o leitor tem em maos uma contribuic;ao para as pesquisas com perspeetiva social sobre musica em lingua portuguesa. A Historia esta bem representada na presente coletanea, com os trabalhos de Marc Hertzman, Ana'is Flechet e Gustavo Alonso. Mas a disciplina quantitativamente mais presente neste livro e a Sociologia: seis trabalhos num total de onze. Esta e talvez uma das caraeteristicas que mais singulariza a presente coletanea no atual panorama de pesquisa, pais a sociologia brasileira nao vinha se notabilizando pela atenc;ao dedicada a temas musicais. (Algumas raz6es desta lacuna sao sugeridas pela contribuic;ao de Marc Hertzman a este volume.) Outras areas representadas neste volume, que tambem vem contribuindo para a produc;ao de conhecimento sobre musica em perspeetiva social, sao a Comunicac;ao e a Antropologia. No computo geral, acredito que os estudantes universitarios brasileiros de hoje disp6em de uma situac;ao notavelmente melhor e mais estimulante do que nos dispunhamos no inicio dos anos 1980. A presente coletanea espera refletir este novo momento, trazendo a ele uma contribuic;ao significativa. Carlos Sandroni
SICA
-- &
CIENCIAS SOCIAlS para alem do descompasso entre arte eciencia
.I'
MUSICA
-- &
CIENCIAS SOCIAlS para ahlm do descompasso entre arte eciencia
Dmitri Cerboncini Fernandes Carlos Sandroni (Organizadores)
~OITO~A
P~ISMAS
Musica e Ciencias Socia is: Para alem do descompasso entre arte e ciencia Dmitri Cerboncini Fernandes & Carlos sandroni (Organizadores)
Apresenta~ao,
com urn tanto de depoirnento
1- Edi~ao - Copyright© 2016 Editora Prismas Todos os Direitos Reservados.
Carlos Sandroni
Editor Chefe: Vanderlei Cruz editorchefe@editoraprismas.com Agente Editorial: Sueli Salles agenteeditor ial@editoraprisrnas.com.br Diag:an-ia~aOt (apa e Projeto Granco: Diego Dittrich
o
leitor tem em maos uma contribui~ao para as pesquisas com perspectiva social sobre musica em lingua portuguesa. Essa area de estudos vem passando por notavel desenvolvimento em nosso
Dados Internacionais de Cataloga~ao na Publica~ao (CIP) Elaborado por: Isabel Schiavon Kinasz Bibliotecaria CRB 9-626
M987
pais, especialrnente desde
Musica e ciencias sociais: para alE~m do descompasso entre arte e ciencia / organiza~ao de Dmitri Cerboncini Fernandes, Carlos Sandroni - Led Curitiba: Editora Prismas, 2016 334p.; 21cm Varios colaboradores ISBN: 978-85-5507-408-0
1. Musica - Metodo 2 Musica - Hist6ria. 3. Ciencias sociais. 4. Rela~6es internacionais . I Fernandes, Dmitri Cerboncini (org.). II. Sandroni, Carlos (org.). CDD 780 . 1 (ned) CDU 78
Cole~ao
Diretor Cientifico
eonsultores cientificos
Maria Caramez Carlotta {UFABC} Duarte Rola (Sorbonne Paris IV, Fran~aj Rodrigo Rodrigues·Silveira (Universidade de Salamanca·
que e mais presente. Mas se deve, talvez ainda mais, ao incremento de pesquisas sobre musica nas Ciencias Socia is (em sentido lato). A pesquisa social sobre musica no Brasil ainda tem longo caminho a percorrer no que se refere a abrangencia de seus temas, ao suprimento de publica~5es, ao debate sobre essas em forma de rese-
isso recorrendo, sem abusar, espero, ao formato depoimento. Cursei Sociologia na Pontiffcia Universidade Catolica (PUC) do Rio de Janeiro entre 1977 e 1981. Nao tive nenhuma disciplina relacio-
Dmitri Cerboncini Fernandes (UFJF)
Marc A Hertzman (Universidade de Illinois ~ EUA)
inicio do presente seculo. Isso se deve em
nhas e postagens na internet, as op~5es disponiveis para pos-gradua~ao, entre outros desenvolvimentos necessarios. Mas gostaria aqui de sublinhar os avan~os obtidos nas ultimas tres ou quatro decadas. Farei
Sociologia: Cultura e Modernidade
Celia da Gra<;a Arribas (UFJF) Mauricio Rombaldi {UFPB} Leonardo Fernandes Nascimento (UNILAB)
0
parte a consolida~ao de prograrnas de pos-gradua~ao e associa~5es de pesquisa em Musica em nossas universidades, principalmente nas areas da etnomusicologia e da educa~ao rnusical, nas quais esse enfo-
Rodrigo Czajka (UFPR) Lidiane Soares Rodrigues (UFSCar) Edison Bertoncel0 (USP) Eduardo Vilar Bonaldi (UFSC) Carolina Pulici (UNIFESP) Diego Azzi (UFABCj
nada com sociologia da arte, e muito menos com sociologia da musica. Tinha amigos e colegas cursando Historia e Ciencias Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade Federal Fluminense (UFF) no rnesrno perfodo, e acho que tambem nao tiveram. E
Espanha)
verdade que 0 antropologo Gilberto Velho ja tinha organizado, desde meados dos anos 1960, cinco coletaneas de textos sobre sociologia da arte, publicados pel a Zahar no Rio de Janeiro. Os quatro primeiros volumes traziam tradu~5es de artigos internacionais sobre 0 terna, e
Editora Prismas Ltda. Fone: (41) 3030-1962 Rua eel. Ottoni Maciel, 545 - Vila Izabel 80320-000 - Curitiba, PR www.editoraprismas.com . br
~OITO~A
P~ISMAS
o ultimo (VELHO, 1977), produ~5es originais, incluindo um artigo de Howard Becker (que so oito anos depois viria a constituir 0 capitulo 8 de Art worlds), e 0 hoje classico artigo de Anthony Seeger, "Porque os indios Suya cantam para suas irmas". A publica~ao das sucessivas coletaneas sugere que essas obtiveram algum sucesso, mas confesso ser
incapaz de encontrar vestigios desse possivel sucesso ern rninhas lernbran~as sobre cursos, debates e congressos academicos do perfodo. Nessa epoca, eu ja estava envolvido corn musica e tocava violao, rnas as atividades musicais e as acadernicas pareciam pertencer a rnundos distintos. Cheguei a assistir, em 1982, a um curso de curta duraC;ao sobre musica indigena oferecido por Anthony Seeger no Conservatorio Brasileiro de Musica. Mas, naquele momento, nao consegui atinar para 0 alcance geral do que Seeger tinha a dizer; e musica indigena ainda parecia para mim algo distante e exotico. Do ponto de vista da trajetoria pessoal, isso e um dado curioso, po is me tornei etnornusicologo e Seeger se tornou um de meus herois intelectuais. Mas isso so comec;:ou a acontecer dez anos depois, quando ja estava na Franc;:a comec;:ando um doutorado cujo projeto inicial ainda nao era etnornusicologico. A possibilidade de relacionar musica e Ciencias Sociais, no rneu caso pessoal, esteve rnais relacionada ao contato com leituras de Theodor Adorno e de Mario de Andrade. Adorno e, sem duvida, um dos mais influentes pensadores da musica no seculo xx. Epossivel que seus primeiros escritos tornados disponiveis em portugues sejarn os do volume consagrado Escola de Frankfurt na colec;:ao Os Pensadores, publicada pela primeira vez pela Abril Cultural entre 1973 e 1975. Ali, constam seu famoso ensaio "0 fetichismo na musica e a regressao da audic;:ao" e tambem 0 artigo "Ideias para a sociologia da rnusica" (corn traduc;:ao de Roberto Schwarz!).
a
Adorno nao tem side urna referencia proeminente em estudos academicos sobre musica no Brasil nos ultirnos anos. Nao e raro ouvir crfticas desdenhosas fulminando seu elitismo e preconceitos contra a musica popular. Pode ser que essas condenac;:oes sejarn reavaliadas nos proximos anos, grac;:as, por exemplo, em portugues da
a recente publicac;:ao
IntrodUl;ao asoci%gio do musico (Sao Paulo: Unesp,
2009). Contribuiria tambem para isso 0 fato de Tia De Nora, uma das rnais influentes sociologas da musica em atividade, ter recenternente dedicado urn livro inteiro ao debate com Adorno
(After Adorno. Cam-
bridge, Reino Unido: Carnbridge University Press, 2003). Seja corno for; ao fazer neste momenta uma busca simples na internet com a palavra-chave "sociologia da musica", dos dez primeiros resultados ern portugues, encontro cinco sobre Theodor Adorno.
