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Revista da UESP nº 1

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"a revista + CD da UESP e dedicada aos grandes nomes da hist6ria da resistencia negra no Brasil" tais como Lima Barreto, Andre Rebour;as, Ramos de Azevedo e Cruz e Souza. Mas, mais que eles, 0 trabalho da UESP e feito em nome dos Pereiras, Silvas e Santos que esf(io por ai, lutando anollimamente" A primeira preocupayao que nos da UESP tivemos quando dec idimos fazer esta revista, foi em relayao it vida (IIi I e ao alcance cu ltural que ela teria que atingir. Nao era interessante, por exemplo, que apenas uma ou duas divi soes de Esco las e Blocos fo ssem contempladas nesse projeto. Ficaria faltando algo. POl' esta razao, a mesma revi sta ten\ cinco versoes diferentes, cada uma con tendo 0 CD de lim Grupo diferente da UESP. as 64 sambas, portanto, foram gravados, e 0 registro historico fi cara para todas estas comunidades. Nada mais justo. Outro reflexo dessa nossa preocupayao esrn no proprio corpo da revista. Nao se trata de um simples infonnativo do carnaval 2008, que, apos a Quarta-feira de cinzas, tomase dispensavel. Esta revista cumpre com 0 objetivo de se manter significati va mesmo apos 0 carnava l, mesmo apos 2008, sendo sempre atual izada pela propria reflexao de quem a Ie. Eessa a ideia da UES P com essa revista : manter acesa a refl exao e a di scussao sobre 0 samba e sua origem, seus rumos e sua realidade. Ideal esse que dialoga perfeitamente com 0 objetivo do nosso carnaval tematico, de encoraj ar 0 pensamento e 0 debate de data tao importante na historia do Brasil. A Aboliyao da Escravatllra precisa de mai s argumentayoes e ayoes ao seu redor, e 0 samba precisa pegar pra si se u quinh iio de responsabilidade nessa questao. au seja, precisa de fato se r concretizada. A UESP assim faz e assim quer. Com esta revista, com seus 5 CDs e com seus proj etos futuros, expli citados nas paginas que estao a segu ir, nos estamos promovendo um importante momento de seriedade, nesta grande festa que e 0 carnava l.

Estamos aqui para festejar, mas tambem pra refletir. A contribuiyao que as entidades de samba dao it sociedade e incaiculavel, e serve como instrumento de resistencia a lima sociedade que, em via de regra, nao reconhece a historia do negro nesse pais, porque 0 acesso a essa hi storia e restrito e escondido, its vezes por ignorancia, outras vezes por preconceito.

Essa revista eurn destes instrumentos de resisrencia:

Boa leitura. 3


A Festa e a Reflexao ta revi sta que voce tern m maos nasceu de urn sonho enonne e vistoso que a UESP perrnitiu-se viver. Chegou a ser certeza entre todos nos que a publicayao teria urn nUmero avassalador de copias, e urna distribuiyao que atropelaria solenemente todas as fronteiras de Sao Paulo, quiya do Brasil.

E

Fazia sentido. Os sonhos precisam ser megal6manos.

o

limite precisa ser buscado, como urn elastico, que a gente estica 0 quanto pode, sem estoura-lo, e ele ja se tom a maior do que era antes. A realidade nao foi assim. Nao veremos esta revista em Paris, ou em Pequim. Mas ela nasceu para chegar as maos de quem a vive: os filhos e netos da AboLic;:ao da Escravatura, ocorrida 120 anos atras.

A partida e de Sao Paulo, e a sequencia e a repercussao dela por todo 0 pais, nurn ano em que a UESP colocani a questao racial do Brasil em pauta, e trazendo no bojo esta revista, que, desde sempre, trouxe algumas preocupac;:6es prioritarias. Uma delas e sua atualidade. Ha, aqui dentro, todo o servic;:o do Carnaval de 2008. Ela fala de 120 anos atras, fala do surgimento do concurso do Camaval, fala de seus signos primordiais, ela dialoga com 0 passado para manter-se util no futuro. Mas, sem duvida, a grande preocupac;:ao desta publicac;:ao e em manter a postura critica. Falaremos em festa, pois falamos de Camaval. Porem, rejeitamos comemorar a data como se fora um aniversario de parente querido.

Os 120 ADos da aboli~ao nao merecem palm as, mas reflexoes e criticas. Leandro Iamin - Editor

Presidente: Edleia dos Santos Vice Presidente: Edvaldo "Sulu" Aguiar Diretor Financeiro: Osmar Augusto de Oliveira Primeiro Secretario: loao Carlos "Neno" Segundo Secretario: Nelson Gomes de O. Filho Coordenador de projetos: Edelmo dos Santos Coordenador de Carnaval: Kaxitu Ricardo Campos Assistente Financeiro: Aline dos Santos Dept. de Camaval : Rosemary Aparecida Dept. de Camaval: Adriano Bejar Assessoria de lmprensa: Leandro lamin Recepc;:ao: Cinthia Anjos Coordenador CDMS: Marcos dos Santos Assistente CDMS: Caio Magno Editor e lornalista Responsavel: Leandro Iamin Fotos: Claudio Lira e UESP Cron istas: Fernando Penteado e Mauricio Coutinho Revisao: Leandro Iamin Publici dade: Paulo San!' Anna Circulac;:ao: Estado de Sao Paulo Assessor juridico: Dr. Silvio Luiz de Almeida Editora: Master Production Impressao: Nyw Graf Gn\fica e Editora e-mai l: assessoria@uesp.com.br

i~roeluction

Projeto Editorial e Execuifao.

Te1:(1 1) 3 129 9223

Diretor/Editor Paulo Cesar Saar'Anna

Adm.lFinanc. Christina Becker Dire~ao Criativa, de Arte e Design Lucca F. Di Nizo

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"Mas urn dia isso vai acabar"

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120 AN OS A TRAs ... 1888. A contragosto,

Governo Imperial do Brasil aceita assinar a Lei Aurea, que, pelas maos da Princesa Isabel, tomou corpo, tudo pautado por um passado recente de outras leis de combate escravatura, sem sucesso, 0 que trazia a tona uma briga de interesses onde os fazendeiros, "donos" dos escravos, eram os "beneficiados". 0

sofre economicamente, ocupa as camadas mais pobres da sociedade, e tem de lidar, ainda, com uma segrega<;;ao racial em seu dia-a-dia.

