II Seminário de História Social: Relações de Poder e Identidades
II Seminário de História Social: Relações de Poder e Identidades
Anais
São Gonçalo Faculdade de Formação de Professores da UERJ 2012
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II Seminário de História Social: Relações de Poder e Identidades
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ Reitor: Prof. Dr. Ricardo Vieiralves de Castro Faculdade de Formação de Professores - FFP Diretor: Prof. Dr. Manoel Martins de Santana Filho Vice-Diretor: Prof. Dr. Rogério Carlos Novais Departamento de Ciências Humanas - DCH Chefe: Profª. Drª. Helenice Aparecida Bastos Rocha Sub-Chefe: Prof. Dr. Sydenham Lourenço Neto Coordenadora de Graduação: Profª. DrªMaria Aparecida Cabral Programa de Pós-Graduação em História Social (Mestrado em História Social) - PPGHS Coordenadora: Profª. Drª. Daniela Buono Calainho Coordenadora Adjunta: Profª. Drª. Maria Letícia Corrêa
Comissão Organizadora Daniela Buono Calainho Maria Letícia Corrêa Camila de Freitas Silva Gelson Gomes Carneiro de Souza Leonardo Gonçalves Gomes Luiz Gustavo Mendel Souza Rozely Menezes Vigas Oliveira Thiago Rodrigues Nascimento
Organização dos anais Daniela Buono Calainho Maria Letícia Corrêa Camila de Freitas Silva Gelson Gomes Carneiro de Souza Leonardo Gonçalves Gomes Luiz Gustavo Mendel Souza Rozely Menezes Vigas Oliveira Thiago Rodrigues Nascimento
ISBN 978-85-88707-74-0
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APRESENTAÇÃO
A iniciativa de organização do II Seminário de História Social: Relações de Poder e Identidades tem por finalidade promover o debate sobre investigações históricas e historiográficas, conjuntamente à reflexão sobre questões teóricas, práticas e metodológicas relacionadas às pesquisas dos pós-graduandos e mestres formados pelo Curso de Mestrado em História Social da Faculdade de Formação de Professores da UERJ. Em sua segunda edição, o evento consolida-se como importante espaço de ampliação de debates, divulgação científica e qualificação acadêmica e profissional, ao promover o intercâmbio de experiências e o aprimoramento da produção científica dos alunos.
Comissão Organizadora São Gonçalo, Outubro de 2012
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Das Cores da Música: Identidades, Cultura Popular e Samba Carioca no início do século XX (1917 – 1933) Gabriel Valladares Giesta* Resumo: Este artigo tem o objetivo de pensar os processos e conflitos identitários em torno do Samba carioca entre o período de 1917 – 1933, fazendo algumas leituras básicas de forma relacional: trabalhos sobre relações raciais no Brasil; sobre Cultura Popular, Identidade e Diáspora; textos que trabalham a história do Rio de Janeiro e Brasil no início do século; e por fim, mas não menos importante, leituras sobre o Samba e fontes que tratem desta manifestação. Neste caso, não se pretende elaborar uma história da música popular e do samba por si próprio, nem muito menos uma pesquisa apenas sobre relações raciais, mas sim compreender o samba enquanto cultura popular, analisando-o dentro dos processos de relação de poder em que esteve inserido durante seu momento de ascensão na sociedade carioca. Desta forma, pode-se dar luz a diversos conflitos étnico-raciais, culturais, sociais e políticos presentes no período estudado, consequentemente, na história do Brasil. Palavras-chave: Identidades; Samba; Cultura Popular. Abstract: This article aims to analyze identity processes and conflicts related to the samba of Rio de Janeiro between 1917 and 1933, through review of studies on race relations in Brazil; studies on Popular Culture, Identity and Diaspora; studies on History of Rio de Janeiro and studies on History of Brazil at the beginning of the XX century; and, last but not least, through the analysis of sources related to this cultural manifestation. In this sense, it is not our purpose to produce a history of popular music and of the samba, much less a search on race relations, but rather to understand the samba as popular culture, analyzing it within the power relations to which it was related during its rise in Rio de Janeiro society. Thus, we intend to clarify the ethnic, racial, cultural, social and political conflicts in that period, therefore, on History of Brazil. Key words: Identities; Samba; Popular Culture.
