Ilustrações: Márcio Gurgel
Agradecimentos Ary Sherlock Christiane Góis Deugiolino Lucas Erika Menezes Goretti Quintela João Ribeiro Luiz Carlos Castro Magaly Furtado Myreika Falcão Rafaela Louise Rejane Reinaldo Roberta Wermont Solana Sálmia Telry Lane Terezinha F. Benevides (in memoriam) Thiago BC
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O Velho vai tirando coisas de dentro do carrinho e um guarda‐sol usado se transforma numa tenda. As crianças ajudam na montagem, puxam fitas e amarram nos pontos estratégicos. Pronto! Está montado o circo. (Música circense durante todo o movimento). Algumas crianças se trocam em cena.
Todos saem. Entra Branca de Neve
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BRANCA DE NEVE – Respeitável público! Boa noite! O Grande Circo Espacial tem a honra de apresentar sua primeira atração. Com vocês, os melhores, os maiores e mais engraçados palhaços do Brasil, o grandioso Palhaço Jasmim e seu assistente Pipoquinha!
Rufam os tambores. Silêncio. Os palhaços não aparecem. BRANCA DE NEVE (Procurando os palhaços com o olhar e disfarçando para a plateia): Respeitável público! Agora sim, vem aí o Grande Palhaço Jasmim e seu ajudante Pipoquinhaaa!!!
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Rufam os tambores. Os palhaços não aparecem. BRANCA DE NEVE (Desesperada) – Senhora e senhores... Os palhaços Jasmiiim e Pipoquiinhaa (Berrando).
Rufam novamente os tambores e nada dos palhaços. BRANCA DE NEVE – Bom, gente! Nossos palhaços tiveram um probleminha... Contamos com a paciência de todos vocês e pedimos desculpas. Senhoras e senhores, dando continuidade ao nosso espetáculo trago ao picadeiro a maior dançarina de todos os tempos. Com vocês... Carmencita! (Aplausos).
No meio da apresentação da dançarina entram os palhaços vindos da plateia. JASMIM – Com licença... PIPOQUINHA – Licencinha... JASMIM – Com licença... PIPOQUINHA – Licencinha... JASMIM – Abram alas pros palhaços! (Cantam). “Ô raia o Sol, suspende a Lua, olha o palhaço no meio da rua”. Hoje tem espetáculo? PIPOQUINHA – Tem sim senhor! JASMIM – Hoje tem Marmelada? PIPOQUINHA – Tem sim senhor! JASMIM – E o palhaço o que é? PIPOQUINHA – É ladrão de mulher! JASMIM – O que é isso, Pipoquinha? PIPOQUINHA – É a música. JASMIM (Desconfiado) – E o palhaço o que foi? PIPOQUINHA – Ladrão de boi! JASMIM – Como é que é, Pipoquinha? O palhaço o que foi? PIPOQUINHA – Ladrão de boi!(Corre) É a música. JASMIM – Sai fora, Pipoquinha! Boa noite, meninada!! Tá fraco! Boa noite meninadaaa!!! Permitam que me apresente... CARMENCITA – Que permitam que me apresente é esse, hein? Você chega atrasado e ainda atrapalha minha apresentação?!
