INAE o AtAque à ilegAlidAde em defesA do consumidor
NIASSA umA viAgem pelos cAminhos do presente e do futuro
BAD pietro toigo revelA As prioridAdes pArA o pAís
SOcIEDADE
jovens chefs estão A mudAr A gAstronomiA AfricAnA


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INAE o AtAque à ilegAlidAde em defesA do consumidor
NIASSA umA viAgem pelos cAminhos do presente e do futuro
BAD pietro toigo revelA As prioridAdes pArA o pAís
SOcIEDADE
jovens chefs estão A mudAr A gAstronomiA AfricAnA


As contAs do ‘oe 2019’ e As perspectivAs de retomA dA economiA nAcionAl
JaneiRo 2019 • ano 02 • no 10 Preço 200 MZn

6 Observação
Inhambane a imagem daquela que é, porventura, uma das praias mais visitadas de Moçambique
8 Radar
Panorama economia, banca, Finanças, Infra-estruturas, Investimento, País
12 Macro
12 INAE a estratégia deste instituto público em prol da defesa do consumidor
22 Nação
OE 2019
22 Em 2019 emergimos? a e&M faz as contas ao oe 2019 e ao que vai mudar na economia
30 A visão dos especialistas a visão do cIP, do Iese e do FMo sobre o oe 2019
34 Na voz de... Joaquim oliveira, coordenador do Fórum de Monitoria do orçamento (FMo)
38 ProvÍncIa
Niassa
Uma viagem acidentada pelos caminhos do passado, do presente e do futuro da Província
44 Mercado e FInanças
BAD
Pietro Toigo explica a estratégia do banco africano de desenvolvimento para o país
50 EMPresas
PME
UBI Uma app que se propõe a ser um complemento da vida social de Maputo
52 MegaFone
Marketing o que está a acontecer no mundo das marcas, em Moçambique e lá por fora

67 ócio
68 Escape as duas faces de Pemba 70 Gourmet Uma gloriosa viagem à china por entre sabores únicos 71 Adega Muscats du Monde elegeu os melhores moscatéis do planeta em 2018
72 Agenda Música, livros, filmes 73 Arte Um excerto de “Ilhéus” de Moira Forjaz 74 Ao volante as luxuosas novidades do ‘cannes Yachting Festival 2018’
54 fIgUra do MÊs
Esselina Macome a directora-geral da FsdMoç revela a estratégia para fazer aumentar inclusão financeira em Moçambique
56 SocIedade
Gastronomia como uma jovem geração de chef’s, entre os quais uma moçambicana, está a mudar a gastronomia africana
60 lÁ Fora
Arábia Saudita o assassinato do jornalista Jamal Kashoggi está a ensombrar o reinado de Mohammed bin salman

a crise económica que se arrasta desde 2015, resultante da conjugação de dois factores, nomeadamente a crise económica e financeira internacional e o corte de apoio ao Orçamento do Estado pelos Parceiros de cooperação como consequência da descoberta de dívidas não reveladas aos parceiros internacionais contraídas à margem da lei, teve impacto em 2017:
No PIB, cujo crescimento se situou em 3,7 por cento contra os 7,4 por cento registados em 2014; na redução do Investimento Directo Estrangeiro com impacto nas reservas internacionais líquidas e na capacidade de importação; no agravamento da dívida pública e, consequentemente na redução da capacidade de endividamento externo, na deterioração da imagem do país; na redução do poder de compra das famílias e, por fim, mas não menos importante, no aumento do custo de vida.
Apesar destas adversidades, Moçambique é um dos países que mais cresce na região da África Austral e conseguiu, em 2017, cumprir o seu calendário político sem grandes sobressaltos e manter uma estabilidade política, social e cambial, mantendo o nível de inflação em torno dos 5 e 6 por cento após ter atingido 25,27%, no pico da crise em 2016.
O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), parceiro de longa data de Moçambique, revela à E&M, nesta primeira edição de um novo ano, em que se espera a retoma do crescimento económico, as linhas de actuação definidas para os próximos quatro anos, garantindo o foco dos apoios nas áreas da agricultura e infra-estruturas, vectores estruturantes do desenvolvimento do país.
Apesar das contrariedades da economia nacional, este parceiro sempre apoiou a economia nacional, e reitera o reforço dessa cooperação por acreditar no futuro promissor de Moçambique.
O ano de 2019 será, todos o desejamos, de retoma da economia, pois a tendência dos últimos indicadores macro-económicos assim o indica, vai também marcar o início da nova configuração política na geografia de Moçambique, com a realização, em Outubro próximo, de eleições gerais, presidenciais e dos governadores provinciais.
A E&M fornece este tipo de informação porque pretende que o estimado leitor possa estar informado da realidade moçambicana e das perspectivas económicas, políticas e sociais, pois ‘Quem Lê Sabe Mais’.

JANEIRo 2019 • Nº 10
PROPRIEDADE Executive Moçambique
DIRECTOR Iacumba Ali Aiuba COnsElhO EDITORIAl
Alda Salomão; António Souto; Narciso Matos; Rogério Samo Gudo DIRECTORA EDITORIAl
GRUPO EXECUTIVE Ana Filipa Amaro EDITOR EXECUTIVO Pedro Cativelos JORnAlIsTAs Celso Chambisso; Hermenegildo Langa; Cristina Freire, Elmano Madaíl, Rui Trindade PAGInAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Jay Garrido OPInIÃO Bernardo Aparício, Cristina Simón, Denise Branco, Salim Valá PRODUÇÃO Executive Moçambique PUBlICIDADE DEPARTAmEnTO COmERCIAl Ana Antunes (Moçambique) ana.antunes@executive-mozambique. com; iona@iona.pt/contacto@iona.pt (Portugal)
ADmInIsTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBlICIDADE Executive Moçambique; Rua do Telégrafo, nº 109 – Sala 6, Bairro Polana Cimento, Maputo – Moçambique; Tel.: +258 21 485 652; Tlm.: +258 84 311 9150; geral@executive-mozambique.com DElEGAÇÃO Em lIsBOA Rua Filipe Folque, nº 10 J – 2º drtº,1050-113 Lisboa; Tel.:+351 213 813 566; iona@iona.pt ImPREssÃO E ACABAmEnTO Minerva Print - Maputo - Moçambique TIRAGEm 4 500 exemplares númERO DE REGIsTO 01/GABINFO-DEPC/2018

Barra, InhamBane
No mês das férias, Moçambique desloca-se até à beira-mar. Não é só aqui, claro, mas a verdade é que praia, no país, tem um significado maior: Inhambane, a província onde o ano novo entra… de férias. Do Tofo a Vilankulos, da Barra a Bazaruto e tantos outros lugares de sonho que por ali encontramos como não há igual.
A Província é uma das que mais turistas estrangeiros recebe no país, tendo registado 46,1 mil dormidas, ao longo do ano passado e tendo crescido 50% face ao ano anterior. Segundo o relatório anual de impacto económico do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, na sigla inglesa), divulgado em Março passado, o contributo directo deste sector para a economia deverá cifrar-se nos 7,3% no fecho do ano, valendo, globalmente 803 milhões de dólares para a economia do país.
foTogrAfIA Pedro Cativelos



Gás Natural. “O próximo passo para a ENH é explorar financiamento alternativo para os actuais acordos, com o objectivo de ter sustentabilidade financeira e aliviar o ónus dos concessionários”, referia o ministro dos Recursos Minerais e Energia, Max Tonela, num encontro realizado em Maputo com agências de crédito à exportação, que vão suportar o financiamento de 12 mil milhões de dólares nos investimento nas duas primeiras linhas de liquefação (consórcio Anadarko), a instalar na Península de Afungi. Enquanto que os outros só-

MOZA. A operação de aumento de capital do Moza e aquisição do Banco Terra obtiveram ‘luz verde’ do regulador.
cios têm bens colaterais que podem apresentar aos financiadores como garantia, o Estado assumiu o papel de dar aval à quota da ENH, emitindo uma garantia a favor da empresa estatal de 2,25 mil milhões de dólares, válida por cinco anos. “Não foi um processo fácil, devido ao recente cenário de utilização de garantias soberanas, contudo, com o apoio do projeto da Área 1 e, muito importante, do FMI, conseguimos avançar com o processo no Parlamento”, constando a garantia no Orçamento do Estado de 2019, aprovado em Dezembro pelos deputados.
Em comunicado, a Arise (sociedade constituída pelo Fundo da Noruega de Apoio ao Desenvolvimento, banco de desenvolvimento empresarial FMO e Rabobank, com 660 milhões de dólares em activos, e a operar em mais de dez mercados), confirma a aquisição de 29,5% do capital do Moza, no mesmo dia em que o banco confirmou a compra de 100% do capital do Banco Terra Moçambique. De acordo com João Figueiredo, PCA do Moza, “a transacção dota a sua instituição de uma forte capacidade competitiva para servir os clientes e o mercado.”
HCB. Para poder amplificar a fonte de financiamento ao projecto de renovação hidroeléctrico ao longo da próxima década, o governo anunciou recentemente a prorrogação do prazo da Oferta Pública de Venda (OPV) da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB-SA). Segundo o Conselho de Ministros, “o projecto de renovação da HCB está estimado em cerca de 500 milhões de dólares norte-americanos”. O governo anunciou, em Novembro de 2017, a dispersão, através da Bolsa de Valores de Moçambique (BVM), de 7,5% das acções da HCB numa oferta reservada a cidadãos e empresas nacionais.
Crédito. O Banco de Moçambique (BdM) autorizou a empresa sul-africana Compuscan a operar enquanto agência privada de sistema de informação de crédito (Bureau de Crédito) no mercado bancário. Assim, através deste serviço supervisionado pelo Banco Central, todos os bancos comerciais e Instituições de micro finanças (IMFs) poderão partilhar dados sobre empréstimos contraídos no mercado, incluindo-se ainda outros fornecedores de crédito, como as telecomunicações, retalhistas, serviços de utilidade pública e seguros, entre outros no mercado.
Taxa de juro. O BdM anunciou a redução da taxa de juro para 14,25%. Segundo o Comité de Política Monetária do Banco de Moçambique (CPMO), a decisão de rever em baixa uma das principais taxas do país é fundamentada “pelo facto de a informação disponível e as perspectivas de curto e médio prazo confirmarem a manutenção da inflação em um dígito, em linha com as projecções anteriores”. O Banco Central decidiu, igualmente,
reduzir em 75 pontos de base as taxas da Facilidade Permanente de Depósitos (FPD) e da Facilidade Permanente de Cedência (FPC) para 11,25% e 17,25% respectivamente.
Dívida. “Dívida pública interna continua ainda em níveis muitos elevados e subsistem riscos associados à sua sustentabilidade”. A conclusão é da CPMO do BdM que anota ainda o aumento do “fluxo da dívida pública interna contraída com recurso a Bilhetes do Tesouro, Obrigações do Tesouro e adiantamentos do Banco de Moçambique de 3 759 milhões de meticais, passando o saldo para 112 016 milhões de meticais, 12,8% do PIB”. Os montantes revelados “não tomam, ainda assim, em consideração outros valores de dívida pública interna, tais como contratos mútuos e de locação financeira, assim como responsabilidades em mora”, acrescenta o comunicado publicado pela CPMO do BdM.

Risco. Moçambique foi o segundo país que melhorou a performance no índice de Risco Político de Curto Prazo (IRPCP) da consultora Fitch Solutions durante o ano de 2018. Ultrapassado apenas pela África do Sul, mantém, ainda assim, um risco elevado, entre os 199 países avaliados. Segundo a consultora, “o progresso nas negociações de paz com Renamo, em 2018, ditou a melhoria alcançada.”

Pesca. O Ministério do Mar, Águas Interiores e Pescas anunciou que, ao longo do ano de 2018, aplicou mais de 100 multas a embarcações de pesca industrial e semi-industrial, tendo estas resultado na arrecadação de 80 milhões de meticais para os cofres do Estado. A falta de declaração de quantidades capturadas de pescado nas águas nacionais por parte de armadores nacionais e estrangeiros é o principal delito registado pelo sector do Mar, Águas Interiores e Pescas. A albufeira de Cahora Bassa é onde se regista um maior número de infracções.
Agricultura. O Instituto de Cereais de Moçambique (ICM) e a Gapi assinaram, em Dezembro, um acordo para a criação de uma linha de crédito especial que, “irá priorizar o financiamento das campanhas de comercialização agrícola, bem como actividades de agroprocessamento nas regiões já identificadas como estratégicas pelo ICM.” Em comunicado, ICM e Gapi assumem “um projecto onde após um processo de consolidação, se prevê a possibilidade de promoção de investimentos com vista à ampliação e modernização da capacidade de armazenamento dos bens comercializados, com vista a uma maior e melhor utilização de infra-estruturas de armazenagem e processamento existentes”. António Souto, PCE da Gapi, reconhece “a importância da parceria para resolver os desafios do desenvolvimento que Moçambique enfrenta.”
Hidrocarbonetos. A empresa Qatar Petroleum assinou um acordo com o grupo norte-americano Exxon Mobil para adquirir uma participação de 10% em três blocos de prospeção marítima no país.
O consórcio, envolvido nos três blocos nas bacias de Angoche e do Zambeze, passou assim a ser constituído pela Exxon Mobil, na qualidade de operador com uma participação de 50%, a estatal ENH com 20%, o grupo russo Rosneft, igualmente com 20% e a também estatal Qatar Petroleum, detentora dos restantes 10%.
Em comunicado, emitido em Dezembro passado, a Qatar Petroleum, sublinha o simbolismo de um “acordo que representa a entrada da empresa no sector petrolífero em Moçambique”.

Combustíveis. A Regius Synfuels Mozambique. anunciou a finalização do projecto de construção de uma unidade integrada de produção de combustíveis (gasolina, diesel e jet fuel) a partir de carvão mineral na província de Tete, a iniciar em 2023. O projecto de 4,9 mil milhões de dólares aprovado pelo CPI (ainda sem financiamento garantido), preconiza a produção de 300 mil toneladas de gasóleo de combustão, 112 mil toneladas de gasolina e 409 mil toneladas de fertilizante por ano e, para além de abastecer o mercado nacional (reduzindo as importaçõe), tem também a intençáo de exportar.


Salim Cripton Valá • PCA da Bolsa de Valores de Moçambique
em 1972, o Clube de Roma lançou o alerta: “Se as actuais tendências de crescimento da população, bem como a industrialização, a poluição, a produção alimentar e a exaustão dos recursos continuarem inalteradas, os limites de crescimento para este planeta serão atingidos dentro dos próximos cem anos. O resultado mais provável será um declínio súbito e incontrolável tanto na dimensão populacional como na capacidade da indústria”. A tese principal da obra “Os Limites do Crescimento” defende que a continuação do crescimento exponencial da população mundial e do consumo num mundo de reservas limitadas conduziria a uma crise global de elevadas proporções e ao alastramento da fome. E é preciso tomar em conta que essa obra foi produzida bem antes de as alterações climáticas, a crise de alimentos e o pico do petróleo e a crise energética serem ameaças amplamente conhecidas, debatidas e com repercussão global. Há cerca de três décadas que os investigadores procuram perceber porque razão em alguns países a exploração dos recursos naturais gera conflitos, instabilidade e caos. Num interessante estudo de 2007, intitulado “Escaping the Resource Course”, Macartan Humphreys, Jeffrey Sachs & Joseph Stiglitz referiram que apesar das perspectivas de riqueza e oportunidades que acompanham a descoberta e extracção de petróleo e outros recursos naturais, é muito frequente e comum que essas dádivas contribuam mais para bloquear que para promover o desenvolvimento sustentável e equilibrado das Nações. Paul Collier (2010), reputado economista da Universidade de Oxford, que foi director de programa de investigação e desenvolvimento do Banco Mundial e autor de “Os Milhões da Pobreza”, aponta que a pobreza está a diminuir em cerca de 80% do mundo, mantendo-se o problema em cerca de 50 Estados (que considera “falhados”) e que neles vivem cerca de mil milhões de pessoas. Entre as causas do fracasso dessas Nações estão um conjunto de armadilhas, destacando-se quatro, a saber: i) conflitos armados e instabilidade; ii) dependência excessiva da extracção e exportação de recursos naturais; iii) localização geográfica, interioridade e maus vizinhos, e; iv) má governação. Segundo Tom Burgis (2016), autor de “A Pilhagem de África”, o
continente tem 13% da população mundial e apenas 2% do seu PIB cumulativo, mas é o repositório de 15% das reservas de petróleo bruto do planeta, 40% do seu ouro e 80% da sua platina. As minas de diamante mais ricas localizam-se em África, que também possui significativos depósitos de urânio, cobre, minério de ferro e bauxite, entre outros recursos, havendo indicações de que África contém cerca de um terço dos recursos minerais e hidrocarbonetos.
Apesar de várias experiências mostrarem que a descoberta de grandes reservas de petróleo e gás e a sua exploração poderem não contribuir para melhorar as condições de vida da população, muitos países em desenvolvimento almejam tanto esse “tesouro enterrado” que não enxergam que esses recursos valiosos podem ter consequências estranhas e até mesmo politicamente prejudiciais. Para o efeito, é preciso assumir como pressuposto que a indústria extractiva é das mais difíceis de serem geridas correctamente, a volatilidade dos preços mundiais e a ascensão e queda das reservas de um país podem produzir grandes flutuações nas finanças de um governo, o perigo dessa indústria provocar problemas sócio-ambientais para as comunidades locais e o facto de elevadas receitas poderem fluir de forma imprevisível e serem facilmente escondidas.
Hoje em dia, ninguém duvida que um país com recursos naturais valiosos possui uma espécie de catalisador positivo que permite acelerar o desenvolvimento económico inclusivo, possuindo activos económicos que podem atrair investimentos e obter recursos financeiros significativos a serem aplicados na economia e na sociedade. Todavia, e como bem nos recorda, Paul Collier (2010) e Jeffrey Sachs (2009), são poucos os países que vivem de rendas e são ricos e prósperos.
Dispondo de recursos naturais abundantes, os países deixam de dar atenção às actividades económicas tradicionais e passam a viver com base no rendimento que as multinacionais pagam pela extracção dos recursos. Perante essa nova realidade, marcada pela entrada de um elevado fluxo de recursos financeiros, a ligação entre o Povo e o seu Governo debilita-se,
As indústrias extractivas e os recursos naturais explorados devem, acima de tudo, servir como a alavanca para viabilizar a estratégia de desenvolvimento da economia

Potencial extractivo em Moçambique, e por todo o continente africano, é imenso, tal como os desafios sociais e económicos que ele acarreta para todos
passam a ocorrer focos de instabilidade e conflitos, violência étnica e intolerância, os políticos querem manter-se no poder até à sua morte, amplia-se a corrupção e as rendas que advêm dos recursos naturais alimentam golpes de Estado e são fonte de intriga política e muita ganância, situação normalmente denominada como a “maldição dos recursos naturais.”
No entanto, nem todos os países detentores de recursos naturais são susceptíveis à maldição, casos da Noruega, Canadá, Finlândia, Grã-Bretanha, Malásia, Botswana, que têm receitas elevadas, economias diversificadas e instituições democráticas sólidas, e exploram esses recursos com poucos efeitos nocivos.
A riqueza obtida através do petróleo e outros recursos naturais é predominantemente um problema dos países de baixa e média renda e não dos países ricos e industrializados, criando-se neles o que se denomina de “ironia da riqueza dos recursos naturais”, em que os países com as necessidades mais urgentes são também os menos propensos a beneficiarem da sua própria riqueza geológica. Nos países onde as indústrias extractivas dominam a economia, ela fica distorcida à medida que os dólares são despejados no país para comprar recursos, e os governos se preocupam em atribuir licenças a empresas estrangeiras para poderem extrair petróleo, gás e carvão, obtendo receitas não ganhas mas geradas apenas a partir da riqueza existente. Esse tipo de rendimento é chamado de “renda económica” e, normalmente, não promove uma boa gestão porque cria-se uma espécie de “saco de dinheiro aberto” à disposição dos grupos que controlam o Estado. Como advoga Tom Burgis (2016), em países pobres e com instituições frágeis, a indústria extractiva é propensa à corrupção e a cleptocracia. É importante não permitir que a exploração dos recursos na-
turais afecte negativamente o processo de crescimento e desenvolvimento económico ao provocar o enfraquecimento das actividades económicas tradicionais, afectando as exportações, prejudicando o desenvolvimento de um sector industrial internacionalmente competitivo, provocando uma taxa de câmbio sobreavaliada, além de que as receitas dos recursos sendo voláteis, levam à ocorrência da tal “doença holandesa”. Uma aposta inequívoca na transformação estrutural da economia e na sua diversificação é vital para criar empregos, gerar rendimento para as famílias, agregar valor aos produtos primários e ter uma clara opção para as exportações. As indústrias extractivas e os recursos naturais explorados devem servir como alavanca para viabilizar a estratégia de desenvolvimento endógeno, sendo imperioso que essas indústrias se articulem adequadamente com as PME´s e o empresariado nacional e promovam o conteúdo local.
Porque desenvolvimento económico inclusivo é um fenómeno multidimensional é vital que os recursos obtidos sejam investidos prioritariamente no reforço do capital humano, melhoria das infra-estruturas e provisão de serviços básicos, reforço das instituições de desenvolvimento, promoção de actividades económicas intensivas em trabalho (exemplos da agricultura, pescas, turismo, serviços e construção), gestão sustentável e racional dos recursos naturais e boa governação.
Há experiências de sucesso na exploração de recursos naturais em benefício do Povo e promovendo o desenvolvimento, e a Noruega é um caso paradigmático. Para os países pobres e com baixo índice de desenvolvimento humano, como o nosso, eles devem ser uma bênção e não uma maldição, devendo ser geridos com prudência, transparência, foco no desenvolvimento das pessoas e numa lógica intergeracional.

