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Yes, nós temos baianas: o processo de formação da imagem da baiana de escola de samba no carnaval brasileiro Yes, we have baianas: the process of building the baiana image of the samba school parade in Brazilian carnival Vânia Maria MOURÃO ARAÚJO, Mestre 1 Resumo: Neste artigo a questão central será compreender como se deu a construção e fixação da imagem da baiana carnavalizada como personagemsímbolo do carnaval carioca e brasileiro nas primeiras décadas do século 20. O estudo da baiana no espetáculo popular e dos procedimentos a ela relacionados merece destaque e suscita uma investigação no campo da arte e da cultura popular brasileiras. A proposição é demonstrar a dinâmica de significação dos elementos visuais que definiram a imagem da baiana, a partir da segunda metade do século 18, reconhecendo, por meio dos signos visuais constituídos em seu figurino, o jogo de influências que vão dialogar com a pluralidade e diversidade das convenções culturais, considerando o processo dos eventos modernos, um reflexo permanente nas construções dessa representação de amplo significado nacional. Palavras-chave: cultura popular; carnaval carioca; indumentária; baiana. Abstract: In this article the central question will be to understand how it came to building and fixing the image of Bahian Samba character as-symbol of carnival in Rio and Brazil in the first decades of the twentieth century. The study of the Bahian popular show and procedures related to it deserves a raise and research in art and popular culture in Brazil. The proposition is to demonstrate the significance of dynamic visual elements that defined the image of Bahiana, from the second half of the eighteenth century by recognizing the visual signs made on their costumes, the set of influences ranging dialogue with the plurality and diversity of cultural conventions, considering the process of modern events, a reflection in the construction of permanent representation of broad national significance. Keywords: popular culture; rio carnival; costumes; bahiana. 1

Mestre e doutoranda em Artes (UERJ / PPGARTES) • vaniamourao@ig.com.br

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Introdução Este artigo pretende enfatizar que a forma e a lógica da baiana de carnaval foram estabelecidas no espaço do popular, na cidade do Rio de Janeiro, entre o século 19 e as primeiras décadas do século 20. Refere-se às variadas formas de representação das baianas conhecidas nos dias atuais e compreendidas a partir de um tipo regional feminino brasileiro, determinadas por movimentos de inesgotável instauração de sentido, em que as circunstâncias, os eventos e os acasos foram se configurando e consolidando aos poucos, no dia a dia e por meio de diversas expressões artísticas, suas diferentes significações. O propósito é examinar, no espaço da cultura popular, a dinâmica movida por vários interesses e jogos de disputas que ocorre no interior do processo de organização do carnaval a partir do século 19 e o surgimento “oficial” das escolas de samba nos anos de 1930, que tem como uma das exigências para sua constituição uma das expressões mais importantes dessa festa, a ala de baianas, presente desde então sob o signo da tradicionalidade. Desse modo, na interface entre a festa carnavalesca e a cultura do samba, a baiana de escola de samba se faz sobressair por sua visualidade. O estudo da baiana no espetáculo popular e dos procedimentos a ela relacionados enquanto elemento central da pesquisa, suscita uma investigação no campo da arte e da cultura popular brasileiras. Será realizada uma investigação sociocultural na tentativa de reconhecer e compreender os processos globais, regionais e locais que configuraram o tipo da baiana através do tempo, suas diferentes formas de representação e significação, estabelecendo uma conexão entre as formas simbólicas dos diversos segmentos da cultura, o modo de pensar da época, as transformações ocorridas da cidade do Rio de Janeiro e a diversificação de formas de se brincar o carnaval no Brasil (Ferreira, 2005). O presente estudo reconhece-se em sintonia com as abordagens realizadas nas pesquisas de Clifford Geertz, Stuart Hall, John Storey e Felipe Ferreira. Os conceitos de Clifford Geertz (1997) vão contribuir para a investigação socioculturalística, ao lado de seu conceito de saber local. Geertz parte de exemplos etnográficos a fim de demonstrar que até a lógica do senso comum varia de lugar para lugar, dependendo de como as pessoas lidam com o mundo que as envolve, considerando que arte e cultura constituem um unico sistema cultural que presta serviço ao indivíduo e ao grupo a que pertence, comunicando e transmitindo seus sentimentos por meio de outros segmentos além da arte, como a religião, ciência, moralidade, comércio, tecnologia, política, lazer, indumentária, moda, e a forma de organizar sua vida e prática cotidiana. A partir desse conceito REVISTA ÁQUILA • ANO VII • SETEMBRO 2016 • ESPECIAL COMUNICAÇÃO, DESIGN E ARQUITETURA

