SUMÁRIO
p. 5 EDITORIAL O RN precisa se apropriar da sua história para construir seu futuro
p. 52 ALRN já aprovou projeto e promoveu audiência em Touros
p. 54 p. 6 Lenine Pinto começou a redescobrir o Brasil pelos EUA
A tese pode gerar valor turístico e simbólico, avalia o presidente da Fecomércio
p. 57 p. 11 ENTREVISTA | “No Rio Grande do Norte foi descoberto o Brasil!”
"Com uma narrativa forte, validada e bem trabalhada, o RN pode ganhar muito", avalia Emprotur
p. 19
p. 60
O RN E O “DESCOBRIMENTO” DO BRASIL, UMA QUESTÃO DE FÍSICA
Sindetur acredita que RN poderia ter vantagem com novo atrativo turístico
p. 33
p. 62
Brasil: Descobrimento em 1500 e Posse em 1501
"Descobrimento" do Brasil pelo RN já foi tema de campanha da Secretaria de Turismo
p. 36 Há 92 anos, Cascudo afirmou que, se dependesse das correntes, “Cabral avistaria terras do RN e não da Bahia”
p. 64 Para SindBuggy-RN, “descobrimento” deveria ter política de divulgação conjunta dos municípios
p. 38 ENTREVISTA | “A gente não se apropria dos próprios fatos”
p. 66 Prefeito de Pedra Grande defende reativação de Consórcio e ação política em torno do tema
p. 43 Tese poderia se tornar grande diferencial turístico e cultural para o RN, afirma secretária de Turismo do RN
p.69
p. 45
p. 72
Comprovação da tese do "descobrimento" no RN traria ganhos imensuráveis, afirma ABIH
Marco de Touros está em exposição no Museu Câmara Cascudo
p. 47
p. 75
Sob o ponto de vista do turismo, pesquisas são importantíssimas, aponta Kokinho
Poderes curativos e ameaças de morte: a peleja de 12 anos para trazer o Marco de Touros a Natal
p. 49
p. 77
Ação política é essencial para consolidar a tese, afirma presidente da Comissão de Turismo da ALRN
Reportagem da Folha de São Paulo projetou tese dentro e fora do Brasil
Sindicato dos Guias de Turismo defende mais debate sobre o assunto e cobra ações políticas
3
EXPEDIENTE Municípios em Foco é uma publicação de JCGG Negócios, com circulação trimestral e distribuição gratuita para instituições públicas, empresas e a população em geral. Diretores FERNANDO DE ARAÚJO JALES COSTA MANUEL NETO GASPAR JÚNIOR MÁRIO GOMES TEIXEIRA Direção Executiva ROSE MONTENEGRO Edição e Textos EVERTON DANTAS Edição e Diagramação DANILO MEDEIROS Fotografia ARGEMIRO LIMA (ARQUIVO NOVO JORNAL) Este dossiê especial faz parte
EDUARDO MAIA - JOÃO GILBERTO (ALRN)
da edição que circula em
BRUNO DIAS | FECOMÉRCIO (ASCOM)
dezembro de 2025 e não pode ser
EDUARDO CARDOSO (HILLSMOV)
distribuído em separado.
GIOVANNI SÉRGIO | RENATO SILVA
Todos os direitos reservados
ROBERTO CASTRO | PICRYL.COM Redação: Rua Maria Auxiliadora, 776 – Tirol – Natal/RN, (84) 99951.0220 Tiragem: 3 mil exemplares Contato: revista@jcgg.com.br • revmunicipiosemfoco.com.br Acesse e siga a revista Municípios em Foco nas redes sociais
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2020.6848 revista@jcgg.com.br *Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião da revista. Sua publicação tem o objetivo de estimular o debate em torno dos desafios e problemas vividos pelos municípios potiguares e de refletir sobre ideias que a sociedade discute na sua rotina.
EDITORIAL
O RN PRECISA SE APROPRIAR DA SUA HISTÓRIA PARA CONSTRUIR SEU FUTURO QUANDO A TRAVESSIA para produzir esta edição especial da revista Municípios em Foco começou, o artigo “Scientific data in Pero Vaz de Caminha's letter” ainda nem havia sido publicado pela Universidade de Cambridge. O ponto de partida para a publicação era o texto que saiu pela revista Brazilian Journal of Science, publicado no final de 2024; e que reacendeu a tese de que foi na costa do Rio Grande do Norte que a esquadra de Pedro Álvares Cabral acabou desembarcando, há 525 anos, no acontecimento histórico chamado de "descobrimento do Brasil". A nova abordagem analisou a Carta de Caminha sob o ponto de vista da física, usando tecnologias hoje disponíveis. Em setembro, os físicos Carlos Chesman, da UFRN, e Cláudio Furtado, da UFPB (autores do estudo), conseguiram um feito inédito: publicar o artigo internacional defendendo a tese. Em novembro deste ano, após uma reportagem da Folha de São Paulo, a tese dos físicos ganhou o país e foi bater na Europa. Em tempo: o termo “descobrimento do Brasil” é usado para se referir ao fato, mas sempre entre aspas devido à discussão dos últimos anos que contesta a expressão. Esta edição conta toda essa história; recupera e documenta os que iniciaram esse debate; e expõe como o RN perde ao não se apropriar dessa narrativa em seu favor. Este dossiê ouviu as pessoas que podem promover essa mudança e gerar benefícios para os potiguares. E questionamos o que cada um pode fazer para ajudar. As respostas estão nas páginas a seguir. Este dossiê é também um mapa com as coordenadas para que o Rio Grande do Norte saia da inércia atual. Não há como se enganar: está aberta uma porta que tem o poder de gerar emprego, renda e desenvolvimento para o RN e para os municípios, por meio do turismo. Sob essa ótica, a edição especial que sai agora expõe uma situação crítica para o estado: todos sabem que é possível fazer algo; muitos sabem inclusive o que é preciso fazer; mas, aparentemente, poucos estão preocupados em agir. Ou seja: faltam vontade e ação políticas. Quem ler esta revista rapidamente vai chegar a uma outra conclusão óbvia: de que por meio da união das entidades, instituições e governos, o Rio Grande do Norte pode alcançar em pouco tempo outro patamar no que diz respeito ao turismo, a chamada “indústria” que irriga a economia potiguar em todos os seus poros. É necessário agir. Ainda mais diante da divulgação gratuita e favorável que o assunto teve recentemente. A contribuição de Municípios em Foco está posta: é esta revista, seu conteúdo; e também esse alerta de que algo precisa ser feito. O RN precisa se unir e abraçar essa tese, sua história, e usá-la como trampolim para seu futuro, um novo período no qual o estado deixa de ser uma promessa que jamais se realiza para passar a ser um exemplo de como se deve agir. Navegar é preciso. 5
PIONEIRISMO
LENINE PINTO COMEÇOU A REDESCOBRIR O BRASIL PELOS EUA Em entrevista concedida há mais de 20 anos, recuperada pela Municípios em Foco, o pesquisador conta como se interessou pela questão do "descobrimento" do Brasil e qual a indicação de que esse fato histórico ocorreu no RN e não na Bahia
tese do chamado “descobrimen-
ter começado a pesquisar o tema.
to do Brasil”. Antes, ele escreveu
Antes de se voltar para a questão
“A Reinvenção do Descobrimen-
do descobrimento, ele investigava
to” (1998) e “Ainda a questão do
a presença dos norte-americanos
descobrimento” (2000).
em Natal. E foi em uma biblioteca
Quando lançou os primeiros li-
dos EUA que encontrou as pri-
vros, sua tese não foi tratada com
meiras pistas de que o RN seria
muita seriedade. Com o passar
na verdade o local por onde os
m dos primeiros e maiores res-
dos anos e o aprofundamento da
portugueses desembarcaram no
ponsáveis pela divulgação da
pesquisa, que envolveram a reu-
Brasil.
tese de que os portugueses avis-
nião de mapas e mais argumen-
A revista Municípios em Foco
taram e atracaram primeiro no
tos, a tese foi ganhando adeptos.
recupera a entrevista na qual, pe-
Rio Grande do Norte foi o pesqui-
Atualmente, alguns pontos es-
las próprias palavras de Lenine, o
sador Lenine Barros Pinto, que
tão sendo revistos, como a ques-
leitor pode entender como toda
morreu em junho de 2019, aos 89
tão do Pico do Cabugi, mas mui-
a pesquisa começou e o que fez
anos.
tos outros têm ganhado força.
acender nele a centelha de ir em
O último lançamento dele so-
Em 2004, Lenine Pinto conce-
busca desse “redescobrimento”
bre o tema foi em 2015, com o
deu uma entrevista ao programa
do Brasil. Confira os principais
livro “O mando do mar", que fe-
Memória Viva, da TV Universitá-
trechos...
chava a trilogia escrita sobre essa
ria, na qual explicou o porquê de
6
Lenine Pinto, pesquisador
VIAGENS AOS EUA O meu primeiro livro sobre os americanos, que foi
quero ver o que se relaciona com o grande órgão ame-
‘Os Americanos’, era uma evocação sentimental da-
ricano aqui em Natal, que era o ATC, Air Transport
quele período. E eu resolvi, então, fazer um livro real-
Company. Era o Comando de Transportes Aéreos, que
mente sério, uma pesquisa profunda sobre a matéria
era quem fazia o transporte das mercadorias, das coi-
e, por conta disso, eu viajei uma meia dúzia de vezes
sas, das munições que iam para as frentes de batalha.
aos Estados Unidos.
Aí teve lá um bibliotecário daqueles que me levou
Teve ano de ir três vezes aos Estados Unidos, porque
num corredor e disse: "Olha, aqui para lá, o senhor
é muito difícil de você conseguir os livros antigos e,
pode cascavilhar tudo aí que vai encontrar muita
às vezes, coleções grandes, como essa coleção que eu
coisa". Uma das primeiras coleções que encontrei, cer-
encontrei, que foi o ponto de partida. Eu chegava na
ca de 20 livros, chama-se História das Operações Na-
biblioteca, a pessoa dizia: “Mas qual é o livro que você
vais Norte-Americanas na Segunda Guerra Mundial,
quer?". Eu quero toda a Segunda Guerra Mundial, eu
do Almirante (Samuel Eliot) Morrison. 7
PIONEIRISMO
“Os primeiros historiadores brasileiros eram portugueses radicados no Brasil e, particularmente, na Bahia. Então, esse povo escreveu o que quis. Mas não se pode levar isso muito a sério”
CABO DE SÃO ROQUE Primeiro volume, o Atlântico Sul. Eu tirei o livro da estante. Primeiro capítulo desse livro, escrito em português — Deus é Brasileiro. Aí eu me empolguei com aquilo, digo, aqui está toda a história como realmente estava toda a história. Então, ali no livro do Morrison, tem duas citações importantíssimas de documentos do Almirante, que foi a figura que comandou aqui as forças armadas americanas durante a Segunda Guerra, até o fim da guerra, almirante (Jonas Howard) Ingram. Dois memorandos dele. Ele trouxe uma força-tarefa em junho de 1941, ou abril de 1941, bem antes de chegarem os aviões. Então, ele diz: “Eu me estabeleci no Recife pela proximidade do Cabo de São Roque”. Muito bem. Quer dizer, então, o foco mesmo de interesse deles era o Cabo de São Roque. Por quê? Por causa da distância com a África, porque o interesse dos americanos era bloquear, dos americanos e dos Ilustração de um dos navios da esquadra de Pedro Álvares Cabral
ingleses, bloquear. Não deixar passar navio do eixo nessa área. E no segundo memorando do Almirante Ingram, aí foi mais grave ainda. Ele diz o seguinte: “De Salvador,
destroyers e os cruzadores que entravam aí na barra
como base naval, é muito mais conveniente do que
do rio. E para ele era longe. E para Cabral, que tinha
o Recife. Mas, infelizmente, tem o problema da dis-
com as caravelazinhas movidas a vento? Por quê?
tância. A distância não me permite ir para lá”. Aí eu,
E Cabral não foi bater nem em Salvador, viu? Cabral
nessa hora, eu digo, meu Deus do céu, esse homem só
foi bater quase oitocentos quilômetros de dentro de
tinha destroyers e cruzadores movidos a óleo diesel,
Salvador, que teria sido em Porto Seguro, lá no sul da
rapidíssimos. E a gente viu quantas vezes aqui aqueles
Bahia, certo?
8
de São Jorge? Porque eles eram obrigados a dar ao lu-
O QUE CASCUDO DISSE
gar que eles descobrissem o nome do santo do dia.
Aí eu comecei a me interessar pelo assunto e a ler
São Jorge é dia 23 de abril. Aí, como disse o escritor
mais coisas. Aí eu começo a ver muitas opiniões. Por
português, né? Por causa de um dia São Jorge deixou
exemplo, tem um oficial da Marinha Brasileira que,
de ser o padroeiro do Brasil. Não. Era dia 23. Porque,
quando se reformou, foi ser comandante de navios.
como não tinham relógios, sem ampulhetas, eles ti-
E esse oficial de Marinha, o comandante Oliveira Belo, ele diz o seguinte: “Todas as vezes que eu venho
nham que corrigir as ampulhetas no sol, no sol a pino de meio dia.
do norte para o sul, eu procuro aquelas correntes que
Corrigiam as ampulhetas e passavam a contar o
teriam levado Cabral para o sul, que não existe isso”.
dia, para efeitos náuticos, com a data do dia que esta-
Entendeu? Como que ele chegou a isso? Não existe
va por vir. Então, na tarde do dia 22 de abril, para eles,
corrente nenhuma que possa ter levado ele para lá.
era dia 23 e era dia de São Jorge.
Mestre Cascudo, que nunca dormiu no ponto, diz num livro dele, que se a corrente foi levar Cabral a 17 graus
O PICO DO CABUGI
de latitude, por que não a 5 no Rio Grande do Norte?
Eu consegui, inclusive, texto de Cabral. Carta de
Cascudo diz isso. Agora, ficam aí botando uma
Cabral para Dom Manuel, escritinha. Agora, aconte-
porção de bobagem na boca de Cascudo, sabe? Por
ce o seguinte: me mandaram isso da Torre do Tombo,
exemplo: "Cascudo disse que quem chantou o marco
que eu fui lá e deixei tudo apalavrado. Me mandaram.
foi Américo Vespúcio". Cascudo nunca disse isso. Não
Eu recebi pela internet e ocupou todo o disquete. O dis-
está em livro nenhum dele. Que eu cascavilhei de cabo
quete ficou ruim, inclusive, de abrir, compreendeu?
a rabo, que essa é a função do pesquisador. Não disse.
Mas aí você quer ver o negócio do Pico? O Pico é
Por exemplo, no mapa de Cantino, que é o primei-
o seguinte: quando eles descobriram o Brasil, existia
ro mapa do Brasil, de 1502, a curvatura aqui do Rio
o que eles chamavam de Morro de São Vicente. Muito
Grande do Norte aparece com a bandeirinha portu-
alto, no fundo, uma cadeia de montanhazinhas e tal, e
guesa e é assinalado Cabo de São Jorge. Por que Cabo
lá o Morro de São Vicente. 9
PIONEIRISMO
Tanto que eu disse a (Vicente) Serejo, teu nome é
O MARCO DE TOUROS
em homenagem ao morro lá de Macau, Morro de São
Agora, tem o problema do Marco de Touros. Inven-
Vicente. Que se avista, se avistava na época, desde Ma-
tam que não foi posto por Cabral. Mas se não foi Ca-
cau até Touros, até a Praia de Touros, até a Ponta do
bral, foi outro português que teve antes. Quem foram
Calcanhar.
os portugueses que tiveram antes? Duarte Pacheco Pe-
Isso está em documentos, compreendeu? Cartográ-
reira, em 1498. Bartolomeu Dias, que teve também em
ficos portugueses. Agora, eu sou culpado de ninguém
1498. Um ano após deixar Vasco da Gama. Isso aqui já
ler isso? Não é? Aí ficam levando na brincadeira. Aí o
era muito conhecido. Tem uma carta do rei Afonso V
Oswaldo Lamartine me disse: "Por que você não vai
proibindo que se arrancasse madeira de pau Brasil em
lá para consultar os pescadores?" Eu fui. Tive a sor-
1470. Trinta anos antes de Cabral. Compreendeu? Por
te de, na hora que eu cheguei, estavam chegando dois
que ele escreveu essa carta? Por ter essa ordem régia
ou três barcos de pesca. Eu estou lá. Se vê o Cabugi
proibindo. Lá na África não tinha pau Brasil, só podia
do mar? "Vê sim, senhor". Só teve um que me disse:
ser daqui. Não é verdade?
"Mas vê melhor de tal lugar. Um lugar mais ao norte". Ou para ser mais preciso, mais a oeste.
Não foi oficializado nada na Bahia. Essa coisa de Bahia veio muito tempo depois. Muito tempo depois.
Para depois o Olavo de Medeiros Filho não dizer que
Vem da época já da colônia. Ou quase. Os primeiros
eu confundo norte com oeste. Mas tudo que está para
historiadores brasileiros eram portugueses radicados
cima, a gente chama de norte, não é? Isso. Bom, você
no Brasil e, particularmente, na Bahia. Então, esse
tem que vir para a Carta de Caminha. Quem desco-
povo escreveu o que quis. Mas não se pode levar isso
briu isso foi um almirante francês.
muito a sério.
Ele disse que a paisagem lá da Bahia não se conforma com o testemunho visual de quem viu. Porque, por exemplo, era um morro muito alto e redondo. Não, aqui existe um morro cortado. E ele é baixo, ele tem 400 metros. O nosso tem 800, compreendeu? Agora, existem outras medições. Mas a medição que eu respeito, que eu acho que é a válida dos 800 metros, porque está no livro do desembargador Antônio Soares, uma grande figura de pesquisador. E ele chegou a escrever um dicionário histórico do Rio Grande do Norte. Então, esse morro era alto e redondo, é o Cabugi. Não tenho dúvida disso. E vê de longe. E quem duvidar que veja, que leia, o almirante Graco Coutinho, que ele diz, no mar você enxerga a 200 milhas. Ele diz: “Eu mesmo já vi pico a 300 quilômetros, 200 ou 300 quilômetros de distância”. Eu já botei isso em livro. Entendeu? Foi aquilo que Cabral viu. Ou Pero Vaz de Caminha.
10
Marco de Touros
ENTREVISTA
MANOEL CAVALCANTI NETO Engenheiro, escritor e pesquisador
“NO RIO GRANDE DO NORTE FOI DESCOBERTO O BRASIL!” O engenheiro, escritor e pesquisador Manoel Oliveira de Cavalcanti Neto leu todos os livros de Lenine Pinto. E, após isso, achou que havia fundamento na tese dele de que o “descobrimento” do Brasil foi no Rio Grande do Norte e não na Bahia. Sua pesquisa resultou em livro no qual ele atualiza a tese
“achamento” do Brasil teria ocor-
ria o Pico do Cabugi, mas o Serra
rido pelo Rio Grande do Norte.
Verde, no município de João Câ-
Manoel Cavalcanti Neto co-
mara.
meçou suas navegações sobre
Na entrevista abaixo, o escritor
o tema em 2016 e até hoje se
explica como construiu a pesqui-
ntes dos artigos científicos
debruça sobre os documentos
sa que resultou no livro “Brasil
do professor Carlos Chesman e
que contam a história do Brasil.
1500, a verdade: descobrimento
Cláudio Furtado e depois dos li-
Nos seus estudos, ele conseguiu
do Brasil no Rio Grande do Norte”,
vros de Lenine Pinto, um enge-
reforçar a tese levantada por
lançado em 2024. E fala também
nheiro começou, por conta pró-
Lenine, e apontou que, na reali-
sobre a Era dos Descobrimentos e
pria, a investigar a tese de que o
dade, o “monte Pascoal”, não se-
Grandes navegações. 11
ENTREVISTA
Manoel Cavalcanti Neto
Como o senhor começou sua pesquisa?
E por que resolveu fazer pesquisa? Se sentiu
Logo após o lançamento do livro “O Mando do Mar”,
desafiado?
em novembro de 2015, eu comecei a pesquisar e co-
Não. Porque eu achei fundamento na história. Achei
mecei a ter o contato com Lenine Pinto. Não tinha
esses fundamentos e, com todo o respeito a Lenine,
pesquisado ainda. Só tinha ouvido falar e lido os dois
verifiquei algumas lacunas na tese dele. Fiquei insti-
primeiros livros dele. Mas o “O mando do mar” é mui-
gado. Lenine defendia que o Monte Pascoal era o Pico
to mais completo que os dois primeiros. Logicamente
do Cabugi. Achei estranho e comecei a me debruçar
os dois primeiros têm um impacto no lançamento da
sobre a Carta de Caminha. E me debruço até hoje.
tese que foi muito badalada em torno de 1998, 2000
De 2016 a 2025, nove anos depois, vou descobrin-
aproximadamente, e em 2016 fui a Lisboa. Não fui a
do novos elementos que reforçam a tese de Lenine.