Mario de Andrade, como bern sabemos, nunca foi um acadernico. Seus escritos sobre rnusica, no entanto, sao ricos em sugestoes para torna-Ia corno tema de reflexao academica, com perspectiva fortemente social. Tal como no caso de Adorno, essa perspectiva social se apoia em um conhecimento intirno e tecnicamente detalhado do fazer musical. 1550 se verifica, por exernplo, em varios artigos de Musica doce musica (Sao Paulo: Martins, 1976), como 0 "Dinamogenias polfticas", no qual Andrade transcreve e analisa 0 ritmo de palavras de ordem cantadas ern comicios da Alianc;:a Liberal na campanha presidencial de 1930. Para nao falar de textos corno "A evoluc;:ao social da musica no Brasil" e "0 samba rural paulista", ambos incluidos na obra Aspectos do musico brasi/eira (Sao Paulo: Martins, 1975) e "Musica de feitic;:aria no Brasil", ensaio que abre 0 livro de mesmo titulo (Sao Paulo: Martins, 1963). Esses livros estavarn disponiveis quando entrei na faculdade, e sua leitura foi determinante para que, mais tarde, no inicio dos anos 1980, escolhesse Mario de Andrade como tema da minha dissertac;:ao de mestrado (nao em musica, mas em Ciencia Polftica ... ). Nessa mesma epoca, alguns colegas um pouco mais velhos (e bern mais "antenados") ja estavam trabalhando com etnornusicologia. Em outro lugar, dei rnais detalhes sobre a formac;:ao dos primeiros colegas brasileiros a obter doutorados em Etnornusicologia (fora do pais) ou ern Antropologia com forte orientac;:ao musical (no pais) (SANDRONI, 2008). Aqui, minha intenc;:ao e apenas ilustrar a enorme diferenc;:a entre a situac;:ao que vivi como estudante na virada dos anos 1970/1980, e a que encontro hoje como professor em rneados dos anos 2010. Outra ilustrac;ao dessa diferenc;:a e que a rnaioria dos livros entao disponiveis em portugues com reflexoes sobre musica popular tinha sido escrita por jornalistas. Entre esses, podemos mencionar Vagalume (18807-1946)' Jota Efege (1902-1987), Lucio Rangel (1914-1979), Ary Vasconcelos(1926-2003) e Jose Ramos Tinhorao (1928). Ern conjunto, esses autores fornecern urna irnportante produc;:ao bibliografica, ainda hoje indispensavel para a pesquisa sobre a historia da musica brasileira na primeira rnetade do seculo XX, principal mente no que se refere ao Rio de Janeiro. 0 autor mais prolffico dessa lista, Tinhorao, e tambem 0 que mais explicitarnente adota em sua obra 0 que estou chamando de "perspectiva social". 1550 e obvio ern um livro urn pouco rnais recente, como Hist6rio 50-
cial do musica popular (primeira edi<;ao em 1990}1, mas tambem e muito claro em livros como Musica popular de indios, negros e mesti~·os (1972}2 e Musica popular: do gramofone 00 radio e TV (1981}3 que, como muitos outros interessados no tema, Ii com prove ito nos anos 1980. Embora devamos criticar 0 mecanicismo de muitas analises de Tinhorao, nas quais diferentes estilos musicais aparecem como expressao automatica desta ou daquela classe social, e irnportante reconhecer 0 pioneirismo de seu esfor<;o interpretativo. A esse merito se acrescenta outro, ja amplamente reconhecido, relativo
a extraordinaria riqueza documental e informativa
de suas publica<;oes. Mas, corno eu dizia no inicio, nessas primeiras decadas do seculo XXI, encontramos urna situa<;ao bern diferente. Creio ser possivel afirmar que a grande maioria das novas publica<;oes feitas no Brasil sobre musica provem de trabalhos academicos. Entre esses, sao numerosos os que tiveram origem em disserta<;oes e teses em Ciencias Socia is. A Historia vem ocupando um lugar de destaque nesse panorama. Desde 2007, sete simposios tematicos sobre Historia e Musica foram realizados em eventos nacionais ou regionais organizados pel a Associac,:ao Nacional de Historia (ANPUH). Ja antes disso, historiadores como Arnaldo Contier, Marcos Napolitano e Marta Abreu, entre outros vinham dando contribui<;oes significativas ao tema. A Historia esta bem representada na presente coletanea, com ,
A
os trabalhos de Marc Hertzman, Ana"is Flechet e Gustavo Alonso. Mas a disciplina quantitativamente mais presente neste livro e a Sociologia: seis trabalhos em um total de onze. Essa e talvez uma das caracterfsticas que rnais singulariza a presente coletanea no atual panorama de pesquisa, pais a Sociologia brasileira nao vinha se notabilizando pela aten<;ao dedicada a temas musicais (algumas razoes dessa lacuna sao sugeridas na contribui<;ao de Marc Hertzman a este volume). Talvez nao seja uma coincidencia que, no mesmo mes de novembro de 2013 em que a UFJF abrigava a Simposio sobre Musica e Ciencias Sociais, evento no qual os trabalhos aqui incluidos 1 Tinhorao Jose Ramos. Hist6ria social do musica popular. Lisboa: Caminho, 1990. 2 Tinhora;, Jose Ramos. Musica popular de indios, negros e mestir;os. Petropolis, RJ: Vozes, 1972. 3 Tinhorao, Jose Ramos. Musica popular: do gramofone Atica, 1981.
00
radio e TV. Sao Paulo:
foram apresentados, 0 Programa de Pos-Gradua<;ao ern Sociologia da Universidade Federal do Parana tambem realizava, em Curitiba, o Encontro Internacional sobre Imaginarios Sonoros. Esses eventos sugerern urna significativa e promissora arnplia<;ao do interesse pela sociologia da musica ern nosso pais. Outras areas representadas neste volume, que tambem vem contribuindo para a produc,:ao de conhecimento sobre musica ern perspectiva social, sao a Comunica<;ao e a Antropologia. A Associa<;ao Nacional dos Programas de Pos-Graduac,:ao em Comunica<;ao dispoe inclusive de um Grupo de Trabalho (GT) perrnanente, intitulado Estudos de Som e Musica. A Associac,:ao Brasileira de Antropologia tam bern vem incluindo a rnusica entre os ternas abordados ern suas reunioes bienais, embora nem sernpre a palavra "musica" apare<;a nos tftulos dos GTs (ern 2010, temos 0 GT Corpo, Voz e Poder, coordenado por duas etnomusicologas; em 2012, Sonoridades e Mediac,:oes; em 2014, Sons, Praticas e Sentidos). Soma-se a toda essa movimenta<;ao academica recente em torno da musica com perspectiva social 0 trabalho dos diversos programas de pos-graduac,:ao em Musica, criados desde os anos 1980 em universidades brasileiras, da Associa<;ao Nacional de Pos-Gradua<;ao e Pesquisa em Musica (ANPPOM, fundada em 1988L da Associa<;ao Brasileira de Educa<;ao Musical (ABEM, fundada em 1991) e, last but not least, da Associa<;ao Brasileira de Etnomusicologia (ABET, fundada em 2001). No computo geral, acredito que os estudantes universitarios brasileiros dispoern de uma situa<;ao notavelmente rnelhor e mais estirnulante hoje do que nos dispunhamos no infcio dos anos 1980. A presente coletanea espera refletir este novo momento, trazendo a ele uma contribuic,:ao significativa.
lVIargeando a cultura: 0 samba e 0 choro em sua bibliografia propria Dmitri Cerboncini Fernandes
1 Musica popular, tema popular Pelo menos desde a decada de 1970, a musica popular brasileira ocupa a cena central de uma bibliografia que nao cess a de se avolumar (BEHAGUE, 2002; NAPOLITANO, 2002; NAVES et aI., 2001). Concomitantemente a citada expansao, vislumbra-se um processo complementar, qual seja, 0 inicio da solidificac,:ao de um espac,:o proprio de estudos sobre musica popular na academia - espac,:o esse que, se na maior parte das vezes ainda apresenta de maneira incipiente a devida densidade teorico-metodologica, prenuncia, ao menos, uma margem de interlocuc,:ao entre as obras. Congressos e simposios nacionais e internacionais nos quais a musica popular da 0 mote S7, grupos de trabaIho, mesas-redondas, revistas acadernicas e a presenc,:a crescente de pesquisadores especializados nos departamentos universitarios voltados as humanidades complementam 0 cenario anunciado. Em meio a tal profusao, faz··se notoria a presenc,:a de um ramo especifico de estudos, ramo esse que chega a se destacar numericamente em relac,:ao aos demais: trata-se de trabalhos voltados a analise de dois generos musicais urbanos e dos personagens a eles filiados que, por algumas razoes, detem um ambito proprio de legislac,:ao simbolica, publico consumidor e instituic,:oes. Falo do samba e do choro, geralmente conceituados como os rnais "tradicionais" do Brasil, fontes de inspirac,:ao e legitimidade de rnanifestac,:5es populares diversas. Pude evidenciar em outro trabalho que boa parte da peculiaridade concernente a esses generos advem do 57 Como os realizados pela IASPM (International Association for the Study of Popular Music), 6rgao mundial cujo ramo latino-americano periodicamente organiza congressos locais. Musica e ciencias sociais para diagrama~ao 111
processo de constru~ao da realidade conduzido por meio da bibliografia nativa que disserta especificamente sabre eles - bibliografia essa existente ja a partir de meados da decada de 1930, anteces_ sora, portanto, seja de todas as do mesmo matiz voltadas a outras manifestac,:5es musicais, seja dos estudos de vies cientifico centrados na musica (d. FERNANDES, 2010). Cabe esclarecer ainda que tal
xx
literatura apresentou ao longo do seculo um amalgama de largo espectro, indo desde biografias fartas em informac,:5es pontuais e escassas em reconstru~5es contextuais ou aprofundamento te6rico ate as relativamente sofisticadas de um ponto de vista analitico. Com efeito, os autores desses escritos sao os mesmos que participam de alguma forma da esfera de reproduc,:ao musical, ou seja, jornalistas, diletantes em geral, memorialistas, admiradores erigidos em historiadores autodidatas e os pr6prios musicos - doravante denominados de escritores nativos. Feixe de amadores e interessados no estabelecirnento e/ou manuten~ao das "verdades" que constituem 0 ideario desse ambito, todos compartilham, a despeito das diferenc,:as anotadas, de um tom elegiaco e evocat6rio, quase hagiografico, ao tratar dos dois generos musicais e seus produtores, arranjadores, compositores, cantores etc. E vem ao caso destacar essa peculiaridade, pois tal bibliografia possui relevancia impar ao se considerar os trabalhos academicos: ela fornece a quase totalidade dos dados, fontes e materiais utilizados pelos universitarios em suas pesquisas. Frise-se que a convivencia entre esses dois tipos de visao de mundo - 0 academico e 0 nativo - que, a principio, deveriam se distanciar em termos de conteudo, de material de analise e de assunc,:ao de posturas empatica ou antipatica concernente ao objeto, da-se inusitadamente de modo harmonioso, 0 que terrnina comprometendo 0 alcance de conclus6es minimamente cientfficas pelos estudos academicos. Quero dizer com isso que asser<;:5es engajadas, julgamentos idiossincraticos, conceituac,:5es claudicantes e achismos emotivos em estado bruto emitidos pelos nativos sao amiude absorvidos no rol de referencias conclusivas; dificilmente sao postos em sua devida posic,:ao, qual seja, a de meras coordenadas informativas acerca do estado das disputas e dos jogos envolvendo os agentes em deterrninados periodo hist6rico e local 58 .
58 Cabe ressaltar que nao rne refiro aos docurnentos trazidos a baila pelos nativos
112
Dmitri Cerboncini Fernandes & Carlos Sandroni (Orgs.)
