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A fenomenologia da Cornitude: Lupicínio Rodrigues...

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A Fenomenologia da Cornitude: Lupicínio Rodrigues… … (e não me esquece do Alcides Gonçalves!) Quarto entre polifônicos 21 irmãos, o menino nasceu em 16 de setembro, no número 97 da Travessa Batista, bairro da Ilhota, Porto Alegre, sob o signo de virgem. Corria o ano de 1914. O nome Lupiscínio (com sc) foi ideia do pai, homenagem a um general que teria sido dos primeiros heróis da também nascente Primeira Guerra Mundial. Isso é o que dizem as biografias oficiais de Lupicínio Oliveira Rodrigues. Mas, fala a verdade: alguém aí sabe quem é esse Lupiscínio herói de guerra? Dúvidas chovem às pencas com relação ao que é verdade o que é lenda na vida do nosso personagem. Aqui não é diferente. Também – dizem – chovia a cântaros no dia em que ele veio ao mundo. Coincidentemente – ou não –, 60 anos depois, choveria no dia de sua morte. Mas em 16 de setembro de 1914, pra não fugir à sua sina, a Ilhota estava inundada: a hoje extinta quase-ilha era formada pelas voltas de um arroio com justiça batizado de… Dilúvio (hoje canalizado em linha reta). A parteira teve de ser trazida de barco para atender Dona Abigail.

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Bairro da Ilhota, década de 1930 Habitada basicamente por negros e mulatos descendentes de escravos, a Ilhota era um bairro festeiro, num perfil muito semelhante, na época, ao da Cidade Baixa e da Colônia Africana (situada onde são hoje o Bom Fim e o Rio Branco). Hoje próximas, eram então arrabaldes da cidade. E, como já vimos, nesse momento, a exemplo do Rio de Janeiro, os pobres vinham sendo empurrados do Centro sob o pretexto de uma reforma urbana. A Cidade Baixa e a Ilhota, em particular, eram conhecidas no início do século XX como O Reduto dos Seresteiros – e é curioso constatar que, 100 anos depois, a mesma zona retomaria a predileção da juventude boêmia da cidade. O que os boêmios e seresteiros de então tocavam é um tema e tanto. A se confiar nas centenas de discos gravados na capital na década de 1910 (pela Casa A Electrica e pela Casa Hartlieb), o pessoal ia de polca, choro, valsas e modinhas. Sambas, maxixes ou batucadas eram raríssimos (mas há que se fazer a ressalva de que ninguém dessa cena periférica e negra foi chamado pra essas gravações).

Esse era o traçado do riacho, antes de canalizarem e acabarem com a Ilhota. O traçado reto é como ficou O que se sabe é que, um ano antes do nascimento de Lupicínio, a dupla gaúcha Os Geraldos já havia levado ao disco alguns sambas. Mas eles moravam então no Rio, e podem ter aprendido o gênero lá. Ou seja: não há como saber se já se fazia samba na Porto Alegre de 1914.

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Mas das formações instrumentais sim, se sabe: violões e cavaquinhos. Instrumentos tocados por vários membros da família Rodrigues: pai, tios, tias, todo mundo cantava ou tocava. Eram os anos em que nomes como Radamés Gnattali e Dante Santoro começavam a despontar no cenário local. Anos em que quem mandava no pedaço era o compositor, professor, carnavalesco, teatrólogo e multi-instrumentista Octavio Dutra. Todo um pessoal “de bem” – não necessariamente endinheirado, mas que orbitava num cenário muito distante do cotidiano dos Rodrigues. Se alguém ali naquela cena quase presépica dissesse que o recém-nascido daria pra música, teria a concordância geral: todos ali davam. Mas certamente provocaria risos e olhares de estranheza quem sonhasse profetizar que, dali a 40 anos, esse menino pobre e negro seria apontado como um dos nomes mais significativos da história da música brasileira. *

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Um compositor com conceito e estética muito peculiares. *

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Noel Rosa, Orestes Barbosa e Chico Buarque escreveram brilhantes canções sobre o descorno. Mas ninguém soube expressar como Lupicínio a mais acachapante e abjeta cornitude. Cartola e Nelson Cavaquinho foram mestres do samba-canção. Mas nenhum misturou tão bem o gênero a elementos musicais e poéticos do bolero e do tango. Aldir Blanc soube cantar o band-aid no calcanhar ou a surra dada na mulher por causa da frustração de um gol anulado. Sem medo do grotesco. Mas nem ele teria a coragem de escrever um depoimento tão bizarro quanto o de Sozinha: - Vivia sozinha num ranchinho velho feito de sopapo. Seu rádio de noite era um canto de sapo, sua cama uma esteira estendida no chão, sua refeição era um bocado de charque e farinha e nem pra comer a coitada não tinha sequer um café, um pedaço de pão.

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Levei pro meu sítio, troquei por cetim os seus trapos de chita, e só pra marvada se ver mais bonita pus luz em seu quarto em vez de candeeiro. E, só por dinheiro, sabe o que fez essa ingrata mulher? Fugiu. …com o doutor que eu mesmo chamei e paguei pra curar os seus bicho-de-pé. (A canção poderia terminar aí e já seria um chute na testa. Mas, como bem notou Tárik de Souza em O Som Nosso da Cada Dia, Lupicínio ainda arma uma jogada de mestre para arrematar a narrativa: troca o narrador e se coloca na pele de um novo personagem, aquele que escuta o depoimento. E, como cereja do bolo, ainda arremata a estória com uma rima interna de rara felicidade): Assim me falou um pobre matuto, coitado. Chorando em seu desespero foi me ensinando que, em todo lugar, mulher sempre é mulher: se pede uma flor e a gente lhe dá, ela exige uma estrela. E se, por acaso, ela não obtê-la… …se vai com o primeiro homem que lhe der. *

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Desde cedo o menino ajudou em casa. Vendia pastéis e balas, fazia uns bicos como moleque de recados (“mandalete”, o boy da época) e chegou até a uma fábrica de parafusos. Ainda assim, contava, teve uma infância feliz: por ser o primeiro filho homem, me criei como a criança mais mimada da família. Dona Bêga lavava pra fora e Seu Francisco trabalhava na portaria da Escola de Comércio. O pai de Lupicínio crescera como agregado do desembargador André da Rocha, que não só lhe pagou os estudos como ainda conseguiu-lhe esse emprego (há quem insinue que a relação de Francisco com André teria laços sanguíneos). Por isso, ao contrário do que acontecia com a maioria de seus vizinhos, Lupi estudou em bons colégios. Além disso, moravam numa casa simples, mas bem grande – afinal, tinha de caber 21 rebentos! –, com um galpão e uma imensa parreira no fundo do quintal.

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Aos 12 anos, sempre distraído, completou o primário fazendo música e jogando bola. Preocupado, o pai o matricula num curso profissionalizante de mecânico da Escola Parobé, de onde sai pra estagiar como aprendiz nas oficinas de bondes da hoje centenária empresa de transporte Carris. O problema é que, a se acreditar nos depoimentos de contemporâneos, aos 13 anos ele já era bom de bola, de copo, de samba, de mulher e de boemia. E já cantava. Numa bandinha fuleira, apelidada Banda Furiosa, que no carnaval mudava de nome para Bloco do Moleza (anos depois, diria: acho que é por isso que até hoje eu canto tão mal). Detalhe: o grupo era formado por músicos que tinham, todos, pelo menos 20 anos a mais que ele. Perto de mais uma festa de Momo, o bloco decide que precisa de uma música-tema. E lá vai estrear, aos 13 anos, o compositor Lupicínio Rodrigues. A marchinha se chama, ora veja, Carnaval. E estamos em 1927, quando a festa da Ilhota era referência de animação e participação, bem diferente do espetáculo contido apresentado no centro da cidade. Logo seus dotes vocais se mostram nem tão limitados assim, e o recém-adolescente é contratado como crooner do Conjunto Catão, bem mais prestigiado que a Furiosa. Foi aí que o pai sentiu que a coisa era séria. Sua primeira e desesperada medida para tirá-lo dessa vida – antes que fosse tarde – foi alterar sua data de nascimento. De 15, Lupicínio pulou para 18 anos, sendo imediatamente enfiado como “voluntário” no 7° Batalhão de Caçadores do Exército. A partir daí começa uma grande confusão entre os que se dispuseram a contar sua vida – incluindo o próprio Lupi e seu biógrafo oficial, Demosthenes Gonzalez. Todos discordam em vários pontos com relação aos próximos cinco anos. Mas tentemos montar um quebra-cabeça de datas e fatos. Juntando as peças e eliminando algumas contradições, é bem possível que a ordem dos acontecimentos seja a que vem a seguir. *

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O primeiro ato abre em 1932, com o rapazote, vestido de soldado raso, assistindo maravilhado a um show dos Azes do Samba, no Cine Theatro Imperial. Com ele, um amigão catarinense, colega de quartel, chamado Reinoldo Corrêa de Oliveira – o futuro Nuno Roland que, anos mais tarde, faria fama como cantor no Rio de Janeiro. 5


Os tais Azes eram ninguém menos que Noel Rosa, Francisco Alves, Mário Reis, o pianista Nonô e o bandolinista gaúcho Pery Cunha, reunidos especialmente para essa excursão ao Sul. Mesmo já decididos a seguir carreira na música, Lupi e Nuno não tem coragem de puxar conversa com os famosões depois do espetáculo.

Os Ases do Samba no navio Itaquera, rumo ao sul: Pery Cunha, Mário Reis, Francisco Alves, Noel Rosa e Nonô. O carinha de pé ninguém sabe quem é Mas o destino é um bicho curioso. Horas depois, a dupla está num boteco, fazendo música com os amigos. E aí quem entra porta adentro? Isso mesmo: os Azes do Samba. Acabam todos confraternizando, e Lupicínio canta algumas de suas canções. É quando um deles, só quatro anos mais velho mas infinitamente mais famoso e prestigiado, decreta: Esse garoto é bom, esse garoto vai longe! Nome do cara? Noel Rosa. Já tava de bom tamanho. Mas concordaram com ele, imediatamente, outras duas figuras que seriam importantíssimas para o mulatinho: Mário Reis, sua maior referência vocal (Lupi: eu imitava muito o Mário Reis). E Francisco Alves – que, décadas mais tarde, seria o responsável pelos seus primeiros grandes sucessos. *

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Intervalo para o segundo ato. *

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Contrariando o Fitzgerald. O segundo ato desta vida americana começa com o acachapante encontro de nosso protagonista com a santa-mariense Inah: o primeiro grande amor, musa inaugural de uma futura legião delas. Mas como é que um membro da mais fina estirpe boêmia portoalegrense foi parar na interiorana e recatada Santa Maria da Boca do Monte, a quase 300 quilômetros de distância?!?! Pois então.

Santa Maria, 1926. Notem o engarrafamento... de cavalos Ainda no quartel, o rapazote vencera a edição de 1933 do Concurso Oficial de Carnaval promovido pela prefeitura de Porto Alegre. Ganhara justamente com aquela primeira marchinha de que falamos: Carnaval, defendida pelo cordão carnavalesco Os Picaretas. Só que aí, no meio da comemoração, terça-feira gorda com o sol a pino, o já cabo Lupicínio passa na frente do quartel: bêbado, fantasiado, abraçado no amigo Nuno cantando A Jardineira(esse último detalhe é licença poética). Detalhe: estava, teoricamente, de serviço. Tomaram a pior punição possível: transferência para Santa Maria.