Lisboa propriamente pesquisar. Eu fui ver e orientar,
A Carta de Caminha é uma obra fenomenal. Antes de
me situar como iria conduzir a pesquisa. E nada me-
ir a Portugal tive contato com Lenine e ele me ofe-
lhor do que ir à Torre do Tombo, o Arquivo Nacional
receu um exemplar de “O Mando do mar”. Eu tinha
de Portugal.
comprado o livro no seu lançamento. Novinho, novi-
12
nho. E o levei e quando cheguei lá, na Torre do Tom-
que tem 300 ou mais metros de altitude. Altitude é a
bo, fiz a doação do livro para o Arquivo Nacional de
altura em relação ao nível do mar. Por exemplo: o Ca-
Portugal. Por uma questão de praxe, o doador tem de
bugi tem 580 metros, aproximadamente, de altitude
fazer uma dedicatória. Quando voltei, ele me pergun-
e o pico dele em relação ao mar tem apenas 360 me-
tou como tinha sido a viagem. E eu disse: "Foi muito
tros de proeminência. A proeminência é essa. Você só
boa e 'O mando do mar' está arquivado na Torre do
vê apenas esses 360 metros. Mas com relação ao mar
Tombo". Isso o emocionou.
em 580 metros. E isso me chamou a atenção. O que seria um monte muito alto e redondo para o escrivão
Como foi o início da pesquisa?
da armada? Fui estudar o relevo da Cidade do Porto.
Desde o princípio, eu parti de uma premissa. A his-
No Porto tem duas elevações principais: o Monte dos
tória é feita pelos vencedores. Pela classe dominan-
Congregados, que tem uma altitude de 133 metros
te. É lógico. E decidi ter uma fonte primária: a carta
e uma proeminência de 33 metros. 33 metros é um
de Pero Vaz de Caminha. A carta é linda. Entrei com
edifício de alguns andares. E na margem direita do
um olhar despretensioso. E comecei a perceber que a
Rio Douro, já em Vila Nova de Gaia, tem Serra do Pi-
carta tinha muitos elementos, muitos dados que não
lar com altitude de 92 metros igual à proeminência,
eram considerados normalmente, como profundida-
porque ambas se confundem por estar à margem do
des, distâncias, ventos, correntes. E comecei a sentir
rio. Então, o Cabugi, com toda razão, seria um monte
isso. E comecei a notar certa nuance. Uma das coisas
muito alto e redondo para aquele português, da ci-
que eu notei, depois confirmei, é que as traduções do
dade do Porto, do século XV. Na carta ele diz que che-
português arcaico para o português moderno tem
garam em um determinado ponto, fundeiam a seis
muita coisa errada.
léguas da praia, pernoitam e, na manhã seguinte, navegam em direção à terra. A terra, logicamente,
Como o quê? Exemplifique por favor?
orientados pela elevação. E fundeiam a meia légua
Em primeiro lugar, as traduções estão cheias de pon-
com 19 metros, aproximadamente, de profundidade.
tos, vírgulas, parágrafos que não existem no original.
Eu começo a fazer as batimetrias na área.
A carta é o único documento realmente comprovado e reconhecido por todos. Não questionado e que foi fei-
Usando que ferramenta?
to no palco dos acontecimentos. Bom, comecei a pes-
Pelo Google Earth. Encontrei as duas primeiras. Tra-
quisar e tal, e pesquisando isso cheguei a resultados.
cei uma linha, vamos dizer, com as profundidades de
E achei estranho alguns trechos da Carta de Caminha.
42 metros e 55 metros. E tracei as linhas com essas
Um deles que diz o seguinte. Eles chegaram em um de-
profundidades. E nada de encontrar a de nove bra-
terminado ponto. Fundearam a seis léguas da costa e
ças. Antes disso, Caminha afirma que eles navega-
ali fizeram a primeira batimetria. Deu 25 braças. Se-
ram obra de dez léguas contra o norte, chegaram em
gunda batimetria, 19. Fundearam. E nesse lugar, não
determinado ponto e ali fundearam. O que é contra
está precisamente dito, mas são muito próximos, avis-
o norte? Obra contra o norte é em direção ao norte.
taram um monte muito alto e redondo. Meu primei-
E eu creio que Lenine considerou que contra o norte
ro questionamento: o que era um monte muito alto e
era em direção ao Sul. Quando cheguei na praia do
redondo para aquele cidadão letrado, português, com
Marco que “desci” as dez léguas em direção ao Sul eu
50 anos de idade, em 1500? Aí fui procurar saber o
chego na altura de Rio do Fogo... Zumbi. A minha dife-
que era um monte. A única elevação que tem defini-
rença com Chesman não chega três quilômetros.
ção de altura é montanha. Montanha é toda elevação 13
ENTREVISTA
O senhor foi o primeiro que chegou a esses
E o Cabugi, como fica?
pontos?
Quando eu traço a linha para o Cabugi, o Serra Ver-
Foi. Aí eu faço a visada. Estudei topografia. Tudo com
de obstrui a vista do Cabugi. Porque ele tem 340,
base em dados matemáticos. Fiz os cálculos e as visa-
está a uns 80 quilômetros e o Cabugi está a 120, 130.
das. Então encontro uma elevação com 330 metros de
Para ser visto ele precisava ter mil metros de altura.
altitude. Serra Verde. Traço o perfil do fundo do mar.
O que acontece é o seguinte: aqui está a Serra Ver-
Porque eu não estava encon-
de, que sai de João Câmara e
trando as nove braças.
vai até mais ou menos os limites de São Miguel do Gostoso.
Isso foi em que ano?
O Cabugi só é avistado do mar
Isso foi 2020, mais ou menos.
depois de Tourinhos. Mesmo de
Então eu traço o perfil do fun-
Touros a Serra Verde obstrui.
do do mar. Quando eu traço o
Da praia do Marco é avistado
perfil, a meia légua da costa
por pescadores, também em
encontro o canal que chega a
Galinhos, Macau, em direção
vinte e três metros de profun-
ao norte ele é avistado do mar
didade. Então, se ele fundiou
e para os pescadores e serve de
a 19 metros está comprova-
orientação. Caminha diz que
do. Eu faço a visada. Encon-
eles navegaram em direção ao
trei um monte. Liguei os dois
norte. Então eles partiram do
pontos. Mas Caminha diz que
município de Rio do Fogo, de
era um monte muito alto e
Zumbi. Fui por aí, com cálcu-
redondo. Tracei o perfil da
los matemáticos, cálculo geo-
beira-mar até a Serra Verde.
désico, calculando distância,
É sempre ascendente. Não tem
calculando tudo. Em 2019, eu
obstáculo nenhum com uma
fui a Portugal. Na época eu
declividade muito pequena, aí
não tinha nada disso ainda.
aparece um monte muito alto e redondo, então traço uma
E o que foi procurar lá?
perpendicular àquela visa-
Foi uma viagem muito pro-
da, determinado seu perfil.
veitosa porque eu mantive
Caminha completa dizendo
contato com museus, com
que é um monte muito alto e
historiadores,
redondo com serras mais bai-
res. Visitei Lisboa, mas fui a
xas ao Sul. Quando eu traço o perfil, ele é arredondado e
Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu Dias e a esquadra que veio ao Brasil
tem o Amarelão e outras ser-
com
escrito-
Belmonte, terra de Cabral. Tem lá o Museu do Descobrimento. E fui a Vila do Conde.
ras mais baixas ao Sul, o que não existe lá na Bahia.
É uma cidade a 40 minutos do Porto. É o único lo-
Eu faço essas considerações depois do lançamento do
cal em Portugal que ainda tem os portos medievais,
primeiro livro, que foi em 2018.
que ainda são preservados. E lá também tem a réplica de uma nau em escala um pouquinho menor,
14
é justamente a grande volta ao mar se aproximando do Brasil. Dois dias depois voltei para conversar com o diretor-geral do museu. Ele esteve três vezes no Brasil, na carreira dele, em veleiros. E o que acontece? Aqui
“A tese é muito difícil de ser oficialmente reconhecida porque — como eu chamo — os portosegurenses são verdadeiros devotos. A resistência às mudanças é muito grande”
está a África, Cabo verde, aqui está o Brasil e o Equador. Você tem que ir em direção tal e começar a fazer a volta. Mas você tem de cruzar o Equador em uma determinada longitude, senão as correntes e os ventos o levam ao Maranhão. E como é que Porto Seguro entrou nessa história? Porto Seguro é aproximadamente metade do caminho entre os Marcos de Touros e o de Cananéia, únicos padrões de posse existentes no Brasil. Eles estão distantes aproximadamente 2.000 milhas, o que é comprovado pelos Planisfério de Cantino de 1502. Autores quinhentistas afirmam que Cabral fez uma longa na-
mas perfeita. Lá tem o Museu da Construção Naval.
vegação na Terra da Santa Cruz, uma navegação de
E trouxe muito mais elementos. Um amigo meu,
cabotagem, ou seja, sempre com a terra à vista.
Edgar Ramalho, descobriu uma coisa no livro de Damião de Góes, "Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel".
Qual é o futuro dessa tese que o senhor defen-
Quem foi Damião de Góes? Um famoso escritor e his-
de?
toriador quinhentista que foi morar na corte com
A tese é muito difícil de ser oficialmente reconheci-
nove anos de idade. Cresceu junto com o infante Dom
da porque — como eu chamo — os portosegurenses
João, que sucedeu a Dom Manuel e tornou-se o rei
são verdadeiros devotos. A resistência às mudanças é
Dom João III e teve um reinado muito longo. Damião
muito grande.
foi escritor e por mais de 20 anos foi guarda-mor da Torre do Tombo. Ou seja, tinha acesso a todos os do-
Você tem conhecimento de algum processo no
cumentos. E ele diz em determinado trecho que Ca-
mundo que ocorreu uma revisão histórica tão
bral tomou posse da terra com um padrão de pedra,
profunda quanto essa?
o marco. Só existem dois marcos de posse do Brasil.
Até hoje não se sabe exatamente onde Colombo che-
O Marco de Touros e o Marco de Cananéia (SP). O de
gou. Até hoje. Se foi nas Bahamas, se foi Santo Domin-
Porto Seguro é um marco comemorativo e a história
gos. Até hoje o americano também não sabe quando
não nega isso não. Foi chantado em 1534, por Pero do
aportaram os primeiros colonizadores, exatamente.
Campo Tourinho, donatário da capitania.
Nós temos a sorte que nós temos evidências, nós temos registros. A ciência hoje nos auxilia por isso. Nós te-
Onde mais o senhor procurou evidências?
mos a sorte de uma descrição de autores como Cami-
Eu fui ao Museu de Marinha. E vejo lá o vídeo “prová-
nha que detalhou certas coisas, como Damião de Góes,
vel rota de Vasco da Gama pelo Almirante Gago Couti-
como João de Barros, como Fernão Lopes Castanheda,
nho". Eu olho aquilo, filmei, achei impressionante que
como Duarte Pacheco Pereira, que registraram isso. 15
ENTREVISTA
O que é que o Rio Grande do Norte ganharia se
“O turismo bombaria. Porto Seguro hoje explora o turismo histórico e o que chamam de Costa do Descobrimento movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano”
essa tese se estabelecesse na sua avaliação? O turismo bombaria. Porto Seguro hoje explora o turismo histórico e o que chamam de Costa do Descobrimento dispõe de 70.000 leitos para turistas e movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano. Estão programando para os próximos anos um aeroporto com capacidade de 4 milhões de passageiros por ano. O atual, no Nordeste, só perde para os de Salvador, Recife e Fortaleza. Então, por exemplo, nós temos aqui o monumento mais antigo das Américas, pós-Colombo, que é o Marco de Touros. Não é do Brasil, não, é das
isso não se perdeu. Isso nos dá elementos para chegar-
Américas. Não tem nenhum mais antigo. Mesmo se
mos a conclusões concretas. Para fechar: a Declara-
chegarmos ao absurdo de que foi chantado pelo falas-
ção de João Lúcio, capitão da caravela Boa Esperança,
trão Américo Vespúcio, ainda é o mais antigo. Quem
com dois mastros construída para as comemorações
o chama de falastrão, não sou eu, é Câmara Cascudo.
do 5º centenário da ultrapassagem do Cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias, afirma que fez oito
Quem foi a primeira pessoa realmente que le-
travessias no Atlântico e três vezes a rota de Cabral.
vantou essa hipótese de ser aqui no Rio Grande
E diz que é impossível ter chegado tão rápido naquela
do Norte o local onde os portugueses chega-
época do ano à Bahia. “Contudo, para mim, São Ro-
ram?
que continua a ser um dos pontos mais prováveis.
Cascudo não fala textualmente, mas mostra suspei-
Lamento que minha viagem tão programada tenha
tas. Levantou a hipótese. E Lenine, ele consolida essa
sido forçada contra a minha vontade a utilizar motor
hipótese. Lenine formata a tese, digamos.
para atender às datas e eventos”. Ele, quando chegou, viu que não ia chegar, aí ligou o motor para chegar
E como você entrou em contato com o profes-
a Porto Seguro. Até hoje, se você estiver em Zumbi,
sor Carlos Chesman?
você vê os navios vindo do Leste. Por quê? Porque a
Nós temos um amigo em comum. Marcone. Ele é agrô-
corrente, a corrente é lenta, em torno de 2 milhas por
nomo e nossa amizade começou no CREA. E por con-
hora. O que significa isso? Economia de energia, por-
ta disso marcamos um almoço em 2022. Em 2021 eu
que está navegando numa direção favorável.
já tinha publicado sobre a Serra Verde. Marcamos o almoço e eu já tinha “uma boneca” desse livro. Papo
E por que o senhor considera a tese difícil?
agradável e passei uma cópia para ele, a partir daí
As 7, 8 últimas gerações estudaram pela versão co-
nós começamos a aprofundar esse estudo, isso com
nhecida da história. Poucos se aprofundaram nessa
dificuldades também porque somos pesquisadores in-
outra tese. Então, a resistência à mudança é grande.
dependentes.
Existem leis. Existem decisões de instituições históricas. Instituto Histórico Brasileiro, Instituto Histórico
Qual a diferença do trabalho que você fez para
do Rio Grande do Norte, Instituto Histórico da Bahia,
o trabalho que Chesman fez agora?
Institutos Históricos por aí afora, todos teriam que se
Ele e Claudio Furtado, como doutores em Física, apli-
pronunciar.
caram a física pura e tiveram seu trabalho publicado
16
recentemente no “Journal of Navigation” da Univer-
to caro e dependemos de recursos oriundos do gover-
sidade de Cambridge na Inglaterra. Ou seja, nossa
no do Estado, das Prefeituras, do Legislativo, da ini-
pesquisa se baseia em fontes primárias reconhecidas,
ciativa privada etc. Aqui temos, indiscutivelmente, o
como a Carta de Pero Vaz de Caminha, autores qui-
monumento mais antigo das Américas, pós Colombo:
nhentistas e, como ferramentas, usamos a ciência e
o Marco de Touros, cujo original se encontra no Museu
daquilo que dispomos no Século XXI. Termino com
Câmara Cascudo, aqui em Natal, com uma réplica na
uma frase: No Rio Grande do Norte foi Descoberto o
Praia do Marco, local onde Pedro Álvares Cabral e a
Brasil!
armada permaneceu por mais de 1 semana e tomou posse da Terra de Sancta Cruz para Portugal, chan-
Na sua avaliação, o que governos, as entidades,
tando o marco de pedra com a cruz e o brasão real
institutos e até a UFRN poderiam e deveriam
gravados.
fazer no sentido de apoiar essa discussão e aju-
O apoio e divulgação da tese, com certeza, desenvol-
dar nessa questão que pode beneficiar a eco-
verá o turismo, como ocorreu na Bahia. Lá, no que
nomia do RN?
chamam de Costa do Descobrimento, o turismo mo-
Desde o início, diferentemente de muitos curiosos so-
vimenta mais de R$ 1 bilhão anualmente, dispõe de
bre a verdade histórica, procurei, na minha pesqui-
mais de 70.000 leitos, o aeroporto de Porto Seguro é
sa sobre o Descobrimento do Brasil no Rio Grande do
o 4º mais movimentado do Nordeste, perdendo para
Norte me basear na Carta de Caminha como fonte
Salvador, Recife e Fortaleza, além de utilizar a grande
primária e nas obras de autores coevos do século XVI.
maioria da mão de obra formal da região.
Além disso, utilizar as ferramentas que nos oferecem
Não esquecendo que a temperatura das águas de nos-
a ciência e a tecnologia do século XXI. Hoje vivemos
sas praias variam de 26,5º a 29º centígrados e no Sul
outra realidade e dispomos de meios inexistentes no
da Bahia, no máximo chegam a 26º e por curto pe-
passado para encontrar a Verdade. Daí o título do
ríodo. Além disso, o Sol e essa deliciosa brisa do litoral
meu último livro: BRASIL 1500 - A VERDADE.
Leste do Estado. Os nossos gestores, nem nossos políti-
A verdade está aos nossos olhos com os avanços que
cos, não veem isso!
consegui em relação a tese de Lenine Pinto, culminando com os trabalhos de Chesman e Furtado, publicado no Journal of Navigation da Cambridge University. Quanto à UFRN, com o seu apoio já confirmado, será realizado em 2026 um Colóquio sobre o tema. Os trabalhos iniciais estão sendo coordenados pelo professor Carlos Chesman, já contamos com o apoio da Academia Norte Riograndense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do RN, do Instituto Ludovico, do SEBRAE e apenas com a simpatia e promessas de outros. Será um even17
Foz do Rio Punaú, em Zumbi
CIÊNCIA
O RN E O “DESCOBRIMENTO” DO BRASIL, UMA QUESTÃO DE FÍSICA Os físicos Carlos Chesman e Cláudio Furtado, professores da UFRN e da UFPB, conseguiram pela 1ª vez na história publicar em revista internacional artigo um artigo no qual demonstram que o Rio Grande do Norte, seria na verdade, o primeiro local que os portugueses atracaram em 1500, fato histórico que ficou conhecido como “descobrimento” do Brasil. Evidências reacendem a tese de que o Brasil nasceu na costa potiguar
e desembarcado primeiro no Rio
de visada, a terra é curva, eu pos-
Grande do Norte e não em Porto
so geometricamente fazer isso",
Seguro, na Bahia. O evento é co-
lembra o que pensou na época.
nhecido historicamente como o
As obrigações da UFRN — como
“descobrimento do Brasil", em 22
dar aulas, orientar estudantes de
de abril de 1500.
mestrado e doutorado, entre ou-
Ele, que é professor da Universidade Federal do Rio Grande do
tras — impediram o início dessa navegação.
físico Carlos Chesman conta
Norte (UFRN), ouvia isso e pen-
Mesmo assim, Chesman deu
que quando andava pelo Cen-
sava se seria possível fazer uma
um primeiro passo no sentido de
tro de Natal sempre ouvia falar
avaliação do ponto de vista da
realizar o trabalho. Foi ao Sebo
da teoria do pesquisador Lenine
Física. “É uma viagem, a viagem
Vermelho, editora de Abmael Sil-
Pinto, sobre a possibilidade de
tem deslocamento, eu posso deter-
va que publicou os livros de Le-
os portugueses terem atracado
minar a velocidade, tem um ponto
nine Pinto, e após isso conseguiu 19
CIÊNCIA
adquirir os volumes. O pesquisador tem três livros sobre o tema: a “Reinvenção do Descobrimento” (1998), “Ainda sobre a Reinvenção” (2000) e “O mando do mar” (2015). “Durante as férias do final do ano, dezembro e janeiro, eu vou estar na praia, vou aproveitar e vou ler", pensou, na época. Era dezembro de 2019. Começava ali a travessia de Chesman que agora está dando novo sopro à teoria levantada por Lenine Pinto. Nesse trabalho ele conta com a parceria do professor Cláudio Furtado, do Departamento de Física da
Carlos Chesman, professor da UFRN
Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e atual secretário de Ciência do Governo da Paraíba. O estudo que os dois vêm desenvolvendo tem uma grande diferença para todos os anteriores. Além dos dados históricos
“Comecei a ler, comecei a registrar os números da carta. Distância, profundidade. A carta é um relato quase que de um trabalho científico”
já reunidos por Lenine e outros escritores (como Manoel Cavalcanti Neto), Chesman e Cláudio Furtado usaram a tecnologia dis-
Mas para chegar a isso, eles
que eu continuei lendo, lendo, len-
ponível hoje para verificar essas
também atravessaram tempesta-
do, lendo, tudo. E ficou na minha
informações.
des, tormentas e longos períodos
mente que o documento mais fide-
O resultado? Eles já consegui-
de calmaria, quando foi difícil
digno seria a Carta de Pero Vaz de
ram produzir três artigos cien-
avançar rumo à nova terra que
Caminha”, conta.
tíficos sobre o tema. O mais re-
queriam descobrir. Entre as di-
Ele explica que há outros do-
cente foi publicado no Jornal de
ficuldades, houve uma que, iro-
cumentos — como a Carta do Pi-
Navegação da Universidade de
nicamente, acabou ajudando os
loto e a Carta de Mestre João —
Cambridge, na Inglaterra, Reino
físicos a partir rumo à terra pro-
mas que o texto produzido pelo
Unido, em setembro deste ano.
metida.
escrivão da esquadra de Cabral
As descobertas de Chesman e
Após conseguir os livros e en-
“é o único que não tem nenhum
Furtado vão além de indicar o RN
trar em férias, Chesman acabou
problema de aceitação com os co-
como sendo o primeiro porto dos
conseguindo ainda mais tempo
legas da História".
portugueses no Brasil.
para ler. “Veio a pandemia. Aí foi
20
“Comecei a ler, comecei a registrar os números da carta. Distância, profundidade... A carta é um relato quase que de um trabalho científico. Tem a data que sai, a data que chega. Uma citação logo no início: passamos pelas ilhas de Cabo Verde e após — o dado está em léguas, nos transferimos para quilômetros — 4 mil km avistamos sinais de terra. Eles não estavam vendo terra. Mas sinais de terra. Aves, sargaços”, relata. Carlos Chesman explica que hoje, com mapas dinâmicos disponíveis na internet, todos os daCláudio Furtado, professor da UFPB
dos podem ser aferidos. E foi isso que eles fizeram. O professor recorda que uma outra passagem da Carta de Caminha lhe deu mais incentivo ainda para testar os dados que o escrivão registrou. “A outra citação que me deu mais incentivo ainda foi que à distância de 30, 40, km se avista um monte e outros montes ao Sul. E por coincidência eu estava numa praia do litoral daqui, e os ventos trazem para cá. Aí peguei um dronezinho, subi o drone, 50 metros, aí saí fotografando. O drone era muito ruim. Mas analisando dava para ver essa conformação, essa estrutura geográfica", conta.
