Skip to main content

O Carnaval para além da avenida: foliões e as muitas multidões que ocupam as ruas do mundo pós-fordi

Page 1

1 O Carnaval para além da avenida: foliões e as muitas multidões que ocupam as ruas do mundo pós-fordista. Jorge Edgardo Sapia1

Resumo: Embora o Carnaval que ganha projeção global ainda seja o dos desfiles das escolas de samba o cenário carnavalesco carioca é múltiplo, polifônico. A descoberta da cidade pelos blocos de rua na virada do século XXI mostra uma modalidade de ocupação do espaço público não desprezível revitalizado pela experiência carnavalesca. O espaço que o Carnaval de rua tem hoje na cidade sugere um deslocamento da experiência da festa nas ruas das margens para o centro da cena carnavalesca. Discutimos neste artigo os formatos que a festa assume no espaço urbano. Palavras-Chave: Blocos carnavalescos, Festa, Carnaval.

Abstract Eventhough the most widely known aspect of Carnaval is the samba schools' competition, Carnaval emcompasses multiple events and includes the voices of various social groups. Street parades started to spread throughout the city at the turn of the 21st century and lead to an important new form of interaction with the main parts of Rio's urban area. Street parading became a crutial activity in Carnaval's festivities. This paper's main objetive is the analysis of the different formats of Carnaval parades and how these festivities impact the urban grounds. Key Words: Carnival Street Parades, Festival, Carnival

Introdução

Discutimos neste artigo, alguns aspectos da transformação do Carnaval na cidade do Rio de Janeiro. O crescimento dos blocos de carnaval de rua, em termos de público, da quantidade de agremiações e da diversidade de propostas, deslocou a centralidade da festa, do Sambódromo, inaugurado em 1984, para ruas que começaram a ser ocupadas, no mesmo ano, por dois novos blocos carnavalescos - o Barbas e o Simpatia é Quase Amor - que renovaram a experiência da festa e da relação desta com a cidade. Hoje, essa experiência, atrai interesses diversificados e ocupa lugar importante em setores cada vez mais amplos da juventude que, em um duplo movimento, ao descobrir os blocos descobriram a cidade. Além da cidadania, que se constrói nos processos de fruição da cidade, outros atores, mercado, mídia, turismo e poder público - observam, no crescimento, ativos importantes que ajudam a construir uma imagem positiva e rentável da cidade.2 A pluralidade de olhares e


2 propostas, de perspectivas e formatos, acentuam, na festa, a ideia de que a cidade constitui um espaço de cidadania disputada, objeto de conflitos sociais, culturais e políticos dispersos.3 No artigo descrevemos algumas características dos blocos da retomada carnavalesca4, objeto particular da nossa observação. Três comentários se impõem: primeiro, o Carnaval não morreu; segundo, a juventude descobriu os blocos e descobriu a cidade; terceiro, o tempo romântico acabou, hoje o processo de organização necessário para levar a bom termo o desfile se orienta, em termos weberianos, no sentido de uma racionalidade especializada. Na sequência levantamos algumas considerações colocadas pela relação entre festa e mercado, muito novas neste universo. A novidade tem provocado não poucas tensões nos organizadores do Carnaval de rua, ma abre, por outro lado, um campo de possibilidades para os coletivos que surgiram nos últimos anos ajudando a

transformar e deslocar a cena

carnavalesca, preocupação que perspassa o artigo. Chamamos a atenção sobre a preocupação com a produçao de memória desse novo formato carnavalesco. Os blocos, desprovidos de sedes sociais e a pesar das facilidades contemporâneas de registro em diversos suportes das atividades realizadas, carecem de estrutura para preservar e constituir suas memórias que se encontram dispersas nos arquivos pessoais daqueles que viveram essa trajetória. Finalmente, fazemos referência aos formatos e preferências que indicam o sentido da mudança e concluimos com uma breve comentário sobre a dimensão carnavalesca presente nas mobilizações que tiveram lugar em Junho e Julho de 2013.5

Inventando a tradição.

Como é tradição, no sábado anterior à abertura oficial do Carnaval no Rio de Janeiro, a praça General Osório, localizada no bairro de Ipanema, tinha uma movimentação peculiar. Desde o final da década de sessenta, a praça se tornou local de concentração de novas manifestações carnavalescas que contagiaram, aos poucos, outros coletivos, responsáveis também, pela invenção de outros espaços de interação e convivência na cidade. A Banda de Ipanema, hoje cinquentenária, teve o privilégio de mostrar, na década de sessenta, a importância da reunião, da comunicação, do diálogo e da desafinação, num contexto que privilegiava a ordem, a disciplina e o monólogo. Desde então apadrinhou várias agremiações que seguiram seus passos, entre elas o Simpatia é Quase Amor, bloco que escolheu, em 1984, expandir as fronteiras do possível ocupando o espaço público, dando


