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Compositores da MPB - Assis Valente

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37 R$ 11 ,90

ASSIS VALENTE Conheテァa o samba de sabor carioca etempero baiano . BRASIL PANDEIRO NOVOS BAIANOS

CAMISA LISTRADA MARIA BETHANIA

E O MU ND O Nテグ SE ACABOU ELIETE NEGREIROS

E BATEU - SE A CHAPA SILVIA MARIA

TEM FRANCESA NO MORRO ARACY CORTES E CONJUNTO ROSA DE OURO

BOAS FESTAS NOVOS BAIANOS

UVA DE CAMINHテグ CARMEN MIRANDA

ALEGRIA TADEU FRANCO

BONECA DE PANO CARMEN COSTA

MINHA EMBAIXADA CHEGOU CHIA

RECENSEAMENTO SONIA SANTOS

MARIA BOA MARIA ALCINA

EDITO RA

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EDITOR A

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CONSELHO DE ADMINISTRAÇAo Roberto Irineu Marinho (presidenle) João Roberto Marinho (vice-presidente) Roberto Irineu Marinho, José Roberlo Marinho, Luiz Eduard o Velho da Silva Vasconcelos, Mauro Molchansly, Pedro Ramos de Carvalho (conselheiros) DIRETORIA EXECUTIVA Ricardo A. Fischer (diretor geral), Fernando A. Cosia, Flávio Barros Pinto, Carlos Alberto R. Loureiro, José Francisco Queiróz (direlores) DIVISA0 DE FASclcULOS E LIVROS

Mais que uma simples categoria de manifestação artística , a música popular brasileira é um tipo de catalisador do pens amento e da cultura nacionais . Há muito a música foi eleita como veículo em que nó s, brasileiros, nos sentimos mais confortáveis para comunicar nos sas paixões , nossas angústias, medos , ressentimentos, procuras, nossas posições políticas . Justamente por isso, resgatar a história da MPB é resgatar mom entos , Imagens e eve ntos da nossa hi s tória. Nesse século, nossa música desabrochou. Quem tenta entender sua trajetória percebe que até os anos 50 tivemos ensai os, talentos que foram espalhando sementes no imaginário do povo e do s compositores . Algumas dessas sementes frutificaram ali m esmo , n-o momento da semeadura, e viraram canções qu e até hoje habitam nossas memórias. São as canções de Noel Rosa, de Lupicínio Rodrigues, de Ismael Silva, de Ataulfo Alves e Mas foi ape nas no final da década de 50 que todas essas sementes se fundiram, se misturaram e d eram origem à nova música popular do Brasil. Navegando nas águas de Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes, a bossa nova atracou no porto brasileiro e mudou para sempre os rumos dessa história. O que veio depois foi o desenvolvimento da planta, foram as cores das pétalas , foram as curvas do s galhos. Foi uma geração inteira de talentos in éditos que agora, no final Jo séc ulo, continua produzindo e gerando frutos, confirmando a nossa música, brasileira antes de tudo , como uma das expressões artísticas mais criativas do século XX. A coleção MPB Compositores vai levar a você a história desses homens e dessas mulheres. E, mais que tudo, dessa música .

Diretor Flávio Barros Pinlo Editorial Sandra R. F. Espilotro (editora executiva), M. Cristina F. da Silva (editora assistente), Edenir da Silva (assistente de redação), Odair Silva das Neves (produtor), Daisy C. da Cunha (secretária)

Marketlng Heitor de Souza Paixão (diretor), Atílio Roberto Bonon (gerente de produçao), Sérgio Ishikawa (supervisor de marketing), Laiz A. Gimenes (assistente de marketing), Elisabete Blanco (supervisora de produto), Márcia de Carvalho e Kátia R. Marttuci (assistentes de produção), Marilda Faria de Oliveira, Zita Stellzer R. Arias (coordenadoras de produção) Colaboradores Elitas Andreato (projeto e criação) Marcia Blasques (pesquisa e redação) lolanda Huzak (edição de fotografia) Alexandre Huzak (direção de arte) Sandro Schutze (chefe de arte) Dennis Vecchione e Bento Andreato (editoração eletrônica) Janaina Abreu (secretária de redação) Maria Carolina de Araujo (copidesque e revisão) Sulla Andreato (administração) Double - Bureau de Pré-impressão (fotolitos) Clrculaçílo Wanderlei Américo Medeiros (diretor) Marketlng Direto e Serviços ao Cliente Wilson Paschoal Jr. (diretor) Comunicação Mauro Costa Santos (diretor)

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LOREDANO

A genialidade de um poeta está na originalidade das escolhas que faz. Assis I n surpreende a cada imagem. Quanto ao fraseado melódico, é deliciosamente molhado e cheio de ginga. Coisa de io. Olha só: "Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí, em vez de t omar chá com torrada ele bebeu parati". Não é ~ -===;:===:::=::::::::::;~=~=:;;:::=~ I:;;==.,::::f-J---=-

Renato Borghi


MAZELAS DE SAMBISTA PARA ASSIS VALENTE TUDO ERA MOTIVO DE UMA NOVA MÚSICA. As ALEGRIAS E TRISTEZAS DE SUA EXIST~NCIA,

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AS SITUAÇÕES DO DIA-A-DIA.

QUE IMPORTAVA ERA BATUCAR SUAS EMOÇÕES E DEPOIS OUVI-LAS NA VOZ DO POVO.

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ia 11 de março de 1958, Na verdade, a solidão fora uma quase seis horas da tarde. No constante, desde o tempo em que ainplayground da praia do Russell, da era moleque, na Bahia. Filho de mãe as crianças brincavam sob os olhares cui- a: solteira (fato por ele nunca admitido), dadosos de suas mães e babás. Gritos de ~ José de Assis Valente nasceria no dia :'l alegria, correrias, sorrisos infantis. O sol já ~ 19 de março de 1908, já marcado por baixava no horizonte, um clima de des- ~ t(:?ft:r:x~ uma sina: a cada sucesso se seguiriam contração pairava no ar. Ninguém notou Id@ {§{/::f::?;} muitas tristezas. Cada uma das alegrias quando aquele mulato alto e de cabelos ~ I·:u:!~~;r.i:(?!;~{i;:it seria interrompida por um fracasso. grisalhos saiu do bar com uma garrafa de ~ Uma história repleta de situações pitoguaraná na mão. Ninguém percebeu a ex- o rescas e infelizes e de acontecimentos futuro compositor Assis Valente, pressão angustiada, o sofrimento de uma que vão do emocionante ao duvidoso. aos 14 anos de idade, em foto vida toldando seus olhos. Baixou a cabeça publicada no Diário de Notícias de O local de nascimento - assim e tomou o primeiro go e e guaraná. 1Scomo mUltos aspectos e sua m anCla turada à bebida, a decisão irrevogável: cianeto. - até hoje é motivo de questionamento entre os biógraMorria Assis Valente. O compositor encerrava cinfos do compositor. Em uma entrevista ao Cine Rddio qüenta anos de infortúnios e angústias. Meio século de Jornal, em junho de 1941, o próprio Assis Valente teria batalhas tentando aceitar-se, entender-se, consolar-se. garantido: "Sou baiano, natural do Campo da Pólvora, Com o suicídio, Assis buscava a tragédia extrema como Salvador. Talvez por ter nascido na Pólvora eu seja assim, solução para as desgraças de sua vida. O que Assis, com de 'pele queimada"'. Porém, em sua certidão e segundo todos os complexos e traumas, não entendia é que seu versão contada ao amigo Ary Vasconcelos, sua mãe teria gesto colocava um ponto final numa carreira fecunda e dado à luz na Bahia, mas no caminho entre Bom Jardim incomum. E que, com sua morte, a música brasileira fie Patioba, "em plena areia quente". cava menos rica e muito mais triste. De qualquer maneira, tudo o que se sabe da vida de Naquele momento de desespero, ele não podia imaAssis Valente, até sua chegada ao Rio de Janeiro (que ginar a falta que faria. Só pensava em toda a dor que muitos dizem ter sido em setembro ou novembro de 1927, tinha no peito, na rejeição que sofria dos meios artísticos, outros em junho de 1928, e outros ainda em 1929), foi nas dívidas que o perseguiam, no fracasso que achava que relatado pelo próprio compositor em inúmeros depoiera. Lembrava da infância desafortunada, da necessidade mentos. Fatos em que a verdade e a imaginação se confrustrada de uma família só sua. Mas, agora, não tinha fundem, criando uma narrativa muitas vezes inverossímais esperanças de mudar a situação. mil, mas cheia de lances trágicos.