Disciplinar a actividade dos agentes económicos é uma missão que a INAE tem vindo a assumir com veemência nos últimos anos. E os números da cobrança de multas e de estabelecimentos encerrados comprovam-no
existe desde 2009 e foi criada com o objectivo de “fiscalizar toda a actividade industrial, comercial e de prestação de serviços”. A verdade é que, quando se cumpre uma década após a sua criação, nunca tanto como nos últimos três anos se ouviu, leu ou sentiu a presença e o impacto da Inspecção Nacional das Actividades Económicas (INAE) na economia do dia-a-dia. Pode dizer-se que foram estes os anos da emancipação da INAE, em que esta saiu do anonimato, encerrando e multando centenas de estabelecimentos de todo o país, com o principal destaque para a restauração.
Esta é uma realidade que, de resto, se comprova também pelos números de empresas inspeccionadas e pelo volume das coimas aplicadas.
De acordo com Rita Freitas, Inspectora-geral da INAE desde 2017, nesse ano foram fiscalizadas 13 657 instituições e, em 2018, esse número aumentou para 16 281, um crescimento de 19%.
E as mudanças, náo se ficam por aqui. “Actualmente não temos exposto os agentes económicos à imprensa, mas o trabalho não parou, bem pelo contrário”, diz. “A diferença é que nós íamos às inspecções com os jornalistas. para que
o consumidor tivesse conhecimento do que se estava a passar”, refere a responsável da INAE que diz que, “a lógica de actuação mudou, há menos exposição, mas estamos cada vez mais severos nas exigências de cumprimento da lei.”.
continua a “rebeldia” dos agentes económicos No entanto, e apesar da ‘mão pesada’ que todos lhe reconhecem, a INAE continua a deparar-se com grande parte dos mesmos problemas que têm vindo a ser detectados em anos anteriores. “As principais questões continuam a ser as mesmas, ainda não se respeita a lei de
defesa do consumidor”, aponta a INAE. A falta de higiene e a venda de produtos fora do prazo, por exemplo, são duas das principais infracções cometidas por muitas instituições visitadas pela INAE. “Continuamos a detectar os problemas da falta de caderneta de sanidade para as instituições da área de hotelaria e restauração, e a falta de fardamentos nas fábricas é ainda crítica. É preciso que os trabalhadores tenham uniformes, a cabeça protegida e luvas para manipular os alimentos”, adverte a Inspectora-geral.
Uma outra questão que preocupa a INAE está relacionada com o facto de se continuarem a comercializar e a importar produtos com rótulos em idiomas estrangeiros, nomeadamente provenientes da África do Sul, Índia e China. Aliás, a este respeito, adianta, Moçambique surge mesmo como “um dos poucos países do mundo em que se continua a registar uma entrada massiva de produtos sem que o consumidor saiba o que está a comprar.” Para contornar esse problema, prossegue, “tem vindo a ser feito um trabalho de sensibilização e divulgação” junto de consumidores e comerciantes. “Estamos a preparar os agentes económicos para que, mesmo que eles importem determinados produtos é obrigatório que os rótulos estejam também em língua portuguesa”, releva. E não só, continua: “para seguir os padrões aprovados em relação à rotulagem existem regras (tamanho das letras, o espaçamento, tipo de informação que está no rótulo na parte frontal e no verso), portanto, é preciso seguir as normas previstas em Moçambique, nos regulamentos”, apelou. Sem avançar números, a responsável faz saber que “há também estabelecimentos que funcionam sem a devida licença, que deve ser tratada junto do Instituto Nacional de Normalização e Qualidade (INNOQ)”, revelou.
encerramentos coercivos
A actuação de uma instituição como a INAE, principalmente por estar na primeira linha de combate a irregularidades económicas é, por vezes, alvo de controvérsia. Especialmente quando encerra estabelecimentos, algo que, nos últimos dois anos, lhe tem valido um coro de vozes críticas, especialmente por parte dos visados pela acção da INAE. No entanto, a inspectora-geral ressalva que “apenas se chega à decisão de mandar encerrar um qualquer estabelecimento
em último caso, e quando apresenta efectivamente um aspecto crítico e um perigo para a saúde pública”, reitera. “Não encerramos de qualquer maneira, e não fechamos, ao contrário do que tem sido dito, demasiados estabelecimentos. Por exemplo, das 16 281 inspecções realizadas até Novembro de 2018, apenas encerramos 217, o que não chega a 2%. Isto para dizer que pautamos a nossa actuação pela educação dos agentes económicos e pela sensibilização em relação às normas em vigor. E também damos tempo para possam ser corrigidos os erros.” Entretanto, embora continuem a existir irregularidades quanto â observância das regras normais de defesa do consumidor, a INAE entende que tem havido algumas melhorias. “Se vamos a um estabelecimento e encontramos péssimas condições de higiene não temos como fechar os olhos e não ver, e nesse caso temos de encerrar e dar tempo para que elas sejam corrigidas. E se o forem vamos lá reabrir. É preciso olhar para a INAE como uma instituição criada pelo governo para melhorar a actividade económica como forma de garantir que o consumidor seja bem servido e a saúde pública esteja protegida, através da venda de produtos seguros e de qualidade, dentro do prazo e não estragados”, acrescenta.
O lado do consumidor
Perfilhando desta posição, Mouzinho Nicols, presidente da Associação de Defesa do Consumidor (ADECON), o único movimento associativo do género no país, também considera que “se têm registado melhorias nesta matéria tão sensível quanto o respeito pelas leis de defesa dos consumidores”, elogia. Criada na sequência do regulamento da Lei de Defesa do Consumidor, aprovado pelo Decreto n.º 27/2016 de 18 de Julho, Mouzinho Nicols explica que a ADECON tem dado o seu contributo na defesa do consumidor, como mediador ou reconciliador entre o consumidor e o agente económico. Ainda assim, os casos que têm dado entrada nesta associação para a busca de mediação são ainda poucos, talvez porque, de acordo com o responsável, “ainda não exista uma representatividade da associação em todas as capitais provinciais estando, até agora, apenas nas cidades de Maputo, Beira e Nampula. Temos uma média de 60 a 70 casos por ano. Achamos muito pouco, embora a nossa intenção não seja o número de casos mas sim, a eficácia da nossa acção.
inspecções
Foi o Volume total de acções de Fiscalização leVadas a cabo pelas equipas da iNae No terreNo, em todo o país, ao loNgo de 2018
217
encerramentos
Número de estabelecimeNtos comerciais eNcerrados aumeNtou em 2018, Face aos 109 de 2017
78
milhões de meticais
Valor agregado das multas passadas, das quais o estado só recebeu 13 242 milhões de meticais, cerca de 17% do Valor pago.

Número de inspecções em todo o país aumentou 19%. Já os estabelecimentos comerciais encerrados aumentaram quase 100%, dos 109, registados em 2017, para 217 até ao final de 2018
Seguidamente, denunciamos as irregularidades às entidades competentes para que tomem as devidas medidas e possem agir em consonância com a lei.”
O que melhorou... e o que está na mesma
Um dos aspectos que tem estado a evidenciar claras melhoras desde o início das campanhas da fiscalização da INAE é a fixação dos preços em moeda estrangeira, sobretudo em dólares, uma prática que se fazia notar, há alguns anos, em vários ramos de actividade. “Sim, efectivamente tínhamos muitos casos de fixação de preços em moeda estrangeira, em escolas privadas, creches e em tantos outros negócios. Fizemos um trabalho em que temos vindo a alertar para que se defina o valor em meticais”.
A mesma melhoria, não é tão evidente ao nível da venda de produtos contrafeitos. Segundo a inspectora-geral, “continua a haver um grande número de produtos em que se imitam marcas registadas, e se enganam os consumidores.”
Uma das formas de coação das irregularidades, ou de quem as pratica são as multas, mas a INAE entende ser ainda reduzido o montante pago em coimas ou multas face ao total daquilo que foi aplicado aos agentes prevaricadores.
“Em termos de multas, em 2018, o valor aplicado foi de 78 milhões de meticais, mas deste só foram pagos 13,2 milhões de meticais, o que é muito baixo. O restante, ou está em sede de recurso ou está ainda em processo de cobrança porque alguns dos culposos pedem o pagamento faseado. Notamos, depois, que muitos dos agentes económicos não cumprem com os prazos definidos por lei. Gostaria de poder dizer a todos que, o INAE não passa multas por passar, os valores das coimas funcionam de acordo com a legislação das multas para a área de contrafacção”.
sofala é onde se infringe mais Neste mapa das irregularidades, não é Maputo que lidera, como acontece em quase todos os outros indicadores que dizem respeito aos vários níveis de performance do país. Dados avançados pela INAE apontam que, a este respeito, é a província de Sofala, na região centro do país, a zona que apresenta um maior número de irregularidades. Já ao nível do número de acções por parte dos inspectores da INAE, está a província de Manica, como a que registou maior número de inspecções. “Ao nível dos dados dos multados, temos a província de Sofala com maior número de multas, com 147,
sendo que a província com menor número é a de Nampula, com dez”, avança. Entretanto, segundo Rita Freitas, Inhambane foi a Província que registou maior número de suspensões de licenças, seguida das províncias de Nampula e Manica. As províncias da Zambézia e de Tete tiveram menor número de infracções declaradas.
melhorar actuação
Embora a inspectora-geral da INAE considere estar “no caminho certo” quanto à actuação da instituição com vista a disciplinar os agentes económicos para o respeito pelas normas de protecção do consumidor, ainda não se dá por “satisfeita na totalidade”, e quer melhorar o desempenho e a eficiência das suas acções. E para alcançar esse desiderato, o desafio passa por “garantir que a INAE consiga cobrir todo o país e localidades, algo que ainda hoje não está a acontecer”, assinala. “O grande desafio da INAE para melhorar a sua actuação, porque sabemos que qualquer instituição tem as suas falhas, passa por aí mesmo, por estender o nosso raio de acção até ao nível local, enquanto forma de garantir que o agente económico cumpra efectivamente com as suas obrigações, fazendo respeitar com tudo o que está previsto na lei ao nível dos regulamentos e procedimentos”, considera. “Queremos garantir que o consumidor sente que estamos a trabalhar em prol da saúde pública e para o bem da economia”. Entretanto, continua a ser demasiado grande o desafio para o país poder ter mais mecanismos e instituições da sociedade civil que existem em prol da defesa do consumidor, uma vez que, até agora, apenas existe uma entidade pública, que é a INAE e uma outra de carácter associativo, a ADECON. Até por aí, há mudanças à espera de serem feitas. A ADECON considera mesmo que “o facto de não existirem organismos que se preocupem com a defesa do consumidor fragiliza o sistema económico, e deixa milhóes de moçambicanos expostos a uma série de riscos, alguns até de saúde. É uma fragilidade que se reflecte naquilo que é o dia-a-dia do consumidor, quando olhamos por exemplo, para tipo de produtos que circulam no nosso mercado, grosso modo tem proveniência duvidosa e qualidade muito baixa. E isso vai ter mesmo de mudar.”
texto Hermenegildo langa fotografia Jay garrido


Denise Branco • Investigadora e Consultora em Comunicação Intercultural e Tradução para Fins Empresariais, Técnicos e Científicos
o desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação ilustra o valor social e económico-financeiro de aceder, arquivar e gerir informação de forma rápida e eficaz quer por parte de indivíduos, quer por parte de organizações. As noções de interoperabilidade e conectividade – e brevemente acessibilidade (num formato muito específico) – dominam as prioridades de quem desenvolve sistemas de software que asseguram que o indivíduo e o colectivo possam fazer sempre mais, em menos tempo, e cada vez melhor, com vista a atingir objectivos, sempre assistidos por tecnologia. Contudo, estes avanços tecnológicos representam mais do que isso. Marcam a mudança no paradigma da comunicação humana: do indivíduo consigo próprio e com o seu meio.
As noções de interoperabilidade e conectividade transferiram-se para o dia-a-dia, com desafios claros para o interface humano nas suas vertentes tangível e intangível.
Se podemos questionar a relação evolutiva das necessidades (quem influencia quem?), a existência da relação é inegável como demonstra a psicologia cibernética (também ela sinal da mudança de dimensões a considerar na identidade ou existência humana) onde as já visíveis alterações do comportamento humano na relação humano-objecto começam a ser mais facilmente observáveis.
A aplicação dos princípios da gamificação a contextos educacionais e empresariais, por exemplo, levam a outro nível os pressupostos dos jogos (sim, dos jogos online) que estão a ser aplicados na realidade off-line para engajar indivíduos, motivando-os a alterar comportamentos com base na recompensa e competição (muitos dos leitores estarão familiarizados com o famoso Marshmellow Test desenvolvido pelo psicólogo Walter Mischel onde o princípio da recompensa é estudado no contexto da auto-regulação e resiliência emocional).
Realidade digital, virtual, aumentada, tecnologia sensorial e conceitos como phygital (entre tantos outros) não incorporam
só tecnologia: incorporam uma nova dimensão da identidade do interface humano e os desafios da aprendizagem das regras de coabitação nas diferentes realidades.
O dualismo individual/colectivo e interior/exterior ganha novas texturas e novas cores que trazem consequências diretas para o desenvolvimento do ser humano como o conhecemos hoje. Por um lado vemos alterações no padrão do desenvolvimento específico de competências, habilidades e consolidação de saberes que permitem que o individuo seja mais ou menos funcional (o espaço físico de trabalho dentro de poucos anos terá de incorporar soluções que dão resposta, por exemplo, à mudança de padrão de integração sensorial do ser humano); por outro lado, os indivíduos, as organizações e as nações são empurrados para um de dois lados, cada vez mais identificáveis: quem pode aceder e tem competências para explorar o potencial máximo positivo da tecnologia e quem não tem acesso, ou tendo, não consegue optimizar o potencial da mesma. Se hoje privacidade da identidade individual necessita de ser sujeita a regulamentação, e as organizações começam a incorporar a comunicação do Humano com o Não-Humano (quantos já desligaram o telefone, por exemplo, depois de serem obrigados a interagir com uma gravação), é urgente acautelar a interoperabilidade das nações e repensar a noção de conectividade e acessibilidade numa era em que estar conectado não significa estar mais próximo de mim próprio e/ou dos outros. Onde quer que os indivíduos, as organizações ou as nações se encontrem na hierarquia tecnológica (o upgrade já não é uma opção da interoperabilidade), o desafio é claro e importa escolher: prolongamos o actual jogo cujo tempo é limitado? Iniciamos um jogo novo optimizando as lições aprendidas mas cientes de que a versão do jogo começa a apresentar bugs?
Ou mudamos de plataforma para aprender um jogo novo, com novas regras e novos participantes, sem perder de vista aquilo que distingue o humano do não-humano?
Se hoje a privacidade da identidade individual necessita de ser sujeita a regulamentação e as organizações começam a incorporar a comunicação do Humano com o Não-Humano, é urgente acautelar a interoperabilidade das nações e repensar a noção de conectividade

a euromonitor international avaliou as cidades que receberam mais turistas ao longo do ano e Hong Kong foi a mais visitada, de acordo com relatório ‘Top 100 City Destinations 2018’ divulgado no início de Dezembro. Na análise ao estudo que avalia o tráfego em cerca de 600 cidades de todo o mundo, assinala-se também uma tendência para o ano que agora entra, em que as chegadas globais deverão crescer 5%. A Ásia continua a ser o maior participante do ranking, com 41 das 100 principais cidades ao nível das chegadas.
Olhando pela perspectiva do crescimento, o Japão e Índia destacam-se por um forte crescimento nas chegadas, aponta o relatório, que destaca cidades como Osaka e Chiba, que apresentam um crescimento médio anual de 43% e 35%, entre 2012 e 2017.
Já Londres é a única cidade europeia no Top 5 (apenas quatro no Top 20), tendo ficado em terceiro lugar, com pouco menos de 21 milhões de turistas internacionais. Quanto a novas tendências ao nível dos destinos, o estudo aponta três: Bombaim, Porto e Santiago.

A pesquisa, que incidiu sobre 600 cidades, prevê que as chegadas globais deverão aumentar 1,4 milhões em 2019
Está em 7º lugar numa região que sofre com os menores desempenhos de cidades como Jerba e Sousse, na Tunísia, e Sharm el Sheikh, no Egipto, saindo do ranking nos últimos anos devido ao impacto de ataques terroristas. O Cairo, no entanto, está a recuperar e ocupa o 50º lugar na lista.

Bombaim Índia
A previsão é de que entrará no Top 10 asiático no próximo ano, com um crescimento previsto de chegadas de 19%, fruto da conclusão da primeira fase do novo Aeroporto Internacional de Navi.
Livre comércio, abertura ao mundo e facilidade para empreender: eis o segredo deste território com 7,3 milhões de habitantes (PIB per capita de 56 mil dólares ano), e um PIB anual (2017) de 340 mil milhões de dólares, a crescer 3,5% ao ano. Esta região administrativa especial, apostou num enquadramento propício ao investimento externo. Aqui, para abrir uma empresa bastam duas horas e preencher um simples formulário.
Depois, ali não se cobram taxas de importação e exportação, os investidores estrangeiros podem ficar com 100% da propriedade da empresa e o sistema tarifário é simples e eficiente, e fica na faixa dos 15%. Por fim, o aeroporto de Hong Kong pode movimentar até 70 milhões de passageiros por ano.
iorque
13 500 000 eUa
A ‘Big Apple’ é a única cidade no continente americano a entrar nos 20 destinos mais visitados. Miami aparece na 22ª posição, enquanto Los Angeles e Las Vegas são a 27ª e a 28ª, em 2017. A maioria das cidades dos EUA apresenta, ainda assim, um crescimento relativamente estável.
Depois de conquistar o Leading Destination da Europa em 2018 no World Travel Awards, Portugal está novamente no centro das atenções, com o Porto a entrar no Top 100 pela primeira vez, tendo ‘escalado’ 42 posições neste ranking desde o ano 2012.
O Chile entra no ranking pela primeira vez, já que a sua capital apresentou um crescimento de 18% em chegadas no ano passado, subindo 17 lugares no ranking desde 2012 para se tornar a 93ª mais visitada.

Bernardo Aparício • Head of Corporate and Investment Banking do Barclays Bank Moçambique
nas várias apresentações sobre o ambiente macroeconómico que tenho o prazer de fazer, começo sempre por dizer que a economia moçambicana é o sonho para um economista em part-time, como eu, e um pesadelo para investidores ou responsáveis de orçamentação das empresas, como muitos dos leitores. As razões para esta minha, potencialmente discutível afirmação, são o facto de a economia estar exposta a inúmeras variáveis macroeconómicas.
Este factor permite uma análise causa-efeito a posteriori mais fácil, e sem a intervenção de 50 analistas de tratamento de dados, mas dificulta as projecções. Exemplo desta realidade foi a redução dos fluxos de IDE de 6 mil milhões de dólares em 2013 para 2,5 mil milhões em 2016, que em conjunto com o corte nos fundos dos doadores internacionais, levou à desvalorização do metical contra o dólar em mais de 250% e o consequente aumento drástico da inflação, que só pode ser combatido com uma política monetária agressiva. A combinação da desvalorização do metical, do aumento da inflação, da política monetária restritiva e da redução no IDE levaram a 3 anos de crescimento abaixo de 4%, o que para uma economia que cresceu a uma média de 7,1% entre 2011 e 2015 pode ser considerado praticamente uma “depressão”. Em sentido contrário, a duplicação do volume de exportações, em 2017 e 2018, combinada com uma política monetária restritiva, que ajudou a reduzir o volume de importações, levou à valorização do metical e subsequente estabilização a níveis de 60 MZN/USD, e à consequente redução da taxa de inflação para níveis de 6%, em 2018. Estes dois exemplos demonstram que, em primeiro lugar, a volatilidade é uma característica desta economia e, em segundo, que, para efectuar projecções, devemos ter em conta o impacto da microeconomia, isto é, as decisões de investimento e de produção de agentes económicos, que pela sua dimensão,poderão ter influência sobre os índices macroeconómicos. Prova disso, foi o aumento das exportações no sector do carvão, em 2017, maioritariamente devido ao aumento de produção da Vale Moçambique, que permitiu a redução do défice da Conta Corrente da Balança de Pagamentos de 35% para 19,5% do PIB, que levou ao equilíbrio do mercado cambial e à recuperação das reservas em moeda estrangeira de 2 mil milhões para os 3,5 mil milhões de dólares. Na minha opinião, a redução do défice e o equilíbrio no mercado
cambial constituiu uma transformação importante na economia nacional, na medida em que vem diminuir, de forma considerável, o risco de desvalorização provocada por uma redução no IDE ou de fundos de doadores, aumentando a correlação da economia aos preços das commodities. É com base nesta transformação do panorama económico que olhamos para 2019. De forma resumida, projectamos a primeira metade de 2019 igual aos últimos dois anos, estáveis mas de crescimento abaixo da média, e a segunda metade a tender para o período 2011 – 2015, alavancada pelas FID da Área 1 e Área 4, por investimentos em projectos de infra-estruturas e no sector de produtos manufacturados. É com grande expectativa, e com um grau de certeza cada vez maior, que se esperam as FID num valor aproximado de 40 mil milhões de dólares para os projectos on-shore das Áreas 1 e 4, liderados pela Anadarko e Exxon respectivamente. O investimento que actualmente estas empresas estão a realizar em infra-estruturas, no reassentamento e instalações para trabalhadores, num valor superior a 500 milhões de dólares, são uma prova de que o arranque da construção dos projectos de extracção e liquefacção do gás está para breve e, parece irreversível. Em consequência, já se verifica um aumento nos investimentos nos sectores que irão ser fornecidos a estes projectos. Por outro lado, a redução nas taxas de juro que se tem vindo a verificar, com tendência a continuar em 2019, poderá aumentar a renda disponível dos Moçambicanos, tendencialmente canalizada para bens de consumo e habitação. No ramo empresarial esta redução irá tornar viável a alavancagem dos balanços das empresas para investimento na capacidade produtiva
Se juntarmos o crescimento das exportações previsto para a indústria mineira, seja na área do carvão, grafite ou areias pesadas, ao investimento na preparação dos projectos de GNL, às indústrias e serviços fornecedores do sector petrolífero e de produção de bens de consumo, é expectável que o crescimento do PIB para 2019 esteja mais próximo dos 5%, o que criará a base para atingir 6% e 7% em 2020 e 2021, respectivamente.
Em resumo, se combinarmos este crescimento com a estabilidade cambial e de preços, temos todos os ingredientes para que haja “luz ao fundo do túnel” e que Moçambique volte a ser um dos destinos preferenciais dos investidores em África.
Com o crescimento das exportações previsto para a indústria mineira e o investimento nos projectos de GNL, é expectável que o crescimento do PIB para 2019 esteja mais próximo dos 5%


