INDÚSTRIA
A REVITALIZAÇÃO DOS TÊXTEIS E OS DESENGANOS DO ALGODÃO
GÁS
OS INVESTIMENTOS QUE COMEÇAM A FAZER ‘MEXER’ A ECONOMIA
ANJE
O QUE FALTA AOS JOVENS EMPRESÁRIOS NACIONAIS?
TRANSPORTES
AS MUDANÇAS EM ESPERA NUM SECTOR QUE DESESPERA


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INDÚSTRIA
A REVITALIZAÇÃO DOS TÊXTEIS E OS DESENGANOS DO ALGODÃO
GÁS
OS INVESTIMENTOS QUE COMEÇAM A FAZER ‘MEXER’ A ECONOMIA
ANJE
O QUE FALTA AOS JOVENS EMPRESÁRIOS NACIONAIS?
TRANSPORTES
AS MUDANÇAS EM ESPERA NUM SECTOR QUE DESESPERA


6 OBSERVAÇÃO
Maratona do gelo
Realiza-se em Outubro uma das maratonas mais extremas do mundo, no Ártico
8 RADAR
Panorama Banca, Economia, Finanças, Infra-estruturas, Investimento, País
14 MACRO
ENQUADRAMENTO
14 Algodão O que falta para Moçambique voltar a ser uma potência da produção de algodão
18 Gás Depois de anos de espera, os grandes projectos começam finalmente a avançar
26 NAÇÃO
DESENVOLVIMENTO
26 Indústrias criativas O que falta para que as artes se constituam enquanto sector lucrativo para a economia nacional
34 Na voz de... Pablo Ribeiro, director da Fundação Leite Couto
38 PROVÍNCIA
Sofala
Há grandes investimentos no horizonte, do Porto da Beira, à Linha do Sena, assim continue a paz
44 MERCADO E FINANÇAS
Emprego
Um estudo do Banco Mundial revela os maiores problemas do mercado
48 EMPRESAS
PME
Bongani
A primeira marca de charutos premium handmade em toda a África, é moçambicana
50 MEGAFONE
Marketing O que está a acontecer no mundo das marcas, em Moçambique e lá por fora
52 FIGURA DO MÊS
Liderança
Juscelina Guirengane, a presidente da ANJE, aponta o caminho do sucesso para os jovens empresários
54 SOCIEDADE
Transportes
O que está a mudar no mapa dos transportes públicos urbanos na cidade de Maputo
60 LÁ FORA
Zimbabwe
A era pós-Mugabe parece trazer as primeiras boas notícias, depois de anos de declínio

68 Escape Cuba, o lugar da (R)evolução 70 Gourmet O Istambul de Maputo 71 Adega O que é que os Whiskey irlandeses têm 72 Agenda Música, livros, filmes 73 Arte O documentário ‘Madrinhas de Guerra’ 74 Ao Volante O Cullinan é o primeiro SUV da Rolls Royce

a indústria têxtil já foi marca da economia moçambicana até meados da década de oitenta do século passado, acabou por colapsar em consequência da guerra dos 16 anos e do sistema de economia centralmente planificada, adoptado após a independência nacional em 1975.
As calamidades naturais que têm sido cíclicas em Moçambique, motivaram os países amigos nos primórdios da independência nacional a enviar apoios em forma de vestuário usado, vulgo “calamidades” que com o decorrer do tempo estimularam a importação de roupa, calçado e acessórios usados, surgindo um novo tipo de negócio no mercado nacional, envolvendo também famílias que o desenvolvem como um meio de sobrevivência.
Na óptica dos clientes, estas peças embora de segunda mão estabelecem o equilíbrio preço-qualidade, percepção que poderá comprometer os esforços que se têm empreendido para o restabelecimento da indústria têxtil e de calçado no país. Apesar deste novo fenómeno de roupa usada, podemos destacar a capulana, o pano estampado, símbolo de identidade cultural moçambicana, que já conquistou novos segmentos de mercado nacional e além-fronteiras, como uma oportunidade para o relançamento da nossa indústria têxtil.
Uma estratégia clara em relação a importação de roupa usada que provocaram afigura-se urgente, para a concretização deste desiderato, numa altura em que a produção de algodão começa a dar sinais encorajadores para o relançamento da indústria de fiação, razão por que nesta edição fazemos o caminho entre o algodão e a própria indústria.
O Ruanda, um país que ficou marcado profundamente pelo genocídio de 1994, começa a dar saltos gigantescos no restabelecimento da indústria têxtil mas, para o efeito, o Governo de Kigali teve que adoptar medidas radicais relativamente à importação de roupa usada para não comprometer este projecto ambicioso, mas com resultados assinaláveis. Este pode ser uma fonte de inspiração para o caso moçambicano.
A E&M ao abordar este tema, pretende contribuir nesta caminhada de recuperação daquilo que já foi um orgulho para Moçambique, pois quem lê sabe mais.

PROPRIEDADE Executive Moçambique
DIRECTOR Iacumba Ali Aiuba
CONSELHO EDITORIAL
Alda Salomão; António Souto; Narciso Matos; Rogério Samo Gudo DIRECTORA EDITORIAL
GRUPO EXECUTIVE Ana Filipa Amaro
EDITOR EXECUTIVO Pedro Cativelos
JORNALISTAS Celso Chambisso; Hermenegildo Langa; Cristina Freire, Elmano Madaíl, Rui Trindade; PAGINAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Jay Garrido; Vasco Célio PRODUÇÃO Iona - Comunicação e Marketing, Lda (Grupo Executive)
PUBLICIDADE DEPARTAMENTO
COMERCIAL Ana Antunes (Moçambique) ana.antunes@executive-mozambique. com; iona@iona.pt/contacto@iona.pt (Portugal) ADMINISTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBLICIDADE Executive Moçambique; Rua do Telégrafo, nº 109 – Sala 6, Bairro Polana Cimento, Maputo – Moçambique; Tel.: +258 21 485 652; Tlm.: +258 84 311 9150; geral@executive-mozambique.com DELEGAÇÃO EM LISBOA Rua Filipe Folque, nº 10 J – 2º drtº,1050-113 Lisboa; Tel.:+351 213 813 566; iona@iona.pt IMPRESSÃO E ACABAMENTO Minerva Print - Maputo - Moçambique TIRAGEM 4 500 exemplares NÚMERO DE REGISTO 01/GABINFO-DEPC/2018 PONTOS DE VENDA
Pastelaria Taverna - Av. Friedrich Engels
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Andares, loja 20
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Capuchinho vermelho – Av. Vladimir Lenine
Lichinga - Electro Gulamo-Av Samora Machel, prédio da camofil 1ª andar

GRONELÂNDIA, ÁRTICO, OUTUBRO
Porque o Verão está a chegar… nada melhor do que uma corrida pelo frio. Acontece desde 2001, em Outubro, (este ano nos dias 27 e 28), a épica Maratona do Círculo Polar, uma prova, que se inicia no pequeno município de Kangerlussuaq, na Gronelândia. O percurso de 42 quilómetros apresenta uma variação de gelo, neve e cascalho, onde a única constante são as temperaturas abaixo do zero, que fazem elevar até ao extremo as dificuldades das centenas de participantes.
Organizada pela Albatross Adventure Marathons (que organiza outras provas ‘extremas’ na Grande Muralha da China, no deserto de Petra, ou num parque natural da África do Sul), a Polar Circle Marathon é um evento que transporta os aventureiros maratonistas para uma paisagem inóspita, repleta de beleza e grandiosidade natural, e que se apresenta como “uma épica batalha entre a mente e o corpo no cenário desértico da tundra.”



Ferrovia. A construção da linha férrea Tete-Quelimane é “prioridade” de Moçambique para 2019. O Ministério dos Transportes e Comunicação (MTC) anunciou que pretende “viabilizar” a construção da Linha Férrea Chitima – Macuse entre as províncias de Tete e Zambézia.
A vice-ministra dos Transportes e Comunicações assumiu assim que o governo “pretende viabilizar a construção já no próximo ano”. A obra, orçada em 2,40 mil milhões de dólares, será executada por um consórcio em que participam a construtora China Machinery Engineering e a Mota-Engil, prevendo-se que esteja finalizada em 2021.
Estádio. Foi lançada a primeira pedra para construção do Matola Stadium uma infra-estrutura desportiva com capacidade para 12 mil espectadores. Depois de ter investido na compra de um clube em Portugal para facilitar a transferência de jogadores moçambicanos para a Europa e assinar
Chongoene. Vai mesmo avançar a construção do porto de cabotagem de Chongoene, um projecto com um investimento avaliado em 300 milhões de dólares, que inclui uma linha férrea de ligação com o Corredor do Limpopo, em Macarretane, bem como um conjunto de ramais para os projectos estruturantes da economia regional como as areias pesadas de Chibuto, em Gaza e de Jangamo, em Inhambane.
Leonardo Simão, presidente do conselho de administração da Muyaque, anunciou recentemente em Pequim, onde participou no Fórum de
Negócio China-Moçambique, que “existe já uma parceria estabelecida com o China Railways International Group para materializar o projecto.”
O presidente do conselho de administração da Muyaque assinalou ainda que, “após uma avaliação preliminar, as partes estão actualmente a analisar vários tópicos e a equacionar estudos pormenorizados que, numa fase posterior, deverão determinar os custos definitivos do projecto, bem como o tempo de materialização e o retorno do investimento”, deixou expresso.
uma parceria com o FC Porto para a projecção de novos talentos nacionais, a Associação Black Bulls deu mais um passo na sua contribuição para o desenvolvimento do desporto moçambicano.
As obras de construção terão a duração de um ano e meio, num projecto cujos valores não foram revelados.
Grafite. A australiana Syrah Resources vai proceder à emissão de acções ordinárias para angariar fundos que permitam reforçar o investimento no projecto de exploração de grafite em Cabo Delgado. Em comunicado, a empresa mineradora adianta que cerca de “30 milhões de dólares serão aplicados no projecto moçambicano de Balama, no norte de Moçambique.”


OE. O défice do Orçamento de Estado (OE) para o próximo ano deverá manter-se em níveis semelhantes aos deste ano, andando na casa dos 80 mil milhões de meticais, segundo a proposta de lei aprovada no mês passado, em Maputo, pelo Conselho de Ministros. O documento reporta despesas no valor de 324 mil milhões de meticais (acima dos 302 mil milhões de meticais programados para este ano), e receitas globais de, até, 244 mil milhões de meticais.
Apoio financeiro. A CTA submeteu à apreciação do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), um conjunto de projectos num valor global de 1.4
mil milhões de dólares para viabilizar iniciativas de diferentes sectores de actividade industrial, como “o desenvolvimento de portos secos e de águas profundas; parques de energia fotovoltaica; parques de zonas francas industriais; agro-processamento (macadâmia, castanha, etc); unidades industriais (siderúrgica, química); turismo cinegético; logística integrada; e ensino superior.”
A CTA espera que parte significativa do pacote de investimentos seja aprovada em Novembro próximo, no Fórum Africano de Investimentos, em Joanesburgo, África do Sul
Dívida. Credores e Governo continuam a trabalhar no acordo sobre a restruturação da dívida comercial da Empresa Moçambicana de Atum (EMATUM), avaliada em 850 milhões de dólares. De acordo com o ministro da Economia e Finanças, Adriano Maleiane, o documento que propõe o pagamento de 200 milhões de dólares até 2023, sendo a parcela restante entregue a partir dessa data em função das receitas fiscais dos projectos de gás natural – com início de
produção previsto para 2022, “está ainda a ser avaliado” pelos assessores do Executivo moçambicano.
Doação. O Estado voltou a perder a oportunidade de gerir 300 milhões de dólares doados pela União Europeia e que deveriam ter sido canalizados para o orçamento de 2019, por não ter havido ainda esclarecimentos cabais no que diz respeito às dívidas ocultas, contraídas entre 2013 e 2015, no valor de 2,2 mil milhões de dólares.
De acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, José Pacheco, ficou claro que “a suspensão do apoio ao OE continua porque a verba destinada ao país, será aplicada no financiamento a projectos de desenvolvimento e não será gerida directamente pelo Estado.”
Electricidade. A Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) está a desenvolver um programa de investimentos para renovar a infra-estrutura “e conferir eficiência à capacidade instalada, assegurar a operacionalidade e sustentabilidade da cadeia de produção e melhoria da qualidade da energia fornecida aos clientes.”
À luz do respectivo programa, a hidroeléctrica prevê investir cerca de 590 milhões de dólares para recuperar e modernizar o sistema electro-produtor. O financiamento advirá de capitais próprios e crédito bancário.

defende que o Instituto Nacional de segurança Social (INSS) deve “aprimorar a informatização da instituição, para evitar a necessidade de contratação de novos trabalhadores.” Para a governante, esta medida acarreta também uma outra vantagem, sendo “uma das mais eficientes formas de combate à corrupção no sistema de segurança social.”

Pescas. Nos primeiros oito meses do ano, a safra do atum esteve muito aquém das previsões que levaram à criação da Empresa Moçambicana do Atum (EMATUM) há cinco anos. De acordo com a directora geral-adjunta da Administração Nacional das Pescas, Estela Maússe, foram capturadas, nesse período, “apenas 2 433 toneladas de atum, para um potencial estimado em 200 mil toneladas.”
Em Abril passado, o primeiro-ministro Carlos Agostinho do Rosário anunciou a extinção da Empresa Moçambicana de Atum e sua substituição por uma nova sociedade, a Tunamar, ao abrigo de uma parceria com a empresa norte-americana Frontier Service Group, do empresário norte-americano Erik Prince.
Frango. Um centro de reprodução de frango foi inaugurado no distrito da Namaacha, província de Maputo, o primeiro da região sul do país, com capacidade de produção acima de seis milhões de ovos férteis por ano. Com este

A provisão de matéria-prima para o mercado passa pelo fornecimento contínuo de produtos em quantidade e qualidade. As perdas pós-colheita, reduzem em grande medida as quantidades que os produtores poderiam fornecer ao mercado. Este facto, aliado aos riscos e incerteza de mercado, fazem com que o lucro destes, esteja muito abaixo das suas expectativas.
Os riscos e incertezas de mercado aumentam pelo facto de estes estarem desprovidos de informações de mercados (preços, procura, custos de transacção) e as perdas da sua produção aumentam pelo facto de não possuírem armazéns convencionais.
A provisão dos Complexos dos Silos (CS) sob gestão da Bolsa de Mercadorias de Moçambique (BMM) nas regiões com maior potencial agrícola, visa garantir um armazenamento seguro reduzindo assim as perdas pós-colheita. Garantida esta redução, associada à informação da diferenciação do preço pela qualidade, ela poderá contribuir para o aumento de quantidades disponíveis no mercado e que, a médio prazo, o produtor use sementes melhoradas e preste atenção as práticas culturais para aumento da produção e produtividade com qualidade.
Consciente das necessidades básicas dos produtores na época das colheitas, o governo implementa o Sistema de armazenagem com Certificado de Depósito (CD) da BMM. Este, também será usado nos armazéns licenciados pela BMM.
Este Sistema irá ainda permitir que produtores distantes dos CS possam armazenar com segurança as suas mercadorias nestes armazéns e estejam dentro de um sistema que lhes garantam, além de informações atempadas sobre mercados, a classificação e certificação das suas mercadorias e oportunidades de mercado.
O CD, é munido de informação suficiente (tipo da mercadoria, qualidade, quantidade, o valor da mercadoria) que lhe permite ser usado como colateral para aceder a financiamento na banca.
Esta facilidade, vai fazer com que os produtores não vendam toda a sua mercadoria no período em que a oferta é alta (período de colheita) mas sim que a armazenem para colocar no mercado quando o preço for justo.

empreendimento espera-se que o país poupe cerca de 125 milhões de meticais anuais em importação de frango. Para a instalação do empreendimento, considerado como um dos mais sofisticados da África Austral, a Higest investiu 350 milhões de meticais.

Exportações. A Índia foi o principal destino das exportações de Moçambique em 2017, com praticamente o dobro do valor da economia que surge classificada em segundo, a África do Sul, de acordo com os dados do anuário divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística, onde se revela que a Índia comprou a Moçambique bens no valor de 1 621 milhões de dólares, ao passo que a África do Sul adquiriu mercadorias no valor de 884 milhões de dólares.
A China surge nesta lista no quinto lugar, com compras no valor de 252 milhões de dólares, tendo Portugal, ficado em 18.º lugar com 21 milhões de dólares. O volume total das exportações de Moçambique atingiu, em 2017, a casa dos 4 725 milhões de dólares.
Comércio. O comércio bilateral entre a China e Moçambique cresceu 45,13% de Janeiro a Julho, chegando aos 1 492 milhões de dólares.
A balança comercial é favorável ao gigante asiático, que cedeu a Moçambique bens e serviços no valor de 1 092 milhões de dólares, um aumento de 51,93% face ao período homólogo. Já Moçambique vendeu à China 400 milhões de dólares, um salto de 29,32%
em relação aos primeiros meses do ano anterior. A China vem, de resto, assumindo uma posição de peso crescente como parceiro económico dos países da CPLP. Com um volume de comércio bilateral a chegar aos 82 149 milhões de dólares de Janeiro a Julho de 2018, o que representa um aumento homólogo de 21,50%. Moçambique é o quarto maior parceiro da China neste grupo, depois de Brasil, Angola e Portugal, sendo a madeira o principal produto de exportação.
Indústria. Foi inaugurada há quatro anos e prometia, à época, “abrir uma era próspera no sector industrial em Moçambique”. Mas entretanto faliu e até endividou o Estado. Trata-se da fábrica de montagem de automóveis da marca Matchedje. O investimento para a constituição da fábrica, de 150 milhões de dólares, foi resultado de uma Parceria Público-Privada entre o Estado e a China Tong Jian Investment. Hoje, a unidade recentrou a sua actividade na transformação de carcaças de autocarros em salas de aula. Em 2014, ano em que foi inaugurada, a Matchedje Motors esperava assemblar meio milhão de veículos por ano a partir de 2020, tanto para consumo local como para exportação.
Banca. Mais de 70% do capital social dos bancos moçambicanos é detido por capitais externos, uma situação que o governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, considera “positiva”, uma vez que “a existência de grupos financeiros estrangeiros contribui para o aumento da concorrência, diversidade e disponibilidade de produtos financeiros, e por outro, para o
desenvolvimento da indústria em termos tecnológicos”, diz. Ainda assim, para Zandamela, “é preciso uma maior supervisão desses fluxos de capitais estrangeiros na banca”, considerando ser por isso “inevitável” a discussão em torno da supervisão transfronteiriça.
Notação. Países africanos impulsionam mercado da notação financeira. A agência norte-americana Moody’s anunciou que o número de mercados emergentes (EM, na sigla em inglês) com notação financeira soberana, que classifica a dívida de cada Estado, está a crescer desde 2004, com a inclusão dos países africanos. Desde 2013, cerca de 2,6 mil milhões de dólares em ‘eurobonds’ - dívida pública emitida junto de investidores internacionais e em moeda diferente da do país emitente - “foram emitidos por fundos soberanos, sub-soberanos, corporações, instituições financeiras e entidades de financiamento de projectos e infra-estruturas”, destacou a agência de notação financeira internacional, na apresentação do relatório ‘Global Emerging Markets Chartbook’, durante um encontro em Joanesburgo, dedicado a investidores na África subsaariana.
Transporte aéreo. A concorrência ocasionada pela liberalização do espaço aéreo nacional está a resultar “no aumento da procura pelos serviços a aviação em Moçambique”, conclui um relatório do Instituto Nacional de Estatística (INE), que assinala o crescimento do transporte aéreo de passageiros na ordem de 2,4% entre Abril e Junho deste ano, em comparação com os primeiros três meses do ano passado. Neste período, o maior aumento, deu-se ao nível do transporte de carga aérea, que observou um crescimento, substancial de 32,2%.
A companhia Fastjet é apontada “como a principal niveladora de preços para permitir
o aumento da procura pelos serviços de transporte aéreo”, sendo de destacar que a ‘gigante’ Ethiopian Airlines, também anunciou a sua entrada no mercado para Outubro.
Agronegócio. A Future Agro Challenge Moçambique foi premiada com a “Melhor Iniciativa do Ecossistema Empreendedor”, na gala de Awards, pela Southern Africa Startup Awards. O Future Agro Challenge é uma iniciativa global focada em identificar e acelerar organizações criadoras de soluções inovadoras na cadeia de valor do sector agrícola, da produção ao consumo. Em Moçambique, a iniciativa é implementada, pelo terceiro ano consecutivo, pela Moz Innovation Lab.

Tecnologia. Moçambique é o quarto país da CPLP com maior velocidade de internet só atrás do Brasil, Cabo Verde e Portugal, que lidera o grupo, ocupando a posição 153 do ranking mundial de velocidade de banda larga. O estudo foi conduzido pela consultoria Measurement Lab, em parceria com a Google Open Source Research. Singapura, com uma velocidade de download de ficheiros estimada em 1,76 Megabytes por segundo, é o líder mundial neste campo.
Conferência. Decorre no próximo dia 25 de Outubro, no Auditório do Complexo Pedagógico da Universidade Eduardo Mondlane, a Conferência Nacional de Agronegócios, direccionada a empresas e empreendedores que operam na cadeia de valor agrícola.