Nao se trata, conforme espero deixar claro, de condenar aS escritos nativos pelo matiz laudat6rio, memorialistico, ou 0 que for; muito pelo contra rio: esses existem e devem existir enquanto construtores valorativos de nossa cultura e detem, como todo testem unho de epoca, sua serventia ou func,:ao no concerto da na<;:ao. Trata- se , simI de ressaltar que a literatura considerada "menor" - e seus artifices - quase nunca se alc,:ou a objeto de atenc,:ao epistemo16gica dos cientistas sociais, historiadores e demais colegas, que terminam englobando conclus5es, conceituac,:5es, tematicas, "tons" e asser<;:6es consagradoras em trabalhos que, antes, deveriam primar par um minimo distanciamento objetivante, quer dizer, por maiores apuro e rigor metodol6gicos. Certa feita, 0 music610go Gerard Behague lucidamente afirmou: "Os Jota Efege, Ary Vasconcellos, Sergio Cabral, Homem de Melio, Tarik de Souza e tantos outros foram ou sao cronistas da musica popular e alguns deles bons cronistas, mas nao verdadeiros pesquisadores" (BEHAGUE, 2006, p. 71-72). Trata-se, agora, de ir alem dessa constatac,:ao 6bvia, mas incrivelmente tardia e isolada no campo de estudos da musica popUlar; urge verificar nao quae bons cronistas os personagens arrolados e seus semelhantes forarn ou sao, rnas sirn quae relevantes para a atividade da construc,:ao da realidade social eles foram ou sao, a ponto, por exempla, de um deles ter alcan<;:ado legitimidade suficiente para redigir a pref,3cio de festejado livro acadernico sabre 0 samba S9 • A esperanc,:a e a de que 0 exerdcio reflexive proposto com respeito apreensao e usa das fontes caminhe no sentido de inspirar uma pratica corriqueira, sobretudo quando se lida corn objetos "naturalrnente" sedutores e envolventes, caso, sem duvida, da rnusica e das artes em geral.
a
em prirneira rnao; no caso, declarac,:6es raras de deterrninados rnusicos e cornpositores, entrevistas circunstanciais etc. - rnuitas delas de extrerna valia para se proceder a uma analise coneta das injunc,:6es do universe rnusical -, rnas sirn as reitera~6es sem mais das "teses nativas" corno fontes de "verda des" cientificas. S9 Trata-se de 0 misterio do samba, tese de doutorado tornada livro defendida pelo antrop610go Herrnano Vianna (VIANNA, 2004), cujo prefacio foi redigido por ninguern menos do que Sergio Cabral. Esse e apenas urn exernplo, dentre rnuitos outros, de relac,:6es prornlscuas que sitiarn a cancha ern que jogarn juntos cronistas e acadernicos na transfigura~ao de cornprornissos outros ern cientfficos. Sornente urn ignorante completo ern rnateria de sociologia dos intelectuais veria nesse exernplo algo fortuito, despido de rnaiores significa~6es, ou ainda a inten~ao deliberada de rninha parte em polernizar no vazio. Musica e ciencias sociais para diagramac,:ao
113
Nao faz parte dos prop6sitos deste artigo} no entanto} a polemica vazia} rnotivo pelo qual restrinjo ao maximo a citac;ao nominal de trabalhos que incorram nos equfvocos assinalados. Refon;:o que a estrategia posta em marcha cinge-se a tra<;ar as caracterfsticas e estrutura<;oes centrais da literatura nativa no intento de destacar 0 modo pelo qual os padroes em exame imiscufram-se na literatura academica. No mais} competentes autores ja se ocuparam em realizar balan<;os crfticos do conjunto da literatura Ifmaior}} - como os supracitados Mar-
'u a principio de forma esparsa} a reboque de artigos nem sempre surgl . d .. d (C ulares e publica os em melos} mUltas vezes} nao orto oxos OUTIreg . Id . . 2006). A fatura essencla esses personagens mlstos - cronlstasNHO, . d .lescos possuidores tanto de acesso aos rnelOs e comunlcac;ao -earn ava , oca } quanto aos recantos ainda quase desconhecidos das classes da ep . _ edia e alta carioca} i.e.} os monos e corti<;os - era a demarcac;ao de
~ma nova posi<;ao com
respeito as rnanifesta<;5es musicais populares
cos Napolitano} Santuza Naves e Gerard Behague -} ao passo que do
ascendentes: contribufam} simultaneamente} t~nto para dar a conh:cer minudencias sobre os produtores e produ<;oes populares a um pu-
da nativa quase ninguem se candidatou. Procuro} destarte} escrutinar
blico relativamente distinto e distante do envolvido com esse universo}
obras que tenham} sobretudo} exercido ascendencia sobre 0 mundo academico. Para tanto} sublinho certos marcadores de conteudo des-
uanto para normatiza-Io simbolicamente. q A expansao ocorrida nos meios jornaifsticos no p6s-proclama-
sas obras tornados trans-hist6ricos em meio a admiradores em geral e
1"ao da Republica conjuminada com modifica<;5es de carater de con-
estudiosos} como ainda reconstituo brevemente situa<;oes socia is que
;eudo} forma de esc rita e pauta dos vefculos de comunica<;ao (SODRE}
ten ham dado ensejo ao irrompimento dos modes de sensibilidade em
1998) deram abrigo a reportagens regula res sobre 0 submundo cultu-
relevo. 0 perfodo vasculhado vai desde a decada de 1930} instante em
ral da capital} algo ate entao jamais entrevisto. Cronicas policiais ladea-
ll
que assomam os livros Iffundadores dessa bibliografia} ate 0 final da
vam as das manifestac;oes culturais populares; ambas safam das penas
decada de 1970} momento aureo em que ela desagua em um progra-
dos mesmos cronistas em questao} conhecedores desses ambientes
ma de fomento governamental} portanto oficial} as biografias dos eleitos ao panteao do samba e do choro.
inospitos em razao de muitos deles terem provindo de camadas inferiores. K-rapeta} Peru dos Pes Frios} K-peta, Morcego} dentre outros apodos extravagantes} faziam as vezes dos pseudonimos daqueles que aparentavarn nao querer dar a mostra suas verdadeiras identidades} talvez pela subalternidade do novo ramo de atividade dentro da hie-
2 Os pioneiros do samba e do choro
rarquia jornaifstica (FERNANDES} 2010; COUTINHO} 2006). Dessa conjuntura} irromperarn os autores dos primeiros livros
A gama literaria nativa que trata dos generos musicais chora e samba existe de longa data. Embora reunidos sob outras designac;5es ao final do seculo XIX} os varios estilos musicais urbanos presentes no Rio de Janeiro - mais tarde unificados por meio das denornina<;5es choro} quando instrumental} e sarnba} quando canc;ao versificada -} faziarn-se ja nesse fnterirn objetos de pauta de determinados jornalistas-foli5es} participes ativos das festas de carnaval e de outras reuni5es musicais na capital federal (FERNANDES} 2010)60. Tal protocrftica 60 Chamo a atenc;ao para 0 fato de que 0 tema do "surgimento", "nascimento", "irrompimento", "genese" etc. dos generos musicais choro e samba complexo, e a afirrnac;:ao ern que me baseio, de que varios estilos anteriores unificararn-se em
e
114
Dmitri Cerboncini Fernandes & Carlos Sandroni (Orgs.)
que tratavam especificamente dos assuntos samba e chord1 • Ern 1933,
torno de duas nomenclaturas, diz respeito ao que pude descobrir ern termos fartamente docurnentados ern urn trabalho anterior (FERNANDES, 2010). Outras vis6es (etnomusicoI6gicas, rnarxistas, culturalistas) que tentam dar conta do rnesrno fenomeno podem ser encontradas ern Sandroni (2001), Wisnik (1983), Vianna (2004), entre outros. 61 Lembrando que provavelrnente 0 prirneiro livro escrito por urn cronista a ternatizar personagens do cancioneiro popular urbano carioca tenha sido 0 0 cabrocha, de autoria do cronista carnavalesco Jota Efege (EFEGE, 1931). Tratando-se, no entanto, mais de uma colec;ao de artigos escritos de forrna esparsa ern jornais do que de urna obra organica, 0 livro nao se dispunha a legislar sobre 0 samba, 0 choro ou outros generos musicais. Por essa razao e ainda pelo fato de a obra ern considerac;:ao nao ter sido largamente utilizada pelos acadernicos, ela nao sera averiguada junto as dernais. Musica e ciencias sociais para diagramac;:ao
115
Samba sua historio, seus poetas, suas musicos, seus cantores, do jornalista, poet~ e compositor Orestes Barbosa, e Na roda de samba, de um jornalista-fo_
ros que exige, que pugna, que vela, que mantem e fara respeitar a "toada", do samba tao nosso, tao brasileiro [... J (GUIMARAES, 1978, p. 30).
liao de "priscas eras", rnais conhecido pela alcunha de Vagalume do qUe pelo seu nome de registro, Francisco Guimaraes 62 • Por tras das ingenuas descri<;:5es elegiacas presentes nos dois Iivros, ha pela primeira vez 0
Percebe-se, em rneio a suas asser<;:5es, a inaugura<;:ao de uma
vem a tona coincidentemente - ou nao - logo dois de uma vez:
confronto de teses distintas (NAPOLITANO; WASSERMAN, 2000) versando sobre especificidades da musica popular urbana brasileira: em Barbosa, a de que 0 samba seria urn produto genuine da cidade do Rio de Janeiro, uma expressao da "alma" carioca em sua totalidade, nao importando se do morro, da cidade, das radios, dos discos etc.: "0 samba e carioca. A emoc;ao da cidade esta musical e poeticamente definida no samba" (BARBOSA, 1978, p. 11). "[ ... ] Das misturas que 0 Rio tem, vem a sua musica propria -
0
samba, que e tao nosso como a romanza e italiana,
0
tango
e
argentino e a canc;oneta e de Paris. [ ... ] 0 carioca, alias, e originalmente musico, desde as tabas dos seus indios" (BARBOSA, 1978, p. 15). Importante frisar que Barbosa, a reboque, asseverava que 0 samba
nao era baiano, tomada de posic;ao em primeira mao que nao
encontrou, aquela altura, semelhantes a ele do lade da Bahia para contradize-Io. A enunciac;ao da celebre contenda em torno de qual seria o territorio "genetico" corporificava~se aqui, portanto. Vagalume, em contrapartida, ia alem da constata<;:ao de Barbosa: acreditava que 0 samba provinha exclusivamente dos morros, salientando uma especie de divisionismo interne a cidade do Rio de Janeiro e suas zonas de produ<;:ao artfstico~populares:
Filho legitimo dos morros, 0 samba, por mais que queiram - nao morrera, nao perdera 0 seu ritmo. Os sambestros, que sao os fazedores de musicas de samba, rivais dos maestros.oo procuram desvia-Io mas, ainda ha gente nos mor-
visao que se tornou preponderante. 0 samba erigido por Vagalume enquanto "verdadeiro", destarte, passava a ter sua contrapartida, um lIfalso": 110 que hoje ha por ai, tem apenas 0 rotulo, e um arremedo de samba. Onde morre 0 samba? [ ... ] Quando ele passa a ser artigo industrial - para satisfazer a ganancia dos editores e dos autores de produ<;:5es dos outros" (GUIMARAES, 1978, p. 29-31). 0 "verdadeiro", em outras palavras, advinha dos sambistas natos, isto e, do morro, que apenas ansiavam pelo cultivo de formas rnusicais autenticas, pela reuniao comunitaria, pela revivescencia dos valores ancestrais, ao passo que 0 IIfalso" correspondia aos executados nas radios e fonogramas, aos que tencionavam proventos materiais, quer dizer, aos nascidos com 0 fito de serem veiculados nas nascentes estruturas comerciais de reprodu<;:ao musical:
Hoje, 0 que inspira os sambistas e "sambestros" e a ambi<;:ao do ouro ... [... J. As musicas de hoje, sao muito semeIhantes umas com as outras, diferindo apenas no andamento, na mudan<;:a de compasso. Estamos no Imperio do Plagio. 0 samba industrializado, despertou a cobi<;:a e fez surgir uma nova gera<;:ao de autores ... de produ<;:5es dos outros (GUIMARAES, 1978, p. 90).