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entendemos que pensar nas linhas, formas, cores, texturas e maneiras como são produzidas as indumentárias através dos tempos é fazer contato com uma sensibilidade específica, é explorar uma sensibilidade que tem relação direta com uma formação coletiva, cujas bases são muito amplas e profundas, apreendidas por meio desses sinais ou elementos simbólicos que fazem parte de um sistema estético. Quando falamos na estética da personagem do carnaval carioca, a baiana, conforme Geertz, fazemos uma conexão ideacional com a sociedade que formou esse conceito, com sua maneira de pensar e de viver, com o momento em que se cristalizou materialmente essa ideia, que está inscrita no sistema de vestuário e de moda local e global. Considera-se ainda, o trabalho de Stuart Hall (2006), que discute a questão da identidade cultural, produzida por relações culturais complexas. O autor assegura que não existe uma “cultura popular” íntegra, autêntica e autônoma, situada fora das relações de poder e de dominação culturais; é produto de uma tensão contínua (de relacionamento, influência e antagonismo) com a cultura dominante. Assim, o significado de um símbolo cultural é atribuído em parte pelo campo social ao qual está incorporado e pelo jogo das relações culturais em torno dele. A pesquisa em torno do figurino2 permite resgatar parte de nossa memória cultural, considerando-se a importância da indumentária3 como elemento simbólico do processo cultural. A indumentária da baiana traduz um sistema complexo de elementos visuais e códigos de identidade – carnavalização – que também inclui uma produção elaborada esteticamente, como no caso da ala das baianas. A abordagem do pesquisador Felipe Ferreira (2004, 2005) realizada pela ótica da geografia, ressalta o espaço como um aspecto de grande importância para a compreensão da formação dessa manifestação cultural, o carnaval – uma festa dinâmica e multifacetada, um lugar produzido por tensões características do fenômeno festivo, cuja particularidade própria é a luta pelo espaço/poder. Estudioso da cultura popular, Ferreira tem desenvolvido um visão sobre o significado do carnaval como fenômeno cultural e social, da mesma forma que uma festa civilizatória, de caráter processual, vinculado às sociedades nas quais ele se manifesta numa relação estreita com a formação do espaço urbano (FERREIRA, 2005). Figurino é um dos signos artificiais do espetáculo. Além de sua função plástica, funciona como um elemento comunicador na cena. 3 Indumentária é um termo próprio do sistema do vestuário que abrange diversos significados: roupa, traje, veste, vestimenta, vestuário e fantasia, entre outros. Para Chappaz-Wirthner (1995, p. 55), “a fantasia materializa a ruptura instaurada pelo carnaval, acentuando sua dimensão simbólica e marcando a presença do imaginário dentro do real”. 2