Hoje, nao sao mais os fazendeiros que trabalham contra a igualdade. Em 1988, a Lei Aurea ganhou apoio de intelectuais, estudantes, advogados e jornalistas. No entanto, em 2008, os "redutos" intelectuais, as universidades, os bairros nobres, Alem de uma quebra politica significativa, a Lei Aurea nao trouxe uma realidade cJaramente nao possuem convivio igualitario vantajosa aos negros emancipados. Sem entre negros e brancos. Entre advogados e estudo, sem moradia, e vivendo ainda com 0 jornalistas, podemos notar que os negros racismo exacerbado e feroz, nao se viu, nos sao minoria absoluta. Sao dados que anos que se seguiram, uma evolu<;;ao real entram em conflito com as estatisticas mais no sentido de equalizar os valores sociais elementares, que apontam que a maioria da entre as ra<;;as no pais. popula<;;ao brasileira e negra. E como uma 2008. Depois de 120 anos passados, a festa, em sua propria casa, comemorando Lei Aurea ainda parece nao ter cumprido seu proprio dia, mas, na hora da valsa, voce de forma integral seu objetivo primario de tem que danc;ar com a mais feia, com aquela igualdade. A popula<;;ao negra do Brasil ainda que pisa no teu pe.

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6


Entendia-se, cerca de 120 anos atras, que vivfamos em uma sociedade que se pautava na desigualdade, na hierarquia do poder, e que a cidadania nao era nada exercitada. Era uma sociedade em que a escravidao, por conta dos anos tratados com normalidade, era algo consumado e "compreendido". o que, no entanto, nao entende-se, e que na sociedade atual, num ambiente de dita democracia, onde mfdia e intelectualidade sao tao exercitados, haja preconceito semelhante. E ha. Porque sabe-se, uma lei muda as normas, mas nao reeduca uma sociedade desde sua raiz. Ninguem escraviza publica mente nem espanca negros em prac;;a publica, pOis ha a lei. Mas, nas esquinas escondidas, 0 preconceito ainda grac;;a e foge de toda legislac;;ao ou valor â&#x201A;Ź!tico. Mais que a impossibilidade de fazer plena parte do cicio financeiro, trabalhista e social do pafs, 0 negro ainda se ve sistematicamente perdendo espac;;o dentro de sua propria cultura . Ve a sua religiao-matriz serdesviada para 0 lado da caricatura, do descredito, da bagunc;;a, do satanismo. Sua musica e suas danc;;as multiplos, por influencias tao acabam indo na mesma singulares, de tantos frutos esteira,caindo em armadilhas sustentados por tantas e tao comerciais e culturais fortes rafzes. Samba, antigo que colocam 0 controle opio de escravo, lamentos comercial, 0 fluxo financeiro, de quilombos, cantos de o destaque midic3tico, em saudade, signo de Fe. Que se maos empresanals, nem cresce e se humaniza a cada sempre compromissadas adversidade, pois ha sempre com a profundidade cultural algo mais elevado do que a do trabalho que possuem, gloria.Quetange a luta etinge maos o sangue, que transforma e, quase nunca, empresariais negras. sofrimento em orgulho, dor em reac;;ao . Samba de Samba. De quanto tempo, ritmos, de cadencias, mas de quantas influencias, de de, sobretudo, mensagens. tanto corpo que te deu forma Eis af talvez a mais brasileira e silhueta, de tanta mente das culturas, e tambem a que te deu vida e verdade. mais afetada pelo elastico lades tao do tempo. Cultura negra, Historia de

Zumbi dos Palmal:es, o maior exemp/o de coragem e luta pe/a liberdade

negros escravos, 120 anos atras, 0 tempo anterior a isso, 0 tempo posterior, hoje. Fato que mudaram os valores, as leis, as mentes. Atingiram 0 samba, como atinge-se inevitavelmente tudo que e sagrado, quando luta-se de forma suja. o samba perdeu algo de si, deixou-se afetar, nao conseguiu ser forte para manter algumas informac;;5es milenares. Mas 0 samba esta af. Forte e imortal como sempre deu sinal que seria. Quando se avista a frente mais um carnaval, se olha pra tras com admirac;;ao. 7


E realmente digno de nota a longa vida numa espinhosa estrada, coisa que 0 samba se submeteu, e passou de pe. Nelson Sargento, que colocou em uma de suas letras que 0 "samba agoniza mas nao morre, alguem sempre te socorre antes do suspiro derradeiro", esta coberto de razao. E e af que entra a UESP. Faz mais de 30 anos que a Uniao das Escolas de Samba Paulistanas trata nao apenas de socorrer, mas de manter vfvido e saudavel, na prac;;a paulistana e nas prac;;as adjacentes, um samba que, ao contra rio do que outro poeta ja disse, esta cada vez mais longe do tumulo.

outra Divisao organizada pela Liga, 0 que nao muda o trabalho pro ativo da UESP, que segue revelando grandes nomes do samba, e formando Escolas que seriam campeas no futuro proximo. No comec;;o dos anos 90 do seculo passado, surge 0 Anhembi, o Sambodromo, mas ainda assim a UESP mantem seu trabalho de carnaval popular, debairro, buscando pontos perifericos, e nao apenas centrais.

A conclusao que se tira e que, a despeito de todas as transformac;;5es que 0 samba enquanto concurso UESP apresentou, a manteve sua preocupac;;ao cultural, do samba enquanto mensagem, e A UESP representa as dessa forma pcde chegar Escolas de Samba e Blocos ao ana de 2008 de forma com fclego Carnavalescos da Cidade, integra, e e membro do Conselho para apresentar 0 mesmo Municipal de Cultura. Desde espetaculo, mas, ainda, 1973, segue irredutfvel em com mais fclego para dar seu proposito previsto em um grito primordial, um sua constituic;;ao, de elevar berro fundamental. Um e encorajar ac;;5es culturais rasgo, um desabafo. em nome do Samba. Teve trajet6ria de sucesso Eis 0 Projeto 120 anos da indiscutfvel desde sua Abolic;;ao da escravatura: A nascenc;;a. Em 1986, surge Abolic;;ao Inacabada. Que a Liga, cisao da UESP tange 0 Carnaval, mas existe que passa a organizar e desde antes, e dura ate negociar contratos de forma depois, ao longo do ano. independente. A UESPainda Que celebra, de alguma mantem-se alimentando 0 forma, mas reflete e encoraja Grupo Especial e recebendo a discussao, sobremaneira. Escolas novas e rebaixadas. Com 0 tempo, surge uma Uma ac;;ao plural que tem a 8

clara intenc;;ao de ficar na memoria de todos ao longo dos anos. Os 120 Anos da Abolic;;ao ja foram citados e usados como tematica e fundamento em eventos ao longo do ana de 2007, como 0 Sorteio da Ordem dos Desfiles, e a oficina Cultural com crianc;;as de comunidades carentes. 0 Curso de Jurados tambem esteve carregado desta tematica, durante seu curso . Para 0 Carnaval, a UESP produziu um documentario sobre 0 tema, e lanc;;a um suplemento ,contendo todas as sinopses e enredos

Negro no ar;oite da senzala


deste Carnaval. Tambem ficara como heran<;a cultural deste Uma serie, portanto, de ideias que projeto, 0 Hino da Aboli<;;ao, que sera feito por representam um sonho, que refletem uma concurso, e 0 Trofeu Novos Abolicionistas. voz que, se 120 anos atras era calada, hoje Alem disso, a UESP ainda pretende firmar ja nao pode ser. Uma voz que, um dia, suas ideias de discussao com um programa de TV, e tornar seus registros petreos podera gritar que as leis e as realidades que atraves da remodela<;;ao de seu centro de encontramos em cada esquina estao em comunhao. Documenta<;;ao e Memoria do Samba.