António Souto • CEO da Gapi - Sociedade Investimentos S.A.
a indústria do entretenimento, muito conhecida pelo termo inglês ‘showbiz’, tem facturado significativas somas financeiras com a comercialização de “milagres”. Seitas religiosas e organizações políticas têm sabido usar meios de comunicação social e montado espectáculos capazes de levar multidões a verdadeiros delírios psicóticos.
O sucesso do negócio reside, em grande medida, na manipulação de ansiedades e expectativas de importantes segmentos da sociedade nacional.
Vem isto a propósito da tendência crescente de shows que se propõem promover empreendedorismo, empresários e novos negócios. Manipula-se a necessidade e, ou o vazio de líderes capazes de empreender novos negócios.
São de saudar iniciativas de reconhecimento público de pessoas que tenham demonstrado capacidade de empreender negócios geradores de postos de trabalho, de modernização de sectores e actividades económicas. O ‘showbiz’ que enaltece estas figuras e o exemplo que elas possam representar como modelos inspiradores é um acréscimo de valor a essas personagens. Contudo, o aproveitamento da ingenuidade e inexperiência comercial de jovens para se organizarem espetáculos custeados por fundos públicos e ou de publicitação de marcas pode ter efeitos perversos.
Nos últimos tempos tem-se assistido a eventos, onde geralmente não faltam adornos atractivos como “líder”, ou “empoderamento” antecedidas de mensagens de estímulo a jovens para se assumirem como empreendedores. Para tal, basta elaborarem umas páginas de texto untadas com algumas aritméticas a que se dá o nome pomposo de “plano de negócios” ou “projecto de negócio”. Em muitas casos são cópias a partir de um qualquer sítio da web. No final, organiza-se um concurso cujo auge é o ‘showbiz’, bem televisionado.
Estas “feiras de vaidades” são um logro perigoso. De facto, induzir-se na mente de jovens a presunção de se terem tornado empresários, porque venceram (?) um “concurso de ideias de negócio” é uma fraude do género das passagens administrativas no nosso sistema de educação. Fraude maior ainda é a -
publicitação massiva e televisionada desses rostos enquanto líderes. Para que uma ideia se transforme num negócio sustentável é preciso muita persistência, disciplina e abdicação.
É também preciso que o ambiente de negócios não seja excessivamente impeditivo. Nenhum jovem pode digerir este cocktail de condições se não for minimamente assistido ao longo de meses ou até mesmo anos.
Estes espectáculos têm um efeito particularmente perverso porque eles manipulam a ansiedade de centenas de milhares de jovens cientes de que, dificilmente, encontrarão um emprego digno. Importa referir um estudo recente divulgado pelo Banco Mundial evidenciando que, ao longo da próxima década, cerca de meio milhão de jovens irão anualmente atingir a idade laboral. As estatísticas económicas dizem-nos também que o sector formal da economia não tem capacidade para gerar nem 30 mil postos de trabalho por ano, o que significa menos de 6%.
Já em tempos me insurgi contra os chamados “7Bis”, aqueles fundos públicos que distribuíam dinheiro barato, mas que nunca se preocupavam com a responsabilização de quem decidia distribuí-los, nem de quem nunca tinha que se esforçar por reembolsá-los. Isto é deseducativo.
Moçambique precisa de uma nova geração empresarial capaz de empreender, inovar, saber acrescentar valor aos recursos naturais, ser capaz de conquistar a boa reputação indispensável para se atrair mais capital financeiro e tecnologia e tudo o mais indispensável para se fazerem nascer empresas competitivas, sustentáveis e criadoras de postos de trabalho dignos. Pois os Moçambicanos vão viver cada vez mais sob a ansiedade dos milhões de postos de trabalho que são prometidos, mas continuam a não existir.
Por isso, Moçambique precisa de menos espectáculos que manipulam estas ansiedades. Moçambique precisa de reforçar as instituições que com profissionalismo, resiliência e persistência já vêm trabalhando com os jovens mais dedicados e capazes de aceitar sacrifícios e riscos… sim, aqueles jovens que, nos distritos e localidades deste país, são a semente de um sector privado que não nasceu de facilidades, nem depende de espectáculos.
Moçambique precisa de toda uma nova geração empresarial capaz de empreender, inovar, saber acrescentar valor aos recursos naturais, ser capaz de conquistar a boa reputação indispensável para se atrair mais capital financeiro e tecnologia


Revitalizar a indústria têxtil nacional em toda a sua cadeia multiplicaria por 15 vezes o valor actual das exportações do sector, geraria milhares de postos de trabalho e milhões de dólares em receitas para o Estado. As metas auspiciosas constam da estratégia aprovada há dez anos para chegar a esse fim, mas pouco se avançou. Porquê?
“com o foco na definição de prioridades e capacidade de execução das mesmas.” Eis o trecho comum de todos os ‘hinos’ entoados em praças que discutem a possibilidade de libertar o país da pobreza. O trecho assenta bem em quase todas as áreas da economia – dado o reconhecido potencial que Moçambique detém – mas cai ainda melhor na indústria têxtil, onde a possibilidade de gerar riqueza é mais do que evidente. “Se perguntássemos hoje, qual é o sector com mais potencial para gerar valor num curto espaço de tempo, arrisco-me a dizer que provavelmente o algodão é a maior oportunidade que conheço”. A frase de Francisco Ferreira dos Santos, administrador do Grupo João Ferreira dos
Santos (JFS) – a mais antiga empresa algodoeira de Moçambique, com 121 anos –traça a dimensão das oportunidades que existem nesta área, e é partilhada por todas as outras entidades entrevistadas pela E&M. Mas o algodão a que Francisco Ferreira dos Santos se refere é apenas a primeira parte de uma vasta cadeia de valor que a indústria têxtil comporta, e que já funcionou em pleno em Moçambique. Ou seja, devolvendo a cadeia ao mercado, o impacto na economia seria gigantesco. “Se conseguíssemos implementar a indústria têxtil em toda a sua extenção, conseguiríamos multiplicar o valor de exportação do sector por 15 vezes”, estima Ferreira dos Santos. Ou seja, os cerca de 40 milhões
de dólares de exportações de algodão alcançados no ano passado de acordo com o INE, teriam resultado em quase 600 milhões de dólares de exportação, com um peso acrescido porque iriam, para além do mais, substituir despesas de importações, o que resultaria numa diferença considerável na balança comercial. Estes cálculos parecem demasiadamente optimistas, mas uma breve noção da complexa cadeia que envolve o sector pode ajudar a compreender o potencial que aqui existe, até porque se trata de uma das indústrias mundiais que mais geram postos de trabalho, a par das indústrias do armamento e automóvel.
Por isso, o potencial do sector não passa despercebido aos olhos dos decisores.
Prova disso é a Estratégia para o Desenvolvimento do Sector Têxtil e de Confecções, aprovada em 2008. No entanto, uma década depois, e como acontece em outras áreas, ela não tem trazido grandes mudanças a este sector produtivo. “Analisando a evolução dos dados estatísticos, a aprovação da estratégia não se reflete no desempenho do sector”, conclui a economista Cerina Mussá, autora de um dos estudos que faz um diagnóstico profundo intitulado “Determinantes da indústria têxtil e vestuário em Moçambique (1960-2014)”. A constatação cria amplo espaço de debate sobre os inúmeros pontos fracos por corrigir.
Produção tem caído
Os problemas começam logo na base da cadeia, a produção. De acordo com o Instituto do Algodão de Moçambique (IAM), a produção tende a diminuir depois do pico histórico registado na época 2011/2012. Com 184 mil toneladas naquela campanha, hoje a produção andará em torno das 70 mil toneladas.
Entre as causas que determinam esta redução, e de acordo com a representante do IAM, Ancha Ainadine, “estão a baixa qualidade da semente; a fraca mecanização e a consequente dependência das condições climáticas. Depois há o preço não competitivo do algodão que leva a uma forte concorrência com outras culturas de rendimento”, explica.
Sobre este último ponto, Francisco Ferreira dos Santos, que é também presidente da Associação Algodoeira de Moçambique (que congrega produtores e processadores primários de algodão), observa que, “sempre que o preço do algodão cai no mercado internacional, a produção na campanha seguinte apresenta uma forte redução porque os produtores (não estimulados por apoios e subsídios) tendem a substituir o algodão por outras culturas de rendimento”, assinala. A isso, soma-se o facto de “o produtor de algodão não ter a consciência da cadeia de valor nem da necessidade de produzir com qualidade”, complementa Ancha Ainadine, do IAM. As actuais 70 mil toneladas de algodão produzidas no país são um resultado escasso para alimentar uma verdadeira indústria têxtil capaz de competir com mercados globais relativamente desenvolvidos. “Antes de tudo o mais, há que pôr em prática acções que permitam aumentar a produção, ampliando, primeiro a área de cultivo, que geralmente é de meio hectare por produtor”, lança a responsável do IAM. Já há algumas empresas que fazem
Com uma indústria de tecelagem inactiva, Moçambique exporta a quase totalidade do algodão descaroçado
Pico de produção de 2012 foi o melhor desde 1973 (144 mil toneladas). Em 2017, caiu para menos de metade
Em milhares de toneladas
FONTE Instituto de Algodão de Moçambique; Estratégia para o Desenvolvimento do Sector Têxtil e de Confecções
agricultura de fomento, mas, não há ainda um amplo programa industrial na área do algodão, pelo que os pequenos produtores são responsáveis por 98% da produção total.
Olhando para o próximo passo na cadeia de valor, o descaroçamento, a situação é um pouco mais animadora. A Associação Algodoeira de Moçambique (AAM) fala de cinco grandes empresas (menos do que já houve): duas nacionais (a própria JFS baseada na província do Niassa) e a Sociedade Algodoeira de Namialo (SANAM) baseada em Nampula. E três multinacionais: a Plexus, a OLAM e a China Africa Cotton. Todas elas estão preparadas, garantem-nos, para fornecer os principais mercados globais (Europa, Ásia e Estados Unidos).
No entanto, as cadeias subsequentes são fracas e por isso quase todo o algodão produzido em Moçambique é exportado assim mesmo, quando ainda não adquiriu, nem de perto, o valor final.
Em todo o mapa nacional desta indústria, existe apenas uma pequena empresa de fiação – a antiga Riopelle, actual Moçambique Cotton Manufacturers (MCM), no distrito de Marracuene, província de Maputo. Trata-se de uma unidade que, de acordo com estimativas do IAM, processa apenas 4% da produção nacional de algodão, sendo que os restantes 96% são destinados à exportação. Não existe nenhuma fábrica de tecidos, mas há algumas tinturarias na província de Nampula e algumas unidades isoladas de confecções, como a Moztex, que utiliza tecido importado de mercados vizinhos.
Falta capital... e cultura têxtil
Outra das grandes dificuldades que constam da Estratégia para o Desenvolvimento do Sector Têxtil e de Confecções é a falta de capital para acomodar as exigências dos equipamentos de tecelagem e tinturaria, fases da cadeia em que são necessários investimentos que desafiam a capacidade financeira do empresariado nacional. A fraca qualidade e o alto custo da energia eléctrica bem como a disponibilidade de mão-de-obra, são outros quebra-cabeças que estão longe de serem resolvidos.
A economista Cerina Mussá, tal como o Presidente da AAM e o Governo reconhecem que, ao longo do período em que a indústria têxtil nacional se retraiu (guerra civil de 1976 a 1992 e a transição de uma economia centralmente planificada para uma economia de mercado), o país perdeu a cultura têxtil que chegou a ostentar e precisa de criar programas de formação do pessoal para revitalizar a actividade.
Após o diagnóstico feito ao sector têxtil, a estratégia de há uma década enumera uma série de medidas para cada uma das suas cadeias de valor. Muitas convergem com as ideias lançadas ao longo do tempo, mas não há sinais de que estejam a ser concretizadas. O ministério da Indústria e Comércio, através do Director Nacional da Indústria, Mateus Matusse, assume dificuldades técnicas e financeiras para pôr em prática a estratégia, mas diz que “as prioridades estão a ser preparadas.”
Algodão
Identificar locais com potencial de produção para garantir a qualidade; promover a interacção entre industriais da área têxtil e de confecções e os intervenientes do fomento de algodão, públicos e privados, para um processo de aprendizagem dinâmico, o que criaria condições para atrair investidores com experiência na integração vertical da cadeia de produto e valor; melhorar a qualidade do algodão através de novas tecnologias e novas práticas de produção, colheita (separação por qualidade), secagem.


Confecções Têxtil
Uma política de procurement iria desempenhar um papel importante no desenvolvimento do sector de confecções, sobretudo em áreas como a saúde e a educação. A demanda consistente e estável de produtos estimularia a realização de investimentos e permitiria, dessa forma, o crescimento do parque industrial. O desenvolvimento do subsector de confecções poderia também ser assegurado por acções que incluam a capacitação das indústrias existentes, a promoção do consumo de produtos locais; e o incentivo à recuperação de indústrias.
Promover investimentos através da revitalização (recuperação das empresas paralisadas e implantação de novas unidades industriais), o que implica a adopção de um programa de promoção. Este deveria incluir a compilação de informação existente sobre a matéria e produção de brochuras promocionais, material que deveria ser colocado à disposição dos potenciais investidores através dos organismos para a promoção de investimentos e/ou outras instituições públicas em missões internas e externas.

Mas Francisco Ferreira dos Santos atenua esta inquietação com o argumento de que a formação “não exige” demasiado esforço científico. “Mesmo comparando com outros players fortes da região (por exemplo, África do Sul, Zimbabwe), Moçambique ainda tem uma classe operária que é fácilmente adaptável. A África do Sul está cheia de sindicatos, o Brasil tem várias exigências ao nível das leis laborais., o que não há em Moçambique. Assim, desde que haja um regime que seja flexível e que dê para ser treinado, o problema da mão-de-obra (que é relativamente barata e menos eficiente) pode ser ultrapassado.”
“É primordial subsidiar a produção” Quando o preço do algodão-caroço (determinado pelo mercado internacional) cai, os produtores tendem a ganhar menos e sentem-se pouco estimulados para manter os níveis de produção. Para corrigir o fenómeno, o ideal seria a adopção de uma política de subsídios à produção em períodos de baixa de preços (algo que se faz, por exemplo nos Estados Unidos, ao contrário do que se possa esperar).
E é também o que os diferentes intervenientes sugerem que se faça em Moçambique. “O Estado já tem, de resto, esta visão em relação a outras culturas consideradas importantes. Se, por exemplo, o preço do milho cai, há uma intervenção para garantir que os preços se mantenham interessantes para o produtor. E no nosso ponto de vista o algodão é uma das culturas que deveriam merecer esta mesma protecção quando necessário”, sugere a AAM, que vê na medida “a forma mais apropriada de fomentar a produção desta matéria-prima, e um dos grandes desafios que o país tem pela frente”.
A esta medida sobrepõe-se um conjunto de outras soluções, como o melhoramento das sementes para fomentar a produtividade e a criação de condições atractivas (incluindo de ordem fiscal) para que se atraiam novos investimentos.
Além das oportunidades para ampliar a base de exportações e a criação de novos postos de trabalho, há grandes oportunidades que Moçambique poderia aproveitar no contexto global. É que África, no geral, começa a ser vista como o continente de oportunidades da indústria têxtil, porque os custos de produção na Ásia subiram. Existe interesse em produtos 100% africanos e há alguns países bem posicionados face a esta realidade, sendo um dos casos de sucesso o da Etiópia. Outra vantagem é que Moçambique consegue beneficiar do mercado de alta

Moçambique já conheceu tempos melhores, quando ainda operavam empresas como a Textáfrica, a Texmoque e a Texlom. Neste momento, apenas a Texmoque está em actividade
renda, como o norte-americano através da AGOA, mecanismo que facilita a exportação de produtos nacionais (e de outros países de África) para os EUA, isentos de taxas aduaneiras. “Só por si, isto justifica a criação da indústria têxtil em Moçambique”, argumenta o presidente da AAM.
Rastreabilidade, uma vantagem por explorar O tipo de produção de algodão que se faz em Moçambique tem um ingrediente muito apreciado pelos mercados mais desenvolvidos da área têxtil, que se designa por rastreabilidade, ou o processamento que consiste na relação directa entre as empresas de descaroçamento e os produtores, salvaguardando informação privilegiada ao cliente final dos grandes mercados (europeu, americano), cada vez mais preocupado com a proveniência e qualidade da matéria-prima, bem como pelas etapas por que passa. “Se conseguirmos gerar toda a nossa cadeia em Moçambique, pela rastreabilidade que as empresas concessionárias já têm
MIL TONELADAS
É O POTENCIAL DE PRODUÇÃO QUE MOÇAMBIQUE TEM. MAS, ACTUALMENTE, O PAÍS EXPLORA APENAS 17,5% DESTE POTENCIAL, DAÍ QUE A PRIORIDADE DAS AUTORIDADES SEJA O FOMENTO DA PRODUÇÃO DE ALGODÃO PARA O CONSUMO INTERNO E PARA EXPORTAÇÃO
do produtor, já conseguimos apresentar um produto robusto e apelativo”, garante Francisco Ferreira dos Santos. Mas é importante explicar o conceito de rastreabilidade neste contexto. A indústria têxtil está globalizada, porque a logística global é eficiente. Por exemplo, o algodão sai de Moçambique, o fio é feito no Bangladesh, o pano é fabricado na Índia. E se determinada marca produzir sapatilhas que utilizem algodão, por exemplo, sem saber a cadeia de valor por detrás da sua produção (rastreabilidade), pode eventualmente ter a sua marca associada a fenómenos negativos, como, por exemplo, a utilização de mão-de-obra infantil. Mas Moçambique assegura esta rastreabilidade e é já uma referência a este nível. Principalmente desde que foi criada a Better Cotton Iniciative, responsável pelas boas práticas e produção sustentável e justa do algodão, para que os seus utilizadores estejam seguros da qualidade do produto. Sendo que Moçambique faz parte desta organização, pelo menos aqui, está no pelotão da frente do sector. Quanto ao resto, teremos de nos fiar no tempo.
Depois de anos de incerteza, a economia dá os primeiros sinais de retoma com o pontapé de saída para o maior investimento da história nacional. Para já, o início da construção da unidade flutuante de produção de GNL e o anúncio do primeiro lote para exportação em Novembro de 2022 são as notícias por que todos (des)esperavam

começou no início de setembro a ser construída, em Busan, na Coreia do Sul, a plataforma flutuante de produção de gás natural liquefeito que irá ser instalada em Coral Sul, na Área 4 da bacia do Rovuma. O momento foi assinalado nos estaleiros de construção naval da sul-coreana Samsung Heavy Industries (parte de um consórcio com a Technip de França e JGC do Japão), numa cerimónia que contou, entre outras, com a presença do ministro dos Recursos Minerais e Energia de Moçambique, Ernesto Max Tonela. A produção estimada de 3,4 milhões de toneladas por ano que sairá da plataforma, (terá 439 metros de comprimento, 65 metros de largura, um calado de 38,5 metros e um peso de 210 mil toneladas), já está vendida na totalidade à BP, que em Outubro de 2016 assinou um acordo
de garantia de compra da totalidade da produção por um período de 20 anos.
O que há de novo?
Até agora, este texto poderia ter sido escrito em 2014, uma vez que notícias a apontar para o início de produção de gás num prazo distante, “mas sempre garantido”, são o que não tem faltado nos últimos anos. No entanto, desta vez, há datas marcadas e assumidas publicamente e, embora nem sempre o calendário seja o mais fiável amigo em projectos desta magnitude, não são apenas rumores, e já foram oficializadas. E não é só o Governo que já anunciou a previsão para o início da produção para o dia 1 de Junho de 2022 (estando o primeiro shipping previsto para cinco meses depois, a 1 de Novembro). Mas, também os principais parceiros, como a Kogas, aguardam o cum-
primento das datas na entrega do gás de Moçambique para solidificar o seu mercado, garantiu o presidente desta empresa, Seung Cheong. “Acreditamos que o projecto da Área 4 é muito importante para nós e como tivemos sucesso no projecto Coral Sul ao longo do ano passado, temos fé que também alcançaremos sucesso nesta fase. Há vários parceiros no projecto de Rovuma, e nós acreditamos que, com o envolvimento de todos e com o suporte do Governo moçambicano, lograremos sucesso na Área 4 do Rovuma”, dizia, minutos depois de ter orientado a visita da delegação moçambicana às instalações da empresa.
Um relatório da Agência Internacional de Energia prevê que a demanda global de gás irá crescer 1,6% ao ano até 2022, e a melhoria nas principais economias asiáticas pode implicar um crescimen-
to ainda maior na demanda por gás moçambicano. A este respeito, a Coreia do Sul é, hoje, um dos maiores consumidores de gás, e parece querer constituir-se como um dos principais compradores do gás da bacia de Rovuma. A seu lado, Tonela sorria e sublinhava o “marco importante para o país” que irá permitir “a criação de cerca de 800 postos de trabalho permanente e assegurar uma fonte adicional de receitas para o Estado. Nos 25 anos seguintes o projecto vai contribuir com cerca de 700 milhões de dólares por ano”, referiu.
Para o ano há mais
Perto de Coral Sul, e ainda na Área 4, um outro mega-projecto tem vindo a avançar e ainda este ano foi submetido o plano de desenvolvimento para o Projecto Rovuma LNG, que prevê a produção, liquefacção e comercialização do gás explorado na Área 4. Descoberto pela ENI em 2012, o campo Coral contém cerca de 450 mil milhões de metros cúbicos (16 biliões de pés cúbicos) de gás natural, e é detido pela Mozambique Rovuma Ventures (joint venture detida pela ExxonMobil, ENI e China National Petroleum Corporation), que controla 70% do bloco, estando os restantes 30% divididos em partes iguais entre a Galp Energia, a Kogas e a ENH. Neste caso, é a ExxonMobil, em nome das concessionárias da Área 4 que vai liderar a construção e operação das unidades de liquefacção e infra-estruturas associadas (capacidade de produção de 7,6 milhões de toneladas por ano), enquanto a Eni ficará com a construção e operação das infra-estruturas de exploração, perfuração e produção, numa operação cuja decisão final de investimento é aguardada para o primeiro trimestre de 2019. No entanto, o grande jackpot no que ao gás natural diz respeito, está situado na Área 1, operada pela Anadarko Moçambique (com participação de 26,5%), a ENH Rovuma, e outras, como a Mitsui, a ONGC Videsh, a BPRL Ventures Mozambique e a PTTEP Mozambique.
Com previsão de produção anual de 12,8 milhões de toneladas de gás, é o maior de todos os depósitos e acarretará a construção de uma fábrica de extracção, liquefação e exportação de gás natural na Península de Afungi, em Cabo Delgado. Após vários anos de avanços e recuos, num investimento global estimado entre 20 a 25 mil milhões de dólares, a decisão final do investimento (FID em ingês) está prevista para o primeiro semestre de
A dimensão dos projectos anunciados para Cabo Delgado levou a que praticamente todos os grandes players mundiais estejam presentes no país
É a principal operadora da Área 1 com 26,5% de interesse participativo. Precisa de garantir a venda de 8 milhões de toneladas para finalizar DFI.
Detém uma participação indirecta de 25% na Área 4 e lidera a construção e operação de todas as futuras instalações de liquefacção de gás.



‘Fechou’ em 2017, com a ExxonMobil a venda de uma participação indireta de 25% da Área 4, através da alienação de 35,7% na Eni East Africa (EEA).
Nasce da união da Eni, ExxonMobil e CNPC. É a empresa que lidera o plano de desenvolvimento do ‘Projecto Rovuma LNG’, também na Área 4.
É a estatal responsável pela pesquisa, prospecção e produção de produtos petrolíferos e detém 10% das concessões das áreas 1 e 4.

Detentora da Petrogal e da Gás Portugal detém 10% de participação do plano de desenvolvimento do projecto Coral Sul, na Área 4.



A sul-coreana detém uma participação de 10% na Área 4 e está a implementar o Projecto de Distribuição de Gás de Maputo e Marracuene.
Petrolífera chinesa, fundada em 1988, está na Área 4 onde adquiriu uma participação indirecta em 2013, através da Eni.
Grupo japonês iniciou actividade em Moçambique em 1997 e faz parte do consórcio de empresas que têm concessão na Área 1.

Multinacional indiana detém cerca de 38 projectos de petróleo e gás em 17 países e já anunciou investimento de 3 mil milhões de dólares na Área 1.

Empresa tailandesa opera no ramo da exploração e produção de petróleo. Detém participação de 8,5% da Área 1 da bacia do Rovuma.

Faz parte de um consórcio de empresas públicas indianasONGC Videsh, Oil India e a Bharat Petroleum Corp - que detêm 30% da Área 1.