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DOR, FAMA E CASTIGO

dos - em especial Guerra Junqueiro e Castro Alves -, Assis recitaria em uma quermesse do hospital um poema anticlerical que chocaria todos os presentes. Como castigo, seria repreendido e destituído do cargo. Sem família, sem ter quem o ajudasse, sentindo-se banido e rejeitado, Assis decidiria que queria ser alguém. Sonhava com aplausos, com o carinho e a aceitação do público. E a oportunidade não demoraria a surgir: alguns meses mais tarde o Circo Brasileiro chegava à cidade. Numa noite, o menino pulou no picadeiro e declamou alguns versos de sua autoria: "Essa gente que é de circo / é tal e qual passarinho / que arma e desarma o ninho / sem ter onde construir". Quando o circo partiu, Assis foi com ele, contratado como orador e comediante. A vida mambembe duraria cerca de um ano. Depois disso, o garoto voltava a Salvador, onde retomaria os estudos. Iniciaria aí um curso de profissionalização em prótese dentária, além de arrumar uma colocação como desenhista de uma revista.

A aventura de Assis Valente se teria iniciado aos seis anos de idade, ao ser seqüestrado de sua verdadeira família por um certo Laurindo, que "achava injusto que um menino tão perspicaz fosse deixado em um lugar tão pobre". O homem entregaria o garoto para ser criado por uma família de classe média, na cidade de Alagoinhas. "Eu trabalhava como um condenado durante a semana e, aos sábados, ia à tarde fazer a feira com minha 'patroa'. Ela colocava um enorme cesto vazio em minha cabeça e enchia com tudo que comprava, até eu ficar esmagado embaixo. Quando eu estava quase achatado, ela mandava despejar em casa e voltar para encher de novo." Um dia, os pais adotivos se mudaram para Salvador, com a firme intenção de deixar o pequeno José para trás. "Eu chorei e me peguei com meu 'avô', Dr. João Canna Brasil, e ele consentiu que eu fosse para Salvador com eles ." Porém, logo o casal partiria para o Rio, deixando o menino na Bahia. AsDESABROCHAR sis, então, seria encaminhaNO SUL do a um hospital, onde seria "lavador de frascos" , ativida- Assis Valente, antes de ter seu primeiro sucesso, acompanhado (da esquerda para a direita) pelo Em 1927 (ou depois), Assis de ligada à farmácia. violonista Alberto de Barros, o Betinho, pela cantora Por volta de 1917, ele já Neném Simões e pelo compositor e violonista Josué de Valente chegava ao Rio de Janeiro. Valendo-se da aptiera um bom auxiliar. Foi Barros. A foto foi tirada em 1932. quando surgiu em sua vida padre Tolentino, que gostou dão que possuía, começou a trabalhar no gabinete de um protético, ao mesmo tempo que vendia desenhos para do garoto e o levou para a cidade de Bonfim, deixando algumas revistas, como a Shímmy e a Fon-Fon. Durante sob responsabilidade de Assis a farmácia do hospital 10o dia, polia "coroas" e esculpia caninos, à noite rabiscava cal. Isso teria causado espécie entre os farmacêuricos das figuras . Essa rotina seria mantida até 1932, quando um redondezas, que decidiram preparar-lhe uma armadilha: encontro mudaria seus rumos: Assis conheceria Heitor enviaram uma receita com um veneno poderoso para ser dos Prazeres e este, impressionado com a facilidade que o aviada. Ao ler a fórmula, Assis teria respondido: "Nada baiano tinha em fazer versos, seria um dos primeiros a feito. Você volta e diz ao seu médico que essa receita não perceber as potencialidades do sambista. pode ser preparada. Ah, e diz também para ele passar Assis passava a compor e logo podia ver suas múaqui na farmácià'. Com isso, o prestígio do menino era sicas gravadas e tocadas nas rádios. Com isso, sentiaconsolidado e lhe seria prometida uma promoção: em breve passaria a ocupar o cargo de secretário da diretoria se querido, pertencente a algum lugar. Tais sensações, praticamente desconhecidas, ajudavam a desabrochar do Hospital Bonfim. uma ersonal· tid a e en-Cantador.a, um-:s;gr:g...~~...,.,..,.--l Essa é um~ das assa en da vida de Assis Valente so cativante e uma simpatia sem igual. Máscaras que que mais dúvidas traz aos pesquisadores e biógrafos. Como um menino de 9 ou 10 anos poderia assumir Assis levaria consigo até o fim da vida - mesmo nos tais responsabilidades? De qualquer maneira, depois momentos de maior dificuldade - e que o ajudariam, desse episódio de glória viria o primeiro grande desaspor um tempo, a tornar mais suportáveis os tormentre: perito em declamar versos de seus poetas preferitos Íntimos.