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Nuno Roland ainda bem jovem, mas em foto tirada já no Rio Tiro pela culatra: aos 18 anos, o soldadito descobre o amor. Amam-se loucamente, Lupicínio e Inah, na bucólica cidadezinha. Esfumaça a tela e passam-se rapidamente três anos: a família da moça não aguenta mais a boemia incorrigível do pretendente (sabe lá o que era ser boêmio na Santa Maria dos anos 1930). Pra piorar, Lupi ganha mais um concurso de carnaval, desta vez local, mas com a mesmamarchinha. E pior ainda: agora era o crooner do jazz do Batalhão. Aquilo não ia dar boa coisa. Os pais metem tanta pressão em Inah que a moça lhe intima a casar. Lupi, num ato de sensatez, diz que não. Ela, ofendidíssima, decide que vai casar, sim senhor! Com ele ou sem ele. E Inah casou-se. Com outro. Aí, debaixo do primeiro e espetacular descorno, Lupi dá baixa e decide voltar pra Capital. O ano era 1935, e a boemia porto-alegrense lhe recebe de braços e pernas abertos. Reencontra as saudosas companheiras da noite e os velhos amigos do Conjunto Catão, onde reassume, com aquele estilo de dizer o samba que lhe granjeia o apelido de “Mário Reis”. Ataca também no efêmero Jazz Silencioso, do maestro Décio Pereira, e o pai entra em surto: logo agora que o guri parecia endireitar! Pede socorro a André da Rocha, já então reitor da Universidade de Porto Alegre (futura UFRGS), que mais uma vez não lhe falta, arrumando um emprego mais do que moleza pro rapaz: bedel – algo entre inspetor e porteiro – da Faculdade de Direito. A ideia de Seu Francisco era que o filho repetisse sua sina: funcionário público da portaria de uma escola durante o dia e músico só nas horas vagas.

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Busto do André da Rocha que hoje mora no saguão da Faculdade de Direito da UFRGS, da qual foi fundador. Nascido no Rio Grande do Norte e formado pela escola de direito do Recife, o cara chegou ao estado em 1890, aos 30 anos, e morreu em Porto Alegre em 1942, depois de ter sido chefe de polícia, catedrático, procurador-geral e presidente do superior tribunal - além de grandão da maçonaria No começo, até deu certo. Com a canção Triste História ganha o primeiro prêmio de mais um concurso promovido pela Prefeitura – este pra comemorar 100 anos da Revolução Farroupilha. Junto, dois contos de réis! O samba, feito nas regras da arte dos anos 1930, é a primeira parceria com quem melhor o traduzirá ao longo da vida: o cantor, compositor, pianista e violonista Alcides Gonçalves, já uma estrela local (detalhe: o próprio Alcides confessaria, anos mais tarde, que nessa música Lupi fez tudo. Ele só cantou). No ano seguinte, mais uma vitória carnavalesca, num concurso da Rádio Gaúcha: a marcha Quando Eu For Bem Velhinho – que teve uma mãozinha de Octavio Dutra na harmonia –, foi interpretada pelo amigo Johnson e, quatro carnavais mais tarde, faria algum sucesso nacional na voz de Newton Teixeira. Em 1943, mais um fato curioso envolveria a imbatível Carnaval. Fato que diz muito da personalidade de seu autor, e lembrado por ele mesmo numa das crônicas escritas na década de 1960 para a edição gaúcha do jornal Última Hora: (Eu) fazia parte de uma comissão que julgava músicas carnavalescas, me apareceu novamente a marchinha, desta vez cantada pelo grupo Democratas e como sendo de autoria de

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outros dois compositores. Eu não falei nada aos outros membros da comissão e a música novamente venceu. Deixei os meninos receberem o prêmio e até convidei-os para tomarem uma cerveja comigo.

Sente a turma de Alcides em 1935, na inauguração da Rádio Farroupilha: Ele é do chão, à esquerda. A seu lado, o gordo Paulo Coelho. E aí quem? Carmen Miranda. Achou pouco? Na ponta direita, ao alto, cara de poucos amigos, Lord Mário Reis. E atrás de Carmen, com cara de "filma eu, tio!", Marino dos Santos. Os outros são também integrantes da orquestra de Paulo Distraídos, chegamos a 1936. E então o primeiro grande momento: o parceiro Alcides grava pela poderosa RCA Victor um 78rpm só com músicas da dupla. De um lado,Triste História . Do outro, Pergunta a Meus Tamancos. Não foi lá um estouro, ficou entre os 100 discos mais tocados do ano (Pergunta em 64º lugar e Triste em 78º). Além disso, era um disco!!! Isso, numa época em que quase nenhum gaúcho tinha acesso ao mundo das gravações – a pioneira Casa A Electrica tinha fechado há mais de uma década e, para lançar um bolachão, só saindo do Estado, e a convite. O curioso é que Lupicínio tinha então apenas 22 anos mas já soava como um compositor maduro. Se essas duas primeiras canções são ainda bastante ligadas à tradição do samba, pelo menos três das maiores pepitas do seu tesouro já estavam então compostas, esperando uma chance de serem levadas ao disco: Nervos de Aço, Zé 10


Ponte e (Xote da) Felicidade. Todas feitas lá pelos seus 18 anos, todas para Inah. *

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Alcides Gonçalves nasceu no dia 1º de outubro de 1908. Em Pelotas (243 km ao sul de Porto Alegre) e, como bem lembra seu biógrafo Marcello Campos, no mesmíssimo dia em que foi lançado o Ford T, o primeiro automóvel efetivamente popular. A família se muda pra capital gaúcha quando ele tinha apenas nove anos, em 1917. Dez anos depois, o cara era um profissional, estreando em grande estilo: acompanhado pelo jovem prodígio do piano Paulo Coelho, com quem seguiria até a morte de Paulo. Juntos, eram estrelas reluzindo nas melhores casas com música da cidade, como o chiquérrimo Café Colombo ou o Bar Americano. Em 1935, quando começa a parceria de verdade com Lupi (e direto com a vencedora Pergunte aos Meus Tamancos) andava na casa dos 27 anos – o parceiro tinha 21. Alcides não só era mais velho como também muito mais experiente: já tinha feito de tudo, até tocar em navio junto com seu irmão Antoninho Gonçalves em troca de cama, comida e gorjetas. E, ao contrário de Lupicínio, era um nome de sucesso, recém contratado pela estreante Rádio Farroupilha em duas funções: artista solo e crooner do grupo de Paulo. Seu passe fora comprado diretamente da Gaúcha, onde estava desde a inauguração, em 1927.

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Alcides, década de 1930, em momentos ‘fotos para fãs’ Além de cantor, foi fazendo também nome como pianista e violonista. E efetivamente, era bom nas três coisas. Não por acaso: tinha estudado música com o maestro Roberto Eggers e vinha de uma família prodigiosa, onde quase todo mundo tocava ou cantava, a começar pelo pai, trombonista amador. Os Irmãos Gonçalves fizeram parte essencial da história da música da cidade – e era ele o primogênito dos nove: seis músicos e três… mulheres (aí não pegava bem). Antoninho Gonçalves (1915-1983), era companheiro de jazz do Paulo Coelho, onde desde 1938 (há quem diga 1936) atuava como pioneiro local num instrumento que era novidade no mundo todo: a guitarra elétrica – então chamada de violão elétrico, já que o Brasil é o único País onde violão não se chama guitar, guitarra ou alguma variação disso. A dele fora importada diretamente dos Estados Unidos. Detalhe: nesse momento só havia outras duas em todo o País, ambas em mãos de cariocas. Uma, com Henrique Brito (ex-Bando dos Tangarás), que a teria trazido também dos EUA em 1933. A outra, primeiríssima, desde 1929 era de Josué de Barros (Zuza Homem de Mello: como ele

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havia estado na Alemanha onde gravou discos antes da I Guerra Mundial, acredito que possa ter tido contato com novas técnicas que poderiam ter sido desenvolvidas como base da eletrificação do violão). Antoninho começara com Paulo no violão, quando eram a atração do mítico cabaré e cassino Clube dos Caçadores. Na década de 1940, voltaria ao instrumento, liderando o Antoninho Gonçalves e Seu Regional, contratado da Rádio Difusora. Cujo vocalista e pandeirista era outro dos irmãos, Oscar Gonçalves (1910-1979), respeitado ponta-esquerda goleador do time do Renner e também crooner da Orquestra Ernani-Marino – futuramente, também da orquestra de Herbert Gehr no American Boate. Na mesma emissora, tocava jazz (na guitarra) com Os Malucos do Ritmo – primeiro grupo local a se dedicar ao gênero, fundado em 1946 pelo trompetista Ernani Oliveira. Paralelo, seguia no jazz do Café 17, um grupo de oito figuras que tinha alguns dos melhores músicos dessa geração – e que, apesar do nome, praticamente não tocava jazz (mais sobre isso no capítulo sobre a Era dos Jazz). Nos anos de 1950, se transfere para o jazz do Indiana, o último café com música ao vivo da capital. Morreu em 24 de fevereiro de 1983.

Espetacular foto da Orquestra de Paulo Coelho em Buenos Aires, 1938. Os 5 do meio, na frente: Marino dos Santos, Horacina Corrêa, Antoninho Gonçalves, Alcides, Ernani Oliveira. Ao piano, Paulo. Na percussão, ao seu lado e atrás dele, Walter e Juvenal Gonçalves Outros dois irmãos, Walter Gonçalves(1916-1947) e Juvenal Gonçalves(1918-1955), começaram também com Paulo, tocando percussão. E o naipe de percussão da família se completava com o caçula e também baterista Osmar Gonçalves (1922-1977).

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Anos mais tarde, Juvenal e Walter também passariam pra bateria. Juvenal chega a ser o titular do instrumento na prestigiosa Grande Orquestra da Farroupilha e morre jovem – como vários dos irmãos, de câncer. Por sua vez, Oscar Gonçalves sempre foi um bom cantor, mas viveu à sombra do irmão mais famoso. Nos anos 1930, ele e Alcides foram crooners da Orquestra Rojabá. Em 1948, é contratado para dois grupos na rádio Difusora, ambos ao lado de Antoninho: o já citado regional, e a orquestra da casa – versão mansa e ampliada d’Os Malucos do Ritmo. Nos anos de 1950, estava à frente da Orquestra Herbert Gehr, e seguiu na ativa até meados da década de 60, como cantor do American Boate, uma das casas noturnas mais chiques da história do ramo em Porto Alegre. Morreu no dia 30 de junho de 1979.

Oscar, de olhos fechados. O cara do violão do meio (parece, mas não é uma guitarra) é Antoninho. Já a vida de Walter Gonçalves dava um filme. Depois de fazer seu nome com Paulo Coelho, tocando pandeiro e tamborim, tentava a vida no Rio quando deu uma sorte bárbara. O pianista e bandleader americano Eddie Duchin chegava com sua bigband para uma temporada brasileira quando o baterista do grupo mal desembarca e resolve que não vai ficar. O ano era 1943 e Eddie era tão popular que, anos depois, teria um filme sobre sua vida: a cinebiografia Melodia Imortal (The Eddie Duchin Story).

