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Municipios em Foco Web - Especial 2025

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SUMÁRIO

p. 5 EDITORIAL O RN precisa se apropriar da sua história para construir seu futuro

p. 52 ALRN já aprovou projeto e promoveu audiência em Touros

p. 54 p. 6 Lenine Pinto começou a redescobrir o Brasil pelos EUA

A tese pode gerar valor turístico e simbólico, avalia o presidente da Fecomércio

p. 57 p. 11 ENTREVISTA | “No Rio Grande do Norte foi descoberto o Brasil!”

"Com uma narrativa forte, validada e bem trabalhada, o RN pode ganhar muito", avalia Emprotur

p. 19

p. 60

O RN E O “DESCOBRIMENTO” DO BRASIL, UMA QUESTÃO DE FÍSICA

Sindetur acredita que RN poderia ter vantagem com novo atrativo turístico

p. 33

p. 62

Brasil: Descobrimento em 1500 e Posse em 1501

"Descobrimento" do Brasil pelo RN já foi tema de campanha da Secretaria de Turismo

p. 36 Há 92 anos, Cascudo afirmou que, se dependesse das correntes, “Cabral avistaria terras do RN e não da Bahia”

p. 64 Para SindBuggy-RN, “descobrimento” deveria ter política de divulgação conjunta dos municípios

p. 38 ENTREVISTA | “A gente não se apropria dos próprios fatos”

p. 66 Prefeito de Pedra Grande defende reativação de Consórcio e ação política em torno do tema

p. 43 Tese poderia se tornar grande diferencial turístico e cultural para o RN, afirma secretária de Turismo do RN

p.69

p. 45

p. 72

Comprovação da tese do "descobrimento" no RN traria ganhos imensuráveis, afirma ABIH

Marco de Touros está em exposição no Museu Câmara Cascudo

p. 47

p. 75

Sob o ponto de vista do turismo, pesquisas são importantíssimas, aponta Kokinho

Poderes curativos e ameaças de morte: a peleja de 12 anos para trazer o Marco de Touros a Natal

p. 49

p. 77

Ação política é essencial para consolidar a tese, afirma presidente da Comissão de Turismo da ALRN

Reportagem da Folha de São Paulo projetou tese dentro e fora do Brasil

Sindicato dos Guias de Turismo defende mais debate sobre o assunto e cobra ações políticas

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EXPEDIENTE Municípios em Foco é uma publicação de JCGG Negócios, com circulação trimestral e distribuição gratuita para instituições públicas, empresas e a população em geral. Diretores FERNANDO DE ARAÚJO JALES COSTA MANUEL NETO GASPAR JÚNIOR MÁRIO GOMES TEIXEIRA Direção Executiva ROSE MONTENEGRO Edição e Textos EVERTON DANTAS Edição e Diagramação DANILO MEDEIROS Fotografia ARGEMIRO LIMA (ARQUIVO NOVO JORNAL) Este dossiê especial faz parte

EDUARDO MAIA - JOÃO GILBERTO (ALRN)

da edição que circula em

BRUNO DIAS | FECOMÉRCIO (ASCOM)

dezembro de 2025 e não pode ser

EDUARDO CARDOSO (HILLSMOV)

distribuído em separado.

GIOVANNI SÉRGIO | RENATO SILVA

Todos os direitos reservados

ROBERTO CASTRO | PICRYL.COM Redação: Rua Maria Auxiliadora, 776 – Tirol – Natal/RN, (84) 99951.0220 Tiragem: 3 mil exemplares Contato: revista@jcgg.com.br • revmunicipiosemfoco.com.br Acesse e siga a revista Municípios em Foco nas redes sociais

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2020.6848 revista@jcgg.com.br *Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião da revista. Sua publicação tem o objetivo de estimular o debate em torno dos desafios e problemas vividos pelos municípios potiguares e de refletir sobre ideias que a sociedade discute na sua rotina.


EDITORIAL

O RN PRECISA SE APROPRIAR DA SUA HISTÓRIA PARA CONSTRUIR SEU FUTURO QUANDO A TRAVESSIA para produzir esta edição especial da revista Municípios em Foco começou, o artigo “Scientific data in Pero Vaz de Caminha's letter” ainda nem havia sido publicado pela Universidade de Cambridge. O ponto de partida para a publicação era o texto que saiu pela revista Brazilian Journal of Science, publicado no final de 2024; e que reacendeu a tese de que foi na costa do Rio Grande do Norte que a esquadra de Pedro Álvares Cabral acabou desembarcando, há 525 anos, no acontecimento histórico chamado de "descobrimento do Brasil". A nova abordagem analisou a Carta de Caminha sob o ponto de vista da física, usando tecnologias hoje disponíveis. Em setembro, os físicos Carlos Chesman, da UFRN, e Cláudio Furtado, da UFPB (autores do estudo), conseguiram um feito inédito: publicar o artigo internacional defendendo a tese. Em novembro deste ano, após uma reportagem da Folha de São Paulo, a tese dos físicos ganhou o país e foi bater na Europa. Em tempo: o termo “descobrimento do Brasil” é usado para se referir ao fato, mas sempre entre aspas devido à discussão dos últimos anos que contesta a expressão. Esta edição conta toda essa história; recupera e documenta os que iniciaram esse debate; e expõe como o RN perde ao não se apropriar dessa narrativa em seu favor. Este dossiê ouviu as pessoas que podem promover essa mudança e gerar benefícios para os potiguares. E questionamos o que cada um pode fazer para ajudar. As respostas estão nas páginas a seguir. Este dossiê é também um mapa com as coordenadas para que o Rio Grande do Norte saia da inércia atual. Não há como se enganar: está aberta uma porta que tem o poder de gerar emprego, renda e desenvolvimento para o RN e para os municípios, por meio do turismo. Sob essa ótica, a edição especial que sai agora expõe uma situação crítica para o estado: todos sabem que é possível fazer algo; muitos sabem inclusive o que é preciso fazer; mas, aparentemente, poucos estão preocupados em agir. Ou seja: faltam vontade e ação políticas. Quem ler esta revista rapidamente vai chegar a uma outra conclusão óbvia: de que por meio da união das entidades, instituições e governos, o Rio Grande do Norte pode alcançar em pouco tempo outro patamar no que diz respeito ao turismo, a chamada “indústria” que irriga a economia potiguar em todos os seus poros. É necessário agir. Ainda mais diante da divulgação gratuita e favorável que o assunto teve recentemente. A contribuição de Municípios em Foco está posta: é esta revista, seu conteúdo; e também esse alerta de que algo precisa ser feito. O RN precisa se unir e abraçar essa tese, sua história, e usá-la como trampolim para seu futuro, um novo período no qual o estado deixa de ser uma promessa que jamais se realiza para passar a ser um exemplo de como se deve agir. Navegar é preciso. 5


PIONEIRISMO

LENINE PINTO COMEÇOU A REDESCOBRIR O BRASIL PELOS EUA Em entrevista concedida há mais de 20 anos, recuperada pela Municípios em Foco, o pesquisador conta como se interessou pela questão do "descobrimento" do Brasil e qual a indicação de que esse fato histórico ocorreu no RN e não na Bahia

tese do chamado “descobrimen-

ter começado a pesquisar o tema.

to do Brasil”. Antes, ele escreveu

Antes de se voltar para a questão

“A Reinvenção do Descobrimen-

do descobrimento, ele investigava

to” (1998) e “Ainda a questão do

a presença dos norte-americanos

descobrimento” (2000).

em Natal. E foi em uma biblioteca

Quando lançou os primeiros li-

dos EUA que encontrou as pri-

vros, sua tese não foi tratada com

meiras pistas de que o RN seria

muita seriedade. Com o passar

na verdade o local por onde os

m dos primeiros e maiores res-

dos anos e o aprofundamento da

portugueses desembarcaram no

ponsáveis pela divulgação da

pesquisa, que envolveram a reu-

Brasil.

tese de que os portugueses avis-

nião de mapas e mais argumen-

A revista Municípios em Foco

taram e atracaram primeiro no

tos, a tese foi ganhando adeptos.

recupera a entrevista na qual, pe-

Rio Grande do Norte foi o pesqui-

Atualmente, alguns pontos es-

las próprias palavras de Lenine, o

sador Lenine Barros Pinto, que

tão sendo revistos, como a ques-

leitor pode entender como toda

morreu em junho de 2019, aos 89

tão do Pico do Cabugi, mas mui-

a pesquisa começou e o que fez

anos.

tos outros têm ganhado força.

acender nele a centelha de ir em

O último lançamento dele so-

Em 2004, Lenine Pinto conce-

busca desse “redescobrimento”

bre o tema foi em 2015, com o

deu uma entrevista ao programa

do Brasil. Confira os principais

livro “O mando do mar", que fe-

Memória Viva, da TV Universitá-

trechos...

chava a trilogia escrita sobre essa

ria, na qual explicou o porquê de

6


Lenine Pinto, pesquisador

VIAGENS AOS EUA O meu primeiro livro sobre os americanos, que foi

quero ver o que se relaciona com o grande órgão ame-

‘Os Americanos’, era uma evocação sentimental da-

ricano aqui em Natal, que era o ATC, Air Transport

quele período. E eu resolvi, então, fazer um livro real-

Company. Era o Comando de Transportes Aéreos, que

mente sério, uma pesquisa profunda sobre a matéria

era quem fazia o transporte das mercadorias, das coi-

e, por conta disso, eu viajei uma meia dúzia de vezes

sas, das munições que iam para as frentes de batalha.

aos Estados Unidos.

Aí teve lá um bibliotecário daqueles que me levou

Teve ano de ir três vezes aos Estados Unidos, porque

num corredor e disse: "Olha, aqui para lá, o senhor

é muito difícil de você conseguir os livros antigos e,

pode cascavilhar tudo aí que vai encontrar muita

às vezes, coleções grandes, como essa coleção que eu

coisa". Uma das primeiras coleções que encontrei, cer-

encontrei, que foi o ponto de partida. Eu chegava na

ca de 20 livros, chama-se História das Operações Na-

biblioteca, a pessoa dizia: “Mas qual é o livro que você

vais Norte-Americanas na Segunda Guerra Mundial,

quer?". Eu quero toda a Segunda Guerra Mundial, eu

do Almirante (Samuel Eliot) Morrison. 7


PIONEIRISMO

“Os primeiros historiadores brasileiros eram portugueses radicados no Brasil e, particularmente, na Bahia. Então, esse povo escreveu o que quis. Mas não se pode levar isso muito a sério”

CABO DE SÃO ROQUE Primeiro volume, o Atlântico Sul. Eu tirei o livro da estante. Primeiro capítulo desse livro, escrito em português — Deus é Brasileiro. Aí eu me empolguei com aquilo, digo, aqui está toda a história como realmente estava toda a história. Então, ali no livro do Morrison, tem duas citações importantíssimas de documentos do Almirante, que foi a figura que comandou aqui as forças armadas americanas durante a Segunda Guerra, até o fim da guerra, almirante (Jonas Howard) Ingram. Dois memorandos dele. Ele trouxe uma força-tarefa em junho de 1941, ou abril de 1941, bem antes de chegarem os aviões. Então, ele diz: “Eu me estabeleci no Recife pela proximidade do Cabo de São Roque”. Muito bem. Quer dizer, então, o foco mesmo de interesse deles era o Cabo de São Roque. Por quê? Por causa da distância com a África, porque o interesse dos americanos era bloquear, dos americanos e dos Ilustração de um dos navios da esquadra de Pedro Álvares Cabral

ingleses, bloquear. Não deixar passar navio do eixo nessa área. E no segundo memorando do Almirante Ingram, aí foi mais grave ainda. Ele diz o seguinte: “De Salvador,

destroyers e os cruzadores que entravam aí na barra

como base naval, é muito mais conveniente do que

do rio. E para ele era longe. E para Cabral, que tinha

o Recife. Mas, infelizmente, tem o problema da dis-

com as caravelazinhas movidas a vento? Por quê?

tância. A distância não me permite ir para lá”. Aí eu,

E Cabral não foi bater nem em Salvador, viu? Cabral

nessa hora, eu digo, meu Deus do céu, esse homem só

foi bater quase oitocentos quilômetros de dentro de

tinha destroyers e cruzadores movidos a óleo diesel,

Salvador, que teria sido em Porto Seguro, lá no sul da

rapidíssimos. E a gente viu quantas vezes aqui aqueles

Bahia, certo?

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de São Jorge? Porque eles eram obrigados a dar ao lu-

O QUE CASCUDO DISSE

gar que eles descobrissem o nome do santo do dia.

Aí eu comecei a me interessar pelo assunto e a ler

São Jorge é dia 23 de abril. Aí, como disse o escritor

mais coisas. Aí eu começo a ver muitas opiniões. Por

português, né? Por causa de um dia São Jorge deixou

exemplo, tem um oficial da Marinha Brasileira que,

de ser o padroeiro do Brasil. Não. Era dia 23. Porque,

quando se reformou, foi ser comandante de navios.

como não tinham relógios, sem ampulhetas, eles ti-

E esse oficial de Marinha, o comandante Oliveira Belo, ele diz o seguinte: “Todas as vezes que eu venho

nham que corrigir as ampulhetas no sol, no sol a pino de meio dia.

do norte para o sul, eu procuro aquelas correntes que

Corrigiam as ampulhetas e passavam a contar o

teriam levado Cabral para o sul, que não existe isso”.

dia, para efeitos náuticos, com a data do dia que esta-

Entendeu? Como que ele chegou a isso? Não existe

va por vir. Então, na tarde do dia 22 de abril, para eles,

corrente nenhuma que possa ter levado ele para lá.

era dia 23 e era dia de São Jorge.

Mestre Cascudo, que nunca dormiu no ponto, diz num livro dele, que se a corrente foi levar Cabral a 17 graus

O PICO DO CABUGI

de latitude, por que não a 5 no Rio Grande do Norte?

Eu consegui, inclusive, texto de Cabral. Carta de

Cascudo diz isso. Agora, ficam aí botando uma

Cabral para Dom Manuel, escritinha. Agora, aconte-

porção de bobagem na boca de Cascudo, sabe? Por

ce o seguinte: me mandaram isso da Torre do Tombo,

exemplo: "Cascudo disse que quem chantou o marco

que eu fui lá e deixei tudo apalavrado. Me mandaram.

foi Américo Vespúcio". Cascudo nunca disse isso. Não

Eu recebi pela internet e ocupou todo o disquete. O dis-

está em livro nenhum dele. Que eu cascavilhei de cabo

quete ficou ruim, inclusive, de abrir, compreendeu?

a rabo, que essa é a função do pesquisador. Não disse.

Mas aí você quer ver o negócio do Pico? O Pico é

Por exemplo, no mapa de Cantino, que é o primei-

o seguinte: quando eles descobriram o Brasil, existia

ro mapa do Brasil, de 1502, a curvatura aqui do Rio

o que eles chamavam de Morro de São Vicente. Muito

Grande do Norte aparece com a bandeirinha portu-

alto, no fundo, uma cadeia de montanhazinhas e tal, e

guesa e é assinalado Cabo de São Jorge. Por que Cabo

lá o Morro de São Vicente. 9


PIONEIRISMO

Tanto que eu disse a (Vicente) Serejo, teu nome é

O MARCO DE TOUROS

em homenagem ao morro lá de Macau, Morro de São

Agora, tem o problema do Marco de Touros. Inven-

Vicente. Que se avista, se avistava na época, desde Ma-

tam que não foi posto por Cabral. Mas se não foi Ca-

cau até Touros, até a Praia de Touros, até a Ponta do

bral, foi outro português que teve antes. Quem foram

Calcanhar.

os portugueses que tiveram antes? Duarte Pacheco Pe-

Isso está em documentos, compreendeu? Cartográ-

reira, em 1498. Bartolomeu Dias, que teve também em

ficos portugueses. Agora, eu sou culpado de ninguém

1498. Um ano após deixar Vasco da Gama. Isso aqui já

ler isso? Não é? Aí ficam levando na brincadeira. Aí o

era muito conhecido. Tem uma carta do rei Afonso V

Oswaldo Lamartine me disse: "Por que você não vai

proibindo que se arrancasse madeira de pau Brasil em

lá para consultar os pescadores?" Eu fui. Tive a sor-

1470. Trinta anos antes de Cabral. Compreendeu? Por

te de, na hora que eu cheguei, estavam chegando dois

que ele escreveu essa carta? Por ter essa ordem régia

ou três barcos de pesca. Eu estou lá. Se vê o Cabugi

proibindo. Lá na África não tinha pau Brasil, só podia

do mar? "Vê sim, senhor". Só teve um que me disse:

ser daqui. Não é verdade?

"Mas vê melhor de tal lugar. Um lugar mais ao norte". Ou para ser mais preciso, mais a oeste.

Não foi oficializado nada na Bahia. Essa coisa de Bahia veio muito tempo depois. Muito tempo depois.

Para depois o Olavo de Medeiros Filho não dizer que

Vem da época já da colônia. Ou quase. Os primeiros

eu confundo norte com oeste. Mas tudo que está para

historiadores brasileiros eram portugueses radicados

cima, a gente chama de norte, não é? Isso. Bom, você

no Brasil e, particularmente, na Bahia. Então, esse

tem que vir para a Carta de Caminha. Quem desco-

povo escreveu o que quis. Mas não se pode levar isso

briu isso foi um almirante francês.

muito a sério.

Ele disse que a paisagem lá da Bahia não se conforma com o testemunho visual de quem viu. Porque, por exemplo, era um morro muito alto e redondo. Não, aqui existe um morro cortado. E ele é baixo, ele tem 400 metros. O nosso tem 800, compreendeu? Agora, existem outras medições. Mas a medição que eu respeito, que eu acho que é a válida dos 800 metros, porque está no livro do desembargador Antônio Soares, uma grande figura de pesquisador. E ele chegou a escrever um dicionário histórico do Rio Grande do Norte. Então, esse morro era alto e redondo, é o Cabugi. Não tenho dúvida disso. E vê de longe. E quem duvidar que veja, que leia, o almirante Graco Coutinho, que ele diz, no mar você enxerga a 200 milhas. Ele diz: “Eu mesmo já vi pico a 300 quilômetros, 200 ou 300 quilômetros de distância”. Eu já botei isso em livro. Entendeu? Foi aquilo que Cabral viu. Ou Pero Vaz de Caminha.

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Marco de Touros


ENTREVISTA

MANOEL CAVALCANTI NETO Engenheiro, escritor e pesquisador

“NO RIO GRANDE DO NORTE FOI DESCOBERTO O BRASIL!” O engenheiro, escritor e pesquisador Manoel Oliveira de Cavalcanti Neto leu todos os livros de Lenine Pinto. E, após isso, achou que havia fundamento na tese dele de que o “descobrimento” do Brasil foi no Rio Grande do Norte e não na Bahia. Sua pesquisa resultou em livro no qual ele atualiza a tese

“achamento” do Brasil teria ocor-

ria o Pico do Cabugi, mas o Serra

rido pelo Rio Grande do Norte.

Verde, no município de João Câ-

Manoel Cavalcanti Neto co-

mara.

meçou suas navegações sobre

Na entrevista abaixo, o escritor

o tema em 2016 e até hoje se

explica como construiu a pesqui-

ntes dos artigos científicos

debruça sobre os documentos

sa que resultou no livro “Brasil

do professor Carlos Chesman e

que contam a história do Brasil.

1500, a verdade: descobrimento

Cláudio Furtado e depois dos li-

Nos seus estudos, ele conseguiu

do Brasil no Rio Grande do Norte”,

vros de Lenine Pinto, um enge-

reforçar a tese levantada por

lançado em 2024. E fala também

nheiro começou, por conta pró-

Lenine, e apontou que, na reali-

sobre a Era dos Descobrimentos e

pria, a investigar a tese de que o

dade, o “monte Pascoal”, não se-

Grandes navegações. 11


ENTREVISTA

Manoel Cavalcanti Neto

Como o senhor começou sua pesquisa?

E por que resolveu fazer pesquisa? Se sentiu

Logo após o lançamento do livro “O Mando do Mar”,

desafiado?

em novembro de 2015, eu comecei a pesquisar e co-

Não. Porque eu achei fundamento na história. Achei

mecei a ter o contato com Lenine Pinto. Não tinha

esses fundamentos e, com todo o respeito a Lenine,

pesquisado ainda. Só tinha ouvido falar e lido os dois

verifiquei algumas lacunas na tese dele. Fiquei insti-

primeiros livros dele. Mas o “O mando do mar” é mui-

gado. Lenine defendia que o Monte Pascoal era o Pico

to mais completo que os dois primeiros. Logicamente

do Cabugi. Achei estranho e comecei a me debruçar

os dois primeiros têm um impacto no lançamento da

sobre a Carta de Caminha. E me debruço até hoje.

tese que foi muito badalada em torno de 1998, 2000

De 2016 a 2025, nove anos depois, vou descobrin-

aproximadamente, e em 2016 fui a Lisboa. Não fui a

do novos elementos que reforçam a tese de Lenine.

