UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA
Ricardo José de Oliveira Barbieri
Carnaval em Manaus (AM): a cidade e suas escolas de samba
Rio de Janeiro Março de 2016
Carnaval em Manaus (AM): a cidade e suas escolas de samba Ricardo José de Oliveira Barbieri
Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito parcial para obtenção do grau de doutor em Ciências Humanas (Antropologia Cultural) Orientadora: Prof. Dra. Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti
Rio de Janeiro Março de 2016
Carnaval em Manaus (AM): a cidade e suas escolas de samba Ricardo José de Oliveira Barbieri Orientadora: Prof. Dra. Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti Tese de doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Ciências Humanas (Antropologia Cultural) Aprovada em 31 de março de 2016 por: ____________________________________________________________ Presidente – Prof. Dra. Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti Universidade Federal do Rio de Janeiro –IFCS –PPGSA ______________________________________________________________________ Prof. Dr. Luiz Felipe Ferreira Universidade do Estado do Rio de Janeiro- Instituto de Artes ____________________________________________________________ Prof. Dr. Nilton Silva dos Santos Universidade Federal Fluminense – PPGA ____________________________________________________________ Prof. Dra. Julia Galli O’Donnell Universidade Federal do Rio de Janeiro – IFCS - PPGSA ____________________________________________________________ Prof. Dra. Karina Kuschinir Universidade Federal do Rio de Janeiro –IFCS –PPGSA Suplentes: ______________________________________________________________________ Prof . Dra. Renata de Sá Gonçalves Universidade Federal Fluminense - PPGA ____________________________________________________________ Prof. Dr. Wagner Neves Diniz Chaves Universidade Federal do Rio de Janeiro –IFCS –PPGSA Rio de Janeiro Março de 2016
Para as amazonenses Taynah, NazarĂŠ e Ivania. Para os fluminenses Ricardo e Eliana. Para o paulista Hilton.
Agradecimentos Mesmo que ingrata por sempre envolver o risco de esquecermos de alguém importante em uma trajetória que nos ocupou por quatro longos anos de nossas vidas, o momento de agradecermos é também o prazeroso espaço para lembrarmos das pessoas e instituições importantes neste caminho. Assim quero agradecer ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade federal do Rio de Janeiro (UFRJ), seus professores, funcionários e colegas por possibilitar a conclusão desta tese dando todo o suporte necessário para tal. Ao CNPq pela bolsa que financiou as despesas necessárias para a conclusão desta pesquisa. Agradeço aos professores Karina Kuschinir e José Guilherme Magnani, pelos comentários e sugestões na qualificação do projeto desta pesquisa. Agradeço à Profa. Maria Laura Cavalcanti, a quem dedico profunda admiração, pela orientação paciente e sempre precisa. No período em que estive em Manaus aprendi muito com os colegas, funcionários e professores dos Programas de Pós-graduação em Antropologia Social (PPGAS) e Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Especialmente, gostaria de agradecer aos professores José Adelmir de Oliveira, Sidney Antônio da Silva e Deisi Lucy Montardo com quem tive oportunidade de conhecer melhor o estado do Amazonas através das questões colocadas em seus cursos. Ainda em Manaus nada seria possível sem a ajuda da minha família na cidade e das mulheres a quem dedico enorme admiração: minha sogra Ivania e sua mãe Nazaré. Elas que, juntamente com a amiga Nadir, me apoiaram e enfrentaram comigo todas as angústias e conquistas desta tese. Por facilitar o acesso a seus acervos agradeço aos funcionários da Biblioteca Pública do Amazonas e do Museu da Imagem e do Som (MISAM). Meus pais, avós e meu irmão merecem minha eterna gratidão por apoiarem o tempo todo a confecção desta tese, suportar a saudade e superar a distância para estar comigo mesmo nos períodos mais difíceis. Aos amigos sambistas de Manaus que aguentaram os questionários, os desencontros, os desabafos e as críticas, meu muito obrigado. Aos membros, coordenadores e ex-coordenadores do grupo Amigos do Carnaval de Manaus, Carnaval de Manaus – Especial e do site Manaus Samba. Aos sambistas que peço perdão por não nomear por temer esquecer de alguém. A todas as escolas de samba de Manaus do Grupo
Especial ao Acesso C por abrirem as portas sempre que as procurei. A todos vocês meu muito obrigado. Finalmente agradeço à companheira de todos os momentos. Aquela que fez questão de estar presente em todas as explorações etnográficas pela cidade que fossem possíveis, minha esposa Taynah.
“Altos e baixos, a gente apanha, perde e ganha, Isso é a vida Vem formar a roda viva Vamos dar volta por cima A vida hoje é confete, é serpentina” (Samba de enredo do GRES Andanças de Ciganos no carnaval 1990 de autoria de Davi Correa)
BARBIERI, Ricardo José de Oliveira. Carnaval em Manaus (AM): a cidade e suas escolas de samba. Orientadora: Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti. Rio de Janeiro: PPGSA\IFCS\UFRJ. 2016. Tese. Resumo da Tese de doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Ciências Humanas (Antropologia Cultural)
RESUMO Esta tese busca as relações entre as escolas de samba na cidade de Manaus(AM) durante a produção dos desfiles, durante os desfiles e após os desfiles carnavalescos. Nela buscamos ressaltar as particularidades das escolas de samba na cidade e acompanhar as redes de sociabilidade produzidas por seus componentes. A pesquisa organiza-se em em três momentos, sendo o primeiro a abordagem das estratégias de identificação frente à cidade por parte de uma escola de samba em um bairro estigmatizado. Logo após, enfocamos o processo de reafirmação simbólica da escola de samba em um bairro socialmente valorizado. Finalmente, analisamos como as escolas de samba que vivem o dilema de estar entre o desejo de ascender ao topo da hierarquia competitiva e possibilidade de fracasso com a sua consequente extinção do grupo das escolas de samba lidam com a elaboração de sua performance. Os dilemas enfrentados pelas escolas de samba na cidade se explicitam na situação social da apuração com a leitura das notas a elas atribuídas pelos jurados e com os desenlaces advindos dos resultados. Palavras-chave: Escola de samba, sociabilidade, estigma, performance, cidade.
Rio de Janeiro Março de 2016
BARBIERI, Ricardo José de Oliveira. Carnival in Manaus (AM): the city and its samba schools. Tutor: Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti. Rio de Janeiro: PPGSA\IFCS\UFRJ. 2016. Thesis. Abstract da Tese de doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Ciências Humanas (Antropologia Cultural).
ABSTRACT This thesis seeks to analyze the relations that exist between the samba schools and the different neighborhoods of the city of Manaus (Amazonas). It focus on the production of the annual parades and in the period that succeeds the carnival parades. I seek to highlight the particularities of the samba schools in Manaus and to understand the social networks built by their components. The initial focus is on the discussion of the strategies a samba school based in a stigmatized neighborhood. Then I analyze the symbolic process of self valorization of a samba school based in a highly valued neighborhood. Finally, I discuss how certain samba schools that live the annual expectation of wining the championship in the lower groups of Manaus carnival hierarchy deal with the opposite possibility of a failure that will imply their exclusion of the Samba Schools groups. Finally, the dilemmas that surround Manaus Carnival are brought to light through the analysis of the social situation of the presentation of the parades’ results and its consequences for each samba school. Keywords: Samba School, sociability, stigma, performance, city.
Rio de Janeiro Março de 2016
SUMÁRIO APRESENTAÇÃO..........................................................................................................13 CAPÍTULO 1 - O UNIVERSO DAS ESCOLAS DE SAMBA EM MANAUS: O ENCONTRO E AS PERSPECTIVAS TEÓRICAS PARA PENSAR O CARNAVAL...................................................................................................................16 1.1. A cidade de Manaus, o carnaval e as escolas de samba na história..........................20 1.2. A cidade de Manaus e suas festas..............................................................................23 1.3. Onde o carnaval acontece: o circuito das escolas de samba de Manaus....................24 1.3.1. O sambódromo de Manaus: “o maior do Brasil"...................................................25 1.3.2. Hierarquia competitiva das escolas de samba em Manaus....................................28 1.3.3. Percorrendo a cidade através da distribuição geográfica das escolas de samba em Manaus.............................................................................................................................32 1.4. As rodas de samba e o universo das escolas de samba em Manaus..........................38 1.5. Redes sociais virtuais e reais no carnaval de Manaus.................................................42 CAPÍTULO 2 - A ESCOLA DE SAMBA EM UM BAIRRO ESTIGMATIZADO: O MORRO DA LIBERDADE E SEU REINO....................................................................51 2.1. A Reino Unido da Liberdade e seus desfiles no carnaval de Manaus: um breve histórico...........................................................................................................................56 2.1.1. A Reino Unido da Liberdade no sambódromo de Manaus......................................62 2.2. Reino do Amanhã, Pagode da Resistência e Gigantes do Morro: uma escola cheia de vida..................................................................................................................................66 2.2.1. Os Gigantes do Morro...........................................................................................70 2.3. Um Reino não tão unido assim: conflitos políticos e a luta contra a estigmatização em um bairro popular.......................................................................................................76 2.4. A resistência do samba em ação: quando a Reino Unido e o Morro da Liberdade despontam na passarela para a cidade...............................................................................80 2.5. Há quem não goste: e como pensam os moradores que se opõem à escola?............85 CAPÍTULO 3 - A ESCOLA DE SAMBA EM UM BAIRRO VALORIZADO: A “SOBERANA” MOCIDADE INDEPENDENTE DE APARECIDA.............................88 3.1. Como a Aparecida já nasceu soberana?....................................................................93 3.1.1. Uma afilhada e rival: Aparecida nos carnavais do novo milênio.............................97 3.1.2. Até os dias atuais: aumenta a rivalidade Aparecida e Reino Unido......................100 3.2.O ensaio de escola de samba: sociabilidade, performance e rivalidade....................103 3.2.1. Ensaios na Aparecida...........................................................................................108 3.2.1.1. Pelas ruas do bairro de Aparecida......................................................................109 3.3. Na quadra da Mocidade Independente de Aparecida...............................................122 3.3.1. “Aparecida convida”: o “potlatch” em um ensaio de escola de samba..................125 3.4. Chegamos à pista de desfiles: os ensaios no sambódromo.......................................130 CAPÍTULO 4 - A ESCOLA DE SAMBA ENTRE O UMBRAL E A GLÓRIA: OS GRUPOS DE ACESSO DE MANAUS.........................................................................134 4.1. Nos barracões dos grupos de acesso: do Carandiru carioca ao inferninho de Manaus...........................................................................................................................136 4.2. Umbral das escolas de samba: a última divisão do carnaval de Manaus................145 4.3. O encontro com a escola de samba Presidente Vargas no bairro da Matinha...........153 4.3.1. A Matinha e seu dilema: Buscando o topo e fugir do umbral nos carnavais 2014 e 2015...............................................................................................................................157 CAPÍTULO 5 - “VAI OU RACHA”? O IMPASSE NO CARNAVAL DE MANAUS......................................................................................................................166
5.1. Um drama social na apuração de Manaus................................................................170 5.2. O carnaval 2014: um ano de crise e um drama para as escolas de samba de Manaus...........................................................................................................................171 5.2.1 “Não foi nem rachou”: o balanço de um carnaval sem resultados..........................181 5.3 Considerações finais: Da análise do drama ao carnaval das escolas de samba na cidade de Manaus......................................................................................................................183 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................................190 Apêndices......................................................................................................................198
APRESENTAÇÃO Este trabalho busca a compreensão das escolas de samba de Manaus como manifestação carnavalesca através da etnografia da sociabilidade articulada por elas na cidade. Simultaneamente visa contribuir para os estudos do carnaval no campo da antropologia urbana e dos estudos de rituais. Meu primeiro contato com as escolas de samba manauaras se deu de forma peculiar, na escala de uma viagem aérea para o Festival de Parintins1 no ano de 2010, quando estive no local dos desfiles das escolas de samba, o sambódromo de Manaus. Fiquei impressionado com a arquitetura imponente de um equipamento construído especificamente para os desfiles e que abrigava então shows, eventos religiosos, paradas militares, competições e exposições automobilísticas, e eventos dos Bois de Parintins.
Figura 1 - Sambódromo de Manaus visto de seu último setor – acervo pessoal - 17/02/2012
Já tendo trabalhado com escolas de samba cariocas na graduação e no mestrado2 e tendo um envolvimento afetivo com elas desde a infância, a visita despertou-me a curiosidade. Como seriam as escolas de samba de Manaus em desfile? O que haveria no carnaval daquela cidade que justificasse a construção de um sambódromo nos moldes daquele do Rio de Janeiro? O desejo de conhecer esta nova realidade permaneceu latente, e mesmo depois de ter retornado ao Rio de Janeiro motivou a busca de vídeos e fotos na internet. 1
O Festival Folclórico de Parintins (AM) acontece todos os anos no último final de semana do mês de junho sendo notório nacionalmente pelas apresentações dos bumbas Caprichoso(azul) e Garantido(vermelho). 2 Inicialmente acompanhando o processo de transferência e ocupação dos barracões das escolas para a recém-inaugurada “Cidade do Samba”(2005). Posteriormente o processo de preparação das alegorias de uma escola de samba dentro da Cidade do Samba (2009) e finalmente o carnaval de uma pequena escola de samba carioca na 4ª divisão (2012)
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Foi então que através do meu pai, Ricardo Barbieri, conheci o militar e também compositor Schneider. Meu pai é higienista ocupacional por formação e tinha na época o hobby de compor sambas de enredo para escolas de samba no Rio de Janeiro. Schneider, além de compor sambas em diversas escolas de Manaus, ganhara os concursos de samba de enredo para o carnaval de 2011 em duas escolas de Manaus (Reino Unido da Liberdade e Vitória Régia) e é também primo de um conhecido compositor no Rio de Janeiro, Mingau (autor de sambas em diversas escolas do Rio de Janeiro). Schneider acabou por tornar-se um importante mediador3 em diversos momentos da pesquisa, apresentando-me às escolas de samba locais e seus componentes, como veremos adiante. A pesquisa resultou, portanto, de um duplo desejo deste pesquisador: desvendar e viver na cidade de Manaus e conhecer o universo das escolas de samba locais. O encantamento pela cidade amazônica aconteceu no justo momento da rápida escala tendo Parintins como destino. E o encanto com a cidade só cresceu a cada dia que por lá passei, a cada canto da cidade. Foi um duplo encontro e um duplo encantamento por Manaus e por suas escolas de samba e assim percorreremos os frutos desta feliz realização. No primeiro capítulo apresentamos o universo das escolas de samba de Manaus. Aqui a história da cidade de Manaus será descrita através das escolas de samba e outras festas que formam seu calendário anual. Falamos do circuito das escolas de samba e de seus equipamentos, suas quadras e sobre o Sambódromo onde os desfiles são realizados. A hierarquia competitiva das escolas de samba será apresentada de forma a tornar claras as denominações e marcas em jogo e as divisões entre diferentes possibilidades do estágio em que se encontra cada escola de samba. Veremos também como os desfiles e sua preparação mexe com a cidade seja através da distribuição das escolas de samba pelo território de Manaus, seja pela expansão das redes sociais reais ou virtuais mobilizadas no desfile. No segundo capítulo tomaremos como foco a escola de samba Reino Unido da Liberdade para adentrarmos o universo de um bairro estigmatizado, o Morro da Liberdade, e seu processo de simbolização positiva frente à cidade através de sua escola de samba. Apresentaremos a história da Reino Unido antes e despois da fundação do sambódromo. Mostraremos também como ações - como os pagodes e rodas de samba; a torcida organizada da escola de samba e a escola de samba mirim - ajudam no processo de fortalecimento da escola de samba como referencial cultural do bairro. Desdobraremos 3
O lugar da mediação no mundo das escolas de samba foi trabalhado por Maria Laura Cavalcanti (2006) e através da perspectiva do carnavalesco por Nilton Santos (2009).
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o caso da torcida organizada mostrando como ela faz interagir a sociabilidade local e a sociabilidade festiva. Os desdobramentos dos conflitos internos da escola de samba Reino Unido da Liberdade serão mostrados como parte da dinâmica de construção da superação da estigmatização do bairro que atravessa os ensaios chegando ao desfile. No terceiro capítulo, uma outra forma de representação do bairro através das escolas de samba é demonstrada. A escola de samba Mocidade Independente de Aparecida é apresentada em sua trajetória de conquista de títulos de campeã do carnaval que a tornaram a maior vencedora de carnavais dentre as escolas de Manaus, sendo reconhecida especialmente por seus componentes como “a soberana”. Mostraremos como suas vitórias passaram a ser contestadas por outras escolas que, tendo na Aparecida a escola a ser vencida, criaram um ambiente de profunda rivalidade com ela. Esta rivalidade engendra parte das características do carnaval de Manaus a tal ponto que são escassas as alianças e apadrinhamentos entre escolas de samba como ocorre via de regra no carnaval do Rio de Janeiro. A valorização do bairro se reflete no discurso de superioridade da escola de samba Aparecida e veremos como isso é elaborado ritualmente através de seus ensaios e eventos. No quarto capítulo nosso olhar sobre o carnaval de Manaus elege a perspectiva das escolas de samba que circulam nos grupos de acesso, ou seja, nas 2a, 3a e 4a divisões do carnaval de Manaus. As dificuldades enfrentadas por elas na preparação do carnaval as singularizam frente às escolas de samba do Grupo Especial, a 1a divisão do carnaval. Por meio da etnografia do desfile destas escolas veremos através dos próprios sambistas o que significa estar na última divisão, o umbral da existência de uma escola de samba. Analisaremos o caso da escola de samba Presidente Vargas, situada no bairro da Matinha, para entendermos como uma escola enfrenta uma crise que pode levá-la a seu fim ou então a sua reestruturação sempre em busca o topo do universo competitivo das escolas de samba. Veremos também como essa luta mobiliza o bairro onde está sediada. No último e conclusivo capítulo, tendo como foco a apuração de 2014 que terminou com um resultado inusitado, veremos como o universo das escolas de samba de Manaus se articula com os poderes públicos. A apuração dos resultados dos desfiles das escolas de samba em 2014 será analisada como um drama social e com os desdobramentos deste drama apresentaremos as considerações finais da tese.
