E&M_Edição 09_Dezembro 2018 • Verdadeiro ou Falso?
cowork uM sEgMEnto quE não párA dE crEscEr EM MAputo
o ‘apagão’ da simo o quE sE pAssou, coMo sE rEsolvEu E o quE vAi MudAr
doing business
o quE AindA nos fAltA pArA MElhorAr no rAnking
mercado comum livrE circulAção AindA é só uM sonho AfricAno
DezemBRo 2018 • ano 01 • no 09
Preço 200 mzn
Observação
A Ponte
a imagem do primeiro dia em que as duas margens de uma mesma cidade se uniram
8 Radar
Panorama economia, banca, Finanças, Infra-estruturas, Investimento, País
Macro
14 ‘O apagão’ a história dos cinco dias sem rede sImo, o que não se contou e o que vai mudar
18 Cowork Um segmento a crescer em Maputo e que está a mudar o mercado dos escritórios
nação
MediCAMentOs
26 A saúde não tem preço mas... a e&M olha para o mercado dos fármacos e explica de onde vêm os medicamentos falsos e de baixa qualidade que entram em Moçambique
34 na voz de... Lukusa Pierre, presidente da associação Nacional de Farmacêuticos
38 ProvÍNcIa
nampula o corredor por onde passa o desenvolvimento que parece estar a chegar... e vem para ficar
Mercado e FINaNças
doing Business
Moçambique melhorou a sua classificação, pela primeira vez em anos, mas ainda falta muito
48 eMPresas
PMe
ipanema a história singular da única indústria de calçado em Moçambique
50 MegaFoNe
Marketing o que está a acontecer no mundo das marcas em Moçambique e lá por fora
68 escape os encantos da Lagoa doce e salgada do bilene 70 Gourmet Uma viagem pelas Índias no Moksha 71 Adega o Porto vintage mais pontuado do ano 72 Agenda Música, livros, filmes 73 Arte Uma reflexão sobre os assentamentos informais 74 Ao volante o luxo do Lexus Ux
52 fIgUra do MÊs
Mff
raquel Nobre, directora-geral da Quideia, organizadora do Maputo Fast Forward
54 socIedade
Airbnb
Um novo (ou nem tanto assim) fenómeno em crescimento exponencial no país e no continente
60 lÁ Fora
espaço Único Africano o que falta para a criação de um espaço de livre circulação de pessoas, bens e capitais em África
Doing Business, subimos mas ainda não o suficiente
uma das apostas estratégicas de Moçambique, nos últimos tempos, no quadro da promoção do investimento nacional e estrangeiro é a melhoria do ambiente de negócios, através da aprovação de políticas, reformas e adopção de procedimentos, que visam a simplificação e facilitação dos vários processos para fazer (bons) negócios no país.
Em consequência da materialização de algumas novas leis e procedimentos, por parte do Governo de Moçambique, constantes da matriz negociada com a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), que tem por objectivo, a remoção de um conjunto ainda alargado de barreiras ao investimento, foi possível, pela primeira vez em vários anos, melhorar a pontuação no conjunto dos dez indicadores que demonstram a capacidade de um determinado mercado servir como destino de negócios, divulgada recentemente pelo Banco Mundial, através do ranking anual do Doing Business.
As reformas nas áreas da electricidade, comércio além-fronteiras e pagamentos de impostos foram determinantes para a subida da economia nacional de três posições, de 138 para 135, num conjunto de 190 países avaliados.
Muito recentemente, foi realizado o 43º Conselho Consultivo do Banco de Moçambique em que foram apresentados estudos sobre o crescimento das Zonas Económicas Especiais, versus zonas econónomicas especiais e zonas francas industriais de alguns países africanos, tendo-se concluído que o País tem ainda muitos desafios que requerem coragem e ousadia para puder atrair mais e melhores investimentos estrangeiros (a título de exemplo, a necessidade de disponibilização de terras sem muita burocracia e constrangimentos, o acesso e redução do custo de energia, a facilitação de permissão e visto de trabalho, entre outros procedimentos burocráticos). Estas são também algumas das queixas dos investidores no país que devem continuar a ser melhoradas. Dada a relevância destas matérias, este tema é tratado com alguma profundidade nesta edição, pois ‘quem lê sabe mais’.
Dezembro 2018 • Nº 09
PROPRIEDADE Executive Moçambique
DIRECTOR Iacumba Ali Aiuba
COnsElhO EDITORIAl Alda Salomão; António Souto; Narciso Matos; Rogério Samo Gudo DIRECTORA EDITORIAl GRUPO EXECUTIVE Ana Filipa Amaro
EDITOR EXECUTIVO Pedro Cativelos JORnAlIsTAs Celso Chambisso; Hermenegildo Langa; Cristina Freire, Elmano Madaíl, Rui Trindade; PAGInAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Jay Garrido; Vasco Célio PRODUÇÃO Executive Moçambique PUBlICIDADE DEPARTAmEnTO COmERCIAl Ana Antunes (Moçambique) ana.antunes@executive-mozambique. com; iona@iona.pt/contacto@iona.pt (Portugal)
ADmInIsTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBlICIDADE Executive Moçambique; Rua do Telégrafo, nº 109 – Sala 6, Bairro Polana Cimento, Maputo – Moçambique; Tel.: +258 21 485 652; Tlm.: +258 84 311 9150; geral@executive-mozambique.com DElEGAÇÃO Em lIsBOA Rua Filipe Folque, nº 10 J – 2º drtº,1050-113 Lisboa; Tel.:+351 213 813 566; iona@iona.pt ImPREssÃO E ACABAmEnTO Minerva Print - Maputo - Moçambique TIRAGEm 4 500 exemplares númERO DE REGIsTO 01/GABINFO-DEPC/2018
Iacumba Ali Aiuba
observação
Maputo, NoveMbro de 2018 Uma nova passagem “aérea”
para o fUtUro
Cinco anos, 800 milhões de dólares e muitas polémicas depois, a Ponte Maputo Katembe foi inaugurada com pompa… mas por entre demasiadas circunstâncias que fizeram desta a maior obra infra-estrutural, em quase tudo (até por ter sido anunciada como a que tem o maior tabuleiro suspenso em toda a África), da capital do país. Uma ponte sobre um mar que parece um rio a ligar duas margens desiguais: a cidade maior e o campo por explorar ao longo de mais de 100 quilómetros até à fronteira com a vizinha África do Sul. Espera-se que o comércio se dinamize com a facilidade dos novos acessos e possa criar uma alternativa viável à sobrelotada fronteira de Ressano Garcia, e antevê-se que o turismo se desenvolva ao longo de uma costa (parte é reserva natural e marinha) que tem na frente a Ponta do Ouro, um lugar que, com o tempo passará a ser cada vez mais o destino de fim-desemana de muitos moçambicanos. Se o futuro é incerto, a todos os níveis, certezas há que se podem ter desde já. Os terrenos valorizaram e na Katembe, e toda a faixa sul, nada mais será como dantes, não sendo de estranhar que, dentro de alguns anos, as duas margens sejam uma só grande cidade.
Dezembro
fOtOGRafia Jay Garrido
ECONOMIA
Financiamento. A agência norte-americana de notação financeira Moody’s acredita “num retorno do pacote de financiamento” do Fundo Monetário Internacional (FMI) a Moçambique, congelado desde Abril de 2016, na sequência do escândalo das dívidas ocultas. “Moçambique poderá, em breve, ver desbloqueado o congelamento dos fundos externos directos ao OE,” referem os analistas da Moody’s. Uma visão baseada no recente princípio de acordo entre Governo e detentores dos títulos da dívida da EMATUM, avaliada em mais de 726 milhões de dólares, e na expectativa positiva do FMI, na recente visita ao país.
Tributação. A Autoridade Tributária (AT) anunciou um conjunto de “irregularidades” no processo de marcação de combustíveis por parte da Petromoc. Segundo a presidente da AT, Amélia Nakhare, “uma das constatações resulta da diferença entre o que vem confirmado pelas alfândegas e o que vem efectivamente indicado na factura, o que significa que, há diferenças ao nível da facturação entre o que se declara e a receita real”, explica. Por seu turno, a maior distribuidora de combustíveis do país, desvaloriza estas acusações e encontra no processo de carga de combustíveis, as razões para o desencontro de contas. “O acontece é que as alfândegas efectuam um registo prévio ao carregamento dos combustíveis e no acto do carregamento as quantidades que passam para os camiões não são taxativamente as mesmas do que as declaradas em manifesto de carga. Serão essas diferenças, mas que não comprometem aquilo que é o processo de venda de combustíveis”, explica Vicente Fringe, Director de Logística e Operações da Petromoc.
ECONOMIA dá (bONs) sINAIs dE rEtOMA ANCOrAdA NAs ExtrACtIvAs
PIB. A economia melhorou ligeiramente o seu desempenho no terceiro trimestre do ano, em comparação com o período homólogo. O PIB registou um crescimento de 3,2%, (melhoria de 1,8% face ao trimestre de Julho a Setembro de 2017), o que consolida a ideia da recuperação que se vem sentindo, ainda que de forma ténue, em alguns dos principais indicadores macroeconómicos do país. Já em relação ao trimestre anterior (Abril a Junho), o PIB desacelerou em 0,2 pontos percentuais.
Estradas. O Governo revelou ter investido cerca de 7 mil milhões de meticais na reabilitação de estradas ao longo deste ano, valor que o Fundo de Estradas considera “muito escasso para alcançar as metas definidas”.
O Presidente do fundo de Estradas, Ângelo Macuácua, diz que as infra-estruturas rodoviárias são de custo elevado, e “sem uma manutenção adequada e bem planificada, o país pode vir a pagar mais caro ainda pela sua reabilitação”.
Neste momento, o Fundo de Estradas está a mobilizar parceiros, empresas e outras formas de contribuição como “taxas de portagens, de combustível e rodoviárias”, para arrecadação de receitas para cobrir o valor necessário para a reabilitação de estradas.
O bom desempenho da actividade económica é atribuído em larga medida ao sector primário que cresceu 6,3%, com maior destaque para o ramo da indústria de extracção mineira, com um peso de 15,4%.
Para o próximo ano, a economia nacional deverá registar um crescimento no intervalo de 4% a 4,7%, sendo que a taxa de inflação prevista rondará os 6%, de acordo com a missão técnica do FMI liderada por Ricardo Velloso que recentemente visitou Maputo .
Negócios. Empresários de várias startup africanas estabeleceram parcerias de negócios em Maputo, através de bolsas de contactos com empreendedores iniciantes, durante a 6ª edição de Angel Fair Africa, evento que se realiza desde 2013 e que se anuncia como “referência” no continente.
Maputo foi a sexta capital deste evento que antes teve lugar no Quénia, Costa do Marfim, Nigéria, Gana e África do Sul. A iniciativa já resultou “em cerca de 23 milhões de dólares em investimentos nos países que já acolheram o evento”. A escolha de Moçambique deveu-se “aos recentes desenvolvimentos na indústria de hidrocarbonetos”, anunciou a organização.
Emprego. Cerca de 33 iniciativas de geração de rendimento para jovens moçambicanos serão financiadas pelo Governo em 2019, um número que representa cerca de 50% dos projectos juvenis apoiados em 2018. Em termos de distribuição dos projectos, a província e cidade de Maputo deverá absorver o maior número das iniciativas a serem
financiadas (seis projectos). As restantes regiões do país terão o mesmo número de projectos a receber auxílio do Governo (três cada).
Ao todo, e segundo o PES-2019, o financiamento vai beneficiar 1 369 jovens.
Empreendedorismo. Jovens empreendedores lançam apelo para “revisão em baixa das taxas para a legalização de empresas”, por forma a estimular o empreendedorismo. Este desejo foi manifestado durante a 6ª Conferência Nacional de Empreendedorismo, organizada pela Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE). Para a associação, a redução dessas taxas permitiria criar uma “maior oportunidade para reduzir a taxa de desemprego e aumentar a competitividade.”
Energia. A electrificação das 152 capitais de distrito ficou concluída, em Novembro, com a ligação de Luabo, na província central da Zambézia, e de Doa, em Tete, à rede eléctrica nacional. A electrificação de todas as capitais de distrito foi um projecto do anterior governo de Armando Guebuza, tendo ficado agora concluído.
ExtrACtIvAs
Logística. A Base Logística de Pemba, em Cabo Delgado, prepara-se para receber navios a partir de Janeiro de 2019. A informação foi avançada pelo director operacional da empresa Portos de Cabo Delgado, José Daúde.
Daúde disse à Rádio Moçambique que ainda estão em fase de conclusão os trabalhos de construção de um pontão com 375 metros, um armazém e a vedação de um terreno com cerca de 13 hectares, que fazem parte da primeira fase do projecto, cujo custo está orçamentado em 150 milhões de dólares.
Vale. O grupo brasileiro anunciou que pretende alcançar, em Moçambique, uma produção anual de 20 milhões de toneladas de carvão até 2021. No entanto, no relatório de produção e venda divulgado recentemente, a multinacional refere uma segunda baixa da expectativa de produção de carvão para 2018, revista em baixa de 15 para 12 milhões de toneladas. O grupo já havia anunciado, em Maio passado, estar a prever uma produção de 15 milhões de toneladas de carvão, face à meta de 16 milhões que havia estabelecido para este ano, devido às intempéries que assolaram a zona de produção. Marcelo Tertuliano, director financeiro da Vale Moçambique, disse que “a empresa quer aumentar a produção”, e vai precisar de “condições de mercado favoráveis” e uma estrutura de custos que garanta a sua sustentabilidade.”
Sasol. A companhia petroquímica sul-africana anunciou o pagamento de 500 milhões de dólares em impostos, desde que iniciou suas operações em Moçambique, há mais de uma década. O anúncio surge na sequência das críticas que vem recebendo por parte das várias organizações da Sociedade Civil que apontam o fraco impacto dos grandes projectos na economia do país. Numa troca de correspondência com o jornal “O País”, a direcção da Sasol em Maputo diz que pretende “expandir as suas operações”, e consequentemente, garantir “mais receitas para o Estado nos próximos anos.”
Nesta quadra festiva a BMM deseja a todos os seus colaboradores, parceiros, produtores, operadores da bolsa e público em geral, um Feliz Natal e Próspero Ano Novo
Que o ano 2019 seja um ano de consolidação de intermediação de commodities por via da BMM
A Presidente do Conselho de Administração Victória Daniel Paulo
RADAR
Hidrocarbonetos. O Governo assinou, em Novembro passado, um memorando de entendimento com o governo de França, à luz do qual mais de 20 técnicos nacionais vão frequentar cursos de mestrado na área de hidrocarbonetos naquele país europeu a título de bolseiros do Estado francês. Ao todo, as bolsas estão avaliadas em 700 mil euros (perto de 50 milhões de meticais ao câmbio actual) e serão garantidas pela Agência Francesa de Desenvolvimento.
Grafite. A Syrah Resources anunciou a assinatura de dois novos contratos de venda de grafite a extrair na mina de Balama, no norte do país, um dos quais com a empresa chinesa Qingdao Freyr Graphite Co., Ltd, informou a empresa australiana em comunicado ao mercado. O contrato assinado com a Qingdao Freyr Graphite (empresa com sede em Qingdao, província de Shandong, especializada na produção de grafite expandida) para o fornecimento de 6 000 toneladas de grafite ao longo dos próximos 12 meses, é o primeiro assinado com uma empresa chinesa para o fornecimento de flocos grosseiros.
O segundo negócio teve lugar no mercado à vista com a venda a uma empresa japonesa de grafite com 98% de carbono, a primeira vez que a Syrah comercializa a matéria-prima com tal grau de pureza.
A Syrah está envolvida no projecto de extracção de grafite em Balama, Cabo Delgado, e desde o início da exploração
e processamento, em Novembro de 2017, já produziu mais de 160 mil toneladas de grafite, exportada através do porto de Nacala.
Areias pesadas. O projecto de exploração de areias pesadas do Chibuto deverá mesmo entrar em funcionamento no primeiro semestre de 2019. A empresa chinesa Dingsheng Minerals já instalou a unidade de processamento com capacidade para processar 10 mil toneladas diariamente.
PrOvíNCIAs
Beira. A Cornelder Moçambique anunciou o investimento de 290 milhões de dólares no Porto da Beira, de acordo com o plano de investimento para a infra-estrutura recentemente aprovado pelo Governo. Para permitir que a concessionária recupere este investimento, o Governo decidiu alargar por mais 15 anos, até 15 de Julho de 2038, o período de validade inicial do contrato de concessão.
A Cornelder anuncia que pretende “reforçar a capacidade de processamento de carga” naquele porto, que passa pelo “alargamento do cais e parques, terminais, armazéns e outras instalações relacionadas com o funcionamento da infra-estrutura.”
Pemba. O Grupo Entreposto inaugurou um novo edifício multiusos em Pemba. Chama-se LATITUDE e fica no centro da capital provincial de Cabo Delgado. “Trata-se de um mo-
derno condomínio residencial composto por 38 apartamentos, prontos a habitar, integralmente equipados com cozinhas modernas, de tipologias T1 a T4, e duas lojas, num investimento de cerca de seis milhões de dólares.” O empreendimento faz parte da estratégia de capitalização das oportunidades de negócio relacionados com o sector do gás na bacia do Rovuma onde, nos últimos quatros anos, o Grupo investiu cerca de 10 milhões de dólares.
Ibo. A União Europeia anunciou que desembolsou cerca de 900 mil euros para projectos de desenvolvimento turísticos na ilha do Ibo, na província de Cabo Delgado. Denominada ‘Redes Ibo’, a iniciativa visa “promover o turismo, a conservação da natureza e da cultura” daquela que já foi a capital da província. A ‘Redes Ibo’ teve início em 2016 e já realizou quase metade do plano concebido. O Embaixador da União Europeia, António Sanchez Gaspar, aproveitou a sua primeira visita à província de Cabo Delgado para fazer o lançamento oficial do projecto. Além da União Europeia, o Ibo ainda vai receber apoio do governo de Espanha, para a reabilitação do património histórico da ilha. Com 257 anos de existência, a Ilha do Ibo é considerada, a vila mais antiga de Moçambique.
Mocuba. A Zona Económica Especial de Mocuba continua a registar baixos índices de crescimento. A informação
foi divulgada em Novembro, em Quelimane (província na Zambézia) no encerramento da reunião do 43° Conselho Consultivo do Banco de Moçambique na qual foi apresentado um estudo em que se revela que, desde a sua criação, a ZEE atraiu apenas 36,5 milhões de dólares de investimentos, num total de sete empresas. Estava prevista, também, a criação de 470 postos de trabalho, tendo apenas sido criados cerca de 260.
Lá FOrA
Cooperação. Moçambique e Quénia renovaram o compromisso de cooperação em vários domínios, com destaque para a área económica, durante a visita de trabalho que o Presidente da República Filipe Nyusi efectou àquele país, em Novembro passado. Num encontro entre empresários moçambicanos e quenianos os dois presidentes anunciaram a disponibilidade para gerar acordos que “facilitem a realização de negócios entre ambos os países” e desafiaram ainda os empresários a “aproveitarem essa oportunidade.”
O Quénia aproveitou a ocasião para também manifestar “interesse em tornar-se cliente do gás” que começará a ser explorado na Bacia do Rovuma, a partir de 2022.
CE-CPLP. Salimo Abdula, empresário moçambicano, foi reeleito Presidente da Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CE-CPLP), em Assembleia-Geral, realizada a 13 de Novembro passado, na cidade da Praia, em Cabo Verde. Salimo Abdula foi eleito por consenso pelos membros da agremiação empresarial dos países da CPLP e deverá cumprir mais quatro anos (até 2022) à frente dos destinos da Confederação.
OPINIÃO
Cultura e turismo, pontes para a paz, progresso e aproximação entre nações (II)
Professor Narciso Matos • Reitor da Universidade Politécnica e membro do Conselho Editorial da E&M
Aurélio Ginja • Mestre em Educação e docente na Universidade Politécnica
o turismo é parte integrante dos estilos de vida do nosso tempo, em que a mobilidade geográfica e o usufruto cultural desempenham um papel central. E ao mesmo tempo, em muitos países e regiões, constitui um sector económico essencial, porque dele depende, muitas vezes, o crescimento. Foi, aliás, deste modo que as políticas na área do turismo se tornaram veículos decisivos para políticas económicas sustentáveis.
Numa resolução de 2017, as Nações Unidas reconhecem que o turismo sustentável é “um instrumento positivo para combater à pobreza, proteger o meio ambiente, melhorar a qualidade da vida e tornar mulheres e jovens economicamente autónomos e protagonistas, além de contribuir com as suas três dimensões, particularmente nos países em desenvolvimento”. Neste sentido, são promovidas a sustentabilidade “ecológica”, que procura não alterar os ecossistemas, a “social”, que prospera em harmonia com a comunidade que a acolhe; e a “económica”, que dá impulso a um crescimento inclusivo.
A cultura não se prende apenas com as actividades de uma elite, seleccionada e educada para formular juízos estéticos a respeito do sistema de valores, tradições e modos de vida de uma comunidade específica. A cultura é também a vida e os interesses das pessoas comuns. A cultura é não apenas o passado e a tradição (história e património), assim como as expressões criativas (obras de arte, performances), mas também os modos de vida das pessoas, os seus hábitos e costumes. Esta tendência das políticas económicas sustentáveis, articula-se com o desenvolvimento de uma sociedade orientada para a prestação de serviços avançados, em que as tecnologias de comunicação e informação (TIC) desempenham um papel fundamental. É, de facto, através das TIC que os destinos mais remotos podem tornar-se acessíveis. E ao facultarem espaços virtuais, que podem ser consultados previamente, as TIC podem até concorrer para criar novas oportunidades de atracção de turistas a áreas periféricas ou longínquas.
Esta solidariedade manifesta-se, em primeiro lugar, no respeito pela dignidade pessoal da população local, pela sua cultura e pelos seus costumes, numa postura dialogante que visa promover o desenvolvimento integral de cada indivíduo. Na
viagem turística, esta atitude torna-se ainda mais exigente, porque é mais palpável a diversidade entre as civilizações, as culturas, as condições sociais e as religiões. O impacto das tecnologias de comunicação configura um aspecto a ter em conta nesta reflexão. Com efeito, as tecnologias de comunicação constituem o principal motor de incentivo ao processo de co-criação entre públicos, tanto turistas como locais. O sector turístico tem, assim, a potencialidade de promover encontros entre comunidades locais e visitantes, como estratégia para manter vivo o património material e imaterial. À medida que as práticas turísticas levam os povos a entrar em contacto uns com os outros e se estabelecem relações entre as populações, logo emergem as questões da identidade e da alteridade. E as questões que se colocam são até que ponto os indivíduos que vivem nos lugares visitados pelos turistas são influenciados, nas suas práticas culturais e artísticas e nas representações que têm de si mesmos, pelas experiências que dos turistas? De que modo estes absorvem, transformam e incorporam o que vêem e experimentam? Quais os impactos culturais, sociais e económicos desta relação?