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JASMIM – Mas eu não fiz nada. Estava apenas... CARMENCITA – Atrapalhando o meu número! JASMIM – Ah! Você estava se apresentando, é? (Com desdém) Eu não tinha percebido. Você tinha percebido, Pipoquinha? PIPOQUINHA – Eu não tinha percebido. JASMIM – Pois é... Ninguém tinha percebido. PIPOQUINHA – Que dança chata, né? CARMENCITA – Ora seu, seu, seu... BRANCA DE NEVE (Interrompendo) – Chato! CARMENCITA – Isso mesmo. E eu não vou mais brincar com vocês! (Sai) BRANCA DE NEVE – Viram o que fizeram? JASMIM E PIPOQUINHA – O quê? BRANCA DE NEVE – Onde estavam quando chamei? JASMIM E PIPOQUINHA – No banheiro. BRANCA DE NEVE – No banheiro?! Tudo bem, mas agora não dá pra vocês se apresentarem. Passou a vez. JASMIM – Eu não vou mais me apresentar? BRANCA DE NEVE – Não! JASMIM (Choroso) – Você tem certeza do que está dizendo? BRANCA DE NEVE – Certeza absoluta! Agora queiram se retirar que o espetáculo tem que continuar. JASMIM E PIPOQUINHA (Olhando um para o outro) – Buaaaá, buaaá... Ela não gosta de mim. (Abraçam‐se) Ninguém me ama, ninguém me quer. BRANCA DE NEVE – Chega de drama! Se vocês quisessem fazer o número teriam chegado na hora. Isso é pra aprender a ser pontual e responsável. JASMIM – Podemos ficar sentadinhos, só espiando? BRANCA DE NEVE – Podem. Mas não vale atrapalhar. (Os palhaços concordam e se sentam num canto). ‐Respeitável público! A nossa próxima atração exige muita concentração. Qualquer descuido pode ser fatal. Para o perigoso número na corda bamba e atendendo a pedidos, vem aí, de volta ao picadeiro Carmencita, a equilibrista. (Aplausos).
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BRECHACADABRA – Boa noite! Senhoras, senhores e crianças... Especialmente para esta noite irei apresentar um número criado por mim e pelo meu querido amigo Réripóter. O número da levitação. JASMIM (Voltando, apoiado numa muleta) – Eu já falei que não vou atrapalhar. Vou ficar num cantinho só espiando. BRECHACADABRA – Posso continuar? JASMIM – Claro, claro! BRECHACADABRA – Para realizar o número da levitação vou precisar de um voluntário. Quem se habilita? JASMIM – Eu habilito, eu habilito, eu habilito... BRECHACADABRA – Não é “eu habilito”, palhaço. É “eu me habilito”. JASMIM – Se você habilita quem vai fazer a mágica? BRECHACADABRA – Chega, Jasmim! Deita ali e deixa o resto comigo, tá? (Para a plateia) – Atenção senhoras e senhores. Muita concentração neste momento. Estamos preparando o palhaço para levitar. (As partners preparam o palhaço para o número colocando duas vassouras debaixo do braço dele sem que a plateia perceba). – Abracadabra, olho de cabra, sim salabim, levita palhaço! O palhaço “levita”. Aplausos. JASMIM – Ô Seu Brechacadabra! Já posso tirar essas vassouras debaixo do braço? Tá assando meu sovaco. BRECHACADABRA (Furioso) – Seu palhaço ridículo. Você estragou o meu grande número. JASMIM – Esse era seu grande número? Você tá precisando de umas aulinhas, viu!!! Se quiser, posso ajudá‐lo. Sou mestre na arte de fazer mágicas. BRECHACADABRA – Não me faça rir, palhaço!
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JASMIM – Não acredita, é? Pois saiba que posso fazer aparecer um burro debaixo desse chapéu. (Pega a cartola do Mágico). BRECHACADABRA – Só quero é ver. JASMIM – Mas antes vamos ao teste. BRECHACADABRA – Teste? Que teste, oh! Grande Mago? JASMIM – Para saber quem é mais rápido. BRECHACADABRA – E o que isso tem a ver com a mágica? JASMIM – Nada... Quer dizer... Tudo. Porque pra ser um grande mágico tem que ser muito rápido, entendeu? Vamos começar. O chapéu fica no meio. Você fica de costas pra mim. Conta dez passos. E quem pegar o chapéu primeiro ganha, certo? Pipoquinha, vem cá. Você vai fazer a contagem. Não deixa ele te enganar, viu? (Palhaço e Mágico colocados de costas um para o outro. Chapéu no centro. Começa a contagem...) PIPOQUINHA – 1..2..3..4....5...6 e já! BRECHACADABRA – É pra contar até dez. PIPOQUINHA – Eu só sei até seis. BRECHACADABRA – Tudo bem. Vamos acabar logo com isso. (Voltam à posição). PIPOQUINHA – 1... 2... 3... 4... 5... 6... e já!
