GNl como A gAlp está A investir nA áreA 4 do rovumA
TV dIGITal
depois do impAsse... o ApAgão de 2019
ecoNomIa
próximo Ano será de forte crescimento. será mesmo?
socIedade
moçAmbique AindA não tem ‘pedAlAdA’ pArA As bicicletAs
novemBRo 2018 • ano 01 • no 08
Preço 200 mZn
6 Observação
Estados Unidos as eleições intercalares para o Congresso têm Trump no centro das decisões
8 Radar
Panorama economia, banca, Finanças, Investimento, recursos minerais, Lá Fora
14 MaCro
ENQUADRAMENTO
14 GNL Com o início da exploração da Área 4 no horizonte, a Galp investe cada vez mais no país
18 TV Digital a migração do sinal analógico tem-se arrastado mas estará concluída até 2020
26 Nação
IDEIAs QUE bRILhAM
26 Fintech a e&M mergulha no mercado das startup nacionais que desenvolvem tecnologias inovadoras para o mercado financeiro
34 Na voz de... Mulweli rebelo, Ceo da ologa, uma tecnológica nacional considerada uma das PMe com maior potencial de expansão mundial
38 ProvÍnCIa
Zambézia os novos caminhos de desenvolvimento na terra das bicicletas, em que a hora é a do chá
44 MerCado e FInanças
Plano Económico e social Governo prevê que a economia volte a crescer perto dos 5% em 2019. será mesmo assim?
48 EMPresas
PME
VIP a história e os planos de crescimento da maior cadeia de hotéis em Moçambique
50 MeGaFone
Marketing o que está a acontecer no mundo das marcas em Moçambique e lá por fora
52 FIGura do MÊs
OCAM
Mário sitoe, bastonário da ordem dos Contabilistas, e um olhar sobre o estado das artes da profissão
54 soCIedade
bicicletas a pedalada (ou a falta dela) de Moçambique para uma nova geração de transportes urbanos
60 LÁ Fora
Turismo
Como o continente africano pode aproveitar melhor os seus recursos para crescer num sector fundamental
67 ócio
68 Escape uma viagem pela beira 70 Gourmet o vietname no prato, em Maputo 71 Adega o melhor dos espumantes portugueses 72 Agenda Música, livros, filmes 73 Arte sunday nood, ‘new object of desire’ 74 Ao volante a nova (ou nem tanto assim) moda das caravanas
A contribuição do Turismo para a economia nacional
moçambique pode ser considerado um país abençoado pelo seu clima, pelas suas extensas e belíssimas praias e ilhas, florestas, pela diversidade da sua fauna e pela sua gente hospitaleira.
A contribuição do Turismo, quer para o Produto Interno Bruto, quer para o desenvolvimento social, contrasta com o seu potencial para o desenvolvimento global do país.
Numa altura em que as atenções das autoridades governamentais estão mais viradas para os recursos minerais, com uma estratégia discursiva de desenvolvimento baseada na agricultura, o turismo continua a ser um sector que timidamente vai contribuindo para os cofres do Estado e para o desenvolvimento das comunidades.
A situação actual das finanças públicas, caracterizadas por restrições orçamentais em consequência das chamadas dívidas ocultas, já deveria ter levado as autoridades governamentais a repensarem a estratégia para o Turismo, como uma das principais contribuições para a diversificação, equilíbrio, desenvolvimento e consolidação da estrutura da economia do país e como um factor de promoção, integração e desenvolvimento das comunidades locais no contexto da economia nacional e regional.
A África do Sul, o nosso vizinho gigante africano, com uma economia bem estruturada e consolidada, apesar dos sobressaltos dos últimos anos, mantém uma contínua aposta no Turismo enquanto um forte contribuinte para o desenvolvimento económico e social do país, uma abordagem que pode ser inspiradora para Moçambique.
Ao destacar este, e outros temas, como o processo de migração para TV digital, fazer um update do processo de exploração de gás na Área 4 na visão do country manager da Galp em Moçambique, ou traçar uma análise profunda sobre as Fintech no país, e o que podem aportar à necessária evolução do sector financeiro, principalmente num contexto económico que dá sinais tímidos de retoma mas que ainda manifesta dificuldades de crescimento, a E&M tenta cumprir o seu desígnio e fazer jus ao seu lema pois, quem lê sabe mais.
Novembro 2018 • Nº 08
PROPRIEDADE Executive Moçambique
DIRECTOR Iacumba Ali Aiuba
COnsElhO EDITORIAl Alda Salomão; António Souto; Narciso Matos; Rogério Samo Gudo DIRECTORA EDITORIAl GRUPO EXECUTIVE Ana Filipa Amaro
EDITOR EXECUTIVO Pedro Cativelos JORnAlIsTAs Celso Chambisso; Hermenegildo Langa; Cristina Freire, Elmano Madaíl, Rui Trindade; PAGInAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Jay Garrido; Vasco Célio PRODUÇÃO Executive Moçambique PUBlICIDADE DEPARTAmEnTO COmERCIAl Ana Antunes (Moçambique) ana.antunes@executive-mozambique. com; iona@iona.pt/contacto@iona.pt (Portugal)
ADmInIsTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBlICIDADE Executive Moçambique; Rua do Telégrafo, nº 109 – Sala 6, Bairro Polana Cimento, Maputo – Moçambique; Tel.: +258 21 485 652; Tlm.: +258 84 311 9150; geral@executive-mozambique.com DElEGAÇÃO Em lIsBOA Rua Filipe Folque, nº 10 J – 2º drtº,1050-113 Lisboa; Tel.:+351 213 813 566; iona@iona.pt ImPREssÃO E ACABAmEnTO Minerva Print - Maputo - Moçambique TIRAGEm 4 500 exemplares númERO DE REGIsTO 01/GABINFO-DEPC/2018
Iacumba Ali Aiuba
observação
Washington, EUa , novEmbro dE 2018 Trump ou Trump? os
prós e os conTras das eleições para o congresso
Em Novembro, os norte-americanos vão às urnas para eleger um novo Congresso que, no sistema americano, é composto por duas câmaras: Senado e Casa dos Representantes dos Estados. Nos últimos anos, os republicanos detiveram a maioria em ambas (235 das 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 51 dos cem senadores), amparados (ou nem por isso?) num presidente que geralmente é simpático à sua agenda. Ainda assim, o actual Congresso tem conhecido algumas votações dramaticamente apertadas, da reforma dos cuidados de saúde que falhou, mesmo com a maioria republicana, aos cortes nos impostos, aprovados ‘por uma unha negra’. Os democratas, numa oposição em bloco à presidência de Donald Trump, acreditam na vitória e em assumir o controlo das duas câmaras. Enquanto isso, os republicanos esperam o fortalecimento da economia, aliada a uma baixa taxa no desemprego, que os ajude a manter-se no poder. Resta perguntar, o que (ou quem) irá determinar o vencedor: Trump ou Trump?
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RADAR
DíviDa permanece em Discussão
Dívida pública. O Governo recusou uma proposta apresentada pelo Credit Suisse para a reestruturação de parte das dívidas não declaradas do Estado, sugerindo a emissão de uma nova dívida em que os pagamentos dos juros estejam indexados ao desempenho da economia nacional. De acordo com fonte da Lazard Freres, empresa que presta apoio a Moçambique no processo negocial, citada pela Bloomberg, “a proposta dos credores da Proindicus não respeita os requisitos das autoridades e não é considerada uma base viável para uma solução”.
O Credit Suisse e o banco VTB Capital emprestaram 662 milhões de dólares (504 milhões e 118 milhões, respetivamente) à Proindicus, uma das três empresas criadas pelo Estado em 2013 e que faz parte do es-
economia
Investimento externo. A Turquia lidera a lista dos maiores investidores externos em Moçambique com mais de 70 milhões de dólares, entre Janeiro e Junho do corrente ano. Transportes, comunicações,
Sector privado. O Governo vai iniciar a amortização das dívidas acumuladas durante mais de dez anos por bens e serviços fornecidos pelo sector privado, estimando-se que, até Dezembro próximo, 553 pequenas e médias empresas irão receber cerca de 2,8 mil milhões de meticais. A garantia foi dada pelo Ministro das Finanças, Adriano Maleiane, em Outubro passado, sem revelar o prazo em que o Governo amortizará os remanescentes 23,5 mil milhões de meticais ainda em dívida.
cândalo das dívidas ocultas de dois mil milhões de dólares cujo destino continua por apurar.
O Credit Suisse tinha anunciado que a sua proposta fazia “várias cedências financeiras e dava várias garantias de flexibilidade a Moçambique” e mostrava-se disposto a negociá-la com o Governo.
No início de Agosto, os credores da parcela de 727,5 milhões de dólares em títulos (Mozambique Eubonds 2023) propuseram ao Governo o pagamento de apenas 200 milhões de dólares até 2023 e a partir daí receber o restante em função das receitas do gás. O ministro da Economia e Finanças, Adriano Maleiane, admitiu no início de Outubro passado que a negociação pode incluir aquele tipo de instrumentos indexados a outras receitas.
indústria e construção, foram as áreas de aposta daquele país europeu.
A China, actualmente o maior parceiro socio-económico de Moçambique, ficou em segundo lugar, seguida das Ilhas Maurícias que fecham o top 3, segundo dados da Agência para Promoção de Investimento e Exportações (APIEX).
Grande parte das dívidas são para com empresas privadas baseadas em Maputo, sendo que o sector com maiores dívidas em crédito é o das Obras Públicas com 59% do montante.
Negócios. Moçambique melhorou três posições no ranking “Doing Business”, do Banco Mundial, um indicador que mede a facilidade de fazer negócios em 190 países. A economia nacional melhora no ranking pela primeira vez em vários anos, escalando da posição 138 na avaliação referente a 2017, para o lugar 135 em relação a 2018.
No relatório, o Banco Mundial destaca que, apesar “de ser mais oneroso lançar um negócio, ao mesmo tempo, o país simplificou o processo de abertura de novas empresas, ao substituir, em alguns sectores, a obrigatoriedade de licença por uma simples notificação de abertura de actividade”, lê-se. Itens como o acesso a energia, pagamento de impostos e trocas comerciais internacionais também foram melhorados.
Impostos. O pagamento do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) será electrónico a partir do próximo ano, com o objectivo de facilitar os procedimentos de cobrança, podendo reduzir custos operacionais para pequenos produtores. O teste dos aparelhos electrónicos de cobrança está previsto para o período que medeia entre Janeiro e Março de 2019. Numa primeira fase, a cidade e a província de Maputo são as regiões seleccionadas para a fase piloto do projecto, por concentrarem metade das receitas arrecadadas no país.
Multa. Cinco bancos do mercado moçambicano deverão ter de pagar multas num montante global de 91 350 milhões de meticais ao Banco de Moçambique, por terem cometido várias infracções entre os exercícios económicos de 2013 e 2018. Tratam-se do BCI, UBA, BNI e Millennium Bim. As infracções incluem, de acordo com o BM, “não comunicação imediata das transacções suspeitas e a não comunicação ao Ministério Público dos fundamentos da abstenção e prestação de informações.” A sansão é resposta a uma acusação que a Procuradoria fez aos bancos, segundo a qual “estes não comunicam devidamente com as entidades regulatórias.”
Electricidade. O Executivo aprovou o Plano Director Integrado de Infra-Estruturas de Electricidade avaliado em mais de 34 mil milhões de dólares.
enerGia
Deste valor, 18 mil milhões de dólares deverão ser investidos em infra-estruturas de produção de energia eléctrica. Deste montante, metade irá utilizar o gás natural como matéria-prima e outra metade será aplicada no financiamento à construção de infra-estruturas de transporte, principalmente a linha Tete-Maputo, conhecida por “espinha dorsal”.
Os restantes 7 mil milhões de dólares deverão ser investidos na distribuição da corrente eléctrica.
Prospecção. A petrolífera italiana ENI e a sul-africana Sasol assinaram contratos de concessão de três blocos para prospecção e pesquisa de petróleo e gás natural. As duas petrolíferas formaram um consórcio para explorar dois blocos em Temane e Pande, na província de Inhambane, marcando o fim das negociações entre as multinacionais e o Governo que duraram cerca de quatro anos.
Carvão. A empresa Sol Mineração Moçambique, subsidiária do grupo Sunflag da Índia, anunciou o início da exploração de depósitos de carvão na província de Tete. A empresa irá operar no distrito de Mutarara, onde dispõe de uma concessão de 4 000 hectares, sendo que o carvão a extrair será exportado para o mercado indiano.
Vale. A paralisação de uma parte da mina de carvão de Moatize, na província de Tete está a provocar um “impacto reduzido na produção”, reve-
lou à agência Lusa fonte da empresa responsável pela exploração.
A Vale mantém paralisado um terço das suas operações, correspondente a uma das quatro secções da mina de Moatize. A multinacional brasileira reitera que mantém “diálogo aberto com as comunidades sobre as questões apresentadas”, e que no dia 5 de Outubro passado conduziram a protestos - e consequente paragem parcial dos trabalhos.
A população exige o encerramento da secção quatro da mina, alegando que estavam a ser feitas detonações prejudiciais à saúde e com níveis de poluição acima do tolerável.
Gás. Cerca de 250 novos consumidores domésticos serão ligados à rede de gás natural canalizado no norte de Inhambane nos próximos meses, graças a um projecto de massificação do uso deste recurso, financiado pela Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH), através da sua afiliada Companhia Moçambicana de Hidrocarbonetos (CMH). O orçamento do projecto é de 340 mil dólares.
Bolsa De mercaDorias De moçamBique: transaccionar proDutos aGrícolas
com marGem De risco reDuziDas
“É comum nos conformarmos com o que já temos e não querermos correr o risco de perder o que já está garantido. Não há nada de errado ao agirmos assim, no entanto, podemos perder muitas oportunidades por sermos bastante conservadores, ou seja, o risco de não correr o risco.”
Na Bolsa de Mercadorias de Moçambique (BMM) existem oportunidades de negócio que podem render milhões de meticais, mas poucos arriscam no risco, ou seja, não querem correr o risco de entrar no negócio de transaccionar na Bolsa de Mercadorias por desconhecimento ou porque julgam que podem perder o seu investimento.
Seguro. As actividades agrícolas passam a contar com um novo seguro de proteção que cobre as pequenas colheitas. Trata-se de uma iniciativa pioneira no país, e que surge depois de um projecto-piloto de seguros para a agricultura, em 2013, financiado pelo Banco Mundial. Agora, no caso do novo seguro agrário, haverá um produto tradicional com prémios anuais a partir de 500 mil meticais e haverão microseguros com prémios reduzidos que começam em 150 meticais para proteger 10 quilos de sementes de milho. Os preços poderão ser ainda
Para o caso dos que julgam que podem perder os seus investimentos, é preciso entender que há formas de minimizar os riscos quando se trata de transaccionar em mercados bolsistas de mercadorias em Moçambique. O primeiro seria através de uma aproximação à BMM para entender melhor sobre como efectuar o negócio em Bolsa, que mecanismos a BMM oferece para redução de riscos e quais as vantagens em transaccionar por via da Bolsa. Por outro lado, a BMM garante a classificação dos produtos intermediados e o estabelecimento de preços justos na base de preço de referência que são aceitáveis no mercado nacional e internacional.
É neste sentido que a Bolsa de Mercadorias de Moçambique abre esta oportunidade de arriscar, com risco de perdas reduzidos para todos aqueles que de alguma forma pretendam entrar nessa área de negócio, desde que tenham o cuidado de fazer um estudo e de se aproximarem à BMM para obter mais informação sobre os produtos agrícolas que pretendem transaccionar (comprar ou vender). Sobre este aspecto importa frisar que a BMM transacciona até então produtos como milho, soja, gergelim, arroz e diferentes variedades de feijão. Lembre-se que o risco de não correr o risco é a decisão menos acertada.
RADAR
mais baixos, caso o tomador consiga ter acesso a subsídios para um conjunto de prémios de seguro.
Tecnologia. A empresa israelita, Mottech Water Solutions Ltd, ganhou um contrato em Moçambique para fornecer uma solução informática de irrigação sem fios.
A tecnológica desenvolve sistemas que ajudam os agricultores a proceder à irrigação e fertilização das plantações à distância, permitindo a utilização dos recursos disponíveis de uma forma muito precisa.
O grupo salienta que Moçambique tem 3,9 milhões de terrenos com vocação agrícola e é, por isso, “um importante mercado para este tipo de soluções.”
O grupo anunciou ainda que o contrato estipula que a entrega da solução informática será realizada por fases, com um valor inicial de um 5 milhões de meticais e um valor total previsto de 25 milhões de meticais.
Caju. A Gapi-SI iniciou o projecto de apoio ao rejuvenescimento dos cajueiros no distrito de Mogovolas, província de Nampula, com a intenção de revitalizar a indústria do caju naquele ponto do país. A iniciativa surge pelo reconhecimento da contínua quebra de produtividade dos cajueiros.
Perto de 70 famílias já se registaram para participarem no projecto, cujo custo não foi revelado, devendo para tal constituir uma organização de base comunitária que faça
a gestão da atribuição de parcelas individuais e trabalhos de manutenção e limpeza da área.
A Gapi trabalha na estruturação da cadeia de valor do caju desde 2005, tendo sido pioneira no apoio ao relançamento de novas unidades de processamento da castanha.
transportes
Ferroviário. O Ministério dos Transportes e Comunicações prevê o crescimento significativo do transporte ferroviário na ordem de 15,6% no próximo ano, face aos 7% projectados para o presente ano. A previsão de desempenho é justificada pelo aumento do fluxo de mercadorias em trânsito, com a aquisição de uma centena de vagões de carga, contribuindo para a redução dos camiões de carga na Estrada Nacional EN4 e a consolidação do projecto Metro-Bus, no sistema ferroviário sul, bem como pelas importações e exportações dos países do hinterland (sem contacto directo com o mar).
Aéreo. Depois de falhar por duas ocasiões a data do início das suas operações, inicialmente anunciadas (1 de Junho e 1 Outubro deste ano), a companhia Ethiopian Airlines, uma das gigantes africanas, aponta para 1 de Dezembro próximo o voo inaugural no mercado doméstico. “Vamos começar a operar no dia 1 de Dezembro”, garantiu o director da Ethiopian Airlines em
Moçambique, Daniel Tsige, justificando a demora que se tem verificado com o arranque, pelo facto de “ainda estar a resolver alguns problemas com a licença.”
Corredor da Beira. O Governo da Zâmbia está a considerar a utilização mais regular do Corredor da Beira como uma rota alternativa acessível para o Oceano Índico. A secretária permanente da Indústria e Comércio daquele país vizinho, Kayula Siame diz que é necessário que se explore melhor o Corredor da Beira, baseada no facto de ser “o trajecto que se revela mais curto e menos dispendioso para as operações logísticas do país”, aspecto que representará uma vantagem competitiva para os operadores do sistema da região centro de Moçambique.
Turismo. O Governo e o sector privado pretendem tornar a zona da baixa da cidade de Maputo “num destino turístico de referência, capaz de concorrer com outros pontos da região da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e do mundo.” No entanto, há ainda muita coisa por definir para a materialização da iniciativa que tem vindo a ser lançada por vários responsáveis políticos e económicos (o mais recente foi o empresário João das Neves, da CTA), e que passa pela execução de uma série de obras que concorrem para a melhoria das condições de recepção de turistas. Em média, Maputo recebe anualmente
40 mil turistas, a maioria dos quais em escala, em navios de cruzeiro.
lá Fora
Quénia. O governo queniano planeia fundir as três principais instituições financeiras de desenvolvimento estatais num só mega-banco. A medida ocorre quando as principais organizações multilaterais têm vindo a alertar sobre os altos níveis de endividamento do país. A Corporação para o Desenvolvimento Industrial e Comercial (ICDC), o BID Capital e a Corporação Financeira do Turismo (TFC) serão assim as entidades que irão formar o novo Banco de Desenvolvimento do Quênia (KDB). Com uma estrutura de capital muito mais robusta, o novo banco permitirá ao Quénia obter financiamentos de longo prazo de instituições internacionais, em condições mais favoráveis, e alimentar o rápido crescimento que a economia queniana espera na próxima década.
Fórum Macau. O ministro da Indústria e Comércio, Ragendra de Sousa lançou um apelo à China, no decorrer da 23ª Feira Internacional de Macau, para investir na agricultura, no sector florestal e em projectos de infra-estruturas. Na abertura de um fórum dedicado a Moçambique e a Fujian, província chinesa também em destaque na feira deste ano, o governante assumiu a ambição de convidar a plateia de investidores para em conjunto produzirem alimentos para a Humanidade. “Os recursos agrícolas de Moçambique estão disponíveis para os moçambicanos mas também para qualquer investidor nesta plateia”, disse o ministro. A 23ª Feira Internacional de Macau teve lugar entre 18 e 20 de Outubro passado.
OPINIÃO
Cultura e turismo, pontes para a paz, progresso e aproximação entre nações
Professor Narciso Matos • Reitor da Universidade Politécnica e membro do Conselho Editorial da E&M
Aurélio Ginja • Mestre em Educação e docente na Universidade Politécnica
a realização próxima do Congresso intitulado ‘Culltura e Turismo como factores de desenvolvimento, promoção da paz e aproximação entre nações’, a ter lugar em Maputo nos dias 26 e 27 de Novembro, constitui o ponto de partida para esta reflexão em torno do turismo e da cultura como verdadeiras pontes para a promoção da paz, desenvolvimento e aproximação entre os povos. Há 17 anos, por ocasião do XXII Dia Mundial do Turismo, em 2001, que teve por tema “O turismo, um instrumento ao serviço da paz e do diálogo entre as civilizações”, João Paulo II destacava o facto de as viagens e o turismo poderem constituir oportunidades para o diálogo entre as civilizações e as culturas e um precioso serviço à paz. Neste sentido, enfatizava ainda que a própria natureza do turismo inclui algumas circunstâncias que predispõem para este diálogo. De facto, a prática do turismo propicia como que a abertura de um parêntesis no seio da rotina contínua da vida quotidiana, feita de trabalho, deveres e obrigações a que o ser humano é necessariamente compelido pelos imperativos da vida social. No contexto da prática do turismo, o ser humano, liberto das amarras do quotidiano, reveste-se de um novo olhar sobre a própria existência e a dos outros: viajando o ser humano descobre outros lugares, deslumbra-se e molda o seu olhar diante de novas cores, novos contornos paisagísticos, admira-se perante maneiras diversas de sentir e viver a natureza; extasia-se diante de novas sonoridades, novas palavras, novos sotaques, novas musicalidades frásicas, delicia-se diante de novos sabores, interroga-se em face de outras formas de conceber o mundo e a vida, outras manifestações de espiritualidade, outras modalidades artísticas, outras religiões. Trata-se de um exercício de aprendizagem e apreciação da diversidade de um mundo que na sua multiplicidade não pode ser apreendido nem expresso plenamente nem pela palavra nem pela arte. Mas trata-se também de uma experiência humana que comprova a justeza da afirmação da poeta moçambicana Glória de Santana que, “entre o céu e a terra e os nossos passos, a nossa
humanidade constitui o mesmo laço, une-nos a mesma dimensão humana, o valor supremo diante de tanta diversidade é a própria humanidade.” A prática turística permite ao ser humano uma maior sensibilidade e consideração por tudo o que o circunda e a consciência ecológica da necessidade de protecção do planeta, como a casa comum da humanidade e da natureza, o seio cósmico que a todos nos alimenta e que é preciso preservar para as gerações vindouras .