Estudos realizados salientam a capacidade das populações locais, hoje compreendidas como sujeitos activos, que constroem representações da sua cultura para os turistas, baseadas nos seus próprios sistemas de referência, ou no modo como estes interpretam os desejos dos turistas, num contexto em que a relação entre o local e o global mudou radicalmente. Com efeito, sendo de complexidade crescente o mundo contemporâneo, o desenvolvimento do turismo e a proliferação de redes translocais e transnacionais ilustram uma nova realidade que impede o local de se cumprir num espaço confinado, mas ligado a outros espaços por inúmeras redes. Assim, o local é doravante dependente do mundo exterior. Que consequências isto traz? Outro elemento de reflexão tem a ver com a forma como o turismo influencia o modo como o grupo reconstrói a sua identidade e em que medida igualmente, pode ser utilizado para afirmar uma determinada pertença identitária. Cabe-nos exaltar a ponte não utópica que a Cultura e o Turismo podem estabelecer para a paz e o desenvolvimento.
Com efeito, as tecnologias de informação e comunicação constituem o principal motor de incentivo ao processo de co-criação entre públicos, sejam eles turistas ou locais
a história completa do apagão. terá sido a primeira ou a última vez?
No dia 16 de Novembro, o sistema bancário estremeceu com o desligar da ficha do sistema gerido pela SIMO, e o dinheiro passou a estar mais longe. Agora, o futuro da rede interbancária pode estar comprometido
sexta feira, 16 de Novembro, logo cedo, pela manhã. A mensagem já circula nas redes sociais. “Não há dinheiro”, lê-se. E não havia mesmo. As caixas automáticas e os diversos pontos de pagamento de cartões ‘secaram’, e com eles, o acesso directo às contas bancárias de cerca de 3,5 milhões de cidadãos e empresas nacionais. O ‘apagão’ aconteceu sem aviso prévio aos utentes e de forma completamente inesperada para todos... ou quase. E assim, os dias seguintes viriam a mostrar isso mesmo. Que afinal, de inesperado esta situação não teve assim tanto. E passariam vários dias até o sistema voltar a funcionar em pleno, na quarta-feira seguinte, dia 21 de Novembro, o culminar de uma semana cheia de história.
milhões de meticais
O prejuízO directO dOs bancOs durante Os seis dias que durOu O ‘apagãO’ da rede interbancária. Mas O custO tOtal seria cOnsideravelMente MaiOr e afectaria tOda a ecOnOMia
a rede interbancária
A ideia de criar a Sociedade Interbancária de Moçambique, hoje uma empresa participada pelo Banco de Moçambique (BM) em 51% e pelos bancos comerciais em 49%, surgiu no final da década passada, como consequência do amadurecimento da economia e de um sistema financeiro com duas dezenas de bancos.
A ideia é simples: criar uma entidade responsável por um ‘ecossistema’ bancário que unifique o acesso através dos terminais ATM (“automated teller machines”) e POS (“points of sale”), com vantagens óbvias ao nível da facilidade de acesso aos serviços disponíveis e da redução dos custos por operação, É essa a matriz inicial da Interbancos,
extinta formalmente há cerca de dois meses, para dar lugar à SIMO, a Sociedade Interbancária de Moçambique. Com o tempo, todos os operadores (com excepção do Millennium bim) acabaram por aderir ao sistema desenhado pela Bizfirst (Business First Consulting S.A.), a provedora do software utilizado na rede interbancária. A tecnológica portuguesa é, ao contrário do que se diria mais tarde, responsável pela rede interbancária de Cabo Verde, por exemplo, e tem vários clientes em Angola e em outros pontos do globo.
O resto é história, já se sabe. Na transição da Interbancos para a SIMO, os contratos previamente existentes não foram actualizados e a licença para utilização do sistema nunca foi renovada em nome da nova entidade que o geria, a SIMO. A esse respeito, com o decorrer dos dias o tom das acusações aumentou de parte a parte. Primeiro, foi a PCA da Sociedade Interbancária, Gertrudes Tovela, que, ao terceiro dia do apagão, num domingo, dizia que “a SIMO pagou tudo o que estava previsto no contrato para poder usar a aplicação”, e acrescentava não ter dúvidas sobre “a ausência de qualquer dívida quanto ao direito de utilização do software.”
No próprio dia, o comunicado da Bizfirst, desmentia esta versão, lamentando “a indesejada situação” e assegurando “não ter qualquer responsabilidade no ocorrido, bem pelo contrário, pois tudo fez, em mais de dois anos, para evitar o actual ‘status quo’, única e lamentavelmente imputável às entidades competentes.”
Mais horas passariam até Rogério Zandamela falar de “ataque cibernético nuclear”, expressão que redundava na inflexibilidade total para “reatar conversações com a empresa fornecedora do serviço”, posição assumida em plena Assembleia Nacional.
Só que, por esta altura, o problema já lhe tinha “fugido” das mãos, diz-nos uma fonte ligada ao processo.
algo nunca visto
À margem de tudo isto ficaram os clientes do Milenium bim, que nunca chegou a aderir à rede interbancária gerida pela SIMO (da qual é, no entanto, um dos accionistas), e manteve sempre a sua própria rede, fornecida pela Eunonet, uma multinacional que já havia concorrido (e perdido devido ao ‘factor preço’), em 2010, o concurso público então lançado para desenhar a solução tecnológica que viria, à época, a ser atribuí-
Através da Associação Moçambicana de Bancos, Paulo Sousa, o PCE do BCI (e antigo PCA da Interbancos, que precedeu à SIMO) terá assumido a dianteira do processo e negociado, com o aval do poder político, directamente com a Bizfirst
da à SIBS, por 10 milhões de euros. Mas era esta a solução de Zandamela para resolver o problema criado pela SIMO. E assumiu-o publicamente na mesma sessão parlamentar, revelando que até “já estaria a caminho” uma equipa da Euronet para implementar um novo sistema interbancário.
No entanto, de acordo com João Gaspar, um dos engenheiros que chegou a Moçambique no início da década, para implementar o sistema que hoje conhecemos, “esta solução poderia levar, no mínimo, dois meses. E o mais natural, seria que se arrastasse por meio ano ou até mais, o que teria custos brutais para a economia e graves efeitos ao nível do crescimento do PIB previsto para o próximo ano. Seria insustentável para a economia nacional ter milhões de pessoas sem poderem transaccionar capitais”, diz à E&M.
Assim, no mesmo dia em que Zandamela falava no Parlamento, os bancos (que perdiam diariamente cerca de 5 milhões de meticais de forma directa e um valor substancialmente superior em custos indirectos), já para não falar da fuga de clientes para o bim, faziam um forcing junto do primeiro-ministro, Carlos Agostinho do Rosário, para poderem assumir o problema (a dívida), e reatar a normalidade das suas operações. Ao que se sabe, o PM terá dado o seu aval positivo, e foi desta forma que o problema se começou a resolver.
Através da Associação Moçambicana de Bancos, Paulo Sousa, o PCE do BCI, (e ex PCA da Interbancos que precedeu a SIMO) assumiu a dianteira do processo e terá sido ele próprio a encetar negociações com a tecnológica portuguesa, alcançando já na madrugada de quarta-feira um princípio de acordo.
O contrato de fornecimento de serviço da Bizfirst passou para os 3 milhões de euros (quando o montante inicial de negociação era de 5 milhões de euros), e foi fixado um fee anual de manutenção de 500 mil euros, também abaixo do inicialmente estipulado.
Rogério Zandamela, em Tete, diria entao que teria sido “impossível a qualquer fornecedor reactivar os sistemas sem a colaboração do Banco Central”. E falava de um trabalho “intenso de todos para que isso acontecesse”. No entanto, junto da banca, estas afirmações não terão caído bem. E ao mesmo tempo, o Governador do BM dizia que mesmo assim, “nem todos os bancos” estariam alinhados com a solução daquele provedor e que estaria
macro
“Rede serve para impulsionar a bancarização da economia e a massificação da utilização dos instrumentos financeiros. Foi um grande passo, mas o processo deveria ter sido mais sério”
“a trabalhar juntamente com os bancos comerciais para procurar um provedor que não demonstre vulnerabilidades, nem apresente risco e precariedades tal como ocorreu com a Bizfirst”, disse. O problema resolveu-se, é certo. Mas, as posições da SIMO e da Bizfirst não se aproximaram, tal como também aumentou a distância entre os bancos e o BM. E há até, ao que apurámos, uma indicação expressa no memorando de entendimento assinado entre a AMB e a Bizfirst em que esta se nega a trabalhar sob a alçada da SIMO, tutelada belo Banco Central. A rede interbancária partiu de uma boa ideia inicial. Celeste Banze, do CIP, admite isso mesmo, “porque servia para impulsionar a bancarização da economia e a massificação da utilização dos instrumentos de pagamento electrónico alternativos ao numerário. Foi um grande passo para o alcance da inclusão financeira. Mas o processo poderia ter sido tratado de forma mais séria e rigorosa”, diz.
A verdade é que, de acordo com as várias fontes que a E&M ouviu junto da banca, a desconfiança está instalada. Claro que a mão pesada do Banco Central junto dos maiores bancos ao nível das multas que têm sido ‘passadas’ ao sector financeiro não ajudou em nada a moderar o clima de crispação e desconfiança mútua que se tem vindo a agudizar no último ano e meio. E claro que também não terá contribuído o facto de a banca já saber que, de há meses a esta parte, o BM tem procurado alternativas à Bizfirst e que a Euronet seria uma das opções em cima da mesa. A verdade é que a situação se resolveu, pelo menos por um ano.
Quanto custou ‘o apagão’
Em Moçambique, registam-se em média, diariamente, 465 mil transacções a nível doméstico e 14 mil a nível externo, num movimento aproximado de 600 milhões de meticais. Ou seja, ao longo dos 6 dias
que durou a “crise” cerca de 3,6 mil milhões de meticais deixaram de ser movimentados e os rácios de operabilidade dos bancos foram severamente afectados. Este, é o primeiro custo directo. Depois, a indisponibilidade dos meios electrónicos de pagamento afectou, e de que maneira, os negócios de muitas empresas cuja facturação terá caído entre os 70% e os 90% no retalho, e nos estabelecimentos hoteleiros e de restauração.
Para o sistema bancário o prejuízo diário estimado terá sido de aproximadamente 5 milhões de meticais por dia, 30 milhões ao longo dos seis dias. Depois, muitas empresas tiveram de reprogramar as suas actividades (os bancos estenderam o período de funcionamento, por exemplo), e todo o retalho sentiu drasticamente o impacto nos fluxos de caixa. Quanto aos custos indirectos, a redução da produtividade nas empresas, principalmente as que registam o pico de procura no fim-de-semana, e a quebra de confiança entre os clientes e os provedores de serviços são os mais preocupantes.
o fim da rede?
É este, de resto, o menos quantificável de todos os custos, não sendo difícil de prever que seja também o mais avassalador para a credibilidade do sistema financeiro, com sérios riscos de minar todos os esforços de inclusão financeira. “O projecto da rede interbancária foi implodido e tenho sérias dúvidas que se venha a reerguer, tal como estava inicialmente pensado. Os bancos perderam a confiança em quem gere o sistema e quem o faz, perdeu o apoio dos seus actores principais. Penso que estamos em risco de evoluir novamente para um sistema em que cada banco terá a sua rede própria”, diz-nos uma fonte que lidou de perto com o processo. O que pode vir a ser implementado em Moçambique é um sistema em que a interoperabilidade entre operadores de banca é mais efectiva. Uma tendência vista até em mercados financeiros mais evoluídos, que estarão a seguir neste sentido, muito ‘por culpa’ das novas soluções ‘propostas’ pelas operadoras de carteira móvel, apostando cada vez mais na interoperabilidade, por forma a acomodar as necessidades dos utentes das várias plataformas bancárias.
texto Armindo mAnguAne fotografia JAy gArrido
Banco Central está no centro de uma questão essencial: Como pode o sistema recuperar a confiança?
cowork e Business centres, quando o Barato sai mesmo mais… Barato
O mercado dos escritórios partilhados é a prova viva de como um conjunto de problemas, como a redução dos preços do imobiliário, o abrandamento económico e a diminuição do poder de compra podem ser oportunidades
o crescimento do sector dos serviços trouxe, inevitavelmente, novos desenvolvimentos ao nível da oferta, claro. E o conceito mais tradicional do que é um escritório também sofreu alterações. O espaço físico reduziu-se na medida em que a importância do digital aumentou e, com ele, diminuíram também os custos e cresceu a interactividade entre operadores de diferentes ramos. Há muitos exemplos que demonstram que as crises inspiram, de facto, a criatividade. E o segmento dos escritórios é um exemplo vivo dessa realidade, em que o
60%
presença num business centre permite, em média, uma poupança considerável às empresas ao nível dos custos operacionais
abrandamento económico levou grande parte das empresas, especialmente PME, a ter de cortar nos custos, nomeadamente das suas operações (renda, energia, limpeza e logística de escritório), o que acabou por se revelar uma oportunidade interessante para o surgimento de uma série de espaços de cowork (espaço partilhado) e business centres (salas dedicadas) no mercado nacional, que floresceram pelo simples facto de permitirem uma poupança de custos operacionais entre os 50% e os 60%. Esta é uma realidade não apenas
nacional, mas que representa uma tendência global com especial incidência em África. Segundo dados de 2017 da organização Coworking Africa, no espaço de uma década surgiram, no continente africano, mais de 250 espaços de coworking sendo que 80% deles abriram nos últimos três anos. O Egipto é actualmente o país com o maior número destes espaços (76), sendo um dos mais recentes (“The District”) no Cairo, frequentemente citado como “um modelo de excelência a nível internacional.” Como seria de esperar, a África do Sul ocupa também um lugar no topo desta lista, com 67 espaços de coworking sendo que, mais de metade, estão situados em Capetown. Outro mercado onde se tem verificado um surto deste novo tipo de espaços de trabalho partilhado é a Nigéria. Só nos últimos meses, novos empreendimentos como o Lagos Cowork, o Redahalia Workspace e o Leadspace abriram portas para concorrer com aquele que, até agora, tinha uma posição dominante, o Co-Creation Hub.
Para lá de África, o Brasil é um dos países que assume a dianteira e, em 2017, haviam ali registados cerca de 810 espaços, segundo um estudo feito pela Global Market Perspective que evidenciava um crescimento de 114% em relação ao ano de 2016. Em alguns dos principais mercados imobiliários globais, como Londres, Nova Iorque e Chicago, estes espaços estão a crescer 20%. Segundo o mesmo estudo estima-se que existam hoje, em todo o mundo, mais de 13 mil espaços de trabalho compartilhados. Em Moçambique, embora seja difícil fazer as contas a quanto representa este segmento de mercado, uma coisa é certa: o ritmo de abertura de novos espaços não deixa de relevar quão promissor ele é, mesmo apesar dos seus principais players se mostrarem ainda cautelosos quanto ao seu real valor e tendência de crescimento. “É uma nova fase que ainda estamos a experimentar, de certa forma, com um pouco de receio, porque basicamente, surgiu muito recentemente”, explica à E&M Celso Cossa, da Regus Moçambique.
os novos players de um novo mercado A Regus é uma multinacional que actua em mais de 120 países de todo o mundo e que opera no mercado moçambicano, onde detém três business centres, há já vários anos. “Esta tendência no segmento de escritórios surgiu da necessidade da busca de profissiona-
Os preçOs dO mercadO
A E&M foi visitar alguns dos escritórios partilhados do mercado e mostra-lhe os preços praticados
Preços mensais por pessoa ou secretária, em meticais
12 000 12 000
5 280
Iber Office Business Center Cowork Lab Regus Moçambique
31,7
3 650
Maffura Business Office
dólares por metro quadrado Preços do mercado dos escritórios são inacessíveis à maioria das PME que têm migrado para espaços partilhados. Por isso, os cerca de 200 mil metros quadrados de escritórios existentes em Maputo, têm uma taxa de ocupação estimada em apenas 50%.
lização dos empreendedores nacionais e da obrigatoriedade de tornar os seus projectos credíveis e mais eficientes. O conceito do empreendedorismo é novo no país, mas está a ganhar expressão. Aliado a essa tendência, os serviços de coworking são cada vez mais apelativos para quem, anteriormente, trabalhava a partir de casa”, assinala. Perfilhando a mesma posição, Pedro Ferreira, gestor da Cowork Lab Moçambique, uma empresa que também tem crescido nos últimos meses ao nível da oferta de espaços na cidade de Maputo tendo já cinco centros de escritórios na capital, explica que foi o empreendedorismo a chave mestra para o crescimento do negócio. ”Quando enveredámos por este segmento, foi mesmo para sermos uma solução para esses profissionais e PME. Os nossos business centres surgiram pela necessidade de criar uma espécie de solução ideal para o momento económico actual em que cada vez mais empresas pretendem reduzir os seus custos operacionais.”
Paga pouco pelo muito que usa Há vários tipos e formas de funcionamento deste tipo de escritório partilhado, assim como há igualmente diferentes segmentos. Existem nestes business centres espaços de escritórios independentes e outros que funcionam em regime de coworking (muitos deles enquadrados também em business centres que proporcionam ambas as soluções, de acordo com o critério e necessidades do cliente), em que a empresa paga uma renda por posto de trabalho, mesa ocupada ou escritório próprio, mas em que a alocação de equipamentos de escritório, serviços administrativos ou escritórios virtuais (para empresas não domiciliadas no país, por exemplo), ficam a cargo da gestão do business centre e são incluídos nos vários pacotes de renda disponibilizados. Irene Piñera, gestora da Iber Office Business Center, empresa que entrou há poucos meses no mercado, não hesita em afirmar que, “o negócio está a crescer uma vez que estes espaços permitem que as empresas estejam 100% focadas no seu negócio, e num único pacote possam ter todos os serviços necessários ao seu funcionamento.” E a gestora não vê esta tendência a recuar, pelo contrário: ”Existe uma perspectiva moderada de crescimento porque os moçambicanos são empreendedores por natureza e com a melhoria do desempenho económico do país, este segmento tenderá a sofrer mais procura.”
Pme e não só
Mas não são só os pequenos empreendedores que procuram este tipo de solução. Embora, de acordo com o que a E&M apurou, micro e PME (até 5 trabalhadores) sejam responsáveis por cerca de 90% de ocupação destes espaços, existem também profissionais que visitam o país em deslocações de curta duração e que ali encontram o local ideal para sediar temporariamente a sua actividade, mas também empresas de consultoria, instituições financeiras e até grandes corporações têm optado por business centres e espaços de cowork. Inovação, competitividade, flexibilidade e redução de custos são palavras caras no meio empresarial e quando se trata de tornar barata a despesa mensal, nenhuma empresa fica indiferente. “Hoje em dia, as pessoas falam de business centres e de coworking em Moçambique mas, há seis anos, o mercado era pouco conhecido, e ninguém sabia nada sobre ele”, considera o empresário
fonte Rec; emPResas
celso cossa, no escritório da regus moçambique, no
Pedro Ferreira que viu neste, um bom nicho para fazer crescer um bom negócio.
Dados apurados pela E&M, e também confirmados por muitos dos operadores do mercado, indicam que se há seis anos existiam nas cidades de Maputo e Matola apenas três espaços compartilhados, hoje, esse número aumentou consideravelmente e existirão perto de 20 espaços do género, um número pouco exacto, uma vez que não existe uma entidade reguladora do mercado que possa facultar o registo de dados estatísticos com maior acuidade.
Existem várias razões para que se tivesse formado um ‘ecossistema’ ideal para este negócio, quer para os operadores como para os clientes. Se para muitas PME, por um lado, o elevado peço por metro quadrado de escritórios na cidade de Maputo tornava inviável a contratualização de espaço próprio (ao que teria de associar todos os custos operacionais), já do lado dos operadores, o crescimento de uma lógica em que o empreendedorismo começou a ganhar espaço na economia (ainda que pequeno), aliado à redução de quadros de muitas empresas e à baixa de preços do mercado imobiliário (visível na quebra dos valores das ren-
é número de business centres que existem só nas cidades de maputo e matola. Há seis anos, eram apenas três
das de imóveis de habitação em muitos casos a rondar os 50% (de acordo com um estudo da consultora REC), fez com que estes espaços pudessem ser rentabilizados por este novo segmento que surge como resposta perfeita (e mais em conta) às necessidades de uma procura crescente.
Proximidade é uma vantagem Outra das grandes vantagens da partilha de escritório é a proximidade, que potencia a troca de serviços complementares entre empresas ou profissionais de diferentes ramos de actividade. De acordo com os operadores, criam-se ali “verdadeiras redes de networking e que de facto potenciam a concretização de negócios.” Danilo Mohamed, gestor do Mafurra Business Office, acentua esse “acréscimo de competitividade das empresas ou empreendedores que partilham o mesmo espaço porque se gera a interacção e a troca de experiências entre empresas e isso é fundamental para que possam trabalhar juntas e fornecer melhores serviços aos seus clientes.”
tExto Hermenegildo langa fotogrAfiA d.r.
millennium park, em maputo. Uma das empresas líderes deste segmento no país
Números em conta
Tempo de férias, e (porque não?) de escolher o próximo desTino de Trabalho
o tempo das férias, da praia e do descanso é, muitas vezes, aproveitado por inúmeros profissionais para planear os passos seguintes da sua carreira desafios. Mudar de empresa, área profissional ou de país até, migrando em busca de novos caminhos profissionais, condições salariais mais atraentes e diferentes estímulos pessoais. Claro que factores como a estabilidade social, política e macroeconómica são factos importantes a ter em conta, bem como a segurança, o nível do custo de vida, o crescimento económico do mercado e a taxa inflação, ou o regime de tributação e os benefícios do pacote salarial, entre tantos outros. A E&M, foca-se num dos decision makers: o salário. E revelamos onde se ganha mais, e onde é melhor para viver. E nem sempre, como é o caso, ambos coincidem no lugar.
no mundo...
