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Carnavalescos das escolas de samba cariocas origem resistência e afirmação de um profissional.

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CARNAVALESCOS DAS ESCOLAS DE SAMBA CARIOCAS - ORIGEM ' RESISTENCIA E AFIRMA9AO DE UM PRO FISSIONAL.

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Helenise Monteiro Guimaroes Professora do Mestrado em Historia da Arte Escola de Belas Artes UFRJ

Como surgiu 0 carnavalesco? A Historia do Carnaval da cidade do Rio de Janeiro, no contexto da cultura popular brasileira, €I uma das mais ricas e que tem merecido muitas pesquisas no ambito academico e tambem de estudiosos do mundo do samba. Desde os violentos Entrudos do seculo passado ate 0 fenomeno das • escolas de samba, varios de seus aspectosou multiplos 'carnavais' -tem sido estudados e debatidos. Em nossa pesquisa e contato com este mundo da folia, nosso interesse foi retido p~r uma figura unica e polemica: 0 profissional carnavalesco. Por tras de todo luxo, magia e criatividade, reconhecemos uma profissao que ainda hoje tem mui( 1 ) Pac um conhecil •• anto gero! do histOric dO!i escolasdesanbe do Rio de Janeiro ver Hist6rio dO cornava/ carioca, de Eneido.

tos de seus aspectos desconhecidos, 0 que se faz necessaria uma breve sintese de seu hist6rico e da inser900 no contexte a que pertence. Do processo de forma900 das Escolas de samba muito se conhece. Evasta a literatura (1) e intensa a identifica900 destas agremia90es com a identidade do Rio de Janeiro, assim como ofutebol, a praia e, - contra a vontade de muitos - 0 movimento 'Funk'. Ha pelo menos tres decadas, 0 desfile das escolas de samba tornou-se 0 centro das aten90es no periodo carnavalesco, gerando expectativas e acaloradas discussoes. Hoje, quando assistimos ao desfile da Portela, do Salgueiro, da Mangueira, identificamos suas cores, seus sambas, recebemos

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•

o impacto de sua apresentac;:ao. e por tras destes elementos simb6licos existem profissionais nos quais poderemos reconhecer um -estilo". uma -marco". e dependendo de varios fotores de julgamento. tentaremos ova liar sa esta ou aquela escola sera a campea. Nomes como os de Fernando Pamplona. Rosa Mogalhoes. Renato Lage e JoOosinho Trinta tornaram-se populares a partir da decada de 60. epoca em que a profissOo de carnavalesco iniciou sua ofirmac;:oo. em bora suas origens sejam bem mais remotas. -Carnavalesco" e umtermo devOrias aplicaC;:Oes: aquele que gosta de carnaval. foliOo. coisas relativas ao carnaval. e recentemente designa um profissional com atribuic;:oes especificas. que trabalha no ambito do carnaval. Seu antepassado era o chamado -tecnico". que possula atribuic;:oes identicas e elaborava os desfiles das Grandes Sociedades e Ranchos Carnavalescos. manifestac;:oes populares do carnaval do Rio de Janeiro no seculo passado e deste seculo. Estas entidades contavam com a porticipac;:Oo de artistas plasticos e cen6gra• fos. constituindo os primeiros nucleos de formac;:Oo profissional tecnica e artistica carnavalesca. Com as Grandes Sociedades (ou grandes clubes) - -Tenentes do Diabo". -Democroticos" e -Fenianos", citando as mais famosas - 0 carnaval carioca tomaria nova forma. apresentando no desfile de 1859

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(2) 0 ·oteller' O,,",i citodo 9 0 que hoje chanamos de ·borrQcOo·. esp~ onde $00 confeccionodos adereyos. alsgorias e fontosja$. N.A.