Brechacadabra pega rápido o chapéu e ri da moleza do palhaço. BRECHACADABRA (Rindo) – Perdeu no teste, palhaço molenga! Se sua mágica depender da sua rapidez você tá frito! Quero vê agora se você consegue fazer aparecer um burro debaixo do chapéu. JASMIM – Já fiz. (Aponta para o chapéu na cabeça do Mágico) Taí o chapéu e o burro tá debaixo dele. (Ri) BRECHACADABRA (Jogando o chapéu no chão) – Chega! Ou tiram esse palhaço ou não brinco mais. Vou inventar outro circo.
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BRANCA DE NEVE (Entrando) – Não precisa, Brechacadabra. Eu é que vou mudar de circo. Vou inventar um circo diferente. (Entram todos os personagens). CARMENCITA – (Entrando) Diferente? Como? PIPOQUINHA – Quadrado? BRANCA DE NEVE – Não. Um circo no alto. CARMENCITA – Em cima de uma árvore? BRANCA DE NEVE – Não. Mais alto. BRECHACADABRA – No céu? BRANCA DE NEVE – Isso mesmo! No céu. BRECHACADABRA – E como vamos para o céu? (Circulam pensativos) JASMIM – Eu sei! Vamos num cavalo. BRANCA DE NEVE – Deixa de ser palhaço, Jasmim! Como vamos para o céu num cavalo? JASMIM – Num Cavalo Espacial. TODOS – Cavalo Espacial? JASMIM – Isso mesmo! Eu tenho um. Esperem aí que eu vou buscar.
Jasmim vai até o carrinho de recicláveis e retira de dentro um enorme cavalo feito de pano.
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JASMIM – Vamos, pessoal!
Todos, menos o ator que faz o Pipoquinha, entram no cavalo e saem cantando. TODOS – “Sou um cavaleiro, sou um sonhador Meu cavalo corre, como um disco voador Assim vou cavalgando, galope espacial Pra brincar de circo no espaço sideral” PIPOQUINHA (Narrando) – Pocotó, pocotó, pocotó... Lá vai o cavalo cavalgando pelo espaço. Enquanto isso, num asteroide perto dali... gargalhadas assustadoras (Gargalhadas). Quem viverá num lugar como este? Branca de Neve cai do cavalo e... Coitadinha! Caiu justo no estranho asteroide. JASMIM (Voltando) – Para de tagarelar, Pipoquinha.Temos que encontrar a Branca de Neve antes que seja tarde demais.(Saem)
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MADRASTA – Espelho, espelho meu. Diga se neste asteroide existe alguém mais bela do que eu? ESPELHO – (Ronco estrondoso) MADRASTA – Acorda, Espelho preguiçoso. Responde, vamos! Quem é a mais bela deste asteroide? ESPELHO (Acordando) – Como? Quem? Por quê? Ah, claro que você, minha rainha, é a mais bela, quer dizer, era a mais bela. MADRASTA – Como assim? Enlouqueceu, Espelho maldito? Você já viu os habitantes deste asteroide? ESPELHO – Já. MADRASTA – Então, como ousa dizer que existe alguém mais bela do que eu? ESPELHO – Mas existe. Branca de Neve é a mais bela! MADRASTA – Só me faltava essa! Um espelho gagá. A idade não está lhe fazendo bem, meu querido. Lembre‐se que a branquicela não vive neste asteroide. ESPELHO – Engana‐se. Branca de Neve está neste asteroide, neste momento. E minha adorada rainha, não imagina quem ela encontrou. MADRASTA – Fala logo. Está me deixando nervosa. ESPELHO – Ela está com o Espírito do Universo. MADRASTA – Não acredito. Aquela fedelha metida de novo no meu caminho. E tinha que encontrar justo o Espírito do Universo?! Aquele implicante com mania de transformação! ESPELHO – Ele não vai sossegar enquanto não transformar você numa pessoa boa. Bem, eu não quis dizer que você é má. MADRASTA – Raios! Raios duplos, triplos, maldição! Isso não pode ser verdade. Mas se Branca de Neve estiver mesmo neste asteroide, não tem Espírito do Universo que a salve, porque minha vingança será maligna (Sai dando gargalhadas).