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CAPÍTULO 1 - O UNIVERSO DAS ESCOLAS DE SAMBA EM MANAUS: UMA CIDADE VISTA DESDE AS ESCOLAS DE SAMBA. Em minha dissertação de mestrado (BARBIERI, 2012), ao tomar como foco a Acadêmicos do Dendê, a menor escola de samba da Ilha do Governador, pude verificar como a sociabilidade carnavalesca mobilizava essa região do Rio de Janeiro durante o ano todo através da circulação, associação e competição entre o Dendê e as duas outras escolas de samba locais: o Boi da Ilha do Governador e a União da Ilha do Governador. Pude perceber também como a festa tinha papel fundamental na definição das trajetórias, e dos campos de possibilidades, projetos e potencial de metamorfose dos atores sociais que participavam dessas redes de relação frente a cidade (VELHO, 2003). Naquele trabalho, o regime competitivo dos desfiles carnavalescos das escolas de samba emergiu como um contexto decisivo na definição da realidade dessas associações. Pude perceber, com o estudo do Dendê, como a ascensão dentro da hierarquia carnavalesca, ou a “subida” de grupo, é valorizada dentro de um projeto de sucesso, onde as menores escolas devem ao menos aspirar alcançar o Grupo Especial, a divisão de elite do carnaval carioca. Assim, uma escola que hoje ocupa um dos grupos menores é sempre lembrada por seus componentes por sua passagem pelo Grupo Especial.4 A dificuldade em se manter no Grupo Especial, no entanto, valoriza ainda mais o topo da hierarquiacompetitiva, especialmente por suas perspectivas de ampliação da representação frente à cidade como um todo. Diferentes condições encontradas por cada escola nos diferentes grupos hierárquicos envolvem sociabilidades e conflitos que ultrapassam o campo festivo e transbordam nas relações cotidianas dos sambistas e em sua forma de enxergar a cidade. Tudo isso revela como o regime ritual-competitivo das escolas de samba propicia a circulação dos atores sociais que compõem esse universo por entre uma complexa rede social cheia de alianças intrincadas. Essa moldura ritual abre espaço tanto para os indivíduos que transitam por entre diferentes áreas e regiões urbanas como para a associação carnavalesca e a região em que está sediada no contexto da cidade. No amplo mundo do carnaval, mesmo os pertencimentos como membro de uma ou outra escola de samba por exemplo, pode ser relativizado ou revelar-se relevante dependendo dos interesses em jogo em cada situação social.
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São inúmeros os exemplos na cidade do Rio de Janeiro como Unidos de Lucas, Unidos do Cabuçu, Vizinha Faladeira que já passaram pelo grupo principal das escolas de samba e mesmo nos últimos grupos até hoje celebram em sua história esse momento.
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A importância do desfile das escolas de samba para os estudos antropológicos vem sendo explorada por diversos estudos desde os anos 1970 (GOLDWASSER, 1975) (LEOPOLDI, 2010). O trabalho de Roberto DaMatta (1997), ao chamar atenção para a relevância do carnaval para a compreensão mesma da sociedade brasileira como um todo veio ampliar esse interesse. Nos anos 1990, Cavalcanti (2006) retomou a tradição antropológica dos estudos de ritual desenvolvidos por Turner (2013) e DaMatta (1997) associando-a a questões e problemáticas da antropologia urbana. O desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro foi compreendido pela autora como o desfecho de um ciclo anual onde os participantes e torcedores se misturam e celebram o momento de cada agremiação na “avenida”, na apresentação para o grande público em um local central na cidade. Cada desfile é, então, o apogeu de um ciclo anual em que a “rede de relações sociais trançada ao longo do ano atinge o seu grau máximo de expansão” (CAVALCANTI, 2006, p.233). Ao mesmo tempo, tais trabalhos demonstravam a importância dos estudos de ritual para a compreensão da dinâmica das escolas de samba na vida urbana contemporânea. Inspirada no conceito de processo ritual de Victor Turner (op.cit.), Cavalcanti indicou também como, ao emergir como resultado de todo o ciclo anual de sua preparação, o desfile configurava um tempo próprio, o ano carnavalesco, que se desdobra em múltiplos saberes e práticas sociais particulares (CAVALCANTI, 2006, p.39). Assim, um ciclo se renova após o outro, ritualisticamente, e quem vive e participa de todo o ciclo no resto do ano desenvolve uma noção de temporalidade própria, bastante particular, como declara um de seus interlocutores: “o nosso ano, de quem trabalha com carnaval, é sempre um além” (CAVALCANTI, op.cit, p.48).
Essa
temporalidade
própria é perpassada pela dinâmica competitiva, pois o desfile é também um espaço de trocas agonísticas (MAUSS, 2001), onde, como mostrou Cavalcanti (2006), as escolas a um só tempo rivalizam e confraternizam. A dinâmica ritual competitiva que movimenta o relacionamento entre as escolas de samba e sua capacidade de, ao longo de cada ano, expandir as redes de sociabilidade e de relações sociais levou a autora e ver nos desfiles festivos a expressão de valores e conflitos centrais à cidade do Rio de Janeiro. Essa visão está na base da investigação proposta sobre as escolas de samba só que desta vez na cidade de Manaus. Foi em Manaus, na primeira vez em que encontrei Schneider, que conversamos sobre sua relação com o carnaval da cidade. Enquanto fazíamos o trajeto do campus da
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Universidade Federal do Amazonas (UFAM), nosso ponto de encontro, até o bairro do Morro da Liberdade, bairro onde é sediada a Reino Unido da Liberdade, ele me contou: Comecei a compor quando fui transferido para cá com a Marinha, em 2009 mais ou menos. Meu primo (Mingau) já tinha ganho samba aqui. Nas grandes escolas daqui Aparecida e Vitória Régia. Não no mesmo ano. No mesmo ano eu só consegui agora em 2011 na Reino Unido e Vitória Régia. O pessoal aqui gosta muito do carnaval do Rio. Se você conhece, vem de lá, eles ficam desesperados para te ouvir, pra saber o que tá rolando. (...). Isso me ajudou muito aqui. (Schneider, compositor em entrevista no dia 18/09/2011) Essa menção valorizada ao Rio de Janeiro na fala de Schneider indica a relevância das escolas de samba cariocas no imaginário do carnaval de Manaus. Entretanto, quando pensamos no carnaval do Rio de Janeiro, é preciso cuidado pois, como já indiquei anteriormente (BARBIERI, 2012), há realidades muito distintas entre as escolas do Grupo Especial e dos demais grupos. Aqui temos uma outra grande questão. Ao mencionar o fenômeno de expansão das escolas de samba pelo Brasil, José Sávio Leopoldi comenta (2010, p.78): “As escolas de samba apresentam, não só o mesmo padrão de exibição pública como também tendência para o estabelecimento de um modelo semelhante de organização interna”. Desde esse ponto de vista, uma vez conhecida uma escola de samba conheceríamos a todas. Entretanto, dado o intercambio constante entre os componentes das escolas de samba, inclusive com seus múltiplos pertencimentos e participações em escolas dos mais diversos grupos e das mais diversas cidades seria de fato possível constatar a homogeneização da organização e das formas de apresentação dessas escolas de samba espalhadas pelo Brasil? Creio que não. Se as escolas de samba como são uma forma singular de expressão e organização carnavalesca que existe em diferentes contextos urbanos, o que haveria de especifico no contexto das escolas de samba em Manaus? O que diferencia este universo de escolas de samba em Manaus de outras escolas de samba e carnavais pelo país? Estudos específicos sobre essas escolas nos apresentam diferentes visões, conflitos e problemas que perpassam as escolas de samba como forma de expressão carnavalesca em diferentes cidades. Em cada caso abordado, a experiência das escolas de samba é não só muito diferenciada entre si como diferenciada daquela das escolas de 18
samba cariocas (que, por sua vez, é também diferenciada internamente). Como diversos trabalhos vêm demonstrando, as escolas de samba expandiram-se no século XX entre várias cidades brasileiras como em São Paulo (BRITTO, 1986) (SIMON, 2007); São Luís (ARAÚJO, 2001 e 2008); Manaus(SALLES, 2008) e Recife (MENEZES, 2010). Elas permanecem ativas em muitas delas retomando os exemplos de São Paulo (BLASS, 2007); São Luís (ARAÚJO, 2001); Porto Alegre (GUTERRES, 1996) (DUARTE, 2011); Manaus (SALLES, 2008) e Recife (MENEZES, 2010). Há ainda os casos de Belém (RODRIGUES, 2008), Teresina (ARAÚJO, 2008) e Vitória (MONTEIRO, 2010). Em outra frente de estudos temos também pesquisas que revelam redes entre carnavais tanto no Brasil como no exterior como é o caso do circuito carnavalesco entre Rio de Janeiro, Uruguaiana (RS) e Paso de Los Libres na Argentina (DUARTE, 2015). No percurso da pesquisa voltaremos aos trabalhos citados verificando os pontos em que as peculiaridades de cada carnaval emergem complexificando o estudo das escolas de samba. Essa vitalidade das escolas de samba, a história de sua expansão e seus desdobramentos por diversas cidades espalhadas no Brasil denotam a sua importância para os estudos de antropologia urbana e para a compreensão da vida contemporânea. A existência desta manifestação carnavalesca na cidade de Manaus, a cidade a ser enfocada nesta pesquisa, suscita novas questões com a entrada de novos agentes no mundo social das escolas de samba. O enfoque sócio-antropológico da experiência urbana se revela relevante referencia para este estudo. Simmel (2006) já assinalou as especificidades da vida metropolitana no que tange à fragmentação extremada e aos diferentes papéis e domínios que dão contornos particulares à vida psicológica individual. Assim através de um jogo tenso entre subjetividades e objetividades, indivíduo e sociedade se constroem mutuamente. O autor frisou também a heterogeneidade e diversidade das interações sociais produzidas na cidade. Nessa perspectiva, Gilberto Velho (2003, p.28-29) elaborou diversos conceitos para o desenvolvimento de uma antropologia das sociedades complexas, entendendo por sociedade complexa a extrema heterogeneidade sociocultural e fragmentação de domínios e esferas de atividades sintetizadas na moderna experiência urbana. Dentre esses conceitos, alguns serão úteis para a presente pesquisa. Campo de possibilidades e projeto “buscam lidar com a problemática da unidade e fragmentação” característicos da sociedade urbana e contemporânea. Campo de possibilidades se liga ao que acontece com as “alternativas construídas do processo sócio-histórico e com o potencial interpretativo 19
do mundo simbólico da cultura”. Já o conceito de projeto liga-se ao nível individual e lida “com a performance, as explorações, o desempenho e as opções, ancoradas em avaliações e definições da realidade” permanentemente negociadas nos diferentes contextos da experiência do sujeito. Na competência de um agente social em mover-se entre o que Velho chamou, seguindo o teórico Alfred Schutz, de províncias de significado, as fronteiras entre essas províncias de significado podem ser tênues e o trânsito entre elas não necessariamente solenes, mas ocorrerem de modo regular e cotidiano. A permanente latência entre essas fronteiras é o chamado potencial de metamorfose do sujeito/ator social formulado pelo autor. Dentro desse contexto de possibilidades e projetos oferecidos pela experiência urbana contemporânea, as escolas de samba produzem suas convenções compartilhadas por toda uma rede de colaboração artística. O termo convenção aqui será tomado na acepção de Howard.S. Becker (1977; 1982) como regras e valores que permitem a cooperação comum em bases parcialmente consensuais dentro de um mundo artístico. É o conhecimento dessas regras que define a participação de cada indivíduo em um setor do mundo artístico. O conceito de convenção estrutura, assim, o consumo e as posições no mundo artístico. A categoria de mundos artísticos poderia por extensão nos ajudar metodologicamente a conceituar a organização das escolas de samba. Tal empreitada demonstrou ser bastante profícua em outros contextos da antropologia urbana, como foi o caso da astrologia (VILHENA, 1990). No carnaval, Cavalcanti (2006, p.153) experimentou-o no contexto das escolas de samba ao examinar o processo coletivo de criação das alegorias, vendo o “barracão constituindo um mundo artístico dentro do qual discute-se a ideia mesma de arte”. 1.1. A cidade de Manaus, o carnaval e as escolas de samba na história. Na cidade de Manaus, as escolas de samba encontraram um terreno fértil de expansão e mesmo lugar de predileção entre as festas populares. O primeiro desfile oficial aconteceu em 1947. Naquele ano, apresentando-se na principal avenida da cidade, a Eduardo Ribeiro, localizada na área urbana central, duas escolas duelaram: A Escola Mixta da Praça 14 e A Voz da Liberdade. Desde então, o crescimento e a expansão das escolas na cidade são verificados não apenas pelo crescente número de escolas e componentes, como também por sua influência na vida de diversos bairros e no rico cenário das festas urbanas. 20
A relação das festas populares com os diferentes bairros urbanos foi abordada em profundidade no estudo de Graça Cordeiro e Antônio Costa sobre a festa anual dos santos populares em Portugal (1999). Neste caso, trata-se de uma festa onde a esfera pública financia, em parceria com associações locais, os arraiais que enfeitam as ruas de um bairro e as marchas populares que concorrem entre si num desfile ritualizado. No argumento dos autores, dessa forma se consolida uma imagem de cidade polarizada em torno de “pequenos núcleos vivenciais, olhados habitualmente como microcosmos residuais de vida comunitária” (op. cit, p.58). Os bairros populares são apontados no mesmo artigo como “representações que integram a própria realidade social da cidade, que os instituiu como um de seus bens patrimoniais mais preciosos” (op.cit, p.59). No caso dos bairros populares de Lisboa, estes surgem como lugares reais e imaginados, onde a ação ou a dominação simbólica se apresentam de forma paradoxal no processo de construção indenitária (op. cit, pp.62). Entretanto, é preciso observar que a diferença entre a festa estudada por esses autores em sua relação com a cidade e a experiência das escolas de samba é que neste último caso a bibliografia é unânime em destacar como há um extravasamento desses pequenos núcleos vivenciais atingindo simbolicamente toda a cidade e até mesmo indo além de seus limites.5 Para investigar a relação da escola e de seus integrantes com o espaço urbano tomamos outra série de categorias encontradas em diferentes autores da antropologia urbana. Através da categoria pedaço proposta e utilizada por José Guilherme Magnani no livro “Festa no Pedaço” (2003) e um conjunto de estudos de pesquisadores6. Nesse livro, Magnani trabalhou com o conceito de pedaço como parte de uma família de categorias terminológicas que inclui ainda as noções de mancha, circuito, trajeto e pórtico desenvolvidas em artigo posterior (MAGNANI, 2002). Inicialmente, o objeto de sua pesquisa era o lazer na periferia de São Paulo com foco no circo como forma de expressão da cultura popular atraente nos bairros de periferia. A entrada e a circulação dos circos pelos bairros envolviam um contexto de negociação e movimentação entre diferentes redes de relações que tinham uma determinada ordem e estavam sujeitas a um
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Dentre as escolas de samba são vários os exemplos deste extravasamento. Problematizando o pertencimento à comunidade da escola de samba carioca Portela, Fábio Pavão (2005) demonstra em sua pesquisa como estes limites extrapolam através da inclusão de outros grupos sociais não pertencentes aos núcleos vivenciais de bairro. 6 O site do laboratório do núcleo de antropologia urbana da Universidade de São Paulo (NAU) disponibiliza algumas destas pesquisas em http://nau.fflch.usp.br
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determinado controle social baseado na oposição “vizinhança/fora da vizinhança". O pedaço era um espaço “intermediário entre o privado e o público onde se desenvolve uma sociabilidade básica mais ampla que a dos laços familiares” (MAGNANI, 2003, p. 116). O autor buscava assim um olhar de cunho etnográfico sobre a cidade, “de perto e de dentro” (MAGNANI, 2002), fundamental para a antropologia na metrópole. Como vimos, o conceito de pedaço revelou-se útil para qualificar o espaço de sociabilidade no contexto da vizinhança, buscando avançar a compreensão de outros padrões de uso do espaço urbano, o autor definiu as manchas, entendidas como áreas contíguas do espaço urbano que, por serem “dotadas de equipamentos que marcam seus limites, viabilizam assim uma atividade ou prática predominante” (MAGNANI, 2002, pp.22). Como as pessoas se movimentam em espaços diferentes e superam as definições anteriores de pedaço e mancha, Magnani acrescentou o conceito de trajeto que se aplica a “fluxos recorrentes no espaço mais abrangente da cidade e no interior das manchas urbanas” (ibid., p.22). Os trajetos seguem de um ponto a outro e ampliam inclusive os pedaços através de pórticos. Os pórticos são apontados por Magnani como “espaços, marcos e vazios na paisagem urbana que configuram passagens”. São dessa forma o lugar da liminaridade sob a perspectivas das outras categorias analíticas – pedaço, trajeto, manchas. Finalmente, chegamos à importante noção de circuito que descreve “o exercício de uma prática por meio de estabelecimentos, equipamentos e espaços que não mantém entre si uma relação de contiguidade espacial, sendo reconhecido em seu conjunto pelos usuários habituais” (ibid, pp.22). Para discutirmos o conceito de espaço e lugar, sendo estes citados aqui, vamos primeiro recorrer a noção de lugar antropológico que Marc Áuge utiliza para posterior mente definir o conceito de não-lugar. Augé (2012) chama de não lugar o espaço de passagem incapaz de dar forma a qualquer tipo de identidade. Já o lugar antropológico é necessariamente criador de identidade e alimenta as relações interpessoais movendo no espaço e tempo estritamente definidos. São dessa forma indenitários, históricos e relacionais: Reservamos o termo “lugar antropológico” àquela construção concreta e simbólica do espaço que não poderia dar conta, somente por ela, das vicissitudes e contradições da vida social, mas à qual se referem todos aqueles a quem ela designa um lugar, por mais humilde e modesto que seja (AUGÉ, 2012, p.51). A noção pode ser trabalhada para nos conduzir a outro tipo de reflexão e sob outra perspectiva como quando tomamos a proposta de Michel Agier em “Antropologia da 22