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cheiras, guarânias, fox-blues e outros gêneros. Em nenhum dos casos seria bem recebido. Talvez porque passasse a compor por "auto-encomendà', sem envolver na criação o senum de seus últimos parceiros, explicava a obra do samtimento necessário. Ou mesmo porque sentisse - erroneabista baiano desta maneira: "Sua música era curta, sem mente - que seu tempo de celebridade já passara. riqueza melódica, parecia canto de feira nordestina. QuanSe a década de 30 marca a época de fama de Assis do as melodias de seus sambas são brilhantes, pode proValente, os anos 40 e 50 registram sua decadência. Sem curar que ele tem parceiro compositor. Ele criou um estilo musical próprio para se expressar. Apressado e corridinunca conseguir controlar o dinheiro que entrava, tanto em seu trabalho como protético quanto na área musical, o nho. Ali é que o Assis era o Assis. Nas reportagens sonocompositor foi, aos poucos, se afundando em dívidas, semras, nas críticas jocosas, nos flagrantes da cidade. Agora, pre renovadas para manter o padrão de vida a que Assis se vai saber fazer letra rápida e boa como a dele que eu quero ver? Não tinha e não tem". acostumara no Rio de Janeiro. Ele gostava de se vestir bem, de viver com conforto e, o principal, de ajudar a todas as Na falta de técnica musical, Assis criava utilizando-se de sensações auditivas. Sem violão ou outro instrumento, pessoas que lhe pediam auxílio. compunha com habilidade e graça, temperando com pitaEm 13 de maio de 1941, José de Assis Valente tenta o das de malícia e sentisuicídio pela primeira ,""""", ,""', .............. ~ mento. Batucava na banvez: atira-se do Corcovacada de seu consultório do mas, preso a um gade protético e cantava lho de árvore, é salvo baixinho os versos que ia pelo Corpo de Bombeiinventando. A inspiração ros. Volta à sua vida rovinha de repente e de tineira, dividindo o temNEPTUNO • me· Ihor roupa para banha maneira espontânea, sem po entre as próteses e as de mar. encomenda, apoiada nas f composições. E a se eminfelicidades próprias e baralhar com as questões Good-Bye nos fatos do dia-a-dia da financeiras. Anos depois MJrcha de cidade que crescia e se da primeira tentativa, na A~5J VALE:-ITE transformava. Em geral, seqüência de uma co11 melodias alegres que trabrança escandalosa da Disco Vkror No. J}604 Coód-byc, C:uod·by•• Caod-hyc. boro tavam de temas tristes. cantora Elvira Pagã, para Uood-by., boy. AnlClI que a vld" ~ v!. Odxl!. 1\ mnnin d" inglcz. Ensinaremos í.: amando: "A música do Assis g ~ f,lo r'" voei, Jl E bc, fi 1 bi B A b•. quem devia dinheiro há tinha fatos curiosos: ele ~ al um tempo, Assis corQue l1.uncôI frequCiUtOu mostrava a música e ela ~ ta os pulsos, mas é noAs "ul.u dú <:!cOIIl. CORO: LÁ no mOrfO "' u,,, a luz da Lij;lu. o tinha que sofrer um tE 'EJllarelt: CuIQ. Wchu &: Cia. - .R.u:\ da C3,t'ioc;1., 47 c Ou"idor, J13 vamente salvo. ü conserto", comentaAlu- '" O compositor nunÍsio de Oliveira, ex-integrante do Bando da Lua. "Tica mais seria o mesmo. Cada vez mais afastado de todos, não deixava que ninguém soubesse de seus problemas nham que ser primeiro assimiladas letra e música, separadamente. O letrista era mais habilidoso que o musicisreais. O desalento e o abandono em seu peito só faziam aumentar. "Eu diria que conheci três Assis Valentes", ta, porque ele era musical, mas pouco. As músicas vinham em 'estado bruto'. Eu ouvia e o Bando fazia a hardizia o compositor Russo do Pandeiro. "Entre 1933 e monização. Procurávamos arranjos, introduzíamos cacos 1939 ele era, com Carmen Miranda presente, um commusicais, porque às vezes letra e música vinham das mãos positor alegro-intenso; de 1940 a 1951, alegro-moderato; do Assis meio quebradas." e de 1951 até o fim da vida, alegro-tristíssimo." Em 1958, finalmente Assis concretiza seu intento DIFICULDADES DE PERCURSO de tantos anos. Sem poesia, chocando amigos e conhecidos, deixa para trás todos os problemas, toda a rejeição. Talvez realizando a profecia de um de seus últimos Quando os sambas e as marchas de Assis deixaram de ser sambas, Lamento: "Felicidade afogada morreu / A espeprocurados, o compositor novamente sentiu-se rejeitado. rança foi ao fundo e voltou / Foi ao fundo e voltou / Foi Enveredou por novas modalidades musicais: nos anos 40 ao fundo e ficou". pelo samba-canção; na década seguinte pelos baiões, ranLetrista intuitivo e musicista de prática adquirida.

Assim seria o compositor Assis Valente. Júlio Zamorano,

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oonto de réis), ao Sr. Assis Valente, classificado em l° logar, oom B: _maEc.ha "Good Byl;''', no Concurso de : u~.ica s. C e ~~aval e scaa, pela Comm1ssão julgadora da Sub-Commkssão de Festejos C rnaval e scos do vepartamento do Turismo. 'I

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AMíLlA

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SOLIDÃO FOI UMA CONSTANTE NA VIDA

DO COMPOSITOR. ASSIM COMO O SONHO DE CONSTRUIR UM LAR. DESEJO QUE ASSIS VALENTE REALIZOU, NA ÉPOCA, COM O NASCIMENTO DA FILHA, O QUE GARANTIU A CONTINUIDADE DA FAMÍLIA.

Assis Valente e Nadyle da Silva Santos. em 1940.

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alar na infância de Assis Valente é contar uma história mesclada de fantasia e realidade. A começar pela identidade de seus pais. Nascido no interior da Bahia, o compositor só seria registrado, como a maioria de seus conterrâneos, muito tempo depois, já no Rio de Janeiro, e a partir de dados fornecidos por ele mesmo. Segundo a certidão de nascimento, José de Assis Valente era filho de José de Assis Valente e Maria Esteves Valente. No entanto, de acordo com o depoimento de uma meia-irmã, revelada pelos biógrafos do compositor, Assis Valente seria filho ilegítimo de Maria Esteves Valente, mu-

lata do interior da Bahia, e Antônio Teodoro dos Santos, filho de portugueses e residente em Salvador. O compositor seria criado por Manuel e Georgina Canna Brasil, família pela qual nutriria um sentimento misto de carinho e mágoa pelos maus-tratos recebidos. "Esse Dr. Canna Brasil para nós era 'seu' Manuel, dentista, e de fato padrinho de José. Foi ele quem criou o menino que já era, desde pequeno, muito sofrido e chorão, daqueles que só vivem pelos cantos da casa se lamentando da existência. Mas existe alguma coisa de verdade nessa imagem que ele deixou de maltratado, por isso, nosso pai foi buscá-lo mais ou menos em 1920. Ele então mo-

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rou em nossa casa, em Salvador", assegurou a meia-irmã, Beatriz. A imagem de pessoa sofrida o acompanharia por toda a vida, tal qual uma sina a ser cumprida até o fim. Em 23 de dezembro de 1939, Assis Valente casava-se com Nadyle da Silva Santos, datilógrafa carioca, quinze anos mais jovem do que ele. E, em 31 de janeiro de 1941, nascia a primeira e única filha do sambista, Nara Nadyle dos Santos Valente. Mas, como em todos os momentos de sua trajetória, as alegrias não durariam muito: alguns meses depois, o casamento terminava. Mais uma amargura para o compositor, que passaria a carregar também a saudade da filha que quase não veria.


o sonho de construir um lar, criar filhos e netos, sempre

ASSIS E NADYLE plrllclp.m a V. S. e a Exm.. lamllla o nlSClmento de sua filhinha ~

esteve vivo no dia-a-dia de Assis Valente. Desejo em parte concretizado, em 1939, quando se casou com Nadyle da Silva Santos. (1). Sem repercussão na imprensa ou nos meios artíst icos. o casamento realizou-se com a presença de muitos convidados, vestido de noiva, damas de honra, os tradicionais "porta-alianças" e festa. (2) Cartão de participação do nascimento da filha. (3) Foto de Nara Nadyle, ainda bebê. (4) A filha de Assis Valente em foto recente.

NARA NAOYL.E.

...z~ ... ...a:z ~ ~

Em 31 de J.nelro de 1941 - A Avenida Amaro CmlaRII 91 - Merer

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A OBRA

N

W~=tU~SILEIRA

BATUQUE BAIANO ASSIS VALENTE SURGIU DO NADA E ILUMINOU OS CÉUS MUSICAIS DO RIO DE JANEIRO.

