CONGREGAÇÃO DE SANTA DOROTÉIA DO BRASIL FACULDADE FRASSINETTI DO RECIFE CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM CULTURA PERNAMBUCANA
Luiz Henrique Costa dos Santos
O CARNAVAL NOS ARRABALDES DA CIDADE: ATIVIDADES MOMESCAS NO RECIFE DOS ANOS 1950
Recife, 2011.
CONGREGAÇÃO DE SANTA DOROTÉIA DO BRASIL FACULDADE FRASSINETTI DO RECIFE CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM CULTURA PERNAMBUCANA
Luiz Henrique Costa dos Santos
O CARNAVAL NOS ARRABALDES DA CIDADE: ATIVIDADES MOMESCAS NO RECIFE DOS ANOS 1950
Monografia apresentada como requisito à obtenção do título de Especialista junto ao programa de Pósgraduação em Letras, curso de Especialização em Cultura Pernambucana, realizada nos anos de 2010 e 2011, sob orientação do Professor Mestre Eduardo Fonseca.
Recife, 2011.
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À todos aqueles viveram e vivem o Carnaval do Recife.
Ao meu querido irmão José Gilberto, meu avô José Serafim dos Santos e meus pais, Márcia e Serafim.
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AGRADECIMENTOS
Primeiramente, agradeço a Deus por todas as graças recebidas nesta vida. Agradeço do fundo do meu coração aos meus pais, Serafim e Márcia, por o amor, carinho e dedicação na construção do meu caráter e da minha educação. Sem eles não teria conseguido chegar até aqui. Também agradeço ao meu avô José Serafim dos Santos pelas agradáveis conversas sobre os carnavais do Recife, narrativas que me transportavam para aqueles dias nos quais as pessoas brincavam na Pracinha do Diário e cantavam as músicas de Nelson Ferreira e Capiba. Com toda certeza essas conversas me incentivaram a iniciar minhas pesquisas. à Maísa Moura, minha princesa linda, por me acompanhar na construção desta monografia, sempre me estimulando a pesquisar, com palavras positivas e momentos de alegria. ao orientador Eduardo Fonseca, que desde o início acreditou no tema que escolhi, sempre conversando e proferindo palavras positivas, me ajudando no processo de evolução no meio acadêmico. aos amigos e professores da pós-graduação da Fafire que contribuíram para o desenvolvimento deste trabalho. Vocês me concederam novos instrumentos para ver a cultura deste país com respeito e alegria. Saudades daquelas quartas e sábados agradáveis. aos professores do curso de História da Universidade Católica de Pernambuco, instituição onde passei boa parte da minha formação acadêmica. aos funcionários e alunos do Liceu de Artes e Ofícios, principalmente o professor Artur Garcéa e as coordenadoras Carmem e Teresa. ao Colégio de São José por ter me dado as bases necessárias para seguir como eterno estudante. Também quero agradecer às instituições que auxiliaram no desenvolvimento deste trabalho. O Centro de Formação e Pesquisa - Casa do Carnaval, onde desde as primeiras idéias tive o apoio do historiador e diretor Mário Ribeiro dos Santos. Obrigado Mário pela atenção e conselhos sobre o tema. Agradeço também a ajuda de Marcelo Renan, Perácio, Viviane e Daniela, pessoal responsável pela organização vídeos,
livros e documentos da Casa do
Carnaval. E a realização do projeto Cultura e Memória: os mestres contam as suas histórias, onde tive a oportunidade de assistir e escutar os depoimentos dos mestres da cultura popular 4
numa série de palestras que contavam as histórias de vida das pessoas que vivem plenamente o carnaval do recife, histórias que me influenciaram a seguir em frente pesquisando sobre o tema. Obrigado: Seu Vavá, do Bloco Carnavalesco Banhistas do Pina; Dona Alzira Dantas, da Troça Carnavalesca Abanadores Do Arruda; Dona Elda, Rainha Do Maracatu Porto Rico; e o Senhor Lima Neto, Radialista e Pesquisador do Carnaval. a equipe do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, local que freqüentei com certa regularidade e que pretendo continuar freqüentando em busca de outras histórias através das diversas fontes que o arquivo disponibiliza. a CEPE e ao Governo do Estado de Pernambuco por disponibilizar na internet o Diário Oficial do Estado de Pernambuco digitalizado, no qual pude ter acesso a informações referentes ao tema desta pesquisa. a Prefeitura da Cidade do Recife por também disponibilizar na internet as leis e decretos referentes ao período da pesquisa. Ao Museu da Cidade do Recife por ter disponibilizado material de estudo e a Fundação de Cultura Cidade do Recife por lançar as publicações referentes à cultura da cidade. ao Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular por disponibilizar na internet um vasto e rico acervo sobre o carnaval do Brasil e de Pernambuco. ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 5ª Superintendência Regional em Pernambuco. Agradeço o apoio de todos os funcionários, especialmente os amigos George Bessoni e Romero Filho, brincantes do carnaval e guardiões do Patrimônio Cultural Brasileiro, que também me estimularam a pesquisar sobre o Carnaval. Não poderia deixar de agradecer aos amigos e amigas que me incentivaram com palavras positivas, especialmente: Ivaldo Jr., Roderick Filho, Karina Bezerra, Patrícia Cavalcanti, Talita Lima, Manuela Alves, Bianca Pimentel, Emília Lima, Alice Marinho, Williams Cristiam, Hugo Leonardo, Andresa Santana, Nadja Oliveira, Mariá Faria, Niedja Santos, Rebeca Matos, Amanda Araújo e todos aqueles que não citei neste parágrafo! Agradeço a todas as pessoas que vivenciaram e vivem o carnaval do Recife, o Carnaval de Pernambuco, o Carnaval do Brasil. Desejo que as pessoas continuem brincando o carnaval, numa atmosfera de alegria, paz e amor. Deus nos abençoe!
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A Festa do Povo Luiz Faustino Carnaval é alegria Do nosso povo gentil É a beleza de todos Porque se estende Em todo o Brasil São três dias de folia Que traz o povo no rojão Fazendo o passo Caindo no meio da multidão Vamos formar a onda Pelas ruas da cidade Vendo meu bloco passar Para abrilhantar a todos Em busca da conquista deste carnaval 1
1
Letra da música “A festa do povo”, de autoria de Luiz Faustino, compositor do Bloco Carnavalesco Misto Banhistas do Pina.
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RESUMO
Esta monografia tem como objetivo identificar as práticas carnavalescas nos arrabaldes da cidade do Recife ao longo da década de 1950. Uma época marcada pela expansão demográfica e territorial, de dificuldades nas áreas de transporte, saúde, educação e economia, de variações e mudanças nas administrações públicas e de efervescência cultural. Sabemos que o Carnaval é um tema de longa duração, mas direcionamos nossa análise para os anos da década de 1950. A escolha deste recorte temporal surgiu na observação de que são poucas as produções acadêmicas sobre os festejos de momo do Recife nesse período. A ênfase da literatura acadêmica versa sobre o carnaval do século XIX até a década de 1940 e depois nos anos 1960 em diante, sinal de que existem temas que precisam ser estudados neste campo de pesquisa. O trabalho está dividido em dois capítulos. O primeiro dedica-se a algumas reflexões sobre abordagens teóricas que dizem respeito ao carnaval, as festas e a história cultural. No segundo, apresentamos as características dos bairros periféricos, destacamos as atividades carnavalescas realizadas nos subúrbios da cidade, procurando identificar os principais lugares onde a festa era praticada, as pessoas que viviam a festa e o processo de oficialização do carnaval, executado pela prefeitura da cidade.
Palavras-chave: Carnaval. Práticas culturais. Recife.
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ABSTRACT
This monograph aims to identify the practices carnival on the outskirts of the city of Recife during the 1950s. A season marked by demographic and territorial expansion, difficulties in transportation, health, education and economy, variations and changes in government and cultural effervescence. We know that Carnival is a topic of long duration, but direct our analysis to the years of the 1950s. The choice of this time frame came from the observation that there are few academic works on the festivities of this period Momo in Recife. The emphasis of the academic literature deals with the carnival nineteenth century until the 1940s and then the 1960s onwards, a sign that there are issues that need to be studied in this research field. The work is divided into two chapters. The first is devoted to some thoughts on theoretical approaches that relate to the carnival festivities and cultural history. In the second, we present the characteristics of neighborhoods, highlight the carnival activities held in the suburbs of the city, trying to identify the main places where the party was practiced, the people who lived the party and the process of formalizing the carnival, run by the city government. Keywords: Carnival. Cultural practices. Recife.
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LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Imagem 1 - Grupo de bairros da cidade do Recife
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Imagem 2 - Estandarte do Clube Lenhadores
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Imagem 3 - Estandarte da Troça Cestinha
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Imagem 4 - Foliões na sede do Bloco Carnavalesco Misto Batutas de São José,
40
localizado na Rua da Concórdia Imagem 5 - Bloco Papagaio Falador, na rua Nova, 1953
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Imagem 6 - Caboclinhos Tupinambás
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Imagem 7 - Apresentação da Escola de Samba Milionários do Ritmo nas ruas do
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Recife Imagem 8 – Manchete do jornal Correio do Povo
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Imagens 9 e 10 - José Bezerra, o vovô do frevo.
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Imagens 11, 12 e 13 - José Bezerra Cavalcanti, o folião que representou o “primeiro
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e único” Rei Momo do Carnaval de Pernambuco Imagem 14 - Egídio Bezerra, o Rei do Passo, dançando no Clube Português
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Imagem 15 - Dona Santa, Rainha do Maracatu Elefante
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Imagem 16 - Passista fazendo o passo em palanque no centro da cidade.
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Imagens 17 e 18 - Figuras decorativas do carnaval do Recife de 1957, produzidas
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pelo caricaturista Felix. Imagem 19 - Manchete do jornal Cidade do Recife
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Imagem 20 - Baianas desfilam no centro do Recife no carnaval de 1950.
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LISTA DE ABREVIATURAS
APEJE
Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano
ACCR
Associação dos Cronistas Carnavalescos do Recife
BCM
Bloco Carnavalesco Misto
CCM
Clube Carnavalesco Misto
COC
Comissão Organizadora do Carnaval
DDC
Departamento de Documentação e Cultura
FCP
Federação Carnavalesca Pernambucana2
GRES
Grêmio Recreativo Escola de Samba
IBGE
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
SSP
Secretaria de Segurança Pública
TCM
Troça Carnavalesca Mista
2
A sigla da Federação Carnavalesca Pernambucana em outras pesquisas e periódicos é conhecida como FECAPE, contudo, adotamos nesta monografia a sigla FCP, recorrente nas fontes utilizadas para elaboração desta monografia.
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
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CAPÍTULO 1 - CARNAVAL DAS IDÉIAS
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1.1 Carnaval da universalidade, liberdade e igualdade
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1.2 Festas: rebeldia e transgressão
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CAPÍTULO 2 - O CARNAVAL NOS BAIRROS DO RECIFE
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2.1 Nos arrabaldes de momo: os cenários urbanos do Recife nos anos 1950
26
2.2 Alegria nos subúrbios recifenses: as práticas culturais carnavalescas
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2.3 “Alegria do nosso povo gentil”: os foliões no carnaval da cidade
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2.4 O carnaval espetáculo: a oficialização do carnaval do Recife
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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INTRODUÇÃO
O Carnaval é uma festa polissêmica que proporciona a intensa alegria do povo, que desperta a vontade das pessoas se divertirem, de vivenciarem os mais diversos sentimentos e experiências culturais, que possibilita o povo expor suas angústias e tensões. Derivado do latim carnevale, que significa “adeus à carne”, é oficialmente praticado nos três dias (domingo, segunda e terça-feira) que antecedem o início da Quaresma. Esta última, caracterizada como um tempo de abstinência, reflexão e retiro espiritual para os católicos. Surgido no continente europeu, o Carnaval, visto como uma festa civilizada pela elite brasileira, foi introduzido nos trópicos na segunda metade do século XIX com a intenção de substituir aos poucos os “bárbaros e violentos” jogos de Entrudo3. Ao longo do tempo o Carnaval passou por diversas transformações, conseqüência da fusão de elementos culturais europeus com elementos culturais regionais, que por sua vez gerou uma nova identidade para as folias de Momo no Brasil. De forma geral, pretendemos neste trabalho, identificar as práticas carnavalescas realizadas nos subúrbios da cidade do Recife ao longo da década de 1950, buscando conhecer os usos dos cenários urbanos do Recife pelos foliões; analisar o perfil de algumas pessoas que participavam das práticas culturais; e descrever o processo de oficialização do carnaval do Recife executado pela prefeitura. Assim, ao longo do texto buscaremos responder algumas questões: Quais os principais bairros, fora do centro, que realizavam as atividades carnavalescas? Como era praticado o carnaval nos subúrbios do Recife nos anos 1950? Como os foliões utilizavam esses espaços? Qual era o perfil social dos brincantes que participavam da festa? Quais eram as práticas culturais mais conhecidas? Quando e como teve início a oficialização do carnaval do Recife? Tendo em vista que o Carnaval é um tema de longa duração e considerando a brevidade deste trabalho monográfico, focamos nosso olhar nos anos que abrangem a década de 1950. A escolha deste recorte temporal surgiu da observação de que são poucas as produções acadêmicas sobre os festejos de Momo no Recife nesse período, sinal de que 3
Segundo a historiadora e antropóloga Rita de Cássia Barbosa de Araújo, “a palavra ‘Entrudo’ vem da expressão latina, “intróito”, que quer dizer introdução, referindo-se, assim, ao período que introduz a Quaresma.” Basicamente a diversão consistia no ato de jogar água uns nos outros, mas ao longo do tempo foram acrescentados outros elementos além da água, tais como: ovos, farinha, goma, pó e limas de cheiro, geralmente preenchidas com líquidos perfumados. As famílias com melhores condições financeiras brincavam normalmente dentro das suas residências e os escravos e homens livres, nas ruas da cidade. Festas: máscaras do tempo: entrudo, mascarada e frevo no carnaval do Recife. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1996., p. 119.
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existem aspectos a serem estudados neste campo de pesquisa. Alguns trabalhos tratam sobre a influência que teve a fábrica de discos Rozenblit, mas pouco sobre as práticas culturais durante o carnaval. A ênfase da literatura acadêmica está na análise do carnaval do século XIX até a década de 1940 e depois nos anos 1960 em diante, com destaque para o livro da antropóloga Katarina Real4. Compreendemos que vários estudiosos nos contemplam com valiosas interpretações sobre o carnaval praticado nos bairros centrais do Recife (Boa Vista, Santo Antônio e São José), contudo, nossa proposta é direcionar o campo de análise para os subúrbios da cidade, lugares onde boa parte do povo recifense construiu suas histórias de vida, suas relações sociais e seus instrumentos de resistência e diversão. Sendo assim, pretendemos com esse trabalho dar uma parcela de contribuição às pesquisas nesse campo e somar com outros estudos já produzidos, na intenção de fazer com que as pessoas tomem conhecimento dessas histórias. Historicamente os anos 50, no Brasil, ficaram marcados como um período de intensas transformações nas esferas políticas, sociais, culturais e urbanas. No campo político um dos aspectos vivenciados pela cidade foi o governo de seis prefeitos ao longo da década de 1950, entre eles: M. C. de Moraes Rêgo (1948/1951), Antonio A. Pereira (1951/1952), Jorge Martins (1952/1953), José do Rêgo Maciel (1953/1955), Djair Brindeiro (1955) e Pelópidas da Silveira (1955/1959). Os dois últimos responsáveis por dar uma nova configuração ao carnaval de rua da capital pernambucana. No Recife o aumento populacional chegou a superar cerca de meio milhão de habitantes com a presença dos migrantes (pessoas que deixaram a vida campestre na tentativa de melhorar suas condições de vida na capital), gerando uma expansão territorial do município. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1959 a população estimada na capital pernambucana era de 765.305 habitantes. No âmbito cultural, a cidade vivia um período de efervescência. O rádio tinha grande influência no meio social. A música tocada nos rádios conseguia entrar as casas de vários segmentos sociais. Marchas, sambas, baiões, boleros e frevos caiam na boca do povo. O papel desempenhado pelo rádio foi significativo para a divulgação de frevos e sambas dando a possibilidade dos foliões conhecerem as músicas que seriam tocadas no ano seguinte, preparando o clima da festa. A indústria fonográfica também ganhava espaço na capital
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REAL, Katarina. O Folclore no Carnaval do Recife. Recife: FUNDAJ, Editora Massangana, 1990.