cidade: lugares, situações e movimentos” (2011). Aqui quase que num movimento congruente a sobreposição que propomos dos conceitos de espaço e lugar temos os lugares próximos do citadino indicados como aquele com os quais “ele se identifica o mais espontaneamente o possível” e será dali que ele retirará sua primeira forma de identidade por mais contíguos que sejam. Movendo-se pelos lugares através de redes, o antropólogo busca “ler a cidade por cima dos ombros dos citadinos e, por indução atingir significados mais abrangentes da cidade na contramão dos não-lugares de Augé” (FRÚGOLI JR, 2007, pp.49). Assim retornamos a busca de espaços de sociabilidade como o fez Heitor Frúgoli Júnior em sua pesquisa sobre shoppings centers em São Paulo entendendo-os não apenas como locais de prática de consumo, mas também de lazer que envolve as redes de sociabilidade em espaços comunicacionais capazes de articular através da interação de grupos e indivíduos a definição e redefinição de identidades (op.cit, p.24-25). Enfocaremos em nossa pesquisa os espaços, lugares e regiões da cidade e suas relações com as agremiações, buscamos investigar os lugares que sustentam a sociabilidades dos atores sociais que participam das escolas de samba na cidade. 1.2. A cidade de Manaus e suas festas Pesquisar escolas de samba na cidade de Manaus nos permite transitar por meios específicos de expressão da sociedade manauara. Temos aqui a oportunidade de investigar a cidade em sua dinâmica através das formas de perpetuação de suas festas e as múltiplas participações e múltiplos planos de representação durante o ano. Esta cidade de 1.646.602 habitantes, segundo dados de 2006 do Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divide-se em 58 bairros. Atualmente, o carnaval das escolas de samba encontra lugar de destaque nas festas desta cidade dividindo o mesmo mês com o carnaboi;7 o Festival de Ópera em abril e maio; o Arraial da Cidade também em maio; o Festival Folclórico do Amazonas8 em junho; o Boi Manaus em outubro e o Amazonas Film Festival em novembro (SILVA, 2011). 7
O carnaboi é a manifestação carnavalesca dos cantores mais populares dos Bois Garantido e Caprichoso em trios elétricos cantando músicas de sucesso dos Bois-bumbás de Parintins. Realizado na segunda-feira ou na terça-feira de carnaval, os foliões ocupam a pista do sambódromo vestindo camisas chamadas de tururi semelhantes ao abadá do carnaval baiano. Tal qual o carnaval de trio-elétrico de Salvador (BA), os tururis permitem ao folião acesso à pista e ao interior das cordas que cercam a proximidades dos trios de respectivos artistas que se apresentam no Sambódromo. 8 No Festival Folclórico do Amazonas se apresentam uma série de grupos das mais diversas manifestações. São grupos de dança russa, indiana, candomblé, quadrilhas juninas de diversos tipos,
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Uma periodização proposta por historiadores e geógrafos marca três grandes períodos na conformação e expansão da cidade de Manaus. O primeiro vai da criação do Forte de São José da Barra do Rio Negro em 1669, marco fundador da cidade e da colonização portuguesa, indo até 1870. O segundo é marcado a partir de 1870 quando a cidade começa a aumentar sua população como consequência da exploração da borracha na Amazônia (BENCHIMOL, 1999). No chamado “ciclo da borracha”, a cidade teve sua estrutura incrementada com ruas pavimentadas, bondes e eletricidade. Uma série de prédios, jardins e monumentos urbanos davam a cidade aspectos comparados, na época, à Europa. Tudo para atender ao incremento populacional que resultou numa população de mais de 20 mil habitantes em 1900. Uma crise no mercado internacional da borracha atingiu a população da cidade que entraria em declínio de 1910 até 1967, sendo este último marcador da entrada no terceiro período. Com a criação da Zona Franca de Manaus, um novo período de expansão demográfica e urbana tem lugar e atingirá seu ápice na década de 1970, porém, tem prosseguimento nos dias atuais (SOUZA, 2009). Com a crise da borracha, alguns dos palacetes passaram a ser encampados pelo estado até em troca de dívidas. A paisagem do presente começa então a ser construída com a abrangência do modelo da Amazônia ocidental implantado pelos governos do regime militar, com ênfase na urbanização industrial. Aqui notamos como a importância das praças foi menosprezada e muitas delas destruídas. Um dos exemplos foi o fechamento do campo da General Osório na região central da cidade. Lá aconteciam as principais partidas de futebol de diversos clubes da cidade. O festival folclórico da cidade também acontecia lá, onde atualmente é o Colégio Militar (OLIVEIRA, 2003). A intensa urbanização tornou agudos alguns dos problemas ditos urbanos. Hoje por exemplo 65% da cidade é resultado de ocupações espontâneas – ações rápidas (ALVES, 2011). A cidade de Manaus é hoje um mosaico de ocupações irregulares que aconteceram e acontecem especialmente nas Zonas Leste e Norte da cidade, as duas principais fronteiras de expansão da cidade. 1.3. Onde o carnaval acontece: o circuito das escolas de samba de Manaus Percorreremos e apresentaremos agora a distribuição geográfica das escolas pesquisadas pela cidade, sua relação com os bairros e as vizinhanças em que se situam e
cirandas de diversos pontos da cidade, entre outros. O ápice de cada noite de festival realizado no Centro Cultural Povos da Amazônia, na Zona Leste da cidade, é a apresentação de cada um dos três bumbás de Manaus: Garanhão, Corre-Campo e Brilhante (SILVA;2011).
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os equipamentos que compõem o circuito do carnaval na cidade como os barracões de preparação de alegorias e o Sambódromo onde desfilam. Para tanto, retomemos o conceito já apresentado de circuito, ou seja, “uma categoria que descreve o exercício de uma prática ou a oferta de determinado serviço por meio de estabelecimentos, equipamentos e espaços que não mantêm entre si uma relação de contiguidade espacial, sendo reconhecido em seu conjunto pelos usuários habituais” (MAGNANI, 2002, p.23). No universo das escolas de samba de Manaus, os locais que organizam e referenciam a rede de circulação dos sambistas são os mesmos das escolas de samba sediadas em outras cidades: a quadra ou sede da escola de samba; seu barracão de alegorias e ateliê de fantasias; e a pista de desfiles. Como peculiaridade das escolas de samba manauaras é preciso recordar a extensão das redes de relações sociais para outras festas da cidade e mesmo de outras cidades, tais como Parintins e Manacapuru que retomaremos detalhadamente mais à frente. Veremos ainda a interseção entre rodas de samba e pagode com as escolas de samba de forma diferente do samba carioca. Finalmente, a presença de redes voluntárias de informação via internet, ou seja, a transposição do meio virtual para o real. 1.3.1. O sambódromo de Manaus: “o maior do Brasil"
Figura 2 - Ilustração gráfica do Sambódromo de Manaus – Arte: Yago Duarte
Os desfiles das escolas de samba manauaras já percorreram alguns locais que atestam seu destaque na vida da cidade: entre 1947 e 1979 ocorreram na Avenida Eduardo Ribeiro, na região central da cidade; posteriormente de 1980 até 1992, na Djalma Batista, na região centro-sul. Em 1993, os desfiles das escolas de samba manauaras chegam ao 25
Centro de Convenções de Manaus, popularmente conhecido como Sambódromo. Construído e idealizado pelo Governo do Estado do Amazonas durante a gestão do governador Gilberto Mestrinho em um projeto de Cesar Ferrage.9 Esta construção, que comporta mais de 100.000 pessoas, expressou o reconhecimento público das escolas de samba na cidade de Manaus. 10 O Centro de Convenções de Manaus, apesar do uso múltiplo para shows, paradas militares, festas religiosas e os já conhecidos eventos dos Bois de Parintins em Manaus, foi construído com a finalidade explícita de abrigar as escolas de samba. Sua localização na zona centro-sul de Manaus, mais precisamente na fronteira entre os bairros da Chapada, Flores e Alvorada, é de fácil acesso já que a região é muito bem atendida pelo transporte público.
Figuras 3A e 3B - O Sambódromo em seus diferentes usos. Na primeira foto durante evento católico (20/05/2013) e ao lado durante evento de um dos bois de Parintins(20/06/2010). Acervo pessoal.
Enfatizando o caráter de sua utilização principal, bem ao lado do sambódromo funciona, desde 2005, a Morada do Samba Luizinho Sá, um espaço similar à Cidade do Samba carioca, um complexo de galpões onde as escolas de samba preparam suas alegorias. A existência e relevância de tal equipamento sugere
reflexão sobre a
importância da fundação do sambódromo no Rio de Janeiro em 1984 na produção de
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Arquiteto e urbanista baiano de 59 anos. Com a reforma do sambódromo carioca, o sambódromo de Manaus permanece o maior em capacidade de público do Brasil comportando 100.000 espectadores. A Passarela Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro vem a seguir com a capacidade de 72.500 espectadores após a reforma que acrescentou novos setores de arquibancada. O sambódromo do Anhembi em São Paulo vem a seguir com capacidade total de 30000 pessoas. 10
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estádios festivos pelo Brasil e em diferentes manifestações.11 Inaugurada em 2005, a Cidade do Samba é um complexo que congrega os espaços de preparação das alegorias das escolas da 1ª divisão do carnaval carioca. Construída com esse fim específico marcou uma significativa transformação no processo de preparação das escolas de samba que antes ocupavam espaços adaptados para tal (BARBIERI, 2008). E a isso se soma a propagação de verdadeiros complexos criados para escolas de samba em outras cidades seguindo o modelo Cidade do samba – sambódromo do Rio de Janeiro.12 Não obstante, outros fatores reforçam a importância dessas escolas de samba relacionadas aos estudos de festas, rituais e os contextos da sociabilidade urbana em Manaus.
Figura 4 - Morada do Samba Luizinho Sá. Acervo Pessoal. - 09/02/2012
Alberto Goyena (2005), ao analisar a construção do sambódromo carioca em 1984, sugeriu a ideia de socialização total. A idealização do sambódromo por Oscar Niemeyer, Leonel Brizola e Darcy Ribeiro articulou “projetos para o Sambódromo permeados de todas as matrizes de direitos sociais e civis” (op.cit, p.59), pois ele funcionaria tanto como teatro-casa dos desfiles carnavalescos no período das férias escolares e como escolas de período integral como no modelo dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEP), realçando o papel de um estado construtivista orientado para a construção da nação e formação de novos cidadãos. Assim também, em Manaus, no
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Bumbódromo em Parintins(AM); Sairódromo em Alter do Chão(PA); Cavalhódromo em Pirenópolis(GO). 12 Alguns desses exemplos encontramos com a Morada do Samba em Cabo Frio (RJ); o Centro de Eventos Populares em Campos (RJ); o Complexo de Porto Seco em Porto Alegre(RS); e recentemente a fundação das Fábricas do Samba próximas à pista de desfiles do Anhembi em São Paulo(SP).
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primeiro andar de cada um dos seis setores de arquibancada, funciona o Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro. Um fato que une estes projetos em direção ao que Goyena chamou de socialização total é o discurso ideológico populista dos políticos implementadores de tais construções, ou seja, Leonel Brizola no Rio de Janeiro e Gilberto Mestrinho no Amazonas. Podemos expandir ainda mais nosso olhar se somar aos exemplos o da arena do Festival de Parintins também no estado do Amazonas inaugurada durante o governo de Amazonino Mendes. Além das diversas atividades fora sua função principal de abrigar os desfiles de escolas de samba, no universo das escolas sua relevância é reforçada por atividades preparatórias dos desfiles. São ensaios de casais de mestre-sala e porta-bandeira, comissões de frente e alas coreografadas sem presença de público. São também os mobilizadores ensaios técnicos realizados na pista de desfiles e que tem papel fundamental na mobilização da cidade para os desfiles como veremos mais à frente. 1.3.2. Hierarquia competitiva das escolas de samba em Manaus Como já indicado, ao longo do ciclo anual carnavalesco, uma escola de samba amplia de modo crescente a sua rede de relações e é essa capacidade, que as torna atraentes para o estudo de como os desfiles absorvem e irradiam os conflitos e as transformações pelos quais passa a cidade que os abriga. Torna-se fundamental nessa direção entendermos o sistema competitivo em que estão imersas as escolas de samba para compreender as relações travadas entre seus componentes. Aqui buscamos entender de que forma as escolas articulam e agregam seus componentes dentro desse sistema. Como são encaradas as derrotas e vitórias dentro do sistema ritual-competitivo no qual estão imersas as escolas de samba? Estas foram as questões que nortearam a elaboração de um quadro clarificador da posição da Acadêmicos do Dendê na pesquisa de mestrado.13 Estando a Acadêmicos do Dendê fora dos grupos das consideradas grandes escolas pelo grande público, sua posição precisava ser explicitada no complexo sistema competitivo das escolas de samba cariocas (BARBIERI, 2012). Como já observou Cavalcanti (2006), o sistema ritual competitivo dos desfiles das escolas de samba no carnaval urbano é um processo dinâmico repleto de movimentos e
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Este quadro atualizado para o carnaval 2016 encontra-se no apêndice II.
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mudanças anuais. Sua natureza competitiva, apesar de permanecer como sua razão de ser, modifica-se através do tempo, acompanhando mudanças externas. Recorreremos então a um quadro de referência a ser utilizado até o final deste trabalho buscando mapear uma hierarquia competitiva das escolas de samba em Manaus. Como fizemos na pesquisa de mestrado, estabeleceremos os grupos a partir do regulamento das entidades de filiação das escolas. A seguir, temos os respectivos dias de desfile de cada grupo, o número de concorrentes dentro deles; e os espaços de preparação das alegorias para os desfiles. Fechando o quadro, apresentamos uma classificação com denominação neutra para as gradações hierárquicas com o objetivo de aproximar esse conjunto de dados à realidade de um leitor não muito familiarizado com os desfiles e com esse sistema. A elaboração de uma classificação neutra se explica pela maleabilidade do sistema de posições dentro da hierarquia da competição entre as escolas de samba. Conforme as entidades de organização dos desfiles se formem ou se dissolvam os nomes das divisões mudam. Grupo
Grupo
Entidade
CEESMA
Local de
Dia de
Participantes
Preparação
Classificação
desfile
Desfile
em 2015
dos desfiles
Neutra
Sambódromo
Sábado
9
Especial Grupo de
Sambódromo
Acesso C
Sexta-
6
feira Sambódromo
Acesso B Grupo de
do
1ª divisão
do
2ª divisão
Samba
Acesso A Grupo de
Morada
Sexta-
sambódromo 6
feira Sambódromo
Quintafeira
Entorno
Entorno
do
3ª divisão
sambódromo 5
Entorno
do
4ª divisão
sambódromo
Cada grupo integra uma divisão e as divisões estão organizadas hierarquicamente seguindo uma classificação ordinal descendente. A princípio, de forma semelhante ao futebol, uma escola de samba começa sua trajetória na base da pirâmide competitiva, ou seja, na última divisão. A hierarquia-competitiva vigente no momento nos dá a dimensão de diversos elementos do carnaval da cidade. Um exemplo está no número de escolas por grupo. Se tomarmos o modelo carioca como comparação, veremos que ocorre aqui uma inversão da pirâmide competitiva. No Rio de Janeiro14 a base é maior com 16 escolas no 14
Conforme verificamos no Apêndice II, atualmente o topo da hierarquia do carnaval carioca é o Grupo Especial, a 1a divisão, que desfila domingo e segunda de carnaval no Sambódromo, centro da cidade. Já o
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último grupo de escolas de samba contra 12 escolas de samba no topo da hierarquia; em Manaus, o número de escolas de samba no último grupo é de 5 escolas contra 9 no topo da hierarquia. Como veremos no último capítulo desta tese, uma das razões para tal é a rivalidade extremada entre as escolas que suscita impasses na definição ou na legitimação dos resultados. Por isso, o topo em determinados momentos acumula um número maior de escolas que não aceitam o rebaixamento de divisão como legitimo. Da mesma forma, um número maior de escolas do que o definido no regulamento pode subir de divisão, especialmente entre as inferiores. Chama a atenção também a indefinição quanto à entidade organizadora dos grupos. Nos chamados grupos de acesso, ou seja, da 2a à 4a divisão do carnaval, a indefinição pode perdurar por muito tempo sendo comum no carnaval de Manaus que uma entidade organizadora em um determinado ano não seja a mesma do ano seguinte. Como vimos no quadro foram 26 escolas desfilando no carnaval 2015. O número de agremiações tem crescido, portanto, de ano a ano. Mesmo com uma estabilização nos últimos anos, verificamos no Gráfico 1-Número de escolas de samba em Manaus este crescimento através da história do carnaval manauara. Gráfico 1 – Número de escolas de samba em Manaus de 1993 a 2016 30 25 20 15 10 5 0
Número de escolas
último grupo do carnaval do Rio de Janeiro é a Série E, a 6a divisão do carnaval, que desfila no sábado seguinte ao carnaval na Estrada Intendente Magalhães em Campinho, Zona Norte da cidade.