Lisboa propriamente pesquisar. Eu fui ver e orientar,

A Carta de Caminha é uma obra fenomenal. Antes de

me situar como iria conduzir a pesquisa. E nada me-

ir a Portugal tive contato com Lenine e ele me ofe-

lhor do que ir à Torre do Tombo, o Arquivo Nacional

receu um exemplar de “O Mando do mar”. Eu tinha

de Portugal.

comprado o livro no seu lançamento. Novinho, novi-

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nho. E o levei e quando cheguei lá, na Torre do Tom-

que tem 300 ou mais metros de altitude. Altitude é a

bo, fiz a doação do livro para o Arquivo Nacional de

altura em relação ao nível do mar. Por exemplo: o Ca-

Portugal. Por uma questão de praxe, o doador tem de

bugi tem 580 metros, aproximadamente, de altitude

fazer uma dedicatória. Quando voltei, ele me pergun-

e o pico dele em relação ao mar tem apenas 360 me-

tou como tinha sido a viagem. E eu disse: "Foi muito

tros de proeminência. A proeminência é essa. Você só

boa e 'O mando do mar' está arquivado na Torre do

vê apenas esses 360 metros. Mas com relação ao mar

Tombo". Isso o emocionou.

em 580 metros. E isso me chamou a atenção. O que seria um monte muito alto e redondo para o escrivão

Como foi o início da pesquisa?

da armada? Fui estudar o relevo da Cidade do Porto.

Desde o princípio, eu parti de uma premissa. A his-

No Porto tem duas elevações principais: o Monte dos

tória é feita pelos vencedores. Pela classe dominan-

Congregados, que tem uma altitude de 133 metros

te. É lógico. E decidi ter uma fonte primária: a carta

e uma proeminência de 33 metros. 33 metros é um

de Pero Vaz de Caminha. A carta é linda. Entrei com

edifício de alguns andares. E na margem direita do

um olhar despretensioso. E comecei a perceber que a

Rio Douro, já em Vila Nova de Gaia, tem Serra do Pi-

carta tinha muitos elementos, muitos dados que não

lar com altitude de 92 metros igual à proeminência,

eram considerados normalmente, como profundida-

porque ambas se confundem por estar à margem do

des, distâncias, ventos, correntes. E comecei a sentir

rio. Então, o Cabugi, com toda razão, seria um monte

isso. E comecei a notar certa nuance. Uma das coisas

muito alto e redondo para aquele português, da ci-

que eu notei, depois confirmei, é que as traduções do

dade do Porto, do século XV. Na carta ele diz que che-

português arcaico para o português moderno tem

garam em um determinado ponto, fundeiam a seis

muita coisa errada.

léguas da praia, pernoitam e, na manhã seguinte, navegam em direção à terra. A terra, logicamente,

Como o quê? Exemplifique por favor?

orientados pela elevação. E fundeiam a meia légua

Em primeiro lugar, as traduções estão cheias de pon-

com 19 metros, aproximadamente, de profundidade.

tos, vírgulas, parágrafos que não existem no original.

Eu começo a fazer as batimetrias na área.

A carta é o único documento realmente comprovado e reconhecido por todos. Não questionado e que foi fei-

Usando que ferramenta?

to no palco dos acontecimentos. Bom, comecei a pes-

Pelo Google Earth. Encontrei as duas primeiras. Tra-

quisar e tal, e pesquisando isso cheguei a resultados.

cei uma linha, vamos dizer, com as profundidades de

E achei estranho alguns trechos da Carta de Caminha.

42 metros e 55 metros. E tracei as linhas com essas

Um deles que diz o seguinte. Eles chegaram em um de-

profundidades. E nada de encontrar a de nove bra-

terminado ponto. Fundearam a seis léguas da costa e

ças. Antes disso, Caminha afirma que eles navega-

ali fizeram a primeira batimetria. Deu 25 braças. Se-

ram obra de dez léguas contra o norte, chegaram em

gunda batimetria, 19. Fundearam. E nesse lugar, não

determinado ponto e ali fundearam. O que é contra

está precisamente dito, mas são muito próximos, avis-

o norte? Obra contra o norte é em direção ao norte.

taram um monte muito alto e redondo. Meu primei-

E eu creio que Lenine considerou que contra o norte

ro questionamento: o que era um monte muito alto e

era em direção ao Sul. Quando cheguei na praia do

redondo para aquele cidadão letrado, português, com

Marco que “desci” as dez léguas em direção ao Sul eu

50 anos de idade, em 1500? Aí fui procurar saber o

chego na altura de Rio do Fogo... Zumbi. A minha dife-

que era um monte. A única elevação que tem defini-

rença com Chesman não chega três quilômetros.

ção de altura é montanha. Montanha é toda elevação 13


ENTREVISTA

O senhor foi o primeiro que chegou a esses

E o Cabugi, como fica?

pontos?

Quando eu traço a linha para o Cabugi, o Serra Ver-

Foi. Aí eu faço a visada. Estudei topografia. Tudo com

de obstrui a vista do Cabugi. Porque ele tem 340,

base em dados matemáticos. Fiz os cálculos e as visa-

está a uns 80 quilômetros e o Cabugi está a 120, 130.

das. Então encontro uma elevação com 330 metros de

Para ser visto ele precisava ter mil metros de altura.

altitude. Serra Verde. Traço o perfil do fundo do mar.

O que acontece é o seguinte: aqui está a Serra Ver-

Porque eu não estava encon-

de, que sai de João Câmara e

trando as nove braças.

vai até mais ou menos os limites de São Miguel do Gostoso.

Isso foi em que ano?

O Cabugi só é avistado do mar

Isso foi 2020, mais ou menos.

depois de Tourinhos. Mesmo de

Então eu traço o perfil do fun-

Touros a Serra Verde obstrui.

do do mar. Quando eu traço o

Da praia do Marco é avistado

perfil, a meia légua da costa

por pescadores, também em

encontro o canal que chega a

Galinhos, Macau, em direção

vinte e três metros de profun-

ao norte ele é avistado do mar

didade. Então, se ele fundiou

e para os pescadores e serve de

a 19 metros está comprova-

orientação. Caminha diz que

do. Eu faço a visada. Encon-

eles navegaram em direção ao

trei um monte. Liguei os dois

norte. Então eles partiram do

pontos. Mas Caminha diz que

município de Rio do Fogo, de

era um monte muito alto e

Zumbi. Fui por aí, com cálcu-

redondo. Tracei o perfil da

los matemáticos, cálculo geo-

beira-mar até a Serra Verde.

désico, calculando distância,

É sempre ascendente. Não tem

calculando tudo. Em 2019, eu

obstáculo nenhum com uma

fui a Portugal. Na época eu

declividade muito pequena, aí

não tinha nada disso ainda.

aparece um monte muito alto e redondo, então traço uma

E o que foi procurar lá?

perpendicular àquela visa-

Foi uma viagem muito pro-

da, determinado seu perfil.

veitosa porque eu mantive

Caminha completa dizendo

contato com museus, com

que é um monte muito alto e

historiadores,

redondo com serras mais bai-

res. Visitei Lisboa, mas fui a

xas ao Sul. Quando eu traço o perfil, ele é arredondado e

Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu Dias e a esquadra que veio ao Brasil

tem o Amarelão e outras ser-

com

escrito-

Belmonte, terra de Cabral. Tem lá o Museu do Descobrimento. E fui a Vila do Conde.

ras mais baixas ao Sul, o que não existe lá na Bahia.

É uma cidade a 40 minutos do Porto. É o único lo-

Eu faço essas considerações depois do lançamento do

cal em Portugal que ainda tem os portos medievais,

primeiro livro, que foi em 2018.

que ainda são preservados. E lá também tem a réplica de uma nau em escala um pouquinho menor,

14


é justamente a grande volta ao mar se aproximando do Brasil. Dois dias depois voltei para conversar com o diretor-geral do museu. Ele esteve três vezes no Brasil, na carreira dele, em veleiros. E o que acontece? Aqui

“A tese é muito difícil de ser oficialmente reconhecida porque — como eu chamo — os portosegurenses são verdadeiros devotos. A resistência às mudanças é muito grande”

está a África, Cabo verde, aqui está o Brasil e o Equador. Você tem que ir em direção tal e começar a fazer a volta. Mas você tem de cruzar o Equador em uma determinada longitude, senão as correntes e os ventos o levam ao Maranhão. E como é que Porto Seguro entrou nessa história? Porto Seguro é aproximadamente metade do caminho entre os Marcos de Touros e o de Cananéia, únicos padrões de posse existentes no Brasil. Eles estão distantes aproximadamente 2.000 milhas, o que é comprovado pelos Planisfério de Cantino de 1502. Autores quinhentistas afirmam que Cabral fez uma longa na-

mas perfeita. Lá tem o Museu da Construção Naval.

vegação na Terra da Santa Cruz, uma navegação de

E trouxe muito mais elementos. Um amigo meu,

cabotagem, ou seja, sempre com a terra à vista.

Edgar Ramalho, descobriu uma coisa no livro de Damião de Góes, "Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel".

Qual é o futuro dessa tese que o senhor defen-

Quem foi Damião de Góes? Um famoso escritor e his-

de?

toriador quinhentista que foi morar na corte com

A tese é muito difícil de ser oficialmente reconheci-

nove anos de idade. Cresceu junto com o infante Dom

da porque — como eu chamo — os portosegurenses

João, que sucedeu a Dom Manuel e tornou-se o rei

são verdadeiros devotos. A resistência às mudanças é

Dom João III e teve um reinado muito longo. Damião

muito grande.

foi escritor e por mais de 20 anos foi guarda-mor da Torre do Tombo. Ou seja, tinha acesso a todos os do-

Você tem conhecimento de algum processo no

cumentos. E ele diz em determinado trecho que Ca-

mundo que ocorreu uma revisão histórica tão

bral tomou posse da terra com um padrão de pedra,

profunda quanto essa?

o marco. Só existem dois marcos de posse do Brasil.

Até hoje não se sabe exatamente onde Colombo che-

O Marco de Touros e o Marco de Cananéia (SP). O de

gou. Até hoje. Se foi nas Bahamas, se foi Santo Domin-

Porto Seguro é um marco comemorativo e a história

gos. Até hoje o americano também não sabe quando

não nega isso não. Foi chantado em 1534, por Pero do

aportaram os primeiros colonizadores, exatamente.

Campo Tourinho, donatário da capitania.

Nós temos a sorte que nós temos evidências, nós temos registros. A ciência hoje nos auxilia por isso. Nós te-

Onde mais o senhor procurou evidências?

mos a sorte de uma descrição de autores como Cami-

Eu fui ao Museu de Marinha. E vejo lá o vídeo “prová-

nha que detalhou certas coisas, como Damião de Góes,

vel rota de Vasco da Gama pelo Almirante Gago Couti-

como João de Barros, como Fernão Lopes Castanheda,

nho". Eu olho aquilo, filmei, achei impressionante que

como Duarte Pacheco Pereira, que registraram isso. 15


ENTREVISTA

O que é que o Rio Grande do Norte ganharia se

“O turismo bombaria. Porto Seguro hoje explora o turismo histórico e o que chamam de Costa do Descobrimento movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano”

essa tese se estabelecesse na sua avaliação? O turismo bombaria. Porto Seguro hoje explora o turismo histórico e o que chamam de Costa do Descobrimento dispõe de 70.000 leitos para turistas e movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano. Estão programando para os próximos anos um aeroporto com capacidade de 4 milhões de passageiros por ano. O atual, no Nordeste, só perde para os de Salvador, Recife e Fortaleza. Então, por exemplo, nós temos aqui o monumento mais antigo das Américas, pós-Colombo, que é o Marco de Touros. Não é do Brasil, não, é das

isso não se perdeu. Isso nos dá elementos para chegar-

Américas. Não tem nenhum mais antigo. Mesmo se

mos a conclusões concretas. Para fechar: a Declara-

chegarmos ao absurdo de que foi chantado pelo falas-

ção de João Lúcio, capitão da caravela Boa Esperança,

trão Américo Vespúcio, ainda é o mais antigo. Quem

com dois mastros construída para as comemorações

o chama de falastrão, não sou eu, é Câmara Cascudo.

do 5º centenário da ultrapassagem do Cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias, afirma que fez oito

Quem foi a primeira pessoa realmente que le-

travessias no Atlântico e três vezes a rota de Cabral.

vantou essa hipótese de ser aqui no Rio Grande

E diz que é impossível ter chegado tão rápido naquela

do Norte o local onde os portugueses chega-

época do ano à Bahia. “Contudo, para mim, São Ro-

ram?

que continua a ser um dos pontos mais prováveis.

Cascudo não fala textualmente, mas mostra suspei-

Lamento que minha viagem tão programada tenha

tas. Levantou a hipótese. E Lenine, ele consolida essa

sido forçada contra a minha vontade a utilizar motor

hipótese. Lenine formata a tese, digamos.

para atender às datas e eventos”. Ele, quando chegou, viu que não ia chegar, aí ligou o motor para chegar

E como você entrou em contato com o profes-

a Porto Seguro. Até hoje, se você estiver em Zumbi,

sor Carlos Chesman?

você vê os navios vindo do Leste. Por quê? Porque a

Nós temos um amigo em comum. Marcone. Ele é agrô-

corrente, a corrente é lenta, em torno de 2 milhas por

nomo e nossa amizade começou no CREA. E por con-

hora. O que significa isso? Economia de energia, por-

ta disso marcamos um almoço em 2022. Em 2021 eu

que está navegando numa direção favorável.

já tinha publicado sobre a Serra Verde. Marcamos o almoço e eu já tinha “uma boneca” desse livro. Papo

E por que o senhor considera a tese difícil?

agradável e passei uma cópia para ele, a partir daí

As 7, 8 últimas gerações estudaram pela versão co-

nós começamos a aprofundar esse estudo, isso com

nhecida da história. Poucos se aprofundaram nessa

dificuldades também porque somos pesquisadores in-

outra tese. Então, a resistência à mudança é grande.

dependentes.

Existem leis. Existem decisões de instituições históricas. Instituto Histórico Brasileiro, Instituto Histórico

Qual a diferença do trabalho que você fez para

do Rio Grande do Norte, Instituto Histórico da Bahia,

o trabalho que Chesman fez agora?

Institutos Históricos por aí afora, todos teriam que se

Ele e Claudio Furtado, como doutores em Física, apli-

pronunciar.

caram a física pura e tiveram seu trabalho publicado

16


recentemente no “Journal of Navigation” da Univer-

to caro e dependemos de recursos oriundos do gover-

sidade de Cambridge na Inglaterra. Ou seja, nossa

no do Estado, das Prefeituras, do Legislativo, da ini-

pesquisa se baseia em fontes primárias reconhecidas,

ciativa privada etc. Aqui temos, indiscutivelmente, o

como a Carta de Pero Vaz de Caminha, autores qui-

monumento mais antigo das Américas, pós Colombo:

nhentistas e, como ferramentas, usamos a ciência e

o Marco de Touros, cujo original se encontra no Museu

daquilo que dispomos no Século XXI. Termino com

Câmara Cascudo, aqui em Natal, com uma réplica na

uma frase: No Rio Grande do Norte foi Descoberto o

Praia do Marco, local onde Pedro Álvares Cabral e a

Brasil!

armada permaneceu por mais de 1 semana e tomou posse da Terra de Sancta Cruz para Portugal, chan-

Na sua avaliação, o que governos, as entidades,

tando o marco de pedra com a cruz e o brasão real

institutos e até a UFRN poderiam e deveriam

gravados.

fazer no sentido de apoiar essa discussão e aju-

O apoio e divulgação da tese, com certeza, desenvol-

dar nessa questão que pode beneficiar a eco-

verá o turismo, como ocorreu na Bahia. Lá, no que

nomia do RN?

chamam de Costa do Descobrimento, o turismo mo-

Desde o início, diferentemente de muitos curiosos so-

vimenta mais de R$ 1 bilhão anualmente, dispõe de

bre a verdade histórica, procurei, na minha pesqui-

mais de 70.000 leitos, o aeroporto de Porto Seguro é

sa sobre o Descobrimento do Brasil no Rio Grande do

o 4º mais movimentado do Nordeste, perdendo para

Norte me basear na Carta de Caminha como fonte

Salvador, Recife e Fortaleza, além de utilizar a grande

primária e nas obras de autores coevos do século XVI.

maioria da mão de obra formal da região.

Além disso, utilizar as ferramentas que nos oferecem

Não esquecendo que a temperatura das águas de nos-

a ciência e a tecnologia do século XXI. Hoje vivemos

sas praias variam de 26,5º a 29º centígrados e no Sul

outra realidade e dispomos de meios inexistentes no

da Bahia, no máximo chegam a 26º e por curto pe-

passado para encontrar a Verdade. Daí o título do

ríodo. Além disso, o Sol e essa deliciosa brisa do litoral

meu último livro: BRASIL 1500 - A VERDADE.

Leste do Estado. Os nossos gestores, nem nossos políti-

A verdade está aos nossos olhos com os avanços que

cos, não veem isso!

consegui em relação a tese de Lenine Pinto, culminando com os trabalhos de Chesman e Furtado, publicado no Journal of Navigation da Cambridge University. Quanto à UFRN, com o seu apoio já confirmado, será realizado em 2026 um Colóquio sobre o tema. Os trabalhos iniciais estão sendo coordenados pelo professor Carlos Chesman, já contamos com o apoio da Academia Norte Riograndense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do RN, do Instituto Ludovico, do SEBRAE e apenas com a simpatia e promessas de outros. Será um even17


Foz do Rio Punaú, em Zumbi


CIÊNCIA

O RN E O “DESCOBRIMENTO” DO BRASIL, UMA QUESTÃO DE FÍSICA Os físicos Carlos Chesman e Cláudio Furtado, professores da UFRN e da UFPB, conseguiram pela 1ª vez na história publicar em revista internacional artigo um artigo no qual demonstram que o Rio Grande do Norte, seria na verdade, o primeiro local que os portugueses atracaram em 1500, fato histórico que ficou conhecido como “descobrimento” do Brasil. Evidências reacendem a tese de que o Brasil nasceu na costa potiguar

e desembarcado primeiro no Rio

de visada, a terra é curva, eu pos-

Grande do Norte e não em Porto

so geometricamente fazer isso",

Seguro, na Bahia. O evento é co-

lembra o que pensou na época.

nhecido historicamente como o

As obrigações da UFRN — como

“descobrimento do Brasil", em 22

dar aulas, orientar estudantes de

de abril de 1500.

mestrado e doutorado, entre ou-

Ele, que é professor da Universidade Federal do Rio Grande do

tras — impediram o início dessa navegação.

físico Carlos Chesman conta

Norte (UFRN), ouvia isso e pen-

Mesmo assim, Chesman deu

que quando andava pelo Cen-

sava se seria possível fazer uma

um primeiro passo no sentido de

tro de Natal sempre ouvia falar

avaliação do ponto de vista da

realizar o trabalho. Foi ao Sebo

da teoria do pesquisador Lenine

Física. “É uma viagem, a viagem

Vermelho, editora de Abmael Sil-

Pinto, sobre a possibilidade de

tem deslocamento, eu posso deter-

va que publicou os livros de Le-

os portugueses terem atracado

minar a velocidade, tem um ponto

nine Pinto, e após isso conseguiu 19


CIÊNCIA

adquirir os volumes. O pesquisador tem três livros sobre o tema: a “Reinvenção do Descobrimento” (1998), “Ainda sobre a Reinvenção” (2000) e “O mando do mar” (2015). “Durante as férias do final do ano, dezembro e janeiro, eu vou estar na praia, vou aproveitar e vou ler", pensou, na época. Era dezembro de 2019. Começava ali a travessia de Chesman que agora está dando novo sopro à teoria levantada por Lenine Pinto. Nesse trabalho ele conta com a parceria do professor Cláudio Furtado, do Departamento de Física da

Carlos Chesman, professor da UFRN

Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e atual secretário de Ciência do Governo da Paraíba. O estudo que os dois vêm desenvolvendo tem uma grande diferença para todos os anteriores. Além dos dados históricos

“Comecei a ler, comecei a registrar os números da carta. Distância, profundidade. A carta é um relato quase que de um trabalho científico”

já reunidos por Lenine e outros escritores (como Manoel Cavalcanti Neto), Chesman e Cláudio Furtado usaram a tecnologia dis-

Mas para chegar a isso, eles

que eu continuei lendo, lendo, len-

ponível hoje para verificar essas

também atravessaram tempesta-

do, lendo, tudo. E ficou na minha

informações.

des, tormentas e longos períodos

mente que o documento mais fide-

O resultado? Eles já consegui-

de calmaria, quando foi difícil

digno seria a Carta de Pero Vaz de

ram produzir três artigos cien-

avançar rumo à nova terra que

Caminha”, conta.

tíficos sobre o tema. O mais re-

queriam descobrir. Entre as di-

Ele explica que há outros do-

cente foi publicado no Jornal de

ficuldades, houve uma que, iro-

cumentos — como a Carta do Pi-

Navegação da Universidade de

nicamente, acabou ajudando os

loto e a Carta de Mestre João —

Cambridge, na Inglaterra, Reino

físicos a partir rumo à terra pro-

mas que o texto produzido pelo

Unido, em setembro deste ano.

metida.

escrivão da esquadra de Cabral

As descobertas de Chesman e

Após conseguir os livros e en-

“é o único que não tem nenhum

Furtado vão além de indicar o RN

trar em férias, Chesman acabou

problema de aceitação com os co-

como sendo o primeiro porto dos

conseguindo ainda mais tempo

legas da História".

portugueses no Brasil.

para ler. “Veio a pandemia. Aí foi

20


“Comecei a ler, comecei a registrar os números da carta. Distância, profundidade... A carta é um relato quase que de um trabalho científico. Tem a data que sai, a data que chega. Uma citação logo no início: passamos pelas ilhas de Cabo Verde e após — o dado está em léguas, nos transferimos para quilômetros — 4 mil km avistamos sinais de terra. Eles não estavam vendo terra. Mas sinais de terra. Aves, sargaços”, relata. Carlos Chesman explica que hoje, com mapas dinâmicos disponíveis na internet, todos os daCláudio Furtado, professor da UFPB

dos podem ser aferidos. E foi isso que eles fizeram. O professor recorda que uma outra passagem da Carta de Caminha lhe deu mais incentivo ainda para testar os dados que o escrivão registrou. “A outra citação que me deu mais incentivo ainda foi que à distância de 30, 40, km se avista um monte e outros montes ao Sul. E por coincidência eu estava numa praia do litoral daqui, e os ventos trazem para cá. Aí peguei um dronezinho, subi o drone, 50 metros, aí saí fotografando. O drone era muito ruim. Mas analisando dava para ver essa conformação, essa estrutura geográfica", conta.