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Eddie Duchin em pleno Copacabana Palace, 1943 Em pânico, o americano sai à cata de um substituto, e começa a procurar justamente pelo endereço mais chique do Rio: o Copacabana Palace. Pois quem estava lá, empunhando as baquetas na orquestra de Simon Bountman? Walter Gonçalves. Pelo jeito, se saindo muito bem, já que foi contratado na hora. Terminada a temporada carioca de Eddie, fica o convite pra se juntar à trupe. Walter amarelou. Mas, poucos meses depois, um motivo mais forte o leva a mudar de ideia: loiraça, corista e americana, ela se chamada Billee Lee Grant, e teve uma rápida e avassaladora passagem peloCopa. Depois de um curto romance com Walter, a moça volta pra sua terra. Aí ele resolve apostar no convite de Eddie. Estava tão descornado que o próprio diretor do cassino, impressionado com o efeito devastador da loira sobre o coração do moreno, lhe dá de presente 15 contos de réis pra passagem – só de ida. Foi, viu, e venceu: casou com a blondie e ainda assumiu de baterista na orquestra de Duchin. Conto de fadas total. Foi se dando tão bem que conseguiu montar sua própria Walter Gonsalves and His South American Orchestra. Melhor que isso, só se trouxesse seus irmãos pra perto. E foi o que fez: tudo armado, contratos assinados, passagens compradas, planos internacionais para os Gonçalves Brothers… E aí ele morre. De uma grave e fulminante doença renal (ou câncer, não há certeza) e praticamente na véspera dos irmãos embarcarem. Dia 22 de setembro de 1947 chega um telegrama com a notícia. Tinha 31 anos de idade. (Só restou a sua bateria, mandada para Osmar, depois disputada por vários instrumentistas da cidade, principalmente por seus míticos “pratos turcos” – provavelmente Zildjian). 15


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E chegamos ao últimos dos irmãos Gonçalves: Oscar Gonçalves. Que foi um bom cantor, mas viveu à sombra do irmão mais famoso. Nos anos 1930, ele e Alcides se alternavam à frente da Orquestra Rojabá (fundada, anos antes, como Royal Jazz Band). Em 1948, vai para a Difusora, assumindo como crooner dos dois grupos da casa, em ambos ao lado de Antoninho: o já citado regional e a orquestra, que era a versão amansada d’Os Malucos do Ritmo. Nos anos 1950, liderava a Orquestra Herbert Gehr e seguiu na ativa até meados da década de 60, como cantor do American Boate, uma das casas noturnas mais chiques da história do ramoem Porto Alegre. Morreu em 30 de junho de 1979. *

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Mas estávamos em Alcides. Eterno inquieto, o cara não esquentava lugar. Em 1936, como se viu, foi ao Rio gravar pela RCA Victor o disco com suas parcerias com Lupicínio, que acaba fazendo mais sucesso em Porto Alegre do que na cidade maravilhosa. Voltou contando que também dera uma palhinha na inauguração da Rádio Nacional, mas nunca ninguém conseguiu confirmar o fato. De qualquer forma, chega do Rio cheio de moral, recontratado pela Farroupilha e definido pela Folha da Tarde como o melhor cantor de sambas e marchas da cidade. Começa a fazer nome também como compositor. Em 1937 está na estrada de novo: Curitiba e São Paulo – onde canta com a Orquestra de Luiz Argente e é uma das atrações da inauguração da Rádio Tupy, interpretando só sambas e valsas de autores gaúchos (ele, inclusive). Volta novamente a Porto Alegre, pra cantar no Cassino e novamente na Farroupilha, mas é quando acontece a longa e emocinante temporada Argentina da orquestra de Paulo Coelho(vale reler um trecho do capítulo de Paulo): a temporada o exige tanto que termina em pane vocal, o que o faz trabalhar por quase meio ano só como pianista e violonista, recuperando-se de uma operação nas cordas vocais. A sorte é que, como havia definido Radamés Gnattali com aquela sua verve particular, Alcides como pianista tocava tudo errado… mas bonito. Tanto que, anos mais tarde, seria o

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titular do instrumento em casas importantes da noite da cidade – como a boate Marabá. É por esses anos que se dá conta do óbvio time à disposição e resolve montar Os Irmãos Gonçalves: ele, Antoninho, Oscar, Juvenal e Walter (depois, Osmar). O grupo – todos grandes músicos – toca por todo o estado, Argentina e Uruguai por quase dois anos.

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Sente a chinfra dos bacanas. Sen-sa-cio-nais!

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Aí estamos em 1939. E a orquestra argentina Santa Paula Serenaders, que o havia conhecido na sua temporada paulista, chama o cara pra ser o pianista em uma excursão por toda a América do Sul. Finda a turnê, estaciona no Rio de Janeiro, novamente como crooner. Desta feita, da reputada orquestra de Simon Bountman, nada menos que uma das atrações do Copacabana Palace. Traz Walter Gonçalves pra assumir a bateria do grupo e segue tentando uma chance na Rádio Nacional. Finalmente a chance aparece: mas ele vai ter de viajar de novo. Desta vez para Buenos Aires. Será, mais uma vez ao lado da conterrânea e amiga Horacina Corrêa, o cantor da orquestra montada por Radamés Gnattali para transmitir o programa Hora do Brasil num convênio com entre a Rádio Nacional e a Rádio Municipal de Buenos Aires. Sucesso total e convites para apresentações até no Teatro Colón – o mais importante da Argentina –, com direito a 5 estrelas na crítica da revista Synthonia e acompanhamento do próprio Radamés, então estrela de primeira grandeza do rádio brasileiro. Volta maaaaais uma vez para Porto Alegre, e mais uma vez para Paulo Coelho. Só que pouco tempo depois Paulo morre, no auge da popularidade. Adivinha? Pé na estrada outra vez: agora contratado pela Rádio Educadora de São Paulo. Dali, pro Rio, onde, finalmente, ganha um horário fixo na Rádio Nacional, a maior vitrine existente no país: três participações semanais, em horário nobre. Grava um que outro disco e estamos em 1942. Aos 34 anos, Alcides está no ponto máximo da carreira. Se não chegou ao primeiro time dos cantores cariocas, conseguiu uma razoável projeção, num estilo que misturava o jeito de cantar da dupla mais insólita dos anos 1920 e 30: seus amigos Mário Reis e Francisco Alves. Chega a compor em parceria com alguns banban-bans do balacobaco, como Ataulfo Alves e começa a escutar suas parcerias com Lupicínio ganharem o país na voz dos maiores intérpretes. Hoje, Lupicínio Rodrigues é um nome infinitamente maior que Alcides Gonçalves. Mas nas décadas de 1930 e40, a vida trepidante de Alcides estava muito além da de Lupi – que, além de tudo, seis anos mais jovem – poderia sonhar, cochilando, quase anônimo, na portaria da Faculdade de Direito. Só que o cara não esquentava lugar mesmo. Logo está em Porto Alegre pela enésima vez, assinando um de seus últimos contratos

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radiofônicos, desta vez com a Rádio Difusora – a partir de 1945, não teria mais compromisso com nenhuma emissora, só como convidado. Acaba se estabelecendo como cantor ou pianista em casas noturnas, retomando também os Irmãos Gonçalves no seu plano de invasão dos Estados Unidos – como se viu, abortado às vésperas do embarque da turma. Só então olha em volta e vê que retomar a parceria com Lupicínio pode ser um bom caminho. Estamos em 1948 e, logo de saída, emplacam Quem Há de Dizer na voz do artista mais popular do país, Francisco Alves. Gravadas no ano seguinte e lançadas em 1950, vêm em seguida Maria Rosa e Cadeira Vazia – esta, segundo o pesquisador Marcello Campos, mostrada a Chico num apartamento de solteiro num hotel da Jerônimo Coelho, centro de Porto Alegre.

Francisco Alves, já coroa. Ele morreria no auge, como o maior cantor do País, dois anos depois dessas gravações Foi a semente da discórdia. Quando saiu o disco, estava lá no selo: “Cadeira Vazia (Lupicínio Rodrigues)”. Nada de Alcides Gonçalves. Bah. A partir dali, Alcides carregaria uma crescente mágoa por não lhe darem o devido valor nas parcerias com Lupicínio. O fato da sua carreira entrar em lenta decadência coincidentemente ao mesmo tempo em que a do parceiro ascendia só piorou o clima. Nunca mais compuseram juntos. A maldade dessa gente é uma arte, e muitos se dedicaram com afinco a botar areia no relacionamento dos dois – mesmo depois da morte de ambos, deixando a parte do malvadão geralmente para Lupicínio. Até que Marcello Campos, biógrafo de Alcides, resolveu se debruçar sobre o assunto. E, hoje, garante:

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Lupi mesquinho e interessado em passar a perna no companheiro? Pura teoria conspiratória. Na tentativa de contornar a situação, ele presenteou o companheiro ofendido com uma coautoria fictícia no samba-canção Castigo, gesto aceito e que rendeu alguns dividendos ao “dublê”. Também protocolou ofício à editora musical Cembra reforçando o pedido para que se redobrasse o cuidado com os devidos créditos nas citações de Cadeira Vazia. No mesmo documento, recomendou que o seu chapa recebesse metade de todos os direitos autorais arrecadados até então com a obra. Também dedicou aos diretores de rádio, televisão e espetáculos uma de suas colunas semanais Roteiro de um Boêmio no jornal Última Hora, em 1963, solicitando que intercedessem para que os títulos das obras não ignorassem os nomes de seus criadores. Há outro dado a ser levado em conta: na época em que a Odeon fez a trapalhada com Alcides, as gravadoras já exigiam que a obra seguisse para o estúdio registrada e acompanhada da respectiva partitura antes de gerar o fonograma. Isso tudo, sem contar que Lupicínio sempre batalhou pela causa, sendo inclusive responsável pela abertura da filial da Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores e Editores de Música (Sbacem) em Porto Alegre. Não que os dois fossem exatamente graaaaaaaandes amigos, mas conviviam muito bem e sabiam que eram “da pá virada” quando decidiam trocar figurinhas. Mas nem a consciência do poder da dupla, nem a parceria oferecida em Castigo servem pra que voltem a compor juntos. Pior para ambos. Afinal, quem analisa suas oito canções facilmente dá conta da importância das melodias e harmonias de Alcides para as letras lupicínicas – e vice-versa. Foram muitas vezes comparados a Noel Rosa e Vadico, e faz sentido: ambas as duplas não tiveram uma imensa quantidade de produção, mas despertaram o que havia de melhor em cada um dos autores. Olha o catálogo de Lupi e Alcides: Cadeira Vazia, Maria Rosa, Triste História, Quem Há de Dizer, Pergunta a Meus Tamancos… Grande parte do melhor de Lupicínio. O melhor entre as 75 composições de Alcides. Em apenas oito músicas. Pra comparar, Rubens Santos tem pelo menos 33 parcerias com Lupicínio. Felisberto Martins, pelo menos 20.

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Os dois LPs Na década de 1950 Alcides se casa, tem um filho e vai embora de novo, agora pro Paraná – onde vai dirigir uma rádio, cantar em boates, plantar café e beneficiar soja. Tem a sua Minhas Valsas Serão Sempre Iguais gravada por Orlando Silva em 1961, acaba retornando mais uma vez a Porto Alegre, mas a fama nunca mais lhe abre os braços. Ainda chega a ganhar o 1º Festival Sul-Brasileiro da Canção, em 1967, com o samba-canção Minha Seresta, mas só vai lançar seu primeiro LP em 1977 – coincidentemente ou não, logo depois de entrar para a maçonaria. Por ironia do destino, começava a ser redescoberto… graças a repopularização de Lupicínio.

O ex-galã, ainda peleando O referido disco, elogiadíssimo, se chama Cadeira Vazia e sai pela série Destaque de gravadora Continental, ao lado de discos de bambas da velha guarda como o velho parceiro Radamés, Elizeth Cardoso, João de Barro, Vicente Celestino… No acompanhamento, só 24


os melhores da cidade: Plauto Cruz na flauta, Lúcio do Cavaquinho,Jessé Silva no violão e Valtinho do Pandeiro (e mais um organista não identificado). Das 12 músicas, cinco são parcerias com Lupi: Cadeira Vazia, Pergunta a Meus Tamancos, Quem Há de Dizer, Castigo e Maria Rosa. Ainda há um segundo e último LP, de 1981: Pra Ela, produção independente bancada por Flávio Pinto Soares, parceiro em quase todas as músicas, produção aparentemente simplória – se você for julgar pela capa – mas sonoramente luxuosa, com direito até a orquestra de cordas e sopros – arranjada e regida por Alfred Hülsberg.

Em versão coroa galante Cantava ainda na noite, em bailes e eventos saudosistas, mas vai se retirando lentamente de cena, dedicando-se (de verdade) aos empregos públicos que o mantinham desde o final dos anos 60 e, moderamente, à boemia. Nem os impecáveis ternos de linho branco seguia usando. Em compensação, seu gênio, de instável, foi se tornando cada vez mais irritadiço, rancoroso e sujeito a surpreendentes surtos de violência – como quando quase pôs abaixo, a pedradas, a casa de um amigo, simplesmente por ter caído numa vala do pátio e sujado sua roupa (pior: fez isso mais de uma vez). Morreu em nove de janeiro de 1987, depois de nove anos de luta contra um câncer no intestino.