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pernambucana, com destaque para a fábrica de discos Rozemblit, responsável por lançar os sucessos do carnaval de Pernambuco. Sobre as fontes utilizadas para a produção desta monografia foram destacadas as fontes impressas, disponíveis no acervo do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (APEJE), aonde conseguimos analisar os periódicos sobre o carnaval, consistindo, na sua maioria, uma variedade de jornais contendo informações sobre os sucessos musicais que foram tocados e cantados pela polução nos seus respectivos anos, entre eles estavam: A Cegonha (1950), O Macobeba (1950), Zé Carioca (1952), O Carnaval (1953), O Herói do Samba (1953), O Tarado (1954), Recife no Frevo (1954), Carnaval de 1955 e Música Maestro (1955). No que diz respeito às notícias referentes aos principais acontecimentos dos carnavais dos anos 1950, analisamos jornais como: Cidade do Recife, Correio do Povo, Folha da Manhã, Diário de Pernambuco e Jornal de Pernambuco. Além do material impresso, tivemos a oportunidade de analisar o conteúdo de três vídeos referentes ao recorte temporal proposto: “Olha o Frevo - Hucker Vieira”, “Carnavais de 1941 - 1953” e “Rosa de Sangue”. Nessas fontes audiovisuais observamos as práticas carnavalescas executadas nos principais pólos do centro da cidade, as fantasias utilizadas pelos foliões, as músicas, os principais personagens e elementos da festa, tais como os anônimos que brincavam freneticamente nas ruas da cidade, os compositores e intérpretes, as agremiações carnavalescas com suas singularidades de ritmos, os movimentos corporais, os estandartes, os enfeites nas ruas, os palanques, etc. Na presente monografia, visando um diálogo com a Antropologia, utilizamos o conceito de cultura em um sentido amplo, proposto pelo antropólogo Edward Tylor no livro Primitive Culture, que a define como todo “um conjunto complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade.” 5 Para o embasamento teórico no campo correspondente à história da cidade do Recife nos anos 1950, usamos como referência o trabalho da arquiteta Virgínia Pontual Uma Cidade e Dois Prefeitos: narrativas do Recife nas décadas de 1930 a 19506, que trata das intervenções urbanas ocorridas entre os anos 30 e 50, e que também traz informações sobre o momento político e social da cidade daquele período. Outro referencial utilizado foi o livro do
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BURKE, Peter. O que é História Cultural? Trad. Sérgio Góes de Paula. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. p.43 6 PONTUAL, Virgínia. Uma Cidade e Dois Prefeitos: narrativas do Recife nas décadas de 1930 a 1950. Recife: Ed UFPE, 2001.
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historiador Antônio Paulo Rezende: O Recife: história de uma cidade7, que dedica um capítulo ao exame dos aspectos políticos, sociais e culturais da cidade entre os anos de 1945 e 1964, no qual ressalta que neste período, a cidade foi administrada por diversos prefeitos, o que pode ter influenciado nas normas de como seria organizado as festas na cidade. Também descrevemos o processo de oficialização do carnaval pela prefeitura da cidade, iniciado em 1956, tendo como base a documentação oficial e os estudos do pesquisador Leonardo Dantas, presentes no livro Antologia do Carnaval do Recife 8. Obra de referência, na qual encontramos diversas histórias sobre a trajetória do Carnaval da capital pernambucana. Assim, apresentamos práticas culturais realizadas tanto na periferia como no centro do Recife. O trabalho está dividido em dois capítulos. No primeiro, fizemos algumas reflexões sobre abordagens teóricas que dizem respeito ao carnaval, as festas e a importância do diálogo da história com outras disciplinas sociais. Neste capítulo utilizamos como base teórica conceitos como universalizadas da festa, carnavalização e transgressão, trabalhados respectivamente por Mikahil Bakhtin, Peter Burke e Jean Duvignaud. Dedicamos o segundo capítulo à análise das práticas carnavalescas nos subúrbios da cidade do Recife, procurando identificar os principais lugares e personagens que faziam e viviam essa festa. Então vamos juntos cair no meio da folia e conhecer uma parte da história do carnaval recifense.
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REZENDE, Antônio Paulo. O Recife: história de uma cidade. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 2002. 8 MAIOR, Mário Souto; SILVA, Leonardo Dantas. Antologia do carnaval do Recife. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 1991.
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CAPÍTULO 1 - CARNAVAL DAS IDÉIAS
O universo do historiador, ou seja, o campo de atuação e pesquisa deste profissional teve expansão significativa a partir da década de 1960, com a inserção de estudos e temas antes negligenciados pela disciplina. Dimensões como História Cultural, a História Antropológica e a História das Mentalidades; e domínios como história urbana, história das mulheres, história das imagens e história das leituras, são alguns exemplos dos novos caminhos traçados pelos historiadores. Um dos principais pontos levantados pela Nova História é oferecer um campo de visão, ou análise, diferente da história dita tradicional, que privilegiava os feitos dos homens grandes, na sua maioria políticos e militares que administravam e comandavam países e nações. Segundo o historiador Peter Burke: A base filosófica da nova história é a idéia de que a realidade é social ou culturalmente construída. O compartilhar dessa idéia, ou sua suposição, por muitos historiadores sociais e antropólogos sociais ajuda a explicar a recente convergência entre essas duas disciplinas. 9
A nova lente utilizada pelos historiadores permite elaborar uma análise sobre a história das pessoas comuns, pessoas que sempre estiveram a margem da história, que foram esquecidas e/ou excluídas dos registros documentais, mas tiveram papéis significativos nas construções culturais, políticas e sociais, de vários lugares. Não é o nosso interesse minimizar o papel da história oficial, pois acreditamos que ela tem grande relevância para a construção dos estudos históricos, porém não podemos descartar a “história vista de baixo” 10 ou a “história das pessoas comuns”, pois homens e mulheres de todas as idades e classes sociais foram e são agentes históricos, pessoas que estão em constante processo de construção social e precisam ter suas opiniões consideradas mais seriamente. Numa reflexão sobre a chamada história vista de baixo Jim Sharpe esclarece que: Essa perspectiva atraiu de imediato aqueles historiadores ansiosos por ampliar os limites da sua disciplina, abrir novas áreas de pesquisa e, acima de tudo, explorar as experiências históricas daqueles homens e mulheres, cuja existência é tão
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BURKE, Peter. A Escrita da história: novas perspectivas. Trad. Magda Lopes. – São Paulo: Editora da UNESP, 1992. p.11 10 O conceito conhecido “História vista de baixo” foi inserido na linguagem dos historiadores a partir de um artigo publicado por Edward Thompson intitulado “History from below” em The Times Literacy Supplement, 7 de abril de 1966. Referência disponível no capítulo “A História vista de baixo” in BURKE, Peter. A Escrita da história: novas perspectivas. Trad. Magda Lopes. – São Paulo: Editora da UNESP, 1992. p.39-62
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freqüentemente ignorada, tacitamente aceita ou mencionada apenas de passagem na principal corrente da história. 11
No que diz respeito a documentação, a Nova História procura ampliar e diversificar a utilização de suas fontes, tais como: fotografias, relatos orais, filmes, etc. Isso é possível graças aos diálogos estabelecidos entre a história e outras áreas das ciências humanas. Para Jim Sharpe, “alguns tipos de registro oficial poderiam ser utilizados para explorar o mundo mental e material das gerações passadas.”12 No universo do carnaval do Recife estes registros estão presentes, por exemplo, nas publicações do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, nas leis e decretos implementadas pela prefeitura da cidade. São documentos que revelam aspectos econômicos, sociais e culturais das pessoas que vivenciavam a festa ao longo do século XX. Além disso, fontes como fotografias, relatos orais e filmes, podem trazer informações sobre os lugares onde o carnaval era praticado, as formas de sociabilidade, os conflitos existentes entre grupos, os locais origem dos foliões, os ritmos, as cores, etc. A História Cultural têm revelado nos últimos anos um apreço especial por alguns temas relacionados às manifestações culturais praticadas pelas pessoas comuns, tais como: as festas, as resistências, as crenças religiosas, as formas de sociabilidade, etc. A aproximação com estes temas, muitas vezes considerados informais, tem proporcionado o diálogo da História com outras disciplinas ligadas às ciências sociais – como a Antropologia, a Sociologia, a Geografia e a Literatura – oferecendo a ampliação de fontes, interpretações e visões de mundo sobre os mais diversos aspectos sócio-culturais, que segundo Roger Chartier representa “a constituição de novos territórios do historiador através da anexação dos territórios dos outros.”13 Numa reflexão sobre a “virada antropológica” dentro do movimento dos Annales, referindo-se à Antropologia, Peter Burke afirma que: Tudo o que os historiadores anteriores pareciam desejar de sua disciplina vizinha era a oportunidade de sobrevoá-la, de tempos em tempos, em busca de novos conceitos. Alguns historiadores das décadas de 70 e 80, contudo, demonstraram intenções mais sérias. Podiam mesmo pensar em termos de casamento, em outras palavras em termos de “antropologia histórica” ou de “etno-história”. 14
11
Idem, 1992, p. 41 Idem, 1992, p. 47 13 CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Trad. Maria Manuela Galhardo. 2ªed. São Paulo: Difel, 1988. p.14 14 BURKE, Peter. A escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997. p.93 12
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Por muito tempo, profissionais do campo da História não consideravam o Carnaval como um objeto de estudo relevante, sendo este classificado como um tema de segunda categoria ou sem importância, como ressalta a historiadora Raquel Soieht: A maioria dos historiadores não conseguia perceber a complexidade dessa forma de expressão, de grande riqueza para o descortínio das atitudes, valores e comportamentos dos diversos grupos sociais. Não vislumbravam naquela festa um palco marcado pela dialética dominação/resistência, possibilitando-lhes alcançar significados sociais, por vezes inacessíveis através de outros caminhos. 15
A partir das transformações sofridas pela história, resultado de uma série de reações contra os paradigmas tradicionais, foi possível abrir novos caminhos tanto para os diálogos multidisciplinares, como para diálogos interdisciplinares, uma vez que “a história cultural não é monopólio de historiadores” [pois ela surge em diferentes campos do conhecimento].
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Com isso temas como o Carnaval e Festas Populares começaram a ganhar espaço nas pesquisas acadêmicas. A princípio, em termos de significação, podemos ver o Carnaval sobre duas perspectivas. Primeiro como uma festa polissêmica, ou seja, que possui vários significados. Pode ser considerado como um momento de intensa alegria e confraternização vivenciada pelo povo, um momento de realização de críticas e/ou protestos contra um regime governamental ou mesmo contra preconceitos culturais, e também pode ser visto como um espetáculo, que administrado pelo governo procura atrair turistas de várias partes do mundo para gerar lucros na cidade onde a festa acontece. Além da característica polissêmica o Carnaval também pode ser considerado como uma festa híbrida, no sentido proposto pelo estudioso Néstor García Canclini quando define o conceito de hibridação como “processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas” 17. Assim, o carnaval praticado no Recife pode ser considerado híbrido, visto que vários elementos culturais interagem num mesmo período do ano para gerar novas práticas, novos objetos, novas formas de sociabilidade. São danças, ritmos e cores que se misturam para formar o que conhecemos como Carnaval. Essa multiplicidade de significados nos convida a realizar um diálogo interdisciplinar para a realização de uma pesquisa dedicada aos domínios de Momo na cidade do Recife, pois 15
SOIHET, Raquel. Reflexões sobre o carnaval na historiografia - algumas abordagens. Revista Tempo, número 7, junho 1998. 16 BURKE, Peter. O que é História Cultural? Trad. Sérgio Góes de Paula. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. 17 GARCÍA CANCLINI, Nestor. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 4.ed. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003. p. XIX
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compartilhamos da idéia de que cada área do conhecimento “registra o que pode, constrói uma visão diferente e, portanto, parcial”
18
sobre determinado objeto e assim nos leva a ter
uma variedade de escalas de observação e interpretação. Portanto, procuramos, neste primeiro capítulo, apresentar algumas reflexões sobre a produção intelectual de alguns autores (Mikhail Bakhtin, Peter Burke, Jean Duvignaud)19 e as principais concepções levantadas por eles a respeito do carnaval e das festas populares. Desejamos com isso, organizar os eixos teóricos que norteiam a produção desta monografia.
1.1 Carnaval da universalidade, liberdade e igualdade
O trabalho do lingüista russo Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento20, consiste na análise da obra de François Rabelais, um dos mais importantes autores do Renascimento. Considerado para alguns estudiosos como gênio, sábio e profeta, Rabelais deu uma significativa contribuição à literatura mundial. Para Bakhtin a principal qualidade do escritor francês foi a capacidade de ficar diretamente ligado às fontes populares, recolhidas da sabedoria das pessoas simples, que foram determinantes para organizar sua concepção artística e seu conjunto de imagens relacionados à cultura popular da Idade Média e do Renascimento. Sabendo das dificuldades que muitos tiveram para interpretar as enigmáticas imagens da obra de Rabelais, Bakhtin nos revela que o único caminho para decifrar essas imagens foi através do estudo das fontes populares. Para que isso fosse viável, seria necessário fazer uma revisão dos conceitos utilizados na época de Rabelais. Assim, o livro do escritor francês poderia revelar várias características da cultura cômica popular, que ao longo dos séculos foram pouco compreendidos e explorados, sobretudo a cultura carnavalesca. Abaixo, seguem alguns pontos do trabalho de Mikahil Bakhtin que possuem ligação com aspectos da cultura popular e o carnaval. 18
Idem, 2003, p.21 Entre as pesquisas sobre o Carnaval que utilizam esses teóricos destacam-se: ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. Festas: máscaras do tempo: entrudo, mascarada e frevo no carnaval do Recife. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1996. SANTOS, Mário Ribeiro dos. Trambones, tambores, repiques e ganzás: a festa das agremiações carnavalescas nas ruas do Recife (1930-1945). Recife : SESC, 2010. SOIHET, Rachel. Subversão pelo riso: reflexões sobre resistência e circularidade cultural no carnaval carioca (1890-1945). Rio de Janeiro: FGV, 1998. 20 BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 2010. 19
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No que diz respeito às origens do carnaval, Bakhtin compreende que a festa, preparada “ao longo de séculos de evolução”, teve origem no mundo antigo, especialmente nas saturnais romanas, que conseguiram deixar sua marca nas tradições culturais da Idade Média. Referindo-se sobre a importância dos festejos do carnaval na vida do homem medieval, Bakhtin nos mostra que além dos próprios carnavais, havia outros tipos de manifestações carnavalescas, como a “festa dos tolos”, a “festa do asno” e as “festas do templo”. Entendemos aqui o conceito “carnavalesco” como as festas praticadas fora do período de carnaval (os três dias que antecedem à Quaresma). Estas festas poderiam trazer elementos do carnaval para as suas práticas, mas os significados e funções poderiam ser bastante diferentes, como explica o historiador Peter Burke: Num certo sentido, toda festa era um Carnaval em miniatura, na medida em que era uma desculpa para a realização de desordens e se baseava no mesmo repertório de formas tradicionais, que incluíam procissões, corridas, batalhas simuladas, casamentos simulados e falsas execuções. O emprego do termo “carnavalesco” não pretende supor que os costumes da Terça-Feira Gorda fossem a origem de todos os outros; ele apenas sugere que as grandes festas do ano tinham rituais em comum, e que o Carnaval constituía um agrupamento especialmente importante de tais rituais. 21
Os festejos e espetáculos praticados de forma cômica possuíam um ponto de vista diferente em relação às cerimônias oficiais, organizados pela Igreja ou o Estado, que provavelmente não permitiam a participação de pessoas das camadas populares. Segundo Bakhtin, os ritos e espetáculos cômicos: Ofereciam uma visão de mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferente, deliberadamente não-oficial, exterior à Igreja e ao Estado; pareciam ter construído, ao lado do mundo oficial, um segundo mundo e uma segunda vida aos quais os homens da Idade Média pertenciam em maior ou menor proporção, e nos quais eles viviam em ocasiões determinadas. Isso criava uma espécie de dualidade do mundo e cremos que, sem levá-la em consideração, não se poderia compreender nem a consciência cultural da Idade Média nem a civilização renascentista. 22
Assim, percebemos que era possível a realização de práticas culturais fora do planejamento oficial, e que essa era uma iniciativa direta do povo, responsável por fazer os festejos de Momo. É sobre essa visão de mundo “não-oficial” que queremos dar a devida atenção, visto que essa forma de interpretação poderia ter contribuído para que os populares
21
BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna: Europa 1500-1800. Trad. Denise Bottmann. – São Paulo : Companhia das Letras, 2010. p. 270. 22 BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 2010. p.4-5.
