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sociedade

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henrique carmona da mota

Pediátrico teve abertura gelada Antigo diretor do Serviço de Medicina do Pediátrico e professor jubilado, dá nome ao novo hospital. Uma honra que aceita em nome de todos os que o acompanharam nesta viagem Texto Marco Roque Foto Pedro Ramos Em 1977 esteve na mudança para o, agora, antigo pediátrico. Como foi? Foi uma grande euforia. Num dia fizemos tudo. A urgência terminou em Santa Teresa e abriu simultaneamente lá. Também havia pouco para transferir. O equipamento era quase nulo, as camas ficaram lá. Mudámos as crianças, os doentes. Utilizámos o que tínhamos à mão, inclusivamente os nossos carros para trazer as crianças e o que fosse preciso. Em 1977, nem houve inauguração. Era isso que lhe estava a passar pela cabeça durante esta inauguração? Este foi o momento da euforia. Mas repare que, nesta inauguração, as crianças doentes, os médicos, enfermeiras, educadores – todos aqueles que fazem o hospital pediátrico - ficaram muito ausentes. É uma situação constrangedora. Ouvir os discursos que se fizeram na inauguração, salvo o da ministra, diminuiu o significado do ato. Como se fosse um pretexto para outras lutas, que a nós não nos interessam nada e para as crianças muito menos. A meu ver, foi um bloco de gelo naquilo que deveria ser uma festa. Acabou por ser uma cerimónia política? Não diria política… Não queria dizer partidária, mas política no sentido mais pobre do termo. Voltou de Londres em 1974, uma semana depois do 25 de Abril. Como era ser pediatra em Coimbra nessa época? Não existia nada. Era uma salinha pequena – que agora até é uma das salas da Faculdade de Arquitetura. E havia apenas uma meia dúzia de médicos. E no meio daquilo, havia uma figura mítica, o doutor Nicolau da Fonseca. É impossível pensar a pediatria em Coimbra sem ele. Ou o doutor Luís Lemos, que fundou e dirigiu o serviço de urgência, que era o mais delicado do hospital…

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Demorei algum tempo a pensar e a mãe diz: "Veja lá, se não se entende, o melhor é chamar o diretor". E uma interna diz: "olhe que ele é que é o diretor"

E que o doutor também dirigiu… Sim, durante dois anos mudámos. Ele veio dirigir o serviço de medicina e eu a urgência. Há coisas curiosas... eu era jovem, mas era o diretor. Um dia surgiu um caso complicado. Fiz o que qualquer médico deve fazer: olhar para a criança e pensar. Demorei algum tempo, e a mãe diz: "Veja lá, se não se entende, o melhor é chamar o diretor". E uma interna diz: "olhe que ele é que é"… Era uma época com mentalidades diferentes. Por exemplo, as mães não podiam ficar com os filhos… Era a nossa tragédia. Não havia espaço. O problema central era a diarreia, que até se curava por si, mas contagiava outros. Reparámos que as crianças eram contagiadas umas pelas mãos das enfermeiras. Elas eram exemplares na sua higiene, mas era uma sala muito grande com apenas duas torneiras. Na prática, havia sempre quebras. Assim, quando nos mudámos para Santa Teresa (hoje a maternidade Daniel de Matos), criámos uma sala onde as crianças com diarreia ficavam com as mães. As mães tinham só uma cadeiri-

nha, pequenita. Mas ficavam lá. Assim, a criança não contaminava as outras, as mães cuidavam da alimentação e limpeza. Surgiu uma barreira humana. E evitava-se a diarreia hospitalar. Mas também houve outras soluções originais, como o "leite de frango" … As diarreias podiam demorar semanas e isso significa o emagrecimento de crianças latentes. Poderia ser uma intolerância ao leite, que não era da mãe. Na altura não havia bancos de leite, mas tínhamos a maternidade ao lado. Pensámos: "há ali mães que têm colostro, o leite dos primeiros dias, que tem poucas proteínas mas tem caraterísticas muito especiais. Se essas mães nos cedessem algum...". Fizemos isso. As mães dos doentes iam falar com elas e traziam-no. O facto é que bebiam esse leite e a diarreia desaparecia, as crianças começavam a aumentar de peso. Claro que isso daria para dois ou três dias. Depois era preciso algo mais nutritivo. Pensámos em usar as proteínas da canja. Era o caldo com azeite

24 FEVEREIRO 2011


opinião

Comportamento alimentar: pérolas josé carlos peixoto Pediatra no Centro Pediátrico e Juvenil de Coimbra

após o nascimento, o leite da mãe

é sempre o melhor. Nunca é fraco. Pode ser insuficiente. O stress é o maior inimigo da sua produção e do esvaziamento da mama. É necessário acalmar, tranquilizar e informar bem a mãe. O bebé deve mamar sempre que tiver fome e esvaziar bem pelo menos uma das mamas. Aos quatro-seis meses aprende-se (ensina-se?) que a comida é algo que sabe bem, é necessária e é preciso agradecer a quem a põe na mesa. Que comida forçada vai ser comida rejeitada.

A partir do ano já não come quando lhe apetece mas tem de aproveitar o que lhe dão na hora da refeição. A mãe escolhe o horário e a qualidade, o filho a quantidade. Quando lhe parece que come pouco, mas cresce bem, o pouco é suficiente. Para comer pouco mas bom não force o que é bom. Retire-lhe o "fraco". Se cresce mal, não force, procure a causa e trate-a. Só depois dos 20 anos os jovens estão capazes de fazer uma boa ementa. Até lá nem que tenha de disfarçar, deve continuar a controlar.

Crianças ingerem sal a mais dicas & conselhos e açúcar misturado – o leite de frango. Dávamos isso às crianças. E conseguimos aumentar o peso. Talvez não fosse o melhor equilíbrio nutritivo, mas a criança sobrevivia. É possível resumir o percurso do hospital nalgumas palavras? Se eu me sentasse à mesa em 1974, com o Nicolau da Fonseca, o Luís Lemos e o Torrado da Silva e pensássemos: "o que é que gostaríamos que, em 2000, acontecesse a este hospital?" Entre gargalhadas, diríamos que não seria muito diferente daquilo que conseguimos. Como é ver o seu nome associado ao novo hospital? É um orgulho, claro, mas também um constrangimento. Reconheço que aquele hospital tem muitos nomes. Fui escolhido eu por ser o mais antigo, o sobrevivente. Mas este hospital deve-se a muita gente. O meu nome representa a junção de todas essas boas vontades.

Cortar no sal

A OMS recomenda seis gramas de sal por dia para um adulto e metade (três gramas) para as crianças.

Proteger da hipertensão as crianças portuguesas ingerem

quatro vezes mais sal por dia do que a dose indicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), facto que pode retirar-lhes dez anos da esperança média de vida atual, estima a Sociedade Portuguesa de Hipertensão. A hipertensão afeta 12 por cento das crianças e jovens portugueses que têm entre cinco e 18 anos de idade. Os portugueses estão a comer 12 gramas por dia e a dar às crianças quatro vezes mais do que o recomendado.

A Sociedade Portuguesa de Hipertensão aconselha os pais a diminuir a quantidade de sal na alimentação dos filhos, para os proteger da hipertensão.

Só 11% medicados

Quase metade da população sofre de hipertensão (42 por cento) e apenas 11 por cento dos portugueses é que estão controlados com medicação. Portugal continua a ter muitos doentes que não sabem que são hipertensos.

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Entrevista a Carmona da Mota