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Samba de Roda: Muito mais que um patrimônio imaterial da humanidade

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SAMBA DE RODA: MUITO MAIS QUE UM PATRIMÔNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE Rachel Severo Alves Neuberger1 Resumo: O samba de roda é uma das expressões culturais mais significativas do Recôncavo da Bahia, uma vez que vai muito além do âmbito meramente musicalcoreográfico e adentra em questões mais profundas de fé, religiosidade, formas de afirmação, pertencimento e identidade/identificações. Neste território, Cachoeira é palco importante de tal expressão popular tradicional, com destaque para o trabalho desenvolvido pela doutora do samba, Dona Dalva Damiana. O objetivo, aqui, é apresentar contextualmente o samba de roda, valorizando, no entanto, seus aspectos mais subjetivos de empoderamento. 2 Palavras-chave: Samba de Roda, Recôncavo da Bahia, Dona Dalva Damiana

Introdução O samba de roda é uma manifestação musical, coreográfica e poética e permeia atividades econômicas, religiosas e lúdicas no Recôncavo da Bahia (DOSSIÊ IPHAN, 2006, p.11). A descrição do ex-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Luiz Fernando de Almeida, apesar de correta, não dá conta de trazer à tona tudo o que o samba de roda é, de fato, para as pessoas que vivenciam esta experiência, ou seja, é correta, mas não corresponde a toda a verdade. Mais do que música ou dança, o samba de roda proporciona união, espírito de fraternidade, comunhão, estabelece e reforça laços de amizade, afasta as dores do corpo e da alma, iluminando não só aqueles que cantam, dançam, batem palmas, mas todos os que testemunham essa ritualidade, cuja misticidade é reconhecimento para os mais iniciados e magia para os sentidos dos demais. Ouvir o samba de roda gravado é importante como forma de preservação e ampliação do conteúdo musical, principalmente no que tange a outras paragens; porém, a música é apenas parte da vivência do samba de roda e, realmente, apenas ouvir e não 1

Professora Assistente II da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) no curso de Comunicação Social / Jornalismo. Doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia (UFBA). rachel@ufrb.edu.br 2 Acompanha este artigo uma produção audiovisual disponível no Youtube https://www.youtube.com/watch?v=KNNCeIZZDL8


testemunhar os gestos, os olhares, a ginga, a malícia e, ao mesmo tempo, a doçura das sambadeiras é um dessabor, um encanto sem magia. Aqui, quer-se expor um pouco do contexto do Recôncavo da Bahia, uma vez que este território é marcado por trajetórias de desencontros e novos encontros, dores da diáspora e fé; fé esta que afasta o totalitarismo das religiões e promove mesclas que desafiam as certezas e criam novas possibilidades de acreditar no que, apesar de intangível, nos anima, ou seja, nos mantém vivos e em constante aprendizado. Para alguns, o sincretismo pode ser apenas uma forma de empobrecimento pela necessidade de adaptação a um conceito hegemônico, mas, certa de que não existem certezas, a união de diferentes saberes pode proporcionar outras possibilidades de ver a vida e vivêla. Afinal, o sincretismo religioso é um dos aspectos mais facilmente identificáveis no universo das práticas que não se excluem, mas se reconfiguram ao unir, no caso baiano, e mais especificamente no Recôncavo, o catolicismo e os elementos de matrizes africanas. Quem tem a chance de conhecer um pouco do Recôncavo da Bahia e, especialmente, Cachoeira, sabe que um dos momentos mais importantes para a cidade acontece em agosto quando as senhoras da Irmandade da Boa Morte realizam uma festa de caráter religioso sincrético, uma vez que são desenvolvidas atividades relativas à igreja