Pra frente, samba.

Agoniza mas nao morre Nelson Sargento (1978)

Samba Agoniza mas nao morre Alguem sempre te socorre Antes do suspiro derradeiro Samba Negro forte destemido Foi duramente perseguido Na esquina, no botequim, no terreiro Samba Inocente, pe no chao A fidalguia do salao Te abrac.;ou, te envolveu Mudaram toda a tua estrutura Te impuseram outra cultura E voce nao percebeu

Nelson Sargento

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rdem e Locais dos Des I es

ORDEM 10

ESCOLA INVERNADA DA ZONA NORTE

UNIAO INDEPENDENTE DA ZONA SUL LOCAL DO DESFII£ AUTODROMO DE INTERLAGOS - ZONA SUL

50

TORQDA JOVEM

60 70

ESTRELA DO 3 0 BRINCODA

LOCAL DO DESFII£ - AUTODROMO DE INTERLAGOS - ZONA SUL


~T""~ os LOCAlS e HoRARIOS e venha PRESTIGIAR

nossos DESFILES!!! GRUFO 3 - ESCO!AS DE S4MBA - Q-IA\IE A - 40 MINuros

ORDEM

50

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Apar;;://,;; 2l.

ESCOLA FOLHA AZUL 005 ftIIARUJOS PRIMEIRA DA aDADE UNIOOSDE MIGUEL DRAGOES DE sAo MIGUEL OOM BOSCO ftIIALUNGOS ESTRELA CADENTE UNIDOS DE GUAIANASES

GRUFO 3 - ESCO!AS DE S4MBA - Q-IA\IE B - 40 MINIJTOS

ORDEM 10

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ORDEM " ESCOLA CAPRIa-tOSOS DA ZONA SUL CAPRIOfOSOS 00 T.U.P. UNIOOSOO

ESCOLA MDaDADE UNIDA DA MOOCA SAl DA FRENTE MOaDADERUBROENSE ACADEMICOS 00 JARAGUA OS BAftIIBAS IMPERA TRIZ DA PAUUcllA TRADIc;AO DA ZONA LESTE TRADIc;AO ALBERTINENSE

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ORDEM

ESCOLA

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GARoros DA VILA SANTA MARIA

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PAVIUlAO 9 AMIZADE DA ZONA LESTE

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MDaDADE IND. DA ZONA LESTE

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I ORDEM 10

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CACHOEIRA IMPERIO DO SAMBA

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ESCOLA PAINEIRAS ACADEMICOS 00 IPIRANGA FLOR 00 MORRO ERftIIEUNENSE UNIAO DA VILA ALBERTINA

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ORDEM ESCOLA 10 I UNIAO DA TRINDADE UNIOOS DE VILA CARMOSINA NAO EMPURRA QUE EPIOR I t«X:lDADE AMAZONENSE 50 I ME ENGANA QUE EU GOSTO FOLHA VERDE .,

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eja Voce Tambem Nosso Jurado Se voce vai ter a chance de assistir aos desfiles de algum dos grupos da UESP, porque nao, ,,'''av, fazer 0 seu proprio julgamento? Pegue caneta e papel, regule a sua severidade, e acompanhe as agremiac;:6es dando as suas proprias notas. Depois de dar as notas, e so aguardar 0 dia da apurac;:ao da UESP, e analisar se suas notas estiio de acordo com os resultados fmais. Se estiverem, e urn sinal de que voce tern boa visao e pode quem sabe ser jurado em 20091 Portanto, maos a obra. Esquec;:a as punic;:6es administrativas, deixe de lado a tore ida por alguma das agremiac;:6es, e fique atento aos criterios, brevemente explicados abaixo: As escolas serao julgadas nesses quesitos:

Bateria - Analise a conjugac;:ao dos diferentes sons e instrumentos, a cadencia dada 1'.610 ritmo, e a firmeza da marcac;:ao Harmonia - Entrosamento entre ritrno, melodia e danc;:a. Evolur,;ao - Conjunto de empolgac;:ao, criatividade, vigor e entusiasmo do conjunto. Letra do Samba - veja se 0 tema--escolhido esta de acordo com os eleme tos dramaticos, . . .. visuals e mUSICalS. Fantasia - Mais que beleza, note se as fantasias dialogam com 0 tema. Alegoria - Observe todo 0 conjunto plastico, e observe coerencia e beleza. Comissao de Frente - observe a elegancia, 0 efeito e a comunicac;:ao da comissao Mestre Sala e Porta-Bandeira - Harmonia do par, postura e bela indumentaria sao requisitos obrigat6rios. Melodia- Preste atenc;:ao se a letra e a melodia se completam e se estimulam 0 canto dos folii'les. Enredo- Avalie a ideia e 0 desenvolvimento geral do tema proposto, junto da criatividade das fantasias e das alegorias.

Os Blocos Carnavalescos possuem esses 4 criterios:

Bateria - A me sma coisa que nas escolas. Empolgar,;ao - Note a recepc;:ao do desfile pelos desfilantes, a forc;:a e 0 brio com que a ideia e passada e apresentada, bern como a harmonia do des file. Samba - Os elementos de letra, melodia e ritrno estao diluidos nesse quesito. Visual- Alegorias, fantasias, em seus conceitos de beleza e traduc;:ao do tema proposto. 12


Quando a gente assiste a urn desfile de uma Escola de Samba, dificilmente consegue calcular 0 nfunero de materiais e pessoas usadas. Tudo vira uma coisa homogenea e, com urn toque de magia, fica mesmo dificil imaginar 0 tamanho da folha de necessidades de uma agremia~ao. Num camaval como 0 da UESP, envolvendo 64 agremia~6es de grupos diferentes, e certo que voce nao eonsegue ter uma clara ideia do quanto esses desfiles mobilizam em termos de equipamento, trabalhadores e infra-estrutura.

Selecionamos alguns calculos que nos mostra urn quadro dessa engrenagem toda que da villa ao espetaculo carnavalesco .

...

Juntando os nfuneros medios de desfilantes por escola, temos urn nfunero de aproximadamente 36 mil pessoas se divertindo como passistas. Esse nfunero e suficiente para encher 0 estadio do Pacaembu, por exemplo.

A UESP conta com mais de 800 trabalhadores brac;ais por carnaval, representados por algo em torno de 360 costureiras, 360 funcionarios de barracao, 70 serralheiros e 40 marceneiros.