grandes carros aleg6ricos. ~ no campo da cenogrofia teatral que foram buscar profissionais que se dedicoriam a estes desfiles. por $9IJS conhecimentos especificos que se adequavam a uma exigencia coda vez maior de qualidade na apresentac;:Oo. tendo em vista as acirradas competi<;:Oes entre grupos. -Tecnico" era aquele individuo idealizador. orientador da confecc;:ao das alegorias e roupagens. que comandava 0 trabalho de cen6grafos, maquinistas. costureiras. aderecistas e outros individuos envolvidos no trabalho do - atelier"(2). Muitos cen6grofos fica ram famosos por seu trabalho. como Publio Marroig e RUla Guimaraes, que domina ram 0 cenario carnavalesca corioca da primeira decada deste seculo. Por sua competencia eram disputados pelos Grandes Clubes e formaYam equipes. num modelo bem proximo de nosso atual carnavalesco. Simultaneannente. os Ranchos Carnavalescos absorveram esta mOo-de-obra especializada, servindo tambem de laborat6rio para experiencias plosticas. sempre instigadas no esplrito da competiC;:Oo. busca de novos materiais e efeitos e maior sofisticac;:Oo dos desf~es: luxo. beleza. originalidade e ousadias eram fundamentais, bam como 0 segredo que envolvia os enredos. No que se refere aos enredos. a liberdade dada aos idealizadores era ilimitada e resu~ tava de temas bastante ecleticos: -Aida", da 6pera de Verdi. 'Paralso de Dante" e -In-


ferno de Dante' sao exemplos de temas usados pelo Tecnico Antoniquinho, do Rancho Recreio das Flores, de 1920 a 1922, obtendo vitorias consecutivas. As Grandes Sociedades e Ranchos Carnavalescos serviram de celeiro para os 'Tecnicos', e sua presenc;:a no carnaval nao foi produto do acaso, mas sim de uma necessidade tecnica e artlstica, que tambem atingiria posteriormente as Escolas de Samba, que repetiriam 0 processo de absorc;:Oo destes profissionais. Ao absorve-Ios na decada de 30, em seu processo de evoluc;:oo admite uma integrac;:oo que provocaria as condic;:oes para 0 surgimento do profissional 'carnavalesco' um genulno produto das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Sobre as origens dos Gremios Recreativos Escolas de Samba do Rio de Janeiro ja existe uma consideravel bibliografia, que aborda aspectos historicos, analise de especia6stas em carnaval, trabalhos academicos e cronicas (3). Alem disso, cada uma delas possui seu arquivo e personagens que sao slmbolos vivos de seu processo de afirmac;:oo e resistencia. Desde a decadaâ&#x20AC;˘ de 30, competindo com 0 luxo das Grandes Sociedades e Ranchos Carnavalescos, enfrentaram tambem a proibic;:Oo e perseguic;:Oo policial. Entre 1930e 1950, a luta pela propria afirmac;:oo e liberdadede expressao foi 0 cerne de sua existencia e de seus dirigentes e componentes. Tirar 0 samba e 0 sambista da marginalidade, derrubar preconceitossoci-

( 3) Para um conhecimento cronol6gico do Carnaval carioca.

ver Mem6rias do carnaval, de Hiren AraUjo. que ci:Jorda todos as manlfes1acroes camavalescas do Rio de ..Ionero.

ais e raciais, para valorizar uma produc;:ao genericamente relegada as populac;:oes pobres, negras e dos morros e dos suburbios, foi sem duvida uma transformac;:ao radical, motivada pela competiC;:Oo entre os grupos - que noo prescindiu de violencia - e a busca de apresentac;:oes cada vez melhores e mais organizadas. Os 'tecnicos' , transferindo-se para as Escolas de Samba, em func;:oo da uniOo com dirigentes e componentes na idealizac;:ao dos desfiles, reforc;:ariam 0 carater coletivo da criac;:oo do carnaval. pad rOo que sem duvida imperou nos primeiros trinta anos, e que sofreu modificac;:oes a partir dos anos 50, sem contudo deixar de existir. Em seus 65 anos de existencia, as Escolas de Samba do Rio de Janeiro foram e sao ainda a maior fabrica de artes e artistas carnavalescos.