A parte 0
tom passadista ou romantizado de Vagalume, note-
se que na decada de 1930 havia raz5es estruturais de sobra para que emergissern vis5es como as retratadas: 0 mercado musical popular vivia, de um lado, uma expansao comercial ate entao jamais vista. Enquanto avan<;:os tecnologicos barateavam os custos de grava<;:ao, novas
62 Nesse ponto, assinalo que discordo da abordagem que Jose Vinci de Moraes efe-
tuou com respeito a esses personagens, tratando-os como "primeiros historiadores da musica popular" (MORAES, 2006). Na realidade, jamais eles se erigiram em historiadores ou sequer visaram a se erigir; conforme deixo claro, eram apenas cronistas que se aproveitavam da situa~ao conjuntural da epoca, portadores de caracterfsticas socia is determinadas, que lograram estabelecer - de forma inconsciente, diga-se de passagem -, a reboque de suas descri~6es culturalmente despretensiosas, parametros internos de julgamento da musica popular.
116 Dmitri Cerboncini Fernandes & Carlos Sandroni (Orgs.)
industrias fonograficas aportavam no pais, transformando a antiga atividade artfstica por completo. Alem disso, esta<;:5es de radio voltadas ao lucro moneta rio, logo, a amealhar grandes audiencias, passavam a se multiplicar celeremente a partir de 1932. 0 governo de Getulio Vargas, do lado poiftico, apercebendo-se do potencial comunicativo de tal manifesta<;:ao, nao tardou a se aproximar e/ou a se apropriar
Musica e ciencias sociais para diagramat;:ao 117
dos produtos em yoga (MCCANN, 2004). Em meio a todo esse inedito alvoro<;:o, Vagalume e Barbosa desempenhavam os papeis de pioneiros na sistematiza<;:ao simb61ica geral dos caminhos possiveis a serern trilhados pelo genera. Barbosa fundamentou a ideia de um samba enquanto representa<;:ao nacional-carioca por excelencia; clamava pela unidade de um panteao, pela exalta<;:ao in totum do samba e dos sarnbistas, pelo aparamento de eventuais arestas. Homem do radio e compositor de relativo sucesso que era, para ele 0 designador de qualidade do samba nao passava pel a explicita<;:ao de desacordos internos, mas pelo reconhecimento do genera enquanto forma lidima nacional 63 • Ao contra rio de Vagalume, por sua vez, que preferiu sublinhar as tensoes que permeavam 0 genero, sua sensibilidade em rela<;:ao ao contexto de rapida rnercantiliza<;:ao ensejou a separa<;:ao entre um bom e um mau samba, entre urn "autentico" e um "inautentico", legado que dava
a
mostra 0 principio de autonomiza<;:ao legislativa desse ambito em sirnultaneo ao adensarnento de institui<;:oes comerciais.
sentavam de forma estanque, e que a interpenetrac,:ao dos dois se ap re . . ~ ros, a partir do momenta em que forarn enuncladas suas slstegene d " . - JI tiza<;:oes e nomenclaturas definitivas, vem des e suas cna<;:oes. ma. al circunscrevia ainda, os locais on de imperavam " a. slncer!'d ade, Anlm' _ .. . a alegria espontanea, a hospitalidade, a comunhao de Idelas e a unlformidade de vida" (PINTO, 1978, p. 10L qualidades esquecidas nos tempos hodiernos, segundo 0 autor. A esses "choroes da v,el.ha guarda", que na maio ria das vezes tocavam por ~,raze: ~, ~o ~axlmo, po~ faustosOs repastos, oferece 0 livro, em sua remmlscencla e louvor (PINTO, 1978, p. 10). . Chorando "[ ... ] pelas tradic,:oes que os anos nao trazem mals
15L reunia em seu ~anteao, talve~ tambe~ p,:la rimeira vez, as figuras do passado, ou seJa, do tempo verdadelro, e
[... J" (PINTO, 1978, p.
~queles que ainda pugnavarn pela continuidade da tradic,:ao. Mesclava
as gera<;:oes dos Escolhidos, iniciando aqui 0 trabalho de agrupar sob uma mesma alcunha que carregava uma valora<;:ao positiva consigo -
Em rela<;:ao ao choro, foi ern 1936 que assomou uma obra vol-
choroes - os musicos e compositores, reprodutores de inumeros es-
tada ao genero. Trata-se de 0 choro - reminiscencias dos choroes an-
tilos e seus herdeiras. Animal explicitou ainda a ideia de que 0 chora
tigos, de Alexandre Gon<;:alves Pinto, rnais conhecido pela alcunha de
correspondia a genero essencialmente instrumental, cuja caracteris-
Animal. 0 carteiro aposentado e "chorao" nas horas vagas, a exemplo
tica central, ern contraposi<;:ao ao samba, era a de abrigar rnusicistas
de Barbosa e Vagalume, era frequentador assiduo dos bailes e socie-
exemplares, virtuoses, conhecedores de teoria rnusical e do canon eru-
dades carnavalescas desde os fins do seculo XIX. Por outra lado, nada
dito. Desde entao, qualidades como 0 colecionismo, 0 esmero na exe-
tinha a ver com 0 ambiente de jornais e reda<;:oes. Animal era mais hu-
cu<;:ao das pe<;:as, 0 improviso, 0 dialogismo corn pradu<;:oes do passado
milde em suas inten<;:oes: alrnejava tao somente apresentar os perso-
eo lastro com a erudi<;:ao tornaram-se marcadores centrais do chora,
nagens de uma era ern que a "purezaJl e a "verdadeira" rnusica popular
que se fez especie de porta de entrada da skole artistica no ambito do
teriam imperado, em sua opiniao, por meio do desfile de pequenas
popular urbano brasileiro. Tarnbem ao contrario do samba, 0 chora
biografias idealizadas de mais de duzentos musicos, compositores e cantores cariocas que,
a epoca, ainda nao tinham obtido 0
nao conheceu um Vagalume, isto e, uma figura que lograsse formular
devido re-
certa divisao qualitativa interna ao genero conectada a uma maior ou
conhecimento. Reuniu-os na qualidade de "choroes do luar", os "ver-
menor praximidade aos meios comerciais de difusao vicejantes, fato
dadeirosJl cultores das manifesta<;:oes rnusicais populares de carater
que pode ser explicado em razao de urn apelo de publico diminuto que
instrumental (PINTO, 1978, p. 10) - embora diversos dos retratados
a manifestac,:ao musical despida de versos detinha naquela figura<;:ao.
nos dois livros sobre 0 samba tambem se encontrassem presentes nas descri<;:oes de Animal, dando
a mostra que as delirnita<;:oes existentes
entre as denomina<;:oes dos generos rnusicais na decada de 1930 nao 63 A biografia de Orestes Barbosa encontra-se ern obra de Carlos Didier (2005). Outra fonte irnportante de inforrnac;6es sobre esses personagens encontra-se ern obra de Nestor de Holanda (1970).
118
Dmitri Cerboncini Fernandes & Carlos Sandroni (Orgs.)
De modo geral, no entanto, frise-se que as tres cr6nicas assinaladas acima norrnatizaram, a despeito de seus conteudos aparentemente ingenuos e tao sornente descritivos, quase todos os estudos que se seguiram sobre as manifesta<;:oes musicais conhecidas e rotinizadas por meio dos termos choro e 0 samba no seculo XX - termos presentes de forma pioneira, a ser ressaltado, nos titulos dos tres livros. 0 elogio Musica e ciencias sociais para diagramac;ao
119
desmesurado aos personagens retratados e elevados aos seus resp ec~ tivos pante5es, as evocac;5es heroicas, a questao da c~rreta "orige 11 . . I rn terntona - se 0 samba e 0 choro teriam surgidos no morro , na c'd I ade, no Rio de Janeiro ou alhures - a questao da autenticidade - sobre quais estilos musicais seriam "autenticos" ou "inautenticos", e ::.0 ~ b quais condic;5es - e uma preferencia pelo passado em detrimento do presente sao os principais legados aquilo que se constituiu enquanto verdadeira doxa por essa prirneira gerac;ao de especialistas nativos do samba e do chor~.