Primeira página da Carta de Pero Vaz de Caminha 21


CIÊNCIA

No caso, Chesman estava na

definiram uma estratégia para

um carrossel, você é levado para o

praia de Zumbi, município de Rio

poder desenvolver o estudo e di-

lado que ele tá girando. Isso a gen-

do Fogo. Era março de 2020. De-

vulgar a tese. Para isso era pre-

te chama força Coriolis".

vido à pandemia de covid, a UFRN

ciso produzir artigos científicos,

Segundo o físico, o conheci-

vivia um período no qual as aulas

mas não era possível começar já

mento dessa força era um dos

ainda não estavam acontecendo.

contestando a tese principal do

grandes segredos dos portugue-

Ele seguiu reunindo dados e ana-

chamado "descobrimento", expli-

ses. E teria sido descoberto pelo

lisando. Por volta do meio do ano,

ca Chesman.

navegador português Gil Eanes,

ele começou a compartilhar os

“A gente definiu que primei-

em 1434. “Até então os portugue-

dados com um grande amigo, o

ro precisava fazer algo da física.

ses viajavam sempre olhando

também físico Cláudio Furtado.

Qual é a origem das correntes ma-

para a terra, com medo de se per-

Inicialmente, eles conversa-

rítimas dos ventos que circulam?

der. E Gil Eanes chegou e fez à vol-

ram remotamente. Depois, quan-

Tem uma força chamada for-

ta pelo Cabo Bojador. Aí foi até lá,

do foi possível, se encontraram

ça de Coriolis. Ela vem de onde?

circulou, foi para o mar e voltou.

pessoalmente. “Ele é físico teórico,

Ela vem da rotação da Terra, do

E foi jogado de novo. Foi jogado de

eu sou mais da parte experimen-

movimento diário. Essa rotação

volta. Exatamente devido a esse

tal. Ele disse na época: 'Vamos com

da Terra, provoca uma força. É

movimento da terra que gera essa

calma porque é um assunto bas-

semelhante a você entrar num

força e faz isso", esclarece.

tante delicado’". A partir daí eles

carrossel. Quando você entra em

Imagem feita pelos pesquisadores que mostra como, do mar, é possível ver as elevações na região de João Câmara

22


Isso tudo foi explicado no primeiro artigo publicado pela du-

PRIMEIRA ANÁLISE DA CARTA

tipo, o texto precisa ser avaliado sob vários aspectos. Um deles é

pla, que saiu no início de 2023

Eles terminaram o segundo

se o tema vem sendo discutido;

pela Revista Brasileira de Ensino

texto e começaram a submeter

outro, se possui relevância cien-

da Física. Esse primeiro foi a base

a publicações científicas. Para

tífica. Além disso, o conteúdo é

para poder produzir os outros

conseguir publicar um artigo do

analisado por diferentes pessoas.

dois artigos que foram publicados depois e tratam da tese do descobrimento em si. “Foi quando

Vista aérea da Praia do Marco, em Pedra Grande, local que seria o real "porto seguro" apontado por Caminha

a gente decidiu atacar realmente a Carta", conta.

Praia do Marco e também imagens da topografia da região de João Câmara

23


CIÊNCIA

Gil Eanes, que descobriu a Força de Coriolis

ciado que passa para dois árbi-

dos. Os físicos também indicam

tros. Esses dois avaliadores não

que o monte avistado teria sido

sabem de quem é o texto e nem

na verdade o Serra Verde, eleva-

os autores sabem quem eles são.

ção no município de João Câmara

É a chamada avaliação por pares

e que fica próximo a outros mon-

às cegas.

tes.

“Fazem a avaliação, se pode

Por fim, eles concluíram que o

melhorar, se não pode, se as mu-

tal porto seguro a que se referem

danças são muito grandes, se acei-

os portugueses é realmente a

ta, não aceita. E isso demora me-

Praia do Marco, no município de

ses até a coisa acontecer. Aí, esse

Pedra Grande. No local há um es-

foi aceito e a gente faz a primeira

paço natural protegido por reci-

análise da carta", relata. O artigo

fes que é como se formasse uma

chama-se “Análise física a partir

pequena baía.

de dados científicos na carta de

Para fundamentar tudo isso,

Pero Vaz de Caminha” (do inglês,

além dos cálculos e medições, os

Physical analysis from scientific

pesquisadores usaram mapas di-

data in Pero Vaz de Caminha’s le-

nâmicos e também fotografaram

tter).

e mapearam tudo o que foi pos-

No texto, que foi publicado

sível. Uma dessas imagens mos-

em dezembro de 2024, eles ana-

tra inclusive a praia do Marco de

lisam os dados disponíveis na

cima, evidenciando o que seria o

carta usando ferramentas e tec-

tal “porto seguro” falado na Carta

nologias atuais. Com base nessas

de Caminha.

análises — de distância, tamanho

Eles também ouviram relatos

Na revista da Academia Bra-

das caravelas, profundidade do

de pescadores e foram ao mar

sileira de Ciências o artigo até

mar, dos ventos e das correntes

para tentar ver o que viram os

passou pela primeira fase, mas

marítimas — os pesquisadores

portugueses. E, após algumas

depois, naufragou. “Passou pelo

apontam que ao invés de Porto

tentativas, conseguiram regis-

editor. Quando foi para o editor

Seguro, na Bahia, o primeiro lo-

trar uma imagem que mostra o

associado, ele escreveu: 'o manus-

cal visto e que foi ponto de de-

litoral do RN e o que apontam

crito não tem relevância científi-

sembarque dos portugueses te-

como sendo os montes Serra Ver-

ca para ser publicado em nossa

ria sido a costa do Rio Grande do

de, Amarelão e Torreão, todos em

revista'. Faz parte do jogo", conta

Norte.

João Câmara.

Chesman.

E especificam mais: que o pri-

A partir da publicação deste

Então eles tentaram a revista

meiro local onde a esquadra de

segundo artigo — com esses da-

Brazilian Journal of Science, uma

Cabral atracou foi a foz do Rio

dos e feito desta forma — a tese

publicação relativamente nova.

Punaú, na praia de Zumbi, muni-

que por tantos anos foi responsá-

E como funciona esse processo?

cípio de Rio do Fogo; exatamente

vel pelo fato de Lenine Pinto ser

O editor recebe e avalia. Se acei-

o local onde Chesman passou um

chamado até de “lunático", voltou

tar, passa para um editor asso-

período lendo e analisando da-

a ganhar força.

24


Monte Torreão, em João Câmara, um dos que teria sido avistado por Cabral

Foi então que Carlos Chesman

Tal qual a travessia de um

nalmente. Esse é o grande feito

e Cláudio Furtado deram um ter-

oceano, a resposta demorou.

de Chesman e Furtado. Grosso

ceiro passo para fortalecê-la ain-

O artigo foi recebido em 11 de

modo, é como se eles acabassem

da mais. Eles encaminharam um

junho de 2024 e revisado em 18

de encontrar uma nova terra.

novo texto à publicação The Jour-

de dezembro de 2024. Em 21 de

“Esse de Cambridge é o mais

nal of Navigation, da Universida-

julho de 2025 foi aceito. Mas so-

relevante. Porque é uma revista

de de Cambridge, na Inglaterra:

mente em 8 de setembro de 2025

internacional. Digamos que te-

“Dados científicos na Carta de

foi publicado, um ano e três me-

nha hoje uma relevância maior",

Pero Vaz de Caminha” (do inglês,

ses após seu envio.

afirma Carlos Chesman. E frisa:

Scientific data in Pero Vaz de Caminha's letter).

Um fato inédito: foi a primei-

“Então, nesse sentido, é um traba-

ra vez que um artigo científico

lho inédito, inédito internacional-

sobre este tema, feito por físicos,

mente, como eu disse. Internacio-

usando dados e revisando-os, é

nalmente".

publicado no Brasil e internacio25


CIÊNCIA

Serra Verde, a elevação que seria o "Monte Pascoal potiguar"

O VERDADEIRO MONTE PASCOAL POTIGUAR

primeiro lugar que os portugueses avistaram.

De Macau, de Guamaré, você vê o Pico do Cabugi. Quanto mais eu

Um dos pontos principais da

“O pescador disse: ‘Eu tenho

for para Macau, Guamaré, você vê

pesquisa foi ter usado uma em-

certeza que foi aqui", conta Ches-

o Pico Cabugi. A distância do lito-

barcação para tentar registrar o

man. Ele aproveita para escla-

ral até o Pico é 60 km. Só que do

que viram os portugueses quan-

recer uma questão que sempre

litoral Leste para o Pico do Cabu-

do estavam chegando à costa

rende polêmica em meio à tese

gi são 120 km. E as embarcações,

brasileira e também fazer me-

do achamento do Brasil ter ocor-

pelos ventos, elas vêm pelo Leste.

didas de profundidade do mar.

rido no Rio Grande do Norte: a

Digamos que Lenine cometeu esse

Para isso, os pesquisadores alu-

hipótese do Monte Pascoal ser na

equívoco porque achava que o

garam um barco. O pescador,

verdade o Pico do Cabugi.

Pico do Cabugi seria visto pelas

curioso, queria entender o que se

“De lá o que está se avistando

embarcações, só que as embarca-

passava. Eles explicaram que es-

não é o Pico do Cabugi. É o Monte

ções vêm do Leste. E do Leste, pela

tavam realizando medições para

Serra Verde. Por quê?

fato da terra ser um globo, não dá

comprovar que teria sido no RN o 26

para ele ser visto", explica.


Cabo de São Roque e seu farol

E complementa: “Ele teria que ter muito mais metros. No lugar de quase 600, teria de ter 1.000, 1.200 metros de altitude. Porque a distância é bem maior. Entretanto, lá do litoral norte, do norte do Rio Grande do Norte, você vê o Pico do Cabugi. Agora, do Leste, você não vê. Foi por isso que eu fui para o mar, para identificar". Os primeiros a apontar o Monte Serra Verde como sendo o Monte Pascoal Potiguar foram os dois físicos e o pesquisador Manoel Cavalcanti. “Fomos eu, Manuel e Cláudio. Eu fui para o mar. E Ma-

outras três tentativas. Chesman

que, no litoral leste, à noite. E que

nuel ficou fazendo o mapa, vendo

também lembra que em conver-

de dia, o ponto de orientação era

a latitude, longitude", conta.

sa com outro pescador, o dono

exatamente o monte Serra Verde.

A missão de ir ao mar para rea-

da embarcação que ele alugou,

“Ele disse: ‘Ó, se você olhar, o mon-

lizar o avistamento, entretanto,

ouviu um relato que ajudou na

te, esse monte grande aí, fica atrás

não foi tão fácil. Foram necessá-

localização dos montes.

do farol do Cabo São Roque’. Ou

rias pelo menos cinco vezes para

Segundo ele, o homem chama-

seja, provavelmente o Cabo São

conseguir ver. E para conseguir

-se Jonas e contou que um dos

Roque foi colocado depois para

fazer a foto que ilustra o estudo

pontos de referência usado pelos

marcar o monte", avalia.

foram necessárias pelo menos

pescadores é o Cabo de São Ro27


CIÊNCIA

OS PRÓXIMOS PASSOS Cláudio Furtado e Carlos Ches-

Atualmente eles estão na fase

Uma coisa é certa e não requer

man não avaliam agora publicar

de mobilização de apoios, falan-

qualquer equipamento moderno

um novo artigo ou livro. Segundo

do com entidades, prefeituras,

para comprovar: mesmo com

o físico da UFRN a ideia é divul-

governo, instituições, outros pes-

todos os dados e comprovações

gar o máximo possível a tese para

quisadores, políticos e empre-

técnicas, o caminho da tese que

conseguir abrangência nacio-

sários. A ideia é que esse evento

afirma o Rio Grande do Norte

nal. Para isso eles planejam rea-

tenha a presença, inclusive, de

como ponto do chamado "desco-

lizar um evento em 2026, que já

pessoas de fora do Rio Grande

brimento" do Brasil ainda preci-

tem nome: Colóquio Internacio-

do Norte. O objetivo é ampliar o

sará enfrentar muitas tempesta-

nal Câmara Cascudo, homena-

alcance da discussão e assim for-

des até que, quem sabe, um dia,

gem a uma das primeiras pessoas

talecê-la.

chegue ao porto seguro de ser

que discutiu as controvérsias do

reconhecida como versão oficial

"descobrimento", o folclorista po-

da história do Brasil.

tiguar Câmara Cascudo.

Praia do Marco, o porto seguro onde teriam atracado os portugueses

28


#BATE-PAPO COM CARLOS CHESMAN bém projetar novas ações. Eu tenho que agra-

“O que está faltando é o reconhecimento dos políticos”

decer muito ao povo brasileiro porque é ele que paga para gente ficar pensando nessas coisas. Eu me sinto muito honrado de poder fazer isso. Isso me deixa muito contente. Ter essa estrutura que possibilita produzir ciência e conhecimento. O senhor acredita que é possível fazer essa

O que é que o senhor espera agora com es-

revisão histórica?

sas descobertas?

Política não é um pensamento linear tão simples

Minha mãe toda vez pergunta: ‘Além de você fa-

assim. Economia também não. Porto Seguro é o

zer aula, faz o quê que passa o dia todinho na

nascimento do povoamento do Brasil. Sim. Isso é

universidade?'. A gente faz as outras atividades

verdade. Tem até outro fato: Manuel (Cavalcanti)

de uma universidade que é a parte de pesquisa e

fez a distância entre a Praia do Marco e Cananéia

a parte de ensino. A tríade ensino, pesquisa e ex-

(SP). Dá 3.200 km. Porto Seguro está exatamen-

tensão. Publicar é algo da extensão, um resultado

te no meio, a 1.600 km dos dois marcos. Então,

acadêmico que pode modificar a realidade local.

é uma questão geográfica: eu tenho uma área,

Se não existe uma entidade como essa, uma uni-

marco dois pontos e vou começar a povoar onde?

versidade, que paga meu salário, que tem uma

No meio, para eu poder proteger. Quem foi que

estrutura, para a gente ficar pensando, debaten-

disse que foi Porto Seguro? Foi o visconde de Por-

do essas coisas que não levam a nada… Levam

to Seguro, o diplomata e historiador Francisco

sim. É isso que a gente mostra. O resto do mundo

Adolfo de Varnhagen. Ele é considerado o pai da

tem grandes universidades. Então, para a gente

história do Brasil. Foi ele quem estabeleceu essa

seguir o padrão, digamos, de desenvolvimento,

versão oficial de que o achamento foi lá. Mas aí,

tem que ter universidades. Tem que ter pessoas

os dados não batem com o que está na Carta de

pensantes para poder atuar no dia a dia e tam-

Pero Vaz de Caminha. Eu tenho colegas cientistas renomados, que dizem: ‘Eu não acredito, mas vá em frente'. Mesmo com todos os dados. Para mim, vai ser muito difícil. No Brasil, pelo formato da nossa Constituição, algo só vira verdade, não é quando os cientistas dizem a verdade. É quando

Visconde de Porto Seguro

se tem uma lei constitucional. Para virar uma lei constitucional, tem que passar no Congresso. E tem o que a gente chama do dilema da maioria. A maioria sempre acha que tem razão. Tem a questão econômica também. Segundo um outro

29


CIÊNCIA

colega — eu não aferi esse número — o turismo

com outras pessoas, outros colegas, para saber se

da região, da rota do descobrimento, movimenta

essa verdade corrobora com outros fatos. O que a

por ano R$ 1 bilhão. Tem um pequeno aeropor-

gente provou é que corrobora com o que está es-

to lá em Porto Seguro. Um aeroporto. As pessoas

crito na Carta de Pero Vaz de Caminha. A UFRN

vão de avião para lá.

está apoiando esse evento, na parte de infraestrutura. A Funpec vai fazer toda a parte logísti-

E o que é que o Rio Grande do Norte ganha

ca. Já fui no Sebrae e eles vão aportar os recursos.

se a gente conseguir massificar essa tese?

A Fecomércio também se comprometeu. Estou

A primeira coisa é instalar a verdade, que apa-

tentando contato com a FIERN. Posteriormente e

rentemente é essa. E geograficamente, o Rio

paralelamente, estamos tentando contato com os

Grande do Norte é mais estratégico. Não só para

políticos. Infelizmente, não consegui agenda até

a Segunda Guerra. Então, o que está faltando é o

agora com a governadora; não consegui agenda

reconhecimento, digamos, dos políticos, que tra-

ainda com o atual prefeito de Natal. Nem tentei

zem os ventos do dinheiro. Se vai ser verdade,

agenda com os prefeitos, digamos, dessas cida-

digamos, histórica no Brasil... O Brasil, como eu

des que devem se beneficiar. Por exemplo, João

falei, é tão pequeno que duas três pessoas você

Câmara, onde está o Monte. E também Barra de

chega na pessoa mais importante do país. Agora

Maxaranguape, Rio do Fogo, Touros, São Miguel.

a pergunta é: chega e convence?

Essas que fazem o litoral ali onde deve ter chegado as embarcações. Isso é um contato a posterio-

30

O que os governos, as entidades e até a

ri. Quais são os benefícios se, realmente, isso for

UFRN poderiam e deveriam fazer no sen-

acontecendo ao longo do tempo? Por exemplo,

tido de apoiar essa discussão e ajudar na

em Porto Seguro, na região de Porto Seguro, cha-

consolidação dessa tese que pode benefi-

mada Rota do Descobrimento, lá se movimenta

ciar a economia do RN?

cerca de 1 bilhão de reais por ano. Lá tem mais

Essa pergunta tem uma resposta muito ampla.

de 50.000 leitos de hotelaria. Tudo isso traz be-

Depende de muitos fatores, vai depender de mui-

nefícios para essa região. Tanto para pequenos

ta gente e o tempo é que é o senhor de tudo isso.

empresários quanto para grandes empresários.