Hoje, mais do que nunca, o turismo permite aos povos não viverem circunscritos à sua vivência especifica, à sua cultura. Com efeito, eles são convidados a cultivarem um espírito de abertura a outros povos e culturas, são desafiados a verem-se e reverem-se diante de outros modos diversos de pensar e de viver. Este exercício que a actividade turística propicia, constitui uma ponte para o diálogo intercultural, um diálogo que impulsione a paz, um diálogo que coloque em evidência as riquezas que distinguem uma cultura de outra e proporcione a preservação no coração da humanidade de uma memória viva da história e das tradições sociais, religiosas e espirituais do mundo inteiro. Este tipo de interacção possibilita a emersão de uma nova forma de encarar os outros como iguais na sua diversidade, e ajuda a libertar o ser humano do perigo fundamentalista de permanecer alienado no seu próprio universo, fechado em si próprio, incapaz de se irmanar à humanidade, que, hoje, à escala global se confronta com desafios comuns tais como a preservação da vida no planeta, a luta pela paz, a luta pela equidade de género entre outros.
O turismo constitui um instrumento positivo para o desenvolvimento social pois propicia a criação de oportunidades de emprego, alavanca o desenvolvimento rural, mormente de regiões empobrecidas pelo declínio das actividades agrícolas tradicionais, regiões onde o património cultural existente pode desempenhar um papel fundamental, promovendo a criação de novos empregos e o desenvolvimento da harmonia social, através da recuperação, valorização e revitalização de lugares que, de ou-
“Amamo-nos hoje numa praia das Honduras, estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia e na madrugada do dia dos teus anos despertamos nos braços um do outro baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua”, José Craveirinha
tra forma, estariam eventualmente relegados ao abandono e ao esquecimento.
A paz é, provavelmente, o tesouro mais ansiosamente buscado por toda a humanidade. Com efeito, o turismo, pela sua natureza, pode ser uma alavanca para um incremento do relacionamento entre pessoas e povos, fundamentado em valores éticos como o respeito mútuo, a solidariedade, a cordialidade e, por essa via, uma ponte de dois sentidos, aberta para a paz e convivência fraterna à escala universal.
Por conseguinte, um congresso desta natureza não só oferece de novo a oportunidade de afirmar a contribuição positiva do turismo para a construção de um mundo mais justo e pacífico, mas também para reflectir profundamente sobre as condições concretas em que ele é gerido e praticado. Neste âmbito, como nos afirma Alfred Whitehead, um eminente filosofo e matemático do século passado, “tal como ocorre na natureza em geral, a diversificação entre as comunidades humanas é essencial para prover o incentivo e o material da odisseia do espírito humano. As outras nações de hábitos diferentes não são inimigas, são dádivas de Deus. Os homens requerem dos seus vizinhos algo suficientemente semelhante para ser compreendido, algo suficientemente diferente para provocar a atenção e algo suficientemente grande para causar a admiração.”
Turismo Cultural, Turismo Sustentável e o papel das Tecnologias de Informação e Comunicação Turismo e a cultura são dois pólos indissociáveis. Por conseguinte, não é de espantar que o turismo cultural tenha crescido de forma exponencial no mundo actual. Com efeito, dado que a cultura é um sistema de valores, tradições e modos de vida (Williams, 1958), hoje praticamente todas as viagens turísticas podem ser consideradas culturais (Richards, 1996). Na definição de Raymond Williams, o turismo cultural com-
preende dois aspectos essenciais: a cultura contemporânea, entendida como modos de vida; e o desenvolvimento da cultura do indivíduo e do grupo, na divulgação do património e da tradição.
Segundo o Barómetro Mundial do Turismo da OMT relativo a 2016, as chegadas turísticas internacionais somam cerca de 1 235 milhões. No mundo, o sector representa 10% do Produto Interno Líquido e 7% do total das exportações, considerando que a cada 11 empregos, um se encontra no turismo. O sector ocupa, portanto, um papel relevante nas economias dos Estados e nas políticas que apostam no desenvolvimento inclusivo e na sustentabilidade ambiental global.
Em 1987, a ONU apresentava o conceito de desenvolvimento sustentável como “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.”
A OMT aplicou estas ideias para promover o “turismo sustentável”, um turismo responsável, não destrutivo nem prejudicial para o meio ambiente e o contexto sociocultural em que incide; particularmente respeitoso pelas populações e seu património, um turismo que salvaguarda a dignidade pessoal e os direitos dos trabalhadores, um turismo atento às pessoas mais desfavorecidas e vulneráveis. Com efeito, o tempo de férias não pode ser pretexto para a irresponsabilidade nem para a exploração: ao contrário, é um tempo nobre, no qual cada um pode agregar valor à sua vida e à dos outros. O turismo sustentável é também instrumento de progresso para as economias em dificuldade quando se torna veículo de novas oportunidades, e não fonte de problemas.
Segunda parte deste artigo continua na próxima edição da E&M, em Dezembro
A importância da Viagem. O turismo e a sua envolvência histórica, importância cultural e dimensão económica
MoçaMbique "na vanguarda" coMo centro Mundial de produção de gnl
Presente no mercado nacional de combustíveis desde 1957, a Galp Energia faz parte da história do sector energético no país e prepara-se agora para um dos maiores passos da sua história, e simultaneamente, da de Moçambique
de acordo com a Agência Internacional da Energia (IEA), enquanto fonte energética, o gás natural representará pelo menos um quarto da demanda mundial até 2040, um crescimento de mais de 40% num período de 25 anos. E cerca de 80% desse aumento, advirá do incremento na procura nos mercados chinês e indiano, (entre outros países asiáticos), sendo que, pela dimensão das suas reservas, Moçambique desempenhará um importante papel em toda esta nova dinâmica. Nesse sentido, torna-se essencial olhar aos players desse mercado, como a ENI, a Exxon Mobil, ou a Anadarko, mas também a Kogas, a ENH, ou a Galp Energia, claro. Ao longo dos anos foram muitos os projec-
tos em que a multinacional portuguesa foi investindo mas, quando em 2007 iniciou actividade no segmento de exploração e produção na Bacia do Rovuma em Cabo Delgado, os horizontes tornaram-se mais amplos e Moçambique passou, de forma ainda mais vincada, a fazer parte das prioridades da empresa (que já actua no país desde meados do século passado). Em Julho, o consórcio que inclui a Galp Energia, avançou com o plano de desenvolvimento do projecto para a produção e venda de gás natural (inclui a proposta de construção de instalações onshore, que compreenderão duas unidades de liquefacção, com capacidade para produzir 7,6 milhões de toneladas por ano) proveniente
das reservas de Mamba, na denominada Área 4. Mais adiantado está já o processo de Coral Sul (unidade flutuante de produção de GNL que já começou a ser construída na Coreia do Sul), que já tem o FID (decisão final de investimento) de 7 mil milhões de dólares aprovado desde o ano passado. Com uma forte expansão a nível global, a Galp desenvolve operações de exploração, produção, refinação e distribuição em 11 países de quatro continentes e, em Moçambique, será a única a actuar em duas das áreas da cadeia de valor do gás natural up e downstream. Em entrevista à E&M Paulo Mendonça, Country Manager da Galp Energia Moçambique, revela a posição da petrolífera na conjuntura ac-
tual e fala sobre as perspectivas do mercado de GNL, antecipando ainda, um pouco do que aí virá nos próximos anos.
Que presença tem hoje a Galp em Moçambique, e como foi ela evoluindo ao longo dos anos?
Os projectos em que estamos a investir garantem a continuidade no sentido de construir um futuro comum com o país por muitos anos. A Galp é, também, um caso singular no sector energético em Moçambique uma vez que é a única empresa que está presente, em simultâneo, nos negócios da Distribuição - Downstream e da Exploração e Produção - Upstream.
Carlos Nuno Gomes da Silva, CEO da Galp Energia dizia recentemente que “esta será a década do gás”. Neste sentido que importância tem Moçambique na estratégia global da empresa?
Esta é de facto a década do gás e Moçambique está na vanguarda desta revolução energética como novo centro mundial de produção de GNL. Os mercados procuram cada vez mais soluções energéticas limpas, o que pode levar a uma procura de gás no mercado internacional muito superior ao previsto. A posição geográfica e um time-to-market favorável que o país oferece proporcionarão alta competitividade, em comparação com outros projetos de GNL no resto do mundo. O gás natural é uma das grandes apostas estratégicas da Galp para as próximas duas décadas e representará um contributo significativo na transição energética e na descarbonização da economia global. O nosso projecto para o Rovuma terá grande relevo na estratégia de crescimento da empresa e será determinante para o aumento do peso do gás no nosso portefólio.
Depois de anos de avanços e recuos, em que ponto está hoje a operação? A Galp é um dos principais investidores no país e integra um consórcio para a exploração de gás natural em Cabo Delgado. Este investimento é realizado em parceria com a Mozambique Rovuma Venture S.p.A. – uma joint venture entre a ExxonMobil, Eni e CNPC, a KOGAS e a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos - ENH. A apresentação ao Governo do Plano de Desenvolvimento para a primeira fase do projecto onshore Rovuma GNL1, em Julho de 2018, reflecte o compromisso do consórcio em continuar a desenvolver os recursos de elevada qualidade descobertos na Área 4. Refira-se que, em
Junho de 2017, foi já tomada a decisão final de investimento – FID, referente ao projecto FLNG Coral Sul, estando a primeira produção de GNL prevista para 2022. O consórcio de que a Galp faz parte na Área 4 está a trabalhar afincadamente para concretizar a FID do projecto Rovuma GNL1 em 2019, permitindo assim que a produção de GNL comece em 2024. Estamos, igualmente, a avançar na vertente comercial, de forma a garantir as melhores condições de venda do gás.
A situação de insegurança que se vive em Cabo Delgado pode, de alguma forma, fazer atrasar o processo? Apesar dos acontecimentos que se têm verificado continuamos empenhados na prossecução dos projectos e temos confiança que vão ser encontradas soluções no terreno que permitam prosseguir os trabalhos actualmente em curso. Bem como o início dos trabalhos de construção das fábricas de liquefação em Palma e Afungi. Este é um tema que temos vindo a acompanhar com muita atenção juntamente com os operadores, os nossos parceiros de consórcio e as autoridades moçambicanas, com as quais mantemos um diálogo permanente e muito próximo. Esperamos que a situação de tensão
se atenue quando os benefícios económicos do projecto se forem tornando efectivamente mais palpáveis.
Como é que a empresa observa os seus parceiros de consórcio, duas gigantes mundiais como a Exxon, a CNPC ou a ENI e como tem sido a relação com os outros players?
Os projectos de GNL do Rovuma são de uma enorme complexidade com grandes exigências técnicas, financeiras e comerciais. Tenho que destacar o alinhamento claro que existe entre todos os parceiros nas questões fundamentais e estratégicas do projecto. O sucesso de um projecto desta natureza depende muito da qualidade e da robustez das parcerias formadas para a exploração dos recursos. A forte robustez da joint venture da Área 4 é um dos factores que garantem, à partida, o sucesso de tudo isto. Ao todo, são seis empresas com experiências diferentes e complementares fortemente empenhadas na concretização do projecto. O modelo de Dual Operatorship em que a ENI assume o papel de operadora do Upstream e da unidade offshore de FLNG do Projecto Coral, e a ExxonMobil o papel de Operadora do Midstream do projecto RLNG1 em Afungi, permitem optimizar a excelência de
o PosiCioNaMENto Da GalP Na árEa 4 Do rovuMa
Multinacional portuguesa concentra na Área 4 da Bacia do Rovuma grande parte dos seus interesses a médio e longo prazo em Moçambique
2022
Entrega do navio flutuante de produção de GNL
2024
Ano de início de funcionamento das duas unidades terrestres de liquefacção
Coral Sul Mamba
fonte Galp
uma realidade cada vez mais próxima. Em 2022 a área 4 estará operacional
multiplicar as oportunidades de desenvolvimento para todos os que aqui vivem.
Com a dimensão das operações de exploração de recursos, de que forma se pode minorar o impacto junto das populações locais?
"a posição geográfica e um time-to-market favorável que Moçambique oferece proporcionarão alta competitividade em comparação com outros
projectos
de GNl no resto do mundo"
conhecimentos de cada empresa em prol do sucesso do desenvolvimento dos projectos da Área 4. O relacionamento entre os parceiros do consórcio tem-se pautado por uma grande cumplicidade institucional e tem-se alicerçado no aproveitamento das valências e experiência de cada um, o que tem permitido os sucessos já obtidos, nomeadamente a Decisão Final de Investimento (FID) do projecto Coral em Junho de 2017, e a entrega ao Governo do Plano de Desenvolvimento (PoD) do projecto RLMG1, em Afungi, em Julho de 2018.
A GALP opera também em outras áreas desta cadeia de valor, e é visível o crescimento da presença de postos de abastecimento da empresa no país. É para manter este crescimento?
Na sequência de um plano de investimento em curso, alargámos recentemente a nossa rede de postos de abastecimento a todas as províncias do território. Actualmente temos 57 postos de abastecimento e iremos crescer até aos 60, até ao final de 2018, sendo que prevemos, em 2020, chegar aos 70 ou até mais. O plano de expansão da empresa passa ainda pela construção de duas novas bases logísticas
para recepção, armazenagem e expedição de combustíveis líquidos e de GPL nas cidades da Matola e da Beira. Passaremos, desta forma, a contar com quatro bases logísticas no país.
Qual é hoje, o grau de investimento da Galp energia em Moçambique?
O investimento total da Galp em Moçambique chegou aos 450 milhões de dólares nos últimos cinco anos, dos quais mais de 400 milhões foram direccionados para os projetos da Área 4 e o restante na expansão da rede de postos de abastecimento e logística. Os projectos que a empresa tem neste momento em curso no país são de uma envergadura difícil de imaginar, tanto no Coral Sul como naquele que esperamos avançar, em breve, o grande projecto onshore RLNG1 em Afungi, que será quatro vezes maior em termos de produção. Os projectos em que estamos envolvidos fazem parte dos principais investimentos directos estrangeiros em Moçambique, criando milhares de empregos directos e indirectos, sendo por isso um motor de crescimento e de desenvolvimento. Acreditamos que estes investimentos vão transformar a economia e
Desde sempre, temos procurado contribuir para o desenvolvimento social e para que os moçambicanos estejam em condições de beneficiar dos investimentos que a empresa faz em Moçambique. A Galp tem um compromisso com o desenvolvimento sustentável de Moçambique e quer contribuir para uma melhoria efectiva das condições de vida dos moçambicanos, quer através da criação de riqueza para o país, por via da criação de postos de trabalho, quer através de uma abordagem muito diversificada que vai da formação e capacitação profissional até a actividades de responsabilidade social. Temos feito um trabalho estruturante no apoio a empresas nacionais através de programas de intercâmbio e estágios profissionais de colaboradores, tal como acontece com a ENH. Temos tido, desde 2013, quadros da estatal a trabalhar, inicialmente, na área de exploração e produção de petróleo, depois em quase todas as áreas corporativas, partilhando a nossa experiência e know-how em cada uma das áreas. Partilhamos as nossas melhores práticas no sentido de contribuir para capacitar o país para enfrentar, nas melhores condições, as grandes mudanças do futuro. Estamos também a promover activamente projectos sociais e com impacto na comunidade tal como a instalação de painéis solares em quatro localidades nas províncias de Sofala, Manica e Cabo Delgado, para dotar as populações de acesso a energia limpa, através de uma parceria com a FUNAE. A educação, a promoção do talento e a meritocracia são causas que abraçamos e tornámos estratégicas. Nessa medida, estabelecemos uma parceria com a Girl MOVE Academy, no sentido de dar mais oportunidades às mulheres moçambicanas, enquanto principais agentes de desenvolvimento do seu país, através da liderança pelo serviço. Em Outubro, duas jovens moçambicanas fizeram uma formação nos escritórios de Lisboa da Galp através de estágios nas áreas de Marketing e Comunicação e Compliance. A Galp tem o compromisso em adicionar valor ao país.
tExto Pedro Cativelos & Cristina Freire fotoGRAfiA jay Garrido
2019, Quando a televisão vai apagar... se não tiver uma set-top box
O processo da TV digital tem-se arrastado nos últimos anos, mas parece acelerar agora, deixando no entanto um curto espaço de tempo disponível para que as pessoas se ajustem às exigências do novo sistema de distribuição
se um corte de energia é sempre aborrecido, pior será quando nos interrompe o programa favorito de TV. E há um cenário que pode ser ainda pior: quando, mesmo com corrente eléctrica, a TV de repente deixar de emitir sinal porque a ‘licença’ expirou e a reactivação exige custos e uma série de procedimentos. É exactamente isto que vai acontecer em Moçambique dentro de apenas um ano, espera-se. Em Dezembro de 2019, as televisões vão deixar de funcionar da forma como até aqui conhecemos e quase ninguém sabe que pouco tempo resta para
investir em meios digitais que permitam continuar a ter sinal de TV em casa, apesar de a estratégia de migração digital ter agendado a divulgação atempada de toda a informação sobre o processo – mesmo para que as pessoas se preparem para arcar com os custos dessa transição.
Vale a pena questionar se o “alerta” será atempado ou apropriado para que a população, maioritariamente pobre de um país muito a querer sair da crise se possa preparar. Neste sentido, a surpresa não será tanto o “apagão” em si, mas
60
CENTROS EMISSORES
TMT VAI INSTALAR OS CENTROS EM PONTOS DE MAIOR CONCENTRAÇÃO DA POPuLAÇÃO
a frustração por começar a obter informação em tempo insuficiente para comprar os descodificadores que assegurem “inclusão” no acesso à televisão. E é o que parece que vai acontecer se o país completar a migração até Dezembro do próximo ano, conforme as previsões actuais.
As autoridades reconhecem esta falha inicial na comunicação com o público. Mas para o Presidente do Conselho de Administração (PCA) da empresa responsável pelo projecto de transmissão do sinal digital – a Transporte, Multiplexação e Transmissão (TMT), Victor Mbeve, há bons motivos para que ela aconteça: “em 2014 a Comissão para a Implementação da Migração Digital (COMID) tinha iniciado o processo de divulgação da informação e dos seus impactos para conhecimento do público, através de seminários em todas as capitais provinciais, mas essa divulgação ficou interrompida quando o financiamento do projecto conheceu atrasos sucessivos. Só no ano passado o dinheiro finalmente chegou e criou condições para a reactivação da COMID, já em Fevereiro deste ano, substituindo a anterior Comissão que cessou o mandato”, explicou o PCA da TMT. Curioso, é que, entretanto passaram nove meses e o público ainda não está a ser informado. Apesar disso, Victor Mbeve acredita que “se o processo de divulgação começar este ano (conforme o agendado) e for incisivo, até ao próximo ano será possível fazer chegar a toda a gente a informação em torno do processo, podendo precaver as famílias de possíveis perdas de sinal televisivo”.
A única certeza é que “o apagão vai acontecer em todas as TV que não tiverem adquirido um descodificador (também designado por set-top box) e para minimizar as perdas de sinal prevê-se que o Governo conceda prazos para que as famílias comprem os descodificadores (de três a seis meses conforme a dimensão territorial). Findo este prazo, o apagão será inevitável”, avisa a TMT.
descodificadores em défice
Mesmo que a comunicação com o público tivesse sido feita com a devida antecedência, as famílias estariam diante de outro problema: Moçambique importou, até ao momento, apenas 100 mil descodificadores dos 400 mil projectados para a primeira fase da era de televisão digital. Os números sugerem um défice considerável se tomarmos em conta os cerca de 5 milhões
A (já lOngA) hisTóriA dA migrAçãO digiTAl
2010
O tema ganhou destaque, quando o Governo aprovou o padrão de migração a ser adoptado pelo país (DVB-T2), cuja escolha tomou por base a harmonização com a realidade da região austral, além do facto de ser um dos sistemas mais modernos.
2014
Nos anos que se seguiram assistiu-se a uma movimentação intensa, dado o prazo para transitar para o sistema de televisão digital (2015). Assim, foi criada a Comissão Nacional de Migração Digital (COMID), órgão composto por quadros de várias instituições entre as quais o Ministério dos Transportes e Comunicações, o Instituto Nacional das Comunicações de Moçambique (INCM), o Ministério das Finanças, as Telecomunicações de Moçambique (TDM), TVM, RM, STV, cujo foco era o desenho da estratégia de migração.
2015
O dia 17 de Junho de 2015 deveria ter sido o da transição do sinal analógico para o digital, baseado na estratégia que vinha sendo delineada e em que as televisões deixam de ser responsáveis pela transmissão dos conteúdos que produzem, ocupando-se apenas da produção. O conteúdo de todas as empresas de televisão deveria ser entregue à empresa criada para a transmissão para o público, no caso de Moçambique, a TMT.
2019
A nova data para a entrada em vigor do sinal digital de televisão, mais de quatro anos depois do previsto.
de agregados familiares reportados pelo senso populacional do ano passado. Mas é importante sublinhar que ainda não é possível apurar a exacta dimensão do défice de descodificadores por duas razões: primeiro, muitas famílias não têm aparelho de televisão, (ou não têm acesso à rede eléctrica), ou vivem em locais onde o sinal actual não chega. Segundo, os resultados do censo populacional realizado ano passado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) ainda não foram divulgados, e poderiam esclarecer a dimensão do défice dos conversores, já que uma das questões do inquérito era se as famílias possuíam ou não aparelho de televisão
Haverá capacidade de resposta
A estratégia montada para lidar com as insuficiências, numa primeira fase, consistirá em privilegiar as zonas de maior concentração populacional para a colocação dos centros emissores, o que permitirá cobrir até 70% da população. Depois disso iniciar-se-á a distribuição das boxes. E à medida que estas forem sendo adquiridas pela população, a receita servirá para a importação de mais descodificadores para dessa forma ir cobrindo, gradualmente, as necessidades do mercado. A previsão é de cobertura de mais de um milhão de famílias (cinco milhões e meio de pessoas) nos próximos dois anos, acompanhando, igualmente, o ritmo de expansão da rede eléctrica.
boxes low-cost
Estima-se que as boxes de descodificação de sinal digital venham a custar cerca de 20 dólares por cada descodificador (aproximadamente 1 200 meticais ao câmbio actual), um valor que está abaixo do preço praticado noutros mercados. “Entendemos que é um custo que muitas famílias que têm energia eléctrica e que consomem televisão estariam em condições de suportar. Outra vantagem é que, tratando-se de uma rede pública, as pessoas que comprarem o descodificador passam a ter acesso definitivo ao sinal de televisão sem necessidade de pagar qualquer subscrição mensal”, explicou o PCA da TMT.