A Escola Nacional de Belas Artes e 0 carnaval carioca

A elaborac;:Oo artlstica do carnaval do Rio de Janeiro noD contava apenas com a empolgac;:oo dos foliOes e 0 trabalho dos autodidatas, cenografos e tecnicos. A Escola Nacional de Belas Artes, situada na Avenida Rio Branco, em frente ao Teatro Municipal. teve intensa participac;:oo nas folias de Momo. Ainda no final do seculo XIX, Rodolpho Amoedo, entOo diretor da Esco-

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la. confeccionou 0 estandarte para 0 Clube Tenentes do Dlabo. em 1889. Era normal a participa900 des mestres. alunos e artistas da ENBA na confec900 des 'Prestitos' (4). decora90es de rues. clubes e comlssoes Julgadores. Alguns de seus alunos premlades nos Sal6es tomaram-se discipulos des tecnicos. como aconteceu com Andre Vento. discipulo de FiCJza Guimaraes. citado pelo cronista Jota EfegA. lIustrando bern a rela900 entre 0 aprendizado 'acadAmlco' e 'popular': "Embora subestimado pelos ·snobs·. que naquele tempo jO os havia. os cortejos de alegorias C.•• ) no sua confeccOo trabalhavam artlstas de reconhecldo merito. Contava-se entre eles alguns autodldatas. alguns curiosos (porque "tinham ]elto') e tambem os que tlveram aprendlzado nas escolas com mestres. Asslm 0 moco Andre Vento C.. ) estava no rol destes ultimos. Era um dos que ttveram

aprendlzado em escolas ou em salas de academia. lria porem se Inlcier em compelicOo de nitldo cunho popular: (5) Artistas do ENBA. como Modestino Kanto. Manoal Faria e Callxto Cordeiro. levaram para os "atelie!" das Grandes Sociedades e Ranchos seus conhecimentos especializados e eram disputades por sua competAncia. Outra particlpa900 envolvia a analise e a cntica des elementos visuais des desfiles. e professares como Lourival Fonte. Edson Motta e Navarro da Costa eram convidados para fazerem parte de Comlss6es Julgadores. Mais tarde. os concursos de decora900 de clubes e hotels. como 0 Teatro Municipal e 0 Hotel Gl6rla. bem como concursos de decora900 de ruas. atrairam muitos mestres e artistes. que contribuiram

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I

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Oetalhe - ComlssOO de flo: de do Ii 1*1= elohlz Leopoldlnel"H - Cornavall994.

CoPO do disco de samba de enredo do grupo especial de 1995

94 (5) EFEG~ • Jote. Agultl$ e Coisas do CorrovoI CorIoco. cp. cit.


para a evoluc;:ao da decorac;:ao carnavalesca. entre eles Nilton da Costa. Roberto Burle Marx. Plinio Lopes. Adir Botelho. Fernando Santoro e Fernando Pamplona. A lingua gem estatica da decorac;:ao carnavalesca muito se beneficia ria do talento e conhecimento destes artistas. e seu contato com 0 mundo do samba a um fato natural. dada a reciprocidade entre Escola Nacional de Belas Artes e Escolas de Samba. ambas campos de aprendizado e troca de conhecimento. rompendo limites entre 'erudito" e 'popular".