3 continuidade ao clima de festa produzido por uma ativa militância política e cultural que tramou suas redes no período da transição democrática. A festa é ritual coletivo que demanda organização e planejamento. No Carnaval do Sambódromo - local de celebração dos desfiles Escolas de Samba - o tempo de concentração é, também, dedicado à realização de ajustes, ao cuidado dos detalhes, tanto dos carros quanto das alegorias e dos figurinos, é tempo de dar o ponto final ou fazer os retoques necessários nas fantasias. Há uma série de atividade realizadas num clima de ansiedade e tensão que resulta da aspiração da escola em concluir, satisfatoriamente, o longo processo ritual que se estende da definição do enredo, por parte do carnavalesco, até o próprio desfile. A preocupação de todos os envolvidos é conseguir que a escola possa, como diz Maria Laura Cavalcanti, “comunicarse com cidade inteira”.6 No universo do Carnaval de rua a tensão e a ansiedade não desempenham o papel perceptível na concentração das escolas ou dos blocos de enredo e de embalo orientados pela lógica da competição. A ausência do processo competitivo, pautado por normas públicas e claras, ameniza nos organizadores do Carnaval de rua a tensão e a ansiedade que parecem estar presentes em todas as etapas do elaborado e prolongado ritual das escolas de samba. Não obstante, o destaque que o Carnaval de rua ganhou, fez com que o poder público, através da Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro S.A. (Riotur), definisse novas regras para a realização dos desfiles. Regras que introduzem modificações e instauram conflitos. A primeira regra estabelece a necessidade de registro na Riotur, passo prévio à autorização do desfile. É verdade que são poucos e pontuais, por enquanto, os casos de registro negado. A segunda regra estabelece a definição do tempo destinado à concentração, ao desfile e a dispersão e cria critérios para sancionar quem não respeitar o acordado. Em áreas da cidade com grande concentração de desfiles, muitos deles quase simultâneos, os mecanismos de controle e fiscalização são mais rígidos. Ruídos, nessas informações, tem gerado não poucos problemas, o zelo em fazer valer “o que está escrito” por parte do órgão encarregado de fiscalizar é grande, mesmo nos casos nos quais, fica claro, que o que “está escrito” contém erro de digitação. Como resultado dessas mudanças hoje os desfiles são mais acelerados. Os cortejos que se estendiam quase que indefinidamente por circuitos não especificados e com uma dispersão elástica acabaram. As mudanças estão relacionadas à necessidade de mapear, sincronizar e, por tanto, controlar, a concentração, o tempo dos desfiles e a dispersão. Contudo, o momento da concentração, em todos os blocos, continua sendo um espaço e um tempo de descobertas, de reencontros, de identificação de grupos de foliões e foliões individuais. É também espaço de leitura, das releituras da realidade que as fantasias evocam.


4 Elas traduzem, registram, revelam, aspectos dos acontecimentos que foram destaque na agenda política, social e cultural da cidade e do mundo. As fantasias criam, como sugere DaMatta, um “campo social de encontro, de mediação e de polissemia social, pois, não obstante as diferenças e incompatibilidades desses papéis representados graficamente pelas vestes, todos estão aqui para brincar”.7

O mercado, comercialização e conflitos. Além dos foliões, encontramos nos blocos aqueles que “estão a serviço”, isto é, aqueles que fazem “parte da categoria dos que trabalham”8 há grande número de vendedores ambulantes – sinal de bloco cheio. Há vendedores cujo trabalho demanda uma organização mais apurada, com clientela fixa, especializados em caipirinhas e doses de uísque com energético e que transitam com desenvoltura e um figurino especial no meio da quase multidão que ainda não ocupou inteiramente o espaço de concentração. Há os portadores de crachá, expedido pela Riotur, autorizados a comercializar o produto de maior saída em tempos de reinado de momo: a cerveja, da marca da indústria vencedora da licitação do Caderno de Encargos e Contrapartidas que dispõe sobre o patrocínio e infraestrutura necessária à realização do Carnaval de rua. Para o secretário especial de turismo: O carnaval organizado e estruturado é bom para o folião, para o organizador dos blocos e para a cidade como um todo, desde o morador até o turista, que conta com mais esse atrativo em sua visita à cidade. E o melhor de tudo: com o patrocínio, a Prefeitura não precisa investir financeiramente na infraestrutura da festa, garantindo que ela ocorra dentro do melhor espírito carnavalesco, sem causar maiores transtornos e sem pesar no bolso do contribuinte.9

A nova estratégia da prefeitura reconhecendo a centralidade do carnaval de rua e transferindo responsabilidade à iniciativa privada dá lugar à emergência de uma arena carregada tanto de oportunidades, quanto de conflitos. No mundo das escolas de samba, enfatiza Cavalcanti, a comercialização é uma dimensão tão importante para a compreensão do processo carnavalesco quanto as dimensões festiva e comunitária10. O mercado também descobriu a festa de rua e sua potencialidade da divulgação de marcas. Aproximadamente 500 blocos, dos mais diversos formatos e tamanhos, disputam espaço na cidade. A jornalista Flavia de Oliveira divulgou no último ano em sua coluna Negócio & Cia. do Jornal O Globo dados que revelam a descoberta da rua pelo mercado. Convidada a falar num painel11 sobre “Oportunidades e negócios e a lógica do patrocínio” a jornalista mostrou números eloquentes: as marcas Afghan, Cantão, Dress To, o Blue Man Group. Tim, Via Mia, Kenner, Limits, Armadillo, Joana João, Nestlé, Maria Filó, CDL-Rio, Antarctica, o Shopping Botafogo, o Norte Shopping, Ambev e até a tradicional loja de aviamentos Caçula