2019, num processo que se vai arrastando há pelo menos dois anos, e algo natural, ao que nos diz uma fonte da Anadarko, “num projecto capaz de gerar uma receita global na ordem de 53 mil milhões de dólares para o Estado moçambicano em royalties e impostos directos e indirectos, num período de 25 anos”.
A este respeito, o Financial Times escrevia que a empresa norte-americana anunciou “progressos assinaláveis na negociação de acordos com clientes, garantindo aprovações do governo e de financiamento dos trabalhos de construção, para para dar luz verde ao desenvolvimento até ao final do próximo ano.”
Mitch Ingram, vice-presidente executivo de pesquisa em águas profundas da Anadarko, dizia ao FT que o projecto da empresa está agora “num ponto ideal, porque a desaceleração mundial nas aprovações significa que houve menos concorrência tanto para clientes quanto para os fornecedores que construíam as instalações”. E por isso, anunciou também que o desenvolvimento inicial deverá custar cerca de 7,7 mil milhões de dólares na fábrica de liquefação e exportação de gás, além de um investimento não especificado para poços e oleodutos offshore. Estes valores mostram significativas reduções de investimento, especialmente se levarmos em conta o que se falava
MILHÕES DE DÓLARES
MOÇAMBIQUE SERÁ O
SEGUNDO MAIOR DESTINO DE INVESTIMENTO EM OIL&GAS NOS PRÓXIMOS SETE ANOS, ATRÁS DA NIGÉRIA E À FRENTE DE ANGOLA
nos últimos anos. A Anadarko e os seus parceiros, aproveitaram a desaceleração da actividade global “para cortar o custo total do projecto em 4 mil milhões de dólares”, revela Ingram, mantendo ainda assim a expectativa de produção nas 12,88 milhões de toneladas de GNL por ano quando for iniciada em 2023-24. O ímpeto que a operação ganhou nos últimos meses, tem a ver com os contratos de venda assinados com a EDF da França (15 anos), a Tokyo Gas do Japão e a Centrica do Reino Unido, para os próximos 20 anos. Mas ainda assim, há outros acordos que a Anadarko espera concluir até ao fim
do ano, essenciais para captar novas fontes de financiamento. No entanto, anuncia estar no terreno com as operações de reassentamento de 500 famílias do local onde a fábrica ficará, tendo já cerca de 1 000 trabalhadores no local a fazer preparações e a iniciar a construção das primeiras infra-estruturas logísticas, anunciando que serão 2 500 até ao final do ano.
Melhoria económica
Todos estes movimentos que durante tanto tempo foram aguardados (fazendo desesperar inúmeros empresários que terão chegado demasiado cedo ao país) a economia está a consolidar a retoma, com a contínua recuperação de alguns indicadores macroeconómicos que têm vindo a cair desde 2015. De acordo com o Governador do Banco de Moçambique (BM), Rogério Zandamela, as marcas da recuperação “são bem visíveis” no recuo acentuado da inflação, que se situa agora abaixo de 5% (depois de um pico de mais de 25%), e nas reservas internacionais que recuperaram para cerca de sete meses de cobertura de importações (chegaram a cobrir apenas dois). No entanto, há indicadores que mostram o cuidado que é necessário, com todas estas entradas de capitais massivos numa economia debilitada pelos últimos anos. Dados provisórios do BM mostram um agravamento do défice da conta corrente em 414 milhões (para 1 596 milhões de dólares no fecho do primeiro semestre de 2018) , que se justifica pelo “incremento de compras no exterior de serviços especializados e financeiros, no âmbito da implementação de projectos de gás natural.” Ao mesmo tempo, e quando as notícias parecem finalmente ser boas, surgem as preocupações de segurança na região que estão longe de estarem sanadas e aumenta a concorrência externa, numa altura em que Madagascar anunciou a abertura da primeira ronda de licitações para exploração de gás offshore (a ilha partilha fronteira marítima com Moçambique) juntando-se à Tanzânia, o outro concorrente regional pelas mesmas bolsas de gás, que já anunciou para 2022 o início da exploração. Assim, as boas notícias dos últimos meses e os avanços que foram evidentes, enfrentam agora novos desafios, num processo que pode mudar para melhor, espera-se, a face do país.

as receitas do sector aumentaram 40% no ano passado, para 151 milhões de dólares. No entanto, para o Ministério da Cultura e Turismo, e apesar deste crescimento, a sua contribuição para o PIB continua ainda abaixo das metas estimadas, num sector essencial para o futuro económico e social do país, algo que acontece essencialmente por motivos fiscais. Se, durante anos, foi “complicado” fazer entrar o turismo na formalidade, essa tendência apresenta alguns sinais de mudança.
O que se torna evidente pelo facto de o número de visitantes até estar a decrescer, mas o nível da receita estar a aumentar, algo que evidencia uma melhoria no sistema de colecta junto dos agentes turísticos. Ainda assim, a Autoridade Tributária (AT) quer reforçar a cobrança de impostos num sector que considera ser, actualmente, o “calcanhar de Aquiles” do sistema contributivo, através de “auditorias informáticas”, referiu Amélia Nakhare, presidente da AT.

PARA ONDE SE VIAJA…
Capital recebeu mais de metade do total dos visitantes do país em 2017
Em mil milhões de dólares
CABO DELGADO
… E PORQUÊ
Lazer e negócios concentram preferências
Em percentagem do total de visitantes
Todos os indicadores relativos à oferta cresceram nesta década
Em milhares

Maior fatia da receita do sector vem dos cerca de 125 hotéis do país,
Em milhões de meticais
Pensões 89,1 Pousadas 71,7 Hotéis 3 500
151
Milhões de dólares A contribuição do turismo para o PIB nacional
Em 2017, o número de chegadas foi semelhante ao de 2009
Valor das receitas do turismo tem aumentado, fruto da melhoria fiscal
Em milhões de dólares

Denise Branco • Investigadora e Consultora em Comunicação Intercultural e Tradução para Fins Empresariais, Técnicos e Científicos
várias páginas poderiam ser ocupadas a analisar o sentido conotativo ou denotativo do título deste artigo. O sentido e relevância que o leitor poderá dar a esta combinação de palavras dependerão das suas experiências e histórias individuais e da sua memória colectiva. Essas vivências terão automaticamente gerado um conjunto de significados e emoções que não escolheu racionalizar nesta fase mas que deram significado àquilo que acabou de ler. O certo, porém, é que o sentido da expressão vai muito para além daquilo que é a interpretação mais imediata. E ainda não saímos da esfera da língua portuguesa; não abordámos os desafios de encontrar um sentido equivalente noutra(s) língua(s), nem explorámos o facto de, por vezes, não haver equivalentes experienciais nas outras línguas e culturas, mesmo que o sistema conceptual permita transferir as palavras de uma língua para outra. É sobre este terreno de ambiguidade de sentidos e as suas consequências para a comunicação empresarial que hoje convido o leitor a refletir comigo. Qualquer pesquisa rápida apresentará uma lista infindável de erros de comunicação que empresas (ou os responsáveis pela comunicação?) cometeram e que comprometeram seriamente reputações de indivíduos, empresas, governos. Estes casos são os mais óbvios e mais simples de analisar: o fracasso do alinhamento da relação comunicação global vs local é evidente. Veja-se o caso recente da H&M que, desde o início deste ano, lida com as consequências do uso desadequado de uma palavra num catálogo online. Os protestos sociais que se fizeram ouvir na África do Sul, e depois pelo mundo, em segundos, ou antes, à velocidade de um clique, trouxeram uma factura que vai muito para lá dos 62% de quebra de lucros operacionais e dos 4 mil milhões de dólares em produtos não comercializados. Operar um negócio, qualquer que ele seja, que implique o contacto com uma cultura (culturas de países vs culturas organizacionais) e outras línguas muda por completo o guião de gestão (nos casos em que os líderes das empresas vejam as van-
tagens de alinhar valores pessoais com valores empresariais). Porquê? Porque implica a criação de um terceiro espaço. Um espaço que não pertencendo a nenhuma identidade colectiva em particular - porque a génese do grupo foi mutada - convida ao exercício, e aos ganhos inegáveis, de alavancar diferenças nacionais, empresariais e pessoais. Como é que se consegue? Começando pelo uso da palavra (ou compreendendo a ausência dela) e conhecendo o alcance da mesma desde a comunicação pessoal e organizacional até à escolha do prestador dos serviços linguísticos. A separação entre serviços linguísticos e serviços de comunicação é intencional.
Já não é possível deixar a dimensão cultural fora de um modelo de gestão (é por vezes constrangedor ver a capulana usada em sites institucionais ou logos de empresa sem que o verdadeiro trabalho de integração de culturas profissionais e nacionais tenha acontecido), pelo que as empresas que prestam serviços de comunicação devem desafiar-se a olhar para o seu DNA a partir de um novo prisma: reúnem os ingredientes efectivamente necessários para responder aos desafios da comunicação intercultural? Estão aptas na análise dos perfis de orientação cultural sem cometerem o deslize de os avaliarem? Possuem equipas capazes de gerir significados associativos (subjectivo) vs significados conceptuais (transferência de conhecimento)?
Os tradutores que trabalham na campanha de comunicação são parte da equipa ou lidam apenas com um produto final? (A importância da tradução ocuparia outras quantas páginas.)
Os prestadores de serviços de comunicação e de serviços linguísticos vivem um momento de desafios sem precedentes. Um desafio que perspectivo como uma enorme oportunidade para se transformarem em verdadeiros canais de alavancagem positiva pelo poder que têm de comunicar de formas universalmente compatíveis. A criatividade continua a ser a pedra de toque da comunicação de sucesso, mas não pode mais contornar o facto de (in)voluntariamente estarmos sempre na aldeia global.
Qualquer pesquisa rápida apresentará uma lista infindável de erros de comunicação que empresas (ou os responsáveis pela comunicação?) cometeram e que comprometeram seriamente reputações de indivíduos, empresas, governos, com prejuízos incálcuváveis ao nível da imagem


No mês em que se realiza o maior festival dedicado às indústrias criativas em Moçambique, o Maputo Fast Forward, a E&M olha para o estado das Artes no país. O que falta às várias formas de expressão, da literatura à pintura, passando pelas artes plásticas, o cinema, a música, o design e o digital para se constituirem como um sector produtivo (e lucrativo) para a economia nacional? E porque é que, afinal, lá por fora até já o são, porque em conjunto valem, hoje, 10% do PIB mundial
8,5
A RECEITA GLOBAL DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS EM 2017, SENDO AINDA RESPONSÁVEIS POR EMPREGAR 144 MILHÕES DE PESSOAS EM TODO O MUNDO. SE FOSSEM UM PAÍS, SERIAM A TERCEIRA ECONOMIA DO MUNDO, SÓ ATRÁS DE ESTADOS UNIDOS E CHINA
O momento-chave de toda essa nova visão aconteceu com a produção do primeiro ‘Mapa das indústrias Criativas’, em 1998, decisivo por ter sido o primeiro exercício sistemático de medição das indústrias criativas em todo o mundo, projectado para colectar dados sobre essas indústrias. Descobriu-se então que, à época, elas eram responsáveis por um impacto brutal na economia, responsáveis pela criação de um milhão de postos de trabalho e contribuindo com 4% PIB da Grã-Bretanha, representando uma receita anual de 10 mil milhões de dólares em exportações. Hoje, esse valor multiplicou-se várias vede acordo com as nações unidas, o conceito de economia ou indústria criativa é baseado nas “actividades do conhecimento e produção de bens tangíveis, intelectuais e artísticos, com conteúdo criativo e valor económico”. Algo como uma nova roupagem ao que, tradicionalmente se chamava Cultura, e que sempre foi o parente pobre da economia. Esta nova formulalção, já não assim tão nova, nasceu na metade dos anos de 1990, e foi inicialmente difundida pelo governo do Reino Unido, procurando encontrar uma resposta à necessidade de mudar os termos do debate sobre o valor real das artes e da cultura, e agregar a elas as novas fórmulas que então ganhavam terreno, como as múltiplas vertentes em que o design evoluía e os novos caminhos que se anteviam com a explosão da internet ‘à porta’ e a previsão de um suposto mundo digital virtual que viria a ser real, depois da viragem do século. Este conceito de indústria criativa concretiza então a visão mais ampla das artes convencionais, libertando-as da prisão dos subsídios a que muitas delas
foram votadas, por exemplo em países europeus, e agrupando-as de forma comercial, juntando sob um mesmo conceito expressões em que se juntam as mais tradicionais como o teatro, a música, o cinema, o artesanado ou a literatura, e as indústrias de serviços como a da publicidade e media, a produção e a comercialização de bens criativos, sem esquecer a arquitectura, o design (industrial, publicidade, moda) e a criação e desenvolvimento de meios digitais.
zes e as várias indústrias criativas já representam quase 12% do PIB britânico.
Pouco tempo depois, a definição globalizou-se e o seu peso no mundo alastrou. Hoje, sabe-se que, avaliadas enquanto um todo, essas indústrias geram receitas globais de 8,5 biliões de dólares e empregam 144 milhões de pessoas. Ou seja, se fossem um país, valiam 10% do PIB global, e seriam a terceira economia no mundo, só ultrapassada pelos Estados Unidos e a China.
Ser, ou não ser (uma indústria) eis a questão
Mas quanto valem, hoje, as indústrias criativas em Moçambique, e como se deverá potenciá-las enquanto sector produtivo e economicamente sustentável, em prol do desenvolvimento? Eis a questão de vários milhões de dólares. Em 2011, um relatório intitulado “Fortalecendo as Indústrias Criativas Para o Desenvolvimento em Moçambique”, que resultou do trabalho de um conjunto de agências das Nações Unidas, em colaboração com o Governo de Moçambique, tentou encontrar respostas através de um extenso diagnóstico da situação nacional. O resultado desta primeira abordagem no sentido de criar uma verdadeira indústria criativa no país, foi redigido sob a forma de uma série de medidas para começar a caminhar nessa direcção. A começar por “uma estratégia de comunicação para melhorar o entendimento sobre a importância das indústrias criativas em Moçambique”, em que o primeiro passo deveria passar por “apresentar e discutir as constatações e propostas colocadas no estudo com os responsáveis do Governo para permitir um diálogo de alto nível sobre as políticas a serem adoptadas. Esses eventos seriam participativos e envolveriam representantes de todos os sectores criativos e instituições relevantes, incluindo a comunicação social.”
Depois, em relação à abertura de novos mercados, externos, o documento preconiza “a capacitação de profissionais das artes para trabalharem em rede no exterior, participar em feiras e formarem alianças estratégicas.”
Por fim, a nível interno, propunha-se a “realização de festivais e grandes eventos que podem ser benéficos para o desenvolvimento dos sectores criativos, porque criar uma área de especialização num sector específico atrai pessoas, know-how e promove trocas e aprendizagem. Assim, devem ser encorajados projectos tais como o festivais de filmes, documentários e música de raízes moçambicanas”.

Design: Piratas do Pau apostaram no design, transformando lixo em luxuosas peças de mobiliário artístico
Em 2011, um relatório intitulado “Fortalecendo as Indústrias Criativas para o Desenvolvimento em Moçambique”, que resultou do trabalho de um conjunto de agências das Nações Unidas, em colaboração com o Governo de Moçambique, tentou encontrar respostas, através de um extenso diagnóstico da situação nacional
No entanto, de 2011 até hoje, pouco terá mudado. O Plano Quinquenal do Governo de Moçambique (2015-2019) até definiu esta, como uma das prioridades para “a promoção do emprego e a melhoria da produtividade e da competitividade.” No sector da Cultura e do Turismo, tem sido referida uma “aposta que consiste no desenvolvimento das Indústrias Culturais e Criativas” e, nesse sentido encontra-se em fase de implementação a Política das Indústrias Culturais e Criativas, aprovada pela Resolução Nº 34/2016 de 12 de Dezembro. Mas, muitas das questões levantadas em 2011, mantém-se por resolver: Que mecanismos podem permitir a transformação da produção artística em fonte de geração de renda? E quais são os sectores mais dinâmicos e promisso-
res das Indústrias Culturais e Criativas em Moçambique? E quanto valem elas, agregadas, para a economia?
Casos de sucesso internacionais
Não havendo respostas para estas questões, existem em Moçambique algumas soluções que contornam a lógica local de uma indústria que ainda não deu o passo que falta para se tornar global.
Embora sejam casos isolados há, ainda assim, alguns (muito) bons exemplos que se enquadram no verdadeiro sentido de indústria criativa. Ao nível do design e da criatividade, por exemplo, Os Piratas do Pau, são uma marca gerida pelo casal Nelsa Guambe e Ab Oosterwaal. Ela é uma artista moçambicana, ele arquitecto e designer holandês. Os dois criaram a marca em 2010 e sempre a mantiveram fiel ao conceito original: a reciclagem.
Ab já desenhava mobiliário na Holanda, mas como hobby, apenas para amigos. Foi desde que chegou a Moçambique, em 2009, que começou a desenvolver esta arte de criação com aquilo que muitos consideram lixo. “O material é que manda. Às vezes fazemos uma peça e só depois de concluída é que vemos para que servirá”. É o caso, por exemplo, de uma bomba de água onde foram fundidos pés compridos. Poderá ser um candeeiro, mas Ab acha que no final “até poderá ser um vaso.”
Experiências e criatividade são a base do trabalho deste casal. “Tendo em conta a minha formação, crio peças para ficarem bem em qualquer sala, sem criar ruído. E a Nelsa, como artista, gosta de cor e expressão. Por isso, penso que temos o equilíbrio necessário”, diz Ab. E realmente são peças mais do que utilitárias. São design e obras de arte. As peças dos Piratas do Pau, vendem-se hoje em mercados como a África do Sul, Alemanha e Angola. E pretendem expandir ainda mais, porque se o traço dos desenhos transformados em madeira é moçambicano, a qualidade é internacional. No entanto, há outros exemplos de figuras que ultrapassaram fronteiras com a sua criatividade e que poderiam facilmente ser rostos de uma nova indústria nacional. Como o do designer de moda Taibo Bacar que, cada vez mais, tem feito a sua carreira no estrangeiro e é hoje considerado um dos cinquenta mais influentes designers de moda em todo o mundo. Ou na música, com Stewart Sukuma ou Moreira Chonguiça, que elevam as suas carreiras além-fronteiras há já vários anos. Nas artes plásticas,
Número de horas dedicado a programas culturais na TVM tem diminuído desde 2013
Em horas de emissão anual
música moçambicana
Entretenimento é o que mais horas detém na TV Pública
Já nas privadas, passou de 297 horas em 2013, para 12 vezes mais em 2017
Em milhares de horas de emissão anual
música moçambicana
Religião reúne maior fatia de horas de transmissão
Horas de radiodifusão cultural estão a diminuir desde 2015. Neste sentido, a música nacional predomina
Em milhares de horas de emissão cultural anual
Gonçalo Mabunda passará hoje, grande parte do seu tempo na Europa a expor os seus trabalhos. E até na área das TIC em que Frederico Silva dá cartas em Moçambique e Angola, coleccionando prémios de criativdade e inovação. Depois, há a literatura, onde Mia Couto se tornou um nome maior no universo da escrita nos países de língua oficial portuguesa. São apenas exemplos, é certo, e haverão muitos mais. Agora, imaginemos quanto valeriam todos em conjunto para a economia nacional?
Vontade de mudança
Número de horas de música nacional
Se, nos media, o número de horas para programas culturais tem aumentado sobremaneira, a música nacional continua a ser a principal forma de cultura divulgada pelos media nacionais, principalmente nas emissoras privadas. O que denota uma tendência, pelo menos ao nível do consumo. Falta, no entanto, o enquadramento macro de toda esta lógica. Recentemente, numa intervenção pública, o Presidente Filipe Nyusi falava “da aposta do Governo para com o sector das indústrias culturais e criativas, e na necessidade de incrementar o seu desenvolvimento sustentável e abrangente, sem esquecer as oportunidades para a geração de emprego e de renda”. Durante o Fórum sobre as Indústrias Culturais e Criativas, realizado no final do ano passado, o Presidente desafiava mesmo os intervenientes culturais “a serem mais proactivos, impondo-se na sociedade, ao invés de lamentações, empenharem-se na busca de soluções para os desafios que o sector enfrenta”, e apelava a “todos segmentos da sociedade para contribuírem com ideias para a harmonização da cultura e do turismo”. E realçava, “a necessidade identificar mecanismos que permitam a transformação da produção artística, em ferramentas de geração de riqueza e redução das desigualdades sociais e com amplo envolvimento da juventude e da mulher.” Mas, os desafios, são vários. E as ideias, também. E passam pela coordenação dos sectores intervenientes, tendo-se falado recentemente da criação de uma instituição responsável pela dinamização das indústrias culturais e criativas com um formato similar ao da Confederação das Associações Económicas (CTA), por forma a assegurar o incremento e desenvolvimento das actividades do sector; ou na implementação de uma Política das Indústrias

Culturais e Criativas, no mapeamento da indústria, culminando na defesa da propriedade intelectual e no aproveitamento dos recursos providenciados pelo Fundo Internacional para a Diversidade Cultural. Não deixando de garantir a diversificação das fontes de financiamento em prol do desenvolvimento das indústrias culturais e criativas nacionais. Se pouco ou nada se evoluiu ao longo da década em qualquer destes aspectos, nos últimos meses tem existido um movimento para mudar o estado de coisas. “Só existirá uma verdadeira Indústria quando houver uma intervenção conjugada e coerente em múltiplas frentes, do ensino à formação de públicos, passando pela criação de infra-estruturas adequadas, incentivos à actividade cultural, capacidade de articular políticas públicas com os agentes privados. Já fizemos um primeiro exercício através de um workshop que juntou vários intervenientes do sector cultural. Foi muito interessante, sobretudo pela metodologia utilizada. Porque se o objectivo, a prazo, é criar uma plataforma, então o primeiro passo terá de passar por testar
MUSEUS TÊM VINDO
Cerca de 20% do total de visitantes de museus são estrangeiros
Em milhares de visitantes
Museu de História Natural é o mais visitado do país 2016 2017
85,1 60,5
a capacidade de existir um trabalho colaborativo entre nós. Da parte da União Europeia existe uma disponibilidade, de princípio, em apoiar uma plataforma deste tipo mas isso só irá acontecer se conseguirmos demonstrar que temos, em termos de colectivo, capacidade para a estruturar e levar por diante de uma forma consistente”, diz Pablo Ribeiro, director da Fundação Fernando Leite Couto (ver entrevista completa nas páginas seguintes). O ministro da Cultura, Silva Dunduro, concorda, e até dá o exemplo de integração na cultura em outros sectores da economia: “no contexto contemporâneo das artes e cultura, 37% do que acontece no turismo resulta da cultura. O casamento entre esta e o turismo é uma das apostas mais perfeitas que aconteceu no nosso país” diz. A esse respeito, por exemplo, com o novo Porto de Maputo, uma nova zona franca para cruzeiros projectada para a capital, o Governo ancorou o projecto com uma forte componente cultural e segundo Dunduro, ele inclui “a implantação de empreendimentos culturais destinados a turistas, uma galeria de
arte e um clube para sessões de jazz e várias outras expressões culturais.”
A Inovação e o financiamento. E vice-versa A ‘cavalgada’ da inovação tecnológica nas redes sociais, na inteligência artificial, no crowdfunding e em outros modelos de negócios, tem levado os líderes criativos e culturais a buscarem soluções para a criação de empregos e de riqueza, por forma a “construir sociedades em que valha a pena viver – sociedades vibrantes, expressivas e felizes”, diz Marina Gorbis, directora executiva do Instituto para o Futuro (IFTF), um think tank sem fins lucrativos com sede em Palo Alto, Califórnia, EUA.
E assim é. Grande parte do crescimento nas indústrias criativas provém hoje das ‘createch’ em que a tecnologia é usada para (re)habilitar a criatividade.
Voltando ao Reino Unido, a categoria de TI, software e serviços informáticos cresceu 11,4 % em 2017, e há grandes expectativas em campos emergentes como tecnologia virtual, a realidade

