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A gestão das grandes festas públicas urbanas: os carnavais de Barranquilla e Salvador – apontamentos

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A GESTÃO DAS GRANDES FESTAS PÚBLICAS URBANAS: OS CARNAVAIS DE BARRANQUILLA E SALVADOR – APONTAMENTOS SOBRE A PESQUISA Caroline Fantinel1 Resumo: Este artigo apresenta os primeiros passos do estudo de doutorado da autora, através dos principais pontos do seu projeto de pesquisa. O objetivo é analisar comparativamente duas grandes festas públicas urbanas no contexto da América Latina – no caso, Barranquilla, na Colômbia; e Salvador, no Brasil, considerando a sua condição de patrimônio cultural imaterial que, contemporaneamente, experimenta processos de transformação acionados pela mercantilização, espetacularização e turistização dos festejos. Palavras-chave: festas públicas urbanas, carnaval de Barranquilla, carnaval de Salvador, gestão da festa, patrimônio cultural imaterial.

APRESENTANDO A PESQUISA O ato de festejar é item basilar para se compreender a cultura de qualquer sociedade. No caso do Brasil, temos essa questão potencializada. Há muito que nós, os brasileiros, convivemos com a ideia de um país tão intimamente ligado à festa e, principalmente, ao carnaval. A folia momesca de cidades como o Rio de Janeiro, Recife e Salvador é assunto comum e central de, se não todos, grande parte dos veículos de comunicação do país durante os meses mais tropicais do nosso calendário – sem falar das repercussões no cenário internacional. O que muito bem nos alertam Risério (1995) e Miguez (2013) é que, para além da massiva midiatização dessas três festas, o Brasil é um país de muitos outros carnavais, espalhados por toda a sua extensão continental. Ampliando ainda mais o nosso campo de visão – que, por vezes pode beirar a pouca modéstia, já que tratamos do Brasil como “o país do carnaval”, devemos atentar para o fato de que, rompendo com as fronteiras nacionais, o Momo encontra territórios bastante seguros, existindo também como uma tradição festiva e cultural acentuadamente forte mundo afora. Na Europa, continente de origem da folia, até hoje cidades como Nice, na França, e Veneza, na Itália, têm carnavais bastante tradicionais e com volumosa participação popular. O mundo ibérico também flerta com o Momo há 1

Doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (IHACUFBA), sob orientação do professor Paulo Miguez. E-mail: fantinel.caroline@gmail.com


séculos. E foi daí, principalmente de países como Portugal e Espanha, que as Américas conheceram, através dos seus processos de colonização, os festejos carnavalescos. E do lado de cá do Atlântico, diga-se de passagem, a festa nunca mais parou. A festa é o espelho do chão onde acontece e da gente que a compõe. Consequência disso são as inúmeras particularidades criadas e difundidas nesses tantos territórios festivos onde o Momo reina a cada ano. Assim, da mesma forma como vem sendo com termos como “identidade” e “cultura”, a palavra “carnaval” não pode mais ser pensada no singular. Longe de uma homogeneidade, a pluralidade é uma das suas características mais fortes, é o que define a sua riqueza simbólico-cultural e, por que não dizer, é um dos fatores que lhe garantiu a força necessária para ultrapassar tantos séculos e tantas adversidades enfrentadas ao longo desse tempo. Compreendendo desta forma, o carnaval incorpora múltiplos sentidos, acontecendo de modos e com razões diferentes para os diversos grupos que o festejam. Assim, ele é caracterizado por uma multiplicidade de vozes, de cenários e de modos de organização, assumindo uma rede complexa de significados sociais, culturais e políticos específicos em cada uma das diferentes sociedades onde acontece. Dentre tantos aspectos possíveis e ricos para serem analisados em uma festa de grandes proporções, como é o caso do carnaval, nos chamou a atenção exatamente a questão que acabamos de abordar, a pluralidade que o define. Esse entendimento de que muitos e tão diferentes carnavais acontecem mundo afora foi o ponto de partida para a proposta da pesquisa que apresentamos nesse artigo. A ideia central do projeto é compreender essa diversidade carnavalesca partindo, obviamente, de um determinado recorte territorial – no caso, a América Latina representada pelo carnaval de Barranquilla, na Colômbia; e de Salvador, no Brasil. A escolha por esse recorte territorial específico se deu por alguns aspectos compartilhados entre eles. Os dois modelos de carnaval selecionados são grandes festas públicas urbanas, ocupam uma importância como patrimônio cultural intangível e, contemporaneamente, experimentam processos de transformação acionados pela mercantilização, espetacularização e turistização. Dessa forma, acreditamos – ainda que de forma hipotética, que ambos demandem modelos de gestão complexos a fim de que seja possível, diante desse conjunto desafiante de inflexões a que estão sujeitos, transformarem a festa e mantê-la viva, sem descaracterizá-la. A partir do recorte territorial feito, o objetivo inicial é levantar informações sobre os carnavais selecionados a fim de formar um quadro analítico rico em dados,