Estudo global da HSBC mostra que trabalhar no estrangeiro aumenta o rendimento médio anual do trabalhador em 21 000 dólares
Em milhares de dólares por ano
2ª estados unidos 185,2
1ª Zâmbia
17 784 $
A Zâmbia é o destino mais atraente para profissionais que procuram um lugar para encontrar empregos bem remunerados em África. O país testemunhou um crescimento médio anual de 7,3% desde o início do século e o PIB per capita subiu 4,3%. Apesar da desaceleração económica registada nos últimos três anos, o salário mensal médio líquido na Zâmbia é de 1 482 dólares por mês. As carreiras mais bem pagas na Zâmbia são: gestão (1 925 dólares), banca (1 350 dólares), assistência médica (1 310 dólares) e ONG (1 250 dólares), em média.
2ª África do sul 15 240 $
É, como se sabe, uma das economias mais vibrantes do continente e por isso um importante centro para profissionais de todo o mundo. Com uma média mensal de salário líquido a rondar os 1 270 dólares por mês, as profissões mais bem pagas são as relacionadas com engenharia de software, arquitectura e as da área do oil and gas que podem facilmente chegar aos 5 000 dólares por mês, gestores de TI (3 600 dólares) e controladores de tráfego aéreo (3 500 dólares por mês).
sinGapura o lugar para se estar
As conclusões de um estudo global de 2018 do Banco HSBC sobre os melhores destinos do mundo para viver e trabalhar mostra que na Suíça, famosa pelas montanhas, bancos, chocolates mas também pelos preços elevados, o aumento anual de rendimentos face ao anterior posto de trabalho chegou em média aos 61 000 dólares. Mas, ainda assim, há outros factores relevantes na escolha do melhor destino (rácio entre salário, custo de vida, inflação) e nesse aspecto, Singapura, o quinto mercado com os melhores salários para expatriados é, no entanto, e pelo quarto ano consecutivo, o melhor lugar do mundo para se estar.
.. e em África
Continente está longe dos lugares cimeiros deste ranking mas, ainda assim, há mercados atraentes
3ª namíbia 9 036 $
A economia namibiana dependa extração e processamento de minerais (está entre os 5 maiores produtores mundiais de urânio). Com um crescimento económico médio na casa dos 5% nos últimos anos, o salário líquido médio na Namíbia é de 753 dólares por mês. E também ali, uma das indústrias mais que melhor remunera é a da aviação (gestores auferem em média 2 972 dólares por mês), enquanto pilotos e capitães podem chegar aos 6 700 dólares por mês.
Valores em milhares de dólares por ano de 12 meses FONTE HSBC Expat Explorer survey
OPINIÃO
Selo sem sê-lo, eis a questão
Hugo Gomes • Administrador da Cervejas de Moçambique
no ano de 2017, por decisão governamental, foi iniciado o processo de selagem das bebidas alcoólicas (cervejas, RTD´s, vinhos e espirituosas), cujo objectivo principal passa por combater a evasão fiscal e garantir receitas para o Estado.
O que à partida parece ser uma medida consensual e com grandes benefícios para todos, deixa de o ser quando nos dedicamos a compreender as especificidades de cada indústria e como o processo da selagem apresenta diferentes contornos para as cervejas e bebidas tipo RTD´s (bebidas alcoólicas prontas a consumir) em contraposição aos vinhos e bebidas espirituosas por exemplo.
Vamos por isso, compreender de forma objectiva a realidade, colocando algumas questões que necessitam de urgente reflexão: custo dos selos e preço de venda; o índice de evasão fiscal que, no subsector nas cervejas, é muito baixo (falamos de menos de 1%), se comparado com as bebidas espirituosas e vinhos, que ultrapassa os 60%, uma diferença demasiado significativa para ser ignorada.
A cerveja é uma bebida de massas, logo, milhões de garrafas e latas são produzidas anualmente.
Os custos de adaptação da maquinaria presentemente existente e os custos de aquisição dos selos em si, representariam um enorme encargo financeiro para as empresas deste sector. Não podemos esquecer que falamos de produtos que são vendidos ao público por relativo baixo preço.
Primeira pergunta: haverá pertinência e terão as empresas deste subsector viabilidade para investirem nos selos, quando a taxa de evasão fiscal neste sector é quase inexistente?
No que diz respeito à quebra de produtividade e receitas há também grandes diferenças no que diz respeito ao enchimento e embalamento das garrafas de vinho, espirituosas e das cervejas: em média, a velocidade das máquinas de enchimento das cervejas, varia entre os 40 000 e 90 000 unidades por hora. Com a aplicação dos selos, assistiremos muito naturalmente a uma redução do volume de produção na ordem dos 40%.
Consequências?
Um previsível sub-abastecimento do mercado, menos produto disponível, menos vendas e daí uma redução do contributo fiscal, social e económico das empresas.
Segunda pergunta: Não estamos desta forma a contrariar aquele que é o propósito maior do projecto da selagem de bebidas alcoólicas? Após a apresentação dos dois primeiros argumentos, será fácil de compreender que também os consumidores serão afectados.
Porquê? O elevado custo da operação e o investimento das empresas nos selos irá forçá-las a repassar este custo para o consumidor, incrementando o preço da cerveja, o que tradicionalmente gera uma redução do volume de vendas.
São consequências que a Indústria já conhece bem e que podem levar à reestruturação do modelo de funcionamento das empresas, com o desemprego como uma das consequências.
A Diageo e a própria CDM (com as unidades de vinho e espirituosas) já passaram por este processo e o mesmo é sobejamente conhecido das autoridades locais.
O que à partida parece ser uma medida consensual e com grandes benefícios para todos, deixa de o ser quando nos dedicamos a compreender as especificidades de cada indústria e como o processo da selagem apresenta diferentes contornos para as cervejas e outras bebidas
Nação
O preçO da saúde… e da vida
De onde vêm os medicamentos falsos e de baixa qualidade? Como entram em Moçambique e quem os vende? E como distinguir os contrafeitos dos genuínos? Ninguém consegue responder com precisão a estas questões que, parecendo meramente sociais, têm sérios impactos económicos. Sem capacidade para certificar a sua qualidade, nem para fiscalizar o que está no mercado, Moçambique vai engrossando as estatísticas mais assustadoras: 43% de todos os medicamentos reportados como “falsos ou de qualidade inferior” estão em África e são responsáveis por 100 mil mortes todos os anos
tornou-se comum, na sociedade moçambicana, alguém que padece de uma enfermidade deparar-se com pelo menos três realidades indesejáveis: não ter acesso aos medicamentos prescritos pelo médico; não poder comprá-los por serem caros; e ter de tomar medicamentos baratos... e continuar doente. Não há qualquer estudo que já tenha sido realizado ou tornado público sobre o que se passa no mercado de medicamentos em Moçambique, mas o contacto com entidades do sector permite abrir caminhos que podem ajudar a entender o complexo corredor por onde este mercado se move.
Como se sabe, em Moçambique, é o Estado quem suporta a quase totalidade da factura em medicamentos para os cidadãos. No sistema de saúde pública, a prescrição médica de três a quatro medicamentos
43%
A estAtísticA é dA OrgAnizAçãO MundiAl de sAúde e revelA que quAse MetAde de tOdOs Os MedicAMentOs fAlsOs Ou cOntrAfeitOs nO MundO, sãO AdMinistrAdOs A dOentes eM ÁfricA
custa cinco meticais, um valor que, sem essa subsidiação, não chegaria para adquirir os medicamentos receitados. E é assim que chegamos à primeira e mais crua realidade: como Moçambique não tem a capacidade financeira de outros países mais desenvolvidos para importar medicamentos de melhor qualidade para toda a população – que serão os fornecidos pelos grandes laboratórios mundiais – o primeiro critério dos concursos públicos para contratar fornecedores de medicamentos em número suficiente é o do preço mais baixo das propostas. E este é, de acordo com os operadores do mercado dos fármacos no país, o primeiro factor que abre um espaço indesejado para a circulação de muitos medicamentos de baixa qualidade no país, muitos deles falsificados, até em relação aos princípios activos,
Nação
e aos benefícios que anunciam conter. Liliana Proença, country manager do grupo farmacêutico português Bluepharma, considera que o problema de encomendar medicamentos mais baratos está “na elevada exposição ao risco de ter um mercado cada vez mais infestado de produtos de pouca qualidade, que geralmente são de muito baixo custo, pelo que o preço também deve ser tomado como factor de desconfiança”, explica. “A contrafacção e a entrada de medicamentos sem qualidade existem em Moçambique como noutros países, incluindo os não africanos, mas a verdade é que os estudos comprovam a elevada incidência que existe em África a este nível”, revela a gestora, que coloca a tónica no controlo de qualidade que deve existir no mercado: “o preço baixo, por si só, não é suficiente para se concluir que se está diante de um medicamento contrafeito, uma vez que existem produtos baratos, mas de boa qualidade”, sugerindo o aprimoramento da capacidade de testagem dos medicamentos que são comercializados no mercado. Vários são os operadores (laboratórios e operadores) contactados pela E&M que o sugerem, de igual forma, mas já lá vamos.
“A contrafacção e a entrada de medicamentos sem qualidade existem em Moçambique como noutros países, incluindo os não africanos, mas a verdade é que os estudos comprovam a elevada incidência que existe em África a este nível”
Para Liliana Proença, a falsificação de medicamentos atrapalha o negócio da Bluepharma em Moçambique, mas coloca a probreza como o principal pivô. “A maioria da população não tem poder de compra para adquirir produtos de qualidade e acontece que entram medicamentos que custam cinco meticais, que estão mais acessíveis à população, enquanto que os que nós, e outros laboratórios grandes a nível mundial, disponibilizamos podem custar 100, 200, 1 000 meticais ou mais”, constata. Concordando com esta ideia, Jorge Ribeiro, director-geral da Medimport, a primeira companhia importadora de medicamentos do país, apresenta uma sugestão: perante a incapacidade do Estado em buscar o melhor que existe das indústrias farmacêuticas, há um ponto de equilíbrio que poderia ser válido para ajudar a conseguir melhores resultado com menos recursos: “Muitos países optaram por não adjudicar os contratos de compra de medicamentos a valores mais baixos.” E até dá um exemplo: “havendo dez empresas a fornecer a preços diferentes, estes países compram o que esteja próximo do preço mais baixo, por suspeitarem que o menor custo pode
Mão cheia de nada. São inúmeros os casos de doentes que compram medicamentos baratos, mas cujo efeito é completamente nulo. E isso tem várias causas
o mercado dos medicamentos
Vários estudos têm sido publicados com informações sobre a indústria farmacêutica. no entanto, em muitos países em desenvolvimento não existe informação precisa sobre o que se passa. apesar de tudo, a organização mundial de saúde (oms), as nações Unidas ou o Fórum económico mundial, conseguem disponibilizar dados que permitem olhar a verdade dos vários mercados de medicamentos do continente africano. Recorrendo aos resultados, procuramos responder às questões que eles levantam.
30 500 000 000
de dólares
Volume de negócios anual de medicamentos falsificados em África estimado pelas nações Unidas, em novembro de 2017.
De onde vêm a maioria dos medicamentos que estão em Moçambique?
100 000 10,5%
mortes de africanos por tomarem medicamentos falsificados, anualmente.
contrafeitos ou seja, um em cada dez medicamentos em África é falso.
das denúncias de medicamentos falsos no mundo e 11 dos 13 alertas emitidos pela oms provêm de África. 42%
Quais são os medicamentos mais falsificados em África?
Anti-malária (como o Coartem) e antibióticos vários.
Qual o preço de uma receita médica em Moçambique no sector público?
Cinco meticais...
... O que faz com que o critério para a importação de medicamentos no sector público seja...
O preço mais baixo.
Isso pode colocar em risco, a qualidade dos princípios activos do medicamento?
Ao nível do controlo de qualidade, quantos laboratórios existem em Moçambique para testes de medicamentos?
Índia (maior parte), China, Europa, África do Sul, Brasil. Apenas um.
Quanto tempo demora, em média, a sua certificação e aprovação de utilização por parte dos doentes?
Pode levar meses, ou até mais, de acordo com várias fontes contactadas.
Quantas empresas importadoras de medicamentos existem em Moçambique?
Mais de 60.
Quem domina o mercado mundial de medicamentos?
Os EUA são o maior fabricante mundial.
Qual é o medicamento mais vendido em Moçambique?
De acordo com a OMS, sim. O Paracetamol.
Porque é que tudo isto acontece? 1 7 8 4 5 6 2 3 9 10
Os medicamentos de qualidade inferior ou falsificados aparecem sobretudo em locais onde há má governação ou falta de capacidade técnica. Esses factores afectam principalmente os países de baixo e médio rendimento, onde se incluem muitos países africanos Pernette Bourdillon, analista da OMS
Nação
estar relacionado com lotes de medicamentos sem qualidade”, diz. Na sua opinião, esta medida “não resolveria tudo”, mas garantiria “alguma qualidade nos produtos que se importam”, considera.
O barato sai caro… há erro de estratégia? Para facilitar a aquisição de medicamentos às populações mais pobres, o Estado decidiu, em 2005, reduzir de cerca de 100 meticais para 5 meticais o custo da receita de medicamentos no Sistema Nacional de Saúde. A medida sempre foi criticada pelos farmacêuticos, que a consideraram como “uma das principais causas” da ineficiência dos serviços de saúde no país. “O custo dos medicamento fornecidos é exageradamente baixo. A medida que se tomou há uns anos foi bem intencionada, mas não sei se será a mais indicada porque me parece difícil colocar uma receita médica de três ou quatro tipos de medicamento a cinco meticais”, defende.
Liliana Proença, da Bluepharma, deixa pistas para uma possível solução: “O caminho poderia ser a partilha de custos entre o Estado e as famílias, no sentido destas comparticiparem com uma percentagem razoável (maior que os actuais cinco meticais), e o Estado subsidiar a outra parte”. Este é, de resto, um modelo aplicado com sucesso em Portugal e noutros países (e até em Moçambique, para quem tem seguro de saúde, por exemplo) em que as farmácias fazem descontos imediatos permitindo acesso ao medicamento mediante pagamento de parte do custo da receita médica, recebendo depois o reembolso do remanescente pelo Estado.
Controlo de qualidade, a maior das fragilidades Se foram as fragilidades financeiras do próprio sistema (algo que é comum a quase todos os países em desenvolvimento) que tornaram norma corrente a entrada de medicamentos baratos no sistema de saúde pública, isso também aconteceu devido a uma outra questão – o deficiente controlo de qualidade das referências que entram no mercado. Com quase 29 milhões de habitantes, Moçambique dispõe de apenas um laboratório público para testar e aprovar a qualidade dos medicamentos antes de entrarem no mercado, que é tutelado pelo Ministério da Saúde (MISAU).
A E&M foi a este laboratório na Cidade de Maputo e conversou com um técnico que preferiu o anonimato e exigiu brevidade. Em cinco minutos de interacção,
Moçambique dispõe de apenas um laboratório público para testar e aprovar a qualidade dos medicamentos
“A falsificação de medicamentos é o mais rentável dos negócios ilícitos. Um investimento de mil dólares pode gerar até 500 mil dólares.” Num relatório de 2015, o Fórum Económico Mundial diz que África é o continente onde este fenómeno mais ocorre
revelou uma realidade preocupante: “não temos equipamentos suficientes para realizar testes de forma flexível. Algumas vezes ocorre que antes que lancemos os resultados da amostra, os medicamentos em causa já estejam a ser vendidos nas farmácias, porque levamos muito tempo para divulgar os resultados”, disse a fonte, que optou em remeter-nos à Direcção Nacional das Farmácias, a instituição que, até à data, não respondeu à solicitação de entrevista pela E&M. Sem isso, permanece a sensação sobre a incapacidade para testar tudo o que entra no país, e o perigo de não se saber bem se os medicamentos que se tomam, são verdadeiros, falsificados, ou só ineficazes. Com tudo o que isso implica.
Com a saúde não se brinca
Pela dimensão das dificuldades no controlo da qualidade, o Presidente da Associação dos Farmacêuticos de Moçambique (AFARMO), Lukusa Nkunda Lucien Pierre, defende uma “diminuição do papel social do Estado, para dar maior atenção aos medicamentos, procurando nos serviços farmacêuticos uma preciosa ajuda” para combater o problema, “Isso poderia reduzir gastos e atribuir maior atenção ao controlo da qualidade.” Paralelamente, sugere a colocação de laboratórios de controlo de qualidade também no Centro e Norte do país, numa primeira fase, mesmo que sejam laboratórios privados.” Ainda assim, e enquanto isso não acontece, prossegue,
“o Ministério da Saúde deveria reforçar a inspecção de medicamentos nas farmácias onde, muitas vezes, estão medicamentos sul-africanos que geralmente resultam de uma importação informal, foram trazidos sem acondicionamento devido, não sabemos as validades, e que não pagaram os respectivos impostos. Isso tem custos também para o próprio Estado”, lamenta Jorge Ribeiro. Toda esta dinâmica, teve ainda um outro resultado: o desinteresse dos grandes laboratórios no país. Como? “Os grandes laboratórios têm cá um country manager que reporta constantemente que nas farmácias há medicamentos sul-africanos semelhantes aos dos seus laboratórios, mas ao questionarem as autoridades sobre isso, nada acontece. Por isso, e também pela dimensão reduzida do mercado, muitos deles, ou foram embora, ou abandonaram os seus planos de investimento e crescimento para o país. O que é pena, porque estas grandes marcas globais, têm comprovadamente
uma enorme preocupação com a salvaguarda da vigilância da qualidade dos seus produtos”, explica Jorge Ribeiro.
a lógica dos preços
Liliana Proença explica que, “dentro da cadeia de criação de medicamentos existem os chamados originadores, que são os que descobrem novas moléculas e novos tratamentos (mais caros porque comportam todos os custos para os colocar no mercado num processo que passa por descobri-lo, desenvolvê-lo, testá-lo em humanos, assegurar a sua eficácia e segurança) e existem os genéricos, que surgem após os primeiros (que por norma são mais baratos).” Até aqui, nenhum problema. A questão é que um genérico de origem europeia é, em média, mais caro do que o de origem indiana e chinesa, por exemplo, porque o medicamento europeu tem um controlo de qualidade rigorosíssimo e caro, feito na Europa onde as leis a este respeito são, de facto, muito restritivas. Já o mesmo não
MOçaMbique, uM MerCadO “MuitO pequenO”
“o mercado nacional é extremamente pequeno devido ao fraco poder de compra, não sendo, por isso, atractivo aos investimentos dos grandes laboratórios mundiais”, assim considera a Bluepharma. em angola, por exemplo, a empresa consegue facturar o triplo do que acontece em moçambique. mas admite que, para uma empresa média como a Bluepharma, “é importante estar em moçambique” apesar da pequena dimensão do sector, por ser um mercado adicional de venda dos seus lotes a par de outros mercados como o Brasil, Venezuela, correia, irão, entre outros. Por causa disso, de acordo com Jorge Ribeiro, “houve já vários laboratórios que investiram em moçambique e que acabaram por sair ao fim de dois ou três anos”. Para estes operadores, e apesar de o grande cliente ser o sector público, é o privado que assegura a garantia de continuidade, ou seja, os fornecedores orçamentam todas as actividades, incluindo os investimentos, com base nas receitas do sector privado.
acontece em relação a muitos medicamentos que não passam este circuito (Europa ou Estados Unidos).”
Nestes casos, o teste de qualidade tem de ser feito no mercado de destino, e está aqui um dos pontos frágeis do sistema e a razão para os tais 42% de todos alertas sobre falsos medicamentos reportados à OMS anualmente, serem provenientes de África (principalmente na Subsaariana onde as taxas em alguns países, como a Nigéria, chegam aos 70%), onde o risco de consumir medicamentos impróprios é de facto mais elevado, dadas as fragilidades da avaliação de qualidade já referidas. E é também por isso que, de acordo com o relatório ‘Sistema de Vigilância e Moninorização Global da OMS para Produtos Médicos de Qualidade Inferior e Falsificados’ de Novembro de 2017, morrem anualmente cerca de 100 mil pessoas em África.
A comercialização de medicamentos falsos é, de há muito tempo a esta parte, um problema global, que sobrecarrega frequ entemente as capacidades de cada país.
Nação
Ou seja, de acordo com a perita da OMS, Pernette Bourdillon Esteve (em declarações à agência DW), “é preciso agir a todos os níveis.” No combate imediato aos medicamentos falsos, prossegue, é necessário educar as populações. “Primeiro que tudo, é preciso que as pessoas estejam informadas sobre os riscos de usar estes medicamentos. E os casos devem ser reportados às autoridades.”
equívocos sobre a indústria asiática Muitas vezes a Ásia (principalmente Índia e China) é conotada com a indústria que produz medicamentos de baixa qualidade transaccionados, sobretudo em África, onde a capacidade de controlo de qualidade é menor e a pobreza possibilita a comercialização a baixo custo. No entanto, é preciso cuidado para não cair no preconceito, advertem os especialistas na área. “A Índia, por exemplo, tem uma das melhores indústrias farmacêuticas do mundo. Em termos tecnológicos é um país avançado nesta área. E nos mercados mais desenvolvidos do mundo, como os Europeus, importam-se muitos medicamentos produzidos na Índia”, esclarece Liliana Proença. O posicionamento é partilhado pelo Director-geral da Medimport, que até importa medicamentos daquela região do globo: “Há medicamentos indianos muito
Ao contrário do que acontece noutros mercados africanos, como em Angola, por exemplo (apontado com um mau exemplo a este nível), o de Moçambique “é extremamente regulado”, revelam especialistas à E&M
bons mas também há os muitos fracos. O que está a faltar, será uma fiscalização mais rigorosa”, defende Jorge Ribeiro.
Legislação, o melhor que temos
Ao contrário do que acontece noutros mercados africanos, como em Angola, por exemplo (apontado com um mau exemplo neste aspecto), o de Moçambique “é extremamente regulado”, revelam especialistas consultados pela E&M. Aqui, as importações são sujeitas a um registo prévio, e é compilado um dossier de registo de todas as características de cada medicamento. Trata-se de um documento elaborado pelo laboratório que fabrica o produto e que, depois, é enviado para os importadores que o submetem ao Ministério da Saúde para aprovação. É este o factor que determina (ou não) a importação.
