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As escolas de samba como resultado e resultante do processo de produção do espaço urbano no/do RJ

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ENCONTROS – ANO 13 – Número 24 – 1º semestre de 2015

AS ESCOLAS DE SAMBA COMO RESULTADO E RESULTANTE DO PROCESSO DE PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO NO/DO RIO DE JANEIRO Michel Rosadas1

Resumo: O objetivo deste artigo é analisar as escolas de samba como agentes de produção do espaço que sinteticamente são resultado e resultante das contradições de apropriação/negação e dominação/consentimento no/do espaço urbano carioca. Visando atingir tal objetivo, delimitamos como recorte espaço-temporal as agremiações carnavalescas da região metropolitana carioca, a partir da década de 1970, quando se intensifica a transformação das escolas em superescolas de samba S.A., até a presente década, com a crescente participação do capital monopolista no financiamento das agremiações. Palavras-chave: Escolas de samba; cidade do Rio de Janeiro; produção do espaço.

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia/UERJ. Professor de Geografia na rede privada de ensino. 1

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I - Introdução O samba, mais que um gênero musical, é uma manifestação cultural urbana carioca das classes trabalhadoras, sobretudo negra e mestiça, erigida nas primeiras décadas do século XX em meio às transformações histórico-espaciais ocasionadas pela nossa particular experiência de modernidade que ora se constituía. Isto nos faz pensar que o samba - e a sua posterior institucionalização, a escola de samba esteve e está inserido em uma realidade complexa e viva da formação social e cultural brasileira. Concordamos com Coutinho (2011) ao salientar que analisar um elemento constituinte da problemática da cultura brasileira, dita questão cultural, necessita o reconhecimento do quadro histórico social concreto do nosso país. O criador cultural é um sujeito histórico cuja liberdade de criação implica condicionamentos sociais e espaciais do seu povo. De acordo com o exposto, o interesse desta investigação pela temática em tela perpassa pelo movimento de passagem do samba como atividade cultural altamente perseguida e criminosa em sua gênese até a consagração nacional como um dos maiores signos de brasilidade no país e no mundo. As linhas acima servem para contextualizar aquilo que é o cerne desta investigação, a saber, as implicações espaciais do fenômeno cultural em tela como parte constituinte da totalidade histórica. Neste sentido é fundamental desvelar a relevância da espacialidade dessa dinâmica, apontando para a ideia de que a sociedade ao

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produzir-se, o faz num espaço determinado, como condição de sua existência, mas através dessa ação, ela também produz, consequentemente, um espaço que lhe é próprio e que, portanto, tem uma dimensão histórica com especificidades ao longo do tempo e nas diferentes escalas e lugares do globo (CARLOS, 2011, p. 53).

De acordo com este raciocínio faz-se necessário considerar a reprodução da sociedade, em sua totalidade, realizando-se através da produção e reprodução do espaço. Acreditamos que a inserção no espaço em que os sujeitos históricos estruturam sua vida material é também determinante para as suas possibilidades culturais. Neste caso o samba é também um tipo de negação – não livre de contradições – sob a forma de manifestação sociocultural das camadas mais baixas da classe trabalhadora ao processo de segregação socioespacial imposto na cidade (BRAZ, 2013). Diante do quadro concreto da inserção do negro na sociedade de classes no Rio de Janeiro podemos qualificar as criações coletivas do nomeado povo miúdo, como o carnaval, o samba e posteriormente as escolas de samba, num nível do que Lucien Goldman qualificou como “consciência possível” (FREDERICO, 2006; COUTINHO, 2011; BRAZ, 2013). O autor franco-romeno propõe um deslocamento do foco da consciência real dos indivíduos atomizados para a consciência possível dos indivíduos integrados a grupos e classes sociais diferenciadas (...) o máximo de consciência possível de um grupo é explicitado pelas obras literárias, artísticas e filosóficas – aquelas que aspiram à totalidade, à afirmação de uma visão global de mundo. Em todos os grupos existe um mínimo de coerência, que estrutura de forma significativa os valores comuns compartilhados (BRAZ, 2013, p. 87. Apud FREDERICO, 2006, p. 114,117).