composto pelos principais aspectos que configuram, atualmente, essas duas festas. Será essencial compreender a história de cada uma; as linguagens artísticas que as compõem; os seus aspectos políticos, econômicos e culturais; o uso espacial; os modelos de gestão empregados; o fluxo e as formas que o turismo é tratado. Certamente, ao longo das pesquisas de campo previstas, outros importantes elementos aparecerão e nos servirão de subsídio para visualizar e analisar a pluralidade festiva que objetivamos compreender. Em paralelo à construção desse quadro analítico, pretendemos que a pesquisa alcance outros desdobramentos, a fim de que tenhamos um resultado final ainda mais rico e profundo. Um dos aspectos que almejamos que ganhe espaço de destaque no trabalho é a forma como se dá a gestão dessas festas. A ideia é traçar, também, um quadro

comparativo

com

os

diferentes

modelos

de

gestão

dos

carnavais

selecionados, analisando desde a forma como são planejados, até a sua execução e os resultados que impactam diretamente essas festas. Nesse sentido, também consideramos essencial compreender o processo de elaboração e aplicação das políticas culturais no âmbito da gestão das duas festas em questão, objetivando analisar os impactos que isso acarreta na configuração atual dos carnavais na sua condição de patrimônio cultural intangível. Confirmando a importância de abordarmos este tema na pesquisa, Rubim (2011) afirma que as políticas culturais costumam não reconhecer as festas como elemento cultural relevante, tendendo a abandoná-las ou alocá-las em políticas que lhe atribuem demasiado aspecto mercantil e clientelista. Diante disso, ele alerta para a urgência de se pensar e desenvolver um campo específico nas políticas públicas para atender a multiplicidade de dimensões das manifestações festivas. Estimamos que o resultado

deste

trabalho

seja

ferramenta

colaboradora

neste

processo

de

amadurecimento do campo das políticas culturais para festas. Ainda, a importância que a festa carrega na sua composição lhe garantiu espaço privilegiado no contexto do “patrimônio cultural imaterial”. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) criou, no ano de 2002, uma política específica de salvaguarda desses bens, por considerar que esse trabalho de resgate pode também significar a retomada da festa como espaço sagrado de encontro, celebração, tradição e criação. Entendendo a importância que é garantida à questão da memória das festas, pretendemos dar espaço para esta abordagem na investigação proposta. Buscaremos compreender como se dão os processos de transformação desses dois modelos de


carnaval, aspirando uma análise que nos permita entender se a memória é tratada como elemento estratégico pelos seus gestores, a fim de salvaguardá-las enquanto patrimônio.

EIXOS TEÓRICOS E ESCOLHAS METODOLÓGICAS A pesquisa proposta se fundamentará em quatro eixos teóricos principais – estudos da festa e do carnaval; gestão da festa; políticas culturais; e memória e patrimônio. Não é objetivo deste artigo expor em detalhes a fundamentação teórica do projeto. Optamos, então, por sinalizar apenas os nomes dos autores escolhidos para preencher cada um desses eixos. Para o primeiro, a base virá de teóricos como Mikhail Bakhtin, Julio Caro Baroja e Peter Burke; ainda, as análises acerca do carnaval de Salvador serão guiadas, especialmente, por Roberto da Matta, Olga Von Simson, Rita Amaral, Paulo Miguez, Antônio Risério e Milton Moura; Danny González Cueto, Edgar Rey Sinning, Joseania Miranda Freitas, Nina S. Friedemann e Marcos Gonzáles Péres serão fontes preciosas para o entendimento do colorido Carnaval de Barranquilla. Para nos auxiliar na complexidade do tema da gestão da festa, buscaremos a experiência do professor Paulo Miguez, que aborda este assunto em alguns dos seus textos – principalmente sobre o carnaval de Salvador. Já na tratativa das políticas públicas para a cultura contaremos com nomes como Antônio Albino Rubim, Alexandre Barbalho, Isaura Botelho, Lia Calabre e Paula Félix dos Reis. Finalizando, o eixo teórico que trata da relação de festa, memória e patrimônio contará com autores como Maurice Halbwachs, Michael Pollak e Jacques Le Goff – todos têm publicações reconhecidas sobre memória, história e identidade. Também, o colombiano Paolo Vignolo, que trata da memória de festas populares colombianas; e, ainda, a baiana Márcia Sant'anna, pesquisadora de políticas de preservação, será essencial para avançarmos nessa temática. Para