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Com relação aos textos sobre indumentária, utilizamos aqueles que nos permitiram compreender o diálogo nas áreas da arte e da cultura popular. No universo da indumentária, podem-se vincular as linguagens da forma com a narrativa dessas roupas, respaldadas pelo aporte teórico da semiologia e outros campos do saber, estudados a partir dos enfoques de Laver (1989), Lurie (1997), Martini (2007), Matos (2007), Moura (2010), Theodoro (2009) e Torres (2008). O campo da semiologia foi norteado pelo pensamento de Barthes (1999, 2006 Os teóricos Lipovetsky (1989), Souza (1987) e Wilson (2001) foram imprescindíveis para conceituar indumentária, uma vez que discutem o papel da roupa em seu aspecto de linguagem simbólica. A análise de Lipovetsky (1989) orientou nossa reflexão sobre a cultura da indumentária na contemporaneidade, enquanto Souza (1987) permitiu um olhar sobre as construções estéticas e sociais da roupa no Brasil do século 19. Wilson (2001) foi um importante referencial tanto nos dados históricos como nas importantes reflexões teóricas sobre a indumentária. Sobre a indumentária da baiana como um dos objetos que vai ressignificar o contexto da imagem carnavalesca, física e simbolicamente, num processo dinâmico, que se transforma, se reinventa, na medida em que influencia e é influenciado em diferentes níveis que associam elementos globais e locais, nos apoiaremos nos estudos de Ferreira (1999, 2003, 2004, 2005). Observese também o trabalho de Martini, (2007) que traz uma análise comparativa da indumentária da baiana no Brasil e da moda européia nos séculos 18 e 19, demonstrando que algumas peças da indumentária típica da baiana foram assimiladas da moda européia, por intermédio da corte no Brasil, como estratégia de construção de um lugar na sociedade vigente, nítido signo de demarcação. Matos (2007) investiga a “mãe baiana” das escolas de samba do Rio de Janeiro como um corpo que expressa os valores essenciais que estruturam a cultura do samba e, consequentemente, a cultura brasileira, fundamentada na relação com o sagrado, na qual a mulher possui um papel fundamental. Conforme Theodoro (2009), a baiana é a mãe, o corpo-linguagem através do qual poderemos transitar nesse espaço de encontros, onde as identidades são constituídas a partir da abertura a códigos plurais. A autora discorre sobre o simbolismo e a importância das baianas de escola de samba na vida das comunidades, contando um pouco dessa história e destacando a trajetária de Tia Ciata, como referência para as escolas de hoje. Torres (2008), por sua vez mostra, a partir de uma análise descritiva e detalhada do traje da baiana de tabuleiro no Brasil colonial, a importância, em âmbitos geográficos ou sociais, dessa nova expressão feminina que assimila traços de diferentes culturas locais e globais. Do mesmo modo, Câmara Cascudo e seu Dicionário de Folclore (1984) com suas descrições e análises sobre a roupa da baiana, e outros teóricos como Ligièro (2006), nos permitirão uma abordagem crítica dos conteúdos da miscigenação afro-brasileira REVISTA ÁQUILA • ANO VII • SETEMBRO 2016 • ESPECIAL COMUNICAÇÃO, DESIGN E ARQUITETURA

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dessa indumentária, a íntima ligação entre a roupagem e o gestual africano e seus desdobramentos. Desse modo, o artigo pretende demonstrar que a personagem da baiana, compreendida de forma naturalizada como um tipo regional feminino brasileiro consiste numa ideia concebida e produzida a partir do século 19, cujo processo de construção vai adquirindo diferentes formas de representação e significação ao longo de um percurso onde a indumentária será fundamental na definição e percepção visual desta personagem. Neste contexto, a baiana vai se destacar como personagem carnavalesca, tornando-se elemento da tradição, determinante para a propria formação das escolas. Vamos considerar que as baianas de escola de samba nascem tradicionais, destinadas a atender as necessidades das elites, a fim de manter a característica popular e a autenticidade das escolas de samba, legitimando assim a ideia de um carnaval puro, com autênticas raízes da cultura popular brasileira. Ressalte-se que os tipos escolhidos para classificar as baianas nesse texto não são estanques, a utilização da tipificação neste trabalho é apenas um recurso para se compreender os diferentes aspectos significativos e formas dos trajes das baianas. Buscou-se, desse modo, destacar aqueles trajes mais representativos de cada um dos tipos, deixando-se de lado as expressões mais sutis que podem, e devem ser objetos de estudos mais detalhados.

1. A baiana popular A personagem “baiana”, compreendida, naturalmente, como um tipo feminino brasileiro, foi uma ideia produzida a partir do século XIX, na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil Imperial. A lógica e a construção visual dos muitos tipos de baianas que conhecemos atualmente deram-se no espaço da cultura popular brasileira, como produto de negociação constante de significado, numa dinâmica de inesgotável instauração de sentido, onde as circunstâncias, os eventos e os acasos foram se configurando e consolidando aos poucos, sendo a indumentária, fundamental na definição e percepção visual do personagem. O traje característico da baiana que conhecemos hoje, composto de elementos visuais marcantes, como a saia franzida, o turbante, o pano da costa, as batas rendadas e os balangandãs etc refere-se à vestimenta da “baiana vendedora de acarajé”. Este formato “tradicional” assimila influências muçulmanas, africanas (iorubá) e europeias, associadas, desde a primeira metade do século XIX, às REVISTA ÁQUILA • ANO VII • SETEMBRO 2016 • ESPECIAL COMUNICAÇÃO, DESIGN E ARQUITETURA