E os elogios à formulação do sistema, a este propósito, vêm de todo o lado. Segundo o presidente da AFARMO, “para um medicamento circular em Moçambique tem de ser registado, o que comprova que antes de tudo, entrou ao mercado com o conhecimento da Direcção Nacional das Farmácias (DNF) ao nível do plano técnico-farmacêutico e da composição desse mesmo medicamento. Isso permite, se o sistema funcionar devidamente, diminuir em 99% a contrafacção”, diz. No entanto, há uma falha a este respeito, tantas vezes encontrada entre a boa intenção das leis e a sua difícil aplicabilidade, assume Lukusa Nkunda: “as nossas fronteiras não têm farmacêuticos nem inspectores, daí que entrem produtos ilegais não controlados no mercado.” Liliana Proença considera que, além do rigor com os dossiers de importação, é necessário reformar “o controlo de qualidade das amostras que são enviadas ao laboratório nacional”, e “visitar periodicamente os distribuidores seleccionando aleatoriamente um conjunto de amostras de produtos para serem analisados. É Isto pode prevenir casos em que a qualidade da amostra enviada para o teste é diferente da qualidade (baixa) que é posta a circular”, defende.
Os medicamentos mais falsificados são, de acordo com o mesmo estudo da OMS do ano passado, usados no tratamento da malária e antibióticos diversos. E isso tem consequências graves (os tais 100 mil doentes que morrem anualmente de forma directa e indirecta, pelo uso de medicamentos com efeitos nefastos para a saúde, ou porque pura e simplesmente não curam as doenças para as quais es-
Solução inovadora: a mPedigree é uma aplicação que determina a qualidade de um medicamento de forma fácil
tão a ser utilizados). Até porque a malária já é curável há muito tempo, e a este nível, por exemplo, Moçambique continua a ser o país com a terceira maior percentagem (5%) de casos de malária no mundo e o oitavo onde a doença mais mata (3% do total de vítimas), de acordo com o relatório anual da OMS sobre a doença, divulgado há alguns meses.
tecnológica do Gana encontrou a solução Sendo este um problema de saúde púlica que afecta todo o continente, uma nova empresa ganesa encontrou uma solução que promete resolver grande parte do problema. Com sede em Accra, a mPedigree apresenta-se como “líder global na utilização de tecnologias digitais para detectar produtos contrafeitos”. A apresentação, diz quase tudo. E assim, a empresa desenvolveu um sistema que ajuda as farmacêuticas a fabricar produtos à prova de falsificação, criando uma forma de também os pacientes conseguirem ter como distinguir os medicamentos falsos dos verdadeiros. Para isso,
Os medicamentos mais falsificados são, de acordo com o mesmo estudo da OMS do ano passado, os do tratamento da malária e antibióticos diversos. E isso tem consequências graves na saúde pública e no aumento das taxas de mortalidade
basta ter um telemóvel, explica o estratega da mPedigree, Selorm Branttie. “O sistema é muito simples. As pessoas compram um remédio, raspam um código na caixa, enviam-no para um número específico via SMS e, entre cinco a sete segundos, recebem uma confirmação sobre se o produto é falso ou verdadeiro”, afirma. Hoje, a empresa já opera em 12 países africanos e é uma poderosa ferramenta que até vai ao encontro de uma solução proposta num documento recente do Fórum Económico Mundial, que abordava este problema, assumindo como “um erro grave enfrentar os desafios de saúde de alto impacto, como a proliferação de drogas falsas ou inferiores com incidência nas sociedades em desenvolvimento, com as soluções dos países desenvolvidos”.
Há que procurar novos remédios, para novos males. E verdadeiros, de preferência.
texto Celso Chambisso FotogRaFia stoCk Photos
“Temos de rever as políTicas dos medicamenTos e das farmácias”
lukusa nkunda lucien pierre Presidente da Associação dos Famacêuticos de Moçambique
o profissional da farmácia é, por norma, o último contacto com o paciente após o diagnóstico e atendimento médico. Mesmo que o médico faça um trabalho brilhante, se o farmacêutico não entrega o medicamento correcto, no momento certo e nas doses apropriadas, todo o esforço é reduzido a zero.
Lukusa Nkunda Lucien Pierre, presidente da Associação dos Farmacêuticos de Moçambique (FARMO) fala à E&M do papel do farmacêutico em toda a dinâmica da saúde e enumera preocupações a serem analisadas, debatidas e corrigidas pelas autoridades e por toda a sociedade. Na visão deste farmacêutico de origem congolesa (República Democrática), “a priorização do negócio em detrimento da saúde pública” por parte dos investidores nesta área tem implicações “negativas na qualidade dos serviços prestados e prejudica o próprio Estado”. E isso tem efeitos visíveis na falta de medicamentos em número suficiente para as necessidades do país, muitos deles com baixos níveis de qualidade
devido à falta de certificação de qualidade, o que promove a existência de falsificações, um mal endémico do continente africano. Problemas estruturais que, de acordo com Nkunda, não “devem ser entendidos e mudados não só para lavar a imagem do farmacêutico, mas para que o país tenha as condições adequadas para prover serviços de saúde de qualidade.”
Quais são hoje as grandes preocupações da FARMO?
A associação nasceu em 2005 porque havia a necessidade de criar uma ordem dos farmacêuticos, mas não havia um número suficiente de profissionais (na altura eram apenas 11 os farmacêuticos), e decidiu-se pela criação de uma associação profissional que defendesse os interesses da classe em busca da profissionalização. hoje, temos 100 membros inscritos, dos 580 farmacêuticos existentes em todo o país, e mantemos o objectivo de criar a Ordem dos Farmacêuticos de Moçambique. será ela a chave para nos tornarmos mais actuantes nas
A cRiAçãO DA ORDEM DOs FARMAcêuticOs DE MOçAMbiquE sERá A chAvE PARA NOs tORNARMOs MAis ActuANtEs NAs POLíticAs DE MEDicAMENtOs
A sEREM DEsENhADAs E iMPLEMENtADAs PELO GOvERNO
políticas de medicamentos desenhadas e implementadas pelo Governo. A falta de uma ordem leva a que não haja uniformidade no currículo formativo dos farmacêuticos (formados em cinco universidades do país), pelo que pretendemos que haja um modelo único de formação. E isto é essencial porque num país como Moçambique o papel do farmacêutico pode ser absolutamente decisivo na vida dos pacientes. Pode salvar vidas como também pode ser fatal e irreversível se prescreverem medicamentos errados.
Os farmacêuticos estão a ser formados com padrões de conhecimento diferentes pelas instituições do país. Como avalia a competência técnica da classe, de uma forma genérica?
Em traços gerais, as universidades conseguem transmitir conhecimento. Mas há uma base universal que tem de ser seguida, com disciplinas que devem ser obrigatórias, para que ao fim dos quatro ou cinco anos de formação o profissional tenha requisitos
Na voz de...
há MuitOs DistRitOs sEM FARMáciA EM quE PARA ObtER uM siMPLEs PARAcEtAMOL tEM DE sE PERcORRER LONGAs DistâNciAs AtÉ AO hOsPitAL. issO É uM ERRO EstRutuRAL
de qualidade internacionais que qualquer profissional que chega ao mercado deve preencher. são estes os requisitos que não existem aqui. O farmacêutico tem de saber preparar medicamentos, mas, sem laboratórios ao nível do ensino, este profissional não chega a manipular um só medicamento. como tal, não é um verdadeiro farmacêutico. É isto que temos de mudar e tem de começar logo na universidade.
Não há então profissionais com a qualidade desejada? Penso que temos um défice de qualidade, isso é verdade. Para atenuar, enquando associação profissional, tentamos acrescentar conhecimentos à formação que lhes foi dada através dos cursos de pós-graduação. temos de acompanhar a tendência do que se passa no mundo porque o farmacêutico não servirá apenas para entregar o medica-
milhões de meticais
É, de acordo com o presidente da associação dos farmacêuticos, o valor mínimo para a criação de uma farmácia “em condições” que possa efectivamente ser fiável ao nível dos medicamentos que disponibiliza aos utentes
mento, mas deve integrar o corpo médico, formando uma equipa pluridisciplinar com melhor capacidade de atendimento dos pacientes e que é composta por enfermeiro, médico e técnico de laboratório. O farmacêutico tem de começar a participar nos comités de terapêutica nos hospitais. Nós, farmacêuticos, temos de desenvolver a capacidade de perceber erros na combinação dos medicamentos nas receitas médicas, ligar para o clínico, rectificar e, com isso, podermos ser uma mais-valia para os doentes.
Quais são para si, os efeitos mais negativos de tudo isto?
De facto, quem sofre não é só o doente, mas é o próprio Estado quem perde, meios, dinheiro, e responsabilidades. Precisamos de farmacêuticos com habilitações de gestão de medicamentos, o que se conseguiria se o profissional tivesse bagagem de conheci-
mentos suficiente para prescrever a medicação correcta e em doses apropriadas. hoje, isso não acontece, o que acaba por contribuir negativamente para os elevados gastos de milhões de dólares que se fazem em medicamentos.
Cerca de 580 profissionais para uma população de 29 milhões de habitantes, portanto, um farmacêutico está para 50 mil habitantes… É pouco não é?
Estamos, de facto, muito distantes do número ideal. A política adequada para lidar com este défice deveria passar por estender os serviços de farmácia às comunidades. há muitos distritos sem farmácia, em que para obter um simples Paracetamol, as pessoas são obrigadas a percorrer longas distâncias até ao hospital. quanto a nós, esta situação que se repete por muitas zonas do país, representa um grave erro estrutural. Não é aceitável que só as cidades de Maputo e Matola tenham uma concentração incrível de farmácias e quando se chega a Namaacha ou Ressano Garcia, aqui bem perto, já não haja farmácias e se há, é apenas uma. temos de rever as nossas políticas de medicamentos, das farmácias e de como estarem presentes para toda a população.
Como se pode fazer isso, ao nível dos meios, e com eficácia, num território com a extensão do de Moçambique? bem, deveria ser um serviço complementar ao do Ministério da saúde. A prioridade deveria passar por formarmos poucos técnicos, mas bem formados. E não a mera criação de muitos farmacêuticos pouco habilitados que, no fundo, não conseguirão dar a resposta de que as populações carenciadas precisam. há uma enorme necessidade de medicamentos e o que devemos pensar é em levá-los a essas pessoas. O Estado po-
Melhores farmácias e farmacêuticos podem ser decisivos para uma melhoria dos cuidados de saúde no país
deria, através de concursos públicos, por exemplo, promover a existência de mais operadores privados a abrir farmácias em zonas onde elas ainda não estejam.
O que explica a grande disparidade da qualidade dos medicamentos, quer mesmo dos preços no mercado, preços que até estão tabelados e deveriam ser os mesmos em todo o território?
Antes de se olhar a farmácia e o seu papel na ordem da saúde pública, ela deve ser vista como uma empresa, o que não tem mal nenhum. Mas é uma empresa que interfere com a saúde das pessoas, e isso também não pode ser esquecido. A verdade é que hoje encontramos no mercado farmácias e ‘farmacitas’. Alguém que não tem dinheiro, não tem formação, mas porque terá ouvido que a farmácia é um negócio rentável, decide abrir uma. É outro problema estrutural da saúde no país. uma farmácia verdadeira e na qual se pode confiar precisa de uma estrutura empresarial, representa um investimento sério e deve servir para dar suporte ao que o sector de saúde do Estado não cobre. O mínimo para a criação de uma farmácia em condições, é de cinco milhões de meticais. Agora, pergunto-lhe: acredita que a maior parte das farmácias que vemos ou frequentamos custaram isso?
Não, de facto. Que requisitos e condições desejadas são essas e quais são as implicações da falta dessas condições?
Por exemplo, na rotunda da Avenida Eduardo Mondlane, em Maputo, temos oito farmácias! É preciso que nos perguntemos a quem vendem estas farmácias, que tipo de produtos e serviços têm, e com que qualidade os vendem. E serão rentáveis?
Penso que a resposta a tudo isto é negativa. Para se criar uma farmácia, por Lei, deve-se ter um espaço com três salas, que comporte a sala de atendimento, o laboratório e um pequeno armazém refrigerado, bem como as devidas instalações sanitárias. Do ponto de vista de pessoal tem deve haver um director técnico que é um farmacêutico, e outros cinco trabalhadores, no mínimo. Nada disto se verifica na grande maioria dos casos e isto tem implicações graves e representa um problema de saúde pública.
Como se resolve isto?
A Lei é clara e a regulamentação existe. temos a nova Lei de Medicamentos e o grande problema é que precisamos de colocar cada um na sua área. A saúde, não pode atrair quem só pensa em dinheiro. temos de tirar isso da cabeça. O primeiro propósito de uma farmácia é o de saúde pública. O país que queremos não é este em que vemos lojinhas em cada esquina a funcionarem como farmácias.
Esta “desordem” de que fala, tem implicações na capacidade de oferecer medicamentos certos para as pessoas que dependem deles... hoje, quando se levanta a voz sobre a resistência aos antibióticos, é habitual culparem-se as farmácias porque são detidas empresários que olham, primeiro, para a receita do seu investimento. E pode não se preocupar em salvaguardar questões relacionadas com a saúde pública. Mas um farmacêutico tem outra forma de pensar e agir que tem a ver com a sua formação. Além da receita financeira, quer salvaguardar a saúde pública. A liberalização não é má, mas tem de ser disciplinada.
Celso
texto
Chambisso fotografia Jay Garrido
A provínciA onde todos os cAminhos
ApontAm pArA o desenvolvimento
Economicamente poderosa, Nampula ganhou o seu lugar como a capital do Norte. Vestida com as cores tradicionais da capulana, caminha sobre os carris de um futuro assente no corredor de desenvolvimento do Norte que transporta com ele todo um novo mundo de investimentos na agro-indústria, pescas e logística
a província de Nampula (a capital tem o mesmo nome) é sinónimo de (hiper) actividade. Porque é ali que se cruza o Norte, em fronteira com as províncias vizinhas de Cabo Delgado e do Niassa. Mas Nampula é também o lugar onde se abre uma janela para o Índico descoberto ao interior fechado e distante, agora bem mais perto. Social e economicamente, Nampula é forte no sector agrícola, quer crescer na produção e transformação industrial, promete apostar nas pescas e quer, definitivamente, solidificar a sua posição de referência cimeira na logística marítima e de transportes, principalmente
prOvíNcia
Nampula
capital Nampula
área 79 010 km2
DiStritOS 23
pOpulaçãO 6,1 milhões
DeNSiDaDe
DeMOGráFica 74,8 hab/km2
através do crescimento (em capacidade de processamento e, por essa via, importância económica nacional) do porto de Nacala, por onde é escoada para o mundo, a maior parte da produção de carvão, ‘colhido’ às toneladas nas minas de Moatize, na Província de Tete.
Agricultura a diversificar
A este respeito, importa recuar um pouco na História, mas não muito. Nampula é reconhecida como a província do caju, sendo que, de acordo com o INE, ali estão contabilizados cerca de 14 milhões de cajueiros que alimentam todo um sector que emprega
cerca de 12 mil pessoas, na região. No entanto, há outras culturas a acontecerem, que se tornam visíveis, por exemplo, no distrito de Malema, no extremo norte das fronteiras provinciais. Ali, têm vindo a ser introduzidas a soja (na qual o Brasil é o maior produtor mundial e a China o maior consumidor) que se desenvolve pela vontade do histórico grupo moçambicano JFS. O projecto deverá aproximar-se dos 2 mil hectares de terra produtiva e, de acordo com Francisco Ferreira dos Santos, esta cultura de rendimento “tem escoamento da produção garantido”, explica, para complementar que o grupo, não só produz, como semeia. “A nossa actividade olha à comunidade local, trabalhando com ela. Neste caso, fornecemos também apoio técnico e distribuição de insumos a crédito”, releva.
Uma outra cadeia produtiva que se vai reerguendo é a do sisal. Conhecido como ‘ouro verde’, é na localidade de Muchelia que mora hoje um dos pólos de desenvolvimento da produção desta matéria-prima utilizada na produção de estofos, pasta para indústria de celulose, tapetes, remédios, biofertilizantes, ração animal e adubo orgânico. Por ali, estarão perto de mil hectares que produzem, em média, perto de 96 toneladas por época, desde que a Companhia Agrícola JFS relançou a produção, em 2012.
têxteis ancorados na capulana É quase como uma segunda pele para muitas mulheres moçambicanas. Ainda assim, Moçambique não tem uma verdadeira indústria de produção de capulanas que, na sua maioria, são importadas da Índia e da China.
Mas, nos últimos anos, em Nampula, a Nova Texmoque (que sucede à velha Texmoque, que chegou, em tempos, a ser a maior fábrica têxtil do país até abrir falência há algumas décadas) retomou a produção. A empresa pertence ao grupo tanzaniano METL, e chegou em 2006. “Havia aqui uma oportunidade. Comprámos a fábrica mas ainda demorámos dois anos a reabilitá-la, tal era o grau de degradação das instalações, das máquinas... esteve inactiva durante cerca de 14 anos. Apenas começámos a produzir em 2009, mas rapidamente o negócio expandiu”, conta Ajit Kulkari, que representa o grupo multinacional em Moçambique. O gestor revela um investimento inicial de 10 milhões de dólares na recuperação, reabilitação e aquisição de maquinaria, mas admite aumentar o investimento.
273
milhões de dólares
Foi lançada, a 3 de outubro deste ano, a primeira pedra para a reabilitação do porto de nacala. o projecto, que compreende as Fases i e ii da inFra-estrutura, terá a duração de 36 meses, e promete colocar nacala no mapa dos portos mais competitivos da região, com uma capacidade de manuseamento de contentores acima dos 250 mil por ano, Face aos actuais 170 mil
“Sabemos que vamos ter de chegar aos 24 milhões para podermos crescer cada vez mais”, adianta. Com a matéria-prima importada da Tanzânia e desenhos ‘made in’ Moçambique, falar em retorno total do investimento “ainda é prematuro”, diz, “até porque existe ainda muita concorrência dos produtos importados”, observa.
Por falar em investimentos com mais ou menos retorno, ainda recentemente, o governador de Nampula, Victor Borges, sublinhava a importância de um conjunto de “investimentos grande vulto” que têm sido feitos na província, em sectores como o da agricultura e pescas, destacando até a implementação de um projecto de 100 milhões de dólares, por empresários chineses, que visa a promoção da aquicultura e pesca no distrito de Moma, (sendo que cerca de 20 milhões de dólares se destinam à aquicultura e 80 milhões para pesca industrial e semi-industrial.)
por terra, ar e mar Essencial para o desenvolvimento de qualquer região com a importância estratégica de Nampula, são as vias aéreas. Inaugurado em 2015, o aeroporto internacional de Nampula (obra a cargo da construtora brasileira Odebrecht), dispõe de uma pista de 3,5 quilómetros, e tem capacidade para receber mais de 500 mil passageiros por ano. O preço da obra fez jus às dimensões da mesma, e rondou os 200 milhões de dólares. Continua longe do potencial máximo, ao nível dos voos, passageiros, carga transportada e utilização. Mas, com o paraíso costeiro de que a província dispõe e com as oportunidades abertas pelos investimentos no porto de Nacala, talvez o caminho-de-ferro e o turismo venham a encher a maré de visitantes. E o aeroporto de viajantes.
Por falar em ar e mar, é no chão da ferrovia que têm desenhado as linhas do crescimento da província nos últimos anos. Nesse campo, a locomotiva tem um nome: CDN, ou Corredor de Desenvolvimento do Norte, uma sociedade que enquadra a gestão e reabilitação das infra-estruturas do Porto de Nacala (está a ser ampliado ao nível da capacidade de manuseamento de contentores para 250 mil por ano, num projecto orçado em 273,6 milhões de dólares financiado pela JICA, a Agência Internacional de Cooperação do Japão) e da rede ferroviária do Norte do país, que faz ligação com o Malawi e a Zâmbia.
província
É este o carril por onde é escoada grande parte da produção de carvão proveniente das minas da Vale, na província de Tete. No entanto, se os caminhos-de-ferro estão em alta, os de asfalto estão em baixa e, ao percorrer parte da rede de estradas, ela apenas se parece com uma rede, por causa dos muitos buracos. Apenas 14% dos caminhos são asfaltados, muito poucas para a União Europeia, que recentemente anunciou um pacote de 320 milhões de euros (que abrangem também a província da Zambézia) para a construção e melhoria dos acessos.
turismo não quer férias
A costa da província é confortada por areias brancas e águas de muitos azuis, em baías escondidas, que se mostram numa beleza serena. O Baixo Pinda, em Menda, a norte, é um pequeno paraíso que parou no tempo em que ainda havia faroleiro. Vale a pena trepar a meia centena de escadas e ir lá acima para assistir ao horizonte. Numa das ‘pontas’ que entra mar adentro, vê-se estacionado o Nuarro Lodge, todo construído com produtos da terra. Lá em cima, vai ser possível imaginar
Em Nampula, se os caminhos-de-ferro estão em alta, os de asfalto estão em baixa e, ao percorrer parte da rede de estradas, ela apenas se parece com uma rede, por causa dos muitos buracos. Mas já há um pacote financeiro da UE assegurado que promete resolver o problema
como será esta costa vista de frente, após os investimentos anunciados para aquela região, que já recebe perto de 150 mil turistas que se distribuem anualmente por 580 estabelecimentos de toda a província. Grande parte, rumam à Ilha de Moçambique, claro, o lugar que congrega as atenções dos turistas que ali vão. Mas há mais por explorar. Recentemente, o Instituto Nacional de Turismo (Inatur) anunciou estar em busca de financiadores (e de 365 milhões de dólares) para fazer avançar os projectos turísticos das ilhas Crusse e Jamali, no distrito de Mossuril, que incluem a exploração do que de melhor a região tem. Recursos naturais plenos e localização perfeita. E só para relembrar o que por ali há, basta imaginar a Reserva e o Lago do Niassa, navegar nas várias ilhas, de Moçambique, Crusse e Jamali, dar um mergulho para norte até às Quirimbas, passar em Pemba, de regresso a Nacala. Nampula parece ter tudo. Espaço, tempo e vontade para ser cada vez maior.
texto Pedro Cativelos & Cristina Freire fotografia istoCkPhoto
Aeroporto de Nacala, Linha do Norte e Porto de Nacala. As maiores infra-estruturas de Nacala são logísticas, a base para o crescimento económico que se espera na região
Gapi alavanca neGócio do moleiro de montepuez
Producers assisted by GaPi are reachinG out to the markets
crédito de dois milhões de meticais e apoio técnico ampliam machamba de 500 hectares e consolidam moageira que emprega 12 pessoas em montepuez
Two million meticais credit and technical support extend farmland of 500 hectares and consolidate a mill that employs 12 people in Montepuez
o engano é quase impossível a quem inquirir pela Agro Fatar Vano no bairro urbano de Napai, na cidade de Montepuez, em Cabo Delgado.