Teremos cerca de 122 carros alegoricos, entre todos os grupos da UESP. Isso preenche 4.300 metros quadrados, ou seja, o equivalente a 80 sobrados convencionais.

Sao gastos 3.600kgs de cola quente, e outros 3.600kgs de arame, alem de 10.000 placas de vacuo.

Com esse numero de carros, a gente chega ao nfunero de 432 pneus. Se colocados urn em cima do outro, atingimos 260 metros, o que significa urn predio de mais de 70 andares.

'A UESP contmta 0 servic;o, na epocade camavaI, de mais de 600 funcionarios, contando coordenadores, jurados, apoios, seguranc;a, buffet, locutores, entre outros servic;os'.

108.000 metros de tecidos sao gastos. E tecido suficiente para ligar Sao Paulo a Santos.

, 1027 onibus sao alugados para transporte de desfilantes e alegorias'. 13


A historia vivida de 120 anos pra ca, traz, dentro de suas entranhas, outros pequenos fragmentos historicos que muito explicam 0 presente. Eis aqui uma historia do nascimento do concurso do carnaval. Por Mauricio Coutinho Uito se tern falado do Carnaval - seja em Sao Paulo, Salvador, Recife ou qualquer cidade brasileira - , mas poucos coIihecem como ele nasceu em sua "fonte" maior, na cidade do Rio de Janeiro, antes de se espalhar pelo pais afora.

M

Vai dai que, quando fui convidado a escrever este texto, pensei de imediato em contar, com muita ajuda de pesquisas e conversas corn sambistas, urn pouco desta historia que colabora para ampliar conhecimento de sambistas e historiadores, e ilustrar ainda mais 0 trajeto cultural que foi tras:ado pelo samba, deste antes da lei Aurea.

o calendario novo em folha, pregado na alva parede que recentemente havia recebido urna mao da cal virgem, marcava 0 ano de 1932. Sentados na redas:ao, em torno de uma mesa ja desgastada pelo tempo, os jornalistas do Mundo Esportivo, jornal dado no Rio de Janeiro por Mario Fi 0, irmao de Nelson Rodrigues, procuravam encontrar alternativas para minorar a perda e leitores do periodico, bern como a falta de ass unto proporcionada com 0 fun do Campeonato Carioca de Futebol. Foi ai que Carlos Pimentel, brilhante escriba e com fortes layos de amizade e desenvoltura junto ao Mundo do Samba, surgiu com a id6ia de 0 jornal realizar urn desfile de Escolas de Samba em plena Pras:a Onze. 14

Como na redas:ao do Mundo Esportivo havia urn trio com reconhecido sucesso como compositores - Orestes Barbosa, Antonio Nassara e Armando Reis/Cristovao de Alencar -, aquela simples sugest 0 foi aprovada rapidamente. Para que nao ocorresse nenhum problema na escolha da melhor escola a desfilar, 0 joma resolveu estabelecer alguns crit6rios, divididos por equivaH!ncia nas notas dos jurados de entao. "Senhoras e senhores aqui presentes, informamos que os quesitos Melodia, Enredo, OriginaJidade, Poesia do samba e Conjunto receberao tres pontos cada urn e a Harmonia (que e valorizada ate hoje em dia), ten! a incumbencia de ir atnls de cinco pontos! Importante ressaltar que cada escola devera cantar tres sambas im:ditos, sendo que nao podem utilizar instrurnentos de sopro e sera obrigatora a presens:a de baianas no desfile".

E assirn foi feito. 0 corpo de jurados era composto por membros conhecidos na sociedade e na c1asse artistica, tais como OrestesBarbosa,compositor de sucesso it epoca,A.!varoMoreyra e Eugenia Brandao, casal de atores e 0 reporter Fernando Costa.

o

n6rnero de escolas concorrentes surpreendeu a todos: exatamente dezenove, que trouxeram mais de uma centena de folioes devidamente fantasiados e luxuosos carros alegoricos .


"Anunciamos a vencedora do Camaval da cidade do Rio de Janeiro no ano de 1932: Esta<yao Prirneira de Mangueira. Na segunda coloca<yao, ficou 0 Grupo Camavalesco de Osvaldo Cruz (que se transformou e passou a se chamar Portela)". Com 0 sucesso obtido, garantiu-se a oficializayao do desfile, permanecendo no mesmo local are 1941, quando 0 local transformou-se na nova Avenida Presidente Vargas.

o cenario Para urna melhor visualizayao da Folia de Momo: na decada de 30, 0 Camaval ja era urna festa, com a elite freqiientando os saloes de bai Ie, fantasiando-se e danyando fervorosamente ao som das marchinhas carnavalescas de consagrados compositores como Noel Rosa, Lamartine Babo e Almirante. Os bailes de mascaras ja tinham quase urn seculo de tradi<yao, introduzidosem 1835 pelo Hotel ltatiaiaeoCafe Neuville, ondeconfetes e serpentinas, recentes invenyoes francesas, abundavam os saloes brasileiros desde 1892. Frise-se que os concursos de fantasias jaeram realizados, em diversos pontos da cidade, desde os idos de 1908. Os cordoes camavalescos de clubes multiplicavam-se e, nas ruas, as familias desfilavam em carros abertos - os corsos -, e 0 povo divertia-se mesmo era nas ruas, com apoio do lusitano Jose Nogueira, 0 "Ze Pereira", que, ao alugar tambores e zabumba, e trazendo seus patricios para urn irnprovisado desfile, criava os blocos de rua. Formadas em sua grande maioria por negros, SUfgiam, nos morros, as escolas de samba, que, nessa esteira temporal, apresentavam instrumentos praticamente desconhecidos da populayao, como cuica, tamborim e surdo, e passavam a mensagem que ate hoje nao se calou: "0 samba e coisa nossa".

Mauricio Coutinho ijornalista,

pesquisador e historimJor do CamavaJ. Sites: www.escolasdesamba..com..br www.jornalinformasamba..com..br 15


,

AXE MINHAS BAIANAS Um dos grandes sfmbolos da resistencia da cultura negra e do samba esta na imagem de uma Baiana. Presem;a obrigat6ria em toda escola de Samba e traduc;ao artfstica da forc;a da mulher negra, inegavel que as Baianas merec;am um aplauso especial em todo Carnaval.

e

Por Fernando Penteado,

alve a simpatia das Baianas, estas jovens senhoras que, com sua grac;a e malemolencia, nos envolvem enos levam a crer que Deus existe. Axe minhas Baianas, que, no rodopiar da suas sete saias, nos da a protec;ao para 0 samba nosso de cada dia, samba este que elas souberam proteger e abenc;oar, com garra e sabedoria. Grac;as a essas divinas senhoras, 0 nosso bom e envolvente samba esta no mais alto patamar da cultura brasileira. Na epoca em que falar de samba era crime, elas 0 trouxeram para dentro do seu terreiro e 0 cultuaram acompanhadas de muita gente bamba. Simples batucadas e cantorias ecoavam do terreiro de Tia Ciata - uma das muitas baianas que emigraram para 0 Rio de Janeiro, sendo ela a pioneira em promover grandes noitadas de batucadas e cantoria.