5 “vem alterando o mix de produtos da seção carnaval, desde 2010, em razão do crescimento do carnaval de rua”.12 Os dados sugerem um deslocamento da experiência da festa nas ruas, das margens para o centro da cena carnavalesca. Sem possibilidade de aprofundar esta questão no presente artigo, nos limitamos a realizar um levantamento preliminar das disputas suscitadas pelo crescimento e consolidação da festa nas ruas. O crescimento e seus impactos são discutidos por Bruno Cavalcanti em artigo sobre os novos formatos das festas nas últimas décadas: “várias dessas festas públicas brasileiras assumiram grandes proporções demográficas, econômicas e midiáticas, apontando para uma característica pós industrial dessa economia simbólica de serviços ligados à curtição coletiva da vida, especialmente em entretenimentos festivos de massa”.13 Paulo Miguez discute a relação entre festa e mercado em sua dissertação de mestrado, Carnaval baiano: as tramas da alegria e a teia de negócio, argumenta que a compreensão do Carnaval “como um fenômeno que se realiza em rede, supera a tentação, no mínimo saudosista, de imaginar a festa realizando-se independente do negócio, como se possível fosse negar o caráter de mercadoria que os espaços, todos eles, adquirem no capitalismo”.14 Miguez sugere, ainda, que a festa “vive o conflito entre ser festa ou espetáculo, entre render-se ao prazer ou assumir-se como negócio”,15 alimentando-se, precisamente, desses conflitos, portanto, é necessário mapeá-los, pensá-los. O primeiro deles se relaciona à lógica agressiva do markketing da empresa vencedora do concurso que licitou a decoração da cidade. A superexposição da marca transformou a cidade, nos últimos anos, em um outdoor gigante. Orientado pela mercadificação das formas culturais acentuadas no modelo de acumulação do mundo pós fordista, transformou muitas agremiações em suporte da marca hegemônica de cerveja. Em tempos de acumulação flexível o investimento na construção da imagem através de diversas estratégias de patrocínio pode resultar num sucesso claramente lucrativo que torna esse investimento “tão importante quanto o investimento em novas fábricas e maquinário”, desta maneira, diz Harvey, o “patrocínio corporativo das Artes [...] é o lado prestigioso de uma escala de atividade que inclui tudo [...] desde que se mantenha constantemente o nome da empresa diante do público”.16 As críticas a essa estratégia de exposição de marcas e de produtos não demoraram. Representantes de algumas associações manifestaram seu descontentamento com o que foi classificado de “poluição azul”,17 levando a uma tímida mudança de estratégia na exposição da marca nos carnavais seguintes com a incorporação de um reduzido mix de cores que pretendia diluir as críticas à imagem monocromática da cidade18.


6 Outra ponta do novelo é puxada por grupos que consideram que há Carnaval demais na cidade e cobram do poder público uma drástica intervenção que proíba e controle os foliões classificados de “multidão alcoolizada”19. Retórica presente na história republicana, já ouve vadios e, ultimamente, vândalos.

Balzaqueando nos lugares de memória. As novas dimensões do Carnaval de rua podem ser observadas pela infraestrutura mobilizada. Carros oficiais da Riotur, da CET-Rio, da guarda municipal, da polícia militar estão de prontidão para acompanhar os cortejos. No caso em observação, foi contratado um veículo com um canhão acionado com dispositivo de ar comprimido pronto para lançar confetes com as cores do bloco durante o desfile. Além disso há um enorme carro de som que funcionará como repetidor do carro principal, já estacionado na praça alguns metros atrás e, finalmente, um caminhão da cooperativa de catadores de produtos recicláveis que fez uma parceria, bem sucedida, com alguns blocos da cidade desde 2009. Essa é a infraestrutura mínima, hoje exigida, para colocar um bloco de grandes dimensões na rua. O comentário sinaliza o teor das mudanças e a exigência de uma organização racionalmente orientada. Mas há outro dado que chamou nossa atenção no desfile do Simpatia é Quase Amor mas que pode ser encontrada na maioria dos blocos. Aqui, os moradores de um prédio - que tem uma marquise generosa, localizada no ponto de concentração da bateria - cederam o espaço para que o bloco pudesse receber os compositores, desenhistas, artistas plásticos e caricaturistas, que ao longo desses trinta anos poemaram e ilustraram a cidade e o bairro. Notase nessa relação, uma postura oposta à defendida pelos grupos que reivindicam ordem e controle. Neste sentido nós parece importante registrar o depoimento de Carlos Fernando Andrade, arquiteto, ex- superintendente do IPHAN e fundador do bloco de Segunda, criado há vinte e sete anos, não por casualidade, num dia sete de Setembro com um singelo argumento: “se os militares vão às ruas nessa data, porque nós não? O seja, a gente conquista um espaço social, político, cultural que não existia [...] A cidade faz os blocos, nós não viemos da lua. A gente desce dos apartamentos. Hoje em dia eu sei a quantidade de pessoas que em Botafogo, no dia do bloco (de Segunda), organiza uma feijoada em casa. É uma coisa que já está integrada na vida daquela comunidade, Se a gente atrapalha, atrapalha outrem, outrem. A comunidade local está perfeitamente integrada. 20