Mas vamos lá. Foi o que eu e Cláudio fizemos. Fi-

Então o benefício seria direto para o turismo.

zemos um manuscrito que foi aceito numa revis-

E o principal, para o Brasil, seria conhecer a

ta indexada internacionalmente da Universida-

sua realidade de chegada que foi aqui. Usando-

de de Cambridge. Isso é um selo internacional de

-se a física, usando-se os dados meteorológicos,

qualidade. Passo dois. A UFRN é quem nos apoia.

usando-se as correntes, os ventos alísios, tudo in-

No meu caso, a UFRN, no caso de Cláudio, é a

dica que é aqui. Diferentemente do que foi dito

UFPB, que ele é professor de lá. A UFRN está nos

anteriormente, que é em Porto Seguro, através

apoiando para fazer um evento em abril. A gente

de uma outra medida de 17 graus de uma carta

pretende fazer o Colóquio Internacional Câmara

que, segundo os historiadores, a carta do Mestre

Cascudo em abril para debater esse assunto. Lon-

João, não é uma carta fidedigna da realidade da

ge de querer ser o senhor da verdade, além desse

época. Enfim, o tempo dirá. Mas aqui nós estamos

selo internacional, a gente vai procurar debater

empenhados em fazer isso acontecer.


ENTENDA O ESTUDO DE CARLOS CHESMAN E CLÁUDIO FURTADO PONTO A PONTO

Sobre a Profundidade e o Porto

vemos vista, será tamanha que

Seguro: "...Mandou lançar o pru-

haverá nela bem vinte ou vinte

mo, acharam 25 braças... e segui-

e cinco léguas por costa. Em al-

mos direitos à terra e os navios

gumas partes, grandes barreiras,

Para facilitar o entendimento

pequenos diante, indo por 17, 16,

delas vermelhas e delas brancas e

dos mais recentes artigos, a Mu-

15, 14, 13, 12, 10 e 9 braças até meia

a terra, por cima, toda chã e cheia

nicípios em Foco colocou o que é

légua de terra... ancoraram-se em

de grandes arvoredos."

dito na Carta de Pero Vaz de Ca-

cinco, seis braças, a qual anco-

minha e o que dizem os pesqui-

ragem dentro é tão grande e tão

O que dizem

sadores Carlos Chesman e Cláu-

fremosa e tão segura que podem

os pesquisadores

dio Furtado. Confira abaixo:

jazer dentro nela mais de 200 na-

Rota e Física da Navegação:

vios e naus."

• A distância percorrida de Cabo

O que diz a carta:

Verde ao avistamento de terra é

Sobre a Distância Percorrida: "...

Sobre o Rio e o Capitão: "...passa-

de aproximadamente 4.000 km

que topámos alguns sinais de ter-

ram logo todos além do rio, o qual

(670 léguas, considerando 1 légua

ra, sendo da dita ilha [Cabo Verde],

não é mais ancho que um jogo de

= 6 km).

segundo os pilotos diziam, obra de

mancal... E então o capitão fez-se

• Traçando essa distância seguin-

660 ou 670 léguas..."

tomar ao colo de dous homens e

do a trajetória determinada pe-

passou o rio e fez tornar todos."

los ventos e correntes oceânicas

Sobre o Avistamento do Monte:

(Força de Coriolis), a rota conduz

"...É, primeiramente d’um grande

Sobre as Barreiras ao Sul: "Esta

à costa do Rio Grande do Norte

monte, mui alto e redondo, e d’ou-

terra, Senhor, me parece que da

(RN), o que é inconsistente com

tras serras mais baixas a sul dele

ponta que mais contra o sul vimos

uma linha reta para Porto Seguro

e de terra chã com grandes arvo-

até outra ponta que contra o norte

(BA).

redos, ao qual monte alto o capi-

vem, de que nós deste porto hou-

tão pôs nome o Monte Pascoal e à terra a Terra de Vera Cruz." Touros, um dos municípios que pode ser beneficiado pela "nova rota do descobrimento"

31


O monte avistado (Monte Pas-

• Dimensões: O local possui di-

ge que o capitão seja carregado,

coal Potiguar):

mensões de aproximadamente

é identificado como o Rio Pu-

• Cálculos de Altura: Utilizando

1.500 m por 700 m, área mais

naú (praia de Zumbi), que é um

a curvatura da Terra, um monte

que suficiente para as "mais de

riacho estreito. Esta descrição

visível a uma distância de 30 km

200 navios e naus" mencionadas,

é incompatível com o largo Rio

a 40 km deve ter entre 70 m e 125

cujas embarcações variavam de

Buranhém (300 m a 500 m de

m de altura.

25m x 10m (caravelas) a 50m x

largura) em Porto Seguro (BA).

• Identificação: O monte Serra

20m (naus).

• Barreiras Vermelhas: A descri-

Verde (chamado Monte Pascoal

• Concordância de Profundida-

ção de grandes barreiras verme-

Potiguar), em João Câmara (RN),

de: A profundidade registrada

lhas a 20 ou 25 léguas (120 km a

com 240 m de altitude, é compa-

na Carta de "cinco, seis braças"

150 km) ao sul do porto seguro

tível com os cálculos e visível da

(11,0 m a 13,2 m) no interior do

da Praia do Marco corresponde

rota Leste-Oeste.

porto está em completo acordo

à Barreira do Inferno no litoral

• Conformidade: O monte Serra

com as medições atuais no lo-

sul do RN, localizada a aproxima-

Verde possui o formato de uma

cal (cerca de 10 m na entrada da

damente 130 km. Não há falésias

grande colina redonda e tem ser-

baía da Praia do Marco). O perfil

vermelhas nessa distância ao sul

ras mais baixas ao sul dela (Tor-

de profundidade constantemen-

de Porto Seguro (BA).

reão e Amarelão), o que se alinha

te decrescente (de 25 braças até

com a descrição da Carta.

9 braças) é mais bem explicado pela chegada Leste-Oeste no RN.

O Porto Seguro e a Batimetria:

O Rio e as Barreiras Geográfi-

• Localização: O porto seguro

cas:

é identificado como a Praia do

• O Rio Estreito: O rio próximo ao

Marco (RN), que é protegida por

porto que é "não mais ancho que

um arrecife.

um jogo de mancal" e que exi-

32

Aponte o celular para este QR-Code e acesse o artigo de Chesman e Furtado


ARTIGO

MARCUS CÉSAR CAVALCANTI DE MORAIS*

BRASIL: DESCOBRIMENTO EM 1500 E POSSE EM 1501

A questão evidenciada neste estudo consiste em

base sólida, não apresentam documento nem prova

afastar as equivocadas hipóteses, que insistem na

alguma, apenas fazem uma vaga referência aos ven-

suposição de que o Descobrimento do Brasil teria

tos elísios e à corrente marítima. Outras expedições

sido em Touros-RN e não na Bahia, como consta

que saíram do mesmo ponto, ou seja, Cabo Verde na

oficialmente na historiografia. Ora, os verdadeiros

costa africana, chegaram em destinos diferentes.

guardiões da História se baseiam em fatos e acon-

Podemos citar algumas para que o leitor veja que

tecimentos narrados e documentados, com provas

o argumento não faz sentido: em 1488, Bartolomeu

e reconhecimento científico, afirmando que o Brasil

Dias chegou ao sul da África; em 1498, Vasco da

foi descoberto com a expedição de Cabral em 1500.

Gama chegou à Índia; no mesmo ano de 1498, Duar-

Os que defendem a infundada suposição da fro-

te Pacheco chegou na costa entre Maranhão e Pará;

ta de Cabral ter aportado em Touros, o fazem sem

também no mesmo ano o espanhol Vicente Pinzom

* Jornalista e escritor, é autor dos livros Terras Potiguares, Retrato Narrado da Cidade do Natal, O Brasil Nasceu Juridicamente no RN, Brasil: Descobrimento e Posse, Negócios em Foco e várias outras publicações.. 33


ARTIGO

do litoral, não se tendo, de forma alguma, a mesma visão. Outro grande e primordial desacordo com a realidade diz respeito ao comportamento dos indígenas das duas regiões. A carta de Caminha relata ao Rei de Portugal a gentileza e cordialidade dos indígenas daquele lugar, num diálogo amistoso e troca

“Na carta está escrito que fora avistado um monte alto e redondo, com outras serras ao sul, mas o Pico do Cabugi é pontiagudo e não redondo, não tendo outras serras ao Sul”

de saberes com os portugueses. Já no território potiguar o tipo indígena era guerreiro e canibal, portanto muito diferente do que fora narrado por Caminha. Aliás, esse foi um dos motivos do retardamento da colonização portuguesa na futura Capitania do Rio Grande que só aconteceu quase cem anos depois, com a importante participação de Jerônimo de Albuquerque. Antes disso, em 1535, bem como em 1555, o então donatário da Capitania do Rio Grande, João Rodrigues Colaço, realizou duas tentativas de colonização, a primeira por ele próprio e a segunda pelos seus filhos, sendo ambas rechaçadas pelos índios e com isso a Capitania nunca existiu de fato. Outra comprovação é a narrativa de Américo

aportou na ponta do Mucuripe, no hoje estado do

Vespúcio, em sua carta Létera, de 1504, que docu-

Ceará; em 1549 Tomé de Souza aportou na Bahia e

menta os feitos da expedição de 1501, por ocasião da

a Família Real aportou no Rio de Janeiro em 1808.

Posse da Terra Brasileira, quando quatro tripulan-

Todas essas expedições partiram de Cabo Verde e

tes desembarcaram e se arriscaram a uma aproxi-

certamente foram “desobrigadas”, ou mesmo “dis-

mação dos índios foram atacados e esquartejados.

pensadas” da tal influência desses ventos e dessa

O argumento mais categórico, por se tratar de da-

corrente marítima. Isto prova que tais argumentos

dos numéricos, imunes a qualquer tipo de contesta-

não são válidos.

ção, vem do quinto parágrafo da carta de Caminha,

O documento que narra a chegada de Cabral

que traz a distância percorrida entre Cabo Verde no

ao Brasil, no ano de 1500, é a carta de Pero Vaz de

continente africano e Porto Seguro na Bahia, que

Caminha ao Rei D. Manoel e nela constam diversas

é de 660 léguas marítimas. Ocorre que a distância

informações que jamais poderiam atestar a chega-

entre o mesmo ponto de partida ao litoral de Tou-

da de Cabral ao litoral potiguar. Por exemplo: que-

ros-RN é de 530 léguas marítimas, portanto, 130

rem dizer que o Monte Pascoal avistado é o Pico do

léguas marítimas a menos, que fazem uma grande

Cabugi. Na carta está escrito que fora avistado um

diferença. Isso pode naturalmente ser pesquisado e

monte alto e redondo, com outras serras ao sul, mas

comprovado por quem tenha alguma dúvida. Uma

o Pico do Cabugi é pontiagudo e não redondo, não

outra carta arquivada no museu da Torre do Tom-

tendo outras serras ao Sul. Outra informação impor-

bo, em Portugal, é a famosa carta do mestre João,

tante que consta na carta refere-se à distância do

que era um médico da esquadra de Cabral, conhe-

Monte Pascoal ao litoral que é de aproximadamen-

cedor da cosmografia e perito no uso dos instru-

te 50 km e o Pico do Cabugi está a mais de 150 km

mentos náuticos e a localização através dos astros.

34


Segundo o historiador contemporâneo, respeitado e conhecido nacionalmente, Eduardo Bueno, o mestre João registrou a coordenada geográfica do desembarque de Cabral como sendo aproximadamente 17 graus da linha equatorial Sul. Na realidade, a coordenada geográfica de Porto Seguro é exatamente 16º 22’ 20’’ latitude Sul, isso pela medição precisa através dos atuais GPS. O fato principal é que a coordenada do litoral de Touros-RN é 5º 3’ 41’’ latitude Sul, portanto, muito diferente da localização oficial. Pelo menos na matemática 16,2 está bem mais próxi-

“Definitivamente, o Brasil nasceu juridicamente em 7 de agosto de 1501, em Touros no Rio Grande do Norte”

mo de 17, do que 5,3. É verdade ou não é? Na realidade, o Marco de Touros é um atestado de posse, um autêntico documento colonial que afirma a soberania de Portugal sobre a terra onde fora fixado, sendo o primeiro no Brasil e em torrão potiguar, no início da missão e um outro na praia de Cananéia,

No Colóquio dos Institutos Histórico Brasileiros,

em território paulista, simbolizando o final da mis-

realizado no Rio de Janeiro, em 1998, o então presi-

são, há mais de um ano após o Descobrimento do

dente do Instituto Histórico do RN, Dr. Enélio Petro-

Brasil.

vich, apresentou comunicado detalhando os acon-

Durante quase quatro séculos o Marco de Tou-

tecimentos que envolveram o Marco de Touros e

ros foi visto como uma pedra santa, consagrado à

solicitou o devido registro nos anais daquela Casa,

devoção e a fé. Somente no ano de 1890, passou a

diante de historiadores de todas as regiões do País

receber importância histórica, após pesquisa do es-

e o pleno reconhecimento do fato histórico pela in-

critor pernambucano, José de Vasconcelos, autor da

telectualidade brasileira. Além de Enélio Petrovich

consagrada obra ¨Datas Célebres e Fatos Notáveis da

vários escritores e historiadores estudaram sobre o

História do Brasil, deu conhecimento da existência

Marco de Touros e posso citar alguns: Câmara Cas-

do primeiro marco de posse do Brasil, chantado a 5º

cudo, Tristão Araripe, Diógenes da Cunha Lima, José

3’ 41’’ de latitude, Sul da linha equatorial, informa-

Vasconcelos, Nestor Lima, Oswaldo de Souza, Nilson

ções extraídas da carta de Vespúcio datada de 04 de

Patriota, Jeanne Nesi, Olavo Medeiros, Moacir Soares,

setembro de 1504 e enviada a Piero Soderini, em Flo-

Guarino Alves, Pedro Rebouças, Itamar de Sousa,

rença, na Itália. O pernambucano José de Vasconce-

João Alves de Melo, entre outros.

los decidiu, na mesma época, ir ao local da coorde-

Após pesquisas minuciosas em documentos his-

nada geográfica, constatando a existência do marco

tóricos, concluímos que o Marco de Touros tem um

de posse. Esse fato consta da ata da 16ª assembleia

grande significado para a História do Brasil. Mesmo

ordinária do Instituto Histórico e Geográfico Brasi-

o Descobrimento tendo sido na Bahia, a posse por

leiro, com sede no Rio de Janeiro. Na oportunidade, o

Portugal se deu no hoje Rio Grande do Norte. O Mar-

historiador cearense, Tristão Alencar Araripe suge-

co de Touros é a própria certidão de nascimento do

riu que o referido marco fosse transportado para a

maior país da América Latina. Definitivamente, o

sede daquele Instituto, na capital federal, onde já se

Brasil nasceu juridicamente em 7 de agosto de 1501,

encontrava o Marco de Cananéia,

em Touros no Rio Grande do Norte. 35


LIVRO

HÁ 92 ANOS, CASCUDO AFIRMOU QUE,SE DEPENDESSE DAS CORRENTES, “CABRAL AVISTARIA TERRAS DO RN E NÃO DA BAHIA” Em livro publicado há 92 anos, o folclorista Câmara Cascudo já apontava que se dependesse da força das correntes marítimas, a esquadra de Cabral teria chegado ao Rio Grande do Norte e não a Porto Seguro

uando conseguiu publicar o

apresentar o resultado ao reitor

informou ao físico que o folcloris-

da Universidade Federal do Rio

ta Câmara Cascudo havia produ-

Grande do Norte, o professor José

zido material sobre essa questão

Daniel Diniz Melo.

do "descobrimento" do Brasil.

Na ocasião, o reitor teria brin-

Chesman então foi à caça des-

cado, perguntando o que um físi-

se material e encontrou o livro

co estava fazendo com pesquisa

“Dois ensaios de História", que foi

na área de história do Brasil. Após

publicado pela primeira vez em

a conversa, o reitor pediu ao dire-

1933 e depois ampliado em 1964.

tor da Agência de Comunicação

Como o nome diz, são dois textos:

da UFRN que produzisse um ma-

“Intencionalidade no descobri-

terial divulgando o trabalho.

mento do Brasil” e “O mais antigo

“Análise física a partir de dados

Carlos Chesman então foi con-

científicos na Carta de Pero Vaz

versar com o diretor da Agecom,

Ele obteve esse material após

de Caminha” (do inglês, Physical

o jornalista Paiva Rebouças. Na

conversar com a neta de Câmara

analysis from scientific data in

entrevista, visando a produção da

Cascudo, Daliana Cascudo, que é

Pero Vaz de Caminha’s letter”),

reportagem que foi publicada no

a guardiã das obras do folclorista.

o professor Carlos Chesman foi

site da UFRN, o diretor da Agência

Na ocasião, ela deu acesso para

36

Marco da posse".


que ele pudesse pesquisar

dental da África, em sentido Norte-Sul, até ao golfo da

o livro. E ficou feliz de sa-

Guiné e às regiões equatoriais onde muda de direção,

ber que o evento planeja-

atravessando o Atlântico (sempre cobrindo a linha)

do por Chesman levará o

indo bater no Cabo de São Roque".

nome de seu avô.

O pesquisador escreve ainda que “admitindo, po-

No primeiro ensaio, Câmara Cascudo diz de uma

rém, o absurdo de uma corrente marítima de 1/2 mi-

outra forma o que os velejadores e pesquisadores já

lhas por hora poder arrastar irresistivelmente as naus

comprovaram em tese e prática. Que os ventos e cor-

veleiras da esquadra, esta deveria ir parar ao Cabo

rentes marítimas trazem as embarcações para a cos-

de São Roque, e não a 17º, Lat. S, ou sejam mais de 12º

ta do Rio Grande do Norte; e que é muito difícil, usan-

abaixo da Lat. correspondente à posição daquela bali-

do essas forças, chegar a Porto Seguro, na Bahia.

za geográfica".

A ideia defendida por Cascudo é que o descobri-

E arremata: “Desnecessário demonstrar maior cla-

mento do Brasil não foi obra do acaso e que a che-

reza. A corrente, se tivesse colhido as naus portugue-

gada a Porto Seguro foi feita de forma intencional,

sas, levaria a esquadra para o cabo de São Roque,

que não houve um desvio aleatório. Para defender

porque na saliência do litoral norte-rio-grandense,

sua tese, ele apresenta uma série de argumentos, ci-

a 5° 29' ao Sul da equinocial, é que se divide a cor-

tando textos históricos e entra especificamente na

rente africana, tangida ou ajudada pelos alísios. Ca-

questão das correntes e ventos, assunto explorado

bral avistaria terras do Rio Grande do Norte e não da

diretamente por Carlos Chesman a Cláudio Furtado

Bahia, mais de 12º abaixo da latitude correspondente".

para fundamentar a chegada dos portugueses ao RN.

Daí o fato de que nas suas apresentações para de-

Diz Cascudo: “A corrente do Gulf-Stream começa a

fender a tese de que o RN foi o primeiro lugar avista-

fazer-se sentir entre 50º e 30º de longitude ocidental,

do e ponto de desembarque de portugueses no Brasil,

65° ou 60º de latitude austral, caminhando para o Sul

Carlos Chesman e Cláudio Furtado elegem Cascudo

do continente africano, onde se biparte, prosseguindo

como o primeiro da tríade inicial de pesquisadores

um dos braços para Leste, com prolongamento para o

que trataram do assunto. O segundo é Lenine Pinto e

oceano Índico, correndo o outro ao longo da costa oci-

o terceiro é Manoel Cavalcanti Neto. 37


ENTREVISTA

ROSANA MAZARO

“A GENTE NÃO SE APROPRIA DOS PRÓPRIOS FATOS” Professora doutora em Turismo, Rosana Mazaro, que fez a travessia do Atlântico em um veleiro, analisa o fato da tese do "descobrimento" do Brasil no RN não ser explorada como deveria e gerar benefícios ao estado

foi no RN que os portugueses chegaram primeiro.

No período que atuou no estado — ela hoje reside na Espanha

As bases para apontar isso fo-

— Rosana Mazaro chegou a con-

ram o projeto “O Brasil começa

ceder entrevistas nacionais fa-

aqui - Patrimônio histórico-cul-

lando sobre o assunto. Passados

tural como recurso endógeno

pelo menos dez anos desde que

para a inovação em turismo na

lidou com a questão, ela analisa

região do Marco do Descobri-

hoje essa retomada da discussão.

ntre os anos de 2008 e 2015, a

mento/RN” que gerou uma dis-

A professora é enfática ao afir-

professora Rosana Mazaro, que

sertação de mestrado levantando

mar que o RN perde muito por

foi do Departamento de Turis-

tudo sobre o assunto; e o fato de

não se apropriar de seus temas.

mo da Universidade Federal do

que ela e seu marido fizeram a

E que só de haver a hipótese do

Rio Grande do Norte, foi uma das

travessia do Atlântico em um ve-

chamado “descobrimento” ter

pessoas que empunhou a bandei-

leiro. Ou seja, além de entender

ocorrido na costa potiguar, isso

ra do estado usar as evidências

de turismo e da tese do "desco-

já seria motivo de sobra para ter-

históricas a seu favor e explorar

brimento", ela também é navega-

mos ganhos turísticos e econô-

turisticamente a hipótese de que

dora.

micos.