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Para ilustração tal fato, escolhemos o período após a inauguração do sambódromo.15 Um dos fatores que definiram o recorte destes dados é o fato de o carnaval local viver entre indefinições sobre escolas de samba ou blocos. Durante o período antecedente à construção do sambódromo, os blocos desfilavam em grande número no centro da cidade, na mesma avenida onde as escolas desfilavam. Após a inauguração do Sambódromo, estes blocos foram mesmo incentivados a se tornarem gradualmente escolas de samba. Em alguns anos neste período, algumas das divisões das escolas de samba retornam à condição de blocos e aqui não fica claro – seja na bibliografia consultada ou no exame de jornais da época – se as agremiações foram obrigadas pelo poder público, pela entidade organizadora da competição ou optaram por uma conversão à categoria de blocos ou escolas de samba. Isto também explica as quedas nos números de escolas em 2001 e 2012. Poríamos ter um crescimento ainda maior, bem como a consequente expansão de escolas de samba pela cidade, não fosse a falta de um critério claro no nascimento ou extinção destas escolas de samba, ou seja, um critério para entrada ou saídas de escolas de samba desta hierarquia competitiva. No carnaval carioca existem portas de entrada para uma agremiação desfilar ainda que sem subvenção pública para sua aprovação como escola de samba como ocorria no antigo grupo de avaliação ou no atual Grupo E. Por outro lado, no Rio de Janeiro uma escola de samba pode “enrolar a bandeira” e deixar de desfilar se licenciando na Associação que está filiada ou sendo rebaixada do último nível sem ter condições para desfilar no ano seguinte. Em 2011, assisti a tentativa de criação de uma nova agremiação, a Acadêmicos do Planalto, localizada no bairro da Alvorada. Houve mobilização, mas o Planalto não foi aceito entre as escolas de samba que desfilariam no Sambódromo e no carnaval de 2012 a escola desfilou apenas nas ruas do bairro. No mesmo 2012, uma escola licenciada ligada ao clube de futebol tradicional da cidade, a Acadêmicos do Rio Negro tentou retornar após dois anos sem desfilar. Apesar de ter anunciado samba e enredo, a escola não desfilou. Em 2014, a Mocidade de Ipixuna sofreu com o falecimento de seu presidente Ipujucan Gomes há menos de dois dias do desfile. Com o baque da perda da liderança seus componentes optaram pelo licenciamento da escola que desfilaria novamente em 2015. 15
A opção pelo corte a partir da fundação do Sambódromo de Manaus também se deve à pouca disponibilidade de material sobre o número de escolas de samba nos anteriores à década de 1970.
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Em todos os anos, a última colocada da 4a divisão desfilaria no ano seguinte sem sofrer qualquer tipo de sanção, o que explica o parco e incidental recuo no número de escolas de samba em alguns anos bem como a estabilidade no número de escolas de samba na última divisão. Apesar de todos os elementos que, como veremos ao longo deste trabalho, apontam para uma crise no modelo de organização do carnaval das escolas de samba por parte do poder público, as escolas de samba têm capacidade de mobilizar a cidade em torno de sua disputa, seu circuito e sua rede. E esta rede de relações sociais se expande pelos mais diferentes espaços da cidade. 1.3.3. Percorrendo a cidade através da distribuição geográfica das escolas de samba em Manaus. Descobri a riqueza do universo das escolas de samba de Manaus caminhando e me envolvendo com a cidade. Um envolvimento que vai muito além do supérfluo ouvir um samba, assistir um dia de desfiles. Por não ter nascido nem ter vivido anteriormente na cidade, pensava ser necessário acostumar-me com a cidade e depois tentar entendê-la. Dada a relação dialógica evocada pelo encontro etnográfico, como coloca Roberto Cardoso de Oliveira (2000), capaz de apreender o excedente de sentido que foge a outras metodologias, a antropologia é uma disciplina peculiar. Junto a Cardoso de Oliveira (op. cit.), Roberto Da Matta (1991) contribui para o referencial teórico-metodológico desta pesquisa. Para ele, na antropologia o paradigma hermenêutico da relação sujeito/objeto deve ser compreendido por meio da lógica da aproximação/interação, pois, compartilhamos - investigador/investigado - “o mesmo universo de experiências humanas" (Da Matta,1991, p.23). Seguindo a perspectiva de uma observação etnográfica de perto e de dentro (Magnani, 2002), que leva em consideração os atores sociais envolvidos e dos significados por eles atribuídos aos processos sociais que vivenciam, passei a percorrer a rede das escolas de samba em Manaus. Busquei verificar como elas efetuam transações internas que movimentam e afetam a metrópole como um todo. Para tanto, foram muitas minhas participações em eventos no sentido de uma observação participante (FooteWhyte, 2005). Mais do que isso, retomamos o método de observação do familiar já apresentado anteriormente, levando em conta a complexidade da cidade e descontinuidades dos mundos dos citadinos por mais próximos que residam (VELHO, 2013). 32
Foi preciso percorrer, respirar a cidade em seus meandros. Conviver com os problemas de Manaus e seus dilemas. Circular pela cidade captando as particularidades que faziam sentido para os sambistas de Manaus, independente de serem eles nascidos ou não na cidade. Foi assim que passei a flanar em meu cotidiano pelo centro. Da casa em que morei no bairro da Chapada, bem próximo ao sambódromo de Manaus no centro da cidade para as pesquisas em periódicos na biblioteca estadual, os cursos no Programa de PósGraduação em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mesmo para apenas apreciar o movimento e aguardar o ensaio ou evento que alguma escola de samba propunha durante a noite. Visitei todas as escolas de samba que passaram pelo Grupo Especial, mesmo as que não têm papel central nesta pesquisa. Para percorrer este circuito foi preciso flanar, caminhar despretensiosamente atento a cada peculiaridade da cidade. Fiz isso seguindo os passos de João do Rio: “Flanar é a distinção de perambular com inteligência” (1997, p.51). Já inspirado por João do Rio desde a graduação, a possibilidade de circular pela cidade construindo um caleidoscópio de experiências etnográficas baseadas nesta inspiração foi ainda mais entusiasmante. Através da experiência perambulante assim como apontou Julia O’ Donnel (2008), buscando possibilidade da etnografia na metrópole ligada às experiências que também seguem a linha de Robert Park (1987), pensando a cidade e as questões dos metropolitanos com as ideias de Simmel (1987) em mente.
Mapa 1 e Apêndice III - Distribuição geográfica das escolas de samba do Grupo Especial de Manaus entre 20122016
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As escolas de samba são agremiações que criam uma grande ligação simbólica e afetiva dos moradores e torcedores com os bairros onde estão sediadas. Ainda que os torcedores e componentes não sejam necessariamente moradores do bairro, passamos a identificar marcas das regiões da cidade através da circulação dos sambistas pelas quadras. Essa identificação vai além do nome estampado em suas bandeiras, pois mesmo aquelas que não fazem menção ao nome do bairro criam a mesma identificação dos torcedores com o bairro que as sedia. Tal processo de associação simbólica será analisado nos capítulos 2 e 3 desta tese. O importante no momento é destacarmos a localização das sedes das escolas de samba e o circuito existente entre elas no contexto do universo das escolas de samba em Manaus. Antes de iniciarmos tal análise, convém lembrar que escolhemos como recorte apenas as escolas que fizeram parte do Grupo Especial no período pesquisado delimitado entre os anos de 2012 e 2016. Propomos a tomar essas escolas como fio condutor de nossa abordagem do carnaval da cidade. Assim, apesar de as escolas de samba dos grupos de acesso serem importantes, elas merecerão um olhar detalhado apenas no quarto capítulo desta tese. Tomando o mapa 2, que focaliza em detalhes a região central da cidade, vemos que a maior parte das escolas se concentra nas regiões Centro-sul, Centro e Sul.16 A explicação para tal concentração vem do fato de que essas regiões demarcam o espaço de ocupação inicial da cidade até a década de 1970. A isso relaciona-se a proximidade das escolas com a primeira pista de desfiles localizada na Avenida Eduardo Ribeiro.
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São elas Primos da Ilha(bairro São Francisco), Andanças de Ciganos(Cachoeirinha), Balaku Blaku(centro), Vitória Régia (Praça 14 de Janeiro), Aparecida(bairro Nossa Senhora de Aparecida), Reino Unido (Morro da Liberdade), Presidente Vargas (bairro Presidente Vargas ou Matinha) e Império da Kamélia (bairro São Geraldo).
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Mapa 2 - Escolas de Samba com a localização da Avenida Eduardo Ribeiro.
As escolas mais distantes do centro são as mais novas – A Grande Família,17 Mocidade do Coroado18 e Unidos da Alvorada19 - exceção feita à Sem Compromisso, que já teve sua sede em diferentes locais, fixando-se apenas em 2014 no bairro mais distante do centro de Manaus, o bairro Nova Cidade. A mudança de sede da Sem Compromisso, sacramentada apenas em 2013, teve como proposito declarado a exploração de um novo bairro, sem representantes na 1a divisão. Esse era o discurso declarado de seu vicepresidente, por exemplo: Havia a necessidade de buscarmos uma comunidade que tivesse uma identificação com a cidade. A princípio buscamos o centro da cidade, mas era uma região muito aglomerada naquele momento com Aparecida, Vitória Régia (...) A Sem Compromisso ela precisava de uma comunidade forte. Nós precisávamos de povo e no centro não daria. Fomos para o Lírio do Vale, para a Vila da Prata e nestes lugares enfrentamos dificuldades. Agora na Zona Norte com a Nova Cidade, com a Cidade Nova, com os bairros periféricos, agora sim. Agora nós vamos ter o povo, uma massa gigantesca. Vamos fazer um intercâmbio com as danças, com o esporte do bairro. Vamos fazer um trabalho social e cultural lá. Vamos contar com o apoio da população. Já estamos tendo esse apoio para descermos mais fortes esse ano, ano que vem. (entrevista com Getúlio Lobo, vice-presidente da Sem Compromisso – entrevista no barracão da escola em 4 de fevereiro de 2013) 17
Fundada no bairro São José Operário (Zona Leste) em 1986. Fundada no bairro do Coroado (Zona Leste) em 1988. 19 Fundada no bairro da Alvorada (Zona Centro-oeste) em 1995. 18
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Tal distribuição das escolas tem ligação de escolas de fundação mais recentes com os bairros mais populosos e frentes novas de expansão da cidade. Pois se os bairros das regiões Sul e Centro têm dimensões reduzidas, as ocupações mais recentes nas zonas Leste, Oeste e Norte de Manaus são bem mais populosas o que cria uma identificação prévia entre os torcedores, ainda que não seja obrigatória. As modificações, os deslocamentos históricos na cidade explicam também a perda de torcedores de algumas escolas. São exemplos os casos de urbanização e retirada das casas flutuantes e das palafitas através de projetos como o Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (PROSAMIM). A escola de samba Balaku Blaku localizada bem ao lado de uma das áreas pioneiras deste projeto foi uma das que perderam muitos torcedores depois do deslocamento populacional para outras áreas da cidade de antigos moradores do centro: Não sei se você conhece aqui a região, mas isso aqui em frente onde agora é o parque e tá tudo urbanizado eram casas flutuantes. Há coisa de 4 anos que já fez essa modificação. Fizeram a revitalização da região. Isso tirou muita gente. Nós perdemos muita gente. Até as pessoas que moravam aqui virou muita empresa aqui, prédios comerciais. A área do centro residencial praticamente acabou. (...). Hoje em dia nossa comunidade mais forte é ali Ramos Ferreira, Ipixuna. (Armando, fundador da Balaku Blaku – entrevista em 19/01/2014) Consequentemente, como veremos, as contradições e as questões que afetam os bairros vão se refletir nas escolas de samba. Cito outro breve exemplo. Até aqui lemos várias menções a estas zonas sem que elas fossem apresentadas, e é isso que faremos no mapa a seguir:
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Mapa 3 - Distribuição zonal da cidade de Manaus – Fonte: Prefeitura Municipal de Manaus. 2013.
No discurso do presidente da escola de samba A Grande Família, por exemplo, que sempre relaciona as dificuldades a que estão sujeitos os moradores da região àquelas vividas no desfile, o pertencimento a escola vincula-se à Zona Leste da cidade. Potencializa-se, assim, a importância da identificação entre os moradores do bairro e a escola de samba: Quem mora na Zona Leste sabe o que é falta de luz e falta de água. Nós já desfilamos no escuro para um sambódromo inteiro. E agora vamos desfilar embaixo de chuva. E vamos nos superar pois são bênçãos de Deus! (Discurso do presidente Gilberto Andrade no desfile da A Grande Família – 01/03/2014) Ao percorrer as escolas, percorremos necessariamente os diferentes bairros com suas peculiaridades e identidades características no imaginário social urbano. Podemos sair do bairro São José Operário, onde está A Grande Família em direção ao centro da cidade, onde está a Balaku Blaku. Uma escola que foi batizada graças aos dizeres incompreensíveis de um antigo personagem do bairro onde está sediada, o Alemão, da Rua Lima Bacuri como nos explica um dos fundadores da escola, Manoel: 37
O que muita gente pode ligar a uma onomatopeia ligada ao som do batuque do samba na verdade é uma palavra inventada por um doido pitoresco da região, conhecido por Alemão da Lima Bacuri. Ele dormia em um "camburão desse de 200l e acabou até morrendo dentro desse camburão de água vazio dentro da quadra. Quando passava aqui na frente da quadra ele gritava: "iscachim balaku blaku pega na pele do meu saco e joga dentro do seu buraco”. E ele também gritava "Tá chegando" quando a gente perguntava "quem tá chegando?" Ele respondia "macacatumbia". Ninguém nunca soube o que era balaku blaku. Até pesquisamos mas nunca achamos. Nem macacatumbia nada disso. (Manuel, fundador da Balaku Blaku – 19/01/2014) Naqueles idos dos anos 60 a Balaku ainda era batucada20 e o primeiro enredo segundo eles foi justamente o Alemão da Lima Bacuri. Seguiremos neste trabalho a busca por elementos que marquem esta ligação da simbolização assumida pelas escolas com o cotidiano citadino dos bairros que as sediam. 1.4. As rodas de samba e o universo das escolas de samba em Manaus. Salles (2008) relata que, em 1938, um folião chamado Cândido Geremias, o Kandú adquiriu em um bazar do centro de Manaus uma boneca negra vestida de baiana no estilo das que vemos no carnaval de Olinda. Depois de levar a boneca para a rua, ela foi rapidamente reverenciada como um dos símbolos do carnaval de Manaus. Era um período em que os bailes de clubes tinham destaque no carnaval e o Olímpico Clube acabara de ser fundado pelo mesmo Kandú, localizado no bairro da Chapada, zona centrosul de Manaus, logo adotou a novidade em seus bailes. Já em 1939 a boneca era festejada no clube onde ganhou brincos nas cores dos 5 aros do brasão do Olímpico. Desfilava ainda pelas ruas apoiada no galho de uma Ingazeira ao som da marcha “Jardineira”, de onde veio a inspiração para seu nome. A Aclamação da boneca na cidade era tanta que, em 1958, a Kamélia passou a receber a chave da cidade das mãos do prefeito, simbolizando assim a abertura do carnaval. Todos os anos, o rito que abre oficialmente o carnaval de Manaus é a chegada da Kamélia no Aeroporto, onde é recepcionada por representantes de todas as escolas de samba, pela corte do carnaval - composta pelo Rei Momo, Rainha do carnaval, Passista de ouro e Mulata de ouro - e pelo prefeito. De lá 20
Categoria extinta do carnaval manauara em que concorriam apenas o mérito rítmico e empolgação das baterias que arrastavam grandes contingentes como os blocos até os anos 1980.
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partem em carreata para a sede do Olímpico clube, de onde Kamélia só sai para a abertura do carnaval no sambódromo. A escola de samba surgiu bem depois, em 2003, por iniciativa da diretoria do próprio Olímpico Clube. No entanto, foi apenas em 2006 que a escola Império da Kamélia desfilou no sambódromo de Manaus terminando na sétima colocação da 3a divisão do carnaval de Manaus.
Figura 5 - A Kamélia recebendo chave simbólica da cidade do prefeito Arthur Virgílio - Foto de Mauro Oliveira – 2014
A sede é a mesma do Olímpico Clube na Avenida Constantino Nery, zona CentroSul de Manaus. Ali acontece uma tradicional roda de samba, o Botequim da Kamélia. Além das rodas de samba semanais, ali acontecem também a escolha da corte do carnaval de Manaus. Trata-se de um espaço festivo movimentado o ano todo. O clube Olímpico onde localiza-se a escola está encravada num ponto central e bem movimentado da cidade. O botequim da Kamélia não é uma exclusividade na cidade. Ao contrário, durante todo o ano é possível ver anúncios de rodas de samba e pagodes em Manaus. Ele nem mesmo pode ser considerado o mais antigo. Neste quesito perde para o Pagode da Resistência, promovido pelo Reino Unido da Liberdade todos os sábados, começando já no primeiro após o carnaval. As rodas de samba e pagode são dos mais diferentes estilos e para todos os gostos. Aquelas promovidas pelas escolas de samba atraem um público mais ligado a elas como as da Reino Unido, Império da Kamélia e a da Aparecida no Botequim da Pareca. Antes de cada ensaio de escola de samba ocorre um pagode e uma infinidade de grupos que raramente se repetem se apresentam. Na Alvorada e na Presidente Vargas, o Grupo 39
Samba.com animava as aberturas das noites de concurso para escolha do samba de enredo para o carnaval. Havia rodas de samba mais espontâneas como as da confraternização de final de ano na Presidente Vargas comandada por Fred do Cavaco. Na Aparecida, além do intérprete da escola Wilsinho de Cima, também eram atração corriqueira o grupo Vem K Sambar. E assim segue. Muitas dessas rodas e eventos de samba contratam cantores e grupos cariocas famosos em edições especiais, com a presença de nomes como Jorge Aragão e Sombrinha. Nunca é demais lembrar das feijoadas21 que em alguns casos nem são promovidas por escolas de samba mas têm cantores de samba famosos entre seus convidados como Andrezinho da Mocidade e Dudu Nobre. São vários os grupos de samba e pagode divulgados ou promovidos durante o ano nas rádios locais. A rádio que tradicionalmente transmite os desfiles, a Difusora, é uma das que mais tocam samba na sua programação. Além de promover pagodes pela cidade, a Difusora também transmite e promove eventos de Boi-Bumbá. Há ainda programas na Rádio Amazonas e A Crítica. Os colegas da pós-graduação da UFAM frequentavam a roda de samba que acontece no Bar Caldeira, no centro da cidade, que revelou um dos principais nomes do samba local, Júnior Duarte. O samba no Bar Caldeira era transmitido por uma webrádio22, a AfroBaré. Acabei conhecendo depois pela internet o promotor desta rádio, Lucemir Santos. O agente de turismo e músico amador Lucemir também se apresentava com o nome artístico Lú Monterrey. Participa de grupos de pagode que tocam nas rodas de samba e bares da cidade de Manaus. Para divulgar seu trabalho artístico e de seus colegas, criou a webrádio. Ele me convidou para participar de seu programa, Samba 100 preconceito, após ler um dos meus posts no blog.23 Foi uma experiência rica para um panorama do samba em Manaus. A rádio funciona na casa do próprio Lucemir. A casa fica no bairro Planalto, próximo da Alvorada e Lírio do Vale. Um típico bairro da periferia de Manaus. A localidade é conhecida como Conjunto Belvedere e, tal qual o nome diz, divide as casas em quadras e não necessariamente ruas. A casa é simples. Na sala de Lucemir funciona
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As feijoadas nas escolas de samba são importantes espaços de sociabilidade. Nelas são ritualizadas a comensalidade festivas dos espaços carnavalescos. Através das festas regadas a feijoadas o passado é reconstruído em escolas antigas do Rio de Janeiro como a Portela (ERICEIRA; 2009) 22 Rádio que funciona apenas através do sistema de transmissão via internet. 23 Mantive um blog pessoal ativo durante esta pesquisa onde boa parte do material de campo era divulgado no endereço www.delezclube.com.