“Resolvemos expandir além-fronteiras os serviços da UX, tentando com isso alcançar mercados de maior dimensão que nos permitam continuar com a nossa missão social, aqui em Moçambique”, assume o fundador da tecnológica
aumentada e a inteligência artificial. Comentando estes dados, a Secretária de Estado para a área Digital, Cultura, e Meios de Comunicação, Karen Bradley, dizia aos media britânicos que “as indústrias criativas desempenham um papel essencial na forma como somos vistos em todo o mundo, mas também são uma parte vital da economia “. E, percebendo esse papel, o governo até anunciou estar a negociar um acordo para fornecer suporte adicional em áreas como infra-estrutura, agrupamento e acesso ao financiamento, e o orçamento do Reino Unido incluiu mais de 500 milhões de libras em investimento em tecnologias, incluindo inteligência artificial (IA), 5G e banda larga de fibra total. Em Moçambique, o cenário é diferente. Os dados estatísticos agregados sobre o valor do sector são inexistentes, apesar das boas intenções anunciadas. Frederico Silva, um dos rostos mais associados ao empreendedorismo digital fala “de dificuldades várias, quando se quer empreender, especialmente nos meios

Q&A: “SECTOR
Pintor e académico, Silva Dunduro, Ministro da Cultura e Turismo, traça à E&M um retrato do estado das artes em Moçambique.
Como é que alguém dedicado às artes chega à política?
Todos nós podemos dar o nosso contributo ao país. Eu sou artista plástico, estou ligado à vida académica, sou dos poucos com formação especifica na área da cultura e quando me foi endereçado o convite para dar o meu contributo ao país, aceitei porque achei que poderia contribuir para a visão do desenvolvimento no contexto contemporâneo das artes e cultura, e 37% do que acontece no turismo resulta da cultura. O casamento entre a cultura e o turismo é uma das apostas mais perfeitas que aconteceu no nosso país, nos últimos anos.
Como vê a cultura hoje no país?
A nossa visão como governantes é a de que a cultura tem de deixar de ser emocional e passar a ser vista também enquanto um bem comercial, para ter o seu contributo na redução das desigualdades sociais. Quando a associamos ao turismo temos a cultura a conseguir dar saltos muito bons em relação às manifestações culturais, o que se traduz em rendimento para as comunidades
Qual será o papel do Governo em toda esta evolução?
Durante muito tempo o Governo foi visto como um Governo paternalista, com uma economia centralizada socialista, com repercussões também na área da cultura. Agora temos uma nova geração, com novos promotores como o Moreira Chonguiça ou o Stewart Sukuma e tantos outros. Há de facto uma nova lógica que diz que não é o Estado quem deve fazer tudo, mas sim cada um deve trabalhar o seu caminho. O Estado deve, sim, ser o órgão facilitador para promover as politicas públicas em conjunto com o sector privado. Estamos nesse caminho, mas sei que ainda teremos um longo caminho pela frente.

digitais.” Por falta de infra-estrutura, de uma lógica combinada entre todos os intervenientes e de uma estratégia clara que aponte o caminho, especialmente num mercado com uma dimensão e limitações próprias, como o nacional. Motivos que o levaram, enquanto fundador da UX (uma tecnológica focada em desenvolver soluções digitais com papel transformador na sociedade) a apontar baterias para o exterior: “no nosso caso, resolvemos expandir além-fronteiras os serviços da UX, tentando com isso alcançar mercados de maior dimensão que nos permitam continuar com a nossa missão social aqui em Moçambique”, explica o jovem gestor. O financiamento, claro, desempenha em toda esta lógica um importante papel. Em 2015, o ministério da Cultura chegou a avançar com a ideia da criação de um Banco da Cultura essencialmente dedicado à concessão de crédito bonificado a artistas e agentes do espectáculo, destinado “a responder aos problemas financeiros da classe artística”, dizia, à época, o ministro Dunduro. Mas, anos depois, a ideia não se materializou.
No entanto, a banca é, de resto, uma financiadora de longa data do meio artístico, em fórmulas que vão do mecenato, ao patrocínio. Mas essa tendência tem vindo a mudar, e a banca será, tendencialmente, um parceiro comercial desta
indústria. Assim ela se torne lucrativa. Olhando para o continente africano, o Prémio Absa L’Atelier (um dos mais prestigiados concursos de artes visuais no continente africano, estabelecido na África do Sul há 33 anos, e em que participam 12 países, entre os quais Moçambique), ilustra “o comprometimento do Absa Group em levar a arte local a um público internacional, destacando-o e dando-lhe valor”, diz Paul Bayliss, curador de arte do museu Absa, que enaltece também “o investimento na criativa economia africana enquanto marca do espírito da africanicidade do Banco”, assinala. Em Moçambique, os principais bancos comerciais têm sido parceiros das artes e eventos culturais, bem como dos poucos festivais que se realizam, como o Azgo ou o Maputo Fast Forward, que se realiza em Outubro. Sendo hoje, a maior mostra da indústria criativa no país, no ano da sua consolidação o objectivo permanece: “ser uma plataforma dedicada à reflexão, ao debate, à criação de redes e parcerias num reconhecimento da criatividade e da inovação como motores da nova economia do conhecimento”. Uma boa razão para se perceber, qual é afinal o estado das Artes em Moçambique.
TEXTO PEDRO CATIVELOS FOTOGRAFIA D.R.


PABLO RIBEIRO Director da Fundação Fernando Leite Couto
ao longo dos últimos anos, temos assistido a uma série de iniciativas que têm tido como objectivo principal identificar o potencial do sector cultural e criativo, e definir as condições adequadas à sua estruturação no sentido de se constituir como um elemento activo no desenvolvimento do país.
À E&M, Pablo Ribeiro, director da Fundação Leite Couto, lança um olhar sobre o que são hoje as indústrias criativas em Moçambique.
Tem havido algumas iniciativas para criar uma verdadeira indústria criativa. Como avalia a situação actual? Antes do mais, gostaria de referir que mesmo antes do relatório da UN sobre este sector, já tinha havido outras iniciativas que, embora não abordassem de forma explícita a questão das indústrias culturais e criativas, tinham, de algum modo, um propósito semelhante em mente. Estou a lembrar-me, por exemplo, da UNESCO, que organizou uma série de encontros com o objectivo de debater a possibilidade de se criar uma plataforma que juntasse os fazedores de arte e cultura de todo o país. Ou dos en-
QUE EXISTISSEM
DETERMINADAS
CONDIÇÕES DE BASE E ESTAS SÓ SÃO POSSÍVEIS
DESDE QUE O SECTOR
CULTURAL E CRIATIVO
SEJA CONSIDERADO UM DESÍGNIO
ESTRATÉGICO PARA O
DESENVOLVIMENTO E, EM CONSEQUÊNCIA DESSE RECONHECIMENTO, HAJA A VONTADE POLÍTICA E CAPACIDADE DE INVESTIMENTO
contros que foram desenvolvidos, entre 2012 e 2015, através da Associação Kulungwana e que foram financiados pela Embaixada da Noruega. Durante esses encontros, realizaram-se quatro grandes seminários nas cidades de Maputo, Beira, Pemba e Tete, durante os quais cerca de 58 agentes culturais, do sector privado e do sector público, e várias estruturas ligadas às artes ou envolvidas na gestão e na produção artística se encontraram para trocar ideias e apresentar projectos. Durante esses encontros nasceu a ideia de se criar uma rede cultural moçambicana a qual não chegou a materializar-se devido a uma série de factores e de constrangimentos de vária ordem. Infelizmente, desde então, não houve nenhum progresso significativo nesta ideia de criar uma plataforma ou rede cultural.
Mas, segundo ouvimos dizer, há uma iniciativa em marcha que retoma essa ideia e na qual a Fundação está envolvida. É possível adiantar algo sobre isso? É um processo que está numa fase muito preliminar e não gostaria de me alongar sobre esse assunto. Quando

“SERIA IMPORTANTE SABER COMO TEM SIDO A RELAÇÃO DOS FESTIVAIS COM OS ESPAÇOS URBANOS”
olhamos para as tentativas anteriores verificamos que se criaram sempre grandes expectativas e depois, por uma ou outra razão, as coisas acabaram por não se materializar. Daí que uma lição a extraír dessas esperiências anteriores é que uma iniciativa desse tipo, a vir eventualmente a tomar corpo, tem de ser construída a partir de uma abordagem e metodologia diferentes.
Como é que estão a trabalhar nesta nova iniciativa?
Sem entrar em grandes detalhes, o que posso adiantar é o seguinte: este processo teve origem numa parceria que se estabeleceu ao longo do ano passado entre a Fundação e a União Europeia (UE) no sentido de desenvolver um conjunto de actividades que se enquadrassem nos programas da União Europeia. Um desses programas da UE tem o foco nas Indústrias Culturais e Criativas. A ideia, de início, era criarmos um evento que envolvesse esse sector. No nosso entendimento, esse evento deveria juntar os diversos actores (festivais, instituições, etc.) e permitir a cada um apresentar o seu programa, as suas actividades e explicar como funcionam e estão estruturados em termos de recursos (financeiros, tecno-
lógicos equipamento, infra-estruturas). Esse evento seria aberto ao público, especialmente jovem, no sentido de permitir uma partilha de conhecimentos e contribuir para a sua formação. Mas também tínhamos em mente que esse evento tivesse uma certa regularidade, isto é, fosse a base de um trabalho contínuo que se traduzisse em resultados duradouros com o objectivo de reforçar as capacidades dos recursos humanos, técnicos e financeiros do sector cultural.
Mas para que este tipo de evento fosse consistente pareceu-nos também que teria de haver um trabalho prévio. Então, em conversa com alguns directores de festivais, responsáveis de organizações culturais e instituições de formação fomos definindo qual deveria ser o caminho que teríamos de fazer para concretizar essa ideia. E a primeira coisa que se tornou clara é que, se o objectivo fosse criar, a médio prazo, uma plataforma envolvendo os diferentes actores do sistema, então teríamos de perceber melhor como é que cada um está estruturado, como funciona a sua actividade.
Pode dar um exemplo?
Vejamos o casodos festivaisque, como sabe, existem hoje em número significativo.
Se tivermos em mente a possiblidade de, numa eventual futura plataforma, puder haver, por exemplo, uma partilha de recursos, torna-se crítico perceber qual é a estrutura dos recursos humanos em cada um deles, de quantas pessoas é composta, quais são as tarefas destas pessoas, qual o ‘know how’ e as competências que elas têm, o seu nível de preparação; e ter também uma noção quer do peso e dimensão de outras estruturas, como equipamentos, maquinaria, computadores, quer dos serviços contratados, para se ter uma ideia precisa de todo o processo envolvido na realização de cada um desses festivais. Finalmente, seria importante saber como é, ou tem sido, a relação dos festivais com os espaços (sobretudo urbanos) onde operam e os respectivos públicos. A ideia, portanto, seria fazer um diagnóstico deste tipo com outras instituições culturais e só a partir daí começar a articular, de acordo com a avaliação feita, os passos seguintes.
E esse trabalho já começou a ser feito? Sim, já fizemos um primeiro exercício através de um workshop que juntou vários intervenientes do sector cultural. Foi muito interessante, sobretudo pela metodologia utilizada. Porque se o objectivo, a prazo, é criar uma plataforma, então o primeiro passo terá de passar por testar a capacidade de existir um trabalho colaborativo entre nós. Então, este workshop teve esse primeiro desígnio que foi o de avaliar como é que oito gestores de instituições culturais, oito gestores de festivais e três gestores de instituições de ensino (que foram os participantes deste primeiro workshop) se podiam juntar numa sala e trabalhar de forma colaborativa para desenvolver um objectivo em comum. A ideia foi avaliar como é que estes “actores”, que partilham, em princípio, um objectivo comum, iriam interagir, quais os elementos de “bloqueio” que iriam aparecer, identificar as diversas opiniões, as diferentes perspectivas e convergências que iriam surgir dentro deste grupo. Foram discutidos muitos tópicos (formação de públicos, reforço das infra-estruturas, o desenvolvimento do mercado de arte e cultura, possibilidade de uma partilha de recursos, etc.) mas creio que o fundamental foi este exercício colectivo no sentido de avaliar os factores de “bloqueio” ou de “facilitação” na relação entre todos e pensar, em conjunto, como ultrapassar as dificuldades identificadas
e potenciar as sinergias existentes. Este tipo de exercício – que irá continuar - foi também fundamental porque da parte da União Europeia existe uma disponibilidade, de princípio, em apoiar uma plataforma deste tipo mas isso só irá acontecer se conseguirmos demonstrar que temos, em termos de colectivo, capacidade para a estruturar e levar por diante de uma forma consistente.
Quando olhamos para as Indústrias Culturais e Criativas, de um modo geral, o que verificamos é que elas só existem quando há um conjunto de pressupostos e de condições de base que estão asseguradas. Acha que elas já existem hoje em Moçambique? Não, de modo nenhum. Não podemos dizer que há uma Indústria Cultural e Criativa em Moçambique. Como refere, para isso seria necessário que existissem determinadas condições de base e estas só são possíveis desde que o sector cultural e criativo seja considerado um desígnio estratégico para o desenvolvimento e, em consequência desse reconhecimento, haja a vontade política e capacidade de investimento para ela se tornar efectiva. Só existirá uma verdadeira Indústria Cultural e Criativa quando houver uma intervenção conjugada e coerente em múltiplas frentes, do ensino à formação de públicos, passando pela criação de infra-estruturas adequadas, incentivos à actividade
“NÃO VAI HAVER UMA INDÚSTRIA CULTURAL
E HUMANOS. E SEM CONDIÇÕES PARA A EMERGÊNCIA DE UM
‘MERCADO CULTURAL’,
A CIRCULAÇÃO DE PRODUTOS E SERVIÇOS CULTURAIS TAMBÉM NÃO VAI ACONTECER”
cultural, capacidade de articular políticas públicas com os agentes privados.
Isso significa que, como acontece na generalidade dos casos a nível internacional, o Estado tem um papel importante a desempenhar. Como vê, o papel do Ministério da Cultura neste contexto?
Têm havido, como já falámos, vários estudos e relatórios sobre o potencial das Indústrias Culturais em Moçambique. Em todos eles foi feito feito um diagnóstico e foram sugeridas medidas concretas, nomeadamente no que diz respeito ao papel do Estado. Parece-me, no entanto,

que haveria, neste momento, necessidade de fazer um diagnóstico ao próprio Ministério da Cultura, ou seja, um diagnóstico aos serviços do Ministério, às Casas da Cultura, às Direcções Provinciais da Cultura, às Direcções Municipais da Cultura etc., no sentido de perceber melhor quais são, de facto, os recursos existentes e de que forma estão a ser utilizados. Existem grandes debilidades, por exemplo, ao nível da formação em todos essas estruturas e uma notória incapacidade de responder adequadamente às exigências do sector. Ora, é fundamental que esta estrutura pública possa acompanhar e apoiar de forma competente as actividades culturais. A sensação que se tem é a de que falta uma verdadeira “coluna vertebral”, uma visão, algo que ligue e articule todas as actividade culturais e torne claro onde se pretende chegar. E esta falta de visão tem, por seu turno, um tremendo impacto em inúmeros outros aspectos deste sector.
Por exemplo?
Um deles diz respeito ao entendimento do que é necessário para que exista um “mercado cultural”. O “mercado” que existe hoje não gera rendimento... Tanto ao nível da Lei do Mecenato como ao nível meramente “burocrático” - que diz respeito à obtenção e funcionamento de licenças, autorizações e outros documentos necessários para desenvolver as actividades culturais - há um trabalho urgente a fazer. Outro exemplo tem a ver com a necessidade de uma redução fiscal na importação de determinados tipos de materiais que não são produzidos em Moçambique e que são indispensáveis para inúmeras actividades culturais. Isto são coisas onde o Estado e o Ministério devem ter um papel. Por último, a questão as infra-estruturas: em todas as cidades e municípios existem cinemas, espaços culturais, casas da cultura, que precisam de ser recuperados. Não vai haver uma Indústria Cultural sem investimento em infra-estruturas e em recursos tecnológicos e humanos. E sem condições para a emergência de um “mercado cultural”, a circulação de produtos e serviços culturais também não vai acontecer e... não haverá, portanto, Indústria Cultural. É na criação destas condições de base que me parece que o Estado tem um papel a desempenhar.
O porto da Beira, a linha de Sena, a Zona Económica Especial de Manga Munga-Mungassa e o Parque Nacional da Gorongosa estão entre os principais motivos para acreditar no futuro da Província de Sofala, onde o crescimento foi interrompido pelas armas, mas que hoje testemunha um retorno à estabilidade política e social

o franco crescimento da actividade económica que se registava há alguns anos foi interrompido pelo ressurgimento do conflito político-militar na serra do Gorongosa, e o relógio parece ter andado para trás no tempo. Mas, de há alguns meses a esta parte, ele parece ter-se voltado a cronometrar com os dias do presente. Mas porque (re)construir dá muito mais trabalho do que destruir, a recuperação irá exigir mais tempo do que os três anos que fizeram retrair a economia local. A retoma será determinada pela dinâmica de áreas-chave como a logística, o turismo ou a indústria. Com a utilização plena do corredor da Beira, o restabele-
PROVÍNCIA SOFALA
CAPITAL BEIRA
ÁREA 68 018 KM²
POPULAÇÃO 2 280 000
REGIÃO Centro
cimento da linha de Sena (que tinha sido interrompida durante o conflito) para o transporte de pessoas e carvão de Moatize, (na Província de Tete) e o repovoamento do Parque Nacional da Gorongosa que tem um peso assinalável ao nível da receita turística da região, juntando à Zona Económica Especial (ZEE) de Manga-Mungassa, que volta a gerar oportunidades de negócios aos empresários locais e estrangeiros. “Naturalmente, Sofala está a voltar a entrar na rota do desenvolvimento. O volume de investimento que temos tido demonstra um crescimento extraordinário, e sentimos que, a breve trecho, Sofala volta a entrar no
xadrez da economia nacional”, afirma Lénio Mendonça, director provincial da Economia e Finanças de Sofala à E&M, enfatizando que “todos os indicadores que a província tem vindo a registar estão a permitir que os investidores comecem a olhar para a Província pelo que ela tem de melhor, da sua localização geo-estratégica ao agronegócio”.
A posição é perfilhada pelo Instituto de Estudos Económicos e Sociais (IESE), que confirma alguns indícios de renascimento da economia de Sofala, graças ao fim do conflito político-militar: “nos principais distritos nota-se impacto significativo do ponto de vista da estabilidade política, social e económica”, revela uma publicação intitulada “Desafios para Moçambique”, publicada no final do ano passado. Na mesma linha, Mendonça aponta que o volume de investimento neste momento tem estado a crescer uma vez que se tem “feito o melhoramento das vias de acesso que ligam o corredor a outras províncias e países vizinhos”, assinala. E um sinal disso, é que as receitas já começaram a aumentar exponencialmente. “Só no primeiro semestre deste ano, conseguimos chegar aos 14,6 milhões de dólares, e isso corresponde a um aumento de 71,2% em relação ao período homólogo”, revela. Para o governo local “não restam dúvidas” quanto ao potencial económico de que Sofala dispõe. E além das infra-estruturas, também a agricultura, pescas e a indústria de transportes são outros vectores essenciais para o desenvolvimento da economia da Província, de acordo com a Direcção da Economia e Finanças de Sofala. “A agricultura contribui hoje com um volume entre 35% a 45% da produção global da região. Depois seguem-se as pescas e os transportes e logística.”
O potencial
Do ponto de vista geográfico Sofala sempre teve uma importância vital no trânsito de bens e mercadorias entre o hinterland (nomeadamente o Zimbabwe) e a costa marítima, através do corredor da Beira. Por via terrestre, o tráfego percorre a Estrada Nacional EN 6, ou o sistema ferroviário (Beira-Machipanda, Beira-Moatize, por onde é escoado o carvão da mina da Vale), que desagua no Porto da Beira (o terceiro mais movimentado do país atrás de Maputo e Nacala).
Recentemente, e reconhecendo as potencialidades de Sofala, o Governo aprovou em Conselho de Ministros, um plano de investimento no valor de 290 milhões de dólares com vista a alargar a capacida-
PORTO DA BEIRA VAI
AUMENTAR CAPACIDADE
Plano de investimentos prevê 290 milhões de dólares até 2033. Incremento vai gerar superavit de receita de 900 milhões de dólares.
A Cornelder renovou a concessão do Porto por mais 15 anos
Capacidade em milhares de toneladas
2018 2033
MILHÕES DE DÓLARES
750 1 200
FONTE: Governo Provincial
O VALOR DOS PROJECTOS DE INVESTIMENTO
QUE O SECTOR DA AGRICULTURA DE SOFALA RECEBEU ENTRE 2011 E O PRIMEIRO
SEMESTRE DO ANO CORRENTE
de de manuseamento de carga do porto, de forma faseada ao longo da próxima década e meia. Na primeira fase, pretende-se um aumento dos actuais 750 mil toneladas de carga, para 1,2 milhões de toneladas por ano.
Com isso, espera-se um aumento da receita global na casa dos 900 milhões de dólares, e parte dela, já tem destino marcado, até porque na concepção do governo de Sofala este constitui apenas um de vários mecanismos de adição de receitas fiscais que serão destinadas à melhoria de infra-estruturas de apoio à agricultura. Mas não só, diz-nos o representante do governo local: “de uma forma geral, os investimentos feitos na melhoria de infra-estruturas de que Sofala dispõe, constituem-se como resposta ao compromisso de alavancar o desenvolvimento integrado na reanimação da economia provincial, a melhoria do ambiente de negócios para, de forma paulatina, fazer face aos desafios existentes na conjuntura actual de desenvolvimento. Queremos retomar a posição que a Província sempre ocupou no capítulo do desenvolvimento.”
Para o presidente do Conselho Empresarial (CEP) em Sofala, Ricardo Baúte, o ambiente de negócios na província“ tem
registado melhorias, principalmente nos últimos dois anos, com enfoque na área empresarial, após a implantação dos conselhos empresariais em todos os distritos da província”, revela. Pedro Coelho, gestor de transportes de carga da transportadora TCO, alinha no mesmo diapasão: “Sofala está a voltar aos bons níveis de desenvolvimento e não há motivos para lamentações, uma vez que o governo provincial tem feito esforços para voltar a colocar a Província na rota do desenvolvimento económico”, diz.
Os números da produção global confirmam essa recuperação: este ano, as estimativas apontam para mais de 4,9 mil milhões de meticais, o que representa um crescimento de 43.5% face ao período homólogo, sustentado pela melhoria registada nos sectores da agricultura, pescas, indústria e comércio, tendo-se registado ainda uma subida no valor dos projectos de investimento aprovados pelo Centro de Promoção de Investimento para a região de 1,2 mil milhões de meticais há dois anos, para 3,8 mil milhões de meticais, no ano passado.
Há que reconstruir as vias de acesso
Nos próximos anos, o grande desafio passa pelas vias de acesso, e o governo provincial aponta esse como “o grande investimento futuro”. Nomeadamente, a finalização do troço Beira-Machipanda (270 quilómetros), mas não só: “há um conjunto de infra-estruturas públicas a recuperar como a asfaltagem do troço Tica-Buzi e nova Sofala, que vai provocar grande impacto na estrutura económica da zona sul da província, o que, aliado à reabilitação da EN6 e das linhas férreas da Beira-Machipanda e de Sena, no percurso de Beira-Moatize, voltará a colocar a província na rota do desenvolvimento económico.”
No entanto, os projectos de investimento não se ficam pelas infra-estruturas. Lénio Mendonça, avança que nos últimos dois anos, o número de projectos tem registado uma evolução. “No ano passado tínhamos 28 projectos, este ano, foram aprovados 32 em áreas como a agricultura, a indústria e a logística.”
Alguns desses projectos, destinam-se a integrar a Zona Económica Especial de Manga-Mungassa (ZEE, ou áreas de actividade económica em geral, geograficamente delimitadas e reguladas por um regime fiscal e aduaneiro específico), criada em 2012 e que, segundo o director provincial da Economia e Finanças de Sofala, “regista um crescimento do número