Católica

e

também

ao

Candomblé;

não

respectivamente,

mas

emaranhadamente. Nesta ocasião anual, o samba de roda também se faz presente, unindo num ritmo coletivo o profano ao sagrado. Uma das irmãs da Irmandade da Boa Morte é Dona Dalva Damiana, também fundadora e responsável pelo Samba de Roda Suerdieck, que leva esta expressão popular para o restante do mundo. Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Dona Dalva disse uma vez: “O samba não tem parte com a morte, o samba tem parte com a vida (...) O samba é a alegria da gente. O samba é a liberdade.” (MARQUES, 2008, p.116), ressaltando o caráter transcendental desta experiência multisensorial. Recôncavo da Bahia – Cachoeira O conceito de “região” tem sido mais abrangentemente re-significado no que se configura

contemporaneamente como “territorialidade”3, indo da geografia à

complexidade das interações humanas no/e com o espaço, permitindo, inclusive, uma 3

Perspectiva trabalhada por Milton Santos.


imbricação de territórios em uma mesma região, dada a culturalidade múltipla - como é o caso da Bahia - presente desde os primórdios da colonização portuguesa. Tal mosaico cultural provém da miscigenação dos povos que habitavam o Brasil pré-colonial e os povos que vieram posteriormente, ou seja, europeus, com destaque para os portugueses, e os povos de nações africanas. Pioneira ao redefinir o conceito de região, a Bahia estabeleceu, em 2007, 26 territórios de identidade, que levam em conta traços comuns, ainda que plurais, no que diz respeito a fatores históricos, econômicos, sociológicos, políticos, administrativos e culturais, que contribuem para a formação de valores, hábitos e costumes locais e por expressões artísticas e culturais da região. Esta definição, que fique claro, não busca identificar culturas assépticas, mas particularidades que se destacam dentro de uma sociedade cada vez mais entrelaçada. O Recôncavo da Bahia, assim, compreende a região que circunda a Baia de Todos os Santos, descoberta pelos portugueses em meados do século XVI. Autores divergem em relação à delimitação geográfica da região, mas o governo estadual estabelece uma área bastante aceita atualmente, que compreende o chamado “Território de Identidade” do Recôncavo, englobando, assim, 20 municípios: Cabaceiras do Paraguaçu, Cachoeira, Castro Alves, Conceição do Almeida, Cruz das Almas, Dom Macedo Costa, Governador Mangabeira, Maragogipe, Muniz Ferreira, Muritiba, Nazaré, Santo Amaro, Santo Antônio de Jesus, São Felipe, São Félix, São Francisco do Conde, São Sebastião do Passé, Sapeaçu, Saubara e Varzedo. Mas mais do que isto: O Recôncavo é uma invenção histórica e uma configuração cultural que nasceu da aventura de alguns portugueses, e do infortúnio de muitos africanos e indígenas. Por isso, trata-se de uma unidade regional que foi concebida e é situada por dentro da história dos engenhos de cana, da escravidão e da indústria açucareira no Brasil. (DOSSIÊ IPHAN, 2006, p.25).

Assim, mais do que um espaço geográfico, o Recôncavo é um território de vivências híbridas, um espaço de agregação, ainda que permeado de muitas tensões. A região é importante historicamente por ter sido um dos primeiros lugares ocupados no país pelos portugueses e por ter sido berço da independência do país. Durante o período colonial (séculos XVI ao XVIII), a região foi uma das mais importantes produtoras de açúcar na América Portuguesa, mas o fumo e a mandioca também tiveram um papel de destaque para o crescimento da região. Por meio da navegação nos fundos da baía e nos estuários, a região chegava a ser a mais densamente ocupada do Brasil Colônia. O forte comércio trazia muita gente para esta localidade e, nestes encontros, passaram a acontecer miscigenações de índios,


portugueses e africanos. As belezas e as mazelas destas relações são poetizadas e transformadas em expressões culturais de grande riqueza; como é o caso do samba de roda, cujos primeiros registros datam ainda do século XIX. O cenário do Recôncavo, com destaque para Cachoeira, neste período é descrito a seguir: Durante o século XIX, Cachoeira projetou-se na história política do país. As lutas contra a canhoneira portuguesa, a proclamação do príncipe D. Pedro I como Regente, o bombardeio e a resistência (quando surgiu a heroína Maria Quitéria), são fatos que, ainda hoje, enchem de orgulho a população local. Durante a Guerra do Paraguai, a enfermeira cachoeirense Ana Nery alistou-se no exército brasileiro e foi de grande importância no auxílio às tropas. As histórias de glória são tantas que, no tempo do Império, a vila foi congratulada com o título de “Heróica”. No início do século XX, Cachoeira ainda mostrava grande estabilidade econômica. Nessa época, com a fábrica de charutos Dannemann e Suerdieck ainda em atividade, a cidade virou centro de referência na produção fumageira.4