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o estúdio improvisado que na ocasião recebia a minha esposa, a mim, ao grupo de pagode Opção e ao Ogã Modesto, outro músico de um grupo de samba e apresentador da rádio, Lá estava também Eduardo apresentador do programa mas sobre ele soube pouco.
Figura 6 - Grupo Opção na rádio AfroBaré. Foto de Taynah Pinheiro.12/02/2014
Lucemir, como já dissemos, também tem um grupo de pagode, além de organizar outras rodas de samba pela cidade. A rádio acaba dessa forma tornando-se veículo de publicidade de seus eventos. Simultaneamente, ele abre espaço para eventos de outros grupos associados à sua rede não só através da apresentação no seu programa como na participação de seus eventos. O conceito da rádio fica bem claro no seu nome: AfroBaré. Ali também fica clara a rede estruturada por Lucemir, que se apoia além das rodas de samba e grupos de pagode associados que têm ligação com casas religiosas. Interessante notar que, além da tentativa de uma organização em rede do samba, há também uma tentativa de união de sambistas buscando espaço na cidade. O líder do grupo de pagode Opção, Ray, mencionou em sua participação no programa de rádio o forró como exemplo de sucesso na cidade. Desse exemplo, veio a ideia do empreendimento de Ray, uma casa de samba, o Pé-de-samba. A conversa durante o programa evolui e se discutem editais públicos, pouco incentivo ao samba até chegar a conclusão de que os próprios sambistas não sabem se adequar ou se informar sobre editais. Frisam que na última gestão, a ManausCult24 tem se mostrado parceira dos projetos de samba na cidade.
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Secretaria de cultura da cidade de Manaus.
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Uma das reclamações de Ray diz respeito ao maior evento de samba da cidade, o Samba Manaus. Realizado no sambódromo em um final de semana entre setembro e outubro, ele congrega milhares de pessoas todos os anos no formato de um festival com diversas bandas e grupos se apresentando em três noites. As atrações são bem conhecidas como grupos Só Pra Contrariar, Raça Negra, Neguinho da Beija-Flor, Pixote, Revelação e outros. Os ingressos são relativamente caros, o mais barato 120 reais por noite. Por alguns anos, os shows de abertura de cada noite eram de um grupo de pagode local. A reclamação de Ray é que essa iniciativa foi abandonada pela empresa produtora do evento: Era um incentivo o grupo tocar no Samba Manaus não só pelo cachê, mas pela notoriedade.
Figura 7 - Samba Manaus. Foto de Alcides Cordova Neto. 2009.
Há em Manaus um circuito de eventos que movimenta os sambistas durante todo o ano. Tal qual acontece no circuito das rodas de samba e bailes black em São Paulo (MACEDO, 2007). Ainda que de forma independente do circuito das escolas de samba há interseções que justificam esta apresentação ainda que sucinta dos espaços de sociabilidade das rodas de samba e pagode. 1.5. Redes sociais virtuais e reais no carnaval de Manaus As formas de informação sobre os desfiles das escolas de samba são razoavelmente limitadas em se tratando da mídia tradicional. São presenças constantes e sempre lembradas as rádios Difusora de Manaus, Amazonas FM e o grupo de mídia que
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detiver o direito de transmissão dos desfiles do Grupo Especial no carnaval em questão.25 Fora isso são poucos os veículos que acompanham o cotidiano e a preparação das escolas de samba em Manaus. No Rio de Janeiro, após o advento dos sites especializados independentes que acompanham o cotidiano das escolas de samba o ano inteiro, vários jornais de grande circulação passaram a manter blogs e portais de cobertura exclusiva das escolas de samba. A ressalva fica por conta da proximidade do carnaval. Faltando duas semanas o assunto de forma natural toma conta dos principais veículos de comunicação da cidade. Verdade que ainda são poucos os espaços que tocam os sambas de enredo das escolas de samba. Na programação das rádios alguns poucos radialistas valorizam as escolas de samba e levam seus componentes para os programas26 reconhecidos e festejados pelas escolas. Na televisão, a cobertura dos ensaios na programação local tem enfoque predominante nas personalidades, deixando de lado o caráter coletivo e competitivo dos desfiles que os sambistas locais tanto prezam. Nos jornais até as duas semanas anteriores ao desfile a linha segue a mesma da TV. Mesmo assim as escolas fazem enorme esforço para divulgação de seus eventos, de suas festas. As escolas da 1a divisão, em sua totalidade mantêm um diretor de comunicação ou assessor de imprensa. O sambista, porém, tem sede de informação. Quer saber o que está acontecendo na sua escola. Quer ver o nome da sua escola em todos os lugares pois sabe que assim aumentam as possibilidades de seu nome ser divulgado também. São saudosos de um tempo em que as notícias sobre as escolas de samba tinham presença constante nos principais jornais da cidade logo depois dos festejos do Boi Bumbá de Parintins.27 Na ausência dos principais grupos de mídia local, grupos se formam na internet em redes colaborativas de informação diariamente alimentadas pelos próprios sambistas da cidade. Recordo aqui que o primeiro contato desta pesquisa foi com um carioca morador de Manaus através da rede mundial. Logo a seguir entrei em contato com dois 25
O contrato é renovado anualmente e atualmente o grupo de mídia local que detém os direitos de transmissão é a Rede Calderaro de Comunicação, dona de uma afiliada da Rede Record em Manaus, a TV A Crítica. Por outro lado, durante todos os três carnavais etnografados nesta pesquisa, a dententoras dos direitos de transmissão dos desfiles das escolas de samba foi a TV Tiradentes. 26 Há uma dezena de programas que tocam sambas de enredo e veiculam noticias sobre as escolas de samba de Manaus na Rádio Difusora do Amazonas, especialmente os ancorados por Elieide Menezes, Orlando Camara e Fabricio Nascimento. Na rádio Amazonas FM, o radialista Patrick Mota recebia sambistas das escolas de samba em seu programa aos domingos. Atualmente a Rádio A Crítica também tem alguns programas sobre samba e carnaval. 27 Fato que constatei em pesquisa com antigos periódicos, especialmente a partir dos anos 1980, no acervo da Biblioteca Pública do Amazonas, no centro de Manaus.
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sambistas da Reino Unido – Bosco Saraíva e Jorge Halen - que naquele momento administravam um grande portal de informações das escolas, o Manaus Samba. Também vale registrar o autor do único trabalho sobre a história do carnaval de Manaus, Daniel Sales, outro que manteve um site com dados sobre a história dos desfiles na internet e que atualmente alimenta a plataforma aberta Wikipedia com informações nos verbetes relacionados ao carnaval de Manaus. Finalmente se deu meu encontro com um grupo de sambistas que se agrupavam, dentro de uma rede social, em uma comunidade chamada Carnaval de Manaus - Especial. Esta mesma que logo depois veio a cindir e formar o grupo Amigos do Carnaval de Manaus. A comunicação em espaços virtuais transborda para espaços comunicacionais ou como apresentado por Raquel Recuero (2012) pequenas conversações mediadas pelo computador e através das redes sociais e das características da mediação das inicio a grandes debates. Para ela “a conversação é uma apropriação das ferramentas digitais, onde limitações são criativamente suplantadas e novos usos emergem da coletividade” (op.cit, p.216). Os usos destas redes e ferramentas por grupos específicos ligados às escolas de samba em outros trabalhos e diferentes escolas de samba como foi o caso da Portela (ERICEIRA, 2009) ou do Acadêmicos do Salgueiro (NATAL, 2014). O grupo é um espaço restrito a membros, mas aberto a associação para os que fazem parte da rede social Facebook. Lá são postadas por qualquer membro fotos, vídeos e notícias sobre as escolas de samba de Manaus. Funciona por meio de tópicos que são desdobrados em discussões subsequentes nos comentários de outros membros. Vez por outra são postados tópicos sobre escolas de samba do Rio de Janeiro que entram na cota do que é chamado pelos membros de off-topic. Para coibir a proliferação de tópicos não relacionados ao carnaval de Manaus ou propagandas de produtos variados, um grupo de coordenadores controla as postagens no grupo. São estes mesmos coordenadores28 os responsáveis pela produção da maior parte do conteúdo relacionado aos eventos das escolas de samba no grupo. Como parte da dinâmica do grupo eram promovidos encontros dos membros em algum espaço público da cidade, fora das quadras ou até mesmo fora do período de preparação para o carnaval. Isto dava um caráter neutro aos espaços de sociabilidade do grupo, ou seja, sem tomar partido por determinada escola. O encontro servia para que os
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São coordenadores do grupo atualmente: Josevaldo Souza, técnico de segurança do trabalho, 37 anos; Karlão Xavier, tecnólogo em Petróleo e Gás, 46 anos; Janner Alves, professor de educação física, 31 anos; Orlando Camara, radialista; Luciano Bittencourt, chefe de cozinha, 35 anos.
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membros se conhecessem. Era uma forma de entrada, inclusive de muitos no universo das escolas de samba. Dali sairiam alianças que levariam carnavalescos para o reconhecimento, compositores para suas futuras parcerias entre outros. Neste ponto o caráter do grupo se aproxima ao das escolas de samba virtuais como porta de entrada no universo das escolas de samba cariocas e paulistanas.29 Participei de alguns encontros do grupo ainda em tempos que se chamava Carnaval de Manaus-Especial. Um desses encontros foi marcado para uma tarde de sábado em meados de julho de 2013 no Plaza Shopping, na Avenida Djalma Batista, Zona Centro-Oeste de Manaus. A reunião estava marcada para as 15 horas e chegamos com um pequeno atraso de 30 minutos. Ainda assim, fomos os primeiros a chegar. Sentamos na praça e aguardamos mais uns 10 minutos até avistar Josevaldo. Josevaldo Souza era um dos coordenadores do grupo ao lado de Janner Alves, Adeilson Passos, Thyago Bezerra e Luciano Bitencourt. Josevaldo é um entusiasta das escolas de samba guardando um vasto arquivo com vídeos e sambas. Sambas estes que servem inclusive aos programas de rádio que produz junto com o grupo de coordenadores na rádio ManausNet. Pouco depois chegaram membros do grupo como Glauco Soares, Rebelo, Miguel e o coordenador Thyago. A conversa, como ocorre geralmente nos encontros, segundo o Josevaldo, é marcada pela lembrança de antigos carnavais e os assuntos que no momento estão em voga no carnaval de Manaus. Mas houve espaço para discussões sobre o Boi de Parintins e o carnaval do Rio. Um dos pontos interessantes foi uma discussão suscitada pelos enredos divulgados até então em Manaus. Trataram da qualidade dos sambas no carnaval anterior com a conversa carregada no tom crítico. Passaram para as questões de harmonia e evolução de uma escola especificamente, que foi bastante criticada e concluíram com o merecimento do título da Mocidade de Aparecida no resultado final do ano anterior, 2013. O protagonismo da Aparecida no carnaval de Manaus se revela na frase de Josevaldo vinda em meio a uma profusão de recordações de antigos desfiles.: Todos esperam a Aparecida, os que são contra principalmente. Logo a seguir passaram a discutir a saída de uma das porta-bandeiras anunciada pela própria nas redes sociais alguns dias antes. A pauta passou a ser a escola de samba
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Dois artigos trazem breve etnografia sobre as escolas de samba virtuais e seu funcionamento. O primeiro de Ana Maria Alvarenga e Isabela Frade (2011). O segundo mais recente de Leonardo Bora (2015), que inclusive percorreu este trajeto do mundo do carnaval virtual para o universo das escolas de samba cariocas atuando como carnavalesco da Acadêmicos do Sossego e prestando serviço para a comissão de carnaval da Beija-Flor de Nilópolis. O artigo deste último descreve inclusive esta sua trajetória traçando paralelos com outros companheiros de folia
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Reino Unido da Liberdade. Alguns criticavam, outros apoiavam. Um dos membros foi contundente ao condenar o bairrismo da escola do Reino Unido da Liberdade. A parte final do encontro tratou dos Bois de Parintins, por um longo tempo por sinal, e os presentes rememoravam alegorias dos festivais passado e as comparavam com o último. Compararam também a transmissão televisa do festival e a transmissão do carnaval local.
Figura 8 - Encontro do grupo Carnaval de Manaus Especial no Manaus Plaza Shopping. Foto de Taynah Pinheiro. Julho de 2013.
Encontramo-nos também no dia da entrevista no programa Abre-Alas da webrádio ManausNet, comandado pelos coordenadores do grupo Carnaval de Manaus no Facebook. Eu participei na condição de convidado. O caminho foi longo até o estúdio improvisado pelos meninos no bairro Nova Floresta, zona Leste da cidade. Até lá são aproximadamente 12 quilômetros de distância do local onde eu morava. Levamos uns 40 minutos de carro para chegar no ponto de encontro marcado por Adeilson. Depois de encontrarmos com Adeilson, Josevaldo e a outra convidada do programa, Carol Sá (porta-bandeira da Mocidade de Aparecida), rumamos para o estúdio improvisado na casa de Luciano. A casa simples funciona também como restaurante e café da manhã. O ponto de referência é um dos vários pontos de moto-taxi instalados nas periferias de Manaus. Na mesa de som, já testando todos os equipamentos, estava Thiago, outro coordenador do grupo. Assim o único coordenador que não marcou presença foi Janner. Apesar da estrutura aparentemente amadora, os coordenadores fazem questão de manter a organização no roteiro do programa. Eu não só recebi antecipadamente as 46
questões como, chegando lá, recebi um roteiro completo do programa com as questões elaboradas para a outra convidada. Antes do início, conversamos descontraidamente sobre outros assuntos, predominantemente casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Carol referia-se à Aparecida como uma escola que cobra muito do componente. A questão da disciplina é expandida para outras escolas e disciplina parece ganhar outra forma nas palavras de Carol: Em Manaus o casal tem que honrar o pavilhão. Inicialmente, fiquei confuso com o significado da honra ao pavilhão, mas ouvindo um pouco mais a Carol e sua mãe Ana Maria, entendemos o que isso significa: "Para dançar na Aparecida, tem que ser Aparecida". Na sua concepção é preciso adesão declarada em palavras e ações ao longo do tempo a sua escola. Curioso por ser ela formada em outra escola de samba. O programa com audiência média de 130 pessoas, fecha o primeiro bloco onde são apresentados sambas concorrentes da Alvorada e o samba vencedor da Vitória Régia com 70 ouvintes, marca comemorada por Adeilson. Respondi a cinco perguntas que tratavam entre outras coisas de minha pesquisa e de minha trajetória no carnaval. Encerrada a entrevista, o bloco seguinte foi com a outra convidada Carol Sá. Bem sucinta em suas respostas, ela contou detalhes de seu início de carreira, quando ainda criança saiu de porta-estandarte no boizinho da escola onde estudava e tornou-se depois portabandeira mirim da Vitória Régia. Interessante notar como a questão é encarada de forma delicada já que ela veio da escola arquirrival da Aparecida. O tempo todo ela faz questão de frisar que hoje é Aparecida. Encerra a entrevista falando sobre a polêmica troca de mestre-sala na Aparecida no carnaval 2013, a três dias do desfile. Segundo ela, o mestresala Dinho, não conseguiu acompanhar o ritmo da escola. Encerrado o programa fizemos uma rápida confraternização com um lanche oferecido pelo cordial anfitrião, Luciano. Neste momento, Ana Maria, mãe de Carol se aproximou tentando desenhar uma rede de conhecidos em comum que teríamos no carnaval do Rio. Já tinha lido no organograma oficial de desfile da Aparecida em 2009 que Carol se dedicava a cursos de reciclagem na escolinha de Manoel Dionísio.30 Sua mãe reforça que Carol teve aulas com Lucinha Nobre e que seu bailar se destacava dos demais casais em Manaus por conta dessa formação, segundo ela uma "dança mais
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O trabalho da escolinha de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, da qual Carol Sá faz parte, foi etnografado por Renata Gonçalves (2010). A ampla rede de formação de casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira na dança nobre do carnaval formada pelo mestre Manoel Dionísio, demonstrando sua amplitude alcançando Manaus.