Primeira página da Carta de Pero Vaz de Caminha 21
CIÊNCIA
No caso, Chesman estava na
definiram uma estratégia para
um carrossel, você é levado para o
praia de Zumbi, município de Rio
poder desenvolver o estudo e di-
lado que ele tá girando. Isso a gen-
do Fogo. Era março de 2020. De-
vulgar a tese. Para isso era pre-
te chama força Coriolis".
vido à pandemia de covid, a UFRN
ciso produzir artigos científicos,
Segundo o físico, o conheci-
vivia um período no qual as aulas
mas não era possível começar já
mento dessa força era um dos
ainda não estavam acontecendo.
contestando a tese principal do
grandes segredos dos portugue-
Ele seguiu reunindo dados e ana-
chamado "descobrimento", expli-
ses. E teria sido descoberto pelo
lisando. Por volta do meio do ano,
ca Chesman.
navegador português Gil Eanes,
ele começou a compartilhar os
“A gente definiu que primei-
em 1434. “Até então os portugue-
dados com um grande amigo, o
ro precisava fazer algo da física.
ses viajavam sempre olhando
também físico Cláudio Furtado.
Qual é a origem das correntes ma-
para a terra, com medo de se per-
Inicialmente, eles conversa-
rítimas dos ventos que circulam?
der. E Gil Eanes chegou e fez à vol-
ram remotamente. Depois, quan-
Tem uma força chamada for-
ta pelo Cabo Bojador. Aí foi até lá,
do foi possível, se encontraram
ça de Coriolis. Ela vem de onde?
circulou, foi para o mar e voltou.
pessoalmente. “Ele é físico teórico,
Ela vem da rotação da Terra, do
E foi jogado de novo. Foi jogado de
eu sou mais da parte experimen-
movimento diário. Essa rotação
volta. Exatamente devido a esse
tal. Ele disse na época: 'Vamos com
da Terra, provoca uma força. É
movimento da terra que gera essa
calma porque é um assunto bas-
semelhante a você entrar num
força e faz isso", esclarece.
tante delicado’". A partir daí eles
carrossel. Quando você entra em
Imagem feita pelos pesquisadores que mostra como, do mar, é possível ver as elevações na região de João Câmara
22
Isso tudo foi explicado no primeiro artigo publicado pela du-
PRIMEIRA ANÁLISE DA CARTA
tipo, o texto precisa ser avaliado sob vários aspectos. Um deles é
pla, que saiu no início de 2023
Eles terminaram o segundo
se o tema vem sendo discutido;
pela Revista Brasileira de Ensino
texto e começaram a submeter
outro, se possui relevância cien-
da Física. Esse primeiro foi a base
a publicações científicas. Para
tífica. Além disso, o conteúdo é
para poder produzir os outros
conseguir publicar um artigo do
analisado por diferentes pessoas.
dois artigos que foram publicados depois e tratam da tese do descobrimento em si. “Foi quando
Vista aérea da Praia do Marco, em Pedra Grande, local que seria o real "porto seguro" apontado por Caminha
a gente decidiu atacar realmente a Carta", conta.
Praia do Marco e também imagens da topografia da região de João Câmara
23
CIÊNCIA
Gil Eanes, que descobriu a Força de Coriolis
ciado que passa para dois árbi-
dos. Os físicos também indicam
tros. Esses dois avaliadores não
que o monte avistado teria sido
sabem de quem é o texto e nem
na verdade o Serra Verde, eleva-
os autores sabem quem eles são.
ção no município de João Câmara
É a chamada avaliação por pares
e que fica próximo a outros mon-
às cegas.
tes.
“Fazem a avaliação, se pode
Por fim, eles concluíram que o
melhorar, se não pode, se as mu-
tal porto seguro a que se referem
danças são muito grandes, se acei-
os portugueses é realmente a
ta, não aceita. E isso demora me-
Praia do Marco, no município de
ses até a coisa acontecer. Aí, esse
Pedra Grande. No local há um es-
foi aceito e a gente faz a primeira
paço natural protegido por reci-
análise da carta", relata. O artigo
fes que é como se formasse uma
chama-se “Análise física a partir
pequena baía.
de dados científicos na carta de
Para fundamentar tudo isso,
Pero Vaz de Caminha” (do inglês,
além dos cálculos e medições, os
Physical analysis from scientific
pesquisadores usaram mapas di-
data in Pero Vaz de Caminha’s le-
nâmicos e também fotografaram
tter).
e mapearam tudo o que foi pos-
No texto, que foi publicado
sível. Uma dessas imagens mos-
em dezembro de 2024, eles ana-
tra inclusive a praia do Marco de
lisam os dados disponíveis na
cima, evidenciando o que seria o
carta usando ferramentas e tec-
tal “porto seguro” falado na Carta
nologias atuais. Com base nessas
de Caminha.
análises — de distância, tamanho
Eles também ouviram relatos
Na revista da Academia Bra-
das caravelas, profundidade do
de pescadores e foram ao mar
sileira de Ciências o artigo até
mar, dos ventos e das correntes
para tentar ver o que viram os
passou pela primeira fase, mas
marítimas — os pesquisadores
portugueses. E, após algumas
depois, naufragou. “Passou pelo
apontam que ao invés de Porto
tentativas, conseguiram regis-
editor. Quando foi para o editor
Seguro, na Bahia, o primeiro lo-
trar uma imagem que mostra o
associado, ele escreveu: 'o manus-
cal visto e que foi ponto de de-
litoral do RN e o que apontam
crito não tem relevância científi-
sembarque dos portugueses te-
como sendo os montes Serra Ver-
ca para ser publicado em nossa
ria sido a costa do Rio Grande do
de, Amarelão e Torreão, todos em
revista'. Faz parte do jogo", conta
Norte.
João Câmara.
Chesman.
E especificam mais: que o pri-
A partir da publicação deste
Então eles tentaram a revista
meiro local onde a esquadra de
segundo artigo — com esses da-
Brazilian Journal of Science, uma
Cabral atracou foi a foz do Rio
dos e feito desta forma — a tese
publicação relativamente nova.
Punaú, na praia de Zumbi, muni-
que por tantos anos foi responsá-
E como funciona esse processo?
cípio de Rio do Fogo; exatamente
vel pelo fato de Lenine Pinto ser
O editor recebe e avalia. Se acei-
o local onde Chesman passou um
chamado até de “lunático", voltou
tar, passa para um editor asso-
período lendo e analisando da-
a ganhar força.
24
Monte Torreão, em João Câmara, um dos que teria sido avistado por Cabral
Foi então que Carlos Chesman
Tal qual a travessia de um
nalmente. Esse é o grande feito
e Cláudio Furtado deram um ter-
oceano, a resposta demorou.
de Chesman e Furtado. Grosso
ceiro passo para fortalecê-la ain-
O artigo foi recebido em 11 de
modo, é como se eles acabassem
da mais. Eles encaminharam um
junho de 2024 e revisado em 18
de encontrar uma nova terra.
novo texto à publicação The Jour-
de dezembro de 2024. Em 21 de
“Esse de Cambridge é o mais
nal of Navigation, da Universida-
julho de 2025 foi aceito. Mas so-
relevante. Porque é uma revista
de de Cambridge, na Inglaterra:
mente em 8 de setembro de 2025
internacional. Digamos que te-
“Dados científicos na Carta de
foi publicado, um ano e três me-
nha hoje uma relevância maior",
Pero Vaz de Caminha” (do inglês,
ses após seu envio.
afirma Carlos Chesman. E frisa:
Scientific data in Pero Vaz de Caminha's letter).
Um fato inédito: foi a primei-
“Então, nesse sentido, é um traba-
ra vez que um artigo científico
lho inédito, inédito internacional-
sobre este tema, feito por físicos,
mente, como eu disse. Internacio-
usando dados e revisando-os, é
nalmente".
publicado no Brasil e internacio25
CIÊNCIA
Serra Verde, a elevação que seria o "Monte Pascoal potiguar"
O VERDADEIRO MONTE PASCOAL POTIGUAR
primeiro lugar que os portugueses avistaram.
De Macau, de Guamaré, você vê o Pico do Cabugi. Quanto mais eu
Um dos pontos principais da
“O pescador disse: ‘Eu tenho
for para Macau, Guamaré, você vê
pesquisa foi ter usado uma em-
certeza que foi aqui", conta Ches-
o Pico Cabugi. A distância do lito-
barcação para tentar registrar o
man. Ele aproveita para escla-
ral até o Pico é 60 km. Só que do
que viram os portugueses quan-
recer uma questão que sempre
litoral Leste para o Pico do Cabu-
do estavam chegando à costa
rende polêmica em meio à tese
gi são 120 km. E as embarcações,
brasileira e também fazer me-
do achamento do Brasil ter ocor-
pelos ventos, elas vêm pelo Leste.
didas de profundidade do mar.
rido no Rio Grande do Norte: a
Digamos que Lenine cometeu esse
Para isso, os pesquisadores alu-
hipótese do Monte Pascoal ser na
equívoco porque achava que o
garam um barco. O pescador,
verdade o Pico do Cabugi.
Pico do Cabugi seria visto pelas
curioso, queria entender o que se
“De lá o que está se avistando
embarcações, só que as embarca-
passava. Eles explicaram que es-
não é o Pico do Cabugi. É o Monte
ções vêm do Leste. E do Leste, pela
tavam realizando medições para
Serra Verde. Por quê?
fato da terra ser um globo, não dá
comprovar que teria sido no RN o 26
para ele ser visto", explica.
Cabo de São Roque e seu farol
E complementa: “Ele teria que ter muito mais metros. No lugar de quase 600, teria de ter 1.000, 1.200 metros de altitude. Porque a distância é bem maior. Entretanto, lá do litoral norte, do norte do Rio Grande do Norte, você vê o Pico do Cabugi. Agora, do Leste, você não vê. Foi por isso que eu fui para o mar, para identificar". Os primeiros a apontar o Monte Serra Verde como sendo o Monte Pascoal Potiguar foram os dois físicos e o pesquisador Manoel Cavalcanti. “Fomos eu, Manuel e Cláudio. Eu fui para o mar. E Ma-
outras três tentativas. Chesman
que, no litoral leste, à noite. E que
nuel ficou fazendo o mapa, vendo
também lembra que em conver-
de dia, o ponto de orientação era
a latitude, longitude", conta.
sa com outro pescador, o dono
exatamente o monte Serra Verde.
A missão de ir ao mar para rea-
da embarcação que ele alugou,
“Ele disse: ‘Ó, se você olhar, o mon-
lizar o avistamento, entretanto,
ouviu um relato que ajudou na
te, esse monte grande aí, fica atrás
não foi tão fácil. Foram necessá-
localização dos montes.
do farol do Cabo São Roque’. Ou
rias pelo menos cinco vezes para
Segundo ele, o homem chama-
seja, provavelmente o Cabo São
conseguir ver. E para conseguir
-se Jonas e contou que um dos
Roque foi colocado depois para
fazer a foto que ilustra o estudo
pontos de referência usado pelos
marcar o monte", avalia.
foram necessárias pelo menos
pescadores é o Cabo de São Ro27
CIÊNCIA
OS PRÓXIMOS PASSOS Cláudio Furtado e Carlos Ches-
Atualmente eles estão na fase
Uma coisa é certa e não requer
man não avaliam agora publicar
de mobilização de apoios, falan-
qualquer equipamento moderno
um novo artigo ou livro. Segundo
do com entidades, prefeituras,
para comprovar: mesmo com
o físico da UFRN a ideia é divul-
governo, instituições, outros pes-
todos os dados e comprovações
gar o máximo possível a tese para
quisadores, políticos e empre-
técnicas, o caminho da tese que
conseguir abrangência nacio-
sários. A ideia é que esse evento
afirma o Rio Grande do Norte
nal. Para isso eles planejam rea-
tenha a presença, inclusive, de
como ponto do chamado "desco-
lizar um evento em 2026, que já
pessoas de fora do Rio Grande
brimento" do Brasil ainda preci-
tem nome: Colóquio Internacio-
do Norte. O objetivo é ampliar o
sará enfrentar muitas tempesta-
nal Câmara Cascudo, homena-
alcance da discussão e assim for-
des até que, quem sabe, um dia,
gem a uma das primeiras pessoas
talecê-la.
chegue ao porto seguro de ser
que discutiu as controvérsias do
reconhecida como versão oficial
"descobrimento", o folclorista po-
da história do Brasil.
tiguar Câmara Cascudo.
Praia do Marco, o porto seguro onde teriam atracado os portugueses
28
#BATE-PAPO COM CARLOS CHESMAN bém projetar novas ações. Eu tenho que agra-
“O que está faltando é o reconhecimento dos políticos”
decer muito ao povo brasileiro porque é ele que paga para gente ficar pensando nessas coisas. Eu me sinto muito honrado de poder fazer isso. Isso me deixa muito contente. Ter essa estrutura que possibilita produzir ciência e conhecimento. O senhor acredita que é possível fazer essa
O que é que o senhor espera agora com es-
revisão histórica?
sas descobertas?
Política não é um pensamento linear tão simples
Minha mãe toda vez pergunta: ‘Além de você fa-
assim. Economia também não. Porto Seguro é o
zer aula, faz o quê que passa o dia todinho na
nascimento do povoamento do Brasil. Sim. Isso é
universidade?'. A gente faz as outras atividades
verdade. Tem até outro fato: Manuel (Cavalcanti)
de uma universidade que é a parte de pesquisa e
fez a distância entre a Praia do Marco e Cananéia
a parte de ensino. A tríade ensino, pesquisa e ex-
(SP). Dá 3.200 km. Porto Seguro está exatamen-
tensão. Publicar é algo da extensão, um resultado
te no meio, a 1.600 km dos dois marcos. Então,
acadêmico que pode modificar a realidade local.
é uma questão geográfica: eu tenho uma área,
Se não existe uma entidade como essa, uma uni-
marco dois pontos e vou começar a povoar onde?
versidade, que paga meu salário, que tem uma
No meio, para eu poder proteger. Quem foi que
estrutura, para a gente ficar pensando, debaten-
disse que foi Porto Seguro? Foi o visconde de Por-
do essas coisas que não levam a nada… Levam
to Seguro, o diplomata e historiador Francisco
sim. É isso que a gente mostra. O resto do mundo
Adolfo de Varnhagen. Ele é considerado o pai da
tem grandes universidades. Então, para a gente
história do Brasil. Foi ele quem estabeleceu essa
seguir o padrão, digamos, de desenvolvimento,
versão oficial de que o achamento foi lá. Mas aí,
tem que ter universidades. Tem que ter pessoas
os dados não batem com o que está na Carta de
pensantes para poder atuar no dia a dia e tam-
Pero Vaz de Caminha. Eu tenho colegas cientistas renomados, que dizem: ‘Eu não acredito, mas vá em frente'. Mesmo com todos os dados. Para mim, vai ser muito difícil. No Brasil, pelo formato da nossa Constituição, algo só vira verdade, não é quando os cientistas dizem a verdade. É quando
Visconde de Porto Seguro
se tem uma lei constitucional. Para virar uma lei constitucional, tem que passar no Congresso. E tem o que a gente chama do dilema da maioria. A maioria sempre acha que tem razão. Tem a questão econômica também. Segundo um outro
29
CIÊNCIA
colega — eu não aferi esse número — o turismo
com outras pessoas, outros colegas, para saber se
da região, da rota do descobrimento, movimenta
essa verdade corrobora com outros fatos. O que a
por ano R$ 1 bilhão. Tem um pequeno aeropor-
gente provou é que corrobora com o que está es-
to lá em Porto Seguro. Um aeroporto. As pessoas
crito na Carta de Pero Vaz de Caminha. A UFRN
vão de avião para lá.
está apoiando esse evento, na parte de infraestrutura. A Funpec vai fazer toda a parte logísti-
E o que é que o Rio Grande do Norte ganha
ca. Já fui no Sebrae e eles vão aportar os recursos.
se a gente conseguir massificar essa tese?
A Fecomércio também se comprometeu. Estou
A primeira coisa é instalar a verdade, que apa-
tentando contato com a FIERN. Posteriormente e
rentemente é essa. E geograficamente, o Rio
paralelamente, estamos tentando contato com os
Grande do Norte é mais estratégico. Não só para
políticos. Infelizmente, não consegui agenda até
a Segunda Guerra. Então, o que está faltando é o
agora com a governadora; não consegui agenda
reconhecimento, digamos, dos políticos, que tra-
ainda com o atual prefeito de Natal. Nem tentei
zem os ventos do dinheiro. Se vai ser verdade,
agenda com os prefeitos, digamos, dessas cida-
digamos, histórica no Brasil... O Brasil, como eu
des que devem se beneficiar. Por exemplo, João
falei, é tão pequeno que duas três pessoas você
Câmara, onde está o Monte. E também Barra de
chega na pessoa mais importante do país. Agora
Maxaranguape, Rio do Fogo, Touros, São Miguel.
a pergunta é: chega e convence?
Essas que fazem o litoral ali onde deve ter chegado as embarcações. Isso é um contato a posterio-
30
O que os governos, as entidades e até a
ri. Quais são os benefícios se, realmente, isso for
UFRN poderiam e deveriam fazer no sen-
acontecendo ao longo do tempo? Por exemplo,
tido de apoiar essa discussão e ajudar na
em Porto Seguro, na região de Porto Seguro, cha-
consolidação dessa tese que pode benefi-
mada Rota do Descobrimento, lá se movimenta
ciar a economia do RN?
cerca de 1 bilhão de reais por ano. Lá tem mais
Essa pergunta tem uma resposta muito ampla.
de 50.000 leitos de hotelaria. Tudo isso traz be-
Depende de muitos fatores, vai depender de mui-
nefícios para essa região. Tanto para pequenos
ta gente e o tempo é que é o senhor de tudo isso.
empresários quanto para grandes empresários.