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desenvolvessem novas práticas culturais, bem como formulassem críticas contra os aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais dos lugares onde viviam. Sobre as festas de caráter oficial, Bakhtin revela que elas “não arrancavam o povo à ordem existente, não criavam essa segunda vida. Pelo contrário, apenas contribuíam para consagrar, sancionar o regime em vigor, para fortificá-lo.”23 Nas festas oficiais da Idade Média o objetivo era a consagração das desigualdades, já que a distinção hierárquica era um fato intencional. Por esse motivo, o estilo da festa oficial só podia ser o da seriedade e o princípio cômico lhe era estranho. Contudo, durante o carnaval todos os participantes passavam a ser iguais, reinando uma característica significativa da visão carnavalesca do mundo, na qual as pessoas tinham a oportunidade de estabelecer novas relações sociais, “verdadeiramente humanas com seus semelhantes”.24 Nesse sentido, o carnaval era sinônimo de universalidade, de liberdade, de igualdade, da abolição provisória das hierarquias e eliminação das regras e tabus presentes no cotidiano. Nota-se também o interesse do escritor russo em nos explicar o significado do riso nas práticas culturais. Ele nos mostra que mesmo nas poucas produções acadêmicas, as características do riso popular apareciam distorcidas, pois partiam do embasamento de uma cultura e estética burguesas, impossibilitando revelar a originalidade da antiga cultura cômica popular. Porém, o riso teve grande importância na Idade Média e no Renascimento, uma vez que a sua variedade de manifestações e formas possibilitava ao indivíduo se opor à cultura oficial. Sobre a natureza do riso carnavalesco Bakhtin explica suas principais particularidades: É, antes de mais nada, um riso festivo. Não é, portanto, uma reação individual diante de um ou outro fato “cômico” isolado. O riso carnavalesco é em primeiro lugar patrimônio do povo (esse caráter popular, como dissemos, é inerente à própria natureza do carnaval); todos riem, o riso é “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge a todas as coisas e pessoas (inclusive as que participam no carnaval), o mundo inteiro parece cômico e é percebido e considerado no seu aspecto jocoso, no seu alegre relativismo; por último, esse riso é ambivalente: alegre e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente. 25
Compreende-se, a partir dessas considerações, que existem diferenças entre o riso festivo popular e o riso puramente satírico da época moderna. No primeiro, praticado na festa popular, escarnece-se dos próprios burladores e o riso popular ambivalente é capaz de expressar opiniões a respeito do mundo em evolução, é libertador, tornando possível a crítica
23
Idem, 2010, p.8 Idem, 2010, p.9 25 Idem, 2010. p.10 24
21
de valores e aspectos sociais de uma época. Já no segundo estilo, é empregado apenas o caráter negativo, que destrói o aspecto cômico do mundo e torna-se um fenômeno individual. A partir destes pontos levantados sobre os elementos culturais da Idade Média e do Renascimento, pode-se considerar nesta monografia a revisão das concepções ideológicas e artísticas de uma época. É claro que a revisão proposta pelo pesquisador russo foi para entender a obra de Rabelais, mas nos incentiva a investigar o significado de alguns conceitos para recorte temporal que nos propomos a pesquisar. Assim, poderemos rever o que significava o carnaval para as pessoas da cidade, a importância dessa manifestação cultural na vida das pessoas que o vivenciavam, e se existia a idéia do povo vivenciar uma “segunda vida”, entre outras concepções que podem ser inseridas e discutidas ao longo da pesquisa. Consideramos que a principal idéia da reflexão de Bakhtin é apresentar o carnaval como exemplo de igualdade e liberdade, um período em que são abolidas as fronteiras hierárquicas e todos passam a ser iguais. Este pensamento foi formulado com o intuito de compreender o aspecto cultural de uma época, contudo, não se pode levar esta idéia em sua plenitude, visto que, para o recorte proposto para esta pesquisa, em alguns momentos, ela pode se tornar contraditória, pois existiam grupos sociais que buscavam fazer suas festas em lugares distintos, bem como praticá-las de acordo com as suas próprias regras. Essa concepção de igualdade absoluta também nos faz questionar como poderíamos interpretar as práticas de resistência, os protestos e as possíveis transgressões inseridas nas manifestações carnavalescas. A igualdade e liberdade poderiam estar inseridas em lugares públicos específicos, previamente determinados, aonde pessoas dos mais diversos segmentos sociais poderiam confraternizar e ter um contato social direto, fatos que poderiam não ocorrer no cotidiano.26
2.1 Festas: rebeldia e transgressão
Ainda mergulhados na perspectiva do diálogo interdisciplinar, seguimos com uma breve reflexão sobre o conceito de festa proposto pelo sociólogo e antropólogo francês Jean 26
Existem autores que defendem a idéia de que o carnaval não é igual em toda parte, entre eles estão: DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Carnaval Brasileiro: o vivido e o mito. São Paulo: Brasiliense, 1999. ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. Festas: máscaras do tempo: entrudo, mascarada e frevo no carnaval do Recife. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1996. SANTOS, Mário Ribeiro dos. Trambones, tambores, repiques e ganzás: a festa das agremiações carnavalescas nas ruas do Recife (19301945). Recife : SESC, 2010.
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Duvignaud no livro Festas e Civilizações 27. Para ele não é necessário explicar a finalidade da festa, mas sim o que se passa, o que é produzido, pois “a festa, em si, ao contrário não implica qualquer outra finalidade senão ela mesma.” 28 Uma das primeiras características propostas pelo autor é que a festa se iguala a subversão, ou seja, ela tem a capacidade de seguir no sentido contrário da ordem política, social e cultural de uma localidade. Ela tem a capacidade de operar de modo contrário ao cotidiano, tendo como regra fundamental a prática dos excessos, funcionando como uma válvula de escape, um mundo virado de cabeça para baixo, um mundo pelo avesso. Neste raciocínio podemos compreender que a festa é capaz de inverter os aspectos culturais de uma sociedade, visto que ela procura romper – na visão do pesquisador – com os padrões estabelecidos pelo sistema de um determinado lugar, ou seja, a festa é o momento para romper com a ordem estabelecida. Nesta perspectiva Duvignaud enfatiza que: A festa, inversamente, destrói toda regulamentação, sem transgredi-la, simplesmente porque a transgressão descarta o “desvario” e o “deboche” a que, geralmente, as conjecturas reduzem a festa. Ela não apenas viola mas os destrói códigos e as normas, ao colocar o homem frente a um universo desaculturado, a um universo sem normas, ao “tremendum” que engendra uma espécie de terror. 29
Porém, é possível discordar do autor quando o mesmo afirma que a festa destrói toda forma de regulamentação, pois dizer que a festa destrói todas as normas e códigos é afirmar que não existem condições de controle e organização da mesma. Contudo, as fontes utilizadas para desenvolver esta pesquisa nos mostram que o governo da cidade do Recife procurou não só organizar uma festa como o carnaval, mas buscou transformá-la em um espetáculo cultural, uma fonte para atrair e desenvolver o turismo da cidade e conseqüentemente promover as ações da política em vigor. Portanto, é importante atentar para não generalizar o sentido da festa. Essa característica de destruir as normas vigentes pode ser encontrada em pontos isolados, desenvolvidos por grupos (ou individualmente) que não aceitavam o que foi estabelecido pelo sistema. Contudo, isso não quer dizer que o ato de destruir tomasse um formato radical, pois poderiam ser utilizadas inúmeras formas de ir contra as normas em atividade. Segundo o pesquisador pernambucano Roberto Benjamin:
27
DUVIGNAUD, Jean. Festas e Civilizações. Fortaleza: Edições Universidade Federal do Ceará, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1983. 28 Idem, 1983, p.66 29 Idem, 1983, p.67
23
A ruptura da ordem social vai dar lugar a manifestações de fuga das situações do cotidiano. A fantasia de ser “rei, pirata ou jardineira...” nos três dias de carnaval e ser, no resto do ano, motorista, pedreiro, empregada doméstica ou biscateiro. A fantasia de travestir-se e assumir o outro sexo. A fantasia de fugir da condição humana e assumir o corpo do animal, cujos atributos lhe sejam simbolicamente desejados. Seria um equívoco, porém, tomar todas as transfigurações carnavalescas como manifestações de pura alienação. Na verdade, a oportunidade de ter o mundo pelo avesso é o momento propício, também, para a crítica política e social, expressa através de manifestações satíricas, da dessacralização das pessoas e coisas da religião, do poder público e do poder econômico. 30
Os espaços para a prática dessas inversões sociais são variados, principalmente numa festa como o carnaval que envolve uma pluralidade de manifestações culturais. As ruas, os pátios, as praças, estão repletas de pessoas fora das suas condições e dos papéis que desempenham em uma coletividade organizada, por um período no qual a vida coletiva é mais expressiva, intensificada pelas afetividades e as comunicações. A fusão dessas consciências tem a capacidade de substituir os códigos e as estruturas vigentes. A festa possui a característica de abolir as representações, os códigos e normas por meio dos quais as sociedades se defendem contra a agressão natural: “segundo as aparências, a festa atinge aquilo que constitui a finalidade última das comunidades, isto é, um mundo reconciliado, uma entidade fraternal.” 31 Apesar de apresentar este lado destrutivo da festa, na visão de Duvignaud, existem festas que nem sempre apresentam um caráter destrutivo. Ele reflete sobre dois conceitos: as festas de representação e as festas de desregramento. A primeira está mais próxima da dramatização e do espetáculo, no qual espectadores e atores representam papéis preestabelecidos e não provocam conseqüências sociais, existe uma separação entre público e os intérpretes. Pode até existir o elemento catártico – que diz respeito à purificação, depuração dos sentimentos –, porém os participantes estão cientes das regras do jogo. A segunda envolve todos os presentes, são festas de participação, na qual uma sociedade coloca suas regras “entre parênteses” e interpreta pra si mesma a comédia da sua existência. São cerimônias que envolvem os homens em um universo desaculturado, onde a existência cotidiana é subvertida. 32
Neste sentido, Duvignaud afirma que: “Quando dizemos que a festa é uma forma de transgressão das normas estabelecidas, referimo-nos ao mecanismo que, com efeito, abala 30
AMORIM, Maria Alice; BENJAMIN, Roberto. Carnaval: cortejos e improvisos. Recife : Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2002. p.26 31 Idem, 1983, p.68-69 32 Idem, 1983, p.72. FONSECA, Eduardo P. de Aquino. As funções e os significados das festas nas religiões afro-brasileiras.
24
estas normas e, muitas vezes, desagrega-as.”
33
O ato de transgredir (desobedecer, infringir,
violar) pode ser considerado como ato de resistência, visto que esta transgressão tem uma intenção que pode ser, por exemplo, a de protestar contra as condições sociais que vivem um grupo ou uma classe social. Essa idéia de transgressão pode ser utilizada para embasar a análise sobre as proibições do governo da cidade do Recife contra algumas práticas culturais durante os festejos de momo, entre elas o uso do lança-perfume, bem como a reação do público e como eles conseguiram continuar com essa prática cultural no decorrer da festa.
33
Idem, 1983, p. 223
25
CAPÍTULO 2 - O CARNAVAL NOS ARRABALDES DO RECIFE
2.1 Nos arrabaldes de momo: os cenários urbanos do Recife nos anos 1950
Regresso de Banhistas Hoje é festa no bairro Nosso bloco desfila Há sorriso na gente Há bandeira na vila Nossa marcha regresso Ninguém cansa de ouvi-la 34
Antes de tudo, é necessário definir este jargão denominado arrabalde, que hoje normalmente chamamos de subúrbio. A palavra aparecia algumas vezes nas manchetes e matérias dos jornais que circulavam no Recife na década de 50 para se referir aos bairros periféricos, afastados do centro da cidade. Mas, o que é um bairro? O que é um subúrbio? Segundo o historiador Michel de Certeau: [...] o bairro é, quase por definição, um domínio do ambiente social, pois ele constitui para o usuário uma parcela conhecida do espaço urbano na qual, positiva ou negativamente, ele se sente reconhecido. Pode-se portanto apreender o bairro como esta porção do espaço público em geral (anônimo, de todo o mundo) em que se insinua pouco a pouco um espaço privado particularizado pelo fato do uso quase cotidiano desse espaço. 35
De acordo com a arquiteta pernambucana Virgínia Pontual o conceito de subúrbio proposto para a compreensão dos cenários urbanos da cidade do Recife nos anos 50 não pode ser considerado apenas como um conjunto de povoações isoladas e separadas do contexto urbano central, o subúrbio: [...] consistia em lugares contíguos ao tecido urbano, porém, com uma ocupação dispersa e rarefeita, e desempenhando, quase exclusivamente, a função residencial. Dessa forma, vários bairros continham os quadros urbano e suburbano. O lugar urbano abrangia os bairros do Recife, Santo Antônio, São José e Boa Vista, bem como parte de Santo Amaro, Graças, Encruzilhada, Afogados e Madalena. O 34
Trecho da letra “Regresso de Banhistas”, de autoria do compositor Getúlio Cavalcanti. CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano: 2, Artes de fazer. 7. ed. – Petrópolis, RJ : Vozes, 2008. p.40 35
26
suburbano incluía os remanescentes territórios destes últimos cinco bairros e parte de Tejipió, Boa Viagem, Várzea, Poço, Casa Amarela e Beberibe. Compreendia portanto, a maior porção do território. 36
No que diz respeito aos aspectos demográficos, o Recife, que na década de 40 possuía cerca de 348,4 mil habitantes, teve um aumento populacional que chegou a superar a marca de meio milhão de habitantes, por causa do fluxo de migrantes, pessoas que deixaram a vida campestre na tentativa de melhorar suas condições de vida na capital. Segundo os dados do IBGE, em 1959 a população estimada na capital pernambucana era de 765.305 habitantes 37. Este aumento demográfico também teve reflexo na expansão do território do município, que passou de 180 km² para 209 km², somente nos anos 50, período no qual foi definida a forma urbana atual. Segundo Marly Rodrigues houve uma série de alterações nos aspectos físicos das cidades brasileiras: Os centros urbanos começaram a “inchar” e a transformar. Antigos bairros descaracterizaram e mudaram de função. Antigos moradores cederam espaço a migrantes recém-chegados; residências unifamiliares tornaram-se habitações coletivas. Edifícios, antes referências da cidade, foram destruídos e substituídos por centros comercias. As favelas e os bairros de periferia brotaram na mesma intensidade que novos bairros de classe média e de “grã-finos”, refletindo no espaço físico a distinção entre grupos sociais e desafiando as metas dos técnicos em planejamento urbano que, através de planos diretores, tentavam disciplinar a ocupação do solo. 38
Essas mudanças nos cenários urbanos do Brasil também tiveram efeito no Recife, tanto nos bairros centrais como nos bairros periféricos. No centro da cidade, no agrupamento dos bairros de Santo Antônio, São José e Recife, não foram executadas alterações significativas na configuração do tecido urbano, ruas e avenidas que permitiam a mobilidade das pessoas. Contudo, era possível perceber as modificações na paisagem urbana com a construção de edificações verticalizadas e a diversidade de ocupação de vários segmentos industriais, comerciais e residenciais.39 Já no agrupamento dos bairros periféricos como: Encruzilhada, Campo Grande, Afogados, Tejipió, Várzea, Engenho do Meio, Cordeiro, Pina e Imbiribeira, foi comum a 36
PONTUAL, Virgínia. Uma Cidade e Dois Prefeitos: narrativas do Recife nas décadas de 1930 a 1950. Recife: Ed UFPE, 2001. p.37-38 37 IBGE, Laboratório de Estatística. Extraído do: Anuário estatístico do Brasil 1959. Rio de Janeiro: IBGE, v. 20, 1959. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/ 38 RODRIGUES, Marly. A década de 50: populismo e metas desenvolvimentistas no Brasil. 4ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2003. p.31-32 39 Idem, 2001.
