preferência dos consumidores mais exigentes. Assim, B-52, da Stealth, tem vindo a ser referida como um dos modelos mais interessantes para percursos de trilhos. Com capacidade para atingir uns impressionantes 80 km/h, tem uma autonomia de 100 quilómetros sem pedalar. Para quem gosta de fazer sobretudo estrada, a Trek Ma-
desde a invenÇão da bicicleta, há quase 200 anos, que não se assistia a uMa tRansfoRMaÇão tão Radical na foRMa de pedalaR
done SLR9 Disc é uma opção de altíssima qualidade. É baseada numa estrutura aerodinâmica em carbono OCLV700 de última geração, com tecnologia IsoSpeed capaz de amortecer as vibrações e estabilizar a pedalada, para eficiência e conforto em pedaladas sobre piso irregular. Em termos de cidade, uma das mais performativas é a Stromer ST5, a qual já tem sido considerada “como um verdadeiro Lamborghini de cidade”. A marca suíça oferece, neste modelo, um pedal assistido com quadro totalmente integrado e um motor Syno Sports de 850 watts assistido por uma bateria de 983 Wh, que pode alcançar uma velocidade de até 45 km/h e tem autonomia máxima de 180 km. Oferece ainda assistência que pode ser personalizada usando a app para smartphone da Stromer, estando equipada com sistema de iluminação completo, com farol de 1 600 lumens integrado e LEDs para áreas urbanas.