Este trabalho tem como objetivo dar um breve panorama da pesquisa desenvolvida durante o mestrado em Historia Social da FFP. Neste caso, buscarei apresentar alguns elementos da dissertação, como as fontes usadas e principais hipóteses, objetivos e princípios teórico-metodológicos defendidos. Como se trata de um pequeno texto, a análise de fontes ficará restrita a alguns exemplos. De forma bem objetiva, podemos dizer que o principal objetivo da dissertação será trabalhar um tema (relações raciais, cidadania e cultura popular na cidade do Rio de Janeiro de 1917 a 1933) através de um objeto de pesquisa (música popular e samba). Pretende-se então analisar os diferentes conflitos identitários que surgem em torno do samba e da música popular, no seu momento de definição enquanto gênero, popularização e progressiva assimilação como símbolo da identidade nacional. Nestes termos,
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Mestrando do Programa de Pós-graduação em História Social da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGHS/UERJ). Bolsista da CAPES. e-mail: gabrielgiesta@msn.com. 40
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o referencial de cultura popular que buscamos durante a pesquisa se baseia na definição de Stuart Hall: o princípio estruturador do ‘popular’ [...] são as tensões e oposições entre aquilo que pertence ao domínio central da elite ou da cultura dominante, e à cultura da ‘periferia’. É essa oposição que constantemente estrutura o domínio da cultura na categoria do ‘popular’ e do ‘não-popular’. Mas essas oposições não podem ser construídas de forma puramente descritiva, pois, de tempos em tempos, os conteúdos de cada categoria mudam. [...]. O princípio estruturador [...] consiste das forças e relações que sustentam a distinção e a diferença [...] (HALL, 2003, pág. 240).
Sendo assim, não pretendemos analisar o conteúdo cultural do samba, as características da cultura popular, mas sim vê-los dentro de relações de poder, a partir de sua atuação, e como estas realçam conflitos étnico-raciais e sociais presentes na sociedade carioca do início do século XX. Neste caso, é preciso alternar escalas de análise entre micro e macro, ou seja, proceder a analise de forma a fazer dialogar o contexto histórico-social destacado pela historiografia com a pesquisa das trajetórias dos populares, o que não significa buscar determinações entre uma escala e outra, mas sim relacioná-las de forma a preencher lacunas que apenas uma instância não possa fazê-lo ou, até mesmo, encontrar contradições e novas possibilidades históricas. Ao analisarmos os diferentes discursos que constroem uma memória histórica relativa ao samba podemos perceber como esta manifestação cultural está intimamente ligada a debates envolvendo culturas históricas e políticas no Brasil, principalmente no que concerne à questão racial. Isto se deve ao fato de o samba se configurar enquanto gênero no processo de modernização nacional quando, durante a Primeira República, buscavam-se referenciais para uma identidade tipicamente brasileira. Neste caso, desde o início do século com alguns folcloristas, passando pelo movimento modernista (tendo Mario de Andrade como principal expoente) até os folcloristas urbanos, a música e cultura popular estarão no foco de debates sobre representações ideais do Brasil, nas quais a composição racial brasileira tem importante papel. Tal processo se configurava antes mesmo da publicação de Casa Grande e Senzala e do projeto de estado varguista, quando uma ideologia de valorização da mestiçagem será oficializada (ABREU e DANTAS, 2008). A partir de então, o samba carioca entrará na memória nacional de muitos brasileiros como símbolo máximo da identidade do país e de seu povo, que seriam, por excelência, racialmente misturados, democráticos e cordiais. Tais características seriam culturalmente representadas no Samba Carioca. Evidentemente, este quadro identitário é fruto de um processo histórico e da construção social de uma memória. 41
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Sobre a construção desta memória sobre o samba, a historiografia também tem seu papel, estando presentes nela questões étnico-raciais. Ao analisar a historiografia do samba, SANDRONI (2008) irá afirmar que dois paradigmas coexistem nas pesquisas e livros sobre o assunto: As crenças dos negros, ou de modo geral as práticas sociais e culturais que lhes eram próprias, teriam sido vítimas, num Brasil por três séculos escravocrata, de interdições e recalcamentos: tese repressiva. Essas práticas, no entanto, sobreviveram em certa medida, pois teriam sido encobertas e limitadas a determinados lugares onde os senhores não podiam descobri-las: concepção tópica” (SANDRONI, 2008, pág. 110).