3 A IIblblia" do samba e do choro Uma segunda gerac;ao de crfticos-cultores imprimiu vitalidade aos trabalhos dos pioneiros na arte da delirnitac;ao sirnb61ica das rnanifestac;5es musicais populares urbanas. As decadas de 1940 e 1950 virarn 0 surgirnento de novos personagens, quase todos oriundos de camadas sociais superiores em cornparac;ao corn seus antecessoresI como 0 compositor, radialista, cantor, escritor e arquivista Alrnirante {Henrique Foreis Domingues, 1908-1980} e 0 jornalista, bacharel em Direito e escritor Lucio Rangel {1914-1979}64. 0 rnodo de visao que se iniciara com opini5es esparsas em colunas marginais e artiguetes ocupava paulatinamente 6rgaos variados de alcance nacional, rotinizando-se enquanto verdade inquestionavel em arnbitos diversos. Dentre esses novos sentinelas da tradic;ao, poucos, como Alrnirante, provinharn unica e exclusivamente do meio artfstico, desgarrando-se dele ao preferir a atuac;ao seja radiof6nica, seja de produc;ao musical, ou ainda a escrita sobre os generos. Os demais, amiude, iniciavarn-se no
metier em redac;5es de jornais, especializando-se na pauta "rnusica po-
dos intelectuais vinculados ao movimento rnodernista etc. - em razao de contatos pessoais que nutriam corn a boernia por causa de certo estilo de vida - caso de Lucio Rangel -, ou por disposic;5es variadas vincul adas as suas trajet6rias. Alguns, alern do mais, possufam cabedal necessario para ate mesrn O bancar a criac;ao de 6rgaos voltados exclusivamente ao debate em tomo da rnusica popular "autentica", corno a Revista da Musica
Papulaf's (RMP), fundada por Lucio Rangel, filho da nomenklatura carioca, e que catalisou as discuss5es - mais especificarnente sobre 0 samba, 0 chorD, 0 jazz e seus correlatos artistas - durante seu curto perlodo de existencia {1954-1956}. Reunindo desde grandes intelectuais do calibre de Manuel Bandeira, Vinfcius de Moraes, Rubem Braga etc. ate amantes e cultores das forrnas artfsticas que se embrenhavarn pelo terreno da crftica - Guerra-Peixe, Ary Barroso, Jacob do Bandolim etc. -, a RMP agregava os que, de uma forma ou de outra, compartiIhavarn da visao finalmente fundamentada e universalizada naquela figurac;ao. A novidade doutrinaria em relac;ao aos pioneiros da decada de 1930 residia em um embasamento rna is te6rico e na aproximac;ao as analises que dominavarn a cena intelectual. Quer dizer, dos jufzos assentados nas mem6rias, na vivencia pratica e ern meras opini5es, proprios a decada de 1930, chegava-se aqui a formulac;5es mais sofisticadas, sem perder; no entanto, a essencia das elaborac;5es passadas. A dernarcac;ao de uma posic;ao de escol para aquilo que eles acreditavam representar a brasilidade nascente, a autentica identidade artfstica nadonal, era a ac;ao prioritaria visada. Falsa e verdadeira, autentica e inautentica, popular-folcl6rica e comercial; termos que permeavam a linguagem das discuss5es intelectuais presentes nao s6 nesse vefculo de comunicac;ao, mas que tarnbem se espargiam entre programas de radio, livros, discursos de grandes artistas e intelectuais, quer dizer, ern canais cujos partfcipes da RMP detinham livre acesso. Apesar da circulac;ao rest rita, 0 capital
pular" - que havia angariado certa legitimidade por diversos motivos, dentre os quais a chancela estatal, 0 exito cornercial nas radios e gravadoras, 0 carnaval, 0 apoio conferido a essas manifestac;5es por alguns 64 Para a analise detalhada das trajetorias dos citados e de alguns mais que compunham aquele cenario, ver trabalhos como os de Stroud (2008), Wasserrnan (2002) e Fernandes (2010).
120
Dmitri Cerboncini Fernandes & Carlos Sandroni (Orgs.)
65 Antes dessa publica<;ao, ja haviarn existido outras de rnenor expressao que se ocupavarn do tema "rnusica popular", corno a Revista Phono-Arte, da decada de 1.92~, Revi~ta do Radio e Radio/6ndia, arnbas da decada de 1950. Frise-se que as cltaaas revistas nao abrigavam intelectuais dissertando sobre 0 terna - talvez a PhonO-Arte sim, rnas ern urn patarnar muito mais restrito e em outro momenta hrstorico. EI~~ dedicavam-se divulga<;ao comercial das novidades ern grava<;ao em vez de Crltica ou acr6nica rnusical, ao contrario da RMP, portanto.
a
a
Musica e ciencias sociais para diagrama<;ao
121
sirnb61ico reunido em torno dos colaboradores arregimentados por lucio Rangel para a RMP atraia a aten~ao de quem se interessava pelas formas de can~ao consideradas flverdadeiras" ou pela defesa de uma estetica nacionalista nas artes, disposi~6es essas costuradas desde as decadas anteriores nos altos cfrculos por meio das investidas de grandes artistas-intelectuais-estadistas, caso de Mario de Andrade, Heitor Villa-lobos e outros (WISNII<, 1983), enos baixos cfrculos pelos intelectuais "proletaroides" vislumbrados ern se~ao anterior (FERNANDES, 2011). Os musicos e compositores coligados a tais rnanifesta~6es ganhavam de quebra 0 status de objetos da mais alta reverencia, pois, de modo circular, figuravam como objetos de esc rita de celebres personagens. A valoriza~ao do passado em detrimento do presente a reboque da escolha de um grupo que pudesse legitimamente representar esse passado mesclava-se, por fim, demarca<;ao de perfodos especfficos e heroicos com os quais a musica popular urbana passava a contar. As dissonancias assinaladas entre Orestes Barbosa e Vagalurne, por exemplo, seriam amainadas em prol de uma unica flepoca de ouro": tanto os do flmorro" quanto os da flcidade" alcan<;avam aqui, por meio de uma alquirnia que os colocava no mesmo cadinho de autenticidade, a
a
cantrapontos ao que era apreendido como os flinimigos" do mocO rn a mento. No terceiro numero, por exemplo, 0 editorial saudava a volta do tlverdadeiro samba", por conta da chegada do carnaval:
Eurn consolo a volta do verdadeiro sarnba, nesta epoca do ano. Ja nao ouvirnos 0 sarnba de flboite", 0 samba rumba ou 0 samba-blue. Agora as batidas dos tamborins dominam tudo e quem canta 0 sarnba e 0 sambista de bossa e de voz. Acabou-se 0 reinado dos sussurrantes, 0 domfnio dos fazedores de boleros, 0 samba agora e senhor absoluto (RANGEL, 2006, p. 129). Um pouco
a frente,
no numero onze,
a otimismo de Rangel
asseverava que flOS boleros e as can<;6es sofisticadas vaG cedendo lugar aos verdadeiros ritmos brasileiros e 0 publico cada vez mais prestigia a que e autentico e nosso" (RANGEL, 2006, p. 561). Vale dizer, a simplicidade de urn flingenuo" samba de morro ou de um choro qualquer transpirava muito mais sublimidade do que a "sofistica~ao" nessa chave interpretativa da critica, modo de visao que sera recuperada
perpetuidade do louvor. Em suma, a despeito de transforma<;6es diversas em compa-
adiante por estudiosos como Jose Ramos Tinhorao. A representa<;ao de pureza absoluta, empunhada tanto pel a
ra<;ao com a decada anterior, permanecia a sanha em defender, es-
institui<;ao RMP quanto pelos generos musicais defendidos, consumau-se com a contribui<;ao dos folcloristas institucianalizados em con-
tudar e promover formas artisticas urbanas que eles acreditavam se posicionar de maneira distanciada da 16gica comercial. Encaravam a funda<;ao da revista como verdadeira missao, algo estampado desde 0 primeiro nurnero da RMP, conforrne editorial de Lucio Rangel: [A) REVISTA DA MUSICA POPULAR nasce com 0 proposito de construir. Aqui estarnos corn a firrne inten<;:ao de exaltar essa rnaravilhosa rnusica que e a popular brasileira. Estudando-a sob todos os seus variados aspectos, focalizarnos seus grandes criadores e interpretes, crernos estar fazendo servi<;:o rneritorio. as rnelhores especialistas no assunto estarao presentes desde este nurnero inaugural, nas paginas que se seguern. Pretendemos fazer desta revista 0 guia de urna irnensa legiao de fas, de interessados, de colecionadores de discos, existentes ern nosso rneio (RANGEL, 2006, p. 25).
Esses emblemas de autenticidade nacional-carioca erigiam-se
122
Dmitri Cerboncini Fernandes &. Carlos Sandroni (Orgs.)
gressas e rnovimentos (VILHENA, 1997). Cabe frisar que tais estudos cantavam com nomes do naipe de Mariza Lira (1899-1971), primeira bi6grafa de uma personagem ligada ao que se convencionou chamar choro (liRA, 1978), por exemplo. Passava-se a fazer uso do metodo folclorista a rodo, ao modo do que sucedeu corn 0 usa do termo flpOpUlar": alguns dos colaboradores da RMP davam preferencia ao conceita de IIfolc-rnusica" para a designa<;ao de rnanifesta<;6es musicais populares que supostamente se originaram de modo distante dos meios de reprodu<;ao comercial. Nao que 0 termo flpopular" fosse posto de lado, mas a condi~ao imposta para que ele tivesse plena validade era a de que englobasse elementos identificadores de certa pureza e autenticidade musical. Em outras palavras, a musica flpura", fldescampromissada", " autentica" identificava-se, doravante, com aquela que guardasse caracteristicas folcl6ricas; quer dizer, que correspond"esse a uma forma musical cuja origem residisse no passado e ern dada coMusica e ciencias sociais para diagrama<;:ao
123
munidade, atrelada a uma rede de significados que mantivesse relac;oes profundas com 0 "carater nacional"; que fosse, enfim, baseada
Dir-se-ia que eles, os primeiros habitantes dessa terra que seria chamada muito mais tarde de a Cidade Maravilhosa, enamorados da rnajestade caprichosa dos nossos morros, do espelho fulgurante do mar, do espelho lurninoso do ceu, do encanto Ifrico das noites esplendidas, erarn musicos expontaneos (liRA, 2006, p. 148).
em uma especie de essencia, que variava de acordo com 0 autor: para uns, os seguidores mais proximos de Mario de Andrade, entao elevado ao posto de grao-mestre postumo do folclorismo, a essencia emanava dos rincoes profundos do territorio nacional; para os mais novos, no entanto, urna releitura do mestre acomodava sem peias a presumida essencia na miscigenac;ao dessas tradic;oes rurais ocorridas em meios urbanos afastados, tais quais os morros - e aqui Vagalume ganhava completa anuencia 66 . Tais requisitos poderiam assim ser preenchidos sem grandes empecilhos por meio das formas musicais "puras" herdadas da casa da Tia Ciata - sacerdotisa das religioes afro-brasileiras, que no livro de Vagalurne figura antes de qualquer outro como grande incentivadora dos festejos de carnaval, dona da casa onde 0 presumido "primeiro" samba teria side composto -, dos morros ou dos personagens, situac;oes e locais retratados por Animal e Barbosa. Ressalte-se a importancia que comporta 0 instante em que os colunistas da RMP vincularam a musica popular "autentica", ou folc-musica, aquele que se confirmava como 0 territorio sagrado e originario dessas manifestac;oes urbanas: 0 Rio de Janeiro. A explicitac;ao da localidade central da verdadeira musica "brasileira" ja podia ser percebida nos neologism os presentes em materias como "Noel Rosa cantor mais expressivo da musica popular carioca" (EFEGE, 2006, p.