Ascensão e decadência são lados opostos de uma mesma moeda e, portanto, esta região de grande riqueza econômica sofreu grande reviravolta com a mudança de percursos de ligação capital (Salvador)-interior, com a criação de rodovias e a crise da agroindústria açucareira. A economia regional só voltou a ter um pouco mais de fôlego na década de 1950, com a descoberta do petróleo. Em 1971, o município de Cachoeira foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1971, e passou a ser considerado Monumento Nacional. Atualmente, a instalação da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) também vem apoiando o crescimento da região e ajudando no reconhecimento da qualidade da cultura popular tradicional, tão ou mais importante que os próprios casarões históricos. Samba de Roda A música popular, num sentido amplo, vem sendo reconhecida há muito como um campo privilegiado da expressão cultural no Brasil. Ela é multifacetada, singular em comparação às músicas de outros países, plural no território nacional e, sob certos aspectos, ainda muito mal conhecida. Um gênero, no entanto, se destacou nacional e internacionalmente desde pelo menos os anos 1930, como sua expressão máxima: o samba. (DOSSIÊ IPHAN, 2006, p.69).

Como é possível verificar na citação acima, o samba é o principal representante da diversificada e qualificada música popular brasileira. Historiadores acreditam que surgiu no Rio de Janeiro, no início do século XX, a partir das expressões culturais de imigrantes baianos, advindos prioritariamente do Recôncavo. Variantes do samba de roda teriam gerado os conhecidos samba-enredo, samba de breque, samba canção e samba de partido-alto. De acordo com Sandroni (2010), o samba de roda difere do

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Disponível em: http://bahia.com.br/cidades/cachoeira/ Acesso: dez. 2013.


samba carioca, pois a posição circular não é circunstancial e o tipo de canto “adere melhor ao modelo 'responsorial' de canto coletivo, tantas vezes associado à música tradicional africana e afrodiaspórica” (SANDRONI, 2010, p.375). As principais características do samba de roda foram descritas no documento produzido pelo Iphan (2006): disposição dos participantes em círculos; presença de instrumentos como o pandeiro, o prato-e-faca e a viola (preferencialmente o machete, que está em extinção); os presentes participam do acompanhamento musical com palmas rítmicas; os cantos são estróficos e silábicos em língua portuguesa, de caráter responsorial e repetitivo, sendo que a estrofe principal (chula) pode ser cantada por dois cantores, enquanto a resposta (relativo) pode ser cantada por todos os presentes; e a coreografia, sempre feita dentro da roda, geralmente conta com um gesto chamado de miudinho, um movimento contido dos pés que se espalha pelo corpo e a dança é feita alternadamente, ou seja, um dançarino de cada vez. “O princípio da alternância relaciona-se também com um dos gestos coreográficos mais típicos do samba de roda, a famosa umbigada, ou choque de umbigos” (DOSSIÊ IPHAN, 2006, p.24). O samba de roda pode ser associado aos afro-descendentes, mas exibe traços dos europeus, a exemplo de alguns instrumentos musicais e a própria língua portuguesa. Esta união de diferentes culturas gerou apropriações, ressignificações, e criou algo profundamente singular. Este processo intercultural abarca, na visão de Canclini (2007, p.49): (…) o conjunto de processos através dos quais dois ou mais grupos representam e intuem imaginariamente o social, concebem e gerem as relações com outros, ou seja, as diferenças, ordenam sua dispersão e sua incomensurabilidade mediante uma delimitação que flutua entre a ordem que torna possível o funcionamento da sociedade, as zonas de disputa (local e global) e os atores que a abrem para o possível.