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Em 2011, o jornalista Marcello Campos lançou a fundamental biografia Minha Seresta – Vida e Obra de Alcides Gonçalves, pela série Porto Alegre Revisitada, da Editora da Cidade.

* * * São muitas as versões sobre como se estabeleceram as fundações da ponte que tornaria Lupicínio um nome nacional a partir do final dos anos 1940. A mais conhecida diz que seus sambas foram levados para o Rio de Janeiro da maneira mais informal possível: popularíssimos nas casas mais suspeitas das cercanias do cais do porto e do bairro da Azenha – como o cabaré Galo, na rua Cabo Rocha (hoje Professor Freitas e Castro) –, cativavam os corações solitários dos marinheiros longe de casa. Estes, por sua vez, quando reembarcavam, pediam essas canções pras orquestras dos navios, que eram obrigadas então a aprendê-las. E aí, simples assim, marinheiros e músicos voltavam aos lares – e bares – com os versos na ponta da língua. Muito estimulados pela clássica suspeita de cornitude que brota na cabeça de todo viajante. Cá entre nós: não parece bastante improvável que simples marinheiros pudessem eleger o repertório das orquestras dos navios – que, aliás, tocavam para os passageiros e não para eles? Mas ok. Ainda seguindo nessa versão, em 1938 Se Acaso Você Chegasse teria… chegado até a RCA-Victor. E agrada tanto que o pessoal a registra numa editora, mesmo sem saber ainda quem era o autor. Escrevem então para seus representantes do sul a ver se

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alguém matava a charada. A resposta vem logo, afinal ele já começava a ficar conhecido: Lupicínio Rodrigues. Veja só: era o parceiro daquelas duas músicas que Alcides Gonçalves havia gravado na mesma companhia, apenas três anos antes. Lupicínio sempre defendeu esta versão e ainda aumentava o feito dizendo que teve grande dificuldade em provar que a música era dele, já que ninguém acreditava que um samba tipicamente carioca como aquele tivesse sido feito por um gaúcho. Também declarou numa entrevista de 1938 para a Revista do Globo que o cantor Leo Villar, dos Anjos do Inferno, teria gravado o samba um ano antes de Cyro, numa “fábrica já desaparecida”, a Carioca. Só que cavocando um pouco mais fundo, há uma matéria no jornal Folha da Tarde de dois anos antes – três de junho de 1936 –, que descreve o ascendente compositor como alguém com “a attitude ingenua de um poeta antigo” e lhe dá voz para que conte uma estória completamente diferente da que adotaria poucos anos mais tarde: Quando o “Bando da Lua” esteve aqui, alguém teve a bondade de fazer com que os rapazes cariocas conhecessem algumas de minhas músicas. Immediatamente fui procurado por elles. Os moços quizeram comprar-me os direitos auctoraes de varias de minhas producções. Não acceitei o negocio. Então elles formularam uma segunda proposta: que eu lhes desse parceria nos trabalhos que elles se propunham gravar. Também recusei. Mesmo assim o “Bando da Lua” levou para o Rio os sambas “O navio está apitando” e as marchas “Como é que eu estou” e “Na beira de um rio”. E há ainda a versão de Alcides Gonçalves, que se irritava bastante com o versão “oficial”: Que marinheiro, nada! É tudo conversa! Eu é que levei o samba!

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Anos depois, Lupi e Alcides, ainda (quase) amigos E o pesquisador Marcello Campos lhe faz coro: História da carochinha, lenda urbana. Quem estourou o Lupi foram os artistas e as rádios daqui e do RJ, numa época de muito intercâmbio Buenos Aires-POA-SP-RJ. Isso, entre outros fatores, visto que nada na vida é resultado de uma só causa. (…) A história dos marujos pode ser válida, em parte, como veículo adicional de divulgação. Mas atribuir somente a eles a expansão da obra do Lupi é confiar demais nos fatores tradição oral (as letras chegariam alteradas lá), álcool (bêbados não costumam ter boa memória) e navegação (os navios nem sempre faziam a viagem POA-RJ direto). Seja lá como for, o fato concreto, que divide a carreira do compositor em antes e depois neste julho de 1938, é a gravação de Se Acaso Você Chegasse para a RCA Victor pelo estreante e suingadíssimo Cyro Monteiro. Um dos raros sambas animados do gaúcho (ainda que a temática, mais uma vez, fosse a da traição) e, como quase toda a obra de Lupi, baseado em fatos reais. Geralmente acontecidos com ele ou com amigos próximos, neste caso ambas as premissas são verdadeiras: Se Acaso Você Chegasse foi a forma encontrada por Lupicínio para comunicar ao amigo e compositor Heitor de Barros um fato já consumado: havia lhe roubado a namorada (na época, claro, ele declarou ter tirado a ideia de uma notícia da coluna policial). No selo do disco, a canção era assinada não só por ele, mas também por Felisberto Martins. Felisberto era pianista e compositor. Além de diretor artístico da maior rival da RCA-Victor: a Odeon.

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Da mesma reportagem de 1938: - Foi escrito de parceria com alguém? Lupicínio desvia a conversa. Prefere não falar da parceria do samba que lhe valeu o maior sucesso. Segundo alguns, Lupi havia topado uma parceria fictícia, como forma de dar um empurrão na sua carreira. Muita gente fazia isso – até cobrões como Pixinguinha, que, por essa época, estava regravando suas músicas que agora, milagrosamente, eram de Pixinguinha e Benedito Lacerda. Felisberto, por sua vez, era parceiro de muita gente bacana, e seus herdeiros garantem que a dupla com Lupicínio era real. O inegável é que, entre as 20 canções assinadas pelos dois, há pelos menos mais duas pepitas: Dona Divergência e Zé Ponte. Voltando a Se Acaso Você Chegasse, ela é o primeiro sucesso nacional tanto de seu intérprete quanto de seu(s) autor(es). E não só nacional: anos mais tarde, Lupi teria um grande susto ao escutar seu samba num cinema de Porto Alegre, na trilha sonora de um filme hollywoodiano chamado Dançarina Loura (pelo qual, claro, nunca recebeu um tostão). É nesse momento que a Revista do Globo, na edição de 21 de dezembro de 1938, faz a reportagem de duas páginas com o título Doutor em Samba, onde o chama de “o maioral da Ilhota”, ilustra tudo com fotos de um perfeito dândi mulato (“na aparência é um romântico de 1830, mas sua música é bem o retrato dos dias atuais”), e começa assim: Lupicínio Rodrigues é pouco conhecido pessoalmente, mas seu nome é murmurado tôdas as noites nos microfones, nas rodas de cafés, nos quartos de estudantes e até mesmo nos meios sociais de Pôrto Alegre. O motivo é bem simples: Lupicínio vive o apogeu de sua glória como sambista, e, fazer samba aqui no sul, conseguindo transpor as fronteiras até à terra carioca, é uma façanha digna do sucesso que Lupicínio Rodrigues conquistou.

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Taqui o dândi mulato. Te mete com a chinfra da gravata... Toda a matéria é uma beleza, mas chama atenção uma das suas declarações. Espantado com o fato de que “se fizesse publicidade em torno de seu nome”, ele fala como um músico portoalegrense de setenta (60, 50, 40, 30, 20, 10?) anos depois: Será a primeira vez que se faz isso em Pôrto Alegre. Um sambista, no Rio, à primeira composição, já vê o seu nome enchendo as páginas das revistas, ecoando pela rua e, mais do que isso, passa a ganhar dinheiro… Mas aqui, não acontece o mesmo. (…) Os próprios meios radiofônicos da Capital não ajudam o compositor a aparecer. Animado com o incipiente sucesso e ainda – ainda! – amargando o descorno por Inah, resolve ir tentar a vida na Capital Federal. O ano era o mesmo 1939 em que o parceiro Alcides atacava de crooner no luxuoso Copacabana Palace. Aí, aos 24 anos de idade, o rapaz pega 30


os 200 mil réis de seu salário de bedel referente ao mês de janeiro e, sem avisar ninguém, se manda num navio junto com o amigoAry Valdez, o Tatuzinho. Ary era cavaquinista, humorista e, mais tarde, marido de Elizeth Cardoso (já falamos sobre ele no capítulo anterior).

Marino dos Santos, o outro dândi de gravata borboleta, é aquele mesmo de quem falamos já muito, saxofonista, e parceiro inseparável de Paulo Coelho. A passagem era de terceira classe, fundos. Mas houve um rápido processo de ascensão social: no caminho, o Tatuzinho tocando violão e eu cantando, já me deram logo um camarote. Vim cantando no navio. A viagem levava uma semana e acabou virando uma semana de mordomias. A sorte parecia ter embarcado com eles. Mas mesmo a terceira classe custava 170 mil réis. Com os 30 mil restantes, se instala numa pensão da Lapa e logo faz amizade com a ala mais malandra e receptiva do primeiro time da MPB da época. Entre outros, dois bons camaradas – negros como ele – Wilson Baptista e Ataulfo Alves. Ambos já tinham ouvido falar no rapaz, em função de Quando Eu For Bem Velhinho e Se Acaso Você Chegasse. Mas ainda faltava um empurrão de alguém com mais prestígio. Afinal, a turma tinha talento de sobra, mas não era poderosa como a elite branca do showbizz carioca. Essa sim é que lhe poderia abrir caminhos. Só que esses não se reuniam em botequins da Lapa. O papo era no mítico – e chiquérrimo, e caro – Café Nice. Não era coisa pra chinelão. Mas um belo dia um amigo turfista o chama. Vai introduzi-lo direto na mesa dos fodões! Sente o drama: Ary Barroso, Haroldo

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Lobo, Nássara e Francisco Alves, todos cantando uns pros outros suas novidades para o próximo carnaval. Aí, jamais saberemos se tudo se passou ou não como ele conta na entrevista pro Pasquim (edição de 23 de outubro de 1973), mas absolutamente não importa, que a estória é ótima: Toda a máfia sentada no Café Nice, às seis horas da tarde. Ele chegou comigo pela mão e gritou (…): “Chegou o meu cavalo aqui”. Os caras ficaram tudo me olhando, né?, que negrinho pequenininho! (…) Eu cheguei e disse: “Olha, esse cara tá brincando”. O Haroldo Lobo me olhando, o Nássara me olhando, o Chico me olhando. (…) Eu já tinha uma porção de músicas gravadas, mas ninguém me conhecia (…) Sentei na mesa, pedi um cafezinho. (…) Os caras botavam um níquel no bolso pra bater, outros batiam na caixa de fósforo, outros na parede, e eu tô escutando. Diz um pra mim: “Ô gaúcho, canta um negócio teu aí”. Eu digo: “Eu não sei cantar essas músicas que vocês estão cantando.” E ele: “Não, canta qualquer coisa aí”. Aí eu: Você sabe o que é ter um amor, meu senhor, ter loucura por uma mulher… Aí o Chico começou, psft, psft, assim cuspindo: “Canta outra aí”. E eu mandei: Quem há de dizer que quem vocês estão vendo naquela mesa a beber… Aí o Chico, psft, psft: “Isso é teu, moleque? Isso é teu!?” Eu sei que quando eu cantei a quarta música, o Chico me chamou lá pro canto, (…) me botou num Buick vermelho que tinha e me levou prum (…) clube de pife que tinha aqui no Flamengo: “Pft, cê não dá isso pra ninguém. Não dá isso pra ninguém. Vou gravar tudo”.