é como escapar a um naufrágio e sentir-se próximo à costa…. Daqui em diante, Moçambique retoma o trilho e volta a ter a possibilidade de reerguer a casa que se desfez ao cair no precipício das dívidas… duvidosas... de 2015. O Orçamento do Estado (OE), expressão financeira do Plano Económico e Social (PES) para este ano, traça um cenário animador face à perspectiva de uma retoma rumo à estabilidade, a vários níveis.
A E&M lança um olhar sobre os principais indicadores económicos e sociais do OE 2019, na tentativa de retratar da forma mais realista o que empresas e cidadãos devem esperar do país durante o ano que acaba de começar.
O pior já passou, ou pelo menos, é esta a interpretação que se pode extrair da leitura do Orçamento do Estado para este ano, aprovado pelo Parlamento em Dezembro passado. Mas, a estabilização dos principais indicadores macroeconómicos, com destaque para a taxa de crescimento e para um recorde do valor do PIB, que deve ultrapassar a barreira do bilião de meticais, não deixa, ainda assim, margem para demasiado optimismo retoma da estabilidade anterior à crise. Com este nível de crescimento, a previsão é de que o PIB ultrapasse a casa do bilião de meticais, o que em dólares (16,8 mil milhões de dólares ao câmbio actual), representa a situação do país antes da crise (2015), altura em que a taxa de câmbio rondava nos 30 meticais por dólar (hoje, em torno dos 60 meticais por dólar). De acordo com o OE 2019, o crescimento do PIB será, sem surpresa, influenciado pelo desempenho positivo previsto para os sectores de extracção mineira, que se prevê que cresça 14%, das pescas (6,0%), agricultura (5,5%), educação (5,0%), saúde e Acção Social, e Administração Pública, (ambos com um crescimento de 4,5%).
piB reergue-se
Depois de uma contínua desaceleração do crescimento do PIB, desde 2016, a previsão é de que a economia volte a reanimar. Nesse sentido, antevê-se um crescimento da economia na casa dos 4,7% (face aos 3,7% de 2017), consolidando a tal ideia de
4,7%
O crescimentO dO PiB PrevistO PelO Oe 2019 é influenciadO PelO desemPenhO POsitivO PrevistO nOs sectOres de extracçãO mineira, Para O qual se antevê um crescimentO na casa dOs 14%, nO das Pescas (6,0%) e nO da agricultura (5,5%)
Na indústria extractiva, a locomotiva da economia nos últimos dois anos, os factores determinantes do crescimento e a expansão dos níveis de produção são suportados pelo aumento da produção de areias pesadas (ilmenite e zircão) de Moma, Nampula, do carvão de Tete, rubis e grafite de Cabo Delgado e o gás natural

de Inhambane. Se olharmos ao sector que, apesar do crescente peso das extractivas na economia, mesmo assim mais contribui para o PIB nacional (21,5%), o Governo prevê uma melhoria no desempenho da agricultura, nomeadamente por via do aumento de receitas na comercialização, considerando já o peso da implementação do Plano Integrado de Comercialização Agrícola. Ali está enquadrado o alargamento da base dos produtos para a exportação e a retirada de barreiras tarifárias no sentido de alcançar benefícios no acesso preferencial ao comércio internacional (Economic Partnership Agreement com a União Europeia, em que há um conjunto de produtos dos membros da SADC que deixaram de ser afectados por taxas aduaneiras na importação para o espaço da UE ). Além disso, também a entrada de novos players na aviação civil (FastJet e Ethiopian Mozambique) e a facilitação da cabotagem marítima por via de Parcerias Público Privadas (PPP’s) para explorar as ro-
No sector que, apesar do crescente peso das extractivas na economia, mesmo assim mais contribui para o PIB nacional (21,5%), o Governo prevê uma melhoria no desempenho da agricultura
tas do índico, são factores de peso que levam o Ministério da Economia a prever um ano positivo para a agricultura. Para a história, parecem ter ficado os tempos difíceis em que os preços de praticamente todos bens e serviços básicos (e não só) aumentavam quase diariamente. A inflação média de 20% registada em 2016, estava, no final de 2018, na casa de um dígito (6,8%). E já no presente ano, o índice dos preços continuará a descer, e espera-se que se fique pelos 6,5%. “A desaceleração é consentânea com as medidas que vêm sendo implementadas pelo Governo, no sector monetário e cambial, as quais visam restaurar a estabilidade de preços e aumentar as Reservas Internacionais Líquidas para cobrir as importações e reduzir as pressões inflacionárias”, justifica o OE de 2019.
Uma nova (ou nem tanto) página
Há quase uma década que se fala de gás como o vector de mudança de paradigma de todo um país, tal a dimensão do impacto que os investimentos e as receitas previstas (mais-valias advindas de impostos e royalties nas Áreas 1 e 4, nas próximas duas décadas e meia aproximam-se dos 75 mil milhões de dólares, de acordo com estimativas da ENH) terão numa economia “leve” ao nível do volume do PIB. E é por isso que, mesmo a três anos da primeira exportação de gás da Área 4 (unidade de FLNG, do consórcio liderado por ENI e Exxon) que está prevista para Novembro de 2022, e numa altura em que se aguardam para o primeiro semestre deste ano, as decisões finais de investimento (FID) da área 4 (Golfinho Atum, em que Eni e Exxon são operadores maioritários) e da Área 1 (Anadarko lidera o consórcio), já se sentem os efeitos na economia nacional. Isso aconteceu em 2018 e, em 2019, esse efeito de arrastamento será ainda mais evidente. Os contratos de gás já celebrados e os que vão ser fechados este ano, entre os de prospecção e pesquisa que já atraem os grandes players internacionais (a Qatar Petroleum acaba de entrar nesta lista), tornam relativamente seguro o regresso dos grandes fluxos de IDE a Moçambique depois de uma redução significativa desde 2015 (na casa dos 7 mil milhões de dólares), podendo mais do que duplicar este ano em relação ao ano passado, para 5 769 milhões de dólares (face aos 2,2 mil milhões de 2017). A confirmar-se, seria o regresso da liquidez, essencial para fazer aligeirar as taxas de câmbio, manter os níveis de
Colecta de impostos vai atingir recorde e vale quase 85% do orçamento do estado, o crescimento económico e o IDe regressam a valores pré-crise de 2015 e a inflaçáo média anual continua ‘controlável’
MEta 1
4,7%
CREsCIMENtO DO PIB
MEta 3
5 160
milhões de dólares. Exportações
Recursos internos
Receitas do Estado
Mais-valias

MEta 2
6,5%
taxa DE INflaçãO MéDIa aNual
MEta 4
3 100
Oe 2019
340,4
melhorar a arrecadação de receitas contenção da despesapúBlica
2019 será ano de intensificação das campanhas de fiscalização do IVA; selagem das bebidas alcoólicas e tabaco manufacturado em sede do Imposto sobre o Consumo específico; fiscalização e auditoria pós-desembaraço em sede do Imposto sobre o Comércio externo; Início da marcação de combustíveis; revisão dos regimes específicos das indústrias extractivas.
Foi anunciada a fixação dos limites de despesas de combustível e serviços de telefonia móvel para os dirigentes e titulares de cargos governativos e do sector empresarial do estado; redução do bónus especial em 10% para todas as categorias profissionais passando a estar sujeito a mudança de carreira; uniformização da percentagem do subsídio de deslocação.
reforma no sector empresarial do estado
A Lei n.º 3/2018, de 19 Junho, sujeita as duas primeiras categorias participadas pelo estado ao controlo financeiro e à gestão do risco, que compreende a análise da sustentabilidade, avaliação da legalidade da economia, eficiência, eficácia da gestão e das medidas concretas de prevenção e gestão do risco fiscal e dos limites de endividamento.
milhões de dólares. Reservas Internacionais líquidas
Recursos externos
Donativos
Créditos
aUtonomia do fUndo de pensões
em 2019, para o prosseguimento da autonomia do Fundo de Pensões, serão dotados recursos para o financiamento do início da sua actividade. Para a racionalização de gastos com pensões, será implementado o mecanismo da Prova de Vida, estando em curso a validação dos dados, com base nos processos dos pensionistas.
a despesa: para onde vai o dinheiro...
Despesas de funcionamento vão rondar cerca de 58%. Destas, os encargos com pessoal terão mais peso (quase 31%). Já as correntes deverão fixar-se em 196,5 mil milhões de meticais, 19,3% do PIB, com um agravamento de 0,7% face a 2018
Em milhares de milhões de meticais
CORRENtEs
DEsPEsas
inflação dentro do esperado e a alimentar as Reservas Internacionais Líquidas.
défice da balança comercial aumenta É uma das más notícias de 2019. Por um lado, as projecções do OE apontam para um aumento das exportações para os 5 160 milhões de dólares, (crescimento de 5% em comparação com 2018, em que chegaram aos 4 913 milhões de dólares) ancoradas em cerca de 50% no carvão, que já é o maior produto de exportação do país. Depois, o alumínio da Mozal, electricidade, madeira e tabaco são os outros ‘pesos pesados’ no que a vendas ao exterior diz respeito, apesar de a uma distância considerável dos dois primeiros. Assim, não é surpresa que o impacto dos grandes projectos nas receitas das exportações também cresça para 80%, (face aos 77% do ano passado). No entanto, também as importações irão aumentar, e numa proporção bastante superior à das exportações. Cerca de 36%, ou 2 824 mil milhões de dólares, elevando a factura final de importação, em 2019, para 7 929 mil milhões, o que elevará o défice da balança comercial para 2,7 mil milhões de dólares. Este crescimento das importações já se fez notar, em meados do ano passado, quando dados provisórios do Banco de Moçambique (BdM), apontavam o défice da conta corrente
INvEstIMENtO
COMPONENtE
OPERaçõEs fINaNCEIRas
41,5
102,3 mil milhões de meticais mil milhões de meticais
40,1 COMPONENtE ExtERNa 9,4
DESPESA TOTAL
Despesas do estado 340,4
(trocas comerciais com o exterior e as chamadas transferências unilaterais) com um agravamento de 414 milhões de dólares, descaindo para os 1 596 milhões de dólares no fecho do primeiro semestre. E esta tendência deverá agravar-se em 2019 e nos anos subsequentes. Depois, também se prevê um aumento de importação dos combustíveis líquidos, associado às projecções de aumento do respectivo preço médio internacional. Em resultado do aumento das receitas de exportações e do IDE, as Reservas Internacionais Líquidas, que tinham reduzido para uma capacidade de cobertura de importações de menos de três meses no auge da crise (2016), deverão manter-se elevadas, prevendo-se uma cobertura de até seis meses de importações.
contas públicas ‘desapertam’ o cinto Nas contas globais da receita geral do Estado em 2019, ela aumentará para os 244,2 mil milhões de meticais, face aos 222,8 mil milhões de 2018, 23,9% do PIB. Adicionando as receitas de mais-valias (5,2 mil milhões de meticais cobrados em 2017, na transacção da concessão da área 4 de exploração do gás natural, na Bacia do Rovuma, entre as empresas ENI e Exxon Mobil), os recursos internos passam a 249,5 mil milhões de meticais. “Nunca houve tanta receita”, assume o Investimento na agricultura cresce para 11% do OE

... de onde vêm as receitas... Em
Colecta de Impostos representa quase 85% do orçamento do estado, num ano em que se espera o regresso de apoio externo ao desenvolvimento

pesquisador do Instituto de Estudos Económicos e Sociais (IESE), António Francisco, em entrevista à E&M, dando o seu parecer sobre a economia moçambicana no presente ano. E não é para menos. Três anos sem assistência externa aguçaram o instinto de sobrevivência de um Estado que não tinha outra escolha senão aprimorar a capacidade de mobilização de recursos para financiar as despesas. Nesse sentido, introduziu a selagem de bebidas e tabaco para minimizar o contrabando, criou a marcação de combustíveis, melhorou os mecanismos de tributação de vários impostos existentes e colocou, via BdM, um travão ao crédito. Depois, também foram tomadas importantes medidas relativas ao ambiente de negócios: ao nível dos procedimentos, tempo e custos bancários, alfandegários, logísticos ou de transporte; da execução de contratos, através do encurtamento dos passos processuais exigidos para resolver disputas comerciais, e da colecta de impostos, o que valeu, pela primeira vez em três anos, uma subida de três posições no ranking Doing Business.
apoio externo volta a subir Relacionado com estas medidas, e pela primeira vez desde 2016, espera-se um aumento dos recursos externos do apoio ao desenvolvimento, através do
educação e Saúde continuam as que mais recursos absorvem. em agregado, ‘pesam’ 32,1% da despesa ... e QUanto vai para as áreas económica e social
Em milhares de milhões de meticais
saúde infra-estruturas
agricultura e desenvolvimento rural
acção social e trabalho
sistema judicial transportes e comunicações
financiamento a projectos em diversas áreas, com maior enfoque na agricultura, infra-estruturas, saúde e educação. Este será de cerca de 71,5 mil milhões de meticais (21% do Orçamento do Estado), equivalentes a 7,0% do PIB, e representando um crescimento de 17,4% em termos nominais, comparativamente a 2018. Ao adicionar este valor, o OE de 2019 ascende a 340,4 mil milhões de meticais, dos quais 79% são provenientes de fontes internas e 21% advêm de recursos externos. A este nível, a maior fatia (39%) provém de crédito, no montante de 43,7 mil milhões.
Quanto ao défice orçamental, ele deverá crescer 10 mil milhões de meticais em relação ao ano passado, passando de 80 mil milhões para 90 mil milhões de meticais, apesar de se tratar de um OE definido “como de contenção de gastos”. A este respeito, algumas questões se levantam. A previsão é de que as despesas do Estado cheguem aos 340,4 mil milhões de meticais, 33,3% do PIB, registando um crescimento em 2,8 pontos percentuais face à meta prevista em 2018.
Em termos nominais, antevê-se um aumento de 12,4%, justificado pela “necessidade de garantir a realização das eleições gerais e das acções previstas no Plano Quinquenal do Governo (2015-2019), bem como o funcionamento das instituições
poder local vai receBer mais fUndos
Poder local vai gerir 35% do total dos recursos do oe 2019
Em milhares de milhões de meticais
tOtal DE RECuRsOs 170,5 64,60%
Zambézia e Nampula, as mais populosas do país, recebem a maior fatia dos recursos DEsPEsa DO EstaDO INDExaDa à POPulaçãO
Em
zambézia
de milhões de meticais
nampula
sofala
cabo delgado
maputo província
tete
inhambane
manica
gaza
niassa
maputo cidade

Zambézia vai receber 13,9% do OE dedicado ao Poder local
públicas”, lê-se no documento. “Não é de admirar que as despesas cresçam num país que precisa de tudo para se manter. O importante é que estes recursos sejam direccionados para áreas que garantam retorno e bem-estar das pessoas”, defende o coordenador do Fórum de Monitoria ao Orçamento (FMO), também ouvido pela E&M sobre o OE deste ano (ler entrevista completa na página 34). Neste capítulo, prevalece a “preocupação” em torno do desequilíbrio entre as despesas de funcionamento do Estado e as de investimento (necessárias ao desenvolvimento e criadoras de riqueza, ou de meios para se chegar a ela).
Neste sentido, a previsão é de que as despesas de funcionamento se fixem em 196,5 mil milhões de meticais, 19,3% do PIB, mais 0,7 pontos percentuais que
em 2018, justificados pela necessidade de garantir o pagamento de salários, o funcionamento das instituições públicas através do pagamento de bens e serviços, os encargos da dívida e o suporte aos programas de protecção social.
Já as despesas de investimento continuam relativamente inferiores. Estima-se que rondem os 102,3 mil milhões de meticais, 10% do PIB face aos 81,4 mil milhões de 2018, uma apreciação positiva de 18%. Quanto aos subsídios, o FMI tem pressionado o Governo a fazer cortes de modo a acomodar a necessidade de financiar despesas correntes, perante as dificuldades financeiras prevalecentes. E, em vários aspectos, isso foi feito, tendo os subsídios decrescido significativamente em 2017 e 2018, com a eliminação das ajudas de custo nos combustíveis, pão ou

energia. O impacto desse corte, foi a redução dos encargos de 2 mil milhões de meticais para apenas 735,5 milhões de meticais. Mas, este ano, os subsídios vão contrariar os princípios de contenção de despesas (defendidos pelo FMI) e voltarão a crescer para 1,9 mil milhões de meticais, representando 0,1% do PIB e um aumento nominal de 49,7%, face a 2018. “Este montante será canalizado para as empresas públicas que pelas suas atribuições procedem aos objectivos sociais sem carácter lucrativo, estando contempladas a Rádio Moçambique, Televisão de Moçambique, Hidráulica do Chókwe, Imprensa Nacional de Moçambique, Regadio do Baixo Limpopo, Maputo Sul e Empresa Nacional de Parques de Ciências e Tecnologia”, lê-se no OE de 2019, que acrescenta ainda que “no âmbito do
processo da consolidação fiscal, a restruturação e optimização do funcionamento das principais empresas estatais, constitui um dos objectivos fundamentais do Governo para reduzir a dependência destas do Orçamento do Estado.”
serviço da dívida alvo de críticas
Quanto à dívida pública, o seu serviço deverá atingir 35 mil milhões de meticais em 2019, 3,4% do PIB, representando um incremento de apenas 0,1 ponto percentual, quando comparado ao ocorrido em 2018. Do montante previsto, 24 mil milhões serão alocados ao pagamento de juros internos, e 11 mil milhões para os externos, (2,4% e 1,1% do PIB, respectivamente), António Francisco (IESE), considera que estas previsões não incluem os serviços das dívidas ocultas (avaliadas de 2,2 mil
milhões de dólares), pelo que considera haver aqui “uma distorção da real situação de dívida e do preço a pagar por ela ao longo deste ano.”
Já em relação aos programas de proteção social, espera-se que venham a abranger cerca de 609 mil famílias, face às 567 mil do ano passado, um incremento de 7,4%. Apesar disso, o FMO diz ser “ainda insatisfatório” o esforço do Executivo no sentido de proteger as camadas mais vulneráveis da população.
Ainda a este respeito, o Governo tem sido criticado pela Sociedade Civil, dada a fraca capacidade de cobertura orçamental, muitas vezes avaliada em função da baixa qualidade dos serviços públicos de educação, saúde, transportes, entre outras. No OE deste ano, o Executivo parece querer focar a sua atenção nestas questões, alocando mais recursos para os sectores económicos e sociais prioritários (fortemente na agricultura), estando prevista a alocação de 66,1% da despesa total, cerca de 174,4 mil milhões de meticais (um aumento de 18,3% em relação ao previsto para 2018). Assim, a agricultura beneficiará de 11% do valor do total do OE, (em 2018 recebeu 7,9%), entrando pela primeira vez em cumprimento com os parâmetros da Declaração de Maputo de 2003, da União Africana (UA), em que Moçambique se comprometia em alocar um mínimo de 10% dos seus orçamentos a este sector. Em termos absolutos o montante alocado ao sector deverá passar para os 29,1 mil milhões, a maior parte (15,5 mil milhões) financiados por fundos externos. Educação e Infra-estruturas são os outros sectores beneficiados face a 2018, não obstante a redução dos valores absolutos a serem alocados, com 21,5% (56,7 mil milhões face aos 52,6 mil milhões de meticais ano passado) e 14,9% (39,2 mil milhões face aos 40,9 mil milhões em 2018), respectivamente. Destaque também para a forte redução do financiamento em infra-estruturas (de 30,7 para 16,5 mil milhões de meticais), uma medida que aparenta estar em contra-ciclo, mas que se explica pelo facto de, por exemplo, muitos dos novos contratos de construção ou pavimentação de estradas, entrarem no regime de Parcerias Público-Privadas (PPP), saindo das contas gerais do estado, ou serem adjudicados directamente a companhias estrangeiras, em regime de concessão.