A grande revoluc;ao dos anos 60 e 0 "camavalesco" modemo 'Se nOo tivesse havldo Arlindo Rodrigues. JoOosinho Trinta. Pamplona. Maria Augusta. haveriam outros. porque a rna Is ou menos p~r a1. como a galinha e 0 ovo. 0 material ajuda a progredir a soluc;:Oo tacnica e ela exige que haja novos materials para que voca possa tazer a revoluc;:Oo estatica. " Fernando Pamplona Os pontos de contato estavam encadeados. a estrada estava aberta e varias foram as circunstOncias que contribuiram para a individualizac;:ao da profissOo de carnavalesco. e muitos foram os equivocos sobre este persona gem. Ao final da decada de 50. as Escolas de Samba cariocas haviam alcanc;:ado um limiar em sua afirmac;:Oo. superando os Ranchos e Grandes Socieda-

des e atraindo cada vez mais a atenc;:ao do publico e da midia. Tornados oficiais os concursos pelo Governo. as Escolas contavam com parcas subvenc;:6es e Uvros de Ouro. ao mesmo tempo em que se acirrava a competic;:ao entre as agremiac;:oes. Iniciavam tambam a recepc;:ao classe madia. atraida pelo sucesso e pelos movimentos culturais como 0 CPC da UNE. que valorizavam 0 samba como genuina manifestac;:ao popular (6). retirando-o do contexte da margi-

a

nalidade. Ha muito material informativo sobre as transformac;:oes das Escolas de Samba neste periodo. mas temos alguns importantes momentos de ruptura: quando Paulo da Portela luta pela mudanc;:a da imagem do sambista (7) atravas da aparencia. comportamento e orgulho das cores azul e branco da Portela. e quando posteriormente Nelson

Oetalhe do bateria do Portela - Revisto Manchete nil 2.239/1995

95 ( 6 ) GUIMARAES. Helenlse M. Cornava/esco. 0 proflsslonaJ que 'faz Esc%' no camaval Carioco. Capitulo V

(7 )Barbosa do Silva. MariHo 1. et aUi Paulo Portela. traco de l.II1ido entre duos culturas


de Andrade provoca a grande transforma~oo na apresenta~Oo do desfile do Salgueiroo Aliada a estes do is momentos. a imprensa faz contundentes criticas aos aspectos plosticos dos desfiles. justamente quanto confec~Oo e ao acabamento das alegorias - 0 que motivaria uma mudan~a na manufatura das mesmas. Carnavalescos autodidatas nco eram novidade nas Escolas de Samba. e uma das mais tradicionais. a Esta~Oo Primeira de Mangueira. teve em seus quadros 0 mais talentoso de todos: Julio Mattos. 0 'Julinho da Mangueira-. Esteartista nosanos 50 monopolizou a manufatura e a distribui~co de alegorias. visto que possula uma 'fobrica de formas e alegorias de carnavalonde. com uma equipe de seis aJudantes. no mais absoluto sigilo de seus conhecimentos. fabricava 'pacotes- de enredos completos (8) para Escolas do Rio de Janeiro e de outros Estados. Sua grande paixOo foi a Mangueira. com carnavais inesqueclveis como "0 Mundo Encantado de Monteiro Lobato -( 1967). onde 0 processo de cria~oo. segundo 0 pr6prio Julio Mattos. pertencia s6 a ele. um retrato tlpico de um metodo de trabalho bast ante pessoal:

a

"No Mangueira eles deixavam tudo por minha conta. escolhia 0 carnaval. figurinos. alegoria. tudo comigo. Ultimamente tinha uma Comissao. mas nao se metiam comigo. nem com meu trabalho ( ...) eu achava que tinha mais pr6tica e nOO admitkl palpites. Antigamente em janeiro a gente entregava os figurinos. era um sagredo violento. era proibido entrar no