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Neste sentido, a espacialidade das escolas de samba no/do Rio de Janeiro é

resultante

e

resultado

da

consciência

possível

das

classes

trabalhadoras nas suas limitadas inserções e ações destinadas aos “de baixo” na nossa particular versão de modernidade arquitetada nos primeiros idos do século passado. Surgidos

da

segregação

socioespacial

imposta

às

classes

trabalhadoras pelas reformas urbanas e pela reificação de espaços da urbe carioca, estes locais segregados se aglutinaram em torno destas instituições carnavalescas, construíram sua visibilidade e criaram uma expressão festiva com habilidade de apropriar-se – não livre de dominação e consentimento - de espaços públicos, originariamente não produzidos para o povo miúdo, e tencionaram a realidade para a conquista do direito à cidade, num contexto em que o samba, um dos seus produtos culturais, tornou-se símbolo de reconhecimento da cidade e da nação. Em consonância com o exposto definimos recorte espaço-temporal deste artigo a análise das escolas de samba da cidade do Rio de Janeiro desde a década de 1970 até os dias atuais. Este período compreende basicamente o surgimento das agremiações carnavalescas empresariais e suas posteriores transformações, como o impacto da construção do sambódromo nos anos 1980 e a associação das escolas de samba com o capital nacional e internacional para a promoção dos seus desfiles a partir da década seguinte.

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Trabalhando com a perspectiva de uma leitura geográfica sobre a cidade, com base na categorização de Carlos (2007), definimos como orientação geral desta investigação reconhecer a ideia de cidade como construção humana, produto histórico-social, contexto no qual a cidade aparece como trabalho materializado, acumulado ao longo de uma série de gerações, a partir da relação da sociedade com a natureza. Expressão e significação da vida humana, a cidade a revela ao longo da história, como obra e produto ao mesmo tempo em que aponta as possibilidades futuras que se tecem no presente da vida cotidiana. Assim, o sentido e a finalidade da cidade (enquanto construção histórica) diz respeito à produção do homem e à realização da vida humana, de modo que, se a construção da problemática urbana se realiza no plano teórico, a produção da cidade e do urbano se coloca no plano da prática socioespacial, evidenciando a vida na cidade (p. 20).

Com base nesses pressupostos, o objetivo geral deste artigo é analisar as escolas de samba como agentes de produção do espaço que sinteticamente

são

resultado

e

resultante

das

contradições

de

apropriação/ negação e dominação/consentimento no/do espaço urbano carioca. Para tal, podemos considerar os objetivos específicos: investigar a produção do espaço urbano do Rio de Janeiro no último quartel do século XX e início do século XXI; identificar o papel do sambista, parte integrante da classe trabalhadora e personagem local, como sujeito histórico desse processo; evidenciar aspectos da revolução burguesa no Brasil relacionados ao papel destinado às classes populares e sua repercussão para a produção cultural dos “de baixo”.

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II - Embasamento teórico-conceitual O modo de produção capitalista, suas leis gerais e tendências de desenvolvimento regem e revestem nossa formação sociocultural a ponto de determinar que a produção artístico-cultural só exista como tais em função das relações concretas - materiais e histórico-geográficas - que as determinam. No entanto, comungamos com a ideia de Braz (2013) ao afirmar que “a fruição estética é algo extremamente complexo para ser delimitado às relações concretas que as explicam em última instância. Mas aquela não pode ser compreendida sem estas” (p. 66). Netto (2011), corroborando com a temática, mesmo reconhecendo que a “lei geral de acumulação capitalista” opera em uma “complexa totalidade dos sistemas de mediações” com caráter universal e mundializado, não devemos desconsiderar “a pesquisa das diferencialidades históricoculturais (que entrelaçam elementos de classe, geracionais, de gênero e etnia) que se cruzam e tencionam a efetividade social” (p. 29). Esta argumentação inicial confirma que os pressupostos a serem aqui investigados e analisados contém uma base teórico-metodológica calcada no materialismo histórico-geográfico e dialético. Braz (2013), baseado no pensamento marxiano, argumenta que o materialismo histórico-dialético compreende a história “como produto da atividade dos homens na produção material da vida, na qual estruturam determinadas condições objetivas resultantes de escolhas historicamente tomadas e pela qual reproduzem formas específicas de relações sociais” (p. 63).