S

Por mais longe que esteja uma escola de samba, nao importa 0 enredo, nao importa a nacionalidade - sabemos que os desfiles das escolas de samba ja atra vessaram fronteiras - la estao elas, nos seus trajes suntuosos, sob a protec;ao dos orixas, contidos em seus panos da costa. Varias homenagens ja Ihes foram prestadas. Ja Ihes ofereceram canc;5es, versos, livros, sua imagem ja serviu de modelo pelos mais diversos e renoma dos pin tores e escultores . 16


Mas temos certeza que por mais que se tente homenagea-Ias, sempre ficam faltando adjetivo para expressarmos nosso respeito a elas, que sao presenc;a obrigatoria nas mais diversas manifestac;oes da cultura afrobrasileira.

o samba paulista tem uma peculiaridade fmpar

e

em sua formaC;ao: eminentemente caipira, tendo seus precursores vindos dos mais diversos municfpios paulistas, a exemplo de Pirapora, Amparo, Campinas, Tiete, Piracicaba, Batatais e outros de igual importâ&#x201A;Źmcia. E, quando aqui chegaram, se espalharam por diversos bairros da capital, sendo que os homens iam trabalhar com servic;os que requeriam forc;a bruta. E as mulheres iam ser domesticas e CQzinheiras, nas casas de pessoas da alta sociedade paulistana. Muitas destas simples quituteiras ficaram famosas, por oferecerem um servic;o de alta qualidade, e com isto seus servic;os passaram a ser disputadfssimos. Nao demorou para que as tias quituteiras escrevessem seus nomes no cenario do samba paulistano, pois elas conciliavam 0 trabalho com a diversao, e promoviam grandes encontros com os bam bas do samba paulistano em suas casas onde, em conjunto com outras quituteiras, promoviam grandes rodam de batuque e samba, regados com muita com ida e muito samba de primeira. Assim eram nossas queridas tias quituteiras, hoje nos enchendo de orgulho, sendo representadas pela ala das Baianas. Em cada rodopiar de suas setes saias, espalha-se bons fluidos pelos ares, nos dando a protec;ao divina para um bom desfile. As Baianas sao mais que personagens dessa historia: sao alicerces. Desde tantos anos atras, e pelos pro x imos 120 anos, com toda certeza .

Fernando Penteado ePresidente da Embaixada do Samba de Siio Paulo, e diretor cultural da Escola de samba Vai- Vai.

17


0PulaY1iO afrodescendente recern saida dos grilhoes do cativeiro viu-se destituida de direis e seguranya social. A Lei da Terra a privou do acesso ao mais importante "meio de produyiio" daquela epoca, exigindo a necessidade da formay1io de poupanya individual ou familiar para a compra de lotes. De acordo com a Lei da Terra (Lei nO 60 I), 0 Estado abria mao do seu direito de doar e colocava as terras no mercado para a venda a quem dispusesse de dinheiro para compni-la.

N:.

N1io foram constituidas politicas compensatorias que ressarcissem a populay1io de ascendencia africana dos prejuizos causados pela escravidao. A populayao afrodescendente migra das senzalas para as franjas da periferia social: as favelas; expressao imprimida na vida social brasileira pela populayao sobrevivente da Guerra de Canudos, transferida para os morros do Rio de Janeiro. Ha urn acelerado processo de desagregay1io social. Esse processo e acompanhado pela tentativa de desarticulayao da memoria coletiva dos afrodescendentes no pais. Esposado pelos construtores do Estado Nacional Brasileiro, 0 paradigma cientifico da epoca era baseado no conceito de "hierarquia racial": brancos no topo e negros na base. 0 conceito de " hierarquia racial" contaminou as diretrizes "fundantes" do Brasil, prop iciando a exclusao "pela raiz" dos filhos, netos e bisnetos dos africanos escravizados.Os "Hom ens de Sciencia" daquela epoca desenhavam 0 futuro do pais com os trayos fomecidos por essa "hierarquizayao naturalizada" : Manoel de Oliveira Lima, Francisco Jose de 18

Oliveira Viana, Tobias Barreto, Silvio Romero, Joao Baptista Lacerda, Raimundo Nina Rodrigues, Euclides da Cunha, Herman von Ihering, Oswaldo Cruz, Miguel Pereira, A.A. de Azevedo Sodre e Edgard Roquete Pinto.

Roquete Pinto chegou a montar urn diagrama futurista que previa a extinyao da populayiio negra do cenano nacional.


Diagramas de constituift30 antropologica das populaftoes do Brasil, organizado segundo as estatisticas oficiais de 1872 a 1890, por Roquete Pinto.

1890

44,0%

1912

50,0 0/0

2012

80,0%

12,0 0/0

32,0 0/0

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As politicas do "embranquecimento" e da "democracia racial" visavam criar condiyoes Iimitadas de ascensao vertical e seletiva para os descendentes de africanos. Os valores morais e conceitos esteticos dos descendentes de african os foram esculpidos de acordo com as metricas dominantes. Essa pnitica nao foi homogenea. Grupos divergentes foram constituidos. Houve resistencia no setor rural (remanescentes de quilombos) e no setor religioso (casas de candomble), entre outros. Esses polos de resistencia converteram-se, mais tarde, em centros de "rearticulayao" da "memoria coletiva" dos afrodescendentes no pais, com por exemplo, os espayos das tres rodas miticas dos africanos no Brasil: aroda de candomble, a roda de samba e a roda de capoeira. Nessa fase, 0 ponto culminante desse exercicio de construyao de uma "Iimitada identidade divergente", em relayao ao padrao dominante, foi a criayao da Frente Negra Brasileira (FNB), na decada de 1930 .. A entidade marcou de forma decisiva a historia dos afrodescendentes brasileiros. C6nscios do papel politico da FNB, os dirigentes da entidade articularam sua transformayao em partido politico. Porem, em 1937, a ditadura do "Estado Novo" freou suas pretensoes politicas. A Frente e lanyada it ilegalidade. A teoria da "democracia racial" fazia parte de urn projeto mais amplo de constituiyao da identidade nacional. Na decada de 1930, intelectuais brasileiros abandonam 0 "axioma cientifico" da hierarquia racial. 0 afrodescendente nao era mais visto como inferior, geneticamente, em relayao aos brancos. Mas, a suposta superioridade racial dos bran cos foi substituida pela suposta "inferioridade cultural" dos afrodescendentes, nos aspectos civilizatorios.

Circundados por esses fatos historicos, os afrodescendentes tinham como unica estrafifgia possivel a aproxima~iio maxima aos padriies determinados pelas normas sociais dominantes. Eles procuraram se moldar as exigencias sociais da epoca.