Estas concepções, presentes em autores como Arthur Ramos, Sérgio Cabral, José Ramos Tinhorão, Muniz Sodré e até mesmo na fala dos próprios sambistas, seriam “exageradas”, segundo Sandroni (2008), pois não conseguem enxergar as nuances nas relações entre classes dominantes e cultura popular. Tendo isto em mente, alguns pesquisadores contemporâneos buscam fugir destas concepções repressivas e tópicas ao fazerem suas análises. Um marco entre estes pesquisadores é o trabalho do antropólogo Hermano Vianna (2007), que expõe as relações do samba com autoridades e setores da elite do Rio de Janeiro. Vianna (2007) não deixa de citar conflitos em torno da música e de, em alguns momentos, reconhecer um lugar cultural específico para o Samba. Porém, o foco de sua pesquisa é a crítica à ideia de autenticidade, defendendo, assim, o caráter artificial e inventado do samba. Desta forma, Vianna rejeita as teses que vêem o samba como manifestação cultural negra, a qual teria sido expropriada pelos brancos e setores de classe média. O samba seria fruto da fluidez/circularidade do processo social do Rio de Janeiro, que proporcionava encontros entre diversos setores da sociedade. Porém, mesmo com o objetivo de não fazê-lo, Vianna (2007) não consegue fugir, em alguns momentos, de certa alternância entre repressão/valorização do samba. Portanto, entre circularidade e autenticidade, hibridismo e cultura negra, temos evidente um dilema em relação à identidade do samba sobre o qual é preciso definir um posicionamento. Neste caso, um melhor conhecimento sobre o conceito de diáspora africana defendido por Paul Gilroy e Stuart Hall pode indicar um caminho a se seguir, pois, como veremos, propõem-se a analisar a cultura popular colocando-a nos processos de conflito e relações de poder nos quais ela se insere. Tanto Hall (2006) quanto Gilroy (2000) defendem uma análise da diáspora contra qualquer tipo de essencialismo que defina as manifestações da diáspora africana de forma engessada. Neste sentido, a experiência da diáspora não se faz nem em uma África idealizada 42
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(uma cultura autenticamente africana e/ou negra) nem no completo hibridismo/crioulização cultural. Para os dois autores, a diáspora se faz neste jogo entre transferências de aspectos culturais africanos para o ‘novo mundo’ e novas formas, adaptações, assimilações dentro do contexto que se inserem. Assim sendo, o que define a diáspora não são os elementos culturais por si só, mas sim uma experiência de conflito comum, que delimita uma diferença dentro da cultura hegemônica. Para explicar tais ideias, Gilroy (2000) afirma que o foco da análise sobre a diáspora deve ser o Atlântico enquanto uma unidade única e complexa numa perspectiva transnacional e intercultural. Toda a “Criatividade Transnacional do Atlântico Negro” seria marcada pela presença importante do Navio Negreiro. Este seria um elemento móvel que representaria os espaços de mudança, além de ser uma unidade cultural e política e, também, um modo de produção cultural distinto na middle passage. Portanto, Paul Gilroy (2000) propõe uma análise do Atlântico negro como metáfora para a experiência da Diáspora Africana, marcada pela diferença e hibridismo, sem perder sua importância na formação de identidades negras comuns, tendo em vista as experiências também comuns de exploração, escravidão, discriminação e racismo. Sendo assim, o Atlântico negro seria uma contracultura da modernidade e, dentro desta contracultura, temos as expressões da música negra, as quais sempre foram a espinha dorsal da cultura política dos escravos e seus descendentes no novo mundo, segundo Gilroy (2000). Tal cultura política marcada pela experiência da diáspora africana fica mais evidente ao analisarmos os espaços de negociação/afirmação cultural e identitária, como o samba em sua ascensão durante a Primeira República no Rio de Janeiro. Evidentemente, não há mais como traçar uma origem essencialmente africana para o samba (mesmo que seja possível fazer muitas conexões), porém podemos