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Neste sentido, a história como processo unitário, pressupõe igualmente múltiplas dimensões particulares em constante mutação e interação. Estamos convencidos de que a geografia, assim como a história, devem ser reconhecidas como sujeitos fundamentais da análise da totalidade. Faz-se lembrar, como escrito acima, que reconhecer as diferencialidades histórico-culturais, a partir dos pressupostos da lei geral da acumulação capitalista, deve englobar as mediações espaciais, portanto, as temporalidades e escalaridades do fenômeno geográfico. Harvey (2004) ratifica que o capitalismo tem recorrido incessantemente à reorganização geográfica como solução parcial para suas crises e impasses. Assim, ele constrói e reconstrói uma geografia à sua própria imagem e semelhança. Produz uma paisagem geográfica distintiva, um espaço de infraestrutura e de organizações territoriais que facilita a acumulação o capital num determinado tempo histórico para ter de ser desconstruído e reconfigurado a fim de ampliar a acumulação num estágio ulterior, corroborando desta forma para uma produção capitalista do espaço. III - Da produção no espaço à produção do espaço urbano carioca: capitalismo tardio e as escolas de samba como “o maior espetáculo da terra” Ponderando sobre a situação nacional, a entrada de grupos sociais exógenos ao processo de fundação e consolidação das escolas de samba

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está inserido em um contexto de transição da última fase do capitalismo competitivo para o capitalismo monopolista no Brasil. Fernandes (2011) salienta que o golpe empresarial-militar de 1964 tem como base garantir a consolidação do capitalismo monopolista subordinado ao capitalismo internacional, o que enquadra nosso modelo na categoria de capitalismo dependente. Neste cenário de construção complexa e delicada de um capitalismo difícil, porque dependente, exigia um esforço combinado entre burguesia brasileira, capital internacional e Estado para impedir que outras classes pudessem obter concessões. Todo o “esforço nacional” estava voltado para esta transição. Como aponta o autor: A transição estrutural e histórica para o padrão de desenvolvimento econômico inerente ao capitalismo monopolista, nas condições assinaladas, requer alterações tão profundas dos mecanismos de mercado, na organização do mercado financeiro e de capitais, nas dimensões da produção industrial, e medidas correlatas tão complexas (...) que ela se torna impraticável sem um apoio interno decidido e decisivo, fundado na base de poder real das classes possuidoras, dos estratos empresariais mais influentes e do Estado (p. 302).

Como vimos, a inserção do Brasil como economia urbanoindustrial conduzida por uma dependência do capitalismo monopolista internacional, através da ação e presença das multinacionais, permite que o país alcance um novo patamar de acumulação concentrada o que acarreta

no

desenvolvimento

e

diversificação

de

vários

setores

econômicos. Neste cenário, o carnaval carioca ganha destaque como atividade turística, incentivado pela prefeitura através do aumento dos investimentos nos desfiles e as subvenções às escolas de samba

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participantes. Associado a isto ressaltamos o processo de metropolização da cidade do Rio de Janeiro que, neste instante, através de mecanismos imobiliários e políticas de remoção, consolida a dominação do espaço urbano carioca, definindo os bairros e as localidades de moradia como expressão da rentabilidade das classes sociais (ABREU, 2006). O

processo

de

segregação

socioespacial,

garantido

pelos

mecanismos de capitalização do espaço urbano e a concentração de renda gerada pelo modelo de capitalismo monopolista dependente do Brasil vão escassear as restritas possibilidades de ascensão social para a classe trabalhadora dos morros e periferia carioca. A projeção artística no interior das escolas de samba torna-se neste contexto uma dessas remotas alternativas de projeção em uma sociedade interessada e fundada sobre o espetáculo. Na segunda metade dos anos 1960 há uma progressiva transformação do samba em produto cultural para a classe média carioca e para os turistas brasileiros e estrangeiros na época do carnaval. Segundo Moura (2004), o enredo do Salgueiro de 1965, Chica da Silva, é emblemático para demonstrar a mudança em curso. Neste ano Isabel Valença, que personificava o enredo sobre a exescrava de Diamantina, foi capa de revista mais burguesa da época, a Manchete, e acabou vencendo o concurso de fantasias de luxo do Teatro Municipal, que era há décadas o signo mais evidente da folia das elites (p. 149).

No mesmo ano houve a primeira transmissão televisionada do carnaval carioca, a partir das arquibancadas da avenida Presidente Vargas. Três

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anos mais tarde é lançado o primeiro Long Play (LP) oficial das escolas de samba em gravação ao vivo (CABRAL, 1996; MOURA, 2004). A espetacularização das escolas de samba atrai um público de classe média encantado com a possibilidade de vivenciar o samba e suas escolas com a inauguração de novas quadras acessíveis ao grande público sem os inconvenientes da subida aos morros. O volume crescente da lucratividade dos ensaios e dos desfiles justificam os altos investimentos. A comercialização de discos e a transmissão dos desfiles aumentam consideravelmente a popularidade das escolas e dos compositores, que passam a produzir sambas comerciais para um público

cativo.