- 0
142-143L assinada pelo cronista Jota Efege, ou a coluna "Historia social da musica popular carioca" (LIRA, 2006, p. 148-149L de Mariza Lira. Um "povo carioca" mergulhado em uma essencia indefinfvel destinava-se naturalmente aquelas criac;oes consideradas as rnais ricas jamais realizadas em solo nacional, antecedendo ate rnesrno a chegada dos europeus, segundo a visao da mencionada folclorista da RMP: Antes da chegada dos europeus, ja ecoavam pelos rinc6es da terra do pau brasil as sonoridades do arnerfndio. [ ... J Mas, de todos os brasis, os tamoios erarn os rnusicos mais inspirados.
66 Para a analise de eventuais relac;6es tecidas entre os escritos de Vagalume eMario de Andrade, consultar Fernandes (2010). Stroud (2008), por sua vez, deslinda as ligac;6es do folclorismo internacional com 0 adaptado a interpretac;ao da musica no Brasil.
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Dmitri Cerboncini Fernandes & Carlos Sandroni (Orgs.)
Eis que 0 elemento carioca-nacional-popular, forma superior as demais nacional-populares disponfveis, ganhava explicac;ao lend aria a partir desse vefculo. A justificativa naturalizadora da existencia dos melhores, mais criativos e representativos musicistas e compositores nacionais, como Pixinguinha e demais conterraneos, fossem os "ingenuos" compositores do morro ou nao, passava pela localizac;ao nessa paragem idflica, magical capaz de dar vazao as sublimes expressoes artfsticas da alma humana. Ao rechac;o dos bens mundanos e ganhos faceis no terreno musical somar-se-ia a qualidade, caracterfstica intrfnseca carreada pela verdadeira musica carioca. Os para metros de apreciac;ao desenvolvidos por esses articulistas que permaneceram na historia podem, destarte, ser resurnidos em alguns pontos: 1) 0 culto ao passado; 2) 0 rechac;o aos estilos musicais enquadrados como comerciais ou estrangeiros - com excec;ao do jazz, ao menos para Lucio Rangel; 3) a escolha e dernarcac;ao de pais fundadores dos generos; 4) 0 temor pelo terminG e rareamento das manifestac;oes musicais defendidas; 5) a identificac;ao imediata dessas manifestac;oes musicais "autenticas" como expressao do carioca-nacional-popular; 6) a tentativa de universalizac;ao desse elemento carioca-nacional-popular;
7)
circundamento de um ambito especffico que contava com do is generos musicais conexos e personagens dotados de rafzes legftimas; 8) 0 0
principio de exaltac;ao das camadas baixas da populac;ao urbana enquanto Ifdimas produtoras das rnanifestac;oes musicais autenticas. Apos 0 termino da publicac;ao do periodico, em 1956, a crftica musical brasileira tinha conhecido um perfodo aureo, no qual os "folcloristas urbanos"67 reinaram 67 Cabe aqui um esclarecimento a respeito do termo "folcloristas urbanos". Academicos desinformados e ciosos de defenderern 0 status quo dos estudos sobre rnusica popular brasileira reputam a Enor Paiano (1994) a criac;ao do terrno. Ignorarn, no entanto, que ele ja rondava as linguagens nativas dos envolvidos corn crfti'ca rnusi,cal desde rnuito antes. 0 crftico Eurico Nogueira Fran~a, por exernplo, empregou algo corn urn sentido rnuito parecido na descric;:ao de Alrnirante na decada de 1950: Musica e ciencias sociais para diagrama~ao
125
praticamente absolutos ern suas assen;:5es e a<;:5es 68 • A funda<;:ao enquadramento foi proporcional matura<;:ao e difusao das no<;:5es e
outras consideradas meros "fantoches comerciais" dos meios gua rda , . odu<;:ao que se desenvo Ivlam; am b as · nva I·Izan d 0 pe Ia" rea I" exde repr I ' . ~ do elemento popu ar na muslca. pressao
a
debates ja desenvolvidos por personagens como Villa-Lobos, Mario de drade, Vagalurne, Orestes Barbosa - de quem chegou a ser longo trecho de seu livro Samba ... na RMP (BARBOSA, 2006, p. 82-84)_ Anirnal etc. A alguns dos mais antigos, alias, foi permitido alcanc;:ar ess~ perfodo e se expressar no papel de "testernunha ocular" na RMP, caSas de Ary Barroso e Almirante - personagens que nao perderam tempo ern apregoar 0 que e como as coisas eram no "principio", e como deviam ser
4 Ea luta
rec~udesce
-
institucionaliza~ao
da bibliografia
agora e sempre, pois assentados na autoridade de partfcipes organico, da "genese" que eles proprios demarcavam. Tanto a inaugurac;:ao de urn modo reverencial e praticamente religioso no trato com os considerados irnaculados do passado musical, quanto a pratica da "redescoberta" daqueles compositores, cantores e musicistas de outrora que andavam "esquecidos", representaram outro legado dessa publicac;:ao deu continuidade.
a crftica que Ihe
o ambito de atuac;:ao desses engajados forjou, a partir da decada de 1960, novo nucleo de seguidores e aprendizes reivindicando a inserc;:ao na tradi<;:ao. Vide declara<;:ao de urn dos mais destacados ativistas, atuante a partir da decada de 1970, Herminio Bello de Car-
Inicia-se a decada de 1960 com a complexifica<;:ao de todo 0 , ·0 musical brasileiro. Uma intelectualiza<;:ao crescente do publico cenan II d das emergentes "musicas populares de bom gosto agrega . te ouvm . as torno de uma nova sigla que surgia, a de MPB, pade ser entrevista, em , d· d e colaborou para 0 alargamento do numero e Interessa os nas o qu ,. . discuss6es instaladas (NAPOLITANO, 2007). Agudos em bates estetico-I-
deolog icos eram travados pela primeira vez por meio de novos persoens que aproveitavam os espac;:os que se abriarn em pleno procesna g .1. ode ebuli<;:ao social e a decorrente instaurac;:ao de ditadura ml Itar em 5
1964. Tambem ali, de forma inedita,
0
samba e
0
h
"
~
.
c oro autenticos
II
ul-
viam-se combatidos nos pianos do discurso e das obras por movimen-
timo numero da citada revista: "A RMP foi uma bfblia para todos nos"
tos musicais diversos, candidatos a deter a aura da "autenticidade", a
(CARVALHO, 2007, p. 3). As atividades levadas a cabo pelos folcloristas
principiar pela bossa nova e seus ideologos, que em seu inicio - meados
valho, que se iniciara no terreno da crftica musical justamente no
urbanos dos 1950 foram ainda ampliadas e resguardadas com afinco no ambiente hostil que se arrnava contra a manutenc;:ao das "puras
dos anos 1959-1960 - propugnavam pelo abandono dos "antiquados" formatos musicais. Chamavam pejorativamente 0 samba abra<;:ado por
tradic;:5es" em razao do surgimento de diversas manifestac;:5es musi-
Almirante, Lucio Rangel e a critica estabelecida de "samba quadrado"
cais populares concorrentes, algumas instituidas corn 0 carater de van-
(lis BOA, 2003).
Enesse
rnomento de tensao e redefinic;:5es que novos
herdeiros da tradic;:ao do samba e do choro sinalizavam sua entrada em "Representa Alrnirante urna nova especie de folclorista [ ... ]" (apud CABRAL, 2005, p. 217). Outras querelas risiveis e rnenores acerca da "real autoria" de terrnos como esses preenchern as rnentes de rnuitos dos que tentarn se ernbrenhar nos estudos sobre rnusica popUlar, confirrnando a referida ausencia de contrale rnetodol6gico e a rela~ao de prorniscuidade cientifica entre a bibliografia nativa e a acadernica, justificando, adernais, a valia deste artigo. 68 Vale lernbrar que Alrnirante e Rangel iniciararn a prorno~ao de espetaculos denorninados por eles de "Velha Guarda" da rnusica brasileira. Alrnirante tarnbern passava a proferir palestras ern universidades Brasil afora acerca de sua versao da hist6ria da rnusica popular, feito relevante e pioneiro, dado que nao havia, ate entao, elos institucionais que vinculassern 0 terna aacadernia (FERNANDES, 2010; CABRAL, 2005).