pensá-lo como cultura popular marcada pela diáspora africana. Isto fica claro quando gradualmente percebemos que ao analisar fatos, acontecimentos e processos envolvendo a ascensão do samba enquanto gênero musical e os debates identitários em torno deste processo evidencia-se uma série de conflitos envolvendo questões étnico-raciais e sociais marcantes da realidade brasileira da época. A presença do samba (e da música popular em geral) na indústria fonográfica surge, então, como espaço privilegiado para analisarmos estes conflitos. Aqui, partimos do princípio conceitual de Hall sobre Hegemonia Cultural. Segundo o autor, esta “nunca é uma questão de vitória ou dominação pura (...); sempre tem a ver com a mudança no equilíbrio de poder nas relações da cultura; trata-se sempre de mudar as disposições e configurações do poder cultural e não se retirar dele” (2006). 43
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Estas relações de poder ficam explícitas em alguns trabalhos atuais que mostram como o samba no Rio de Janeiro da Primeira República, ao mesmo tempo em que era perseguido por algumas autoridades policiais e políticas, também encontrou espaços de afirmação, como na recente Indústria Fonográfica do país, representada principalmente pela Casa Edison. Diversas foram as músicas registradas por esta gravadora, muitas delas tratando de temas relativos a afro-religiosidades, culturas e identidades negras. 20 Nesta relação, é importante ressaltar o fato da visibilidade que o samba ganha se configurar enquanto uma visibilidade controlada. A entrada gradual na lógica de produção e distribuição de mercado trouxe fortes restrições quanto aos batuques e formatos das músicas nas gravações. Sobre isto, importa ressaltar que o primeiro samba gravado que utilizará instrumentos de percussão 21 partiu de uma iniciativa do Bando de Tangarás apenas em 1930, grupo de classe média, brancos, portadores de capital simbólico que os proporciona maior liberdade para tal feito, como nos mostra Sandroni (2001). Diferentemente de sambistas negros que, por terem instrumentos apreendidos no passado (como nos conta João da Baiana em depoimento ao Museu da Imagem e do Som sobre o seu pandeiro) 22, provavelmente não se sentiriam a vontade de tomar a iniciativa de usá-los em uma gravadora, o que somente passa a acontecer na década de 1930. Ainda sobre a indústria fonográfica, podemos detectar certa disparidade entre letras gravadas e veiculadas nas festas. Ao analisar o samba “Pelo Telefone” de Donga, reconhecido como o primeiro samba gravado, Carlos Sandroni (2008) nos mostra como circulam duas versões da mesma música: (Versão gravada)
(Versão Anônima/“oficiosa”)
O chefe da folia
O chefe da polícia
Pelo Telefone
Pelo telefone
Manda me avisar
Manda me avisar
Que com Alegria
Que na Carioca
Não se questione
Tem uma roleta
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A guisaPara de exemplos, podemos citar, de Sinhô, “A favela vai abaixo”Para (1928), Gegê” (1922), “Alta se brincar se “Macumba jogar Madrugada” (1930), “Professor de Violão” (1931); de João da Baiana, temos “Dona Clara” (1927), “Que querê” (1931); de Pixinguinha, cito “Partido Alto” (1932), com Cícero de Almeida, e “Samba de Nego” (1928). 21 Trata-se do samba “Na Pavuna”, de Almirante e Doca da Anunciação, gravado em 1930. Alguns pesquisadores dizem que a introdução dos instrumentos de percussão característicos das escolas de samba nas músicas da indústria fonográfica apenas não se dava devido a restrições técnicas de captação de som. Porém, Sandroni (2001) mostra que a gravação elétrica foi introduzida no mercado fonográfico brasileiro em 1927, três anos antes de “Na Pavuna”, e que ao tentar introduzir os instrumentos na gravação desta música, Almirante teria sofrido restrições do diretor artístico para fazê-lo. Isto representa, fortemente, um conflito cultural com relação racial e social. 22 Ver “As vozes desassombradas do Museu”, publicado pelo MIS. 44