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singela" que a dos outros casais de Manaus. Os netos de dona Ana inclusive frequentavam sempre que possível a escolinha e formavam o casal mirim da Aparecida. Alguns outros encontros se sucederam. Eu participaria ainda de um amigo oculto entre alguns dos membros do grupo, realizado em uma pizzaria do Largo São Sebastião, no centro da cidade. Este seria o último evento do grupo como carnaval de Manaus – Especial. Após este evento, os coordenadores se dividiram fundando um novo grupo, o Amigos do Carnaval de Manaus. Neste grupo novo, fui convidado a me juntar aos coordenadores. Por um lado, o número de encontros como os descritos anteriormente diminuiu. Um dos motivos é que com um número de membros muito maior naquele momento, eram mais de 50 mil, ficaria mais complicado organizar encontros. Por outro lado, o grupo passou a valorizar mais a presença dos coordenadores nas quadras durante os eventos das escolas. Lá, cada membro costumava atuar como uma mídia alternativa registrando em fotos, vídeos e áudios o que acontecia. Eu mesmo passei a fazer isso logo após ter sido convidado a integrar o grupo como um dos coordenadores. Depois disso, o problema passou a ser a ênfase na cobertura de eventos de uma escola e não de outra. Os coordenadores justificavam com o maior leque de eventos e suporte de algumas escolas. Uma razoável divisão da presença de coordenadores pelas escolas passou a ser praticada, movimentando ainda mais o grupo e, com isso, atraindo ainda mais membros. O incremento da organização contou com a criação de um logotipo, camisas e crachás do grupo e uma página do grupo fora do Facebook.31 O reconhecimento se espalhou pelas escolas de samba. Consequentemente, o grupo reivindicou credenciamento junto à Secretária Estadual de Cultura para a cobertura dos desfiles. Como nenhum dos coordenadores que fariam esta cobertura tinham o registro profissional de jornalista, as credenciais foram negadas. Ainda assim, por intervenção de alguns membros das diretorias das escolas e da emissora que transmitia os desfiles, a entrada de três coordenadores na pista de desfiles foi autorizada. Dessa forma a legitimação do grupo como meio de comunicação e informação das escolas de samba em Manaus deu-se por intermédio das próprias escolas de samba. Com o crescimento do público, alguns conflitos internos aconteceram. Boa parte deles relacionados com quem se apresentaria como liderança do grupo em programas de rádio, eventos nas quadras entre outros. O grupo como já mostramos era reconhecido como veículo de informação entre os sambistas, no entanto, muita confusão em torno do que ele de fato representava. Alguns 31
No endereço www.amigosdocarnavaldemanaus.com. Depois de funcionar no carnaval de 2015 um dos coordenadores saiu do grupo e junto saiu o patrocinador que mantinha a página no ar.
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não sabiam distinguir o que seria um grupo de Facebook ou a própria internet em si. Na dinâmica do grupo de Facebook Amigos do Carnaval de Manaus havia uma constante produção de conteúdo por parte dos coordenadores, mas a produção e publicação de conteúdo é livre. Assim, algo publicado não necessariamente o foi pelos coordenadores. Um dos registros desta confusão, pude presenciar em um ensaio da Mocidade de Aparecida. Trajava a camisa do grupo Amigos do Carnaval de Manaus enquanto com meu gravador registrava o discurso do presidente que antecedeu o ensaio. No microfone, em meio ao anúncio de um seminário de um diretor de bateria para todos os ritmistas das escolas de samba de Manaus e apontando para mim, ele falava o seguinte: Vocês internautas. Vocês que gostam de estar fofocando no face, falando besteira do carnaval. Dessa vez falem alguma coisa de bom. Diga que o Mestre Marcão do Salgueiro estará na quadra da Aparecida para fazer um workshop pra todas as escolas. Porque nós precisamos aprimorar o carnaval de Manaus. A Aparecida já é aprimorada. Já nasceu grande. (Discurso do presidente Pacheco da Mocidade de Aparecida – em 10 de janeiro de 2015) Aqui cabe a transição para um outro aspecto da questão que observamos. Como estas redes virtuais ampliam a rede de propagação de forma bem particular do universo das escolas de samba, a fofoca. Incialmente temos Max Gluckman (1963) nos trazendo a importância da fofoca em proporções midiáticas como forma de manutenção das regras e costumes estabelecidos e inclusive a manutenção dos valores e unidade dos grupos (op.cit, p.307). Em contraposição temos a perspectiva de Norbert Elias e John Scotson na etnografia de uma pequena comunidade (2000). Elias nos leva a pensar nos dois polos da fofoca, ou seja, o que circula a fofoca e sobre quem se fofoca. Para além da fofoca elogiosa e a depreciativa, estes dois polos já citados da fofoca colocam em jogo a concepção da fofoca como agente causal. Como em Elias, “a estrutura da fofoca está ligada ao grupo que circula” (op.cit, p.132). A Cultura popular está permeada de exemplos onde a sociabilidade por meio da fofoca se perpetua. No livro de Luciana Gonçalves de Carvalho (2013) vemos uma rede de informações baseadas em fofocas que percorre diversos momentos de sua pesquisa, seja antes, seja depois do encontro com o personagem principal da etnografia: Betinho, que encarna pai Francisco nos autos do grupo de Bumba meu Boi da Fé em Deus no Maranhão. 49
Entre as escolas de samba a fofoca também aparece como articuladora de redes de relações sociais. No caso do Acadêmicos do Dendê a fofoca funcionava como um relatório informativo dos componentes sobre o cotidiano da agremiação (BARBIERI, 2012). Para Alba Zaluar, a noção de “ política, no contexto de uma escola de samba, estaria associa da à fofoca, à violação de regras, à reciprocidade desfeita e se opõe à união, ao esforço comum, à solidariedade" (ZALUAR, 1986, p.60). Pesquisando o departamento cultural do Acadêmicos do Salgueiro, Vinicius Natal também indicou a fofoca como uma maneira de defender uma posição política de destaque de alguns dos integrantes na agremiação (NATAL, 2014). Enfim, a fofoca é elemento fundamental na sociabilidade carnavalesca. Em outros momentos conflitivos da preparação do carnaval de uma escola de samba, a fofoca aparece como elemento estruturante das falas como veremos nos capítulos a seguir.
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CAPÍTULO 2 - A ESCOLA DE SAMBA EM UM BAIRRO ESTIGMATIZADO: O MORRO DA LIBERDADE E SEU REINO
Figura 9 - Vista Aérea do Morro da Liberdade. Arquivo de Ivan de Oliveira. 2008.
O bairro do Morro da Liberdade, está localizado na zona sul da cidade de Manaus. Situado a 7 Km do centro da cidade, com uma população de 13.599 moradores32 distribuídos por 71,37 ha, 33 tem como principal via de circulação a Avenida Adalberto Valle. Tem como bairros limítrofes Cachoeirinha, Raiz, Educandos, São Lázaro e Betânia. A data de fundação do bairro foi estipulada por decreto de autoria do então vereador Bosco Saraiva, este um dos fundadores da escola de samba Reino Unido da Liberdade e nascido no Morro. A data de 4 de dezembro de 1892 foi escolhida tomando como referência o dia da fundação do terreiro de Santa Barbara por Joana Gama, mãe de santo maranhense. Ela foi uma dentre muitos imigrantes maranhenses que aportaram em Manaus naquele ano. A corrente migratória foi estimulada pelo então governador Eduardo Ribeiro, também maranhense, no auge do ciclo da borracha (BENCHIMOL, 1999). Quando Joana Gama chegou ao porto da Pancada onde atracavam as catraias34 vindas do bairro da Cachoeirinha, vizinho ao Morro da Liberdade, pelo Igarapé do Quarenta este ainda era o Morro dos Tucumãs em referência a vegetação predominante do local. Foi de Joana a primeira moradia do local. A inauguração do terreiro de umbanda coincide com a festa de Santa Barbara que movimenta o bairro.
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Desenvolvimento de SIG para Análise Epidemiológica da Distribuição Espacial da Malária no Município de Manaus - um Enfoque em Nível Local 33 Dados da Prefeitura Municipal de Manaus no link: http://dom.manaus.am.gov.br/pdf/2010/janeiro/dom2365cad1.pdf/at_download/file 34 As catraias eram pequenas embarcações cobertas de toldo com capacidade de 15 a 20 passageiros utilizadas como meio de transporte na travessia entre os igarapés de Manaus até meados de 1980 (OLIVEIRA, 2003).
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Figura 10 - Primórdios da ocupação do Morro do Tucumã. Arquivo de Daniel Sales. 1910.
Atualmente o Terreiro de Santa Barbará encontra-se fechado. Isto desde 2006 quando faleceu uma das lideranças religiosas emblemáticas da cidade, Mãe Zulmira. O local onde o terreiro funciona encontra-se preservado na esquina Rua São Benedito com a Adalberto Vale. Todos os becos, ruas e vielas ao seu redor, que antes eram reconhecidos por numerais, foram rebatizados com nomes de mães de santo, sambistas e moradores falecidos do Morro da Liberdade. O Morro da Liberdade conta atualmente com três escolas estaduais e duas municipais. Uma Unidade Básica de Saúde (UBS) atende ao bairro. Nele dois clubes – o Libermorro e o Olaria - ainda funcionam não tendo mais o futebol como principal atividade, mas sim festas dançantes e forró. Festas com forró, o festival folclórico do bairro e rodas de samba e pagode também são realizadas na quadra da escola de samba Reino Unido da Liberdade que atualmente é a principal referência de lazer do Morro. O bairro do Morro da Liberdade se expandiu sob o estigma da marginalização. Esta visão que promove a estigmatização social se encontra difundida na cidade e sustenta a segregação espacial da região conhecida como zona vermelha por conta de supostos elevados índices relativos à criminalidade. O conceito aqui utilizado baseia-se na obra de Erving Goffman (1980) onde o indivíduo estigmatizado torna-se portador de uma identidade social marcada negativamente que frustra possíveis expectativas de interações rotineiras e regulares. Uma primeira impressão que reforça a visão estigmatizada do bairro e seus moradores temos ao lançar uma pesquisa em sites de buscas na internet. Dentre as cinco primeiras imagens que aparecem como resultado relacionado a busca Morro da Liberdade, três são de homicídios ocorridos no bairro.35
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Pesquisa realizada em http://www.google.com.br em 18 de Março de 2015.
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A visita ao bairro ocorreu em uma de minhas primeiras viagens à Manaus em 2011, e no primeiro contato fui apresentado à localidade pelo compositor Schneider para quem ali era um bairro tranquilo como cidade de interior com a simplicidade das favelas cariocas. Posteriormente, no entanto, quando contei a amigos na cidade sobre minha visita ao Morro da Liberdade, eles receberam meu relato com espanto e certo temor: cuidado que lá é muito perigoso foi a frase que ouvi. Com relação a esse ponto podemos ligar a ideia de regiões morais proposta por Robert Park em seus estudos de ecologia humana. Park, um dos integrantes da chamada Escola de Chicago com contribuições definitivas para os estudos das metrópoles, enxergava na vida dos homens nas cidades a busca para “organizar-se de acordo com seus gostos e temperamentos”. Uma região moral encarada de acordo com a perspectiva assim proposta “permite ao indivíduo purgar de impulsos selvagens e reprimidos por meio de expressão simbólica’ (Park, 1987, p.66). Ao lermos a descrição de William Foote-Whyte (2005) sobre Cornerville como uma “uma área misteriosa e arriscada” (op.cit, p.19) para o resto da cidade, podemos nos aproximar da visão aqui descrita do Morro da Liberdade. Assim, participar de “suas atividades com sua gente” (op.cit, p.20) atesta a importância da observação-participante como método para entendermos o bairro do Morro da Liberdade e sua escola. Alguns moradores do Morro da Liberdade buscam imprimir uma visão diferente, no entanto, e boa parte da representação positiva do Morro - como o bairro é chamado de forma simplificada pelos seus moradores - advém da escola de samba lá sediada, o Reino Unido da Liberdade. Temos outros exemplos referenciais na antropologia de como festas populares atuam ressignificando um espaço urbano. Estudando o bairro do Jurunas em Belém (PA), Carmen Isabel Rodrigues (2006) demonstra como a escola de samba Rancho Não Posso me Amofiná e as festas no bairro operam no resgate da autoestima frente uma visão negativa do restante da cidade sobre aquela área. No caso jurunense, de forma bem similar ao Morro da Liberdade, em contraposição “às imagens de violência operam as imagens de um bairro festeiro, através das quais os jurunenses se reconhecem e são reconhecidos por moradores de outros bairros” (op.cit, p.128). O que fica claro, no trabalho de Rodrigues, é a reconstrução positivada da identidade jurunense através do pertencimento à escola de samba Rancho Não Posso Me Amofiná. Esta característica que marca a reconstrução de uma nova representação da localidade frente à cidade como um todo tem ligação com a produção das culturas 53
populares nas cidades. No bairro da Liberdade em Salvador, a pesquisa de Agier (2011) revela como o sentimento de apego ao bairro liga-se a uma representação tradicional, gerando um apego que se perpetua mesmo entre aqueles em situação de mobilidade social (AGIER, 2011). Em sua pesquisa precursora sobre violência entre moradores da Cidade de Deus no Rio de Janeiro , Alba Zaluar (2000) indica o bloco carnavalesco Luar de Prata como espaço mediador com o poder público e ao mesmo tempo sua relevância como operador da ressignificação do local por seus moradores: “O Bloco Luar de Prata foi fundado na Vila do Mané como um meio de minorar o estigma que a quadra estava adquirindo de ser, entre todas (da Cidade de Deus), a mais perigosa.(...)O samba é então uma alegria que organiza.” (op.cit, pp.185) Avançando na questão da estigmatização do Morro da Liberdade, buscamos nos dados sobre violência na cidade de Manaus algo que justificasse o estigma imputado de lugar violento. Fora a impressão transmitida por reportagens policiais veiculadas por jornais populares de Manaus, tivemos essa sensação inicial através da busca na internet anteriormente aqui relatada. Nas recomendações para que me afastasse do “perigoso bairro do Morro da Liberdade” constava a indicação do mesmo como uma zona vermelha e, portanto, de altos índices de crimes.
Figura 11 - Imagem de blog humorístico sobre Morro da Liberdade. Ao centro comemoração de um título do Reino Unido da Liberdade. Blog “No Amazonas é Assim”. 2012.
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Instigado por esses alertas procurei dados junto à Secretaria de Segurança Pública do Estado do Amazonas. Não encontrei nenhum relatório que indicasse uma gradação de bairro mais ou menos violento por cores. Algumas destas indicações partem de matérias publicadas em jornais, sem que eu encontrasse, porém, referências relacionando o Morro da Liberdade a uma zona vermelha.
Figura 12 - Ponte de entrada para o Morro da Liberdade sobre o Igarapé do Quarenta. Foto de Taynah Pinheiro. 25/01/2015.
No “Diagnóstico da criminalidade do estado do Amazonas” elaborado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) em 2012 notamos que o único índice acima da média da cidade preocupante, relatado pelas as autoridades, referem-se aos registros de violência doméstica. Com relação aos demais crimes que preocupam os moradores da cidade, tais como homicídio, latrocínio, furto, roubo e tráfico, o Morro da Liberdade apresenta índices baixos. Tais dados nos levam a concluir que a noção de que se trata de uma zona a ser evitada foi construída através dos tempos e provavelmente a expansão da cidade deslocou estes índices criminais para outras regiões ou frentes de expansão da cidade. É fato que a região Sul e Centro-Sul, onde o Morro da Liberdade se localiza, concentra muitos bairros com índices de criminalidade preocupantes no relatório. Bairros limítrofes ao Morro da Liberdade chegam a liderar certas taxas criminais na cidade como é o caso dos bairros da Raiz e do Educandos. Talvez possamos pensar numa sensação de insegurança frente à cidade transmitida pela região em que está imerso o Morro da Liberdade. E mesmo em se tratando dos bairros vizinhos, veremos que a Reino Unido da Liberdade é uma referência simbólica. 55
2.1. A Reino Unido da Liberdade e seus desfiles no carnaval de Manaus: um breve histórico
Figura 13 - Alegoria do Reino Unido da Liberdade ainda em tempos de bloco. Blog Candiru - Na cadência do samba. 1982.
Fundada em 1981, a Reino Unido da Liberdade foi batizada em referência ao bairro onde se localiza sua sede. Tornou-se, a partir de sua fundação, referência como reduto boêmio da cidade graças ao Pagode da resistência, realizado durante todo ano aos sábados, às 21 horas. Quando de sua fundação em 1981, o bloco, que realizaria ensaios em um terreno baldio do Morro da Liberdade, tinha como objetivo declarado em ata36 mudar a imagem tão desgastada do bairro. O bloco cresceu e inclusive passou a pautar os investimentos sociais e estruturais no bairro através de seus líderes-fundadores, conhecidos até hoje como Meninos do Morro. Por sua vez, abriram espaço para o crescimento simultâneo da agremiação e do samba no Morro da Liberdade. O reduto boêmio tornou-se conhecido na cidade atraindo os jovens dos bairros vizinhos como Educandos, Raiz e Cachoeirinha. Em meados da década de 80, “muita gente ia para o Morro antes e depois das festas nas diversas casas de show do bairro da Cachoeirinha” (SALLES, 2008, p.185). Um dos objetivos declarados de seus fundadores parece assim ter sido cumprido.
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Os fundadores do bloco eram Ivamar Nascimento (Pirulito), este aclamado primeiro presidente da agremiação; Elí da Costa Manso, Roberto Aragão (Dinamite), Bosco Aquino, Jorge Halen (Chocolate) Odilson Gomes, Francisco Maciel (Chico Perneta), Vicente Neto Machado da Costa (Neto Bacurau), Jairo de Paula Beira-Mar, João Antônio da Silva (Maleta), Ozias Mendonça da Silva (Gaia), Gerson Lopes da Costa (Xen-Xen), José Ribamar Saraiva, Zeca do Passo, Francisco Campos dos Santos (Calama) e Bosco Saraiva. O último citado enveredou inclusive em carreira política pelo PSDB tendo sido duas vezes eleito vereador e é o atual presidente da Câmara Municipal de Manaus.