No

ENTANTO,

TAL QUAL ESTRELA CADENTE, O BRILHO DO SAMBISTA FOI TÃO INTENSO QUANTO FUGAZ. MAS DEIXOU UM RASTRO DE SUCESSOS IMORTAIS.

o consultório bem-equipado, as mãos habilidosas esculpiam com capricho as coroas e dentaduras. A atenção era total: o mínimo descuido e todo o trabalho estaria perdido. Mas Assis Valente não se preocupava. Sabia que dominava a técnica da prótese dentária como poucos. Profissão aprendida ainda na adolescência e que, agora, no final dos anos 20, garantia seu sustento e certa fama no Rio de Janeiro. Nas horas de lazer, desenhava, esculpia algumas figuras e batucava de vez em quando. Enquanto o futuro comem ~ posltor se en seu consultório, o panora- ~ ma cul tural brasileiro sofria ~ drásticas mudanças. Trans- ~ formações profundas, que, ~ nos anos seguintes, seriam I!!!!!!I! fundamentais para tirar Assis do mundo dos protéticos, e jogá-lo de cabeça no cenário artístico nacional. Lançado no Brasil em 1923, o rádio se convertia rapidamente em um dos principais veículos de comunicação e entretenimento do país. Isso e o aperfeiçoamento da técnica de gravar discos sonoros faziam com que o Carnaval e a música urbana se profissionalizassem. Em busca de novos ritmos e composições populares, os cantores procuravam os músicos do morro. Surgiam sambistas que marcariam toda uma geração, como Ismael Silva, Nilton Bastos, Alcebíades Barcelos (Bide), Brancura, Baiaco. Nomes que deixa-

vam de ser marginais para exercer a atividade oficiosa de músicos-compositores profissionais. Além do pessoal do morro, alguns compositores oriundos da classe média, em especial de Vila Isabel, tan1bém despertavam interesse. Noel Rosa, Almirante, João de Barro, Nássara, Orestes Barbosa, Custódio Mesquita, Cristóvão de Alencar, entre outros, traziam para o consumo sonoro carioca uma contribuição mais apropriada "às normas musicais". Toda essa movimentação abria espaço para o crescimento de uma nova atividade comere casas musicais, como a Casa Beethoven, a Carlos Wehrs, a Casa Viúva Guerreiro, a Casa Manon, a Empresa Editora Irmãos Vitale e a Editora Estevam S. Mangione. Apesar de gastar boa parte de seu tempo no consultório, Assis Valente tinha um lado boêmio. Era, sem dúvida, um protético competente e respeitável, no entanto, não dispensava um bom divertimento em companhia dos amigos. De qualquer maneira, não demoraria muito para que fosse envolvido pela "explosão" musical vivida no Rio de Janeiro. Terreno fértil para que o compositor brotasse. Luiz Corrêa, um dos auxiliares que então trabalhava no consultório de Assis Valente, lembra dessa transformação: "Isso de cantoria começou por volta de 8


rava a Revolução Constitucionalista. No Rio, no final daq uele ano, para comentar a situação política e econômica do país, O Globo lançava uma série de artigos, intitulada "Para onde vai o Brasil". Numa atitude genial e que antecipava em décadas o que seria conhecido como marketing, Assis aproveitava-se da série e oferecia ao jornal um samba também chamado Para Onde Vai O Brasil, em troca de publicidade. Com isso, entre novembro de 1932 e março de 1933, o sambista teria destaque em todas as edições do periódico, com direito a muitas fotos. A cabeça raspada para disfarçar o cabelo "gentilmente ondulado", o bigode aparado à moda "almofadinha" e o sorriso sempre iluminado, Assis ia ganhando simpatias, iniciando um período de criatividade e êxitos. Nos anos seguintes, as gravações se sucederiam, aumentando a quantidade de sucessos e o número de intérpretes interessados em sua obra.

1930. Quando eu trabalhava lá, ele passava o dia inteiro batucando em cima das banquetas, no fundo das gavetas, cantando músicas que eu desconhecia. Alegrava, mas perturbava o trabalho".

INíCIO PROMISSOR Em 1932, Assis Valente conseguia ter gravada, pela primeira vez, uma música de sua autoria. Em um 78 rotações lançado pela Columbia, Araci Cortes cantava: "Donê muá si vu plé lonér de dancê aveque muá / Dance ioiô / Dance iaiá / Si vu frequente macumbe / Entrê na virada e fini pur sambá". Era o samba Tem Francesa No Morro, que satirizava a moda "elegante" de falar francês e apresentava o compositor ao meio musical. No mesmo ano , Carmen Miranda gravava Etc. O país vivia momentos tensos, desde a Revolução de 1930. Governando com poderes excepcionais, o novo presidente, Getúlio Vargas, ia contornando os problemas que surgiam e mudando radicalmente a antiga ordem estabelecida. Mas, em São Paulo, os ânimos se acirravam contra o governo e, em 1932, estou-

o AUGE E A QUEDA No início dos anos 30, a questão dos direitos autorais já estava na pauta nacional. No entanto, grande

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Assis Valente e o cantor Jorge Fernandes, acompanhados por Abel Ferreira e Regional, em 1941, no lançamento de Vestidinho de laiá, numa rádio de São Paulo.

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pane dos compositores não recebia o que lhe era devido pela gravação e execução de suas criações. Só para se ter uma idéia da situação, em 1934, Custódio M esquita - classe média alta, família economicamente bem si tuada - via sua marcha Se A Lua Contasse, gravada por Aurora Miranda, tornar-se uma das músicas mais executadas no Carnaval. Para quem o cumprimentava pelo êxito, respondia: "É! Sucesso, mas só de boca, que se me virar de cabeça para baixo não cai um cruzado dos meus bolsos vazios". Com Assis Valente, não era diferente. Aos poucos, ele ia relegando a profissão de protético a segundo plano, a despeito das constantes reclamações de seu sócio, Aguiar Dantas. Porém, o samba não lhe garantia o sustento e muito menos custeava as despesas em que vivia envolvido. "O Assis nunca tinha dinheiro. Vivia sempre no 'pendura. Nós tÍnhamos um campo grande de trabalho pela frente, e eu queria entrar fone no mercado de prótese dentária, mas com o Assis, àquela altura, estava demonstrado que não dava', lembrava Aguiar Dantas. Apesar dos problemas financeiros constantes - motivo de muitas angústias -, Assis não se decidia por

qual caminho seguir. Gostava de trabalhar com próteses dentárias, era reconhecido por isso, mas o meio artístico o chamava. Os aplausos do público e o fato de ouvir suas criações nas vozes dos mais importantes cantores da época faziam com que o protético não pensasse em abandonar a promissora carreira de compositor. Em 193 5, Assis Valente já conseguia projeção nacional, tanto com as músicas carnavalescas quanto com aquelas chamadas de "meio de ano": em especial as natalinas e as juninas. Naquela m esma época, o governo da Bahia prestava homenagem ao "conterrâneo ilustre e vencedor", co nvidando-o para organizar e presidir um concurso de composições para os festejos de São João . Recebido em Salvador com muita pompa pelas autoridades locais , Assis sentia-se final mente vitorioso dentro da carreira que escolhera. De volta ao Rio, os conflitos entre o compositor e seu sócio aumentavam. "Às vezes nós nos desentendíamos, porque ele estava cada vez mais voltado para o campo da música. Viagens, sambas, gravações, programas, uma loucura. Ele gostava disso. Eu dizia: 'Assis, deixa esse negócio de música, rapaz, olha o traba-

Assis Valente apoiou muitos grupos vocais, como o Bando Carioca, do qual também era líder.