Mas vamos lá. Foi o que eu e Cláudio fizemos. Fi-
Então o benefício seria direto para o turismo.
zemos um manuscrito que foi aceito numa revis-
E o principal, para o Brasil, seria conhecer a
ta indexada internacionalmente da Universida-
sua realidade de chegada que foi aqui. Usando-
de de Cambridge. Isso é um selo internacional de
-se a física, usando-se os dados meteorológicos,
qualidade. Passo dois. A UFRN é quem nos apoia.
usando-se as correntes, os ventos alísios, tudo in-
No meu caso, a UFRN, no caso de Cláudio, é a
dica que é aqui. Diferentemente do que foi dito
UFPB, que ele é professor de lá. A UFRN está nos
anteriormente, que é em Porto Seguro, através
apoiando para fazer um evento em abril. A gente
de uma outra medida de 17 graus de uma carta
pretende fazer o Colóquio Internacional Câmara
que, segundo os historiadores, a carta do Mestre
Cascudo em abril para debater esse assunto. Lon-
João, não é uma carta fidedigna da realidade da
ge de querer ser o senhor da verdade, além desse
época. Enfim, o tempo dirá. Mas aqui nós estamos
selo internacional, a gente vai procurar debater
empenhados em fazer isso acontecer.
ENTENDA O ESTUDO DE CARLOS CHESMAN E CLÁUDIO FURTADO PONTO A PONTO
Sobre a Profundidade e o Porto
vemos vista, será tamanha que
Seguro: "...Mandou lançar o pru-
haverá nela bem vinte ou vinte
mo, acharam 25 braças... e segui-
e cinco léguas por costa. Em al-
mos direitos à terra e os navios
gumas partes, grandes barreiras,
Para facilitar o entendimento
pequenos diante, indo por 17, 16,
delas vermelhas e delas brancas e
dos mais recentes artigos, a Mu-
15, 14, 13, 12, 10 e 9 braças até meia
a terra, por cima, toda chã e cheia
nicípios em Foco colocou o que é
légua de terra... ancoraram-se em
de grandes arvoredos."
dito na Carta de Pero Vaz de Ca-
cinco, seis braças, a qual anco-
minha e o que dizem os pesqui-
ragem dentro é tão grande e tão
O que dizem
sadores Carlos Chesman e Cláu-
fremosa e tão segura que podem
os pesquisadores
dio Furtado. Confira abaixo:
jazer dentro nela mais de 200 na-
Rota e Física da Navegação:
vios e naus."
• A distância percorrida de Cabo
O que diz a carta:
Verde ao avistamento de terra é
Sobre a Distância Percorrida: "...
Sobre o Rio e o Capitão: "...passa-
de aproximadamente 4.000 km
que topámos alguns sinais de ter-
ram logo todos além do rio, o qual
(670 léguas, considerando 1 légua
ra, sendo da dita ilha [Cabo Verde],
não é mais ancho que um jogo de
= 6 km).
segundo os pilotos diziam, obra de
mancal... E então o capitão fez-se
• Traçando essa distância seguin-
660 ou 670 léguas..."
tomar ao colo de dous homens e
do a trajetória determinada pe-
passou o rio e fez tornar todos."
los ventos e correntes oceânicas
Sobre o Avistamento do Monte:
(Força de Coriolis), a rota conduz
"...É, primeiramente d’um grande
Sobre as Barreiras ao Sul: "Esta
à costa do Rio Grande do Norte
monte, mui alto e redondo, e d’ou-
terra, Senhor, me parece que da
(RN), o que é inconsistente com
tras serras mais baixas a sul dele
ponta que mais contra o sul vimos
uma linha reta para Porto Seguro
e de terra chã com grandes arvo-
até outra ponta que contra o norte
(BA).
redos, ao qual monte alto o capi-
vem, de que nós deste porto hou-
tão pôs nome o Monte Pascoal e à terra a Terra de Vera Cruz." Touros, um dos municípios que pode ser beneficiado pela "nova rota do descobrimento"
31
O monte avistado (Monte Pas-
• Dimensões: O local possui di-
ge que o capitão seja carregado,
coal Potiguar):
mensões de aproximadamente
é identificado como o Rio Pu-
• Cálculos de Altura: Utilizando
1.500 m por 700 m, área mais
naú (praia de Zumbi), que é um
a curvatura da Terra, um monte
que suficiente para as "mais de
riacho estreito. Esta descrição
visível a uma distância de 30 km
200 navios e naus" mencionadas,
é incompatível com o largo Rio
a 40 km deve ter entre 70 m e 125
cujas embarcações variavam de
Buranhém (300 m a 500 m de
m de altura.
25m x 10m (caravelas) a 50m x
largura) em Porto Seguro (BA).
• Identificação: O monte Serra
20m (naus).
• Barreiras Vermelhas: A descri-
Verde (chamado Monte Pascoal
• Concordância de Profundida-
ção de grandes barreiras verme-
Potiguar), em João Câmara (RN),
de: A profundidade registrada
lhas a 20 ou 25 léguas (120 km a
com 240 m de altitude, é compa-
na Carta de "cinco, seis braças"
150 km) ao sul do porto seguro
tível com os cálculos e visível da
(11,0 m a 13,2 m) no interior do
da Praia do Marco corresponde
rota Leste-Oeste.
porto está em completo acordo
à Barreira do Inferno no litoral
• Conformidade: O monte Serra
com as medições atuais no lo-
sul do RN, localizada a aproxima-
Verde possui o formato de uma
cal (cerca de 10 m na entrada da
damente 130 km. Não há falésias
grande colina redonda e tem ser-
baía da Praia do Marco). O perfil
vermelhas nessa distância ao sul
ras mais baixas ao sul dela (Tor-
de profundidade constantemen-
de Porto Seguro (BA).
reão e Amarelão), o que se alinha
te decrescente (de 25 braças até
com a descrição da Carta.
9 braças) é mais bem explicado pela chegada Leste-Oeste no RN.
O Porto Seguro e a Batimetria:
O Rio e as Barreiras Geográfi-
• Localização: O porto seguro
cas:
é identificado como a Praia do
• O Rio Estreito: O rio próximo ao
Marco (RN), que é protegida por
porto que é "não mais ancho que
um arrecife.
um jogo de mancal" e que exi-
32
Aponte o celular para este QR-Code e acesse o artigo de Chesman e Furtado
ARTIGO
MARCUS CÉSAR CAVALCANTI DE MORAIS*
BRASIL: DESCOBRIMENTO EM 1500 E POSSE EM 1501
A questão evidenciada neste estudo consiste em
base sólida, não apresentam documento nem prova
afastar as equivocadas hipóteses, que insistem na
alguma, apenas fazem uma vaga referência aos ven-
suposição de que o Descobrimento do Brasil teria
tos elísios e à corrente marítima. Outras expedições
sido em Touros-RN e não na Bahia, como consta
que saíram do mesmo ponto, ou seja, Cabo Verde na
oficialmente na historiografia. Ora, os verdadeiros
costa africana, chegaram em destinos diferentes.
guardiões da História se baseiam em fatos e acon-
Podemos citar algumas para que o leitor veja que
tecimentos narrados e documentados, com provas
o argumento não faz sentido: em 1488, Bartolomeu
e reconhecimento científico, afirmando que o Brasil
Dias chegou ao sul da África; em 1498, Vasco da
foi descoberto com a expedição de Cabral em 1500.
Gama chegou à Índia; no mesmo ano de 1498, Duar-
Os que defendem a infundada suposição da fro-
te Pacheco chegou na costa entre Maranhão e Pará;
ta de Cabral ter aportado em Touros, o fazem sem
também no mesmo ano o espanhol Vicente Pinzom
* Jornalista e escritor, é autor dos livros Terras Potiguares, Retrato Narrado da Cidade do Natal, O Brasil Nasceu Juridicamente no RN, Brasil: Descobrimento e Posse, Negócios em Foco e várias outras publicações.. 33
ARTIGO
do litoral, não se tendo, de forma alguma, a mesma visão. Outro grande e primordial desacordo com a realidade diz respeito ao comportamento dos indígenas das duas regiões. A carta de Caminha relata ao Rei de Portugal a gentileza e cordialidade dos indígenas daquele lugar, num diálogo amistoso e troca
“Na carta está escrito que fora avistado um monte alto e redondo, com outras serras ao sul, mas o Pico do Cabugi é pontiagudo e não redondo, não tendo outras serras ao Sul”
de saberes com os portugueses. Já no território potiguar o tipo indígena era guerreiro e canibal, portanto muito diferente do que fora narrado por Caminha. Aliás, esse foi um dos motivos do retardamento da colonização portuguesa na futura Capitania do Rio Grande que só aconteceu quase cem anos depois, com a importante participação de Jerônimo de Albuquerque. Antes disso, em 1535, bem como em 1555, o então donatário da Capitania do Rio Grande, João Rodrigues Colaço, realizou duas tentativas de colonização, a primeira por ele próprio e a segunda pelos seus filhos, sendo ambas rechaçadas pelos índios e com isso a Capitania nunca existiu de fato. Outra comprovação é a narrativa de Américo
aportou na ponta do Mucuripe, no hoje estado do
Vespúcio, em sua carta Létera, de 1504, que docu-
Ceará; em 1549 Tomé de Souza aportou na Bahia e
menta os feitos da expedição de 1501, por ocasião da
a Família Real aportou no Rio de Janeiro em 1808.
Posse da Terra Brasileira, quando quatro tripulan-
Todas essas expedições partiram de Cabo Verde e
tes desembarcaram e se arriscaram a uma aproxi-
certamente foram “desobrigadas”, ou mesmo “dis-
mação dos índios foram atacados e esquartejados.
pensadas” da tal influência desses ventos e dessa
O argumento mais categórico, por se tratar de da-
corrente marítima. Isto prova que tais argumentos
dos numéricos, imunes a qualquer tipo de contesta-
não são válidos.
ção, vem do quinto parágrafo da carta de Caminha,
O documento que narra a chegada de Cabral
que traz a distância percorrida entre Cabo Verde no
ao Brasil, no ano de 1500, é a carta de Pero Vaz de
continente africano e Porto Seguro na Bahia, que
Caminha ao Rei D. Manoel e nela constam diversas
é de 660 léguas marítimas. Ocorre que a distância
informações que jamais poderiam atestar a chega-
entre o mesmo ponto de partida ao litoral de Tou-
da de Cabral ao litoral potiguar. Por exemplo: que-
ros-RN é de 530 léguas marítimas, portanto, 130
rem dizer que o Monte Pascoal avistado é o Pico do
léguas marítimas a menos, que fazem uma grande
Cabugi. Na carta está escrito que fora avistado um
diferença. Isso pode naturalmente ser pesquisado e
monte alto e redondo, com outras serras ao sul, mas
comprovado por quem tenha alguma dúvida. Uma
o Pico do Cabugi é pontiagudo e não redondo, não
outra carta arquivada no museu da Torre do Tom-
tendo outras serras ao Sul. Outra informação impor-
bo, em Portugal, é a famosa carta do mestre João,
tante que consta na carta refere-se à distância do
que era um médico da esquadra de Cabral, conhe-
Monte Pascoal ao litoral que é de aproximadamen-
cedor da cosmografia e perito no uso dos instru-
te 50 km e o Pico do Cabugi está a mais de 150 km
mentos náuticos e a localização através dos astros.
34
Segundo o historiador contemporâneo, respeitado e conhecido nacionalmente, Eduardo Bueno, o mestre João registrou a coordenada geográfica do desembarque de Cabral como sendo aproximadamente 17 graus da linha equatorial Sul. Na realidade, a coordenada geográfica de Porto Seguro é exatamente 16º 22’ 20’’ latitude Sul, isso pela medição precisa através dos atuais GPS. O fato principal é que a coordenada do litoral de Touros-RN é 5º 3’ 41’’ latitude Sul, portanto, muito diferente da localização oficial. Pelo menos na matemática 16,2 está bem mais próxi-
“Definitivamente, o Brasil nasceu juridicamente em 7 de agosto de 1501, em Touros no Rio Grande do Norte”
mo de 17, do que 5,3. É verdade ou não é? Na realidade, o Marco de Touros é um atestado de posse, um autêntico documento colonial que afirma a soberania de Portugal sobre a terra onde fora fixado, sendo o primeiro no Brasil e em torrão potiguar, no início da missão e um outro na praia de Cananéia,
No Colóquio dos Institutos Histórico Brasileiros,
em território paulista, simbolizando o final da mis-
realizado no Rio de Janeiro, em 1998, o então presi-
são, há mais de um ano após o Descobrimento do
dente do Instituto Histórico do RN, Dr. Enélio Petro-
Brasil.
vich, apresentou comunicado detalhando os acon-
Durante quase quatro séculos o Marco de Tou-
tecimentos que envolveram o Marco de Touros e
ros foi visto como uma pedra santa, consagrado à
solicitou o devido registro nos anais daquela Casa,
devoção e a fé. Somente no ano de 1890, passou a
diante de historiadores de todas as regiões do País
receber importância histórica, após pesquisa do es-
e o pleno reconhecimento do fato histórico pela in-
critor pernambucano, José de Vasconcelos, autor da
telectualidade brasileira. Além de Enélio Petrovich
consagrada obra ¨Datas Célebres e Fatos Notáveis da
vários escritores e historiadores estudaram sobre o
História do Brasil, deu conhecimento da existência
Marco de Touros e posso citar alguns: Câmara Cas-
do primeiro marco de posse do Brasil, chantado a 5º
cudo, Tristão Araripe, Diógenes da Cunha Lima, José
3’ 41’’ de latitude, Sul da linha equatorial, informa-
Vasconcelos, Nestor Lima, Oswaldo de Souza, Nilson
ções extraídas da carta de Vespúcio datada de 04 de
Patriota, Jeanne Nesi, Olavo Medeiros, Moacir Soares,
setembro de 1504 e enviada a Piero Soderini, em Flo-
Guarino Alves, Pedro Rebouças, Itamar de Sousa,
rença, na Itália. O pernambucano José de Vasconce-
João Alves de Melo, entre outros.
los decidiu, na mesma época, ir ao local da coorde-
Após pesquisas minuciosas em documentos his-
nada geográfica, constatando a existência do marco
tóricos, concluímos que o Marco de Touros tem um
de posse. Esse fato consta da ata da 16ª assembleia
grande significado para a História do Brasil. Mesmo
ordinária do Instituto Histórico e Geográfico Brasi-
o Descobrimento tendo sido na Bahia, a posse por
leiro, com sede no Rio de Janeiro. Na oportunidade, o
Portugal se deu no hoje Rio Grande do Norte. O Mar-
historiador cearense, Tristão Alencar Araripe suge-
co de Touros é a própria certidão de nascimento do
riu que o referido marco fosse transportado para a
maior país da América Latina. Definitivamente, o
sede daquele Instituto, na capital federal, onde já se
Brasil nasceu juridicamente em 7 de agosto de 1501,
encontrava o Marco de Cananéia,
em Touros no Rio Grande do Norte. 35
LIVRO
HÁ 92 ANOS, CASCUDO AFIRMOU QUE,SE DEPENDESSE DAS CORRENTES, “CABRAL AVISTARIA TERRAS DO RN E NÃO DA BAHIA” Em livro publicado há 92 anos, o folclorista Câmara Cascudo já apontava que se dependesse da força das correntes marítimas, a esquadra de Cabral teria chegado ao Rio Grande do Norte e não a Porto Seguro
uando conseguiu publicar o
apresentar o resultado ao reitor
informou ao físico que o folcloris-
da Universidade Federal do Rio
ta Câmara Cascudo havia produ-
Grande do Norte, o professor José
zido material sobre essa questão
Daniel Diniz Melo.
do "descobrimento" do Brasil.
Na ocasião, o reitor teria brin-
Chesman então foi à caça des-
cado, perguntando o que um físi-
se material e encontrou o livro
co estava fazendo com pesquisa
“Dois ensaios de História", que foi
na área de história do Brasil. Após
publicado pela primeira vez em
a conversa, o reitor pediu ao dire-
1933 e depois ampliado em 1964.
tor da Agência de Comunicação
Como o nome diz, são dois textos:
da UFRN que produzisse um ma-
“Intencionalidade no descobri-
terial divulgando o trabalho.
mento do Brasil” e “O mais antigo
“Análise física a partir de dados
Carlos Chesman então foi con-
científicos na Carta de Pero Vaz
versar com o diretor da Agecom,
Ele obteve esse material após
de Caminha” (do inglês, Physical
o jornalista Paiva Rebouças. Na
conversar com a neta de Câmara
analysis from scientific data in
entrevista, visando a produção da
Cascudo, Daliana Cascudo, que é
Pero Vaz de Caminha’s letter”),
reportagem que foi publicada no
a guardiã das obras do folclorista.
o professor Carlos Chesman foi
site da UFRN, o diretor da Agência
Na ocasião, ela deu acesso para
36
Marco da posse".
que ele pudesse pesquisar
dental da África, em sentido Norte-Sul, até ao golfo da
o livro. E ficou feliz de sa-
Guiné e às regiões equatoriais onde muda de direção,
ber que o evento planeja-
atravessando o Atlântico (sempre cobrindo a linha)
do por Chesman levará o
indo bater no Cabo de São Roque".
nome de seu avô.
O pesquisador escreve ainda que “admitindo, po-
No primeiro ensaio, Câmara Cascudo diz de uma
rém, o absurdo de uma corrente marítima de 1/2 mi-
outra forma o que os velejadores e pesquisadores já
lhas por hora poder arrastar irresistivelmente as naus
comprovaram em tese e prática. Que os ventos e cor-
veleiras da esquadra, esta deveria ir parar ao Cabo
rentes marítimas trazem as embarcações para a cos-
de São Roque, e não a 17º, Lat. S, ou sejam mais de 12º
ta do Rio Grande do Norte; e que é muito difícil, usan-
abaixo da Lat. correspondente à posição daquela bali-
do essas forças, chegar a Porto Seguro, na Bahia.
za geográfica".
A ideia defendida por Cascudo é que o descobri-
E arremata: “Desnecessário demonstrar maior cla-
mento do Brasil não foi obra do acaso e que a che-
reza. A corrente, se tivesse colhido as naus portugue-
gada a Porto Seguro foi feita de forma intencional,
sas, levaria a esquadra para o cabo de São Roque,
que não houve um desvio aleatório. Para defender
porque na saliência do litoral norte-rio-grandense,
sua tese, ele apresenta uma série de argumentos, ci-
a 5° 29' ao Sul da equinocial, é que se divide a cor-
tando textos históricos e entra especificamente na
rente africana, tangida ou ajudada pelos alísios. Ca-
questão das correntes e ventos, assunto explorado
bral avistaria terras do Rio Grande do Norte e não da
diretamente por Carlos Chesman a Cláudio Furtado
Bahia, mais de 12º abaixo da latitude correspondente".
para fundamentar a chegada dos portugueses ao RN.
Daí o fato de que nas suas apresentações para de-
Diz Cascudo: “A corrente do Gulf-Stream começa a
fender a tese de que o RN foi o primeiro lugar avista-
fazer-se sentir entre 50º e 30º de longitude ocidental,
do e ponto de desembarque de portugueses no Brasil,
65° ou 60º de latitude austral, caminhando para o Sul
Carlos Chesman e Cláudio Furtado elegem Cascudo
do continente africano, onde se biparte, prosseguindo
como o primeiro da tríade inicial de pesquisadores
um dos braços para Leste, com prolongamento para o
que trataram do assunto. O segundo é Lenine Pinto e
oceano Índico, correndo o outro ao longo da costa oci-
o terceiro é Manoel Cavalcanti Neto. 37
ENTREVISTA
ROSANA MAZARO
“A GENTE NÃO SE APROPRIA DOS PRÓPRIOS FATOS” Professora doutora em Turismo, Rosana Mazaro, que fez a travessia do Atlântico em um veleiro, analisa o fato da tese do "descobrimento" do Brasil no RN não ser explorada como deveria e gerar benefícios ao estado
foi no RN que os portugueses chegaram primeiro.
No período que atuou no estado — ela hoje reside na Espanha
As bases para apontar isso fo-
— Rosana Mazaro chegou a con-
ram o projeto “O Brasil começa
ceder entrevistas nacionais fa-
aqui - Patrimônio histórico-cul-
lando sobre o assunto. Passados
tural como recurso endógeno
pelo menos dez anos desde que
para a inovação em turismo na
lidou com a questão, ela analisa
região do Marco do Descobri-
hoje essa retomada da discussão.
ntre os anos de 2008 e 2015, a
mento/RN” que gerou uma dis-
A professora é enfática ao afir-
professora Rosana Mazaro, que
sertação de mestrado levantando
mar que o RN perde muito por
foi do Departamento de Turis-
tudo sobre o assunto; e o fato de
não se apropriar de seus temas.
mo da Universidade Federal do
que ela e seu marido fizeram a
E que só de haver a hipótese do
Rio Grande do Norte, foi uma das
travessia do Atlântico em um ve-
chamado “descobrimento” ter
pessoas que empunhou a bandei-
leiro. Ou seja, além de entender
ocorrido na costa potiguar, isso
ra do estado usar as evidências
de turismo e da tese do "desco-
já seria motivo de sobra para ter-
históricas a seu favor e explorar
brimento", ela também é navega-
mos ganhos turísticos e econô-
turisticamente a hipótese de que
dora.
micos.