barracao. agora nao. tem data. a pessoa vai 16 dizer 0 que vai apresentar. mas eu sou contra. a surpresa e muito importante ( ... )' (9) Julio Mattos Caberio ao Gremio Recreativo Escola de Samba Academicos do Salgueiro e ao seu presidente. Nelson de Andrade. atrair tres grandes nomes do meio teatral: 0 casal Dirceu e Maria Louise Nary. que idealizaram em 19590 enredo "Viagem Pitoresca e Historica ao Brasil' â&#x20AC;˘ homenageando Debret. e no ana segunte. 0 cen6grafo e. professor da ENBA. Fernando Pamplona. 0 casal Nery introduziu na concep~oo do desfile eiementos de cenografia teatral. compondo um novo ritmo visual aliado ao samba enredo e a dan~a. Houve um cuidado inedito na uniformiza~oo das alas. confe~co de fantasias. coordena~co e harmonia de cores e ritmos tonais. A adequa~oo de novos materiais - espelhos. pompons. fitas e outros - proporcionou uma resposta plostica que possibilitou a revolu~co estetica. Esta revolu~co plostica seria repetida atraves das decadas de 60. 70 e 80. em trabalhos que alteroriam radicalmente a apresenta~oo das Escolas de Samba e criariam modelos que seriam copiados e reinventados. Fernando Pamplona. com sua famosa frase' tem que se tirar da cabe~a 0 que nco se tem no bolso' expressa duas qualidades inerentes a situa~co destes carnavalescos e das pr6prias Escolas de Samba. A primeira se refere intensa atividade de explora90o de novas solu~6es visuais. a

a

96 (8)G~S. HM . ide:i ..

(V) GUIMARAEs. H.M. Op. cit.


pesquisa de materiais alternalivos que rompiam com aqueles tradiclonalmente usados e que pel a sua versatilldade proporclonayam um amplo espectro de op<;Oes pl6sticas. A segunda se refere aos poucos recursos do Salgueiro (e de todas as Escolas), numa apoca em que a subven<;co era irris6ria e os banqueiros do Jogo do Bicho, os 'patronos', ainda nco haviam tornado seu espac;:o nas agremiac;:Oes. Diante de exigenclas cada vez maiores quanto aos resultados, trabalhando com or<;amento inexlstente, muitas vezes apUcando seus pr6prios racursos, 0 professor Pamplona formou com 0 casal Nery, 0 figurinista Arllndo Rodrigues e o aderecista Nllton (tamb9m da ENBA) uma equipe que mudaria os rumos do desfiIe e consolidaria a profissOo de Carnavalesco. A ele se juntaria outr~ Importante arlista, bailarino do Teatro Municipal e responsavel pala posterior revoluc;:Oo estalica dos desfiles da Beija-Flor de Nil6polis: Jocozinho Trinta. trabalho desta equlpe inlcial foi tambem urn trabalho de Integrac;:Oo, convencimento e sedu<;ao entre os arlistas e a comunidade, onde a abertura de dlalogo nem sempre se daria de forma foci!, e a neste ponto que 0 carnavalesco comec;:a a se afirmar tambam como um 'medlador' nas diversas instOncias da Escola de Samba, um entre muitos papais que desenvolveria durante os pr6x1mos trinta anos. Um dos grandes mamos do professor Fernando Pamplona fol aproveitar ointa-

cada vez maior que 0 carnaval despertava e incentivar seus alunos a parliciparem dos projetos de carnaval, conscienlizandoos de urna passive! profissionaliza<;ao: â&#x20AC;˘ Eu comecei a utilizor mOo-deobra da Escola de Belos Artes nOo no barracOo, mas no projeto. EntOo posso dlzer que os levei da Escola pora tazer 0 projeto; no prlmelro momento era amador, mas depois nos concursos de decorQ90o tomou-se proflsslonal (",),' Femondo Pamplona . ,â&#x20AC;˘

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3. RQ1.IinO desenhodO por Renato loge. L*J Roo alo. c9dldo para cisserto~Oo do outora. cortelio R&'L Prod. Artisticos