Na interculturalidade gera-se algo que transcende o unitário e, portanto, cria-se o novo, que não se mantém inalterado, mas que permanece em constante mudança a partir das relações que continua estabelecendo. É justamente neste entendimento de interculturalidade que Hall (in SILVA, HALL & WOODWARD, 2009) trata de identidades, termo que ele prefere denominar de identificações tendo-se em vista o caráter fluido das relações. Para Hall (in SILVA, HALL & WOODWARD, 2009, p.108): Essa concepção aceita que as identidades não são nunca unificadas; que elas são, na modernidade tardia, cada vez mais fragmentadas e fraturadas; que elas não são, nunca, singulares, mas multiplamente construídas ao longo de discursos, práticas e posições que podem se cruzar ou ser antagônicos.


O conceito é corroborado por Silva (in SILVA, HALL & WOODWARD, 2009, p.96-97) que diz: A identidade não é fixa, estável, coerente, unificada, permanente. A identidade tampouco é homogênea, definitiva, acabada, idêntica, transcendental. Por outro lado, podemos dizer que a identidade é uma construção, um efeito, um processo de produção, uma relação, um ato performativo. A identidade é instável, contraditória, fragmentada, inconsistente, inacabada. A identidade está ligada a estruturas discursivas e narrativas. A identidade está ligada a sistemas de representação. A identidade tem estreitas conexões com relações de poder.

Este apanhado sobre a interculturalidade e as identificações corrobora com a ideia de que o samba de roda foi se constituindo ao longo do tempo e neste território específico tendo-se em vista as relações que estabeleceu entre diferentes. E desta união – ainda que permeada por tensões de diversas ordens – surgiu uma forma cultural de representação do que é ser do Recôncavo, ou seja, ser este indivíduo/grupo que é marcado pelo processo de colonização e que, no meio de tanta adversidade, consegue expressar-se de forma sincrética e lúdica. Em Cachoeira, a realização do samba de roda não depende de ocasiões exclusivas, já que costuma acontecer semanalmente, em ensaios, mas há momentos em que se torna indispensável, ou seja, em festas populares, muitas vezes de tradições religiosas afro-brasileiras. Para Marques (2008), na área urbana e rural de Cachoeira são encontradas duas categorias de samba: o corrido e o barravento, também conhecido como “samba pontuado”, “samba amarrado”, “samba de parada” ou “samba chula”, que tem andamento mais lento que o samba corrido e é considerado pelos sambadores como um samba privilegiado, refinado, e que precisa de conhecimento e habilidade para ser bem feito. No samba chula, a dança e o canto não acontecem ao mesmo tempo, mas somente os instrumentos. Neste tipo de samba, apenas uma pessoa dança de cada vez no meio da roda. No samba corrido, a dança, o canto e os toques instrumentais acontecem simultaneamente, mostrando elementos mais agregados. Pela sua importância, mas também invisibilidade nacional – o que pode incorrer em extinção -, o samba de roda foi inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão e declarado publicamente Patrimônio Cultural do Brasil, em 2004, pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, que atua junto ao Iphan. Em 2005, juntamente com outros 43 bens culturais provenientes de várias partes do mundo, foi proclamado pela Unesco Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade. O reconhecimento é válido para valorizar esta expressão típica do Recôncavo da Bahia,


mas o que verdadeiramente importa são os encontros cotidianos que este estilo musicalcoreográfico proporciona aos seus praticantes em termos de pertencimento e reconhecimento da própria identidade. De acordo com Dona Dalva Damiana, de quem trataremos logo mais, os títulos têm papel importante para o bem que ela considera essencial: Era muito bom que virasse um patrimônio, era uma beleza, era uma benção porque o samba de roda é uma coisa muito importante. (...) O samba é a vida, é a alma, é a alegria da gente (...) lhe digo, eu estou com as pernas travadas de reumatismo, a pressão circulando, a coluna também, mas quando toca o pinicar do samba eu acho que eu fico boa, eu sambo, pareço uma menina de 15 anos” (DOSSIÊ IPHAN, 2006, p.74).