Jasmim e Pipoquinha que estavam escondidos escutando a conversa aparecem.
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JASMIM – Você ouviu, Pipoquinha? A Branca de Neve tá numa enrascada. PIPOQUINHA – E agora, Jasmim. O que vamos fazer? JASMIM – Temos que achá‐la. Aquele Espelho maluco falou de um tal Espírito do Universo. PIPOQUINHA – Ai, ai, Jasmim. Num tô gostando nada disso. Tenho medo de assombração. JASMIM – Deixa de ser mole, Pipoquinha. Esse Espírito do Universo parece ser gente boa. PIPOQUINHA – Sei não. Isso tudo aqui é muito esquisito. Dá arrepio! JASMIM – Eita bicho “frôxo’’. Pois pode aparecer a assombração mais assombrada, o espírito mais «espritado» que eu enfrento sem medo.
O Espelho emite um ronco estrondoso. Os palhaços correm desesperados, esbarram no Espelho e saem de cena. ESPELHO (Levantando‐se) – Alguém anotou a placa? (Sai)
Entra Branca de Neve. BRANCA DE NEVE (Cantando e observando a estrelinha que está em suas mãos). – Estrelinha do Amor Universal, será que você é poderosa mesmo? E quando vou ter que usá‐la, hein? Ai, ai que história maluca. E onde foi parar todo mundo? Afinal que lugar é este?
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Canta: Que coisa estranha. Que lugar é este? Não consigo me encontrar. Deve ser um sonho. Distante de casa, uma chance pra mudar. Que coisa estranha. Que lugar é este? Esse clima espacial. Será que é aqui neste asteroide Que meu destino vai se cumprir? Agora vou mostrar o quanto sou esperta. Tô cansada dessa fama de bobinha. Vou mudar, esse rótulo não dá mais. Agora vou mostrar o quanto sou esperta. Sou bondosa, mas não sou bobinha Vou mudar. Ninguém vai me rotular. Pois ser boa não é ser boba. A bondade não é um defeito. Não confunda. Isso tem que acabar. Quem disse que ser boa é ser boba? Ser boa não é ser boba.
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D. ORTOÉPIA (Entrando) – Parada. Não se mexa. BRANCA DE NEVE – Ai que susto! D.ORTOÉPIA – O que faz parada aqui? BRANCA DE NEVE – Eu? Bem, a senhora mandou ficar parada e eu... D.ORTOÉPIA – Não discuta comigo, menina. O que faz parada aqui? BRANCA DE NEVE – Eu não estou parada aqui, estou de passagem. Na verdade, caí neste asteroide e agora não sei como voltá. D. ORTOÉPIA – Não tente me enganar. Ninguém consegue enganar Ortoépia. BRANCA DE NEVE – Ortoépia? Que nome esquisito. D. ORTOÉPIA – Esquisita é a sua pronúncia. Você falou «voltá» e não voltar. Acabou de cometer Cacoépia e vai ser punida por isso. BRANCA DE NEVE – Epa, espera aí, D. Ortoépia.Vou ser punida por quê? Eu não fiz nada. E o que diabos é Cacoépia? D. ORTOÉPIA – Essa é uma história muito triste. Cacoépia é minha irmã. Ela sempre teve inveja da minha perfeita emissão das vogais e correta articulação das consoantes, daí, ela resolveu fazer oposição e saiu omitindo fonemas. Uma tragédia, uma vergonha para nossa família. Para tentar deter a Cacoépia criamos algumas regras e punição para quem as quebra. BRANCA DE NEVE – D. Ortoépia, eu lamento, mas não tenho tempo para escutar os problemas de sua família. Quem sabe outro dia, né? Agora preciso encontrar meus amigos e voltar pra casa.Tchauzinho!!! (Sai correndo) D.ORTOÉPIA – Volte já aqui. Você quebrou as regras. Tem que ser punida.