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Uma das atuais referências da Reino Unido da Liberdade, era o então diretor de carnaval Ivan de Oliveira. Logo na primeira visita Schneider me levou até a casa dele. Ele estava ausente e apenas alguns meses mais tarde pude conhecê-lo, tendo sido recebido de forma extremamente atenciosa com direito à churrasco e pirarucu de casaca.37 Ivan Oliveira está imerso no universo carnavalesco de Manaus. Ele trabalha na Agência de Comunicação do Estado, comandou diversos programas em rádios locais e atualmente é o apresentador do programa web rádio da escola de samba. Extremamente carismático é conhecido pelos discursos que injetam ânimo nos componentes em momentos tensos antes dos desfiles. Antecipa-se em receber e apresentar a escola a todos que a visitam pela primeira vez, tornando-se assim uma espécie de cônsul geral da Reino Unido da Liberdade. Sua história e seu envolvimento com o Morro da Liberdade caminha paralelamente à criação da escola Reino Unido. Por incrível que pareça eu não gostava de samba. Morei no Rio mas não gostava de samba. Eu gostava era de rock. Quando vim para Manaus que comecei a gostar. (...). Eu fazia teatro e comecei a me envolver em projetos sociais. Achei interessante a ideia do bloco aqui no Morro. Quando fundamos a agremiação a ideia era justamente essa, de um resgate do bairro. Queríamos mudar a cara do bairro para a cidade. O Morro era muito discriminado, ninguém queria vir aqui. A polícia dizia que era uma zona vermelha de alta criminalidade. Isso nos marginalizava e a escola resgatou a imagem do Morro na cidade. (Ivan de Oliveira, diretor do Reino Unido da Liberdade em entrevista realizada em 21/11/2011) Temos neste trecho do depoimento de Ivan um importante registro da razão que incita o surgimento de escolas de samba nos mais diferentes estados e cidades do Brasil. Com as escolas de samba do Rio de Janeiro despontando como exemplos de um carnaval organizado e modelar do Estado Novo no final da década de 40, muitos carnavais que têm as escolas de samba como protagonistas se espalharam pelo Brasil. Assim não só nos subúrbios do Rio de Janeiro como em diferentes cidades, entre elas Manaus, temos o surgimento de escolas de samba.
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Prato bastante apreciado na região amazônica.
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Figura 14 - Ivan de Oliveira apresentando a futura quadra da Reino Unido - Foto de Taynah Pinheiro
Voltando à história da Reino Unido, a escola de samba realizou seus primeiros carnavais como bloco de enredo em 1982 na avenida Djalma Batista, na região centrosul de Manaus. Neste período movimentou-se contando com a ajuda de muitos moradores do bairro e aproveitando o início da decadência de uma escola de samba vizinha do bairro do Educandos, a Em Cima da Hora. Foi no terreno desta escola de samba vizinha, inclusive que prepara as alegorias para seus carnavais como a que ilustra a abertura deste subcapítulo. Em 1984 o então bloco do Morro da Liberdade já se via enredado em uma de suas muitas mobilizações, desta vez para aquisição de um terreno onde montaria sua quadra de ensaios. Certa ocasião, caminhando pelas ruas do bairro, Ivan de Oliveira ia me indicando os lugares afetivos do Morro da Liberdade e marcos da história da Reino Unido. Passamos por um conjunto hoje ocupado por prédios comerciais que havia sediado a escola enquanto ainda bloco. O terreno ficou pequeno para os eventos do bloco e os pagodes no Morro. Pouco mais à frente me indica outros espaços que estiveram outrora na mira de alguns dos meninos. Outro espaço chegou a ser oferecido por intermédio do governo estadual em 1984. O então governador Gilberto Mestrinho que intermediou a compra de um espaço pertencente à Mãe Zulmira, mudou de planos e construiu ali a Escola Antônio Bittencourt. A quadra da escola serviria de espaço para ensaios que os sambistas do Morro abririam mão. Muitas discussões, muitas especulações depois, chegaram a um consenso para a futura sede. Seria o terreno na Rua São Pedro onde até hoje a escola está abrigada: Foi um cata-cata, empréstimos, financiamentos entre todos os envolvidos e finalmente fizemos uma proposta pelo terreno. Só 58
que um outro chegou e fez uma proposta para o cara. Estava tudo engatilhado, convencemos o dono do terreno que era religioso dizendo que ali funcionaria uma obra social. O que não deixava de ser um fato pois já tínhamos a bateria mirim. Só que não falamos da escola de samba para ele. Depois tivemos uma ideia para ganhar o terreno sem dar um lance maior. Propomos ao dono que pagássemos em dinheiro. Só que para impressionar o dono teríamos que pagar em dinheiro e notas de valor menor. No dia aparecemos com duas sacolas de dinheiro e o cara ficou desesperado. (Ivan de Oliveira – diretor da Reino Unido da Liberdade em entrevista no dia 27/01/2015) Fato que após isso a Reino Unido da Liberdade conseguiu sua sede atual onde estará abrigada até a inauguração da nova quadra, ainda em construção. Atestamos assim, o poder de mobilização da escola junto à moradores do bairro. Inclusive como exemplo de afirmação política como veremos adiante no pleito sobre a nova quadra ainda em construção.
Figura 15 - Quadra da Reino Unido da Liberdade. Blog Candiru - Na cadência do samba 1986..
Após dois anos desfilando entre os blocos de enredo, passou a concorrer como escola de samba, e já no de 1984 alcançou o vice-campeonato da 2a divisão das escolas de samba de Manaus. Em 1987, a Reino Unido alcançou a 1a divisão das escolas de samba de Manaus. Neste primeiro ano, desfilando entre as seis maiores escolas de Manaus, alcançou o quarto lugar com o enredo “Hoje a arte vai brilhar”.
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Figura 16 - Alegoria da Reino Unido da Liberdade no carnaval de 1987. Acervo MISAM.
Seu primeiro campeonato viria apenas dois anos depois, no carnaval de 1989 com o enredo “Mãe Zulmira, o amanhecer de uma raça”. O samba deste ano foi gravado no Rio de Janeiro pelo intérprete Grilo, da Unidos da Ponte, escola que naquele ano desfilaria na divisão principal do Rio de Janeiro. O samba ficou conhecido na cidade com grande divulgação nas rádios e definido pelo historiador Daniel Sales em seu livro como “o melhor samba que Manaus ouviu até hoje” (SALES, 2008). Samba este que segundo Ivan de Oliveira foi o primeiro a ultrapassar fronteiras do Amazonas e ser executado em bailes e rádios do Rio de Janeiro. A escola, que entrou às 7 horas da manhã na avenida Djalma Batista, cantava com força o refrão de Gilson Nogueira “Poeta” e Almeron do Reino: Axé, Mãe Preta dê felicidade Em seu palácio mostre a liberdade Me dê amor, carinho e proteção, Eparrei é Mãe Zulmira, O amanhecer desta nação! O ânimo era reforçado pelo desejo do título não alcançado no carnaval anterior quando a escola chegou ao vice-campeonato, mas não superou a Mocidade de Aparecida. Ouviu em 1988 pela primeira vez os gritos de “É campeã” do público, mas não alcançou o primeiro lugar no resultado oficial. Já em 1988 os carnavalescos seriam os cariocas
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Oswaldo Jardim38 e Shangai39. Depois de alguns desentendimentos de Oswaldo na preparação do carnaval de 1988, apenas Shangai permaneceu na Reino Unido.
Figura 17 - Reino Unido em desfile no carnaval de 1989. Arquivo Pessoal de Ivan de Oliveira.
. Depois de chegar e vencer escolas que se revezavam como campeãs, como a Aparecida e a Vitória Régia, a Reino Unido da Liberdade já no ano seguinte conquistou o bicampeonato. No carnaval de 1990, com o enredo “Vem a mais de mil”, um enredo que contava a história do carnaval, a escola repetiu o sucesso do ano anterior. No desfile um intérprete carioca pela primeira vez defendia a escola na avenida. Era Gera, que se tornou conhecido dois anos antes no campeonato de 1988 da Unidos de Vila Isabel no Rio de Janeiro. Este seria o último ano com desfile na Avenida Djalma Batista, ou seja,
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Oswaldo Jardim “Carnavalesco. Ator. Estudou Engenharia Eletrônica no Cefet e cursou Cenografia na UNI-Rio. Trabalhou como assistete de Arlindo Rodrigues na TV Manchete.”( ver Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira em http://www.dicionariompb.com.br/oswaldo-jardim/biografia). Fez trabalhos marcantes na década de 1990 pela Unidos da Tijuca e Unidos de Vila Isabel. Nesta última escola chegou a ganhar um estandarte de ouro no ano de 2000. Faleceu aos 43 anos com complicações vasculares no ano de 2003. 39 Carlos Fernandes, o Shangai chegou em Manaus no carnaval de 1988 como exigência no ato da contratação de Oswaldo Jardim. Artista autodidata, sua especialidade seriam os trabalhos com alegorias, especialmente na decoração dos mesmos com alumínio, valendo ao mesmo o apelido de “Rei do Alumínio”. Além de ter trabalho nos barracões de inúmeras escolas e com carnavalescos consagrados no Rio de Janeiro como Joaozinho Trinta, assinou um trabalho solo na Unidos da Tijuca em 1993 e compôs a comissão de carnaval da Beija-Flor de Nilópolis de 1998 à 2005. Sempre participou direta ou indiretamente do carnaval de Manaus desde sua primeira vinda em 1988. Assinou carnavais na Reino Unido da Liberdade e Vitória Régia. Faleceu no Rio de Janeiro em abril de 2013 aos 61 anos de um enfisema pulmonar.
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fora do sambódromo de Manaus. O título foi dividido com a Vitória Régia que teve um samba bastante cantado no desfile e no pré-carnaval.40 2.1.1. A Reino Unido da Liberdade no sambódromo de Manaus. Como em 1991 não houve desfile, a Reino Unido passou três carnavais até alcançar seu primeiro título no novo palco dos desfiles, o sambódromo de Manaus. Em 1992 obteve a terceira colocação com o enredo “A festa continua”. Em 1993, quase venceu com o enredo “Doce Vida” terminando com o vice-campeonato. No carnaval de 1994 terminou em quarto lugar com o enredo “A saga do sonho perdido contra os guardiões do medo” tendo sido elogiada pelo comentarista Fernando Pamplona da TV Manchete, na então primeira transmissão em rede nacional do carnaval de Manaus. Finalmente a Reino Unido alcançou o primeiro lugar no carnaval de 1995. Neste carnaval o presidente da escola era o nosso personagem Ivan de Oliveira. E não apenas alcançou um título como um tricampeonato nos anos seguintes de 1996 e 1997 sob sua administração. Em 1995 no carnaval teve como tema as festas amazônicas com o enredo “Floresta, festa e festança”. O enredo incluía o Festival de Parintins que experimentava o auge do sucesso dos bumbás no Amazonas. Com isso vários dos artistas e ilustres dos bois de Parintins participaram do desfile como o então levantador de toadas41 Arlindo Júnior do Boi Caprichoso. Arlindo era presença assídua nos ensaios da escola de samba do Morro e tornou-se ali torcedor declarado da Reino Unido da Liberdade42. Nos carnavais de 1996 e 1997 a Reino Unido completava a tricampeonato. No carnaval de 1997 o enredo “Relatos de um certo oriente” baseado na obra homônima do escritor amazonense Milton Hatoum e desenvolvida pelo teatrólogo Chico Cardoso. Foi também em 1997 que a escola passou a ser comandada por um dos nomes de destaque do carnaval de Manaus: Luizinho Sá. Antes ele havia trabalhado no carnaval como divulgador da escola de samba Sem Compromisso, mas sua escola de coração era a Reino Unido da Liberdade. Posteriormente ainda militou na Unidos da Alvorada. Sua contribuição ao carnaval local foi reconhecida na homenagem prestada com seu nome batizando o complexo de barracões ao lado do sambódromo. Faleceu em 2004 deixando como um de 40
Até hoje o samba da Vitória Régia do carnaval de 1990 é entoado nos esquentas da escola da Praça 14 de janeiro. 41 O levantador de toadas tem a função de entoar as músicas, ou toadas, durante os três dias de apresentação dos bois em Parintins. 42 Desde 2014 ocupa o posto de intérprete da Sem Compromisso.
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seus grandes legados este título da Reino Unido da Liberdade. Já em 1997 as navegações foram tema no enredo “Se navegar é preciso, vou de caravela”. Este pré-carnaval de 1997 foi movimentadíssimo com ensaios superlotados na quadra do Morro e a fundação oficial do “Pagode da Resistência” no bar em frente à quadra.
Figura 18 - Desfile tricampeão da Reino Unido no carnaval 1997. Arquivo MISAM.
Após um terceiro lugar no carnaval de 1998, a escola alcançou novamente o primeiro lugar no carnaval de 1999 com o enredo “Armando Brasileiro”. Este, porém é um carnaval polêmico e que contribuiu para a rivalidade criada com a Mocidade de Aparecida. Em 1999, as escolas não foram subvencionadas pelo poder público. A princípio estavam quase decididas a não desfilar. A intervenção da Rede Calderaro de Comunicação, conhecida por ser o grupo detentor do Jornal A Crítica, um dos principais da cidade, possibilitou o desfile. Detentora dos direitos de transmissão, a empresa de comunicação, subvencionou todas as escolas e fez a promoção do desfile. O sambódromo ficou lotado, porém, para se ter uma ideia, apenas duas escolas desfilaram com mais de um carro alegórico e foram punidas por isso – havia um acordo entre as escolas estipulando o máximo de um carro no desfile. Como não houve apoio do poder público, também não houve julgamento oficial. A Reino Unido foi escolhida como a melhor escola pelo júri do prêmio Estandarte do Povo, oferecido pela Rede Calderaro de Comunicação. 63
No julgamento deste prêmio, a Mocidade de Aparecida foi considerada vice-campeã. Os torcedores e componentes da Aparecida não aceitaram tal resultado e consideram-se campeões de 1999 por não ter existido julgamento oficial, entendendo assim que todas as escolas foram campeãs. Nos anos seguintes, a escola do Morro da Liberdade experimentou seu mais longevo jejum de campeonatos no carnaval de Manaus. Foram onze carnavais em que a escola ou ficou em segundo lugar (foram cinco carnavais43); em terceiro(em três ocasiões44); em quarto (no carnaval de 2000); em quinto(em 2005); e até mesmo em sétimo lugar(no carnaval de 2002) sendo este o pior resultado da escola desde que começou a desfilar no Grupo Especial de Manaus. No carnaval de 2011, mais uma vez os foliões do Morro da Liberdade alcançam o título apresentando o enredo “Num Reino de Maravilhas e Esplendor, a Mulher é deusa, guerreira, sedutora e bela, luz que não se apaga”. A escola aproveitou que o desfile cairia na semana da comemoração do dia da mulher para fazer esta homenagem. O samba deste ano foi de autoria do compositor que me apresentou ao Morro da Liberdade, Schneider em parceria com seu primo Mingau. No mesmo ano a Vitória Régia desfilaria com um samba de autoria do mesmo Schneider e outros parceiros. Apontada como favorita neste ano, a Mocidade de Aparecida teve um de seus carros incendiados em pleno desfile.
Figura 19 - Reino Unido da Liberdade no carnaval 2011. Foto de Simão Pessoa no Blog Candiru - Na cadência do samba.
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Nos carnavais de 2001,2006,2007,2009 e 2010. Nos carnavais de 2003,2004 e 2008.