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lho!' E ele respondia: 'Eu tenho que ficar famoso, tenho que mostrar a esse povo quem é Assis Valente'. 'Mas, rapaz, tu podes ficar famoso como protético, como odontólogo, não dizes que largaste curso de odontologia pela metade? Por que não completas o curso?' 'Eu quero fama, Aguiar, tu conheces algum dentista que tenha fama?' 'Larga disso, Assis, música não dá camisa para ninguém'. 'Ah, meu neguinho, me deixe, largue minha vida em paz'." Seria assim durante toda a vida: dividido entre a carreira que amava e a profissão que poderia sustentálo . Principalmente na década de 30, quando o compositor via suas músicas gravadas uma após a outra, em especial por Carmen Miranda, e cada vez com sucesso maior. Até que tudo mudou. O cenário mundial era tenso no final dos anos 30. A Alemanha, controlada por Adolph Hitler, ameaçava a paz, com pretensões militaristas e expansionistas. Com a proximidade de uma crise internacional, as grandes potências da época faziam alianças e organizavam-se em blocos. No continente americano, os Estados Unidos intensificavam as ações de boa vizinhança, com vistas a co nsegui rem mais aliados, em caso de conflito, e maior influência nos mercados em expansão nas Américas. Para isso, qualquer tática era válida. Ajuda econômica ou trocas culturais. E seria dentro desse contexto que, em fevereiro de 1939, o empresário norteamericano Lee Shubert chegaria ao Brasil e veria Carmen Miranda cantando no Cassino da Urca. Naquele

ano, a cantora era convidada para ir aos Estados Unidos, acompanhada pelo Bando da Lua. Ao mesmo tempo, Assis perdia a principal intérprete e o conjunto vocal favorito. "Tinha sido uma carreira vertiginosa. Ele apareceu, subiu alto e dominou tudo. Até ali, ele era expansivo e entusiasmado. Depois notou, todos sentiram, que ele estava sem intérpretes para o tipo de música que fazia. A Carmen viajou a aí veio o desequilíbrio. Ele foi ficando amargo e, cada vez mais cedo, improdutivo" , comentava o parceiro Herivelto Martins.

A década de 40 chegava para o compositor trazendolhe maus presságios. Aos poucos, suas músicas iam deixando de ser gravadas e tocadas no rádio. Os raros intérpretes que ainda procuravam suas canções não conseguiam mais o mesmo êxito de tempos atrás. Assis, cada vez mais inseguro, freqüentemente desistia da carreira de compositor, retornando ao trabalho no consultório. Mas, em seguida, mudava de idéia e voltava a compor. Às dificuldades pessoais de Assis Valente, somava-se a nova transformação no cenário artístico brasileiro. Na via inversa do processo que levara Carmen Miranda aos Estados Unidos, o Brasil começava a passar por uma fase de invasão crescente de ritmos estrangeiros. O swing, a rumba, a conga e o bolero eram exportados pelos "amigos americanos" e tomavam con12


ta do ambiente musical brasileiro. Surgia o boogiewoogie, crescia a pronúncia americana nos ares nacionais, modificava-se o gosto das gerações que chegavam. O samba com o estilo de Assis, tal qual era cantado por Carmen nos velhos tempos, ia perdendo espaço. Assis Valente percebia essas metamorfoses - que se tornariam ainda mais profundas e irreversíveis nos anos seguintes - e tentava se adaptar às novidades. Buscava diferentes estilos de composição, outros intérpretes e conjuntos vocais novos para gravarem suas músicas. Tudo em vão. Cada vez mais a obra do compositor seria relegada a segundo plano e esquecida. Sozinho, isolado do meio artístico, cansado e (o principal) sentindo-se traído por todos a quem ajudara na década passada, Assis continuava alternando períodos como compositor com épocas totalmente dedicadas à prótese. Sempre mais desorientado e agindo de maneira incomum, dava entrevistas rancorosas a jornais sensacionalistas, nas quais expunha nominalmente seu desgosto contra as figuras e o mundo da música. A cada matéria publicada, Assis era olhado com mais desconfiança pelos intérpretes, que evitavam lançar suas músicas. Um infinito círculo vicioso.

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Apesar de algumas gravações esporádicas, a década seguinte não traria alívio às aflições de Assis Valente. Novos ritmos se impunham, entre eles o sambolero, muito próximo do blues norte-americano. Alguns conjuntos, como Os Cariocas, inovavam na desarmonização de sons, numa clara influência do jazz. Na diversificação musical a que se assistia, cabia tudo: desde a "música de fossa" ou de "dor-decotovelo" de Lupicínio Rodrigues ou de Antônio Maria, até o rock and roll de Elvis Presley e de Bill Halley e Seus Cometas. Assis Valente não reencontrava seu caminho. Buscava o sucesso , mas este continuava escapando-lhe entre os d edos. Foi aí que, como dizia um d e seus sambas mais famosos, "fez bobagem". Retirou-se d efinitivam ente da vida artÍstica, da carreira d e protético. Desistiu de viver. Com uma gaveta cheia de sambas nunca gravados, provou que mesmo nas horas de maior desespero não deixara de compor. Músicas que permaneceriam para sempre inéditas, perdidas no emaranhado de fantasias e sofrimentos que sempre o perseguIU.


I?JlETES

COMPANHEIROS NA CRIAÇÃO GRANDE PARTE DA OBRA DE ASSIS VALENTE SERIA FEITA SEM A AJUDA DE OUTROS COMPOSITORES.

No

ENTANTO, QUANDO O ENCONTRO MUSICAL ACONTECIA,

POUCO IMPORTAVA SE O PARCEIRO ERA FAMOSO OU UM DESCONHECIDO QUALQUER.

A

s co mposições de Assis Valente sempre trouxeram forte marca pessoal. A maneira retalhada de ver o mundo, o est ilo próprio de criar, a musicalidade intuitiva. Talvez, por essa razão, grande parte da obra do sambista seja somente de sua autoria: músicas feitas depois de um batuque descompromissado na bancada do consultório, unidas a palavras e cenas que surgiam do dia-a-dia. Engana-se, poré m , quem pe nsa que Assis Valente não teve parceiros: teve, e muitos. Mas foram sempre encontros eventuais e sem continuidade. E, em geral, com desco nhecidos do meio artístico.

Um dos parceiros mais Importantes seria Júlio Zamorano, ex- integrante do conjunto vocal Garotos d a Lua, de Recife. Ainda jovem, Zamorano chegava ao Rio para tentar a vida como compositor e acabaria trabalhando em um a sala do edifício Regina, onde Assis mantinha seu consultório de protético. "O Assis eu co nhecia porque os Garotos da Lua ca ntavam muito s sucessos del e. Eu o vi no elevador e não agüentei a curiosidade: fui até a sala dele. Na porta estava o nome 'Assis Valente', co m as letras douradas. " Das 46 músicas que o compositor assina em co-autoria com outra pessoa, cinco serIa m com Júlio 14

Zamorano, seis com Leandro Medeiros, três com Zequinha Reis e três com Álvaro da Silva. As demais foram encontros "meteóricos", que resultaram em apenas uma canção. Entre os parceiros instantâneos estão alguns nomes famosos, como Lamartine Babo (com quem compôs a marcha janete, em 1936), Humberto Porto, Ataulfo Alves (parceiro e intérprete em Batuca No Chão), José Carlus Burle e Luiz Gonzaga. Com este último, comporia Pão Duro, em 1946, marcha que fugia às características, tanto no ritmo quanto na melodia, de tudo o que Assis fizera antes. "Essa Pão Duro é toda do Assis Valente, ele me deu a parceria e eu


GAROTOS DA LUA

I

ARACI DE ALMEIDA E NELSON GONÇALVES

DIRCINHA BATISTA

acei tei porque não sou orgulhoso. Minhas, ali, só a introdução, a harmonização e a sanfonização da cantoria", garantia o Rei do Baião. Para infelicidade de Assis, Luiz Gonzaga (então já um cantor e compositor querido pelo público) levaria vantagem no destaque junto aos meios de comunicação. Com a sanfona, o sorriso contagiante e a alegria imensa de viver, Gonzaga obscurecia, sem querer, o nome do parceiro.