Se de 2010 até à data limite inicialmente estabelecida (17 de Junho de 2015), Moçambique conheceu atrasos na marcha pela digitalização, hoje a realidade é muito diferente e tudo indica que até Dezembro de 2019 (novo prazo estabelecido pelos países da SADC após falharem em 2015), a migração estará completa.
macro
áfricA EsTá ATrAsAdA nA cOrridA digiTAl
Apenas 16% do território africano concluiu a transição para o digital até 2016, segundo dados da União Internacional de Telecomunicações (ITU). Moçambique faz parte de uma maioria (66%) ainda em transição. Os restantes 18% nem tinham iniciado o processo e terão até 2020 para completarem uma transição que tem dado muito que falar
migrAçãO
Em prOcEssO dE migrAçãO
Até porque, na prática, Moçambique já cumpriu com maior parte das quatro etapas do projecto de migração digital, de acordo com a empresa que o está a implementar.
digital demorou a dar sinal
A primeira etapa diz respeito à construção de uma rede de distribuição composta por 60 centros emissores espalhados pelo país. Desses, já estão concluídos 42 (executados acima de 60%).
A segunda etapa, é a das boxes que, como já referimos, prevê a distribuição de 400 mil aparelhos, estando já disponíveis 100 mil.
E a terceira é a digitalização da Televisão de Moçambique (TVM) que consiste na aquisição de equipamentos para três estúdios centrais e mais de 10 estúdios provinciais para permitir que a TVM possa produzir conteúdos em formato digital. Destes, sete já estão na fase de instalação de equipamentos.
Por fim, a quarta componente baseia-se na construção do edifício de quatro andares na Cidade de Maputo, a partir de onde se vai fazer a distribuição dos conteúdos digitais de todas as estações de televisão para a rede digital que, por sua vez, fará chegar o sinal e os conteúdos às boxes dos utilizadores. O edifício já está executado até ao terceiro piso e prevê-se que seja concluído em breve.
Assim, espera-se que até Dezembro deste ano a rede de transmissão esteja concluída podendo ser activados alguns centros emissores num processo contínuo, que só terminará em Dezembro do próximo ano.
Mas, como se explica então que a migração digital tenha acelerado de um momento para o outro? E que, paradoxalmente, isso tenha acontecido no momento de pior desempenho macroeconómico?
Na realidade, até Abril de 2014 estimava-se em 223 milhões de dólares o custo
MILHÕES DE DÓLARES
É O CuSTO TOTAL DA INSTALAÇÃO DO PROJECTO DE MIGRAÇÃO DIGITAL EM MOÇAMBIQuE. O fINANCIAMENTO DO PROJECTO fOI DISPONIBILIZADO PELO EXIM BANK DA CHINA E JÁ ESTÁ A SER EXECuTADO PELA TMT
Em percentagem
digital está mesmo a chegar. processo vai avançar até 2020, mas já deveria estar concluído desde 2015
de todo o processo de migração digital. Estavam incluídos neste orçamento a componente do edifício e dos 60 centros emissores, falava-se de 1,2 milhões de descodificadores, e além da digitalização da TVM falava-se também da digitalização da Rádio Moçambique (RM). Mas uma reavaliação feita em 2015 pelo Governo baixou consideravelmente os custos do investimento para os actuais 156 milhões, porque cortou itens como a digitalização da RM, e baixou a necessidade de investimento em boxes de 1,2 milhões para 400 mil.
Além disso, os 156 milhões de dólares que ajudarão a garantir o processo de migração foram disponibilizados no ano passado pelo Exim Bank da China. A mobilização destes fundos foi, por muito tempo, tomada como a tarefa mais difícil para a materialização da migração digital. Mas foram conseguidos por meio de um concurso público internacional, que exigia que os concorrentes tivessem
Q&a: o Que traz a migração digital?
Fala-se de vantagens na transmissão nos vários tipos de suportes, tais como cabo, satélite e radiodifusão terrestre, mas quais são elas?
O grande diferencial da TV digital está na capacidade de fornecer aos telespectadores novos serviços que não são possíveis no sistema analógico, com destaque para a gravação de programas que possibilita o armazenamento num disco duro dentro do aparelho para exibição posterior, mesmo quando o espectador estiver a assistir a outro canal, permitirem acesso à Internet, a jogos electrónicos, e facilitarem as comunicações móveis por via de um maior e melhor acesso à rede.
Estas e outras aplicações devemse, principalmente, ao facto de a TV digital proporcionar a interactividade com o espectador, por meio de um canal de retorno, dizem-nos os especialistas.
A desvantagem é que para infelicidade dos países menos avançados tecnologicamente, como Moçambique, onde o acesso à TV é para muitos um luxo, a mudança surge como uma imposição dispendiosa e não uma opção.
condições de os mobilizar. Na altura 20 concorrentes manifestaram interesse, mas foram pré-seleccionadas 6 empresas que apresentaram propostas de financiamento (quatro chinesas, uma italiana e uma das Ilhas Maurícias), tendo ganho a chinesa Startimes, que mobilizou os 156 milhões de dólares no Exim Bank. “Este valor é suficiente para implementar o projecto”, garante Víctor Mbebe.
operadores privados desdobram-se O sucesso do processo não depende apenas dos investimentos na expansão da rede. Há encargos avultados que vêm sendo suportados pelos operadores de televisão em Moçambique como a aquisição de equipamentos modernos, incluindo as câmaras de filmar.
A E&M conhece apenas o investimento da Televisão de Moçambique (pública), que deverá ultrapassar os 40 milhões de dólares. Outros grandes operadores, como a TV Miramar e a STV, preferem
não revelar volume de investimento global, mas garantem “prontidão para a digitalização, visto que fizeram e continuam a fazer grande esforço financeiro que permitiu que actualmente estejam a operar dentro do ambiente digital.” O facto é confirmado pela TMT. Além de não revelar os custos dos investimentos, (nenhuma televisão privada aceitou clarificar e fornecer à E&M os detalhes das acções em curso neste processo), o que dá a entender que há factores de concorrência a salvaguardar.
As televisões de relativamente menor dimensão financeira, como a Televisão Independente de Moçambique (TIM), a Gungu TV e a TV Sucesso, admitem “dificuldades no processo”, mas referem estar a fazer “todos os esforços” e garantem mesmo que “não vão sair do circuito”.
Nesta nova realidade, as televisões são instadas a criar mais canais uma vez que, por exemplo, na Cidade de Maputo, estão a operar 14 canais em sinal analógico e já não é possível abrir mais nenhum canal, porque o espectro está esgotado. Mas, com a televisão digital, a rede da TMT terá capacidade para 60 canais. Ou seja, há espaço que pode ser aproveitado através da criação de mais canais e conteúdos de transmissão.
incertezas ainda são muitas
Além dos investimentos já referidos, na era digital os operadores terão ainda de pagar à TMT pela expansão do sinal.
Esse valor permanece ainda desconhecido e a TMT reconhece que esse facto dificulta a projecção dos investimentos, a planificação do negócio e a previsão de rentabilidade futura. Em resposta, a TNT refere que “ainda não pode revelar qualquer valor, porque suspeita que as estimativas actuais estejam cima da capacidade financeira da maior parte dos operadores”. Ainda assim, anuncia que está a realizar um estudo para averiguar se o valor é adequado à realidade do mercado moçambicano. Assim que esteja concluído, garantem, “a TMT irá convocar uma reunião com os operadores para anunciar o custo.”
Com algumas pontas soltas, a verdade é que a migração está mesmo a chegar e, desta vez, não haverá mais adiamentos, espera-se. Será possível mudar de canal?
InvestImentos doces fazem açúcar subIr
o volume de investimento direccionado, nos últimos cinco anos, à reactivação da indústria açucareira em Moçambique está avaliado em cerca de 800 milhões de dólares, o que fez disparar a produção do sector, de 90 mil toneladas por ano, para perto das 400 mil toneladas previstas para o final deste ano. E tudo num sector que até foi dos mais afectados pelo recente conflito armado em Moçambique, mas que actualmente é responsável por uma receita anual de perto de 50 milhões de dólares, fruto da exportação média anual de cerca de 240 mil toneladas. Para o director executivo da Associação
dos Produtores de Açúcar de Moçambique, João Jeque, esta é “uma evolução resultante do investimento feito nas quatro açucareiras existentes no país”, referindo-se às unidades de processamento de Marromeu e Mafambisse, na província central de Sofala, e da Maragra e Xinavane, na província de Maputo, para onde está também já anunciada a conclusão de mais uma refinaria de açúcar, fruto de um investimento da Tongaat Hulett no valor de 33 milhões de dólares, destinado à construção de mais uma unidade industrial, com capacidade instalada de produção de 90 mil toneladas por ano. 800
milhões de dólares
É o valor acumulado do investimento efectuado, nos últimos cinco anos, no sector do açúcar nas quatro unidades de produção, nomeadamente Marromeu e Mafambisse, na província central de Sofala, e Maragra e Xinavane, na província de Maputo
250 000
toneladas
‘Doce’ oitavo
Açúcar tem lugar no grupo dos maiores produtos de exportação
Em milhões de dólares
AçúcAr
Capacidade instalada de produção de sacarose castanha da Açucareira de Xinavane
47 693 000 de dólares
O valor da exportação de açúcar em 2017, o oitavo maior produto de exportação de Moçambique
É o número de pessoas que, de forma directa, estão ligadas a este subsector agrícola
mil toneladas
Moçambique terá hoje uma capacidade instalada de produção de açúcar calculada em 500 mil toneladas, no entanto a produção ainda não preenche as necessidades do sector industrial, e a meta do meio milhão de toneladas só deve ser atingida em 2020
inDústria cresce…
Produção agro-industrial tem recuperado da quebra nos últimos dois anos
Em milhares de toneladas
Melhoria da produção também é visível nos últimos dois anos
Em milhares de toneladas
(1) Previsão FontE Ministério da Agricultura e Segurança AlimentarDirecção de Economia - Departamento de Estatística … sustentaDa no aumento Da proDução De cana
OPINIÃO
As oportunidades das Fintech
Rogério Samo Gudo • PCA da Escopil Internacional
os sistemas de informação consomem memória, bateria, processador, largura de banda e dados. E agregam e proporcionam valor aos utilizadores, através da informação, objectos virtuais e produtos físicos que são olhados como resultados ou saídas, se os olharmos sob a perspectiva de negócio. O outro tipo de recurso fundamental que está a tornar-se fácil de consumir enquanto input é o dinheiro, o que implica vários constrangimentos no provimento dos serviços financeiros, o que tem contribuído para o surgimento de novas tecnologias: o dinheiro virtual, o machine learning, o cloud computing, as block chain, são tendências reais que tornaram as Fintech numa enorme oportunidade de crescimento no sector financeiro. O dinheiro sempre foi uma ferramenta flexível para transacionar bens e serviços entre pessoas. No início do ano 2000 a interface entre o dinheiro e os computadores, conquistou o seu espaço, apesar de nessa época a regulamentação ser inflexível, exigindo aos engenheiros informáticos que quisessem desenvolver soluções financeiras, que o fizessem através da banca considerada tradicional.
Após a crise financeira, no ano 2008, os reguladores decidiram encontrar uma outra solução para a gestão do risco financeiro, devido à concentração de capitais e também ao facto de a banca ter perdido credibilidade durante a crise financeira, relaxando a regulamentação, para permitir o desenvolvimento de novas soluções para o sistema financeiro, o que daria origem às primeiras startups Fintech.
Este avanço tecnológico com baixos custos de investimento inicial, permitiu o surgimento de soluções de moeda electrónica, constituindo-se deste modo como um oceano azul de oportunidades em API’s para seguros, micro-finanças, crédito, cartões electrónicos, soluções em comércio eletrónico, digitalização bancária, soluções para fundos de pensões, sistemas de pagamento, sistemas de notas fiscais, de compliance, jogos online, mobile money e várias outras soluções financeiras. É importante assegurar que as soluções desenvolvidas tenham, em primeiro lugar, segurança e estejam
em conformidade com a regulamentação em vigor. O enorme desenvolvimento na telefonia móvel permitiu também um avanço em soluções de mobile money, onde os consumidores, cada vez mais, obtêm uma melhor experiência em aplicações desenvolvidas para smatphones, o que gerou ainda maior necessidade de alargar esta experiência para sistemas de pagamento usando este meio, e a uma cada vez mais completa integração de APIs nos telefones móveis, o que estimulou o uso do dinheiro como um dos interfaces no processo de integração entre a banca e os seus consumidores. Por outro lado, a consolidação de sistemas como Facebook, quickBook, Google dot ou slack, também contribuiu para uma variada lista de oportunidades para desenvolver soluções para as Fintech, como por exemplo na captura de dados e na integração com sistemas tradicionais (legacy systems), o que permite que os bancos não tenham de investir ainda mais em big data e desta forma poderem fazer crescer as suas bases de dados através de outros serviços comerciais, com custos baixos. Moçambique, com três operadoras de telefonia móvel, e um universo de mais de 14 milhões de subscritores, constitui um enorme potencial nesta área, sendo que ainda há grandes desafios: o marketing destes serviços e a segurança electrónica de dados, devido ao enorme e constante ataque dos hackers.
A ciber-segurança é um sector inexplorado no mercado moçambicano, o que é, sem dúvida, um enorme desafio para o crescimento das Fintech.
As políticas do Banco Central sobre a inclusão financeira, o surgimento das Fintech e o crescimento da rede móvel, constituem uma enorme oportunidade para a expansão do mercado financeiro no País, sobretudo olhando a uma rápida plataforma de bancarização rural. Para isso, a infra-estrutura da rede móvel deve ser partilhada de modo a reduzir os seus custos de investimento, procurando a melhoria da qualidade dos serviços de comunicação, para que o custo de transacção no consumidor final seja competitivo, permitindo uma rápida inclusão financeira e económica no país.
Este avanço tecnológico, de baixo custo de investimento inicial, permitiu o surgimento de soluções de moeda electrónica, constituindo deste modo um oceano azul de oportunidades. em API’s, para seguros, micro-finanças, crédito, cartões eletrónicos, soluções em comércio electrónico, digitalização bancária, soluções para fundos de pensões e tantas outras
Nação
IdeIas que brIlham
O dinheiro móvel está a transformar a paisagem financeira de África, alavancado por uma percentagem crescente da população com acesso ao telemóvel, e tornando os serviços financeiros mais acessíveis para milhões de africanos. Apesar de ainda distante dos principais mercados de inovação financeira, também em Moçambique, esta verdadeira revolução está em marcha e são já algumas as empresas que se dedicam a criar soluções tecnológicas inovadoras para o sector financeiro.
A E&M visitou a Sandbox, a incubadora de Fintech do Banco de Moçambique, para conhecer quem são e como estão a programar o Futuro
seis em cada dez adultos africanos não têm conta bancária e, em Moçambique, o rácio é ainda mais crítico, chegando aos oito em cada dezena. O que provoca ondas de impacto incalculáveis na saúde financeira do país, na sustentabilidade do crescimento e amadurecimento do próprio sistema financeiro, na vida quotidiana de milhões de cidadãos e na produtividade global da economia. Ao mesmo tempo, a ascensão meteórica do número de subscritores de serviços móveis no continente manteve-se acima dos dois dígitos na primeira metade da década e, mesmo com essa tendência de crescimento a registar um abrandamento nos últimos dois anos, ela deverá, ainda assim, manter-se numa cadência de crescimento anual de 4,8% durante os próximos cinco anos. Mesmo assim, representa mais do dobro em relação à taxa estimada a nível global para o mesmo período, e com índices de penetração
milhões de dólares
Volume de inVestimento feito em fintech africanas, em 2017, mais 53% do que no ano anterior. com a atenção dos grandes inVestidores, espera-se que, até 2023, esse Volume cresça para os 3 mil milhões de dólares
a aumentarem dos 44% no ano passado, para uma estimativa a rondar os 50%, até 2023. A este nível, Moçambique até está acima da média, com cerca de 16 milhões de moçambicanos afiliados numa das três operadoras de rede móvel existentes no mercado.
De acordo com o estudo de 2018 da GSMA Intelligence (empresa especializada em análise ao sector das telecomunicações a nível global), todo este crescimento representa “um mar de oportunidades” de crescimento em praticamente todos os segmentos possíveis e imagináveis, ressalvando, no entanto, os clusters emergentes do futuro, que estão relacionados com juventude, meio rural, educação, saúde e o mercado financeiro e de seguros. Toda esta dinâmica não nasceu agora, mas só nos últimos dois anos, ganhou verdadeira tracção junto dos grandes fundos de investimento, que apostam em África pelas características dos
Nação
O novo edifício do Banco de Moçambique, o lugar onde a inovação acontece. Alguns meses após a sua abertura, a E&M entrou na caixa de quem faz profissão a pensar fora dela
vários mercados, pouco amadurecidos ao nível do sistema bancário quando em comparação com a Europa ou os Estados Unidos, vendo o continente como laboratório de experimentação a este nível. Em 2017, as startups criadoras de tecnologia financeira em África, as chamadas Fintech, arrecadaram mais de 200 milhões de dólares (um crescimento de 53% face ao ano anterior) em investimento. Cerca de 85% desse valor foi direccionado aos mercados da África do Sul, Quénia e Nigéria, de acordo com o relatório ‘Finnovating for Africa’, de 2017. A África do Sul é, de resto, o mercado onde existem hoje mais Fintech (94 empresas, e 31% do total de toda a África), seguido pela da Nigéria com (74) e Quénia (56 empresas), mas é também destacado o papel mercados emergentes com uma “palpitante actividade a este nível”, onde se incluem Gana e Camarões.
Um dos ‘triggers’ de toda esta dinâmica, é a confiança no mercado, conquistada pelos bons desempenhos do mPesa, com um grande impacto no Quénia, do Paga da Nigéria, ou do Zoona da África do Sul. De acordo com uma análise recente do
EcoBank, mais de 57% de todas as contas de dinheiro móvel no mundo estão na África subsaariana, antevendo-se que, por via disso, o mercado “cresça dos actuais 200 milhões de dólares anuais de investimento angariado, para os 3 mil milhões, até ao início da década.”
admirável mundo novo É desta forma que se vão desenhando linhas de código nas pontas dos dedos de uma nova geração de jovens empreendedores africanos, programadores de soluções digitais para os problemas reais de todo um continente. É essa, aliás, a génese do próprio conceito de Fintech, um termo que surge da combinação das palavras ‘financial’ e ‘technology’, com o fito de criar facilidade e conectividade.
A esse nível, vários estudos indicam que o principal foco tendencial da criação de soluções, passa por criar novas formas de pagamento, depois pelas transferências nacionais e internacionais, havendo também Fintech que estão a encontrar novos caminhos de acesso ao crédito e a seguros, no auxílio das finanças pessoais, e utilização de blockchain,
e que têm alcançado o sucesso na obtenção de financiamento. Ainda nessa tendência, o mais recente relatório trimestral da KPMG, Pulse of Fintech, constatava que, no quarto trimestre de 2017, os investidores globais continuavam a priorizar investimentos em empresas de Fintech no mercado B2B, incluindo plataformas de pagamentos, de empréstimos para PME e soluções de software para tornar as operações de back office mais eficientes e menos onerosas para o cliente”, pode ler-se.
sandbox, a caixa fora da caixa Assim, inovações financeiras, combinadas com uma elevada taxa de penetração de dispositivos móveis, estão a permitir que milhões de africanos, actualmente sem acesso à banca, tenham acesso a uma plataforma de serviços financeiros pela primeira vez, algo que colocou a África Subsaariana na vanguarda dos serviços bancários móveis. Toda esta mudança não tem passado ao lado de Moçambique onde, embora a uma escala ainda reduzida, começa a desenhar-se o princípio de um ecossistema financeiro inovativo. E logo no coração do sistema, no Banco de Moçambique. Ali, funciona desde Maio passado, e com o apoio da FSD Moç (um programa financiado pelo DFID-Departamento para o Desenvolvimento Internacional do Reino Unido), a Sandbox, uma incubadora regulatória para Fintech, onde se juntam os criadores de soluções inovadoras e os reguladores e players nacionais, do governo aos bancos e seguradoras. Esselina Macome, que lidera a FSD Moç, depois de uma década na administração do Banco de Moçambique, explica a importância da aposta nestas novas empresas, exaltando “a sua relevância na dinamização do sistema financeiro, algo que vai ao encontro dos esforços da FSD, que passam por, nos próximos anos, fazer aumentar consideravelmente os níveis de literacia financeira, mas também a ampliação da rede de serviços e de abrangência bancária, para níveis perto dos 50% da população moçambicana. Nesse sentido, estas startup que desenvolvem soluções inovadoras serão decisivas nesse processo.” Alguns meses após a sua abertura, a E&M entrou na ‘caixa’ de quem faz profissão a pensar fora dela. O programa do BM já conta com cinco Fintech, procurando trabalhar com elas, através da cedência do espaço, cooperando nos processos de licenciamento, mas também tentando entender a melhor forma de lidar com
Sandbox funciona num dos edifícios do complexo do Banco de Moçambique, desde Maio passado
as finteCh no merCado
Para além da Sandbox, que funciona no Banco de Moçambique e onde estão actualmente cinco empresas, há algumas outras startup que começam a surgir, aproveitando um ecossistema inovativo que tem vindo a ser cultivado por iniciativas como a ideiaLab, o Orange corner, ou a incubadora do Standard Bank, e concursos como o Seedstars, um concurso internacional de ideias criativas
É uma startup moçambicana que desenvolve aplicações direccionadas para os mercados financeiros, saúde e educação criada por tauanda chare, venceu a 3ª edição do SeedStars, com um serviço designado Móvelcare, que facilita acesso a seguros via telemóvel.
A OLOGA nasceu como Fintech em 2010, mas evoluiu para outros campos, e recentemente foi distinguida pela União internacional de telecomunicações (Uit ) pela criação de uma aplicação de gestão de informação estatística em tempo real.