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D. ORTOÉPIA – Ele mesmo... JASMIM – Como podemos chegar até ele? D. ORTOÉPIA – Isso é fácil. Basta seguir a música. JASMIM – «Vamu» nessa, Pipoquinha. O Espírito do Universo pode nos ajudar a entrar no Vale. (Saem) D. ORTOÉPIA – Voltem aqui. Vocês cometeram cacoépia e usaram cacófatos. Quebraram as regras. Precisam ser punidos. (Aumenta o volume da música e Ortoépia sai perturbada). Blackout...
O Espírito do Universo está em cena vestido de rockeiros dos anos 70 (roupa, cabelo e acessórios). Brinca com o playstation guitar hero rock. Entram Jasmim e Pipoquinha e se envolvem com a brincadeira. PIPOQUINHA (Fazendo pose de rockeiro) – Que irado!!! ESPÍRITO DO UNIVERSO – Você tem talento, meu jovem. Devia praticar mais. PIPOQUINHA – Obrigada, seu Espírito! O senhor é o Cara. E pensar que eu estava morrendo de medo de encontrá‐lo. JASMIM – Sem querer interromper e já interrompendo, a conversa tá muito boa, mas o senhor não acha que tá muito folgado aí, tocando sua guitarra enquanto algo terrível está prestes a acontecer com nossa amiguinha? Precisamos de sua ajuda para entrar no Vale dos Destinos e salvar Branca de Neve. ESPÍRITO DO UNIVERSO CANTA: Você é muito afobado. Calma, tudo vai dar certo. Vou levá‐los ao Vale Antes vamos tocar mais um pouquinho.
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O ENCONTRO DA BRANCA DE NEVE COM A MADRASTA. BRANCA DE NEVE – Que lugar sinistro! Parece que não vive ninguém aqui. A Madrasta passa por trás de Branca de Neve sem ser percebida e fica observando num canto.
BRANCA DE NEVE – Nossa, que calafrio. Tenho a sensação de que estou sendo observada. A Madrasta dá uma sonora gargalhada. MADRASTA (Saindo do esconderijo) – Então é verdade. Você está mesmo neste asteróide, branquicela apática! BRANCA DE NEVE – Madrasta? O que está fazendo aqui? MADRASTA – Quem faz as perguntas sou eu. Como conseguiu sair do livro? E a Carocha, aquela barata desbotada que toma conta dos personagens dos contos de fadas não deixaria você sair, tenho certeza. BRANCA DE NEVE – Saí enquanto ela dormia. Eu não aguentava mais ser aquela princesa boba. A minha história já estava enchendo o saco. Então resolvi sair em busca de uma nova história e fugi com o circo. MADRASTA – Fugiu com o circo? (Gargalhadas)Você não é nada original, queridinha! E não tem sorte, também. Veio parar justo no meu asteroide. Pois saiba que aqui quem faz a história sou eu. E eu decidi que o final não vai ser nada bom pra você. Aqui não tem príncipe para beijá‐la e nem anões idiotas para salvá‐la.
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BRANCA DE NEVE – Se você pensa que vou cair no velho truque da maçã envenenada, está muito enganada. MADRASTA – Não, meu bem. Eu sou uma bruxa moderna. Entrei na Era da Magia Digital!(Puxa um controle remoto e aponta para Branca de Neve. Ela fica aprisionada dentro de uma tela de TV). BRANCA DE NEVE (Assustada) – Espere, Madrasta. Mesmo que eu morra, você jamais será a mais bela. O seu coração está cheio de inveja e ciúmes. Isso faz de você uma pessoa má e perversa. Alguém com tanta maldade por dentro jamais será bela. MADRASTA – Chega de conversa mole, Branquicela. Esperei muito por esse momento. Eu também quero mudar minha história. Cansei de sempre levar a pior, enquanto você levava a melhor. Agora vou acabar com você e mudar meu destino. BRANCA DE NEVE – Calma, Madrasta. Não precisamos terminar assim. MADRASTA – Adeuzinho, queridinha. Prepare‐se para ser deletada. (Apontando o controle remoto na direção de Branca de Neve). ESPÍRITO DO UNIVERSO (off) – Use a Estrelinha, Branca de Neve e cumpra o seu destino. Uma luz intensa sai de uma das mãos de Branca de Neve. Ela aponta na direção da Madrasta. MADRASTA – O que está fazendo? (Um vento forte e a luz intensa atingem a Madrasta que deixa o controle remoto cair). BRANCA DE NEVE – É a Estrela do Amor Universal. Você não quer ser a mais bela? Então, prepare‐se para a transformação. MADRASTA – Afaste isso de mim, sua lambisgoia desbotada. Essa luz tá me deixando tonta. Ai! Não tô aguentando... Acho que vou desmaiar... me ajuuuda... (Cai no chão desmaiada. Branca de Neve senta exausta).