Na comemoração dos trinta anos de história o Simpatia estava pronto para Balzaquear na avenida, como prometia a letra do samba vencedor, que uma parte da multidão, cantaria pouco tempo depois num cortejo de pouco mais de duas horas de duração.


7 Para comemorar a data os organizadores resolveram sair com um inédito carro alegórico no abre alas. O projeto do carro era de Fernando Pamplona e não foi concluído devido ao falecimento do professor da Escola de Belas Artes, carnavalesco e folião. Pamplona foi responsável, no início dos anos 1960, pelo que ele classificou “revolução espetacular”. Revolução que encontrou terreno fértil no GRES Acadêmicos do Salgueiro. Apresentado por Milton Santos como mediador cultural, “habitué dos diferentes espaços carnavalescos da cidade”,21 Fernando Pamplona presenteou o bloco com um desenho que foi estampado na camiseta do carnaval de 1999 e esteve presente, assinando seu trabalho, no ritual que dá início ao ano carnavalesco: o lançamento da camiseta. Nesta data cheia Pamplona queria oferecer outra coisa, como lembra Dodô Brandão, fundador do Simpatia. O abre alas era um projeto do (Fernando) Pamplona, que tinha pedido para arranjar um chassi de caminhão e, quando ele morreu, a gente achava que o projeto tinha micado. [...] Então, quando vimos a Kombi a venda em Rio das Pedras, resolvemos comprá-la e adaptar a ideia do Pamplona à lembrança do nosso primeiro desfile.

A Kombi, sem a documentação em dia, ficou também sem motor, “o que foi um facilitador na hora do desfile” comenta Brandão, e acrescenta: Convidamos um designer que trabalha na Globo, Jaime, mas que gosta mesmo é de grafite, gosta de rua, foi ele que nos deu a ideia de grafitar as trinta camisetas dos carnavais anteriores. Lembro que Jaime chegou de moto no meu prédio, onde a Kombi está estacionada até hoje - o que me causa alguns problemas com a sindica. Olhou detalhadamente, fez a sugestão e encomendou uma caixa de spray que fomos comprar numa loja especializada na Tijuca. Quatro horas depois de termos chegado com o spray, que imaginávamos poderia ser comprado em qualquer loja de construção, a Kombi estava pintada.

Foi a primeira intervenção. A segunda foi a instalação de um botequim – mesa, cadeira, bebidas, no interior. Instituição, central na cultura da cidade, faz parte do mito fundador descrito no samba de 1994: Nasci num botequim, cai do céu/Meu nome vem da Vila Isabel/Sou cria do Rio de Janeiro, de Pixinguinha, Cartola e Noel.22 A Kombi ressignificada, não transportava nem passageiros, nem mercadorias, produzia memória como observa Dodô Brandão “O Simpatia nasceu no primeiro desfile com uma Kombi e agora, neste aniversário, ela vai carregar trinta anos de história”23. A instalação evocava o veículo emprestado pelas Casas da Banha graças à mediação de um folião cuja família era proprietária da loja - e que funcionou, aproveitando uma precária corneta instalada no teto, como carro de som. No para-brisa foi instalado um desenho adesivado feito pelo cartunista Aroeira. A imagem mostra quatro felizes companheiros de viagem. Sorridente, ao volante, o compositor Aldir Blanc, olhando com alegria e cumplicidade para Bussunda, primeiro Rei Momo; Dona Zica, madrinha do bloco e mulher do mestre Cartola; encostado na porta do carona, Albino Pinheiro, o mediador cultural


8 e General da Banda que apadrinhou a agremiação. Acreditamos que alegre sorriso do motorista resulta da satisfação de ver seu personagem literário, Esmeraldo Simpatia é Quase Amor, ressignificado pelo Carnaval carioca, como ele próprio registra em depoimento: O bloco da minha mocidade foi o Bafo da Onça, de saudosa memória no Catumbi, Estácio e adjacências. Mas nem mesmo o Bafo com suas rainhas e princesas de poluição noturna, me deu emoção tão forte como Simpatia é Quase Amor. Criei, num livro, o Simpatia para proteger a identidade de um primo do subúrbio – um primo pobre como aquele do programa Balança mas Não Cai, criação imortal de Max Nunes e Brandão Filho. É bonito ver um primo da Zona Norte virar bloco na Zona Sul. Com esse gesto simpático saiu ganhando São Sebastião do Rio de Janeiro.24