É uma plataforma de transferências instantâneas via código SSiD, do exterior para Moçambique, para a conta bancária ou carteira móvel.
esta Fintech nacional propõe uma solução agregadora de serviços de recebimento e pagamento, e congrega no seu aplicativo as várias contas de bancos ou carteira móvel, facilitanto utilização e minimizando custos e taxas de transacção.
esta startup moçambicana desenhou um sistema capaz de agregar pagamentos em todas as carteiras móveis através de um só user account, sem ser necessário ter conta no mPesa, mKesh ou no e-mola.
É uma app ao estilo ‘Uber made in Moçambique’, que permite localizar taxis e txopelas associados à aplicação de forma simples, rápida, permitindo o pagamento através da própria app. Uma das Fintech africanas que mais tem crescido nos últimos anos, e que tem interesse em Moçambique. Originária da Zâmbia, o plano de negócio- é simples: criar um ecossistema de pagamentos digitais, um pouco à imagem do mPesa, mas mais virado para a população rural.
Como a banCa olha as finteCh
Global Fintech Report, um estudo global da consultora PWc mostra como a banca convencional se está a abrir para este novo mundo das startup na área financeira, numa perspectiva de parceria e com cada vez menos desconfiança
dos operadores de banca convencional esperam aumentar parcerias com num peíoso de cinco anos. 82%
esperam adoptar sistemas de blockchain como parte de processos de produção até 2020. 77%
consideram armazenamento de dados, privacidade e protecção como barreira 54%
das grandes instituições financeiras estão a investir em soluções de inteligência Artificial 30%
Nação
o
áreas ainda não cobertas pela regulação existente. Este é, de resto o primeiro obstáculo a todos os que estão nesta ampla sala. “É uma iniciativa positiva, um primeiro passo para agir sobre a lei dos prestadores de serviços de pagamentos. Actualmente, no nosso sistema, há os bancos e emissores de moeda electrónica, mas pelo meio não há nada. Estas Fintech não pretendem captar depósito ou emitir moeda electrónica, focando-se na criação de serviços de pagamentos a custos baixos, num conceito de agregação de serviço. Creio que todos estamos a aprender como nos relacionarmos da melhor forma e o que podemos tirar de tudo isto”, começa por dizer à E&M, João Gaspar, um dos implementadores da rede SIMO no país, no início da década e actual CEO e fundador da Paytek, empresa que disponibiliza um software de agregação de serviços de pagamento entre bancos e carteiras móveis. O caminho parece, assim, ser longo, até que estas soluções abandonem a fase piloto em que se encontram e fiquem disponíveis no mercado. Para lá da legislação, há questões a melhorar, como a interoperabilidade entre os vários players do mercado, a segu-
a suscitar o interesse de grandes investidores de todo o mundo que, buscam em África, a próxima disrupção
OS SEgMEntOS QuE SErãO ‘tOMAdOS’ PElAS FintEch
De um universo de mais de 300 Fintech que actualmente existem em África, a maioria está a criar novas soluções para a área de pagamentos que é, de longe a mais palpitante neste novo segmento. Mas há outras, como as transfências, as finanças pessoais e o crédito
em percentagem da criação de serviços
pagamentos
transferências
finanças pessoais
crédito pessoal
poupança
seguros
saúde
rança electrónica e o acesso à rede SIMO. “Esses são os passos a dar para uma explosão da utilização de serviços financeiros. O que só não acontece devido a dois grandes entraves: a falta de interoperabilidade e os custos de transacção. Um ou dois meticais podem ser um factor decisivo para o cliente. E estas Fintech, pela dimensão que têm, tornam-se competitivas a esse nível. É o caso da Paytek, cujo modelo de negócio assenta nesse custo reduzido cobrado ao cliente. O cliente paga Credelec, ou uma recarga de telemóvel, e eu ainda lhe consigo dar um desconto. Mas, refiro que terá de haver uma série de mudanças na legislação que rege o sistema bancário e estou confiante que isso aconteça até ao final do ano.” mudar o sistema
A existência de um princípio de ecossistema de inovação tecnológica na área financeira, e a recente visita a Durban promovida pelo Instituto Nacional das Comunicações, para o concurso global da ITC serviu de mote para juntar os principais agentes deste mercado e começar fazer face a estas questões. Nesta altura, estão a ser dados os primeiros passos no sentido de criar uma associação que
Sucesso de Fintech pioneiras como
mPesa, no Quénia, está
Nação
Parece assim abrir-se um novo caminho no qual, ancorados na expansão massiva das telecomunicações, dinheiro real e digital irão inevitavelmente ter de percorrer lado a lado
lhes permita ganhar ‘músculo negocial’ no mundo financeiro, existindo já um esboco da futura Associação das Fintech de Moçambique, ou a ‘Fintech MZ’. João Gaspar, explica: “Existe a necessidade de as empresas terem uma voz mais activa junto das entidades reguladoras do sector financeiro e de seguros. A ideia é que, eventualmente, os emissores de moeda electrónica, (mPesa, mKesh e e-Mola) possam associar-se à Fintech.mz, até por essa questão de facilitar a interoperabilidade. Depois, a questão da segurança é também fundamental, e seria ideal a criação de um grupo CERT (Computer Emergence Response Team) onde os operadores de moeda electrónica têm necessidades concretas e devem estar coligados na resposta a estas ameaças que se colocam hoje em dia, um pouco à imagem do que já acontece com a banca.” Quando se entra na Sandbox, a impressão que se tem é a de um espaço moderno, bem cuidado (onde a internet precisaria de ser mais rápida, ainda assim), um open space onde, por enquanto, só estão cinco
empresas. Mas, há espaço para mais. Um dos segmentos mais fortemente ali representado é o das remessas externas (muito utilizadas pelos mineiros moçambicanos na África do Sul, por exemplo) em que a Mukuru e a Zoona (duas Fintech internacionais que viram na Sandbox uma oportunidade de alargar os seus serviços para Moçambique) apresentam um sistema de transferências que, de forma fácil, barata e segura, permitem aos moçambicanos residentes no estrangeiro transferir dinheiro para a família não bancarizada no país.
O futuro agora?
Depois, a Ekutiva que, devido às inúmeras restrições de movimentação de capitais, decidiu desenvolver um sistema similar ao PayPal, mas usando o metical. E a Robobo, uma startup criada por Fei Manheche, engenheiro electrotécnico que, depois de estudar Internet of Things (IOT) em Londres, regressou a Moçambique para “fazer algo pelo país”. Decidiu criar a própria empresa de
tecnologia, lançando um sistema de pagamentos digitais e monetários, desenhado, numa primeira fase, para o comércio. “A ideia é que o comerciante tenha uma conta Pagalu na qual pode receber pagamentos de qualquer carteira móvel, sem necessidade de ter uma conta em todas elas, e agregando também a sua própria conta bancária, podendo movimentar fundos entre elas. Ou seja, juntar numa só conta todos os métodos de pagamento existentes e tendo de desembolsar uma pequena comissão de 0,5% sobre cada transacção. Estamos na fase de licenciamento para aceder à rede SIMO e numa ronda de apresentações aos operadores de carteira móvel pois tem de haver interoperabilidade para que tudo isto aconteça”, conta. Entretanto, lá fora, a bola de neve vai crescendo e, muitas destas tecnologias, começam a ser adoptadas em operações de trade finance e no mercado de capitais, o que tem permitido à própria banca oferecer melhores serviços, com redução de tempo de transacção e a custos mais reduzidos para os seus clientes. Parece assim abrir-se um caminho em que, ancorados na expansão das telecomunicações, dinheiro real e digital irão ter de percorrer lado a lado. E isso já começou a acontecer, e de formas pouco expectáceis até. Em 2017, a Orange, maior operadora móvel de França, lançou o Orange Bank, após ter adquirido 65% do capital do Groupama Bank (banca e seguros) lançando um banco com uma estratégia ancorada em dois vectores: mobilidade total e transacções sem custo. Cá dentro, para já, a banca e a telefonia móvel começaram por ser ‘desconhecidos’ em ramos de actividade diferentes, mas hoje, começam a surgir parcerias. Através da criação de produtos integrados para favorecer mais clientes (o BCI com o mPesa ou o Barclays com o mKesh, entre outros exemplos) ou adoptando nos seus portefolios, algumas soluções inovadoras que as Fintech vão lançando. Rogério Lam, director de marketing do BCI, falava recentemente sobre “as oportunidades da utilização destas tecnologias ao serviço da banca, para melhor servir os utilizadores”, e não esquecia ser esta “uma grande oportunidade para técnicos, profissionais e empresas de IT apresentarem soluções à banca.”
Se o futuro é agora, ele está a bater à porta.
textO Pedro Cativelos
Jay Garrido, istoCk Photos
Mais de 57% de todas as contas de dinheiro móvel no mundo estão na África subsaariana
“Fintech têm um longo
caminho a percorrer, mas serão essenciais”
mulweli rebelo
Director-Geral da Ologa Systems
no mercado desde 2010, a Ologa (significa falar, em Chuabo, dialecto do centro de Moçambique) nasceu como Fintech, para fazer a gestão dos sistemas de informação dos balcões do Banco Terra. Com o tempo, evoluiu enquanto tecnológica, e entrou em novos segmentos.
Com participação accionista da Gapi-Si, criou, ao longo dos anos, soluções digitais que foram sendo premiadas. Casos da SureTrack, que tem como parceiros o Ministério do Género, Criança e Acção Social, a USAID, ou a World Vision, e que lhe valeu o reconhecimento enquanto empresa mais inovadora de Moçambique, no concurso “100 Melhores PME de Moçambique”, tendo sido finalista da African Entrepreneurship Award, através desta solução para o sector da saúde, que faz o rastreamento de pacientes na pediatria do Hospital Central de Maputo. Mas, terá sido em Setembro passado, que terá atingido um dos pontos mais altos da sua história, quando a União
Internacional das Telecomunicações (ITU na sigla em inglês), a agência da OnU responsável pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) a considerou “uma das três PME com maior potencial de expansão ao nível mundial”, juntamente com Talamus Health dos EUA (vencedora da categoria) e Dropque, da nigéria. Este reconhecimento foi alcançado durante a realização da 4ª edição do ITU – Telecom World Awards, que decorreu em Durban, e para o qual concorreram mais de 200 empresas de todo o mundo (e 12 outras startup e Fintech moçambicanas).
À E&M, Mulweli rebelo, fundador e director-geral da empresa, lança um olhar sobre o que é hoje o panorama da inovação em Moçambique, e recorda o passado em que, depois de ter regressado ao país em 2010 (estudou e formou-se na África do Sul), se focou “na criação de um elo entre o desenvolvimento e a tradição, como forma de chegar a um novo progresso.”
VEjO GrAnDE POTEnCIAl nOS
SErVIçOS SOCIAIS E DE SAúDE nAS
FInTECH TAMBéM, MAS é UM MErCADO EM qUE O VOlUME DE TrAnSACçõES E nEGóCIOS
AInDA é MínIMO
O que é, hoje, a Ologa? é uma empresa do ramo das TIC, que inicialmente surge no mercado, em 2010, com o objectivo de dar suporte à GAPI na expansão de serviços financeiros para as zonas rurais, em particular os projectos de micro bancos rurais que a GAPI detém. Desenhámos a infraestrutura informática (comunicações e software de gestão financeira de microcrédito). Montámos o primeiro projecto em Sena, na província de Sofala, o segundo em Inhambane, mais dois em niassa e outro ainda em Maputo. Um dos maiores problemas que tínhamos na altura era com as comunicações, porque é possível fazer um suporte remoto, mas tem que haver uma ligação de internet mínima. Então, encontrámos soluções via satélite relativamente a baixos custos e começamos a disponibilizá-la, e esse tornou-se num dos nossos maiores negócios. Hoje, continuamos com os micro-bancos, e a dar suporte de internet via satélite.
EM 2016 COMEçÁMOS A TrABAlHAr COM A FHI360 E DESEnVOlVEMOS UM SOFTWArE qUE rEGISTA E AGrEGA InFOrMAçãO SOBrE AS COMUnIDADES EM TEMPO rEAl
Um desses projectos, o mais recente, o FHI360 foi premiado num evento internacional, em Durban. De que se trata?
Em 2015, começámos a produzir software localmente, em parceria com uma empresa sul-africana, mas acabámos por seguir sozinhos nesse caminho. E nesse âmbito temos dois projectos. O desenvolvimento do registo médico electrónico para o Hospital Central de Maputo com o foco na pediatria, e em 2016, começámos a trabalhar com uma OnG chamada FHI360, financiada pela USAID em que temos o acompanhamento da Unicef, do Ministério do Género, Criança e Acção Social e da jICA (agência de investimento do japão). Assim, esse software regista em tempo real, informação sobre os agregados familiares (localização, telefone, quem é o chefe da família), a informação individual de cada beneficiário e agrega a
análise de cada beneficiário no âmbito da saúde, educação, alimentação. Com base nisso, por exemplo, na saúde, ficamos a saber pormenores importantes como se os indivíduos consomem água devidamente tratada, se dispõem de redes mosquiteiras, e outras mais gerais, relacionadas com o seu estado geral de saúde. Usamos sete perguntas pré-definidas pelo Ministério e com base nas prioridades que se identificam, cria-se posteriormente um plano de acção direcionado. O que o software faz é todo esse registo, permitindo algo muito escasso em Moçambique, dados rigorosos e quase em tempo real sobre uma determinada realidade sobre a qual é preciso actuar.
Em que fase de implementação está este projecto?
O FHI360 é um sistema com probabilidades de expansão e com maior potencial de
capturados directamente no telefone sem ter que passar pelo papel. E estamos a pensar já na fase seguinte, que é desenvolver um módulo do programa completamente direcionado para OnG’s, em que podem utilizar gratuitamente as funcionalidades básicas do software até aos 300 beneficiários, e só se pretenderem evoluir para uma escala mais abrangente terão de pagar.
E é ai que se vai buscar receita?
Sim. Porque não cobramos pelo uso do software mas sim pela sua customização. é dessa forma que ele tem evoluído e irá fazê-lo ainda mais de acordo com as aplicações que lhe forem sendo adicionadas de acordo com as necessidades de quem o irá utilizar.
escalabilidade, porque aplicamos uma metodologia desenhada pela USAID e que é usada em muitos dos projectos que apoiam crianças órfãs e vulneráveis a nível mundial. Então, digitalizámos uma ferramenta que era utilizada em papel, com todo o potencial que isto implica. nesta altura está em funcionamento já. na base de dados já temos mais de 200 mil beneficiários só no projecto FHI360 e vamos, em novembro e Dezembro, fazer um ‘piloto’ com a Unicef e o Ministério para enquadrar as necessidades do país, noutras áreas, de acordo com todo o potencial do software. A ideia é que, devido à sua adaptabilidade, ele seja usado como base para comandar a gestão de casos de monitoria e avaliação de políticas de saúde.
O funcionamento está na fase mobile já?
Estamos a fazer essa transição para que os dados possam ser
Após o prémio, que reacções lhe chegaram? logo de seguida, conseguimos um programa ‘piloto’ na África do Sul em que já estamos a trabalhar. na cidade de quelimane vamos conseguir avançar com um outro projecto com o município local, e há outras coisas que aconteceram, e que estamos a estudar. Engraçado que estávamos à procura de financiamentos para conseguir fazer a expansão dos nossos serviços, mas agora, já não estamos muito preocupados com essa componente. Estamos mais preocupados em conseguir os projectos, porque serão esses que vão financiar o reinvestimento na melhoria do software, tornando-o ainda mais seguro e fiável.
Quem é que desenha, cria, ou programa, será mais correcto dizer, os vossos softwares?
São jovens moçambicanos? no início trabalhávamos com software developers sul-africanos. no entant começam a aparecer inúmeros jovens excepcionais que surgem nas universidades, alguns são auto-didactas até, e que percebem imenso desta área.
As 13 startup moçambicanas na 4ª edição do ITU – Telecom World Awards, em Durban, na qual a Ologa foi distinguida
Terá sido este abrandamento económico dos últimos anos, um dos catalizadores para aquilo a que assistimos, e se fale crescentemente de empreendedorismo, de startup e Fintech em Moçambique?
Sem dúvida. no entanto, é difícil ganhar escala com as startup, particularmente em Moçambique. porque o mercado e o poder de compra são reduzidos. Ou as startupscrescem ganhando algum prémio ou reconhecimento, que lhes traz capital, ou têm dinheiro dos accionistas para poderem crescer. A Ologa é um exemplo disso, teve apoio financeiro (da Gapi-SI como acionista), mas também ganhou prémios que lhe trouxeram credibilidade. Mas ainda estamos muito longe de alcançarmos sucesso em termos financeiros, embora já tenhamos conquistado nome. Em relação às Fintech, o problema é um pouco mais complexo, porque dependem inteiramente do regulador que é o Banco Central, e nem sempre, estas entidades entendem o papel de mudança que as startup financeiras podem ter no mercado. no entanto, o BM está mais proactivo e parece ter entendido o papel que as tecnologias podem ter na expansão dos serviços financeiros por toda a população.
Em que segmento as startup terão mais potencial, ou caminho, para crescerem? Vejo grande potencial nos serviços sociais e de saúde. nas Fintech também, mas é um mercado em que o volume de transacções e negócios ainda é mínimo. O mPesa ou o Mkesh são Fintech e mesmo estas estão a batalhar para conseguir volume, porque não estamos no quénia onde há literacia informática e toda a gente usa smartphones. Por aqui ainda há muitos desafios. Agora, eu vejo potencial nisto para o desenvolvimento rural, com projectos
como os da Gapi, por exemplo, e para a área de seguros, que também farão parte da evolução futura das Fintech.
Daí a necessidade de criar uma Associação Moçambicana de Fintech? Havendo um movimento nesse sentido, agora é preciso que ele tenha uma voz comum, no sentido de falar com o regulador para criar enquadramentos legais, com as grandes Fintech (mPesa, Mkesh e e-Mola) sobre questões de inter-operabilidade e formas de reduzir custos altos de transacções electrónicas entre diferentes operadores, ou mesmo questões de segurança contra fraudes. Tudo isto fica mais fácil através de uma associação.
A grande questão, não só em Moçambique, continua a ser a sustentabilidade destas empresas, ou a forma de monetizar a inovação, é isso? Para Moçambique, em particular, é bastante complexo conseguir a sustentabilidade destes projectos. é algo sempre emotivo, porque são encabeçadas por jovens que ainda não têm famílias por sustentar. A UX por exemplo, ganha muitos prémios e mesmo assim tem de expandir para outros mercados onde, aí sim, conseguirá a sustentabilidade. Mesmo nós, financiamos este projecto graças aos doadores, porque o mercado é ainda muito pequeno. Acredito que Moçambique pode tirar grandes vantagens da exportação de serviços de software porque somos relativamente baratos em relação a outros mercados, temos ligações internet de fibra e um enorme potencial de montar data centres movidos a gás que terão custos relativamente baixos.
TExTo Pedro Cativelos & Hermenegildo langa FoTograFIa Jay garrido
província
ZambéZia, a província do chá
Na província onde o primeiro sonho de qualquer jovem é ter uma bicicleta, o tempo passado é de chá.
Mas há novos ventos a chegar na economia de uma das províncias mais tradicionais de Moçambique
é comum dizer-se que, na zambézia, a pobreza que impera faz do povo da região mais criativo na busca de saídas. Por exemplo: é uma brincadeira comum da região, dizer-se que “no dia em que se mandarem embora os quelimaneses, na capital do país, não haverá mais alguém a vender recargas de crédito de telemóvel”, um estereótipo, que, no fundo, caracteriza o lado mais adaptável e sobrevivente das gentes da Zambézia.
Deixando a sociologia e focando o olhar no que é hoje a Província, a nível económico, ali existem actividades que, embora ao longo dos anos tenham perdido fôlego, continuam a ser importantes. De acordo com o Graciano Francisco, director provincial da Economia e Finanças da Zambézia, a economia da Província tem tido “uma tendência de crescimento nos últimos quatro anos”, facto relevado pela comparticipação no Produto Interno Bruto (PIB) nacional, “que denota crescimento, e está na ordem de 9,2%”, diz o responsável.
Mas, que actividades são essas? Pela Zambézia, a tradição tem um peso grande. E são as mesmas de sempre. A agricultura, nomeadamente produção de chá, copra (polpa seca de coco), algodão, arroz e gergelim. Aliás, foram estas, as produções (especialmente o chá e a copra) que fizeram no passado com que a Província da Zambézia merecesse um lugar destacado no mercado interno que, no entanto, foi perdendo, com a quebra de produção e produtividade destas culturas. Por agora, há um sonho do governo da
capital Quelimane
área 105 008 km² população 5 110 787 região Centro província ZambéZia
Zambézia em tentar revitalizar estas culturas. E o Plano Económico e Social (PES) aprovado recentemente para 2019 já coloca o foco nestas culturas de rendimento. De acordo com o executivo provincial, o objectivo do PES de 2019, “é atrair os investidores nacionais e estrangeiros para apostar no desenvolvimento destas culturas afim de estimular uma maior contribuição para o crescimento e desenvolvimento da economia local.”
E alguns desses novos ares, já se fazem notar. Nesta altura, estão já aprovados 15 novos projectos de investimento, todos concentrados na agricultura e na indústria de agro-processamento.
“Queremos estimular a área de agro-negócio onde a Província da Zambézia tem enorme potencial, principalmente nos distritos do Gurué, Ile e Mocuba”, considera director provincial da Economia e Finanças. O objectivo da aprovação desses projectos, prossegue, “passa por recolocar esses distritos em pólos de desenvolvimento da Província, tentando potenciar cada vez mais as culturas alimentares e de rendimento, entre elas, a soja, gergelim, arroz, feijão bóer, chá e macadâmia.”
E esses investimentos já estão a dar frutos, o que no caso, pode ser levado de forma literal, com a ampliação da área total de cultivo na Província a crescer em 15 mil hectares, dedicados à produção de oleaginosas como soja, gergelim, girassol, milho e feijão. “São investimentos que a nível provincial se fixaram na ordem de 102,6 milhões de dólares face aos 22,2 milhões que se haviam registado no ano anterior”, aponta o mesmo responsável.
produção do chá tenta reerguer-se A Província de Zambézia é reconhecida cimo a terra do chá em Moçambique, mas hoje, já não se ouve falar tanto do Chá Gurué ou mesmo do Chá Licungo, marcas... que se tornaram marcantes na forma de representação local, nacional e internacional de uma Província que parece ter parado no tempo, durante anos. Perfilhando esta posição, um estudo feito pelo IESE no ano passado, aponta que “em Moçambique, a agro-indústria do chá foi uma das principais fontes de emprego na zona da alta Zambézia até princípios dos anos 1980, empregando, nos períodos de pico, pouco mais de 30 000 trabalhadores, a maioria dos quais sazonais”. No entanto, das 11 unidades fabris de processamento que existiam há algumas décadas, restam apenas quatro ainda em operação e a indústria 102,6
milhões de dólares
Volume de inVestimento priVado registado na proVíncia da ZambéZia, e que será, na sua grande maioria destinado a 15 noVos projectos na área do agro-negócio. no ano transacto, esse Volume ficou-se pelos 22,2 milhões de dólares
consegue apenas empregar cerca de 10% desse volume, pouco mais de 3 000 trabalhadores nos períodos do pico.