Gorongosa: o Parque Nacional mais emblemático do país será uma importante fonte de receita para o turismo
O valor dos investimentos quase triplicou nos últimos dois anos e também o número de projectos em áreas como a agricultura, a logística e a indústria seguiram pelo mesmo caminho
de investimentos. Sentimos em alguns momentos um abrandamento, mas já se sente claramente um movimento que nos leva a prever que nos próximos tempos a ZEE de Manga-Mungassa vai impulsionar o desenvolvimento de Sofala”.
Agro-processamento ainda fraco
Se a agricultura tem atravessado um mau período noutras províncias, por Sofala é uma actividade sustentável, devido ao alto nível de produtividade, acima da média nacional, sobretudo na produção de ananás, arroz e citrinos. Mas esta realidade não é acompanhada por uma outra: a implantação de uma indústria de processamento suficientemente capaz, já que actualmente apresenta uma capacidade bastante limitada para responder às necessidades.
A esse respeito, a Província conta com alguns apoios externos. Ainda no mês passado, o Banco Mundial anunciou um investimento de mais de 50 milhões de dólares ao sector agrícola de Sofala e ou-
tras províncias do norte de Moçambique, direccionados a programas de reabilitação de regadios com vista a incrementar a produção do arroz. A cadeia de valor do agronegócio tem sido, de resto, das mais beneficiadas a este nível, e totaliza 334 milhões de dólares doados desde 2011. No entanto, a devastação provocada pela instabilidade político-militar levou a que os frutos desse investimento, nunca tivessem sido colhidos, neste caso literalmente, sendo o próprio executivo local a admitir ser esta, “uma área deficitária na Província.”
De acordo com o director provincial de Agricultura e Segurança Alimentar de Sofala, Adérito Mavie, os distritos do Dondo, Gorongosa, Nhamatanda e de Chibaba, são os principais pólos de produção agrícola da província, e é onde estão maiores projectos de investimento agrícola. O desafio, passa agora por melhorar substancialmente as vias de acesso nesses distritos de forma a permitir um melhor escoamento da produção.”
Gorongosa reconquista lugar no turismo
O Parque Nacional da Gorongosa constitui-se como um dos principais chamarizes turísticos da região e uma das maiores maravilhas de Moçambique no que à biodiversidade diz respeito. Foi graças ao repovoamento das espécies que incrementou o volume de visitantes, que contribui já hoje com uma importante fatia das receitas (no caso turísticas) para a Província, incluindo a criação de oportunidades de emprego na região. No entanto, para a direcção provincial de Cultura e Turismo, este ainda não atingiu o nível exponencial expresso na captação de receitas à altura do seu potencial. “As receitas têm demonstrado uma ligeira subida depois da instabilidade político-militar que afectou aquela zona, e notamos que o Parque tem voltado a merecer a visita de muitos turistas. Porém, ainda não o estamos a explorar no seu máximo potencial.”
Segundo Mateus Mutemba, administrador do Parque, a captação de receitas “provém do desenvolvimento do ecoturismo no local, uma fonte que tem proporcionado ganhos significativos à Província de Sofala, mas ainda há um longo trabalho que está a ser feito por vários sectores do governo que vão ajudar o Parque Nacional da Gorongosa a entrar no mapa de captação dos principais contribuintes para o Estado.”
E até dá um exemplo de como o Executivo pode ajudar a este nível: “a título de exemplo, o ministro das Obras Públicas e Habitação acaba de lançar a primeira pedra para a reabilitação do troço Inchope- Caia. São estes investimentos que por vezes estão a montante da nossa capacidade, e que vão, em última análise, permitir que o volume de turistas e visitantes do Parque aumente”, assegura Mutemba. Para já, o governo provincial de Sofala coloca o desafio na “criação e melhoria de infra-estruturas suficientes para impulsionarem a economia, sobretudo a componente de estradas e serviços logísticos”. Porque, como nos diz Lénio Mendonça, director provincial da Economia e Finanças “tendo as vias asfaltadas, o resto da economia vai começar a evoluir”. Recentemente, Sofala até foi eleita como a melhor expositora da FACIM, que aconteceu no início de Setembro. Vale o que vale, mas é bom para o orgulho local e até pode ser um sinal de que algo está a mudar.

A criação de uma cadeia de valor no agronegócio está em marcha, e será determinante para a criação de uma nova geração de empresários
The creation of a value chain in agrobusiness is underway. And it will be a decisive step for the creation of a all new generation of entrepreneurs
nos arredores de maputo, na zona das Mahotas, nasceu a primeira horta comunitária onde estarão instalados os primeiros 30 candidatos do programa Via: Rotas para o Trabalho, que se propõe a lançar no mercado 1 250 jovens empresários nas área do agro-negócio (hidroponia) e da indústria de construção, até 2025 .“Temos já um conjunto de candidatos que querem dar aqui os primeiros passos de uma nova vida profissional, ligada à produção agrícola, iniciando o seu próprio negócio”, explica Rui Amaral coordenador da área de género e juventude da Gapi, responsável pela implementação do programa.
A iniciativa , desenvolvida em parceria com a The Master Card Foudation e a International Youth Foudation, enquadra-se nas acções do Juve-Inova, uma plataforma implementada pela Gapi em conjunto com uma rede de parceiros com competências para identificar, seleccionar e prestar assistência técnica multiforme a jovens que revelem capacidades e empenho na criação e/ou expansão de pequenos negócios. E Amaral acrescenta que “a ideia é que, após o processo de candidatura, haja um período de aprendizagem nestas sombrites (espécie de estufas equipadas com sistemas de hidroponia e rega gota-a-gota, e tecnologias que respondem aos desafios das mudanças climáticas e permitem a produção em todas as épocas) em que irão ser formados no cultivo e comercialização dos seus produtos.”
Técnicas inovadoras
Depois, mesmo ao nível das técnicas agrícolas, o processo é inovador. “Sim, de facto. A ideia é que se utilizem técnicas de agricultura modernas, como a hidroponia (usando água ou substracto mis-
on the outskirts of maputo, in the Mahotas area, was born the first community garden where the first 30 candidates of the Program ‘Via: Rotas para o Trabalho’ will be installed. The goal, is audacious, and it aims to launch 1,250 young entrepreneurs in the agribusines and the construction industry until 2025. “We already have a set of candidates who want to take the first steps of a new professional life, linked to agricultural production, starting their own business”, explains Rui Amaral, coordinator of the gender area Gapi, responsible for implementing the program.
The initiative, developed in partnership with The Master Card Foudation and International Youth Foudation, is part of the actions of Juve-Inova, a platform implemented by Gapi in conjunction with a network of partners with the proved skills to identify, select and provide technical assistance to young entrepeneurs who reveal the will and commitment in the creation and expansion of small businesses. And Amaral adds that “the idea is that after the application process there will be a learning period in these sombrites (kind of greenhouses equipped with hydroponic and drip irrigation systems and technologies that respond to the challenges of climate change and allow production at all times) in which they will be trained in the cultivation and marketing of their products. “
Innovative techniques
Then, even at the level of agricultural techniques, the process is innovative. “Yes, indeed. The idea is to use modern farming techniques such as hydroponics (using water or substrate mixed with a solution of essential nutrients to the plant, rather than

turados com uma solução de nutrientes essenciais à planta, em vez de terra), ou até recorrendo a hortas elevadas (para proteger fisicamente os agricultores do desgaste). E também damos formação ao nível da escolha das melhores sementes de rendimento, e quais as culturas mais adequadas”, explica.
Os ciclos de formação prolongam-se por quatro meses, sendo os jovens acompanhados, em permanência, pelos técnicos da Gapi, que irão também leccionar “matérias ligadas à gestão de negócios, literacia financeira, habilidades de vida e técnicas de acesso e contacto com os mercados” complementa. No final, e após as etapas pelas quais os jovens agricultores-empresários irão passar, o objectivo é tão simples quanto auspicioso: dotá-los de instrumentos, e ferramentas de experiência e conhecimento essenciais para que possam tornar-se, eles próprios, continuadores do seu negócio. E é nesse sentido que a Gapi preconiza a criação de um conjunto de instrumentos financeiros que os


land), or even using lifeted gardens (to physically protect farmers from wear and tear from their hard labour). And we also train at the level of choosing the best yield seeds, and which crops are the most appropriate, “he explains. The training courses are extended for a perior of four months, with the young people being continuously monitored by Gapi specialized staff, who will also teach “the studentes and duture entrepeneurs a set of skills related to business management, financial literacy, life skills and market access techniques and contact with the retail markets “complements.
In the end, and after the steps all of this young entrepreneurs will take, the goal is, as simple as it can be audacious and bold: to equip this 1250 young mozambicans up to age 35, with the right tools of knowledge and experience, absolutely essential for them to lead their own businesses, in the future.
In this sense Gapi advocates the creation of a set of financial instruments that can support them at this stage, which will
possam apoiar nessa fase, e que serão desenhados em função da especificidade de região do País em que este programa, bem como outros desenhados ao abrigo do Juve-Inova, venham a ser implementados. “A ideia será, após o período de formação prática, que apresentem um plano de desenvolvimento do seu negócio que será orientado e debatido com a Gapi e que, em caso de viabilidade, possam candidatar-se a um financiamento que lhes permita adquirir o material necessário para o investimento no seu terreno, nos materiais, e nos métodos produtivos”, assinala Rui Amaral. O Juve-Inova, uma plataforma considerada estratégica pela Gapi e seus parceiros já implementa o Agro-Jovem, com o apoio da Danida, tendo, desde o seu início em 2015, lançado ao mercado de 90 novas pequenas empresas detidas por cerca de 100 jovens técnicos que geraram mais de 500 postos de trabalho. E é isso que o Juve-Inova se propõe a ser. A primeira semente, de um novo futuro para milhares de jovens de todo o país.


be developed and designed according to the specific region of the country in which this program, as well as others implemented under the Juve-Inova Program will be implemented.
“The idea will be, after the practical training period, to present a business development plan that will be oriented and discussed with Gapi and, if feasible, they will be able do apply for funding to acquire the necessary equipment for investment in their own land, work materials, and to invest in production methods“ says Rui Amaral.
Juve-Inova, is a platform considered to be strategic by Gapi and its partners, that already implements Agro-Jovem, with the support of Danida. Since its inception in 1990, we’ve helped 90 new small companies that have been launched by nearly 100 young people technicians who generated more than 500 jobs in all the country. And this is what Juve-Inova proposes to be. The first seed of a new future for thousands of young people across Mozambique.
É habitual pensar-se que basta criar novos postos de trabalho para solucionar o problema do desemprego. Uma reflexão a este respeito foi lançada pelo Banco Mundial, na qual se sugere um reordenamento estratégico do mercado de trabalho com vista a uma crescente formalização e um incremento da produtividade global

“o processo de transferência da força de trabalho de Moçambique para empregos formais será moroso e muitos trabalhadores, em especial dos agregados familiares mais pobres, nunca farão essa transição”.
O sinal, é de alerta, e tem a chancela do Banco Mundial, que também chama a atenção para o facto de as actuais políticas de emprego não garantirem que a maioria dos moçambicanos possa, um dia, obter empregos capazes de lhes assegurar melhor qualidade de vida e, por fim, ajudarem a combater a pobreza.
Trata-se de uma das conclusões de um relatório recente do Banco Mundial sobre o mercado de trabalho em Moçambique, feito por dois pesquisadores norte-americanos, Ulrich Lachler e Ian Walker. Com o título “Jobs Diagnostic Moçambique”, o estudo remete a uma séria
71%
ESMAGADORA MAIORIA DOS EMPREGOS EM MOÇAMBIQUE CONTINUA A ESTAR SITUADA NO SECTOR AGRÍCOLA
reflexão sobre o que se deve fazer para promover emprego sustentável, através de uma profunda e transversal avaliação do mercado, caracterizado ao detalhe em 60 páginas. Embora o tema pareça esgotado, com tudo ou quase tudo dito, conhecido ou sugerido, o (des)emprego ainda exige atenção especial porque, segundo a pesquisa, “podem encontrar-se múltiplas declarações estratégicas e de política do Governo e relatórios de doadores, mas as abordagens que destacam todos os problemas e soluções potenciais são, por vezes, pouco úteis e os decisores políticos precisam de orientação sobre como e para onde priorizar os seus esforços”. Estes pontos conclusivos servem de pontapé de saída para melhor perceber a dimensão dos inúmeros problemas que enfermam o mercado de trabalho, cuja
solução apropriada é, obviamente, a criação de postos de trabalho produtivos, bem remunerados e em quantidade suficiente para absorver a demanda. Mas a complexidade das acções para este objectivo traz várias linhas de análise que vale a pena explorar com certo detalhe.
Pobres cada vez mais pobres
Apesar do rápido crescimento económico nas últimas décadas, que contribuiu para a redução da incidência da pobreza, de 68% em 1996 para 48% em 2015, 40% da população mais pobre ficou para trás. Isto é, “o consumo médio dos mais pobres cresceu mais devagar do que o dos mais ricos”, segundo o relatório.
A primeira razão atribuída a esta regressão assenta no facto de o crescimento económico estar dependente dos grandes projectos que não geram muitos empregos, apesar de serem enormemente produtivos ao nível das receitas.
Ao contrário, a agricultura, que assegura sustento a 85% das famílias de todo o país, carece de dinamismo, tendo sido responsável por apenas 10 a 15% do crescimento em valor acrescentado na última década (até 2015), daí o baixo rendimento dos que trabalham neste sector. Ainda assim, assiste-se a uma redução gradual da força de trabalho no sector primário, que se direcciona para a área de serviços (finanças, turismo, comércio, transportes e sector público) nas grandes cidades.
No entanto, com a excepção do comércio, os empregos formais na área de serviços tendem a exigir níveis de ensino mais elevados e maiores competências, o que acaba por excluir grande parte da força de trabalho, que continua no auto-emprego de pouca exigência em termos de competências, com baixa produtividade (como na agricultura), e por isso com baixa remuneração.
“Caso persistam estas tendências, as perspectivas de um crescimento inclusivo e de uma redução acelerada da pobreza são ténues”, avisa o estudo.
Para a economista Federica Ricaldi, membro da equipa de preparação do relatório pelo Banco Mundial, “muitos trabalhadores urbanos autônomos trabalham longas horas, mas ainda lutam para obter um meio de vida sustentável. Neste contexto, a expansão do emprego assalariado (formal) e o aumento da produtividade do trabalho na agricultura são aspectos-chave da transição de empregos em Moçambique para o cresci-
Maior parte dos moçambicanos está em idade activa
Em percentagem
POPULAÇÃO EM IDADE NÃO ACTIVA
Dos que estão aptos a trabalhar, 76,5% exercem alguma actividade
Em percentagem
ECONOMICAMENTE
mento a favor dos pobres. O sector de serviços está a mostrar um considerável dinamismo na criação de empregos remunerados no sector privado, o que muitas vezes oferece boas perspectivas para as mulheres. Há um bom potencial para a criação de empregos também em agro-indústrias intensivas em mão-de-obra, processando a produção agrícola (moagem de grãos, prensagem de sementes oleaginosas, laticínios e carnes) para a crescente população urbana e em materiais de construção. Mas, perceber esse potencial, requer políticas para aumentar a competitividade das empresas locais”, diz à E&M.
Rendimento precisa-se
São necessários melhores empregos para os 40% dos agregados familiares com rendimentos mais baixos, a maior parte deles na agricultura. Países como Uganda, Ruanda e Bangladesh são bons exemplos nesta matéria. Saíram de conflitos sanguentos e conseguiram crescimentos extraordinariamente rápidos e inclusivos através de grandes investimentos na agricultura e medidas de estímulo ao investimento privado em empresas de mão-de-obra intensiva, criando novas oportunidades de emprego remunerado nas cidades. O esforço surtiu efeito: muita gente saiu da pobreza extrema, através de um trabalho mais bem remunerado. “Moçambique precisa de mais empregos que estejam ligados a sistemas produtivos modernos e que possam gerar proveitos mais elevados, seja através do emprego assalariado ou de fornecedores independentes da cadeia de valor”, sugere.
Distribuição da força de trabalho ilustra o peso da agricultura
FONTE: Banco Mundial, INE
A educação é também mencionada. A força de trabalho de Moçambique tem, em termos médios, um nível de formação abaixo de outros países africanos, factor que explica, em parte, o tipo de emprego predominante no país. E o estudo aponta até, um factor que, deve levar a uma reflexão.
O crescimento económico e a melhoria ao nível dos conhecimentos adquiridos fez aumentar o desemprego, uma taxa global que tem vindo a aumentar gradualmente desde 1996. Porquê? Com melhores ferramentas de educação (face a zonas do país com menos escolas, e diferentes condições de vida), os jovens das cidades costumam esperar muito tempo por um “bom” emprego, uma vez que as famílias têm a possibilidade de suportar financeiramente essa espera. No meio rural, os que mais estudos têm acabam

Muitos pontos levantados pelo relatório são do conhecimento do Governo e estão reflectidos na Política de Emprego, constituída por um conjunto de medidas que pretendem assegurar mais emprego e melhor produção e produtividade global do trabalho
por dedicar-se à agricultura por falta de opções, mesmo que a sua ambição seja o trabalho noutros sectores. Ao mesmo tempo, a população jovem aumenta substancialmente, o que provoca então o resultado de um aumento da taxa de desemprego, que pode não ser efectivamente negativo. “O crescimento do sector formal é uma evidência, com uma tendência forte, mas ainda não o suficiente. O sector privado formal cresceu de 5% para 12% nos últimos 15 anos. E sector público está estável. Ou seja, a tendência que observamos é a de que há uma transição do sector agrícola para o dos serviços mas, no entanto, a grande questão de Moçambique passará também pelos níveis de produtividade, em todos os sectores”, diz Mark Lundell, director do Banco Mundial para Moçambique. Mas o elevado desemprego jovem não tem só bons motivos, como o facto de os mais novos pretenderem investir nos
No meio urbano, os jovens têm um nível superior de educação e, por isso, procuram empregos com melhor remuneração. Resultado: quase todo o desemprego juvenil está nas cidades
(15-24 anos de idade)
seus estudos: persistem ainda problemas endógenos, como a pouca informação sobre vagas de emprego disponíveis ou as respectivas condições e níveis salariais. Algo que se nota pelo facto de muitos jovens terminarem a sua formação média e superior sem ideias claras sobre oportunidades de emprego, e como podem ser aproveitadas em seu benefício. Mas também do lado dos empregadores há falhas que não ajudam o mercado a desenvolver-se e é sabido que grande parte deles faz novas contratações com base em referências informais e não através de centros de emprego ou agências de recrutamento especializadas. Por fim, há o ensino técnico-profissional pós-secundário muitas vezes dispendioso, e de qualidade variável. Uma dinâmica negativa que o relatório do BM refere que apenas poderá ser interrompida identificando sectores e regiões com maior potencial de emprego, sendo fundamental investir na melhoria do ambiente de negócios, para atrair investimento privado e expandir as empresas no sector formal.