Mesa típica do Nice: Lamartine Babo, Ismael Silva, Braguinha A confiar na versão, Chico não teria lembrado do mulatinho franzino que conhecera sete anos antes, em Porto Alegre (e que 32


recebera elogios de Noel Rosa, lembram?). A versão também se abala um pouco com o fato de que Quem Há de Dizer foi composta por Lupi e Alcides Gonçalves só em 1948, uma década depois. Bom, o fato é que promessa é dívida. Quem espera sempre alcança. E mais vale um pássaro na mão do que dois voando.

Charge do Nássara. A turma toda Mesmo que fosse uma promessa do cantor mais importante do Brasil naquele momento, não dava pra ficar esperando indefinidamente por Francisco Alves. Os meses vão passando e nada se concretiza – só novos amores, novas desilusões e novas amizades – com outros dos artistas mais importantes do momento: Orestes Barbosa, Geraldo Pereira e Kid Pepe. Como lembraria em 1973: a gente começava às cinco da tarde no Café Nice. De lá descíamos para a Cinelândia, depois a Lapa. O fim da noite – já dia – era na Taberna da Glória. Seja lá de onde fosse que ele tirava dinheiro (nunca se soube), o fato é que um dia a fonte secou. Sem remédio, lá se foi Lupicínio de volta a Porto Alegre. Pra nunca mais sair.

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…Creiam: o emprego de bedel seguia lá, esperando por ele!

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Em 1952, revisitando o seu cubĂ­culo, de onde o bedel ficava de olho no pessoal 34


Ainda bem, porque até agora nada de Francisco Alves cumprir a promessa de gravar suas canções. Acabou furado por Orlando Silva. É quando a coisa começa a andar. Mesmo considerando a gravação de Se Acaso Você Chegasse, é com Orlando, O Cantor das Multidões, que Lupicínio surge efetivamente como um compositor nacional. O ano é 1945, e a música é o samba Brasa (no mesmo ano, mas praticamente restrito a São Paulo, há também o sucessinho de Que Baixo! − grande gravação de Caco Velho da música escrita pelos dois).

Orlando, só charme Dois anos depois, Orlando repete a dose, com uma daquelas velhas canções compostas lá em Santa Maria: Zé Ponte. Aí estamos em 1947, e o Quarteto Quitandinha (futuro Quitandinha Serenaders, de quem já falamos aqui) leva ao disco a pérola santamariense. Composta em 1934, Felicidade é definida no rótulo do disco como baião-shotts, tal a falta de intimidade da indústria com a música regional do Sul. O já então velho xote era conhecido no Rio Grande do Sul, mas o pessoal achava que era folclore. Lupi mesmo presenciou Ary Valdez apresentando assim o xote – como de autoria desconhecida -, antes de tocá-lo num show. Na plateia, o compositor nem se deu ao trabalho de desmentir. Mas, a partir da gravação do Quitandinha, ela passa a ser creditada a seu verdadeiro autor. E ajuda muito o grupo, em ascensão, interpretá-la num filme da Atlântida, onde cantam num trem que ia do

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sul para o Rio de Janeiro (pra lembrar: o Quitandinha era 75% gaúcho. Faziam parte de sua formação Alberto Ruschel, Chico Pacheco e Luiz Telles. João Gilberto terá uma rápida passagem pelo grupo e o velho delírio de grandeza gaúcho já publicou até em jornal que João estaria no coro da gravação de Felicidade. Impossível: em 1947 nem no Rio o baiano estava).

Raríssima foto do Quarteto As três canções registradas por Orlando e o Quitandinha foram a senha para que Chico Alves sentisse o cutuco e resolvesse fazer alguma coisa com as canções que seguiam guardadas para ele. É quando leva ao disco uma insuperável versão da terceira das obrasprimas lupicínicas compostas graças ao descorno por Inah: Nervos de Aço. Começava finalmente a fase áurea de Lupicínio, marcando ali sua certidão de nascimento no mainstream da música brasileira. Xotes da Felicidade e Nervos de Aço: o ano termina com nosso mulatinho transformado em revelação nacional. E se até ali o que era conhecido de sua obra eram canções sem grandes novidades estéticas, Nervos de Aço vem como prova inequívoca de que havia um novo, diferente e talentoso compositor na praça. Nem tão novo: já tinha 33 anos. Mas, pelo menos, já estava, malandramente, aposentado do emprego de bedel − por uma curiosa tuberculose que nunca mais apareceu (ele dizia que tinha sido uma aposentadoria por amor, referindo-se a, claro, Inah). O sucesso vinha em boa hora, já que agora ele tinha de cuidar dos irmãos (não se esqueçam quantos eram): o pai tinha acabado de falecer. Agora ele era o homem da casa. 36


Mas que fase! Com seu nome se espalhando como febre eruptiva, chega a ser publicado um anúncio num jornal na Bahia pedindo uma empregada que não cantasse Nervos de Aço. Pra aproveitar a boa maré, abre a primeira das suas tantas casas noturnas: a churrascaria Jardim da Saudade – mais conhecida como o Galpão do Lupi. E, interessadíssimo no tema, torna-se representante regional da Sbacem (Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música), função que exerceria pelos 28 anos seguintes. Com o sucesso de Nervos de Aço, Chico Alves finalmente se dá conta que tinha uma mina de ouro abandonada. Passa a gravar gol após gol. Entre os maiores sucessos nacionais de 1948 estão suas arrepiantes versões para Quem Há de Dizer e Esses Moços – esta, escrita por Lupi para convencer o amigo e futuro parceiro Hamilton Chaves a não se casar, o que lhe granjearia, merecidamente, a eterna antipatia da esposa do amigo. Em 1950, Cadeira Vazia e Maria Rosa repetem a dose. Canções novas, feitas em parceria com Alcides Gonçalves, e mostradas a ele por Lupicínio em uma das excursões de Chico a Porto Alegre para cantar no rádio.

Antes tarde que mais tarde: Francisco Alves A partir daí, os sambas-canção de nosso amigo se tornam pièces du résistance de gente que vai de Sílvio Caldas a onze entre dez cantoras da época. Vingança, gravada em 1951 por Linda Baptista, é não só sua consagração definitiva de compositor como vira uma praga. E internacional, já que é sucesso também em sua versão em espanhol, perfeitamente adaptada ao ritmo do tango por Alberto

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Marino, e gravada quatro anos antes em Buenos Aires (o que reforça a tese de que tudo que não é carioca em Lupi, é portenho demais). A desgraceira narrada ali era tanta que não teriam sido poucos os amantes infelizes a cortar pulsos ao som da canção. Não é pra menos: o teor roça o das pragas bíblicas − ainda que se tenha de ressaltar, mais uma vez, a espantosa coloquialidade do texto: uma carta, um discurso quase em prosa, absolutamente cotidiano: Eu gostei tanto quando me contaram que lhe encontraram chorando e bebendo na mesa de um bar… E que quando os amigos do peito por mim perguntaram um soluço cortou sua voz, não lhe deixou falar… Mas, eu gostei tanto (tanto!), quando me contaram, que tive mesmo que fazer esforço pra ninguém notar. O remorso talvez seja a causa do seu desespero. Você deve estar bem consciente do que praticou: me fazer passar essa vergonha com um companheiro (e a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou)! Mas enquanto houver força em meu peito eu não quero mais nada: só vingança, vingança, vingança aos santos clamar! Você há de rolar como as pedras, que rolam na estrada sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar… Ainda nesse clima místico, arruma encrenca com o Departamento de Fiscalização dos Serviços de Diversões Públicas, que censura seu samba-canção Ex-Filha de Maria. Motivo: os primeiros versos da canção são uma citação da velha canção católica Queremos Deus: Da nossa fé, ó Virgem O brado abençoai Mais do que plágio, blasfêmia! Mesmo motivo da censura ao seu samba Adão, que, no Estado Novo, havia sido vetado (assim como a irônica Sou Brasileiro – mas essa por motivos políticos). Não importa. Porque nesse momento, e pelos 10 anos seguintes, Lupicínio será um dos compositores de maior sucesso e prestígio em todo o Brasil. Segue o desfile de hits: Linda Baptista ataca novamente, com Volta. Sua irmã Dircinha, com não menor

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desespero, lança e coloquialidade: Nunca.

imortaliza

outra

hiperbólica

pérola

da

Nunca! Nem que o mundo caia sobre mim!! Nem se Deus mandar!!! Nem mesmo assim as pazes contigo eu farei! Nunca!!! Quando a gente perde a ilusão deve sepultar o coração, como eu sepultei! Saudade, diga a essa moça, por favor, como foi sincero o meu amor, quanto eu a adorei tempos atrás. Saudade, não se esqueça também de dizer que é você quem me faz adormecer… pra que eu viva em paz.

As Irmãs Baptista, rainhas da canção dos anos 50 Pois essas duas canções-carta, tão imbuídas do espírito daqueles passionais anos de grossas infidelidades e casamentos de aparência, pasme, foram endereçadas à mesma mulher! Ele finalmente aliviara pro lado de Inah, e tinha agora uma nova musa de cornitude: a mulher que me inspirou Vingança viveu comigo seis anos e depois terminou namorando um garoto que era meu empregado. (…) Eu estava num restaurante, (…) uns amigos chegaram e me disseram: encontramos a Carioca (…) num fogo tremendo. Começou a chorar e perguntar por ti. O que que houve, vocês estão brigados? (…) Na mesma hora comecei, saiu: Gostei tanto, tanto, quando me contaram… (…) Em cada lugar que chegava ela botava fotografia minha, cabritas (para os pais-de-santo intercederem por ela junto aos deuses e orixás), aquele negócio todo pra fazer as pazes. Aí eu fiz: Nunca, nem que o mundo caia sobre mim, nem se Deus mandar…

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Nesse momento, a lógica o levaria a tentar novamente o Rio de Janeiro, desta vez pra ficar. Era o que haviam feito absolutamente todos os compositores de renome nacional naquele momento, mineiros como Ataulfo Alves e Ary Barroso ou baianos como Caymmi e Assis Valente. Mas ele manda a lógica às favas e consegue ser o único artista brasileiro em décadas a ter efetivo renome nacional sem morar no Rio. Até tem eventuais passagens pela Capital Federal − e também São Paulo −, onde cai na boemia ao lado de velhos e novos amigos. Mas segue vivendo na sua cidade natal, sempre cercado de sua inseparável turma de boêmios: o cantor Johnson, o compositor e colega de Sbacem Hamilton Chaves, o cantor e compositor carioca Rubens Santos, o jornalista e compositor Demosthenes Gonzalez e mais uns poucos.

Amigos de fé, irmãos camaradas: Johnson e Lupi Demosthenes foi um eterno divulgador não só da obra como das grandes tiradas do amigo. Como o seguinte diálogo, travado quando voltavam do velório de um suicida, conhecido de ambos: − Ô Lupi, nunca pensaste em te matar? − Não só pensei, Demosthenes, como me matei várias vezes… Rubens, carioca de São João de Meriti, radicou-se em Porto Alegrepor volta de 1941, compôs cerca de 40 canções com Lupicínio e foi tanto empregado como sócio do parceiro em pelo menos cinco bares e/ou restaurantes. É autor de algumas das melhores tiradas relativas ao amigo, daquelas que só os anos de amizade permitiriam

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que não acabasse em briga. Primeiro o apelidou de Casas Pernambucanas, cadeia de lojas cujo slogan era: uma filial em cada bairro. Depois, irritado com a constante chegada de Lupi rodeado de mulheres para comer e beber de graça no Batelão, sociedade de ambos, tascou: − Ô Lupicínio, você parece o São Francisco. − Mas que bonito, meu camaradinha! É porque eu vivo cercado de passarinhos? − Não, Lupicínio, não é o santo, é o rio! Porque você vive cercado é de piranhas…

Lupi e Rubens O detalhe é que, nesse meio tempo, Lupicínio havia finalmente abandonado a vida de solteiro. Ou melhor: de viúvo! Sim! Pois houve um casamento meteórico, absolutamente lupicínico: a moça se chamava Juraci, tivera uma filha com ele, e estava no leito de morte. Num penúltimo suspiro, pede que os dois se casem, para legalizar a situação da pequena. Boa alma e sem nada a perder, Lupi aceita e, em poucos dias, passa por três estados civis: solteiro, casado e viúvo. A criança, que se chama Tereza, passa a viver com ele, e vai junto quando, em 1953, Lupi se casa com a mãe de um novo rebento, batizado Lupicínio Rodrigues Filho. A nova moça se chamava Cerenita e, creiam, ele a tinha conhecido quase bebê. Aonde? Na mesma Santa Maria de Inah. Tem coisa mais Lupicínio?!?