A Chazeiras de Moçambique é neste momento uma das principais produtoras de chá do país, exportando pouco mais de 1 200 toneladas ao ano, num segmento que, em tempos, era trabalhado pelos portugueses, sendo hoje gerido por empresários indianos, que tentam recolocar esta cultura no topo de produção a nível nacional. Mas, ainda é preciso fazer uma grande ginástica.
Ainda assim, depois de um longo período de quebra na produção de folha de chá (38 mil toneladas na última época, de acordo com o INE), em 2017, o valor de receita gerada pelas exportações de chá proveniente da Chazeiras de Moçambique, a maior da região e uma das poucas que ainda conseguem sobreviver na área de cultivo, processamento e comercialização do chá em Moçambique, situou-se em 1,6 milhões dólares. Uma receita escassa que, no entanto não faz baixar as expectativas para o que aí vem. “A demanda do consumo de chá no mercado doméstico e no internacional é crescente de ano para ano. Para o final desta época prevemos um incremento nos preços do chá a nível internacional na ordem de 10 a 15 por cento devido à baixa de produção nos países que se evidenciam como grandes produtores de chá, designadamente Índia e Quénia”, assinala um responsável da empresa que, no entanto, lamenta a incapacidade de fazer crescer a produção, por limitações de recursos, “que vão
das plantas serem já antigas, e das áreas de cultivo não terem sido aumentadas.” O governo provincial tem noção deste problema. A procura até existe, mas a oferta não está a corresponder. “O que temos feito agora, é apoiar este sector visto que as plantas em si já estão cansadas, e precisam de uma revitalização. E isso, já está a acontecer com as empresas que operam nesta área”, explica Graciano Francisco.
Com a falta de crescimento dos níveis de produção do chá e da copra, a economia da Zambézia perdeu oportunidades sucessivas para crescer, ancorada nas culturas que suportaram durante décadas toda a economia da Província.
De acordo com o administrador do distrito do Gurué, Costa Chirembue, ao longo de cadeia de valor do chá, desde a produção até ao processamento, a actividade “tem gerado emprego, e continua a ser a fonte subsistência para as milhares de famílias. No entanto, o ciclo da maior parte das plantas do chá já está quase no seu fim, algumas delas têm mais de 70 anos, e agora, começa uma corrida contra o tempo para a sua revitalização. São plantações de longa data, e algumas já começam a ressentir-se do tempo, perderam a sua capacidade produtiva”, sublinha Costa Chirembue.
Se há anos a produção do Chá da Zambézia tinha como foco, abastecer o mercado interno, nesta fase de reinvenção de todo um segmento produtivo, a prioridade inverteu-se e é a exportação que vai fazer alavancar o cultivo e produção de folha de chá. E isso já está a acontecer, de acordo com o director provincial da Economia e Finanças da Zambézia, que assinala o facto de “actualmente, cerca de 95% da produção total” já ser destinada à exportação, tendo como principais destinos Europa, Estados Unidos de América e Ásia, os maiores mercados consumidores de chá nacional.
novos caminhos
No entanto, Gurué não é apenas terra de chá sendo até, neste mesmo, um dos distritos onde mais tem crescido a produção de uma noz nutritiva e importante para a saúde humana, a macadâmia, cuja produção subsituiu (em muitos casos) a cultura da folha de chá, pela sua elevada taxa de rentabilidade. Usada na produção de cosméticos e produtos alimentares, apesar de ser uma cultura recente no país, vem conquistando, pouco a pouco, espaço naquela vila montanhosa da Província da Zambézia.
província
Hoje, a soja (acompanhada de tabaco, chá, algodão, castanha de caju, milho e feijão bóer) tornou-se uma das principais culturas de rendimento da Província, mas há ainda muito por fazer
Uma cultura relativamente recente, que só ganhou verdadeira expressão em Moçambique a partir de 2012, mas que, leva o governo zambeziano a não hesitar em afirmar que, “o seu impacto é já visível na economia da Província.” E segundo o administrador do distrito do Gurué, o crescimento é forte, anuindo aos 800 mil dólares que, ainda recentemente, foram adjudicados para fazer crescer a área de plantio (mais de três mil hectares). “Já estamos a passar daquela fase de instalação do investimento para a fase de produção propriamente dita”, sublinha. “Esperamos atingir as 200 toneladas de produção da macadâmia em 2020, e a partir de 2021, produzir perto de duas mil toneladas por época”, aponta o governo local.
O maior desafio para já, é agregar mais volume de hectares para a produção da matéria-prima, sendo que, prossegue, “para o bom desempenho da agricultura é preciso melhorar cada vez mais a rede eléctrica e as vias de acesso”.
Outra das imagens que temos da Zambézia, são as florestas de palmeira (palmares de coco) e que, mais do que pai-
sagem, eram uma importante fonte de riqueza. Com o tempo, as doenças (amarelecimento letal) e o abandono, afectaram a floresta, apesar dos vários projectos que foram sendo desenhados (nem todos implementados) para revitalizar os palmares da Zambézia.
Desde que os palmares da Província foram fustigados pelo amarelecimento letal, a Zambézia que até detinha o epíteto de “baía dos cocos”, a produção caiu a pique. As extensas filas de coqueiros nesta Província foram suficientes para Moçambique ostentar o estatuto de ‘maior palmar do mundo’ que chegou a deter, em meados do século passado, estatuto este que há muito já se perdeu, e que hoje é ostentado pelas Filipinas. Entretanto, parece haver a vontade de investir neste segmento, mas será preciso mais do que isso. Até porque os resultados disso, não tardariam a surgir, uma vez que o coqueiro é, sem dúvida, uma ‘árvore da vida’, que dá tudo, desde a casca utilizada para carvão ecológico, às folhas, do fruto ao tronco, passando pelas fibras e óleos essenciais, com utilizações na cosmética e na alimentação, muito
procurados nos mercados desenvolvidos. Instado pela E&M, o governo local mostra-se, igualmente atento a esta questão, e refere estar “numa fase da busca de investimentos”, assinala. “Há um estudo que o governo fez para revitalizar a cadeia de valor do coco, e estamos optimistas para que, que em breve, a Zambézia poderá voltar a ostentar o título de ‘rei dos palmares’ no país.”
Actualmente, o palmar na Província da Zambézia, reduziu para menos da metade comparando com o efectivo que existia há quatro décadas. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), nesse período, Zambézia produzia entre 50 a 60 mil toneladas, sendo que hoje, produção reduziu radicalmente para valores igualmente abaixo da metade.
De acordo com o director provincial de Agricultura e Segurança Alimentar da Zambézia, Jabula Zibia, passa pela agricultura, o futuro económico da Província, sendo que o sector é responsável por empregar mais de 80% da força de trabalho. “A produção do chá, arroz e soja tem envolvido muita mão-de-obra, e agora temos também a macadâmia”, enfatiza Jabula Zibia.
A soja é, de resto, outra das culturas que tem crescido, e feito aumentar a receita da Província. Zibia diz mesmo que, nos últimos anos, foram injectados para esta cultura, investimentos de grande vulto, sobretudo oriundos do estrangeiro. “Actualmente estão aqui operar na soja, algumas das grandes empresas agrícolas, e estão a ocupar milhares de hectares de terra e a empregar uma mão-de-obra considerável nos períodos de pico da campanha agrícola. Para além da soja, estas empresas, também se têm dedicado ao desenvolvimento de culturas de rendimento como o feijão, o milho e o gergelim”, reitera.
Hoje, a soja (acompanhada de tabaco, chá, algodão, castanha de caju, milho e feijão bóer) tornou-se as principais culturas de rendimento na Província e a sua cadeia de produção envolve todo de tipo de agricultor, desde o familiar até às grandes corporações.
E é por isso que o governo provincial estabeleceu a meta de “fazer aumentar o volume produção” para patamares mais próximos do potencial de uma região que, parecendo abençoada, parece ter caído em desgraça por alguns anos.
Quelimane é a capital da bicicleta, na Província que é capital do chá, que aposta agora na macadâmia
PROdutORes assistidOs Pela GaPi abastecem Os meRcadOs
Producers assisted by GaPi are reachinG
out to the markets
Produzir mais e com melhor qualidade e, sobretudo, poder escoar toda a produção é sonho de todo o agricultor. o Prosul está a torná-lo real
Producing more and with higher quality and, above all, to drain the whole production is the dream of every farmer. Prosul is making it happen
oito distritos com grande potencial agrícola situados nos corredores de Maputo e Limpopo, nomeadamente: Moamba, Marracuene, Namaacha, Boane, Chokwe, Guija, Manjacaze, Chibuto e Xai-Xai, estão a assistir a mudanças decisivas no processo de produção de alimentos, fruto da implementação do Projecto de Desenvolvimento de Cadeias de Valor nos corredores de Maputo e Limpopo (PROSUL), cuja cadeia de produção de hortícolas está a ser implementada pelo consórcio Gapi-SI/Novedades Agrícolas.
A par da melhoria nas técnicas de produção, maior disponibilidade de sistemas de irrigação e outros meios que possibilitam o cultivo ao longo de todo ano, os produtores têm também melhores canais de acesso aos mercados e já conseguem escoar a sua produção, através das redes de supermercados, que recorrem às hortícolas nacionais, devido à sua qualidade. “Muitos clientes estão a comprar para revender nos mercados da capital”, testemunha Salomão Machava, líder da Associação 44 hectares, que alberga 78 membros e funciona em Mahelane. Segundo Hairton Panguana, técnico da Gapi e coordenador provincial da cadeia de hortícolas em Maputo, a ligação com os mercados é feita através de um ‘focal point’ instalado em cada regadio, e que tem a responsabilidadede de contactar os mercados em cada colheita, informando sobre as quantidades disponíveis e os respectivos preços de referência, uma estratégia que tem estado a produzir resultados. “O trabalho que realizamos nestas duas províncias, é parte de uma estratégia de modernização da agricultura, que estamos a desenvolver à escala nacional. Com o apoio de parceiros como o IFAD, DANIDA, Banco Mundial, BAD e BADEA, os negócios de centenas de
eight districts with great agricultural potential located in the corridors of Maputo and Limpopo, namely: Moamba, Marracuene, Namaacha, Boane, Chokwe, Guija, Manjacaze, Chibuto and Xai-Xai, are witnessing decisive changes in the food production process due to the implementation of the Value Chain Development Project in the Maputo and Limpopo corridors (PROSUL), whose horticultural production chain is being implemented by the Gapi-SI/Novedades Agrícolas consortium.
In addition to improved production techniques, increased availability of irrigation systems and other means that create the possibility to generate growth and productivity in the crops throughout the year, producers also have better access to markets and are already able to channel their own production through mozambican supermarkets, which choose national horticulture because of their quality. “Many customers are buying to resell in the capital markets,” said Salomão Machava, leader of the 44-hectare Association, which houses 78 members and operates in Mahelane.
According to Hairton Panguana, Gapi’s provincial coordinator for the horticultural chain in Maputo, the link with the mass markets is being made through a focal point installed in each irrigated area, which has the responsibility of contacting the markets in each harvest, informing on the quantities available and their reference prices. A strategy which has been producing results. “The work we are doing in these two provinces is part of a all strategy for the modernization of agriculture, which we are developing at the national level. With the support of partners such as IFAD, DANIDA, the World Bank, AfDB
pequenas empresas foram consolidadas, através da disponibilização de soluções de financiamento, combinadas com serviços de assistência técnica em vários domínios, entre os quais o uso de novas técnicas e tecnologia; introdução de sementes melhoradas; e ligação aos mercados”, reforçou.
apoio técnico
Nos distritos onde actua, o consórcio Gapi/Novedades Agrícolas montou estufas para manter o nível de produção e produtividade estáveis ao longo do ano; introduziu o sistema de rega gota-a-gota (que além de poupar água), assegura
and BADEA, the business of hundreds of small farmers has been consolidated through the provision of financing solutions combined with technical assistance services in various fields: the use of new techniques and technology; introduction of improved seeds; and linkage to markets“ he added.
technical support
In the districts where it operates, the consortium Gapi/Novedades Agrícolas has set up greenhouses to keep a stable level of productivity throughout the year, introduced the drip irrigation system (fundamental to save wa-
precisão no sistema; e tem fornecido sementes melhoradas. Em cada regadio há técnicos-residentes para orientar os produtores no processo produtivo e dar formação técnica. São estes técnicos formados que estão a implementar a metodologia de transferência de conhecimento, designada Escola na Machamba do Camponês. “Temos moto-bombas e tubagem para o sistema de rega gota-a-gota, foram-nos facultadas sementes de melhor qualidade e estamos a receber assistência em técnicas de cultivo”, testemunha Hélio Herculano, Coordenador da Associação Regantes de Manguiza, com 35 hectares e 65 membros beneficiários.
ter), ensures accuracy in the system, and has provided improved seeds. In each irrigation system there are resident technicians to guide the producers in the process and to secure technical training. it’s these trained technicians who are implementing the methodology of knowledge transfer, called ‘Escola na Machamba do Camponês’. “We have motor pumps and piping for the drip irrigation system, we were provided with quality seeds and we are receiving assistance in farming techniques“ says Hélio Herculano, Coordinator of the Irrigation Association of Manguiza, with 65 beneficiary members.
mercado e finanças
Economia consolida franca rEcupEração Em 2019. sErá?
As propostas do Plano Económico e Social e do Orçamendo do Estado para 2019 traçam um cenário favorável ao desempenho da economia nacional no próximo ano. Mas alguns economistas questionam este optimismo
primeiro, os bons sinais. Depois de uma quebra histórica nos últimos três anos, o crescimento do PIB deve reanimar, ou reaquecer, será mais o termo, no próximo ano, atingindo pela primeira vez a barreira do bilião de meticais (perto de 17 mil milhões de dólares), traduzindo um crescimento em 4,7%, substancialmente mais do que os 3,7% do ano passado. Depois, o Investimento Directo Estrangeiro (IDE), que também passou por um período de drástica redução, poderá mais do que duplicar para 5,7 mil milhões de dólares, regressando a patamares próximos do registado até 2015, em que Moçambique andava nos lugares
5,7 mil milhões de dólares
A previsão do volume de investimento directo estrAngeiro pArA 2019, um Aumento de mAis de 100%, fAce Ao que se verificArá no finAl do corrente Ano
cimeiros do continente africano, quanto a este indicador. Depois, a inflação, que também regressará ao nível de um dígito aliviando o custo de vida dos cidadãos.
Esmiuçando as previsões Parece, assim, que a economia vai, finalmente, começar a consolidar a recuperação de uma crise que durou quase quatro anos, com o pico em 2016, prevê o Plano Económico e Social para 2019. Pode parecer um posicionamento demasiado optimista, mas é perfilhado por instituições multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Para o economista Faizal Carsane, a
EcOnOMiA cOntinuArá A rEcuPErAr dA criSE ...
A projecção de crescimento económico é menos optimista do que inicialmente previsto para este ano, que era de 5,3%, tendo sido ajustada para 3,4%
Crescimento do PIB em percentagem
Depois de profunda queda nos últimos anos, deve conhecer em 2019 um salto significativo para níveis anteriores à crise, alavancado por investimentos em projectos de gás na Bacia do Rovuma
Em mil milhões de dólares
expansão da economia em 4,7% é “satisfatória” e pode ser mais realística do que a previsão inicial para este ano, na sua opinião “demasiado optimista”. Carsane refere-se à previsão inicial de crescimento que se esperava (de 5,3%), mas que na prática “não se concretizará por não haver condições internas nem externas”, acabando por ser revista em baixa (para 3,4%), sobretudo devido às previsões de quebra de produção de carvão (face às previsões iniciais da Vale) na província de Tete. É olhando para riscos desta natureza, e para a “falta de clareza e profundidade dos documentos” (Plano Económico e So-
… AlAvAncAdA nAS
ExtrActivAS…
Crescimento económico será sustentado por extractivas que vão crescer 14%, devido ao aumento de produção de carvão, areias pesadas e pedras preciosas
Percentagem de crescimento por sector
O nível geral de preços, que conheceu períodos de pico histórico no auge da crise, em 2016, iniciou tendência de descida em 2017, em resposta às medidas de ajustamento da política monetária e fiscal
Inflação
cial e Orçamento do Estado) que a economista Inocência Mapisse não está confiante na possibilidade de alcançarem taxas de crescimento desse nível, admitindo a hipótese de nova revisão em baixa. Os riscos que se colocam no caminho do crescimento incluem a redução do preço de dois dos principais produtos de exportação, nomeadamente, o carvão em 12% e o alumínio em 3%.
Por outro lado, parece haver uma tendência de agravamento dos preços de grande parte das matérias-primas importadas, que terá efeitos negativos para a economia nacional e que se pode traduzir numa pressão sobre as reservas
internacionais, podendo criar pressão inflacionária (aumento geral de preços), uma vez que o país ainda é muito dependente de importações, o que iria obrigatoriamente causar ‘danos’ nas previsões do governo para o próximo ano. Voltando às projecções para 2019, a alavanca do crescimento económico que se projecta é, ainda assim, o bom desempenho da indústria extractiva, que deverá crescer 14%. Outros sectores que vão crescer e contribuir em grande medida para o bom desempenho do PIB incluem a agricultura (5,5%), pescas (6,0%), saúde e acção social (5,0%), educação (4,5%) e administração pública (4,5%).
indústria extractiva
A este nível, espera-se um crescimento significativo da produção das areias pesadas, carvão mineral, rubi, gás natural e grafites. A produção de carvão de coque deverá chegar aos 11,9 milhões de toneladas contra 10,1 em 2018 (crescimento em 18%) e 5,6 milhões de toneladas de carvão térmico, quase o mesmo que o previsto para este ano.
Na produção das areias pesadas augura-se também um crescimento significativo comparativamente às previsões de 2018, com a produção de ilmenite a atingir 1,1 milhões de toneladas, o zircão com 86 mil toneladas e 9 mil toneladas de rútilo (minérios de grande utilidade em diversas indústrias como tintas, plásticos, etc.), o correspondente a crescimentos da produção na ordem dos 3,1%, 0,8% e 0,7% respectivamente.
Em relação aos minerais não-metálicos espera-se, de igual forma, um crescimento de produção de grafite de 273%, para 256 mil toneladas.
Quanto às pedras preciosas e semi-preciosas, o destaque vai para o rubi, que deverá crescer 90,2% comparativamente com as projecções de 2018, para 5,7 milhões de quilates, como resultado do aumento da produção, sustentado pelo anúncio da introdução da mineração selectiva de alta qualidade.
O Plano Económico e Social não avança detalhes sobre a produção do gás natural, senão apenas que esta vai crescer 0,4%. Há que não esquecer (como se isso fosse possível numa economia onde este é o assunto do dia, ano após ano) que estão em fase de formalização vários contratos de exploração e construção de infra-estruturas de liquefação que, em princípio, devem levar ao início da exportação em 2023, tornando Moçambique num dos maiores players globais.
(1) Previsões FONTE
mercado e finanças
invEStiMEntO SOciAl
Plano Económico e Social anuncia um vasto conjunto de investimentos em áreas sociais, procurando suprir desequilíbrios criados nos últimos anos
Educação
Está prevista a admissão de 6 413 professores em todos os níveis de ensino; matriculados cerca de 7,5 milhões alunos no ensino geral; 94 mil alunos no Ensino Técnico-profissional e 216 mil estudantes no ensino superior; distribuídas 224 775 novas carteiras escolares e 14 345 mil livros escolares.
Emprego
Prevê-se a criação de 354 308 empregos, sendo 12 128 admissões na função pública, 226 698 pelo sector privado e 29 000 no exterior. Serão adquiridos e alocados 450 kits de autoemprego para jovens nas profissões de carpintaria, agricultura, construção, corte e costura, cozinha, serralharia, avicultura, frio e climatização.
Saúde
Serão contratados 2 126 profissionais, dos quais 80 médicos, 100 técnicos de saúde de nível superior e 1 946 de nível médio; aumentará a cobertura de partos institucionais de 83% (2017) para 84% em 2019; e a cobertura de crianças menores de 12 meses completamente vacinadas de 90%, em 2017, para 94% em 2019.
Assistência social
Serão assistidos mais de 609 beneficiários através do Programa de Subsídio Social Básico (420 306), do Programa de Apoio Social Directo (30 901), do Programa de Serviços Sociais de Acção Social (2 045), Programa de Atendimento a Unidades Sociais (6 989) e do Programa de Acção Social Produtiva (121 557).
agricultura em transformação
A aposta do Governo tem sido a transformação da agricultura de subsistência numa agricultura comercial (que produz em grande escala para o comércio).
A estratégia para o próximo ano passará pela expansão agrícola, estando prevista a contratação de 399 técnicos (283 extensionistas e 116 investigadores) para assistirem 764 mil produtores, em técnicas de produção e o anúncio de produção de 270 toneladas de semente básica. De uma maneira geral, a produção agrícola deve crescer, prevê o Governo, cerca de 5,5%, em 2019, mais 1,1% em relação a previsão de 2018. E estima-se uma área total de produção das principais culturas alimentares de cerca de 5,8 milhões de hectares (este ano cifra-se em 5,2 milhões de hectares).
Depois, olhando ao comércio externo, o factor positivo vai para a previsão do aumento das exportações. No entanto, a má notícia é que, do lado das importações, existem indicadores de incremento, o que leva à previsão de um défice na ordem de 2 769 milhões de dólares, em resultado do aumento da factura de importação dos combustíveis líquidos, associado às projecções de aumento do respectivo preço médio internacional. Projecta-se assim um volume total de exportações na casa dos 5 160 milhões de dólares, (um crescimento de 5% comparando com 2018), enquanto as importações ascenderão aos 7 929 milhões de dólares (5 824 milhões este ano).
pode haver imprecisão nas projecções de 2019 Para os economistas contactados pela E&M não tem sido fácil fazer a interpretação do Plano Económico e Social e do Orçamento do Estado (PES e OE) porque o modelo actualmente em uso para a apresentação de contas “não permite fazer uma análise profunda, já que traz números gerais e não apresenta detalhes sobre as respectivas contas”, dizem-nos. O fenómeno leva os economistas a questionarem, inclusive, os pressupostos que estão por detrás das previsões de crescimento em 4,7%. Inocência Mapisse, economista que está a realizar estudos sobre os dois instrumentos (PES e OE), recorre a exemplos para defender o seu posicionamento. E explica que “carece de aprofundamento o facto de que o crescimento se vá basear na expansão da indústria extractiva porque o Governo não tem controlo sobre este sector, pelo que pode tomar uma tendência contrária e
FONTE Plano Económico e Social e Orçamento do Estado para 2019
Em termos nominais, o Pib de Moçambique será, no próximo ano, de mais de um bilião de meticais, ou 17 mil milhões de dólares ao câmbio actual), face aos 992 mil milhões de meticais deste ano, cerca de 16,5 mil milhões de dólares
acabar forçando uma revisão em baixa, como já ocorreu, devido à sua natureza incerta, determinada por eventos de natureza diversa como a volatilidade de preços no mercado internacional.”