Com base nas previsões do OE 2019, E&M consultou os especialistas de CIP, IEsE, fórum de Monitoria ao Orçamento, fMI e Banco Mundial sobre o que podemos esperar da economia nacional
no desafio lançado pela e&m para um olhar técnico e distanciado sobre as contas gerais do País para 2019, o Centro de Integridade Pública (CIP), o Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE) e o Fórum de Monitoria ao Orçamento (FMO) acreditam numa “recuperação ao nível que é proposto pelo OE de 2019”. Mas consideram que muitos dos pressupostos importantes para uma avaliação precisa do desempenho macroeconómico “são deixados de fora ou mal interpretados, além de que o próprio OE contém lacunas que não possibilitam essa avaliação”, dizem-nos. A pesquisadora do CIP, Inocência Mapisse, considera que “existem uma série de
5,7 mil milhões de dólares vOlume de ide vai aumentar Para quase O dOBrO em 2019, um sinal das mOvimentações dO sectOr dO Oil and gas. mas “cOm POuca rePercussãO” nOs sectOres sOciais
pressupostos que estão a ser equacionados para assumir o crescimento em 4,7% (crescimento na indústria extractiva, na agricultura, liberalização do espaço aéreo, investimento nos portos), dos quais, nem todos são facilmente controlados pelo Governo, pelo que é possível que se desviem e contrariarem as projecções”, adverte. A produção na indústria extractiva, por exemplo, “pode não correr de acordo com o esperado por se tratar de um sector com muita incerteza e dependente de fenómenos de âmbito global entre os quais a volatilidade de preços”, assinala. E um desvio aqui, com o peso que a receita da exportação de carvão tem na conta corrente, pode ser prejudicial
às contas finais do crescimento previsto. António Francisco, pesquisador do IESE afirma que “existem razões para se ser optimista quanto ao bom desempenho da economia, porque o nível de captação de receitas fiscais é espantoso. Neste Orçamento, se os níveis de colecta de impostos se cumprirem, e não há razões para que isso não aconteça, vai ser batido o recorde das despesas e receitas. Nunca houve tanta receita e tanta despesa”, assinala. No entanto, para o investigador, há um lado negativo nesta questão: “de uma maneira geral, a arrecadação aumentou à custa da sociedade, que passou a sofrer de maiores encargos em impostos por via do rendimento ou do IVA. Paralelamente, as empresas enfrentam dificuldades porque a disponibilidade de crédito não aumentou, perante o aumento da concorrência com o Estado na busca de financiamento interno”, diz, e antevê que “os picos de arrecadação fiscal poderão não resultar na melhoria das condições de trabalho do sector privado nem dos serviços públicos aos cidadãos, e a desculpa será a de que o problema está na falta de apoio externo.”
A pesquisadora do CIP assume uma tónica semelhante nas conclusões acerca da consolidação fiscal que o Governo promete para este ano, e que, segundo ela, “poderá significar a intensificação das campanhas de cobrança de impostos, o que vai pressionar ainda mais o sector privado, podendo agudizar as dificuldades financeiras, colocando muitas empresas em risco de insolvência ou falência, factor com implicações no desemprego e que pode comprometer as próprias metas de arrecadação de receita e de crescimento.”
a já antiga questão do ‘crescimento vs desenvolvimento’
Mais focado nas questões sociais, Joaquim Oliveira, coordenador do FMO, mostra preocupação em relação ao modelo de distribuição de renda. “Avaliando o conteúdo do OE de 2019, não vejo impacto do crescimento que se projecta na melhoria da qualidade de vida dos mais carenciados, cujos números aumentam dramaticamente todos os anos, mas os recursos permanecem quase os mesmos. Se há mais recursos a serem arrecadados porquê não se amplia na mesma proporção a assistência aos mais pobres?”, questiona. No OE, prevê-se que os fundos de protecção social básica irão aumentar 7%, para 3,9 mil milhões de meticais. Para Inocência Mapisse, mais do que “ar-
DEsEMPENHO MaCROECONÓMICO POsItIvO
todos os indicadores apontam para melhoria substancial do desempenho da economia e sustentam o crescimento de 4,7% do PIB em 2019
CREsCIMENtO REal DO PIB
INflaçãO MéDIa aNual
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Em meses de cobertura de importações
INvEstIMENtO DIRECtO EstRaNGEIRO
milhões de dólares
POPulaçãO Em

“Existem
razões para se ser optimista quanto ao bom desempenho da
economia, porque o nível de captação de receitas fiscais previsto no OE é espantoso”
recadar muito dinheiro proveniente do IDE (5,7 mil milhões de dólares previstos)”, será importante definir como este ajudará, precisamente no desenvolvimento. “Não é clara no OE a ligação que este sector (extractivo) terá com a agricultura, manufactura e com a industrialização no geral, no sentido de expandir a possibilidade de ampliar postos de trabalho e melhorar a qualidade de vida das pessoas”, lamenta a economista.”
espaços em claro
António Francisco refere que, no OE, há algumas lacunas ao nível da clareza de acções, por parte do Executivo. Refere-se
“a saldos de caixa que não transitam para o OE do ano seguinte como uma questão importante e que permanece por resolver ao nível da transparência de que tanto se tem falado nos últimos dois, três anos”, reitera. Ou seja, há um volume considerável de dinheiros públicos remanescentes, os quais não se sabe onde irão ser efectivamente alocados. “Em 2016, por exemplo, o saldo de caixa fechou com cerca de 73 mil milhões de meticais, mas no início de 2017, o mesmo saldo sofreu uma erosão, ficando em apenas 32 mil milhões de meticais, de forma injustificada, sendo direccionado para as chamadas
‘Outras Contas do Estado’ que ninguém conhece muito bem”, alerta. Esta é, de resto, uma questão que o economista espera ver explicada pelo relatório do Tribunal Administrativo.
Ainda dentro deste capítulo, revela “alguma estranheza” pelo facto de se considerarem as despesas para as eleições gerais deste ano (mais de 5 mil milhões de meticais) como sendo de investimento, dando a entender “que o défice corrente é reduzido, já que os gastos correntes, aparentemente não aumentam e melhoram a percepção de estabilidade.”
os ‘avisos’ do fmi e do Banco mundial Numa apresentação feita a 22 de Novembro do ano passado, um corpo técnico do FMI que esteve em Maputo para avaliar os passos dados por Moçambique no campo das medidas macroeconómicas, manifestava “optimismo” quanto ao bom desempenho da economia nacional durante o ano de 2019.
As projecções de crescimento do PIB estão em linha com as do Governo (4 a 4,7%), e quanto à inflação até era ainda mais optimista, apontando para os 5,5%, ancorados na estabilidade cambial. No entanto, a missão liderada por Ricardo Velloso, assinala que “Moçambique deve prosseguir com a consolidação fiscal, a melhoria da governação, transparência e responsabilização e reformas estruturais para melhorar o ambiente de negócios e diversificar a economia e as exportações”.
Já o Banco Mundial (BM) é menos optimista quanto às contas deste novo ano, prevendo que a economia cresça apenas 3,5% este ano e 4,1% em 2020, assumindo que só então, se irá sentir a aceleração “a um ritmo mais elevado com o desenvolvimento dos projectos de gás natural liquefeito”, diz-nos o director do BM em Moçambique, Mark Lundell. “Ainda subsistem riscos relacionados com as baixas de preços das principais matérias-primas de exportação (carvão, alumínio ou tabaco) e de um aumento das importações, se se confirmar uma retoma do consumo, depois de a retracção chegar ao máximo. No entanto, as reformas que têm sido levadas a cabo e o esforço da aposta no sector da agricultura são muito encorajadores e irão dar resultados positivos para a economia nacional”, conclui.


JOaquim OlivEira Coordenador do Fórum de Monitoria do Orçamento (FMO)
pela natureza das suas atribuições (monitorar e influenciar positivamente a implementação de políticas fiscais e financeiras, tendo como base o Orçamento do Estado em benefício dos grupos socialmente menos favorecidos) o Fórum de Monitoria ao Orçamento (FMO) já acostumou a sociedade civil uma visão tradicionamente crítica em relação à forma como o Estado gere os dinheiros públicos.
A entrevista com Joaquim Oliveira, coordenador desta plataforma, acaba por ser mais uma prova disso mesmo, deixando latente como o Estado tem, segundo aquele responsável, “faltado com uma das suas principais obrigações” ao fazer “tão pouco ou quase nada” a favor dos que mais precisam (pobres, velhos, deficientes, mulheres e crianças).
Já no campo económico, Oliveira destaca a “fraca atenção” para com a agricultura, o sector que mais contribui para a economia, e expressa de forma geral, transversal e resumida a visão de toda a Sociedade Civil em relação ao que se espera do OE de 2019.
De um modo geral, que ilações o FMO colhe dos documentos que fazem a projecção da economia moçambicana para este ano, nomeadamente as propostas do Plano Económico e Social (PES) e o Orçamento Geral do Estado (OE) olhando para a conjuntura interna e para os riscos externos?
HiStOriCAMEntE, A prOtECçãO SOCiAl
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E dOEntES
quanto ao OE, o governo moçambicano tem tido a tendência de manter as suas projecções para os sectores sociais muito abaixo do desejável. A tendência é praticamente estacionária. por exemplo, os recursos a serem alocados para programas de protecção Social vão aumentar apenas 250 milhões de meticais entre 2018 e 2019, ao sair dos 3 665,8 para 3 915,8 milhões de meticais. E mesmo este pequeno crescimento não é justificado pela capacidade de arrecadação de receitas nem pela capacidade de contenção da despesa pública. de um modo geral, esta é a grande contestação que levamos ao Conselho de Ministros, através do Ministério da Economia e Finanças, bem como à Comissão do plano e Orçamento da Assembleia da república (Ar).
Mas foi a pensar em fazer chegar recursos a quem mais precisa deles que se introduziu a importância da descentralização para a gestão dos recursos a nível local. O que vai mudar a esse respeito? no pES e no OE de 2019, cerca de 65% dos fundos ainda estão alocados aos órgãos centrais, o que sugere que a descentralização da gestão dos recursos ainda não é satisfatória. Este nível de concentração de recursos a nível central dificulta a redistribuição da riqueza, em prejuízo, mais uma vez, dos sectores sociais, nomeadamente a saúde, educação,

protecção social, incluindo a desnutrição que continua a ser um problema muito grave em Moçambique e que poucos abordam, mas que pode condicionar o desenvolvimento social e económico do país nas próximas décadas.
Qual seria a percentagem dos recursos que o FMO acharia indicado para ser gerido localmente, de modo a gerar um impacto satisfatório na assistência aos mais carenciados?
Só 35% do OE para o nível local é pouco para gerar resultados satisfatórios na protecção social. Mas o problema central nem é o peso percentual do que é colocado para a gestão local. A questão é a forma como esses recursos são aplicados. Ou seja, à semelhança do que acontece a nível central, também a nível local os recursos não são utilizados de modo a criarem benefícios sociais às populações vulneráveis. O problema está no facto de as despesas de funcionamento estarem muito acima das de investimento, o que dificulta a criação de condições para a redistribuição da riqueza. É curioso, também, o facto de o governo ter considerado o Orçamento para as eleições gerais deste ano (6 500 milhões de meticais) como despesa de investimento. isso cria uma ilusão na interpretação da informação, do ponto de vista contabilístico, porque as eleições são, de longe,
dos fundos ainda estão alocados aos órgãos centrais, “o que sugere que a descentralização da gestão dos recursos ainda não é satisfatória porque dificulta a redistribuição da riqueza em prejuízo dos sectores sociais”
despesas de funcionamento que não trazem qualquer retorno económico global.
Na Proposta do OE 2019, o Governo diz estar comprometido com a causa da protecção social. Fala, inclusive, de uma estratégia para abranger um maior número de pessoas vulneráveis através dos Programas de Serviços de Acção Social (ProSAS) e dos Programas de Atendimento em Unidades Sociais (PAUS). Isto não é positivo? Historicamente, a protecção social tem sido coberta pelos parceiros de cooperação e organizações da Sociedade Civil, que são entidades que chegam às zonas mais recônditas do país e trabalham com as pessoas mais vulneráveis, deficientes e doentes. O Estado não tem apostado muito nesta componente. limita a sua acção ao mecanismo estabelecido através do instituto nacional de Acção Social. Mas protecção social é muito mais que isso. Os pacotes básicos que o governo providencia para grupos muito reduzidos da população vulnerável, em muitos casos sem critérios bem elaborados sobre a sua elegibilidade, são muito descontínuos.
A imagem que fica sobre o fraco cometimento com a Protecção Social não será justificada pelas dificuldades financeiras do Estado, que pioraram com o fim da ajuda externa sobreposta à crise económica recente? na minha opinião, o governo tem-se suportado no apoio dos parceiros e das organizações da Sociedade Civil, e usa essa estratégia para não colocar recursos suficientes na protecção social, desviando-os para outras acções em sectores que considera serem prioritários, mas que não têm retorno económico, nem grande impacto na vida das pessoas, como a segurança do Estado, a Casa Militar ou a presidência república.
Há previsão de um salto encorajador no desempenho macroeconómico, com o PIB a crescer a 4,7% este ano, podendo ultrapassar, pela primeira vez, a barreira de 1 bilião de meticais. Este indicador dá a ideia de consolidação da recuperação após a crise que começou em 2015. Pelo menos por aqui estamos bem, não lhe parece?
Os números em si são bastante satisfatórios, mas fica sempre uma preocupação que está relacionada com o desenvolvimento. Se esse crescimento se verificar, que impacto terá na qualidade de vida
das pessoas, deixo a pergunta. um dos aspectos a tomar em consideração é que, apesar do discurso político que defende a diversificação, a economia tende a ser mais focalizada no sector extractivo e menos na agricultura, a base do desenvolvimento. A agricultura, que absorve maior parte da força de trabalho (aproximadamente 75%), está a beneficiar de menos atenção do que devia. Curioso é que para o presente ano fala-se de cerca de 11% do Orçamento global que serão alocados ao sector, contra 7,9% do ano passado. E a pergunta que colocamos é: onde irão buscar os montantes para crescer de forma acentuada?
Onde lhe parece que isso será feito? Os números parecem mais políticos do que reais, para satisfazer a condição imposta pela declaração de Maputo, de 2003, (segundo a qual governos dos países da união Africana devem alocar pelo menos 10% dos respectivos orçamentos ao sector da agricultura). Então, quando se chega aos 11% temos de admitir que parece ser um número mais forjado do que real. vamos ver, esperemos que não.
Pela primeira vez depois da eclosão da crise, em 2015, os recursos internos deverão aumentar. Acredita ser este o primeiro sinal de retorno dos doadores? de facto, haverá entrada de recursos externos (71 465,5 milhões de meticais, equivalentes a 7% do pib) para apoiar determinados sectores. Há programas sectoriais em que os doadores continuam a apostar, casos de programas de saúde, onde vão entrar fundos americanos através da uSAid e fundos da uE que foram prometidos para apoiar o sector social, no valor de cerca de 50 milhões de euros. Estes vão aliviar a pressão nos sectores programáticos onde forem aplicados e não no OE, que continuará sem receber assistência externa. A retoma dos doadores é uma questão bastante mais complexa.
Uma das notas que tem sido levantada pelo FMO sobre o PES e o OE, todos os anos, faz referência à ausência ou falta de clareza das informações lá contidas, e que acabam por criar zonas de penumbra na interpretação dos mesmos. A que informações se referem?
“AuMEntO dO invEStiMEntO nO SECtOr AgríCOlA É uM ASpECtO dE lOuvAr, EMbOrA nãO SEJA AindA
SuStEntAdO COnvinCEntEMEntE”

não há informação clara sobre a distribuição dos recursos pelos sectores, por exemplo. O FMO entende que essa falta de informação é propositada para permitir a sua sonegação a quem pretenda utilizá-la e limitar a pressão sobre o que é feito do dinheiro público. todos os anos, falamos com o Ministério da Economia e Finanças sobre isto mas a justificação que nos dá para colocar a informação de forma muito aglutinada e sem detalhes, não é plausível. Alega sempre aspectos confidenciais e que é preciso salvaguardar a soberania, em determinados pontos.
Que sugestões deixa para dar a volta a tudo o que não está bem no desempenho macroeconómico nacional, nas mais diversas vertentes?
Em termos económicos, para haver maior capacidade de arrecadação de receitas, tem de haver maior produção, e isso não está a acontecer. por exemplo, não há incentivos para a produção na agricultura, que é a base do desenvolvimento; não há incentivos noutros sectores produtivos senão na indústria extractiva. E mesmo aí, as florestas (sobretudo a madeira) não estão a ser plenamente exploradas, ou pelo menos da forma mais desejável em termos de sustentabilidade. Outra forma de robustecer a economia seria a contenção mais significativa da despesa em sectores que não agregam muito valor à economia, casos da defesa e segurança. Os números no OE e no pES não possibilitam saber se realmente existe a contenção de despesas.
Quais os aspectos positivos no desempenho da economia previstos para 2019? O que notamos e o que salta imediatamente à vista é o aumento do investimento no sector da agricultura de que falávamos. E temos de dizer que é um aspecto de louvar, mas também que não nos parece que esteja devidamente sustentado por argumentos e números convincentes, como dizia. Outro aspecto positivo que devemos mencionar tem a ver com o facto de os principais sectores de soberania (defesa e Segurança) terem visto o seu “bolo” reduzido em relação ao acumulado histórico dos anos anteriores, provavelmente devido ao ambiente de paz que o país vive. E isso temos de elogiar.
tExtO Celso Chambisso fOtOgrafia Jay Garrido

Uma viagem (acidentada) pela paisagem social, cultural e económica, entre Cuamba e Lichinga, pelos caminhos despavimentados do presente, sem esquecer as novas vias rápidas que o futuro há-de fazer nascer
são 15 horas de um dia de semana e o centro da cidade de Lichinga é o paradigma da província a que preside: quase parado, com esparsa gente circulando lenta, numa letargia expectante. Sem que nada aconteça realmente. O âmago urbano é assinalado por uma rotunda que motorizadas sobrelotadas, mais um ou outro carro, circundam por vezes, num trânsito demasiado escasso para uma capital provincial. Mesmo que tratando-se de Niassa, a província nortenha que é a maior de Moçambique, com 129 mil quilómetros quadrados (km2), e também a menos povoada – o Censos de 2017 registava 1,8 milhões de habitantes,
prOvíNcia niassa
capital Lichinga
área 129 000 km2
DiStritOS 16
pOpulaçãO 1,8 miLhões
DeNSiDaDe
DeMOGráFica 14,5 por km2
a maioria deles de etnia macua. Nos arrabaldes desse redondo nuclear e dolente, fazem-se representar todos os pólos de poder que usam comandar os destinos da Humanidade.
promessas de milagre
Desde logo, o político. Mais do que a sede do Governo Provincial do Niassa, rectilíneo edifício dos finais da década de 1950 assente em pilotis, impõe-se a usual estátua norte-coreana de Samora Machel, o mítico presidente seminal do Moçambique independente, plantada na Praça da Liberdade. E, à semelhança da cidade de fundação recente (cerca de 1930), também
ele ficou cristalizado com o dedo impositivo indicando, talvez, a origem mais provável desse milagre capaz de resgatar o Niassa ao estupor em que vive – o céu, consabida morada dos deuses.
E a eles, essa poderosa abstração, não lhes falta ali delegações para despacho dos milagres que hão de providenciar: de um lado, bem visível da Avenida Samora Machel, a catedral católica legada pelos colonos, solitária no meio de um terreiro algo descabelado; mais adiante, uma mesquita sem grandes brios, que passaria discreta não fosse o muezim de serviço a recordar os fiéis à hora aprazada; e, onde era o Cinema ABC, acantonaram-se os evangélicos da Igreja Universal do Reino de Deus a garimpar misérias em troca das promessas de curas instantâneas e dias mais afortunados.
Prometendo fortunas encontra-se também, à volta da rotunda, outro dos poderes fácticos: a banca. Mais próxima de Machel fica o BCI, instituição financeira com mais balcões do país; no outro lado da Praça da Liberdade, em simetria perfeita, o Moza Banco, ainda a lamber feridas recentes; e, mais afastados (mas não muito), o balcão do Millennium bim à face da Rua Filipe Samuel Magaia, a poucos passos da delegação do Banco de Moçambique. Do poderoso trio, são estes que menos movimento registam. Porque se da laica burocracia administrativa e do místico apelo religioso é difícil escapar, a frequência do pragmatismo bancário exige dinheiro, matéria escassa numa província cujo potencial – agro-florestal, turístico e mineral – tarda em explorar. Para que o Niassa se torne, mais do que alfobre de promessas por cumprir, na Terra Prometida.
Miragem de Fartura
Ainda assim, terra. Imensa, de cor almagre, cuja fertilidade se faz evidente no local mais buliçoso de uma cidade rural como Lichinga – o Mercado Central. Abre-se para a estrada com as bancas das frutas e vegetais, numa profusão de cores e cheiros gerida pelas mamanas que zelam pelo aprumo do mostruário. Mas a promessa implícita na exposição de tanta fartura revela-se, também ela, ilusória. “Há mais produtos para vender, mas há menos clientes”, lamenta Celina Nhantumbe, de 52 anos e mãe de dez filhos. Natural de Maputo, foi enxotada para o Niassa pela famigerada Operação Produção. Se pudesse, volvia à capital, porque em Lichinga “a vida está mal. Muito mal mesmo”. Tão mal que nem o marketing a que re-
Milhões de habitantes
Niassa é a maior ProvíNcia em área, mas a meNor do País ao Nível dos Números da PoPulação, o que tem custos elevados, talvez demasiados. ao Nível da desPesa, a ProvíNcia receberá aPeNas 2,4% do oe destiNado às ProvíNcias, uma vez que a distribuição de recursos Para o Poder local é iNdexada ao Número de habitaNtes
corre Rosa Ndala se mostra eficaz. “Ponho aqui os alhos já descascados para ver se as pessoas compram pela facilidade, mas não há maneira...”, diz a matrona de 50 anos que criou, sozinha, três filhos com o apuro do comércio. Outros tempos. “Aqui não há empresas, não há dinheiro, então as pessoas não têm como comprar. E são poucas, consomem pouco e tudo apodrece de qualquer maneira. Era preciso existirem empresas para transformar isto tudo que a machamba dá”, reclama.
E com razão. Aos factores que Ndala enumerou, acresce a falta de um sistema industrial de frio que prolongue a vida útil aos produtos. Talvez por isso haja, nas traseiras do mercado, tanto peixe seco e fumado. Inocêncio António oferece um catálogo mitigado do pescado comestível da província, como o chambo, do lago Amaramba, o jila, do rio Lugenda, ou utaca e ussipa, resgatados ao vasto azul do Lago Niassa onde nadam mais de 1 300 espécies. Depois da agricultura, que representa 80% do PIB da região, é a pesca artesanal, praticada por 9 000 operários do anzol, que movimenta o dinheiro do povo e lhe aplaca a fome. Inocêncio sorri: “O negócio está a andar, o movimento tem sido bom”, garante. Pior sorte tem o sector das carnes. Depois do corredor com farinhas, fica num cubículo nauseabundo de azulejo encardido e que a incúria de décadas converteu num lodaçal de sangue e vísceras. No meio dessa mixórdia de alto risco sanitário ufana-se um jovem no manejo do machado para talhar a carcaça de um cabrito. E, a cada movimento da lâmina romba sobre o cepo, agita-se um enxame de moscas residentes, ensaiando uma coreografia no limiar do vómito... O talho do Mercado Central é um perigo e um exclusivo dos mais ousados.
aventuras no deserto Ousadia e bravura, quiçá um bocadinho de loucura, assistiram Amália Lança e João Araújo quando rumaram de Maputo para Lichinga, há 16 anos. “Não havia nada”, recorda Amália. “Hoje, está melhor, graças às obras na ferrovia (trouxeram muita gente, mas já acabaram...) à macadâmia e aos madeireiros. As universidades pouco acrescentaram e Lichinga, de urbano, é quase só o nome”, declara. Habituada a contextos mais cosmopolitas, estranhou a ausência de restaurantes, cafés e espaços de fruição cultural. Dedicou-se ao trabalho. Como terapia ocupacional e a ver se fazia flo-