27
expansão e dilatação das residências unifamiliares, que abrigavam os segmentos médios, de baixa renda e vilas operárias40. Em alguns bairros também houve a intensificação da ocupação dos morros por mocambos, como em Casa Amarela e Beberibe41. Assim, esses agrupamentos ou conjuntos urbanos revelam que o Recife estava dividido: existiam os espaços para a prática do comércio, industrialização e operações financeiras; os espaços das habitações unifamiliares das classes sociais média e alta; e os espaços das habitações das classes de baixa renda, as vilas operárias, as favelas e os mocambos. 42
Grupo de bairros da cidade do Recife.43
O aumento dos campos territoriais e demográficos também trouxe conseqüências no conjunto social da cidade. A chegada das pessoas que vinham das zonas rurais somado ao alto índice de desemprego fez com que aumentasse o nível dos trabalhos informais. O Recife crescia, porém não conseguia absorver a mão-de-obra disponível. Para completar o quadro de fatores negativos, também havia deficiências na distribuição de água, de energia elétrica, analfabetismo, mortalidade infantil e a economia estava estagnada por conta da dominação
40
Idem, 2001. Segundo o historiador Antônio Paulo Rezende, os mocambos foram os precursores das favelas, abrigavam os que chegavam atraídos pela prosperidade da metrópole. Localizavam-se nas áreas ribeirinhas, às margens do rio Capibaribe, Tejipió, Jiquiá e Beberibe. REZENDE, Antônio Paulo. O Recife: história de uma cidade. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 2002. 42 Idem, 2001. 43 Idem, 2001, p.62 41
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açucareira e a falta de investimentos na industrialização. Essas e outras dificuldades não assolavam só o Estado de Pernambuco, mas era uma realidade vivida pela região Nordeste. Na esfera política a década de 1950 ficou marcada por um período de instabilidade e de mudanças. O Recife chegou a ser governado por seis prefeitos em apenas 10 anos, entre eles: M. C. de Moraes Rêgo (1948/1951), Antonio A. Pereira (1951/1952), Jorge Martins (1952/1953), José do Rêgo Maciel (1953/1955), Djair Brindeiro (1955), e Pelópidas da Silveira (1955/1959)44. Cada vez mais a estrutura construída pelo Estado Novo apresentava sinais de decomposição. O socialismo e o nacionalismo se espalhavam pelo país e no Recife conseguiu levar Pelópidas Silveira ao cargo de Prefeito pela Frente do Recife, aliança constituída por socialistas, comunistas e grupos de esquerda. A política construída pelo Estado Novo teve seu colapso definido com a eleição de Cid Sampaio para o cargo de governador do Estado, eleito em 1958 também pela Frente do Recife. Ainda em 1958, vendo a situação caótica que o Nordeste enfrentava por conseqüência da seca, o então presidente Juscelino Kubitschek criou a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, a SUDENE. Para Manuel Correia de Andrade, a instituição tinha por objetivo desenvolver “uma política em favor da reforma agrária, do desenvolvimento industrial, da formação de quadros técnicos e da orientação e regularização da migração de trabalhadores para as áreas sub-povoadas do nordeste.” 45 A situação social do Recife passa a ter mudanças significativas a partir do governo de Pelópidas Silveira, no qual houve estabilidade na gestão e a tentativa realizar uma política democrática e popular. A cidade começava a ganhar um caráter desenvolvimentista e os subúrbios da passaram a ganhar atenção da prefeitura. O historiador Antônio Paulo Rezende explica que no governo de Pelópidas: [...] a organização da administração municipal foi modificada. Foram feitos concursos públicos, reestruturação de cargos e salários, mudanças no sistema de arrecadação dos tributos, disciplinamento no uso do solo e programa de atendimento às populações carentes, atingindo a alimentação, educação, cultura e habitação. Tudo isso revelava uma forte intervenção do poder público na vida da cidade; ao mesmo tempo ampliava-se a participação popular, com o crescimento das associações de bairro e de moradores. Havia condições políticas para que se democratizassem as relações de poder, para que se pensasse a modernização junto com a modernidade política. 46
44
Para lista completa dos prefeitos da cidade do Recife ver: <http://www.recife.pe.gov.br/pr/galeria/index.php> acessado em 15 de abril 2011. 45 ANDRADE, Manuel Correia de. Pernambuco: cinco séculos de colonização. João Pessoa: Grafset, 2004. p.154 46 REZENDE, Antônio Paulo. O Recife: história de uma cidade. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 2002. p.131
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Outras mudanças ocorreram na segunda metade da década de 50. Ruas e avenidas foram pavimentadas para facilitar o acesso e a mobilidade entre o centro e a periferia, também foram aplicados investimentos na construção de pontes, canais e galerias, que de certa forma melhoravam as condições de vida nos subúrbios, como em Casa Amarela, Beberibe e Água Fria. As construção de áreas de lazer e arborização em vias públicas também contribuiu para o projeto de modernização que se executava na Veneza brasileira. Ficava evidenciado o compromisso de Pelópidas em reduzir as desigualdades sociais presentes no Recife. No plano cultural o cinema e o teatro movimentavam a cidade. Todos os dias os jornais divulgavam os filmes em cartaz nos principais cinemas: São Luiz, Moderno, ArtPalácio, Trianon, Parque, Boa Vista, Coliseu, Rivoli, Soledade. Nos teatros nomes como Hermilo Borba Filho, Valdemar de Oliveira e Luiz Mendonça, produziam espetáculos para a população. Este último, por exemplo, fundou junto com Clênio Wanderlei, em 1953, o grupo de teatro amador chamado Teatro do Funcionário Público (TFP)47. Segundo Antonio Paulo Rezende, esses e outros teatrólogos procuravam: [...] fazer espetáculos para as populações dos bairros mais pobres, numa atuação característica de agentes culturais, cuja preocupação era a questão social. Marcante foi, sem dúvida, a presença do Teatro de Amadores de Pernambuco. Valdemar de Oliveira, que teve participação fundamental no grupo, afirma em suas memórias: “O TAP se tornou uma espécie de núcleo de cristalização das melhores figuras do palco amadorista pernambucano. Sem se propor abertamente a isso, veio a tornar-se um verdadeiro curso de arte dramática, numa cidade onde nem sequer se cogitava disso.” 48
O rádio também possuía influência no campo cultural. Este meio de comunicação conseguia penetrar nas casas de todas as camadas sociais levando informações e músicas tanto para pessoas ricas como para pessoas pobres. Marchas, sambas, baiões, boleros e frevos chegavam aos ouvidos e depois caiam na boca do povo. O papel das rádios teve grande importância para a divulgação do frevo. Com a criação da Rádio Jornal do Commercio e da Rádio Tamandaré, ampliaram-se as possibilidades de divulgação das músicas regionais. Nesta campanha de divulgação, programas como O Carnaval vem aí, Carnaval no morro e Pernambuco, você é meu, apresentado pelo radialista Ademar Paiva, priorizava a música local.49
47
REIS, Carlos; REIS, Carlos Augusto. Luiz Mendonça: teatro é festa para o povo. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2005. 48 REZENDE, Antônio Paulo. O Recife: história de uma cidade. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 2002. p.129-130 49 LÉLIS, Carmem. Dossiê de candidatura do frevo: patrimônio cultural imaterial do Brasil. Recife: Prefeitura da Cidade do Recife/IPHAN, 2006. p.53
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Foi na segunda metade do século XIX que surgiram as chamadas Revistas Carnavalescas.50 Com as revistas publicadas nos anos 1950, os foliões passaram a ter a oportunidade de conhecer, com certa antecedência, as músicas que seriam tocadas durante o carnaval, preparando o clima para a festa. Durante a pesquisa documental encontramos alguns títulos, como: A Cegonha (1950), O Macobeba (1950), Zé Carioca (1952), O Carnaval (1953), O Herói do Samba (1953), O Tarado (1954), Recife no Frevo (1954), Carnaval de 1955 e Música Maestro (1955).51 Em uma nota do jornal Correio do Povo é possível perceber o entusiasmo causado pelo lançamento das revistas e o nome dos sucessões do carnaval de 1955: Iniciando a temporada de revistas carnavalescas, o Rádio Jornal do Comércio lançará a partir do dia 31, com o grande cast de comediantes, contores, coristas e orquestras, edições, sucessões de “TO SENTINDO UMA COISA”, TEM NÊGO BÊBO AI”, “JÁ CHEGOU NO GOGÓ”, “NINGUÉM É DE FERRO”, “O BRASIL TA DE RESSACA”, “A POEIRA CAI”, e outras que alcançarão retumbante sucesso. 52
No embalo do sucesso das rádios, a indústria fonográfica também ganhava espaço na capital pernambucana, com destaque para a Fábrica de Discos Rozemblit Ltda., fundada em 11 de junho de 1954, com sede instalada na Estrada dos Remédios, nº 855, bairro de Afogados. Segundo o pesquisador Renato Phaelante: A Fábrica de Discos Rozenblit foi a única gravadora a funcionar fora do Sudeste do país. E, através de vários dos seus selos – Passarela, Arquivo, Sola – gravou frevos, por vários anos, muitos dos quais clássicos imortais, tornando cada vez mais populares seus criadores e intérpretes, evidenciando, durante décadas, o que se convencionou chamar O Melhor Carnaval do Mundo. 53
O selo mais significativo da fábrica foi o Mocambo, inaugurado com o lançamento do disco que trazia o frevo-de-rua Come e dorme, do maestro Nelson Ferreira e o frevo-canção Boneca, composição do jornalista Aldemar Paiva e do maestro José Menezes, cantado por Claudionor Germano. Por este mesmo selo foi gravado e divulgado o frevo-de-bloco Evocação nº1, do maestro Nelson Ferreira, sucesso nos carnavais do Recife e do Rio de Janeiro. Em 1957 o Jornal Diário Carioca divulgava a seguinte nota:
50
Para mais informações sobre as Revistas Carnavalescas ver: CÂMARA, Renato Phaelante da (Org.). 100 anos de frevo: catálogo discográfico. Recife: Cepe, 2007. 51 O Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano possui um rico acervo de revistas carnavalescas. 52 CORREIO do Povo. Recife, 25 Jan. 1955. p.6 53 CÂMARA, Renato Phaelante da (Org.). 100 anos de frevo: catálogo discográfico. Recife: Cepe, 2007.p.19
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Nelson Ferreira veio ao Rio, ver, pessoalmente, o sucesso do seu frevo “Evocação”, que já vendeu mais de cem mil discos em todo o país e que foi lançado não como uma música para a temporada, mas como marco inicial de um programa que tem por fim documentar uma época: Pernambuco, desde que o frevo nasceu, ai pelos idos do começo do século, até os dias atuais. 54
Abaixo segue a letra da canção do maestro Nelson Ferreira:
Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon, Cadê teus blocos famosos: “Bloco das Flores”, “Andaluzas”, “Pirilampos”, “Apois Fum”, Dos carnavais saudosos. Na alta madrugada O coro entoava Do bloco a marcha-regresso Que era um sucesso Dois tempos ideais Do velho Raul Morais “Adeus, adeus minha gente, Que já cantamos bastante”, E Recife adormecia Ficava a sonhar Ao som da triste melodia. 55
Foi neste ambiente de expansão demográfica e territorial, de dificuldades nas áreas de transporte, saúde, educação e economia, de variações e mudanças nas administrações públicas e de efervescência cultural, que o reinado de Momo continuou a reger a alegria das pessoas que viviam na cidade do Recife. Entre os bairros considerados como centralizadores das atividades carnavalescas estavam: Santo Antônio, São José e Boa Vista. Deixaremos para tecer algumas considerações sobre o uso dos bairros centrais no último tópico deste capítulo. Entre os subúrbios que apareciam como cenários de importante valor para as folias de Momo estavam: Afogados, Beberibe, Casa Amarela, Encruzilhada e Santo Amaro.56 Mas como os foliões utilizavam os espaços desses arrabaldes? Em Afogados, o carnaval acontecia nas ruas e nos clubes esportivos/sociais do bairro. Na rua Motocolombó existia uma comissão de festas, composta pelos moradores, que procurava organizar o carnaval. Em 1958 a comissão era presidida pelo comerciante José Felício, que provavelmente também era o responsável por mobilizar a comunidade. Nos dias da festa a rua era transformada, ganhando iluminação bem ornamentada e um palanque 54
Nota publicada no DIÁRIO de Pernambuco. Recife, 3 Mar. 1957. p.1. Reportagem de Rui Duarte. Para mais informações sobre as repercussões da premiação de Nelson Ferreira e o sentido da composição, ver DIÁRIO de Pernambuco. Recife, 3 Mar. 1957. 56 Esses subúrbios são citados com freqüência na documentação pesquisada, contudo, outros bairros desenvolviam atividades carnavalescas. 55
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destinado para abrigar a banda que tocaria as músicas carnavalescas daquele ano e receber integrantes das agremiações carnavalescas. No sábado de carnaval as pessoas que moravam no bairro comemoravam as folias de momo travando uma batalha de confetes na referida rua. Vale salientar que as atividades culturais não se limitavam apenas a rua Motocolombó, estendiam-se para outras artérias do bairro, principalmente o Largo da Paz. Outro ponto em Afogados que promovia o carnaval era a Praça do Trabalho, uma vila residencial localizada na rua São Miguel. Neste lugar a comissão de moradores também se mobilizavam para fazer os festejos carnavalescos. No momento do desfile das agremiações as pessoas utilizavam as calçadas para assistir as apresentações, de modo que ficavam aglomeradas em duas filas. Assim, percebemos que existia uma mudança no papel da rua em relação ao seu uso normal. O lugar que habitualmente era utilizado para a mobilidade, para o movimento dos trabalhos cotidianos, passava a ser utilizado como espaço de lazer, de confraternização social. Nesse aspecto o uso da rua pelos moradores do bairro de Afogados é bem diferente daquele proposto por Roberto DaMatta que justifica que na rua: [...] é preciso estar atento para não violar hierarquias não sabidas ou não percebidas. E para escapar do cerco daqueles que nos querem iludir e submeter, pois a regra básica do universo da rua é o engano, a decepção e a malandragem, essa arte brasileira de usar o ambíguo como instrumento da vida. (...) Na rua, então, o mundo tende a ser visto como um universo hobbesiano, onde todos tendem a estar em luta contra todos, até que uma forma de hierarquização possa surgir e promover alguma ordem. 57
No caso deste arrabalde recifense a hierarquia poderia existir na distribuição das funções para a estruturação dos objetivos da comunidade, contudo, o que percebemos é a mobilização de um conjunto de pessoas para promover um período de alegria, de confraternização, sem a intenção de provocar lutas ou desordens na localidade. Em Beberibe, temos um exemplo de um carnaval patrocinado por um “edil” (vereador), conhecido como José Pimentel. O político buscava reunir as pessoas do referido bairro para organizar a festa e ainda organizar um pequeno concurso de agremiações, no qual oferecia prêmios às sociedades carnavalescas que se apresentassem. Em Beberibe o carnaval era realizado na praça principal e assim como no bairro de Afogados, dispunha de ornamentação e palanque para o desfile das agremiações. Em Água Fria, os festejos eram organizados por uma comissão de comerciantes, que segundo a imprensa da época, não possuía intenções políticas. A iluminação destinada para os 57
DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. p.91
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festejos era instalada no largo de Água Fria, na avenida Beberibe, na travessa São Sebastião, na rua Júlio Ramos e na estrada velha. Outros bairros da cidade como Casa Amarela, Encruzilhada e Santo Amaro também organizavam seus festejos através de uma comissão de moradores e as vezes recebiam a colaboração do comércio local e de vereadores.