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Estas letras acima explicitam os conflitos vividos pelos populares no Rio de Janeiro. Em ambas as versões, fica clara a crônica das diversões das classes humildes serem objeto de perseguição. Porém, na versão gravada o jogo da roleta não aparece, se restringindo à busca para que “não se questione/para se brincar” e, na versão anônima, a alusão à negociação com o chefe da polícia nos mostra como, mesmo com a perseguição, os populares buscaram espaços de negociação com os delegados e autoridades em busca de afirmar suas práticas (“folia” ou o jogo da “roleta”, como dizem as letras). Na mesma linha, podemos pensar o carnaval como um meio diferenciado para perceber tais conflitos. Segundo Rachel Soihet (1998), durante os dias de folia fica evidente o contraste entre duas visões de mundo: uma construída a partir da reforma Pereira Passos, cujo principal símbolo era a Avenida Central, por onde transitava a alta sociedade com seu desfile de carros com flores; a outra, da Praça Onze, “ponto de concentração de sambistas e malandros, como o lugar da batucada e do samba duro” (SOIHET, 1998, P. 57), onde se localizava a casa da Tia Ciata, também. Entretanto, os populares não se restringiam apenas à Cidade Nova, comparecendo também à Avenida Central com pandeiros, violões, cordões e sambas considerados impróprios à cidade branca que se pretendia reproduzir. Assim, Rachel Soihet define cultura popular: canal privilegiado de expressão dos anseios e necessidades dos populares no Rio de Janeiro, por largo tempo excluídos da participação política, segundo os parâmetros tradicionais. Verifiquei que tais segmentos tiveram nessa cultura o principal veículo de coesão e de construção de uma identidade própria e, por meio dela, promoveram sua inclusão na vida pública da cidade, sendo o carnaval um momento privilegiado nesse processo (SOIHET, 1998, p.17).
E é o próprio carnaval que nos mostra como os populares estavam longe de serem alienados sobre o contexto histórico em que estavam inseridos: “Nós somos gente. (...) Macaco é o outro!”, cantavam sambistas vestidos de macaco em um bloco de carnaval saído da famosa casa da Tia Ciata, em 1916. Tal manifestação explícita abordando a questão racial era feita em crítica ao influente teórico sobre a desigualdade das raças: o Conde Gobineau, que, em visita ao Brasil em meados do século XIX, comparou os brasileiros a macacos. Gobineau, ao reprovar a mistura de raças, afirmava que no Brasil havia uma “degenerescência do mais triste aspecto” (SOIHET, 1998). A própria e famosa casa da Tia Ciata também é um exemplo do conflito na cultura popular: a partir de redes de conhecimento (Tia Ciata era casada com um funcionário do gabinete do delegado) possibilitou-se a configuração de um espaço de encontro de sambistas e produção de samba. Porém, em sua própria organização arquitetônica podemos perceber o 45
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conflito na cultura popular: exposto na frente da casa tocava-se apenas choro, e o batuque ficava reservado aos fundos. Este exemplo da casa da Tia Ciata deixa bem claro que estamos tratando de cultura popular, pois, assim como a própria música popular no Rio de Janeiro, podemos defini-la como: “um campo para a mudança e a disputa, uma arena na qual interesses opostos apresentam reivindicações conflitantes, onde há sempre uma troca entre o dominante e o subordinado” (THOMPSON, 1998). Este conceito foi definido por E.P. Thompson em seu estudo sobre a Inglaterra dos séculos XVIII/XIX, no qual o autor situa a cultura plebéia longe dos consensos e essencialismos, mas “dentro de um equilíbrio particular de relações sociais, um ambiente de trabalho e exploração e resistência à exploração, de relações de poder (...). Desse modo, a ‘cultura popular’ é situada no lugar material que lhe corresponde” (THOMPSON, 1998). De fato, Thompson (1998) estava analisando um dado contexto diferente do que estudamos neste trabalho. Assim, é preciso adequar tais pressupostos teóricos à realidade do Rio de Janeiro do início do século XX, tarefa que é facilitada pela postura do autor ao negar rótulos fechados e homogêneos