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A maré andava tão boa que, apesar de desacreditadíssimo por seus amigos com relação a seus dotes vocais, Lupi surpreende a todos sendo contratado como… cantor! Estávamos em 1951 e há muitos e muitos anos isso não acontecia. Primeiro foi a Rádio Farroupilha, que acertou um ano de contrato para Roteiro de um Boêmio, programa semanal com a seguinte ideia: o compositor cantando e contando suas músicas. Deu tão certo que, terminado o ano, a gravadora Star – futura Copacabana – o chamou para um álbum com quatro discos de 78 rpm, batizado com o mesmo nome. Ali, acompanhado pelo trio do pianista Simonetti (piano, violino, contrabaixo) e, ainda que prejudicado pela qualidade técnica, que não é das melhores, se fazia conhecer o melhor intérprete de sua obra: um insuspeito ele mesmo. Cool e sutil, tava mais do que nunca revelado o intérprete herdeiro direto de Mário Reis. Ou, se o amigo preferir – tenho lá minhas ressalvas –, um bossa-novista avant la lettre.

Aqui já o disco de 10 polegadas. Mas a capa do álbum é igualzinha. Avant, sim. E tanto que, para a maior parte de seus colegas de boemia, era simplesmente ridículo ele levar sua própria voz ao disco. Logo agora, que vinha sendo gravado por cantores espetaculares – e impecavelmente técnicos – como Francisco Alves ou Orlando Silva. Pra quê?! A única exceção entre os incrédulos: Hamilton Chaves. E com um importante esclarecimento: Tu não é cantor, rapaz. Põe na tua cabeça! Tu é intérprete, tu está além da época. Neste país subdesenvolvido, cantor é quem tem voz operística.

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Hamilton Chaves. Jornalista, compositor. Sábio. Mas não foram só os discos que partiram da popularidade do programa na Farroupilha. Terminado o contrato, a Rádio Record de São Paulo o leva para uma rápida temporada da mesma ideia, agora sob o nome Diários de Lupicínio Rodrigues. Pouco antes ele tinha sido sondado para apresentações na cidade, na prestigiada boate Oásis. Juntou a fome e a vontade de comer e, depois de um tempão sem sair da cidade, lá se foi ele, originalmente, pra ficar umas poucas semanas. Só que a temporada na Oásis foi consagradora: dois meses em cartaz – há quem fale em cinco –, sempre com casa cheia. E isso, num palco acostumado a receber Sílvio Caldas, Francisco Alves, Dorival Caymmi… Tudo foi tão surpreendente que, a partir daí, e até o fim da vida, Lupicínio passou a considerar esse como o maior momento de sua carreira. A partir de então, ficaria finalmente claro que o compositor era, também, cantor. Estranho aos padrões dos anos 1940 e 50, mas cantor. O que não é de espantar pra quem está lendo este texto e lembra que o cara começou a vida justamente como crooner. Mas corriam então os anos Mario Reis. Já neste meio de século o clima já não estava nada favorável a cantores de fala mansa (o próprio Mário Reis tinha se retirado dos palcos, e a geração de Dick Farney e Lucio Alves recém começava a aparecer).

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Com o suuuper equipamento que comprou - pra ouvir seus discos, claro. É nesse momento que, como ele decidira não deixar Porto Alegre, a montanha passa a ir a Maomé. São tantos cantores e compositores procurando Lupi para músicas ou parcerias que a cidade chega a ser chamada (no Rio!) de “A Capital do SambaCanção”. Toda a nova geração surgida ou popularizada nos anos 1950 gravaria Lupicínio: de Luiz Gonzaga e Carmélia Alves a Lúcio Alves, passando por Nelson Gonçalves, Roberto Silva, Jorge Goulart, Marlene, Linda e Dircinha Baptista, Nora Ney e Ângela Maria (estas com direito a arranjos do então desconhecido Tom Jobim).

Tocar, não tocava, mas estava sempre cercado de grandes músicos

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É quando Lupicínio compõe uma das músicas pela qual seria para sempre lembrado por muita gente: o Hino do Cinquentenário de seu time – Grêmio Football Porto-Alegrense. Cuja letra começa glosando o mote de uma greve dos transportes ocorrida naquele momento: até a pé nós iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver. O que era pra ser um tema da hora, só pra comemorar aqueles primeiros 50 anos, em 1953, acabou desbancando o hino oficial do clube, do qual ninguém mais lembra. Afinal, hino escrito por Lupicínio, naquele momento, era um luxo que uma torcida jamais dispensaria.

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Na sua coluna da Última Hora, Lupi conta a história do Hino e ainda explica sua gremistice. Seus últimos grandes momentos se dão junto com os estertores da década, graças à popularização do LP. Com o novo formato, começa a tornar-se comum uma prática até então rara: regravar canções já lançadas. Nos tempos do 78 rpm, o mais comum era dizer46


se: Carinhoso, música de Pixinguinha e João de Barro, criação de Orlando Silva. E aí, pronto: ninguém arriscava recriar… Pois Ângela Maria – então explodindo –, ousa dar sua versão para o imenso sucesso de Francisco Alves, Cadeira Vazia. Mesma coisa com Elza Soares, que arrebenta com Se Acaso Você Chegasse, ainda mais suingada do que Cyro Monteiro (curiosamente a canção foi a estreia de ambos). Pra fechar, Jamelão. O vozeirão passava por Porto Alegre como crooner da Orquestra de Severino Araújo quando decide conhecer pessoalmente o compositor de tantas das canções que ele interpretava nos dancings. Ficam amicíssimos, e o carioca começa a emplacar sucesso após sucesso: Ela Disse-me Assim, Quem Há de Dizer… A partir daí, se autonomeia uma espécie de intérprete oficial de Lupi, mantendo o cargo até sua morte, em 2008, aos 95 anos de idade. *

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Tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, mas aí entram os Anos 60. As sucessivas explosões de, pela ordem, Bossa Nova, Jovem Guarda, MPB politizada e Tropicália enterra viva quase toda a geração de Lupi. Eles eram o ‘velho’ – cada vez mais opostos ao ‘novo’ que surgia a cada semana. E se Ary Barroso e Dorival Caymmi se salvavam – tanto pela modernidade quanto pela temática pouco datada da maior parte de sua obra –, Lupicínio era por demais emblemático do Brasil anos de 1940/50 para escapar. Reunia à perfeição praticamente todas as patologias que jovens e adultos jovens dos anos de 1960 queriam, mais do que tudo, esquecer. Chega a lançar um LP pela Copacabana e a assinar uma coluna semanal – basicamente de memórias de suas melhores canções – no jornal gaúcho Última Hora (publicadas entre fevereiro de 1963 e 64, e reunidas em livro muitos anos mais tarde). Durante uma década inteira aconteceu pouco mais que isso… *

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A ducha fria definitiva de realidade é de 1967, quando ele inscreve a saudosista No Tempo da Vovó no II Festival Internacional da Canção, o FIC. Não é nem classificado. O clima estava mais para 47


prodígios como Chico Buarque ou estreantes como Milton Nascimento e Gutemberg Guarabyra. Quem prestaria atenção num cara que, além ser o emblema do velho (e tinha pouco mais que 50 anos!), ainda me vem falar no tempo da vovó?!?!? Só que justamente nesse mesmo 1967 – ano também em que explode a Tropicália –, o poeta, teórico e mentor do movimento concretista Augusto de Campos escreve um artigo surpreendente sobre Lupicínio. Augusto, Haroldo de Campos e Décio Pignatari (o Trio Parada Dura da poesia concreta) o haviam conhecido numa histórica noitada porto-alegrense. Passaram riquíssimas horas a seu lado no Clube dos Cozinheiros, restaurante de Rubens Santos, onde Lupicínio dava canja… nas panelas (eu acho que cozinho melhor do que componho, do que canto…). Ao longo da noite, os três foram ficando cada vez mais embasbacados com a inexistente fronteira entre o sublime e o grotesco da obra de um compositor no qual nunca haviam prestado atenção. De quebra, ainda tiveram uma aula magna de um doutor honoris causa, PhD em diferenças entre dores-decotovelo municipais, estaduais e federais – as últimas invariavelmente resultando em música. O artigo escrito por Augusto se chama Lupicínio Esquecido?, e já abre puxando orelhas: Tempo houve em que se falava de Lupicínio Rodrigues como “o ídolo de sua terra natal”, o Rio Grande do Sul. A impressão que tenho, hoje, é de que o compositor anda meio marginalizado, incompreendido até em sua própria terra e esquecido fora dela. Lá pelas tantas, tenta explicar esse esquecimento baseado na audição de seus discos como intérprete, onde Lupi é, como já comentamos, o oposto do que se considerava então uma “grande voz”: A Velha Guarda não tem como incorporá-lo, a não ser na base do samba rasgado de Se Acaso Você Chegasse, e as gerações mais novas, intelectuais e sofisticadas, não sabem como situar o aparente anti-intelectualismo das composições de Lupicínio e parecem não ter se dado conta do que e de como ele canta. Segue traçando paralelos entre Lupi e ninguém menos que a trinca William Shakespeare, João Gilberto e Nelson Rodrigues (outro 48


então amaldiçoado). E conclui, enfático e profético, chamando a atenção para o injusto esquecimento a que tinham relegado a Lupi os meios musicais de São Paulo, do Rio e de Porto Alegre – os gaúchos, em especial, que às vezes parecem consentir na omissão de que é vítima o seu maior valor em música popular. Exceto por alguns tropicalistas e curiosos, naquele momento ninguém dá muita pelota pro artigo. Mas seu insight vai se provar totalmente verdadeiro, num futuro bem próximo.

O artigo de Augusto de Campos acaba no primeiro grande livro moderno escrito sobre música popular brasileira. O imperdível "Balanço da Bossa - E Outras Bossas". Lupi está nas "Outras Bossas", bien sûr... Em 1968 Lupi tenta novamente um festival – a I Bienal do Samba. Chega até a se classificar, mas não emplaca na final. Em 1969, sua última experiência no gênero é no Festival de MPB da TV Record – em sua quinta, última e desprestigiada edição. Isaurinha Garcia, outro ícone da mesma geração, defende Primavera (dele e Hamilton Chaves), que chega às 12 finalistas, mas não ganha nada. Também pudera: o vencedor é o revolucionário Sinal Fechado, de Paulinho da Viola. Perfeito: o sinal parecia definitivamente fechado. E não era só ele: para o fotógrafo Ricardo Chaves, filho de Hamilton Chaves (em depoimento dado em 1994), aquele cara era só um amigo de seu pai, que tinha escrito uma esquecida canção para ele décadas antes. Chaves tinha 23 anos de idade e cinco de profissão quando Lupicínio morreu. Hoje, aos 61, ele comenta: O pior que é isso mesmo. Morro de culpa e arrependimento de não ter 49


aproveitado essa relativa intimidade para produzir um puta ensaio fotográfico sobre o Lupi. Lamento profundamente não ter sido minimamente lúcido para “saber” quem era O CARA. A ficha começou a cair quando, fotografando o entêrro do poeta/compositor, vi, pela primeira vez, meu pai chorando. Com irreversível atraso, percebi que ELE deveria ser mais importante do que eu supunha. A tal canção, só pra lembrar, era nada menos que Esses Moços. *

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Tudo, mais uma vez, começa com João Gilberto. Em 1971, o último sujeito que alguém imaginaria cantando uma canção de Lupicínio morava no exterior. Depois de longos anos, vêm ao Brasil gravar um programa de TV na Tupi. Aí, durante o show, para surpresa geral, canta Quem Há de Dizer. Na voz de João, a canção se despia de todo o melodrama que lhe haviam aplicado Francisco Alves e Jamelão. E se desvela como nunca sua letra, mais uma obra-prima do coloquial, feita com Alcides Gonçalves, contando uma história real do parceiro. Que submerso na mais pantanosa cornitude, tocava piano pra que outros homens dançassem com sua amada, taxi-girl da Boate Marabá. Com requintes de sado-masoquismo, Alcides assistia tudo graças a uma espécie de “espelho retrovisor” colocado atrás do piano. O irônico é que a versão de João e cortada na edição final do programa e nem chega a ir ao ar, mas muita gente ficou sabendo do fato. E curiosidade mata - ou deixa esperto. O pessoal começou então a se perguntar se não podiam ter lá o seu encanto aquelas canções então consideradas de absurdo mau gosto, coisa de putas pobres em cabarés de beco? Afinal, seu texto tem tudo a ver com as ambições igualmente coloquiais da Bossa Nova. Só troca o teor dos amores. Se na Bossa o dia-a-dia era de namoricos de praia e das garotas de família que começavam a dar, nos tempos de Lupi isso era privilégio das damas da noite, que poderiam até ser tiradas da vida se encontrassem um homem bom – e estivessem dispostas a isso, claro. Aquele era o cotidiano. E aquilo era o retratado: Quem há de dizer que quem vocês estão vendo naquela mesa, bebendo, é o meu querido amor? Repare bem, que toda vez que ela fala ilumina mais a sala do que a luz do refletor!