38


Rosana Mazaro, professora doutora em Turismo

Como foi que a senhora se envolveu com essa

minha lógica era dentro da gestão. Só que a gente se

questão da chegada dos portugueses aqui no

depara com um fato desse, que é super importante, e

Brasil?

pouco se passa pela história. Pela história: "Chegou na

Tem muita gente até que me confunde, me chama de

Bahia e tem dois marcos". É só isso que você aprende..

historiadora e eu fico devendo para os historiadores

E chega aí me deparei com essa polêmica histórica

porque eu não tenho essa formação. Minha área é tu-

(do RN ser o primeiro ponto de chegada dos portugue-

rismo, gestão do turismo, gestão de destinos turísticos.

ses). E foi muito curioso. Eu aprovei um projeto de pes-

E dentro disso, o que que nós estudamos? Quais são os

quisa, na verdade, uma parceria — se eu não me en-

elementos que se pode aproveitar como atrativo turís-

gano — CNPQ com ciência e tecnologia de inovação.

tico. E dentro dessa classificação, o turismo trabalha

É, que era um fator para a inovação em turismo ali

com os fatos históricos como um dos elementos de atra-

na região. O fator histórico que, sendo o primeiro, era

ção. Para construir atrativos. Dentro da universidade

importante e deveria ser melhor aproveitado. Era essa

eu instalei um programa de pós-graduação que até

a nossa lógica. A gente começou a trabalhar o aspecto

tem doutorado, o único doutorado público aí no país.

e fomos atrás do historiador. História é um dos ele-

O que que implica? Minha área é justamente levantar

mentos importantes dentro da formação em turismo,

que a gente chama de recurso turístico para transfor-

sem dúvida nenhuma.

má-los em atrativos, para ser competitivo. Ou seja, a 39


ENTREVISTA

Em que ano?

Aí construíram toda uma história e tal. Eu sincera-

Entre 2008 e 2015, mais ou menos, eu trabalhei com

mente acredito muito no fato. Eu acho muito factível,

essa temática de uma forma muito sistemática. E aí

muito provável. Fora os questionamentos que se tem

um dos resultados foi uma dissertação de mestrado.

mesmo de parte do que tem na Bahia. Questionamen-

Porque teve um aluno (Bernardo Meister Gehrke) que

tos da legitimidade, ou pelo menos da originalidade

se envolveu num projeto desses do Sebrae, se eu não

do Marco. Mas parece que tem gente que não quer

me engano, de capacitação da comunidade e mergu-

reescrever a história não, porque está bem assim.

lhou na questão. Se apaixonou pela causa. Aprovei-

Reeditar os livros seria muito complicado.

tamos esse projeto. Ele fez uma dissertação que vai fundo nesses aspectos. Dada a relevância, a gente começou a trazer à tona. Aí juntamos com a fala dos historiadores, das pessoas interessadas e também das

“O Rio Grande do Norte está cheio de temas, mas não sabe aproveitar”

adeptas da hipótese, dessa versão da história. Eu me lembro até que teve uma audiência pública promovida por um deputado lá em Touros. O Estado teve um ano desses que fez um concurso de monografias entre os formandos do segundo grau e essa foi a temática. Teve um evento bem grande da formatura, no Centro de Convenções, que eu fui lá falar. Ou seja, criou-se toda uma discussão, uma temática sobre o apro-

A senhora fez a travessia do oceano em um ve-

veitamento disso. Esse tema veio à tona novamente.

leiro?

Ou seja, uma mobilização. E então acabei me envol-

Fiz. E vou te falar: navegação em um veleiro e já com

vendo nisso.

os recursos. Por que qual a primeira evidência, digamos, primeira em um sentido de uma ordem de cri-

Por quê?

térios? Esse da navegação, tanto no que diz respeito

Porque nessa pesquisa a gente foi juntando o que

a ventos e correntes, que eram absolutamente des-

foi chamado pelos historiadores e por todas essas

conhecidos por eles e as restrições de navegação das

pessoas de evidências, que são muito factíveis. En-

caravelas. Somando esses dois aspectos, eles fizeram

tão, se levanta essa suspeita e como eu já disse em

isso em 1500. Eu vim para cá no ano 2000. Ou seja, já

algumas entrevistas, não sei qual é a prova cabal

um ano tecnologicamente avançado. Ainda que meu

que nós, porque parece que muitos dos documentos

veleiro não fosse top de linha, mas GPS já tinha e todo

até do próprio Caminha e dos registros foram per-

um estudo de correntes e ventos do planeta todo, já

didos, houve incêndio nos museus em Portugal e em

mapeados. Porque esses são constantes, ventos e cor-

lugares onde estavam guardados. Eu tinha uma in-

rentes marítimas que são permanentes. Com tudo

tenção, até propus ao Bernardo, que acabou não se

isso estudado. E eu lembro de todo um esforço dos ve-

concretizando, de fazer um doutorado e vir a Por-

lejadores que fazem esse percurso. Porque tem uma

tugal para ver as fontes daqui. Mas eu não sei se foi

rota natural que é Costa Brasileira, Nordeste, Caribe,

explorado tudo isso. Eu acho que merece muito e até

o Sul ali dos Estados Unidos, até mais ou menos 40°,

um despertar pelos portugueses, porque me pare-

ali Nova York, vento oeste, pega a costa do Atlântico

ce que a Bahia tem um marketing melhor. Como eu

lá Portugal, desce. Ou seja, roteiro de um ano seria

sempre disse, o que eles fizeram foi falar primeiro.

de ciclo de vento favorável. É mais ou menos isso.

40


E quando você desce o Atlântico, quando você sai de

sei qual comprovação que a história precisa. Por tudo

Cabo Verde para passar essa zona subtropical, ela é

isso, eu abracei a tese. A gente aproveitou tudo isso e

absolutamente inconstante. É onde os ventos nascem

fez vários projetos ali para desenvolvimento. Hoje o

e onde eles morrem. A gente está a 5° aí em Natal, ao

turismo vive de storytelling. E a gente tem uma story-

sul do Equador. Agora, 8° norte, você tem uma varia-

telling para aproveitar. É o que eu dizia: o Rio Grande

ção de vento e às vezes uma calmaria. E tem um efeito

do Norte está cheio de temas, mas não sabe aproveitar.

de corrente que ela arrasta para o Caribe mesmo. Por exemplo, se você sai de Cabo Verde desavisado e vai

Então na sua avaliação, seria muito difícil Ca-

sendo arrastado, quando você chega aqui um pouco

bral chegar a Porto Seguro?

antes do Equador e encontra os alísios, que são os que

Eu não posso dizer impossível. Mas eu apostaria

batem forte aí na nossa costa — e só da Paraíba para

numa boa base estatística. Vamos deixar lá naque-

cima, não vamos esquecer — você é arrastado para

la imagem de erro do estudo dos 95% de possibilida-

o Caribe. O velejador sonha com essa paranóia ali.

de, mais até. Eu realmente acho. E porque tem outros

Então, eles encostam na África, eu não tô brincando.

fatores. Então, eu aposto mesmo que essas evidên-

Eles vão a Dakar para tentar pegar o máximo dos alí-

cias são muito fortes e que a probabilidade é muito

sios lá e cruzar numa velocidade só. Nós fizemos di-

grande, é muito grande. E tem um fato que é muito

ferente porque meu capitão era abusado e também a

interessante, porque depois eu fui me aprofundando.

gente foi acompanhando. Então, nos preparamos, por

A gente levantou dados, estudou bastante documentos

exemplo, com muita economia de combustível para

e um deles, então, dizia que os índios potiguares eram

encarar um contravento que tu começa a pegar o

antropófagos. Canibais e muito hostis. Extremamente

efeito acima desse alísio. Então, você pega ele na cara,

hostis. E que os índios da Bahia já aceitaram melhor

é um sul. Um sul mesmo, assim, que vai chegando no

o negócio, já gostaram do brilho do ouro, já se deixa-

Cabo Verde. Então, você tem que fazer muita mano-

ram seduzir. Então, diz que o nome atribuído a Porto

bra e muito esforço para vir nesse contravento, para

Seguro não é pela condição de navegação. E aí eu vou

chegar na costa aqui, no extremo nordeste. Então, foi

lhe dizer que isto é verdade. Porto Seguro é um hor-

assim suado, muito cálculo e nós tivemos amigos vele-

ror para ancorar. Os bancos de areia, ali você tem que

jadores que nós saímos juntos, fizeram uma rota dife-

ser muito esperto. Então, é base ali, Arraial d'Ajuda,

rente, nos encontramos em Canárias, em Cabo Verde,

é base para os barcos que vão a Abrolhos porque é

o último ponto. Ele foi para Dakar. Então, nós fizemos

mais perto. É base para esses barcos que não tem pro-

essa opção de ir descendo mais devagar, encarando

fundidade, mas para nós, por exemplo, veleiro com

o contravento e às vezes forçando com o motor até

calado, isso já é uma dificuldade. Então, foi chama-

encontrar os alísios. Mas a corrente é coisa de dois nós,

do de Porto Seguro justamente por isso: porque eles

dois nós e meio. Isso é muito de deriva. Então, pen-

foram bem recebidos pela população local. Não tem

sando a limitação — e eu tô falando de um veleiro

nada a ver com a condição de navegação também,

que orça. Orça é quando pega mais o contravento.

porque a costa do Nordeste toda, infelizmente, ela não

Uma caravela não tem muita orça, ela não tem ân-

tem águas abrigadas. Ela não tem milhas perto que

gulo de orça. Então essas restrições e depois as evidên-

permita, por exemplo, o que já tem do Rio de Janeiro

cias encontradas em terra, de cálculo, que o segundo

para baixo. A própria Bahia, depois de Salvador que

marco, a distância entre o Marco daí e o segundo em

muda muito. Eu me lembro que quando a gente subiu

Cananéia corresponde aos registros e não da Bahia.

a costa, não entramos em Porto Seguro. A gente foi

Eu acho que é só questão de resistência mesmo. Não

parar em Ilhéus. 41


ENTREVISTA

O que o Rio Grande do Norte perde por não

Há um comentário que fazem que esse turismo

explorar essa tese com tantas evidências?

em Porto Seguro, por conta do chamado “des-

Como raciocínio em termos turísticos, acho que nós

cobrimento", renderia em torno de R$ 1 bilhão

estamos perdendo um montão. Porque Porto Seguro

por ano. A senhora tem conhecimento disso?

não é nada sem esse fato histórico. Não seria nada

Eu acredito. Devolvo a pergunta: o que seria Porto

se não fosse esse o fator primordial. Hoje vivemos

Seguro sem esse fato histórico? A gente não pode es-

de experiências, de história e de atributos do lugar,

pecular, mas o que a gente sabe é que Porto Seguro

e nós temos aí um muito forte. Olha, eu vou te falar:

só é Porto Seguro hoje por conta desse fato histórico.

eu revolucionaria ali Pedra Grande. Faria um gran-

Senão, ele seria talvez uma outra praia lá que a gente

de memorial. No formato das ocas indígenas, que

nem saberia o nome. O meu raciocínio como cientista

são maravilhosas. Enfim, nós perdemos em termos

é isso: levantar questionamentos.

disso, de reconhecimento histórico. Isso é um fator histórico importante. Para a navegação isso é mui-

A senhora encontrou resistência com relação a

to importante. Para cultura náutica, isso é impor-

essa tese aqui no Rio Grande do Norte?

tante, que é uma outra batalha que a gente tem, que

Pelo contrário. Só apoio. Não. Teve uma pessoa assim,

o Brasil é um país de costas para o mar, as pessoas

que agora eu não vou me lembrar, ele até esteve na

nem entendem as condições assim. Enfim, eu acho

audiência (em Touros). Porque ele dizia que para isso

que por ser um fato histórico questionável, eu acho

a gente não tinha que questionar, mas sim reconhe-

que ele por si só já é bastante relevante. E depois ele

cer o fato de que foi o primeiro tratado, acho que é

pode ser usado tanto como reconhecimento histórico

uma data aí de agosto de fundação do Rio Grande do

como para gestão dos destinos. São municípios muito

Norte. Teve um alguém que nos questionou, dizendo

carentes. Touros, São Miguel e Pedra Grande — que

que isso era irrelevante. Eu não concordo. É porque

são os três municípios envolvidos — têm imensos

queria chamar atenção para a tese dele. Eu senti ali

atributos para serem aproveitados em termos de

na hora que, tipo assim: ‘não, a minha tese é mais im-

atração de visitantes e de contar a história do Brasil.

portante, daí vamos isso que é fato, que se pode com-

O Brasil é um país que precisa de muito conhecimen-

provar, não vamos comprar essa briga com a Bahia’.

to. Eu acho que só tem ganhos E não precisa comprar briga com a Bahia. E eu acho que também é

Por que não andou esse trabalho de aproveitar

preciso ver isso sob o aspecto da reparação histórica.

essa tese?

Por que eu vou incorrer num erro, se é questionado?

Interesse político. Só isso que faltou. Pronto. Interesse

Ou ficar contando uma história que não é verdadei-

político. Para mim faltou muito interesse e falta de vi-

ra? Eu acho que está aí pelo menos a hipótese lança-

são. Vocês estão num estado lindo. Morei 23 anos, 25

da. E é como eu disse também numa das entrevistas: a

no RN. Minha filha nasceu aí. Quando cheguei de bar-

dúvida já é um atrativo. Seja ou não seja, no turismo

co, falei: "É aqui que eu vou ficar, maravilhoso". Mas,

o que importa é a dúvida. A polêmica é até melhor.

então, me decepcionei muito com isso, sabe? Com essa

A polêmica é ótima como atrativo. E a gente nem está

falta de vontade. É por isso que eu digo: a Bahia foi

fazendo uma provocação. A gente está levantando

lá, catou o negócio, fez o marketing e ó, se apropriou.

elementos que põem em questão isso.

É que a gente não se apropria dos próprios fatos. No caso. Acho que essa é a palavra.

42


GOVERNO

TESE PODERIA SE TORNAR GRANDE DIFERENCIAL TURÍSTICO E CULTURAL PARA O RN, AFIRMA SECRETÁRIA DE TURISMO DO RN Marina Marinho explica que a Setur-RN acompanha com interesse as discussões sobre o assunto e defende que consolidação da tese pode representar nova porta para o turismo histórico e educacional no RN

abertura de um diálogo maior vi-

Ela acredita que a “tese, se bem

sando transformar esse conteúdo

estruturada e validada cientifica-

histórico em atrativo turístico.

mente, pode se tornar um gran-

“Trata-se de uma narrativa histórica que tem potencial para

de diferencial turístico e cultural para o Rio Grande do Norte”.

ampliar o protagonismo do nosso

“Assim como Porto Seguro se

estado na história do Brasil, valo-

consolidou como um destino his-

rizando ainda mais a nossa cos-

tórico nacional, o RN poderia

ta e o nosso patrimônio natural

fortalecer sua identidade como o

s novas publicações e debates

e cultural. Nós estamos abertos a

berço do Brasil, atraindo turistas

sobre a tese de que o chamado

dialogar com pesquisadores, ins-

interessados em história, cultura

“descobrimento” do Brasil acon-

tituições de ensino e entidades do

e educação. Além disso, isso esti-

teceu no Rio Grande do Norte é

trade turístico para avaliar for-

mularia novos roteiros turísticos,

acompanhada com muito inte-

mas de transformar esse conteú-

investimentos em infraestrutura,

resse pela Secretaria de Turismo

do histórico em produto turístico,

sinalização histórica, e ações de

do Rio Grande do Norte. Quem

respeitando sempre a ciência, a

valorização das comunidades lo-

afirma é a secretária Marina Ma-

pesquisa e a preservação da me-

cais", acrescenta.

rinho, que inclusive defende a

mória", afirma a secretária. 43


GOVERNO

Marina Marinho, secretária de Turismo do RN

Marina Marinho explica que a

ciência, cultura e turismo em prol

“Isso traria legitimidade ao de-

Setur-RN tem recebido manifes-

da valorização da nossa história e

bate e permitiria que, caso a tese

tações de interesse de pesquisa-

da nossa identidade", defende.

se fortaleça, ela seja incorporada

dores e de instituições culturais

Na opinião dela, a comprova-

de maneira institucional ao po-

que veem na discussão uma opor-

ção definitiva da tese poderia vir

sicionamento turístico e históri-

tunidade de resgate histórico.

de “estudos científicos robustos,

co do Rio Grande do Norte. É um

“A Secretaria está aberta a fomen-

arqueológicos, cartográficos, náu-

passo que pode colocar o estado

tar esse diálogo de forma organi-

ticos e históricos, que comprovas-

no centro de uma nova narrativa

zada e participativa, com o apoio

sem, de forma convergente, que

sobre o descobrimento do Brasil",

de universidades e órgãos de pa-

a esquadra portuguesa primeiro

defende.

trimônio histórico, para que esse

avistou e tocou o solo brasileiro

debate seja conduzido de forma

aqui, na costa potiguar".

técnica e respeitosa", diz.

A secretária acrescenta ainda que a possibilidade de estabele-

Na visão da secretária, isso

cer a tese do descobrimento po-

Ela acredita que a discussão

exige mais “pesquisas de campo,

deria ser um ponto de virada no

precisa de apoio institucional,

comparações de documentos his-

turismo local.

tanto em âmbito federal quanto

tóricos e o envolvimento de espe-

“O Rio Grande do Norte tem

estadual. E que uma das possibi-

cialistas de várias áreas". Daí ela

uma das costas mais belas e ricas

lidades de dar apoio a este traba-

defende que se torna fundamen-

em história do país. Se for com-

lho que vem sendo desenvolvido

tal conduzir o debate com base

provado que o descobrimento se

seria a criação de um grupo de

na ciência e não apenas no entu-

deu realmente por aqui, estaremos

trabalho para divulgar a tese.

siasmo local.

não apenas reafirmando nossa

“Poderíamos pensar, por exem-

Marina Marinho concorda que

importância no cenário nacional,

plo, em uma articulação com

um bom caminho para dar mais

mas também abrindo uma nova

o Ministério do Turismo, com o

apoio às pesquisas sobre o tema

porta para o turismo histórico e

IPHAN e com o Ministério da Cul-

poderia ser a formação de uma

educacional. O importante é que

tura, para criar um grupo de tra-

comissão com representantes de

esse processo seja conduzido com

balho interinstitucional voltado a

diferentes instâncias para con-

seriedade, diálogo e muito respeito

estudar e divulgar essa possibili-

duzir estudos de forma coorde-

à história", argumenta.

dade. É uma pauta que pode unir

nada.