38
Rosana Mazaro, professora doutora em Turismo
Como foi que a senhora se envolveu com essa
minha lógica era dentro da gestão. Só que a gente se
questão da chegada dos portugueses aqui no
depara com um fato desse, que é super importante, e
Brasil?
pouco se passa pela história. Pela história: "Chegou na
Tem muita gente até que me confunde, me chama de
Bahia e tem dois marcos". É só isso que você aprende..
historiadora e eu fico devendo para os historiadores
E chega aí me deparei com essa polêmica histórica
porque eu não tenho essa formação. Minha área é tu-
(do RN ser o primeiro ponto de chegada dos portugue-
rismo, gestão do turismo, gestão de destinos turísticos.
ses). E foi muito curioso. Eu aprovei um projeto de pes-
E dentro disso, o que que nós estudamos? Quais são os
quisa, na verdade, uma parceria — se eu não me en-
elementos que se pode aproveitar como atrativo turís-
gano — CNPQ com ciência e tecnologia de inovação.
tico. E dentro dessa classificação, o turismo trabalha
É, que era um fator para a inovação em turismo ali
com os fatos históricos como um dos elementos de atra-
na região. O fator histórico que, sendo o primeiro, era
ção. Para construir atrativos. Dentro da universidade
importante e deveria ser melhor aproveitado. Era essa
eu instalei um programa de pós-graduação que até
a nossa lógica. A gente começou a trabalhar o aspecto
tem doutorado, o único doutorado público aí no país.
e fomos atrás do historiador. História é um dos ele-
O que que implica? Minha área é justamente levantar
mentos importantes dentro da formação em turismo,
que a gente chama de recurso turístico para transfor-
sem dúvida nenhuma.
má-los em atrativos, para ser competitivo. Ou seja, a 39
ENTREVISTA
Em que ano?
Aí construíram toda uma história e tal. Eu sincera-
Entre 2008 e 2015, mais ou menos, eu trabalhei com
mente acredito muito no fato. Eu acho muito factível,
essa temática de uma forma muito sistemática. E aí
muito provável. Fora os questionamentos que se tem
um dos resultados foi uma dissertação de mestrado.
mesmo de parte do que tem na Bahia. Questionamen-
Porque teve um aluno (Bernardo Meister Gehrke) que
tos da legitimidade, ou pelo menos da originalidade
se envolveu num projeto desses do Sebrae, se eu não
do Marco. Mas parece que tem gente que não quer
me engano, de capacitação da comunidade e mergu-
reescrever a história não, porque está bem assim.
lhou na questão. Se apaixonou pela causa. Aprovei-
Reeditar os livros seria muito complicado.
tamos esse projeto. Ele fez uma dissertação que vai fundo nesses aspectos. Dada a relevância, a gente começou a trazer à tona. Aí juntamos com a fala dos historiadores, das pessoas interessadas e também das
“O Rio Grande do Norte está cheio de temas, mas não sabe aproveitar”
adeptas da hipótese, dessa versão da história. Eu me lembro até que teve uma audiência pública promovida por um deputado lá em Touros. O Estado teve um ano desses que fez um concurso de monografias entre os formandos do segundo grau e essa foi a temática. Teve um evento bem grande da formatura, no Centro de Convenções, que eu fui lá falar. Ou seja, criou-se toda uma discussão, uma temática sobre o apro-
A senhora fez a travessia do oceano em um ve-
veitamento disso. Esse tema veio à tona novamente.
leiro?
Ou seja, uma mobilização. E então acabei me envol-
Fiz. E vou te falar: navegação em um veleiro e já com
vendo nisso.
os recursos. Por que qual a primeira evidência, digamos, primeira em um sentido de uma ordem de cri-
Por quê?
térios? Esse da navegação, tanto no que diz respeito
Porque nessa pesquisa a gente foi juntando o que
a ventos e correntes, que eram absolutamente des-
foi chamado pelos historiadores e por todas essas
conhecidos por eles e as restrições de navegação das
pessoas de evidências, que são muito factíveis. En-
caravelas. Somando esses dois aspectos, eles fizeram
tão, se levanta essa suspeita e como eu já disse em
isso em 1500. Eu vim para cá no ano 2000. Ou seja, já
algumas entrevistas, não sei qual é a prova cabal
um ano tecnologicamente avançado. Ainda que meu
que nós, porque parece que muitos dos documentos
veleiro não fosse top de linha, mas GPS já tinha e todo
até do próprio Caminha e dos registros foram per-
um estudo de correntes e ventos do planeta todo, já
didos, houve incêndio nos museus em Portugal e em
mapeados. Porque esses são constantes, ventos e cor-
lugares onde estavam guardados. Eu tinha uma in-
rentes marítimas que são permanentes. Com tudo
tenção, até propus ao Bernardo, que acabou não se
isso estudado. E eu lembro de todo um esforço dos ve-
concretizando, de fazer um doutorado e vir a Por-
lejadores que fazem esse percurso. Porque tem uma
tugal para ver as fontes daqui. Mas eu não sei se foi
rota natural que é Costa Brasileira, Nordeste, Caribe,
explorado tudo isso. Eu acho que merece muito e até
o Sul ali dos Estados Unidos, até mais ou menos 40°,
um despertar pelos portugueses, porque me pare-
ali Nova York, vento oeste, pega a costa do Atlântico
ce que a Bahia tem um marketing melhor. Como eu
lá Portugal, desce. Ou seja, roteiro de um ano seria
sempre disse, o que eles fizeram foi falar primeiro.
de ciclo de vento favorável. É mais ou menos isso.
40
E quando você desce o Atlântico, quando você sai de
sei qual comprovação que a história precisa. Por tudo
Cabo Verde para passar essa zona subtropical, ela é
isso, eu abracei a tese. A gente aproveitou tudo isso e
absolutamente inconstante. É onde os ventos nascem
fez vários projetos ali para desenvolvimento. Hoje o
e onde eles morrem. A gente está a 5° aí em Natal, ao
turismo vive de storytelling. E a gente tem uma story-
sul do Equador. Agora, 8° norte, você tem uma varia-
telling para aproveitar. É o que eu dizia: o Rio Grande
ção de vento e às vezes uma calmaria. E tem um efeito
do Norte está cheio de temas, mas não sabe aproveitar.
de corrente que ela arrasta para o Caribe mesmo. Por exemplo, se você sai de Cabo Verde desavisado e vai
Então na sua avaliação, seria muito difícil Ca-
sendo arrastado, quando você chega aqui um pouco
bral chegar a Porto Seguro?
antes do Equador e encontra os alísios, que são os que
Eu não posso dizer impossível. Mas eu apostaria
batem forte aí na nossa costa — e só da Paraíba para
numa boa base estatística. Vamos deixar lá naque-
cima, não vamos esquecer — você é arrastado para
la imagem de erro do estudo dos 95% de possibilida-
o Caribe. O velejador sonha com essa paranóia ali.
de, mais até. Eu realmente acho. E porque tem outros
Então, eles encostam na África, eu não tô brincando.
fatores. Então, eu aposto mesmo que essas evidên-
Eles vão a Dakar para tentar pegar o máximo dos alí-
cias são muito fortes e que a probabilidade é muito
sios lá e cruzar numa velocidade só. Nós fizemos di-
grande, é muito grande. E tem um fato que é muito
ferente porque meu capitão era abusado e também a
interessante, porque depois eu fui me aprofundando.
gente foi acompanhando. Então, nos preparamos, por
A gente levantou dados, estudou bastante documentos
exemplo, com muita economia de combustível para
e um deles, então, dizia que os índios potiguares eram
encarar um contravento que tu começa a pegar o
antropófagos. Canibais e muito hostis. Extremamente
efeito acima desse alísio. Então, você pega ele na cara,
hostis. E que os índios da Bahia já aceitaram melhor
é um sul. Um sul mesmo, assim, que vai chegando no
o negócio, já gostaram do brilho do ouro, já se deixa-
Cabo Verde. Então, você tem que fazer muita mano-
ram seduzir. Então, diz que o nome atribuído a Porto
bra e muito esforço para vir nesse contravento, para
Seguro não é pela condição de navegação. E aí eu vou
chegar na costa aqui, no extremo nordeste. Então, foi
lhe dizer que isto é verdade. Porto Seguro é um hor-
assim suado, muito cálculo e nós tivemos amigos vele-
ror para ancorar. Os bancos de areia, ali você tem que
jadores que nós saímos juntos, fizeram uma rota dife-
ser muito esperto. Então, é base ali, Arraial d'Ajuda,
rente, nos encontramos em Canárias, em Cabo Verde,
é base para os barcos que vão a Abrolhos porque é
o último ponto. Ele foi para Dakar. Então, nós fizemos
mais perto. É base para esses barcos que não tem pro-
essa opção de ir descendo mais devagar, encarando
fundidade, mas para nós, por exemplo, veleiro com
o contravento e às vezes forçando com o motor até
calado, isso já é uma dificuldade. Então, foi chama-
encontrar os alísios. Mas a corrente é coisa de dois nós,
do de Porto Seguro justamente por isso: porque eles
dois nós e meio. Isso é muito de deriva. Então, pen-
foram bem recebidos pela população local. Não tem
sando a limitação — e eu tô falando de um veleiro
nada a ver com a condição de navegação também,
que orça. Orça é quando pega mais o contravento.
porque a costa do Nordeste toda, infelizmente, ela não
Uma caravela não tem muita orça, ela não tem ân-
tem águas abrigadas. Ela não tem milhas perto que
gulo de orça. Então essas restrições e depois as evidên-
permita, por exemplo, o que já tem do Rio de Janeiro
cias encontradas em terra, de cálculo, que o segundo
para baixo. A própria Bahia, depois de Salvador que
marco, a distância entre o Marco daí e o segundo em
muda muito. Eu me lembro que quando a gente subiu
Cananéia corresponde aos registros e não da Bahia.
a costa, não entramos em Porto Seguro. A gente foi
Eu acho que é só questão de resistência mesmo. Não
parar em Ilhéus. 41
ENTREVISTA
O que o Rio Grande do Norte perde por não
Há um comentário que fazem que esse turismo
explorar essa tese com tantas evidências?
em Porto Seguro, por conta do chamado “des-
Como raciocínio em termos turísticos, acho que nós
cobrimento", renderia em torno de R$ 1 bilhão
estamos perdendo um montão. Porque Porto Seguro
por ano. A senhora tem conhecimento disso?
não é nada sem esse fato histórico. Não seria nada
Eu acredito. Devolvo a pergunta: o que seria Porto
se não fosse esse o fator primordial. Hoje vivemos
Seguro sem esse fato histórico? A gente não pode es-
de experiências, de história e de atributos do lugar,
pecular, mas o que a gente sabe é que Porto Seguro
e nós temos aí um muito forte. Olha, eu vou te falar:
só é Porto Seguro hoje por conta desse fato histórico.
eu revolucionaria ali Pedra Grande. Faria um gran-
Senão, ele seria talvez uma outra praia lá que a gente
de memorial. No formato das ocas indígenas, que
nem saberia o nome. O meu raciocínio como cientista
são maravilhosas. Enfim, nós perdemos em termos
é isso: levantar questionamentos.
disso, de reconhecimento histórico. Isso é um fator histórico importante. Para a navegação isso é mui-
A senhora encontrou resistência com relação a
to importante. Para cultura náutica, isso é impor-
essa tese aqui no Rio Grande do Norte?
tante, que é uma outra batalha que a gente tem, que
Pelo contrário. Só apoio. Não. Teve uma pessoa assim,
o Brasil é um país de costas para o mar, as pessoas
que agora eu não vou me lembrar, ele até esteve na
nem entendem as condições assim. Enfim, eu acho
audiência (em Touros). Porque ele dizia que para isso
que por ser um fato histórico questionável, eu acho
a gente não tinha que questionar, mas sim reconhe-
que ele por si só já é bastante relevante. E depois ele
cer o fato de que foi o primeiro tratado, acho que é
pode ser usado tanto como reconhecimento histórico
uma data aí de agosto de fundação do Rio Grande do
como para gestão dos destinos. São municípios muito
Norte. Teve um alguém que nos questionou, dizendo
carentes. Touros, São Miguel e Pedra Grande — que
que isso era irrelevante. Eu não concordo. É porque
são os três municípios envolvidos — têm imensos
queria chamar atenção para a tese dele. Eu senti ali
atributos para serem aproveitados em termos de
na hora que, tipo assim: ‘não, a minha tese é mais im-
atração de visitantes e de contar a história do Brasil.
portante, daí vamos isso que é fato, que se pode com-
O Brasil é um país que precisa de muito conhecimen-
provar, não vamos comprar essa briga com a Bahia’.
to. Eu acho que só tem ganhos E não precisa comprar briga com a Bahia. E eu acho que também é
Por que não andou esse trabalho de aproveitar
preciso ver isso sob o aspecto da reparação histórica.
essa tese?
Por que eu vou incorrer num erro, se é questionado?
Interesse político. Só isso que faltou. Pronto. Interesse
Ou ficar contando uma história que não é verdadei-
político. Para mim faltou muito interesse e falta de vi-
ra? Eu acho que está aí pelo menos a hipótese lança-
são. Vocês estão num estado lindo. Morei 23 anos, 25
da. E é como eu disse também numa das entrevistas: a
no RN. Minha filha nasceu aí. Quando cheguei de bar-
dúvida já é um atrativo. Seja ou não seja, no turismo
co, falei: "É aqui que eu vou ficar, maravilhoso". Mas,
o que importa é a dúvida. A polêmica é até melhor.
então, me decepcionei muito com isso, sabe? Com essa
A polêmica é ótima como atrativo. E a gente nem está
falta de vontade. É por isso que eu digo: a Bahia foi
fazendo uma provocação. A gente está levantando
lá, catou o negócio, fez o marketing e ó, se apropriou.
elementos que põem em questão isso.
É que a gente não se apropria dos próprios fatos. No caso. Acho que essa é a palavra.
42
GOVERNO
TESE PODERIA SE TORNAR GRANDE DIFERENCIAL TURÍSTICO E CULTURAL PARA O RN, AFIRMA SECRETÁRIA DE TURISMO DO RN Marina Marinho explica que a Setur-RN acompanha com interesse as discussões sobre o assunto e defende que consolidação da tese pode representar nova porta para o turismo histórico e educacional no RN
abertura de um diálogo maior vi-
Ela acredita que a “tese, se bem
sando transformar esse conteúdo
estruturada e validada cientifica-
histórico em atrativo turístico.
mente, pode se tornar um gran-
“Trata-se de uma narrativa histórica que tem potencial para
de diferencial turístico e cultural para o Rio Grande do Norte”.
ampliar o protagonismo do nosso
“Assim como Porto Seguro se
estado na história do Brasil, valo-
consolidou como um destino his-
rizando ainda mais a nossa cos-
tórico nacional, o RN poderia
ta e o nosso patrimônio natural
fortalecer sua identidade como o
s novas publicações e debates
e cultural. Nós estamos abertos a
berço do Brasil, atraindo turistas
sobre a tese de que o chamado
dialogar com pesquisadores, ins-
interessados em história, cultura
“descobrimento” do Brasil acon-
tituições de ensino e entidades do
e educação. Além disso, isso esti-
teceu no Rio Grande do Norte é
trade turístico para avaliar for-
mularia novos roteiros turísticos,
acompanhada com muito inte-
mas de transformar esse conteú-
investimentos em infraestrutura,
resse pela Secretaria de Turismo
do histórico em produto turístico,
sinalização histórica, e ações de
do Rio Grande do Norte. Quem
respeitando sempre a ciência, a
valorização das comunidades lo-
afirma é a secretária Marina Ma-
pesquisa e a preservação da me-
cais", acrescenta.
rinho, que inclusive defende a
mória", afirma a secretária. 43
GOVERNO
Marina Marinho, secretária de Turismo do RN
Marina Marinho explica que a
ciência, cultura e turismo em prol
“Isso traria legitimidade ao de-
Setur-RN tem recebido manifes-
da valorização da nossa história e
bate e permitiria que, caso a tese
tações de interesse de pesquisa-
da nossa identidade", defende.
se fortaleça, ela seja incorporada
dores e de instituições culturais
Na opinião dela, a comprova-
de maneira institucional ao po-
que veem na discussão uma opor-
ção definitiva da tese poderia vir
sicionamento turístico e históri-
tunidade de resgate histórico.
de “estudos científicos robustos,
co do Rio Grande do Norte. É um
“A Secretaria está aberta a fomen-
arqueológicos, cartográficos, náu-
passo que pode colocar o estado
tar esse diálogo de forma organi-
ticos e históricos, que comprovas-
no centro de uma nova narrativa
zada e participativa, com o apoio
sem, de forma convergente, que
sobre o descobrimento do Brasil",
de universidades e órgãos de pa-
a esquadra portuguesa primeiro
defende.
trimônio histórico, para que esse
avistou e tocou o solo brasileiro
debate seja conduzido de forma
aqui, na costa potiguar".
técnica e respeitosa", diz.
A secretária acrescenta ainda que a possibilidade de estabele-
Na visão da secretária, isso
cer a tese do descobrimento po-
Ela acredita que a discussão
exige mais “pesquisas de campo,
deria ser um ponto de virada no
precisa de apoio institucional,
comparações de documentos his-
turismo local.
tanto em âmbito federal quanto
tóricos e o envolvimento de espe-
“O Rio Grande do Norte tem
estadual. E que uma das possibi-
cialistas de várias áreas". Daí ela
uma das costas mais belas e ricas
lidades de dar apoio a este traba-
defende que se torna fundamen-
em história do país. Se for com-
lho que vem sendo desenvolvido
tal conduzir o debate com base
provado que o descobrimento se
seria a criação de um grupo de
na ciência e não apenas no entu-
deu realmente por aqui, estaremos
trabalho para divulgar a tese.
siasmo local.
não apenas reafirmando nossa
“Poderíamos pensar, por exem-
Marina Marinho concorda que
importância no cenário nacional,
plo, em uma articulação com
um bom caminho para dar mais
mas também abrindo uma nova
o Ministério do Turismo, com o
apoio às pesquisas sobre o tema
porta para o turismo histórico e
IPHAN e com o Ministério da Cul-
poderia ser a formação de uma
educacional. O importante é que
tura, para criar um grupo de tra-
comissão com representantes de
esse processo seja conduzido com
balho interinstitucional voltado a
diferentes instâncias para con-
seriedade, diálogo e muito respeito
estudar e divulgar essa possibili-
duzir estudos de forma coorde-
à história", argumenta.
dade. É uma pauta que pode unir
nada.