2.2 Alegria nos subúrbios recifenses: as práticas culturais carnavalescas
Após apresentar os espaços onde eram realizadas as práticas do carnaval do Recife, buscamos agora descrever as principais atividades culturais que animavam a festa, analisar o perfil social das pessoas que participavam das atividades momescas, bem como identificar alguns desses brincantes. A animação e brilhantismo que dominam os foliões começam com as chamadas Agremiações Carnavalescas. Essas sociedades surgiram a partir da organização de grupos de trabalhadores urbanos, tais como: os lenhadores, os caiadores, as verdureiras, entre outros. Alguns grupos tinham ligação com as religiões afro-descendentes e procuravam através das atividades carnavalescas lutar pelo reconhecimento das suas culturas, pela defesa dos seus direitos como cidadãos. Nessas lutas os componentes dos grupos carnavalescos se utilizam da música, da dança, dos figurinos, da voz e do espaço da cidade para a transmissão das suas mensagens de resistência. Porém existia uma rivalidade rígida, presente entre os grupos. Nas primeiras décadas da República aconteciam com certa freqüência brigas, conflitos, atos de violência que derramavam sangue nas ruas, como explica Rita de Cássia Araújo: As agressões e os insultos, a princípio verbais e gestuais, facilmente degeneravam em lutas sangrentas. A violência era uma constante no cotidiano da cidade e, mais ainda, por ocasião das grandes aglomerações populares, como no Carnaval. Desfilar num clube era um ato de prazer, satisfação e orgulho, mas também o era de desafio e coragem 58
Esses são exemplos que nos fazem compreender que no carnaval existe tanto o sentimento de união, de organização e de liberdade de expressão, quanto os atos de desregramento, de violação das normas sociais. 58
ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. Festas: máscaras do tempo: entrudo, mascarada e frevo no carnaval do Recife. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1996. p.355
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A presença das agremiações se fazia tanto no centro da cidade, como nos subúrbios. A prática dos ensaios nas ruas dos arrabaldes era comum e preparava os foliões para o que estava por vir nos três dias dedicados ao carnaval, como divulgava o Jornal Correio do Povo nos anos de 1955 e 1957:
A Troça Carnavalesca Mixta “Coqueiros de Beberibe” levará a efeito hoje seu animado Grito de Carnaval, estando sido já contratada uma Jazz daquele subúrbio para animar a turma de foliões. As danças começarão a partir das 22 horas na sede social da Troça, à Travessa da Avenida Operária, 100, em Beberibe. 59 Várias das nossas entidades carnavalescas já realizaram ensaios de rua preparandose para concorrer para o brilhantismo do carnaval pernambucano. Assim é que Madeiras do Rosarinho, Clube das Pás, Vassourinhas, Batutas de São José, Lenhadores e outros percorreram diversas ruas de nossos subúrbios, em preparativos ao tríduo de S. M. Rei Momo. 60 O Clube Carnavalesco Mixto das Pás, campeão do carnaval de 1956, dando prosseguimento às duas exibições públicas, a fim de concorrer brilhantemente ao carnaval de 1957, levará a efeito, no próximo dia 5, o segundo ensaio de rua percorrendo os arrabaldes de Ponto de Parada, Arruda e adjacências. A saída do Clube dar-se-á da residência do seu sócio benemérito, snr. José Reis, à rua Salvador de Sá, em Ponto de Parada. 61
Dois blocos geralmente desfilavam nos seus bairros de origem: o Banhistas do Pina 62, fundado no dia 03 de fevereiro de 1932, que nos primeiros anos de atividades se apresentava nos arredores do bairro e anos mais tarde, passou a desfilar na passarela do centro da cidade; e o Bola de Ouro63: O clube Campeão de Santo Amaro, o tradicional e querido “Bola de Ouro” levou a efeito, ontem, o seu primeiro ensaio de rua em preparativo para o reinado de Momo. Os “garimpeiros” saíram do Bar “Ponto Final” e depois de percorrer algumas artérias do bairro onde é sediado rumou em direção ao centro da cidade, executando a sua orquestra os frevos com que “Bola de Ouro” apresentar-se-á no reinado da folia e da pandega.
59
CORREIO do Povo. Recife, 5 Fev. 1955. p.2 CORREIO do Povo. Recife, 24 jan. 1957. p.2 61 CORREIO do Povo. Recife, 2 Fev. 1957. p.6 62 “Em 3 de janeiro de 1932, o Bloco Carnavalesco Misto Banhistas do Pina teve seu nascimento fático. Juridicamente, seu nascimento aconteceu em 20 de fevereiro de 1957, com a inscrição do seu estatuto no Cartório do 2º Ofício – Registro Especial de Títulos e Documentos, constante no livro de pessoa jurídica, sob nº de ordem 557, folhas 261 e 262, do referido cartório, sendo publicado no Diário Oficial, nº 41 do Estado de Pernambuco, em 17 de fevereiro de 1957, tendo, na época, como presidente Sr. Antônio Tenório, eleito para o biênio 1956/1957.” LAPENDA, Ana Lúcia; BARRETO, José Ricardo Paes; SANTOS, Maria Francisca Oliveira. Banhistas do Pina: evolução de um bloco. Recife, Avellar Gráfica e Editora Ltda., 1994. p.47 63 Outras agremiações também desfilavam nos seus bairros de origem, no entanto optamos por inserir os exemplos do BCM Banhistas do Pina e do BCM Bola de Ouro. 60
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A agremiação do folião Ursulino foi vivamente aplaudida em sua passagem pelas ruas de Santo Amaro e no centro do Recife, o que vem demonstrar nas reais simpatias que aquele cordão desfruta no selo da nossa população. 64
Cada agremiação desenvolvia um modo particular de apresentação, que representava a diversidade cultural presente no carnaval do Recife. Os ritmos e cores se cruzavam pelas ruas da cidade para dar corpo e alma à festa. Entre as modalidades de agremiações carnavalescas que desfilavam nas ruas na década de 1950 destacavam-se: os clubes, as troças, os blocos, os ursos, os caboclinhos, os maracatus e as escolas de samba. Apresentamos suas principais características de modo breve, visto que, neste trabalho, não é nosso intuito fazer uma análise aprofundada dessas manifestações culturais.
Clubes
Conhecidos como Clubes Pedestres, foram criados a partir das organizações de trabalhadores urbanos do final do século XIX, como comerciários, operários, alfaiates, carvoeiros, prostitutas e vendedores ambulantes. Apresentavam-se nas ruas no período da noite. Na indumentária utilizada pelos clubes predominavam os tecidos caros, com grande volume de adereços, como “as lantejoulas, os fios bordados a ouro, os sapatos finos, os estandartes cobertos de enfeites e medalhas.” O custo das peças fica evidenciado na seguinte nota jornalística: “Não é com qualquer 500 cruzeiros que se faz ma fantasia para o desfile nos blocos e clubes. Custa até 10 contos o figurino de uma componente da ala de frente.” 65 Nos desfiles, os clubes se exibiam com o seguinte formato: diretoria, balizas-puxantes, damas de frente, passistas, cordões, porta estandarte e a orquestra.
64 65
FOLHA da Manhã. Recife, 24 Jan. 1950. p.11 CORREIO do Povo. Recife, 12 Fev. 1956, p.8
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Estandarte do Clube Lenhadores.66
O gênero musical predominante nas troças, blocos e clubes é o Frevo, palavra que provavelmente teve origem a partir dos verbos “ferver” ou “frever” (como dizia o povo no início do século XX), está diretamente relacionado a música e dança carnavalescas. A palavra apareceu, oficialmente, pela primeira vez no dia 9 de fevereiro de 1907 no Jornal Pequeno, que dizia: “A banda de música do 27º batalhão de infantaria executará as bonitas marchas: Leão da Floresta, O frevo, Suspirando, Energna, Convenção, Rompe Tudo, João da Cruz, Novo Regresso, e muitas outras do seu vasto repertório.”
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Até os anos 1930 a essência do
seu significado estava ligada à folia, ao divertimento, a agitação e a alegria que o ritmo proporciona aos brincantes do carnaval. Musicalmente o frevo surgiu a partir da mistura dos gêneros que normalmente eram tocados durante os carnavais do final do século XIX e início do século XX. Entre os repertórios tocados pelas bandas militares, policiais e civis estavam as marchas, dobrados, hinos, maxixes, quadrilhas, polcas e peças do repertório erudito, que aos poucos fizeram surgir a sonoridade frenética, empolgante, rápida e vigorosa do frevo.68 Com uma musicalidade tão rápida e contagiante logo foram inseridos os primeiros “passos”, dança característica do Frevo, que teve uma forte influência dos elementos da cultura afrodescendente do Recife, “nascida das acrobacias dos capoeiras que abriam caminho para as procissões passarem.”69 66
Fonte: FOLHA da Manhã. Recife, 16 Fev. 1950. p. 12 RABELLO, Evandro. Memórias da Folia: o carnaval do Recife pelos olhos da imprensa: (1822-1925). Recife: Funcultura, 2004. p 172. 68 DOSSIÊ DE CANDIDATURA. FREVO: PATRIMÔNIO IMATERIAL DO BRASIL. Iphan.. p 37. 69 AMORIM, Maria Alice. 100 anos de frevo: irreverência e tradição. Recife: Folha de Pernambuco, 2008. p.14. 67
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Ao longo dos anos 1950, desfilaram nas ruas do Recife clubes como: Vassourinhas, Douradinhas, Lenhadores, Bola de Ouro, Toureiros de Santo Antônio, Pão da Tarde, Lavadeiras de Areias, Prato Misterioso e Papagaio Falador. Troças
As troças são semelhantes aos clubes de frevo, porém apresentam-se nas ruas no período da manhã ou da tarde. A palavra troça deriva do verbo troçar, que significa zombar, ridicularizar, escarnecer de algo ou de alguém. É nesse sentido que as troças fazem suas brincadeiras. Na segunda metade dos anos 50 elas se apresentavam em maior número, visto que não precisavam de tantas despesas para realizar as exibições. Como brincavam na luz do dia, na “fervura” do sol, o número de participantes era pequeno e as fantasias simples, baratas e com tecidos leves, com o propósito de ter mais conforto durante os desfiles. Nas ruas, as troças levavam a seguinte estrutura: porta-estandarte, diretoria, comissão de frente, cordões, damas, passistas e a orquestra com instrumentos de sopro, de metal, como trompetes e trombones. O frevo tocado nas ruas é reconhecido por ser somente instrumental.
Estandarte da Troça Cestinha. 70
Entre as troças que se exibiram em 1955 estavam: Coqueiros de Beberibe Batutas de Água Fria, Pão Dourado, Coqueirinhos da Estrada dos Remédios, Destemidos de Campo 70
Fonte: FOLHA da Manhã. Recife, 18 Fev. 1950. p.9
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Grande, Missangueiras, Tubarões do Pina, Bolachão, O Bagaço é Meu, Amantes das Flores, Abanadores, Espanadores, e várias outras. Observamos na documentação consultada que os “Ursos” também ganhavam a denominação de Troça Carnavalesca Mista: Urso Cariongo de Água Fria, Príncipe dos Ursos, Urso Ideal, Urso Pardo, Urso Cabeça Branca do Totó, Urso Dengoso de Água Fria, Urso Aliado, Urso Pidão em Folia, entre muitos outros. Em 1950 o Urso Talhador percorreu a zona norte do Recife para a realização de um ensaio: Os moradores da zona norte da cidade tiveram domingo ultimo uma agradável surpresa com o ensaio de rua levado a efeito pelo “Urso Talhador” de Ponto de Parada. Quase todas as ruas do Arruda, Água Fria, Ponto de Parada e Encruzilhada foram percorridas pelo Uso Talhador executando a sua orquestra todos os frevos que farão o carnaval deste ano. 71
A diferença existente entre os ursos e as troças se fazia “pela presença de um homem fantasiado de Urso, pelo Italiano ou Domador e do Caçador, acompanhados de alguns músicos.” 72
Blocos
Segundo o pesquisador Leonardo Dantas, foi no início dos anos vinte que começaram a surgir os blocos carnavalescos responsáveis por executar um novo gênero musical: a marcha-de-bloco.73 Diferente dos clubes carnavalescos, os blocos surgiram a partir da reunião dos grupos familiares dos bairros centrais como Santo Antônio, São José e Boa Vista, bem como das bairros periféricos como Torre, Rosarinho, Pina, entre outros. No último dia de carnaval, os blocos ou clubes do Recife, ao final da apresentação executavam a marcha-regresso, que é a música tocada quando o grupo regressa à sua sede, despedindo-se do público e do carnaval. Nesta modalidade as mulheres possuem um papel de grande importância, visto que o coro, que canta os frevos-de-bloco, é formado por um grupo feminino, como afirma Leonardo Dantas: “o bloco carnavalesco veio proporcionar condições ao elemento feminino de
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FOLHA da Manhã. Recife, 24 Jan. 1950. p.11 ASSOCIAÇÃO DOS MARACATUS DE BAQUE SOLTO DE PERNAMBUCO. Catálogo de Agremiações Carnavalescas do Recife e Região Metropolitana. Prefeitura do Recife. – Recife, 2009. p.242 73 DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DE PERNAMBUCO. Suplemento Cultural: coletânea 1997. Ano X, Fevereiro de 1997. p.13 72
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participar do carnaval das ruas centrais do Recife, protegido da mistura da massa que acompanhava os clubes e as troças.” 74 Assim como outras agremiações, os blocos ensaiavam pelas ruas dos arrabaldes. O Bloco Batutas de São José, por exemplo, levou no ensaio de rua nos bairros de Santo Antônio e São José “um cordão feminino de cerca de 50 elementos e uma orquestra de 30 figuras, vários frevos-canções foram executados em todo o seu itinerário, destacando-se: “Bandeira Gritou”, “Vou com Valdemar” e “Feitiço de Doer”. 75 Na estrutura do bloco estavam: coral feminino, orquestra (formada por instrumentos como: violões, violinos, bandolins, flautas, reco-reco, caixa (tarol), etc.), flabelo (diferente dos estandartes dos clubes e troças, o flabelo é uma alegoria de mão que trás o símbolo da agremiação, o nome e a data de fundação.), cordões e damas de frente.
Foliões na sede do Bloco Carnavalesco Misto Batutas de São José, localizado na Rua da Concórdia. 76
Nos desfiles os blocos poderiam vir com uma formação diversificada, como a do Bloco Carnavalesco Misto Rebeldes Imperial que trouxe uma estrutura baseada no enredo romântico “A Paixão do Beduíno”: 1º Plano – A Figura do “Demo” símbolo tradicional do Bloco Rebeldes Imperial. 2º Plano – Alegorias simbolizando o estandarte. 3º Plano – Lampiões do século XVIII. 4º Plano – Um quinteto de damas em trajes da época. 5º Plano – Dois vassalos do Rei Maltino 6º Plano – O Famoso Gênio da Corte, cientista Bruce. 7º Plano – S.M. o rei Maltino. 8º Plano – Os dois carrascos do Reinado vestidos a rigor. 9º Plano – Sua Majestade o rei dos Tunes. 10º Plano – O Capitão Fez e seus dois ajudantes de ordens. 74
Idem, 1997, p.13 Folha da Manhã. Recife, 7 Fev. 1950. p.5 76 Fonte: CORREIO do Povo. Recife, 13 Fev. 1957. p.6 75
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11º Plano – Sua Majestade o rei Malik, acompanhados de dois escravos. 12º Plano – O Conde Voltino, chefe da Guarda de Sua Majestade. 13º Plano – A Princesa Yhada. 14º Plano – O Beduíno, príncipe da floresta. 15º Plano – A rainha consorte do rei Maltino e sua filha. 16º Plano – O Capitão Haikin, comandante do exército que comandava a floresta. 17º Plano – Integrantes do Exército comandados pelo capitão Haikin e composto pelo corpo dorsal do bloco. 18º Plano – Fanfarra do Exército da Floresta. 77
Apareciam nas ruas e passarelas da cidade: Madeiras do Rosarinho, Banhistas do Pina, Batutas de São José, Diversional, Sinfonia dos Tamancos, Rebeldes Imperial e Inocentes do Rosarinho.