44


PERSPECTIVA

COMPROVAÇÃO DA TESE DO "DESCOBRIMENTO" NO RN TRARIA GANHOS IMENSURÁVEIS, AFIRMA ABIH Presidente da Associação, Edmar Gadelha, afirma que o estabelecimento da tese de que o Brasil foi "descoberto" no RN geraria mais voos, mais hospedagens, mais empregos e renda. E teria o poder de reposicionar o RN no cenário turístico nacional

“O ganho seria imensurável,

“Trata-se de um debate embasa-

pois milhões de turistas visitam

do em novas leituras de documen-

Porto Seguro movidos por essa

tos históricos, correntes oceânicas

narrativa histórica. Significaria

e ventos que, comprovadamente,

mais voos, mais hospedagens,

levariam as caravelas de Cabral

presidente da Associação Brasi-

mais empregos, mais renda e um

primeiro ao litoral do Rio Grande

leira de Hotéis e Restaurantes no

reposicionamento do estado no

do Norte, mais especificamente à

Rio Grande do Norte (ABIH-RN),

cenário turístico nacional", avalia.

região do atual município de Tou-

Edmar Gadelha, acredita que,

Ele explica que a ABIH-RN en-

ros. A 'tese do Rio Grande do Norte'

caso a tese do descobrimento do

xerga com seriedade os debates

é uma hipótese histórica que me-

Brasil na costa potiguar seja con-

que envolvem a tese e considera

rece ser investigada e, se compro-

solidada, isso impulsionaria o tu-

que por todos os elementos que

vada, celebrada", afirma.

rismo no estado de uma maneira

já foram levantadas, essa hipóte-

diferenciada.

se merece ser investigada. 45


PERSPECTIVA

Ele explica que a ABIH-RN não possui nenhum projeto ou iniciativa formal referente à tese do descobrimento, mas que a entidade acompanha com interesse tudo o que vem sendo desenvolvido e conduzido pelos pesquisadores que se dedicam a estudar o assunto. Edmar Gadelha também considera que seria necessária uma ação política no sentido de viabilizar recursos para pesquisas na área e também para criar infraestrutura nos locais envolvidos. “E, principalmente, atuar junto ao Ministério do Turismo e

Edmar Gadelha, presidente da ABIH-RN

ao IPHAN para o reconhecimento oficial da rota e dos monumentos", diz.

isso deveria unir todos. “O assunto

Na opinião dele, a comprova-

deveria elencar um projeto para o

ção definitiva da tese de que o

nosso estado. Deve ser uma agen-

descobrimento foi pelo Rio Grande do Norte poderia ser alcançada por meio de uma “evidência arqueológica incontestável". “Especificamente, a descoberta de artefatos portugueses datados do período imediatamente anterior a 1501 na costa potiguar – como

“Sem o amadurecimento necessário para ser tratada como uma pauta nacional do trade turístico”

da suprapartidária, unindo todos em torno de um objetivo comum: recolocar o Rio Grande do Norte no lugar de destaque que merece na história do Brasil", argumenta. Pessoalmente, Edmar Gadelha é um dos que concorda com a tese e vê no Marco de Touros a

restos de uma embarcação, uma

evidência principal para susten-

peça de artilharia, ou qualquer

tar essa hipótese como a que se-

objeto com datação confirmada

ria a mais correta. “Acredito que o

por volta de 1500", explica.

Marco de Touros, de 1501, erguido

Ele acredita que por mais que

amadurecimento necessário para

em uma expedição comprovada-

já existam estudos sobre a ques-

ser tratada como uma pauta na-

mente de reconhecimento, não

tão, ainda não é o caso de provo-

cional do trade turístico", detalha.

está aqui por acaso. Ele marca um

car a ABIH nacional para discu-

Ele defende, entretanto, que a

ponto de referência fundamen-

tir a questão. Na avaliação dele,

questão precisa envolver os po-

tal, a primeira terra verdadeira-

a discussão ainda está em nível

líticos que defendem o interesse

mente avistada e reconhecida",

regional e acadêmica. “Sem o

do Rio Grande do Norte. E que

afirma.

46


HISTÓRIA

SOB O PONTO DE VISTA DO TURISMO, PESQUISAS SÃO IMPORTANTÍSSIMAS, APONTA KOKINHO Historiador avalia a tese do descobrimento pelo RN e as pesquisas que a defendem. Na opinião dele, o assunto é importante principalmente para o turismo

Ele é autor — juntamente com

“Essa discussão esteve associa-

a historiadora Marlene da Sil-

da à importância da localização

va Mariz — do livro “História do

geográfica do RN no contexto da

Rio Grande do Norte”; e também

história mundial. A importância

é professor do curso de História

da discussão está porque envolve

historiador Luiz Eduardo Bran-

da Universidade Federal do Rio

outros fatores históricos o que faz

dão Suassuna, mais conhecido

Grande do Norte (UFRN).

tecer o entrelaçamento de situa-

como Kokinho, acredita que a

Kokinho explica que a “chega-

pesquisa em torno da tese de que

da dos portugueses ao Brasil ter

o Rio Grande do Norte teria sido o

sido no litoral do Rio Grande do

Na avaliação dele, os estudos

primeiro local no qual os portu-

Norte é uma discussão que per-

feitos por pesquisadores como

gueses desembarcaram no Brasil

meia todo o século XX, principal-

Lenine Pinto e Manoel Cavalcanti

é muito importante, sob o ponto

mente na segunda metade do re-

e que envolvem o levantamento

de vista do turismo.

ferido século".

de dados “por si só, têm impor-

ções políticas, econômicas, sociais e culturais", acrescenta.

47


HISTÓRIA

Kokinho, professor e historiador

“Em termos de história política tem pouco significado. Por outro lado, para o turismo é importantíssimo, tanto a discussão como a comprovação”

tância ímpar". “É válido ressaltar que as conclusões

Ele aponta que o professor Tarcísio Medeiros tam-

que chegaram são robustas e impactantes", afirma o

bém discorre sobre o assunto em dois livros: “Aspec-

historiador.

tos Políticos e Antropológicos do RN” e “Proto His-

O historiador também defende que esse assunto

tória do Rio Grande do Norte". “Ressalto o que disse

deveria ser debatido em sala de aula. “É um assun-

anteriormente: esses livros apresentam um estudo

to empolgante, gera discussão e debate", observa. Ele

sobre a importância da localização geográfica do RN

aponta ainda que esse assunto não é uma discussão

e nesse contexto ele analisa vários pontos, inclusive

recente.

esse", explica.

“Este assunto foi estudado na década de 1950, por

Na opinião pessoal de Kokinho, “o local que os por-

historiadores, hoje relativamente esquecidos, como

tugueses chegaram à costa brasileira é irrelevante,

José Moreira Brandão Castello Branco Sobrinho,

até porque naquela época 'não' havia nem Rio Gran-

quando estudou a importância geográfica do RN",

de do Norte, nem Bahia". “Em termos de história po-

informa. O pesquisador citado foi também jurista,

lítica tem pouco significado. Por outro lado, para o

integrou o Instituto Histórico Brasileiro e tio-avô de

turismo é importantíssimo, tanto a discussão como

Kokinho.

a comprovação", conclui.

48


LEGISLATIVO

AÇÃO POLÍTICA É ESSENCIAL PARA CONSOLIDAR A TESE, AFIRMA PRESIDENTE DA COMISSÃO DE TURISMO DA ALRN Deputado Hermano Morais defende ação política ampla para ajudar na consolidação da tese de que o “descobrimento” do Brasil ocorreu no RN, endossa apoio à discussão e avalia a convocação de uma audiência pública para debater o assunto e traçar estratégias visando beneficiar o turismo potiguar

científicas para solidificar o ar-

conhecimento e ampliar as dis-

gumento e direcionar recursos

cussões que esclarecem o fato. Já

e esforços para a exploração tu-

no plano mais local, pode-se criar

rística" da tese que coloca o Rio

projetos que deem ampla publici-

Grande do Norte como primeiro

dade em locais públicos e priva-

presidente da Comissão de Tu-

local avistado e de desembarque

dos de visitação como praias, sho-

rismo da Assembleia Legislativa

dos portugueses.

ppings, aeroportos, parques, etc", opina.

do Rio Grande do Norte (ALRN),

Segundo ele, “toda a classe, em

deputado Hermano Morais, de-

diversas esferas, deve estar empe-

E complementa: “Na condi-

fende que “é crucial que a esfera

nhada em divulgar e sustentar a

ção de presidente da Comissão

política abrace as descobertas

tese". “No âmbito federal, levar a

de Turismo, vejo a publicação de 49


LEGISLATIVO

Deputado Hermano Morais

“Ao reivindicar cientificamente ser o local do verdadeiro 'porto seguro' o RN pode adicionar uma camada robusta de turismo histórico e cultural de relevância nacional”

50

artigos científicos que apontam a

“Ao reivindicar cientificamen-

costa do RN como o primeiro local

te ser o local do verdadeiro 'por-

avistado e também como ponto

to seguro' o RN pode adicionar

de desembarque dos portugueses

uma camada robusta de turismo

com grande entusiasmo e como

histórico e cultural de relevância

um fator de profunda transfor-

nacional, atraindo um novo seg-

mação para o estado".

mento de visitantes e valorizar

Na avaliação dele, “o fato de a nova proposta para o Monte Pas-

Sítios Históricos e Geográficos", observa.

coal (chamado de Monte Pascoal

O deputado afirma que é seu

Potiguar ou Morro da Serra Ver-

papel “apoiar ativamente a dis-

de) e o 'porto seguro' (Praia do

cussão dessa tese". “A intenção de

Marco) se alinharem às descrições

convocar uma audiência pública

detalhadas de Caminha confere

é extremamente pertinente e ne-

a esses artigos uma credibilidade

cessária. Essa audiência pública

científica que não pode ser igno-

serviria como um passo funda-

rada no debate turístico e históri-

mental para apresentar a evidên-

co".

cia científica", diz.


“A intenção de convocar uma audiência pública é extremamente pertinente e necessária. Essa audiência pública serviria como um passo fundamental para apresentar a evidência científica”

ta que o parlamento potiguar

Outra medida seria financiar as

também pode ajudar nessa ini-

universidades (como a UFRN, li-

ciativa para fortalecer o turismo

gada a um dos autores do estudo)

potiguar. Na avaliação do parla-

para que continuem as investiga-

mentar, isso poderia ser feito por

ções necessárias para a consolida-

meio criação de “marcos legais

ção da tese e integrar os locais da

que reconheçam e valorizem os

descoberta (Morro da Serra Verde,

sítios apontados pela pesquisa

Rio Punaú, Praia do Marco) em

(como a Praia do Marco e o Morro

novos roteiros turísticos, promo-

da Serra Verde), garantindo sua

vendo uma narrativa coesa e ba-

preservação e a inclusão em rotei-

seada em dados", opina. O deputado afirma que os da-

ros turísticos estaduais". “No orçamento, pedir para in-

dos científicos são muito fortes e

cluir a alocação de recursos para

que ele, pessoalmente, não acre-

a pesquisa contínua e a validação

dita que o local do primeiro avis-

da tese, bem como para o desen-

tamento e desembarque da frota

volvimento de infraestrutura nas

de Cabral foi em Porto Seguro

áreas afetadas, como o Rio Punaú/

(BA). Ele vai além e ressalta que

Praia de Zumbi (local do provável

as evidências têm poder para al-

primeiro contato) e a Praia do

terar ainda mais a história oficial.

Marco. Além disso, usar a influên-

“É importante ressaltar que a

cia política para promover a tese

chegada dos portugueses ao Bra-

em nível nacional e internacional,

sil pode ter ocorrido antes mesmo

Segundo Hermano, essa au-

integrando-a ao marketing oficial

da frota de Cabral. As investiga-

diência pública seria a forma de

do estado", sugere, ainda com re-

ções sugerem que o explorador

reunir os autores dos artigos e

lação ao papel da ALRN.

português Bartolomeu Dias deve

outros especialistas para deta-

No que diz respeito ao Gover-

ter sido o primeiro europeu a

lhar publicamente a análise de

no do RN, Hermano Morais enten-

chegar à costa nordeste do Brasil,

rota e a comparação das descri-

de que a melhor forma de ajudar

impulsionado pelos ventos e cor-

ções do Monte Pascoal Potiguar e

seria o Executivo adotar “uma

rentes marítimas, como parte da

da Praia do Marco com os dados

postura proativa para impulsio-

manobra conhecida como ‘volta

da Carta de Caminha.

nar a discussão e a exploração tu-

do mar’”, observa.

“Além disso, envolveríamos o

rística da tese". Segundo ele, um

E enfatiza: “Essa primeira che-

Governo do RN, a Assembleia Le-

primeiro passo seria a realização

gada de Bartolomeu Dias ao Nor-

gislativa, a comunidade acadêmi-

de campanhas de marketing e

deste do Brasil deve ter ocorrido

ca, o setor privado de turismo e a

educação.

no final de 1487, quase 13 anos

sociedade civil na discussão e no

“Seria

interessante

também

antes da frota de Cabral. Isso for-

planejamento da exploração tu-

desenvolver a infraestrutura na

talece ainda mais a primazia

rística", detalha.

Praia do Marco e no Morro da

histórica do litoral nordestino, e

Com relação à Assembleia

Serra Verde, destacando os pontos

especificamente do RN, na era das

Legislativa, o deputado acredi-

de avistamento e desembarque.

grandes navegações". 51


DEBATE

ALRN JÁ APROVOU PROJETO E PROMOVEU AUDIÊNCIA EM TOUROS Em 2000, por proposição do então deputado Valério Mesquita, a Assembleia Legislativa aprovou lei estadual instituindo o dia 7 de agosto como Dia do Rio Grande do Norte, uma alusão à colocação do Marco de Touros

O debate no Legislativo poti-

chantado em território potiguar

guar se deu no início dos anos

pelos portugueses no dia 7 de

2000. Na época, o então deputa-

agosto de 1501.

do estadual Valério Mesquita foi

Segundo os estudos nos quais

questão do chamado descobri-

quem propôs a legislação. O texto

se baseou Valério Mesquita —

mento do Brasil já foi discutida

foi sancionado pelo então gover-

feitos pelo jornalista e historia-

pela Assembleia Legislativa do

nador Garibaldi Alves Filho em

dor Marcus César Cavalcanti —

Rio Grande do Norte e acabou

maio de 2000.

o Marco seria o monumento mais

resultando em uma lei estadual,

A lei em questão institui o dia

antigo deixado no litoral brasilei-

mas que não concorda com a

07 de agosto como sendo a data

ro pelas caravelas comandadas

tese de que o primeiro lugar onde

de criação do Rio Grande do Nor-

por André Gonçalves e Gaspar de

os portugueses desembarcaram

te. A data faz alusão à tese de

Lemos, trazido na comitiva o cos-

foi na costa potiguar.

que o Marco de Touros teria sido

mógrafo Américo Vespúcio.

52


Audiência pública reuniu pesquisadores e especialistas em Touros

“Precisamos abraçar esse tema para que o povo tenha acesso a esses argumentos e quem sabe, possamos mudar a história”

Em maio de 2000, quando

Rosana Mazaro foi uma das que

ocorreu o III Encontro Regional

participou da audiência. na épo-

dos Institutos Históricos do Nor-

ca ela já defendia que era preciso

deste Brasileiro, em Natal, Valério

“ter inteligência para transfor-

Mesquita aproveitou para divul-

mar essa história em atrativos e

gar a lei na presença do então

reverter isso para o RN”.

ministro da Cultura Francisco

O propositor da audiência pú-

Welfort; do ex-ministro Almi-

blica foi na mesma linha. “Pre-

no Afonso e dos presidentes dos

cisamos abraçar esse tema para

Institutos Históricos do Ceará,

que o povo tenha acesso a esses

Paraíba, Pernambuco, Alagoas,

argumentos e quem sabe, possa-

Sergipe e Bahia à época.

mos mudar a história. As poten-

Em 2018, o assunto do desco-

cialidades turísticas que podem

brimento do Brasil voltou a ser

resultar a partir desse assunto são

debatido pelo Legislativo poti-

inestimáveis”, disse Carlos Au-

Também de acordo com in-

guar. Naquele ano, por propo-

gusto Maia.

formações publicadas na época,

sição do então deputado Carlos

O historiador e escritor Antô-

o levantamento feito por Marcus

Augusto Maia, foi realizada uma

nio Holanda também participou

César Cavalcanti inclui pesqui-

audiência pública na Câmara

do debate e foi mais um a des-

sas de Câmara Cascudo, Oswal-

Municipal de Touros com o tema

tacar que era preciso discutir

do Câmara e Olavo Medeiros. De

“Touros, o Brasil nasceu aqui".

melhor a questão. “Há 20 anos

acordo com esses dados, o marco

Participaram do debate histo-

que defendo a teoria que o Brasil

do descobrimento que existe no

riadores, estudiosos, vereadores

nasceu aqui no RN. E isso é mui-

centro de Porto Seguro, na Bahia,

de Touros e de Natal e represen-

to importante para a gente. E me

veio de Portugal em 1503, dois

tantes do setor turístico do es-

incomoda essa falta de reconheci-

anos depois.

tado e município. A professora

mento", afirmou, na época. 53


COMÉRCIO

A TESE PODE GERAR VALOR TURÍSTICO E SIMBÓLICO, AVALIA O PRESIDENTE DA FECOMÉRCIO Marcelo Queiroz vê as novas discussões sobre a tese de que o “descobrimento” do Brasil teria ocorrido no RN como uma oportunidade para o turismo. A Federação, afirma ele, tem interesse que o debate traga benefícios sociais e econômicos para o estado

oportunidade de diversificar

roz, vê a discussão sobre a tese

turismo (hotelaria, alimentação,

de que o primeiro avistamento

guias, artesanato). Mas é impor-

e desembarque da esquadra de

tante construir produto turístico

Pedro Álvares Cabral no Brasil

com responsabilidade científica e

ocorreu na costa potiguar.

respeito às comunidades locais", defende.

de valorizar um atrativo cultural

Ele acredita que o reconheci-

que pode impulsionar turismo de

mento como hipótese sólida pode

O presidente da Fecomércio

história e educação, além de bene-

gerar ganhos para o turismo po-

faz ainda outra ressalva. “O RN

fícios econômicos locais”. É dessa

tiguar. “A tese pode gerar valor

já tem outros fortes diferenciais

forma que o presidente da Fede-

turístico e simbólico: roteiros te-

(praias, ecoturismo, cultura) — a

ração do Comércio de Bens, Ser-

máticos, museus, eventos come-

hipótese seria um complemento,

viços e Turismo do Estado do RN

morativos, aumento de visitação e

não a única peça possível de pro-

(Fecomércio RN), Marcelo Quei-

geração de empregos na cadeia do

moção”. “Além disso, entendemos

54


Marcelo Queiroz, presidente do Fecomércio-RN

que a difusão cada vez maior des-

“No entanto, como entidade re-

co-privadas para infraestrutura

sa tese permitirá ao estado surgir

presentante do Comércio de Bens,

turística, promover capacitação

como um destino de importân-

Serviços e Turismo, a Fecomércio

de trabalhadores do turismo e ar-

cia histórica, até mesmo junto à

RN entende que a conclusão defi-

ticular empresários para investi-

Bahia, até de forma complemen-

nitiva depende de consenso cien-

mentos em musealização, sinali-

tar", acrescenta.

tífico e interdisciplinar — até lá,

zação e roteiros culturais", afirma.

acolhemos e divulgamos o diálogo

Marcelo Queiroz explica que

Marcelo Queiroz avalia que os artigos dos físicos Carlos Ches-

técnico", explica.

a Federação também pode fo-

man e Cláudio Furtado que de-

Segundo ele, sob essa ótica de

mentar debates e seminários que

fendem e reforçam a tese já ex-

construção desse novo cenário

aproximem universidade, setor

posta por outros pesquisadores

para o turismo, a entidade pode

privado e poder público. Ele tam-

são uma “contribuição científica

contribuir. “O Sistema Fecomér-

bém avalia que a construção des-

relevante que merece ser consi-

cio RN, Sesc e Senac pode apoiar

sa nova fronteira para o turismo

derada com seriedade; abre espa-

campanhas de difusão do conhe-

potiguar precisa de um apoio

ço para reavaliações históricas e

cimento, facilitar parcerias públi-

mais amplo.

para o debate acadêmico". 55


COMÉRCIO

“Não existe atalho: exige produção científica multidisciplinar e replicável — mais estudos com informação e dados confiáveis, análise documental e consenso entre historiadores e especialistas”

“Outras entidades como se-

criação de “um grupo técnico

tória, as hipóteses avançam por

cretarias de Turismo, governos,

interinstitucional, apoiar pesqui-

acúmulo de evidências e revisão

prefeituras, associações de hotéis

sas e infraestrutura de museus,

crítica", diz.

e operadores, universidades e ins-

incluir o tema nas políticas de

Na opinião pessoal dele, “as

titutos de pesquisa devem criar

turismo com roteiros, sinalização

evidências recentes são intrigan-

uma agenda comum: financiar

e capacitação, e fazer divulgação

tes e reforçam a necessidade de

investigação, planejar produtos

responsável enquanto se busca

reavaliar rotas e descrições anti-

turísticos sustentáveis, integrar

validação científica”. “Priorizar

gas, mas não temos como afirmar

roteiros ao marketing regional

preservação do patrimônio e diá-

categoricamente que a chega-

e garantir padrões de qualidade

logo com comunidades tradicio-

da foi na Bahia ou no RN sem o

para guias e atendimento", suge-

nais", defende.

consenso acadêmico necessário".

re.

Para o presidente da Fecomér-

“A discussão científica deve pros-

E acrescenta: “A nossa expe-

cio, um bom caminho para que

seguir; o que nos interessa é que

riência em iniciativas que apoiam

a hipótese se fortaleça cada vez

o debate traga benefícios sociais e

o Turismo Sustentável, por meio

mais é o aprofundamento dos es-

econômicos para o estado", afirma

do Senac RN, mostra que a coor-

tudos e a ampliação dos debates.