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práticas cotidianas das mulheres negras, em especial às escravas que andavam pelas ruas vendendo os mais variados produtos. Com o passar do tempo, alguns elementos desse traje foram adquirindo novos significados, estabelecendo novas categorias de “baianas”, tornando-se, no final do século XIX, um símbolo com conotação regional, social, e cultural. Através das obras de artistas viajantes que documentaram os tipos e tradições do Rio de Janeiro do século XIX (como Carlos Julião, Debret, Rugendas, Guillobel ou Charbelian), podemos observar que a negra vendedora de tabuleiro é uma figura recorrente embora ainda não fosse designada como “baiana”. (Figuras 1 e 2). Destaca-se a artista Creusa Augusta de Oliveira, pioneira na arte da ilustração na primeira metade do século XX. Seu talento e dedicação fizeram dela a profissional mais bem paga do mercado publicitário. A Figura 3 exibe, em primeiro plano, duas baianas ao lado de um carrinho de vendas, provavelmente de limonada, costume bastante comum e muito comentado nos jornais da época, representando uma cena de carnaval de rua, possivelmente um cordão ou bloco de baianas.

Figura 1. Negras vendedoras. Carlos Julião, último quarto do século 18. (Julião, 1960, Prancha XXXIII)

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Figura 2. Vendedoras de pão de ló. Debret, prancha s/n, século 19.

Figura 3. Cena de carnaval de rua. Creusa. (Gazeta de Notícias , 02 de março de 1935, p. 1)

As primeiras décadas do século XX marcam também o início do processo de formação e organização do carnaval do Rio de Janeiro como festa popular, um espaço para a expressão da cultura regional do país. É nesse contexto que a baiana vai se incorporar ao carnaval, participando das diferentes manifestações carnavalescas das ruas, como o rancho, os cordões e os blocos.

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2. A baiana carnavalizada No final dos anos 20, o negro, a mulata, o samba e a baiana, entre outros elementos, tornar-se-ão importantes ícones da nação brasileira, presentes em diversas manifestações carnavalescas, nas letras das marchinhas e sambas, e em textos e ilustrações divulgados pelos principais jornais e revistas do país. Em 1933, inaugura-se, na Pró-Arte, no Rio de Janeiro, a exposição Batuque, Samba e Macumba, de Cecília Meireles. Obtendo grande repercussão na época, tinha como tema o folclore negro no Brasil, sendo composta de desenhos e textos criados pela artista. Segundo a própria Cecília Meireles seu trabalho teria “fixado o ritmo do batuque, do samba e da macumba – e a indumentária característica da ‘baiana’ do nosso carnaval” (MEIRELES, 2003:11). A exposição demonstrava claramente o interesse da poetisa pelas artes populares e pela contribuição do negro na formação da cultura brasileira, uma vez que se dedicara ao estudo de gestos e de ritmos ligados, em boa parte, ao carnaval, com destaque para a figura da baiana. Segundo Meireles (2003:24), a indumentária da baiana não poderia ser constituída mais naquela época apenas como traje regional, mesmo tendo sido criado num dos “maiores e mais progressivos estados do Brasil”. As obras são acompanhadas por textos que definem algumas destas categorias de baiana. A “baiana popular” (Figura 4) foi assim descrita o Cecilia Meireles: Numa rua do Rio de Janeiro, ainda hoje, não é difícil topar- se, em qualquer dia e qualquer hora, com uma legítima baiana, de hábitos conservadores, e, geralmente, doceira especialmente em cocadas, doces de abóbora e batata, pés-de-moleque, cuscuz e quindim, amendoim torrado e bolo de milho e aipim, bolinhos de tapioca (Meireles, 2003:26).

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Figura 4. Baiana, 1933. “Legítima baiana” (Meireles, 2003:27)

O olhar da autora ajudou a fixar uma forma para a baiana em sua relação com o carnaval. A baiana carnavalizada (Figura 4) foi descrita assim descrita pela autora: A baiana de carnaval vem a ser uma estilização da baiana autêntica. [...] uma “cabrochinha” sestrosa que vai tomar parte, com esse traje, no cortejo do bloco [...] ou em outros grupos e ranchos de denominações igualmente curiosas [...] (Meireles, 2003:38).