Por este singelo depoimento dado ao Iphan, é possível notar a dimensão que o samba de roda assume não só como uma expressividade cultural importante, mas como um espaço de convivência único e capaz de suspender, ainda que momentaneamente, quaisquer mazelas da vida, seja a condição sócio-econômica desfavorável, seja a idade avançada e o que isto pode acarretar em termos de falta de saúde. Também por estes motivos, a UNESCO, além de incluir o samba de roda como patrimônio, exigiu que fosse criado um plano de ação de cinco anos para a salvaguarda e valorização desta expressão cultural. Assim, sambadores e sambadeiras de diferentes cidades do Recôncavo e de variadas formas de fazer o samba de roda precisaram se unir - ainda que houvesse rivalidade e desencontros por conta da diversidade - com o Iphan e desenvolver um documento de ações conjuntas para preservar a sua maior riqueza. De acordo com o Dossiê Iphan (2006), o maior risco de desaparecimento do samba de roda está ligado às difíceis condições sociais e econômicas em que vivem seus praticantes, já que se tratam de negros em situação econômica precária pois vivem de agricultura de subsistência, da pesca ou de aposentadorias irrisórias. Para tanto, conforme Sandroni (2010), um plano de ação de salvaguarda foi estruturado em quatro eixos: (…) a organização, a transmissão, a difusão e a documentação. A “organização” diria respeito aos passos necessários para criar mecanismos de decisão coletiva e de representação do conjunto dos sambadores e sambadeiras do Recôncavo. A “transmissão” trataria do estímulo ao envolvimento de novas gerações com o samba de roda, por meios educativos formais e não formais. A “difusão” enfocaria o apoio à presença do samba de roda nos meios de comunicação, por meio de Cd, dvd, internet e espetáculos profissionais. Finalmente, a “documentação” trataria do acesso dos sambadores aos acervos oriundos de pesquisas realizadas sobre o tema. (SANDRONI, 2010, p.376).

Assim, foi criada, ainda em 2005, a Associação de Sambadeiras e Sambadores


do Estado da Bahia (ASSEBA)5. Uma das primeiras ações foi salvaguardar a pequena viola artesanal de cordas duplas: o machete. Outra conquista, ainda que controversa em termos de onde deveria ficar localizada, foi a Casa do Samba, Mansão do Subaé, que fica em Santo Amaro, e, criada em 2007, abriga uma exposição permanente sobre o samba de roda, uma pequena biblioteca especializada em cultura afro-brasileira, salas de trabalho, estúdio de gravação, dois dormitórios e cozinha. É ali que fica a sede da ASSEBA. No entanto, desde então, foram criadas outras casas do samba no Recôncavo, totalizando 15 espaços culturais. Em Cachoeira, foi criada a Casa do Samba de Roda Dona Dalva, que fica na Rua Ana Néri, 19, centro. Ali são realizados encontros todas as quartas-feiras, a partir das 19h, a um valor de R$ 2,00 para quem quiser participar. O preço, apesar de simbólico, ajuda a manter a tradição. Dona Dalva Damiana é criadora e responsável pelo Samba de Roda Suerdieck e, pela importância do seu trabalho, lhe foi concedido o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Natural de Cachoeira, ela nasceu em 1927, de pai sapateiro e mãe charuteira da Dannemann. A mãe e avó faziam parte da Irmandade da Boa Morte e deixaram um legado de fé que é complexamente valorizado e vivido por Dona Dalva. Paixão Filho & Tavares (2012, p.1645) contam um pouco desta história: Em 1958, já separada do primeiro marido e mãe de cinco filhos, Dalva Damiana entrou para a Suerdieck S/A, filial de Cachoeira, aposentando-se em 1974 como charuteira. Na fábrica de charutos Suerdieck, no ano de 1958, junto com colegas de trabalho, a sambadeira, cantora, compositora e devota de Nossa Senhora dos Navegantes, criou o primeiro grupo de Samba de Roda da cidade, o “Samba de Roda Suerdieck”.