Porque a azáfama produtiva é evidente a quem chega. Da casa onde se aloja a moagem de Rodrigues Dobles Martins, promana o zumbido da maquinaria em rotação que dois homens, de máscara e fardamento, alimentam de milho. E do moinho retiram farinha branquíssima~que sete mulheres empacotam, todos os dias e com gestos ágeis, em 50 embalagens de 10 quilogramas cada. Com tal actividade, não há, pois, que enganar...
Nem sempre foi assim. Antes do financiamento da Gapi, em 2017, a produção era bem mais lenta e escassa, reconhece Martins: “As moageiras que tinha eram pequenas, só davam 50 quilos de farinha por hora; estas, umas novas e outras recuperadas com o financiamento da Gapi, dão uma tonelada”, realça o empresário de 45 anos e pai de oito crianças. Martins, que começou camponês de pouca monta, produzindo algodão, milho e feijão, enveredou pela farinação em 2005, após aventura frustrada no ramo dos transportes. “Em 2000, comprei quatro carros para fazer ‘chapa’ em Montepuez. Mas, com tanta avaria e despesa, não estava a conseguir; então mudei para as moageiras, que é mais certo”, recorda. Martins moía para terceiros, e só depois para ele próprio.
Pequenas quantidades, num e noutro caso, que a pequenez dos moinhose do orçamento para cereais não lhe permitiam mais ambição. “Moía 80 toneladas de farinha, quase tudo para outros produtores da região. Então decidi ter o meu milho”, diz. “Mas, só com dinheiro meu, o máximo que podia comprar eram 10
It’s almost impossible for someone to miss Agro Fatar Vano in Napai’s urban neighborhood in the town of Montepuez, in Cabo Delgado province.
Because the productive bustle is palpable for all of those who arrive there. From the house where the milling of Rodrigues Dobles Martins is lodged, there is the buzz of rotating machinery that two men, in masks and uniform, feed on corn. And from the mill, they remove white flour that seven women pack, every day and with agile gestures, in 50 packs of 10 kilograms each. With such activity, there is no reason to deceive... The flower powder is powering. But It was not always like this. Before Gapi’s financing in 2017, production was much slower and scarce, says Martins: “The mills they had were small, they only gave 50 kilos of flour per hour; these, some new and recovered with the financing of Gapi, give a ton, “said the 45-year-old businessman and father of eight children.
Martins, who began as a small peasant producing cotton, corn and beans, went through the breading in 2005, after a frustrated adventure in transportation. “In 2000, I bought four cars to make ‘chapa’ in Montepuez. But, with so much malfunction and expense, i was not succeeding; so I moved to the mills, which is more certain“, he recalls.
Martins grounded for third parties, and only later for him. Small quantities first, because the smallness of the mills and the cereal budget did not allow it any more ambition. “I milled 80 tons of flour, almost everything for others farmers from the region. So it was time do move on, and start having my own corn“ he tells. “But with my own money, the most I could buy was 10 tons of corn” he recalls.
toneladas de milho”, recorda. Era pouco ainda para o potencial.
Hoje, tudo mudou graças ao apoio da Gapi, orçado em dois milhões de meticais. Com terreno de 500 hectares a 130 quilómetros de casa, em Jamira, no Posto Administrativo de Kuékué, na fronteira com Niassa, dos quais 120 já capinados, Martins volveu aos tempos de agricultor. Mas noutra escala. “Produzo gergelim e milho para farinar. Só quando acaba a minha produção – 15 toneladas, que a machamba ainda é nova –, é que compro grão a outros”, afirma.
Financiamento que muda vidas
E, foi com o financiamento garantido pela Gapi que comprou 30 toneladas. Somadas ao milho próprio e ao dos que lhe pedem moagem, resultou, em 2017, numa produção total de 150 toneladas de farinha (130 dele, cerca de 20 dos camponeses aos quais cede insumos a crédito que, na época das colheitas, reverte em grão).
O apoio da Gapi alavancou ainda o lado comercial da Agro Fatar Vano: “Comprei
It was too short, too little, at that time. But today, everything has changed thanks to the support of Gapi, estimated at 2 million meticais. With land of 500 hectares 130 kilometers from home, in Jamira, at the Administrative Post of Kuékué, on the border with Niassa province, 120 have already been weeded, And Martins came to be a farmer again. But a successful one. “Yes, i can produce sesame and corn to flour. Only when I finish my production - 15 tons, that the field is new - is that I buy grain from others.“
life-changing financing
With Gapi’s funding, he bought 30 tonnes. In addition to the corn and grinding mills, Marting produced 150 tons of flour in 2017 (130 of them, 20 of the peasants to whom it gives inputs on credit which, at the time of harvesting, reverts to grain). And Gapi support also boosted the commercial strategy of Agro Fatar Vano: “I bought a lot more sesame seeds, with a much better price range”, tells the miller. Martins points out, however, that Gapi is
muito mais gergelim, com preço muito melhor”, conta o moleiro. Martins realça, no entanto, que a Gapi não se limita ao crédito; para ele, o apoio técnico foi tão ou mais importante: “Participei em muitas capacitações e todas muito úteis. Ensinaram técnicas de trabalho, de armazenagem e como ter a contabilidade em dia”, recorda. Satisfeito com a parceria, o moleiro já pensa na renovação dos acordos: “Com os lucros do apoio da Gapi comprei um tractor e aumentei a machamba; agora, vou pedir novo crédito para comprar um camião. com mais carga, diminuo custos e aumento lucros”.
TexTo
not limited to credit; for him, the technical support was as or more important: “I participated in so many formations, workshops, and what i can tell is that they were all decisive for us, by teaching work and storage techniques, or how to keep the accounts up to date“ he recalls. Happy with the partnership, the Montepuez miller is already thinking of the renovation of the partnership agreements: “With the profits of Gapi’s support I bought a tractor and increased the farm and the jobs; now, I’m going to ask for new credit to buy a truck and continue to grow.. Now with more cargo and lower costs i can create work for more people.
ContEnt by gapi To e&M
& FoTograFia Gapi para a E&M
rodrigues dobles martins viu o negócio aumentar com a formação e o financiamento prestado pela Gapi
rodrigues dobles martins saw the business increase with the training and financing provided by Gapi
Doing business, um puzzle Difícil De montar mas com as peças no lugar
O ranking demonstra uma ligeira melhoria do ambiente de negócios em Moçambique, o 135º em 190 países avaliados pelo Banco Mundial. Só que, depois de anos a cair, ainda não é o suficiente para fazer crescer os negócios
já há muito que as autoridades vêm expressando a ambição de tornar Moçambique num dos mercados de convergência de grandes investidores de todo o mundo, o que se consegue também colocando a economia nacional no ‘mapa mundo’ através dos melhores resultados no ranking anual do Doing Business. Divulgado pelo Banco Mundial, revela, através da pontuação num conjunto de dez indicadores, a capacidade de um determinado mercado servir como lugar de bons (ou maus) negócios. Dada a importância de uma boa classificação no ranking, o governo tem tentado levar a cabo um conjunto de reformas direccionadas a cada um desses indicadores o que tem, pela primeira vez em vários anos, uma repercussão nos resul-
Economia nacional mElhorou três posiçõEs no ranking doing BusinEss, com as rEformas nas árEas da ElEctricidadE , comércio além-frontEiras E pagamEnto dE impostos a sErEm os pontos quE alavancaram a mElhoria da pontuação alcançada
tados obtidos. Assim, a economia nacional subiu três posições, de 138º para 135º em 190 países avaliados. Esta variação não parece demasiado relevante, até porque Moçambique ainda permanece numa zona ‘desconfortável’ em termos globais. Por isso, existe um plano traçado para atacar a maior parte dos 10 indicadores que são avaliados no Doing Business, que deverão assegurar que, na próxima classificação, Moçambique possa dar um salto mais significativo na classificação global.
Vêm aí reformas
De acordo com o director nacional de Apoio ao Desenvolvimento do Sector Privado no Ministério da Indústria e Comércio, um gabinete inter-ministerial
o Que É o Doing business
Publicado desde 2003, o estudo do Banco Mundial mede o grau de facilidade para abrir e gerir um negócio através da análise dos dez passos do ciclo de vida do empreendedor — abrir uma empresa; adquirir as licenças de construção; obter electricidade; registar a propriedade; aceder ao crédito; assegurar a protecção dos investidores; pagar os impostos; comprar ou vender produtos nos mercados internacionais; fazer com que os contratos sejam respeitados; e pedido de insolvência
Ranking Mundial:
135º lugar (entre 190 países)
Pontuação: 55,53
Variação: +3 lugares; +1,78 pontos
Ranking África Subsaariana: 16º (entre 48 países)
Melhor de África:
Maurícias (20.º)
Pior de África: Somália (190.º)
Melhor critério: Acesso à electricidade
Pior critério: Abertura de empresa
Moçambique é o 16.º classificado da África Subsaariana
10 MELHORES
1.º Nova ZelâNdia
2.º SiNgapura
3.º diNamarca
4.º HoNg KoNg
5.º coreia do Sul
6.º georgia
7.º Noruega
8.º eStadoS uNidoS
9.º reiNo uNido
10.º macedóNia
10 PIORES
181.º cHade
182.º Haiti
183.º r. ceNtro africaNa
184.º rep. dem. coNgo
185.º Sudão do Sul
186.º líBia
187.º yémeN
188.º veNeZuela
189.º eritreia
190.º SomÁlia
CPLP (8 países)
34.º portugal
82.º África do Sul
131.º caBo verde
135.º Moçambique
170.º São tomé
173.º aNgola
175.º guiNé BiSSau
177.º guiNé equatorial
178.º timor leSte
*Pontuação varia dos 0 aos 100, sendo a Nova Zelândia a melhor (86,59) e a Somália a pior (20,04).
A pontuação deste ano foi ajustada tendo em conta a variação do número de países analisados e outras alterações metodológicas de acordo com o Banco Mundial.
que se ocupa precisamente de zelar para que os principais focos de análise do ranking sejam melhorados ao nível dos ministérios, Nicolau Sululo, garante que “há um conjunto de reformas que deverão estar aprovadas até Abril do próximo ano, e que vão precisamente no sentido de melhorar a nossa posição na classificação global do Doing Business”, garante à E&M.
Uma dessas mudanças tem a ver com a conclusão da revisão do código comercial para melhor facilitação do registo de sociedades comerciais, que continua a ser o ‘calcanhar de Aquiles’ da economia nacional, de acordo com o Doing Business. No indicador que afere a ‘Abertura de negócio’, regista-se a pior pontuação do país no ranking (67,56 pontos, com uma
SADC (15 países)
20.º mauríciaS
82.º África do Sul
86.º BotSwaNa
87.º ZâmBia
96.º SeycHelleS
106.º leSotHo
107.º NamíBia
111.º malawi
117.º eSwatiNi
135.º Moçambique
144.º taNZâNia
155.º ZimBaBwe
161.º madagÁScar
173.º aNgola
184.º rdc
quebra de 12,3 face ao ano anterior, caindo 37 lugares, para 174.º do mundo). Ironia é que, a nível da região, Moçambique seja o 40º em 48 países na facilidade de abrir negócios, mas apenas o 8º melhor, nos procedimentos de insolvência... A este respeito, está em cima da mesa um conjunto de novas normas que visam flexibilizar o funcionamento Balcão de Atendimento Único (BAÚ), no sentido de ali aglutinar todos os requisitos necessários para o registo de empresas, já que actualmente o empresário está sujeito a vários procedimentos burocráticos e com custos elevados: tem de ir à conservatória registar a empresa, a seguir formaliza procedimentos com o BAÚ, depois requer o NUIT junto da direcção da área fiscal e, por fim, segue para o Minis-
tério do Trabalho para buscar a licença. Estas medidas vão trazer impacto positivo no indicador de abertura de empresas, indicador no qual Moçambique regrediu na classificação actual.
pedido de insolvência…
Depois, “e o mais breve possível”, o Executivo pretende regulamentar a Lei de Insolvência, que foi aprovada há cerca de cinco anos. A regulamentação irá permitir que, em caso de insolvência, em vez de garantir o valor do credor, também se garanta que o investidor recupere o seu empreendimento de modo a garantir que os trabalhadores vejam os postos de trabalho mantidos.
Pretende-se também acelerar o sistema electrónico de registo predial, recentemente aprovado pelo Governo, em substituição do actual registo que é manual e por isso, muito pouco flexível. Esta intervenção vai melhorar o indicador de registo de propriedade;
O passo a seguir, garante-nos, “será acelerar a aprovação da Lei de Registo e Garantias Imobiliárias, que implica a criação da chamada Central de Informação de Crédito (que irá recolher e sistematizar informações sobre pagamentos deferidos de um leque variado de utentes que usufruem de bens e serviços a crédito).”
A proposta de Lei já foi aprovada pelo Conselho de Ministros, mas a sua validação é da competência da Assembleia da República e ainda aguarda a deliberação final deste órgão. A aprovação desta reforma vai melhorar o indicador sobre obtenção de crédito, onde a pontuação de Moçambique caiu também.
… obtenção de electricidade
Também se projecta acelerar a revisão da Lei de Electricidade, cujo fundamento é o de assegurar a cobertura universal do acesso a energia eléctrica até 2030, cumprindo com o estabelecido na Agenda para o Desenvolvimento Sustentável. Trata-se de uma reforma adicional a este indicador que teve o melhor desempenho na classificação do Doing Business 2019, com um salto de 50 posições no ranking global (de 150 para 100) em que conta como reforma, a introdução de um sistema de monitoria e gestão de cortes de energia pela Electricidade de Moçambique (EDM). Para tal, a EDM começou a recolher dados estatísticos através de dois índices específicos, nomeadamente, o da Duração Média da Interrupção do Sistema (SAIDI, sigla em inglês) e o Índice da Frequência
mercado e finanças
1
Abertura de negócio
O QUE MEDE
O processo legal para abrir uma empresa, desde o número de procedimentos ao tempo e custo (o total e o valor mínimo a depositar antes do registo).
Pontuação:
67,56 (-12,3)
Ranking mundial: 174.º (-37)
Ranking África
Subsaariana: 40.º
2
Licenças de construção
O QUE MEDE
Procedimentos, tempo e custo para erguer um estabelecimento desde as licenças prévias às inspecções e aos pedidos de água, saneamento e telecomunicações.
Pontuação:
72,57 (-0,23)
Ranking mundial: 64.º (-8)
Ranking África
Subsaariana: 7.º
Média da Interrupção do Sistema (SAIFI).
Ainda assim, estas intervenções são insuficientes para uma fiabilidade total da rede, como muitos dos habitantes que vivem em Maputo e arredores poderão comprovar.
Visto assim, Moçambique poderia até ter conseguido uma melhor classificação global mas, uma vez mais, tem de melhorar o indicador da ‘Abertura de negócio.’, apesar de terem sido, lê-se, “realizadas reformas importantes neste aspecto, caso do licenciamento simplificado de empresas introduzido no ano passado, mas que pecou por elevar os custos de registo dos estatutos da empresa no Boletim da República.”
Nicolau Sululo crê que essa quebra se deveu “à falta de coordenação institucional que temos tido e precisamos de melhorar. Os colegas (Ministério da Economia e Finanças e Ministério da Justiça) aumentaram os custos dos registos dos estatutos na Imprensa Nacional e isto contou negativamente”, assumiu Nicolau Sululo, que classifica esta medida como “negativa”.
Correcta ou não, o certo é que desconhecendo os motivos desta decisão, não se cria espaço para avaliar os seus custos e o benefícios. Ou seja, não se pode saber se a vantagem que se pretende com o agravamento do custo do registo de empresas é maior que a possibilidade de acrescentar valor ao ambiente de negócios. Por falar em custos, a CTA partilhou com a E&M a sua visão sobre o desempenho
3
Obtenção de electricidade
O QUE MEDE
Procedimentos, índice de burocracia e a extensão do período de tempo e custos para obter a ligação eléctrica permanente junto do fornecedor do serviço.
Pontuação: 71,02 (+18,48)
Ranking mundial: 100.º (+50)
Ranking África
Subsaariana: 7.º
4
Registo de propriedade
O QUE MEDE
Procedimentos, tempo e custo para adquirir uma propriedade a outra empresa e para proceder à transferência para o nome do respectivo comprador.
Pontuação: 52,94 (-6,33)
Ranking mundial: 133.º (-29)
Ranking África
Subsaariana: 25.º
da economia nacional no último relatório, onde conclui que “a variável custo, em quase todos os indicadores, não contribui positivamente para a melhoria no ranking global.”
No documento, o empresariado avança mesmo alguns exemplos: “Em Abril último, a CTA chamou a atenção para o facto de, entre 2015 e 2018, o custo de abrir e registar uma empresa em Moçambique ter subido 468%, saindo dos então 7 835 para os 36 629 meticais”.
E deixa um apelo ao Governo no sentido de “rever o modelo de reajustamento e a introdução de taxas em diversos serviços que têm impacto negativo e significativo no ambiente de negócios.”
No entanto, a CTA reconhece que o aumento dos custos “terá sido muito influenciado pelo processo de consolidação fiscal em curso no país, que levou a reajustamentos dos preços de serviços públicos, bem como à subida ou introdução de taxas diversas”, para fazer face ao défice que foi criado pela interrupção do apoio externo ao Orçamento do Estado em Abril de 2016.
combater a corrupção... é solução
O Centro de Integridade Pública (CIP), uma das vozes activas da Sociedade Civil, chama precisamente a atenção para a necessidade de “contínuos esforços de combate à corrupção.” A economista e pesquisadora Inocência Mapisse, entende que, “a par dos instrumentos meramente económicos, os investidores internacionais estão atentos a informações
5
Acesso ao crédito
O QUE MEDE
Qualidade dos sistemas de informação de crédito (análise do histórico financeiro e do risco) e os direitos legais de emprestador e beneficiário.
Pontuação:
52,94 (-6,33)
Ranking mundial: 133.º (-29)
Ranking África
Subsaariana: 25.º
Aquisição de energia facilitada ‘alavancou’ melhoria
468%
Em três anos, o custo para aBrir uma EmprEsa suBiu dE 7 835 para 36 629 mEticais
6
Protecção dos investidores
O QUE MEDE
A força da protecção aos pequenos investidores de modo a que eles possam impedir que os gestores usem o património da empresa em proveito próprio.
Pontuação: 41,67(=)
Ranking mundial: 140º (-2)
Ranking África
Subsaariana: 24.º
7
Pagamento de impostos
O QUE MEDE
O valor das contribuições pagas pelas empresas ao Estado (sobre os lucros, o trabalho e outros impostos) assim como o esforço burocrático associado.
Pontuação: 64,04 (-2,09)
Ranking mundial: 125.º (-8)
Ranking África
Subsaariana: 18.º
sobre a transparência na actuação de pessoas e de instituições, onde o posicionamento de Moçambique, a nível global, não é favorável.” O facto é que Moçambique é o 157º país mais corrupto num ranking que comporta 183 países, segundo dados do Índice de Percepção da Corrupção de 2018, divulgados em Fevereiro deste ano no relatório da organização
Transparência Internacional (TI), e como se sabe, este não é um indicador que chame por investidores. Pelo menos aqueles
8
Comércio internacional
O QUE MEDE
Procedimentos, tempo e custos (bancários, alfandegários, logísticos ou de transporte) para exportar e/ou importar um conjunto de vários produtos.
Pontuação: 73,84 (+6,59)
Ranking mundial: 91.º (+18)
Ranking África
Subsaariana: 6.º
9
Execução de contratos
O QUE MEDE
Os passos processuais exigidos para resolver uma disputa comercial através dos tribunais, em número de procedimentos, dias e custo.
Pontuação: 39,78 (+12.46)
Ranking mundial: 167.º (+17)
Ranking África
Subsaariana: 37.º
Pedido de insolvência 10
O QUE MEDE
O tempo e o custo associado a um pedido de insolvência assim como a taxa de recuperação (em percentagem do valor em dívida).
Pontuação: 46,89 (-1,31)
Ranking mundial: 84.º (-9)
Ranking África
Subsaariana: 8.º
competitiViDaDe global... Quase zero
Se no Doing Business houve uma melhoria de alguns indicadores no que diz respeito à facilidade de negócios, o mesmo não aconteceu com o Relatório de Competitividade Global de 2017-18 do Fórum Económico Mundial, que classifica a economia moçambicana como “a segunda economia menos competitiva do mundo”, só melhor que a do Yémen, numa avaliação que inclui cerca de 137 países. Com uma pontuação global de 2,9 (máximo é de 7 pontos), em nenhum dos 12 indicadores avaliados há resultados satisfatórios e o desempenho mais crítico tem a ver com o ambiente macroeconómico com 1,9 pontos.
de que a economia nacional precisa, para se desenvolver de forma sustentável.
força eléctrica no Doing business 2019
A infografia (caixa no topo da página) faz um retrato que, embora resumido, traz alguma precisão na leitura dos principais aspectos numéricos do desempenho de Moçambique na classificação, que o relatório do Doing Business 2019 considera como sendo de “uma melhoria notável no ambiente de negócios” em Mo-
çambique. Atentando nos aspectos mais relevantes, importa referir que esta melhoria foi impulsionada por reformas realizadas nos indicadores sobre o acesso a electricidade, pagamento de impostos e comércio internacional. Contrariamente, evidencia-se que as reformas realizadas no indicador sobre a abertura de empresas tiveram um efeito adverso e, de certa forma, representaram um impedimento para uma subida mais pronunciada no ranking global. A seguir ao indicador sobre o ‘Acesso a electricidade’, que apresentou o melhor desempenho devido à redução do número de procedimentos para aquisição de electricidade (de cinco para quatro) e da redução do tempo de aquisição de electricidade (de 68 para 40 dias); os outros dois indicadores onde Moçambique registou melhorias foram ‘Comércio internacional’ (subida de 18 posições) e ‘Execução de contratos’ (melhoria de 17 posições). Num ano em que 128 governos de todo o mundo introduziram 314 reformas beneficiando pequenas e médias empresas e estimulando o investimento privado, Mark Lundell, representante do Banco Mundial no país mostra-se satisfeito com a evolução: “este ano metade da lista das dez economias a nível mundial que mais reformaram o seu ambiente de negócios é composta por países africanos.”
tExtO Pedro Cativelos & Celso Chambisso
FOtOGRAFiA istoCk
Entre parêntesis a variação da pontuação e da posição no ranking face a 2017 FoNtE: Estudo Doing Business 2019, Banco Mundial
empresas
Ipanema, uma empresa sempre bem calçada
Produzir localmente com padrões de qualidade internacionais é o objectivo de um grupo a actuar num segmento ímpar, mas que funciona aos pares
falar da existência de uma verdadeira indústria de calçado em Moçambique é um tema quase tabu porque, na verdade, ela nunca existiu verdadeiramente enquanto tal. Daí que surja quase como um oásis num deserto descalço, a fábrica de calçado da Ipanema, a única que conseguiu erguer-se, subsistir e crescer, até caminhar pelo próprio pé.