de vias de acesso asfaltadas é um dos grandes obstáculos ao desenvolvimento do Niassa
O investimento está ainda em processo, na cadência própria de Lichinga. Não há estradas que justifiquem maior velocidade e o tempo ganha uma dimensão superlativa por ali
rir o deserto. Se o milagre acontecia. Aconteceu, de certo modo, pois que do afinco do casal nasceu a ACOL – Araújo Construções, cujo estaleiro tem crescido em função do investimento público nas empreitadas infra-estruturais. Tal como o portfólio da empresa, entretanto crismada JP Invest e enriquecido por uma clínica com laboratório, internamento e farmácia associada; uma residencial de 25 quartos e piscina semi-olímpica – “o João gosta de exercício e a natação dá-lhe prazer”, diz Amália –; e um complexo turístico na orla do Lago. Investimento este ainda em processo, na cadência própria de Lichinga. Não há estradas que justifiquem maior velocidade: “Parecendo perto, pouco mais de 100 quilómetros, o Lago acaba por ficar a três horas daqui, numa viagem sem conforto”, diz a empresária. “E, ao contrário do que acontece na orla do Malawi, não temos estruturas de apoio que façam os turistas ficar”, afirma. Aqueles terão sido 60 mil o ano passado, segundo cálculos do Governo Provincial, cujo optimismo e fé prevêm que, daqui a uma década, haja pelo Niassa mais de 200 mil forasteiros a cirandar todos os anos.
Como esse maná é ainda uma miragem, Amália e João orientaram as prioridades noutro sentido – a construção e exploração de bombas de gasolina. “Em 2008, o Governo lançou o programa “Incentivo Geográfico” para que todos os distritos tivessem um posto de abastecimento a construir com verbas do Fundo Nacional de Energia (FUNAE)”. A inauguração do primeiro ocorreu em 2010 em Metangula. “Fomos nós que o fizemos, como todos os da província à excepção de Metarica. Agora gerimos três bombas em regime de concessão”, contabiliza Araújo. Prepara-se para partir para Cuamba, concluindo o mata-bicho frugal à mesa da loja de conveniência e restaurante que a JP Invest abriu no posto que explora à saída de Lichinga, no estradão conducente à capital financeira da Província. Ali, o casal tem uma residencial de 16 quartos ocupada pelo pessoal da Mota Engil encarregue da manutenção da via férrea e perspectiva outros negócios –porque é preciso ir onde o dinheiro está.
vias sacras do paraíso E ele está longe, apesar de tudo. Custa fazê-lo circular numa província que,
dos 460 quilómetros de vias, só tem 6% asfaltadas. O cenário começa, porém, a mudar, com as promessas a ganharem a concretude do alcatrão precisamente na estrada para Cuamba. Mas, porque não há milagres, enquanto os chineses se ufanam a estender o tapete betuminoso de 94 quilómetros entre Muita e Massangulo, o qual há de estar concluído no final deste ano, o percurso acidentado é uma via sacra a testar os limites da mecânica automóvel e da paciência dos viajantes.
Até Madimba – e para lá dela –, povoação que vive da proximidade com o Malawi e do comércio que ela proporciona, resgata-os a paisagem deslumbrante que envolve a picada. O horizonte de profuso verde, onde se suspeita da presença de basta fauna bravia, é dominado por montanhas altas, ornadas por gargantilhas de nuvens e na sombra das quais desfilam aldeamentos de palhotas. Na cobertura de capim de algumas divisam-se pequenos painéis solares, única forma de alimentar telemóveis. Porque a energia eléctrica não chega ali.
E, não obstante a pobreza relativa que campeia, com as crianças espolinhando ociosas com galinhas e porcos, sem censuras nem recriminações, enquanto as mães acarretam a economia familiar à cabeça, os aglomerados estão impecavelmente limpos e, no terreiro principal de todos, avultam acácias vermelhas. Frondosas, saudáveis, livres, como bandeiras assinalando a vaidade e orgulho do povo que se faz transportar, a maioria das vezes, de bicicleta. Rumo à machamba, à barraca da venda ou a novo dia de pouco fazer por nada haver...
O trânsito motorizado só volta a ter expressão em Cuamba, a cidade mais populosa do Niassa. Constituída em vasto e frenético entreposto comercial, sucedendo-se as barracas da informalidade usual, é também o vértice principal do triângulo que, com Lichinga e Marrupa – onde se chega por uma estrada de montanha, tortuosa e agreste, mas ainda mais bela que a EN13 –, domina a geometria económica da província mais pobre de Moçambique. O Niassa contribui com apenas 3% para a riqueza do país, o que representa, mais do que a falência da província, o desconseguimento em dar expressão efectiva à nação que se quer una do Rovuma ao Maputo. Sobram os postais.

como a implementação de novas técnicas agrícolas está a gerar cadeias de valor e a mudar as vidas de milhares de famílias na província do niassa
How the implementation of new agricultural techniques is generating value chains and changing the lives of many families in Niassa Province
daimo diquissone não esconde a inteligência irrequieta, disponível para aprender e nunca parar de arriscar. Graças a ela e ao apoio da GAPI, Diquissone começou uma pequena revolução, introduzindo novas culturas, como a soja, e novos modos de trabalhar a terra. E com assinalável êxito e o evidente acréscimo no rendimento da sua machamba, no Posto Administrativo de Lissiete, a 15 quilómetros do centro de Mandimba, na Província de Niassa, colhe agora, mais do que a curiosidade inicial e admiração posterior, a adesão da vizinhança, a qual, no início, se manifestou céptica face às novas técnicas de semear,porque é difícil mudar hábitos de gerações. “Devo dizer que, a princípio, nem eu acreditava que, em terra rasa como essa, se podia aumentar a colheita.
A cultura em canteiro é uma tradição daqui da nossa Província do Niassa, mas tem a desvantagem de não se aproveitar tanto a terra. A produtividade por hectare é menor”, reconhece Diquissone.
“Os vizinhos, quando me viram a demolir canteiros, acharam que eu tinha problemas na cabeça; mas, agora, querem mudar também. Querem todos saber como é, porque viram que resultou”, afirma. O agricultor de 38 anos, que produzia, na remota machamba de um hectare, amendoim e feijão boer em canteiro, é hoje um homem satisfeito por ter acatado as indicações do técnico da Gapi que lhe dá assistência – capacitação, consultoria e treinamento – no âmbito do PROMER (Programa de Promoção de Mercados Rurais nas províncias de Niassa). “A colheita de Maio do amendoim correu muito bem, a de gergelim também e a soja rende tanto como eu não esperava...”, afirma. De tal modo que duplicou a área de cultivo e já contrata, “para ajudar a capinar,
daimo diquissone does not easily hide the restless intelligence, always kean to learn and never stop to take chances. Thanks to it, and the support of GAPI, Diquissone began a small but meaningfull revolution, introducing new crops, such as soy, and began his search for alternative ways of working the land. And with remarkable success and the evident increase in the income of his farm, located at the administrative post of Lissiete, 15 kilometers from the center of Mandimba, in Niassa province. He was skeptical at first, because of the new techniques of sowing, because it is difficult to change the habits of generations. But all has changed. “I must say that, at first, I did not even believe that in a shallow land like this one we could increase the harvest. Crop culture is a tradition here in Niassa Province, but it has the disadvantage of not taking so much advantage of the land. Productivity per hectare is usually low“, says Diquissone.
“The neighbors, when they saw me demolishing flowerbeds, thought I had head problems! But now they want to change it too. They want everyone to know how it is, because they saw that it worked“, he tells.
The 38-year-old mozambican farmer, who was producing peanut and boer bean on a remote farm, is now a man who is satisfied that he has complied with the advice of the GAPI technician who provides him with training, consultancy and training of PROMER ( Program for the Promotion of Rural Markets in the provinces of Niassa). “The May harvest of the peanut went very well, the sesame crop also and the soy yields as much as I did not expect” he says. In such a way that it doubled the area of cultivation and already contracts, “to help




cinco ou seis homens por campanha”. Começou a cultura da soja, de alto rendimento, por sugestão do técnico da Gapi, cuja assistência não se limita ao aconselhamento: “A Gapi diz-me como preparar o campo, ensina a fazer a sementeira e dá respostas sempre que quero saber como melhorar as coisas da machamba”, reporta Diquissone, ilustrando benefícios da colaboração: “No gergelim, foi a Gapi que forneceu o pulverizador e me disse como usar. Estou mesmo satisfeito porque, o ano passado, se não fosse a Gapi já não tinha como ter semente”, declara. A machamba actual, aberta no meio de vasta mata que também é pertença de Diquissone por via de uma herança, já não lhe chega para acolher o acréscimo da produtividade que ocorreu entretanto. Por isso, enquanto olha em redor e de sorriso aberto, Daimo Diquissone, pai de quatro filhos, planeia a expansão. “Tinha um hectare e já dupliquei. Como estas matas me pertencem, no próximo ano espero já ter cinco hectares”, diz, manifestando o desejo: “Espero que a Gapi continue comigo”.
TexTo & FoTograFia Gapi para a E&M
to weed, five or six men per campaign”. The high-yielding soybean crop began at the suggestion of the GAPI technician, whose assistance is not limited to counseling: “GAPI tells me how to prepare the field, teaches sowing and answers whenever I want to know how to improve things on the farm “reports Diquissone, illustrating benefits of collaboration: “In sesame, went to GAPI who provided the spray and told me how to use. I am really pleased that last year, if it had not been for GAPI already I could not have seed”, he reports.
His present farm, open in the midst of a vast forest is no longer enough for him to collect the gains of the increase of the productivity that has occurred in the meantime. So while looking around and with an open smile, Daimo Diquissone, a father of four, plans to expand.
“I had one hectare and I already duplicated. As these woods belong to me, next year I hope to have five hectares, “he says, expressing the desire: ”I honestly hope tha GAPI stays with me.“
ContEnt by gaPi To e&M

Parceiro de longa data de Moçambique, o Banco Africano de Desenvolvimento revela à E&M as linhas de actuação definidas para os próximos quatro anos, garantindo o foco dos apoios nas áreas da agricultura e infra-estruturas
o banco africano de desenvolvimento (BAD) garante que, apesar das convulsões da economia nacional, não recuou nem irá reduzir o apoio a Moçambique face à deterioração da imagem do país, causada pela revelação da história da dívida pública não declarada aos parceiros de cooperação. E, pelo contrário, assume que vai elevar a sua presença em diferentes projectos ao longo dos próximos anos, tendo já aprovado a “Estratégia Nacional de Moçambique 2018-2022”, que lança as linhas gerais de ataque às áreas mais críticas para o desenvolvimento socioeconómico.
Em finais de Novembro passado, o BAD havia apresentado, em relatório, o impacto socioeconómico da sua interven-
ção nos projectos de desenvolvimento desde que está presente em Moçambique, com destaque para o período entre 2007 e 2017 (ver caixa na página 46). Pouco mais de 42 anos de parceria com o Governo, mais de 100 projectos de desenvolvimento financiados nos últimos 10 anos, num investimento de mais de 2 mil milhões de dólares, são números que fazem relevar a importância do BAD para a economia nacional. Quanto ao futuro, ele é lançado numa entrevista à E&M, pelo representante do BAD em Moçambique, Pietro Toigo, que revela que a agricultura será um dos principais pilares da intervenção do BAD, com o objectivo geral de “gradualmente substituir a importação de produtos agríco-
las elevando a produtividade e competitividade interna sem elevar as taxas de importação.” E anuncia também um “forte” investimento na industrialização do sector através da criação de centros de processamento para agregar valor à produção, dando até o exemplo do cacau, em que “80% do valor é realizado depois do processamento e do marketing, o que prejudica os países africanos que o exportam e só realizam 20% do valor final”, lamenta Pietro Toigo. Outro grande pilar de intervenção do BAD serão as infra-estruturas, através do financiamento à construção e reabilitação de estradas, expansão do acesso à rede energética e abertura de novas fontes de abastecimento de água.
Qual é o peso de Moçambique no volume de apoio do BAD em África?
No ano passado desembolsámos 5 mil milhões de dólares no continente africano... parece muito, mas são precisos cerca de 30 mil milhões de dólares por ano para investir no desenvolvimento sustentável. E a única maneira de fechar este défice é trazer investimento privado. Em relação a Moçambique, a capacidade de endividamento é limitada devido ao elevado nível de dívida pública, pelo que, agora e nos próximos dois anos (2019-2020), iremos conceder apenas donativos.
Quantos projectos e quais os montantes previstos na estratégia 2018-2022, do BAD para a economia nacional?
A nossa estratégia não prevê orçamentos nem para agricultura nem para as infra-estruturas. Temos uma matriz de projectos que consideramos alinhados com a própria estratégia. Tipicamente, as infra-estruturas são mais caras que a agricultura. Mas, em relação à estratégia de financiamento, o BAD tem a vantagem de possuir uma janela pública e outra privada e isso é importante porque a janela pública – o Fundo Africano de Desenvolvimento – concede ao Governo recursos de baixo custo, que possibilitam criar infra-estruturas públicas que estimulam o investimento privado. São estas janelas que possibilitam que os planos sejam materializáveis financeiramente.
A agricultura é o principal foco do BAD em Moçambique. Porquê?
Porque é no sector familiar que existirão mais ganhos de escala em termos de produtividade. A ideia é melhorarmos o desempenho da agricultura familiar através da expansão do apoio técnico e do acesso a meios de produção, sobretudo de fertilizantes, visto que Moçambique tem a taxa mais baixa de utilização de fertilizantes da África Austral (o Malawi, com uma superfície quase sete vezes menor que a de Moçambique, utiliza três vezes mais fertilizantes). Finalmente, será preciso um agregador que deverá ser o processamento ou a compra e a distribuição da produção, sempre com operadores de escala que cheguem aos pequenos produtores. Porém, a agricultura não é percebida pelos jovens como um trabalho interessante e isso deverá merecer uma reflexão.
O agricultor moçambicano é geralmente pobre e os jovens não têm expectativa de sucesso em abraçar esta actividade,
milhões de dólares
É o valor global dos investimentos do bad em moçambique, em mais de 100 projectos aprovados em diferentes sectores de actividade, entre 2007 e 2017
Ou seja, para o BAD, a questão fundamental não está no bolo orçamental para a agricultura, é isso?
Há uma lacuna infra-estrutural no sector. Por exemplo, a irrigação vai precisar de investimentos para deixar de ser dependente da chuva e tornar-se resistente às mudanças climáticas. Mas, sinceramente, eu começaria pelo tipo de mudança do quadro de políticas agrícolas. Moçambique tem dos mais baixos índices de ambiente de negócios do mundo e isso não é aceitável. Temos de olhar para todas as leis que atingem o ambiente de negócios e simplificar muito. E acrescentaria que é urgente aliviar a pressão fiscal sobre os exportadores de produtos agrícolas que agora estão a ser sufocados.
A nível de infra-estruturas, que conjunto de investimentos estão agendadas?
acabando por preferir sectores relativamente mais prósperos como os serviços, por exemplo… Por onde começar para fazer a transformação?
Na verdade, estamos em busca de modelos de desenvolvimento para a transformação da agricultura. O mais importante a fazer neste campo é demonstrar que já produzimos verdadeiros campões africanos agrícolas. Há companhias que têm êxito, geram riqueza. Um dos exemplos é o Grupo Dangote, uma companhia Pan africana que começou na Nigéria como importadora de arroz, evoluiu para produtora e processadora de arroz e outros produtos agrícolas, o que permitiu a sua expansão para uma empresa multibilionária. É este tipo de iniciativas que temos de trazer e de replicar aqui em Moçambique.
O BAD está satisfeito com os cerca de 11% do OE alocados à agricultura? Que visão tem a este respeito?
O meu conselho é sempre começar pelas coisas que não custam dinheiro e daí gerar um ambiente de negócios mais apetecível e criar um volume de negócios que possa permitir investimentos em infra-estruturas e no que for preciso para dinamizar a agricultura.
Não podemos trazer detalhes, porque não definimos pacotes financeiros efectivos para a nossa intervenção. Estamos a trabalhar mais com objectivos de princípio e quando forem desenvolvidos os projectos a serem aprovados pelo conselho do banco, onde há objectivos mais concretos, será possível conhecer o impacto real no desenvolvimento. Mas posso dizer que gostaríamos de ver um aumento no mínimo em 10% de gente com acesso a energia eléctrica, por exemplo, ajudando o país a assegurar cobertura universal até 2030; expandiremos as redes de distribuição de água e estaremos presentes em sectores cruciais, como a educação e saúde.
Na prática, qual tem sido o modelo de financiamento ao desenvolvimento da economia nacional?
Com a janela do sector privado, o BAD identifica e apoia iniciativas privadas como a linha férrea e o porto de carvão de Nacala (o maior projecto actualmente assistido pelo BAD). Trata-se de uma infra-estrutura pública com capacidade para 24 milhões de toneladas de carga por ano, das quais 18 milhões para o carvão e os restantes 6 milhões de carga geral. Os fluxos financeiros gerados pelo carvão servem para pagar as infra-estruturas e viabilizar a carga geral, porque o investimento foi inteiramente privado. Portanto, não há garantias, financiamento nem dívida pública envolvida na sua criação. É este tipo de modelo que queremos adoptar na área de infra-estruturas: criar condições para que elas se paguem a si mesmas e gerem um claro benefício público.
O BAD mediu o impacto da sua intervenção em Moçambique, entre 2007 e 2017, nas principais cinco áreas em que actuou. Investiu cerca de 2 mil milhóes de dólares em mais de 100 projectos, e os resultados são estes...
1 350 quilómetros de linhas de transmissão foram financiados pelo BAD, beneficiando cerca de um milhão de consumidores e contribuindo para uma cobertura de quase 30% da população. Em 2007, apenas 12% dos moçambicanos tinham energia.


5 000 pessoas beneficiaram, directa e indirectamente, do apoio à indústria nacional. Os investimentos incidiram, em larga maioria sobre as PME, gerando 17 milhões de vendas adicionais. Apoiou, ainda, a exploração de Moma.

1,8 milhões de pessoas passaram a ter acesso à água potável e saneamento melhorado, através da entrega de 570 postos de abastecimento; na Educação investiu na formação de professores; na Saúde financiou a construção de centros de formação.
120 milhões de dólares foram investidos no fomento da produtividade agrícola, permitindo aumentos de rendimento produtivo a 240 000 produtores. A intervenção do BAD incidiu na promoção da cadeia de valor, infra-estruturas e acesso à água.

811 quilómetros de estradas construídos ou reabilitados, com impacto em 77 000 pessoas de todo o país. No quadro das infra-estruturas, as estradas são uma prioridade do BAD, perfazendo 66% da carteira de investimento activa em Moçambique.