44
PERSPECTIVA
COMPROVAÇÃO DA TESE DO "DESCOBRIMENTO" NO RN TRARIA GANHOS IMENSURÁVEIS, AFIRMA ABIH Presidente da Associação, Edmar Gadelha, afirma que o estabelecimento da tese de que o Brasil foi "descoberto" no RN geraria mais voos, mais hospedagens, mais empregos e renda. E teria o poder de reposicionar o RN no cenário turístico nacional
“O ganho seria imensurável,
“Trata-se de um debate embasa-
pois milhões de turistas visitam
do em novas leituras de documen-
Porto Seguro movidos por essa
tos históricos, correntes oceânicas
narrativa histórica. Significaria
e ventos que, comprovadamente,
mais voos, mais hospedagens,
levariam as caravelas de Cabral
presidente da Associação Brasi-
mais empregos, mais renda e um
primeiro ao litoral do Rio Grande
leira de Hotéis e Restaurantes no
reposicionamento do estado no
do Norte, mais especificamente à
Rio Grande do Norte (ABIH-RN),
cenário turístico nacional", avalia.
região do atual município de Tou-
Edmar Gadelha, acredita que,
Ele explica que a ABIH-RN en-
ros. A 'tese do Rio Grande do Norte'
caso a tese do descobrimento do
xerga com seriedade os debates
é uma hipótese histórica que me-
Brasil na costa potiguar seja con-
que envolvem a tese e considera
rece ser investigada e, se compro-
solidada, isso impulsionaria o tu-
que por todos os elementos que
vada, celebrada", afirma.
rismo no estado de uma maneira
já foram levantadas, essa hipóte-
diferenciada.
se merece ser investigada. 45
PERSPECTIVA
Ele explica que a ABIH-RN não possui nenhum projeto ou iniciativa formal referente à tese do descobrimento, mas que a entidade acompanha com interesse tudo o que vem sendo desenvolvido e conduzido pelos pesquisadores que se dedicam a estudar o assunto. Edmar Gadelha também considera que seria necessária uma ação política no sentido de viabilizar recursos para pesquisas na área e também para criar infraestrutura nos locais envolvidos. “E, principalmente, atuar junto ao Ministério do Turismo e
Edmar Gadelha, presidente da ABIH-RN
ao IPHAN para o reconhecimento oficial da rota e dos monumentos", diz.
isso deveria unir todos. “O assunto
Na opinião dele, a comprova-
deveria elencar um projeto para o
ção definitiva da tese de que o
nosso estado. Deve ser uma agen-
descobrimento foi pelo Rio Grande do Norte poderia ser alcançada por meio de uma “evidência arqueológica incontestável". “Especificamente, a descoberta de artefatos portugueses datados do período imediatamente anterior a 1501 na costa potiguar – como
“Sem o amadurecimento necessário para ser tratada como uma pauta nacional do trade turístico”
da suprapartidária, unindo todos em torno de um objetivo comum: recolocar o Rio Grande do Norte no lugar de destaque que merece na história do Brasil", argumenta. Pessoalmente, Edmar Gadelha é um dos que concorda com a tese e vê no Marco de Touros a
restos de uma embarcação, uma
evidência principal para susten-
peça de artilharia, ou qualquer
tar essa hipótese como a que se-
objeto com datação confirmada
ria a mais correta. “Acredito que o
por volta de 1500", explica.
Marco de Touros, de 1501, erguido
Ele acredita que por mais que
amadurecimento necessário para
em uma expedição comprovada-
já existam estudos sobre a ques-
ser tratada como uma pauta na-
mente de reconhecimento, não
tão, ainda não é o caso de provo-
cional do trade turístico", detalha.
está aqui por acaso. Ele marca um
car a ABIH nacional para discu-
Ele defende, entretanto, que a
ponto de referência fundamen-
tir a questão. Na avaliação dele,
questão precisa envolver os po-
tal, a primeira terra verdadeira-
a discussão ainda está em nível
líticos que defendem o interesse
mente avistada e reconhecida",
regional e acadêmica. “Sem o
do Rio Grande do Norte. E que
afirma.
46
HISTÓRIA
SOB O PONTO DE VISTA DO TURISMO, PESQUISAS SÃO IMPORTANTÍSSIMAS, APONTA KOKINHO Historiador avalia a tese do descobrimento pelo RN e as pesquisas que a defendem. Na opinião dele, o assunto é importante principalmente para o turismo
Ele é autor — juntamente com
“Essa discussão esteve associa-
a historiadora Marlene da Sil-
da à importância da localização
va Mariz — do livro “História do
geográfica do RN no contexto da
Rio Grande do Norte”; e também
história mundial. A importância
é professor do curso de História
da discussão está porque envolve
historiador Luiz Eduardo Bran-
da Universidade Federal do Rio
outros fatores históricos o que faz
dão Suassuna, mais conhecido
Grande do Norte (UFRN).
tecer o entrelaçamento de situa-
como Kokinho, acredita que a
Kokinho explica que a “chega-
pesquisa em torno da tese de que
da dos portugueses ao Brasil ter
o Rio Grande do Norte teria sido o
sido no litoral do Rio Grande do
Na avaliação dele, os estudos
primeiro local no qual os portu-
Norte é uma discussão que per-
feitos por pesquisadores como
gueses desembarcaram no Brasil
meia todo o século XX, principal-
Lenine Pinto e Manoel Cavalcanti
é muito importante, sob o ponto
mente na segunda metade do re-
e que envolvem o levantamento
de vista do turismo.
ferido século".
de dados “por si só, têm impor-
ções políticas, econômicas, sociais e culturais", acrescenta.
47
HISTÓRIA
Kokinho, professor e historiador
“Em termos de história política tem pouco significado. Por outro lado, para o turismo é importantíssimo, tanto a discussão como a comprovação”
tância ímpar". “É válido ressaltar que as conclusões
Ele aponta que o professor Tarcísio Medeiros tam-
que chegaram são robustas e impactantes", afirma o
bém discorre sobre o assunto em dois livros: “Aspec-
historiador.
tos Políticos e Antropológicos do RN” e “Proto His-
O historiador também defende que esse assunto
tória do Rio Grande do Norte". “Ressalto o que disse
deveria ser debatido em sala de aula. “É um assun-
anteriormente: esses livros apresentam um estudo
to empolgante, gera discussão e debate", observa. Ele
sobre a importância da localização geográfica do RN
aponta ainda que esse assunto não é uma discussão
e nesse contexto ele analisa vários pontos, inclusive
recente.
esse", explica.
“Este assunto foi estudado na década de 1950, por
Na opinião pessoal de Kokinho, “o local que os por-
historiadores, hoje relativamente esquecidos, como
tugueses chegaram à costa brasileira é irrelevante,
José Moreira Brandão Castello Branco Sobrinho,
até porque naquela época 'não' havia nem Rio Gran-
quando estudou a importância geográfica do RN",
de do Norte, nem Bahia". “Em termos de história po-
informa. O pesquisador citado foi também jurista,
lítica tem pouco significado. Por outro lado, para o
integrou o Instituto Histórico Brasileiro e tio-avô de
turismo é importantíssimo, tanto a discussão como
Kokinho.
a comprovação", conclui.
48
LEGISLATIVO
AÇÃO POLÍTICA É ESSENCIAL PARA CONSOLIDAR A TESE, AFIRMA PRESIDENTE DA COMISSÃO DE TURISMO DA ALRN Deputado Hermano Morais defende ação política ampla para ajudar na consolidação da tese de que o “descobrimento” do Brasil ocorreu no RN, endossa apoio à discussão e avalia a convocação de uma audiência pública para debater o assunto e traçar estratégias visando beneficiar o turismo potiguar
científicas para solidificar o ar-
conhecimento e ampliar as dis-
gumento e direcionar recursos
cussões que esclarecem o fato. Já
e esforços para a exploração tu-
no plano mais local, pode-se criar
rística" da tese que coloca o Rio
projetos que deem ampla publici-
Grande do Norte como primeiro
dade em locais públicos e priva-
presidente da Comissão de Tu-
local avistado e de desembarque
dos de visitação como praias, sho-
rismo da Assembleia Legislativa
dos portugueses.
ppings, aeroportos, parques, etc", opina.
do Rio Grande do Norte (ALRN),
Segundo ele, “toda a classe, em
deputado Hermano Morais, de-
diversas esferas, deve estar empe-
E complementa: “Na condi-
fende que “é crucial que a esfera
nhada em divulgar e sustentar a
ção de presidente da Comissão
política abrace as descobertas
tese". “No âmbito federal, levar a
de Turismo, vejo a publicação de 49
LEGISLATIVO
Deputado Hermano Morais
“Ao reivindicar cientificamente ser o local do verdadeiro 'porto seguro' o RN pode adicionar uma camada robusta de turismo histórico e cultural de relevância nacional”
50
artigos científicos que apontam a
“Ao reivindicar cientificamen-
costa do RN como o primeiro local
te ser o local do verdadeiro 'por-
avistado e também como ponto
to seguro' o RN pode adicionar
de desembarque dos portugueses
uma camada robusta de turismo
com grande entusiasmo e como
histórico e cultural de relevância
um fator de profunda transfor-
nacional, atraindo um novo seg-
mação para o estado".
mento de visitantes e valorizar
Na avaliação dele, “o fato de a nova proposta para o Monte Pas-
Sítios Históricos e Geográficos", observa.
coal (chamado de Monte Pascoal
O deputado afirma que é seu
Potiguar ou Morro da Serra Ver-
papel “apoiar ativamente a dis-
de) e o 'porto seguro' (Praia do
cussão dessa tese". “A intenção de
Marco) se alinharem às descrições
convocar uma audiência pública
detalhadas de Caminha confere
é extremamente pertinente e ne-
a esses artigos uma credibilidade
cessária. Essa audiência pública
científica que não pode ser igno-
serviria como um passo funda-
rada no debate turístico e históri-
mental para apresentar a evidên-
co".
cia científica", diz.
“A intenção de convocar uma audiência pública é extremamente pertinente e necessária. Essa audiência pública serviria como um passo fundamental para apresentar a evidência científica”
ta que o parlamento potiguar
Outra medida seria financiar as
também pode ajudar nessa ini-
universidades (como a UFRN, li-
ciativa para fortalecer o turismo
gada a um dos autores do estudo)
potiguar. Na avaliação do parla-
para que continuem as investiga-
mentar, isso poderia ser feito por
ções necessárias para a consolida-
meio criação de “marcos legais
ção da tese e integrar os locais da
que reconheçam e valorizem os
descoberta (Morro da Serra Verde,
sítios apontados pela pesquisa
Rio Punaú, Praia do Marco) em
(como a Praia do Marco e o Morro
novos roteiros turísticos, promo-
da Serra Verde), garantindo sua
vendo uma narrativa coesa e ba-
preservação e a inclusão em rotei-
seada em dados", opina. O deputado afirma que os da-
ros turísticos estaduais". “No orçamento, pedir para in-
dos científicos são muito fortes e
cluir a alocação de recursos para
que ele, pessoalmente, não acre-
a pesquisa contínua e a validação
dita que o local do primeiro avis-
da tese, bem como para o desen-
tamento e desembarque da frota
volvimento de infraestrutura nas
de Cabral foi em Porto Seguro
áreas afetadas, como o Rio Punaú/
(BA). Ele vai além e ressalta que
Praia de Zumbi (local do provável
as evidências têm poder para al-
primeiro contato) e a Praia do
terar ainda mais a história oficial.
Marco. Além disso, usar a influên-
“É importante ressaltar que a
cia política para promover a tese
chegada dos portugueses ao Bra-
em nível nacional e internacional,
sil pode ter ocorrido antes mesmo
Segundo Hermano, essa au-
integrando-a ao marketing oficial
da frota de Cabral. As investiga-
diência pública seria a forma de
do estado", sugere, ainda com re-
ções sugerem que o explorador
reunir os autores dos artigos e
lação ao papel da ALRN.
português Bartolomeu Dias deve
outros especialistas para deta-
No que diz respeito ao Gover-
ter sido o primeiro europeu a
lhar publicamente a análise de
no do RN, Hermano Morais enten-
chegar à costa nordeste do Brasil,
rota e a comparação das descri-
de que a melhor forma de ajudar
impulsionado pelos ventos e cor-
ções do Monte Pascoal Potiguar e
seria o Executivo adotar “uma
rentes marítimas, como parte da
da Praia do Marco com os dados
postura proativa para impulsio-
manobra conhecida como ‘volta
da Carta de Caminha.
nar a discussão e a exploração tu-
do mar’”, observa.
“Além disso, envolveríamos o
rística da tese". Segundo ele, um
E enfatiza: “Essa primeira che-
Governo do RN, a Assembleia Le-
primeiro passo seria a realização
gada de Bartolomeu Dias ao Nor-
gislativa, a comunidade acadêmi-
de campanhas de marketing e
deste do Brasil deve ter ocorrido
ca, o setor privado de turismo e a
educação.
no final de 1487, quase 13 anos
sociedade civil na discussão e no
“Seria
interessante
também
antes da frota de Cabral. Isso for-
planejamento da exploração tu-
desenvolver a infraestrutura na
talece ainda mais a primazia
rística", detalha.
Praia do Marco e no Morro da
histórica do litoral nordestino, e
Com relação à Assembleia
Serra Verde, destacando os pontos
especificamente do RN, na era das
Legislativa, o deputado acredi-
de avistamento e desembarque.
grandes navegações". 51
DEBATE
ALRN JÁ APROVOU PROJETO E PROMOVEU AUDIÊNCIA EM TOUROS Em 2000, por proposição do então deputado Valério Mesquita, a Assembleia Legislativa aprovou lei estadual instituindo o dia 7 de agosto como Dia do Rio Grande do Norte, uma alusão à colocação do Marco de Touros
O debate no Legislativo poti-
chantado em território potiguar
guar se deu no início dos anos
pelos portugueses no dia 7 de
2000. Na época, o então deputa-
agosto de 1501.
do estadual Valério Mesquita foi
Segundo os estudos nos quais
questão do chamado descobri-
quem propôs a legislação. O texto
se baseou Valério Mesquita —
mento do Brasil já foi discutida
foi sancionado pelo então gover-
feitos pelo jornalista e historia-
pela Assembleia Legislativa do
nador Garibaldi Alves Filho em
dor Marcus César Cavalcanti —
Rio Grande do Norte e acabou
maio de 2000.
o Marco seria o monumento mais
resultando em uma lei estadual,
A lei em questão institui o dia
antigo deixado no litoral brasilei-
mas que não concorda com a
07 de agosto como sendo a data
ro pelas caravelas comandadas
tese de que o primeiro lugar onde
de criação do Rio Grande do Nor-
por André Gonçalves e Gaspar de
os portugueses desembarcaram
te. A data faz alusão à tese de
Lemos, trazido na comitiva o cos-
foi na costa potiguar.
que o Marco de Touros teria sido
mógrafo Américo Vespúcio.
52
Audiência pública reuniu pesquisadores e especialistas em Touros
“Precisamos abraçar esse tema para que o povo tenha acesso a esses argumentos e quem sabe, possamos mudar a história”
Em maio de 2000, quando
Rosana Mazaro foi uma das que
ocorreu o III Encontro Regional
participou da audiência. na épo-
dos Institutos Históricos do Nor-
ca ela já defendia que era preciso
deste Brasileiro, em Natal, Valério
“ter inteligência para transfor-
Mesquita aproveitou para divul-
mar essa história em atrativos e
gar a lei na presença do então
reverter isso para o RN”.
ministro da Cultura Francisco
O propositor da audiência pú-
Welfort; do ex-ministro Almi-
blica foi na mesma linha. “Pre-
no Afonso e dos presidentes dos
cisamos abraçar esse tema para
Institutos Históricos do Ceará,
que o povo tenha acesso a esses
Paraíba, Pernambuco, Alagoas,
argumentos e quem sabe, possa-
Sergipe e Bahia à época.
mos mudar a história. As poten-
Em 2018, o assunto do desco-
cialidades turísticas que podem
brimento do Brasil voltou a ser
resultar a partir desse assunto são
debatido pelo Legislativo poti-
inestimáveis”, disse Carlos Au-
Também de acordo com in-
guar. Naquele ano, por propo-
gusto Maia.
formações publicadas na época,
sição do então deputado Carlos
O historiador e escritor Antô-
o levantamento feito por Marcus
Augusto Maia, foi realizada uma
nio Holanda também participou
César Cavalcanti inclui pesqui-
audiência pública na Câmara
do debate e foi mais um a des-
sas de Câmara Cascudo, Oswal-
Municipal de Touros com o tema
tacar que era preciso discutir
do Câmara e Olavo Medeiros. De
“Touros, o Brasil nasceu aqui".
melhor a questão. “Há 20 anos
acordo com esses dados, o marco
Participaram do debate histo-
que defendo a teoria que o Brasil
do descobrimento que existe no
riadores, estudiosos, vereadores
nasceu aqui no RN. E isso é mui-
centro de Porto Seguro, na Bahia,
de Touros e de Natal e represen-
to importante para a gente. E me
veio de Portugal em 1503, dois
tantes do setor turístico do es-
incomoda essa falta de reconheci-
anos depois.
tado e município. A professora
mento", afirmou, na época. 53
COMÉRCIO
A TESE PODE GERAR VALOR TURÍSTICO E SIMBÓLICO, AVALIA O PRESIDENTE DA FECOMÉRCIO Marcelo Queiroz vê as novas discussões sobre a tese de que o “descobrimento” do Brasil teria ocorrido no RN como uma oportunidade para o turismo. A Federação, afirma ele, tem interesse que o debate traga benefícios sociais e econômicos para o estado
oportunidade de diversificar
roz, vê a discussão sobre a tese
turismo (hotelaria, alimentação,
de que o primeiro avistamento
guias, artesanato). Mas é impor-
e desembarque da esquadra de
tante construir produto turístico
Pedro Álvares Cabral no Brasil
com responsabilidade científica e
ocorreu na costa potiguar.
respeito às comunidades locais", defende.
de valorizar um atrativo cultural
Ele acredita que o reconheci-
que pode impulsionar turismo de
mento como hipótese sólida pode
O presidente da Fecomércio
história e educação, além de bene-
gerar ganhos para o turismo po-
faz ainda outra ressalva. “O RN
fícios econômicos locais”. É dessa
tiguar. “A tese pode gerar valor
já tem outros fortes diferenciais
forma que o presidente da Fede-
turístico e simbólico: roteiros te-
(praias, ecoturismo, cultura) — a
ração do Comércio de Bens, Ser-
máticos, museus, eventos come-
hipótese seria um complemento,
viços e Turismo do Estado do RN
morativos, aumento de visitação e
não a única peça possível de pro-
(Fecomércio RN), Marcelo Quei-
geração de empregos na cadeia do
moção”. “Além disso, entendemos
54
Marcelo Queiroz, presidente do Fecomércio-RN
que a difusão cada vez maior des-
“No entanto, como entidade re-
co-privadas para infraestrutura
sa tese permitirá ao estado surgir
presentante do Comércio de Bens,
turística, promover capacitação
como um destino de importân-
Serviços e Turismo, a Fecomércio
de trabalhadores do turismo e ar-
cia histórica, até mesmo junto à
RN entende que a conclusão defi-
ticular empresários para investi-
Bahia, até de forma complemen-
nitiva depende de consenso cien-
mentos em musealização, sinali-
tar", acrescenta.
tífico e interdisciplinar — até lá,
zação e roteiros culturais", afirma.
acolhemos e divulgamos o diálogo
Marcelo Queiroz explica que
Marcelo Queiroz avalia que os artigos dos físicos Carlos Ches-
técnico", explica.
a Federação também pode fo-
man e Cláudio Furtado que de-
Segundo ele, sob essa ótica de
mentar debates e seminários que
fendem e reforçam a tese já ex-
construção desse novo cenário
aproximem universidade, setor
posta por outros pesquisadores
para o turismo, a entidade pode
privado e poder público. Ele tam-
são uma “contribuição científica
contribuir. “O Sistema Fecomér-
bém avalia que a construção des-
relevante que merece ser consi-
cio RN, Sesc e Senac pode apoiar
sa nova fronteira para o turismo
derada com seriedade; abre espa-
campanhas de difusão do conhe-
potiguar precisa de um apoio
ço para reavaliações históricas e
cimento, facilitar parcerias públi-
mais amplo.
para o debate acadêmico". 55
COMÉRCIO
“Não existe atalho: exige produção científica multidisciplinar e replicável — mais estudos com informação e dados confiáveis, análise documental e consenso entre historiadores e especialistas”
“Outras entidades como se-
criação de “um grupo técnico
tória, as hipóteses avançam por
cretarias de Turismo, governos,
interinstitucional, apoiar pesqui-
acúmulo de evidências e revisão
prefeituras, associações de hotéis
sas e infraestrutura de museus,
crítica", diz.
e operadores, universidades e ins-
incluir o tema nas políticas de
Na opinião pessoal dele, “as
titutos de pesquisa devem criar
turismo com roteiros, sinalização
evidências recentes são intrigan-
uma agenda comum: financiar
e capacitação, e fazer divulgação
tes e reforçam a necessidade de
investigação, planejar produtos
responsável enquanto se busca
reavaliar rotas e descrições anti-
turísticos sustentáveis, integrar
validação científica”. “Priorizar
gas, mas não temos como afirmar
roteiros ao marketing regional
preservação do patrimônio e diá-
categoricamente que a chega-
e garantir padrões de qualidade
logo com comunidades tradicio-
da foi na Bahia ou no RN sem o
para guias e atendimento", suge-
nais", defende.
consenso acadêmico necessário".
re.
Para o presidente da Fecomér-
“A discussão científica deve pros-
E acrescenta: “A nossa expe-
cio, um bom caminho para que
seguir; o que nos interessa é que
riência em iniciativas que apoiam
a hipótese se fortaleça cada vez
o debate traga benefícios sociais e
o Turismo Sustentável, por meio
mais é o aprofundamento dos es-
econômicos para o estado", afirma
do Senac RN, mostra que a coor-
tudos e a ampliação dos debates.