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Inicialmente Pamplona levaria seus alunos apenas para a fase de projetos, e 0 passe seguinte foi formar as equipes no pr6prio barracOo do Salgueiro, uma metodologia de ensino que deu bons frutos. A ENBA proporcionava aos seus alunos uma forma<;:00 tacnica e artistica especializada, que incluia 0 conhecimento cultural. 0 trabalho pratico no carnaval, fosse para decora<;:oes ou no barracOo, enriquecia este aprendizado. 0 barracOo do Salgueiro foi uma espacie de 'faculdade de artes' paralela, e ainda hoje, em nossas pesquisas, constatamos que os barracOes das Escolas de Samba continuam a absorver alunos da Escola de Belas Artes da UFRJ, proporcionando-Ihes um aprendizado pratico (inico, alem do rico contato com 0 ambiente social do barracOo e das Escolas. A equipe inicial de Pamploria realizou um trabalho experimental inadito, entrosando pessoas de nivel universit6rio com 0 mundo do samba, e mu~os destesalunos tornaram-se carnavaiescos - como Rosa Magalhaes, Ucia Lacerda e Maria Augusta, e ainda, embora nOo pertencessem ENBA, fariam parte desta equipe Max Lopes e Renato Lage. processo de afirma<;:oo da profissao est6 mu~o mais baseado nesta possibilidade de forma<;:ao de equipes e experimentac;:oo artistica e tacnica do que numa expectativa de remunerac;:ao alta, como ex-

a

o

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(10) Para urn conhecimento aSI: ecffico do Escola de Samba Salgueiro. Vf1( Salguero: Academia do Samba. de Haroldo Cos¡

to.

plica 0 proprio mestre. que a importante dizer e que pelo menos ata 75, quando JoOosinho Trinta tirou 0 bicampeonato do 5algueiro. aramos simples amadores, nenhum de nos jamais ganhou dez centavos no 501gueiro ( ... )H â&#x20AC;˘ ( ... ) 0

Fernando Pamplona

Carnavalesco - heroi

OU

(10)

vilao?

Nossa pesquisa tem sido pautada por uma prioriza<;:ao da observac;:oo dos fatos diretamente no contexte onde ocorrem, visto que consideramos que a vivencia academica nOo deve se restringir so ao embasamento te6rico, importante, sem d(ivida, mas pela reflexao contida no contato com os aspectos mais intimos de nossos objetos. Aiam do conhecimento historico, fundamental para determinar certas fases e transformac;:oes, 0 contato com os profissionais e mesmo 0 exercicio da func;:ao de carnavalesca - experiencia (inica - e mais ainda, a vivencia dos ambientes dos barracoes, nos proporcionaram uma visOo bastante clara dos aspectos polemicos que envolvem este profissional. Fica patente que a elaborac;:ao de um carnaval sempre foi e ainda a um processo coletivo, que possui fases distintas e atravessa todas as inst6ncias do organismo vivo da Escola de Samba. Desde a escolha do carnavalesco, a pro posta do enredo, 0


processo de cria900 e opresent0900 ate 0 produto final, no desf~e, observom-se foses que permonecerom proticomente inolterodos no estruturo de orgoniz0900 dos Escolos. 0 dialogo entre 0 cornovolesco e esto estruturo e, antes de tudo, 0 de um "mediador" de multiplos fun90es, que obedece a etopos preestobelecidos e coerentes com a estruturo hierorquizodo destos ogremi090es. (11) Existem varios polemicos em torno do rel0900 entre 0 Cornovolesco e as Escolos de Samba, a moioria abordando criterias de interferencio, deformo900, perda de identidade e outras atitudes negativas que o coloca junto com banqueiros do Jogo do Bicho - como' os grandes vilOes" surgidos nas decadas de 60 e 90. Quanto a estes ultimos, existem bons trabalhos que discutem seu poder e posi900 no carnaval carioca, e entendemos que foram e ainda sOo os "mecenas" de muitas agremia9ces, e que a elas cabe explicar sua presen9a e necessidade. A responsabilidade do carnavalesco nas allera90es hovidas nos desfiles das â&#x20AC;˘ Escolas de Samba, pressupondo-se uma -descaracteriza900" das mesmas atraves das inova90es esteticas introduzidas ao longo dos anos e um temo de frequentes debates. No processo de evolu900 das Escolas de Samba, todos os elementos por eia absorvidos tiveram uma fun900 adoptativa