Sobre

este

momento,

Araújo

(1994)

justifica

a

aproximação dos bicheiros com as escolas de samba a partir das oportunidades criadas com o interesse da classe média e elite nacional. Sob a égide de uma nova ditadura (militar, 1964-1985), teve lugar uma investida maciça rumo à internacionalização econômica e cultural da sociedade brasileira. Como alternativa aos Beatles, Rolling Stones e seus discípulos brasileiros, (...) aqueles setores (que incluíam parte da esquerda) teriam buscado produto nacional à altura. Daí para a transformação da escola de samba em uma espécie de microempresa, bastou que o espírito competitivo das escolas as levasse ao encontro do patronato do jogo do bicho (p. 46).

Em meados dos anos 1980 é inaugurada a passarela do samba – o sambódromo - no governo Leonel Brizola. A rua Marquês de Sapucaí seria fechada na época do carnaval para a realização dos desfiles que contariam neste instante com arquibancadas fixas. No mesmo período era fundada a LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de

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Janeiro) que destinava a esta instituição a responsabilidade pela regulamentação do carnaval, a negociação dos patrocínios dos desfiles, a venda da produção fonográfica e o repasse das subvenções públicas às escolas (CABRAL, 1996). Como podemos notar, essa conquista ocorre no momento em que as escolas já se consolidaram como empresas financiadas pelo poder público e pelos contraventores do jogo do bicho voltadas para a comercialização e divulgação do carnaval carioca como produto cultural. Comparativamente há um recuo da importância dos sambistas nas superescolas de samba S.A. Entretanto, devemos pensar as escolas de samba como instituições vinculadas com o avanço da modernização brasileira e suas consequências para a produção do espaço urbano carioca. Neste sentido, cabe indagar: por que as escolas de samba seguiriam um caminho diferente do processo histórico em curso? Devemos compreender que estamos envoltos em um momento histórico capaz de transformar o modo do sujeito ser e estar no mundo. O caráter expansionista do capital gera implicações além de econômicas, também sociais e culturais. Nas palavras de Netto (1981), os fenômenos próprios do mundo burguês consolidado, denominado capitalismo tardio, implica que as relações capitalistas de produção preencham todos os espaços da existência individual, o que elimina um campo de manobra ou jogo do indivíduo, onde ele pode exercitar minimamente a sua autonomia e seu poder de decisão.

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Na idade avançada do monopólio, a organização capitalista da vida social preenche todos os espaços e permeia todos os interstícios da existência individual: a manipulação desborda a esfera da produção, domina a circulação e o consumo e articula uma indução comportamental que penetra a totalidade da existência dos agentes sociais particulares – é o inteiro cotidiano dos indivíduos que se torna administrado -, um difuso terrorismo psicossocial se destila de todos os poros da vida e se instila em todas as manifestações anímicas e todas as instâncias que outrora o indivíduo podia reservar-se como áreas de autonomia (...) (NETTO, 1981, p. 81).

Em

outras

palavras,

a

homogeneização

provocada

pela

generalização das relações reificadas suprime as mediações existentes do período anterior, do capitalismo competitivo. Como produto cultural altamente rentável a partir dos anos 1990, o carnaval carioca atual suprime a possibilidade dos sambistas, no interior das escolas desempenhar um papel central na organização e nas decisões políticofinanceiras dessas empresas. O que estamos alertando é que a dinâmica da mercantilização incorporou os elementos culturais voltados para o valor de troca, limitando as possibilidades de a utilização dessas manifestações culturais exprimirem relações horizontalizadas pautadas no valor de uso. Dissertando sobre o assunto, Ribeiro (2006) aponta que o carnaval oficial do Rio de Janeiro transformou-se, nas últimas décadas, numa promoção corporativa típica da manipulação mercantil do capital simbólico. Corroborando com esta ideia, Jacques (2006) assinala que a estratégia em pauta está inserida em um contexto de mercantilização espetacular das cidades, em que se faz necessário forjar uma imagem

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singular de cidade para vendê-la como mercadoria. Neste sentido, prossegue a autora, como a especificidade de cada cidade se encontra fortemente ligada a uma cultura local, esta passa a ser concebida como “cultura-econômica”, para ser vendida e consumida rapidamente, isto através de seu maior chamariz: o espetáculo. Baseado em ideias lefebvrianas, Martins (1999) sinaliza que o espaço se torna neste contexto fundamental para a reprodução do capital. Assim sendo, observamos o fim da transição da produção no espaço para a produção do espaço capitalista no Brasil. Trata-se, em verdade, do próprio movimento do mundo das mercadorias, no e pelo qual o espaço se torna objeto, não apenas de compra e venda, pois isso acompanha a imposição de atividades diversas e parcelares pela sociedade burguesa, mas sobretudo sua produção se torna objeto das estratégias que visam a impulsionar a acumulação de capital, e portanto, tende a dominar a prática social (MARTINS, 1999, p. 29).