Marcelo Queiroz.
denação entre os atores evita so-
“Não existe atalho: exige produção
breposição e amplia impacto eco-
científica multidisciplinar e repli-
nômico".
cável — mais estudos com infor-
Além disso, Marcelo Queiroz
mação e dados confiáveis, análise
entende que o Governo do RN
documental e consenso entre his-
poderia contribuir por meio da
toriadores e especialistas. Na his-
56
TURISMO
"COM UMA NARRATIVA FORTE, VALIDADA E BEM TRABALHADA, O RN PODE GANHAR MUITO", AVALIA EMPROTUR Presidente da Empresa Potiguar de Promoção Turística, Raoni Fernandes, explica que a tese do “descobrimento” no RN abre grande oportunidade de posicionamento porque poucos destinos podem ancorar sua promoção em um fato histórico de alcance nacional
o ponto de vista da promoção
A afirmação é do presidente da
da tese que coloca o RN como
Empresa Potiguar de Promoção
primeiro ponto de desembarque
Turística (Emprotur), Raoni Fer-
da esquadra de Pedro Álvares
nandes.
Cabral, a Empresa pode transfor-
turística, qualquer evidência que
Ele explica que “não cabe à
mar o conteúdo em campanhas,
coloque o Rio Grande do Norte no
Emprotur validar teses científi-
produtos e experiências que re-
centro de uma narrativa históri-
cas — isso é atribuição da Setur
forcem nossa visibilidade nacio-
ca tão relevante abre uma grande
e dos órgãos de pesquisa". Con-
nal e internacional.
oportunidade de posicionamento".
tanto, havendo respaldo técnico 57
TURISMO
Raoni Fernandes, presidente da Emprotur
“Existem destinos brasileiros conhecidos pelo sol e mar, mas poucos podem ancorar sua promoção em um fato histórico de origem nacional”
58
“Nossa principal atuação, neste
Raoni Fernandes explica ain-
momento, é acompanhar o debate
da que a Empresa está “mapean-
técnico conduzido pela Setur e pe-
do oportunidades de storytelling
las instituições científicas. A par-
que conectem esse possível marco
tir do momento em que houver
histórico com outros produtos já
conteúdo validado, a Emprotur
existentes no estado, como turis-
está preparada para criar narra-
mo cultural, natureza e gastrono-
tivas promocionais, materiais de
mia".
campanha, roteiros interpretati-
Na avaliação do presidente da
vos, vídeos, press trips e ações de
Emprotur, o Rio Grande do Nor-
relações públicas que traduzam
te pode ganhar muito caso a tese
essa história para o mercado tu-
se fortaleça e passe a ser consi-
rístico", afirma.
derada como uma hipótese real.
“Nosso papel é transformar o conhecimento histórico — uma vez autenticado pela Setur — em valor turístico e visibilidade para o RN”
Na opinião do presidente da
meçar a pensar produtos temá-
Emprotur, a tese também pode
ticos, como receptivos, trilhas e
atrair mídia espontânea, ampliar
city tours; desenvolver materiais
o calendário de eventos e come-
próprios de comunicação; e ca-
morações; e fortalecer o turismo
pacitar equipes para contar essa
interno com escolas, universida-
história com clareza e respon-
des e pesquisa.
sabilidade. “É um tema que pode
“Porto Seguro (BA) se tornou
movimentar toda a cadeia — hos-
um destino icônico ao conectar
pedagem, gastronomia, agências,
história e experiência. O RN pode
guias, museus e economia criati-
trilhar caminho semelhante, mas
va", observa.
com sua própria autenticidade", afirma.
Ele também avalia que, no caso do Governo do Estado, é possível
Raoni Fernandes diz ainda que
desempenhar uma articulação
a partir da validação da tese, a
política que envolverá a Setur,
Emprotur pode “agir de forma
cultura, educação, municípios e
muito objetiva", criando campa-
trade. “Isso significa apoiar a pes-
nhas e narrativas promocionais;
quisa técnica, estimular criação de
criar material institucional para
espaços de interpretação, facilitar
operadores turísticos, impren-
investimentos em infraestrutura
sa e público final; e desenvolver
turística e coordenar uma estra-
press trips e famtours temáticos.
tégia integrada de comunicação
Além disso, segundo ele, tam-
pública que fortaleça a narrativa.
bém é possível “inserir o tema
Com isso, a Emprotur ganha base
nas apresentações de destino, fei-
sólida para promover o tema com
“Com uma narrativa forte, vali-
ras, capacitações e roadshows; ali-
escala e eficiência".
dada e bem trabalhada, o RN pode
nhar o storytelling com os muni-
Na opinião pessoal do presi-
ganhar muito em diferenciação",
cípios envolvidos e com o trade; e
dente da Emprotur, “não há mais
diz.
produzir vídeos, reportagens es-
dúvidas sobre dois aspectos impor-
peciais, roteiros sugeridos e con-
tantes para a história". “Primeiro
teúdos digitais".
não houve descobrimento, aqui
“Existem destinos brasileiros conhecidos pelo sol e mar, mas poucos podem ancorar sua promoção
“Nosso papel é transformar o
já residiam os povos originários,
em um fato histórico de origem
conhecimento histórico — uma
nossos antepassados. Em segundo
nacional", acrescenta.
vez autenticado pela Setur — em
lugar, sim, acredito na tese de que
valor turístico e visibilidade para
os primeiros portugueses desem-
o RN", expõe.
barcaram primeiramente no lito-
Segundo ele, isso abre portas para que seja criada uma nova comple-
Com relação ao trade turístico,
mentar à que o estado já possui e
ele acredita que já é possível co-
identidade
turística,
ral potiguar e seguiram posteriormente para Porto Seguro".
também possibilita o desenvolvimento de produtos educacionais, culturais e temáticos. 59
EMPRESAS
SINDETUR ACREDITA QUE RN PODERIA TER VANTAGEM COM NOVO ATRATIVO TURÍSTICO Entidade que representa as empresas de turismo avalia que tese do “descobrimento” do Brasil no RN poderia gerar benefícios econômicos, mas requer aprofundamento, ação política e também um conjunto de ações
“Caso venha a ser concretizado
Entre as medidas que o Sindetur
esses artigos e estudos, só teremos
pensa está a ideia de promover
vantagem no reconhecimento his-
eventos e debates referentes à
tórico e cultural com atrativos
história do RN, “convidando histo-
turísticos significativos, gerando
riadores, especialistas e autorida-
Sindicato das Empresas de Tu-
benefícios econômicos", diz a vi-
des locais".
rismo do Rio Grande do Norte
ce-presidente da entidade, Deca
(Sindetur) avalia que o Rio Gran-
Bolonha.
Segundo Deca Bolonha, também seria possível “desenvolver
de do Norte poderia ganhar mui-
Atualmente o Sindetur não
materiais de divulgação (vídeos,
to caso fosse consolidada a tese
possui nenhuma ação voltada à
post nas redes sociais) comparti-
de que o Rio Grande do Norte foi
divulgação da tese porque aguar-
lhando a história do RN; e desen-
o primeiro local onde os portu-
da alguma conclusão acerca do
volver Roteiros turísticos que va-
gueses avistaram e atracaram
tema. E que a partir daí poderá
lorizem o patrimônio histórico e
em 1500.
tomar
cultural do estado".
60
algumas
providências.
Vice-presidente do Sindetur, Deca Bolonha
“É um assunto que precisamos nos aprofundar mais para termos uma credibilidade suave sem melindrar a Bahia que já está marcada com esse descobrimento”
A vice-presidente do Sindetur
Ela recorda que o Governo
acredita ainda que as demais en-
do RN já chegou a trabalhar em
tidades ligadas ao turismo pode-
cima desta tese, mas que isso
riam agir da mesma forma. E ob-
não foi continuado. Deca Bolo-
serva que uma ação política em
nha opina que o governo deveria
torno do tema poderia impulsio-
acompanhar mais os estudos que
nar essa consolidação e uma me-
estão sendo divulgados e “parti-
lhor exploração dessa que pode
cipar com mais clareza".
ser uma oportunidade de fomen-
Com relação à sua opinião
to para o turismo norte-rio-gran-
pessoal acerca do assunto, ela
denses.
acredita que ainda é necessá-
“Na minha opinião, esse atra-
rio aprofundar mais a questão.
tivo só vem para somar. O RN é
“É um assunto que precisamos
muito rico em atrativos turísticos,
nos aprofundar mais para termos
tanto no lazer, histórico, cultural,
uma credibilidade suave sem me-
ecoturismo, turismo religioso, en-
lindrar a Bahia que já está mar-
fim", diz, sobre a possibilidade
cada com esse descobrimento"
da possibilidade do turismo po-
afirma.
tiguar começar a usar essa evidência histórica. 61
MARKETING
"DESCOBRIMENTO" DO BRASIL PELO RN JÁ FOI TEMA DE CAMPANHA DA SECRETARIA DE TURISMO Em 2018, a Secretaria de Turismo lançou uma campanha que tinha entre seus objetivos lançar essa provocação histórica de colocar o RN como o ponto onde os portugueses desembarcaram quando chegaram ao Brasil
nardo Meister Gehrke sob orien-
tar em maior atração de turistas
tação da professora-doutora em
ao Rio Grande do Norte.
Turismo Rosana Mazaro.
“No debate, concluiu-se que até
O assunto foi tema de reporta-
a história começa errada no Bra-
gem no jornal O Globo em abril
sil. Queremos construir algo na
m 2017, o Governo do Estado
de 2017. Na época, a secretaria
Praia do Marco. O verdadeiro lo-
encampou a ideia de divulgar a
de Turismo era comandada pelo
cal do descobrimento é aqui", dis-
tese de que o Brasil havia sido
empresário Ruy Pereira Gaspar
se na época o então secretário.
descoberto no RN. A campanha
e tinha como adjunto o advoga-
A reportagem demonstrava que
chamou-se “Tudo começa aqui”
do Manuel Gaspar. A intenção da
a possibilidade desse reconhe-
e retomava a ideia do estudo “O
campanha não era brigar pela
cimento poderia gerar ganhos
Brasil começou aqui”, disserta-
versão, mas incutir a dúvida e ge-
reais para o turismo.
ção de mestrado feita por Ber-
rar o debate; o que poderia resul-
62
Em 2017, o Governo do Estado promoveu campanha para divulgar a ideia de o Brasil havia sido descoberto no RN
Em 2018, a Setur conseguiu
Na época do lançamento da
com a tese do descobrimento
colocar em marcha a campa-
campanha, o secretário de Turis-
pelo RN. Nesse evento no Centro
nha. E fez um lançamento oficial
mo explicou que a campanha era
de Convenções, um dos convida-
em março daquele ano. O inves-
“uma provocação histórica, teóri-
dos foi o engenheiro Manoel Ca-
timento anunciado foi de R$ 2,6
ca sobre o descobrimento do Bra-
valcanti Neto.
milhões, via programa Governo
sil começar aqui”, afirmou sobre a
Na época, ele tinha lançado
Cidadão, que vinham do Banco
inspiração temática da iniciativa.
apenas seu primeiro livro, “1500:
Mundial. Junto com a campanha,
Em maio de 2018, a Setur-RN
de Portugal ao saliente Potiguar”.
a Secretaria lançava seu Plano
promoveu um grande debate so-
Em sua participação, o engenhei-
Estratégico e de Marketing Turís-
bre o assunto no Centro de Con-
ro destacou o fato de que a histó-
tico do RN.
venções. Mais de 100 guias de
ria do Brasil foi escrita sem estu-
O objetivo era “a interioriza-
turismo participaram do evento.
dos hoje possíveis.
ção do turismo destacando as
A ideia é que fosse apenas o pri-
A fala de Manoel Cavalcanti
potencialidades dos cinco polos
meiro de uma série de encontros
Neto, em 2018, soa mais forte
turísticos do estado, seja por meio
para massificar a tese e os pró-
ainda atualmente, quando nova-
do turismo religioso, histórico, de
prios profissionais do turismo
mente a tese do descobrimento
aventura ou gastronômico, alian-
passassem a divulgar a possibi-
do Brasil no RN é alvo de um estu-
do recursos de infraestrutura e
lidade.
do físico que gera novas evidên-
planejamento promocional para o setor nos próximos 15 anos”.
Também estavam previstos
cias de que foi na costa potiguar
eventos em São Miguel do Gosto-
que os portugueses pisaram pela
so, Touros e Pedra Grande, os três
primeira vez em terras brasilei-
municípios que se relacionam
ras. 63
TURISMO
PARA SINDBUGGY-RN, “DESCOBRIMENTO” DEVERIA TER POLÍTICA DE DIVULGAÇÃO CONJUNTA DOS MUNICÍPIOS Presidente da entidade, Hertz Medeiros, defende que evidências deveriam ser exploradas para estabelecer um novo atrativo, o que iria ajudar a descentralizar o turismo e ampliar os ganhos para todos os que fazem o segmento
ros, que inclusive já explorou o
uma política de divulgação con-
assunto em uma pós-graduação.
junta dos municípios do litoral
“O buggy turismo está presen-
agreste".
Sindicato dos Bugueiros Profis-
te em toda costa do RN, e o tema
Na opinião do presidente do
sionais do RN (SindBuggy-RN)
do Marco de Touros, assim como a
SindBuggy-RN, o estado perde
avalia que o Rio Grande do Norte
questão do ponto geográfico do ex-
muito ao não explorar o tema.
— mais especificamente o lito-
tremo nordeste do Brasil, é funda-
“Perde competitividade, temos ro-
ral agreste do estado — poderia
mental para estruturar os roteiros
teiros consolidados para 5 dias.
ganhar muito caso começasse a
dos municípios do litoral agreste”,
Se queremos a interiorização ou
explorar esse atrativo de que o
explica.
mesmo a descentralização, é fun-
Brasil foi descoberto aqui. Quem
E complementa: “No turismo,
damental novos atrativos e, no
vê dessa forma é o presidente da
o tema do Descobrimento, aliado
caso, além da beleza, tem o aspecto
entidade, Hertz de Moura Medei-
à questão geográfica deveria ser
histórico e geográfico", afirma.
64
Hertz Medeiros, presidente do Sindibuggy - RN
“Turismo se faz de mãos dadas. Todo segmento ganha com a consolidação de mais um destino. Nesse caso, a participação dos receptivos é fundamental”
Ele argumenta que “hoje ainda
“Ela é que tem que incluir no seu
O presidente do sindicato tam-
temos a preferência de 60% dos
marketing, todo esforço de divul-
bém considera que a consolida-
turistas e temos muito a ganhar
gação", defende.
ção do atrativo requer apoio dos
com o incremento do Polo de Tou-
Hertz Medeiros faz uma ou-
políticos estaduais e federais,
ros e São Miguel do Gostoso, con-
tra observação quanto o traba-
mas que essa participação tem de
solidando o turismo regional". Mas
lho que deveria ser desenvolvido
ser feita sem segundos interesses
aponta que, para isso se tornar
para que o Rio Grande do Norte
ou visando uma exploração elei-
realidade, é necessário uma ação
passe a ganhar com a exploração
toral.
organizada e que precisa contar
da tese do descobrimento. “Turis-
Pessoalmente, Hertz Medeiros
com todos os que fazem o turis-
mo se faz de mãos dadas. Todo seg-
é um dos que acredita na tese que
mo e, principalmente, a Empresa
mento ganha com a consolidação
está sendo defendida pelos físicos
Potiguar de Promoção Turística
de mais um destino. Nesse caso, a
Carlos Chesman (UFRN) e Cláudio
(Emprotur-RN).
participação dos receptivos é fun-
Furtado (UFPB). “Sou defensor da
damental", enfatiza.
ideia, por razões lógicas de nave-
Na opinião dele, a consolidação da tese e sua devida exploração
gação", argumenta.
turística é papel da Emprotur-RN. 65
MUNICÍPIO
PREFEITO DE PEDRA GRANDE DEFENDE REATIVAÇÃO DE CONSÓRCIO E AÇÃO POLÍTICA EM TORNO DO TEMA Pedro Henrique argumenta que o município já trabalha o tema sempre que pode, mas que é necessário uma ação maior por parte do Governo do RN e de entidades ligadas ao turismo para fazer com que o estado continue tendo esse prejuízo “incalculável” por não abraçar essa tese.
fica a Praia do Marco, isso teria o
um fato novo que passaria a ser
potencial de mudar tudo e gerar
explorado por quem faz turismo.
benefícios reais para a região e
Agências de viagens, guias dentre
para o Rio Grande do Norte.
outros teria uma nova propos-
prefeito de Pedra Grande,
“Se a classe política abraçar essa
ta para oferecer aos seus clientes,
Pedro Henrique de Souza Silva,
história e levar pra o debate na-
conceber a história verdadeira do
defende que a classe política po-
cional isso traria uma visibilida-
descobrimento do Brasil", afirma.
tiguar deveria abraçar a ideia de
de enorme para os estados do RN,
Na visão dele, o primeiro pas-
que os portugueses chegaram
a curiosidade em conhecer de
so para isso seria a realização
primeiro ao RN. Na visão dele,
perto a história traria turista do
de uma audiência pública. “Com
que administra o município onde
Brasil e do mundo todo, pois seria
vários órgãos, como IPHAN, Em-
66
Pedro Henrique, prefeito de Pedra Grande, onde fica a Praia do Marco
“Fazer campanhas publicitárias, vender pacotes tendo a 'Terra do descobrimento' como destino, não é tão difícil, falta interesse”
protur, Ministério do Turismo,
do descobrimento' como destino,
Ministério da Cultura, Assembleia
não é tão difícil, falta interesse, pois
Legislativa, prefeituras próximas
estamos cercados de belas praias
à Praia do Marco, dentre outros
com hospedagem e restaurantes
órgãos e entidades que possam
nas praias de Touros, Maxaran-
fortalecer essa tese pelo Brasil",
guape, São Miguel do Gostoso, São
defende.
Bento do Norte", aponta.
O prefeito diz ainda que “o tra-
Pedro Henrique Silva afirma
de turístico do RN a ABAV, o Go-
que da parte do município tem
verno do estado entre outros deve-
dado atenção ao tema e traba-
riam levar esse tema mais a sério
lhado para garantir a infraestru-
e colocar como bandeira em defe-
tura necessária. Como exemplo,
sa do desenvolvimento turístico do
ele cita os investimentos para a
estado e do Brasil".
pavimentação de ruas na praia.
“Fazer campanhas publicitá-
“Temos também o recurso para
rias, vender pacotes tendo a 'Terra
construção do Memorial do Marco 67
MUNICÍPIO
Pedro Henrique avalia ainda que o Rio Grande do Norte perde muito por não abraçar como
“O prejuízo do nosso estado é incalculável em não ter essa opção, que na minha opinião deveria ser a principal atração turística do RN, devido à importância histórica”
deveria a tese de que o Brasil foi “descoberto” pelo RN. "O prejuízo do nosso estado é incalculável em não ter essa opção, que na minha opinião deveria ser a principal atração turística do RN, devido à importância histórica", diz. E critica: “Eu vejo que não dão a mínima importância para um assunto que tem consistência, força e peso histórico. É simplesmente a história do descobrimento do país, onde tudo começou, sem esse primeiro momento da chegada dos portugueses em terras potiguares não tinha dado início à história do nosso país".
do Descobrimento, que tem como
Pedro Henrique lembra que
principal objetivo após a conclu-
este ano a Prefeitura já usou o
Na opinião dele, a saída para
são trazer o Marco original de
tema do descobrimento para pro-
essa situação é simples: união.
volta a seu local de chamamento, e
mover a campanha que foi levada
Ele lembra que há alguns anos foi
eternizar a história com dados, in-
à Feira dos Municípios e Produ-
criado o Consórcio do Turismo do
formações e artigos que remetam
tos Turísticos do RN (Femptur).
Litoral Norte (Citunorte) e que os
aos tempos da chegada dos Portu-
O resultado: a Prefeitura de Pedra
prefeitos à época tentaram avan-
gueses em terras potiguares", in-
Grande levou o 1º lugar na disputa
çar, fizeram reuniões, levantaram
forma.
que é promovida dentro da feira.
pautas que foram levadas até o
Segundo o prefeito, para con-
“Nossa gestão utiliza a identi-
Ministério do Turismo, mas que
seguir isso, ele tem buscado
dade visual em todas as oportu-
tudo isso foi interrompido com o
apoio do Governo do RN e de ou-
nidades que a Prefeitura de Pedra
término dos mandatos.
tros Poderes, como a Assembleia
Grande está presente, no material
“Acredito que possamos reto-
Legislativa. O prefeito também
publicitário, em documentos ofi-
mar esse consórcio com um nú-
cita como ação desenvolvida lo-
ciais, nas redes sociais, além de
mero menor de municípios, os que
calmente o Festival de Verão da
tentar de todas as formas trazer o
realmente tenham relação com o
Gente, que é sempre promovido
olhar da imprensa e classe política
tema. E tentar viabilizar algo re-
em janeiro “e traz artistas nacio-
para essa história. Eu, como prefei-
lacionado a história do descobri-
nais para promover a praia e con-
to e cidadão, por onde passo faço
mento do Brasil como um espe-
sequentemente reforçar a história
questão de falar sobre essa tese de
táculo à beira mar contando essa
que o 'Brasil começou aqui’”.
que o Brasil começou aqui", afir-
história e outras ideias que forta-
ma Pedro Henrique.
lecem essa tese", diz.