(11) Para UTI conhaciHento espec'iflco de estrutua do de fie. ver: CanavalCorioco : dosbostkiofesdodssfiJ6. de Mario lOLla Vl\oteIfOS de Castro Covacot t1i.

a fatores externos, fosse pela exigencio do esp090 cenico - cada vez maior, mois alto e redimensionado, fosse pelo crescente interesse no espetaculo. Em seus primeiros anos, os desfiles continham um alto grou de improviso, que noo Ihes retiravo a "autenticidode", muito men os quando com99oram a absorver elementos plasticos dos Ranchos e das Grandes Sociedades, tomando uma nova organiza900 e aprimorando visualmente 0 seu desfile. As Escolas de Samba nOo olteraram suas bases tradicionois, montendo corocteristicas que definiram personalidades bastante distintas. A integra900 de mOo-deobra especializado aos componentes foi um fato decorrente deste processo, e posteriormente 0 convite oos artistos serio feito pelos pr6prios dirigentes. Nas decodas de 60 e 70, devido ao 0110 grau de interesse e acelera900 do processo de crescimento das Escolas, a exigencia de apresent09ces cada vez mois eloborados e 'originais" se faria uma constante. Note-se que fazemos referencio 00 termo 'original", e nOo exigencia de carocteristicas tais como 'Iuxo", -Ieveza" ou outros aspectos que tornaram-se elementos diferenciadores de estilos entre as pr6prios Escolas. A originolidode e umo necessidode constontemente buscodo pelos cornovolescos e pelos Escolos, otroves de todos os recurs~s plasticos e de novas tecnologios,

a

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100

alem daqueles que constituem altera<;:oes fora do ambito do carnavalesco. como por exemplo os sambas-enredo e 0 ritmo rado das baterias. Nenhum carnavalesco do decoda de 60 impos seu trabalho ou exigiu mudan<;:as que nco estivessem de acordo com os

isenta de atritos: Fernando Pinto e a Moctdade Independente de Padre Miguel. que repete 0 modelo com Renato Loge; Mario Augusta e a Unico do IIha nos anos 60 e Rosa Magalhces com a Imperatriz Leopoldinense. atualmente detentoras de dois campeonotos consecutivos. Identifica<;:oo que pouco

desejos das agremia<;:oes. 0 Salgueiro. 00 se prop~r ser 'nem melhor. nem pier. apenas uma Escola diferente". €I a provo do dinamica que resulta em constantes transforma<;:oes. onde absoNe-se aquilo que e positivo e rejerra-se 0 que comprovadamente e nocivo a sobrevivencia do desfile. Este exercicio de resistencia. absor<;:00. rejei<;:co e resgate e uma constante no processo de todas as Escolas. atentas sempre a toda e qualquer novidade. que dando um bom resultado passa a ser um mode10 imitado pelas concorrentes. o carnavalesco. profissional que tem pelo menos quatorze fun<;:Oes (12). tem antes de tudo 0 'feeling" necessario para captor as necessidades de coda Escola. e tem de ter a capacidade de dialogo e integra<;:co quase imediatos. Sa a sua forma<;:00 b6sica e feita no barraCOo - verdadeira e (mica' escola' de carnavaiescos - 00 se relacionar profissionalmente. precisa 'sentirO a personalidade do agremia<;:co que 0 contrata. Ha casos de perteitos casamentos em que 0 carnavalesco e a Escola uniam-se numa perteita identifica<;:Oo - nco

tem a ver com remunera<;:oo financeira (outro mito muito divulgado em torno dos sal6rios milionarios ) - duramente negocieda ano a ano. A romantica imagem do carnavalesco que 'vestia a camisa" foi substitulda pela rotatividade e pela semelhan<;:a com 'teenicos de futebol" • pela disputa das Escolas pelos carnavaiescos mais taientosos e pela liberdade do profissional de optar por novos desafios. Ha uma constante flutua<;:co nestas posi<;:oes. fases em que a Beija -Flor foi a , Escola de Jocosinho Trinta". slmbolos de vit6rias consecutivas e sofridas expectativas. e exemplo do quanto um profissional pode optar alem do restrito espa<;:o do barracco. No transforma<;:co das Escolas de Samba em grandes empresas. 0 passe do carnavalesco um dos itens - de grande importancia no esquema de troca e negocia<;:oes: hoje negociam-se os mais variados elementos. casais de mestre-sola e portabandeira e diretores de bateria. Ao mesmo