Além da sua materialidade o veículo transformou-se em imagem, que é para Wolff o “representante, o substituto, de qualquer coisa que ela não é e que não está presente”, ou ainda, ela representa o que está ausente, “o que ainda não está, o que não está mais, o que não pode estar presente, e que se encontra representado. Representado, quer dizer, presente na imagem (e não na realidade) e tornado presente pela imagem”.25 O artefato, portanto, transformado em carro alegórico, presentifica elementos simbólicos da dimensão carnavalesca e da identidade da cidade. Assim como a praça e a própria rua, o produto da indústria automobilística foi transformado em lugar de memória. Recuperamos essa noção de Pierre Nora, para quem os lugares de memória são lugares materiais, funcionais e, na medida em que remetem a uma experiência ou acontecimento vividos por uma minoria, são simbólicos. A razão fundamental de ser um lugar de memória é bloquear, como argumenta Nora, “o trabalho do esquecimento”: Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento de que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais [...]Sem vigilância comemorativa, a história depressa os varreria.26

Para Pollak27 o papel da memória não é somente lembrança, é também um processo que pode recalcar, omitir ou recodificar dados do passado, logo, toda memória é resultado de um processo seletivo28 exercido de “maneira expressa e/ou implícita, por aqueles a quem se reconhece a legitimidade pra realiza-las: protagonistas políticos e sociais, historiadores, analistas, etc.”.29

O Carnaval além da Sapucai. No Carnaval de 2014 comemoravam-se, também, os trinta anos do Sambódromo ou, como titulou o caderno especial do Jornal O Globo, Avenida de Sonhos: “Passarela para delírios, requebros e tradições. Endereço de crenças, paixões, lágrimas, êxtase. Moldura da maior festa popular do Brasil”.30 Sua inauguração consolida o processo de institucionalização


9 das escolas de samba, iniciado na década de 1930, e define a partir de então o Carnaval oficial da cidade. Esses dois caminhos da festa, a do Carnaval oficial e o da rua, se abrem em um momento no qual, mais uma vez, tinha sido decretado a morte do Carnaval31. Como registra DaMatta, “...não é por acaso que durante o Carnaval grupos de pessoas de classe média e classe alta (sobretudo intelectuais sofisticados) deixam a cidade por ‘não poderem suportar o carnaval’ ou ‘a transformação da cidade num pandemônio’”.32 Como tentamos indicar acima a cena carnavalesca mudou. Sem ter condições de falar da diversidade de blocos e bandas que atravessam a cidade de norte a sul, gostaríamos de apontar algumas dessas mudanças. O movimento da retomada carnavalesca começou a ser gestado com o fim do regime autoritário e o início do processo de democratização. A ocupação das ruas como manifestação carnavalesca se dá num contexto que privilegiava o desfile das grandes escolas de samba e as festas realizadas em espaços privados, em clubes fechados. Setores da classe média urbana, socializados na experiência de recuperação do espaço público durante o processo de transição democrática, voltaram a ocupar as ruas como experiência carnavalesca dando início a um crescente processo que tem, no modelo de bloco de carnaval, sua representação contemporânea. Os blocos, precursores das escolas de samba, são uma das tantas formas de expressão que o Carnaval inventou: Cucumbis, Zé Pereira, Entrudo, Grandes Sociedades, Ranchos, Cordões, Blocos e, finalmente, as Escolas de Samba. Para Da Matta, bloco dá ideia de algo compacto e sólido, “poderoso, grande avassalador, mas sem a necessária ordenação interna para representar e (elaborar) um drama capaz de promover impacto duradouro ou expressar nitidamente um certo ponto de vista com suas necessárias nuanças”.33 No entanto, as transformações ocorridas nas festas públicas na virada do século XXI nos levam a relativizar essa ideia e considerar outras possibilidades. Além dos blocos tradicionais orientados pela lógica do concurso, da competição e do julgamento, discutidos, entre outros, por Da Matta, Ferreira e Queiroz34, nos interessa considerar a experiência de uma cidade compartilhada por uma enorme quantidade propostas que colocaram na rua 5.300.000 de foliões.35 Embora existam gradações, a nova forma processional do encontro aberto incorpora cada vez mais foliões como atores e não, necessariamente, como espectadores 36. A lógica da participação se deixa perceber na presença a cada ano mais intensa de pessoas fantasiadas na folia da cidade. Essa forma de ir para as ruas fantasiado se estendeu para além do espaço-tempo