Além disso, prossegue, “há dúvidas quanto às condições para melhorar a comercialização agrícola, porque não se explica em que é baseada.”
Na mesma linha, Faizal Carsane questiona o argumento para prever a duplicação do IDE, uma vez que o PES e o OE não trazem as devidas fundamentações. O economista revela que os documentos, em si, carecem de muita informação capaz de ser interpretada com profundidade pelos profissionais da área. Na área social, estão previstos avanços importantes no emprego, na cobertura de acção social, entre outras, mas “sem ferramentas precisas, difi-
cilmente se pode medir a capacidade da economia alcançar as metas definidas e não se pode de medir o respectivo impacto”, lamenta Faizal Carsane. Inocência Mapisse advoga, por isso, a adopção de modelos que ganham destaque em várias outras economias e que possibilitam que o Governo agregue um conjunto mais alargado de detalhes às contas do Estado. “Apresentar dados genéricos é muito bom por dar a indicação do que se pretende fazer, mas quando avançamos para o específico é mais fácil de monitorar e até responsabilizar, sobretudo porque em Moçambique não há uma cultura arreigada de prestação de contas de forma clara e aberta”, sugeriu a pesquisadora do Centro de Integridade Pública (CIP).
Uma dessas questões difusas, relaciona-se com a despesa. Sendo que a austeri-
dade é também posta em causa pelos dois economistas entrevistados pela E&M. Para o próximo ano estão previstas várias medidas que vão nesse sentido, como a fixação do limite das despesas de combustível e serviços de telefonia móvel para os dirigentes superiores do Estado e titulares de cargos governativos, entre outros. Trata-se de um pacote de medidas já há muito sugerido, mas não revela o limite do que se pretende aplicar a estes benefícios e beneficiários, o que impossibilita o monitoramento do seu impacto no Orçamento, ao mesmo tempo que também não se esclarece o valor que o Estado despende, quanto pretende cortar na despesa, e até que medida tudo isto melhora as suas contas. Ou seja, racionalizar, em si, pode e deve ser encarado como uma acção positiva. Mas não há detalhes que permitam “medir” de forma correcta todo o impacto desta acção num olhar macro do país. O que nos leva a ter de fazer contas às contas. Veremos, o que 2019 nos traz.
TExTO Celso Chambisso fOTOgRAfiA D.R.
Mina da vale, em tete. Será esta uma das ‘minas’ do crescimento económico esperado para 2019
empresas
VIP, e maIs do que Isso
O maior grupo hoteleiro do país nasceu há 17 anos e hoje já é composto por quatro unidades. Mas o crescimento do Vip Hotels não fica por aqui e várias novas unidades, em diferentes segmentos, deverão arrancar brevemente
um grupo inteiramente moçambicano, mas que nasceu fora do país. Uma história pouco usual, que se conta pelo facto de a cadeia de hotéis VIP ter sido fundada em Portugal, em 1978, por um moçambicano, e pela sua expansão a ter trazido, décadas depois, até casa, Moçambique. Era este, de resto, um sonho de família quando, há 43 anos se iniciou um negócio que se iria expandir até aos dias de hoje, tornando-se um grupo multinacional que, nem por isso, deixou de perder a gestão familiar. Mesmo detendo hoje 16 hotéis, ente Portugal e Moçambique (unidades de cinco, quatro e três estrelas).
Dado Gulamhussen, director de operações do VIP em Moçambique, não hesita em prenunciar um futuro com ainda mais estrelas, assumindo que “o objectivo passa por ampliar a rede de hotéis já existentes e entrar em novos segmentos, que não têm sido muito explorados no país.”
E é nesta perspectiva de expansão que se cumpre o desígnio do seu fundador: estar presente em todas as províncias do país. “Temos já finalizada a previsão de ampliação da rede para as províncias mais promissoras do Norte. Em princípio, vamos iniciar estas construções em 2020, temos de fazer os aterros, infra-estruturas de saneamento e tudo o resto. Isso leva algum tempo e requer capital”, avança. Embora o crescimento seja algo que está imbutido na estratégia e no discurso, sustentabilidade é outro dos termos de que não abdica. “O objectivo é crescer, claro, mas sabemos, até por valores que temos na família, que temos de o fazer contando com os nossos colaboradores, criando mais postos de trabalho, dando melhores condições de vida aos nossos funcionários e promovendo uma série de regalias que lhes permitem ter melhor qualidade de vida. O nosso objectivo está bem vincado na
identidade corporativa do grupo logo desde o seu início, e passa por ser mais do que um hotel, contribuindo para a criação de cadeias de valor auto-sustentáveis, procurando ampliar a importância do que é hoje o turismo a vários níveis”, sublinha. Depois de anos difíceis para a economia nacional, em que o turismo também sofreu consequências, o grupo VIP Hotéis acredita que o mercado nacional, dada a sua diversidade e potencial económico, social e cultural, torna possível que se catapulte o incremento de receitas nesta área através de uma, há muito falada, restruturação do sector. Para tal, “é preciso criar condições logísticas, de saneamento e de saúde, infra-estruturas enquadradas numa estratégia clara. Baseamo-nos muito no segmento da restauração e não temos uma área de lazer onde as pessoas possam ir para se divertir, por exemplo. E isso é uma falha, quando pensamos em aumentar o número de visitantes de negócios, ou fazer crescer uma verdadeira indústria em torno do turismo familiar e de lazer”, explica.
A actuar num segmento direccionado para o turismo de negócios, o gestor reitera que a expansão do grupo passará por entrar em novos nichos de mercado, como o dos resorts. “Os nossos projectos para o Norte, prevêem já este enquadramento multifacetado de lazer e negócios com diferentes segmentos numa só unidade, mas a seu tempo iremos anunciá-lo detalhadamente. Mas para tudo isto ser efectivo, tem de haver alteração das leis, mais incentivos fiscais aos operadores e um sector a funcionar em uníssono, não havendo demasiadas entidades a tutelá-lo, que acabam por se atrapalhar umas às outras”, frisa o gestor.
texto PEdro cativElos & HErmEnEgildo langa fotografia Jay garrido
BgruPo ViP Hotels dirEctor gEral DaDo gulamHussen
Fundação do gruPo 1978 início dE actividadE Em moçambiquE 2002
unidadEs
4
Hotéis as unidades do ViP estão em maputo, Beira e tete
oFErta
378
É a oferta de alojamento do grupo em moçambique
quadros
500
Trabalhadores
Quartos na quase totalidade são moçambicanos
bci e esJ aliaM-se na Melhoria de qualidade
Uma nova campanha, lançada em Outubro, inteiramente dedicada à escola, e que intenta promover um conjunto de vantagens para o público escolar. Entre elas, a emissão dos cartões EU (Estudante Universitário), a facilitação do pagamento de bolsas de estudo e o apoio à valorização e premiação dos melhores estudantes a nível nacional, objectivos definidos pela parceria rubricada entre o Banco Comercial de Investimentos (BCI) e a Escola Superior de Jornalismo (ESJ). Paulo Sousa, PCE do BCI, e a ESJ, pela voz do director-geral, Tomás Jane, entendem que o acordo firmado representa “um grande passo no sentido do desenvolvimento da cidadania em Moçambique.”
phc lança nova ferraMenta de gestão eMpresarial
“Dar reposta aos desafios da gestão de empresas” é o objectivo anunciado do lançamento de uma nova geração do planeamento de recursos corporativos (o ERP- Enterprise Resource Planning), um sistema que integra todos os dados e processos de uma empresa num único sistema. A aplicação recentemente lançada pela multinacional tecnológica PHC, engloba mais de 50 novas funcionalidades que permitem trabalhar em qualquer dispositivo assim como potenciar a melhoria da competitividade das empresas, “tornando-as mais rápidas e eficientes.”
MillenniuM biM assina parceria coM a intercar
banco pretende facilitar acesso a leasing automóvel aos seus clientes
a instituição bancária e a entidade representante da Kia Motors em Moçambique assinaram, no final de Outubro, um acordo que irá permitir aos clientes do bim uma série de condições especiais de financiamento através de leasing para a aquisição de automóveis da Kia.
Assim, o Millennium bim disponibliza condições especiais de financiamento aos seus clientes que pretendam adquirir automóveis da marca sul-coreana, bem como usufruir de contratos de leasing com rendas mensais que incluem o valor do seguro de responsabilidade civil e danos próprios. Enquanto isso, a Intercar assegura um preço abaixo do custo de venda ao público em geral para os clientes do banco, e garante ainda, de forma gratuita, a manutenção das viaturas durante um período de 36 meses.
Para os representantes das duas instituições, “esta iniciativa insere-se na estratégia do Banco no apoio às empresas com vista a dar o seu contributo para o desenvolvimento do país.”
anadarko apoia capacitação de professores eM técnicas de leitura
“Estimular o gosto pela leitura e a capacidade de interpretação de textos por parte dos estudantes, assim como melhorar o processo de ensino e aprendizagem”. É este o propósito do apoio concedido pela empresa petrolífera Anadarko, para a capacitação de 33 professores da Escola Secundária de Palma, na província de Cabo Delgado, em técnicas de leitura, A iniciativa implementada pela Associação Progresso e a CODE, pretende que os conhecimentos reforçados e partilhados pelos professores durante a capacitação “se traduzam na melhoria da qualidade do seu ensino na região.”
O BIM
O Millennium bim está presente em todas as províncias do país, com mais de 300 agentes bancários e 2 500 colaboradores que servem mais de 1,8 milhões de clientes.
O programa de integração de jovens moçambicanos recém-graduados em universidades nacionais, designado “Discover Graduate Programme” foi desenvolvido para identificar novos líderes na organização da operadora móvel, e consiste na contratação, por tempo indeterminado, de jovens recém-formados. Esta é a 4ª edição do programa de graduados no qual são selecionados jovens de nacionalidade moçambicana que tenham concluído o grau de licenciatura ou mestrado no ano lectivo de 2017 e todos aqueles que irão concluir até Dezembro do presente ano.
vodacoM lança 4ª edição de prograMa de graduados
Clareza de Contas é fundamental
mário sitoe Bastonário da OCAM
a criação da Ordem dos Contabilistas e Auditores de Moçambique (OCAM) em 2013, procurava fazer jus ao nome e colocar alguma ordem num ramo de actividade em franca expansão, fruto do crescimento económico dos primeiros anos da década. De então para cá, muita coisa mudou, mas continuam a ser inúmeros os desafios que ainda permanecem ao nível da formação, da clareza de regras ou da própria forma de muitas empresas encararem a importância da contabilidade e da auditoria.
Mário Sitoe, bastonário da OCAM, fala à E&M sobre isso.
Em que ponto está hoje o mercado da contabilidade e auditoria, ao nível dos meios e recursos existentes?
Quando iniciámos actividade, haviam pouco mais de 450 contabilistas registados e aproximadamente 20 auditores autorizados. Actualmente, temos cerca de 5 000 membros, dos quais 80 são auditores certificados, sendo os restantes contabilistas certificados. A massificação da formação dos profissionais de contabilidade tem sido o maior desafio, no sentido de promover a sua qualidade.
Fala-se muito em desorganização na contabilidade de inúmeras empresas de
capital nacional, uma preocupação muitas vezes colocada no centro dos obstáculos que estas enfrentam, sobretudo dificuldades de acesso ao financiamento. Como é que a OCAM se tem posicionado para lidar com este problema?
De há três anos a esta parte, para a constituição de uma empresa, seja ela de que dimensão for, a administração fiscal exige ao requerente que apresente o nome do contabilista certificado como condição para a obtenção da Declaração de Início de Actividade e o NUIT. Esta exigência decorre de um trabalho conjunto entre a OCAM e a Autoridade Tributária (AT) no esforço de educar o empresário para que tenha nota de que a contabilidade deve fazer parte da sua vida como empresário.
A Ordem actua também com outros parceiros internos neste sentido?
A OCAM fez-se parceira do Instituto para a Promoção das Pequenas e Médias Empresas (IPEME), da CTA, da Associação das PME (APME) e estabelece relações de trabalho com o Ministério da Indústria e Comércio (MIC) para instruir, a partir do Balcão de Atendimento Único (BAU), a necessidade de a empresa que se regista ter um compromisso
cvcurriculum vitae
Mário Sitoe é administrador financeiro da Petromoc, docente na Universidade Unitiva e no instituto Superior de Contabilidade e auditoria de Moçambique (iSCaM) e é, desde 2012, bastonário da oCaM, cumprindo neste momento o segundo mandato.
formação
firme em ter um contabilista a assessorar a sua actividade. Estas parcerias relevam o esforço da OCAM em contribuir para que a sociedade e o mercado tenham a cultura de apresentação de informação financeira em observância às normas, salvaguardando os princípios da legalidade, clareza, objectividade, sinceridade, entre outros, como contributo para melhoria do ambiente de negócio.
A OCAM foi criada para disciplinar a classe dos seus profissionais através da
observância de normas e padrões de ética. Que avaliação faz do cumprimento dos seus objectivos?
A formação contínua e a promoção de cidadania fiscal são cruciais para o alcance destes objectivos. No cumprimento da sua missão e contribuição, criámos uma plataforma informática denominada ‘Consultório Técnico’, onde os técnicos contabilistas e fiscalistas podem colocar dúvidas que são esclarecidas por especialistas competentes na matéria. Resultante da compilação dos materiais de formação contínua e obrigatória, em 2017, publicámos um livro denominado ‘Guião do IRPC’, disponível no mercado. Depois, em observância às normas internacionais de funcionamento das ordens profissionais, realizamos exames de admissão para as duas classes e treinámos os candidatos para o seu melhor desempenho, e dispomos ainda de uma biblioteca especializada em matérias de contabilidade, fiscalidade, ética, economia e gestão.
O que se pode dizer relativamente à qualidade da formação existente?
Temos promovido a capacitação em vários domínios, (económico, fiscalidade e gestão financeira) em fóruns, conferências e acções de formação. O objectivo é mobilizar a sociedade e os empresários para a importância destas matérias.
Quais são os principais desafios da classe?
A filiação ao IFAC (Federação Internacional dos Contabilistas) é um dos desafios mais importantes que institucionalmente a OCAM deve cuidar. Com esta filiação, Moçambique passa a ser reconhecido no mapa mundial das ordens profissionais regidos por normas internacionais.
texto Hermenegildo langa fotografia Jay garrido
FORMAÇÃO
A massificação da formação dos profissionais é o maior desafio para promover a sua qualidade
sociedade
MOÇAMBIQUE SEM PEDAL PARA ACOMPANHAR CICLISTAS
São cada vez mais os praticantes do ciclismo recreativo em Maputo. Um crescimento num contexto onde falta quase tudo – equipamentos acessíveis, vias decentes e, talvez mais importante, o civismo dos que andam na estrada
suados, cansados, mas satisfeitos no termo da jornada de 75 quilómetros que os levou para lá de Marracuene, despedem-se os ciclistas de fatos coleantes e cores berrantes com a promessa de novo encontro dali a uma semana. Entre tantos – serão quase 30, todos homens, todos maduros – ninguém falha aos fins-de-semana. Porque pedalar tornou-se um vício. “Isto é pelo convívio. Primeiro, vimos por desafio dos amigos em passeios de recreio”, diz Nuno Batista, imigrante português na capital do país há meia dúzia de anos. “Depois, a continuidade dá-se pelos benefícios que traz à saúde”, explica o empresário ligado à construção civil.
Como a saúde não tem preço, justifica-se o investimento que a modalidade exige. Porque há bicicletas para quase todos os gostos e bolsas (ver infográfico). “A minha vale 200 mil meticais. E está estimadinha”, garante Batista. Não obstante o primor com que a trata, não há como eludir a manutenção periódica, cuja verba anual ronda “cerca de 50 mil me-
ticais”. E a bicicleta de Batista, sendo boa, não é um luxo, porque há máquinas cujo quadro pode chegar ao meio milhão de meticais.
São raras, essas. Apesar de uma ou outra extravagância, em Moçambique o mercado ainda não tem pedalada para acompanhar as exigências dos praticantes do ciclismo recreativo. Lamenta Batista que “as opções são escassas e, por isso, os preços também não são competitivos”. E é no preço que assenta o domínio das marcas indianas e chinesas nas ciclovias moçambicanas. As europeias, de qualidade superior, são demasiado caras. E nacionais não existem.
Betinho, uma referência acidental Ora, foi na escassez da oferta e na dádiva providencial de ferramentas que João António Cuambe, conhecido por Betinho pelos clientes, encontrou o nicho de mercado que lhe deu a independência financeira. Hoje, é o mecânico de bicicletas mais especializado – e requisitado – da capital, empregando sete colaboradores
distribuídos por duas lojas da Betinho Bikes, uma em Maputo, na Avenida Kwame Nkuruma, e outra na Matola. “Aprendi mecânica na loja de bicicletas onde comecei, em 2001. Em 2008, com o projecto BikeTown Africa (que oferece bicicletas a prestadores de saúde na região sub-Saariana) fui a Chokwé montar 250 bicicletas para doar. Quando o projecto acabou”, recorda Betinho, “a BikeTown deu-me todas as ferramentas”. Como na loja onde trabalhava não se vendiam peças nem acessórios, Betinho procurou capitalizar a experiência e o material ofertado. “Decidi ter o meu negócio”. “Vendi o meu carro por 40 mil meticais e, com esse dinheiro, abri uma oficina. Depois comecei a ir à África do Sul, de chapa, buscar acessórios para os clientes”. Nesses excursos, aprendeu muito: “Fui vendo como funcionavam as lojas de lá e tentei implementar cá”, confessa. Correu bem: com a organização regular de passeatas desde 2014 às quais Betinho garante assistência, os praticantes da modalidade aumentaram e, logo, a clien-
CREMALHEIRA
sociedade
tela. “Fixos, tenho 600 clientes. Muitos expatriados, mas a maioria é classe média moçambicana”, diz. “Num ano bom, vendo 60 bicicletas. Podiam ser mais, mas não há apoios”, lamenta Betinho. Nem à modalidade nem à mobilidade.
Memórias da indústria falida O que será bizarro num país onde, apesar do salto na motorização com a abertura do mercado à importação de veículos usados – o parque automóvel, segundo o INATTER, inflacionou em 832% o número de viaturas registadas entre 1990 e 2012 – a mobilidade está ainda muito dependente da bicicleta. Um estudo, também de 2012, por exemplo, concluía que, na Área Metropolitana de Maputo, 45,9% das deslocações diárias eram realizadas a pé ou de bicicleta. Apesar de hoje ninguém a fabricar...
Ao tempo colonial, a Fábrica de Bicicletas de Moçambique (FBM), do Grupo João Ferreira dos Santos, produzia “gingas” que distribuía pelo país e que apoiavam a mobilidade nos meios rurais. Mas, com a independência, sobreveio o declínio da FBM, e, apesar da parceria
A CAPITAL DAS DUAS RODAS
Quelimane é duplamente capital: por via administrativa, ao presidir à província da Zambézia, e por via popular, por ser a urbe do país com mais bicicletas em circulação. Segundo estimativas recentes, 35% das deslocações são por bicicletas-táxi, e só 17% por automóveis, calculando-se que, para cada carro, haja 20 “gingas” a pedalar em Quelimane. A sua importância é tal para a economia local que, na última campanha das eleições autárquicas, os candidatos principais – o edil Manuel Araújo (Renamo) e Carlos Carneiro (Frelimo) – disputaram o eleitorado de forma inusitada: à oferta do primeiro de pelo menos um pneu a cada um dos milhares de operadores de “táxi bicicleta” da cidade, Carneiro respondeu prometendo “não uma roda, mas financiamento para quem quiser adquirir a sua própria bicicleta”. Ganhou Araújo.
com a portuguesa Miralago para revitalizar as linhas de produção, sob patrocínio do Banco Mundial, nos anos 1980, o encerramento tornar-se-ia inevitável. Sobraram as instalações, monumento histórico ocupado entretanto pela Mozambikes.
O meio é a mensagem É, hoje, a única firma a construir bicicletas em Moçambique. Na fábrica da Matola trabalham cerca de 30 pessoas, divididas por equipas de pintura, montagem de quadros e de rodas. São todas formadas pela Mozambikes, a qual tem um perfil particular – trata-se de uma empresa social, cujo objectivo não é o lucro, mas sim facilitar a mobilidade das pessoas de baixa renda nas zonas rurais através da distribuição gratuita de bicicletas.
Um conceito diferente do das ONG: “Essas vivem de fundos que, quando acabam, levam à extinção dos projectos. A Mozambikes tinha de ser sustentável, para poder funcionar mesmo que os fundadores não estejam cá”, diz Rui Mesquita, o homem que consolidou a ideia em 2011 com uma voluntária norte-americana, Lauren Thomas, a qual se tornaria, nesse compasso, esposa e mãe dos seus dois filhos.
Para a doação de bicicletas, a Mozambikes trabalha com ONG implantadas no terreno, como a HELPO, as quais identificam os receptores elegíveis: “Pessoas que vivam com menos de um euro por dia ou escolas, orfanatos, entidades religiosas, etc”, diz Mesquita, gestor por formação. E a Mozambikes é sustentável porque, no fundo, as bicicletas oferecidas pagam-se a elas próprias ao converterem-se em veículo publicitário. “São as branding bikes, que as empresas privadas adquirem para fazerem publicidade, premiarem os trabalhadores, promoverem produtos ou usarem nos projectos de responsabilidade social”, conta. A própria UNICEF usou o quadro das bicicletas para fazer campanha contra o casamento precoce das raparigas.
“Nas bicicletas customizadas, as mensagens chegam a sítios onde não há televisão, jornais, internet ou outdoors”, sublinha Mesquita.
Bicicletas marginalizadas
Uma “ginga” Mozambikes fica por 7 700 meticais, descendo para 6 825 se a encomenda for grande. Baratas, “porque o modelo de negócio foi concebido para não ultrapassar certo preço”. O baixo
João António Cuambe, da Betinho Bikes, em Maputo, é ‘o homem’ quando o assunto são bicicletas
custo também se explica pela selecção de fornecedores: “Cada bicicleta tem cerca de 70 componentes importados da China, e os pneus vêm de Taiwan”.