Figura 5. Baiana de carnaval, s/d (Meireles, 2003:38). REVISTA ÁQUILA • ANO VII • SETEMBRO 2016 • ESPECIAL COMUNICAÇÃO, DESIGN E ARQUITETURA

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Desse modo, como ressalta Ferreira (2004), Cecília Meireles (2003) contribuiria ao mesmo tempo para a definição e fixação da imagem da baiana que, pouco tempo depois, teria grande expressão na visualidade das baianas de escolas de samba. Será também a partir da primeira publicação da obra de Eneida Moraes (1987), História do Carnaval Carioca, em 1957, que se organizariam de maneira sistemática, se definiriam e se classificariam as diferentes brincadeiras populares do carnaval carioca, “oficializando definitivamente os diferentes formatos das brincadeiras carnavalescas em âmbito nacional”. Moraes, ao definir a constituição dos cordões e das escolas de samba em meados do século 20, ajudaria a fixar a baiana como uma das personagens do carnaval carioca, contribuindo também para marcar o lugar dessa personagem na grande festa popular e nacional, o desfile das escolas de samba, que viria a ser em pouco tempo uma das maiores manifestações populares da festa. Na composição tanto dos cordões quanto das escolas de samba o autor ressalta a presença das baianas. No começo dos anos 30, o carnaval já é compreendido como a grande festa da integração nacional. Valoriza-se no espaço do carnaval carioca seu papel de depositário da diversidade cultural, de verdadeira expressão da cultura popular brasileira, potencialmente lucrativo como negócio e destacando-se internacionalmente. Surgem alguns personagens carnavalescos que se tornarão símbolos da festa brasileira, entre eles a baiana e o malandro. A música de Dorival Caymmi, O que é que a baiana tem, fixou e instituiu a condição de ser da baiana, para além da visualidade dos elementos presentes em seu traje e inscrita em seus versos (o torso de seda, o brinco, a pulseira, a corrente de ouro, o pano da costa, a bata rendada, a saia engomada e a sandália enfeitada). O olhar do compositor encontrou a “forma” dessa personagem numa configuração muito particular de mulher, elegante e bela, em estado carregado de graça como ninguém. Provavelmente essa estética cantada por Dorival seja a do cotidiano, da tradicional vendedora de tabuleiro, de essência popular. O que não podemos esquecer é que é pelo vestuário que ela se tem eternizado, por meio dos signos estéticos, culturais e sociais constituídos em seu figurino, em que se apresenta um complexo jogo de simbolismos capazes de expressar a pluralidade e a diversidade das convenções culturais. A baiana vai tornar-se uma personagem carnavalesca e conquistará não apenas o Brasil, mas vai alcançar repercussão internacional na figura da cantora Carmem Miranda cantando a música O que é que a baiana tem? e usando um figurino de baiana estilizada que se tornaria marca da intérprete nos anos de 1930/1940. A partir de então, a figura da baiana popular e tradicional (Figura 6) ficaria atrelada à imagem do país tropical e sensual com seu carnaval “inigualável” conforme REVISTA ÁQUILA • ANO VII • SETEMBRO 2016 • ESPECIAL COMUNICAÇÃO, DESIGN E ARQUITETURA

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publicado no jornal Gazeta de Notícias ao descrever a sua ilustração como aquela que traz como adereço de mão não mais o tabuleiro, mas um pandeiro, personificando um ritmo considerado essencialmente brasileiro: o samba.

Figura 6. Ilustração de um tipo de baiana popular e tradicional. (Gazeta de Notícias, 03 de março de 1946, p. 11).

Outra representação da baiana, ligada às religiões de influência africana, como o candomblé, incorporaria novos significados à personagem, associando-a as “mães negras”, berço de tradições culturais ancestrais. A Revista Manchete destaca que “As filhas de Oxalá dão ao festejo a sua nota mais rica e pitoresca. São as rainhas do espetáculo”. No grande cortejo que toma o rumo da Igreja do Bonfim para as tradicionais festas da lavagem da igreja, em Salvador, na Bahia, as aguadeiras e lavadeiras, vestidas de baianas, seguem em frente.