Coloca-se, muitas vezes, a questão de os investimentos nas diversas áreas não gerarem desenvolvimento. Como é que o BAD pretende fazer a diferença? Em meados de Outubro passado, tivemos o Fórum Africano de Investimentos em Joanesburgo (África do Sul), uma plataforma onde o BAD e parceiros (African Finance Coporation, Trading Development Bank, etc.) utilizam as suas experiências para trazer o tipo de investidores que não apostam muito em África, nomeadamente os fundos de pensões asiáticos, americanos, fundos soberanos e outros tipos de investidores institucionais. O nosso objectivo passa por financiar projectos privados, mas com impacto assinalável no desenvolvimento que se pretende para o país, e esse tem de ser olhado e planeado a longo prazo.
A estratégia prevê que a região Norte venha a ser uma prioridade para o BAD até 2022. Porque razão isso acontece?
Nos próximos cinco anos, e talvez possamos prolongar esse pensamento até 2030, a economia moçambicana vai transformar-se para muito pior se passar a depender exclusivamente do gás natural e se viermos a assistir ao fraco desenvolvimento das indústrias nas restantes áreas. Antes de chegar ao fim da próxima década, Moçambique vai precisar de uma base económica mais diversificada e tem de investir mais na agricultura, que é o sector com mais potencial ao nível da criaçáo de emprego. E porquê investir no Norte? É simples. Cabo Delgado será a área mais atingida pelo desenvolvimento do gás, com um crescimento demográfico que vai fazer crescer a demanda por alimentos. E a resposta poderá estar na província do Niassa, mesmo ao lado, que é um dos pontos da África Austral com as terras mais férteis. É aqui onde se projecta a criação de infra-estruturas e condições de produção a baixo custo para potenciar a produção alimentar.
Dívida pública “não abala” a confiança Como é que o BAD se posicionou perante a deterioração da imagem de Moçambique, aquando da descoberta das dívidas ocultas? O fenómeno fez retrair a confiança de diversos parceiros e o BAD não terá ficado indiferente… Nunca tivemos a ideia de punir o povo moçambicano pelo que aconteceu. Mas é verdade que Moçambique pagou um
preço muito caro em termos de imagem externa, em relação aos investidores internacionais. E acredito que, mesmo hoje em dia, a maioria das perguntas dos investidores ande em torno deste assunto, o que é natural, de resto. Querem saber como estão as relações com o FMI e com os principais parceiros externos do país. Falando do BAD, aqui, a nossa intenção passa por tentar assegurar que isso nunca mais volte a acontecer. Trabalhamos de perto com as autoridades, que também reconhecem a gravidade do problema, para que Moçambique possa voltar a ser visto como um actor maduro no sistema económico africano e global, fazendo jus ao potencial que todos lhe apontam.
Olha como positivos os esforços internos para tentar restabelecer a boa imagem da economia no exterior ou é necessário fazer algo mais para criar uma atmosfera mais favorável aos principais parceiros?
Acho que nos últimos 12 meses se registaram progressos importantes no sistema de gestão de finanças públicas, com a aprovação da lei de empresas públicas, o novo quadro jurídico para o endividamento do sector público, um pacote de reformas fiscais que protegem as populações mais vulneráveis, entre outros. Posso dizer que me parece que estamos numa trajectória positiva. Já na área da gestão dos recursos naturais, o percurso ainda é muito longo. Estamos a falar de um percurso de cinco ou dez anos de reformas para construir um quadro legal e jurídico, e de gerar um debate social. Seguramente, as lições foram aprendidas e a crise económica que o país viveu, não tendo sido bem-vinda, ajudou a sociedade a poder construir uma visão bastante mais clara e precisa sobre este percurso de desenvolvimento que o país irá percorrer nos próximos anos.
“Bons exemplos” africanos
Quais são, a este respeito, os bons exemplos de África, aqueles que poderáo servir de inspiração para Moçambique, em termos de políticas que permitam acelerar o desenvolvimento a partir da ajuda do BAD e de outros parceiros de desenvolvimento? É-me muito difícil identificar um modelo de desenvolvimento socioeconómico de um país e transferi-lo para um outro, as coisas não funcionam, ou não deveriam funcionar desta forma. Ainda assim, posso citar o Botswana, como um exemplo

“As
5 000
milhões de dólares foi o volume total de investimento do bad, em África, em 2017, financiando projectos de desenvolvimento sustentÁvel
muito interessante na forma de utilizar o orçamento nacional e os recursos da exploração de diamantes para investir em capital físico e humano. Nos últimos 20 anos, o foco foram educação e infra-estruturas. Aspecto negativo é o facto de continuar uma economia pouco diversificada. Já a Etiópia é um bom exemplo de industrialização e rápida redução da pobreza. O Ruanda é outro bom exemplo de reformas bem-sucedidas na transformação do ambiente de negócios. O Egipto, igualmente, com 90% da energia consumida pelas famílias a vir do gás que produzem. O custo dos investimentos foi elevado, mas assegurou independência energética.
Como vê o futuro de Moçambique? Sou extremamente optimista. Raramente vejo um país com um futuro tão claro. Nos próximos 20 anos, terá a possibilidade de tornar-se no exemplo mais brilhante de desenvolvimento em África, também graças aos recursos naturais. Mas os próximos dez anos são cruciais em termos de escolhas políticas. Ou seja, as decisões que forem tomadas neste intervalo, irão determinar os próximos 50 anos. O grande desafio será a capacidade de gerar emprego, porque a população não pára de crescer e tem uma base maioritariamente constituída por jovens.
tExtO Celso Chambisso fOtOgrAfIA istoCk

Cristina Simón • Professora RH da IE Business School e directora do MBA IE-BROWN
parece bastante claro que as empresas actuais mantêm um elevado grau de inércia que ainda trazem do seu passado. Continuam a funcionar com níveis hierárquicos de liderança mais ou menos extremos em função do sector de actividade em que operam. Desde as pirâmides baseadas no “up-or-out” das empresas de serviços profissionais, até às estruturas mais planas que se observam no sector tecnológico, existem diferentes níveis de controlo e supervisão entre a parte executiva e a parte formada pelos operários. Este sistema funcionou muito bem durante os últimos 70 anos, disso não há dúvidas. Contudo, o mundo mudou muito rapidamente ao longo dos anos que passaram neste começo de século. Por um lado, o contexto empresarial ganhou muita velocidade e as unidades de negócio necessitam que os processos de funcionamento interno sejam, pelo menos, tão rápidos como elas.
A sociedade também evolui e um dos efeitos (sem dúvida potenciado pela Internet 2.0) é que os trabalhadores aceitam cada vez pior a autoridade de um chefe baseada apenas nos cargos.
A tecnologia vem novamente oferecer uma forma de modernizar as diversas estruturas da empresa, neste caso exportando o que se criou como uma metodologia de desenvolvimento de projectos de software: Agile.
A proposta é baseada num conjunto de princípios entre os quais, pessoalmente, destacaria a orientação total para o cliente, o trabalho por protótipos e a interacção entre os membros das diversas equipas ao longo do decorrer de um projecto.
O esforço pela qualidade do resultado final para o cliente guia o processo, que funciona praticamente sem necessidade de supervisão formal. Como resultado de aplicar esta forma de trabalho, as organizações equilibram-se de forma extraordinária, ou seja, eliminam naturalmente as capas de lideranças intermédias que caracterizaram o modelo de empresa tradicional que todos conhecíamos.
De início, o planeamento é muito atractivo e, desde logo, representa uma autêntica revolução para as culturas corporativas de muitíssimas empresas.
Por exemplo, trabalhar sobre protótipos (resultados intermédios) será algo insólito para muitos; apresentar um projecto aberto e tratar de o submeter à discussão traduz-se em que o funcionário que está cheio de dúvidas e vai atrasar os demais, não se atreve a mostrar a sua postura ou as razões pelas quais não acabou o trabalho a tempo.
Sem esta mudança de mentalidade é impossível passar a ser ágil. Assim, a minha pergunta fundamental é: o que fazemos com toda a colecção de chefes tradicionais?
Como reinventamos uma função que foi tão relevante até ao momento e capitalizamos estes empregados que perdem a sua autoridade e ficam como outro membro mais da sua equipa?
Há que estar atento às experiências iniciais de algumas empresas que já se estão a animar a fazer esta mudança, que é mais uma das inevitáveis para sobreviverem no actual mundo que, como sabemos e sentidos, está em constante mudança.
Sem esta mudança de mentalidade, é impossível passar a ser ágil. Assim, a minha pergunta fundamental é: o que fazemos com toda a colecção de chefes tradicionais? E como reinventamos uma função que foi tão relevante até ao momento para o funcionamento da empresa


a evolução do mundo tecnológico obriga à reinvenção permanente das diferentes ferramentas. E se, graças às novas tecnologias, muita coisa tem seguido o rumo da automação, com as casas a tornaram-se inteligentes, também as cidades seguem essa tendência. E Maputo não foge à regra. Neste caso, através da plataforma UBI. Desenvolvida por uma equipa de jovens developers moçambicanos do estúdio criativo da ANIMA, a plataforma é composta por dois aplicativos, a UBI Spots, um agregador de informação sobre estabelecimentos, serviços, locais públicos e geográficos de Maputo, e a UBI Eventos, que reúne uma informação sobre eventos que estão a acontecer na cidade. De acordo com Alexandre Coelho, director-geral da ANIMA e gestor da UBI, a ideia é simples: “recorrer ao potencial dos meios digitais para disponibilizar informação actualizada sobre eventos, lugares de lazer e roteiros a percorrer, na cidade de Maputo. Queremos garantir a todos o acesso a informação detalhada sobre a cidade de Maputo através de uma plataforma que consolide a informação cultural, turística e de lazer para que qualquer pessoa a ela possa aceder em tempo real”, explica.
A ideia foi impulsionada pelo crescimento do número de estabelecimentos de restauração, hotelaria e comerciais na capital. “A plataforma surge da necessidade que sentimos, já há alguns anos, enquanto cidadãos e habitantes da cidade de Maputo. Existe muita coisa a acontecer na cidade, há locais novos a surgir, mas acabamos por estar sempre na mesma rotina porque desconhecemos o que se está a passar na cidade”.
A plataforma UBI está disponível em todos os formatos digitais, tanto móveis co-
Uma aplicação dinâmica para uma cidade inteligente, promovendo a inclusão digital. É o foco da plataforma UBI, lançada pela equipa criativa da ANIMA estudiocriativo
mo também na web, e a equipa da ANIMA não tem dúvidas em afirmar que “este é apenas o primeiro passo” para tornar a capital do país numa cidade Inteligente, não apenas pela inovação tecnológica que representa, mas, prossegue, “porque procura promover a inclusão digital, a educação cívica e a transparência de informação, contribuindo de uma forma activa para o crescimento da oferta social, cultural e económica de Maputo”, assinala. “Sentimos a necessidade de ter uma plataforma de centralização de informação pensada para Maputo nesta fase inicial mas irá, acreditamos, estar disponível em outras grandes cidades do país. Estamos a trabalhar para isso”, revela.
Depois, a UBI não traz apenas vantagens para o utilizador. Segundo o gestor, “ela tem, também, o objectivo de fomentar o comércio local, disponibilizando aos provedores dos mais variados serviços, um conjunto de mecanismos de interacção com os seus potenciais visitantes ou clientes, podendo criar promoções e novos serviços.”
Assim, nesta fase inicial, faz parte do projecto a instalação de dois quiosques digitais (nesta altura é apenas um, localizado na Av. 24 de Julho perto da escola secundária Josina Machel), pontos de onde qualquer utilizador pode consultar, gratuitamente, toda informação dos dois aplicativos. “O potencial é tremendo. Teremos o mapa interactivo da cidade, onde será possível saber, por exemplo, quantos carros estão numa determinada rota a circular e quanto tempo levará a chegarmos ao nosso destino”, sublinha.
Bempresa aNiMa director-geral alexaNdre Coelho Fundação do grupo 1995 usuários
7 000
Previsão de users até ao fim do primeiro trimestre de 2019
serviços
1 500
Número de estabelecimentos já cadastrados no sistema
utilizadores
1 000
Volume de usuários actualmente registados

Moza e aNaC aliaM-se Na proteCção da biodiversidade
Criar um mecanismo para combater “o abate indiscriminado de espécies animais existentes nas áreas de conservação do país”, é o objectivo do acordo firmado pelo Moza Banco e a Administração Nacional de Áreas de Conservação (ANAC).
Este memorando permitirá a divulgação de informações que apelam à protecção e defesa da biodiversidade por via das diferentes plataformas de comunicação do banco Moza. Por outro lado, a ANAC vai promover a divulgação da mesma informação junto das comunidades locais, clientes e parceiros. Para a ANAC esta parceria é “o culminar da materialização da premissa segundo a qual a preservação da flora e da fauna deve ser uma causa comum.”
MilleNNiuM izi e M-pesa estão Mais próxiMos
Proporcionar a todos os clientes da Vodacom M-Pesa e do Millennium IZI, com contas depósito à ordem, a possibilidade de efectuarem operações de transferência e recepção de dinheiro entre ambas as plataformas, “de forma fácil, rápida e segura através dos seus telemóveis”, é o objectivo do acordo assinado entre o Millennium Bim e a Vodacom Moçambique. Assim, o memorando permitirá “o aumento do acesso dos moçambicanos aos serviços bancários, nomeadamente das populações das zonas urbanas e rurais.”
Maior unidade de produção de cervejas do país está avaliada em 180 milhões de dólares

dar o passo seguinte e aumentar a capacidade de produção da CDM. Resume-se desta forma a decisão de avançar para a construção da nova fábrica da companhia, em Marracuene, nos arredores de Maputo.
À E&M, o director-geral da CDM, Pedro Cruz, explica que “a nova fábrica vai ser dotada de um sistema de tecnologia avançada e ecologicamente alinhada com as mais modernas práticas globais, e terá uma capacidade de produção de cerca de 200 milhões de litros de cerveja ao ano”.
Com a construção desta nova unidade, a CDM vai passar a contar com quatro fábricas no país. A obra, cuja primeira pedra foi lançada em Dezembro, terá a duração de um ano, prevendo-se que venha a criar mais de mil empregos na fase inicial e cerca de 235 novos postos de trabalho após o arranque da produção. “A decisão de investimento numa nova unidade fabril baseou-se na nossa contínua trajectória de crescimento e num quadro fiscal propício ao investimento criado pelo Governo e, sobretudo, na confiança que depositamos no futuro de Moçambique”, afiança o responsável. Por sua vez, o Ministro da Indústria e Comércio, Ragendra de Sousa, presente na cerimónia, enalteceu o projecto explicando que o mesmo vai “causar um grande impacto na vida da comunidade local e na economia nacional.”
Grupo JFs CoNstrói reFiNaria de óleo aliMeNtar eM CuaMba
As obras de construção da refinaria de óleo alimentar na cidade de Cuamba, província do Niassa, no norte de Moçambique, do Grupo João Ferreira dos Santos, iniciam-se em Fevereiro de 2019. Manuel Delgado, director-geral da Sociedade Algodoeira do Niassa, anunciou que a refinaria de óleo alimentar, que será produzido à base de misturas de sementes das culturas de algodão, soja e girassol, representa um investimento de 90 milhões de meticais (1,5 milhões de dólares), e estará em funcionamento no primeiro semestre de 2019.

baClays preMeia eMpreeNdedorisMo Na Moda NaCioNal
A Cervejas de Moçambique é uma empresa com 23 anos no mercado, que resultou da privatização, em 1995, da antiga fábrica de cerveja Sogere. Actualmente, pertence ao maior grupo cervejeiro do Mundo, o Grupo ABInbev e, em Moçambique, tem uma quota de 95% do mercado, através das suas várias referências disponíveis.
No âmbito da realização do maior evento de moda do país, o Mozambique Fashion Week, o Barclays Bank Moçambique atribuiu um prémio ao projecto de reciclagem de sacos plásticos para a produção de tecidos para o fabrico de carteiras. Eleito por unanimidade pelo júri, composto pelo director para a área das PME do Barclays, Tayob Ahmed, a artista plástica e poetisa Sónia Sultuane e a representante do MFW, Sónia Ferreira, o projecto Woogui, recebeu um apoio para ajudar à expansão do seu negócio. “Acreditamos plenamente nos jovens empreendedores que estão a actuar em Moçambique”, sublinhou Tayob Ahmed, director do Barclays.

esselina macome
fazer aumentar o número de moçambicanos incluídos no sistema financeiro. É este o desígnio da Financial Sector Deepening Mozambique (FSD Moç), entidade apoiada pelo DFID (Reino Unido) e pela embaixada da Suécia.
Depois de passar pela administração do Banco de Moçambique (BdM), Esselina Macome fala à E&M de uma entidade que “identifica e forma parcerias com intervenientes-chave, promovendo oportunidades e investimentos direcionados à materialização do potencial do sector financeiro.”
Qual é a missão da FSD Moç?
Directora-geral da FSDMoç de Moçambique (BVM) desenvolvemos uma estratégia do mercado de capitais, por exemplo. O nosso programa vai até 2020, e estamos em várias outras frentes. Trabalhamos, por exemplo, com o Instituto Nacional das Telecomunicações de Moçambique (INCM) para vermos o que se pode fazer para mais pessoas terem acesso aos serviços de telefonia móvel e assim permitir que serviços como o M-Pesa ou o mKesh possam chegar a mais utilizadores.
A FSD existe em Moçambique desde 2014 com a missão de ser um programa que facilita a inclusão financeira; não implementamos, mas trabalhamos em parceria com entidades que o fazem. A nossa visão é a de que, através deste programa, possamos estar a contribuir para tornar as pessoas mais resilientes na perspectiva financeira, o que significa aumento de qualidade de vida das pessoas. Este é o objectivo final da inclusão financeira. Não nos intitulamos enquanto instituição financiadora, trabalhamos na base de parcerias de várias vertentes. Por exemplo, com o BdM, estamos a desenvolver conjuntamente a Sand Box, ao nível dos aspectos regulatórios. Com a Bolsa de Valores
vccurriculum vitae
esselina Macome juntou-se ao fSDMoç depois de dez anos no Banco de Moçambique, onde foi directora executiva do sistema de pagamentos, e membro do Conselho de administração. Liderou várias comissões, com destaque para a de estratégia da inclusão financeira. É, ainda, professora na UeM.
fsdmoç
tal para o país, que assenta na estratégia nacional do próprio Governo. Nesse sentido, trabalhamos para que, no fim do programa possamos, pelo menos, atingir mais 2,6 milhóes de moçambicanos através de serviços financeiros. A nossa perspectiva é que, para além da banca, essa inclusáo passe pela área dos seguros e outras componentes do mercado financeiro, porque geralmente, quando se fala da bancarização, as pessoas pensam logo na banca. Para nós, o sector financeiro é muito mais amplo.
Após o alcance dos objectivos definidos em cada projecto, existe um follow up? De uma ou de outra forma, continuamos ligados aos projectos, mas, a nossa intenção é de os tornar sustentáveis e independentes.
electrónica. Agora, estamos na fase de estudar o impacto destes serviços, o volume de transações e como isso tem alterado modos de vida. Nesta perspectiva, também trabalhamos com grupos de poupança informais. O próximo passo é, como dizia, trabalhar com empresas de seguros para vermos a possibilidade de se introduzir a componente de micro-seguros que, penso eu, em breve estarão disponíveis.
E na componente da educação? Existe algum projecto de literacia financeira para os estudantes?
Neste momento, o BdM tem uma estratégia de educação financeira activa. Estamos a apoiar na avaliação e a desenhar a nova fase desse programa. O que temos feito para colmatar este tipo de falta para as crianças, pelo menos duas vezes ao ano, é um programa que designamos de “Semana Mundial do Dinheiro”. Também existe o “O Dia Internacional de Poupança” em que, através das novas tecnologias conseguimos estimular os estudantes a familiarizarem-se com os conceitos simples do meio financeiro. Temos também uma plataforma a que chamamos de “Tablet Comunitário”, onde as crianças vão fazendo as perguntas e a plataforma dá logo as respostas. E depois faz-se um concurso onde se apura o vencedor.
Que metas tem a FSD Moç? Temos uma estratégia de inclusão financeira, fundamen-
Um cidadão com uma conta de carteira móvel está ‘incluído’ financeiramente? Definimos inclusão financeira em três níveis: disponibilidade; utilização; e por fim, perceber como isto ajuda a melhorar a sua qualidade de vida. Aí sim, se se cumprirem estes três passos, alguém pode ser considerado como estando efectivamente incluído financeiramente. Na primeira fase do nosso trabalho, demos maior foco ao acesso, ao ter conta bancária ou de carteira
Que papel terá a banca digital neste esforço de inclusão? A nossa geografia mostra que não poderá haver serviços financeiros generalizados sem a banca presencial. Mas temos de arranjar novas formas de fazer chegar a banca a toda a população e a banca digital será decisiva. Estamos numa aldeia global e o sector financeiro está a saber adaptar-se.
texto Hermenegildo langa fotografia Jay garrido

Universalização
Novos instrumentos do sector financeiro devem ser usados para chegar a toda a população

O que as inovadoras (re)criações da cozinha africana podem fazer pela velha identidade do mais antigo dos continentes, eis a questão
a chef moçambicana Marta Tembe esteve recentemente em Maputo onde foi responsável pelo jantar de gala do festival Maputo Fast Forward. Baseada em Paris (França), onde criou a sua própria empresa, “La Cuisine de Marta”, a jovem chef faz parte de uma geração de chefs africanos que está empenhada em explorar a riqueza da “herança gastronómica” do continente mas está, simultâneamente, empenhada em transpô-la para uma “linguagem culinária” contemporânea, o que significa combinar de forma criativa, tradição e modernidade.
Nascida em Maputo, Marta Tembe deixou o país após ter completado o ensino secundário e acabou, depois de passagens por Portugal (onde estudou Relações Internacionais), e pelos Estados Unidos, por se fixar em França.
Foi na capital francesa que a ideia de se dedicar à gastronomia surgiu. Estimulada por amigos, que apreciavam os seus dotes culinários, Marta Tembe decidiu tentar transformar esse seu talento numa carreira profissional: “Comecei a fazer uns contactos e uma das pessoas que conheci foi o antigo director-geral da Lagardère. Então, ele propôs-me fazer algumas refeições sempre que havia reuniões no escritório dele. Descobri, en-
tretanto, um atelier de um chef de cozinha e fui lá pedir-lhe se ele me aceitava como estagiária sem remunaração. E ele aceitou. Ao mesmo tempo, decidi inscrever-me numa escola de cozinha, o CEPROC (Centre Européen des Professions Culinaires), onde fiz uma formação de um ano dividida entre a escola e estágios em restaurantes. Tentei sempre escolher restaurantes com uma boa referência em termos gastronómicos. Um deles foi o “Les Climats”, que obteve, em 2015, uma estrela do Guia Michelin. Outro foi o “L’Ami Jean”. Foi lá que conheci o chef Stéphane Jégo. Costumo dizer que devo ao chef Stépahne todo este saber fazer que agora possuo. É alguém muito exigente, mas que puxa por nós, nos ensina tudo, desde saber como cortar uma cabeça de porco a um peixe... ele partilhava todo o seu saber connosco. Foram seis meses duros, mas muito bons.”
Pratos com identidade
Marta Tembe ainda fez um terceiro estágio no Reino Unido, voltou depois a Paris para finalizar a sua formação e, uma vez esta terminada, arranjou uma colocação no restaurante do Musée de l’Homme, um dos grandes espaços museológicos da capital francesa: “Foi uma experiência muito importante para mim porque
me ajudou sobretudo a perceber melhor aquilo que eu verdadeiramente queria fazer. E o que eu queria fazer não era, claramente, o tipo de cozinha que se praticava no restaurante do museu. Por ser um espaço muito grande e com um elevado número de frequentadores muitas coisas já nos chegavam pré-acabadas, o que fazia com que se praticasse uma cozinha muito “industrial” e pouco criativa. Resolvi saír, ainda estive num pequeno restaurante - que adorei! – onde era responsável das entradas e das sobremesas, e onde aprendi também muitíssimo, mas tornou-se nessa altura claro para mim, que o próximo passo seria mesmo começar a trabalhar por conta própria. E foi assim que nasceu o projecto “La Cuisine de Marta”.
Através deste projecto, Marta Tembe pôde começar então a dar expressão às suas próprias ideias culinárias e a desenvolver um genuíno conceito autoral. A empresa tem trabalhado para clientes particulares e empresas respondendo a diferentes tipos de solicitações: “Tanto pode ser dar um apoio pontual a um restaurante como organizar um grande evento, como foi o caso, uma vez, para o banco BNP Paribas ou trabalhar em cruzeiros”. Nas ementas que propõe aos clientes Mar-