10 do Carnaval nas manifestações de Junho e hoje é centro de uma longa e controvertida polêmica a respeito do direito de utilizar máscaras nas ruas fora período carnavalesco.37 A classificação de bloco, no Rio de Janeiro é hoje bastante elástica. São denominados dessa forma todas as novas experiências de encontros musicais e afetivos nas ruas da cidade38. Basicamente e, diferentemente de outras realidades, como o carnaval da Bahia, no Rio e Janeiro e a despeito dessa pujante diversidade, os blocos são abertos à participação de todos, sem cordas e sem obrigatoriedade de indumentária própria. Na clássica interpretação do dilema brasileiro, Da Matta argumentava que a festa era um ritual essencialmente noturno, por oposição à Parada Militar no dia da Pátria, ritual diurno. A configuração mudou. O carnaval de rua é realizado a cada ano mais cedo. Há uma clara preferência do folião em frequentar blocos que começam seu desfile com o apito da fábrica de tecidos que tanto incomodou Noel Rosa na música Três apitos.39 Os blocos que desfilam com sambas autorais produzem narrativas que dialogam com a pluralidade cultural presente na cidade. As cidades são produto da imaginação e de vivências subjetivas e coletivas que disputam tanto o presente quanto o passado que, como diz Beatriz Jaguaribe, “se renova nas práticas do cotidiano, nas crenças, nos rituais, nas tradições e nos sonhos coletivos [...] por grupos, instituições, empreendimentos e pessoas”.40 Da mesma forma, embora as cidades continuem a ser desiguais e desagregadoras, são produzidas diversas narrativas “que ora colocam em evidência a desorientação dos sujeitos e do sentido do lugar, ora celebram seu potencial democrático e emancipatório” e que podem ser vistas nos programas de ocupação e compartilhamento dos espaços públicos de copresença nas cidades que a experiência carnavalesca revitaliza. No mundo brasileiro, observa DaMatta não são somente as praças que produzem comunicação e encontros. As instituições da praça desempenham esse papel. É precisamente isso, o que fazem para o autor, os grupos de Carnaval. Comunicação, encontros e invenção são elementos que de alguma forma produzem “a própria reinvenção da cidade e a regeneração da cultura urbana”,41 em um processo de ocupação do espaço público pela festa. Essa experiência impulsiona hoje manifestações semelhantes em outras capitais, as cidades de São Paulo e Belo Horizonte estão apresentando um carnaval de rua nos moldes do realizado no Rio de Janeiro. Para finalizar, acompanhamos a descrição do processo de invenção desta tradição feita por Moacyr Luz, também fundador de bloco, o Nem Muda, Nem Sai de Cima. O autor de Saudade da Guanabara apresenta uma leitura carregada de esperança Brasil/Tira as flechas do peito do meu Padroeiro/que São Sebastião do Rio de Janeiro/Ainda pode se salva. Talvez seja possível encontrar ai um convite à formação de coletivos que pelo caminho do lúdico, alegria, da irreverência, ajudem a pensar a cidade:


11 O bloco nasce na birosca, na pelada de casado e solteiro, no churrasco na laje, na ilusão necessária para ser feliz. Um gaiato, sempre bem-humorado dá nome ao filho, o intelectual define as cores a partir de uma conclusão histórica e, uma semana depois começam os ‘finalmentes’. Depois vêm os sambas. Poetas da cidade, criamos refrões e ironias, hologramas de Lamartines e Braguinhas, cadenciados feito Zé Kéti, João Roberto Kelly. Chegam os vizinhos. Vêm como quem corre no Cosme e Damião. Formam-se alas, amigos distantes, vaquinha pra cerveja da bateria ainda improvisada, e o coração apertado no dia do desfile. O bairro toma partido, livro de ouro e um pequeno trecho de via interditado. Com a data oficial da apresentação decretada, está criada a nova tradição do Carnaval.42

Dispersando Hoje é possível imaginar a existência de um ponto de interseção entre os foliões e as muitas multidões que ocupam as ruas do mundo pós-fordista reivindicando, como postula Milton Santos, uma outra globalização. No Brasil e, particularmente, no Rio de Janeiro, os modos de participação nos movimentos que deram origem às “Jornadas de Junho”43 sugerem um processo de carnavalização da mobilização política. As manifestações que se disseminaram na cidade e no país, a partir de Junho de 2013, podem ser lidas, também, como experiência carnavalesca “que subverte os poderes opressores e se desdobra em obras polifônicas”,44 como pode ser visto no bloco Ocupa Carnaval criado por diversos coletivos de coletivos de cultura, mídia ativistas, movimentos sociais e militantes independentes assinantes da seguinte carta de princípios: O carnaval é o mais belo grito do povo! Ocupamos as ruas com estandartes, confetes e serpentinas mostrando que o Rio é nosso: suas colombinas e pierrôs estão vivos e pulsam. Abaixo as catracas que transformam a cidade em um grande negócio, onde o lucro prevalece sobre a vida, onde o dinheiro é mais livre que as pessoas. Enquanto capitalizarem a realidade, nós socializaremos o sonho. Viva a energia da rebeldia. Viva a criatividade das fantasias. Viva o Zé Pereira e o Saci Pererê. A cidade não está à venda e nossos direitos não são mercadoria. Foliões, uni-vos! Ocupa Eles. Ocupa Eu. Ocupa Tu. Ocupa Geral. Ocupa Carnaval.45

Neste sentido se vinculam à perspectiva aberta por Bakhtin, para quem as formas e símbolos da “linguagem carnavalesca estão impregnados do lirismo da alternância e da renovação, da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades no poder”46 ou ainda, com Oswald de Andrade que propõe a redescoberta do Brasil “pela invenção e surpresa” dois elementos presentes em toda manifestação carnavalesca que é também manifestação de vida e esperança.