Clube Papagaio Falador, na rua Nova, 1953. Fotógrafo não identificado. 78
Maracatu Nação
O conceito de nação pode ser entendido como um grupo no qual as pessoas que o integram estão ligadas por laços históricos e culturais, produzindo suas próprias normas para viver em comunidade. É assim que atualmente muitos grupos de maracatus do Recife se denominam, Maracatu Nação ou Maracatu de Baque Virado.79 A maioria dos grupos deste seguimento de Maracatu tem forte ligação com as religiões afro-brasileiras, especialmente o Candomblé e a Jurema, encontrando nos cânticos, símbolos, indumentárias e na dança as relações com os orixás e as entidades pertencentes as respectivas
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CORREIO do Povo. Recife, 19 Fev. 1955, p.7 Foto extraída do livro: AMORIM, Maria Alice. 100 anos de frevo: irreverência e tradição. Recife: Folha de Pernambuco, 2008. p.73. (Acervo Museu da Cidade do Recife). 79 Sobre os Maracatus do Recife no período de 1949 a 1952 ver: GUERRA-PEIXE, César. Maracatus do Recife. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980. (Coleção Recife Vol. XIV) 78
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religiões. Nos terreiros ou nas sedes alguns grupos realizam rituais de proteção antes de saírem nas apresentações carnavalescas. Os personagens que compõe essa manifestação cultural formam uma verdadeira corte destacando-se: o rei e a rainha, as damas-de-honra, os duques e duquesas, os vassalos, as damas-de-paço (responsáveis por levarem as calungas no desfile), as baianas, o portaestandarte, os escravos (que sustentam os pálios, protegendo a casa real), os batuqueiros e os caboclos de pena. Assim como nas demais modalidades de sociedades carnavalescas os maracatus realizavam ensaios. O Maracatu Elefante chegou a realizar, em Boa Viagem, um acerto de bombos na casa de um folião chamado Humberto e depois percorreu as principais ruas daquele bairro. Percebemos que o Maracatu Nação Elefante agradava os jornalistas recifenses e de outros estados. Em algumas matérias apareciam referências e até mesmo o apelo para o cuidado com esta agremiação. Para dar uma sugestão aos poderes públicos: tornar de utilidade pública o “Elefante”, subvencionando-o e oficializando-o para não o deixar morrer. A sua decadência é um fato que ressalta a olhos vistos: dos cento e tanto figurantes dos tempos do rei Vitorinho, está reduzido a uma poucas dezenas. As fantasias já não tem o mesmo brilho. E no dia que Santa falecer é possível que leve com ela o próprio maracatu... Sem a ajuda do poder público a sua morte será rápida e certa, dentro de mais alguns anos. E o recifense não compreende um carnaval sem o “Maracatu Elefante”, o “Vassourinhas” e os “Caboclos Canindé”, que não podem ser preteridos em favor dessas grotescas e alienígenas escolas de samba. 80
Segue os nomes de alguns maracatus que desfilavam na década de 1950: Elefante, Leão Coroado, Indiano, Almirante do Forte e Timbu Coroado.
Maracatu de Orquestra (ou Maracatu de Trombone)
Este seguimento de Maracatu tem, até os dias atuais, sua ocorrência predominante na Zona da Mata Norte de Pernambuco e possui este nome por utilizar na sua composição musical instrumentos de sopro. O musicólogo Guerra-Peixe faz uma crítica à antropóloga Katarina Real em relação a nomenclatura do Maracatu de Orquestra ou de Trombone. A pesquisadora norte americana
80
CORREIO do Povo. Recife, 12 Fev. 1956. p. 3
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passou a utilizar a denominação “Maracatu Rural” por este ocorrer do modo mais intenso no interior do Estado de Pernambuco. Porém Guerra-Peixe não concorda com a aplicação desta nomenclatura, pois não era utilizada na época pelas pessoas que produziam a manifestação cultural, afirmando que “não há razão para substituí-la por palavra que só é usada por intelectual.”81 Na composição das personagens do Maracatu de Orquestra destacavam-se: o mestre, a dama-de-paço, as portas-buquê, as baianas, Mateus, Catirina, a burra e os caboclos-de-lança. Entre os instrumentos musicais utilizados estavam: gongué, ganzá, tarol, cuíca, surdo, trompete e trombone. Entre os maracatus que desfilavam na década de 1950 estavam: Leão da Aldeia, Águia de Ouro, Cambinda Estrela, Leão da Serra, Cruzeiro do Forte e Estrela da Tarde.
Caboclinhos
Também conhecidos como “Cabocolinhos” ou Tribo de Caboclinhos, é uma manifestação popular resultado da hibridação, ou mistura, das culturas indígenas. Expressamse mediante a apresentação de danças, músicas, dramatizações e indumentárias próprias, tanto no carnaval como em outras datas comemorativas. Entre os figurantes estão o Cacique, Índia-chefe, Pajé, Caboclos, Matruá (espécie de feiticeiro), Capitão, Tenente, Porta-Estandarte, meninos, meninas e Caboclos-de-Baque, esses últimos responsáveis pela musicalidade do grupo. Dos objetos utilizados nas apresentações destacavam-se: machadim, flecha (também conhecida como preaca ou arco), lança e apitos. Segundo Guerra Peixe “entre 1950 e 52 existiam no Recife numerosas associações de Caboclinhos, grupos populares que se vestem de índio e saem no carnaval dançando e executando música própria, mas que noutras ocasiões representam também um auto.” Durante a pesquisa realizada pelo musicólogo e pesquisador, foram identificados os seguintes grupos: Aimorés, Caetés, Caiapós, Canindés, Carijós, Guaianases, Guaitacases, Juremas, Paranaguás, Taperaguás, Tupis, Tupis-Guaranis, Tupinambás e Tupiniquins. Muitos estavam em processo de desaparecimento, tendo como causa principal a falta de recursos financeiros para manter a agremiação em atividade.82
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GUERRA-PEIXE, César. Maracatus do Recife. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980. (Coleção Recife Vol. XIV). p.14 82 PEIXE, Guerra. Os caboclinhos do Recife In: Revista Brasileira de Folclore. Ano VI Nº 15 maio/agosto de 1966. p.136 Resultado da pesquisa realizada com os caboclinhos entre 1950 e 1952.
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Caboclinhos Tupinambás. 83
O artigo publicado por Guerra Peixe na Revista Brasileira de Folclore foi elaborado a partir do contato com os caboclinhos Tupinambás, fundado no bairro de Tejipió, os Canindés, que estavam localizados no bairro da mangabeira e os Tupis (localizar bairro de origem). Em abril de 1958 o jornal “A Gazeta” de São Paulo divulgava a matéria com o título “Material imenso e rico para os estudiosos de nossa cultura popular” descrevendo algumas impressões do jornalista que vivenciou o carnaval de rua do Recife. No texto encontramos algumas referências sobre as práticas culturais realizadas pelos caboclinhos, com destaque para os Tabajara e nos Canindé. Os “Caboclinhos” representavam um auto, cujo texto se vai deturpando, mas sempre cenas do começo da História do Brasil. Os Canindé iniciam assim sua representação, numa fala rapidíssima, dialogando por entre dansas e o puxar constante de preacas (flechas): – Tupiriçá? – Ta quá!. – Canindé em cima daquela serra pede paz ou pede guerra? – Guerra! – Jurupitá de candeia? – Candeia! AS MANOBRAS E vêm então as manobras. Os Tabajara abrem a cena com a fala do Capitão ao Tenente, relembrando os idos da descoberta: “Tenente, em 1500 o Brasil foi descoberto pelo Almirante português Pedralves Cabrá, a 22 de abril quando avisto-se o barco, antes de fincar-se o marco, caboclo pegava em arco, branco pegava em fuzil”. Informou-se Noel que ele estuda muito a História do Brasil, de um autor, porém, o preferido, o mais nacional de todos, é José de Alencar. E concluiu: o maio maior dos historiadores”. Disse ainda
83
Idem, 1966, p.148
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que sabe perto de setenta histórias do Brasil, num total de 1452 versos, podendo falar quase três horas sem parar... Cada ocasião tem seu toque de pífano e são, ao que me disse, 122. As manobras, por igual numerosíssimas: aldeia, cipó, emboscada, traidor, ataque de guerra, às quais juntamos mais estas dos Canindé: centro, subida de serra, de dois, guerras, aripuá, machada e seta. Personagens outros entram em cena, africano preso, meninos, pescadores, enfermeiros ou mesmo em grupo, como caçadores. Na tribo dos Canindé há dois garotos de 6 anos e na dos tabajara também dois, chamados “peró” ou “peromingu”, que são as “segundas pessoas do cacique. 84
A apresentação dos caboclinhos se encaixa no que Duvignaud chama de festas de representação visto que é uma dramatização, neste caso uma dramatização sobre a conquista do território indígena pelos europeus, tendo como função manifestar o espírito nativista.
Escolas de Samba
Criadas originalmente no Rio de Janeiro, o nome Escolas de Samba, faz referência as sociedades civis que não possuíam fins lucrativos e que buscavam promover a cultura e o lazer dos seus integrantes, realizando desfiles nos dias de Carnaval. No Recife, as primeiras referências do samba de escolas encontram-se no bairro de Casa Amarela, na batucada Bando da Noite, mais tarde chamada Escola de Samba Quatro de Outubro. Nos anos 1930, a Escola de Samba Limonil, do bairro de Afogados, entra para a história do carnaval da cidade. Na década de 1940, a chegada do Encouraçado São Paulo, que trazia sambistas entre seus tripulantes, contribuiu para o aumento de blocos e escolas de samba. Tais agremiações encontram-se listadas nos grandes jornais da época. 85
Nos carnavais dos anos 50, as escolas de samba que se mostravam para apreciação do público nas ruas da cidade eram: Amigos do Ritmo, Turma Brasileira, Inocente Escola de Samba, Leão do Norte, Turma Unida do Cacimbão, Escola Cadetes do Samba, Gigantes do Samba, 4 de julho, General do Ritmo, Do Arruda, Aprendizes do Fundão, Unidos do Pina, Corneta Escola de Samba, Brotinhos do Avaí, 4 de Outubro, Sapato Furado, Cheguei na Hora, Albacora em Folia, Vale Tudo, Turma Central, Turma do Funil, Esporte Clube de Afogados, Duvidosa, Canto do Rio, Estudantes de São José, Almirante e Elmo Esporte Clube.
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A GAZETA. São Paulo, 29 Abr. 1958. p.32 ASSOCIAÇÃO DOS MARACATUS DE BAQUE SOLTO DE PERNAMBUCO. Catálogo de Agremiações Carnavalescas do Recife e Região Metropolitana. Prefeitura do Recife. – Recife, 2009. p. 160 85
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Apresentação da Escola de Samba Milionários do Ritmo nas ruas do Recife.86
Além das atividades rítmicas e dançantes das agremiações, os foliões também gostavam de brincar com o chamado lança-perfume. O brinquedo consistia numa ampola de vidro ou metal preenchido com éter perfumado. A intenção inicial era esguichar o líquido no sexo oposto, para cortejar as damas ou os rapazes que participavam da festa. Porém, ao logo do tempo alguns foliões pareciam não compartilhar dessa idéia e passaram a fazer uso do lança-perfume de modo agressivo, esguichando o líquido nos olhos das pessoas. Existia também a prática da inalação do conteúdo químico, fazendo com que a pessoa ficasse entorpecida. A utilização indevida da população levava as autoridades a tomarem providências para proibir o uso e a comercialização do produto. Em 1955 o Secretário de Segurança Pública, coronel Bráulio Guimarães, tentou extinguir a prática do lança-perfume, alegando que era um entorpecente. A decisão causou insatisfação por parte da população e da imprensa, que criticava e denunciava: Ora, que importância há que o povo use e abuse do mesmo? O crime é que se aspire porque entorpece, nesse caso ele mande os seus “pupilos” trabalhar nos dias de carnaval – eles são pagos é para isso – e que quando os mesmos apreenderem os referidos lanças não fiquem a aspirar, como tem acontecido nos anos anteriores. 87
Apesar das tentativas de censura as pessoas protestaram e saíram nas ruas em defesa do consumo do cheirinho que alegrava os foliões nos dias de carnaval. O ato teve efeito positivo e o então desembargador João Tavares decidiu suspender a decisão do Secretário de Segurança Pública. 86 87
Fonte: FOLHA da Manhã. Recife, 16 Fev. 1950. p. 12 CORREIO do Povo. Recife, 11 Fev. 1955. p.6
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Fonte: CORREIO do Povo. Recife, 15 Fev. 1955. p.1
O costume de usar o lança-perfume e as tentativas de proibição serviram de inspiração para a composição do frevo-canção Me dá o lenço mandarim de Sebastião Lopes, imortalizado na voz de Jackson do Pandeiro: Me dá o lenço mandarim Bote um pouquinho desse cheirinho pra mim Bote, bote, bote mais um bocadinho Com esse cheiro, eu vou pro céu devagarinho O delegado não quer que cheire isso não Pode haver confusão no salão Mas bote, bote, bote mais um bocadinho Para alegrar o coração de um folião. 88
A letra descreve o hábito muito comum das pessoas nos dias de folia: o de cheirar o lança-perfume. Na composição também vemos a referência a proibição do uso no verso: O delegado não quer que cheire isso não. O ato de cheirar o lança-perfume nos carnavais pode se considerado como um momento de transgressão, de ir contra os pressupostos morais, violar as regras estabelecidas pela sociedade. Poderia ser este um dos instrumentos que levavam um cidadão a ver o carnaval como uma válvula de escape, um momento para liberar as tensões ou cometer excessos, num curto período de tempo em que tudo virava de cabeça para baixo.
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MAIOR, Mário Souto; SILVA, Leonardo Dantas. Antologia do carnaval do Recife. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 1991. p.XXIX
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2.3. “Alegria do nosso povo gentil”: os foliões no carnaval da cidade 89
A análise da composição social dos componentes das agremiações carnavalescas em atividade nos anos 50 foi realizada a partir da leitura dos estatutos publicados no Diário Oficial do Estado de Pernambuco nos anos de 1956, 1957 e 1958. O estatuto, segundo o dicionário Aurélio, é uma “lei orgânica que expressa formalmente os princípios que regem a organização de um Estado, sociedade ou associação”. Nesses regulamentos conseguimos identificar a classe trabalhista, o estado civil e os cargos que os membros das diretorias assumiam dentro das agremiações, bem como os respectivos bairros de origem, lugares simples, muitas vezes esquecidos pela política pública, mas que mesmo assim faziam nascer práticas culturais de resistência. É importante ressaltar que os bairros onde eram praticadas as atividades carnavalescas também poderiam (e ainda podem) ser identificados nos nomes das agremiações como clubes e troças que se apresentavam na cidade, tais como: Inocentes do Rosarinho, Batutas de São José, Toureiros de Santo Antônio, Lavadeiras de Areias, Abanadores do Arruda, Banhistas do Pina, Destemidos de Campo Grande, Batutas de Água Fria, Teimoso da Mustardinha, Tubarão do Pina e Coqueiros de Beberibe, Coqueirinhos da Estrada dos Remédios. Era de costume das respectivas agremiações realizarem ensaios nas suas e sedes e nas semanas pré-carnavalescas percorrerem as principais artérias dos arrabaldes onde estavam situadas. Elegemos para exemplificar a estrutura da composição social o estatuto da Troça Carnavalesca Mista “Batutas de Água Fria”, estatuto da Escola de Samba “Garotos Desamparados” e o estatuto do Clube Carnavalesco Misto Diversional. Identificamos que nas três agremiações acima citadas, os membros fundadores eram todos brasileiros e a grande maioria composta por homens. Apenas uma mulher figurava como fundadora, a senhora Abigail Lourenço da Silva, da Escola de Samba Garotos Desamparados, agremiação criada no dia 7 de setembro de 1942. Dentro das agremiações, as pessoas comuns, que diariamente trabalhavam como operários, funcionários públicos, comerciários, comerciantes, serralheiros, ao longo do ano e principalmente no período do carnaval assumiam as funções de presidentes, diretores, secretários, tesoureiros, oradores e fiscais. Assim concordamos com o historiador Mário Ribeiro dos Santos, quando afirma que:
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Trecho da letra da música “A festa do povo”, de autoria de Luiz Faustino, compositor do Bloco Carnavalesco Misto Banhistas do Pina.