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O cabaré se inflama quando ela dança - e, com a mesma esperança, todos lhe põem o olhar. E eu, o dono, aqui, no meu abandono, espero – louco de sono! – o cabaré terminar. “Rapaz, leva esta mulher contigo!”, disse uma vez um amigo quando nos viu conversar. “Vocês se amam, e o amor deve ser sagrado. O resto, deixa de lado. Vai construir o teu lar!” Palavra!: quase aceitei o conselho. O mundo, este grande espelho, que me fez pensar assim: ela nasceu com o destino da lua – pra todos que andam na rua... -, não vai viver só pra mim. Em 1972, Caetano Veloso, como bom apóstolo de João Gilberto, volta do exílio londrino tocando em seus shows justamente... Volta. Estava armada a cena pro retorno de Lupi, depois de quase 15 anos de ostracismo. (É bem verdade que, em 1970, a primeira edição da série de fascículos e disco História da Música Popular Brasileira havia lhe dedicado um volume, gravando até uma faixa inédita). O baiano viera fazer show em Porto Alegre, e queria porque queria passar uma noitada como a que tiveram Pignatari e os Irmãos Campos. Esta se revela ainda mais animada, começando na casa noturna Chão de Estrelas, e ciceroneada pela apresentadora de TV Tânia Carvalho. Ele volta então ao Rio absolutamente seduzido pelo charme sestroso de Lupicínio. E, no calor da hora, firmara um “contrato” improvisado numa bolacha de chope, onde se comprometia: regravar à Dona Cerenita serena os versos da sua Felicidade. Cumpre o trato dois anos depois, no LP Temporada de Verão ao Vivo na Bahia, e com imenso sucesso. O curioso: sua versão pro (ex-) Xote da Felicidade recria completamente a canção. Transforma o alegre xote numa lentíssima toada com citações instrumentais de Luar do Sertão. E opera um pequeno milagre: é essa versão que vai ficar para sempre no imaginário nacional, servindo de base para todas as regravações posteriores. Ainda em 1972, Lupicínio grava na TV Cultura de São Paulo uma edição histórica do programa MPB Especial, de Fernando Faro – o mesmo que depois se chamaria Ensaio, e vem sendo reeditado em livros, DVDs e CDs. De volta a Volta, por sugestão de Caetano a canção é gravada por Gal Costa no mesmo 1973 em que Paulinho da Viola leva ao disco uma magistral versão de Nervos de Aço. E aí é o próprio Lupicínio que 51


retorna às gravações, desta vez na pequena gravadora Rosicler, que lança o LP Dor-de-Cotovelo – recolocado em catálogo quase anonimamente na década de 1990, disfarçado de coletânea da série de CDs Mestres da MPB, e só com seu nome na capa: Lupicínio Rodrigues. Vale procurar. É possivelmente o melhor resumo de Lupicínio por ele mesmo. Em 1974, mais um disco, desta vez batizado com seu nome e lançado pela gravadora Som. No mesmo 1974, Elis Regina vê que era a hora e finalmente ganha coragem pra gravar não uma, mas duas canções de seu conterrâneo. Estraçalha em ambas: a versão matadora de Cadeira Vazia sai num compacto duplo onde Caetano, Gil e Gal também cantam Lupi. Maria Rosa entra em seu LP daquele ano. Pra fechar, o cineasta Bruno Barreto coloca Esses Moços como música-tema da sua versão cinematográfica para o livro A Estrela Sobe, de Marques Rabelo. Era um momento nacional de assentamento da poeira dos anos de 1960 e da volta do samba ao gosto da população e da intelectualidade. Aí, como aconteceu com Cartola, Nelson Cavaquinho ou Clementina de Jesus, Lupicínio começa a fazer shows disputadíssimos, principalmente no Rio e em São Paulo. Numa das investidas cariocas, faz uma apresentação consagradora no palco cult do Teatro Opinião e, na mesma noite, ainda dá sua histórica entrevista para o Pasquim. A maré tinha virado, e agora ele era tietado por jornalistas, intelectuais e boêmios... Mas também por um público jovem, classe média e universitário. Curiosamente parecido com o que passava pela faculdade de Direito quando ele cuidava da porta, 40 anos antes. Mas durou pouco. As gravações de Elis e Caetano são duas das últimas notícias que ele recebe. Dia 21 de agosto de 1974 é internado na Unidade de Tratamento Coronário do Hospital Ernesto Dornelles. E já estava bem mal quando, dois dias depois, o filho lhe traz a notícia: Pai, Felicidade (na versão de Caetano) tá estourando na parada de sucessos! Ainda tem forças pra retrucar, irônico: Finalmente estão reconhecendo de novo o velhinho... Morre de insuficiência cardíaca decorrente de diabetes, dia 27 de agosto de 1974. Foi velado no Estádio Olímpico, do seu amado Grêmio, com o caixão coberto pela bandeira do time. Morria um pouco com ele uma geração que foi forçada a acreditar que, aos 60 anos 52


incompletos, o sujeito era um velhinho (vai explicar isso pra quem hoje vê por aí sessentões como Caetano, Chico, Djavan, Rita Lee...). E morria em grande estilo lupicínico: com uma jovem desconhecida sendo esbofeteada pela viúva em pleno velório. Acharam que era mais uma amante. Não era: era filha de uma delas. Mas pelo menos cumpriram metade do seu último desejo, dito a Cerenita três dias antes: Não quero ninguém chorando no meu enterro, quero todo mundo cantando. A partir de sua morte, o culto a Lupicínio só faz crescer. Até o final do milênio seria muitíssimo regravado, por gente que vai de Maria Bethânia e Zizi Possi aos gaúchos Almôndegas e até Fábio Júnior que jura que o espírito do compositor de vez em quando baixa no palco de seus shows e fica quietinho, num canto, só olhando (também, ia dizer o quê?). Mais tarde, citado e recitado por Cazuzas e Lobões, o finado boêmio foi, se não incorporado, ao menos apresentado à geração 80 do rock nacional. E a coisa evolui até a versão rock de Arnaldo Antunes pra rancheira Judiaria, que revela mais algumas das sutilezas de um curioso compositor popular que não tocava nenhum instrumento além de caixa de fósforos. Mas que, mesmo assim, criava maravilhas melódicas. É inacreditável que, desta forma tosca, tenham sido compostas melodias tão sinuosas quanto Torre de Babel, Fuga ou Nervos de Aço. Em 1988, a Cooperativa dos Músicos de Porto Alegre monta o espetáculo Coompor Canta Lupi, que é apresentado por todo o Estado e vira LP. Em 1994, o Governo do Estado do RS institui o Ano Lupi, em comemoração aos seus 80 anos de nascimento. No ano seguinte, a editora porto-alegrense L&PM lança uma coletânea das suas crônicas escritas para o Última Hora, sob o título Foi Assim. Dois anos depois, é a vez da heróica gravadora Revivendo editar uma espetacular caixa de quatro CDs reunindo as primeiras gravações de 88 de suas músicas. E, na virada do milênio, em Porto Alegre, seu filho Lupinho abre um bar temático em sua homenagem, batizado Se Acaso Você Chegasse. No mesmo embalo, o velho parceiro Rubens Santos encabeça o show Lupicínio às Pampas, que é apresentado no Rio de Janeiro e em Buenos Aires, reunindo ele, Luis Melodia, Paulo Moura e Adriana Calcanhoto, entre outros. Pra fechar, em 2000, Felicidade é a segunda canção mais votada por um júri de 31 jornalistas e músicos chamado pelo jornal 53


gaúcho Zero Hora formado para escolher A Música do Rio Grande – só perdeu pra Prenda Minha. * * * Há uma boa lista de intérpretes que dedicou discos inteiros à obra de Lupicínio. Além dos já citados, há desde Francisco Egydio, em 1962, até Noite Ilustrada, em 2003 – passando por Jamelão (1972 e 1987), Rubens Santos (1980 e 1984), Berê (1992), Joanna(1994), Wilson Paim (1998) e até o violinista Jerzy Milewski, com versões instrumentais, em 1996. Sua vida e obra também inspiraram dois curtas-metragens: Lupi: Profissão Boêmio (1983), dirigido por David Quintans, e Amigo Lupi (1992), de Beto Rodrigues. O filme de Beto, especialmente, é um impressionante acervo de imagens, depoimentos e música que, em apenas 17 minutos, reúne grande parte da turma. Sendo que de Johnson, Túlio Piva, Rubens Santos e Demosthenes Gonzalez são muito provavelmente os últimos registros (Túlio morreu em 1993, Johnson em 1995, Demosthenes e Rubens, em 2000). E há também Lourdes Rodrigues, Zilah Machado, Jayme Lubianca e até Cláudio Levitan (que tinha dirigido o Coompor Canta Lupi). Infelizmente, nenhum dos curtas são encontráveis, nem na internet, nem na vida real. Mas nada disso, no entanto, se compara à surpresa do crescente envolvimento do vanguardista Arrigo Barnabé com a obra de Lupicínio: Passei a me interessar muito quando ouvi os dois LPs que o Jamelão gravou com a orquestra Tabajara. Eu ficava cantando junto e fazendo uma interpretação arriguiana em cima do que o Jamelão cantava, com aqueles meus exageros que viraram marca depois quando gravei Clara Crocodilo em 1980. Isso (…) em 1974, na casa da Eliete Negreiros. Quando o Itamar [Assunção] gravou Ataulfo (Alves), eu pensei: se eu fosse fazer alguma coisa assim, de escolher um autor, seria Lupicínio. (…) Em 1998 fui convidado (…) para participar de um show em Porto Alegre, onde teria que interpretar quatro cancões do Lupicínio. (…) Depois, (…) uma homenagem ao Lupicínio, em 2001 ou 2002, no SESC Vila Mariana, com outros cantores – entre os quais, o Jamelão. (…) Em 2009 eu resolvi montar o show. Procurei então o Rubens [Amatto], da Casa de

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Francisca, e disse que queria fazer lá. Ele falou: – Animal!!! Foi assim… O que começou despretensioso, montado para os 40 lugares da Casa de Francisca, em São Paulo, acabou virando algo muito maior. Batizado de Caixa de Ódio, e encenado com grande teatralidade num registro de vai da ironia à entrega, em 2012 já tinha tido mais de uma centena de apresentações – algumas delas em Porto Alegre – e resultara num DVD e num especial de TV, feitos em parceria com o Canal Brasil. Mas não só. O veterano cineasta paulista Maurice Capovilla acabou chamando Arrigo para protagonizar o longa Nervos de Aço, também uma parceria com o Canal Brasil. No roteiro, ele é o cabeça de uma banda que prepara um espetáculo sobre Lupi e vive na carne alguns dos seus dramas. Muito em função do papel da cantora gaúcha Ana Paula Lunardi, que provoca um triângulo amoroso muito lupicínico. A previsão de estreia é em 2013.