(12) Entre as que uiitlaclonomos no di$sertoc;:Oo "Cornavale5co, oprofissionol que "taz 95Colo· 1"\0 cornoVOl carioca" , destaCOrn05: autor do enredo. escritor e p 3IquisOdOf. roteirista.

pet6cUlo, pesquisador de mercado. relac;:oes publicas e ortis-

cenOgroto. figurinisto . oderecista . ~rojetista . produtor de e$~

trobalho.

•

•

e

tempo. em sua sabedoria. as Escolas atentas aos oportunismos externos fecham suas portas para postos cobi<;:ados. como os de 'Rainha do Bateria". optando por eleger em

te plOStico sao algumas des funo6es que 0 carnovolesco po-

defa exercel segundo as necessidodes e

im~Oes

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seu proprio grupo aquelas que devem briIhar no desfile. A realidade que, se 0 carnavalesco fosse um elemento nocivo, teria sido expurgado das Agremiacyoes, e os proprios proflsslonais nao as buscariam como meio de trabalho. Mais problematicos e dignos de preocupacyeo sao certos aspectos que vem aos poucos alterando a relacyeo das Escolas com seu publico e seus componentes: 0

e

seu crescimento exagerado, 0 afastamento das "comunidades' de base, a multiplicacyao dos dias de apresentacyao, 0 excessivo numero de agremlacy6es - 0 que gera um longo tempo de exposicyao e a sensacyeo de "deja vu' inevitavel; 0 alto custo das fantasias e todos os superlativos aplicados ao desfJIe: "mega-espetaculo', "supershow' implicam num esforcyo cada vez maior em surpreender, ser original, levantar as

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N

N

arquibancadas e 'seduzir ou agradar aos

Portela, e "tazer carnaval deixou de ser uma

juizes - cada vez mais numerosos, acompanhando 0 processo de crescimento do pr6-

atividade amadora para se tornar uma multi pia profissao, grac;:as a Fernando

prio carnaval das Escolas.

Pamplona e sua equipe.

Debitar essas questoes ao carnavalesco €I ignorar processos de distorc;:ao bem mais graves, tanto maier sao os esforc;:os que as Escolas fazem atualmente para 'serem diferentes A exaustao musical visual e fisiN

...

ca €I um risco perigoso, e 0 Carnavalesco vem buscando se manter ativo, ousado, alvo de criticas e elogios. Desta forma, ainda nos encantamos com 0 bailado dos leques da belissima Comissao de Frente da Imperatriz Leopoldinense no ana de 1994, elemento fixo da Escola explorado com habilidade p~r Rosa Magalhaes, num impacto que relembrou as surpresas dos carnavais de Jooosinho Trinta na Beija-Flor e Fernando Pinto na Mocidade Independente de Padre Miguel. Rompendo de vez com um modelo e aplicando coreografias elaboradas, logo imitado p~r todas as Escolas, novamente 0 Carnavalesco surge como um idealizador de novas opc;:oes visuais, que certamente passaram pela aprovac;:ao de suas Escolas. Rotular 0 carnavalesco como designer, artista pl6stico, genio? Explicar 0 fenomeno carnavalesco €I contar um pouco 0 processo das Escolas de Samba do Rio de Janeiro - ele nao eON vilao N porque 'fazer samba" e ser 'samN

bista deixou de ser motivo de perseguic;:ao policial muitas decadas, grac;:as a Paulo

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