Marcelo Queiroz.

denação entre os atores evita so-

“Não existe atalho: exige produção

breposição e amplia impacto eco-

científica multidisciplinar e repli-

nômico".

cável — mais estudos com infor-

Além disso, Marcelo Queiroz

mação e dados confiáveis, análise

entende que o Governo do RN

documental e consenso entre his-

poderia contribuir por meio da

toriadores e especialistas. Na his-

56


TURISMO

"COM UMA NARRATIVA FORTE, VALIDADA E BEM TRABALHADA, O RN PODE GANHAR MUITO", AVALIA EMPROTUR Presidente da Empresa Potiguar de Promoção Turística, Raoni Fernandes, explica que a tese do “descobrimento” no RN abre grande oportunidade de posicionamento porque poucos destinos podem ancorar sua promoção em um fato histórico de alcance nacional

o ponto de vista da promoção

A afirmação é do presidente da

da tese que coloca o RN como

Empresa Potiguar de Promoção

primeiro ponto de desembarque

Turística (Emprotur), Raoni Fer-

da esquadra de Pedro Álvares

nandes.

Cabral, a Empresa pode transfor-

turística, qualquer evidência que

Ele explica que “não cabe à

mar o conteúdo em campanhas,

coloque o Rio Grande do Norte no

Emprotur validar teses científi-

produtos e experiências que re-

centro de uma narrativa históri-

cas — isso é atribuição da Setur

forcem nossa visibilidade nacio-

ca tão relevante abre uma grande

e dos órgãos de pesquisa". Con-

nal e internacional.

oportunidade de posicionamento".

tanto, havendo respaldo técnico 57


TURISMO

Raoni Fernandes, presidente da Emprotur

“Existem destinos brasileiros conhecidos pelo sol e mar, mas poucos podem ancorar sua promoção em um fato histórico de origem nacional”

58

“Nossa principal atuação, neste

Raoni Fernandes explica ain-

momento, é acompanhar o debate

da que a Empresa está “mapean-

técnico conduzido pela Setur e pe-

do oportunidades de storytelling

las instituições científicas. A par-

que conectem esse possível marco

tir do momento em que houver

histórico com outros produtos já

conteúdo validado, a Emprotur

existentes no estado, como turis-

está preparada para criar narra-

mo cultural, natureza e gastrono-

tivas promocionais, materiais de

mia".

campanha, roteiros interpretati-

Na avaliação do presidente da

vos, vídeos, press trips e ações de

Emprotur, o Rio Grande do Nor-

relações públicas que traduzam

te pode ganhar muito caso a tese

essa história para o mercado tu-

se fortaleça e passe a ser consi-

rístico", afirma.

derada como uma hipótese real.


“Nosso papel é transformar o conhecimento histórico — uma vez autenticado pela Setur — em valor turístico e visibilidade para o RN”

Na opinião do presidente da

meçar a pensar produtos temá-

Emprotur, a tese também pode

ticos, como receptivos, trilhas e

atrair mídia espontânea, ampliar

city tours; desenvolver materiais

o calendário de eventos e come-

próprios de comunicação; e ca-

morações; e fortalecer o turismo

pacitar equipes para contar essa

interno com escolas, universida-

história com clareza e respon-

des e pesquisa.

sabilidade. “É um tema que pode

“Porto Seguro (BA) se tornou

movimentar toda a cadeia — hos-

um destino icônico ao conectar

pedagem, gastronomia, agências,

história e experiência. O RN pode

guias, museus e economia criati-

trilhar caminho semelhante, mas

va", observa.

com sua própria autenticidade", afirma.

Ele também avalia que, no caso do Governo do Estado, é possível

Raoni Fernandes diz ainda que

desempenhar uma articulação

a partir da validação da tese, a

política que envolverá a Setur,

Emprotur pode “agir de forma

cultura, educação, municípios e

muito objetiva", criando campa-

trade. “Isso significa apoiar a pes-

nhas e narrativas promocionais;

quisa técnica, estimular criação de

criar material institucional para

espaços de interpretação, facilitar

operadores turísticos, impren-

investimentos em infraestrutura

sa e público final; e desenvolver

turística e coordenar uma estra-

press trips e famtours temáticos.

tégia integrada de comunicação

Além disso, segundo ele, tam-

pública que fortaleça a narrativa.

bém é possível “inserir o tema

Com isso, a Emprotur ganha base

nas apresentações de destino, fei-

sólida para promover o tema com

“Com uma narrativa forte, vali-

ras, capacitações e roadshows; ali-

escala e eficiência".

dada e bem trabalhada, o RN pode

nhar o storytelling com os muni-

Na opinião pessoal do presi-

ganhar muito em diferenciação",

cípios envolvidos e com o trade; e

dente da Emprotur, “não há mais

diz.

produzir vídeos, reportagens es-

dúvidas sobre dois aspectos impor-

peciais, roteiros sugeridos e con-

tantes para a história". “Primeiro

teúdos digitais".

não houve descobrimento, aqui

“Existem destinos brasileiros conhecidos pelo sol e mar, mas poucos podem ancorar sua promoção

“Nosso papel é transformar o

já residiam os povos originários,

em um fato histórico de origem

conhecimento histórico — uma

nossos antepassados. Em segundo

nacional", acrescenta.

vez autenticado pela Setur — em

lugar, sim, acredito na tese de que

valor turístico e visibilidade para

os primeiros portugueses desem-

o RN", expõe.

barcaram primeiramente no lito-

Segundo ele, isso abre portas para que seja criada uma nova comple-

Com relação ao trade turístico,

mentar à que o estado já possui e

ele acredita que já é possível co-

identidade

turística,

ral potiguar e seguiram posteriormente para Porto Seguro".

também possibilita o desenvolvimento de produtos educacionais, culturais e temáticos. 59


EMPRESAS

SINDETUR ACREDITA QUE RN PODERIA TER VANTAGEM COM NOVO ATRATIVO TURÍSTICO Entidade que representa as empresas de turismo avalia que tese do “descobrimento” do Brasil no RN poderia gerar benefícios econômicos, mas requer aprofundamento, ação política e também um conjunto de ações

“Caso venha a ser concretizado

Entre as medidas que o Sindetur

esses artigos e estudos, só teremos

pensa está a ideia de promover

vantagem no reconhecimento his-

eventos e debates referentes à

tórico e cultural com atrativos

história do RN, “convidando histo-

turísticos significativos, gerando

riadores, especialistas e autorida-

Sindicato das Empresas de Tu-

benefícios econômicos", diz a vi-

des locais".

rismo do Rio Grande do Norte

ce-presidente da entidade, Deca

(Sindetur) avalia que o Rio Gran-

Bolonha.

Segundo Deca Bolonha, também seria possível “desenvolver

de do Norte poderia ganhar mui-

Atualmente o Sindetur não

materiais de divulgação (vídeos,

to caso fosse consolidada a tese

possui nenhuma ação voltada à

post nas redes sociais) comparti-

de que o Rio Grande do Norte foi

divulgação da tese porque aguar-

lhando a história do RN; e desen-

o primeiro local onde os portu-

da alguma conclusão acerca do

volver Roteiros turísticos que va-

gueses avistaram e atracaram

tema. E que a partir daí poderá

lorizem o patrimônio histórico e

em 1500.

tomar

cultural do estado".

60

algumas

providências.


Vice-presidente do Sindetur, Deca Bolonha

“É um assunto que precisamos nos aprofundar mais para termos uma credibilidade suave sem melindrar a Bahia que já está marcada com esse descobrimento”

A vice-presidente do Sindetur

Ela recorda que o Governo

acredita ainda que as demais en-

do RN já chegou a trabalhar em

tidades ligadas ao turismo pode-

cima desta tese, mas que isso

riam agir da mesma forma. E ob-

não foi continuado. Deca Bolo-

serva que uma ação política em

nha opina que o governo deveria

torno do tema poderia impulsio-

acompanhar mais os estudos que

nar essa consolidação e uma me-

estão sendo divulgados e “parti-

lhor exploração dessa que pode

cipar com mais clareza".

ser uma oportunidade de fomen-

Com relação à sua opinião

to para o turismo norte-rio-gran-

pessoal acerca do assunto, ela

denses.

acredita que ainda é necessá-

“Na minha opinião, esse atra-

rio aprofundar mais a questão.

tivo só vem para somar. O RN é

“É um assunto que precisamos

muito rico em atrativos turísticos,

nos aprofundar mais para termos

tanto no lazer, histórico, cultural,

uma credibilidade suave sem me-

ecoturismo, turismo religioso, en-

lindrar a Bahia que já está mar-

fim", diz, sobre a possibilidade

cada com esse descobrimento"

da possibilidade do turismo po-

afirma.

tiguar começar a usar essa evidência histórica. 61


MARKETING

"DESCOBRIMENTO" DO BRASIL PELO RN JÁ FOI TEMA DE CAMPANHA DA SECRETARIA DE TURISMO Em 2018, a Secretaria de Turismo lançou uma campanha que tinha entre seus objetivos lançar essa provocação histórica de colocar o RN como o ponto onde os portugueses desembarcaram quando chegaram ao Brasil

nardo Meister Gehrke sob orien-

tar em maior atração de turistas

tação da professora-doutora em

ao Rio Grande do Norte.

Turismo Rosana Mazaro.

“No debate, concluiu-se que até

O assunto foi tema de reporta-

a história começa errada no Bra-

gem no jornal O Globo em abril

sil. Queremos construir algo na

m 2017, o Governo do Estado

de 2017. Na época, a secretaria

Praia do Marco. O verdadeiro lo-

encampou a ideia de divulgar a

de Turismo era comandada pelo

cal do descobrimento é aqui", dis-

tese de que o Brasil havia sido

empresário Ruy Pereira Gaspar

se na época o então secretário.

descoberto no RN. A campanha

e tinha como adjunto o advoga-

A reportagem demonstrava que

chamou-se “Tudo começa aqui”

do Manuel Gaspar. A intenção da

a possibilidade desse reconhe-

e retomava a ideia do estudo “O

campanha não era brigar pela

cimento poderia gerar ganhos

Brasil começou aqui”, disserta-

versão, mas incutir a dúvida e ge-

reais para o turismo.

ção de mestrado feita por Ber-

rar o debate; o que poderia resul-

62


Em 2017, o Governo do Estado promoveu campanha para divulgar a ideia de o Brasil havia sido descoberto no RN

Em 2018, a Setur conseguiu

Na época do lançamento da

com a tese do descobrimento

colocar em marcha a campa-

campanha, o secretário de Turis-

pelo RN. Nesse evento no Centro

nha. E fez um lançamento oficial

mo explicou que a campanha era

de Convenções, um dos convida-

em março daquele ano. O inves-

“uma provocação histórica, teóri-

dos foi o engenheiro Manoel Ca-

timento anunciado foi de R$ 2,6

ca sobre o descobrimento do Bra-

valcanti Neto.

milhões, via programa Governo

sil começar aqui”, afirmou sobre a

Na época, ele tinha lançado

Cidadão, que vinham do Banco

inspiração temática da iniciativa.

apenas seu primeiro livro, “1500:

Mundial. Junto com a campanha,

Em maio de 2018, a Setur-RN

de Portugal ao saliente Potiguar”.

a Secretaria lançava seu Plano

promoveu um grande debate so-

Em sua participação, o engenhei-

Estratégico e de Marketing Turís-

bre o assunto no Centro de Con-

ro destacou o fato de que a histó-

tico do RN.

venções. Mais de 100 guias de

ria do Brasil foi escrita sem estu-

O objetivo era “a interioriza-

turismo participaram do evento.

dos hoje possíveis.

ção do turismo destacando as

A ideia é que fosse apenas o pri-

A fala de Manoel Cavalcanti

potencialidades dos cinco polos

meiro de uma série de encontros

Neto, em 2018, soa mais forte

turísticos do estado, seja por meio

para massificar a tese e os pró-

ainda atualmente, quando nova-

do turismo religioso, histórico, de

prios profissionais do turismo

mente a tese do descobrimento

aventura ou gastronômico, alian-

passassem a divulgar a possibi-

do Brasil no RN é alvo de um estu-

do recursos de infraestrutura e

lidade.

do físico que gera novas evidên-

planejamento promocional para o setor nos próximos 15 anos”.

Também estavam previstos

cias de que foi na costa potiguar

eventos em São Miguel do Gosto-

que os portugueses pisaram pela

so, Touros e Pedra Grande, os três

primeira vez em terras brasilei-

municípios que se relacionam

ras. 63


TURISMO

PARA SINDBUGGY-RN, “DESCOBRIMENTO” DEVERIA TER POLÍTICA DE DIVULGAÇÃO CONJUNTA DOS MUNICÍPIOS Presidente da entidade, Hertz Medeiros, defende que evidências deveriam ser exploradas para estabelecer um novo atrativo, o que iria ajudar a descentralizar o turismo e ampliar os ganhos para todos os que fazem o segmento

ros, que inclusive já explorou o

uma política de divulgação con-

assunto em uma pós-graduação.

junta dos municípios do litoral

“O buggy turismo está presen-

agreste".

Sindicato dos Bugueiros Profis-

te em toda costa do RN, e o tema

Na opinião do presidente do

sionais do RN (SindBuggy-RN)

do Marco de Touros, assim como a

SindBuggy-RN, o estado perde

avalia que o Rio Grande do Norte

questão do ponto geográfico do ex-

muito ao não explorar o tema.

— mais especificamente o lito-

tremo nordeste do Brasil, é funda-

“Perde competitividade, temos ro-

ral agreste do estado — poderia

mental para estruturar os roteiros

teiros consolidados para 5 dias.

ganhar muito caso começasse a

dos municípios do litoral agreste”,

Se queremos a interiorização ou

explorar esse atrativo de que o

explica.

mesmo a descentralização, é fun-

Brasil foi descoberto aqui. Quem

E complementa: “No turismo,

damental novos atrativos e, no

vê dessa forma é o presidente da

o tema do Descobrimento, aliado

caso, além da beleza, tem o aspecto

entidade, Hertz de Moura Medei-

à questão geográfica deveria ser

histórico e geográfico", afirma.

64


Hertz Medeiros, presidente do Sindibuggy - RN

“Turismo se faz de mãos dadas. Todo segmento ganha com a consolidação de mais um destino. Nesse caso, a participação dos receptivos é fundamental”

Ele argumenta que “hoje ainda

“Ela é que tem que incluir no seu

O presidente do sindicato tam-

temos a preferência de 60% dos

marketing, todo esforço de divul-

bém considera que a consolida-

turistas e temos muito a ganhar

gação", defende.

ção do atrativo requer apoio dos

com o incremento do Polo de Tou-

Hertz Medeiros faz uma ou-

políticos estaduais e federais,

ros e São Miguel do Gostoso, con-

tra observação quanto o traba-

mas que essa participação tem de

solidando o turismo regional". Mas

lho que deveria ser desenvolvido

ser feita sem segundos interesses

aponta que, para isso se tornar

para que o Rio Grande do Norte

ou visando uma exploração elei-

realidade, é necessário uma ação

passe a ganhar com a exploração

toral.

organizada e que precisa contar

da tese do descobrimento. “Turis-

Pessoalmente, Hertz Medeiros

com todos os que fazem o turis-

mo se faz de mãos dadas. Todo seg-

é um dos que acredita na tese que

mo e, principalmente, a Empresa

mento ganha com a consolidação

está sendo defendida pelos físicos

Potiguar de Promoção Turística

de mais um destino. Nesse caso, a

Carlos Chesman (UFRN) e Cláudio

(Emprotur-RN).

participação dos receptivos é fun-

Furtado (UFPB). “Sou defensor da

damental", enfatiza.

ideia, por razões lógicas de nave-

Na opinião dele, a consolidação da tese e sua devida exploração

gação", argumenta.

turística é papel da Emprotur-RN. 65


MUNICÍPIO

PREFEITO DE PEDRA GRANDE DEFENDE REATIVAÇÃO DE CONSÓRCIO E AÇÃO POLÍTICA EM TORNO DO TEMA Pedro Henrique argumenta que o município já trabalha o tema sempre que pode, mas que é necessário uma ação maior por parte do Governo do RN e de entidades ligadas ao turismo para fazer com que o estado continue tendo esse prejuízo “incalculável” por não abraçar essa tese.

fica a Praia do Marco, isso teria o

um fato novo que passaria a ser

potencial de mudar tudo e gerar

explorado por quem faz turismo.

benefícios reais para a região e

Agências de viagens, guias dentre

para o Rio Grande do Norte.

outros teria uma nova propos-

prefeito de Pedra Grande,

“Se a classe política abraçar essa

ta para oferecer aos seus clientes,

Pedro Henrique de Souza Silva,

história e levar pra o debate na-

conceber a história verdadeira do

defende que a classe política po-

cional isso traria uma visibilida-

descobrimento do Brasil", afirma.

tiguar deveria abraçar a ideia de

de enorme para os estados do RN,

Na visão dele, o primeiro pas-

que os portugueses chegaram

a curiosidade em conhecer de

so para isso seria a realização

primeiro ao RN. Na visão dele,

perto a história traria turista do

de uma audiência pública. “Com

que administra o município onde

Brasil e do mundo todo, pois seria

vários órgãos, como IPHAN, Em-

66


Pedro Henrique, prefeito de Pedra Grande, onde fica a Praia do Marco

“Fazer campanhas publicitárias, vender pacotes tendo a 'Terra do descobrimento' como destino, não é tão difícil, falta interesse”

protur, Ministério do Turismo,

do descobrimento' como destino,

Ministério da Cultura, Assembleia

não é tão difícil, falta interesse, pois

Legislativa, prefeituras próximas

estamos cercados de belas praias

à Praia do Marco, dentre outros

com hospedagem e restaurantes

órgãos e entidades que possam

nas praias de Touros, Maxaran-

fortalecer essa tese pelo Brasil",

guape, São Miguel do Gostoso, São

defende.

Bento do Norte", aponta.

O prefeito diz ainda que “o tra-

Pedro Henrique Silva afirma

de turístico do RN a ABAV, o Go-

que da parte do município tem

verno do estado entre outros deve-

dado atenção ao tema e traba-

riam levar esse tema mais a sério

lhado para garantir a infraestru-

e colocar como bandeira em defe-

tura necessária. Como exemplo,

sa do desenvolvimento turístico do

ele cita os investimentos para a

estado e do Brasil".

pavimentação de ruas na praia.

“Fazer campanhas publicitá-

“Temos também o recurso para

rias, vender pacotes tendo a 'Terra

construção do Memorial do Marco 67


MUNICÍPIO

Pedro Henrique avalia ainda que o Rio Grande do Norte perde muito por não abraçar como

“O prejuízo do nosso estado é incalculável em não ter essa opção, que na minha opinião deveria ser a principal atração turística do RN, devido à importância histórica”

deveria a tese de que o Brasil foi “descoberto” pelo RN. "O prejuízo do nosso estado é incalculável em não ter essa opção, que na minha opinião deveria ser a principal atração turística do RN, devido à importância histórica", diz. E critica: “Eu vejo que não dão a mínima importância para um assunto que tem consistência, força e peso histórico. É simplesmente a história do descobrimento do país, onde tudo começou, sem esse primeiro momento da chegada dos portugueses em terras potiguares não tinha dado início à história do nosso país".

do Descobrimento, que tem como

Pedro Henrique lembra que

principal objetivo após a conclu-

este ano a Prefeitura já usou o

Na opinião dele, a saída para

são trazer o Marco original de

tema do descobrimento para pro-

essa situação é simples: união.

volta a seu local de chamamento, e

mover a campanha que foi levada

Ele lembra que há alguns anos foi

eternizar a história com dados, in-

à Feira dos Municípios e Produ-

criado o Consórcio do Turismo do

formações e artigos que remetam

tos Turísticos do RN (Femptur).

Litoral Norte (Citunorte) e que os

aos tempos da chegada dos Portu-

O resultado: a Prefeitura de Pedra

prefeitos à época tentaram avan-

gueses em terras potiguares", in-

Grande levou o 1º lugar na disputa

çar, fizeram reuniões, levantaram

forma.

que é promovida dentro da feira.

pautas que foram levadas até o

Segundo o prefeito, para con-

“Nossa gestão utiliza a identi-

Ministério do Turismo, mas que

seguir isso, ele tem buscado

dade visual em todas as oportu-

tudo isso foi interrompido com o

apoio do Governo do RN e de ou-

nidades que a Prefeitura de Pedra

término dos mandatos.

tros Poderes, como a Assembleia

Grande está presente, no material

“Acredito que possamos reto-

Legislativa. O prefeito também

publicitário, em documentos ofi-

mar esse consórcio com um nú-

cita como ação desenvolvida lo-

ciais, nas redes sociais, além de

mero menor de municípios, os que

calmente o Festival de Verão da

tentar de todas as formas trazer o

realmente tenham relação com o

Gente, que é sempre promovido

olhar da imprensa e classe política

tema. E tentar viabilizar algo re-

em janeiro “e traz artistas nacio-

para essa história. Eu, como prefei-

lacionado a história do descobri-

nais para promover a praia e con-

to e cidadão, por onde passo faço

mento do Brasil como um espe-

sequentemente reforçar a história

questão de falar sobre essa tese de

táculo à beira mar contando essa

que o 'Brasil começou aqui’”.

que o Brasil começou aqui", afir-

história e outras ideias que forta-

ma Pedro Henrique.

lecem essa tese", diz.