O percurso de mais de duas décadas da Ipanema foi feito, e porque é de sapatos que se fala aqui, passo a passo. A família Bourguignon, com origens no Brasil, está em Moçambique desde meados da década de 1990, quando Edson Bourguignon empresário brasileiro adquiriu a fábrica de calçados, carteiras e cintos, que funcionava nas antigas instalações da Nelfa. Deu-lhe o nome de Ipanema, para avivar as memórias da sua terra natal, e por ali permaneceria até 2004, quando inaugurou as então novas instalações, investindo numa moderna linha de produção como meio de fazer crescer uma marca, agora cada vez mais assumida no mercado nacional. Com o tempo, uma nova geração chegou à Ipanema. Primeiro Edson Bourguignon Jr., o filho mais velho, depois a mais nova, Giselle. A actual directora de new business da Ipanema fala de uma marca com “assinatura nacional, mas com aroma a Brasil, um país irmão de Moçambique.” Foi com esta base que a Ipanema foi evoluindo. Dos modelos mais simples que fornecia aos ministérios do início do século, até às linhas de hoje, com design comercial e objectivos mais ambiciosos no mercado. Mudanças no perfil apenas, não na identidade, de uma empresa que se mantém fiel ao que sempre foi. “O nosso boom surgiu no início da década, quando a economia começou a acelerar e foi aí que a empresa firmou os seus primeiros contratos substanciais, conseguiu ampliar a rede de lojas e redefiniu todo o seu modelo de negócio”, afirma a gestora que, desde muito jovem
conviveu com a realidade de uma empresa ímpar no panorama industrial nacional. Um dos momentos determinantes do crescimento da Ipanema de Moçambique foi quando começou a comercializar a marca de chinelos de praia da Ipanema do Brasil. Uma conjugação feliz. No nome e, ainda mais, ao nível do impacto no negócio do grupo no país. “Sem dúvida, foi a concretização da tal irmandade entre duas nações, através da nossa família que tem um pouco destas duas culturas no seu sangue. O meu pai conseguiu garantir a comercialização dos Ipanema que importamos e distribuímos pela nossa rede de pontos de venda em Maputo, Inhambane, Ponta do Ouro, Beira, Nampula e Pemba.” Da fábrica à gestão de lojas, a dinâmica da Ipanema divide-se em segmentos e objectivos. “Neste momento, temos várias áreas, que vão da produção à importação, da venda no retalho em loja própria, à distribuição pelos nossos parceiros, e tudo isto representa uma logística assinalável. Os objectivos passam por continuar a reconfiguração das lojas, e por apostar em segmentos mais premium, razão pela qual estamos a lançar uma nova linha em que apostámos forte no design e na qualidade.” Depois, um novo segmento, um tanto ou quanto diferente, para a dinâmica da Ipanema. Os perfumes. “Sim, em 2015 firmámos um contrato de exclusividade com ‘O Boticário’ para sermos representantes da marca no país. Isso implicou criar uma rede de lojas próprias... foi complicado no início, mas depois de um trabalho de reorganização interna, é hoje, sem dúvida, um dos motores do nosso crescimento. Sabe, a Ipanema é uma empresa grande, mas mantém uma gestão familiar, e creio que é por isso que temos a nossa identidade. Uma marca com orgulho nacional.”
texto Pedro Cativelos & Hermenegildo langa fotografia Jay garrido
produzirlocalcomorgulhonacional
BemPresa grupo ipanema Fundação 1995 direCtora new Business giselle Bourguignon
Produção 26 000 unidades produzidas anualmente. É a capacidade de produção instalada da fábrica de maputo. emPrego
100 trabalhadores
o grupo ipanema emprega, de forma directa e indirecta, uma centena de funcionários entre fábrica, lojas e distribuição.
Pontos de venda 7
lojas
número de pontos de venda do grupo só na cidade de maputo, tendo um distribuidor na Beira.
GemfieldS lança
campanha GloBal ‘every piece UniqUe’
A líder mundial em pedras preciosas coloridas de origem responsável (detentora do capital da Montepuez Ruby Mining), lançou uma campanha publicitária global, em parceria com a Gutenberg Global e a adam & eveDDB, com o objectivo de sensibilizar para a extracção responsável de pedras preciosas coloridas e promover rubis nacionais. “Queríamos dar vida às muitas histórias por detrás do fornecimento responsável de pedras preciosas em África”, explica Emily Dungey, directora de marketing e comunicação do grupo. A Gemfields trabalhou com o Gübelin Gem Lab, da Suíça, no lançamento de uma tecnologia inovadora chamada Provenance Proof, que possibilita a rastreabilidade das pedras.
total moçamBiqUe
lança o ‘deSafio
StartUpper’
Após o sucesso da primeira edição, realizada em 2015, em mais de 30 países africanos, a Total traz de volta este Desafio. Realizado pela Total Moçambique, a iniciativa irá apoiar e premiar jovens empreendedores nacionais em diversos sectores de actividade.
Assim, nos inúmeros mercados africanos em que a Total marca presença, haverá um júri local que incluirá gestores, especialistas de incubadoras, líderes empresariais e organizações da comunidade local que irão seleccionar os três vencedores.
Standard Bank lança plataforma para indúStriaS criativaS
incubadora de negócios vai acolher projectos disruptivos na área digital
o centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA), em parceria com o Gabinete para o Fomento Económico Moçambique-Alemanha (AHK) e a Embaixada da Alemanha, lançou, na Incubadora de Negócios do Standard Bank, uma iniciativa que visa o fomento do empreendedorismo e a criação de startups inovadoras e sustentáveis.
Denominada “Indústrias Criativas”, a iniciativa, conta com o apoio do Standard Bank, IdeiaLab e MozDevz, prometendo juntar jovens das várias indústrias criativas para que, em conjunto, desenvolvam ideias de negócio com base no digital. Através desta iniciativa, o CCMA, AHK e demais parceiros pretendem promover “uma cooperação entre os jovens moçambicanos, levando-os a desenvolver ideias inovadoras e criativas que possam aliar a cultura às ferramentas digitais, de modo a gerar visibilidade, impacto e maior dinâmica no movimento cultural nacional.
Para o representante do Standard Bank, Pedro Magaia, este projecto, associado à experiência da Incubadora de Negócios, “vai potenciar o empreendedorismo, em particular na área das indústrias culturais, capacitando e transmitindo aos jovens um conjunto de ferramentas para criarem negócios, assim como uma ajuda na fase inicial, que é a mais crítica.”
Incubadora de Negócios do Standard Bank Inaugurada em 2017 é um espaço onde têm sido desenvolvidos um conjunto de programas de capacitação de empreendedores, para além da realização de eventos como o Seedstars Maputo, o Google Startup ou Semana de Empreendedorismo.
75% daS empreSaS Utiliza SiStema informatizado de
GeStão
De acordo com um estudo realizado recentemente pela IDC, líder mundial na área de “market intelligence”, baseado numa amostra representativa de 350 empresas com actividade em Moçambique, sobre a utilização de software informático para a gestão de negócios, demonstra-se uma evolução significativa do número de empresas que nos últimos cinco anos implementaram um ERP (Enterprise Resource Planning), especialmente desde 2015, altura a partir da qual 20% das empresas inquiridas implementaram um sistema de gestão empresarial.
A tecnologia mais utilizada nas empresas em Moçambique é da tecnológica portuguesa PRIMAVERA BSS, presente no país há mais de 15 anos e cuja quota de mercado actual é de 48%.
José Simões, country manager da PRIMAVERA em Moçambique e Angola, explica que este crescimento demonstrado se deve “a três factores que o estudo da IDC veio realçar. Se por um lado, o ERP PRIMAVERA responde a todas as exigências fiscais e legais do país, por outro, com o grande investimento que os nossos clientes fizeram na formação dos seus quadros, e com a melhoria da prestação de serviços da nossa rede de parceiros, demonstram satisfação e 94% deles recomendam mesmo a marca PRIMAVERA. Isto reforça cada vez mais a nossa notoriedade neste mercado”, assinala o responsável.
MFF veio uniFicar todos os actores da criatividade
raquel nobre
Directora-geral da Qideia
no final de mais uma edição do Maputo Fast Forward, o balanço é “muito positivo”, sendo que a plataforma de divulgação, debate e junção de agentes das indústrias criativas atingiu, este ano, uma dimensão invulgar para a realidade nacional.
Raquel Nobre, fundadora da Qideia, que produz o MFF desde a sua primeira edição, explica à E&M como se cria o sucesso de um festival singular como este, e antevê qual será o seu futuro.
Fundou a QIDEIA num momento de quebra do mercado e alcançou notoriedade com um festival de indústrias criativas… Isto tinha tudo para dar errado, mas não deu, pois não?
Passei pela Rio Tinto, onde cresci muito profissionalmente, e quando começou a crise, em 2015, decidi fazer o meu próprio caminho, reunindo o que aprendi numa grande multinacional, mas tentando dar um toque pessoal às coisas, algo que falta muitas vezes nestas áreas, e que se sente na comunicação externa e interna, se ela for bem feita. Isso pode fazer toda a diferença na percepção que temos de uma empresa, de uma marca. Depois, inesperadamente surge o MFF. Acabávamos de juntar toda a equipa e fa-
cv
curriculum vitae
raquel Nobre é directora-geral da Qideia, uma agência de comunicação vocacionada para a estratégia e implementação de produtos de comunicação e fundadora do Maputo fast forward. antes, trabalhou vários anos na multinacional rio tinto.
actores da criatividade. A segunda edição ganhou já um certo embalo e comecei a pensar, enquanto gestora, que provavelmente haveria aqui um potencial tremendo, a vários níveis. Nesta terceira edição, e com um modelo de negócio já mais definido, conseguimos transformar o Maputo Fast Forward numa plataforma mais complexa de divulgação, criação e lançamento de novos projectos.
Tendo atingido este ano uma dimensão assinalável, promovendo ciclos de exposições, conferências e workshops simultaneamente em galerias, cinemas e centros culturais de Maputo, para onde evoluirá o MFF?
tos pelo MFF ao longo de todo o ano, fazendo um link entre os agentes da inovação, instituições de ensino e as diversas audiências.
Seguindo esse caminho, quais são as perspectivas para os próximos anos?
lámos da possibilidade de celebrar o Dia Mundial da Criatividade. E de uma coisa bastante simples, em que organizámos um dia de conferências com cerca de dez conversas a acontecer em simultâneo, em dois espaços da Fundação Leite Couto, mas que teve um impacto tão forte em quem lá esteve, e em nós próprios, surgiu a ideia de fazer algo mais.
Nasce assim o MFF… Sim. Decidimos criar a plataforma para que fosse um espaço para unificar todos os
Há toda uma evolução no sentido de Maputo se tornar um ponto de referência em termos de capital de criatividade. Vejo o MFF a evoluir como plataforma que expõe a criatividade de Moçambique no mundo. E começo a ver um modelo de negócio sustentado na participação cada vez mais próxima e efectiva dos nossos parceiros comerciais em toda esta dinâmica que estamos a criar, e a apontar em direcções cada vez mais inovadoras e disruptivas. A próxima etapa será o desenvolvimento de projec-
Pretendemos tornar este, num acontecimento de referência nesta região de África. Somos bastante abrangentes ao nível da programação desenhada pelo Rui Trindade e a restante equipa que assume o projecto durante todo o ano. O MFF ainda não está potenciado ao limite como modelo de negócio, mas os nossos principais parceiros, como a Embaixada da Suíça ou o Barclays Bank Moçambique, sabem que estamos a consolidar a marca e a criar um novo mercado. Todo este segmento das indústrias criativas tem, depois, um valor inestimável para o próprio país. Agora é uma questão de fazer crescer a abrangência e a forma de nos relacionarmos com os parceiros. Este ano, por exemplo, um dos nossos convidados para uma conferência veio do Reino Unido porque ouviu falar de nós e queria ver in loco a capacidade de fazermos algo do mesmo género, em parceria, na Europa. A esse respeito, ainda recentemente fechámos uma parceria com a Southern Africa Arts e conseguimos entrar numa rede de cinco festivais deste género, na região.
Depois de quatros anos de uma “nova vida”, era isto o que imaginava?
Sem dúvida, não me vejo a fazer outra coisa da vida senão gerir a QIDEIA e poder fazer crescer este nosso, porque já é de todos nós, Maputo Fast Forward. Não consigo imaginar outro caminho.
texto Pedro Cativelos Hermenegildo langa fotografia Jay garrido
criatividade
“Vejo o MFF a evoluir como plataforma que expõe a criatividade de Moçambique no mundo. E começo a ver um modelo de negócio sustentado na participação cada vez mais próxima dos nossos parceiros”
MoçaMbique no top do airbnb eM África
O mercado de alojamento temporário está a mudar em todo o mundo e Moçambique não é excepção. Após a especulação desenfreada dos primeiros anos da década, há um novo fenómeno (ou já nem tanto assim) com um crescimento exponencial no país e no continente, amplificado pelo plataforma Airbnb
desde que se lançou à conquista de África, a Airbnb, startup tecnológica norte-americana que permite às pessoas pesquisarem, anunciarem e reservarem quartos ou casas inteiras na internet, registou para cima de 130 mil anfitriões (“hosts”) no continente, os quais acolheram mais de 3,5 milhões de visitantes. A maioria dos forasteiros chegou apenas no ano passado, como uma erupção súbita que catapultou, num ápice, sete países africanos para o seio dos territórios onde as dormidas aumentaram, no último ano, mais de cem por cento. De tal modo que, no clube restrito dos dez países que mais cresceram dentro da Airbnb a nível planetário se encontram, além da Nigéria e do Gana, o improvável Moçambique, cuja ocupação via Airbnb aumentou, no primeiro semestre do ano, 136 por cento. A aventura conjunta de Maria Cristina Gouveia e Patrícia Tomás, crismada de Amo Maputo – House & Experience e já com nove casas listadas na plataforma Airbnb, é contribuinte líquida para o êxito moçambicano da startup de viagens sediada em San Francisco, Califórnia. E o inverso também ocorre, porque a relação entre a Airbnb e a Amo Maputo, fundada em Agosto de 2017 por Gouveia e Tomás, tem sido proveitosa para
todos: “No Airbnb, os hóspedes avaliam-nos e nós a eles, o que protege os ‘hosts’ de pessoas indesejáveis. E a resposta da Airbnb às nossas dúvidas e solicitações é imediata e focada no problema, porque o objectivo de todos é que tudo corra pelo melhor”, alega Gouveia.
Tem corrido. Desde logo, para a Airbnb, cuja estatística é esmagadora: criada em 2008 por três jovens estudantes – Brian Chesky, Joe Gebbia e Nate Blecharczyk –, os quais alugaram, via internet, um quarto na casa partilhada para conseguirem pagar a renda, está hoje presente em 191 países (31 com escritórios) e tem mais de 5 milhões de anúncios de alojamento cobrindo virtualmente o Mundo inteiro, com um número médio de dormidas por noite orçado em mais de dois milhões de hóspedes.
Serventia no trabalho e no lazer E esses, no caso da Amo Maputo, são tipicamente “pessoas que vêm a trabalho, viajantes profissionais, por temporadas relativamente curtas. Depois, e principalmente em Agosto e Dezembro, e ainda um bocadinho pela Páscoa, temos os turistas, que vêm visitar Moçambique ou familiares dos expatriados que cá estão mas não têm casa capaz de os acolher a todos”,
informa Patrícia Tomás. Com preços mais acessíveis do que os hotéis e sem as restrições daqueles, as casas da Airbnb são a opção mais interessante, tanto do ponto de vista económico como de acomodação, para os visitantes que dispensam mordomias e tutelas.
Segundo dados do primeiro semestre deste ano, a “maioria dos hóspedes que têm ficado nas mais de 1 200 ofertas listadas na Airbnb em Moçambique (casas ou apenas quartos, em proporções iguais) é proveniente de África do Sul, seguida dos EUA e do Reino Unido. Os viajantes internos são o quarto maior grupo”, contabiliza Velma Corcoran, Directora da Airbnb de África do Sul e supervisora da região austral.
A experiência de Henrique Granjeia, residente em Moçambique desde 2001 e ligado ao sector bancário, confirma a estatística: com casa de três quartos situada na Ponta do Ouro – a estância balnear mais cobiçada no sul de Moçambique –, os seus hóspedes principais “são de África do Sul, do Botswana, europeus e norte-americanos que se encontram no país ao serviço de multinacionais e das ONG”, diz.
Tal como no caso de Granjeia, os viajantes internos africanos são os que melhor aproveitam as vantagens da Airbnb. Embora usada por estrangeiros que vêm
sociedade
à descoberta do continente, ao expandir o leque de opções de estadia para lá dos hotéis e resorts de luxo, o alojamento a preços acessíveis oferecido pela Airbnb alivia alguns padecimentos aos viajantes internos que enfrentam, por toda a África, desafios significativos devido à complexidade processual dos vistos e aos voos dispendiosos.
toque de Midas e trabalhos de Hércules Mas, se bem serve os viajantes, a Airbnb mais apraz aos “hosts”, num conúbio proveitoso para todos. Pelos cálculos de Velma Corcoran, “no continente Africano, os ‘hosts’ já ganharam mais de 400 milhões de dólares desde a fundação da Airbnb”. Alheio às contas dos outros, Granjeia salienta o acréscimo financeiro que a casa na Ponta do Ouro, “ocupada practicamente a tempo inteiro”, proporciona: “A determinada altura, precisei de dinheiro e coloquei a casa na plataforma; passado ano e meio, dá-me mais um ordenado por mês”, diz o bancário que, “se tivesse mais casas para alugar, colocava-as todas no Airbnb”, sublinha.
Há quem o faça, dada a soma de rendimentos, o que justifica o crescimento exponencial da oferta listada em Moçambique. No entanto, nem todos conhecem o êxito da Amo Maputo ou de Granjeia; neste negócio, não há lugar ao milagre do mítico Midas, cujo toque converte lixo em ouro. Pelo contrário, o esforço envolvido para alcançar o estatuto de “superhost” – o anfitrião que, reconhecido pela excelência de serviço, se torna mais recomendável na plataforma Airbnb – é, não raro, hercúleo. “Dá resultados, mas também dá muito trabalho”, alerta Granjeia. “É necessário ter um bom empregado, que seja eficiente e de confiança. E a manutenção é fundamental, temos de estar sempre em cima”, refere o único “superhost” da Ponta do Ouro. “Não sei se a concorrência tem os mesmos parâmetros de exigência que nós, tanto do ponto de vista dos serviços oferecidos, como do ponto de vista fiscal e legal”, cogitam Maria Gouveia e Patrícia Tomás, as empresárias que, na área da capital, ostentam o mesmo estatuto que Granjeia e com ele partilham a filosofia do cuidado impoluto. “Temos quatro colaboradores permanentes para manutenção das casas e outros tantos eventuais em caso de necessidade. Porque a qualidade da manutenção – além de ofertas complementares, como guias bilingue da cidade e do que ela tem para usufruir, além de bicicletas disponíveis para excursos sem
Penthouse em Central Cape Town, um dos muitos destaques do Airbnb, na África do Sul
pressas, por exemplo –, é um requisito fundamental no Airbnb”, dizem. “Fazemos sempre uma vistoria exaustiva no check-in e no check-out dos hóspedes. Nunca facilitamos”. E o reconhecimento dos hóspedes reflecte-se nos encómios ao conforto das casas e à simpatia eficaz das empresárias, que enchem a caixa de comentários da Amo Maputo...
Hotelaria de topo ignora concorrência Mas não há bela sem senão, e algumas zonas do globo também começam a não facilitar a vida à Airbnb e respectivos “hosts”. Não obstante, o crescimento exponencial que tem conhecido e o contributo para os cofres municipais de muitas cidades por via da tributação especial aos hóspedes, algumas urbes, como Barcelona, em Espanha, e Berlim, a capital alemã, vedaram as operações à startup californiana. Para não prejudicar sectores já estabelecidos da economia, alegaram. Como a indústria hoteleira. Em África começam a levantar-se algumas vozes nesse sentido, como são os casos da Namíbia e da Tanzânia, onde a plataforma do Airbnb tem enfrentado proble130
mil casas
É o número de habitações que actualmente estão registadas na plataforma airbnb no continente africano
mas de regulamentação e licenciamento. Em Moçambique, essa conversa ocorre ainda em surdina. O entendimento, pelo menos dos hotéis de topo, é o de que há espaço para uma coexistência pacífica. “Temos de definir muito bem o produto de que estamos a falar. Os hotéis de cinco estrelas e o alojamento do Airbnb encontram-se em universos completamente diferentes e nada concorrenciais entre si. No Serena Polana Hotel não oferecemos alojamento apenas, mas antes uma série de serviços com garantia de excelência; oferecemos, no fundo – e é isso que nos move – toda uma experiência”, alega Abhishek Singh Negi, director do hotel de cinco estrelas mais famoso de Maputo. O discurso de Negi encontra eco no director de operações do Grupo VIP Hotels em Moçambique. “Eu próprio sou utilizador da Airbnb, mas estamos falar de segmentos de mercado absolutamente distintos. Quem recorre ao Airbnb é mais o turista mochileiro, que nunca teve a intenção, nem o interesse, de ficar num hotel de cinco estrelas”, afirma Dado Gulamhussen. “As pessoas que recebemos no VIP Grand Hotel Maputo são homens de
Airbnb COM CreSCiMenTO bruTAl eM ÁfriCA ... e MOçAMbique
Contactado pela E&M, o Airbnb forneceu dados exclusivos sobre o crescimento do número de chegadas e alojamentos locais disponibilizados na plataforma
MOçAMbique nO ‘TOP 3’ AfriCAnO de ChegAdAS
Em percentagem de crescimento de check-in no sistema no primeiro semestre de 2018
nigéria
gana
moçambique
costa do marfim argélia
Em 2018, Moçambique está no ‘top’ dos mercados africanos com maior crescimento de check-in no Airbnb
negócios que não pretendem só um sítio para dormir, mas sim todos os serviços que estão associados, como salas preparadas para reuniões, por exemplo”.