atingir

os

objetivos

postos,

a

pesquisa

seguirá

procedimentos

metodológicos, em sua maior parte, de base qualitativa e comparativa. O método qualitativo se configura pelo fato de ter no ambiente natural a sua fonte de dados, sendo o pesquisador seu principal instrumento; as informações colhidas são, na sua maioria, descritivas; é direcionada mais atenção ao processo do que ao próprio produto; o valor que as pessoas dão à sua vida são fontes importantes de estudo; e, por conta dessas características, o processo da análise dos dados tende a ser indutivo (Ludke, André; 1986). Nesta etapa estará estruturada toda a pesquisa de campo, contemplando entrevistas com os principais responsáveis pelo processo de gestão das festas, bem


como com atores que se mostrem relevantes no contexto festivo pesquisado, como artistas, produtores, comerciantes, etc. Ainda, a observação direta das duas festas está prevista por ser considerada ferramenta indispensável para a análise que está sendo proposta. O método comparativo, na visão de Schneider e Schimidt (1998), pode ser considerado como inerente ao processo de conhecimento nas ciências sociais. É por essa via que torna-se possível “descobrir irregularidades, perceber deslocamentos e transformações, construir modelos e tipologias, identificando continuidades e descontinuidades, semelhanças e diferenças”. Fazem parte deste método, etapas como a seleção de duas ou mais séries de fenômenos que sejam efetivamente comparáveis e a definição dos elementos a serem comparados. Com base nessa definição do método, faz-se pertinente seu uso nesta pesquisa, tendo em vista que analisaremos comparativamente dois objetos que, por mais que apresentem diferenças, são possíveis de comparação por contemplarem uma série de itens plausíveis de serem elencados e estudados usando a comparação. É isto, aliás, que possibilitará desenvolver alguns dos objetivos desta pesquisa, já que essa metodologia auxiliará na construção dos quadros analítico-comparativos que são propostos no projeto. Com esta pesquisa, pretendemos, então, investigar para além dos traços de universalidade característicos do carnaval. Trata-se de uma festa que não possui fronteiras, entretanto em cada ponto do globo em que acontece ela apresenta particularidades em seus mais diversos planos – histórico, político, econômico, cultural, gerencial, espacial, etc. É essa diversidade que queremos descobrir, compreender e analisar comparativamente nos ricos carnavais da América Latina, no caso Salvador e Barranquilla.

A IMPORTÂNCIA DE SE PESQUISAR O CONTEXTO DAS FESTAS POPULARES Já defendemos aqui a compreensão de que as festas são o reflexo das sociedades onde acontecem. Complementa esse entendimento uma fala da antropóloga Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti em entrevista a Paulo Miguez, ao afirmar que “as festas são rituais, compreender uma festa é compreender um ambiente como um todo, porque muita coisa que não se fala no dia a dia, ali você encontra em alto e bom som” (CAVALCANTI, 2013, p.50).