126
Drnitri Cerboncini Fernandes & Carlos sandroni (Orgs.)
cena, entrada de peso, por sinal. Possuidores de amplos contatos nos meios de comunica<;:ao que se diversificavam, como ainda do inedito acesso
a esfera governa-
mental, tais personagens cultivavam rela<;:6es afetuosas e de reverencia tanto com os artistas do passado, quanto corn os crfticos da segunda gerac;:ao. Presentes na produc;:ao de espetaculos, discos, programas de radio e TV, na organizac;:ao de festivais musicais, na esc rita de artigos para jornais e revistas, de livros memorialisticos e biograficos e no fomento politico institucional para que 0 cultivo
a memoria dos sambis-
Muska e ciencias sociais para diagrarna~ao
127
tas e choroes Ifverdadeiros" se perpetuasse, esse grupo constituinte do que se pode denorninar urna terceira gera~ao de crfticos-arnantes do samba e do choro contribuiram decisivamente para que as Ifverdades" contidas nos livros dos prirneiros cronistas, adicionadas das asser~oes dos crfticos coligados a RMP, fossern trazidas aos nossos dias. Mas, nesse interirn, no dominic especffico da legisla~ao nativa da musica popular urbana 0 que talvez de rnais relevante e inusitado tenha ocorrido foi 0 apoio oficial conquistado pelos guardiaes da Ifboa" cultura popular. E foi justarnente no bojo de governantes pertencentes ao espectro da direita que, contraditoriamente, os criticos da terceira gera~ao, nacionalistas, quase todos corn pendores comunistas, quando nao organicos do IfPartidao", puderam per ern marcha as mais importantes a~oes visando a produ~ao regular de memorias, estudos variados e biografias. A institui~ao governarnental MIS, por exemplo, Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, fundada em 1964, no governo de Carlos Lacerda - apoiador de primeira hora do golpe rnilitar -, agregou de forma oficial quase todos os antigos colaboradores da RMP. Dentre esses, res-
Das rarissimas entrevistas dirigidas efetuadas pelo MIS que erminaram editadas em livro, uma revela-se de suma importancia ao :stabelecimento dos parametros circundantes da crenica e, posteriormente, do debate academico, 0 As vozes desossombrodos do Museu, de 1970 (FERNANDES, 1970). Trata-·se de conjunto de entrevistas de Pixinguinha, Joao da Baiana e Donga, presumidos pioneiros do samba e do choro, onde eles ratificam, na categoria de testernunhas ocularvos , as Ifverdades" estabelecidas em rela~ao as Iforigens" territoriais e musicais do sarnba. A casa de Tia Ciata e a regiao central do Rio de Janeiro, mais exatamente a charnada Cidade Nova, por exemplo, foram confirmadas nessa publica~ao como 0 Ifber~o" do sarnba por aqueles que estiveram la. Outras asser~oes que foram incorporadas sem mais por diversos trabalhos academicos no rol de verdades absolutas, caso da tese dos biornbos culturais 69 revelada por Pixinguinha, tiveram sua nascenc;:a nessa publica~ao. Conselho Superior da Musica Popular reunia, ademais, os
o
jovens mais bern-dotados intelectualmente e em termos de inserc;:ao
saltem-se 0 crftico Ary Vasconcellos, continuador das crenicas normativas e convencionais sobre os generos Ifautenticos", Jota Efege, presumido
nas institui~oes culturais que se adensavarn; tratava-se de preparados escritores, agitadores culturais, biografos, descobridores de talentos e cronistas prontos para, de fato, nao so dar continuidade a tradic;:ao
decano dos cronistas, Eneida, autora da prirneira obra sobre historia das escolas de samba e componente organica do Partido Comunista Brasilei-
inaugurada por Vagalurne, Barbosa e Animal, mas tambem para alarga-Ia em ambitos jamais imaginados - falo de nomes corno os de Ri-
ro, 0 ultraortodoxo bandolinista Jacob do Bandolim e, inclusive, Alrnirante e Lucio Rangel, al~ados a mernbros do tambem recem-criado Conselho
cardo Cravo Albin, que chegou a presidencia do MIS, Sergio Cabral, reputado maior biografo do samba e do choro, Herminio Bello de Car-
Superior de Musica Popular, orgao do MIS com pretensoes de distribuir cornendas aos que mais se destacassem no terreno da musica popular
valho e Jose Ramos Tinhorao. Dentre esses, qui~a 0 que rnais tenha se destacado em razao de desenvolver uma obra coerente, numerosa e
(DIAS, 2000; FERNANDES, 2010). Tambern fazia parte das atribui~oes do orgao definir uma mernoria legitima por rneio da sele~ao daqueles que concederiam entrevistas para a posteridade, uma sabatina em que 0 hornenageado registrava ern fita cassete as glorias alcan~adas e dificuldades atravessadas na vida. A parte de rnusica popular do acervo ffsico do museu, alias, era constituida pelos objetos e documentos colecionados por Almirante, arnicfssimo do governador Carlos Lacerda e, a frente, pelos pertences de Lucio Rangel, Jacob do Bandolirn e outros mais, dernonstrando que um real processo de Ifrnuseifica~ao" estatal se punha em marcha naquele instante englobando as formas rnusicais eleitas pelo grupo em questao (CABRAL, 2005).
128 Dmitri Cerboncini Fernandes & Carlos Sandroni (Orgs.)
69 Trata-se de relato nativo tornado tese por autores como Muniz Sodre (1979) e Jose Miguel Wisnik (1983). Consiste em afirmar que na casa de Tia Ciata, na decada de 1910, havia uma divisao entre os musicos da sala da frente, que executavam can~6es mais "melodicas" - como 0 chor~ - para nao chamar a aten~ao de policiais que porventura passassem por perto, ao passo que nos quintais dava-se vazao as can~6es mais percussivas, proibidas por lei, pois aproximadas aos preenchirnentos rftmicos de rituais de ascendencia afro-brasileira. Os auto res citados eleva ram esse relato ao grau de metafora da propria sociedade brasileira, como as palavras de 50dre traduzem: "Metafora viva das posi~6es de resistencia adotadas pela comunidade negra, a casa continha os elementos ideologicamente necessarios ao contato com a sociedade global: 'responsabilidade pequeno-burguesa dos donos [... J; os bailes na frente da casa, os sarnbas [".J nos fundos'" (SOORE, 1979, p. 20). Musica e ciencias sociais para diagrama~ao 129
substantiva foi Jose Ramos Tinhorao (LORENZOTTI, 2010). Bacharel Direito e em Jornalismo na Universidade do Brasil que decidiu se aven_ turar nos cadernos de cultma dos jornais e revistas da decada de esse critico de vasta forrna<;ao intelectual iniciou polernicas agu
ncial analftico por excelencia desse dominio. A combatividade de
refere .. . texto s, no malS, encalxava-se como uma luva ern um rnelo acosus se do a se ver encurralado pela representa<;ao - d e f or<;:as cornefCIalS .. a turn fi . d d" ~ . rontas a desa ar 0 rema 0 0 autentlCO. II
contra as manifesta<;oes musicais que considerava "alienadas" ou "entreguistas", casas da bossa nova e dos movirnentos tropicalista e jovern
P
guarda. Ernbasado no rnaterialismo dialetico, Tinhorao criou efetiva_
ta
mente e de modo inedito uma especie de escola de analise historica da musica popular, embora ele nao pertencesse as fileiras da academia. defesa dos ritmos rnusicais IIpuros" e autenticamente brasileiros parque pertencentes as classes dorninadas e constante na volumosa obra do jornalista-historiador. 0 samba e 0 choro lIautenticos", nesse sentido, expressam 0 ideal de arte popular, pois provem dos inferiorizados pelas maze las do capitalismo brasileiro, leiam-se negros, mesti<;os e pobres - os "legitimos" produtores culturais, aqueles que nao sofrido as lIinfluencias deleterias" do internacionalismo burgues que marcava a c1asse dorninante e suas expressoes artfsticas. Eis os laivos
Avanc,:ando a decada de 1970, visualizam-se as primeiras ten-
tivas de fomento governarnental e de institucionaliza<;ao dos escri. 'd toS nativos. Enquanto Tinhorao e os antecessores tin h am amlu e que essoalrnente com os custos de suas proprias obras, a frente a arc ar P , situac,:ao come<;aria a se tornar diversa. Figuras como 0 faz-tudo Herml. Bello de Carvalho, jovem revela<;ao partfcipe do Conselho Nacional mo de Musica e que atuava como poeta, produtor musical, diretor e autor teatral- foi 0 responsavel pelo exitoso espetaculo
Rosa de ouro, assirn
como pela organiza<;ao artfstica do renomado bar Zicartola -, compositor e, nas horas vagas, cronista e descobridor de talentos - descobriu Clernentina de Jesus, por exemplo -, promoveriam verdadeira revoluc,:ao no que tange ao incentivo a produ<;ao bibliografica nativa. Em
rebarbativos do folclorismo em sua obra. Notem-se como os uses de
razao dos inurneros exitos auferidos a epoca, Herminio foi charnado
instrumentos c1assistas para a apreensao da realidade tornam-se, de outra parte, explfcitos:
pela Funarte - Funda<;ao Nacional de Artes, instituic,:ao vinculada ao entao Ministerio da Educa<;ao e Cultura - para nacionalizar seus projetos. Na area de polftica cultural, a ditadura valia-se, nesse interim, de
o
interessante a observar e que, enquanto 0 publico da nova classe media emergente da fase de transic;:ao da economia pre-industrial, manufatureira, para a da moderna industria, se deixava arrear corn as novidades importa" das, as carnadas populares urbanas rnais baixas viviam, no mesmo perfodo historico, um dinamico processo de riqueza criativa [ ... ] (TINHORAO, 2004, p. 263).
notarios opositores ao regime, adotando uma op<;ao aparentemente esquizofrenica. Marcos Napolitano, no entanto, ex plica a racionalidade da soluc,:ao encontrada, 11[ ... ] 0 rnecenato cultural era urn importante dispositiv~ do governo para tentar cooptar opositores e mante-Ios sob
controle, mesmo perrnitindo urna certa liberdade de expressao em suas
obras" (NAPOLITANO, 2004, p. 103). Alem do mais, apos perder
apoio junto a setores medios da popula<;ao, as militares tencionavarn Embora seus instrumentos analfticos sejarn questionaveis
sua reconquista eo melhoramento de sua irnagem via a aposta na cul-
na atualidade, sobretudo no universe academico, dado que Tinhorao
tura popular. E ninguern rnelhor do que Herminio para tocar esse barco
apoia-se ern um esquema ern que as classes sociais ou 0 pertencimen-
(STROUD,
to a elas figurarn como realidades explicativas de toda e qualquer expressao artfstica, sua obra consiste na primeira tentativa de apreen-
2008).