Maná turístico
Numa retórica convergente com os seus pares de outras latitudes, Negi e Gulamhussen alertam, porém, para a necessidade de regulamentar a nova realidade do mercado: “Porque se nós somos taxados – e não é pouco – não vejo razão para que plataformas como a Airbnb não o sejam também e pela mesma medida”, defende Gulamhussen. Negi concorda. “É necessário regulamentar e não tentar impedir. Porque as pessoas estão mais alertadas para os preços do alojamento, fazem pesquisa antes de viajar, e é uma questão de oportunidade e de gosto”, diz. E, com a lucidez dos homens viajados e atentos às novas tendências, não tem dúvidas de que “fenómenos como o da Airbnb não vão parar. Pelo contrário – vão crescer cada vez mais”, afirma. “Mas vai haver lugar para todos”. E todos vão ser muitos, porque no horizonte da Airbnb o continente africano
OferTA de AlOjAMenTOS lOCAiS ‘exPlOde’
Em milhares de casas registadas no sistema
É a média de crescimento anual do número de alojamentos incritos no Airbnb em toda a África. Desde 2014, cresceu 766%
constitui uma alavanca poderosa para os negócios do futuro. “Estamos a investir, em África e até 2020, um milhão de dólares em projectos de turismo liderados pelas comunidades”, afirmou Velma Corcoran. Como paradigma desse investimento alocado pela Airbnb, referiu o Africa Travel Summit, conferência que decorreu em Cape Town, África do Sul, e organizada pela startup californiana. Um movimento de antecipação, porque o continente conhecido por ser o fornecedor, há centúrias, das matérias-primas que alimentam as indústrias ocidentais e asiáticas, começa agora a explorar um novo filão entretanto inaugurado: o Turismo. Com a vantagem de ser sustentável, está entre os sectores que mais crescem em África, tendo contribuído com quase 178 mil milhões de dólares (cerca de 8,1%) para o PIB do continente em 2017, de acordo com o Conselho Mundial de Viagens e Turismo. E a tendência é não parar de crescer. Até quando?
tExto Elmano madaíl fotogrAfiA Jay Garrido
Pobreza, Crescimento Económico e Preocupações com o Bem-Estar
Salim Cripton Valá • PCA da Bolsa de Valores de Moçambique
a temática da riqueza das Nações e da distribuição do rendimento tem raízes longínquas no pensamento económico, mesmo tendo em conta que a sua abordagem não se impôs sem profundos e controversos debates. Nos anos 1970, foi reconhecido que o crescimento económico só por si não reduziria a pobreza com uma rapidez aceitável e de forma abrangente, tendo feito com que organismos como o Banco Mundial e as Nações Unidas tomassem a sério as abordagens para a superação da pobreza.
A redução da pobreza tem sido um dos principais objectivos constantes nos programas de governação de diversos países, e no passado foi muito relacionada com a falta de rendimentos, em dinheiro ou espécie, visando a satisfação das necessidades básicas. Mas como a pobreza é um fenómeno multidimensional, é volátil e não uma fatalidade, a definição numa perspectiva monetarista não permitia incorporar as diversas perspectivas da pobreza, com ênfase para o acesso aos serviços básicos, o consumo, posse de activos duráveis, entre outros. Hoje se reconhece, mesmo para o caso de Moçambique, que não obstante os avanços alcançados desde a viragem da década 1990, o progresso não tem sido uniforme, variando em função de cada zona e do tipo de indicador usado.
Desde a segunda metade dos anos 1990, que Moçambique enveredou pelos programas estratégicos de redução da pobreza, uma iniciativa do Banco Mundial orientada para os países menos desenvolvidos, e iniciou a implementação do Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta (PARPA), na sua primeira geração (2001-2005) e segunda geração (2006-09), e mais tarde implementou o Plano de Acção para a Redução da Pobreza (PARP), cobrindo o período 2011-14, e sem a explicitação de absoluta. Com base nos Inquéritos aos Orçamentos Familiares (IOF), feitos com uma periodicidade quinquenal, o índice de pobreza na óptica do consumo foi de 69,7% (1996-97), 52,8% (2002-03), 51,7% (2008-09) e 46,1% (2014-15). Como é evidenciado, regista-se uma redução da pobreza, exceptuando o período en-
tre 2002-03 e 2008-09 (em que houve na prática uma estagnação do índice de pobreza, pois a subida foi insignificante), mas essa redução tem-se situado aquém das projecções, já que no PARPA II previa-se que a incidência da pobreza seria de 45% em 2009, e no PARP seria de 42% em 2014, ou seja, planificaram-se reduções da pobreza mais significativas do que as que efectivamente ocorreram (Cf. PARPA II, 2016; PARP, 2011 e IOF, 2015). Hoje, é já um dado adquirido que as abordagens de combate à pobreza devem ser feitas com uma forte combinação com o crescimento económico e o desenvolvimento do capital humano, este último sendo simultaneamente um fim e um meio do progresso económico, incluindo a educação, saúde, nutrição e redução da fertilidade.
Muito embora os diversos países difiram entre si na prioridade que atribuem aos objectivos distributivos, parece haver consenso quanto à necessidade de reduzir e, até certo ponto, eliminar a pobreza absoluta, sobretudo porque ela é uma condição de vida caracterizada pela má nutrição, analfabetismo e doença, que está abaixo de qualquer definição de nível de decência humana.
Os pobres são um grupo heterogéneo, alguns vivendo razoavelmente e outros estando no limiar da sobrevivência. Uma boa colheita, uma semente nova, remessas de familiares imigrantes ou a oportunidade de trabalhar num projecto de construção de estradas nas redondezas podem contribuir para elevar o rendimento da família camponesa. Além dos seus baixos rendimentos, os pobres tem algumas características em comum: vivem em famílias numerosas e com elevado número de dependentes, mais de 2/3 vivem nas áreas rurais ou nas zonas peri-urbanas, muitos deles dependem da agricultura de baixa produtividade e rendimento para a sua sobrevivência, diversificam pouco os seus rendimentos, 4/5 do seu rendimento é usado para a obtenção de alimentos, a sua dieta alimentar é monótona e limitada, a sua habitação é precária e não oferece adequado conforto, padecem frequentemente
A longo prazo, é mais avisado apostar em três tipos de políticas que se reforçam mutuamente: a melhoria da distribuição da riqueza, a aceleração do crescimento e, por fim, o controlo das variáveis demográficas que influem, e de que maneira, no desenvolvimento
É um dado adquirido que as abordagens de combate à pobreza devem advir da combinação entre crescimento económico e desenvolvimento de capital humano
de doenças evitáveis e a grande maioria dos adultos é analfabeta. Pelo que foi exposto, os pobres possuem um elevado grau de vulnerabilidade, que suscita a precaução e a aversão ao risco e não são resilientes aos choques económicos e climáticos.
Quer a pobreza seja avaliada pelo rendimento baixo, por reduzida esperança de vida ou pelo analfabetismo, há uma forte correlação entre a prevalência da pobreza num país e o seu PNB per capita, o que sugere que parte da solução para a pobreza está no crescimento económico. Estudos empíricos têm mostrado, igualmente, a importância estratégica de factores como a distribuição adequada de rendimento pelas populações mais desfavorecidas, o crescimento económico elevado num período longo (não abaixo de três décadas), a acumulação de capital humano e o aumento da produtividade no uso dos recursos disponíveis.
Autores como Edelman & Chenery (1977) recomendam que, mesmo que a curto prazo, se fique com a tentação de escolher entre o crescimento e a distribuição, é mais provável que no longo prazo seja mais avisado apostar em três tipos de políticas que se reforçam mutuamente, a saber: (i) melhoria da distribuição; (ii) aceleração do crescimento; (iii) controlo das variáveis demográficas que influem no desenvolvimento. Na mesma perspectiva se posiciona Irma Adelman (1975) ao estudar o processo de desenvolvimento em países como Japão, Coreia do Sul, Israel, Singapura e Taiwan, mostrando que eles seguiram uma sequência dinâmica de estratégias similares: (a) redistribuição radical, algumas vezes acompanhada por taxas negativas de crescimento; (b) acumulação maciça de capital humano e formação especializada muito além da
procura do momento, e; (c) políticas económicas dirigidas ao rápido crescimento económico intensivo em trabalho (incluindo tecnologias apropriadas e promoção do comércio externo). Segundo a autora, a estratégia desses países não foi “cresce agora, redistribui e educa depois”, como ocorreu em algumas economias ocidentais capitalistas, mas “redistribui e educa agora e cresce depois”. Na verdade, essa forma de abordagem é esquemática, mas enfatiza a necessidade da redistribuição estar sempre presente nos processos de desenvolvimento.
O economista indiano Amartya Sen (2003) sempre se preocupou em compreender a situação económica dos mais desfavorecidos e porque eles vivem à margem do que se considera bem-estar. A curiosidade filosófica de Sen levou-o a questionar os pressupostos mais básicos de economia, perguntando insistentemente, “afinal é pobreza de quê?” A resposta da economia convencional era “é pobreza de dinheiro, de comida e abrigo, ou seja, as pessoas são realmente pobres quando lhes faltam bens materiais.”
Para A. Sen, o problema é muito mais vasto do que isso. Ter uma vida boa implica uma série de capacidades, como ter boa alimentação, ser saudável, ter instrução, ser parte de uma comunidade, viver num ambiente democrático, estar seguro, ter informação, e assim por diante. Para o autor, o desenvolvimento da sociedade é a expansão de capacidades, no domínio económico, mas também nas esferas cultural, social, política, institucional e ambiental. A. Sen postula que o verdadeiro desenvolvimento se refere ao crescimento da própria liberdade, que coloca o crescimento económico como condição necessária, mas não suficiente, exigindo a superação da pobreza e o alcance do verdadeiro bem-estar.
lá fora
Sonho da livre circulação em África continua a Ser Só iSSo, um Sonho
Um relatório do BAD mostra que é mais fácil aos estrangeiros obterem diferentes vistos do que aos habitantes do continente africano. Um dos sinais de que algo está errado na maratona para criar um espaço de circulação comum
ciku kimeria é uma escritora queniana apaixonada por viagens que mantém um blogue chamado “The Kenyan Explorer” onde vai registando episódios e reflexões suscitadas pelas suas frequentes deslocações pelo continente africano. Detentora de uma verdadeira “alma de viajante”, Ciku Kimeria aprecia, ao contrário do “turista”, preso a itinerários pré-definidos, a “errância”, o acaso dos encontros e desencontros, isto é, entende a “viagem” como o escritor inglês Bruce Chatwin a descreveu nos seus livros, como uma “descoberta de si e dos outros”. Para Chatwin, o “viajante” reencarna a figura do nómada, alguém que, em cada
viagem, está aberto à imprevisibilidade e ao inesperado e age em conformidade. Muda o seu itinerário. Prolonga uma estadia. Improvisa o destino.
itinerância invejável e inviável Mas será esta “errância” possível no continente africano? Num depoiamento publicado inicialmente em “SuluZulu”, e depois reproduzido na revista norte-americana “Quartz”, Ciku Kimeria descreve como é díficil ser “viajante” em África: “Uma vez estava na Costa do Marfim e comecei a tratar dos vistos para uma viagem que pretendia fazer e implicava passar pelo Burkina Faso,
pelo Togo, pelo Benim, voltar à Costa do Marfim e daí regressar ao Quénia. É-me difícil descrever a incredulidade dos funcionários quando lhes expliquei que não ia visitar familiares ou amigos nesses países. Pretendia apenas conhecer os países... Explicaram-me então que para obter os vistos precisava de apresentar as reservas dos hotéis onde ia ficar nesses países. Reservas de hotéis? Como explicar-lhes que indo eu viajar de autocarro, sem um plano definido de quanto tempo iria querer demorar-me em cada um dos locais, era impossível apresentar qualquer tipo de “reserva de hotéis”? Foi nesse momento que
percebi que para o “viajante” em África não há espaço para a espontaneidade. O facto é que mesmo que eu fosse visitar amigos e familiares nesses países teria de, para obter os vistos, apresentar, antecipadamente, cartas-convite de cada um deles e um documento comprovativo da sua residência carimbado pelas autoridades locais. Ou seja, para um africano viajar em África é preciso ter sempre um plano detalhado e definido.”
Para além destas dificuldades, Kimeria refere ainda várias outros factores adicionais de desmotivação: o custo excessivo dos vistos, a sua curta duração (sendo que os vistos para múltiplas entradas têm, muitas vezes, custos proibitivos), a dificuldade em obter informações (os websites de muitas embaixadas e consulados não são regularmente actualizados e contêm, por exemplo, números de contacto que já não existem ou os funcionários simplesmente não respondem aos emails que são enviados), uma inflexibilidade burocrática que gera, muitas vezes situações surreais e absurdas - como quando pediram a Ciku Kimeria que apresentasse, para obtenção do visto, os bilhetes de autocarro que iria tomar ao longo da travessia de um determinado país sendo que, para além da impossibilidade prática de o fazer, o seu objectivo era viajar sem um plano pré-definido – para já não falar da “ambiguidade” que envolve, em muitos casos, a concessão do visto (como se a sua obtenção estivesse, de algum modo, dependente de variáveis conjunturais cuja lógica não é perceptível e parece arbitrária). Na mesma altura em que o testemunho de Ciku Kimeria era publicado, em 2016, um relatório do African Development Bank (AfDB) – “Visa Openness Report” - fazia um levantamento da situação por ela descrita revelando que os africanos precisavam de vistos para entrar em 55% dos países do continente. Apenas em 20% dos países lhes era possível, nessa altura, entrar sem visto e só em 25% dos países podiam obter o visto à entrada no país. estrangeiros circulam melhor O relatório notava que era mais fácil aos estrangeiros obterem vistos do que aos habitantes do próprio continente africano. Por exemplo, os norte-americanos só precisavam da obtenção de visto em 45% dos países, podiam obter vistos à chegada em 35% dos países e não precisavam de visto em 20% dos países. O relatório sublinhava ainda o facto de que naqueles países que tinham adopta-
MoçAMBiqUe BeM colocADo
O ranking do BAD, que enumera a facilidade de pedido e concessão de vistos em África, mostra Moçambique num lugar entre os primeiros ao nível da facilidade de entrada no país
Em 54 países africanos
seychelles
do uma política mais aberta em relação à concessão de vistos essa abertura tinha tido um impacto directo benéfico nas actividades económicas. Por exemplo, no Ruanda, a diminuição nas restrições à obtenção de vistos traduzira-se, entre 2014 e 2015, num aumento das receitas do turismo de 4% (305 milhões de dólares). E ao estabelecer um acordo com o Quénia e com o Uganda, que possibilitou aos seus habitantes viajarem com um “visto turistico único”, isso significou um aumento de 17% no número de visitantes. Para além disso, o Ruanda aboliu a necessidade de obtenção de vistos de trabalho para os indivíduos provenientes da comunidade de países da África Oriental o que lhe permitiu atraír um número crescente de “talentos qualificados”. Os três países também acordaram em que os seus cidadãos possam atravessar as fronteiras apenas com o respectivo bilhete de identidade o que teve como consequência um aumento de 50% nas relações comerciais.
ainda assim, há uma evolução
Um relatório publicado em 2017 pelo AfDB dava conta de uma evolução positiva, apesar de ainda longe de generalizada. O Senegal, por exemplo, passou a dispensar a necessidade de vistos para indivíduos provenientes de 42 países africanos quando, em 2015, esse número não ia além dos 16. A Tunísia eliminou a necessidade de visto para 21 países, e São Tomé e Príncipe permite agora a cidadãos de 13 países a entrada sem visto quando, dois anos antes, todos eram a obrigados a obtê-lo. Outros países, como o Quénia, a Nigéria e a Namíbia, indicavam no relatório a sua intenção de, a partir de 2018, simplificar os procedimentos para a obtenção de vistos ou permitir a obtenção de vistos à entrada, na sequência do que o Gana e o Benim já tinham feito. A avaliação feita mostrava, no entanto, que o objectivo traçado pela União Africana, no sentido de, no final de 2018, os cidadãos africanos poderem circular, à semelhança do que acontece na União Europeia, sem necessidade de vistos, não iria ser atingido. Este objectivo tinha sido definido aquando da Cimeira da União Africana, realizada em 2016 em Kigali (Ruanda), e era entendido como um primeiro passo em direcção à emissão, em 2020, de um passaporte electrónico “único” que permitiria a livre circulação através do continente. Esta medida integrava-se numa estratégia mais ampla cuja meta é estimular o desenvolvimen-
lá fora
quando as três fases de implementação da livre circulação estiverem concluídas, este será um cenário do passado
to do continente por via de uma progressiva integração das diversas economias regionais através da facilitação da circulação de pessoas, bens, serviços e capitais. No entanto, apesar do acordo de princípio subscrito pela totalidade dos países membros da União Africana em relação a estes objectivos, muitos manifestaram, desde logo, o seu cepticismo quanto à viabilidade de, a curto prazo, estes virem ser concretizados. Países com economias mais fortes, como a África do Sul, mas nos quais as taxas de desemprego são altas, temem que a abertura de fronteiras e a consequente chegada de imigrantes potencie novos focos de tensão social. Outros, com economias menos desenvolvidas mas onde existem “bolsas” de recursos altamente qualificados, receiam que esta abertura de fronteiras estimule uma “fuga de talentos” para os países com maior poder económico. Outros ainda receiam o potencial aumento de instabilidade política e social decorrente desta “abertura” tendo em conta a multiplicidade dos conflitos que se verificam em muitas regiões (Boko Haram, Al Shabaab, etc.). E há, finalmente, aqueles que temem a possibilidade da ocorrência de crise sanitárias (como a do vírus ébola) ou humanitárias (devido ao elevado número de populações de refugiados ou deslocados existentes no continente) se se verificar uma abertura total de fronteiras. A própria União Africana está cons-
4%
no Ruanda, a diminuição nas RestRições à obtenção de vistos tRaduziu-se, entRe 2014 e 2015, num aumento das Receitas do tuRismo de 4%, ceRca de 305 milhões de dólaRes
ciente das dificuldades existentes, e reconhece que muitos países não estão preparados para lidar com todas as implicações que resultam de uma política de livre circulação no continente. E refere, nomeadamente, o facto de, em vários países, o processo de emissão de passaportes carecer de “integridade”, a gestão das fronteiras ser “ineficiente” e os procedimentos de controle e segurança estarem aquém da exigência miníma exigível.
três fases decisivas
Face a esta situação, a União Africana definiu três fases para a implementação dos processos de livre circulação: a primeira deve passar pela abolição dos vistos de entrada, e a atribuição de direitos de residência e de permanência (o que inclui a possibilidade de criar negócios e fazer investimentos). As fases dois e três (que aprofundam os mecanismos anteriores) só avançarão quando for concretizada a primeira fase. Mas mesmo para a implentação da primeira fase tem havido relutância por parte de vários países, sobretudo aqueles com economias mais desenvolvidas, que defendem que sem a existência de acordos prévios entre os Estados em relação a vários pontos - no que toca, por exemplo, ao alinhamento das políticas e dos procedimentos relativos à imigração, à gestão das fronteiras, aos mecanismos de reconhecimento das qualificações académicas e profissionais ou às condições de acesso aos benefícios da segurança social – não será possível avançar. A complexidade que este tipo de negociações envolve sugere que o ideal da livre circulação no continente não se concretizará, certamente, no curto prazo. Mas, para os mais optimistas, iniciativas como a recente liberalização do espaço aéreo no continente, são um indicador importante de uma vontade política em caminhar na direcção pretendida. Com o crescimento, em anos recentes, de uma classe média africana com um significativo poder aquisitivo, a expectativa é que esta liberalização do mercado aéreo, com a consequente abertura de novas rotas dentro de continente e uma baixa nos preços das viagens, estimule não apenas o turismo interno mas funcione como factor de pressão no sentido de acelerar a implementação da livre circulação.
textO Rui TRindade fOtOgrAfiA iSTockphoTo
OPINIÃO
Sector informal, a bússola de milhares de agregados familiares
Hermenegildo Langa • Jornalista da Economia & Mercado
a discussão sobre o comércio informal no país, sempre foi motivo de controvérsia. Porém, não há dúvidas de que por aqui que a maioria da população moçambicana ganha a sua renda. Aliás, muitas famílias no país têm no sector informal de comércio o seu ganha-pão, contrastando com o que acontecia antes da abertura a economia de mercado em que a venda até de um simples rebuçado da rua era considerada candonga. Quantos ditos candongueiros se viram obrigados ‘a comer o pão que o diabo amassou’, só pelo simples facto de haverem sido apanhados na altura a comerciar produtos fora do circuito considerado formal. Mas hoje não causa estranheza esse facto, tanto porque em quase todas as esquinas das cidades moçambicanas é notável a presença de vendedores disputando espaços com transeuntes e automobilistas, o que não raras vezes resulta em acidentes e prejuízos incalculáveis.
Na cidade de Maputo por exemplo, a Avenida Guerra Popular é bem elucidativa do que acontece um pouco por todo o país, se não em todo o continente africano, com os passeios abarrotadas de gente vidas de quase todos os cantos deste belo Moçambique, no afã de conseguir algum dinheiro para suprir as suas necessidades do quotidiano.
Entretanto, não podemos menosprezar o papel e a contribuição do sector informal para debelar a falta de emprego formal que enferma a economia nacional, com muitas empresas a fechar as portas, pondo em risco de desemprego muitos pais, mães e famílias.
Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a taxa de desemprego no pais flutua entre 22% e 27%, sendo as mulheres e os jovens das áreas urbanas os mais afectados, calculando-se que a economia formal gere 700 000 empregos. No entanto, a maior parte da força de trabalho, aproximadamente 11 milhões de pessoas, vê-se forçada a procurar a sua subsistência numa variedade de actividades da chamada economia informal.
Dados do Ministério do Trabalho e Segurança Social estimam que a economia informal contribua com 40% para o PIB, não existindo, contudo, dados formais pormenorizados sobre a economia informal. Por outro lado, o trabalho infantil é também uma prática comum na economia informal, onde mais de 2% dos trabalhadores e operadores económicos informais se situam na faixa etária até aos 14 anos e quase 10% têm menos de 20 anos.