Criador e Criatura: Arrigo e sua Caixa de Ódio

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Nas últimas décadas de vida Lupi era quase um segredo (res)guardado da sociedade porto-alegrense por seus músicos boêmios… Pro grosso da população, até pouco antes de sua morte o sujeito era, no máximo, uma figura folclórica: o mulatinho doce, de voz mansa e bigode fora de moda, dono de casas noturnas e restaurantes onde se apresentava informalmente, junto com o eterno amigo Rubens Santos. Algumas, como o lendário Batelão, até bem sucedidas, mas não o suficiente para mudar o conceito sobre seu dono. Outros sabiam de seu emprego como procurador do Serviço de Defesa do Direito Autoral ou de fiscal da Sbacem (o que exerceu por 28 anos). E que também era o autor do Hino do Grêmio e alguns velhos sucessos de tempos passados.

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O Jardim da Saudade, como suas outras casas noturnas, resistiram como seus últimos palcos, onde, mais do que cantar, pregava canções aos seus apóstolos

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Mas como encarar como uma estrela um sujeito que cumpria religiosamente a mesma rotina, de segunda a sexta? Está lá, numa das suas saborosas crônicas reunidas no Foi Assim: Eu acordo mais ou menos às 10 horas da manhã, dou comida pras minhas galinhas, pros meus passarinhos (…) A mulher vai me procurar no fundo do quintal (…) pra me dar café. Aí, depois, (…) eu faço a comida. Aí, então, eu durmo até as três, quatro horas da tarde. (…) Levanto, tomo meu banho, me arrumo, e vou a Sbacem. Aí saio do escritório às sete horas e continuo a noite até as quatro da manhã. (…) Tem que passar de boteco em boteco, aquelas igrejinhas todas.

Lar, sagrado lar Curiosamente, seu alvará de soltura valia só até as cinco da manhã. Se chegasse depois disso, a briga era certa – e, segundo alguns, quem apanhava era ele. Folgava no sábado e domingo, quando era totalmente família, de bombachas e chinelas. E ainda mantinha, sem fazer nenhum alarde disso, um asilo para pobres. Um sujeito tão ultrapassado que tinha inclusive a peculiar moral dos boêmios, e com peito suficiente para formulá-la com rara clareza na crônica Boêmio deve casar?: Se fizermos a média, vamos ver que os boêmios solteiros raramente atingem os 40 anos, enquanto os casados morrem de velhos, isto quando tiverem a sorte de encontrar no casamento a sua 59


segunda mãe, pois nossas esposas devem substituir nossas mães. A elas cabe a função de nos fazer chazinho de marcela e nossa sopinha quando estivermos de ressaca, e também nos passar uma carraspana quando estivermos abusando. Mas isto deve ser feito com carinho como fazia nossa mãezinha, e não com brigas, pois não é com brigas ou gritos que se prende um coração. Ainda está por ser escrita a tese que ligue Freud e Édipo a Teixeirinha, Vicente Celestino e Lupicínio… E sente a maravilha da conclusão da crônica: As esposas devem se sentir felizes quando seus maridos voltam de suas noitadas, porque sua volta é a maior prova de amor que um homem pode dar. Depois de ver tantas mulheres, nenhuma o prendeu e ele retorna feliz para dormir nos braços daquela que ele escolheu para ser sua eterna companheira.

Lupi e a Santa Cerenita. Dormindo com um barulho desses Imagina um cara desses em tempos hippies, pós-tropicalistas, divididos entre a vanguarda, o desbunde, a resistência à ditadura e o ufanismo do governo Médici… Fica pro fim a quase inacreditável canção Homenagem, lançada em 1961, ao vivo, no Cine Imperial lotado, e com a presença de toda sua família. O mote de ambos – canção e festividade – era a comemoração de seus 25 anos de carreira, considerando-se o início como as primeiras gravações de suas músicas, por Alcides Gonçalves. Note que, a essa época, Lupi estava casado há 12 anos, e já tinha comemorado os primeiros dez com um outro samba, chamado Exemplo. Em Homenagem, numa surpreendente inversão, a patroa legítima é que vira a outra. E quem é homenageada é Relinda, a dona

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de uma casa de tolerância que também vinha a ser a mãe de Analu, a recém-citada filha que o pessoal só conheceu no velório do pai: Eu agradeço essas homenagens que vocês me fazem, pelas bobagens e coisas bonitas que dizem que eu fiz. Receber os presentes, isto eu não tenho coragem: vão entregá-los a quem de direito deve ser feliz. Levem estas flores àquela que, agora, deve estar chorando por não poder estar neste momento aqui, junto de mim, pra receber estas honras que a outra está desfrutando. O nosso amor clandestino é que obriga vivermos assim. Levem estas flores e digam pra ela ficar me esperando que, no que termine a festa, eu irei abraçar meu amor. Pois, apesar de não sermos casados, é quem me inspira, está sempre ao meu lado, me acompanhando nas horas difíceis, nas horas de dor. O jornalista Paulo Santana, citando Hamilton Chaves, tem uma teoria sobre esse nível de provocação: Ele tinha uma doentia necessidade psíquica de brigar com suas namoradas. Ele provocava-as, ele enciumava-as. Ele sempre criava um triângulo amoroso, estimulava-o, divulgava-o para as duas mulheres que eram objeto do seu amor – e finalmente deliciava-se com as erupções dos dois vulcões à sua volta. Santana também replica outra história de Hamilton: Chaves contou que certa vez foi levá-lo até a casa de uma das suas namoradas, na Avenida Carlos Barbosa. Ficou esperando Lupicínio no carro. Como demorasse, entrou na casa e viu uma cena incrível: a mulher tinha enfiado o cano do revólver na boca de Lupicínio, que em vez de defender-se ou pedir clemência, tinha os olhos brilhantes de orgulho e as feições dominadas por um fulgor de felicidade. Só que, vai entender, este mesmo sujeito não demonstrava nenhum estranhamento em encontrar Caetano Veloso de batom e figurino desbundado, como contou o próprio na revista brasiliense Bric-a-Brac, em 1991:

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Pintava a boca com batom vermelho, vermelhíssimo, e o cabelo grandão. Ficava meio Gal. Saí do show para encontrar o Lupicínio. Fui com esse batom vermelho. Usava um bolerinho de cetim, uma calça justíssima, bem baixa, uns tamancos… (…) não teve nenhum clima de machismo e nem teve nenhuma reação de choque ou de espanto. Absolutamente nada. Ficou na dele. Cheguei e disse: “Estou chegando do show e nem tive tempo de ir ao hotel”. Ele abriu os braços: “Oh, Caetano, que alegria, senta aqui”. Muito doce. Fiquei impressionado com o estilo dele. Aquelas letra de corno gaúcho… (risos). Falando em depoimentos, não há que encerrar sem antes incluir este, encantador e esclarecedor, de Jerônimo Jardim, em 2012: Eu morava em Bagé. No exercício da advocacia, às vezes vinha à Porto Alegre. Quando isso acontecia, aproveitava para dar “canja” nos bares que o Lupi mantinha com o Rubens Santos. (…) Quando ele era proprietário do Batelão e eu começava a aparecer com boas colocações em festivais, certa noite ele me convidou para sair de seu lotado bar. O convite foi mais ou menos esse: “Guri, vamos ver as gurias por aí?” Saímos em seu carrão de fabricação americana. Ele não era de muita conversa, ao menos comigo. Fomos em dois bares lotados de música ao vivo. Ele era recebido com deferências. Nas rádios, suas músicas não mais tocavam. Eram consideradas cafonas, “dor de cotovelo”. Mas nas noites boêmias, nunca deixaram de reinar. No primeiro bar que chegamos, nossa mesa logo se encheu de mulheres aduladoras. Ele foi convidado a cantar. A seguir me chamou ao palco. Generosamente me promoveu. No segundo bar, tudo se repetiu. Foi uma noite inesquecível, passada em companhia do maior compositor gaúcho de todos os tempos. (…) A última lembrança que guardo dele foi a tensão em seu velório no Estádio do Grêmio, vivida pela família que temia o aparecimento das incontáveis admiradoras que conquistou. Pra concluir, só um bordão reincidente de nosso perfilado: Se está de saia, e não é padre nem escocês, eu vou conferir. *

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Lupi teve gravadas 150 canções. Só Vingança, segundo o (confiável) site www.memoriamusical.com.br, tem 79 gravações diferentes no Brasil – o filho Lupinho fala em qui-nhen-tas versões, o que a faria bater Garota de Ipanema, uma das músicas mais regravadas da história. Já o número total de composições, conforme quem conta, varia entre 300 e 600. Incontestáveis são as duzentas registradas na SBACEM – 88 delas, as registradas nos tempos dos 78rpm, estão minuciosamente elencadas pelos pesquisadores Nirez e Jairo Severiano. Certamente muitas delas foram perdidas para sempre – ou resistem na memória dos últimos velhos boêmios gaúchos que com ele conviveram, como o Professor Darcy. Muito desse acervo oral se foi com a morte de Rubens Santos e Johnson, arquivos ambulantes de sua obra.

Rubens e Lupi, os melhores amigos O fato é que, nascido no Rio de Janeiro dos anos 1920, o samba-canção chegou à sua forma máxima a partir de Lupicínio – só mais tarde Cartola e Nelson Cavaquinho também elaborariam obras63


primas do gênero. Não por acaso, foi a ele que Lupi se entregou com a maior dedicação – ainda que também tenha composto samba-choro, guarânia, marcha de carnaval e até alguma coisa de música regional gaúcha. Luiz Tatit, no livro O Cancionista: Em alguns minutos, um samba-canção pode despertar no ouvinte um grau de emoção comparável à narrativa de um filme de duas horas ou mesmo de um romance que exija meses de leitura. (…) Esta é a questão para um cancionista: fazer com que a experiência relatada pareça ter sido realmente vivida. (…) Lupicínio foi dos mais hábeis e audaciosos compositores engajados à mensagem passional. Hábil pela rapidez em construir uma situação locutiva convincente e audacioso por operar na tangente do falso sentimento, aprumando com as melodias os excessos do texto. Mas é pouco provável que Lupicínio se orgulhasse de uma grande sacada teórica como essa (aliás, terá ele lido o ensaio de Augusto de Campos?). Do que ele gostava mesmo era dizer que jamais escreveu uma letra que não contasse uma história verídica. Todas eram diários, cartas, crônicas. Para ele, aquilo era um vício cotidiano que transformava em grande arte e ainda lhe dava um dinheirinho: Tive muitas namoradas na minha vida. Umas me fizeram bem, outras me fizeram mal. As que me fizeram mal foram as que mais dinheiro me deram, porque as que me fizeram bem eu esqueci. (…) Meu primeiro automóvel foi comprado com o dinheiro de um samba feito para uma mulher… Minha casa foi adquirida com o dinheiro de um samba que fiz para outra, também por causa de uma traição… Imbuído da mais castiça falsa modéstia, o autor de duas dúzias de clássicos da música brasileira talvez encerrasse assim este texto: Eu não sou músico, não sou compositor, não sou cantor, não sou nada. Eu sou é boêmio. Seja feita a sua vontade.

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A fenomenologia da Cornitude: Lupicínio Rodrigues... by Portal Academia do Samba - Issuu