“O que pretendo é criar algo que, partindo da gastronomia tradicional, possa ser transposto para uma linguagem culinária contemporânea, que é a minha linguagem”
ta Tembe procura sempre promover um prato de raíz moçambicana: “pode ser simplesmente um prato que inclua algumas matérias-primas relacionadas com Moçambique como, por exemplo, a mandioca. Mas também faço matapa. Claro que as pessoas não sabem o que é, não conhecem a matapa, e por isso, quando a proponho ao cliente faço sempre antes uma degustação...e até agora nunca tive uma única decepção, isto é, as pessoas têm reagido sempre bem, gostam imenso. A matapa é, aliás, o que sai melhor... as pessoas ficam fascinadas com o sabor mas, acima de tudo, ficam surpreendidas quando lhes digo que é um prato típico de Moçambique, que é uma gastronomia que desconhecem em absoluto. Mas também uso muito a batata doce como acompanhamento. A batata doce está hoje na moda, mesmo em restaurantes com estrelas Michelin e, claro, também uso muito leite de coco...”.
No entanto, como outros chefs africanos da sua geração que estão apostados em valorizar a “herança gastronómica” do continente, o objectivo de Marta Tembe não é fazer uma “cozinha africa-
na” no sentido “tradicional” da expressão: “A minha ideia não é ter um restaurante de cozinha africana, o que eu quero fazer é, antes do mais, “a cozinha da Marta”, a minha cozinha, que no fundo é uma “cozinha do mundo” pois é o resultado de tudo aquilo que me influenciou até agora e de tudo aquilo que fui (e eu vou) aprendendo, com as viagens, com o conhecimento que fui e vou tendo de outras culturas, com os outros chefs com quem vou contactando... Por exemplo, espero poder voltar, em breve, a Moçambique para viajar mais pelo Norte do país e aprofundar o meu conhecimento sobre a cozinha típica da região. Mas depois, o que pretendo é criar algo que, partindo dela, ou seja, tomando-a como base, seja o resultado de como eu a “imagino”. E a forma como eu a imagino passa por transpô-la para uma linguagem culinária contemporânea que é, de algum modo, a “minha” linguagem.”
Uma nova geração à conquista do mundo Tal como Marta Tembe, a maior parte dos chefs da nova geração a trabalhar no continente ou em outros pontos do globo – e que têm vindo a ganhar notorie-
dade internacional - estão a operar, no essencial, e apesar das suas diferenças, no quadro de um paradigma semelhante: por um lado, a valorização do património cultural gastronómico de África passa, para este chefs, por “trazê-lo para o século XXI” através de uma apropriação descomplexada de todo o tipo de influências (das “técnicas” às “estéticas”) de modo a que, tal como aconteceu com outras “cozinhas “étnicas”, que entraram no mainstream da oferta culinária global, também a cozinha africana possa vir a ter esse reconhecimento e projecção; por outro lado, estes chefs compreenderam que, tal como actualmente em muitos outros sectores de actividade, é a dimensão autoral, resultante da capacidade de inovar, que faz a diferença e acrescenta valor aos projectos. Não surpreende, por isso, que os media internacionais estejam cada vez mais atentos a estes novos actores da cena gastronómica global e se interroguem, como a BBC fez recentemente, se a“próxima grande tendência” culinária contemporânea não virá de África. Por seu turno, a revista norte-americana de economia Forbes dava destaque, no passado mês de Junho, ao trajecto profissional do chef Dieuveil Malonga, originário da República Democrática do Congo. Dieuveil Malonga tem sido uma das faces mais visíveis (e mediáticas) desta nova geração de chefs africanos sobretudo por causa da plataforma digital que criou: a “Chefs in Africa”. Com mais de 4 mil chefs actualmente inscritos na plataforma, a “Chefs in Africa” tornou-se um espaço estratégico de interligação com todo o tipo de instituições (governamentais, empresariais, académicas, etc.) no sentido de ajudar os chefs africanos a desenvolver a sua formação profissional, incentivar projectos de empreendedorismo e dinamizar a sua internacionalização. Outras plataformas estão também activas. Por exemplo, a #AfroFoodTalk, baseada nos Estados Unidos, liderada pelo chef etíope Hiyaw Gebreyohannes, cujo restaurante “Gorsha” e a marca de produtos que lançou, “Taste of Ethiopia”, têm ganho especial notoriedade, é uma plataforma determinante para agregar a comunidade de chefs africanos a trabalhar no continente americano (com destque para o chef Morou, da Costa do Marfim, ou o chef Pierre Thiam, do Senegal), estruturar actividades empreendedoras e activar ligações e intercâmbios com o continente africano.
Para além destas plataformas, inúmeros festivais como o “We Eat Africa”, em Paris, iniciativas como o “African Food Art Tour” (um evento itinerante promovido pelo chef Loic Dablé e que, tendo arrancado no Benim, tem percorrido várias capitais europeias), ou inúmeros novos restaurantes, quer em África, como o “Zandoli”, no Congo Brazzaville, da chef Lorna Boboua do Sacramento, quer na Europa (como, para citar apenas um exemplo, o Blue Nile, em Londres, especializado em cozinha da Etiópia e da Eritreia) - todos têm contribuído para projectar a cozinha de África para um novo patamar de qualidade e reconhecimento verdadeiramente internacionais. Mas Moçambique, no entanto, ainda está um pouco afastado desta tendência. Mesmo, apesar de casos, como o de Marta Tembe, e do enorme potencial da gastronomia nacional que, no entanto, é pouco “valorizada” aquém e além fronteiras. A começar pela formação e a acabar na promoção internacional, há ainda um longo caminho a percorrer para colocar
A #AfroFoodTalk, baseada nos EUA, liderada pelo chef etíope Hiyaw Gebreyohannes, cujo restaurante “Gorsha” e a marca de produtos que lançou “Taste of Ethiopia” têm ganho uma especial notoriedade, é uma plataforma determinante para agregar a comunidade de chefs africanos a trabalhar na América
o país no mapa global. Tal como está a acontecer em vários domínios culturais, nomeadamente nas artes ou na moda, existe hoje uma enorme curiosidade e apetência por tudo o que vem de África. “Penso que se houvessem condições para abrir um restaurante em Paris focado na cozinha moçambicana seria uma experiência que teria todas as hipóteses de ser bem sucedida porque devo dizer que, pela minha experiência existe um grande interesse por tudo o que é diferente. As pessoas gostam de experimentar coisas que não conhecem, diferentes, e Paris é uma cidade muito cosmoplita e aberta ao que é novo, inesperado... Infelizmente nós, moçambicanos, não promovemos muito a nossa gastronomia no exterior, o que é pena.”
E que melhor forma de o fazer, do que servir os sabores da identidade nacional num só prato?


O assassinato do jornalista Jamal Kashoggi irá, certamente, intensificar a tendência de quebra do investimento estrangeiro na Arábia Saudita e pressionar fortemente a concentração de poder de Mohammed bin Salman, mas só muito dificilmente terá um impacto relevante na relação saudita com os Estados Unidos, de Donald Trump
Em Abril dEstE Ano, a revista norte-americana “Time” fez capa com uma fotografia do príncipe saudita Mohammed bin Salman.
Ao lado do rosto de MBS, como é conhecido o homem que desde 2017 vem consolidando o poder naquele reino, está a pergunta da publicação: “Deve o mundo comprar aquilo que o príncipe está a vender?”. A questão surgiu logo a seguir a um périplo do príncipe herdeiro pelos Estados Unidos, que incluiu entrevistas e encontros com políticos e empresários de topo.
MBS vendia a mensagem da abertura da economia saudita ao investimento e, por outro lado, a ideia de uma maior libera-
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mil milhões de dólares É o valor total da importação de armamento norte-americano por parte da arábia Saudita em 2017. a eSte nível, É o maior cliente mundial doS eua
lização do regime, da qual as imagens de mulheres a conduzir nas estradas sauditas foi prova para consumo externo.
Ventos de mudança
Seis meses depois, contudo, a onda mediática que MBS vinha surfando parou repentinamente – e já poucos, ou nenhuns, têm dúvidas sobre a resposta à pergunta da Time.
A causa imediata: o assassinato do jornalista Jamal Kashoggi, colunista do jornal Washington Post e o comentador com maior influência mediática no mundo árabe. Kashoggi, crítico da liderança autocrática de MBS, foi morto e desmembrado dentro do consulado saudita em
Istambul, na Turquia, tendo os seus restos mortais sido encontrados no jardim da casa do cônsul, segundo a imprensa. Após a revelação do assassinato, os Estados Unidos revogaram vistos a 21 pessoas que ligam ao acto e que incluem membros da elite militar e dos serviços secretos sauditas, entre os quais quatro elementos da guarda pessoal de MBS. Num regime em que a concentração de poder nas mãos do príncipe herdeiro é enorme – o pai, e rei saudita, tem a doença de Alzheimer – ninguém na comunidade internacional acredita que a ordem para matar Kashoggi tenha passado ao lado de MBS.
A eliminação de adversários políticos fora de portas não é uma novidade, nem uma invenção saudita. Durante a Guerra Fria, por exemplo, líderes esquerdistas na América do Sul foram perseguidos e assassinados fora dos seus países, tal como líderes do ANC sul-africano durante o Apartheid ou palestinianos por Israel (sobretudo depois dos atentados contra atletas olímpicos israelitas em Munique, em 1970).
Alexander Litvinenko, em 2006, e Sergei Skrippal, já em 2018, foram vítimas, em Inglaterra, de ataques atribuídos aos serviços secretos russos. Entre os alvos estão cada vez mais jornalistas (ver caixa).
os princípios do príncipe
Por outro lado, a ordem saudita contra Kashoggi não é incoerente com a acção conhecida de MBS.
O príncipe pôs a própria mãe sob prisão domiciliária e “prendeu” mais de 30 membros da elite saudita num hotel de cinco estrelas.
A alcunha sugestiva de MBS é “Abu Rasasa” ou “Pai da Bala” – segundo a revista “New Yorker”, há alguns anos o príncipe enviou um envelope com uma bala a um funcionário administrativo que não estava a ajudá-lo a apropriar-se de um terreno.
A vigilância e perseguição a activistas de direitos humanos – incluindo várias mulheres que defenderam o direito a conduzirem carros – e oposicionistas ao regime é total.
Uma das mais proeminentes, Manal al-Sharif, postou na rede social Twitter, em Outubro, que ninguém no Ocidente faz ideia do clima de perseguição vivido em Riade (em Novembro apagou a conta no Twitter, citando razões de segurança). Fontes com experiência recente naquele país confirmam o desa-
Liberdade dos media em queda
Jamal Kashoggi, voz crítica do regime saudita, era jornalista. A sua morte junta-se à de outros jornalistas na Europa este ano e, num plano menos grave, à intensificação de outras pressões sobre a profissão. Malta e Eslováquia são dois países da União Europeia que foram palco de assassinatos de jornalistas de investigação este ano. As pressões e insultos verbais aumentaram.
Na República Checa, o presidente Milos Zeman, reeleito no início do ano, sugeriu “liquidar jornalistas”, chamando-os de “hienas”, segundo um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). Na Hungria e na Polónia, os media enfrentam o cerco de governos com uma agenda de controlo dos críticos. Do outro lado do Atlântico está, contudo, o caso mais proeminente de ataque à imprensa: o presidente norte-americano Donald Trump rotula os jornalistas de “inimigos do povo”. Em Outubro, num ataque com engenhos explosivo enviados a vários críticos de Trump, a CNN foi um dos alvos.
parecimento súbito de vários activistas. Estes traços conhecidos da liderança de MBS, que estavam a ser contrariados pela onda de propaganda internacional lançada pelo regime, são agora de novo valorizados publicamente à luz do caso de Kashoggi.
Mas que impacto terão nas relações económicas e políticas com outros países? À primeira vista, o impacto para o regime saudita parece ser importante. “A Arábia Saudita arrisca-se a perder demasiado dinheiro de investimento estrangeiro”, aponta Miguel Monjardino, professor convidado de geopolítica e segurança internacional na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Um número indeterminado de investidores poderá recear fazer negócios num regime onde mesmo pessoas próximas da família real são afastadas ou eliminadas, explica Monjardino.
quebra das regras... e do investimento Antes da explosão do caso Kashoggi a tendência de queda do investimento directo estrangeiro, atribuída ao varrimento de opositores políticos a partir de 2017, era já muito visível.
No ano passado, os fluxos de investimento caíram de 7,5 mil milhões de dólares para 1,4 mil milhões. Esta queda compromete a “Visão 2030”, a agenda de diversificação económica além do petróleo lançada por MBS.
A tendência dificilmente será invertida este ano. Após as notícias sobre a morte do jornalista saudita, vários gestores e empresários de topo – sobretudo europeus e norte-americanos – cancelaram a presença na cimeira de investimento organizada por MBS em Outubro (outras figuras ocidentais marcaram presença, assim como várias asiáticas).
Mas, além de imediato, será este recuo permanente? E pode um caso desta natureza comprometer as relações bilaterais com outras potências regionais e mundiais?
Aí, as respostas são diferentes. No caso dos Estados Unidos, grande parceiro saudita, o assassinato de Kashoggi não deverá levar a mudanças significativas.
“A dependência estrutural mútua é grande”, diz Filipe Pathé Duarte, professor e especialista em geopolítica e segurança.
armas de arremesso
A Arábia Saudita compra armas (110 mil milhões de dólares num acordo de vários anos celebrado em finais do ano passado) e apoio militar aos EUA, que são

também o principal cliente do seu petróleo. Para os norte-americanos, o país liderado pela família de MBS (a casa de Saud) é uma potência importante para determinar o preço do petróleo e um aliado regional contra a ascensão do Irão (os sauditas apoiam as forças do Governo contra os rebeldes no Iémen, apoiados pelos iranianos – o conflito está a causar uma catástrofe humanitária).
Os sauditas são, igualmente, grandes investidores no sector tecnológico em Sillicon Valley. “Podemos eventualmente ver sanções que acalmem a pressão internacional, mas que não magoem muito o regime saudita”, prevê Pathé Duarte. Miguel Monjardino partilha da mesma opinião – a retórica contra os sauditas pode ser dura, mas “é importante distingui-la daquilo que vai realmente acontecer”.
relação duradoura
Mas a preservação da relação com os Estado Unidos pode não evitar impactos políticos com outra magnitude – desde logo para a liderança de MBS, vista agora como demasiado impulsiva e dada ao risco, características pouco apreciadas por investidores e aliados políticos, incluindo a Casa Branca. “É provável que possam tentar restringir os poderes do príncipe herdeiro”, comenta Miguel Monjardino, que vê no episódio uma oportunidade para os membros da família de MBS tentarem recuperar algum poder interno.
13%
É a percentagem da população mundial que uSufrui de uma imprenSa livre, e em que a cobertura daS notíciaS políticaS É independente, a Segurança doS jornaliStaS É garantida, a intromiSSão do eStado naS direcçõeS de informação É reSidual, e a imprenSa não eStá Sujeita a leiS oneroSaS ou a preSSõeS ÉconómicaS
Se é verdade que os opositores sofrem com frequência tentativas de assassinato, não é menos verdade que os líderes políticos – democratas ou autocratas – também são alvos. Num estudo de 2007, dois economistas do National Bureau of Economic Research estimam que desde 1950 foi assassinado um líder nacional em cada dois de três anos. Ao todo, desde 1875, o trabalho contabiliza 298 tentativas de assassinato de líderes nacionais, 59 dos quais com sucesso. Os investigadores concluem que o assassinato de líderes autocráticos tem impacto nas instituições dos países, o que não se passa com a morte de democratas.
É incerto se esta pressão, externa e interna, sobre o príncipe herdeiro trará, certamente, consequências.
o xadrez geopolítico
Também num tabuleiro geopolítico regional bastante complexo, como se sabe, o caso pode ter um impacto importante, sobretudo perante a Turquia liderada pelo ‘inquebrável’ Recep Erdogan. O líder autoritário turco tem a ambição de conquistar maior influência no Médio Oriente e espera consegui-lo. Erdogan, que tem gravações da morte de Jamal Kashoggi dentro do consulado saudita em Istambul, está a gerir a situação para enfraquecer a agenda agressiva de expansão saudita na região. Para além de tudo o resto, a questão dos assassinatos políticos fora de portas provoca sérios danos nas relações bilaterais, sobretudo na medida em que isso encaixa no contexto estrutural entre os países. Se este for de dependência, financeira ou militar, o efeito é tendencialmente mais fraco. Se for de disputa regional (como é o caso entre Arábia Saudita e Turquia) o impacto e potencialmente contaminador de toda uma região. À margem do que se passa nos bastidores sobrará sempre a retórica dura – e, muitas vezes, inconsequente.


Pedro Cativelos • Editor Executivo da Economia & Mercado
os primeiros pensamentos económicos datam da antiga Grécia, o berço da democracia. Em a ‘República’, de Platão, existiam referências à especialização do trabalho, e utilizavam-se conceitos como produção debatendo-se, até, o papel da Mulher no sistema económico. Não por acaso, e até a época da revolução industrial, dois mil anos mais tarde, a economia nunca foi uma disciplina separada da filosofia, do pensamento. Nessa altura, o escocês Adam Smith (considerado o mais importante teórico do liberalismo económico) tornou-se pai da (então jovem) economia moderna, baseada na invenção da máquina a vapor alimentada a carvão, que viria a criar o principio de uma nova era industrial. O mundo mudou. Para além do facto interessante de, nos seus primórdios, economia e filosofia serem filhas de uma mesma mãe (a razão) e de terem ganho novos pais, mais ou menos liberais ao longo dos anos, não é um teste de paternidade o que aqui se procura. Apenas a conclusão de que, nada como uma boa história, para conseguirmos determinar o que é, de facto, e o que é só tendência (neste caso global), mas da qual se pode sempre extrair alguma lógica, para analisar a nossa história presente e determinar o nosso futuro.
Por falar em extrair… As exportações nacionais atingiram cerca de 1,2 mil milhões de dólares entre Julho e Setembro de 2018, com o carvão mineral de Moatize a pesar 33,9% do que vendemos ao mundo. Já as importações, situaram-se nos 1,6 mil milhões de dólares no mesmo período, resultando num défice de balança comercial de cerca de 366,1 milhões de dólares, segundo o INE. Estes dados, desnudam algumas realidades. Uma das mais óbvias, é a de que o país (e África no geral) continua a ser a mina, de forma demasiado literal, do mundo desenvolvido. Outra, é que o tal mundo desenvolvido, se desenvolve ainda mais porque acolhe os recursos e transforma-os em combustível para o seu próprio desenvolvimento (que amplia ainda mais o fosso já existente entre África e os outros) e, pior ainda, injecta-o nessa corrida frenética do futuro, e da busca por novos modelos de desenvolvimento. É por isso que, a grande maioria dos 54 países africanos, continua em 2019, numa fase pré-revolução industrial, com pelo menos 250 anos de atraso ao nível do modelo económico, face à Europa, América e alguma Ásia (que foi capaz de recuperar dois séculos e meio, em 25 anos). E é por isso que, nos Estados Unidos, no Japão, na Alemanha ou na China se discutem os ventos
de mudança que os novos figurinos económicos disruptivos podem trazer, e por cá, os as correntes do pensamento mais avançado, embatem na capacidade produtiva e na transformação. “O momento em que vivemos, de transição de modelos, é como uma onda. Podemos surfar nela ou afogarmo-nos”. As palavras são de Lala Deheinzelin, numa palestra na Conferência Mundial de Empresas Juniores (Junior Enterprise World Conference – JEWC). Num evento dedicado a jovens empreendedores de todo o mundo, que decorreu no Brasil, no ano passado, esta auto-denominada ‘futurista’ preconizava uma economia “vista em quatro dimensões: colaborativa, compartilhada, multimoedas e criativa”.
Essa tendência foi, de resto sublinhada pela Academia Real das Ciências da Suécia que premiou, em Outubro, passado William D. Nordhaus e Paul M. Romer com o Nobel de Economia. Os dois norte-americanos foram pioneiros ao adaptar teorias económicas para redimensionar muitas das questões ambientais e do progresso tecnológico com que hoje, o mundo se depara. Ao conceder um prémio que destaca o debate global dos riscos associados à mudança climática, a Academia disse que “o trabalho dos laureados ajudou o responder perguntas fundamentais sobre como promover o bem-estar humano.”
Nordhaus, é professor da Universidade Yale e um dos académicos mais respeitados no seu campo de estudos, e foi premiado pelo seu pensamento publicado sobre os efeitos das mudanças climáticas na economia. Já Romer, professor da Universidade de Nova Iorque e ex-economista-chefe do Banco Mundial, analisou e publicou os impactos dos estudos sobre inovação tecnológica na análise macroeconómica. E vale a pena transcrever o que a Academia referiu estar na base da atribuição do Nobel a Romer: “Os seus trabalhos demonstram como o conhecimento pode impulsionar o crescimento económico de longo prazo”. Na realidade, Paul Romer estabeleceu os fundamentos de um novo modelo para o desenvolvimento, conhecido como ‘Teoria do Crescimento Endógeno’. Publicada em 1990, ali se explica como “as ideias são completamente diferentes de todos os outros activos”, e se assume que para “que estas surjam, é preciso ter condições específicas no mercado”. É assim que, depois do pensamento, da indústria, da mecânica, da robótica, da grande e da micro finança e da AI, algo simples acontece. Uma ideia. Com a mesma força de sempre e mais poder do que nunca para mudar todo um mundo, cheio de gente lá dentro.
Depois do pensamento, da indústria, da mecânica, da robótica, da grande e da micro finança e da inteligência artificial, algo simples acontece...