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[...] ao reunir pessoas da mesma classe social, as agremiações carnavalescas afirmam por meio dos cantos, danças e fantasias, as próprias práticas culturais de seus integrantes, convertendo os momentos de lazer nas ruas, em espaços de defesa dos interesses de cada grupo ou pessoa, e na busca por melhores condições de vida e de trabalho. Criam maneiras próprias de dialogar com as estruturas sociais vigentes, a partir de interesses nascidos no interior do grupo e disseminados para a sociedade através das brincadeiras. 90
Seguimos em frente no intuito de identificar alguns atores que participavam do carnaval dos anos 50 e circulavam nas matérias publicadas pelos periódicos. Uma das figuras do carnaval nos anos 1950 foi o senhor José Bezerra, também conhecido como “Zé Bezerra” ou “vovozinho do frevo”, que com seus 80 anos de idade empunhando uma bengala, caia no passo, prometendo dançar todos os dias, sendo considerado um verdadeiro exemplo de como um folião deveria brincar no carnaval da cidade. Segundo a imprensa da época esta figura apresentava-se em plena forma e geralmente marcava o passo na Rua Nova, na Rua da Imperatriz e nos palanques armados nas ruas. Um dos baluartes do Carnaval do Recife dos anos 1950 foi o alfaiate Augusto Bandeira que trabalhava no Pátio de São Pedro. Além de alfaiate Augusto também era diretor do Bloco Batutas de São José, e a cada ano procurava se apresentar com um conjunto elegante. O periódico Carnaval de 1955 destacava que “Augusto Bandeira quando se aproxima a época do Carnaval desdobra a sua atividade, ganha a rua dia e noite com tanto que o seu bloco realce nas festas consagradas à Momo.” 91
José Bezerra, o vovô do frevo. 92
90
SANTOS, Mário Ribeiro dos. Trambones, tambores, repiques e ganzás: a festa das agremiações carnavalescas nas ruas do Recife (1930-1945). Recife : SESC, 2010. p. 87 91 CARNAVAL de 1955. Recife, Jan. 1955. p.2 92 Fontes: Foto esquerda: CORREIO do Povo. Recife, 12 Fev. 1956. p. 8. Foto direita, extraída do livro: AMORIM, Maria Alice. 100 anos de frevo: irreverência e tradição. Recife: Folha de Pernambuco, 2008. p.40. (Foto original de Romildo Carvalho, Acervo Museu da Cidade do Recife).
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Outra personalidade que teve destaque nos carnavais dos anos 1950 foi José Bezerra Cavalcanti, o folião que representou o primeiro e único Rei Momo93 do carnaval pernambucano, em 1957. Com seus 182 quilos, vestindo uma fantasia de veludo, o Momo recifense visitava os clubes sociais, participava do corso e se fazia presente no palanque do centro da cidade, localizado na Praça da Independência e saia em cortejos: [...] partindo da Fábrica de Discos Mocambo, na Estrada dos Remédios, devendo seguir o seguinte itinerário: Estrada dos Remédios, Largo da Paz, Rua Imperial, Praça Sérgio Loreto, Rua da Concórdia, Rua Nova, Praça da Independência, Avenida Guararapes, Ponte Duarte Coelho e Palácio de Alumínio, onde, conforme foi dito acima, lhe serão entregues as Chaves da Cidade. Durante todo o percurso acompanhará o cortejo um grupo de cavalaria com clarins. 94
José Bezerra Cavalcanti, o folião que representou o “primeiro e único” Rei Momo do Carnaval de Pernambuco. 95
No Recife dos anos 50, a dança característica do Frevo possuía um rei, Egídio Bezerra, também conhecido como o Rei do Passo. Um pescador que trabalhava no Iate Clube do Recife consertando lanchas, que durante os momentos com a sua família cozinhava, passava roupas, costurava, cuidava dos filhos, e que em outros momentos era reconhecido como um dos maiores dançarinos da cidade. Zenaide Bezerra, filha do Rei do Passo, revela numa entrevista que a carreira de Egídio começou com uma aposta. Ele resolveu enfrentar o passista que até então era o mais premiado do carnaval do Recife, o Vovô do Frevo, o mesmo que comentamos logo acima. 93
Acredito que o senhor José Bezerra Cavalcanti foi considerado o “primeiro e único” por ser o primeiro Rei Momo do carnaval oficial da cidade do Recife. Segundo Borges e Pereira “o título de primeiro e único era dado às primeiras pessoas que encarnaram esse personagem tanto no Rio de Janeiro como em Recife”. Borges, Luciano. Carnaval do Recife: um reinado de três dias / Luciano Borges, Thiago Pereira. – Olinda, PE : Livro Rápido, 2009. p.37 94 CORREIO do Povo. Recife, 28 Fev. 1957. p.1 95 CORREIO do Povo. Recife, Fev. 1957.
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Essa emocionante disputa poderia ter acontecido entre 1954 e 1956, em algum dos concursos de passo realizado pela prefeitura do Recife. Segue abaixo a narrativa de Zenaide a respeito dessa disputa: Eu não me lembro do começo, mas minha mãe ainda é viva e foi ela quem passou pra mim que existia na Rádio Clube um concurso de passista. E existia um rapaz lá, que ganhava pra todo mundo. Um tal de Vovô do Passo. Mas eu não conheci, só ouvi falar de boca da minha mãe. Aí ele estava em casa e disse “eu vou ganhar esse concurso”. E mãe disse: “Oxe, pra Vovô do Passo? Você não ganha mesmo”. Aí fizeram uma aposta, que era assim: “Se você ganhar você me dá uma cristaleira”. Eu tinha mais ou menos 6 anos e via a cristaleira que ela falou. Quando ele chegou lá, ganhou o concurso pra Vovô e aí continuou ganhando... Ele já viajava, era famoso e na volta da França começou a ensinar a mim e a minhas irmãs e meus vizinhos. 96
Egídio Bezerra foi responsável pela criação de várias coreografias para um dos expoentes culturais do carnaval de Pernambuco: o Passo do Frevo. No livro Frevo, Capoeira e Passo, Waldemar de Oliveira, traz uma parte da entrevista de Egídio concedida ao jornalista Ney Lopes durante o carnaval de 1967: Danço frevo desde menino. Criei vários passos: “peru na chapa quente” (envergadura do corpo); “tesoura aérea” (saltos cruzando as pernas); “todo duro” (sistema de envergaduras sucessivas); “cortando jaca” (pulando com pernas abertas em circunferência); “escamado” (saracoteando em diagonal na passarela); “mulher carregando menino” (sombrinha e declive nas pernas) e “parafuso” (pernas trançadas com mudanças contínuas de posição). 97
Neste pequeno trecho, o passista destaca as principais coreografias desenvolvidas por ele ao longo de sua carreira. A dedicação de Egídio Bezerra para com este dança da cultura popular rendeu frutos e hoje quem transmite esses conhecimentos é a sua filha Zenaide Bezerra. Na foto abaixo, registrada durante uma apresentação no Clube Português, Egídio estava executando a “caída do frevo”, um movimento criado por ele que geralmente era executado no final das apresentações. Segundo Zenaide Bezerra: Essa caída do frevo sempre foi de meu pai. O pessoal terminava o frevo em pé e meu pai nunca deixou que a gente terminasse o frevo em pé, tinha que pular. Ele gostava muito de pular e terminar com os dois joelhos no chão. [...] Ele gostava de dançar de joelhos e passava a sombrinha uma vez ou duas vezes dependendo da 96
LÉLIS, Carmem; MENEZES, Hugo; NASCIMENTO, Leilane. Zenaide Bezerra: no passo da vida... são dois pra lá, dois prá cá. Recife: Secretaria de Cultura/Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2011. p.34 97 Entrevista de Egídio Bezerra, ao jornalista Ney Lopes de Souza, in “Jornal do Commercio”, do Recife, no carnaval de 1967. Retirado do livro: OLIVEIRA, Valdemar de. Frevo, capoeira e passo. 2. Ed. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1985. p. 103
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parada do frevo. Ele ensinou tudo de presença de palco, a usar todos os espaços, e na hora de terminar, sempre de frente. Nunca dar as costas para o público. Isso eu passo para os meninos todas as vezes. 98
Egídio Bezerra, o Rei do Passo, dançando no Clube Português. 99
Além da forte presença dos homens na coordenação e participação nas Agremiações Carnavalescas, as mulheres também tiveram importância significativa na festa. Para Claudilene Silva e Ester Monteiro, “os lugares e papéis ocupados pelas mulheres no contexto das agremiações carnavalescas possuem enfoques pessoais, profissionais, políticos e religiosos, que se estendem para além dos dias de folia.” Elas eram pessoas ativas e visíveis no processo de construção da festa.100 Esta boa visibilidade das mulheres no carnaval também se deve às transformações de comportamentos e valores que começavam a se formar nos anos 50 e que iriam ficar mais definidos nos anos 60. A idéia da emancipação sexual, que a partir de 1954 foi possível com a invenção da pílula anticoncepcional, dava as mulheres mais liberdade e influenciava nas relações familiares e sociais.101 No carnaval recifense a presença feminina pode ser percebida em todas as modalidades de práticas culturais. Nos blocos líricos como pastoras, nas escolas de samba como porta-bandeira, nos maracatus como rainhas ou integrantes da corte, nos concursos da Rainha do Carnaval e nas ruas como folionas, fazendo os passos do frevo. A importância da
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LÉLIS, Carmem; MENEZES, Hugo; NASCIMENTO, Leilane. Zenaide Bezerra: no passo da vida... são dois pra lá, dois prá cá. Recife: Secretaria de Cultura/Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2011. p.37 99 Fonte: Fundaj (Acervo Digital) - Coleção Katarina Real. Notas: Foto de jornal. - Local: Recife, Pernambuco, Brasil - Data: 1957 - Descrição: foto p& b, papel: 16,5 x 17 cm. 100 SILVA, Claudilene; SOUZA, Ester Monteiro de. Sem elas não haveria carnaval: mulheres do carnaval do Recife. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2011. p.35 101 RODRIGUES, Marly. A década de 50: populismo e metas desenvolvimentistas no Brasil. 4ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2003.
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mulher no carnaval pernambucano ganhou uma homenagem no frevo canção de Eudes Pinto e Ernani Galvão, divulgado no jornal Herói do Samba, de 1953: Pernambucana no Passo A turma quando cai no passo Dentro do compasso Com a Pernambucana Da vida ninguém faz caso Pois fazendo o passo Ela é bacana Pernambucana Você é de enlouquecer! Dançando o frevo Faz a gente amanhecer. 102
Uma das representantes do gênero feminino no carnaval de rua da cidade foi Maria Julia do Nascimento, conhecida como Dona Santa, Rainha do Maracatu Nação Elefante.
Dona Santa, Rainha do Maracatu Elefante. Considerada uma verdadeira “tradição viva” do carnaval pernambucano. 103
Em 1955 o Jornal de Pernambuco alertava para o possível desaparecimento do Maracatu Elefante, visto que o mesmo se encontrava em dificuldades financeiras e sua Rainha “encontrava-se quase paralítica”, afetada por um problema cardíaco, morando na rua Couto
102
O HERÓI do Samba. Recife, 1953. p.4. Frevo Canção de Eudes Pinto - Ernani Galvão. Gravação de Milton de Andrade. 103 CORREIO do Povo. Recife, 12 Jan. 1958. p.6. O jornal indicava que nesta foto Dona Santa possuía cerca de 80 anos de idade, contudo, não confirmamos esta informação.
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Magalhães, em Ponto de Parada, no bairro da Encruzilhada. Neste mesmo ano o Maracatu lançava uma nota comunicando as dificuldades enfrentadas: O MARACATU ELEFANTE comunica aos seus fans que, em vista de se encontrar em estado grave sua rainha, pessoas muito querida das que fazem parte daquela agremiação, não se apresentará no Carnaval de Rua de 1955, aproveitando o tempo livre para se preparar com mais capricho para o carnaval de 56. Faz ainda um apelo aos seus admiradores para que enviem a medida de suas posses, um donativo para a folia enferma, para o endereço: rua Couto Magalhães, 104 (antiga rua do Ipiranga), no Ponto de Parada. 104
Já em 1957, Dona Santa parecia estar melhor de saúde e foi brincar o carnaval nas ruas do Recife. O relato que segue abaixo foi publicado no jornal Folha da Noite do Estado de São Paulo, o texto é do jornalista Ivo Zanini. Vestida com grande pompa, em que não faltavam a roupa reluzente, os berloques no pescoço e nas orelhas, além de uma coroa na cabeça, “Dona Santa” chegou ao local de jipe. Sob aplausos gerais, desceu do veículo amparada por componentes do seu bloco e, quando o maracatu vibrou nos ares, a “preta velha” levantou com alguma dificuldade seus braços e pôs-se a dançar, para espanto e delícia de centenas de pessoas. Durante cinco minutos deus mostras de que ainda não se conformou a ficar no ostracismo do maracatu, da dança. Seu desejo – foi o que nos contaram – é morrer bailando. 105
Egídio Bezerra, Vovô do Frevo, Dona Santa e outros mestres da cultura popular, eram pessoas comuns, trabalhadores urbanos que brincavam o carnaval, responsáveis por criar e desenvolver formas de expressão que até hoje existem (e resistem) no cenário cultural da cidade e do Estado de Pernambuco.
2.4. O carnaval espetáculo: a oficialização do carnaval do recife
Nos anos 1950 o Recife passa a ter de fato um carnaval oficial, mais precisamente a partir da segunda metade da década. Com a Lei nº 3.346, sancionada em 7 de junho de 1955 pelo então prefeito Djair Brindeiro, o Departamento de Documentação e Cultura (DDC) passa
104
CORREIO do Povo. Recife, 4 Fev.1955. p.6 FOLHA da Noite. São Paulo, 3 Jul. 1957. Disponível no acervo digital do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Link:<http://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=\\Acervo01\drive_s\Trbs\Funarte\Tematico.docpro &pesq=carnaval do recife/> 105
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a organizar, promover e patrocinar oficialmente os festejos de Momo a partir de 1956. A referida lei pedia a preservação dos clubes de frevo, dos maracatus e dos caboclinhos e ainda instituía que as agremiações ganhariam ajuda técnica e financeira. Além disso, determinava que o DDC ficaria responsável por promover os concursos de músicas (frevos) e de passo.
Passista fazendo o passo em palanque no centro da cidade.106
A partir desta Lei, o governo municipal passava a controlar as principais práticas culturais realizadas durante o carnaval no centro da cidade. As várias normas decretadas tinham como objetivos promover uma festa mais tranqüila para os brincantes, transformar o carnaval em um atrativo turístico e garantir a manutenção da ordem pública, evitando os excessos e “possíveis transgressões aos costumes” 107. Ficava proibido durante as festas o uso de pós e líquidos entorpecentes, ofensas contra qualquer tipo de religião, o encontro de grupos carnavalescos (na tentativa de evitar confrontos), a exibição de clubes que não estavam licenciados pela polícia, a comercialização de bebidas para menores de dezoito anos, entre outras proibições108. O Carnaval imperava nos principais bairros e nas principais vias do centro da cidade: Santo Antônio, São José e Boa Vista. Av. Guararapes, rua da Imperatriz, rua do Imperador, nas pontes Duarte Coelho, Santa Isabel e Ponte da Boa Vista. Esses lugares que normalmente serviam como passagem para os trabalhadores urbanos, nos três dias de folia ganhavam uma
106
Foto extraída do livro: AMORIM, Maria Alice. 100 anos de frevo: irreverência e tradição. Recife: Folha de Pernambuco, 2008. p.40. (Foto original de Mário de Carvalho, 1958, Acervo Museu da Cidade do Recife). 107 BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna: Europa 1500-1800. Trad. Denise Bottmann. – São Paulo : Companhia das Letras, 2010. p.271 108 Diário Oficial do Estado de Pernambuco, 25 de fevereiro de 1954, p. 880.