A história da primeira marca premium ‘handmade’ de charutos em África inteiramente produzidos em Moçambique e que está a conquistar o mundo
quando pensamos em charutos, imaginamos Cuba ou República Dominicana, e recordamos Churchill, Fidel ou Hitchcock, inseparáveis nos retratos que deixaram à história, do charuto a lacrimejar nuvens em preto e branco. Mas, todo este imaginário construído ao longo de décadas, pouco ou mesmo nada, tem a ver com África. Mas só até 2016, quando este produto que habitualmente associamos à América Central, onde, diz a mitologia, é enrolado manualmente entre as coxas de uma ‘mamana’ cubana, começou a ser produzido em Maputo, na zona da baixa da cidade, paredes meias com a Avenida 25 de Setembro. É ali que são enrolados os Bongani Cigars, um produto premium moçambicano, actualmente comercializado em mais de 200 pontos de venda de todo o país (em espaços de diversão nocturna, à unidade, no retalho de bebidas, hotéis e lodges de luxo, e aeroporto), na África do Sul, Quénia, preparando-se para entrar no mercado angolano, e na Nigéria.
Mas, porquê o sucesso? “Os charutos são, em muitos casos, para pessoas que gostam de se parecer com milionários e há essa associação, entre o seu consumo e o sucesso e é por isso que temos seguido uma lógica de expansão para mercados com maior poderio financeiro. Depois, há o factor de ser o primeiro charuto ‘made in’ África, um produto de luxo, de elevada qualidade, ‘handmade’, feito aqui mesmo, e isso é algo imbatível por qualquer concorrência, mesmo a das grandes marcas internacionais”, diz Kamal Moukheiber, um ex-banqueiro de investimentos suíço-libanês que decidiu lançar a Bongani (significa ser grato “em zulu”).
Esta é, de resto, uma tendência que acredita ter o potencial para moldar o futuro económico de todo o continente. Não os charutos, propriamente, mas toda a lógica
que está subjacente ao seu sucesso. “Sabe... lembro-me de ler um estudo em que se dizia que todo o café produzido num ano em África é vendido para fora por 5 mil milhões de dólares onde, depois de embalado e revendido, vale 70 mil milhões. Mais de dez vezes mais! É preciso fazer a transformação, a embalagem, e a venda a partir de África”, preconiza. Depois, explica o porquê de se ter lançado neste desafio: “Na biografia de Robert Mondavi, o homem que estabeleceu as primeiras vinhas de alta qualidade nos Estados Unidos, ele conta como levou as sementes dos melhores vinhedos franceses e as ‘enxertou’ em Napa Valley, na Califórnia. À época, nos anos 60, os vinhos franceses eram considerados os únicos que valiam a pena consumir. Mas depois disso, as percepções mudaram e o seu exemplo foi seguido por australianos, neo-zelandeses, chilenos e sul-africanos, e os vinhos do novo mundo são hoje igualmente respeitados. É isso que eu creio que irá acontecer com os ‘cigars’.”
Mas, como se faz afinal um charuto moçambicano? “Bem, na essência usamos uma mistura de folhas de tabaco nacional e de importação em quantidades que variam em função da referência. A folha utilizada para enrolar o charuto provém dos Camarões, a caixa de madeira, em sândalo, vem da China, e quanto ao cigarro, ele é produzido de forma inteiramente manual e 100% nacional. Trouxemos o Anton Padilla que era enrolador da General Cigars na República Dominicana para dar formação e ele acabou por ficar connosco desde há quase três anos. Criámos emprego e competências numa área em que eram inexistentes. É este o caminho”, afiança.
TEXTO PEDRO CATIVELOS
FOTOGRAFIA JAY GARRIDO
BEMPRESA BONGANI CIGARS
FUNDAÇÃO 2016
PRODUÇÃO 25 000
Charutos O número de unidades produzidas anualmente
DISTRIBUIÇÃO
220
Pontos de venda
Para além de Moçambique podem encontrar-se os charutos da Bongani no Quénia, África do Sul e, brevemente, em Angola e na Nigéria
O ex-CEO do Banco Nacional Ultramarino, Pedro Cardoso, vai ocupar uma posição-chave de gestão no Banco Mais através da empresa de investimentos de Hong Kong, Bison Capital Financial Holdings. Pedro Cardoso, que liderou o Banco Nacional Ultramarino (BNU) durante sete anos, vai assim ocupar um papel-chave na gestão do banco moçambicano Banco Mais.
A Bison Capital Financial Holding adquiriu 48% do capital do banco moçambicano através de uma injecção de 13,9 milhões de dólares. em parceria com o maior accionista da instituição financeira, a empresa com sede em Macau, a Geocapital Holdings Limited SA, que tem como um dos sócios, Stanley Ho Hung-sun, fundador da SJ, e o actual CEO da operadora de jogos Ambrose.
Financiar a reparação da Ponte Cais da Baía de Inhambane e de dois navios operados pela Trans-marítima, na travessia Maxixe-Inhambane, foi o objectivo da assinatura do memorando assinado pela Sasol e os Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM). O acordo surge em resultado de uma campanha promovida pelo governo, para mobilização de fundos para reabilitação das infra-estruturas danificadas, na qual a Sasol mostrou a sua prontidão para contribuir para a resolução dos problemas locais.

Empresa moçambicana foi distinguida num concurso internacional de inovação

o reconhecimento do software desenvolvido pela Ologa Sistemas Informáticos, uma tecnológica moçambicana participada pela Gapi (e parceira do Ministério do Género, Criança e Acção Social, FHI360, USAID, Care, World Vision) aconteceu na 4ª edição do ITU - Telecom World Awards (União Internacional da Telecomunicações).
Esta plataforma global para a aceleração de inovação na área das TIC, distinguiu assim o “impacto que os instrumentos desenvolvidos pela Ologa têm tido na área da saúde infantil”. Com sete anos de existência no país, a empresa viu a sua plataforma de saúde infantil ser promovida ao grupo das três PME Global com maior potencial de expansão ao nível mundial (as outras são a Talamus Health dos EUA e a Dropque da Nigéria).
O SureTrack - um software de monitoria, avaliação e gestão de casos para projectos relacionados com saúde e impacto social é uma solução virada para crianças órfãs e vulneráveis com principal enfoque para as vítimas do HIV.
“Espero, sinceramente, que o reconhecimento global de receber um ITU Telecom World Award, de um painel internacional de especialistas, ajude esses talentosos proprietários de empresas a ampliar e levar os seus negócios para um cenário global” – disse Houlin Zhao, Secretário-Geral da ITU.
Para o director da Ologa, Mulweli Rebelo, esta distinção representa “o reconhecimento da contribuição do trabalho desenvolvido para facilitar e melhorar as vidas das pessoas, neste caso particular das crianças vulneráveis.”
A Ologa é uma empresa que actua no ramo das TIC, com o foco em soluções tecnológicas para o desenvolvimento social e económico do país, tendo já vencido o prémio das “100 Melhores PME”, tendo sido também finalista no African African Entrepreneurship Award

Responder às necessidades dos cidadãos que exercem as suas actividades na zona Baixa de Maputo, “tornando o local num ponto de encontro com modernidade, conveniência, excelência, tranquilidade e lazer”, é o objectivo anunciado da construção do JAT Center, inaugurado no final de Setembro na cidade de Maputo.
Trata-se de um complexo multi-funcional composto por apartamentos, escritórios, parque de estacionamento, ginásio e hotel. A construção do JAT Center representou um investimento de 130 milhões de dólares.
A distinção do banco liderado pelo administrador delegado, Chuma Nwokocha, foi anunciada no âmbito da Southern Africa Startup Awards (SASA), que visa apoiar startups nacionais a atingirem o seu potencial. Assim, a incubadora de Negócios do Standard foi galardoada como o “Melhor Programa de Aceleração e Incubadora em Moçambique”, em resultado de um trabalho “de ajuda e capacitação de empreendedores e empresas inovadoras, fornecendo ferramentas, recursos e experiência.” Na Gala SASA-Mozambique foram igualmente distinguidas outras 14 startups que irão representar o país na gala regional da SASA, a ter lugar em Novembro próximo, na África do Sul.

JUSCELINA GUIRENGANE Presidente da ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários
já lá vão oito anos de existência da associação nacional de jovens empresários (anje), e de esforços para construir uma nova geração de empresários.
Apresentando à E&M as linhas que norteiam os objectivos da ANJE, Juscelina Guirengane, fala da necessidade de maior formação, mas coloca a tónica numa nova visão, “decisiva”, para o sucesso dos jovens empresários nacionais.
Como surge a ANJE e com que objectivos foi concebida?
A ANJE surge no início de 2010, fruto da união de diferentes jovens que haviam tentado começar os seus próprios negócios e encontraram barreiras para poder aceder a melhores oportunidades e entrar em determinadas instituições.
Ser empresário no país continua a ser tarefa difícil, não por falta de boas iniciativas, mas de meios para materializar os projectos. Como é que a ANJE tem trabalhado para contornar estas dificuldades?
Os desafios são imensos, da formalização ao acesso a informação relevante para as empresas. Apesar de se ter dado um salto qualitativo
ccurriculum vitae
Natural de Inhambane, é formada em gestão empresarial e de tecnologias pela Universidade de KwaZulu Natal, na África do Sul. Ali trabalhou um ano na IBM, até que em 2015 fundou a Sahane Consultoria & Serviços. Foi docente nas universidades Técnica e São Tomás de Moçambique e uma das seis moçambicanas seleccionadas para participar do Mandela Fellowship for Young African Leaders. ANJE
com a criação do Balcão Atendimento Único (BAU), existem aspectos que ainda estão ligados a outras instituições que muitas vezes acabam por levar jovens empresários a desistir. Depois, a própria capacidade de fazer o seu
negócio, e que vai muito para além de ter um alvará, aliada à falta de imaginação e formas de implementação são ainda grandes fraquezas dos nossos empresários. E há as elevadas taxas de juro. Advogamos que as taxas baixem, mas temos consciência de que a maioria das pessoas que vão pedir crédito não têm intenção ou capacidade de devolução devido a esta fraca preparação para fazer negócios.
E é também neste sentido que a ANJE tenta intervir? Dividimos a nossa intervenção em duas áreas: a capacitação empresarial e a acção para criar um ecossistema empreendedor, propondo regulamentos sobre negócios que vão no sentido de um maior acesso a informação. Lutamos por uma política e um programa nacional de empreendedorismo que funcione como uma bússola para promover iniciativas empreendedoras. Para além disso, organizamos anualmente uma conferência nacional de empreendedorismo com representantes de instituições públicas e privadas
Já lá vão oito anos após a sua criação. Que avaliação
a ANJE faz em relação ao cumprimento dos objectivos para os quais foi concebida? Era necessário criar uma organização que incluísse os jovens no processo de debate sobre o desenvolvimento económico do país, que existisse e fosse reconhecida pelas entidades competentes. Isso foi feito de forma a que conseguíssemos estabelecer parcerias estratégicas como, por exemplo, com o BCI, várias instituições do governo e com a embaixada dos EUA. Agora, entrámos numa nova fase, e queremos ser uma entidade de referência na promoção do empreendedorismo em Moçambique. A nossa aspiração é fazer aprovar o programa nacional de empreendedorismo, conseguir um programa com um parceiro da banca que aceite o risco de subsidiar o crédito para os empresários a uma taxa de juro a rondar os 12%. E aliar isso a um programa estruturante de capacitação e orientação para os empresários.
Depois de anos difíceis para muitos empresários, quais são as perspectivas?
Queremos ver mais jovens e empresas detidas por moçambicanos a entrar nos grandes negócios de recursos naturais como o carvão e o gás. Idealizamos um cenário em que vão surgir necessidades por parte dessas grandes indústrias, na prestação de serviços e venda de produtos paralelos, que achamos que os moçambicanos devem preencher. E temos o desafio de criar processos administrativos mais eficientes e regras de certificação a que muitas empresas moçambicanas terão de poder aceder, para poderem fazer parte dos grandes projectos liderados por empresas multinacionais,


Maputo é uma cidade que padece de um tipo de obstipação crónica, fruto da congestão rodoviária que se arrasta em passo lento, multiplicando-se em horas de ponta que só aliviam aos fins-de-semana e feriados
estudos de 2012 indicam que, das 6 às 9 horas e das 16 às 19 horas, a velocidade média de deslocação na estrada Maputo-Matola, na EN2 (Maputo-Zimpeto) e na Avenida Julius Nyerere é de 14 quilómetros horários. Imbróglio agravado, nos últimos anos, pelo aumento populacional e das viaturas em circulação – das 735.954 unidades registadas no país, 40,1% rolam na capital, cidade que alberga todos os serviços fundamentais.... E nem a construção de novas vias, como a Estrada Circular, conseguiu trazer alívio.
Para minimizar o problema, o Conselho Municipal de Maputo (CMM) concebeu, com apoio do Japão, um Plano Director de Mobilidade e Transportes para a Área Metropolitana de Maputo (AMM, que integra a Matola e os distritos de Boane e Marracuene) visando gerir o tráfego entre as urbes, para dissuadir o uso da viatura própria e fomentar a utilização do transporte colectivo. Apresentado em 2013 e com prazo de 22 anos, sugeria soluções ambiciosas – como o Metro Maputo-Matola e o BRT (Bus Rapid Transit, um corredor exclusivo para
autocarros) –, as quais foram adiadas pelo Governo de Filipe Nyusi. Por razões económicas. E políticas.
Sem esmorecer, o CMM avançou com projectos mais pragmáticos e menos onerosos, que já circulam, nos autocarros novos, nos comboios dos CFM ligando a Baixa de Maputo à Matola e Boane e, por um destes dias, nos barcos que poderão reerguer Inhaca. Acresceu-lhes a criação, no final de 2017, da Agência Metropolitana de Transporte de Maputo (AMT), cuja administração tomou posse em Agosto. Era o elo que faltava para formalizar, integrar e ordenar todo um sistema de transportes urbanos – rodoviário, ferroviário e marítimo, quiçá fluvial – que sirva, com eficiência e qualidade, um universo de 3,7 milhões de pessoas estimadas até 2035, as quais representarão 6,5 milhões de deslocações diárias na grande Maputo.
Eficiência privada “Começamos por tentar organizar os próprios operadores, porque é crucial a mentalidade de quem presta o serviço:
se está preparado para migrar para um novo modelo – integrado, organizado –, se cumpre horários, frequências e lotação...”, explica João Matlombe. Nesse contexto, e segundo o vereador do Transporte e Trânsito do CMM, um projecto adoptado em 2016 logrou romper paradigmas e vencer a resistência à novidade. “Mostrámos que é possível tornar rentável o transporte público urbano com a formalização dos operadores e levar, assim, o Estado a reorientar a sua intervenção em benefício do passageiro”. Matlombe explica o “modelo ousado” do CMM: “Criámos uma cooperativa 100% privada e alocámos 50 autocarros, para que tivesse um ganho de escala, mediante uma espécie de leasing: o Estado compra as viaturas (cerca de 9 milhões de meticais cada, incluindo manutenção e seguro contra todos os riscos) e entrega-as aos privados, que cobrem 25% do custo com parte das receitas. O resto vai para subsidiar o passageiro”. O primeiro corredor foi o da EN1, Zimpeto-Museu-Baixa (o segundo maior depois de Maputo-Matola).
O transporte de pessoas em carrinhas de caixa aberta – crismadas de “My Love” (meu amor), numa tradução ridente da circunstância de os passageiros apinhados, para evitarem quedas, se agarrarem uns aos outros em busca do equilíbrio sempre precário – é um fenómeno que, tendo reinado na AMM no início dos anos 1990, regressou em força há uns anos. E com tendência para crescer. Segundo estudos do CMM, em 2015 os “my love” garantiam as deslocações de sete a dez mil pessoas por dia; no ano passado, havia já 226 carrinhas a fazer o transporte diário de mais de 16 mil.
O impulso dos “my love” resulta da crise económica que se abateu sobre Moçambique em 2015. Na altura, cerca de 15 por cento dos quase 4 500 “Chapa 100” da AMM abandonaram a actividade devido à recusa da revisão de tarifa pelo Governo (fixada em 2008) e por dificuldades de reposição e manutenção da frota – a maior parte das viaturas, vindas do Japão já com 10 a 15 anos de uso, não sobrevive a meia década de serviço; e todas as peças, sendo importadas, obrigam ao dispêndio das divisas que não há.
Além disso, e não obstante os riscos, os “my love” são preferidos por razões de sobrevivência. É mais barato – 5 ou 6 meticais, quase metade dos “Chapa 100”,
o que é determinante para passageiros de baixa renda, que gastam cerca de 48% do salário mínimo em deslocações para o emprego; e além do mais, é mais rápido a chegar ao destino.
“O ‘my love’ é uma viatura de um proprietário – alguns até são funcionários públicos... –, que vive num bairro, e, quando sai de manhã com a sua carrinha particular, carrega toda a gente da vizinhança. Não faz “chapa”: é um transporte de oportunidade”, explica o vereador dos Transportes do CMM. “Chegando ao fim do dia, os vizinhos já o conhecem e regressam com ele. Vai cobrando assim, sucessivamente, e fica cativo”, diz.
Neste contexto, observa João Matlombe, “mesmo que mande um autocarro em condições, as pessoas não o apanham porque lhes sai mais barato e porque, ao não seguir o itinerário, não têm de ficar na fila. O ‘my love’ vai fazendo os caminhos dele – hoje por aqui, amanhã por acolá... – mas as pessoas sabem que vai acabar por chegar à Baixa”. Por isso, Matlombe é cauteloso no que respeita à erradicação compulsiva dos “my love”: “Não podemos acordar e dizer que já não há carrinhas sem atender a essa gente que ganha pouco e consegue chegar ao local de trabalho”, refere. Pragmático – como os utentes dos “my love”, afinal.

“Para responder à demanda, seriam necessários 90 veículos, mas foi uma forma de começar e avaliar os ganhos do sector privado”, justifica. Volvidos quase dois anos, celebra-se o êxito e alarga-se o conceito: “Ampliamos de um corredor para seis, os operadores organizaram-se em outras tantas cooperativas, e subimos de 50 para mais 300 autocarros para toda a AMM”. Englobando as duas transportadoras municipais (Maputo e Matola), este sistema transporta, no conjunto e em média, 480 mil passageiros por dia”. É bom, mas insuficiente: “A procura ronda mais ou menos 600 mil passageiros por dia.”
Chapas confinados à periferia
Eles passarão a operar já não por corredores, como acontece hoje, mas por zonas. Com o zonamento – cuja definição está em debate com os operadores e o Banco Mundial – os chapas terão uma nova vocação. “O zonamento vai permitir integrar os ‘chapas’. Os autocarros grandes que estamos a alocar agora fazem as vias principais, dentro das suas zonas de concessão, mas do interior do bairro o transporte fica a cargo dos ‘chapas’”. Para João Matlombe, “os ‘chapas’ vão ser, assim, os grandes alimentadores dos autocarros dentro da zona de concessão. Ficam integrados no sistema e baixam a tarifa, obviamente, porque fazem percursos curtos”, declara o vereador de Maputo, confessando o seu desejo a médio prazo: “Em dez anos, teremos de ter menos ‘chapas’ no centro da cidade. Os ‘chapas’ – cujo universo, em 2012, se estimava em 4 500 e hoje deverá rondar os 5 mil a operarem em cerca de 130 rotas – vão ter uma morte natural”, decreta. Morrem uns, ressuscitam-se outros. Enterrado o nascituro Metro de Superfície entre Maputo e a Matola, identificou-se uma alternativa ferroviária, com a vantagem da infra-estrutura já existir. “Procuramos com o sector privado viabilizar uma linha férrea dos CFM ociosa, com uma ocupação abaixo dos 20%”. Concebida para transportar mercadorias, a esmagadora maioria destas circula a bordo de quase 900 camiões diários, congestionando a EN4. “Havia o receio de que não funcionasse por ser solução nova”, refere Matlombe, sem poupar elogios ao “arrojo” da Fleetrail. Em parceria com os CFM, a empresa privada importou da Nova Zelândia automotoras diesel e, por um milhão de dólares, concebeu o Metrobus, sistema integrado de transporte de passagei-

Divisão da grande Maputo em zonas preconiza inter-modalidade entre “chapas” e autocarros com mais capacidade de transporte
ros composto por 16 carruagens e 100 autocarros nos quais se viaja com o mesmo bilhete. “Os comboios deixam os passageiros na Estação Central de Maputo e eles ali apanham os autocarros que os levam até aos vários destinos.”
O Metrobus superou expectativas: “Iniciamos no final de 2017, em fase experimental, a ligação Maputo-Matola e Boane; em Maio, já transportava 6 000 passageiros por dia. Surpreendeu-nos a procura”, confessa Matlombe. O Metrobus tem ainda restrições, faz só de quatro a seis viagens diárias. “Mas estamos a trabalhar para ter frequência regular também ao final da tarde. Ainda temos quase mais 50% da capacidade do sistema para resolver os problemas e vamos avançar com o Metrobus para a linha Maputo-Marracuene. É uma solução que se vai consolidar”, alvitra o vereador. Mais problemática será a ligação ao Distrito de KaNyaka (Inhaca). A população local, de 6 095 pessoas está refém de uma embarcação solitária, a cargo da empresa pública Transmarítima, cuja frequência é escassa e, não raro, ausente por
avaria. Quando funciona, leva uma hora a vencer 32 quilómetros até ao continente. De acordo com Matlombe, pelo final do ano haverá novo barco; “mas, para uma solução estável, precisaríamos de mais um”, admite. “A tendência das pessoas é sairem de manhã e voltarem ao final do dia mas, só com uma embarcação, não há certezas. Se ela tiver problemas, como voltam? Esse é o dilema”, diz, concluindo: “Em Inhaca, precisamos de duas embarcações que funcionem regularmente”. Ainda não é o caso, nem será tão já...
Integração total
O conceito de integração assenta num bilhete único, electrónico, que sirva para todos os transportes metropolitanos durante determinado período. As vantagens são múltiplas. Desde logo, no combate à fraude, que “chega aos 30% nas empresas municipais, com o mesmo bilhete a ser vendido meia dúzia de vezes”, garante Matlombe. Mais importante ainda, irá fornecer dados cruciais à gestão de meios e verbas. “Teremos informação fidedigna para
discutir com os operadores o custo real do transporte. Como a leitura do bilhete é imediata e dá o registo do itinerário, vou conseguir saber se o autocarro cumpriu o previsto”. E se houverem falhas o sistema fica em défice. Depois, com a bilhética a funcionar, o Estado poderá financiar os utentes por condição e viagem – se é estudante, idoso, deficiente – deixando de simplesmente desembolsar 50 milhões de meticais por mês, como faz hoje, sem poder avaliar a pertinência da verba. O mais fácil do projecto acaba por ser a instalação do sistema, a iniciar em 2019, em todos os autocarros – os 300 mais recentes já trazem torniquete. O mais difícil, como sempre, será mudar mentalidades. O bilhete único terá de representar uma mais-valia para o utente e novas funções para os cobradores, que ficarão na rua a vender os bilhetes, com PDA – dispositivos electrónicos portáteis. Uma vez operacional, com os operadores organizados por empresas e zonas e devidamente equipados, o bilhete será a consumação da possibilidade de, num futuro mais risonho, tornar realidade o metro de superfície de Maputo.
TEXTO ELMANO MADAÍL FOTOGRAFIA JAY GARRIDO

Salim Cripton Valá • PCA da Bolsa de Valores de Moçambique
a discussão sobre o papel do estado na economia é inconclusiva e alvo de acesos debates nos círculos académicos, nos media, na indústria de desenvolvimento e no quadro da discussão de políticas públicas.
Se por um lado é um tema permanente nas agendas de desenvolvimento de todos os países, por outro ele remete-nos a questões controversas sobre a ideologia e a prática de desenvolvimento, com contornos particulares em cada país e mesmo dentro deles, e ainda com nuances específicas em cada sector. Esse debate é já antigo, mas teve uma nova roupagem no período anterior a II Guerra Mundial, e teve como alguns dos seus intérpretes destacáveis John Maynard Keynes e Friedrich Hayek, dois professores da London School of Economics.
A história registou que a economia alemã do período anterior à segunda guerra mundial era controlada rigorosamente pelo Estado, e na Grã-Bretanha haviam alguns segmentos que acreditavam que “era o Estado que devia controlar as coisas”. Hayek acreditava que o contexto de guerra levava, invariavelmente à tendência dos Estados controlarem a economia, a privar as pessoas da sua liberdade e a terem uma postura próxima do “totalitarismo”.
Evitar repetição das crises
John Keynes defendia que para evitar a repetição da “Grande Depressão” da década de 1930, os Estados deviam intervir nas suas economias pois, se as pessoas gastassem mais, a economia produziria também ela mais, e os desempregados seriam postos de novo a trabalhar.
Ele defendia também que quando as pessoas poupam mais do que gastam e os empresários param de investir, há em geral menos gastos e a economia cessa o seu crescimento. Para contrariar essa tendência o Estado pode gastar mais do que recolhe em impostos gerando um “défice orçamental”, e quando a economia recuperar e mais pessoas estiverem
empregadas e a ter rendimento, então o Estado recolhe uma fatia maior de impostos e o défice vai-se reduzindo.
Outra abordagem adoptada pela teoria keynesiana é a da redução dos impostos, o que impulsiona a procura na economia. Depois de algumas décadas de crescimento económico e redução do desemprego, nos anos de 1970 a teoria keynesiana perdeu o seu brilho, em parte graças à visão de Milton Friedman, da Escola Económica de Chicago, que criticava a interferência económica do Estado na economia e defendia que os princípios do mercado deviam governar a sociedade.
Para os defensores da teoria monetarista, um aumento da oferta de moeda encoraja, a curto prazo, as despesas e conduz a uma maior produtividade. A receita de Friedman era controlar rigorosamente a oferta de moeda para reduzir a inflação.
Um outro olhar sobre o mesmo problema
Na verdade, e ao contrário do que é propagado aos quatro ventos, muitas das economias são uma combinação equilibrada de liberdade económica e intervenção selectiva do Estado, uma espécie de meio termo entre capitalismo e socialismo.
Hoje em dia, e independentemente da orientação ideológica adoptada, a maior parte das economias são um misto de negócios privados e acção firme do Estado quando o mercado gera graves e severas distorções.
Grande parte da controvérsia entre os economistas incide sobre onde deve ser estabelecido esse limite entre o Estado e o mercado, e na escolha de como intervir, bem como onde se deve, e onde não se pode ou deve intervir.
Mais recentemente, muitos especialistas têm vindo a concordar que uma intervenção estratégica, criteriosa e oportuna do Estado na economia surge em decorrência das falhas de mercado em alcançar a alocação eficiente de recursos, permite reduzir as externalidades negativas provocadas pelo “dogma do mercado”, e a viabilizar políticas activas de combate à fome e
Moçambique tem de criar o seu próprio roteiro, estabelecer os seus próprios limites e estar permanentemente avisado para manter o equilíbrio saudável entre a necessidade premente de promover crescimento sustentável e desenvolvimento económico lado a lado