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A viagem a Pemba, nas páginas de um livro, folheando os tempos do passado e presente
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Toda a China numa só mesa, no Gloria Hotel, em Maputo
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O concurso internacional Muscat du Monde atribuiu 24 medalhas de ouro e 46 de prata. Fomos provar algumas delas


PEMBA

em 2005, a Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da Universidade Eduardo Mondlane fez um levantamento das cidades moçambicanas. Foi um profundo trabalho de investigação científica, envolvendo professores, estudantes e habitantes das cidades de Norte a Sul do país. O resultado do levantamento foi uma série de livros que são fundamentais para a compreensão das cidades de Moçambique, pela qualidade e pela sensibilidade como são abordadas as questões históricas, antropológicas e urbanísticas.
Um desses livros chama-se “Pemba, as duas cidades”, da autoria de Sandro Bruschi, Júlio Carrilho e Luís Lage. A nossa sugestão de viagem dentro de Moçambique é, precisamente, Pemba. Assim, este livro é de leitura obrigatória para percebermos o que está a acontecer à cidade – e o que se espera num futuro próximo –, depois das descobertas do gás na bacia do Rovuma, que irão mudar a
geografia das cidades, da costa, das gentes.
“Em Moçambique, a história mostra-nos cidades como acidentes, como excepções estranhas ao ambiente rural à volta delas; citadinos como classe dominante e camada económica distinta do resto da população”. Um problema complexo e de difícil solução, ainda mais nesta nossa época de globalização, enquanto a vida continua, como acontece com quase todas as cidades por este mundo fora. Pemba não é muito antiga, a criação da cidade remonta ao fim do século XIX, apresentando alguns elementos de originalidade. Escrevem os autores que “como aconteceu com outras potências coloniais que na segunda metade do século XIX tentavam racionalizar a exploração do território africano, o Governo português era, de vez em quando, tentado pela colonização agrícola do território
como solução para os problemas da superpopulação na pátria. Assim, em Dezembro de 1857, por iniciativa de Jerónimo Romero e com o apoio oficial do Governo, foi fundado um pequeno assentamento agrícola, com localização em Muguete, no interior da baía. Mais tarde, foi iniciada a construção de um fortim no promontório onde hoje está a cidade de Pemba”.
Entretanto, começou a decadência do Ibo e das cidades costeiras por causa das novas relações comerciais com as colónias inglesas. O sistema comercial e portuário mudou-se para Maputo e Beira. Pensava-se em portos novos, mais acessíveis aos navios modernos, com vista à comercialização da esperada produção das regiões interiores.
“Pemba, naquela altura Porto Amélia, era o porto potencialmente utilizado por uma região que se esperava muito rica e produtiva, embora fosse ainda pouco explorada”, mas ganhou importância crescente como o centro militar e a sede representativa do poder colonial, porque o movimento para a independência tinha
a sua base no norte do país. De facto, Pemba “formal” começou a desenvolver-se ao redor de Paquitequete, que em língua kimwani (idioma local) – segundo uma das muitas interpretações – significa “o lugar onde as pessoas residem ou no lugar onde há uma aglomeração de pessoas ou, mais livremente, no povoado”. É o núcleo histórico da Pemba “informal”, embora custe a “apelidá-lo de informal pela sua idade, pela sua personalidade, pela delicadeza da sua gente cheia de regras, de cumprimentos formais, de tradições e de mitos”. Paquitequete seria uma cidade por si só, com fortes referências culturais ligadas aos antepassados das ilhas Quirimbas, com todas as características culturais pertencentes à faixa costeira do Índico, a costa Swahili. “Lugares como este só são informais porque as leis dos estados que temos, não só o nosso, não souberam ainda caber neles”.
O porto tradicional de Missete, as práticas comerciais, ligando as ilhas com o interior, os produtos do mar pelos produtos da terra, comprando-se e vendendo-se, seguindo as leis de procura e oferta, conforme os tempos.
Os habitantes de Paquitequete ainda mantêm fortes elementos de coesão, mas é evidente que a situação está a ser alterada. Já começou há muito tempo. Excesso de população, construção abusiva, falta de saneamento, subida das águas do mar, escassez de estratégias alternativas de desenvolvimento. O espírito de Paquitequete, que já foi M’pira, que já foi Pa Nuno, ao ritmo das marés e das luas, mudará de direcção. Isto tudo lê-se na estrutura da cidade, aliás, das cidades que fazem Pemba. As suas histórias. As suas gentes.
A cidade “formal” e a cidade “informal”, onde os dois termos têm sentido porque “as leis não souberam ainda caber neles.” Apenas.


PEMBA não é AntigA , nAscEu no fiM do século XiX.
TExTO PaOla ROlletta FOTOGRAFiA MauRO VOMbe

COMO IR
A LAM voa de Maputo para Pemba, com preços a partir de 16 000 MZN (ida e volta).
Onde dORMIR?
O Jardim dos Embondeiros é a mais recente casa de hóspedes da Praia do Wimbe, em Pemba. Oferece três chalets e uma casinha dupla com self-catering. Contactos: +258 84 475 7199 ou em www. jardimdosembondeiros.com
Onde COMeR?
O Rema Restaurante, na praia do Wimbe, oferece comida típica da baía de Pemba, como o famoso peixe Safi. O Dolfin (espaço lendário à beira-mar na praia do Wimbe) é especializado em cozinha portuguesa.
O que fazeR? Praia e banhos de sol ou desportos náuticos. Pode descobrir a cidade velha e visitar o típico bairro de Paquitequete. rotEiro
PArA os vErdAdEiros
AMAntEs dA
gAstronoMiA , uMA visitA Ao rEstAurAntE do MAPuto AfEcc
gloriA HotEl é
ABsolutAMEntE incontornávEl
MAPuto AfEcc gloriA HotEl
vIsitar o restaurante do Maputo AFECC Gloria Hotel é absolutamente incontornável. Porquê? Porque é uma oportunidade única para experimentar uma grande variedade de pratos que não constam de nenhum outro dos restaurantes da cidade. A variedade de ingredientes e modos de confecção dos pratos fazem da cozinha chinesa uma das mais ricas do mundo. Com mais de 5 000 pratos e cerca de 20 cozinhas regionais diferentes, a gastronomia chinesa assenta num fundo cultural com mais de quatro milénios. Para efeitos de simplificação, é costume considerar quatro grandes “escolas” culinárias na China. A do Norte, região fria, é marcada por um uso mais intenso do sal, o que decorre da tradição ancestral de salgar os alimentos não apenas na perspectiva da sua conservação mas também por causa das longas viagens que era preciso empreender em direcção ao Sul. Um dos pratos mais co-

nhecidos – o famoso Pato à Pequim – é tipico desta região. Sendo o trigo a base da comida do Norte é por isso mais comum encontrar aqui pratos com massas do que com arroz. Pelo contrário, a Sul (Guangxi, Guizhou e Guangdong), com as suas chuvas constantes, predominam os pratos à base de arroz. A cozinha de Guangdong, em particular, é bastante referenciada pois nela pontua a chamada “escola culinária Yue”, uma das principais escolas do país. São famosos o leitão assado de Guangdong, o frango zhuzhou de Foshan e os muitos e variados molhos (azeite de ostra, Qipu, molho de peixe, etc.).
Já a Leste (Anhui, Jiangsu e Zhejiang) os peixes são as estrelas, geralmente cozidos no vapor. Aqui os sabores são mais suaves, mas igualmente deliciosos. Um prato bem famoso é o peixe agridoce,
já que nessa região o sabor doce está mais presente. Um hábito antigo é o de temperar a comida com uma mistura de molho de soja e açúcar. Destaque também para a aguardente de arroz e para os guisados de carne de porco (uma das mais abundantes, sendo o presunto da região um dos mais famosos do país). Finalmente, a Oeste, região onde as montanhas dominam e as planícies escasseiam, as dificuldades no transporte dos alimentos levaram os habitantes a optarem por produtos da zona e a desenvolverem técnicas de preservação. São por isso comuns a carne seca ou os vegetais conservados em aguardente ou vi-
nagre de arroz. O processo de fermentação confere, aliás, à cozinha desta região um sabor mais amargo. As províncias de Sichuan, Hunan e Chongqing são também especialmente conhecidas pelo uso de mil e um tipos de pimenta o que torna a sua culinária uma das mais picantes. No restaurante do Hotel Gloria há uma interessante oferta de pratos da zona de Leste (Anhui), do Sul (Guangdong) e do Oeste (Sichuan). A ementa é vasta e impossível de esgotar numa única visita. As entradas frias são uma óptima forma de começar, o que não significa que a Sopa Azeda e Picante (com chilli e tofu) ou mesmo os habituais spring rolls não sejam uma alternativa interessante. Da lista incluída nas “escolhas do chef” pode optar, entre outras sugestões, pela Sopa de Couve, Fungo e Cogumelos com massa, pelo Pato cozido com rabanete azedo, a Carne de Vaca frita com fatia de arroz frita ou o Camarão frito.
QuintA do Piloto
MoscAtEl roXo suPErior 2011 –d.o. sEtúBAl
País: Portugal
RegIãO: Setúbal
Castas: Moscatel Roxo

COR: Ameixas pretas e pó de xisto com notas de alecrim e violetas
aROMa : Complexo com notas de caramelo, laranja, especiarias e nuances de chá de tília
PaladaR: Firme na boca, com frescura contagiante, polido, saboroso, sempre fino e fresco
fInal: Complexo e prolongado
teOR alCOólICO: 17%
vEnâncio costA
liMA MoscAtEl roXo 2014 –d.o. sEtúBAl
País: Portugal
RegIãO: Setúbal
Castas: Moscatel Roxo
COR: Âmbar acastanhado mas cristalino

aROMa: Evidência de compotas, figo, algumas notas de mel e de frutos secos
PaladaR: Extremamente aromático
fInal: Equilibrado, suave e meloso
teOR alCOólICO: 17%
vEnâncio costA
liMA rEsErvA dA fAMíliA MoscAtEl dE sEtúBAl
País: Portugal
RegIãO: Setúbal
Castas: Moscatel de Setúbal

COR: Âmbar com laivos esverdeados
aROMa: Boa intensidade, com notas de caramelo, mel, fruta cristalizada e algum fruto exótico
PaladaR: Meloso, com boa acidez, notas amargas não excessivas
fInal: Bom comprimento e persistência
teOR alCOólICO: 17%

ErMElindA frEitAs MoscAtEl roXo suPErior 2010
País
Portugal
RegIãO
Setúbal
Castas Moscatel Roxo COR Âmbar vivo e dourado aROMa
Frutos secos, avelã, nozes e especiarias
PaladaR Harmonioso com excelente combinação entre doçura e frescura
fInal Complexo e prolongado teOR alCOólICO
18,5%

forAM AvAliAdos 212 MoscAtéis dE 23 PAísEs, Por 55 jurAdos
a edição de 2018 do “Muscats du Monde” que avalia vinhos da casta Moscatel realizou-se, mais uma vez, em França, desta vez em Frontignan-la-Peyrade (região de Languedoc-Roussillon). Foram avaliados 212 moscatéis de 23 países, por um conjunto de 55 jurados. No final, foram atribuídas 24 Medalhas de Ouro e 46 de Prata. E como já vem sendo tradição, os moscatéis portugueses conseguiram excelentes classificações e obtiveram 10 medalhas, 4 de Ouro e 6 de Prata, uma prestação apenas superada pela França, país anfitrião do evento. Melhor ainda, no Top 10 dos vinhos mais pontuados, Portugal tem três vinhos, dos produtores Casa Ermelinda Freitas, Quinta do Piloto e Venâncio Costa Lima . Todos têm uma coisa em comum: foram feitos com a casta Moscatel Roxo. Os vinhos que obtiveram medalhas de ouro foram: Casa Ermelinda Freitas Moscatel Roxo Superior 2010 - D.O. Setúbal (Casa Ermelinda Freitas); Quinta do Piloto Moscatel Roxo Superior 2011 – D.O. Setúbal (Quinta do Piloto); Venâncio Costa Lima Moscatel Roxo 2014 – D.O. Setúbal e Venâncio Costa Lima Reserva da Família Moscatel de Setúbal. OsvinhoscomDenominaçãodeOrigem(D.O.)“Setúbal”, tradicionalmente designados como Moscatel de Setúbal e Roxo – produzidos a partir das castas que lhe dão nome – têm uma área geográfica produtiva delimitada, desde 1907, pelos concelhos de Setúbal, Palmela, Montijo e a freguesia do Castelo pertencente ao município de Sesimbra.
Sabe-se que a casta Moscatel é originária da Grécia, tendo-se expandindo pelo Mediterrâneo a partir de Alexandria (Egipto), possivelmente na época do Império Romano. Há várias variedades de Moscatel no mundo, todas com uma importante concentração de compostos aromáticos, no entanto, é a casta de Setúbal que apresenta maior concentração e riqueza desses compostos aromáticos. É esta casta que constitui a base do prestigiado vinho generoso “Moscatel de Setúbal” mas ela é também utilizada na elaboração de outros vinhos brancos. Já a variedade Moscatel Roxo, apesar de um perfil aromático igualmente rico e distinto, revela um aroma mais seco e complexo. Para além de poderem constituír um óptimo aperitivo, os Moscatel são ideais para acompanhar os mais variados tipos de sobremesas, pratos doces aromatizados com citrinos, café, chocolate, avelãs, amêndoas, todos os doces com ovos e açúcar ou ainda sobremesas com merengues. Como sugestão principal para este mês, propomos o Casa Ermelinda Freitas Moscatel Roxo Superior 2010 - D.O. Setúbal. Vinho de cor âmbar vivo e dourado, com aroma a frutos secos especiarias. Na boca é muito harmonioso com excelente combinação entre doçura e frescura, o que lhe confere um final bastante complexo e prolongado.
ÁFRICA DO SUL
21 YeARS: MAkIng HIStORIeS wItH SOUtH AFRICAn FASHIOn week expOSIçãO De ObRAS De 21 eStILIStAS SUL-AFRICAnOS
Zeitz Museum of Contemporary Art Africa (Cape Town)
Patente até 7 de Janeiro
Mais informação em https:// zeitzmocaa.museum/
FIve bHObH – pAIntIng At tHe enD OF An eRA expOSIçãO COLeCtIvA De pIntURA COnteMpORâneA DO ZIMbAbwe
Zeitz Museum of Contemporary Art Africa (Cape Town)
Patente até 31 de Março de 2019
Mais informação em https:// zeitzmocaa.museum/
AbOUt FACe expOSIçãO De pIntURA
Stevenson Gallery
Buchanan Building 160, Sir Lowry Road
Cape Town
Patente até 19 de Janeiro
Mais informação em https:// www.stevenson.info/
AbUnDAnCe expOSIçãO COLeCtIvA De pIntURA , eSCULtURA , CeRâMICA
White River Gallery Casterbridge Lifestyle Centre Cnr Hazyview and Numbi Road, White River, Mpumalanga, 1240
Patente até 27 de Janeiro eStADOS UnIDOS
bLACk ReFRACtIOnS: HIgHLIgHtS FROM tHe StUDIO MUSeUM In HARLeM expOSIçãO bASeADA nA COLeCçãO peRMAnente DO StUDIO MUSeUM
The Museum of the African Diaspora 685 Mission Street (at Third)
San Francisco, California 94105
Patente de 16 Jan 2019 - 14 Apr 2019
FRAnçA
MADAgASCAR: L’ARt De LA gRAnDe ILe pIntURA , FOtOgRAFIA , ARteS DeCORAtIvAS e eSCULtURA
Musée du Quai Branly 37, Quai Branly (Paris, França) Mais informação em: http:// www.quaibranly.fr/en/
• em destaque
Fany MpFuMo Songbook
Ed. khuzula

Lançado pela editora Khuzula, o “Songbook de Fany Mpfumo” é o primeiro livro moçambicano de partitura e letras e é edicado à obra de um dos maiores percursores da música popular moçambicana: Fany Mpfumo, o Rei da Marrabenta.
A obra foi produzida pelo agrupamento TP50 em parceria com a Musicarquivo –departamento da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane e está integrada na Colecção “Tempo dos Tocadores”.
A colecção “Tempo dos Tocadores” pretende promover, não só o registo das letras e partituras musicais dos autores nacionais, mas também proporcionar uma oportunidade aos músicos profissionais, amadores e estudantes, um instrumento que permita e estimule a prática da música Moçambicana. Por outro lado, o facto de se tratar de um livro bilingue (português e inglês) vai possibilitar que a música de Fany Mpfumo seja conhecida por um público mais vasto. Fany Mpfumo (António Mariva Mpfumo) nasceu em 1928 e morreu em 1987. Começou a cantar aos 7 anos e, em 1947, com apenas 18 anos, deixou Lourenço Marques com destino à África do Sul onde, mercê do seu talento, cedo granjeou simpatia e projecção no mundo.
“a hiStória
dE uMa SErva”
MargarEt atwood
bErtrand Editora
Com o sucesso mundial da série “The Handmaid’s Tale”, o livro de Margaret Atwood, que inspirou a série e tinha sido originalmente publicado em 1985, tornou-se num best-seller imediato.
“A história de uma serva”, que recebeu o prémio Arthur C. Clarke Award em 1987, tem sido considerado, a par de “1984” de George Orwell, um dos grandes romances distópicos do século xx. No livro, extremistas religiosos de direita derrubaram o governo norte-americano e queimaram a Constituição. A América chama-se agora Gileade, um estado policial e fundamentalista onde as mulheres férteis, conhecidas como Servas, são obrigadas a conceber filhos para a elite estéril.
Margaret Atwood nasceu em 1939, em Otava, no Canadá. Tem mais de 40 livros publicados de ficção, poesia e ensaio e recebeu, ao longo da sua carreira, inúmeros prémios, com destaque especial para o Booker Prize, bem como distinções como o título de Chevalier de l’ Ordre des Artes e des Lettres (França).


“ilHéus”,
o mais recente livro de Moira Forjaz, intitulado “Ilhéus” é, nas palavras da autora, “uma homenagem às pessoas especiais, vibrantes, interessantes e doces da Ilha de Moçambique”. Com um texto introdutório do escritor José Eduardo Agualusa, o livro contou ainda com a colaboração deYara Costa e Amade Saide. A E&M publica um excerto da introdução ao livro: ”Quando uma pessoa idosa morre, desaparece uma biblioteca, assim diz um provérbio africano. Em lugar algum isso é tão verdadeiro como na Ilha de Moçambique. Séculos de história entre a cidade de pedra coral e o macuti (palhotas cobertas de folha de palmeira), com tantas histórias que precisam de ser contadas pelas pessoas e não pelos historiadores. Eu apaixonei-me pela Ilha, na primeira visita que fiz. Foi logo depois da independência. Uma imensa
calma cobria a ilha, agora que os colonialistas portugueses tinham desertado, e a independência prometia um futuro melhor. A luz fazia as delícias de qualquer fotógrafo. Regressei muitas vezes depois disso e publiquei o meu primeiro livro de fotografias, chamado ‘Muipiti’ em 1983. Pouco tempo depois rebentou a guerra civil entre a Frelimo e a Renamo. O futuro prometido não ia acontecer. Em 2012, voltei à Ilha, mas desta vez para fazer dela a minha casa. A fotografia sempre foi, para mim, um meio através do qual eu pude converter as histórias no olhar da minha mente. À medida que fui conhecendo melhor as pessoas da Ilha, a profunda compreensão das suas
“ilHéus”, o MAis rEcEntE livro dE MoirA forjAZ, AcABou
vidas tornou-se fascínio. A ideia deste livro surgiu-me porque eu lhes queria prestar homenagem e dar-lhes um nome e uma voz antes que fosse tarde demais. Através das suas palavras e das minhas fotografias consegui conhecer e compreender um pouco as suas lutas e frustrações. A princípio, havia muito mais mulheres que homens, ansiosas para falar sobre suas vidas. A maioria dos homens tinha partido em busca de trabalho e sustento para as suas famílias, e tristes pareciam bastante derrotados pela vida dura que tiveram de enfrentar. Achei as mulheres surpreendentemente mais livres para falar sobre suas vidas e particularmente sobre as suas conquistas e poderes sedutores, dos quais elas muito se orgulhavam.”
TExTO RuI tRIndade FOTOGRAFiA d.R.
o cannes yachting Festival é o maior salão náutico da Europa e, por isso, são muitas as marcas que escolhem este evento para lançar os seus novos modelos. Assim, em Setembro, participaram 542 expositiores, foram apresentadas mais de 600 embarcações e a afluência de público ultrapassou os 50 mil visitantes. Como seria de prever, o evento foi dominado pela apresentação das novidades proveninentes dos maiores fabricantes mundiais, nomeadamente, do Grupo Azimut-Benetti. De acordo com a classificação anual do Global Order Book, publicada recentemente pela revista Show Boats International, o estaleiro italiano, com operações em 68 países, continua no topo sendo considerado o maior construtor mundial de iates e mega-iates. E foi em Cannes que a Azimut apresentou o novo Grande 32 Metri. Projectado pelo veterano Stefano Righini e pelo designer
de interiores Achille Salvagni, possui um espaçoso beach club na popa bem como uma garagem lateral que pode albergar um barco de apoio de cinco metros e uma moto aquática de três metros. O modelo está em linha com os recentes lançamentos da Azimut e apresenta uma superestrutura de fibra de carbono para um centro de gravidade mais baixo. Outra das novidades que chamou mais a atenção dos analistas foi a estreia do Silent 55 produzido pelos austríacos da Silent Yachts. Trata-se do primeiro catamaran do mundo a usar um sistema de propulsão eléctrica silenciosa. Com ruído e vibração mínima, o Silent 55 é auto-suficiente e quase dispensa manutenção. Com 30 painéis solares de alta
eficiência projectados para aproximadamente 9 quilowatts-pico, usa reguladores de carga solar de ponto de potência máxima (MPPT) e baterias de lítio. Este catamaran pode percorrer eficientemente até 100 milhas por dia durante várias semanas. Ao mesmo tempo, o arranjo dos componentes permite que o sistema alimente todos os sistemas a bordo sem necessidade de combustível para alimentar um gerador. Embora não tenha estado presente no Cannes Yachting Festival, a Lexus apresentou as primeiras imagens do LY 650, o iate de luxo de três andares em que está a trabalhar e que representa a sua primeira aposta neste segmento.
Todos detalhes acerca deste luxurioso iate ainda são escassos, mas a marca japonesa anunciou que espera ter o primeiro modelo concluído até ao final do ano.
cAnnEs YAcHting fEstivAl 2018
Lexus LY 650
Medidas 19,96 metros de comprimento e 5,72 metros de largura
Motor
Disponível com dois tipos de motores diesel, ambos fornecidos pela Volvo
Fabricante Marquis-Larson Boat Group