Desta forma, acreditamos que a transição da produção no espaço para a produção do espaço urbano carioca utiliza a incorporação dos elementos culturais locais, como os desfiles e as próprias escolas de samba, como estratégia corporativa de valorização imobiliária e também para a atração de capital nacional e internacional, visando tornar o Rio de Janeiro uma cidade de mercado global. Para os sujeitos históricos produtores do samba, as possibilidades de retomada do controle decisório dessas agremiações tornam-se restritas, remotas. Resta-lhes apenas a manutenção do seu papel como guardião das composições, mesmo que comerciais, e na sua ação na

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produção rítmica, como ritmistas das baterias das escolas. Vivemos um contexto do avanço do consentimento, baseado na dominação do espaço e um considerável recuo da negação, da apropriação do espaço. No entanto, o texto final da tese em que se baseia este artigo pretende discutir as possibilidades de rompimento dessa circularidade histórica para a emancipação da classe trabalhadora e consequentemente da sua produção cultural.

Referências ABREU, M. Evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLANRIO, 2001. ARAÚJO, S. As culturas musicais urbanas ao final do século XX. Fundação Gulbenkian/ Universidade Nova Lisboa, 1994. BRAZ, M. Samba, cultura e sociedade. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2013. CABRAL, S. As escolas de samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1996. CARLOS, A. F. O espaço urbano. São Paulo: FFLCH Edições, 2007. _______. Da organização à produção do espaço no movimento do pensamento geográfico. In: CARLOS, A. F.; SOUZA, M. L.; SPOSITO, M. E. B. (orgs.). A produção do espaço urbano. São Paulo: Contexto, 2011. COUTINHO, C.N. Cultura e sociedade no Brasil. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2011. FERNANDES, F. A revolução burguesa no Brasil. São Paulo: Globo, 2011. FREDERICO, C. Lucien Goldmann e os debates do século XX, sociologia da cultura. São Paulo: Cortez, 2006. HARVEY, D. Espaços de esperança. São Paulo: Editora Loyola, 2004. JACQUES, P. B. Espetacularização urbana contemporânea. In: JEUDY, H. P.; JACQUES, P. B. (Orgs.). Corpos e Cenários urbanos: territórios urbanos e políticas culturais. Salvador: EDUFBA; PPG-AU/FAUFBA, 2006. Parte III, cap. 1, p. 117-140. MARTINS, S. Crítica à economia política do espaço. In: DAMIANI, A. L.; CARLOS, A. F.; SEABRA, O. C. L. (orgs.). O espaço no fim de século – a nova raridade. São Paulo: Contexto, 1999.

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MOURA, R. M. No princípio, era a roda. Rio de Janeiro: Rocco, 2004. NETTO, J. P. Capitalismo e reificação. São Paulo: Ciências Humanas, 1981. _______. Introdução ao estudo do método de Marx. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2011. RIBEIRO, A. C. T. A acumulação primitiva do capital simbólico. In: JEUDY, H. P.; JACQUES, P. B. (Orgs.). Corpos e Cenários urbanos: territórios urbanos e políticas culturais. Salvador: EDUFBA; PPGAU/FAUFBA, 2006. Parte I, cap. 3, p. 39-50.

*** THE SCHOOLS OF SAMBA AS THE RESULT OF THE PRODUCTION OF URBAN ESPACE IN THE CITY OF RIO DE JANEIRO

Abstract: The purpose of this article is to analyse the samba schools as agent of the space production, in which on the one hand, they are the result of the contradictions between appropriation-denial and domination-consent within urban space of the city of Rio de Janeiro, but on the other hand they result in such contradictions. Based on this assumption, the space-time delimitation of the research is circumscribed to the carnival associations in the metropolitan region of Rio de Janeiro from the 1970s, correlatively to the process of becoming super schools of samba of joint-stock companies that, intensified since this decade so far, converges toward the growing participation of monopoly capital in the financing of these associations. Keywords: Schools of Samba − City of Rio de Janeiro − Production of space.

Recebido em: 15/05/2015. Aprovado em: 19/06/2015.

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