CARLOS GALHARDO E SILVIO CALDAS

ceção de Carmen Miranda (cantora preferida do compositor), com 24 gravações, o Bando da Lua, com 19, e os Quatro Ases e Um Coringa, com 11, todos os demais intérpretes gravariam duas, quatro ou, no máximo, cinco músicas do composito r. Se nessa lista não falta quantidade de intérpretes, também não deixa a desejar em qualidade. A primeira cantora a incluir uma composição de Assis Valent~ no re-

componho, já penso no artista que irá cantar a música. Isso aconteceu com Tem Francesa No Morro, que fiz especialmente para a Araci - a quem, por sinal, eu nunca havia sido apresentado. Quando consegui encontrála, depois ~e muita luta, ela pediu que eu cantasse o samba. Em seguida, pediu que o passasse no piano. Aí, mesmo sem olhar para mim , Araci começou a rir com a letra e eu percebi então que a coisa estava ca-

~~ci -Co.rtes=qmlr~inh:and.:() b~.-Dia.s=:dep:o-is-,-O-

INTÉRPRETES Assim como os parceiros, os intérpretes de Assis Valente também seriam muitos e esporádicos. Com ex-

1932, gravava Tem Francesa No Morro. Esse samba engraçado criticava a mania da época de usar termos franceses na linguagem. Era o próprio Assis quem contava: "Quando eu 15

compositor era convidado para assistir aos ensaios e à gravação da música. "Cheguei a ficar surpreso: eu fizera uma coisa e Araei valorizou-a duas vezes mais. "


MARIO REIS

FRANCISCO ALVES

AURORA MIRANDA

filme Quando O Carnaval Chegar, de Carlos Diegues. Nas últimas décadas, algumas músicas do compositor seriam relançadas por grandes nomes da MPB. É o caso de Uva de Caminhão, interpretada por Marlene no show Te Pego Pela Palavra, E O Mundo Não Se Acabou, na voz de Maria Bethânia, e o grupo Novos Baianos que, em 1972, regravava Brasil Pandeiro, no disco Acabou Chorare. Outros intérpretes que não podem ser esquecidos são Dircinha Batista e o cantor colombiano Carlos Ramírez, responsáveis, em 1950, por rápido reaparecimento de Assis nas listas de sucessos da época. Ramírez

não gravaria nada do compositor, mas chegaria a cantar o samba Boneca de Pano para a elite da Boate Vogue e, para o povo, nos microfones da Rádio Globo. Já Dircinha lançaria, em 78 rotações, O Meu Não Dd. A primeira gravação de Assis Valente, no período pós-78 rpm, aconteceria em 1956, com o lançamento do disco Marlene Apresenta Sucessos de Assis Valente. Esse seria um dos poucos trabalhos do compositor, na década de 50, que conseguiria alguma repercussão nas rádios. Apesar dessa extensa lista, a obra definitivamente li gada à interpretação dos conjuntos vocais, com destaque para o Bando da Lua, os Quatro Ases e um Coringa e os Anjos do Inferno. O fato era explicado pelo produtor musical Aluísio de O liveira, ex-integrante do Bando da Lua: "As músicas de Assis eram brejeiras e se prestavam para fazermos arranjos musicais. Um conjunto musical que canta sem criar em cima da melodia e letra é um coral. As músicas do Assis eram tendenciosas, diferentes do normal, curiosas nos temas e nas maneiras de se expressarem musicalmente. A música dele servia aos conjuntos como as do Adoniran, que nos anos 50 e 60 projetaram os Demônios da Garoa".

Com a fama, Assis Valente começou a ser procurado por mais intérpretes interessados em gravar suas composições. Em 1933, seria a vez do jovem Carlos Galhardo, ainda em início de carreira, lançar a canção natalina Boas Festas, com acompanhamento dos Diabos do Céu e direção de Pixinguinha. "Foi na verdade a música que me lançou no Rio de Janeiro", dizia o cantor. O sucesso seria tão estrondoso que, em 1938, a RCA tiraria a gravação do catálogo, em razão do desgaste da matriz provocado pelo grande núvo, nos anos 40 e 50, Galhardo voltaria ao estúdio mais duas vezes para fazer novos registros da canção. Galhardo viria a se tornar freguês de Assis durante toda a década de 30. E outros cantores seguiriam o exemplo : Almirante, Aurora Miranda, Francisco Alves, Sônia Carvalho, Mário Reis, Orlando Silva e as Irmãs Pagãs (Elvira e Rosina) . Em 1941, Araci de Almeida faria uma gravação antológica de Fez Bobagem. Em 1969, essa música seria regravada pela musa da bossa nova, Nara Leão, acompanhada pelo Terra Trio. De Assis Valente, Nara ainda gravaria, com Chico Buarque e Maria Bethânia, a música Minha Embaixada Chegou, para a trilha do

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BANDO DA LUA

ANJOS DO INFERNO

Em 1972, chegava às telas dos cinemas brasileiros, o filme Quando o Carnaval Chegar, de Carlos Diegues. Na trilha sonora original, lançada em disco no mesmo ano, ao lado de composições de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Lamartine Babo, Herivelto Martins e João de Barro, o público encontrava regravação de Minha Embaixada Chegou, de Assis Valente, interpretada por Nara Leão, Chi co Buarque e Maria Bethânia.

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QUANDO VIU CARMEN MIRANDA, ASSIS VALENTE TEVE CERTEZA: AQUELA SERIA A VOZ QUE O LEVARIA À CONSAGRAÇÃO.

E

NÃO ESTAVA ENGANADO.

NA INTERPRETAÇÃO DA PEQUENA NOTÁVEL, OS SAMBAS DO BAIANO ENTRARIAM PARA A HISTÓRIA DA MÚSICA BRASILEIRA.

P

Oi no Teatro João Caetano que Assis Valente viu Carmen Miranda pela primeira vez. Encantado com a beleza e o jeito de cantar da Pequena Notável, o compositor sentiu que aquela era a intérprete que precisava para seus sambas. A fada madrinha que lhe traria o êxito tão esperado. Era o ano de 1932 e, obcecado, o compositor começou a procurar maneiras de se aproximar da nova musa. Primeiro, passou a ter aulas de violão com J osué de Barros o descobridor da cantora - , achando que Carmen também estudava com ele. Esforço vão. Depois , percebeu que a melhor forma de conhecê-la e impressioná-la seria por meio da paica. Um dia, cheio de coragem, apresentou-se à cantora e ofereceu-lhe uma composição, Etc. Carmen gostou do samba e lanço u-o no ar, nos microfones da Rádio Mayrink Veiga. A partir daí, viria a se tornar a intérprete mais constante e também a mais importante dos sambas de Assis. Na voz de Carmen Miranda, a melodia e o ritmo dos sambas e marchas do compositor cresciam: ela os cantava de jeito único , valorizando cada nuança da música, com seus "esses" sibilados, os "erres" repetidos, repuxados e rebuscados, as paradas súbitas e um modo de estancar a voz cortando a nota para marcar a parada rítmica. O encontro com a cantora representaria para Assis o iní-

cio do que ele supunha ser seu vôo sem regresso rumo à fama e ao êxito artístico. Em contrapartida, ela passava a ganhar _composições escritas especialmente para seu estilo de interpretar. Ao todo, Carmen gravaria 24 músicas de Assis Valente, entre elas alguns clássicos, como Camisa Listrada, Uva de Caminhão, E O Mun-

do Não Se Acabou e Good Bye, Boy. O afastamento dos dois teria início com a ida da cantora para os Estados Unidos, em 1939. Aos poucos, a Pequena Notável tomava outros

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rumos e deixava Assis Valente para trás, tanto na vida quanto artisticamente. Em 1942, de passagem pelo Brasil, ela não aceitaria gravar o samba Brasil Pandeiro. A desfeita ficaria para sempre na cabeça do compositor, que começava aí nova etapa na vida, uma fase de abandono e ressentimento. "Carmen esqueceu-se do tempo em que ensaiava Camisa Listrada dentro do galinheiro de sua casa em Santa Teresa, pois seu casebre era muito pequeno. Abandonou o Brasil Pandeiro, mas não a condeno por isso, pois vi que ela não . tinha voz suficiente para interpretá-lo."