em relação à cultura popular. A partir desse pressuposto, é possível frisar que a música popular no Rio de Janeiro deve ser situada para além do lugar material que lhe corresponde (produzido pela população pobre em “ambiente de trabalho e exploração”), mas também em diálogo com processos de conflitos sócio-culturais que envolvem a presença afrodescendente no país (expressão dos setores populares em relação a um passado escravista e um presente de discriminações sociais e raciais, às quais se relacionam diretamente). Este dois “lugares” (material e sócio-cultural) estão longe de estarem separados na História do Brasil, onde o racismo sempre esteve diretamente relacionado com questões de classe. Porém, o discurso da “democracia racial” apaga os contrastes vividos e a ideologia do “embranquecimento”, fortemente presente durante a Primeira República. Sobre isto, talvez seja exagero dizer que o samba carioca em seu momento de ascensão botou a mão na ferida em tais problemáticas, deixando-as exposto para serem debatidas. Porém, podemos afirmar que, ao buscar por espaços de afirmação enquanto uma cultura da diáspora africana, o samba pode ter facilitado que tais questões se tornassem mais pronunciáveis, pois agora seria preciso lidar diretamente com a presença dos setores negros na composição cultural da sociedade brasileira, o que contrasta com os projetos voltados para sua exclusão social durante o pós-abolição. Para ilustrar essa situação, pode-se apresentar músicas nas quais os sambistas incluíam-se nos debates que tratavam de questões nacionais, entre elas 46
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duas composições de Sinhô: “Fala, meu louro” (1919), criticando Rui Barbosa, e “Eu ouço falar (Seu Julinho)” (1929), onde se faz propaganda explícita de Julio Prestes. Portanto, a cidade do Rio de Janeiro no início do século foi palco de um crescente movimento por afirmação política, cultural e social de setores populares, que se utilizaram do samba enquanto meio para alcançar seus objetivos. O próprio samba se transformou neste processo, ou seja, ao mesmo tempo em que impôs marcas próprias e ganhou o seu lugar ao sol, também teve de adequar-se para que isso ocorresse, o que trouxe diversos conflitos (debates em torno da autoria ou sobre que tipo de música era o “verdadeiro samba”, o mais “amaxixado” da geração de Donga ou o samba do Estácio, defendido por Ismael Silva) 23. Porém, tais adequações e restrições não impediram a afirmação de um contra-discurso marcante da diáspora africana através do samba, envolvendo a afirmação da diferença: um estilo e estética em torno do repertório negro, a centralização na música em oposição à cultura escrita dominante e à valorização da corporeidade. Segundo Stuart Hall: esses repertórios da cultura popular negra – uma vez que fomos excluídos da corrente cultural dominante – eram freqüentemente os únicos espaços performáticos que nos restavam e que foram sobredeterminados de duas formas: parcialmente por suas heranças, e também determinados criticamente pelas condições diaspóricas nas quais as conexões foram forjadas. (HALL, 2003, p. 324).
Concluindo, este trabalho buscou discutir um dos aspectos em torno da relação entre identidade e samba carioca na primeira república, de forma a dialogar com um suporte teórico de consistência. Objetivou-se aqui tratar do samba de uma forma não idealizada, mas sim dentro de sua complexidade. Neste caso, talvez seja importante frisar que, a música possibilitou dar voz a setores até então “apagados” na primeira república. Neste caso, as lutas por afirmação e busca por espaços de expressão destes populares com o samba foi de vital importância para que tais questões sejam colocadas na ordem do dia, e estes setores da sociedade sejam vistos como atores e integrantes da sociedade carioca na primeira república. Ou seja, uma forma de buscar a cidadania.
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Sobre isto, ver discussão entre Donga e Ismael citada por Cabral (1966). 47
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