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BRANCA DE NEVE – Ufa! Valeu, Espírito do Universo. Obrigada pela força. ESPÍRITO DO UNIVERSO (off) – Não tem de quê. Estarei sempre por aqui se precisar. BRANCA DE NEVE – Minha nossa! Achei que não fosse acabar nunca. Essa Madrasta é dura na queda. Vixe, será que exagerei na dose? Ela parece morta. (Tenta mover a Madrasta).
A Madrasta levanta meio zonza. Branca de Neve observa apreensiva. MADRASTA – Nossa! Que tontura, estou me sentindo tão estranha. (Percebendo a presença da Branca de Neve) Branca de Neve? É você? Mas o que faz perdida por aqui? Ah, sentiu saudades de sua querida Madrasta, não foi? Sabe, meu bem, estou com uma sensação estranha. Uma vontade esquisita de fazer uma boa ação. Ora, ora, eu aqui tagarelando, e nem ofereci um lanchinho pra você. Deve estar faminta. Vou preparar uma torta de maçã deliciosa, o que acha? Mas antes, preciso fazer uma consulta importante ao Espelho. Espelho, Espelho meu, diga se existe no universo alguém mais bondosa do que eu? (Sai ao som do Aleluia do Messias, de Handel). BRANCA DE NEVE – Caraca! Não é que funcionou! Mas por garantia, acho melhor não comer a torta de maçã. Ai! Estou exausta, preciso descansar. (Adormece. Entram Jasmim e Pipoquinha). JASMIM (Avistando Branca de Neve) – Nossa Senhora! Chegamos tarde demais. Coitadinha da Branca de Neve. PIPOQUINHA – Essa história não tem príncipe?
Entra o Príncipe. O PRÍNCIPE – Ó, cheguei tarde demais! E agora o que faço? JASMIM – Você tem que beijá‐la. (o Príncipe tenta beijar Branca de Neve)
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BRANCA DE NEVE (Levantando bruscamente) – Tem que beijar coisa nenhuma! JASMIM – Toda história de príncipe e princesa tem beijo no final. BRANCA DE NEVE – Acontece que essa é uma história diferente, esqueceu? PIPOQUINHA – Mesmo história diferente tem que ter beijo, senão fica sem graça. BRANCA DE NEVE – Eu já falei que não beijo e ponto final. PRÍNCIPE – Não sou eu que vai beijar você. É o Príncipe que vai beijar a Branca de Neve, entendeu? BRANCA DE NEVE – Eu já disse que não tem beijo. CRIANÇA 1 (Entrando furiosa e tirando a roupa da Madrasta) – Dá pra parar de discutir e terminar logo essa história? Já tá ficando tarde e precisamos ir pra casa. CRIANÇA 4 – Vai demorar muito, gente? CRIANÇA 3 – Tô com fome. BRANCA DE NEVE – Tudo bem. Eu deixo ele beijar. Mas na testa, viu? (Voltam aos seus lugares. Reiniciam a cena. Clima de romance). BRANCA DE NEVE (Despertando depois de ser beijada pelo Príncipe) – Oh! Meu Príncipe! PRÍNCIPE – Oh! Minha amada princesa! VELHO (Entrando com o carrinho do início da peça) – E foram felizes para sempre. CRIANÇA 5 – Finalmente! CRIANÇA 3 – Vamos pra casa que já é tarde.