RENATO BORGHI SE SURPREENDE COM A ORIGINALIDADE DAS IMAGENS POÉTICAS

€AMISA LISTRADA.

CAMISA LISTRADA Vestiu uma camisa listrada E saiu po.r aí Em vez de tomar chá co.m to.rrada Ele hebeu parati Levava um canivete no. cinto E um pandeiro na mão. E sorria quando o. po.vo. dizia So.ssega leão., sossega leão Tirou o. seu anel de do.utor Para não. dar que falar E saiu dizendo. eu quero mamar Mamãe eu quero mamar Mamãe eu quero .mamar Levava um canivete no. cinto E um pandeiro na mão E so.rria quando. o po.vo. dizia So.ssega leão., sossega leão Levo.u meu saco. de água quente pra fazer chupeta Ro.mpeu minha co.rtina de veludo para fazer uma saia Abriu o guarda-roupa E arranco.u minha co.mbinação E até do cabo. de vasso.ura Ele fez um estandarte Para o. seu co.rdão. Ago.ra que a batuc~da já vai co.meçando. Não. deixo e não. co.nsinto O meu querido debochar de mim Porque se ele pega as minhas co.isas Vai dar o. que falar Se fantasia de Anto.nieta E vai dançar no. Bo.la Preta Até o so.l raiar

o. e auto. de pe-ças=teatFa1 . Em"1961, IUlldou=o='featro=otJ"C.na, no- qua permaneceu até 1973. Também participou da criação do Teatro Vivo de São Paulo e. atualmente, da Companhia de Teatro Promíscuo. Em 40 anos de carreira, recebeu mais de dez prêmios, como melhor ator e melhor autor. Entre seus principais trabalhos estão as peças Rei da Vela, Galileu, Galilei, Na Selva das Cidades, O Pequeno Burguês e O Que Mantém O Homem Vivo. Autor premiado de Lobo de Ray-Ban e Estrela Dalva, em homenagem à cantora Dalva de Oliveira.

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vOCÊ Ary Barroso - Compositor destacado nos anos 30, autor de músicas como Aquarela do Brasil e Os Quindins de laiá, Ary Barroso também teve importante atuação na luta pelos direitos autorais e como radialista . Neste meio de comunicação, seu trabalho se dava em duas vertentes principais: de um lado como narrador esportivo, sendo conhecido como "o homem da gaitinha"; de outro, como apresentador de programas de calouros, com o objetivo de revelar novos talentos musicais. Além de Luiz Gonzaga, o programa de calouros de Ary Barroso revelou nomes como Ângela Maria, Lúcio Alves e Ellen de Lima. Baião - Nascido provavelmente de uma forma especial de os violeiros tocarem lundus na zona rural do Nordeste (onde recebia o nome de baiano). o ritmo foi transformado em gênero musical, a partir de meados da década de 40, pelo trabalho de estilização feito por Lui z Gonzaga e Humberto Teixeira . Bando da Lua - Conjunto vocal e instrumentai formado no Rio de Janeiro, em 1929, a partir de um bloco carnavalesco chamado Bloco Bimbo. O sucesso chegaria para o Bando da Lu a em 1932, quando começou a se apresentar no programa de César Ladeira, na Rádio Mayrink Veiga. Integrado por Aluísio de Oliveira, Afon so Osório, Stênio Osório, Hélio Jordão Pereira, Oswa ldo de Mora is Éboli e Ivo Astolfi, o Bando da Lua acompa nharia Carmen Miranda em nove temporadas na Argentina , entre os anos de 1934 e 1938. Oentrosamento entre a cantora e o conjunto se ria tanto que, em 1939, ao ser convidada para ir aos Estados Unidos, a Pequena Notável exigiria .

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contribuído muito para o êxito de Carmen no exterior, o Bando se ria desfeito após a morte da cantora, em 1955. Carmen Miranda - Maria do Carmo Miranda da Cunha, nascida em 1909 em Portugal, chegou ao Brasil com dois anos de idade. A cantora Carmen Miranda, também chamada Pequena Notável, seria a intérprete de maior sucesso no cenário nacional, na década de 30. Em 1939, estrearia nos Estados Unidos, com o Bando da Lua, na revista musical Streets of Paris, na Broadway. Com o êxito, passaria a gravar discos e a fazer filmes. Já no ano seguinte, viria a se apresentar na Casa Branca, para o presidente Franklin Roosevelt, sendo considerada a terceira personalidade mais popular de Nova York. Consagra da internacionalmente, voltaria ao Brasil em 1954 para rever a família e des-

PRECISA

cansar de um esgotamento nervo so. Retornaria aos Estados Unidos e qu atro meses depois, já em 1955, morreria do coração, aos 46 anos. Francisco Alves - éantor famoso na dé ca da de 30, era conhecido como Rei da Voz. Começou carreira cantando eventualmente em circos e teatros, enquanto tirava o sustento como motorista de táxi . Um dos artistas brasileiros de carreira mais longa (seu primeiro disco data do final dos anos 20) e com mais di scos 78 rotações gravados (cerca de 500). Chico Alves faria suas últimas gravações em 1952. Em setembro desse ano, viajando de São Paulo para o Rio de Janeiro pela Via Dutra, morre em acidente de carro. Heitor dos Prazeres - Compositor, in stru menti sta e pintor carioca (18981966). Filho de marceneiro que tocava clarinete e instrumeritos de percussão na banda da Policia Militar, seguiria o ofício do pai, tornando-se polido r de móveis. Ainda menino, começou a to car cavaquinho e a compor as primeiras músicas. Participou da criaç ão de uma série de escolas de sam ba, como Oeixa Falar, Estação Primeira de Mangueira e Porte Ia. Gravado pelo s mai s importantes intérpretes da época, na década de 30 deixou as escolas e passou a trabalhar no rádio, criando um coro feminino que o acompanhava em apresentações em várias emissoras. Começou a pintar em 37, como amador, usando co mo temas o samba, malan dros e mulata s. Em 1951, integraria a I Bienal de Arte de São Paulo, fato que se repetiria em 1953 e 1961. Acumulando as atividades de músico e pintor de fama Heitor dos Prazeres ainda participaria de inúmeras exposições de arte, no Brasil e exterior, antes de sua morte. Jazz - Uma da s mais criativas vertentes da música ocidental, o jazz surgiu a partir da evolução do blues. Dos cantos religiosos do blues (spirituals). das reminiscências de canções africanas e da mistura com elementos europeus da música creole nas ruas de New Orleans, surgiu a primeira forma instrumentai de expressão da música negra norte -a mericana, o boogie-woogie. Essa modalidade evo luiu para o ragtime e daí para o jazz, que seria co nsolidado em bares e casas noturnas de Chicago. Luiz Gonzaga - Compositor, sanfoneiro e cantor pernambucano (1912-1989). Seria um do s grandes responsáveis pela valorização da música nordestina no Sul do país. Conhecido como Rei do Baião, Luiz Gonzaga seria descoberto