à pobreza, criação de mais empregos e redução das abismais desigualdades sociais. Como se sabe, o “Consenso de Washington” perdeu a sua capacidade explicativa e o seu “estatuto de receita a ser seguida por todos” e foi questionado, parcialmente, pelos resultados concretos do “boom de crescimento” no Japão, Singapura, Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong, e mais recentemente na China, num modelo em que o Estado tem um papel activo no desenvolvimento.
O caso da China é emblemático, estando esse país a delinear os contornos de um capitalismo de feição peculiar. Esses novos paradigmas económicos e de desenvolvimento foram influenciados por teorias mais recentes como a do desenvolvimento humano advogada pelo PNUD e pela visão inovadora de autores como Amartya Sen, autor do livro “Desenvolvimento Como Liberdade”, que defende uma abordagem de desenvolvimento holística e integrada, que não seja exclusivamente dependente da obtenção de renda, mas que se complementa com o acesso à educação, obtenção de habilitações e competências, acesso aos serviços de saúde, melhoria dos mecanismos de participação do cidadão nas várias esferas públicas e mais liberdade para fazer escolhas.
Um novo capitalismo para novos problemas
A visão de Han-J. Chang, autor de “As Nações Hipócritas” traz mais condimentos para um debate já por si, muito ruidoso. Ele advoga que os países ricos estão a atirar para longe as escadas que eles próprios usaram para subir, e isso é uma grande hipocrisia, pois não seriam o que hoje são se tivessem adoptado as políticas e instituições que recomendam às Nações em desenvolvimento, razão pela qual actuam como “maus samaritanos”. Um exemplo paradigmático é o das políticas proteccionistas, que muitas Nações Prósperas têm vindo a adoptar na altura do seu
“arranque” para o desenvolvimento industrial. Essa perspectiva é partilhada, de certa forma, por Daren Acemoglu e James Robinson, na sua obra “Porque Falham as Nações”, evidenciando que todos os países ricos possuem instituições fortes e injectam doses variáveis de liberdade e acção das forças de mercado com intervenções estratégicas do sector público para corrigir as falhas que esse mesmo mercado abandonado à sua própria sorte vai causando.
Apesar de, em momentos de crise, questionar-se muito o papel e a dimensão do Estado, em particular pelos liberais, neo-liberais, e monetaristas, outras abordagens como a do Estado providência, o Estado de bem-estar social, das expectativas racionais, o Estado desenvolvimentista, estruturalistas e institucionalistas também reconhecem os perigos sempre presentes de ter “falhas de governo”, relacionando a intervenção do Estado com a alta inflação, o déficit público, o elevado endividamento, a ineficiência da gestão, com as empresas públicas onerosas, a elevada carga tributária, o desperdício de dinheiro dos contribuintes, as assimetrias de informação, o problema da agência, do burocratismo e da corrupção.
Moçambique terá inevitavelmente de criar o seu próprio roteiro, estabelecer os seus próprios limites e estar permanentemente avisado para manter o equilíbrio saudável entre a necessidade de promover crescimento, conciliando o desenvolvimento económico, o combate à pobreza e o atenuar das gritantes assimetrias sociais.
Algo que, hoje, parece indiscutível é a necessidade de assegurar o empoderamento das instituições públicas e das empresas privadas, não se esquecendo obviamente do papel que a sociedade civil vai ter de desempenhar em todo este jogo do desenvolvimento multilateral em Moçambique”, naquilo que o sociólogo Ralf Darhendorf denomina da “Quadratura do Circulo”.
Vem de um colapso económico que fez o país entrar para o livro dos recordes de inflação, com uma quebra da produção sem precedentes, sobretudo ao nível alimentar. Mas, se os indicadores ainda não são animadores, já se notam sinais de mudança que podem afastar o espectro de miséria em que o Zimbabwe tem sobrevivido

‘o celeiro de áfrica’. Era este o epíteto do Zimbabwe, e como ele era conhecido por todos antes da crise que começou na viragem do século, quando tinha uma agricultura tão produtiva que alimentava toda a população e gerava ainda receitas significativas oriundas da exportação. Mas a imagem de fartura definhou e uma economia que era exemplo a seguir, transformou-se num caso de estudo e reflexão sobre os erros que os governos podem cometer ao realizar reformas. No entanto, há ténues sinais que indicam que a economia do Zimbabwe experimenta um período de recuperação, ainda que tímido, iniciado em 2010, embora
haja ainda um conjunto de indicadores que, a nível político, social e até económico, abrem espaço de reflexão e análise sobre o que se espera daqui em diante.
A recuperação está a chegar?
O analista político e professor universitário, João Pereira, e o professor de economia da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Constantino Marrengula, entendem que o Zimbabwe começou agora – ao fim de 18 anos desde o início da crise – “a dar os primeiros passos visíveis em direccção a uma retoma consistente com a estabilidade económica necessára.” Associam a sua visão “à abertura que
É A POSIÇÃO QUE O ZIMBABWE OCUPA NO RANKING DOING BUSINESS 2018 ENTRE 190 PAÍSES AVALIADOS, O QUE DIFICULTA A CAPTAÇÃO DE NOVOS INVESTIMENTOS
o Governo do recém-eleito Presidente Emerson Mnangagwa está a realizar para recuperar a produção agrícola, captar investimento externo e reorganizar os serviços públicos, que sofreram muito com a redução dos fluxos financeiros.”
O principal factor que pode abrir o caminho para o sucesso são mesmo as mudanças de abordagem introduzidas no sector agrícola e que têm estado a ocasionar elogios ao presidente do Zimbabwe, por criar a possibilidade de os farmeiros brancos voltarem a produzir em terras que tinham perdido, expulsos pelo seu antecessor, Robert Mugabe. “Trazer de volta aqueles que garantiam a produção agrícola e a estabilidade da economia zimbabweana é uma decisão que trará resultados visíveis”, defende Constantino Marrengula.
Na mesma linha, João Pereira considera que “Mnangagwa lançou uma forte ofensiva para corrigir os erros de 2000. E os resultados vão aparecer: o país poderá regressar à rota de um crescimento sólido, se os farmeiros brancos recuperarem as fazendas”.
É que em Fevereiro deste ano, antes mesmo da sua eleição (em Agosto), o governo de Mnangagwa decidiu oferecer contratos de arrendamento de 99 anos aos agricultores brancos do país, numa iniciativa para restabelecer a confiança dos investidores após o afastamento do ex-presidente Robert Mugabe.
Os contratos de arrendamento tinham, até então, cinco anos de duração e os agricultores que eram beneficiários desta medida são os cerca de 200 que se mantiveram no país apesar da controversa reforma agrária de Mubage, que colocou cerca de 4 500 agricultores brancos sem terra. A decisão de Mnangagwa foi bem recebida por muitos agricultores, que a veêm como um passo na recuperação do seu envolvimento na agricultura do Zimbabwe. É uma medida que também ganhou a simpatia de analistas políticos e económicos, não só de Moçambique, como de vários países e organizações, incluindo do Banco Mundial, tendo generalizado o optimismo quanto à retoma à estabilidade.
Busca pelo investimento externo O pesquisador do Instituto Superior de Relações Internacionais, Calton Cadeado, também atribui mérito à abertura que o novo Governo está a realizar para recuperar Investimento Directo Estrangeiro (IDE), que sofreu uma erosão histórica durante a crise, contrariando a imagem fechada e o desentendimento com o
Com a quebra da economia na casa dos 40% nos primeiros anos da década, as estimativas de desemprego ressentiram-se disso. Embora variem muito, a principal organização sindical do país aponta para uma taxa de 90% de desemprego no sector formal. Grande parte dos seus cerca de 16,7 milhões de habitantes trabalha ainda no sector informal.
Entre 2000 e 2008, as taxas aumentaram em mais de 72%.
Ainda pior, e de acordo com o Banco Mundial, a população em situação de pobreza extrema aumentou 20%, e não se consegue ultrapassar uma esperança média de vida para lá dos 61 anos. Um outro dado que dá que pensar, são os 27% de crianças com menos de 5 anos com problemas de crescimento, 9% delas em estado considerado muito grave por desnutrição crónica, segundo a Pesquisa Demográfica e de Saúde do país, de 2015.
Em resultado dos grandes investimentos na educação encetados logo após a independência (1980), o Zimbabwe apresenta uma das maiores taxas de alfabetização em África, com 89% dos adultos capazes de ler e escrever, de acordo com dados de 2014 do Banco Mundial. Na África Subsaariana ela é, ainda hoje, de 64% (Moçambique fica-se pelos 44,9%). No entanto, este país com tradição na formação de capital humano de qualidade, tem visto os seus quadros (sobretudo em áreas técnicas, como a mineração) saírem para os mercados vizinhos.
Ocidente a que o antigo Presidente Robert Mugabe tinha habituado o mundo ao longo dos seus 37 anos de poder quase absoluto. Em Janeiro deste ano, Mnangagwa compareceu ao fórum Económico de Davos, na Suíça, para tentar captar investimento estrangeiro para a economia zimbabweana. O agora presidente fê-lo com o propósito de convencer investidores que, após o golpe de Estado que em Novembro do ano passado depôs Robert Mugabe, está empenhado na criação de novas condições para receber investimento estrangeiro.
Com a mesma intenção, em Abril passado, Mnangagwa foi também à China e recebeu do seu homólogo, Xi Jinping – que o chamou de “velho amigo da China” – a promessa de investimentos do gigante asiático em diversos sectores de actividade. Meses antes, logo a abrir o ano, já o Presidente do Zimbabwe tinha visitado Moçambique para “estreitar os históricos laços de cooperação”, tendo depois seguido para um périplo por outros países da região. “O novo Governo está a criar uma imagem diferente e já é visto com alguma simpatia pelos países que anteriormente lhe eram hostis, pelo estilo adoptado por Mugabe. Este facto pode acelerar a retoma dos investimentos, e marcar definitivamente o início do fim das sanções económicas impostas pelo Ocidente”, conclui Calton Cadeado.
Reordenar os serviços públicos
A este nível, há ainda um longo caminho a percorrer mas alguns passos estão já a ser seguidos pelo novo executivo. Mas antes, é importante ver, através de alguns exemplos, até que ponto a depressão económica desestabilizou o sector público e agudizou a pobreza. Em 2008 e 2009, os anos do auge da crise, o país perdeu mais de 20 mil professores a favor dos países vizinhos devido à diferença de remuneração. Mais recentemente, já em Janeiro deste ano, o site News24 da África do Sul, descrevia outros cenários desafiadores da dimensão da tarefa do novo governo: a empresa estatal de caminhos-de-ferro (National Railways of Zimbabwe) está a utilizar comboios velhos, com os carris e restante infra-estrutura degradada e com falta de pessoal; os hospitais não têm medicamentos básicos, e muitas escolas estão sem meios para garantirem a educação das crianças. Não admira que as greves se tenham generalizado e o Governo esteja a desdobrar-se em acções para restabelecer a ordem. Em Abril deste ano, após quatro
A reforma agrária do início do século levou a uma quebra do desempenho global da economia durante vários anos consecutivos que se reflectiu na redução da produção de riqueza e no elevadíssimo aumento do custo de vida. Em Julho de 2008, o nível de preços bateu um recorde mundial na ordem de 231 000 000%
Variação do crescimento do PIB, em percentagem
É um dos mais importantes sinais de retoma. A produção agrícola está a crescer desde 2017, fechando um ciclo de crescimento negativo determinado pela substituição dos farmeiros brancos pelos agricultores nativos, com fraco domínio de técnicas de cultivo. A agricultura tem um peso de aproximadamente 90% no PIB do país
Crescimento da contribuição do sector agrícola no PIB, em percentagem

dias de severas manifestações dos enfermeiros que reivindicavam salários atrasados, Mnangagwa cedeu, e iniciou o pagamento, solicitando a cerca de 16 mil enfermeiros que regressassem aos seus postos de trabalho, corrigindo a demissão decretada pelo seu próprio governo. E convocou, igualmente, os enfermeiros recém-formados que não tinham ainda emprego, a candidatarem-se a vagas de emprego no sector público. E mesmo na educação, que sempre foi uma área social em que o Zimbabwe apresentou excelentes indicadores, (com a mais elevada taxa de alfabetismo do continente africano), com uma quase total cobertura, em quantidade e qualidade do ensino escolar, prevalecem os salários baixos dos professores. E nem o aumento de 10% anunciado em Maio passado agrada aos profissionais, demonstrando no entanto, uma vez mais, a sua capacidade para, pelo menos, tentar resolver alguns dos mais graves problemas do Zimbabwe. Ainda assim, se por um lado há esforços notórios que fazem prever a recuperação do Zimbabwe nos próximos anos, por outro, há fenómenos que podem prolongar
o período de instabilidade deste país vizinho, e que estão na origem da divergência de leituras quanto ao que está por vir.
Fraco ambiente de negócios
Durante a campanha eleitoral, tanto Nelson Chamisa, do Movimento para a Mudança Democrática, como o Presidente em exercício, Emmerson Mnangagwa, da União Nacional Africana do Zimbabwe - Frente Patriótica (ZANU-PF), fizeram promessas para alterar a situação económica e financeira do país. Todas difíceis de alcançar.. “O Zimbabwe tornar-se-á uma nova jóia em África”, anunciava Mnangagwa recentemente. Para o economista João Feijó, mesmo após as eleições, “há riscos políticos ocasionados pela instabilidade pós-eleitoral (que opôs os partidos ZANU-PF no poder e o principal opositor MDC) e que podem resvalar em violência e instabilidade social, criando um ambiente desfavorável para a realização de novos investimentos e, consequentemente, deitando abaixo os esforços que o Presidente Mnangagwa está a realizar.”
Todo o cenário que se vai conhecendo do
4 500
É O NÚMERO DE FARMEIROS BRANCOS QUE PERDERAM EXTENSÕES DE TERRA A FAVOR DE AGRICULTORES NEGROS, NO QUADRO DA REFORMA AGRÁRIA DO EX-PRESIDENTE MUGABE, NO ANO 2000. ABRE-SE, AGORA, A HIPÓTESE DE RECUPERAREM AS TERRAS, À LUZ DO CONTRATO DE ARRENDAMENTO DE 99 ANOS, APROVADO PELO NOVO GOVERNO

país ao longo dos anos tem, naturalmente, efeitos ao nível dos rankings internacionais. Hoje, o Zimbabwe é um dos países com pior classificação internacional no ranking Doing Business do Banco Mundial, que avalia o ambiente de negócios em 190 países. Na edição de 2018 do estudo, a economia ocupa uma modesta 159ª posição (21 posições abaixo de Moçambique, também mal posicionado), o que não deixa de ser um péssimo indicador para os principais investidores externos. O país apresenta má classificação em itens como a facilidade na obtenção de crédito, de licença de construção; protecção de investidores minoritários; pagamento de impostos e comércio transfronteiriço.
Fuga de mão-de-obra qualificada
Com um sistema de educação funcional e gerador de competências, o país é também um ‘celeiro’ de quadros com qualificações para diversos sectores de actividade, incluindo a área mineira (principalmente ouro e platina), construções e diversas áreas de serviços. Mas, com a crise, muitos destes quadros abandonaram o mercado local, procu-
rando oportunidades noutros países, incluindo os da região, com destaque para África do Sul, Angola e Botswana. “A retoma do Zimbabwe também depende da capacidade que o país irá criar para estimular os seus quadros a regressarem”, defende João Feijó.
Fraco apoio internacional
AInda a sofrer as consequências de sanções impostas pelas grandes potências ocidentais desde 2001 (económicas e financeiras foram impostas pelos Estados Unidos, em resposta às graves violações dos direitos humanos e desrespeito ao Estado de direito), elas mesmas incluem restrições no apoio financeiro norte-americano, exclusão de viagens para os Estados Unidos de determinados indivíduos, limitação de trocas comerciais de bens de defesa e serviços, e suspensão de todo o apoio governamental não-humanitário. E não foram só os EUA. Até o programa de empréstimos do Banco Mundial está inactivo há alguns anos, “estando agora limitado à assistência técnica e trabalho analítico através de fundos fiduciários. A esse respeito, há alguns apoios que,
Uma breve visita à história recente do Zimbabwe pode ajudar a perceber a profundidade da crise em que tem estado mergulhado. Antes de 2000, a agricultura representava entre 9 e 15% da riqueza nacional e entre 20 e 33% de todas as receitas de exportação. Além disso, contribuía com mais de 60% da matéria-prima para a agro-indústria, e garantia a subsistência de 70% dos seus 16,7 milhões de habitantes. O programa de reforma agrária de Mugabe, no ano 2 000, mudou tudo. Cerca de 4 500 farmeiros brancos foram obrigados a abandonar dezenas de milhões de hectares de terras produtivas (visto que dominavam as técnicas de produção), a favor de agricultores negros, que levaram a agricultura ao colapso. Esse fenómeno teve efeitos catastróficos em todos os sectores da economia. Em 2008, a inflação duplicava a cada 24 horas, as taxas de câmbio caíram como em poucos casos na história mundial, e o desemprego cavalgou.
após Mugabe ter sido deposto, começaram a avançar. O principal de todos, é o Fundo Fiduciário de Reconstrução do Zimbabwe (ZIMREF), que provém de vários doadores (Dinamarca, União Europeia, Alemanha, Noruega, Suécia, Suíça e Reino Unido), aprovado em Maio de 2014 e com término em Dezembro de 2019. O objectivo da ZIMREF é contribuir para o fortalecimento dos sistemas de reconstrução e desenvolvimento do Zimbabwe, com foco “na estabilização e reforma, desenvolvimento e redução da pobreza através de oito projectos operacionais que incluem o Projecto Nacional da Água, avaliado em 10 milhões de dólares; Projecto de Aprimoramento da Gestão Financeira Pública (10 milhões de dólares); o Projecto de Modernização de Aquisições Públicas (2 milhões); Ambiente de Negócios, Sector Financeiro e Política de Investimentos (3,2 milhões). Para já, são ainda pequenas ajudas para a dimensão do problema. Mas é preciso começar por algum lado.

roll.
quando
Pedro Cativelos • Editor Executivo da Economia & Mercado
dizem-nos as notícias que, em finais de Setembro, no início do seu discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidadas, em Nova Iorque, Donald Trump pintou as palavras com as cores da bandeira norte-americana, carregando-as com a exaltação do princípio “América Primeiro”, garantindo que colocará os interesses dos Estados Unidos em primeiro lugar (o que só é uma novidade dito assim, de forma oralizada), e avisando que, com a sua administração serão rejeitados “os valores do globalismo multilateralista” em prol do interesse norte-americano.
A globalização não terá sido inventada por nenhum natural do Michigan, ou do Ohio, nem sequer por um investigador do MIT. Nasceu quando se tornou necessário encontrar um termo que fizesse jus à evolução das sociedades contemporâneas, e que fizesse o mundo parecer redondo. E achatado nas pontas. Mas, os Estados Unidos serão, por certo, das economias que mais a fizeram, à Economia, tornar-se o que é hoje. Global. É redundante (como o mundo), mas é necessário. Na verdade, não fosse isto uma página de uma revista, seria o lugar indicado para dizer que “o que eles querem sabemos nós. É globalizar o capital porque o dinheiro não tem cor, ao contrário das pessoas.”
Mas não estamos no café e aqui não se diz, escreve-se. E assim, por escrito, os ditos populares não causam o mesmo efeito. A este respeito, e até porque dedicamos esta edição da E&M à indústria da criatividade, lembro-me de um filme que vi recentemente, chamado “O Fundador”. Nele, conta-se a história de como Ray Kroc criou a McDonald’s, a maior cadeia de ‘fast-food’ no mundo (facturou 5,4 mil milhões de dólares no ano passado).
E também se como este “fundador”, afinal não o foi.
Sem querer estragar o final da história, percebemos como, por vezes, uma boa ideia não chega e é preciso ter visão, saber fazer e, especialmente, querer crescer. Muito. E ficamos também a perceber como Kroc transformou um pequeno restaurante familiar (criado pelos irmãos Mcdonald que acabaram, claro, na bancarrota), que só utilizava produtos locais
de qualidade e que não queria crescer, tornando-o no maior detentor de património imóvel em todo o mundo. Deles, dos Mcdonald, manteve-lhes o nome e o sistema de produção em série que inventaram para a cozinha e que lhes permitia uma produtividade nunca antes vista no negócio. Apenas isso. E sim, não é gralha. O twist do negócio dos hambúrgeres deu-se quando o seu “fundador” (então apenas responsável pelo franchise da marca nos EUA), descobriu que não tinha outra forma de controlar os seus franchisados (que se desviavam da ementa original, afastando-se da identidade da marca), que não fosse adquirir os terrenos onde estavam implementados, construir os restaurantes de forma standartizada e tornar-se senhorio, controlando o negócio dos seus locatários. Assim se criou um monstro mundial. Ou global, no caso. Hoje, os maiores símbolos do globalismo que convive connosco todos os dias, são efectivamente norte-americanos.
Da Coca Cola à Pepsi, da Budweiser ao Jack Daniels, da McDonald’s à Pizza Hut, da Ford à Tesla, da Microsoft à Apple, da Google ao Facebook. O dólar é universal, a Internet também, e até mesmo Trump é global.
O que nos faz pensar num outro conceito, diametralmente oposto, mas igualmente eficaz na sua ideologia de expansão, como é o caso da China. E de como uma marca pode marcar, sem o ser. O ‘spring roll’ (sim, não é apenas típico da China mas de todo o sudeste asiático) exemplifica na perfeição (gastronómica no caso) o que representam, hoje, estas duas potências económicas para o mundo, para África, onde predominam claramente, e até uma para a outra.
Uma é trabalhada como marca potenciada ao extremo e ancorada num modelo de negócio completamente mecanizado. A outra, é baseada numa cultura milenar e igualmente pouco saudável quanto está disseminada pelo mundo. Mas as duas têm algo em comum. O apetite. O nosso e o das culturas que simbolizam: EUA e China, dois mercados que têm sempre fome, e cada vez mais vontade de comer. O mundo, neste caso.
Hoje, os maiores símbolos do globalismo com que convivemos são efectivamente norte-americanos. Da Coca Cola à Pepsi, da Budweiser ao Jack Daniels, da McDonald’s à Pizza Hut, da Ford à Tesla, da Microsoft à Apple, da Google ao Facebook. O dólar, a Internet e até mesmo Trump são globais