68
OPORTUNIDADE
SINDICATO DOS GUIAS DE TURISMO DEFENDE MAIS DEBATE SOBRE O ASSUNTO E COBRA AÇÕES POLÍTICAS Pesquisador e guia de turismo Rostand Medeiros avalia que informações podem ser utilizadas para fomentar o turismo histórico, mas cobra mais ação política e atenção para o setor
Quem avalia assim é o escri-
do interpretações de homens que
tor, pesquisador e guia de turis-
viveram na passagem dos séculos
mo, Rostand Medeiros. Mas ele
XV para XVI e devem ser observa-
faz uma observação: as informa-
dos com ressalvas", defende.
a avaliação do Sindicato dos
ções precisam ser trabalhadas
Rostand Medeiros explica que
Guias de Turismo do RN (Sing-
com as devidas ressalvas. “Os
por parte do Singtur “existe a
tur), mesmo que não seja com-
dados atualmente apresentados
ideia de buscar apoios para desen-
provada totalmente a tese de que
são extremamente interessantes,
volver cursos sobre o tema para os
Pedro Álvares Cabral chegou pri-
merecem atenção e os estudos de-
Guias de Turismo, inclusive com
meiro à costa potiguar e não na
vem ser ampliados. Mas devemos
visitas aos locais". Ele avalia que
Bahia, “esse processo especulativo
lembrar que os relatos produzidos
com relação às demais entidades
tende a chamar bastante atenção
pelos navegadores da frota de Ca-
e empresas que compõem o trade
do público que visita o Rio Grande
bral são resultado daquilo que eles
turístico potiguar a situação exi-
do Norte e essas informações po-
viram, sem nenhum conhecimen-
ge muita atenção.
dem ser utilizadas”.
to prévio do que aqui existia, sen69
OPORTUNIDADE
Rostand Medeiros, historiador, pesquisador e escritor
“Os atrativos ligados ao turismo histórico e cultural no Rio Grande do Norte são limitados. E isso é um erro”
cidades turísticas tem dado muita atenção ao desenvolvimento do turismo histórico e cultural e com ótimos resultados", aponta. “Principalmente aquelas que
de turismo, ele relata que nos últi-
Para o pesquisador, no que
tenham atuação nas áreas onde
mos anos muitos dos turistas que
diz respeito ao que o Governo do
as pesquisas apontam a chegada
desembarcam no RN “são extre-
Estado poderia fazer, uma das
e o desembarque da frota. Deve-se
mamente bem informados, pos-
ações seria fomentar esse debate.
levar ao conhecimento das entida-
suem um bom nível de conheci-
“A Setur deve promover seminá-
des ligadas ao turismo potiguar
mento sobre Natal e região e aqui
rios, apoiar a vinda de palestran-
todas as informações relativas ao
chegam desejosos de conhecer algo
tes para transmitir conhecimentos
caso e acredito que ações concretas
mais sobre nossa terra".
e dar voz a pesquisadores potigua-
“Mas os atrativos ligados ao tu-
res que trabalham o tema, como
rismo histórico e cultural no Rio
Manoel Cavalcanti de Oliveira
Na opinião dele, o Rio Grande
Grande do Norte são limitados.
Neto, autor de um livro recente-
do Norte perde muito por não ex-
E isso é um erro. Não podemos es-
mente lançado sobre essa temáti-
plorar esta temática. Como guia
quecer que atualmente em outras
ca", sugere.
podem ocorrer conforme as pesquisas avancem", comenta.
70
“Imagine se o local de memória pensado para ser construído na praia do Marco tivesse sido desenvolvido lá pelo início dos anos 2000?”
Ele critica inclusive a falta de
Algo que poderia ter se transfor-
Ele explica que nada foi fei-
vontade política no sentido de
mado em uma interessante atra-
to sobre isso, mesmo com toda
promover o turismo histórico. Se-
ção turística, mas não foi!".
a importância que a história da
gundo Rostand Medeiros, entre os
Na avaliação dele, passados 24
aviação tem para o Rio Grande do
anos de 2000 e 2001 “houve uma
anos desse episódio, não houve
Norte. “Sabemos que Natal sediou
mobilização de empresários da re-
muita mudança com relação aos
uma das maiores bases da aviação
gião de Touros, São Miguel do Gos-
políticos potiguares. “A não ser
militar norte-americana durante
toso e Maracajaú para que fosse
que o tema ganhe bastante reper-
a Segunda Guerra Mundial, fato
devidamente comemorado os 500
cussão midiática e sirva como ‘ho-
esse comentado nas memórias de
anos da chegada da expedição que
lofote’ para atuação política", diz.
Winston Churchill e Franklin Roo-
trouxe o famoso Marco de Touros
“Imagine se o local de memó-
sevelt. É possível levar turistas a
para o Rio Grande do Norte".
ria pensado para ser construído
esse local? Não!", aponta.
Segundo ele, a ideia era criar
na praia do Marco tivesse sido de-
Rostand Medeiros lembra ain-
um espaço para que o Marco de
senvolvido lá pelo início dos anos
da que, em breve, grandes voos,
Touros ficasse em exposição de-
2000? Que interessante local de
realizados por aviadores pionei-
finitiva na Praia do Marco e até
destinação educacional e turística
ros — muitos deles sendo cultua-
chegou a ser feito um projeto ar-
ele poderia ter sido!", observa.
dos heróis em seus países de ori-
quitetônico visando isso. “Contu-
Rostand Medeiros cita ainda
do, como ocorre com muitas ações
outros acontecimentos históri-
ligadas ao turismo no Rio Grande
cos que o RN não explora turis-
“Esses pequenos exemplos mos-
do Norte, não houve apoio do Po-
ticamente e que, por isso, perde
tram um pouco de como vamos
der Público e nada aconteceu", cri-
oportunidades. Ele cita como
vivendo sem aproveitar turistica-
tica.
exemplo o centenário da primei-
mente a nossa História! Isso tudo
E acrescenta: “Os políticos do
ra aeronave nos céus potiguares,
significa perda de dinheiro e a
Rio Grande do Norte na época não
que ocorreu em dezembro de
possibilidade da criação de empre-
apoiaram uma ação de memória
2022. “Foi um hidroavião ameri-
gos. Além do que, tudo que fosse
ligada ao período do descobri-
cano pilotado por Walter Hilton e
desenvolvido para o turismo his-
mento do Brasil ocorrida em uma
tendo como copiloto Euclides Pinto
tórico e cultural se reverteria na
praia potiguar, com a presença do
Martins, que amerissou no calmo
ampliação do conhecimento do
homem que batizou o nosso conti-
Rio Potengi", conta.
povo potiguar sobre a História da
gem — vão completar 100 anos de suas passagens por Natal.
nente e que aqui deixou um marco
sua terra e na educação dos poti-
original de ocupação portuguesa.
guares, principalmente dos mais jovens", alerta. 71
HISTÓRIA
MARCO DE TOUROS ESTÁ EM EXPOSIÇÃO NO MUSEU CÂMARA CASCUDO Mais antigo marco de posse portuguesa no Brasil compõe a exposição “Navegar Impreciso". Monumento chegou ao museu em 2021
lagoa de Extremoz. Uma delas é
Forte dos Reis Magos, onde estava
o artefato náutico mais antigo já
desde 1976. O Marco Quinhentista
datado no Brasil (séc. XIV).
foi tombado pelo processo núme-
De acordo com o Museu, o ob-
ro 680 em 1962 com o objetivo de
jetivo da exposição “é apresentar
perpetuar a memória dos Brasi-
essas peças de enorme importân-
leiros sobre “o primeiro ponto da
cia arqueológica, histórica e cul-
costa brasileira delimitado pelos
tural, cujo valor como patrimônio
portugueses”.
Marco de Touros, considerado o
potiguar, brasileiro e humano é
Conforme descreveu Oswaldo
marco quinhentista mais antigo
incomensurável, conjugando suas
Câmara de Souza, em seu livro
do Brasil (segundo Câmara Cas-
potências e realçando seus sig-
“Acervo do Patrimônio Histórico e
cudo) e da América Latina (se-
nificados com duas intervenções
Artístico do Estado do Rio Grande
gundo Manoel Cavalcanti Neto),
contemporâneas – um vídeo e
do Norte”, o “Marco é uma colu-
está em exposição atualmente no
uma instalação artística – cria-
na quadrangular, em pedra lioz,
Museu Câmara Cascudo.
das especialmente para a ocasião".
o mármore de Lisboa, usado nos
A exposição foi prorrogada por
padrões de posse quinhentista que
tempo indeterminado.
ostenta, em relevo, em uma das
O monumento está inserido na exposição “Navegar Impreciso", que é composta ainda por outras
O Marco chegou ao Museu Câ-
duas peças: duas canoas indí-
mara Cascudo em 19 de janeiro de
genas encontradas no fundo da
2021, quando veio transferido do
72
faces, a Cruz de Cristo, encimando as armas do Rei de Portugal".
Marco de Touros, no Museu Câmara Cascudo desde 2021
O pesquisador Manoel Cavalcanti Neto defende que o Marco foi na verdade colocado na costa do Rio Grande do Norte já na chegada de Pedro Álvares Cabral e não em agosto de 1501 pela expedição de GasO bloco de mármore, em forma de coluna, possui
par de Lemos.
cerca de 1,20 m de altura, 30 cm de largura e 20 cm
Segundo ele, em seu livro Brasil 1500: a verdade do
de espessura. De acordo com a versão oficial, “em
descobrimento do Brasil no RN, “Pedro Álvares Cabral
1501, o Rei D. Manuel mandou uma expedição geo-
tomou posse da terra chantando um Padrão, como
gráfica, comandada por Gaspar de Lemos, com a fi-
cita Damião de Góis, em pedra Lioz, típica de Lisboa,
nalidade de observar as terras recém-descobertas”.
com a Cruz da Ordem de Cristo e as Armas Reais, gra-
“No primeiro ponto do território brasileiro, onde a
vados em uma das faces, conhecido como o Marco de
esquadra aportou, foi chantado o primeiro padrão de
Touros, embora hoje esteja na divisa entre S. Miguel
posse portuguesa, afirmando a soberania de Portugal,
do Gostoso e Pedra Grande, por desmembramento do
onde quer que fosse encontrado. O último Marco colo-
município".
cado pela expedição foi em Cananéia, em 1502. O pa-
“Esse costume de chantar um Padrão em Pedra, co-
drão de posse é idêntico ao nosso, e foi translado para
meçou com a chegada de Diogo Cão ao estuário do Rio
o Instituto Histórico Brasileiro, levado em 1866 para o
Congo em 1484 e era parte das expedições portugue-
Rio de Janeiro pelo barão de Capanema. Um dos 'te-
sas desde então. Fizeram a aguada, abastecendo-se de
nentes', guarda-se no Museu Paulista, registra mestre
água, lenha e refrescos (frutas, aves etc.)", acrescen-
Cascudo", descreveu Oswaldo de Souza.
tou. 73
PATRIMÔNIO
PODERES CURATIVOS E AMEAÇAS DE MORTE: A PELEJA DE 12 ANOS PARA TRAZER O MARCO DE TOUROS A NATAL Processo de retirada do Marco de Touros da praia do Marco foi demorado e incluiu ameaças de morte contra a equipe do Iphan. Monumento virou centro de culto que envolvia a colocação de ex-votos ao seu redor e moradores da região tiravam lascas da pedra para fazer chá curativo
Direito para se dedicar à músi-
viagem para inspecionar o monu-
ca, teve de enfrentar ameaças de
mento em janeiro de 1962. E que
morte e lidar com as crendices de
só chegou ao local graças a um
que o Marco tinha poderes cura-
guia que levou o grupo ao Santo
tivos.
Cruzeiro, como era chamado o
Toda essa verdadeira odisséia
marco.
foi contada por ele próprio em
“O forasteiro que passasse por
grande responsável pelo Mar-
capítulo do livro “Acervo do Pa-
aquelas praias, jamais poderia
co de Touros estar disponível
trimônio Histórico e Artístico do
supor que, no interior daquela
para visitação ainda hoje foi
Estado do Rio Grande do Norte”
rústica ermida, estava o padrão
Oswaldo Câmara de Souza (1904-
e também em reportagem publi-
de posse mais antigo de todo ter-
1995), nomeado em agosto de
cada em 15 de setembro de 1974
ritório brasileiro", escreveu. Ele
1961 como representante do Ins-
pelo jornal O Poti e que recebeu
explicou ainda que o local era
tituto do Patrimônio Histórico e
como título “Uma missão quase
chamado Praia dos Marcos, no
Artístico Nacional (Iphan) no Rio
impossível: trazer o Marco de Tou-
plural, porque junto com o monu-
Grande do Norte.
ros para Natal".
mento principal havia “tenentes",
Para conseguir isso, o nata-
Em seu relato, Oswaldo de
lense que largou a faculdade de
Souza contou que fez a primeira
74
“pedras alongadas como pilares, como outros tantos marcos”.
O Marco de Touros rodeado de ex-votos, envolvido por centenas de fitas votivas
“Os moradores supersticiosos do lugar, e também dos povoados vizinhos muitas milhas acima e abaixo daquele ponto da costa, acreditam que é uma pedra santa, com a cruz e as chagas de Jesus Cristo”
sileiro, em 10 de outubro de 1890, pelo conselheiro Alencar Araripe, que propunha a remoção da peça. Já nessa sessão, o conselheiro observava que “os moradores supersticiosos do lugar, e também dos povoados vizinhos muitas milhas acima e abaixo daquele ponto da costa, acreditam que é uma pedra santa, com a cruz e as chagas de Jesus Cristo, e lá vão em romaria passar em torno dela fitas para ficarem bentas, como é uso fazer-se nas igrejas com imagens, rezam o terço diante dela em dias determinados, fazem-lhe promessa e apegam-se com ela em suas aflições". “Na verdade, até hoje, os humildes devotos atribuem
Essas outras peças foram levadas, mas ninguém
poder milagroso ao Marco quinhentista. Com esmo-
sabia informar por quem nem para onde. A existên-
las dos romeiros e moradores dos povoados vizinhos,
cia do marco, segundo Câmara Cascudo, foi anun-
construíram para ele uma rústica capelinha em cujo
ciada em sessão ordinária do Instituto Histórico Bra-
interior estava, permanentemente, rodeado de ex-vo75
PATRIMÔNIO
Oswaldo de Souza e Câmara Cascudo
tos, envolvido por centenas de fitas votivas, ali dei-
que pretendíamos trazê-lo, à força, para Natal, numa
xadas pelos devotos, em suas romarias, atestando as
das nossas inspeções ao monumento. Em nossa ausên-
curas milagrosas obtidas por sua intercessão", relatou
cia, o povo confabulou e, de imprevisto, arrancou o
Oswaldo de Souza, descrevendo a forma como en-
Marco de sua tosca capelinha levando-o para Morros,
controu o Marco.
onde foi fincado no meio da única rua do arraial, ro-
A peleja para conseguir trazer Marco e colocá-lo em um local protegido durou 12 anos. E envolve re-
deado, por uma faxina de varas trançadas, em cujo reduto ficou vários meses”.
latos muito curiosos. Oswaldo de Souza conta que “o
Quando finalmente conseguiu trazer o Marco para
culto popular chegava às raias do fetichismo, haven-
Natal, a retirada foi garantida através de um acordo
do a crença absurda de que um chá, preparado com
com os moradores e envolveu a colocação de uma
fragmentos da pedra, tinha poderes milagrosos, tra-
imagem de Nossa Senhora dos Navegantes e uma ré-
zendo alívio e cura as mazelas do corpo e do espírito...
plica do Marco.
E o povo, no seu fanatismo, ia tirando lascas da pedra,
No dia da transferência, ele contou com o apoio
para tais tisanas. Lembramo-nos de um rude pesca-
de um sargento da Polícia Militar armado com me-
dor a nos afirmar: - 'que a mesinha curava qualquer
tralhadora e cinco soldados com fuzis, baionetas e
doença'".
revólveres para enfrentar uma possível revolta da
Câmara Cascudo, por sua vez, relata que "um mo-
população local.
rador sonhou que os holandeses haviam ocultado um
Ao finalizar a missão, Oswaldo de Souza desaba-
tesouro dentro do Santo Marco e para adquiri-lo fu-
fou: “Agora que o chamado Marco de Touros está em
rou a pedra, restando a cicatriz sacrílega que ostenta".
Natal, depois de tantas dificuldades, eu digo: nunca
O Marco possui até hoje a marca dessa agressão.
mais assumirei uma missão deste tipo. Foi essa a úl-
Oswaldo de Souza comentou ainda que “certa feita, houve um zunzum entre os moradores de Morros, e chegamos a ser ameaçados de morte, quando alguém, querendo nos indispor com o povo, fez constar 76
tima. Estou cansado de correr riscos de vida e sofrer chateações. Basta".
JORNALISMO
REPORTAGEM DA FOLHA DE SÃO PAULO PROJETOU TESE DENTRO E FORA DO BRASIL Após estudo ser noticiado por jornal de alcance nacional, tese defendida pelos físicos foi divulgada em todo o Brasil por grandes e pequenos jornais. E chegou inclusive à Europa
da Universidade Federal da Pa-
bro, o jornal Folha de São Paulo
raíba (UFPB), havia acabado de
publicou no seu site o texto “Físi-
ser publicado pela Universida-
cos defendem que Pedro Álvares
de de Cambridge. Era início de
Cabral aportou no Rio Grande do
setembro. A entrevista com Car-
Norte, não na Bahia". E no dia 24, a
los Chesman, inclusive, aconte-
reportagem foi publicada na ver-
ceu dias depois da publicação.
são impressa do jornal.
Na época, a notícia foi publicada
O texto, assinado pelo jornalis-
em diferentes jornais e sites, mas,
ta Luiz Henrique Gomes, contou
basicamente, ficou restrita à im-
toda a história do estudo. Coinci-
prensa local e regional.
dência: o jornalista — hoje atuan-
Quando esta edição especial
Mais de dois meses passaram.
do em São Paulo — é natalense,
o de Municípios em Foco come-
No final de novembro, uma repor-
formado na Universidade Federal
çou a ser feita, o artigo dos físi-
tagem sobre o assunto fez com
do Rio Grande do Norte. No texto,
cos Carlos Chesman, da Univer-
que uma verdadeira onda de di-
além de mostrar como os físicos
sidade Federal do Rio Grande do
vulgação espontânea surgisse em
chegaram à conclusão, ele acres-
Norte (UFRN), e Cláudio Furtado,
favor da tese. No dia 23 de novem-
centou opiniões de historiadoras. 77
JORNALISMO
“A carta de Caminha é importante para datar o momento histórico, mas a ocupação portuguesa no Brasil só começou de fato a partir da década de 1530”
Na avaliação da professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ana Hutz, é importante mencionar que o estudo dos físicos nordestinos baseia-se apenas na Carta de Caminha. Já a historiadora Juliana Gesueli, da PUC Campinas, defendeu que o debate precisa ser mais aprofundado. “A carta de Caminha é importante para datar o momento histórico, mas a ocupação portuguesa no Brasil só começou de fato a partir da década de 1530. Não acredito que possa causar uma grande mudança dos livros de história”, disse ela, à Folha. A partir da reportagem de Luiz Henrique Gomes para a Folha, a pesquisa de Carlos Chesman e Cláudio Furtado foi, dia a dia, sendo noticiada por outros grandes jornais e sites do Brasil. E não parou por aí. As informações foram divulgadas em vários estados. E inclusive na Bahia. No dia 30 de novembro, o jornal português O Público também publicou a reportagem de Luiz Henrique, ampliando ainda mais o alcance do assunto, fazendo o debate chegar à Europa. O texto feito pela Folha gerou uma vasta divulgação do assunto, inclusive por meio de vídeos nas redes sociais, o que vai ajudar muito nos debates que ainda serão realizados.
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