Apesar do custo controlado, “no início, não chegava às 100 bicicletas e quase fechamos as portas”, recorda Mesquita. Sobreviveram, mas ainda falta pedalar muito para chegar à meta prevista: “Até agora, entre comercialização e distribuição, dadas ou compradas em projectos de responsabilidade social, já processamos acima de 20 mil bicicletas, mas a nossa estimativa era cerca de 20 mil por ano”, confessa Mesquita. Com 2017 a bater as 500 bicicletas ofertadas, o melhor ano de sempre, o volume de negócios pode chegar aos 350 mil dólares.
Mais escassas ainda são as condições para a prática do ciclismo em Moçambique, tanto recreativa como utilitária. Na capital há só uma faixa exclusiva para as duas rodas, no passeio da Avenida Marginal que debrua a baía. Assinalada a vermelho, é sistematicamente ignorada pela voragem dos automobilistas,
Na fábrica da Matola trabalham cerca de 30 pessoas, divididas por equipas de pintura, montagem de quadros e de rodas. São todas formadas pela Mozambikes, uma empresa social, cujo objectivo não é o lucro, mas sim facilitar a mobilidade das pessoas de baixa renda nas zonas rurais
com os famigerados “chapa 100” à cabeça. Essa atitude, de uma displicência que, por vezes, resulta assassina, conjugada com a falta de infra-estruturas, é a grande preocupação dos ciclistas de Maputo. Em 2013, ainda houve esperança, com o Plano Director de Mobilidade para a Área Metropolitana de Maputo a cogitar uma ciclovia na esteira do BRT (Bus Rapid Transit, corredor exclusivo para autocarros). Mas o BRT morreu entretanto e, com ele, as ciclofaixas imaginadas. Isto quando a tendência global das cidades, dada a saturação automóvel e correlativa poluição ambiental, é fomentar o uso da bicicleta, proporcionando condições de uso. Mesquita tem ideias: “No dia em que a cidade estiver preparada, poderíamos implantar o sistema de bicicletas partilhadas. Temos o know-how, mas falta a infra-estrutura. E o civismo”, diz. Não será fácil. Nem uma nem outro.
texto Elmano madaíl FotoGRAFiA Vasco célio & Jay Garrido
Desigualdade e sua influência no Desenvolvimento Económico
Salim Cripton Valá • PCA da Bolsa de Valores de Moçambique
a procura da igualdade é uma emoção humana perfeitamente natural e tem sido um poderoso catalisador da história Humana, tendo sido um dos ideais por detrás da Revolução Francesa, cristalizado no lema “liberdade, igualdade e fraternidade”. Muitas das greves industriais, manifestações, revoluções e inúmeros conflitos humanos nunca teriam acontecido sem a procura da igualdade e do bem-estar.
Os defensores das políticas do mercado livre advogam que não se baixe quem se encontra mais alto só para que sejamos todos iguais, explicando que a desigualdade é o resultado inevitável das diferentes produtividades de diferentes pessoas. O aforismo “a maré alta levanta os barcos todos”, atribuído a John Kennedy, tem sido o pregão favorito.
Economistas como Milton Friedman, autor de “Liberdade de Escolha”, postula que quando os ricos têm mais dinheiro à sua disposição, eles investem mais e criam mais rendimentos para os outros, contratam mais trabalhadores para os seus negócios e estes compram mais aos fornecedores, além de que tendo mais rendimentos, os ricos vão gastar mais e criar mais rendimentos para as empresas que vendem. Desta forma, se houver mais rendimentos no topo, haverá mais que acaba por “gotejar” para o resto da economia, deixando todos mais ricos que antes. A crença no efeito do “trickle-down” levou muitos governos a promover políticas pró-ricos ou, pelo menos, deu-lhes cobertura política. Simon Kuznets, Prémio Nobel de Economia em 1971, defendeu que à medida que um país se desenvolve economicamente, a desigualdade começa por aumentar e depois diminui, ou seja, à medida que o país se industrializa e cresce, temos cada vez mais pessoas a trocar a agricultura pela indústria e serviços, onde os salários são mais elevados. É bem verdade que a hipótese de Kuznets não resistiu ao escrutínio, pois alguns países ricos e industrializados, como os EUA e o Reino Unido, registaram um aumento da desigualdade na década de 1980.
Existe uma corrente de pensamento que argumenta que desigualdade a mais é má, não só eticamente, mas também sob o ponto de vista económico, referindo que a elevada desigualdade reduz a coesão social, aumenta a instabilidade política e desencoraja os investimentos. Richard Wilkinson & Kate Pickett, autores de “O Espírito da Igualdade”, e Joseph Stiglitz, que escreveu a obra “O Preço da Desigualdade”, referem que países com maior desigualdade apresentam piores resultados em termos de mortalidade infantil, desempenho educacional, esperança de vida, homicídio e detenção, saúde mental e obesidade. Há indícios, segundo Há-Joon Chang (no seu livro “A Economia”), de que a maior desigualdade produz resultados económicos e sociais mais negativos. O “milagre económico” dos anos 1950 e 1980, no Japão, Coreia do Sul e Taiwan, evidencia claramente um contexto de crescimento económico rápido num ambiente de menores desigualdades sociais. Muitos estudos estatísticos mostram uma correlação negativa entre o grau de desigualdade de um país e a sua taxa de crescimento económico. Isso não significa que quanto mais reduzida a desigualdade, melhor. Se houver muito pouca desigualdade de rendimentos, isso pode desencorajar as pessoas de se esforçarem ou de criarem coisas novas para ganhar dinheiro. Parece defensável que não é bom termos nem demasiada nem muito pouca desigualdade. Se for excessivamente elevada ou baixa, a desigualdade pode atrapalhar o crescimento económico e criar problemas sociais. Existem diversos tipos de desigualdade, e a desigualdade de rendimentos é apenas um tipo de desigualdade económica. Existe também a desigualdade em termos de distribuição de riqueza, de capital humano e desigualdades não económicas, como as baseadas na origem social, casta, etnia, religião, raça, género, sexualidade ou ideologia.
Para medir a desigualdade é comum usar o Coeficiente de Gini, baptizado em honra do estatístico italiano do início do século XX,
Desde a década de 1980, a desigualdade subiu em muitos países, com destaque para os EUA e Reino Unido, e abrandou um pouco depois dos anos 2000, sobretudo na América Latina, em decorrência de intervenções nas políticas como, por exemplo, o aumento dos impostos para os ricos, aumento do salário mínimo e maior fatia do orçamento para a segurança social
Corrado Gini, em que os dados são obtidos através de inquéritos sobre o consumo, que desde 1997-98 Moçambique tem realizado de 5 em 5 anos, através dos Inquéritos ao Orçamento Familiar (IOF). Segundo dados do último inquérito, a desigualdade aumentou de 2008-09 para 2014-15, de 0,42 para 0,47, devido ao aumento da desigualdade nas áreas urbanas (e na zona sul do País), que passou de 0,48 para 0,55, mantendo-se estável nas áreas rurais, ao nível de 0,37.
As sociedades menos desiguais do mundo são Noruega, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Áustria, Alemanha e França, que são países capitalistas europeus com um Estado Social forte. Entre os países muito desiguais contam-se Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Honduras, Panamá, Paraguai, Costa do Marfim, Mauritânia, Ruanda, Cambodja, Filipinas e Tailândia. Desde a década de 1980, a desigualdade subiu em muitos países, com destaque para os EUA e Reino Unido, e abrandou um pouco depois dos anos 2000, sobretudo na América Latina, em decorrência de intervenções nas políticas como, por exemplo, o aumento dos impostos para os ricos, aumento do salário mínimo e maior fatia do orçamento para a segurança social.
A desigualdade continua presente no mundo e em muitos países, mas com políticas adequadas pode viver-se em sociedades menos desiguais e onde o grosso da população tenha condições de vida apropriadas para viver em dignidade e para a plena realização do seu potencial humano.
As populações da Noruega, Finlândia, Suécia e Dinamarca já vivem praticamente livres das perversas e aberrantes desigualdades sociais, o que “per se”, é um sinal de que é possível e desejável conjugar crescimento e desenvolvimento económico com cada vez mais reduzidas desigualdades sociais.
A redução de gritantes desigualdades sociais e económicas em Moçambique deve ser, também, um objectivo específico da sociedade e não só por razões éticas, já que ela tem influência no combate à pobreza e no crescimento económico inclusivo. Há que mudar o paradigma que advoga que o crescimento económico contribua automaticamente para eliminar as desigualdades sociais e a pobreza, fazendo com que as políticas activas para reduzir as desigualdades sociais e a pobreza ajudem a promover o crescimento e o desenvolvimento económico inclusivo.
A nossa própria experiência, e de outros países, mostra que isso pode ser feito por via de programas como o “Bolsa Família”, medidas de planeamento familiar eficaz, lanche escolar, combate à desnutrição crónica, apoio multiforme à agricultura familiar, microcrédito para pequenos empreendedores, implantação de infra-estruturas com uso de mão-de-obra intensiva, e expansão das iniciativas de promoção da saúde e educação, bem como de abastecimento de água, electrificação, habitação de baixa renda e assistência social.
Os economistas são por vezes acusados de não tomarem posições firmes sobre a distribuição do rendimento.
Alguns deles dizem que é melhor viver numa sociedade rica, onde poucas pessoas são muito mais ricas que as restantes, do que numa sociedade pobre, onde todos são iguais mas se vive com pouco. Parece consensual que muita da economia moderna se baseia mais na eficiência do que na distribuição, embora essa tendência se esteja a alterar nas últimas décadas.
Thomas Piketty, autor de “O Capital do Século XXI” defende que a desigualdade é, em parte, o resultado de escolhas que as sociedades fizeram. E é importante pensar bem nisso.
Oslo, capital da Noruega. Um dos países com mais elevado índice de igualdade social
Uma África (ainda) por descobrir
O continente atrai turistas de todo o mundo pela diversidade da sua vida selvagem e pelas paisagens naturais que permitem um turismo de aventura inigualável. Porém, ainda não consegue tirar o maior proveito do seu potencial
apesar do enorme potencial turístico, África continua a perder tanto em termos de receitas quanto em número de visitantes para a Europa, Ásia-Pacífico e América que, em 2017, receberam mais de mil milhões de turistas. O continente africano, com 62 milhões de visitantes em 2017, o equivalente a menos de 100 mil milhões de dólares, esteve apenas à frente do Médio Oriente, que contabilizou 58 milhões de turistas. Em 2017, sector do turismo no continente africano cresceu apenas 1,0% em termos de visitas e 3,5% em receitas. A Organização Mundial do Turismo estima que o sector registe, em termos globais, uma desaceleração em 2018, depois de ter crescido 7% em 2017, atingindo 1, 3 mil mi-
NtShoNa
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Director-executivo da South African Tourism
Sisa Ntshona defendeu a capacitação sustentável das empresas comunitárias do sector do turismo, pois trata-se de uma oportunidade única, na medida em que se vive “numa era global em que os viajantes estão à procura de uma imersão automática em experiências memoráveis”.
lhões de pessoas. Em 2018, o crescimento ficará entre os 4% e 5%, ajustando-se à recuperação da economia de vários países, especialmente os emergentes (7,9%) e desenvolvidos (5,7%).
Preocupado com a participação do continente no turismo global, o Secretariado da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) prometeu, em Outubro do ano passado, em Gaborone, apoiar de forma activa a RETOSA, a Organização Regional de Turismo da África Austral, no estabelecimento de parcerias que permitam um aumento da participação da SADC de 2% para 5% no turismo global dentro de uma década. Já o ministro sul-africano do turismo, Derek Hanekom, defendeu uma maior
intervenção dos governos africanos na criação de um ambiente de negócios que propicie uma maior integração e intercâmbio continental neste domínio, dando espaço aos investidores privados para apresentarem produtos turísticos ajustados aos consumidores locais.
Na cerimónia de abertura da feira internacional de turismo “Africa´s Travel Indaba 2018”, decorrida em Maio, Derek Hanekom afirmou que “o crescimento do turismo e a partilha dos seus ganhos contribui para a substituição da pobreza e do desespero pela prosperidade e pela esperança”, o que representa uma oportunidade para África, na medida em que é um “sector que cresce mais rápido em relação a outros”, contribuindo cada vez mais para a economia global. “Na África do Sul, o turismo já contribui com cerca de 8% para o Produto Interno Bruto (PIB) do país e emprega 6,5% da mão-de-obra”, informou.
As tradicionais visitas à vida selvagem africana estão a tornar-se cada vez menos atractivas para os turistas, que anseiam por novas opções de diversão e experiências turísticas que incluam mais aventura, segundo operadores sul-africanos do sector.
Para o responsável, a marca “Africa´s Travel Indaba” representa uma oportunidade para as indústrias de viagens do continente africano cooperarem. Por sua vez, o director-executivo da South African Tourism (SAT) defendeu a capacitação sustentável das empresas comunitárias do sector do turismo. Para Sisa Ntshona, trata-se de uma oportunidade única, na medida em que se vive “numa era global em que os viajantes estão à procura de uma imersão automática em experiências memoráveis”.
remar contra a maré
De acordo com a presidente da RETOSA, Lily Rakorong, os Estados-membros da SADC têm a importante tarefa de activar a Unidade de Coordenação do Turismo na região, o que representa um passo importante para a transformação do sector. “Devemos lembrar-nos que a nova prioridade da RETOSA é assegurar parcerias inteligentes com os operadores privados, de modo a que se promova a região como um destino turístico, com base num plano de marketing bem elaborado”, defende a responsável.
Para a RETROSA, o desenvolvimento do turismo intra-regional “é essencial para garantir uma maior contribuição do sector para a economia da região. Entretanto, o sector do turismo na SADC continua
‘indústria da paz’ gera 9,9% de empregos no mundo
O sector do turismo é tido como um dos mais importantes na economia do mundo, sendo que serve de impulso às exportações e é um factor de combate à pobreza em muitos países. Segundo o World Travel & Tourism Council, o turismo é responsável por 10,4% do PIB global e por 313 milhões de empregos, ou 9,9% do emprego total, em 2017. Na região da OCDE, por exemplo, o sector foi responsável por 4,1% do PIB, 5,9% do emprego e 21,3% das exportações de serviços. No entanto, apesar das oportunidades óbvias apresentadas pela trajectória de crescimento esperada, de acordo o relatório “OECD Tourism Trends and Policies 2018”, o turismo enfrenta uma série de desafios, a começar pela complexidade do desenvolvimento da política de turismo devido à sua natureza transversal, multinível e fragmentada e prioridades políticas competitivas e orçamentais, passando por restrições, pelo impacto de factores externos no turismo, incluindo condições macroeconómicas, taxas de câmbio, segurança e protecção e desastres naturais, pela mudança global para uma economia eficiente em recursos e terminando na contínua transformação dos serviços turísticos ligados às tecnologias emergentes e à digitalização da economia.
Ainda assim, “quando construído com base no engajamento amplo das partes interessadas e nos princípios do desenvolvimento sustentável”, o turismo “pode contribuir para um crescimento mais inclusivo através da oferta de emprego e de oportunidades de desenvolvimento económico em áreas urbanas e rurais”, promovendo a integração social, segundo se lê no documento. O turismo também pode aumentar a consciencialização de valores culturais e ambientais e ajudar a financiar a protecção e a gestão de áreas protegidas e a preservação da diversidade biológica.
a remar contra uma maré de incertezas, quer económicas, quer políticas.
De acordo com análises internacionais, as perspectivas económicas para a África Austral são cautelosas, sendo que a actividade económica de base ampla deverá recuperar a um ritmo lento, dados os padrões de crescimento divergentes das economias da região. Os países de renda média-alta apresentaram taxas de crescimento baixas e declinantes. Enquanto isso, economias de transição de baixa renda registaram um crescimento moderado e melhorado, embora a taxas reduzidas”.
De resto, e apesar da melhoria, o desempenho económico permanece moderado, com vários países a enfrentarem altas taxas de desemprego, redução do preço das commodities no mercado internacional, pressão fiscal, o aumento da dívida e da inflação.
Estima-se que o PIB real da região tenha crescido a uma média de 1,6% em 2017, aumentando para 2,0% nas projecções de 2018. O crescimento da SADC, segundo relatórios a que a E&M teve acesso, deverá ser impulsionado principalmente pelas expectativas de aumento do investimento em sectores não petrolíferos, como electricidade, construção e tecnologia, em grandes projectos de infra-estruturas e na mineração.
Turismo responsável
Durante três dias, a feira “Africa’s Travel Indaba 2018”, que contou com a presença de mais de 1 100 expositores, dos quais 661 de fora do continente, promoveu uma série de discussões sobre o turismo em África.
Durante uma sessão de debate, subordinada ao tema “Turismo Responsável”, o líder da SAT defendeu que os sectores privado e público deveriam, ambos, promover mudanças, incluindo as comunidades nos seus projectos.
“Quando as pessoas são excluídas dos projectos, destroem-nos, mas quando participam e são candidatas, são as primeiras a protegê-los”, disse Sisa Ntshona, que, ao encerrar o painel de debate, desafiou cada um dos participantes a procurar soluções.
“Devemos deixar de ser vítimas. O mundo está a olhar para nós. Podemos mostrar que somos capazes de melhorar a gestão e o nosso comportamento”, afirmou, tendo acrescentado: “O mundo olha cada vez mais para África como um continente vibrante, onde pode moldar memórias de viagens duradouras. Juntos, queremos que a
lá fora
A Organização Mundial do Turismo estima que o sector registe, em termos globais, uma desaceleração em 2018, depois de ter crescido 7% em 2017, e chegado a 1,3 mil milhões de pessoas
economia do turismo ajude a escrever a história da prosperidade de África”. A “Africa’s Travel Indaba 2018” contou ainda com sessões de publicidade rápida (Speed Marketing), que cobriram várias áreas de interesse turístico, como património, história e cultura, e vida selvagem e aventura.
Gastos de visitantes devem crescer perto dos 4% até ao final de 2018 O continente africano esteve representado no evento por 23 países, com destaque para o Lesoto, Zimbabué, Tanzânia, Egipto, Botsuana e Namíbia, que expuseram produtos turísticos diversos. Questionado sobre o acesso a cartões Visa em alguns países, em entrevista à imprensa, o ministro sul-africano do turismo anunciava que tudo tem sido feito para tornar mais facilitada a vida dos visitantes e turistas na África do Sul, mas que “nem tudo” depende do seu país. Derek Hanekom lamentava ainda que “não tenha sido mais positivo” o impacto dos vistos recíprocos em alguns destes países africanos. Em 2017, África gerou 48,7 mil milhões de
cArTãO
Indústria perdeu fulgor mas, ainda assim, é lucrativa para a economia sul-africana
8,1
mil milhões de dólares
Valor das viagens internacionais
2,8
mil milhões de dólares
Despesas com transporte de passageiros
dólares em gastos de visitantes e espera que esse valor cresça 4,1% em 2018, um ano em que a região poderá atrair até 74 milhões de turistas internacionais. O dinheiro gasto por visitantes estrangeiros nos países que visitam é uma componente essencial da contribuição directa do turismo na economia. Até 2028, as chegadas de turistas internacionais a África devem totalizar 118.114.000, gerando despesas de 78,5 mil milhões de dólares, um aumento de 4,5% ao ano, de acordo com o relatório “Travel & Tourism, Economic Impact 2018 Africa”, da World Travel & Tourism Council. Ainda de acordo com o mesmo documento, o segmento de “Viagens & Turismo” no continente africano deverá ter atraído investimentos na ordem dos 28,2 mil milhões de dólares em 2017 e poderá aumentar 2,6% já em 2018, e depois a uma cadência de 4,6% ao ano ao longo da próxima década, chegando aos 45,5 mil milhões de dólares até 2028.
TExTO andrade lino e SebaStião vemba fOTOgrAfIA iStockphoto
milhares de milhões de dólares
victoria Falls, Botsuana, um dos mais procurados cenários turísticos de África
OPINIÃO
A juventude e o foco desfocado
Celso Chambisso • Jornalista da Revista Economia & Mercado
o mês passado foi de eventos que marcam com alguma profundidade as transformações que se devem assistir nos próximos dias na vida da nação, desde as eleições autárquicas, cuja transparência divide opiniões e suscita sérios debates, até à alteração das tarifas a serem cobradas pela aquisição ou renovação da carta de condução (que foram agravadas em mais de 500%), passando pelo anúncio de mais investimentos no gás natural.
E, exactamente no calor destes importantes acontecimentos, surge uma notícia em que, simplesmente, não acreditaria se alguém me contasse que viria a ganhar destaque na sociedade moçambicana. Mas ganhou, infelizmente.
Nas redes sociais, manifestações que questionavam aspectos “anormais” que ocorreram nos diferentes círculos eleitorais, sobretudo na Matola, e as que tentavam buscar esclarecimentos sobre a razão do agravamento das tarifas de obtenção e renovação da carta de condução, foram substituídas por um incrível excesso de preocupação com aspectos da vida pessoal de um cantor da praça. Ou seja, tudo o que era verdadeiramente relevante, foi literalmente esquecido e o foco passou a ser um breve desabafo que um jovem músico fez nas redes sociais, sobre aspectos particulares que não levam a qualquer transformação na vida da sociedade.
Jovens que, nem sequer sabiam quem governaria as suas autarquias (os resultados ainda não tinham sido divulgados), nem em que se transformaria o seu habitat com a nova governação municipal, de imediato, dividiram-se em opiniões sobre o caminho que o cantor deve seguir. Era já o maior protagonista da história de uma sociedade. Uns solidarizavam-se e outros faziam troça dele, mas todos pareciam desfocados do essencial. Uma cegueira de todo preocupante, já que do Jovem espera-se, sempre e em toda a parte, que assuma protagonismo no processo de mudança para um país melhor. Desiludiu-me a postura da maioria dos jovens nas redes sociais, em Outubro. Em pouquíssimos dias, acontecimentos im-
portantes para o país viraram “cinza”, também “murchou” o papo mais apetecível do dia… e no fim das contas, todos nós ainda jovens perdemos mais uma oportunidade de assumirmos a posição que se espera de nós.
E ainda veio mais uma prova de que o fútil é o que mais atrai. Depois de a “poeira ter baixado”, nas redes sociais, o jornalista Marcelo Mosse relançou a reflexão sobre a importância e o que está na origem da revisão das tarifas relativas à carta de condução, numa postagem através do WhatsApp. A avaliar pela quantidade de reacções que recebo no meu telemóvel, em comparação com a que recebia (e ainda recebo) sobre os assuntos mais mediatizados (e irrelevantes, diga-se), é normal que só pelo título muitos não se tenham interessado em ler.
Há quem defenda que este hábito de consumo de informação tem ocasionado certo aproveitamento político, no sentido de que inspira alguns grupos a inventarem escândalos sociais para desviarem a atenção da sociedade sempre que há acontecimentos ou decisões polémicas do Governo. Verdade ou não, fica evidente que tal é possível.