Segundo ela mesma: Na Cachoeira ninguém fez mais samba do que eu, através do amor, da ansiedade que eu tinha de brincar, mas não tinha sapato e roupa pra estar no meio das procissões e das missas. No samba se vai de chinelo, de pé descalço, roupa remendada, e todo mundo brinca. Para o samba eu dou minha vida, o meu cansaço. E ainda não vi os próprios filhos da terra planejar uma coisa de felicidade pra mim, sem ser do dente pra fora. Mas o meu cansaço se torna alegria porque não tenho amor ao dinheiro, tenho amor ao fazer, a engrandecer Cachoeira. (PAIXÃO FILHO & TAVARES, 2012, p.1644).

Na Irmandade da Boa Morte, da qual Dona Dalva faz parte, o samba também está presente. Afinal, de acordo com Marques (2008), foi em espaços como terreiros de candomblé, irmandades e quilombos urbanos “que o batuque surgiu e se expandiu até desmembrar-se como música de ritual (candomblé), luta (capoeira) e divertimento

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http://www.asseba.com.br


(samba).” (MARQUES, 2008, p.118). Vale dizer que a Irmandade da Boa Morte é uma das confrarias religiosas mais antigas do país, tendo sido fundada no início do século XIX, por volta de 1820, nas proximidades da Barroquinha, em Salvador. De acordo com Castro (2005), a transferência para Cachoeira deve ter ocorrido por volta de 1850 e os motivos podem ter sido os mais diversos, inclusive a perseguição às crenças e costumes africanos na capital baiana. Segundo Castro (2005, p.17), “a Boa Morte não é uma confraria e irmandade nos moldes tradicionais, e sim uma instituição autônoma de devoção à Nossa Senhora da Boa Morte e Glória – com amplos desdobramentos simbólicos.” Segundo Castro (2005, p.44), “de variada procedência étnica – nações Ketu e Jêje –, as exigências para a aceitação na Irmandade da Boa Morte eram o sexo feminino, a idade avançada, a devoção à Nossa Senhora e a ligação com as práticas religiosas africanas.” Segundo ele: O envolvimento das irmãs com a religiosidade afro-brasileira pode ser facilmente compreendido por quem adentra a sede da Irmandade da Boa Morte e encontra em uma das paredes um quadro com a seguinte (auto) definição: “Organização privativa de mulheres com vínculos étnicos, religiosos e sociais, também unidas por parentescos consangüíneos ou de fé, deixando fluir a maneira afro-brasileira de crer”. Há relevante presença do Candomblé não somente na organização e hierarquização da Irmandade, mas sobretudo em muitos aspectos relacionados à sua própria Festa, devoção, ceia e vestuário. (CASTRO, 2005, p.51).

Anualmente, no mês de agosto, a Irmandade promove a Festa da Boa Morte, sendo que a música, de fato, é um dos grandes elementos da festividade, estando presente em todo o cronograma, indo do canto litúrgico (presente em procissões e missas) ao pagode comercial, mas passando também pelo tradicional samba de roda. Segundo Castro (2005, p.70), “(...) enquanto que nos dois primeiros dias da Festa não se ouve nem se dança o samba-de-roda, nos últimos não há a presença dos cantos de origem judaico-cristã.” Em relação à música litúrgica, Castro (2005, p.73) expõe: Em toda música litúrgica, há uma estratégia sutil de encantamento e sedução pelo ouvido. Desde a linearidade e previsibilidade do canto gregoriano, em que o transe mental contrapõe-se ao corpo estático, até as canções mais rápidas dos movimentos de renovação carismática, a música traz em sua existência o ingrediente da sedução, estesia... A arte-sensibilização-sedução é uma estratégia, que ganha corpus com a procissão e peregrinação pelas ruas.