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nova configuração. As ruas eram artisticamente ornamentadas como explica a nota do Diário de Pernambuco, em 1957: Cerca de 150 figuras, representando “arlequins”, “pierrots” e tipos populares da cidade, serão colocadas em toda a orla urbana do Capibaribe, pontes da Boa Vista, Duarte Coelho e Santa Isabel e, ainda, na Praça do DIÁRIO, que é quartel general do frevo. O plano de ornamentação ficou organizado e executado pelo conhecido caricaturista Felix, tendo merecido elogios, não apenas da Comissão Organizadora do Carnaval, que contratou, como, também, de artistas locais, como Lula Cardoso Aires e outros. 109
Figuras decorativas do carnaval do Recife de 1957, produzidas pelo caricaturista Felix. 110
Outro ponto significativo da festa era o “Quartel General do Frevo”, que ficava na Praça da Independência, também conhecida como Pracinha do Diário, por estar localizada em frente ao prédio do Jornal Diário de Pernambuco. A praça era o epicentro da folia, lá se reuniam foliões de todas as classes sociais, pessoas anônimas que vinham de vários bairros da cidade: Casa Amarela, Madalena, Torre, Afogados, Beberibe, Santo Amaro, Encruzilhada, Água Fria, Boa Viagem, etc. 111 Falar sobre carnaval oficial exige que apresentemos as entidades que auxiliavam a prefeitura na organização da festa112. A primeira delas é a Federação Carnavalesca Pernambucana (FCP), fundada em 3 de janeiro de 1935 por Arlindo Luz, Superintendente da Great Western, o norte-americano Joseph Prior Fish, que dirigia a companhia de eletricidade e transportes, Transways, Camucé Granja e Mário Melo. O objetivo da Federação era trabalhar em favor do engrandecimento do carnaval do Estado de Pernambuco, auxiliando as 109
DIÁRIO de Pernambuco. Recife, 1 Mar. 1957. Fonte: DIÁRIO de Pernambuco. Recife, 1 Mar. 1957. 111 A movimentação na Pracinha do Diário foi registrada no vídeo Olha o Frevo! – Hucker Vieira. (filme). Acervo Fundação Joaquim Nabuco, Recife. 112 Sobre as entidades organizadoras do Carnaval no Recife, ver MAIOR, Mário Souto; SILVA, Leonardo Dantas. Antologia do carnaval do Recife. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 1991. 110
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agremiações e organizando concursos, muitas vezes com o patrocínio do comércio. Contudo por trás destes objetivos estava a idéia de doutrinação das massas. De acordo com Rita de Cássia Araújo, a Federação “renovava a intenção de promover um congraçamento entre as classes sociais, servindo-se mais uma vez das agremiações carnavalescas populares e da possibilidade de manipular o desejo de seus associados de obterem reconhecimento social.” 113 Nos anos 50, a FCP também foi responsável por registrar grande parte das agremiações carnavalescas114. Estas por sua vez ganhavam o direito de participar dos concursos das agremiações organizados pela Prefeitura do Recife e pela Associação dos Cronistas Carnavalescos do Recife (ACCR). A filiação e renovação das licenças dos clubes se faziam na sede da FCP, no Pátio de Santa Cruz, nº423, bairro da Boa Vista. Boa parte desses registros pode ser consultada no Diário Oficial do Estado de Pernambuco entre os anos de 1956 e 1958, são os estatutos que nos referimos no tópico anterior. Identificamos que o maior número de estatutos de agremiações aparece em fevereiro de 1957. Outra entidade que auxiliava no planejamento do carnaval era a Associação dos Cronistas Carnavalescos do Recife (ACCR), fundada em 1947 e formada por profissionais da imprensa que atuavam nos diversos jornais e emissoras de rádio da cidade. Com influências nos grupos do comércio, indústria e política (Câmara Municipal), trabalhavam na organização e fiscalização da festa.
Fonte: CIDADE do Recife. Recife, 22 Dez. 1952. p. 2
Nos primeiros anos da década de 1950, existia um clima de prestígio e confiança para com a ACCR, tanto que a imprensa sempre enfatizava o “brilhantismo e animação” que a associação procurava promover. Até nas previsões do quiromante Milquiades Barbosa essa fama era positiva:
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ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. Carnaval do Recife: a alegria guerreira. Estudos Avançados, São Paulo, v. 11, n. 29, jan./abr. 1997, p.215 114 O registro das agremiações acontecia desde a década de 1930, contudo nos anos 1950 houve um considerável aumento, como pode ser observado em edições do Diário Oficial do Estado entre 1955 e 1958.
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Carnaval é carnaval. Quem não quiser se perder, é favor ficar em casa. O baralho, ou melhor, as cartas, não falham. Pelos estudos que fiz, posso asseverar que o carnaval deste ano, graças ao empenho da ACCR e o dinamismo dos seus dignos dirigentes, excederá em brilhantismo e animação aos dos anos anteriores. 115
A ACCR também promovia a “Semana Pré-Carnavalesca”, que acontecia nos oito dias antes do carnaval. Contava com a colaboração da indústria e do comércio e em troca fazia a propaganda nos alto falantes instalados no palanque oficial, geralmente armado na Praça da Independência, bairro de Santo Antônio. Entre as apresentações da semana estavam os clubes carnavalescos, concursos de passos e os conjuntos de orquestras da capital, que normalmente tocavam os principais sucessos do carnaval do respectivo ano, como a Banda de Música de Paulista. Era o momento para ver as principais estrelas do rádio e os clubes preferidos desfilando pelas ruas da cidade, acontecimento que provavelmente atraia um bom público. Mais uma responsabilidade assumida pela ACCR foi a organização do concurso da Rainha do Carnaval, escolhida entre candidatas apresentadas pelas agremiações carnavalescas e artistas do rádio e do teatro, como demonstrava o edital do concurso: – Cada clube, bloco, troça ou escolas de samba, as quais pertençam as candidatas podem inscrever, até no máximo, três candidatas. - A escolha da candidata verificar-se-á em data previamente anunciada pela presidência da ACCR. - A coroação verificar-se-á em praça pública, com a presença do Governador da Cidade e delegações de todas as entidades e clubes do carnaval, no dia 9 de fevereiro, à noite. - A ACCR conferirá a Rainha dos clubes com numerosos prêmios oferecidos pelo Comércio e Indústria locais além de um cheque ao portador de Cr$ 5.000,00 (cinco mil cruzeiros). - A Comissão encarregada do concurso compõe-se dos srs. Oscar Melo, presidente; Milton Lei Monteiro, José Edson de Oliveira, Aristófanes da Trindade e Etélio Gonçalves. 116
Agremiações como B.C.M. Batutas de São José, B.C.M. Madeiras do Rosarinho, C.C.M. Vassourinhas, C.C.M. das Pás, C.C.M. Prato Misterioso, G.R.E.S. Gigantes do Samba, Caboclinhos Tupinambás se mobilizavam para inscrever suas candidatas. A cada dia a imprensa noticiava o movimento das inscrições. Entre as várias candidatas que se escreveram 1958 destacamos as senhorinhas: Maria Thelma Guedes da Cunha da Escola de Samba Estudantes de São José; Rosilda Cabral de Sousa, do C.C.M. Lenhadores; Elvia Lane, do B.C.M. Banhistas do Pina; e Ivone Cavalcanti Novaes do C.C.M Vassourinhas.
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CIDADE do Recife. Recife, 26 Jan. 1950. FOLHA da Manhã. Recife, 7 Jan. 1958. p.2
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O prêmio do concurso de 1958 ficou com a representante da Escola de Samba, a senhorinha Maria Thelma Guedes da Cunha. Na cerimônia de coração estavam o prefeito Pelópidas Silveira, membros Comissão Organizadora do Carnaval (COC) e da ACCR. Após a cerimônia de coroação, a Rainha saia em carro alegórico, especialmente confeccionado para esta finalidade, partindo da praça Sérgio Loreto em direção as principais vias do centro, exibindo toda a sua pompa real. O Corso, desfile automotivo composto por membros da alta sociedade, era outro componente importante para o carnaval oficial, praticado no centro da cidade. Existia uma eminente preocupação da Prefeitura em organizar esse desfile, visto que os itinerários e esclarecimentos de como os foliões deveriam proceder eram decretados pelo Delegado de Trânsito da cidade. Ao longo dos anos 1950 os percursos foram modificados, como podemos ver abaixo. Em 1950 o itinerário do corso apresentava o seguinte roteiro: PONTO DE PARTIDA: Hospício e Riachuelo – Imperatriz – Ponte da Boa Vista – Detenção – Muniz – Concórdia – Frei Caneca – Palma – Nova – Praça da Indenpendência (lado da Sorveteria Botijinha) – 1º de Março – Imperador – Praça da República (contornando o Palácio da Justiça) – Sol – Ponte Duarte Coelho – Aurora e Riachuelo. PONTOS DE ENTRADA NO CORSO: Hospício e Riachuelo – Detenção com Estação Central – Praça Sérgio Loreto – Praça da República. 117
Anos mais tarde, em 1956, o itinerário do corso foi modificado, ganhando a seguinte configuração: a) – INICIAL – Rua Princesa Isabel (cruzamento com a Rua da Aurora), Rua da Aurora, Rua Conde da Boa Vista (até atingir o cruzamento com a Rua da Soledade de onde voltará) – Conde da Boa Vista, Rua da Aurora, Cais José Mariano, Ponte 6 de Março (Ponte Velha), Rua Floriano Peixoto, Rua de São João, Rua da Concórdia, Praça Joaquim Nabuco, Rua do Sol, Avenida Guararapes, Praça da Independência, Avenida Guararapes, Rua do Sol, Praça da República (contornando à frente do Teatro Santa Isabel), Ponte Santa Isabel, Rua Princesa Isabel (INICIAL). b) – O corso se processará em fila dupla de veículos durante o seu percurso sendo terminantemente proibido qualquer veículo passar à frente do outro durante o itinerário. PONTOS DE ACESSO AO CORSO a) – I – Cruzamento das ruas Princesa Isabel com Aurora; II – Cruzamento da rua do hospício com a Avenida Conde da Boa Vista; III – Cruzamento da rua José de Alencar com a avenida Conde da Boa Vista; IV – Cruzamento da Rua da Concórdia com a rua de São João; – V – Cruzamento das Avenidas Dantas Barreto e Guararapes.
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FOLHA da Manhã. Recife, 18 Fev. 1950. p.9
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b) – O ingresso de veículos no corso só poderá ser feito expressamente pelos pontos previstos no presente Edital. c) – A Delegacia de Trânsito poderá alterar o itinerário do corso aqui previsto caso essa medida se torne necessária. 118
Além do Corso, a sensação dos desfiles automotivos era a prática do Escape Livre. Considerado uma das tradições do carnaval do Recife, consistia em instalar uma válvula (custava cerca de Cr$ 500) no escapamento dos carros que por sua vez produzia um barulho característico, fazendo a alegria das pessoas que assistiam. O “ribombar uníssono dos motores” iniciava nas primeiras horas do sábado de Zé Pereira. Mas a Secretaria de Segurança Pública tentava constantemente proibir esta prática alegando que causava malefícios a saúde mental da população. A apoteose do espetáculo carnavalesco ficava por conta dos desfiles das agremiações. Desfilavam nas passarelas montadas pelas entidades organizadoras clubes, troças, blocos, caboclinhos, maracatus e escolas de samba. Em 1956 a Lei nº 3.346 foi regulamentada pelo Decreto nº1.332, assinado pelo prefeito Pelópidas Silveira em 23 de janeiro. No documento, o novo governo procurava valorizar o carnaval da cidade e definia a porcentagem das subvenções destinadas a festa. ART. 2º A verba orçamentária destinada ao Carnaval recifense será utilizada do seguinte modo: a) 60% para os prêmios conferidos aos clubes, blocos, maracatús, troças, ursos, caboclinhos e escolas de Samba, e para distribuição às agremiações com existência legal, observando-se nessa distribuição as seguintes percentagens: Clubes, blocos, troças e ursos .................................... 80% Maracatús e Caboclinhos ........................................... 15% Escolas de Samba ....................................................... 5% b) 40% para atender à ornamentação, iluminação, propaganda e animação dos festejos, aí incluídos os prêmios referentes aos concursos de música e de passos e de veículos abertos. Dêsses 40% da verba orçamentária, 25% serão destinados aos serviços extraordinários de limpeza da cidade, durante as festas carnavalescas.119
O julgamento dos concursos era feito por uma comissão composta de três vereadores indicados pela Câmara Municipal, um representante da Federação Carnavalesca Pernambucana, um representante da Associação dos Cronistas Carnavalescos e dois membros de livre escolha do prefeito. Existia uma peculiaridade nos desfiles dos anos 1950. Quando uma agremiação passava na passarela, os foliões simpatizantes seguiam aquele grupo, dançando e cantando
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CORREIO do Povo. Recife, 12 Fev. 1956, p.6 Sistema de Busca de Legislação Municipal do Recife <http://www.legiscidade.com.br/> acessado em: 23 de maio de 2011. 119
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suas músicas. O povo realmente ficava aglomerado, tendo um contato direto com as agremiações.
Baianas desfilam no centro do Recife no carnaval de 1950. 120
Assim, como num frevo de bloco, cantamos a nossa marcha-regresso e nos despedimos, na esperança de retornar para contar as histórias de outros carnavais.
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Fonte: Portal Brasil <http://www.brasil.gov.br/sobre/cultura/carnaval/historia-do-carnaval#1> acessado em julho de 2011. Crédito: Acervo da Fundação Joaquim Nabuco.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Chegamos na parte final desta etapa. “De chapéu de sol aberto”
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, pelas ruas dos
arrabaldes recifenses, acompanhamos uma multidão que foi responsável por dar a alegria que caracteriza essa festa popular chamada Carnaval. Compreendemos a multiplicidade das formas de expressão que a cada ano se renovavam e ainda se renovam, pois os clubes, troças, maracatus, escolas de samba, passistas e frevos endiabrados continuam vivos e atuantes na cidade do Recife. Um tema de longa duração como o Carnaval permite inúmeras possibilidades de análises, sabendo disso, tentamos delimitar o tempo e o espaço para a construção deste trabalho acadêmico. Reconhecemos que é necessário aprofundar a o embasamento teórico para melhorar e ampliar o campo de visão sobre a festa. Contudo acreditamos que foi positivo o levantamento das fontes documentais, que trouxeram elementos preciosos para o (re)conhecimento das diversas atividades do reinado de Momo e para a produção de futuras pesquisas. As análises das representações no carnaval da década 1950, dos decretos da segurança pública, dos concursos de frevo, passo e de agremiações, são alguns temas que merecem ser estudados em profundidade. É necessário o levantamento de fontes orais no intuito de ampliar a compreensão dos fatores que conduziam a festa ao longo dos anos, respeitando assim a memória das pessoas que participaram das folias. Ao longo da pesquisa aprendemos o quanto é importante valorizar os nomes daquelas pessoas simples que participavam das atividades culturais carnavalescas. Conhecemos e citamos nomes que se antes estavam esquecidos, agora passam a ser lembrados e reconhecidos novamente. Acreditamos que em novas pesquisas, outros nomes serão recordados e valorizados. O desenvolvimento dessa pesquisa foi significativo para entendermos os processos de construção da História do Carnaval do Recife, de Pernambuco e do Brasil. Pretendemos, assim, acrescentar novas interpretações sobre os movimentos sociais e culturais do Recife do século XX e valorizar a memória da cidade. É importante enfatizar que como folião e historiador sentia a necessidade de dar uma parcela de contribuição para a construção desse conhecimento.
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Letra da música “De chapéu de sol aberto”, de Capiba.
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A pesquisa sobre o Carnaval do Recife na década de 1950 não encerra aqui. Esta monografia é apenas o início de uma longa jornada de estudos que envolve esta festa. Desejamos em novas pesquisas aprofundar os temas apresentados, reafirmando a importância de revelar as histórias das pessoas comuns, das pessoas que fazem parte da cultura pernambucana.
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