Figura 7 - Aguadeiras e lavadeiras vestidas de baianas (Revista Manchete, 1953, p. 46) REVISTA ÁQUILA • ANO VII • SETEMBRO 2016 • ESPECIAL COMUNICAÇÃO, DESIGN E ARQUITETURA

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É esta baiana, ao mesmo tempo negra, sensual, tradicional e matriarcal que iria simbolizar a nação brasileira, vinculada ao samba e ao carnaval popular e legitimando a formação das escolas de samba. 3. A baiana de escola de samba No momento do nascimento “oficial” das escolas de samba nos anos 1930, surge uma das expressões mais importantes desta tradição, a ala das baianas que, em sua indumentária, apresenta elementos que expressam, em seus múltiplos significados, a história de um carnaval produzido por uma série de tensões manifestadas no espaço urbano carioca. Na interface entre a festa carnavalesca e a cultura do samba, a “baiana de escola de samba” transita entre o lúdico e o sagrado, num espaço de constante tensão entre tradição e modernidade, fértil em criatividade, experimentação e narrativas visuais. Como vimos, no começo dos anos 30, a baiana popular teria se transformado em personagem carnavalesco representativo da essência nacional e um dos símbolos da nação brasileira. Destinadas a atender as necessidades das elites, a ala das baianas de escola de samba já nasce tradicional, mantendo a mística popular e a “autenticidade” das escolas de samba e legitimando, assim, a ideia de um carnaval “puro”, com “autênticas” raízes da cultura popular brasileira. Nos anos 1950, as escolas de samba vão deixar de ser vistas exclusivamente como um espaço folclórico, expressão de uma “alma” popular caracterizada por sua autenticidade, para se tornar um lugar de ação política, um território cultural a ser preservado da ação das indústrias culturais. A ala de baianas, que fora determinante para a própria formação das escolas, torna-se então um elemento essencial no sistema de representação dos enredos, um importante espaço de narrativa visual, adquirindo a função de transmitir significados e ganhando outros elementos que darão mais peso à história cantada e contada pelo chamado sambaenredo: as golas, o esplendor e a própria dimensão da fantasia que se tornarão mais grandiosa. Em meados dos anos 1980, a fantasia das baianas parece ficar livre do peso da tradição, e elas perdem, definitivamente, seu lugar de “guarda de honra” da escola (Ferreira, 2003), função importante quando do surgimento desses grupos, pela referência ao valor tradicional das “tias baianas” (Velloso, 1990) e aos grupos de mulheres que desfilavam com suas roupas de baiana nos ranchos e cordões, no início do século XX. REVISTA ÁQUILA • ANO VII • SETEMBRO 2016 • ESPECIAL COMUNICAÇÃO, DESIGN E ARQUITETURA

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3.1 A baiana “folclórica” Observamos anteriormente que, nas décadas de 1930/1940 a popularidade da baiana guarda em si tanta potência e autoridade que conquistará notoriedade não apenas no Brasil, mas será “notável” igualmente no exterior, da mesma forma que outros tipos urbanos do Rio de Janeiro, como a mulata e o malandro, passam a fazer parte do imaginário e da ideia de um carnaval brasileiro. Desse modo, a visualidade da baiana de escola de samba ligada ao grupo que denominamos de “baiana folclórica” é uma representação da baiana popular e tradicional. Sua indumentária significará nos anos de 30, 40 e 50 mais que o próprio enredo das escolas apresentando, simbolicamente, diferentes camadas de significado que organizaram, formaram e instituíram a ideia de baiana nos primeiros anos das escolas de samba. A visualidade da baiana de escola de samba folclórica, no espaço de tempo em que se dá o processo de oficialização das escolas, é tributária às baianas de carnaval, que então desfilavam nos cordões, ranchos e blocos nas primeiras décadas do século XX, conforme sugerem os estudos de Meirelles (2003), Moraes (1953) e Moura (1995), além de alguns desenhos, apresentados, no capítulo anterior. Desse modo, a continuidade do desenvolvimento da ideia de baiana na primeira metade do século XX, foi condição para a formação e a permanência dessa aura de tradição que envolve sua personagem, aspecto que será fundamental na organização, desenvolvimento e perpetuação das escolas de samba desde sua formação. Notamos que a partir do carnaval de 1953, começavam a chamar atenção luxuosas fantasias usadas por pastoras e baianas, quando sua indumentária começa a simbolizar e expressar o diálogo e interação de expressões culturais de diferentes origens, entre elas, a brasileira, representada pela tradicional “baiana de carnaval”, de origem popular, e a francesa, representada pela moda das saias rodadas e armadas por crinolina4 . A partir da segunda metade da década de 50, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro irá, de modo gradual, impor seu lugar “como símbolo da folia brasileira, projetando o carnaval brasileiro como a maior festa popular do mundo” (FERREIRA, 2004, p. 352) e as baianas de escola de samba não ficarão de fora, desse processo.