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Uma viagem a Cuba, das gentes aos sabores com a história que permanece intocada pela (r)evolução
A gastronomia turca na sua forma mais essencial. E descobrir uma outra Istambul aqui mesmo, em Maputo 70
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Uma prova de whiskey irlandeses, e a descoberta do que os torna únicos no mundo


CUBA
NOITES
SUGERIDAS:
PREÇO MÉDIO:
com gente humilde, simpática e sorridente, Cuba é um arquipélago que congrega nas suas ilhas cerca de onze milhões de pessoas. Está localizado na América Central e tem como capital a famosa e caliente cidade de Havana. Uma visita ao país permite perceber que os cubanos estão ávidos de conhecer outras paragens no mundo. Cuba vive, há 56 anos, um isolamento mundial chamado El Bloqueo, decretado pelos Estados Unidos em 1962. Este embargo não permite que os cubanos façam negócios com os Estados Unidos e dificulta as transacções financeiras, alimentando barreiras e a interdição aos investidores naquele país.
No entanto, a luz acesa pelo presidente Barack Obama ao levantar o embargo – fez mesmo uma visita histórica ao país e reabriu a embaixada americana de Havana – foi apagada, quando Trump conquistou a Casa Branca. Durante o Bloqueo, os cubanos abraçaram como consolo a sua música e as suas danças, e fazem disso a forma de se afirmar no mundo. Afinal, Fidel Castro sempre defendeu que “sin cultura no hay libertad posible” (“sem cultura não há liberdade possível”).
Rumba, Salsa, Chá-chá-chá, Bolero, são alguns dos ritmos que movem a alma dos cubanos. Os cubanos fizeram-se heróis ao olharem para o embar-
go de soslaio e ao capitalizarem tudo o que sabem fazer: estudar e ensinar; cultivar a terra para produzir tabaco, através do qual fazem o famoso charuto; trabalhar a cana para produzir o açúcar; processar o café; explorar o níquel e o cobalto. Cedo despertaram para a beleza natural e as lindas paisagens que caracterizam o país, tornando as suas cidades num destino turístico de excelência. O turismo contribui, aliás, grandemente para a economia cubana e cria milhares de empregos directos. Também a Saúde e a Educação são de excelência. E são gratuitas para todos os cubanos, Há médicos para todos e há escolaridade obrigatória da primeira classe à universidade.
duas “havanas” diferentes Depois de aterrar no aeroporto, do lado de fora, espera-nos o táxi que nos leva até ao hotel. Existem dois tipos de táxi: os amarelos, considera-

dos oficiais, e os antigos carros americanos, dos anos 60, geralmente usados pelos cubanos por causa do baixo preço que cobram.
Passamos a Havana Velha e o Centro Urbano. A primeira é realmente velha, em ruínas, com edifícios marcados pelo tempo e ruas cheia de gente bonita com alma limpa, onde se vende um pouco de tudo. A segunda é onde estão localizados os hotéis, os supermercados e os edifícios de luxo, uns em funcionamento e outros em reabilitação.
As duas “Havanas” são divididas pela Rua do Prado, um mítica ‘calle’ onde se testemunharam alguns dos episódios históricos que marca(ra) m o país. Hoje, além de turistas, há carros alegóricos e feiras ambulantes. E por ali, muita coisa se passa. Da visita do Papa Francisco, ao concerto dos Rolling Stones, passando pelas filmagens do filme “Velocidade Furiosa 8”.
Uma nota dominante no turismo em Cuba é que conquista mais pessoas de idades avançadas do que jovens. Há muitos jovens, claro, mas o número está bem longe de ser igual.
Mas, independentemente da idade, quem visita este lugar fá-lo também para degustar as iguarias locais, os famosos Mojitos, a Piña Colada, os charutos e, claro, dar gosto ao pé, na Salsa e na Rumba. Organizados e disciplinados, os cubanos fazem com que o turista se sinta seguro para percorrer as ruas, testemunhando a história da irmandade e do reconhecimento. Sim, há estátuas em todas praças. Estátuas dos presidentes que sempre estiveram com Cuba nos bons e nos maus momentos.
Edifícios novos e modernos estão a ser erguidos, demonstrando a (r)evolução de um país ávido para receber – mas também conhecer – o mundo.

INDEPENDENTEMENTE DOS GOSTOS, QUEM VISITA CUBA VAI PARA DEGUSTAR AS IGUARIAS LOCAIS, OS FAMOSOS MOJITOS, A PIÑA COLADA, OS CHARUTOS E,
CLARO, DAR GOSTO AO PÉ, NA SALSA
TEXTO FREDERICO JAMISSE
FOTO JAVIER LABRADOR DEULOFEU

ROTEIRO
COMO IR?
Voar para Cuba pressupõe vôos com escala. De Maputo voa-se para Joanesburgo, onde se faz a ligação para Paris. De França viajará directo para Havana.
ONDE DORMIR?
O Hotel Nacional de Cuba é uma óptima escolha para ficar. Além de ser um encanto pela sua estrutura arquitectónica, é o local de eleição de todos os turistas que por lá passam para revisitar a História e ver o mar. Os quartos, confortáveis, permitem uma vista sem igual.
ONDE COMER?
A gastronomia cubana é apetitosa. No restaurante La Barraca, no Rio Mar, assim como no clássico restaurante Comedor Aguiar, pode degustar-se um arroz de feijão que acompanha quase todos os pratos, com predominância dos mariscos confeccionados ao natural e sem temperos.
ONDE Maputo Shopping
Aberto
todos os dias

quer seja já um apreciador da gastronomia turca quer nunca a tenha experimentado, o Istambul deve ser a sua primeira escolha em Maputo. E, sobretudo, se só conhece a versão fast food da cozinha turca, então é imperativo ficar a saber que há muito mais do que o kebab, de que talvez já tenha ouvido falar. Na verdade, este kebab, muito popular na maior parte dos fast food turcos espalhados pelo mundo, é apenas uma variedade específica, que na Turquia se designa por doner kebab, ou seja, um wrap com carnes, legumes e vegetais que lembra o churrasco grego. A realidade é que na Turquia o termo kebab é dado a qualquer cozido no espeto. O kebab pode ser também servido de diversas maneiras: em espetos, guisados, em rolinhinhos com pão sírio e salada (urfa kebab e adana kebab), e até cozidos em pote de barro, a lembrar o tajini marroquino, sendo designado nalguns
locais como testi kebab (um prato típico da rgião Centro. Não é por acaso que a gastronomia turca está, a par da francesa ou da chinesa, entre as mais apreciadas. Ela é extremamente diversificada. A variedade dos pratos e as suas múltiplas combinações tornam-na aliciante, em pratos que reúnem elementos persas e especiarias árabes e gregas. Algo que não nos deve surpreender pois a culinária turca é o resultado, em larga medida, do privilégio de estar entre o Oriente e o Mediterrâneo, e contar com uma complexa história de imigração entre a Ásia Central ( onde os Turcos se misturaram com os Chineses) e a Europa (que os Turcos conquistaram, a dada altura, até Viena). Mas não só. Há também que ter em aten-
ção que este ecletismo culinário resulta do facto de, ao longo da sua História, sobretudo durante o período dos Impérios Bizantino e Otomano, os reis e sultões terem permitido que as cidades absorvessem o melhor da cultura das civilizações sob seu domínio. Para além disso, eles também facilitaram o intercâmbio de informações entre as caravanas mercantis que vinham de todos os cantos da Europa Central, da Ásia, dos Balcãs, do Oriente Médio e do continente africano. A diversidade da gastronomia turca é visível na maior parte dos seus pratos. Os legumes, as leguminosas e as carnes misturam-se freA CULINÁRIA TURCA É O
quentemente como se pode ver, por exemplo, no kurufasuliye, o prato nacional turco, que mistura feijão branco, carne e pimentas secas e é servido acompanhado por pilav (nome dado ao arroz cozido com especiarias) e tursu (picles). As verduras estão sempre também muito presentes: ervilhas verdes e brancas, tomates, berinjelas e pimentos servem normalmente de acompanhamento às carnes de cordeiro, vaca e frango em guisados. Para terminar, aqui ficam algumas sugestões de pratos que pode experimentar no Istambul. Como a lista de kebabs é extensa e muito variada, um opção possível é escolher o Karisik Kebab que inclui uma variedade deles (e pode ser pedido para 2 ou 4 pessoas). O Ali Nazik (Sis) – pedaços de carne de vaca com molho de iogurte – ou o Kiremit Kofte – almôndegas servidas em prato de barro – são duas excelentes opções.

PAÍS: Irlanda
REGIÃO: Midleton
ESTILO: Blend de Single Pot Still e Whiskey de Cereais
COR: Brilhante com nuances esverdeadas. Amadurecido em barris de bourbon carbonizados duas vezes. Destilação anual.
AROMA: Caramelo e fudge de caramelo cremoso
PALADAR: Notas de nozes com especiarias e baunilha doce. Rico e intenso com notas de madeira torrada.
BUSHMILLS SINGLE MALT 10 ANOS

PAÍS: Irlanda
REGIÃO: Bushmills, Condado de Antrim
AROMA: Elegante, muito equilibrado, fino e suave, com notas de cereais, citrinos (limão) e alcaçuz. notas florais e de baunilha.
PALADAR: Na boca é doce e levemente cremoso. Final longo, revelando notas de madeira, amêndoas e mel.
TEOR ALCOÓLICO: 40%
BUSHMILLS IRISH HONEY

PAÍS: Irlanda
REGIÃO: Bushmills, Condado de Antrim
AROMA: Maçãs vermelhas maduras com cereal doce, evoluindo para notas de mel.
PALADAR: Um inicio de doçura de mel acompanhado por maçãs e pêras. Final médio/ longo, moderadamente doce com uma agradável adição de mel.
TEOR ALCOÓLICO: 35%

o irish whiskey é a categoria em maior crescimento no mundo, em termos de vendas, e o líder nesta categoria é o Jameson Irish Whiskey. Criado na Irlanda nos anos 1600’s, a sua designação original na lingua gaélica (a lingua dos Celtas que povoaram inicialmente as Ilhas Britânicas) era Uisce beatha (expressão que significa “água da vida”). As palavras Whiskey (Irlanda) e Whisky (Escócia) são decorrentes de uma pronúncia errada da palavra uisce na Irlanda ou uisge na Escócia. A decisão de manter esta dupla designação - Whiskey Irlandês e Whisky Escocês – decorreu, essencialmente, de uma estratégia de marketing. Quando, nos anos de 1780, John Jameson criou a sua destilaria na Bow Street, em Dublin, não podia imaginar a dimensão que ela atingiria. Mas quatro momentos, em especial, afectaram o domínio dos Whiskeys Irlandeses: as duas guerras mundiais, a guerra civil na Irlanda e lei seca nos Estados Unidos. Na década de 70 do século XX, as portas da destilaria da Jameson estiveram mesmo para fechar, o que só não aconteceu porque, em 1989, a Pernod Ricard comprou a Jameson. Vinte anos depois, as vendas atingiram as 7,3 milhões caixas de 9 litros, um crescimento que reflecte uma expansão geográfica considerável que fez com que a África do Sul, por exemplo, se tenha tornado o segundo maior mercado do mundo, com a venda de 1 milhão de caixas de 9 litros por ano. Neste processo de expansão, em 2015, foi criado o afiliado mais novo da Pernod Ricard, em Moçambique, onde a Jameson está, neste momento, na liderança do mercado, segundo o IWSR 2018, no qual estão também disponíveis o Jameson Original e o Jameson Black Barrel, whiskeys blends distintos: o Single Pot Still Whiskey e o whiskey de cereais, em que são utilizados apenas três ingredientes para produzir Single Pot Still Irish Whiskey: água, cevada e levedura.
TEXTO RUI TRINDADE FOTOGRAFIA D.R
PAÍS
Irlanda
REGIÃO
Midleton
ESTILO
Blend de Single Pot Still e Whiskey de cereais
Amadurecido em cascos de sherry e de bourbon. Três vezes destilado para uma dupla suavidade.
AROMA
Fragrância floral leve, madeira picante e notas doces
PALADAR
Um equilíbrio perfeito de especiarias, nozes e baunilha com sugestões de sherry doce e uma suavidade excepcional.

VAGANDO MAPUTO AURORE VINOT
EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA
Centro Cultural
Franco-Moçambicano
Sala de Exposições
Inauguração: 2 Outubro
Hora: 18h30
Aberta até 3 de Novembro
EXPOSIÇÃO INCLUÍDA
NA PROGRAMA DO FESTIVAL
MAPUTO FAST FORWARD 2018
FAMÍLIAS MOÇAMBICANAS MUNDUNGAZE
Fundação Fernando
Leite Couto
Galeria
Inauguração: 9 de Outubro
Hora: 18h
Patente até 3 Novembro
OBJECTOS EM TRÂNSITO/THE HANDS THAT FEED YOU JOÃO ROXO EXPOSIÇÃO DE ARTE & DESIGN
Camões - Centro Cultural Português em Maputo
Inauguração: 11 de Outubro
Hora: 18h
Patente até 9 de Novembro
EXPOSIÇÃO INCLUÍDA NA PROGRAMA DO FESTIVAL MAPUTO FAST FORWARD 2018
O CASAMENTO MISTERIOSO DE MWIDJA CENTRO DE RECRIAÇÃO ARTÍSTICA ENCENAÇÃO: GIGLIOLA ZACARA
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 13 de Outubro
Hora: 11h
ENIGMA 1:1
KK TEATRO
ENCENAÇÃO: BUANAMADE AMADE
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 17 de Outubro
Hora: 18h
CINE-CLUBE: SELECÇÃO DE CURTAS METRAGENS DE CINEMA DE ANIMAÇÃO
AFRICANO INDEPENDENTE
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Auditório
Dia 1 de Outubro
Hora: 19h
FINDING FELA
REALIZADOR: ALEX GIBNEY
DOCUMENTÁRIO
Fundação Fernando Leite Couto
Dia: 3 de Outubro
Hora: 18h
CINE-CLUBE: SELECÇÃO DE CURTAS METRAGENS DE CINEMA DE ANIMAÇÃO FRANCÊS PARA ADULTOS
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Auditório
Dia 8 de Outubro
Hora: 19h
FESTA DO CINEMA DE ANIMAÇÃO (2ª EDIÇÃO)
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Auditório
Dia 13 de Outubro
Hora: 10h30 – 21h
• em destaque
“MBUZINI MEMORIAL”
REALIZAÇÃO: LAURENCE
HAMBURGER
DOCUMENTÁRIO
O documentário “Mbuzini Memorial” traça a história do monumento concebido pelo arquitecto moçambicano José Forjaz, em Mbuzini, onde se deu o acidente que vitimou o Presidente Samora Machel e 34 outras pessoas. O documentário é também uma reflexão sobre a política e a arquitectura pública no séc. XXI no continente africano. No filme, José Forjaz descreve a história conturbada que rodeou a construção do monumento. Realizado por Laurence Hamburger, esta é a primeira vez que o documentário será exibido em Moçambique. Nascido na África do Sul, Laurence Hamburger tornou-se internacionalmente conhecido pelo seu trabalho como realizador de sucesso de campanhas publicitárias para cinema e televisão, tendo produzido trabalhos para clientes como Ikea, VW, Nandos, Toyota, SABC, Sasol e Sony Playstation. No entanto, a partir de 2012, quando fundou a produtora Goodcop, voltou-se, sobretudo, para a realização de obras de características autorais, como as curtas metragens “Flies” ou “As Above, So Below’. “Moses & Griffiths”. O documentário “Mbuzini Memorial” irá ser exibido no Centro Cultural Franco-Moçambicano, no dia 17 de Outubro, às 19h. A seguir à projecção do filme terá lugar um debate com a participação do realizador, do arquitecto Vitor Tomás e do escritor António Cabrita.

CICLO DE CINEMA DO FESTIVAL MAPUTO FAST FORWARD 2018 “THE TOWER” REALIZAÇÃO: MATS GRORUD FILME DE ANIMAÇÃO
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Auditório
Dia 15 de Outubro
Hora: 19h
Entrada: 150 MT
XIDIMINGUANA (DOMINGOS HONWANA) MARRABENTA
VELHA GUARDA
Fundação Fernando Leite Couto
Dia: 19 Outubro
Hora: 18h
ASSA MATUSSE
Fundação Fernando Leite Couto
Dia: 26 de Outubro Hora: 18h
ESCOLA NACIONAL DE MÚSICA
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Sala Grande
Dia 31 de Outubro Hora: 18h
21 POEMAS DO ÍNDICO (SARAU DE POESIA)
GLÓRIA DE SANT`ANNA / SÓNIA SULTUANE / LICA SEBASTIÃO / HIRONDINA JOSHUA / MELITA MATSINHE / E OUTRAS VOZES...
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 25 de Outubro
Hora: 18h

“madrinhas da guerra” é um projecto que conta a história das mulheres moçambicanas que participaram no Movimento Nacional das Mulheres de 19611974. Estas mulheres foram patrocinadas pelo governo português para fornecer apoio moral aos soldados que lutavam nas linhas da frente durante a Guerra de Independência de Moçambique. Muitas delas foram recompensadas com posições influentes na sociedade e nas classes mais altas. Em 1974, quando a guerra da independência terminou com um acordo de cessar-fogo entre as forças moçambicanas da FRELIMO e o Governo Português, o Movimento Nacional das Mulheres terminou oficialmente. No entanto, essas mulheres foram condenadas ao ostracismo da sociedade pelo seu papel no apoio às forças coloniais. O projecto “Madrinhas de Guerra” reflecte este importantíssimo - mas muitas vezes esquecido - pedaço da história
em Moçambique, visitando as casas das Madrinhas de Guerra que ainda hoje vivem em Maputo e personificam o passado da opulência vivida durante o apoio do governo português. e a subsequente marginalização sentida após a independência. Amilton Neves é um fotógrafo profissional baseado em Moçambique cujo trabalho examina questões sociais contemporâneas usando técnicas de narrativa e documentário. Os seus projectos passados e actuais concentram-se na abordagem das percepções de indivíduos que se encontram à margem da sociedade através de narrativas de fortalecimento, preservando aspectos frequentemente esquecidos de nossa história moderna. Amilton Neves par-
O PROJECTO REFLECTE ESTE IMPORTANTÍSSIMO - MAS MUITAS VEZES ESQUECIDO - PEDAÇO DA HISTÓRIA
ticipou em cursos de formação na Escola de Fotografia Sooke no Canadá e no Nuku Studio no Gana, e expôs por diversas vezes no Centro Cultural Franco-Moçambicano.
A exposição tem curadoria de Christine Cibert. Curadora de arte independente há mais de 20 anos, que vem organizando numerosas exposições de pintores e fotógrafos nos vários países onde viveu: França (seu país de origem), Japão, Cambodja, Coreia do Norte, Suíça e, actualmente, Moçambique. Colaborou com galerias, museus, instituições e fundações (Réunion de Musées Nationaux, Musée Guimet, Musée de l’Elysée, Fundação Gilles Caron, Fundação Fernando Leite Couto), com centros culturais de Tóquio, Kyoto e Fukuoka, e com festivais de fotografia (Festival de Fotografia de Angkor, Festival de Fotografia de Rangoon, Japan Culture Fall em Genebra, Kyotographie, Festival de Fotografia de Nuku, no Gana.
A exposição faz parte do programa da 3ª edição do Festival Maputo Fast Forward (www.maputo fastford.com)
Local: Fortaleza de Maputo
Data:
12 de Outubro a 30 de Novembro
Horário: 9h30 – 17h
ROLLS ROYCE CULLINAN
POTÊNCIA
Motor V12 de 570 cv
COMBUSTÍVEL
Gasolina
VELOCIDADE
250km/h
três anos após o primeiro anúncio, a Rolls Royce apresentou finalmente, no passado mês de Maio, o Cullinan, o seu primeiro SUV (Sport Utility Vehicles).
A escolha do nome é, por si só, bastante significativa pois faz referência ao maior diamante jamais encontrado. O Cullinan (assim designado por ter sido encontrado na mina que era propriedade de Sir Thomas Cullinan), foi descoberto em 1905, na África do Sul, pesava 3, 106 quilates (o equivalente a 621,3 gramas) e foi oferecido à Coroa Britânica. Posteriormente, foi delapidado em diversas pedras individuais estando as duas maiores actualmente guardadas na Torre de Londres.
A Rolls Royce pretende assim sinalizar que este seu SUV é, de facto, a “jóia da coroa”
vdos modelos deste segmento. Com uma silhueta altiva e imponente (5,34 metros de comprimento, 2,16 metros de largura e 1,83 metros de altura), o design do Cullinan exibe alguns dos traços distintivos da marca (como a estatueta Spirit of Ecstasy que encima o capot, o formato da grelha ou o desenho dos faróis). No entanto, a Rolls Royce quis conceber o melhor e mais luxuoso SUV de sempre e proporcionar aos utilizadores uma experiência única. Começando pelo interior, para além do luxo que o distingue, é de referir a extrema preocupação com o conforto. Os lugares traseiros são, como seria de esperar, os mais confortáveis e podem ser organizados de acordo com duas configurações: a configuração “Lounge Seat” - um banco corrido
A ROLLS ROYCE PRETENDE QUE ESTE SEU SUV SEJA A “JÓIA DA COROA” E O MELHOR DE TODOS, E PARECE QUE CONSEGUIU
para três passageiros desdobrável através de comandos eléctricos - e a configuração “Individual Seat” que apresenta o formato de duas cadeiras individuais separadas por uma consola central que integra um mini-frigorífico, flutes de champanhe e numerosos gadgets tecnológicos. Mas são talvez os sistemas de assistência à condução que fazem a diferença neste Cullinan: um sistema de visão nocturna, quatro câmaras exteriores que conferem uma perspectiva panorâmica, aviso de colisão e de tráfego lateral, assistente de faixa, hotspot WiFi e uma funcionalidade que rebaixa automaticamente a suspensão em quatro centímetros quando o condutor se aproxima do veículo, facilitando a entrada no seu interior. Sob o capot está um portentoso V12 biturbo a gasolina de 6,75 litros. Este bloco desenvolve uns portentosos 563 CV sustentados por um binário de 850 N.m transmitidos às quatro rodas através de uma caixa automática de oito relações. Tem mesmo de o conduzir, para sentir.