NOTAS 1

Mestre em Sociologia pelo IUPERJ. Professor do IBMR. E-mail: jorgesapia@gmail.com


12

Sobre as novas características das festas públicas na sociedade pós- industrial ver, entre outros, “Novos lugares da festa – tradições e mercados”. Bruno Cesar Cavalcanti Revista Observatório Itaú Cultural: OIC. – N. 14 (mai. 2013). –São Paulo: Itaú Cultural, 2013 3 Cf. FORTUNA, Carlos e SILVA, Augusto Santos. “A cidade do lado da cultura: Espacialidades sociais e modalidades de intermediação cultural”. In: SANTOS, Boaventura de Souza. (org.) A Globalização e as ciências sociais. 2.ed. São Paulo- Cortez, 2002. 4 Por retomada carnavalesca fazemos referência, embora não exclusivamente, às agremiações que surgem a partir de 1985 no vácuo da campanha pelas eleições diretas e que, a partir de 2000, formaram a Sebastiana. A associação resultou da necessidade de pensar o fenômeno do crescimento, dos impactos e consequências que a festa carnavalesca produz. Essa vontade associativa surge quando seus integrantes percebem que, para além dos encontros simbólicos, a festa se transformava em arena que colocava em contato visões de mundo diferentes. Discutimos essas questões em SAPIA, Jorge Edgardo; ESTEVÃO, Andréa Almeida de Moura. “Considerações a respeito da retomada carnavalesca: o carnaval de rua no Rio de Janeiro”. Textos escolhidos de cultura e arte populares. Rio de Janeiro, v.9, n.1, p. 201-220, mai. 2012. 5 Cf, Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas. David Harvey... [et al]. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2012. Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Ermínia Maricato... [et al] 1.ed. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013. 6 CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006, p.234 7 DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. 1981, p. 49. 8 QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. “A Ordem Carnavalesca’. In: São Paulo Tempo Social; Rev. Sociol. USP. 6 (1-2): 27-45, 1994. 9 Cf. http://www.jb.com.br/rio/noticias/2014/09/23/riotur-lanca-caderno-de-encargos-para-patrocinio-docarnaval-de-rua-2015/ A matéria informa ainda sobre a mudança quantitativa da festa “As propostas deverão apresentar a quantidade mínima de 16.000 banheiros químicos (em 2014, foi exigido o mínimo de 10.250 banheiros e, em 2009, antes do caderno de encargos, a cidade contava apenas com 900 unidades). O documento também exige a manutenção e limpeza permanente dos banheiros químicos tradicionais, além da instalação de no mínimo 60 contêineres sanitários em logradouros públicos que estejam no percurso de grandes blocos”. 10 CAVALCANTI. Op.cit. p. 24. 11 Desenrolando a Serpentina 2013. IV Seminário sobre o carnaval de rua organizado pela Sebastiana. 12 de outubro de 2013. 12 Dados apresentados por Flavia de Oliveira no IV Seminário Desenrolando a Serpentina. 12 de outubro de 2013 13 CAVALCANTI, Bruno Cesar. “Novos lugares da festa – tradições e mercados”. In: Revista Observatório Itaú Cultural: OIC. – N. 14 (mai. 2013). –São Paulo: Itaú Cultural, 2013. 14 Cf. Carnaval baiano: as tramas da alegria e a Teia de negócios. Dissertação Apresentada ao Curso de Mestrado do Núcleo de Pós-Graduação da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia, 1996. p.10. 15 Ibidem. 16 HARVEY, David. A condição Pós Moderna. São Paulo: Editorial Loyola, 1992, p.152 e 260. 17 Cf. artigo de Rita Fernandez presidente da Associação Sebastiana, no Jornal o Globo de 7 de março de 2012. 18 A associação de blocos Sebastiana organizou um seminário em Outubro de 2013 que contou com a presença em uma das mesas da responsável pelo desenho de marketing da empresa vencedora das licitações anteriores. Ficou surpresa pelo teor e volumem das críticas recebidas, ancoradas numa preocupação com a descaracterização da cidade. A contragosto, comprometeu-se a rever sua estratégia. 2

19

Posição sustentada pela presidenta da associação Projeto de Segurança de Ipanema. Esta associação junto com outras três - Anima Leblon, Quadrilátero do Charme e Viva Copacabana - entraram com ação no Ministério público solicitando a proibição da venda de cerveja durante a passagem dos blocos. A polêmica em torno a essas declarações pode ser seguida em: http://oglobo.globo.com/blogs/blog_gente_boa/posts/2014/09/23/carnaval-de-rua-venda-de-bebida-alcoolicadivide-moradores-550506.asp acessado em 23/09/2014. 20 Depoimento de Carlos Fernando Andrade fundador do Bloco de Segunda e na época presidente do IPAHN Rio, realizado no terceiro Seminário Desenrolando a Serpentina. Setembro de 2010. 21 SANTOS, Nilton. A arte do efêmero: carnavalescos e mediação cultural no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Apicuri, 2009, p. 124. 22 “De Amarelo e Lilás, Sou 10” samba comemorativo do décimo aniversário do bloco, de autoria de Lefê Almeida e Mariozinho Lago. 23 Entrevista com Dodô Brandão fundador doo Simpatia. O itálico é nosso. 24 BLANC, Aldir. Depoimento registrado no CE comemorativo dos 15 anos do Bloco Simpatia é quase Amor.