4 Crinolina: anágua feita de arcos flexíveis de aço. Segunda metade do séc. XIX (LAVER, 1989, p. 178). REVISTA ÁQUILA • ANO VII • SETEMBRO 2016 • ESPECIAL COMUNICAÇÃO, DESIGN E ARQUITETURA

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3.2 A baiana espetacular

Figura 8. Ala das baianas da Mangueira (Revista Manchete, 21 de fevereiro de 1959, p, 20)

No final dos anos 50, as escolas de samba vão deixar de ser vistas exclusivamente como um espetáculo folclórico, como a expressão de um povo caracterizada por sua autenticidade e se tornam um espaço de ação política, um território cultural a ser preservado da ação das indústrias culturais. Os desfiles, a partir de então, vão ganhar forma, adquirir identidade e estilos próprios por meio do enredo, sambaenredo, alegorias, fantasias, e grupos, chamados “alas” entre os quais se destacaria a “ala de baianas”, elemento obrigatório nos desfiles. Essas “baianas”, com seus trajes e símbolos próprios (Figura 8), vão evoluir junto com suas escolas de samba, pelas ruas, palcos, tablados, avenidas e passarelas da cidade do Rio de Janeiro, espalhando suas tradições e costumes, ainda que tenham passado por uma série de transformações em seu aspecto visual. Para Cabral (2004) mudanças de fato se instaurariam nas fantasias e nas alegorias das escolas de samba, a partir do ano de 1959, resultado de diferentes ações, Eentre elas a inclusão de uma equipe de criadores profissionais ligados às artes plásticas pela Acadêmicos do Salgueiro, As escolas de samba tornam-se espetáculos que precisam ser compreendidos a partir da organização e visualidade de suas alas. A visualidade ganha predomínio e a fantasia da ala de baianas passa a ter a função de “figurino” ajudando o espectador a compreender a história narrada durante o desfile. A saia, agora mais rodada e armada por uma crinolina, passa a ser uma característica marcante da indumentária das baianas que ganha novos elementos como as golas e o esplendor. (Figura 9)

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Figura 9. Carnaval de 1965 ( Revista Manchete, 20 de março de 1965, p.59)

Sob o comando de Fernando Pamplona, se juntariam à equipe de criação da escola o figurinista Arlindo Rodrigues, Nilton Sá, Dirceu e Marie Louise Nery, formando o “quinteto infernal”, assim denominado por Haroldo Costa, que “iria desencadear uma verdadeira revolução na temática e no tratamento plástico das escolas de samba” (FERREIRA, 1999, p. 81), provocando grande mudança na visualidade e na estética dos desfiles das escolas de samba nos anos 60. O fato é que se consolidava, na nova organização e hierarquia das escolas de samba, a autoridade do carnavalesco, profissional que pesquisava e definia o enredo, concebia as alegorias, e figurinos, desenhava as fantasias e todos os elementos que a constituem, indicava materiais e cores que e acompanhava o processo de desenvolvimento e montagem desses projetos. Desse modo, as escolas de samba deixam de ser um espaço folclórico, para ser um espaço político, de ação, compreendido como um espetáculo que precisa ser entendido a partir da organização e visualidade de suas alas. A ala de baianas torna-se, por volta de 1960, um elemento essencial no sistema de representação dos enredos, um importante espaço de narrativa visual, no momento em que, para ganhar mais poder, mais força na narrativa, elas passam a significar outras coisas. Sua indumentária se tornará mais grandiosa e ganhará outros elementos que darão mais peso à história cantada pelo enredo, como golas, o esplendor, O conjunto das baianas, que desfilava de maneira espontânea e dispersa, com fantasias diferenciadas uma das outras, com a instituição das alas, a desfilar de forma mais coesa, com fantasias mais parecidas, apresentando maior unidade visual, característica mais própria da nova estrutura organizacional da escola, processo esse que pode ser verificado ao longo das décadas de 70/80. REVISTA ÁQUILA • ANO VII • SETEMBRO 2016 • ESPECIAL COMUNICAÇÃO, DESIGN E ARQUITETURA

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Desse modo, veremos a seguir que, a partir da segunda metade dos anos 80, na interface entre a festa carnavalesca e a cultura do samba, a baiana de escola de samba continua a transitar entre o lúdico e o sagrado, num espaço de constante tensão entre tradição e modernidade, fértil em criatividade, experimentação e narrativa, de vigorosa expressão visual.