68


OPORTUNIDADE

SINDICATO DOS GUIAS DE TURISMO DEFENDE MAIS DEBATE SOBRE O ASSUNTO E COBRA AÇÕES POLÍTICAS Pesquisador e guia de turismo Rostand Medeiros avalia que informações podem ser utilizadas para fomentar o turismo histórico, mas cobra mais ação política e atenção para o setor

Quem avalia assim é o escri-

do interpretações de homens que

tor, pesquisador e guia de turis-

viveram na passagem dos séculos

mo, Rostand Medeiros. Mas ele

XV para XVI e devem ser observa-

faz uma observação: as informa-

dos com ressalvas", defende.

a avaliação do Sindicato dos

ções precisam ser trabalhadas

Rostand Medeiros explica que

Guias de Turismo do RN (Sing-

com as devidas ressalvas. “Os

por parte do Singtur “existe a

tur), mesmo que não seja com-

dados atualmente apresentados

ideia de buscar apoios para desen-

provada totalmente a tese de que

são extremamente interessantes,

volver cursos sobre o tema para os

Pedro Álvares Cabral chegou pri-

merecem atenção e os estudos de-

Guias de Turismo, inclusive com

meiro à costa potiguar e não na

vem ser ampliados. Mas devemos

visitas aos locais". Ele avalia que

Bahia, “esse processo especulativo

lembrar que os relatos produzidos

com relação às demais entidades

tende a chamar bastante atenção

pelos navegadores da frota de Ca-

e empresas que compõem o trade

do público que visita o Rio Grande

bral são resultado daquilo que eles

turístico potiguar a situação exi-

do Norte e essas informações po-

viram, sem nenhum conhecimen-

ge muita atenção.

dem ser utilizadas”.

to prévio do que aqui existia, sen69


OPORTUNIDADE

Rostand Medeiros, historiador, pesquisador e escritor

“Os atrativos ligados ao turismo histórico e cultural no Rio Grande do Norte são limitados. E isso é um erro”

cidades turísticas tem dado muita atenção ao desenvolvimento do turismo histórico e cultural e com ótimos resultados", aponta. “Principalmente aquelas que

de turismo, ele relata que nos últi-

Para o pesquisador, no que

tenham atuação nas áreas onde

mos anos muitos dos turistas que

diz respeito ao que o Governo do

as pesquisas apontam a chegada

desembarcam no RN “são extre-

Estado poderia fazer, uma das

e o desembarque da frota. Deve-se

mamente bem informados, pos-

ações seria fomentar esse debate.

levar ao conhecimento das entida-

suem um bom nível de conheci-

“A Setur deve promover seminá-

des ligadas ao turismo potiguar

mento sobre Natal e região e aqui

rios, apoiar a vinda de palestran-

todas as informações relativas ao

chegam desejosos de conhecer algo

tes para transmitir conhecimentos

caso e acredito que ações concretas

mais sobre nossa terra".

e dar voz a pesquisadores potigua-

“Mas os atrativos ligados ao tu-

res que trabalham o tema, como

rismo histórico e cultural no Rio

Manoel Cavalcanti de Oliveira

Na opinião dele, o Rio Grande

Grande do Norte são limitados.

Neto, autor de um livro recente-

do Norte perde muito por não ex-

E isso é um erro. Não podemos es-

mente lançado sobre essa temáti-

plorar esta temática. Como guia

quecer que atualmente em outras

ca", sugere.

podem ocorrer conforme as pesquisas avancem", comenta.

70


“Imagine se o local de memória pensado para ser construído na praia do Marco tivesse sido desenvolvido lá pelo início dos anos 2000?”

Ele critica inclusive a falta de

Algo que poderia ter se transfor-

Ele explica que nada foi fei-

vontade política no sentido de

mado em uma interessante atra-

to sobre isso, mesmo com toda

promover o turismo histórico. Se-

ção turística, mas não foi!".

a importância que a história da

gundo Rostand Medeiros, entre os

Na avaliação dele, passados 24

aviação tem para o Rio Grande do

anos de 2000 e 2001 “houve uma

anos desse episódio, não houve

Norte. “Sabemos que Natal sediou

mobilização de empresários da re-

muita mudança com relação aos

uma das maiores bases da aviação

gião de Touros, São Miguel do Gos-

políticos potiguares. “A não ser

militar norte-americana durante

toso e Maracajaú para que fosse

que o tema ganhe bastante reper-

a Segunda Guerra Mundial, fato

devidamente comemorado os 500

cussão midiática e sirva como ‘ho-

esse comentado nas memórias de

anos da chegada da expedição que

lofote’ para atuação política", diz.

Winston Churchill e Franklin Roo-

trouxe o famoso Marco de Touros

“Imagine se o local de memó-

sevelt. É possível levar turistas a

para o Rio Grande do Norte".

ria pensado para ser construído

esse local? Não!", aponta.

Segundo ele, a ideia era criar

na praia do Marco tivesse sido de-

Rostand Medeiros lembra ain-

um espaço para que o Marco de

senvolvido lá pelo início dos anos

da que, em breve, grandes voos,

Touros ficasse em exposição de-

2000? Que interessante local de

realizados por aviadores pionei-

finitiva na Praia do Marco e até

destinação educacional e turística

ros — muitos deles sendo cultua-

chegou a ser feito um projeto ar-

ele poderia ter sido!", observa.

dos heróis em seus países de ori-

quitetônico visando isso. “Contu-

Rostand Medeiros cita ainda

do, como ocorre com muitas ações

outros acontecimentos históri-

ligadas ao turismo no Rio Grande

cos que o RN não explora turis-

“Esses pequenos exemplos mos-

do Norte, não houve apoio do Po-

ticamente e que, por isso, perde

tram um pouco de como vamos

der Público e nada aconteceu", cri-

oportunidades. Ele cita como

vivendo sem aproveitar turistica-

tica.

exemplo o centenário da primei-

mente a nossa História! Isso tudo

E acrescenta: “Os políticos do

ra aeronave nos céus potiguares,

significa perda de dinheiro e a

Rio Grande do Norte na época não

que ocorreu em dezembro de

possibilidade da criação de empre-

apoiaram uma ação de memória

2022. “Foi um hidroavião ameri-

gos. Além do que, tudo que fosse

ligada ao período do descobri-

cano pilotado por Walter Hilton e

desenvolvido para o turismo his-

mento do Brasil ocorrida em uma

tendo como copiloto Euclides Pinto

tórico e cultural se reverteria na

praia potiguar, com a presença do

Martins, que amerissou no calmo

ampliação do conhecimento do

homem que batizou o nosso conti-

Rio Potengi", conta.

povo potiguar sobre a História da

gem — vão completar 100 anos de suas passagens por Natal.

nente e que aqui deixou um marco

sua terra e na educação dos poti-

original de ocupação portuguesa.

guares, principalmente dos mais jovens", alerta. 71


HISTÓRIA

MARCO DE TOUROS ESTÁ EM EXPOSIÇÃO NO MUSEU CÂMARA CASCUDO Mais antigo marco de posse portuguesa no Brasil compõe a exposição “Navegar Impreciso". Monumento chegou ao museu em 2021

lagoa de Extremoz. Uma delas é

Forte dos Reis Magos, onde estava

o artefato náutico mais antigo já

desde 1976. O Marco Quinhentista

datado no Brasil (séc. XIV).

foi tombado pelo processo núme-

De acordo com o Museu, o ob-

ro 680 em 1962 com o objetivo de

jetivo da exposição “é apresentar

perpetuar a memória dos Brasi-

essas peças de enorme importân-

leiros sobre “o primeiro ponto da

cia arqueológica, histórica e cul-

costa brasileira delimitado pelos

tural, cujo valor como patrimônio

portugueses”.

Marco de Touros, considerado o

potiguar, brasileiro e humano é

Conforme descreveu Oswaldo

marco quinhentista mais antigo

incomensurável, conjugando suas

Câmara de Souza, em seu livro

do Brasil (segundo Câmara Cas-

potências e realçando seus sig-

“Acervo do Patrimônio Histórico e

cudo) e da América Latina (se-

nificados com duas intervenções

Artístico do Estado do Rio Grande

gundo Manoel Cavalcanti Neto),

contemporâneas – um vídeo e

do Norte”, o “Marco é uma colu-

está em exposição atualmente no

uma instalação artística – cria-

na quadrangular, em pedra lioz,

Museu Câmara Cascudo.

das especialmente para a ocasião".

o mármore de Lisboa, usado nos

A exposição foi prorrogada por

padrões de posse quinhentista que

tempo indeterminado.

ostenta, em relevo, em uma das

O monumento está inserido na exposição “Navegar Impreciso", que é composta ainda por outras

O Marco chegou ao Museu Câ-

duas peças: duas canoas indí-

mara Cascudo em 19 de janeiro de

genas encontradas no fundo da

2021, quando veio transferido do

72

faces, a Cruz de Cristo, encimando as armas do Rei de Portugal".


Marco de Touros, no Museu Câmara Cascudo desde 2021

O pesquisador Manoel Cavalcanti Neto defende que o Marco foi na verdade colocado na costa do Rio Grande do Norte já na chegada de Pedro Álvares Cabral e não em agosto de 1501 pela expedição de GasO bloco de mármore, em forma de coluna, possui

par de Lemos.

cerca de 1,20 m de altura, 30 cm de largura e 20 cm

Segundo ele, em seu livro Brasil 1500: a verdade do

de espessura. De acordo com a versão oficial, “em

descobrimento do Brasil no RN, “Pedro Álvares Cabral

1501, o Rei D. Manuel mandou uma expedição geo-

tomou posse da terra chantando um Padrão, como

gráfica, comandada por Gaspar de Lemos, com a fi-

cita Damião de Góis, em pedra Lioz, típica de Lisboa,

nalidade de observar as terras recém-descobertas”.

com a Cruz da Ordem de Cristo e as Armas Reais, gra-

“No primeiro ponto do território brasileiro, onde a

vados em uma das faces, conhecido como o Marco de

esquadra aportou, foi chantado o primeiro padrão de

Touros, embora hoje esteja na divisa entre S. Miguel

posse portuguesa, afirmando a soberania de Portugal,

do Gostoso e Pedra Grande, por desmembramento do

onde quer que fosse encontrado. O último Marco colo-

município".

cado pela expedição foi em Cananéia, em 1502. O pa-

“Esse costume de chantar um Padrão em Pedra, co-

drão de posse é idêntico ao nosso, e foi translado para

meçou com a chegada de Diogo Cão ao estuário do Rio

o Instituto Histórico Brasileiro, levado em 1866 para o

Congo em 1484 e era parte das expedições portugue-

Rio de Janeiro pelo barão de Capanema. Um dos 'te-

sas desde então. Fizeram a aguada, abastecendo-se de

nentes', guarda-se no Museu Paulista, registra mestre

água, lenha e refrescos (frutas, aves etc.)", acrescen-

Cascudo", descreveu Oswaldo de Souza.

tou. 73


PATRIMÔNIO

PODERES CURATIVOS E AMEAÇAS DE MORTE: A PELEJA DE 12 ANOS PARA TRAZER O MARCO DE TOUROS A NATAL Processo de retirada do Marco de Touros da praia do Marco foi demorado e incluiu ameaças de morte contra a equipe do Iphan. Monumento virou centro de culto que envolvia a colocação de ex-votos ao seu redor e moradores da região tiravam lascas da pedra para fazer chá curativo

Direito para se dedicar à músi-

viagem para inspecionar o monu-

ca, teve de enfrentar ameaças de

mento em janeiro de 1962. E que

morte e lidar com as crendices de

só chegou ao local graças a um

que o Marco tinha poderes cura-

guia que levou o grupo ao Santo

tivos.

Cruzeiro, como era chamado o

Toda essa verdadeira odisséia

marco.

foi contada por ele próprio em

“O forasteiro que passasse por

grande responsável pelo Mar-

capítulo do livro “Acervo do Pa-

aquelas praias, jamais poderia

co de Touros estar disponível

trimônio Histórico e Artístico do

supor que, no interior daquela

para visitação ainda hoje foi

Estado do Rio Grande do Norte”

rústica ermida, estava o padrão

Oswaldo Câmara de Souza (1904-

e também em reportagem publi-

de posse mais antigo de todo ter-

1995), nomeado em agosto de

cada em 15 de setembro de 1974

ritório brasileiro", escreveu. Ele

1961 como representante do Ins-

pelo jornal O Poti e que recebeu

explicou ainda que o local era

tituto do Patrimônio Histórico e

como título “Uma missão quase

chamado Praia dos Marcos, no

Artístico Nacional (Iphan) no Rio

impossível: trazer o Marco de Tou-

plural, porque junto com o monu-

Grande do Norte.

ros para Natal".

mento principal havia “tenentes",

Para conseguir isso, o nata-

Em seu relato, Oswaldo de

lense que largou a faculdade de

Souza contou que fez a primeira

74

“pedras alongadas como pilares, como outros tantos marcos”.


O Marco de Touros rodeado de ex-votos, envolvido por centenas de fitas votivas

“Os moradores supersticiosos do lugar, e também dos povoados vizinhos muitas milhas acima e abaixo daquele ponto da costa, acreditam que é uma pedra santa, com a cruz e as chagas de Jesus Cristo”

sileiro, em 10 de outubro de 1890, pelo conselheiro Alencar Araripe, que propunha a remoção da peça. Já nessa sessão, o conselheiro observava que “os moradores supersticiosos do lugar, e também dos povoados vizinhos muitas milhas acima e abaixo daquele ponto da costa, acreditam que é uma pedra santa, com a cruz e as chagas de Jesus Cristo, e lá vão em romaria passar em torno dela fitas para ficarem bentas, como é uso fazer-se nas igrejas com imagens, rezam o terço diante dela em dias determinados, fazem-lhe promessa e apegam-se com ela em suas aflições". “Na verdade, até hoje, os humildes devotos atribuem

Essas outras peças foram levadas, mas ninguém

poder milagroso ao Marco quinhentista. Com esmo-

sabia informar por quem nem para onde. A existên-

las dos romeiros e moradores dos povoados vizinhos,

cia do marco, segundo Câmara Cascudo, foi anun-

construíram para ele uma rústica capelinha em cujo

ciada em sessão ordinária do Instituto Histórico Bra-

interior estava, permanentemente, rodeado de ex-vo75


PATRIMÔNIO

Oswaldo de Souza e Câmara Cascudo

tos, envolvido por centenas de fitas votivas, ali dei-

que pretendíamos trazê-lo, à força, para Natal, numa

xadas pelos devotos, em suas romarias, atestando as

das nossas inspeções ao monumento. Em nossa ausên-

curas milagrosas obtidas por sua intercessão", relatou

cia, o povo confabulou e, de imprevisto, arrancou o

Oswaldo de Souza, descrevendo a forma como en-

Marco de sua tosca capelinha levando-o para Morros,

controu o Marco.

onde foi fincado no meio da única rua do arraial, ro-

A peleja para conseguir trazer Marco e colocá-lo em um local protegido durou 12 anos. E envolve re-

deado, por uma faxina de varas trançadas, em cujo reduto ficou vários meses”.

latos muito curiosos. Oswaldo de Souza conta que “o

Quando finalmente conseguiu trazer o Marco para

culto popular chegava às raias do fetichismo, haven-

Natal, a retirada foi garantida através de um acordo

do a crença absurda de que um chá, preparado com

com os moradores e envolveu a colocação de uma

fragmentos da pedra, tinha poderes milagrosos, tra-

imagem de Nossa Senhora dos Navegantes e uma ré-

zendo alívio e cura as mazelas do corpo e do espírito...

plica do Marco.

E o povo, no seu fanatismo, ia tirando lascas da pedra,

No dia da transferência, ele contou com o apoio

para tais tisanas. Lembramo-nos de um rude pesca-

de um sargento da Polícia Militar armado com me-

dor a nos afirmar: - 'que a mesinha curava qualquer

tralhadora e cinco soldados com fuzis, baionetas e

doença'".

revólveres para enfrentar uma possível revolta da

Câmara Cascudo, por sua vez, relata que "um mo-

população local.

rador sonhou que os holandeses haviam ocultado um

Ao finalizar a missão, Oswaldo de Souza desaba-

tesouro dentro do Santo Marco e para adquiri-lo fu-

fou: “Agora que o chamado Marco de Touros está em

rou a pedra, restando a cicatriz sacrílega que ostenta".

Natal, depois de tantas dificuldades, eu digo: nunca

O Marco possui até hoje a marca dessa agressão.

mais assumirei uma missão deste tipo. Foi essa a úl-

Oswaldo de Souza comentou ainda que “certa feita, houve um zunzum entre os moradores de Morros, e chegamos a ser ameaçados de morte, quando alguém, querendo nos indispor com o povo, fez constar 76

tima. Estou cansado de correr riscos de vida e sofrer chateações. Basta".


JORNALISMO

REPORTAGEM DA FOLHA DE SÃO PAULO PROJETOU TESE DENTRO E FORA DO BRASIL Após estudo ser noticiado por jornal de alcance nacional, tese defendida pelos físicos foi divulgada em todo o Brasil por grandes e pequenos jornais. E chegou inclusive à Europa

da Universidade Federal da Pa-

bro, o jornal Folha de São Paulo

raíba (UFPB), havia acabado de

publicou no seu site o texto “Físi-

ser publicado pela Universida-

cos defendem que Pedro Álvares

de de Cambridge. Era início de

Cabral aportou no Rio Grande do

setembro. A entrevista com Car-

Norte, não na Bahia". E no dia 24, a

los Chesman, inclusive, aconte-

reportagem foi publicada na ver-

ceu dias depois da publicação.

são impressa do jornal.

Na época, a notícia foi publicada

O texto, assinado pelo jornalis-

em diferentes jornais e sites, mas,

ta Luiz Henrique Gomes, contou

basicamente, ficou restrita à im-

toda a história do estudo. Coinci-

prensa local e regional.

dência: o jornalista — hoje atuan-

Quando esta edição especial

Mais de dois meses passaram.

do em São Paulo — é natalense,

o de Municípios em Foco come-

No final de novembro, uma repor-

formado na Universidade Federal

çou a ser feita, o artigo dos físi-

tagem sobre o assunto fez com

do Rio Grande do Norte. No texto,

cos Carlos Chesman, da Univer-

que uma verdadeira onda de di-

além de mostrar como os físicos

sidade Federal do Rio Grande do

vulgação espontânea surgisse em

chegaram à conclusão, ele acres-

Norte (UFRN), e Cláudio Furtado,

favor da tese. No dia 23 de novem-

centou opiniões de historiadoras. 77


JORNALISMO

“A carta de Caminha é importante para datar o momento histórico, mas a ocupação portuguesa no Brasil só começou de fato a partir da década de 1530”

Na avaliação da professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ana Hutz, é importante mencionar que o estudo dos físicos nordestinos baseia-se apenas na Carta de Caminha. Já a historiadora Juliana Gesueli, da PUC Campinas, defendeu que o debate precisa ser mais aprofundado. “A carta de Caminha é importante para datar o momento histórico, mas a ocupação portuguesa no Brasil só começou de fato a partir da década de 1530. Não acredito que possa causar uma grande mudança dos livros de história”, disse ela, à Folha. A partir da reportagem de Luiz Henrique Gomes para a Folha, a pesquisa de Carlos Chesman e Cláudio Furtado foi, dia a dia, sendo noticiada por outros grandes jornais e sites do Brasil. E não parou por aí. As informações foram divulgadas em vários estados. E inclusive na Bahia. No dia 30 de novembro, o jornal português O Público também publicou a reportagem de Luiz Henrique, ampliando ainda mais o alcance do assunto, fazendo o debate chegar à Europa. O texto feito pela Folha gerou uma vasta divulgação do assunto, inclusive por meio de vídeos nas redes sociais, o que vai ajudar muito nos debates que ainda serão realizados.

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