Na decada de 30, intensificam-se os debates sobre os rumos da populayao negra no pais. Esse debate foi registrado nos dois primeiros Congressos Afro-Brasileiros realizados na decada de 1930: 0 primeiro em Recife em 1934 e 0 segundo em Salvador em 1937. Entre os anos de 1851 a 1960, cerca de quatro miIhoes e meio de imigrantes ingressaram no pais, provenientes de varias partes do mundo. Apesar da nacionalizayao do mercado de trabaiho, 0 descendente de africanos continuou marginalizado. Essa discriminayao e segregayao catapultararn 0 movimento social deafrodescendentes para 0 segundo estagio na luta contra 0 preconceito, a discriminayao e 0 racismo no periodo posterior it escravidao africana no Brasil. Emoldurado por uma situayao de turbulencia intemacional, 0 movimento social de afrodescendentes se rearticula. A derrota nazi-fascista em plano intemacional criou uma situayao favoravel ao combate do racismo no mundo. 0 conhecimento das atrocidades ocorridas nos campos de concentrayao baniu a racionalidade racista das agendas partidarias. Intensificam-se as lutas de Iibertayao nacional no continente africano. Nos Estados Unidos explodem as lutas pelos direitos civis dos afrodescendentes. Na Franya, africanos e caribenhos rascunham as primeiras notas sobre 0 movimento de Negritude que tomara dimensoes mundiais. No Brasil sao fundadas novas organizayoes; sao montadas novas pautas politicas; sao articuladas novas estrategias de combate ao raClsmo. 19


As denuncias das novas organiza~iiesprocuramdesarticular

dos afrodescendentes, e aumenta seu grau de morbi dade.

o "mito da democracia racial". As escolas de samba, como Desde essa epoca, as lutas centros importantes da reartipoliticas dos descendentes de cula~ao da memoria coletiva africanos criam altemativas e ancestral, jogam urn papel de lutas contra 0 preconceito fundamental na luta contra - a ideia preconcebida de uma o racismo, ao adotar 0 tema suposta inferioridade da popu- geral da "Aboli~ao Inacabala~ao negra -, a discrimina~ao da", para 0 carnaval de 2008. racial - a~ao discricionaria espacial, economica, politica, Ao se apropriarem da maior cultural e cognitiva -, e 0 ra- midia do pais - 0 camaval - , cismo - a a~iio articulada que elas indicam II popula~ao afroreduz a possibi Iidade de vida descendente 0 caminho das

pedras: a condu~ao do projeto de aboli~ao - iniciado no Quilombo de Palmares, no seculo XVII - esta nas miios dos afrodescendentes e cabe a eles dar urn tim a esse projeto inacabado, com a constru~ao

de uma sociedade plural, multicultural e de igualdade economica, politica e social.

Juarez Tadeu de Paula Xavier - Doulor em Comunica~iio e Cultura e diretor do curso de Comunicar,:iio Social da Universidade Cidade de S. Paulo.

"A populal;aO negra, como urn dos setores mais oprimidos e explorados na sociedade, historicamente demonstra que sua emancipal;ao definitiva nao sent dada pela burguesia, mas somente vint sob a luta politica contra 0 Estado Capitalista" (Pnud- Ul\1G - estudo que resuItou no Atlas Racial Brasileiro, baseados em dados do IBGE).

20


}>ERSONAGENS E REALIDADE Quando a histOria do negro no Brasil i contada no samba ou nas novelas, quem representa os personagens siio pessoas de carne e osso. E elas trazem pra vida realmuito mais que meros trabalhos projissionais - Valqlliria Ribeiro If lima delas. "Sou negra, sou mulher e nao posso ser burra. Fa~a 0 que fizer, tenho que fazer bem-feito". A autora dessa frase e a atriz Valquiria Ribeiro, 30, mas poderia sair da boca de muitos outros nomes, anonimos ou nao, pelo Brasil. Valquiria, ganhadora do Trofeu Ra9a Negra de melhor atriz de 2007, teve essa consciencia desde que 0 mundo se mostrou diferente para seus cabelos nada lisos. "Meu pai me deu cria~ao rigida, nao me aliviou e nunca me deixou me sentir vitima". Valquiria foi criada e formada na sua Escola de Samba do cora9ao, a Vai-Vai, onde foi Rainha da Bateria em 7 dos 22 anos vividos no Bixiga. Viver num autentico e hist6rico terreiro de samba ajudou Valquiria a formar sua identidade e personalidade. Mas nem todos passam por algo semelhante. "Antes de ser da Vai-Vai, eu sou de uma periferia. Nesses locai s, voce ja nasce tendo que sobreviver, ja nasce sendo apenas nfuneros de uma estatistica ruim. Poucos conseguem fazer 0 que quase ninguem espera deles, porque falta incentivo, e tambem uniao entre os pr6prios negros". Valquiria e atriz e bailarina, e come~ou na TV em

2000, pela A Pra~a E Nossa, antes de iluminar-se com os sucessos de dois personagens de telenovela: em A Escrava Isaura, ela foi a mae da protagonista, e, em seguida, deu corpo it Escrava Jesuina, em Essas Mulheres, ambas novelas produzidas pela TV Record. Os dois personagens, certamente, entregaram a ela uma carga que a permite falar com propriedade sobre 0 periodo de escravidao e suas implicayiies culturais futuras."Umtrabalhoveioem seqiiencia do outro, ever a hist6ria assim mexe muito, quando olbo pra tras e vejo ancestrais meus nos personagens que eu fa~o". Para Val qui ria, seus dois personagens ligados it escravidao mostram uma evolu~ao social. "Em Escrava lsaura, eu morro no tronco, tratada como objeto e sofrendo muito. Em Essas Mulheres, ja dava pra notar alguma evoluyao no tratamento da sociedade. E born que hoje ja possamos fazer agentes de viagem, ou seja, personagens bern sucedidos, sem causar nenhurna rejeiyao social". Mas, claro, tal aceitayao ainda nao e suficiente, e Valquiria, otimista, vislumbra urn futuro afirmativo. "E uma questiio de representatividade.