3.3 A baiana empresarial (1985 até os dias de hoje) Os anos 1980 vão inaugurar um período caracterizado pelo aumento do poder político das escolas de samba, agora organizadas sob a coordenação da uma entidade empresarial, a Liga das Escolas de Samba (LIESA). As primeiras mudanças se darão principalmente na organização da produção dos desfiles que ficam mais elaborados, destacando os aspectos visuais e narrativos. Desse modo, mais uma nova camada de significados vai se sobrepor, aos discursos da tradição, da negritude e político: o discurso do êxito econômico, da espetacularidade. Assim, chamaremos de fase da “baiana empresarial” a ocasião em que as escolas de samba incorporam uma “nova postura empresarial” ao desfile carnavalesco, buscando ainda “associar os elementos tradicionais às necessidades resultantes dessas modificações” (FERREIRA, 2004, p. 365). Esse período é definido pelo crescimento e expansão das agremiações, tornando manifesta tais mudanças não apenas em sua “organização formal” ou “carnavalesca”, mas também nas apresentações que ficarão “cada vez mais elaboradas, com sambas-enredos embalados” (Idem, ibidem), sendo mais bem compreendidos pela plateia e pondose a serviço cada vez mais, dos aspectos visuais e narrativos do desfile. Nessa fase tudo vai se ampliar os negócios, os investimentos, a passarela de desfile, as alegorias, as fantasias em geral e, em especial, a das baianas, que incorpora novos significados expressos nas enormes saias e na própria coreografia da ala que se apresenta em filas e colunas definidas. A fantasia da baiana contemporânea será produzida dentro de uma estrutura de pensamento e de produção jamais vista antes em toda a sua trajetória. A tendência que vemos hoje na indumentária da baiana de escola de samba se caracteriza por elementos mais híbridos, influenciada por diferentes estilos. O traje da baiana, nos dias atuais, manifesta a desordem dos grandes centros urbanos, a desorganização dos espaços, a desordem informativa, expressa numa verdadeira entropia estética.

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Nesse sentido a fantasia de baiana de escola de samba foi-se apropriando de novos elementos visuais como chapéus de diversas formas, diferentes tipos de “cabeça”, vestidos, golas, palas, esplendores, cinturões, entre outros, além de, uma ampla possibilidade de materiais e tecnologias, que hoje são definidos pelo carnavalesco, determinados por sua formação profissional e vivência prática, pelas condições da escola e pelas condições do mercado. A aceleração imposta pelo tempo de apresentação determinou que, as fantasias devem ser rapidamente decodificadas pela plateia, identificando de maneira breve os elementos presentes na roupa, como por exemplo, na ala das baianas que representavam azulejos portugueses, remetendo à estética barroca na forma, aparentemente mais rígida, na textura metalizada, na cor “ouro velho, na pala e na gola que, ambiguamente, faz referência aos rufos e à arquitetura barroca”. (Figura 10)

Figura 10. Ala das Baianas do Enredo João e Marias, de Rosa Magalhães. (Acervo pessoal Felipe Ferreira)

A fase da “baiana empresarial” é, portanto, um período de liberdade estética, onde nem mesmo as preocupações com investimentos elevados ou o enredo são limites para a imaginação desses fabulosos narradores e inventores: os carnavalescos.

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Conclusão Procuramos mostrar que o espaço da cultura popular foi um terreno favorável e fecundo para a produção de diversos objetos-símbolos nacionais, entre eles o da baiana de carnaval e de escola de samba, uma derivação das antigas vendedoras do passado colonial, das escravas de ganho, das baianas crioulas e das tias baianas no início do século 20 no Rio de Janeiro. Entretanto, apesar das modificações sofridas durante todos esses anos, a ala de baianas, mantém sua principal característica, a de ser espaço de representação das origens das escolas de samba, as “grandes mães”, que giram de braços abertos, exibindo suas fantasias contemporâneas e traduzindo as contradições e tradicionalidades que mantêm as escolas de samba do Rio de Janeiro.

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