As festas têm sido um tema cada vez mais abordado por diferentes áreas da academia e da sociedade em geral, o que vem rompendo com o preconceito com que muitas vezes era encarada. “Por contraposição à visão preconceituosa, floresce uma nova disposição de encarar as festas e acolher toda a multiplicidade de fatores envolvidos nelas” (RUBIM, 2011, web). Ainda sobre isso, Rubim defende que é Fundamental, portanto, um novo olhar sobre essas manifestações culturais. Uma atitude que não desconheça seus mais variados componentes, mas que tenha como horizonte preservar e promover o seu caráter cultural mais fundamental: a possibilidade de uma experiência, coletiva e individual, lúdica e singular, que expresse e mobilize corações e mentes. (RUBIM, 2011, web). Rubim (2011), como já citado, pede atenção e prioridade para que as festas sejam contempladas de forma correta no campo das políticas culturais – o que, segundo ele, não vem acontecendo. Também atentamos para o fato de que a bibliografia que trata do tema da gestão da festa ainda é muito restrita, necessitando contar com novas colaborações a fim de ser ampliada. Assim, este trabalho visa ser útil neste sentido – já que a análise da gestão dos carnavais e das políticas culturais empregadas nesses modelos de festa são objetivos essenciais dessa pesquisa. Ainda, buscando justificar outras escolhas sinalizadas no projeto de pesquisa, lembramos que um dos itens destacados na política de salvaguarda do patrimônio cultural brasileiro, implementada pelo IPHAN (2003), é a necessidade de se produzir conhecimento sobre esses bens culturais. No caso da festa, o entendimento do seu contexto histórico – do seu surgimento às diversas fases do seu desenvolvimento, são ferramentas metodológicas essenciais para compreender mais profundamente a sua configuração presente. Pesquisador do carnaval colombiano, Paolo Vignolo (2010), destaca a importância de resgatar a história dos carnavais como sendo uma iniciativa essencial de salvaguarda desse tipo de manifestação cultural, desde que se mantenha uma visão da festa como espaço criativo e aberto a mudanças. Em texto que trata da importância de ações que visem à salvaguarda de festas populares, a pesquisadora Márcia Sant’Anna (2013) defende que o simples registro e documentação da memória e da configuração presente das festas já valem como iniciativa de valorização simbólica, pois ressaltam seu caráter de documento histórico dos processos culturais, sociais e econômicos das sociedades. Com esses apontamentos, objetivamos justificar o projeto de pesquisa apresentado neste artigo, onde o tema central é a investigação da diversidade e da


complexidade que compõe as festividades carnavalescas em pontos específicos da América Latina.


BIBLIOGRAFIA CAVALCANTI, M. L. V. C.; MIGUEZ, Paulo. Festas populares brasileiras: entrevista/conversa com Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti. Revista Observatório Itaú Cultural, v. 14, p. 39-50, 2013. IPHAN. O registro do patrimônio imaterial: dossiê final das atividades da Comissão e do Grupo de Trabalho Patrimônio Imaterial. 2. ed. Brasília: Ministério da Cultura/Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2003. LÜDKE, Menga; ANDRÉ, Marli. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986. MIGUEZ, Paulo César. A organização da cultura na “Cidade da Bahia”. Salvador: Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia (UFBA), 2002. ___________________. A festa: inflexões e desafios contemporâneos. In: RUBIM, Linda; MIRANDA, Nadja. Estudos da Festa. Salvador: EDUFBA, 2012. ___________________. Muitos (outros) carnavais. Revista Observatório Itaú Cultural, v. 14, p. 131-140, 2013. MOURA, Milton. Carnaval e baianidade. Arestas e curvas na coreografia de identidades do carnaval de Salvador. Salvador: Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia (UFBA), 2001. RISÉRIO, Antônio. Carnaval: as cores da mudança. Afro-Ásia, Salvador, Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia; Edufba, n. 16, p. 90-106, 1995. RODRIGUES, Nina. Os africanos no Brasil. 7. ed. Brasília: São Paulo: Editora Nacional; Brasília: Editora da UNB, 1988. RUBIM, Antonio Albino Canelas. Políticas Culturais e Festas. 2011. Disponível em: <http://www.cultura.ba.gov.br/2011/07/04/politicas-culturais-e-festas/>. Acesso em 16 de novembro de 2013. SANT’ANNA, Márcia. A festa como patrimônio cultural: problemas e dilemas da salvaguarda. Revista Observatório Itaú Cultural, v. 14, p. 21-30, 2013. SCHNEIDER, Sergio; SCHIMIDT, Claudia Job. O uso do método comparativo nas Ciências Sociais. Porto Alegre: Cadernos de Sociologia, 1998. UNESCO. Textos fundamentales de la Convención para la Salvaguardia del Patrimonio Cultural Inmaterial. Paris: Sector de Cultura/Unesco, 2011.


VIGNOLO, Paolo. Carnaval, ciudadanía y mestizaje en Colombia. In: CRESPIAL. Patrimônio cultural inmaterial – fiestas. Cusco: Centro Regional para la Salvaguardia del Patrimônio Cultural Inmaterial de América Latina, p. 137-170, 2010.


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