S

A B E R

no programa de calouros do radialista e também compositor Ary Barroso, ini ciando a carreira como cantor de rá dio. Depois da década de 50, passaria a maior parte de seu tempo em apresentações pelo interior do Brasil. Nos anos 70, voltaria a aparecer na mídia, em companhia do filho, o músico Gonzaguinha. Entre os maiores sucessos estão Baião e Asa Branca. Nara Leão - Cantora, Nara foi um dos destaques da bossa nova. Ainda como amadora, entre 1957 e 1959, faria parte de shows universitários com os inte grantes do movimento que então se iniciava. Só em 1963 realizaria sua estréia como profissional, trabalhando ao lado de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra no musical Pobre Menina Rica. Em 1964, lançava o primeiro disco, Nara, com várias músicas que se tornariam famosas, como Diz Que Fui Por Aí (Zé Keti e H. Rocha). Consolação (Baden Powell e Vinicius de Moraes) e D Sol Nascerá (Cartola e Elton Medeiros). Esse disco traria certa polêmica pois, considerada a musa da bossa nova, Nara interpretava um repertório diferente de tudo o que fizera até então. Em 1968, Nara aderia ao tropicalismo, integrando a gravação de Panis et Circensis. Noel Rosa - Sambista carioca, de Vila Isabel. Noel Rosa foi um dos fenôme nos da música popular brasileira, além de um dos responsáveis pelo enriquecimento poético e melódico do sa mba. Morreu jovem, aos 27 anos, deixando uma série de composições hoje consideradas clássic as, como Feitiço da Vila, Pra Que Mentir?, Com Que Roupa? e Três Apitos. Pixinnuinha Nome artístico do com positor, instrumentista e arranjador ca rioca (1898-1973) Alfredo da Rocha Viana Filho. Autor de clássicos da mú sica popular brasileira, como Carinhoso e Sofres Porque Queres, é um dos principais respon sáveis pela popularização de instrumentos afro-brasileiros, como o tamborim, o agogô e a cuíca . Também seria o grande criador do arranjo musical tipicamente brasileiro. Rancheira - Dança do fandango do Rio Grande do Sul. A origem é provavelmente moura, mas a estilização é argentina (rancheral. Entre os gaúchos é dançada sua variante mais ativa e saltitante, a rancheira de carreirinha . Repentista - Cantor itinerante que se exibe, acompanhado de viola, em feiras, ruas, quermesses e rodeios (vaquejadas) de cidades e regiões rurais do Leste, Nordeste e região Central do país. Es-

pécie de poeta popular, o repentista (também conhecido como cantador) divulga versos de sua autoria ou de outros autores populares. A fama do repentista vem de sua habilidade em manter os desafios propostos por outros cantadores pO'r meio de "batalhas musicais", improvisando sem parar, até deixar o adversário sem resposta . Revolução Constitucionalista - Ocorri da em São Paulo, entre julho e outubro de 1932, a Revolução Constitucionalista foi um movimento de insurreição contra o governo provisório de Getúlio Vargas. Os insurretos exigiam a convocação de uma assembléia constituinte prometida pelo presidente em sua campanha pela Aliança Liberal e na Revolução de 1930. Iniciada em 9 de julho daquele ano, após muitas manifestações populares reprimidas pela polícia, a revolução ch egaria a contar com um efetivo de 40 mil homens, deslocados para três grandes frentes de batalha: di visa com o su l de Minas, norte do Paraná e Vale do Paraíba. Apesar dos esforços dos envolvidos na luta, o poder das forças federais era muito superior e, em 3 de outubro, os paulistas anunciam oficialmente sua rendição. Revolução de 30 - Movimento políticomilitar que derrubou o presidente Wa shington Luís, em outubro de 1930. Chefiada por lideres tenentistas e aliancistas, a revolta era uma resposta das classes médias que surgiam nas cidades e que não mais aceitavam a política do café-com-Ieite, imposta pelos interesses dos grandes fazendeiros de Minas Gerais e São Paulo. A revolução, iniciada em 3 de outubro, no Rio Grande do Sul, marcou o término da Velha RepuDllca no tHa Sll, cu "~UU;U" UG Getúlio Vargas ao poder.

li

Segunda Guerra Mundial - Conflito militar que, entre 1939 e 1945, envolveu países de todos os continentes. Resul tou do conflito de interesses entre as nações que dividiam o mercado internacional desde o final da Prime ira Guerra Mundial e as intenções alemãs de conquistar o mundo. O confronto só terminaria com a destruição do 111 Reich e a rendição incondicional japone sa (após o lançamento de bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki). Sílvio Caldas - Um dos maiores intérpretes da história da MPB. Na década de 30, Sílvio Caldas já era sucesso. Chão de Estrelas é uma de suas interpretações e composições mais famosas e acabou se transformando em um clássico.

I I

BIBLIOGRAFIA - Os textos deste fascículo foram baseados nas informações do livro Assis Valente - A Jovialidade Trágica de Assis Valente, de

Francisco Duarte da Silva e Dulcinéia Nunes Gomes, editado pela Martins Fontes / Funarte, e no fascículo Assis Valente, da História da Música Popular Brasileira, lançado pela Abril Cultural, em 1970.

20


Nos últimos tempos, Assis Valente ~------~------------------;~­ andava macambúzio. Mal conversava com os companheiros que encontrava na rua, tampouco sorria. No entanto, nos primeiros dias de março de 1958, ele estava novamente animado. Falante, parecia até mesmo feliz. Passou em um bar, onde encontrou o amigo ejornalista Aor Ribeiro. Contou a notícia, num raro momento de alegria verdadeira: "Pixinguinha vai gravar dois discos meus, Aor': O jornalista não podia saber, mas presenciava ali o último delírio do compositor, a derradeira fantasia de uma vida na qual a imagina-

§

ção sempre dissimulou a mágoa.

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Na manhã de 12 de março, a ci-

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dade enchia-se de dor. Ausente no velório e no enterro do amigo, presente no sofrimento coletivo, Pixinguinha não conseguia aceitar o gesto tão extremo do sambista. "Sexta-feira passada, dia 7 de março, ele estava alegre, contan o ane otas como sempre. ' Deczdia então prestar uma omenagem póstuma ao compan eiro morto. Acreditando estar atendendo ao desejo que Assis verbalizara dias antes de morrer, Pixinguinha orquestrava e regravava as músicas Cai, Cai Balão e Tentei Fazer Mais Um Balão.


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ESDE A INFÂNCIA DF. MENINO ABANDONADO NA

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ENTANTO, A VIDA NÂO FOI GENTIL COM ELE. NUNCA

POUPOU- LH E MOMENTOS DE SOFRIMENTO E DE PERDA. TAMPOUCO PROCUROU AMEN I ZAR OS GOLPES QUE AP LI CAVA. A SSIS V ALENTE A TUDO SUPORTOU CALADO . A DOR, ELE J OGAVA NAS MÚS I CAS QUE COMPUNHA, BATUCANDO

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DIFÍCIL COM O PASSAR DOS ANOS, ERA TRANSFORMADA

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