Ainda assim, a economia informal continua a ser uma importante fonte de rendimento e sustento também para os idosos, perante a inexistência de formas alternativas de segurança de rendimento, pensões ou assistência social, pese embora o Instituto Nacional de Segurança Social (INSS) tenha aberto, muito recentemente, a oportunidade de os trabalhadores informais contribuírem para a Segurança Social onde são os chamados de Trabalhadores por Conta Própria (TCP).
Um estudo feito pelo economista Carlos Nuno Castel-Branco, em 2016, referia que, “nos centros urbanos, o rendimento proveniente do trabalho informal, considerado complementar no passado, tornou-se essencial para a sobrevivência dos agregados familiares.”
Mas em consequência do preconceito de género na elaboração das políticas, o trabalho informal, e em particular as actividades associadas ao trabalho das mulheres, são frequentemente tratados como não constituindo empregos, retratados como exigindo menos competências que as actividades na economia formal e, por conseguinte, merecedoras de menos protecção social. Esta é apenas uma discussão sobre o dilema de combater ou estimular o sector informal. E de que forma se deve proceder para o formalizar, mantendo o respeito pela sua importância na grande economia da vida de milhões de moçambicanos.
A verdade é que o comercio informal tem contributo para a economia do pais.
Não podemos menosprezar o papel e contribuição do sector informal para debelar a falta de emprego formal. Até porque é aqui que se faz, em larga medida, a economia real do país
ócio
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O escape de Verão desta edição da E&M passa pela magnífica Lagoa do Bilene
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O Moksha é um verdadeiro mosaico gastronómico para quem gosta de viajar pelos sabores
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A maior pontuação dada pela “Wine Spectator” foi para o Quinta do Noval Porto Vintage Nacional 2016 (99 pontos em 100). Conheça-o
(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio
lagoa e mar aberto…
poesia deitada na areia
a pouco mais de 180 quilómetros de Maputo e já na província de Gaza, a poesia deita-se na areia. E ali fica até chegar ao mar. Existe algo de poético na Lagoa do Bilene, ou Lagoa Uembje para não faltarmos ao verdadeiro nome que poucos usam. Este lugar de fugas rápidas, para quem vive na capital é, desde há muito tempo, sinónimo de relaxe. Por aqui a vida anda descalça e comprometida com o sal da água que nos lava os sentidos. A lagoa transparente, temperada de calor e de sal, tem cerca de 27 quilómetros de comprimento. É puro deleite para não fazer nada, ou para accionar os músculos através de uma canoa, prancha de paddle ou de windsurf, se o vento estiver por lá. Neste lugarejo
tranquilo, só vai mesmo encontrar a canoa, tudo o resto terá de levar consigo. Mas a lagoa permite mais ainda. Pode andar e andar, sem deixar de sentir a areia. A grande profundidade, só mesmo lá longe, onde a água ganha o azul mais escuro.
Ao redor de tanta água, guardada por casuarinas e palmeiras, existem inúmeros locais para ficar, petiscar ou deliciar-se com uma refeição mais composta. O peixe e o camarão são dali mesmo. Todos os dias chegam frescos às mãos dos chefs para os aprimorar de sabor.
Chegar a esta poesia em estado puro, é fácil. A partir das províncias acima de Gaza pode viajar de avião até Maputo, depois alugar um carro, ali mesmo no ae-
roporto. Aconselhamos um 4X4. Depois é seguir pela EN1 para norte da cidade capital. A estrada está em boas condições, só é preciso respeitar escrupulosamente os limites de velocidade. A viagem demora pouco mais de 90 minutos. Depois de passar Manhiça vai encontrar Palmeira. Conta-se que o nome ficou devido a uma gigantesca palmeira que durante anos foi referência para quem por ali viajava. Um dia um relâmpago levou-a ao chão. Agora, no lugar dela está uma placa que lhe guarda a memória. Mais à frente, a cerca de 15 quilómetros do destino, está Macia. Nesta vila à beira da estrada, está toda a fruta de Moçambique. Amadurecida calmamente pelo sol, é doce e suculenta. Aqui as mangas, as papaias e as lichias têm outro sabor e deixam-nos na boca um paladar perfumado.
é tão bom chegar
Para pernoitar tem muito por onde optar. Pode dormir em confortáveis tendas no Villa N’ Banga ou no Nghunghwa Lodge, no fim da lagoa, mas há mais por onde escolher.
A vila tem tudo o que precisa. Na loja do “Bilas”, o mais antigo café do Bilene, pode encomendar deliciosos pastéis de nata, pão e se lhe faltar o gelo, também por lá encontra. Se gosta de caju, natural, doce ou picante, pode comprá-lo ao vendedor que todos os dias vai ao Palmeiras Lodge, ou então encomendá-lo. Já agora, peça também os famosos rissóis que andam na boca de todo o mundo, dizem- nos que não há visitante que lhes resista. Há também artesanato que pode comprar. A maioria das gentes que por aqui vive tem baixa renda e uma ajuda é sempre bem-vinda. Para lá da Lagoa fica a praia e entrar nas ondas só mesmo para bons nadadores. Como não precisa de nadar em tão grandes ondas, pode só passear. Para ir até lá, pode combinar com os pescadores, depois de acertar o preço, são 10 minutos até ao banco de areia que separa a lagoa do mar. Depois de apreciar tão grande presente da natureza, é o momento de ver as tartarugas. Para as encontrar é só virar à direita no banco de areia que separa a lagoa do mar, junto ao penhasco, conhecido como Rocha das Tartarugas. O mês ideal para as ver é Fevereiro, mas é frequente aparecerem nos meses seguintes. Mas o melhor desta poesia chega quando o sol flamejante e veloz parte para outros horizontes. O dia apaga-se no céu e milhares de estrelas brilham só para nós. É um planetário a céu aberto, onde se distinguem inúmeras constelações e os planetas mais distantes ficam quase ali.
este lugar de fugas rápidas, para quem vive na capital, é desde há muito tempo sinónimo de descanso real
TEXTO CRIstIna fReIRe FOTOgrAFIA MauRO PIntO
roteiro
COMO IR
Ideal será um 4X4. Deve seguir pela EN1 até à vila de Bilene.
O que fazeR
Observar as tartarugas, pesca desportiva e snorkeling. Pode fazer longas caminhadas à beira da Lagoa, que é ideal para crianças já que não tem quase profundidade e a água é sempre morna. À noite é obrigatório observar as estrelas e acender a fogueira, mesmo que estejam 40 graus de temperatura. Faz parte da poesia do local.
Onde dORMIR e Onde COMeR
O Nghunghwa Lodge (nas imagens) é constituído por casas, com quartos independentes e uma cozinha comum. Tem várias actividades para que mantenha a boa forma física. E a vista é deslumbrante. O preço, em época alta, é de 5 175 meticais por noite/pessoa. O pequeno-almoço está incluído.
a jornalista gastronómica
Jeanine Lewis disse um dia que a pretensão de descrever exaustivamente a “culinária indiana” é quase tão complicada como tentar explicar as leis da termodinâmica a um leigo. Ao longo dos mais de 5 mil anos da sua história, a Índia incorporou uma multitude de influências provenientes dos muitos povos e tradições que passaram pelo país. Dos mongóis aos britânicos há um extenso legado histórico que é preciso rastrear para se compreender a extrema diversidade da sua gastronomia. Por isso, não é possível falar em “culinária indiana” sem compreender o papel das religiões (Hindu e Muçulmana) na definição e elaborações das práticas alimentares. Alguns exemplos “regionais” ajudam a compreender esta diversidade. Assim, se olharmos para a
restaurante moksha indiana
“cozinha do Punjab”, que muitos estudiosos acreditam ser de origem Mongol, vemos que ela é marcada sobretudo pelo estilo tandoori (termo que provém do forno de barro usado). Nesta cozinha, são principalmente empregues carnes marinadas (galinhas, peixes) e naans (pães feitos com leite, manteiga, iogurte e ovos). Embora a influência Mongol – povo que ocupou a Índia durante um longo período – esteja amplamente disseminada pelo país, há regiões, como em Delhi, onde ela é particularmente notória.
A “cozinha Mongol” define-se pela sua sofisticação, com o uso de molhos elaborados, temperos complexos como o curry e o consumo de carnes diversas em que o molho de
ao longo dos mais de 5 mil anos da sua história, a Índia incorporou uma multitude de influências provenientes dos muitos povos e tradições. descubra-as no moksha
um mosaico da gastronomia
gengibre está sempre presente. Da shorba (sopa simples de caldo de galinha ou carne) à sopa de pétalas de rosas (kulfi), a comida mongol é uma das mais difundidas internacionalmente. Se nestas “cozinhas” há uma indelével marca muçulmana, já a “cozinha de Goa” reflecte, por via da presença portuguesa, uma clara influência cristã. E a confecção de muitos pratos reflecte elementos da culinária portuguesa. O uso da carne de porco preparada à moda vindaloo (molho de pimentas vermelhas, vinagre, pimenta do reino, sementes de cominho, coriandro, gengibre, alho, açúcar mascavo) e o apimentado sarapatel (cozido de carne, língua, fígado e coração de porco, gengibre, sementes de cominho, alho, pimentas, cinamomo, vinagre, cebolas, sal, e sangue de
porco) são disso um possível exemplo. A população de origem religiosa hindu prefere as carnes de cordeiro, enquanto os cristãos são grandes consumidores de carne de vaca. Uma sobremesa deliciosa é a bebinca, elaborada com leite de coco, farinha de trigo e açúcar.
A sul, a “cozinha de Andhra Pradesh”, Estado que tem como capital a cidade de Hyderabad, é conhecida como a mais condimentada e picante de toda a Índia. São empregues muitos condimentos exóticos, frutas desidratadas, castanhas e amêndoas. Nesta “cozinha” um destaque especial deve ser dado aos biryanis (arroz misturado com carnes e vegetais) e aos chutneys produzidos com vegetais e frutas. No Moksha, depara-se com a possibilidade de ter uma experiência multifacetada e um leque de pratos de todas estas raízes culturais confeccionados com apuro e sofisticação.
941, Av. Julius Nyerere, Maputo
a maior pontuação dada pela “Wine spectator” foi para o quinta do noval porto vintage nacional 2016 (99 pontos em 100) doW’s vintage porto 2016
País: Portugal
RegIãO: Douro
Castas: Touriga Franca, Touriga Nacional e Sousão
aROMa : Ameixas pretas e pó de xisto com notas de alecrim e violetas
PaladaR: Volumoso com boa concentração
fInal: Elegante e prolongado
teOR alCOólICO: 20 %
quinta do vesúvio porto vintage capela 2016
País: Portugal
RegIãO: Douro
Castas: Sousão e Alicante Bouschet
aROMa: Perfume luxuriante e muito
sedutor. Notas de rosmaninho, esteva e eucalipto
PaladaR: Volumoso, fresco e refinado
fInal: Elegante e prolongado
teOR alCOólICO: 20%
croft vintage porto 2016
País: Portugal
RegIãO: Douro
Castas: Tinta Roriz, Touriga Franca, Touriga Nacional
COR: Rubi com bordo roxo brilhante
aROMa: Frutado de morangos maduros e groselha preta e notas resinosas de ébano e eucalipto
PaladaR: Frutas silvestres suportado por uma densa teia de taninos
fInal: Elegante e perfumado
teOR alCOólICO: 20%
porto vintage
2016 um dos melhores anos das últimas décadas
a prestigiada revista norte-americana “Wine Spectator”, ao destacar recentemente 21 vinhos do Porto Vintage de 2016, veio confirmar aquilo que os produtores já tinham afirmado: este foi um dos melhores anos das últimas décadas.
A maior pontuação foi para o Quinta do Noval Porto Vintage Nacional 2016 (99 pontos em 100). O mesmo produtor obteve ainda uma alta pontuação pelo seu Quinta do Noval Vintage Porto 2016 (98 pontos).
A casa Symington teve cinco vinhos classificados com 98 pontos: o Graham’s Stone Terraces, o Dow’s, o Graham’s, o Quinta do Vesúvio Capela e o Warre’s. “Nunca esta publicação tinha atribuído 98 pontos a cinco vinhos de uma só empresa, numa só ocasião”, sublinharam, na altura da divulgação das pontuações, os responsáveis da Symington.
O vinho do Porto é produzido na acidentada zona montanhosa do Alto Douro, uma das mais antigas áreas vitivinícolas do mundo onde se faz vinho há pelo menos dois mil anos (e desde 1756, a primeira área demarcada no mundo). Da mesma forma que todos os outros grandes vinhos clássicos, o Porto deve as suas características a uma associação única de clima, solo, casta e tradição. O terroir ímpar da região do Douro e os seus excelentes vinhos não podem ser reproduzidos em qualquer outro lugar. As uvas, de variedades específicas como a Touriga Nacional, a Touriga Francesa ou a Tinta Barroca, são cultivadas nas encostas íngremes e rochosas que bordeiam o rio Douro e os seus afluentes. Muitas das mais antigas, agora classificadas como Património Mundial, estão plantadas em socalcos estreitos apoiados por muros de pedra construídos à mão. Um dos aspectos fascinantes do vinho do Porto é a sua variedade de sabores característicos, desde o intenso frutado de um Reserva ou de um Late Bottled Vintage (LBV) à opulência e complexidade de um Tawny, ou à imponência sublime de um Vintage. O Quinta do Noval Porto Vintage Nacional 2016, é um daqueles que vai impressionar os apreciadores ao longo de décadas. É um vinho maciço, fechado, profundo, com o aroma centrado nas notas de esteva, ervas do campo, muitas especiarias e bagas maceradas. O seu enorme poder tânico é domado por uma sólida estrutura, mas ao mesmo tempo polido, impactante na garra e presença.
TEXTO RuI tRIndade
quinta do noval porto vintage nacional 2016
País
Portugal
RegIãO
Douro
Castas
Tinta roriz, Touriga Franca e Nacional
COR Escura e opaca
aROMa Floral, chocolote preto e silvestres
PaladaR Boa concentração fInal Seco e prolongado teOR alCOólICO 19,5%
música filmes livros
eXposições
Wire Wars
exposição de escuLturas de arame com tecNoLogia mecaNizada, iNspirada Numa das mais embLemáticas histórias do ciNema: “guerra das estreLas”. as obras Foram produzidas ao LoNgo de um Workshop do FestiVaL maputo Fast ForWard em cooperação com o projecto suL-aFricaNo “aFricaN robots”.
Fundação Fernando Leite Couto
Inauguração: 5 de Dezembro
Hora: 18h
“o bairro poLaNa caNiço Na Visão da próxima geração de arquitectos moçambicaNos” (curadoria: márcia oLiVeira)
“Futuros da maFaLaLa” (curadoria: johaN motteLsoN e remígio chiLauLe)
exposições iNtegradas No programa do FestiVaL maputo Fast ForWard 2018
Centro Cultural Franco-Moçambicano Sala de exposições
Camões - Centro Cultural Português em Maputo Patente até 14 de Dezembro Entrada livre
the big smaLL exposição coLectiVa – 11 artistas /100 obras
DEAL – Espaço criativo
r. José Mateus 265 Entrada Livre
literatura
LaNçameNto de aNtoLogia de poesia “soLetras esse
Verso” editada peLa associação kuLembas
Camões - Centro Cultural Português em Maputo
Dia 6 de Dezembro 17h30
LaNçameNto do LiVro “matéria para um grito” de áLVaro taruma
Camões - Centro Cultural Português em Maputo
Dia 12 de Dezembro 18h
maputo eLectróNico eLectro chico: smadj + chico aNtóNio / boogz broWN + NaNdeLe / mr. Freddy / tushimitsu / daNNy g / dj biL / dubNakaVe
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Jardim e sala grande
Dia: 1 de Dezembro
Hora: 16h às 23h
• em destaque
VisuaL Voices susaN WakhuNgu-githuku ed. FootpriNts press
A “Visual Voices”, coordenado por Susan Wakhungu-githuku e editado pela Footprints Press, é um livro de mais de 600 páginas sobre a arte contemporânea do Quénia. Incluindo mais de 400 obras de 57 artistas quenianos, “Visual Voices” é um livro imprescindível para quem quer conhecer a cena artística do país. Nairobi é hoje, a par com Joanesburgo e Cape Town, na África do Sul, Lagos, na Nigéria e Accra, no gana, cidade com uma vida cultural intensa onde se destacam colectivos como Brush Tu e The Nest, espaços criativos como o goDown Arts Centre e artistas como Ng’endo Mukii ou Jim Chuchu que já têm projecção internacional. Entre os artistas incluídos destacamos aqui Michel Soi, Peter Ngugi e Jospeh Bertiers.
LaNçameNto do soNgbook FaNNy pFumoe
kuriNguisa hi kumahae
teNtar Fazer
NWaNa mutchaNgaNa (NuNes chichaVa) & baNda uNaNga
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 6 de Dezembro
Hora: 18h
“géNesis LiVe – coNcerto coreográFico” de aLLaN e ídio chichaVa com: baNda dugê, case buyakah, jr NeW joiNt e edNa jaime
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Sala grande
Dia: 7 de Dezembro
Hora: 19h
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Auditório
Dia: 4 de Dezembro
Hora: 18h
o NataL de josé e maria (teatro iNFaNtiL)
texto e eNceNação: gigLioLa zacara
iNterpretação: heLeNa tembe, buaNamade amade e saLomão NhambuLe música: céLia madime
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 8 de Dezembro
Hora: 11h
mar me quer grupo de teatro girassoL uma história de coNquista, à beira mar, eNtre a beLa e dura LuarmiNa e o despreocupado pescador zeca perpétuo, persoNageNs do romaNce de mia couto.
adaptação e eNceNação: joaquim mataVeL (maNo quim) eLeNco: horácio mazuze, aLbertiNa guiLaze, raFaeL
ViLaNcuLos
Luz e ceNograFia: abíLio massiNgue
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 12 de Dezembro
Hora: 18h30
uma refleXão sobre o futuro dos assentamentos informais
em paralelo com a exposição foi lançado um livro, com o mesmo título, que explica o contexto e o âmbito do projecto. De acordo com Johan Mottelson e Remígio Chilaule, “o projecto delineia três hipotéticos cenários futuros de desenvolvimento urbano para uma mesma área, visando assim discutir as qualidades espaciais e as deficiências urbanas das diferentes abordagens ao desenvolvimento urbano de assentamentos informais.
Os três cenários futuros foram desenvolvidos como expressões radicais de três abordagens distintas ao desenvolvimento urbano que se pode imaginar para os bairros informais em Maputo. O objectivo era esclarecer, comparar e discutir as consequências dessas diferentes abordagens, e não tanto delinear projectos realistícos de curto prazo para o bair-
ro. Portanto, embora as maquetes possam parecer provocativas ou exageradas a princípio, a sua intenção é desencaderar um debate que mostre os extremos de diferentes posições no discurso do desenvolvimento urbano. Assim, o projecto procura discutir como os assentamentos informais devem ser desenvolvidos e abordados pelas autoridades públicas, pelo sector privado e pela sociedade civil, e que modelos urbanos são adequados para o futuro dos assentamentos informais em Maputo. Ademais, o projecto visa fornecer uma avaliação qualitativa geral de diferentes modelos urbanos, útil para os
a eXposição “futuros da mafalala”, da autoria dos arquitectos Johan
mottelson e remÍgio chilaule, é uma das iniciativas do mff
residentes de assentamentos informais, decisores políticos e profissionais envolvidos no desenvolvimento urbano. África está a urbanizar-se num ritmo acelerado e grande parte do desenvolvimento urbano é informal. Existem poucos exemplos de desenvolvimento bem-sucedido de áreas urbanas informais. Este projecto discute, por um lado, os problemas associados à falta de intervenção pública em assentamentos informais e, por outro, as abordagens interventivas actuais para o re-desenvolvimento dessas áreas urbanas. Por fim, o projecto descreve possíveis formas de desenvolver assentamentos informais para bairros urbanos sustentáveis, adequados às normas socioculturais que definem essas comunidades. inovação essa que é necessária e indispensável para um futuro sustentável das cidades africanas”.
futuros da mafalala
Onde Centro Cultural FrancoMoçambicano
Sala de exposições
Patente até 14 de Dezembro
Entrada Livre
leXus uX
MOtORIzaçãO
UX 250h equipado com um sistema híbrido self-charging, também disponível com tracção Integral
UX 200 disponível com o motor gasolina de elevado desempenho
PReçO a partir de 45 mil dólares
vpara competir no segmento dos suvs uma proposta luXuosa
depois de um primeiro protótipo ter sido apresentado em 2016, o novo crossover compacto Lexus UX fez a sua estreia no recente Salão Automóvel de Genebra de 2018. O segmento dos SUVs compactos de luxo está recheado de boas propostas, como é caso do BMW X2, do Jaguar E-Pace ou do Volvo XC 40, mas o Lexus UX tem todos os ingredientes para disputar um lugar de destaque neste segmento sempre muito competitivo. O novo UX, direccionado para “o explorador urbano moderno”, conta com um chassis e suspensão totalmente novos que lhe conferem um baixo centro de gravidade, proporcionam agilidade e uma condução divertida. Estão ainda disponíveis duas opções de motorização: o UX 250h, equipado com um sistema híbrido self-charging, ou o UX 200,
disponível com motor gasolina de elevado desempenho. As tecnologias inovadoras como o monitor de visão panorâmica e o sistema áudio surround premium Mark Levinson representam alguns equipamentos que se juntam ao avançado sistema de segurança de série Lexus Safety System+. Este sistema inclui o sistema de pré-colisão com detecção de peões; assistência à demarcação da faixa de rodagem para o ajudar a manter-se no trajecto; e cruise control adaptativo que regula a velocidade do veículo em função da viatura à sua frente. O UX é, ainda, o primeiro Lexus a ser construído sobre a nova
plataforma de Arquitetura
Global GA-C, a base para o seu desempenho dinâmico, e cujo desenvolvimento teve como prioridade conferir uma resposta ágil e instantânea às solicitações do condutor. Mesmo sendo um modelo de entrada, a Lexus não faz concessões em termos de qualidade e de requinte. Um dos objetivos da equipa de desenvolvimento foi procurar a eliminação das fronteiras entre design exterior e interior. Este conceito é mais evidente a partir do banco do condutor, onde a parte superior do quadro de instrumentos parece projetar-se além do pára-brisas.
novo crossover compacto leXus uX fez a sua estreia no recente salão automóvel de genebra de 2018