Mas esta não é apenas realidade nossa. No Brasil, por exemplo, a revista “Fórum” questiona: “Que juventude é essa que vota no Bolsonaro?” … e o argumento traz aspectos curiosos sobre os hábitos de consumo de informação dos jovens brasileiros: “… é uma molecada (juventude) que não lê jornal impresso, se informa primordialmente pelas redes sociais e, dentro desta esfera digital, é consumidora assídua de canais do YouTube, que, como bem sabemos, está repleto de personagens com milhões de seguidores que são alvos de processos por racismo e declarações odiosas aos homossexuais”. A revista conclui ainda que “este dado é preocupante pois revela uma geração que está a formar-se com base numa mentalidade que não tem apreço pela democracia.”
Não pretendo entrar em questões da política brasileira, mas elucidar a pressão que se exerce sobre os jovens, cuja posição é determinante para a prosperidade (ou não) de uma nação.
As redes sociais são, hoje, o melhor termómetro para medir a consciência dos jovens em relação ao que é, e não é relevante para a estabilidade de um país, ou de uma sociedade. E as evidências a que vamos assistindo neste capítulo, infelizmente, têm sido deveras decepcionantes
ócio
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Nesta edição, encaminhamos a Viagem pelo tentador destino da Beira, que apela a qualquer alma viajante
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Um outro tipo de viagem, esta gastronómica, pelos sabores do Pho Viet, um restaurante vietnamita em Maputo
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A escolha da Adega, recai este mês na maior nota alguma vez alcançada por um espumante português. Prove-o, e aprove-o
(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio
Beira
Sena Hotel
Av. Mártires da Revolução, nº 189; +258 23311070 e-mail booking@ senahotel.net
e à alma do viajante
Beira
um tentador desafio
numa obra publicada já depois da sua morte, intitulada “Anatomia da Errância”, Bruce Chatwin, cujos livros inauguraram (ou re-actualizaram?) todo um género literário no qual a “viagem” se apresenta como contraponto e negação do “turismo”, como que sintetiza, a posteriori, aquilo que na sua perspectiva define a “alma do viajante” e que constitui, a bem dizer, o seu “projecto de vida” (expresso em livros célebres como “Na Patagónia” ou “O Vice Rei de Ajudá”).
Ao contrário do “turista”, preso de itinerários pré-definidos, o “viajante” reencarna a figura do nómada que, pela sua abertura à errância, ao acaso dos encontros, a uma constante disponibilidade para a escuta do “Outro” e uma insaciável curiosidade pelo mistério que cada lugar ou indivíduo comporta, transforma a viagem numa descoberta, sem fim, da
essência do mundo e num desvendamento de si.
A cidade da Beira é um daqueles casos em que o apelo à nossa “alma de viajante” se torna indispensável. Não que seja desprovida de “interesse turístico”, bem pelo contrário. Mas uma excessiva “pulsão turística” arrisca-se, muito provavelmente, a deixar o visitante preso de sentimentos contraditórios e impressões equívocas porque esta é uma cidade que desafia um desvendamento paciente. Uma deambulação apressada impedirá esse trabalho de escuta – das gentes, das ruas, dos espaços – que a cidade exige e merece. Na verdade, a cidade impõe-nos uma “arqueologia do olhar”, isto é, que não nos atenhamos distraidamente pela superfície do que nos é dado ver mas convoquemos antecipadamente tudo aquilo que nos pode ajudar a “ler” a
sua história. A começar pelo incontornável texto de Ilídio do Amaral – “Beira, Cidade e Porto do Índico” – através do qual não aprendemos apenas como a cidade da Beira nasceu de uma expedição militar portuguesa saída de Chiloane, composta por cerca de 30 soldados e 10 operários, embarcados em quatro lanchas, e que aportaram na Ponta Chiveve, a 19 de Agosto de 1887, e “aí instalaram, no dia seguinte, o Posto de Aruângua, num lodaçal e língua de areia de cotas muito baixas e de contornos constantemente modificados pelas marés, na foz dos rios Púngué e Búzi…” e que “...assim principiou a nova povoação, baptizada com o nome de Beira, em homenagem ao Príncipe D. Luís Filipe, nascido nesse ano”. Aprendemos também, de forma detalhada e minuciosa, como esta cidade se ergue em permanente desafio com uma Natureza difícil e se constrói e reconstrói, ao longo
do tempo, presa de um incessante e complexo jogo em que a sua geografia é refém de interacções históricas, sociais e económicas que se movimentam muito para além das suas fronteiras.
Há, portanto, que “construir um olhar” para poder atravessar os diversos sedimentos de que se compõe este centenário tecido urbano.
Mesmo se a deambulação “turística” se faz em mera obediência a um itinerário pré-determinado por “sugestões” avulsas do que é suposto ver, existe hoje toda uma literatura disponível que, se há também no visitante, mesmo de forma subtil ou apenas em potência, essa “alma de viajante”, convirá previamente consultar. É algo que se torna particularmente evidente quando o visitante se confronta com o património arquitectónico da cidade.
Uma rápida e incompleta resenha do que, desde o ano 2000 se tem vindo a publicar, é suficiente para compreender a natureza de edifícios icónicos da cidade, como a Estação dos Caminhos-de-Ferro, o Grande Hotel da Beira, o actual Palácio dos Casamentos, a Casa dos Bicos ou, num outro plano, a Igreja da Manga, que se filiam no Movimento Moderno que marcou a arquitectura das décadas de 50 e 60 do século XX.
Se o exercício de uma “arqueologia do olhar” é o epicentro do desvendamento a que o viajante se deve entregar para poder desconstruir as “aparências cenográficas” que se lhe oferecem, e que nessa deriva de “pequenas narrativas”, construídas a partir de uma interrogação sobre o mistério que a infância é (um lugar? Um tempo?), se deixe “perder” e “encontrar” na errância de uma viagem que remete, no limite, para a insondável “alma de viajante” que existe em todos nós.
a cidade da Beira é um daqueles casos em que o apelo à nossa “alma de viajante” se torna indispensável.
roteiro
coMo iR
A LAM tem vôos frequentes para a cidade da Beira, como destino assim como em trânsito.
onde doRMiR
A nossa escolha vai para o Sena Hotel, alvo de uma renovação recente que o transformou numa das melhores unidades hoteleiras disponíveis.
onde coMeR
texto Rui TRindade
fotogrAfiA Vasco célio
Se está pelo centro da cidade, aconselhamos o incontornável 2+1: cozinha variada e de boa qualidade por preços muito razoáveis. Mas para uma degustação mais descontraída, contemplando o mar e saboreando uns mariscos, a opção passa pelo Beira Mar.
o Que FaZeR
Descubra o património arquitectónico, inspirado pelo Movimento Moderno que marcou as décadas de 50 e 60 do século xx e a igreja Catedral.
não se deixe iludir pela aparência discreta e modesta do espaço. a experiência vale mesmo a pena
restaurante pho viet
Av. Vladimir Lenine 2052
Aberto de 3ª feira a Domingo (encerra à 2ªfeira)
Horário: 7h às 22h
a crescente diversidade da oferta gastronómica na cidade de Maputo é um facto que tem de ser devidamente realçado. Mas não apenas a diversidade. Mais importante, como é óbvio, é a sua qualidade. Para quem gosta de “viajar pelos sabores”, a nossa sugestão deste mês é uma visita ao Pho Viet.
O ambiente é acolhedor, a ementa variada e a degustação convida a voltar pois há muito que fica por saborear apenas numa visita. É frequente desconsiderar a culinária vietnamita como sendo similiar à chinesa, um equívoco que resulta do pouco conhecimento que temos sobre ela. É um facto que existe uma forte influência chinesa na culinária vietnamita. Nem outra coisa seria de esperar se tivermos em conta que os chineses colonizaram o país durante quase onze séculos. Mas ela distingue-se da chinesa de diversas manei-
pho viet
ras: emprega, por exemplo, bem menos gordura, faz uso intenso de ervas aromáticas e especiarias e as receitas vietnamitas levam normalmente mais ingredientes crus, quer sejam vegetais ou animais. Por outro lado, a colonização francesa influenciou também o preparo da comida mas, apesar destas influências, a gastronomia vietnamita soube preservar uma identidade própria que se divide em três culinárias: a do Sul (à base de ervas frescas e pratos tropicais bastante elaborados), a do Centro (com tendência a ser mais condimentada, e em que se utiliza muito o pimentão e a pasta de camarão) e a do Norte, bastante parecida com a cozinha chinesa, com o uso frequente de vegetais em conserva em
o vietname
aqui em maputo
vez de ervas frescas, cogumelos, e pimenta preta em vez de pimentão. Por ter um litoral tão extenso, peixes e frutos do mar são facilmente encontrados por quase todo o país, como também pato, frango, porco e carne vermelha, servidos em combinações exóticas. A base de uma refeição tradicional vietnamita é o arroz branco, acompanhado de legumes ou carne ou peixe. Os esparguetes de arroz são, também, um dos ingredientes principais do pho, prato conhecido e apreciado em todo o Vietname. Trata-se de uma sopa de esparguete de arroz com pedaços de car-
ne de frango ou carne bovina, enriquecida com ervas (geralmente hortelã e manjericão) limão, vegetais, feijão, cebola e pimenta.
A Xalach Dia (salada de ervas frescas), os vegetais verdes, os rebentos de bambu e os vegetais em vinagre são servidos como acompanhamento em quase todas as refeições. Os molhos e condimentos vietnamitas são também extremamente variados. O mais conhecido é o Nuoc Mam ou Nuoc Cham, um molho de peixe salgado diluído em sumo de limão ou vinagre, temperado com alho e pimentões esmagados, com um toque de açúcar, que se pode usar para temperar arroz, crepes, carnes grelhadas, ou ainda para adicionar à sopa. Caracterizada pelo seu equilibrio de sabores e aromas, a cozinha vietnamita é sofisticada, delicada e subtil. Existem portanto motivos de sobra para a experimentar.
quinta dos aBiBes espumante Bruto reserva rosé 2016
País: Portugal
Região: Bairrada
casTas: Baga
coR: Rosado com bolha muito fina
aRoMa: Elegante com predominantes notas de frutos vermelhos frescos
PaladaR: Cremoso, com boa mousse, frescura apelativa, frutado
Final: Envolvente e sedutor
TeoR alcoólico: 12,5%
plano B espumante Bruto 2015
País: Portugal
Região: Bairrada
casTas: Baga
coR: Rosado suave, bolha fina e persistente
aRoMa: Delicado e harmonioso, revela notas de frutos vermelhos e silvestres
PaladaR: Frutado, jovem e fresco, tem bom volume e cremosidade
Final: Longo e sedutor
TeoR alcoólico: 12,5%
ameias espumante rosé Brut nature
País: Portugal
Região: Palmela
casTas: Castelão e Arinto
coR: Rosado, com bolha fina e persistente
aRoMa: Elegante, com notas frutadas, com morangos, groselhas e cerejas em destaque
PaladaR: Vivo, crocante e envolvente, a pedir gastronomia requintada
Final: Prolongado e seco
TeoR alcoólico: 12,5%
vértice pinot noir 2007
País
Portugal
Região
Douro
casTas
Pinot Noir coR rosa leve, bolha muito fina e elegante
aRoMa fresco com com acidez vivificante
PaladaR Cremoso com boa mousse
Final requintado e prolongado
TeoR alcoólico 12,5%
acompanhando esta tendência, os espumantes portugueses têm vindo a ganhar uma grande projecção internacional
vértice pinot noir 2007:
um espumante para todas as épocas do ano
já lá vai o tempo em que os espumantes eram sobretudo consumidos em dias festivos. Nos últimos anos, a variedade e, sobretudo, a qualidade da oferta fez com que eles sejam cada vez mais desfrutados de forma regular nas mais diversas ocasiões e mesmo acompanhando as refeições diárias. Acompanhando esta tendência, os espumantes portugueses têm vindo a ganhar uma projecção internacional que estava predominantemente reservada à produção proveniente de países como a França, ou a Itália. E um bom exemplo desta nova realidade é a forma como os espumantes “Vértice” (para referir apenas um caso) têm vindo a ser distinguidos pelos críticos internacionais da especialidade. Pelo segundo ano consecutivo, Mark Squires, crítico norte-americano e provador oficial da prestigiada publicação e Robert Parker/Wine Advocate, voltou a destacar os espumantes Vértice. Desta vez, a sua análise focou-se no Vértice Pinot Noir 2007, que conquistou 94 pontos, a mais alta pontuação de sempre entre espumantes portugueses.
Na sua nota de prova, Mark Squires afirma que se trata de um vinho “extraordinário, elegante e complexo, com uma surpreendente fruta com esta idade”, chegando mesmo a perguntar “como é possível não querer encher a garrafeira com um espumante desta qualidade a tão bom preço?”.
O crítico aprova ainda o consumo imediato, mas recomenda, para “quem preferir um toque de Champagne mais maduro, esperar uma década para abrir a garrafa”. Seja qual for a decisão, pode esperar-se um vinho “delicioso e muito sério”. Dez anos após a colheita, o Vértice Pinot Noir 2007 valida, com sucesso, uma estratégia arrojada do produtor, que decidiu lançar um espumante produzido à base de uma das castas mais temperamentais do mundo. O objetivo foi demonstrar a expressão desta casta clássica de Champagne na região do Douro, mais concretamente na sub-região do Cimo Corgo, no planalto de Alijó, onde as vinhas atingem uma altitude média de 550 metros.
• em destaque
liteRAtAS – ReviStA de ARteS e letRAS de MOçAMBique
Para celebrar o seu sexto ano de existência, a “Literatas – revista de Artes e Letras de Moçambique” acaba de lançar um número especial comemorativo da data. Actualmente, a “Literatas” – dirigida pelo jornalista e escritor eduardo Quive - apenas tem uma presença online mas, com o apoio do festival Maputo fast forward, foi possível assinalar a efeméride com uma edição em papel. o tema desta edição especial é “Pensar futuro” e inclui um número variado de textos e entrevistas. Participam, entre outros, o cineaste Lícinio de Azevedo, a historiadora de arte Alda Costa, a actriz Lucrécia Paco e a vocalista da banda granMah, regina dos Santos.
deZAine – ReviStA de deSign, CRiAtividAde e inOvAçãO
Dirigida pelo designer Mélio tinga, a revista “DeZAiNe” é a única do género publicada em Moçambique. Um projecto ambicioso e inovador mas até ao momento só tem tido existência online. Com o apoio do festival Maputo fast forward foi possível à “DeZAiNe” ter agora uma edição impressa que foi lançada a 25 de outubro passado no espaço “orange Corners” (na embaixada da Holanda). em destaque nesta edição, uma reflexão sobre o futuro do design em Moçambique feita por rui Batista, Lourenço Pinto e João roxo, a entrevista de Daniel tinga a Nuno Lima, Ceo da Dalima, e um texto do docente e pesquisador Sérgio Jeremias Langa.
exposiçÕes
“O BAiRRO POlAnA CAniçO nA viSãO dA PRóxiMA geRAçãO de ARquiteCtOS MOçAMBiCAnOS ” (CuRAdORiA: MáRCiA OliveiRA)
“FutuROS dA MAFAlAlA” (CuRAdORiA: JOHAn MOttelSOn e ReMígiO CHilAule)
exPOSiçõeS integRAdAS nO PROgRAMA dO FeStivAl
MAPutO FASt FORwARd 2018
Centro Cultural
Franco-Moçambicano
Sala de exposições inauguração: 6 de Novembro
Hora: 18h30
“quiMeRA” quitO teMBe, CHRiS BROwn e geRAldine dARPOux exPOSiçãO integRAdA nO PROgRAMA dO FeStivAl
MAPutO FASt FORwARd 2018
Espaço Criativo 16 Neto (Av. Agostinho Neto 16) inauguração: 7 de Novembro
Hora: 18h
cinema
“ vAgAndO MAPutO” de AuRORe vinOt dOCuMentáRO inCluídO nO PROgRAMA dO FeStivAl
MAPutO FASt FORwARd
Centro Cultural
Franco-Moçambicano
Auditório
5 de Novembro
Hora: 19h
entrada: 150 Mt
“dJAMBO” de CHiCO CARneiRO e CAtARinA SiMãO
Centro Cultural
Franco-Moçambicano
Auditório
12 de Novembro
Hora: 19h
entrada: 150 Mt
inStidOC – CiClO dO dOCuMentáRiO inStituCiOnAl (5ª ediçãO)
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Auditório
De 13 a 17 de Novembro
mÚsica
Hora: 17h e 19h géneSiS live COnCeRtO COReOgRáFiCO AllAn e ídiO CHiCHAvA COM BAndA dugê, CASe BuyAkAH, JR new JOint e ednA JAiMe
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Sala grande 9 de Novembro
Hora: 19h
COnCeRtO AluSivO AO diA inteRnACiOnAl dO HiP HOP
Associação dos Músicos Moçambicanos (r. Magiguana 710) 10 de Novembro
Hora: 18h
5ª SéRie xiquitSi – teMPORAdA de MúSiCA CláSSiCA de MAPutO
Galeria Kulungwana (Pr. Dos Trabalhadores – CFM) 16 e 17 de Novembro
literatura
lAnçAMentO dO livRO “MAtéRiA PARA uM gRitO” de álvARO tARuMA
Camões - Centro Cultural Português em Maputo 29 de Novembro
Hora: 18h
lAnçAMentO dO livRO “FutuROS dA MAFAlAlA” de JOHAn MOttelSOn e ReMígiO CHilAule
Fundação Fernando Leite Couto 1 de Novembro
Hora: 18h
sunday nood
‘new oBject of desire’
em exibição na galeria Machamba Criativa até ao próximo dia 18 de Novembro, “Sunday Nood/New Object of Desire” constitui o novo projecto expositivo do jovem artista visual moçambicano Hugo Mendes.
Nascido em Maputo, Hugo Mendes tem vindo progressivamente a afirmar-se como um dos mais promissores artistas visuais da sua geração. Tendo começado como ilustrador, Hugo Mendes participou, em 2017, na exposição colectiva “Desconstruções”, que teve lugar no Espaço Criativo 16 Neto, e já este ano fez parte de outra exposição colectiva, “Ligados pelo Indico”, apresen-
tada no Centro Cultural Franco-Moçambicano, que juntou artistas da Ilha da Reunião e de Moçambique.
Sobre esta exposição individual, Julia Sarmento, a curadora escreve: “Sunday Nood é uma série de trabalhos que representam um exercício de memória em torno de uma história de amor.”
Os momentos íntimos que ficaram após uma difícil separação resultaram numa série de retratos que registam lembranças evanescentes. Os lânguidos e longos Domingos passados com pouca roupa, enrolados nos lençóis da cama, como era vontade “dela”, trouxeram a motiva-
nascido em maputo, hugo mendes tem vindo progressivamente a afirmar-se como um dos mais promissores artistas visuais da sua geração
ção para o artista criar imagens de sensualidade descontraída, encapsuladas em quadrinhos, a serem vistos como numa” trip” voyeurística emocional, tentando recriar as sensações tingindo o papel com tinta-da-china. Para se reconciliar com “ela” e com as suas memórias, decide expôr os seus sentimentos e esta série de ilustrações nas redes sociais, nomeadamente no Instagram, acompanhando cada post/obra com o hashtag #sundaynood.
Este trabalho está profundamente relacionado com a Internet e as redes sociais, começando pela palavra “nood” alternativa ao Inglês “nude”, que deriva do “calão” comummente usado para significar nudez. Para esta “série”, N.O.O.D deve também ser lido como o acrónimo de “new object of desire” que significa “novo objecto de desejo”, o que revela uma mensagem secreta e reflecte artisticamente a sensualidade natural “desejada” na privacidade”.
sunday nood ‘new oBject of desire’
Hugo Mendes
3ª edição do Maputo Fast Forward Machamba Criativa
(Edifício do Centro Cultural Franco Moçambicano em Maputo)
Segunda a Sexta das 10h às 19h
Sábados das 9h às 13h
Modelo NV300; e-NV200
Camper
coModidades
Sala de estar para até quatro pessoas, minicozinha completa com frigorifico, lava-louça, gás e água corrente
coMbusTíVel
Diesel e eléctrico
como o movimento
o design automóvel está a influenciar
se dúvidas houvesse, bastaria ir a #VanLife, na rede social Instagram, para perceber a dimensão que este movimento atingiu nos últimos anos. Na verdade, são cada vez mais aqueles que decidiram adoptar um estilo de vida “móvel”. E independentemente de referências literárias (“Pela Estrada Fora”, de Jack Kerouac) ou cinematográficas (“Ao correr do Tempo”, de Wim Wenders), o facto é que a escala do movimento #VanLife levou já alguns constructores automóveis, como a Nissan ou a Volkswagen, a investirem no design de modelos especificamente orientados para este novo segmento.
Num artigo dedicado ao tema, a revista Fast Company sublinhava que no recente Salão Automóvel de Madrid 2018,
va Nissan declarou que dois modelos em exposição, o NV300 e o e-NV200, tinham sido desenhados tendo em mente este novo movimento. E enquanto a Volkswagen apostou forte no modelo Grand California, a Mercedes-Benz mostrou o seu excelente Winnebago Revel. Todas estas propostas têm sobretudo em mente o facto de uma percentagem significativa dos adeptos do movimento “Van Life”pertencerem à geração dos chamados millennials (nascidos entre 1980 e 2000). Uma das características desta geração é a sua busca por “autenticidade” e, nesta perspectiva, os construtores automóveis começam a tentar corresponder às suas aspirações que se prendem, igualmente, com um estilo de vida “móvel”, o qual
independentemente de referências literárias, a escala do movimento #vanlife influencia construtores
tem pouco a ver com o ideal “campista” e de “vida saudável” de gerações anteriores. Por isso, os modelos da Nissan, como o NV300 e o e-NV200 camper (totalmente eléctrico), incorporam uma série de comodidades que têm em vista este “estilo de vida”: sala de estar para até quatro pessoas, mini-cozinha completa (com frigorifico, lava-louça, gás e água corrente) e, na hora de dormir, possibilidade de transformar o veículo num “quarto” com uma confortável cama para duas pessoas. Outro bom exemplo de como as construtoras estão atentas a este novo mercado é o modelo Grand California da VW. Com seis metros de comprimento, a marca alemã inclui cama dupla, uma cozinha funcional e casa de banho de grandes dimensões, com acesso a um tanque de água de 110 litros. Em torno do movimento #VanLife surgiram, entretanto, inúmeras empresas que apostam na adaptação e customização de carrinhas e caravanas e, para além de blogues e livros, existe já uma revista especializadaa VanLife Magazine - para todos aqueles que procuram um estilo de vida alternativo.