o diretor
der 0 conjunto de transforrna<;oes de longo prazo ocorrido na musica popular urbana brasileira. Toda e qualquer investida nativa sobre a
de politica cultural da Funarte, a partir de 1977, criou diversos prograrnas estatais de fomento, todos eles baseados nos ideais estritos do que ele entendia por cultura: 11[ ••. ] a cultura e materia de seguran<;a nacional e sua defesa deveria mobilizar a opiniao publica
musica popular brasileira, a partir de entao, passou a se pautar achados socio-historicos de Tinhorao, tornando 0 jornalista, assim, 0
e a c1asse polftica" (CARVALHO, 2006, p. 195). Ern resumo, tratava-se da luta contra "[ ... ] a processo de imbeciliza<;ao [ ... J" (CARVALHO, 2006,
130 Dmitri Cerboncini Fernandes & Carlos Sandroni (Orgs.)
Musica e ciencias sociais para diagrama~ao
131
a
p. 194), "[ ... ] esse festival de transgressoes ao born gosto, origi dade [ .. .]" (CARVALHO, 2006, p. 197). E assim, interven~oes do cali do famoso Projeto Pixinguinha, de exibi~oes subvencionadas de a tas "autenticos" pais afora, tornaram-se a mola mestra de atua~ao Funarte, irradiando 0 "born gosto" e a originalidade selecionada Herminio e sua trupe para todo 0 pais. De todas as a~oes no ambito intelectual visando perp da memoria dos artistas selecionados, a mais relevante talvez nha sido 0 projeto que ganhou 0 nome do "padrinho" Lucio Ra Herminio promoveu concursos de monografia biografica sobre i
a
~ao
pretes do samba e do choro "autenticos". 0 Premio LUcio Rangel de Monografias publicava 0 texto vencedor, alem de pagar ao autor uma soma razoavel em dinheiro. 0 juri era formado por figuras conhecidas do mencionado Conselho Superior do MIS, caso do proprio LUcio gel. Foram lan~adas no ambito do referido premio cerca de vinte biografias ineditas ao longo dos anos 1970-80 de importancia impar para a conforma~ao do panteao da musica popular urbana. Ai restava claro quem dos artistas era digno de se eternizar na memoria nacional e ern futuros estudos academicos 7o • A maioria dos sambistas e choroes retratados era formada por aqueles que foram tema de materia da RMP e alvo, se ainda vivos, das a~oes de "redescoberta" efetuadas pelos egressos do Conselho do MIS, findo em 1971 pelo proprio governo mi. litar, que 0 considerou "antro de comunistas"71. Ao encontro dos pia. nos do Projeto Lucio Rangel, a Funarte, reeditou, em 1978, obras esgo. tadas consideradas "essenciais" historia da musica popular, como os
a
ja mencionados livros dos cronistas pioneiros Vagalume, Orestes Barbosa e Animal- e aqui se torna explicita a vincula~ao do projeto com 0 tipo especffico de memoria da musica popular trabalhado neste artigo. Veteranos do Conselho do MIS viam ainda suas obras reimpressas pela Funarte, caso de Mariza Lira e sua biografia sobre Chiquinha Gonzaga escrita ern 1938 e dos livros de cr6nicas e memorias de Jota Efege.
70 Dentre as biografias fomentadas pelo concurso destacam-se as de Adoniran Barbosa, Aracy Cortes, Candeia, Carlos Cacha~a, Cartola, Custodio Mesquita, Garoto, Geraldo Pereira, Ismael Silva, Jacob do Bandolim, Orlando Silva, Pixinguinha, Patapio Silva, Paulo da Portela, Radames Gnattali, Sinha, Wilson Batista, entre outros. 71 De acordo com Ricardo Cravo Albin em entrevista concedida ao autor em 17 de julho de 2009.
132 Dmitri Cerboncini Fernandes & Carlos Sandroni (Orgs.)
A f orn ada de produ~oes promovida pela Funarte .dava I' a_anti'ntelectuais nativos a oportunidade da especla Iza~ao na e novos I . . ,. b I _ goS da tradi~ao por escrito. 0 Jornalista Sergio Ca ra, por exem de Herminio em sua empreitada na Funarte, tornou-se . . I aJudante po,.' rafo mals . pro dutivo nesse segmento, traduzmdo as VlvenClas, as o blog . monas sen tl'mentais , os detalhes exclusivos e os documentos f . ame-
defes~
A
•
me reIhados ao I0 ngo da traJ'etoria de estreito contato com os uturos . , . a em livros transbordantes de relatos emocionados e mmuclas dificilmente um pesquisador "objetivo" chegaria a talS q h u de cara 0 prirneiro concurso, dissertando sobre a Vida Cabral gan 0 . 'fi b . . ' . h A titulo de exemplo do tom haglogra co que reco de Dlxmgum a. C bnaI . du~oes de "arnigos para arnigos", eis a parte em que a ra essas apro narra mort e de Pixinguinha , que se deu durante 0 carnaval de 1973,
tr~tad~:
escre~er.
dentro de uma igreja em Ipanema: Pixinguinha - disse ele [cabo da Polfcia Militar que tentava organizar a multidao avida por ver 0 c~rp~, segundo Cabral] aos tristes foliDes - morreu dentro da IgreJa, um dos lugares mais bonitos da face da terra. Morreu como Cristo. Sabem por que? Porque, como Jesus, quando ele fechou os olhos, a chuva come~ou a cair (CABRAL, 1997, p. 206).
Em seguida, 0 jornalista laureado, que ja havia escrito urna historia das escolas de samba do Rio de Janeiro, embrenh~u-se pelas vidas de Almirante, Elizeth Cardoso, Ari Barroso, Nara Leao, Torn. Jobim Ataulfo Alves etc., dando margens para que jovens persegUldores da manuten<;:ao da corno Marilia Trindade Artur de Oliveira Filho e Joao Batista de Medeiros Vargens, aproveltassem a
tradi~ao,
Barb~za,
dinamica da "descoberta" de novos biografos post~ em. ~~rcha pelo concurso. Os tres autores citados, professores unlversltanos de estabelecimentos de ensino de renome, tarnbem constituir~m ~x~e~sa obra nos mesmos moldes, alem de galgarem posi~oes em mstltUl~oes como 0 MIS-RJ - Marilia Trindade Barboza chegou presidencia do museu ao final dos anos 1990. Tratava-se aqui dos rebentos de uma - de classe rnedla , . ur b ana que assum 'Ia firmemente .. um lado da gera<;:ao
a
disputa ideologica levada a termo no regirne da ditadura milltar: 0 lade do "povo", quer dizer, das produ~oes culturais "aute~ticas", ".artes.anais", "comunitarias", em detrimento das "aliena~oes mternaclonalisMusica e ciencias socia is para diagrama~ao
133
tas" apoiadas, em tese, pelo regime (NAPOLITANO, 2001). A escrita datoria e sentimental pontilhada de elogios incondicionais e des rados perrnanecia como mote central dos trabalhos que compuse Cartola, Candeia, Paulo da Portela, Carlos Cacha<;:a, Luperce Miran
Sibliografia de apoio
Velha Guarda da Portela e outros "autenticos" foram retratados
n~v~s biografos, amigos e cultores dos biografados - ao melhor estj Sergio .C~br~l, Vagalu~1e e Animal. ~ sabedoria inata, a espontaneida_ de, a v~vencla verdadelra - ao contrario dos pudores pequeno-burgue.. ses - sao elementos ressaltados em passagem da biografia de Cart I 't M' . Oa esCri a por _ ama Tnndade Barboza, em que extern a idilicamente as transforma<;:oes que ela, branca e intelectual da Zona Sui carioca
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Para conviver ali, redesenhei minha estetica imposta pel ~ pa d roes europeus de educa~ao academica. Ate minha etica se ~Iterou ur~ pouco: fiquei menos rfgida, mais so Ita, menos radical. [ ... ] VIVO entre dois mundos: 0 meu e 0 deles que' ' , e meu tam b em [ ... ]. Mas esse mundo me deu Paulo da Portela ~e deu Silas de Oliveira e, sobretudo, me deu Cartola. Ser bi~ ografa desses tres Oliveiras do samba [ ... ] e um dos maiores orgulhos da minha vida. Sou uma brasileira melhor por causa deles, conhe~o a cor, 0 cheiro e 0 som do meu povo. E adoro que seja assim [ ... ] (SILVA; OLIVEIRA FILHO, 2003, p. XII e XIV).
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I
freu ao conviver com seus idolatrados dos morros e suburbios:
E aqui
0 movimento estrutural que busquei trac;ar no artigo
chega a seu termo: ao se identificarem de forma imediata com 0 construto carioca-nacional-popular gestado ao longo de decadas e, mais do que isso, ao situarem-no nos mais altos postos institucionais governamentais de difusao cultural, esses ultimos personagens, extremamente dotados em terrnos socia is para tanto, cumpriam com louvor a missao iniciada pelos seus antecessores rnais humildes. 0 passado, 0 presente eo futuro do samba, do choro e de seus personagens ganhavarn uma versao definitiva, fruto de uma tradi<;:ao que se empenhou em sobreviver por decadas a fio amoldando-se as conjunturas diversas, agregando subsidios te6ricos, conquistando, por fim, uma posi<;:ao simb6lica peculiar: no meio-fio entre 0 diletantismo e a academia, a Historia e a memoria. Cumpre aos academicos, e nao aos nativos, objetivarem tal posic;ao, no intuito de nao serem tragados de modo insciente por ela.
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Uma aplica~ao de metodos quantitativos para "musica e Ciencias Sociais": redes e estilos no jazz Charles Kischbaum
1 Metodos quanti, para alem das apologias
Durante 0 I sirnp6sio Internacional Musica e Ciencias Socia is, realizado ern Juiz de Fora, em 2013, apresentei as hip6teses centra is e os principais resultados associados
a rninha
pesquisa relacionada
a
evolu~ao de redes e estilos no jazz (KIRSCHBAUM, no prelo). Durante a
discussao ficou claro para mirn que a interlocu~ao se centrava principal mente ao redor dos pressupostos metodol6gicos. Especificamente, em se tratando de um artigo fortemente baseado ern rnetodos quantitativos, cabe a discussao sobre 0 seu papel e sua legitimidade dentro da tradi~ao ja consolidada de estudos historiograficos e qualitativos na academia brasileira. Consideremos como valida a tese de que os estudos quantitativos na sociologia devam ser restritos a urn conjunto lirnitado de problemas e questoes. Por exernplo, estudos quantitativos podem ser lJteis na descri~ao do grau de desigualdade de urna sociedade, mas teriam pouca ou nenhuma utilidade para fornecer chaves para interpretar 0 senti do da a~ao de atores sociais, ou mesmo para orientar a a~ao cotidiana.
E nesse
sentido que cientistas socia is adeptos de estudos
quali colocam-se, na rnelhor das hip6teses, em uma posi~ao na qual os estudos quanti sao irrelevantes (COLLINS, 1981; COULON, 1995). Tentativas de quantificar a cultura levam a pesquisas frageis e pontilhadas de apologias (BIERNACKI, 2012). Varias interven~oes sugeriram posi~oes interrnediarias. Um posslvel argurnento ronda a ideia de que, com urn nurnero grande de casos, apenas a redu~ao e a representa~ao desses a variaveis nos levariam
138 Dmitri Cerboncini Fernandes & Carlos Sandroni (Orgs.)
a possibilidade de compara-Ios, evitando um "transbordamento Musica e ciencias sociais para diagramac;ao 139