13

WOLLF, Francis. “Por trás do espetáculo: o poder das imagens”. In: Muito além do espetáculo. Adauto Novaes, org. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2005. 26 NORA, Pierre. “Entre memória e história: a problemática dos lugares”. In PROJETO HISTORIA. Revista do Programa de Estudos Pós Graduados em História e do Departamento de História da PUC-SP. São Paulo-SP, 1981. p.15 27 POLLAK, Michael. “Memória, Esquecimento, Silêncio” ESTUDOS HISTÓRICOS Cpdoc/FGV. 1989. 28 PASTORIZA, Lila. “Hablar de memórias en Argentina”, in VYNIES, Ricard. Ed. El Estado y la Memória: gobiernos y ciudadanos frente a los traumas de la historia. Del Nuevo extremo. RBA España, 2009. 29 VIDAL-BENEYTO, José. A construção da memória coletiva: um exemplo concreto. In Horizontes da Memória. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003 30 Cf. Jornal O Globo. Caderno especial 23 de fevereiro de 2014. 31 Ver LEOPOLDI, José Sávio. Escolas de samba, blocos e o renascimento da carnavalização. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v.7, n.2, p. 27-44, nov. 2010. 32 DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. 1981, p.135 33 Ibidem, p. 98. 34 FERREIRA, Felipe. Inventando Carnavais: O surgimento do carnaval carioca no século XIX e outras questões carnavalescas. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005. QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. “A Ordem Carnavalesca’. In: São Paulo Tempo Social; Rev. Sociol. USP. 6 (1-2): 27-45, 1994. 35 Dados da Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro S.A. (Riotur), 36 Para uma problematização desta questão ver Queiroz (1984). 37 https://www.facebook.com/photo.php?fbid=625746424140738&set=gm.730153837025241&type=1&theater O debate sobre o direito a uso de máscaras fora do espaço carnavalesco está sendo convocado nas redes sociais e será mediado pelo presidente em exercício da OAB- RJ. 38 Há blocos musicais, como o Céu na Terra e o Cordão do Boitatá, o bloco Virtual que utilizam preferencialmente instrumentos de sopro convidando os participantes - na sua imensa maioria fantasiados - a cantar em coro sambas e marchinhas tradicionais; blocos de gênero, como as Mulheres de Chico, que cantam o repertório de Chico Buarque de Holanda em ritmo carnavalesco ou as Mulheres de Zeca38; blocos temáticos, como Toca Raul, Fogo e Paixão, Exalta Rei, que desenvolvem repertório de ícones da cultura de massa como Raul Seixas, Wando e Roberto Carlos; além de blocos que dialogam com diferentes tradições musicais produzindo as mais diversas fusões. Há os que transitam tanto no universo do rock, Bloco Cru, quanto do funk, os que dialogam com a música caribenha ou aqueles que resgatam as tradições populares do Maracatu Rural 38. Blocos corporativos, como Imprensa que eu Gamo, formado por jornalistas e Imaginô agora amassa, por advogados. Existem hoje ícones da cultura pop global, como os Beatles, que foram traduzidos em batida percussiva pelo recentemente criado bloco Sargento Pimenta. Basicamente e, diferentemente de outras realidades, como o carnaval da Bahia, no Rio e Janeiro e a despeito dessa pujante diversidade, os blocos são abertos à participação de todos, sem cordas e sem obrigatoriedade de indumentária própria. 39 Samba de Noel Rosa feito em 1933. O Poeta da Vila foi homenageado pelo Bloco Simpatia é Quase Amor no carnaval de 2010, ano do seu centenário. 40 Cf:http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/08/06/o-passado-no-futuro-da-cidade-por-beatrizjaguaribe-396853.asp 41 Cf. FORTUNA, Carlos e SILVA, Augusto Santos. “A cidade do lado da cultura: Espacialidades sociais e modalidades de intermediação cultural”. In: SANTOS, Boaventura de Souza. (org.) A Globalização e as ciências sociais. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2002, p. 432 e 455 42 Artigo do compositor Moacyr Luz publicado no Jornal O Dia. 17/01/2014. 43 Sobre as jornadas de Junho ver Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Ermínia Maricato [et al.] São Paulo: Boitempo, Carta Maior, 2013 44 SZANIECKI, Barbara. http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/521910-monstro-e-multidao-a-estetica-dasmanifestacoes-entrevista-especial-com-barbara-szaniecki 45 https://www.facebook.com/events/269581106531116/?fref=ts 46 BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: HUCITEC/UnB, 1987, p. 10. 25


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
O Carnaval para além da avenida: foliões e as muitas multidões que ocupam as ruas do mundo pós-fordi by Portal Academia do Samba - Issuu