Ainda na visão de Castro (2005), as filarmônicas de Cachoeira acompanham as procissões e a valsa intermediária, que antecede o samba de roda. “Nestas procissões, o repertório parece dar o ritmo de caminhada das irmãs e fiéis, assim como o silêncio parece adquirir complexas seqüências harmônicas em sonoridades inquietas de pulsares ancestrais.” (CASTRO, 2005, p.73-74). Mas depois da valsa, os silêncios tornam-se


menos frequentes, com o samba de roda moldando outros ritmos na festividade; seja pelo samba-velho (de raiz) ou pelo samba de improviso, que se molda de acordo com os acontecimentos factuais. Na sede da Irmandade, no período da Festa, a primeira aparição do samba-de-roda acontece tão logo encerra-se a valsa, no terceiro dia. No mesmo salão, ainda sob a apresentação da Filarmônica, as irmãs divertem-se em naturais deslizes e rodopios do corpo, num gesto genuinamente deste samba. É a graciosidade dos movimentos da valsa, cedendo lugar para os requebros marotos destas senhoras, que, entre um requebrado e outro, se encantam com o espanto do outro diante de seus movimentos. (CASTRO, 2005, p.78).

E, num movimento ritmado, o samba de roda se faz presente, tanto nos momentos festivos mais importantes para a comunidade cachoeirana – e glorificada por turistas de diferentes nacionalidades – quanto faz parte da cotidianidade destes sambadores e sambadeiras, que, de maneira despretensiosa, mantêm viva esta tradição que, por sua vez, os mantêm vivos e unidos. Considerações finais Pensar o samba de roda é pensá-lo geoculturalmente, uma vez que todas as variáveis ligadas ao lugar em um determinado espaço-tempo devem ser levados em consideração no que tange à constituição desta expressividade. O samba do Recôncavo da Bahia é este samba que aludimos conhecer, sendo constituído principalmente por elementos interculturais e pelo sincretismo religioso, característico das hibridações promovidas pela diáspora africana em tempos de colonização portuguesa no Brasil. Os sons e as letras das músicas, assim como instrumentos e modos de dançar são característicos desta “união” - ainda que para alguns historiadores não se trate de união, mas de tensões-. Todos estes elementos deram origem a esta expressão popular, ou seja, todos estes elementos geoculturais levaram ao dinâmico samba de roda, o que dificilmente poderia ser encontrado em outro lugar exatamente com as mesmas características. O samba derivado do samba de roda, no caso, é um exemplo das mudanças que sofreu ao ser adaptado para outro contexto cultural. A singularidade do samba de roda e seus desdobramentos no samba que representa o Brasil em todo o mundo é uma das dimensões da sua importância cultural, mas, para quem o vive, o mais valioso está nas relações que permite estabelecer, no nível de pertencimento que proporciona e na formação, portanto, da própria identidade/identificações; esta última permeada pelas hibridações interculturais que


foram constituindo os povos que fazem do Recôncavo da Bahia o grande Recôncavo da Bahia. Pelo samba, como afirma Dona Dalva, é possível esquecer as mazelas da vida difícil e transcender a um nível onde somente o poder da música, da dança e das relações estabelecidas nesta performance vivida é capaz de proporcionar. O empoderamento possível por meio do samba de roda o eleva a uma categoria muito mais significativa do que seu reconhecimento como patrimônio imaterial da humanidade, ainda que este título ajude a fazer conhecer e a preservar esta vivência única.

Referências CANCLINI, Nestor Garcia. Diferentes, desiguais e desconectados. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007. CASTRO, Armando. A Irmandade da Boa Morte: memória, intervenção e turistização da Festa em Cachoeira, Bahia. Ilhéus-BA: UESC, 2005. DOSSIÊ IPHAN. Samba de Roda do Recôncavo Baiano. Brasília, DF: Iphan, 2006. MARQUES, Francisca. Festa da Boa Morte: ritual, música e performance. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo. São Paulo-SP: 2008. PAIXÃO FILHO, Hamilton & TAVARES, Márcia. Memórias Musicais: releitura da trajetória d. Dalva Damiana ao compasso do Samba de Roda Suerdieck no Recôncavo Baiano. Portal de Conferências do Laboratório de Tecnologias Intelectuais – Lti, 17º Encontro Nacional da Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher e Relações de Gênero. 2012. Disponível em: http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/17redor/17redor/paper/view/348 SANDRONI, Carlos. Samba de roda, patrimônio imaterial da humanidade. Revista Estudos Avançados. Vol.24, nº69, São Paulo, 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142010000200023&script=sci_arttext SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.), HALL, Stuart e WOODWARD, Kathryn. Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 12. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.


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