Na minha epoca, ninguem me representava na TV, muito menos nas gera90es anteriores. Hoje, ja existe algo muito melbor, e isso desperta 0 interesse das gerayoes que se formam. Nos jomais, na TV, na politica, vejo gente nos representando, vejo meu sobrinho sem problemas para desejar ser doutor, dono de mercado, e as gerayoes futuras vao melborar ainda mais essa realidade". Na compara~ao entre a importancia de uma lei e de urn veiculo potente que fa Ie ao povo negro, Valquiria e enfatica. "Ainda e urna questiio para nao se vitimizar. A cota pra negros esta ai? Vamos usar, sem se sentir vitima! As leis estao ai, para que a gente use a favor, mas sem duvida, a representatividade de uma revista para 0 publico negro e fundamental". Na hist6ria real, Valquiria e urn personagem que representa perfeitamente a busca da consciencia negra, buscada desde a Aboliyao. 21


COS Saiba urn pouco mais... --~

uando chega 0 Camaval, cada urn curte It sua maneira. Muitos de nos saimos de casa para ou para assistir 0 desfile, mas des 1 e certo que quase todos percebem e se influenciam pelo clima de festa e competiyao que 0 Concurso do Camaval promove. E recorrente, entre quem participa direta ou indiretamente do Camaval, nao saber todos os detalhes de regulamento e organizayao que cercam a festa que todos vemos. Acompanhe, pois, algumas das mais substanciais inforrnayoes tiradas dos regulamentos e dos grupos hierarquicos desse Camaval, e tome nota na hora de torcer pel a sua Agremiayao: o Camaval da UESP possui 6 divisoes, ao todo. Sao 4 Divisoes de Escolas, e 2 de Blocos. As 4 Divis5es de escolas estao Jigadas, em terrnos de acesso e rebaixamento, aos dois grupos organizados pela Liga das Escolas de Samba. A divisao eassim feita:

Q

22

Gmpo Especial

LIGA

Gmpo de Acesso da Liga

LIGA

Gmpo I

UESP

Gmpo 2

UESP

Grup03

UESP

Gmpo de Acesso (vaga aberta)

UESP

As Divis6es sao interligadas, isso e, 0 acesso na divisao de baixo coloca a Escola no grupo de cima, e 0 mesmo ocorre com os rebaixados. Todo ano, Liga e UESP recebem novas entidades, oriundas de outras Divisiies. Ji nos Blocos Camavalescos, a organizayao e mais simples, pois sao apenas duas divisoes:

Grupo Especial de Blocos Grupo 1 de Blocos (vaga aberta)


Mas 0 que eBloco, e 0 que eEscola? As divisiies entre Blocos e Escolas tern a ver com 0 estatuto escolhido pel a agremiaS;ao. Ao escolher ser urn Bloco, ela conta com uma verba diferenciada, menor, pois e urn Camaval de menos exigencias. J<\ ao optar ser uma Escola, a Entidade precisa atender a outros parametros mais rigorosos em termos de regulamento. E comum que Blocos, com 0 passar do tempo, se tomem Escolas. A propria trajetoria bist6rica do samba explica 0 desenvolvimento dos Blocos, e 0 surgimento e evolus:ao das Escolas.

CO'!fira algumas das caracteristicas mais visiveis que diferenciam ambas: *Os Blocos Carnavalescos utilizam Porta-Estandarte, isso e, uma representante que ostenta 0 pavilhao, ao passo que, nas Escolas, quem faz esse papel e a Porta-Bandeira, ao lado do Mestre Sala. *Os Blocos nao possuem Comissao de Frente, que e obrigatorio entre as Escolas. 0 que representa uma Comissao de Frente, nos Blocos, e a sua primeira alegoria, abre-alas. *Os Blocos nao possuem alas obrigatorias, como sao entre as Escolas, como a das Baianas e a das Criam;as. *Enquanto as Escolas produzem urn Enredo, os Blocos fazem urn Tema para 0 Carnaval. A principal diferem;a entre am bas e que no en redo, se tern uma historia que exige ser mais dens a, com come4,:o, meio, tim e aprofundamento, enquanto 0 tema nao precisa estarcompromissado com linha cronol6gica ou documental. *Os Blocos Carnavalescos sao julgados em apenas 4 quesitos: Bateria, Empolga4,:ao, Samba e Visual. Ja as escolas sao julgadas em 10 quesitos: Bateria, Harmonia, Evolu4,:ao, Letra do Samba, Melodia, Enredo, Fantasia, A1egoria, Comissao de Frente, Mestre sala e Porta-Bandeira.Esses quesitos dos B1ocos mostram bern que trata-se de uma modalidade mais romantica do que tecnicista.

o CARNAVAL E SEUS DETALHES DE REGULAMENTO: Tempo de Desfile: Todos os grupos da UESPfarao desfiles de40 minutos, exceto 0 Grupo 1, que desfila em 45 Minutos. Componentes: 0 Grupo 1 e 0 Especial de Blocos devem ter urn minimo de 600 componentes. Sao os maiores numeros de componentes minimos da casa. 0 Grupo 2 exige 500 componentes, enquanto 0 Grupo 3 eo Grupo de Acesso determinam 400. 0 nlimero que preve 0 menor nUmero de componentes e 0 Grupo 1 de Blocos: 350. Alegorias: Grupo 1 e Grupo 2 preeisam trazer duas alegorias. As demais, precisam trazer apenas uma. Todos os Blocos Camavalescos nao podem trazer mais do que uma limea alegoria. *Todas as escolas precisam apresentar urn minimo de dois easais de Mestre Sala e Porta-Bandeira. Os Blocos podem trazer de uma a tres Porta-Estandarte. 23


Vps~ uma escofa de vida u conheci a UESP no inicio dos anos 80, quando eu e 0 meu irmao, depois de muita insistencia, convencemos nossa mae a assistir 0 desfile das campeas na Av. Tiradentes. A nossa emQ9ao era muito grande, nao cabiamos em n6s mesmos de tanta alegria. Monivamos, naquela epoca, no bairro do Born Retiro.

E

Saimos animados de casa e ja podiamos ver as luzes brancas da Av. Tiradentes. Meu pai avisou que iriamos pegar 0 trem e ir para a entao distante Patriarca, bairro da Zona Leste, vi sitar urn tio nosso que naqueles dias ja tinha quase 100 anos. Nao havia metro ate aquela regiao, enta~ pegamos 0 trem. Naquele dia eu s6 pensava em ir para a avenida ver 0 desfile. Depois de algumas horas andando de trem e alguns minutos de visita, enfim chegamos na Tiradentes. Que legal aquela avenida iluminada! Com uma decorayao com bolas de plastico bran cas de varJos tamanhos, os tapumes pintados de preto com bolas brancas, aquele cenario me lembrando 0 meu time do COrayaO e a minha escola querida ... Fascinante! Desfile das cam peas normalmente e a festa de uma s6 entidade, mas naquele dia tudo estava maravilhoso. Meu pai era 0 cronometrista da cabine I, que ficava onde as escolas entravam na avenida, e eu fiquei la com ele, podendo ver tudo de perto. Depois dessa experiencia, era chegar o mes de janeiro eu ligava pro papai para estar na cabine com ele. Papai nao se importava, mas dizia que deveriamos, eu e meu irmao, participar das reunioes da UESP, pois la se decidiam coisas importantes durante 0 ano, e tinham pessoas que eram verdadeiros professores de cultura.