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As crianças vão tirando as roupas dos personagens e colocando dentro do carrinho do Velho. CRIANÇA 2 – Ei, e o senhor não vem com a gente? VELHO SÁBIO – Vou ficar mais um pouco. CRIANÇA 4 – Foi muito divertida a brincadeira. CRIANÇA 1 – Podemos fazer isso de novo? Outro dia? VELHO – Claro. Sempre que quiserem, estarei pronto pra brincar com vocês. E quando estiverem adultos, achando que perderam o poder de transformar, não se esqueçam de chamar esse Velho Contador e Catador de Histórias. CRIANÇA 5 – O senhor ainda não disse quem é, e nem de onde veio. VELHO – Você faz perguntas difíceis, meu pequeno. Digamos que eu sou o Espírito do Universo ou apenas um velho que gosta de brincadeiras de criança. CRIANÇA 2 – Eu acho que você é maluco. CRIANÇA 1‐ Afinal, quem é você? VELHO CANTA: “Sou um cavaleiro, sou um sonhador Meu cavalo corre como um disco voador...”
(Música sobe. Saem todos)
FIM
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Elenco de Estreia de O Fabuloso Catador de Histórias Participação Especial: Ary Sherlock (no papel‐título) Carmencita, Dona Ortoépia e Madrasta: Lana Soraya Branca de Neve: Roberta Wermont Palhaço Pipoquinha: Lucas de Souza Palhaço Jasmim: Kátia Camila Mágico Brechacadabra, Espelho Mágico e Príncipe: Jesuíta Barbosa Palhaço enfermeiro e Contra‐regra: Victor Hugo Portela Coreografias: Goretti Quintela Músicas: João Vítor R. Barroso Cenários: Lana Soraya Adereços: Lidiane Mendes confecção de cenário: Josué Iluminação: Luís Ribeiro
O espetáculo O Fabuloso Catador de Histórias estreou a 5 de março de 2010, no Teatro Sesc Emiliano Queiroz, Fortaleza, Ceará.
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Brincadeiras
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Ajude‐me a separar todo este lixo reciclável
Metal
Plástico
Papel
Vidro
Que tal outra remessa?
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Sobrancelha direita Extensão do laço à esquerda Botão branco na blusa cadarço desamarrado Polegar esquerdo baixo Ponta da blusa abaixo Manga esquerda
«Deu a louca na Branca de Neve»! Encontre os 7 erros.
Encontre os CacĂłfatos
Boca dela = Cadela Pressa em mim abunda = Minha Bunda Vou me jĂĄ = vou Mijar Pela dona Maria = peladona
1 leite por cada = Porcada fĂŠ demais = fede vez passada = vespa assada
Dê vida ao cavalo do Cavaleiro Sonhador colorindo�o.
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Lana Soraya é dramaturga, diretora e atriz formada pelo Curso de Arte Dramática da UFC . Professora de teatro em escola de ensino fundamental e médio, ministra oficinas para projetos sociais e centros culturais. É produtora de elenco para cinema e vídeo, radialista e apresentadora de TV. Iniciou sua carreira na televisão em 1983 na TVC, onde trabalha até hoje apresentando programas jornalísticos. Diretora do núcleo infanto‐juvenil do teatro da Boca Rica. Fazem parte de sua formação os seguintes cursos: «Informação e Prática Teatral», ministrado pelo teatrólogo Aderbal Freire Filho; «Oficina Internacional de Teatro de la América Latina y el Caribe»; Curso «O Método de Stanislavisk», com Valentin Teplyakov, professor e diretor do curso de Arte Dramática da Academia Russa de Arte Teatral; oficina do Théatre du soleil com Maurice Durozier. Atriz premiada no Festival Latino Americano de Vídeo, em Florianópolis/1992, com o vídeo «Isabel», Prêmio Valdemar Garcia de melhor atriz com a peça «Sigilo Bancário», de João Bittencourt/1995; Prêmio Destaque do Ano 1991, atriz coadjuvante com a peça «A Raposa e as Uvas», de Guilherme Figueiredo. Destaque do Ano 1990, melhor atriz com a peça «Raimundo e Raimunda», de Oswald Barroso.