KAXlTU Ricardo Campos Coordenador de Carnaval

24


Afuis, meu pai sempre dizia que "A UESP e wna verdadeira escola de vida". Eu, !lII'l fular a venlade, achava tudo isso muito chato, ser obrigado a ir a reunioes em maio, agosto? Nao! Eu queria ver 0 desfile la na avenida junto com 0 meu pai e so. Passaram os anos, e meu pai sempre nos chamando, sem sucesso. Ate que no camaval de 86, quando ligamos para 0 velho pai na semana do camaval, nurna segunda-feira a noite, so 0 encontramos na UESp, que deveria estar lotada, pois era urn dia de reuniao dos presidentes.

Senti 0 que e participar do samba, da vito ria que e uma comunidade aportar 0 seu abre alas na ponta da pista, da sensayao do componente chegar perto da corda, a garra do batuqueiro batendo com a mao sangrando e... das pessoas que organizam tudo isso sem dormir sem comer. Senti tudo isso com apenas 15 anos, era demais para mim, 0 meu pai tinha razao, eu tinha que viver todo 0 processo da construyao daquela paixao, daquil0 que mexia tanto com a minha cabeya, e resolvi aparecer na UESP durante 0 ano. Aprendi muito sobre decencia. Fui conhecendo mais 0 meio e posso dizer que aprendi muito sobre relayao humana aqui na UESP, pouco a pouco.

Era a ultima reuniao de muitas agremiayoes, que depois daquele camaval formariam a LIGA Independente das Escolas de Samba de Sao Paulo. Nesse dia comecei a perceber urna faceta do camaval: como ele tern 0 poder de transformar as pessoas. Meu pai , sempre calmo, cordato de fala mansa, naquele dia ficou bravo comigo, reclamou e bateu 0 telefone depois que mais urna vez pedi para assistir 0 desfile junto com ele. Tambem, eu, menino bobo, depois de nunca atender a urn singelo pedido do meu velho pai, ligo para ele numa vespera de camaval, com tudo pra fazer...

0 privilegio de participar, desde tive e ate hoje, de grandes historias promovidas pela UESP. Eu posso dizer que fui formado pela "Escola UESP de Cultura Sambistica" , quando entrei, pra curtir, em fevereiro de 1986. Eu era urn menino que gostava de camaval, e hoje, dizendo que meu pai sempre esteve certo, eu sou urn homem que vive 0 camaval, e 0 ama como um menino . Kaxitu, Coordenador de Carnaval

Muito bern, 2 minutos depois, meu pai, mais calmo, ligou para mim e pediu minha presenya junto a ele assistindo ao desfile, como sempre. Mas, dessa vez, ele nos desafiou a fazer por merecer o ingresso: teriamos que trabalhar na organizayao dos des files, como voluntarios. Teriamos que nos apresentar na UESP na quarta-feira ao Sr. Dejair Martins, diretor da casa, para trabalhar.

Semana da Mulher Negra: palestras, foruns e oficinas tratarao de debater a importancia da mulher negra na manutenyao cultural e social do povo negro.

Nesse dia entrei pela primeira vez na sede da entidade. Vi uma pessoa dentro da sala gritando "Leeeiiiaa"! . Era 0 presidente Eduardo Joaquim chamando a secretaria Edleia dos Santos, hoje a nossaPresidente. Eu e meu irmao trabalhariamos no bairro da Vila Prudente. Estava, entao, conhecendo e entrando na escola da minha vida que se chama UESP. A partir dessa vivencia no camaval de 86, quando pude trabalhar na organizayao do camaval, fiz de tudo urn pouco: contagem de componentes, cronometragem de desfiles, entrega de lanches ...

Eu

enta~

Hino da Aboli~ao: Urn concurso aberto, junto de urn jUri isento, escolhera urna canyao especial que se irnortalizara. Trofeu Novos Abolicionistas: Urn evento com 0 objetivo de prestigiar e homenagear os lutadores e os abnegados pela luta em nome da igualdade racial, ou seja, "abolicionistas" desse novo seculo. Documentario e Livro: Estes trabalhos serao referencias documentais deste processo. 0 livro guardara todas as sinopses e enredos deste Camaval, eo Documentirio colher.:i ~ einfunm;Oes mUltipIas sobre esta questlio. 25


A atriz Adriana Alves, 31, pode ser considerada .npe~a-chave em urn novo conceito cultural

que gra~a cad a vez mais: a representayao do negro bem-sucedido nas historias que relatam o cotidiano medio do brasileiro, nas novelas da nossa televisao, habituadas, num passado recente, a entregar aos negros papeis de segundo escalao. Tudo porque ela entra 0 ano de 2008, marcante pel a data dos 120 anos da Aboli~ao, vivendo, em plena TV Globo, na novela Duas Caras, urn personagem especial: uma moradora de uma favela que sai da trama, e volta casada com um miliomirio, presidindo uma ONG e atendendo pelo nome de Condessa Finzi. Adriana enxerga nesse personagem - que, na trama, trabalhani a favor de sua favela, e nao de sua fortuna -, um marco. "Presencio hoje quest6es sendo tratadas na novela, que considero illn avan~o e um merito. 0 comportamento, a vida em uma favela-modelo, 0 cotidiano que poucos prestam atenyao, hoje esta retratado para todos". A trajetoria de seu personagem, mais do que um estimulo aos que assistem a fic~ao, e um exemplo de realidade na vida da propria Adriana. Ela foi criada perto do Grajau, num lugar chamado 7 de Setembro, alta periferia de Sao Paulo. "Foi algo muito proximo de mim, 0 fato de ser pobre e ser vista com um futuro promissor, que era meu talento". Adriana, que trabalbou recentemente no famoso seriado Turma do Gueto - marcado por explicitar questoes palpitantes da vida na periferia, das favelas e particularmente do povo negro -, vi: ainda outras semeihanyas entre ficyao e realidade. "Eu mesma nao vivi nada muito proximo de drogas ou bandidagem, mas, assim como nas historias, vi que a educayiio e 0 conhecimento eram os caminhos para se projetar", avalia a atriz e publicitaria.

o estudo, para e1a, e uma questao de sacrificio. "Temos o caminho do certo e do errado. Ao optar pelo certo, que e a educa9ao, a gente muitas vezes tern que abrir mao de festas, de sair pra namorar, de curtir algumas coisas". Para Adriana, a curtiyao e inclusive uma das ameayas da afirrnayao negra atraves da educayao. "A cota para negros, por exemplo, eu sou a favor, mas tern muitos que buscam so urn diploma, ganham urn espa~o facil e nao sabem valorizar a chance". Adriana Alves foi Rainha de bateria da Vila Maria, e e atualmente Madrinha da Perola Negra. Ela ja era atriz antes de entrar no samba, aos 20 anos. "0 samba ajudou muito em minha vida, pelas pessoas que eu conheci e os valores", reconhece, sublinhando a importancia que 0 samba tem, ainda que indiretamente, em todas as transformayoes sociais que envoi vern a negritude. Adriana, saiba de uma coisa: o samba tambem aprende com quem tern ideais.


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