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A escola repetiria o feito em 2012 com o enredo “Um menino, um sonho, uma obra - o amor de Dom Bosco virou realidade”. No desfile o samba, muita organização e canto forte foram apontados por sambistas do Morro como diferenciais e a escola superou a Mocidade de Aparecida mais uma vez. Um carnaval que ficou marcado também por grandes mudanças nos quesitos com a saída do intérprete Wilsinho de Cima, do diretor de harmonia Clemilton Pinto e do compositor Schneider para a Mocidade de Aparecida. Há quem diga que o samba de esquenta (a música “Vou Festejar” de Jorge Aragão, Noeci e Dida; imortalizada na voz de Beth Carvalho45) teve alguns desses antigos componentes como destinatários. Depois do vice-campeonato para a Aparecida em 2013 havia um sentimento muito forte de vingança entre os seus componentes para o carnaval de 2014. A isto se somou o fato de o enredo contar a história da escola. Como veremos em detalhes mais adiante, no carnaval de 2014 todas as escolas foram declaradas campeãs e os envelopes queimados ainda na apuração. Os componentes e torcedores da Reino Unido eram os que aparentavam maior resistência ao resultado final. Enquanto os outros torcedores cantavam os sambas do ano comemorando seus títulos compartilhados com todas as escolas, os da Reino Unido em determinado momento chegaram até a esboçar alguns protestos. Na saída do anúncio do resultado o presidente da Reino Unido, Reginei Rodrigues, chegou a declarar sua insatisfação: A Reino Unido não aceitou a posição das outras escolas, mas infelizmente fomos voto vencido. A comunidade esperava o título. A Reino Unido veio forte, a comunidade abraçou nossa causa, fizemos um carnaval em 14 dias. Não era justo com a nossa comunidade declarar todas campeãs. Infelizmente fui voto vencido. (Reginei Rodrigues, presidente da Reino Unido no carnaval 2014 – entrevista no dia 3/3/2014) A tentativa do título e principalmente de terminar à frente da Aparecida ficaria para o carnaval 2015. Mais uma vez, a Reino Unido foi vice-campeã perdendo o título para a Mocidade de Aparecida. E assim, das labaredas que incendiaram as notas na apuração de 2014 – um caso que trataremos detalhadamente mais à frente – mais combustível para uma rivalidade paulatinamente alimentada com a Mocidade de
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“Chora!/Não vou ligar/Não vou ligar/Chegou a hora/Vais me pagar/Pode chorar/Pode chorar/É, o teu castigo/Brigou comigo/Sem ter porquê/Eu vou festejar/Vou festejar/O teu sofrer/O teu penar/Você pagou com traição/A quem sempre/Lhe deu a mão”
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aparecida. Mesmo com o resultado adverso seus componentes mantinham o ânimo com o discurso que dentro de uma semana os pagodes da escola voltariam e o samba, como a vida, seguiria. 2.2. Reino do Amanhã, Pagode da Resistência e Gigantes do Morro: uma escola cheia de vida O orgulho demonstrado atualmente pelos componentes do Reino Unido da Liberdade vai além dos oito títulos conquistados em sua história, e transcende o protagonismo dos últimos anos quando a escola vem sempre disputando o primeiro lugar do carnaval de Manaus. As referências positivas englobam o fato de a Reino Unido ter a única escola de samba mirim da cidade, o Instituto Reino do Amanhã fundado em 4 de maio de 1986. O primeiro presidente do Instituto e escola de samba mirim foi Donalber Machado. Ele e seu vice na época coordenavam atividades que envolviam cursos de dança, artes, teatro, desenho, entre outros. Em 2001, o projeto social da Reino Unido da Liberdade foi tema do noticiário dominical da Rede Globo, Fantástico. Hoje muitos de seus principais componentes como o intérprete Nego Léo, o antigo mestre de bateria Iron, o diretor de harmonia Fábio e vários compositores, dentre eles um dos autores do samba de 2013, Clênio Franciné são formados na escola de samba mirim do Morro da Liberdade. Mais que uma escola mirim com formação de artistas, músicos e ritmistas, a Reino do Amanhã faz acompanhamento pedagógico e tornou-se uma das únicas opções de lazer infanto-juvenil no Morro da Liberdade: Aprendi tudo que sei de samba na bateria mirim do Seu Jairo que se tornaria depois o Reino do Amanhã. Minha família é toda Aparecida, mas eu sou Reino Unido. Foi aqui que toquei repique desde pequenininho. Fazer samba para essa escola, ganhar samba aqui é uma honra. É emocionante! (Clênio, compositor da Reino Unido em entrevista no dia 18/12/2011) Atentem para a fala do compositor Clênio. O compositor da parceria campeã dos sambas de 2012 e 2013 é figura simpática e Fundamental para entendermos o desenrolar de alguns conflitos que nos conduzem ao tema da rivalidade e do múltiplo pertencimento nas escolas de samba de Manaus que abordaremos no capítulo a seguir. Clênio foi criado em uma das famílias de comerciantes conhecidas no Morro da Liberdade pelas panificadoras do bairro e suas circunvizinhanças. Um de seus irmãos, Clemilton, é 66
celebridade tanto por sua participação nas escolas de samba como nos Bois de Parintins.46 É conhecido também como Peará, antigo mestre da Batucada, o grupo rítmico do Boi Garantido. Além do papel de destaque no Boi Garantido, Clemilton atualmente é o diretor de harmonia e foi da Mocidade de Aparecida, a principal oponente da Reino Unido da Liberdade nos últimos carnavais. Clemilton retornou à Reino Unido em 2015, mas a família de Clênio sempre foi ligada à Em Cima da Hora, escola extinta e cujos integrantes transferiram-se em grande parte para a Mocidade de Aparecida. Foi assim que Clênio, mesmo morador do Morro da Liberdade cresceu em uma família de torcedores da Aparecida. Formado em filosofia e cursando atualmente Direito combina o interesse humanístico com a administração comercial de uma rede de padarias além de sua atuação como compositor na Reino Unido da Liberdade. Voltando ao Reino do Amanhã, vemos na iniciativa da escola mirim mais um esforço para superar a estigmatização do bairro. Em Manaus não há iniciativa similar até o momento. Por essa razão, o desfile do Reino do Amanhã composto apenas por crianças em todos os segmentos e alas é celebrado no Morro da Liberdade como a ocasião que prenuncia o início das atividades da escola de samba pelas ruas do bairro. Geralmente as crianças fazem o mesmo percurso feito pela Reino Unido da Liberdade em seus ensaios de rua. As crianças saem fantasiadas com material reciclado do desfile anterior e sua participação é estimulada no processo de confecção. Para participar, há uma cobrança da agremiação em relação ao desempenho escolar da criança. Algo bem parecido com o que ocorre entre as escolas de samba mirins cariocas. A escola destaca a participação dos componentes formados em seu projeto social e sempre os nomeia, como Cassiano da Viola, Brenner do Cavaco e o intérprete Rosembergue “Buiu”. Rosembergue é um dos casos interessantes oriundos do Reino do Amanhã. Morador do Bairro Betânia sua família enfrentou dificuldades financeiras em sua infância que o levaram a residir na quadra da escola de samba por um período com sua mãe. Frequenta a Reino Unido desde os 7 anos de idade participando da bateria da escola mirim. Hoje ele participa do carro de som com Nego Léo.47
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Os bois-bumbás Carpichoso e Garantido são os protagonistas de Festival Folclórico da cidade Parintins(AM) evento mobilizador no estado do Amazonas. No período em que ocorre – o último final de semana do mês de junho – boa parte dos moradores da cidade de Manaus se envolve com algum dos bois. 47 “Com garra e determinação, ele aponta para o futuro” em O Enredo – órgão oficial de comunicação do Reino Unido da Liberdade – Ano XVI – N.38 – Janeiro de 2013.
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Figura 20 - informativo da Reino Unido destaca o desfile do Reino do Amanhã. Acervo Pessoal. 2011.
Além do Reino do Amanhã, outro espaço de socialização dentro do bairro é o já citado Pagode da Resistência, que acontece todos os sábados e reúne sambistas de várias escolas de samba de Manaus. Torna-se especialmente concorrido quando se aproxima o carnaval, mas a boa audiência se perpetua nos demais meses do ano, quando as rodas de samba são menos frequentes na cidade e o “Pagode da Resistência divide o protagonismo com as rodas de samba, que já vimos anteriormente, do Império da Kamélia48, o Botequim da Kamélia no Clube Olímpico. Os próprios sambistas apontam os dois locais como principais “espaços de samba que funcionam o ano inteiro” e “ponto de encontro dos sambistas da cidade”. Tem o Pagode da Resistência, portanto, importante papel no circuito do samba na cidade de Manaus Apesar das rodas de samba dos meninos do Morro já acontecerem em diferentes bares do bairro antes da fundação da Reino Unido, o Pagode da Resistência foi institucionalizado no local onde atualmente ocorre apenas em 1996. Por sugestão de um deles, o sambista Zé Picanço, a roda passou a acontecer no Botekão do Reino, o bar localizado em frente a atual quadra de ensaios, na Rua São Pedro. O sucesso do novo endereço foi marcado pela comemoração dos 10 anos de Pagode da Resistência no mesmo local com a rua recebendo grande público para atrações como Fundo de Quintal, Reinaldo
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Escola de samba que tem como símbolo a Kamélia, uma figura parecida com os bonecos de Olinda representando uma grande baiana negra sorridente. A Kamélia é o símbolo do carnaval manauara e sua chegada no Aeroporto Internacional de Manaus mobiliza autoridades da cidade em um cortejo que marca a abertura oficial do carnaval. A escola de samba é recente, fundada em 2005, utilizando a Kamélia marca do carnaval de Manaus de 1938. As rodas de samba acontecem desde 2003 no Olímpico Clube que abriga a boneca Kamélia desde sua fundação.
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Príncipe do Pagode entre outros. Nos anos anteriores sambistas conhecidos como Almir Guineto, Monarco, Zeca Pagodinho e Paulo César Pinheiro já haviam prestigiado a famosa roda de samba do Morro da Liberdade. Os componentes da Reino Unido, orgulhosos do reconhecimento, insistem em preservar o evento, cuidando para afastar o estigma da violência, respondendo a matérias em jornais de grande circulação que apontam alguma ocorrência no Morro da Liberdade. Vemos também o cuidado dos componentes em organizar o espaço do entorno do evento, fazendo acordos com moradores, ambulantes e donos de carros com potentes aparelhagens de som neste sentido. Estampam ainda o orgulho no lema da escola repetido todos os anos no grito de guerra antes dos desfiles: “Reino Unido da Liberdade, aqui reina o espírito imortal da resistência do samba! Uma escola de vida!” Nem sempre a relação com o seu entorno é harmônica. A realidade das relações em determinados momentos mostra suas faces conflitivas. Um dos problemas enfrentados na preparação para o carnaval de 2014 eram justamente estes carros de aparelhagem de som. Antes de um dos ensaios de bateria um diretor de bateria me explicou o que acontecia: Mas não adianta. A gente convida e a TV só vem para filmar algum crime que aconteça aqui perto. O problema é o Boi, eles só querem saber de boi (referindo-se aos Bois de Parintins)."(...). Os pagodes melhoraram muito. Andou um tempo em baixa porque o pessoal com aqueles carros cheio de som potente parava na frente da quadra tocando forró e funk. Nós tentamos negociar e não deu certo49. Aí começou a rolar droga, briga e cada vez mais carro. Era impossível ouvir o pagode. Então nós acionamos a ROCAM50 e eles varreram todo mundo. Teve até spray de pimenta. Agora todo pagode e samba tem duas viaturas aqui perto da quadra e os carros foram lá para cima." (Aldi Maciel, diretor de bateria do Reino Unido – 24/11/2013)
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De fato, lembro da ação dos Gigantes do Morro convocando os proprietários desses carros a participar das carreatas da escola próximo do carnaval tocando o samba de enredo. 50 Nome de um grupamento de ronda ostensiva da Polícia Militar do Amazonas.
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2.2.1. Os Gigantes do Morro
Figura 21 - Gigantes do Morro. Foto de Taynah Pinheiro. 19/02/2012
Eu sou o seguinte. Eu faço a torcida e vou te contar porquê. Eu faço a torcida porque quero viver o momento. Então como eles não me proporcionam, eu me proporciono. Vamos supor que tu gostas de uma coisa e tu vê aquilo que te emociona, tu não vais criar? (Célia Colares, fundadora da Torcida Gigantes do Morro – 25/01/2015) Em Manaus o sambódromo foi espontaneamente setorizado pelos espectadores conforme a torcida de cada uma das grandes escolas nos dias de desfiles. Durante os desfiles, mesmo sem constituir-se em quesito, as torcidas de cada escola fazem uma competição paralela, disputando quem promove a festa mais bonita e agrega o maior número de adeptos. Uma das poucas organizadas institucionalmente é a Gigantes do Morro, ligada a Reino Unido da Liberdade. Durante os desfiles, nos ensaios da escola e de forma muito ativa nas redes sociais da internet, os Gigantes do Morro associam-se ao Reino Unido da Liberdade. Fundada em 1985 por Célia Colares, aposentada de 72 anos de idade e moradora do Morro da Liberdade, a torcida chega hoje aos 30 anos de existência com vivacidade invejável. Uma vivacidade que mimetiza sua fundadora e seus fiéis escudeiros, o núcleo duro da torcida formada por cerca de quinze organizadores de diferentes partes da cidade. Sua composição, entretanto, é na maior parte de moradores do Morro. Os quinze
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organizadores são jovens na faixa dos 20 a 30 anos, todos mobilizados pela neta de Célia, a designer Bruna Colares de 23 anos.
Figura 22 - Célia Colares e Bruna Colares. Foto de Taynah Pinheiro. 25/01/2015
Estes jovens movimentam o grosso das atividades da torcida. E quais seriam estas atividades? As principais envolvem a preservação e valorização do nome da Reino Unido da Liberdade, “onde a escola estiver a Gigantes estará”. Isso envolve a conservação de bandeiras e faixas nos moldes das torcidas organizadas de futebol, agitadas a qualquer momento de celebração da escola. São ensaios, feijoadas, pagodes, mas todo este aparato é mobilizado para o objetivo final: a arquibancada do setor G no desfile da Reino Unido da Liberdade. Neste dia são mobilizadas não apenas as bandeiras maiores de quatro metros de altura. Para o dia do desfile, Célia, Bruna e seus quinze escudeiros preparam mais de quinze mil bandeirolas verde e brancas; balões de festa nas mesmas cores; fogos de artifício; fumaça e faixas plásticas nas cores da agremiação. Alguns supõem que esse movimento tenha sido iniciado pelas escolas de samba cariocas com suas torcidas51 ou pela entrada das torcidas organizadas de futebol paulistanas nas competições das escolas de samba da cidade de São Paulo.52 Trabalhando 51
Até o momento em que está pesquisa foi encerrada cataloguei as seguintes torcidas ligadas a escolas de samba em atividade no Rio de Janeiro: Raiz Mangueirense e Nação Verde e Rosa (Estação Primeira de Mangueira); Nação Leopoldinense (Imperatriz Leopoldinense); Independentes da Mocidade (Mocidade Independete de Padre Miguel); Nação Salgueirense (Acadêmicos do Salgueiro); Cobras da Caprichosos (Caprichosos de Pilares); Leões da Estácio (Estácio de Sá); Família Tijucana (Unidos da Tijuca); Devotos da Coroa (Império Serrano); La Pandilla Clementiana (São Clemente); Amigos da Águia, Porteleamor e Guerreiros da Águia (Portela). 52 Em 1975 com a Gaviões da Fiel, torcida organizada do Corinthians, desencadeou um movimento entre as torcidas organizadas de São Paulo que perdura até hoje. Sua entrada como bloco no carnaval paulistano e posteriormente seu desfile como escola de samba em 1989 precederam a entrada de outras
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com a reconstrução do passado da Portela através de grupos informais organizados dentro da agremiação através da internet, Ronald Clay Ericeira (2009) incluiu em sua pesquisa a torcida organizada portelense Guerreiros da Águia. Os Guerreiros da Águia ligavam-se à teia de relações do principal grupo pesquisado, o PortelaWeb. As atividades dos Guerreiros da Águia descritas por Ericeira lembram em alguns aspectos aquelas dos Gigantes. Para Bruna Colares alguns destes elementos das torcidas das escolas de samba cariocas são sim influenciadores no processo de organização dos Gigantes. Ela confessa que sempre acompanhou pela internet os Guerreiros da Águia. Há que se ressaltar que esta é uma influência recente. Os Gigantes nasceram mesmo do desejo pessoal de Célia Colares participar de alguma forma dos desfiles da Reino Unido da Liberdade.
Figura 23 - Gigantes do Morro fechando o ensaio de rua da Reino Unido com suas bandeiras. Foto de Taynah Pinheiro. 25/01/2015
Naquele tempo meu irmão carregava os carros tudinho num caminhão. E eu ia atrás com café, pão e levava para os meninos que iam empurrando. Num desses anos em um carnaval do dia 10 de março, telefonaram de Santarém (PA) dizendo que meu pai havia falecido. Aí acabou o carnaval para a gente né? Meu irmão terminou o serviço, mas nós não tivemos aquela empolgação de participar do carnaval. Eu resolvi assistir mesmo assim. Quando olhei foi aquela decepção. Reino Unido morto, sem aquela empolgação. Eu olhei assim e falei cadê a torcida da Reino Unido? (...). Aí eu resolvi fazer, mas fazer uma coisa bonita né? torcidas organizadas de futebol no mundo das escolas de samba da cidade de São Paulo. Atualmente atuam como escola de samba ou blocos carnavalescos as seguintes torcidas organizadas de futebol em São Paulo: Gaviões da Fiel, Pavilhão 9 e Camisa 12 (Corinthians); Dragões da Real e Independente Tricolor (São Paulo); Mancha Verde e Torcida Uniformizada do Palmeiras - TUP (Palmeiras); Torcida Jovem do Santos (Santos)
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(Célia Colares, fundadora da Torcida Gigantes do Morro – 25/01/2015) Atualmente Bruna admite buscar inspiração nas organizadas de futebol por influência de alguns de seus amigos também organizadores dos Gigantes. Alguns fazem parte de núcleos de torcida organizada de clubes cariocas em Manaus como a Raça Rubro Negra (C.R. Flamengo) e Força Jovem (C.R. Vasco da Gama). Outros tem participação ativa nas organizadas do futebol local como a torcida organizada Esquadrão Tricolor (Fast Clube) e Narraça (Nacional F.C). Por outro lado, uma nova movimentação nos estádios de futebol com influência do futebol europeu e de países como Argentina e Uruguai suscitam um novo conceito estético entre as torcidas de futebol: são os chamados movimentos populares ou barras. Segundo Eduardo Lacerda Mourão (2012) em sua etnografia do Movimento Popular Loucos Pelo Botafogo esta nova fase torcedora do futebol pelo país tem o “canto como foco”. Vemos, no entanto, que a produção visual dos grupos etnografados por Eduardo Mourão são tão importantes quanto o canto no objetivo maior destes grupos que é “investimento estético afirmativo da torcida como protagonista do espetáculo” (op.cit, p.79). Fato é que inspirações fora do futebol e das escolas de samba cariocas não faltariam aos Gigantes do Morro. Os bois de Parintins mais uma vez aparecem também como fonte inspiradora e Célia não esconde que reserva até hoje suas energias para apoiar seu Boi Caprichoso na galera azul do festival em junho. A chamada galera, o grupo de milhares de espectadores que ocupam espaços nas arquibancadas dos bois de Parintins é item julgado na competição e para sobrepor o adversário os grupos lançam mão de todos os artifícios visuais e performáticos que uma torcida organizada de futebol lança mão (BARBIERI, 2013). A sociabilidade jovem aparece como outro elemento que as ligam as organizadas do futebol (TOLEDO, 2008) (MOURÃO, 2012). O modelo de organização e participação das galeras dos bois em Parintins foi adaptado e utilizado em outras festas amazônicas (NOGUEIRA, 2008) como nas cirandas de Manacapuru (AM), nos botos do Sairé de Santarém (PA) ou mesmo nas tribos do festribal de Juriti (PA). Os Gigantes do Morro se aproximam ainda mais destas festas quando tomamos a dimensão ritual da rivalidade entre as agremiações nas festas citadas e entre as escolas de samba em Manaus. A rivalidade é celebrada através das galeras nos dias antecedentes ao festival de Parintins em símbolos, músicas e especialmente na elaboração discursiva
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(CAVALCANTI, 2002). Mesmo sem julgamento notamos a preocupação em fazer a maior e melhor festa nas arquibancadas do sambódromo e assim superar suas rivais: Não vai te prestar a fazer uma coisa pela metade. (...)São coisas que eu gosto de fazer: é não entregar bandeira antes da Aparecida. (...). Essa rivalidade eu acho é gostoso porque eu quero fazer é o mais bonito para minha escola só para dar inveja nelas. Agora elas morreram. Antigamente era a Aparecida. Agora vai ver a torcida da Aparecida. Vê se tu comparas igual a nossa? Hoje a maior rival nem tem. A maior rival assim entre aspas é A Grande Família que ocupa a ferradura, a maior arquibancada, mas aquela coisa que eles tinham de fazer, de bandeira já está morrendo. Igual foi com a Aparecida. A gente deu prova nessa chuvada que teve. Cadê as outras torcidas, das outras escolas? Ficaram tudinho embaixo da arquibancada. (...) Eu tenho pena é da Sem Compromisso que a arquibancada deles é em frente à nossa. Eles quase não têm nada. Já falei que qualquer dia faço uma torcida para eles. (Célia Colares, fundadora da Torcida Gigantes do Morro – 25/01/2015) No mesmo depoimento, dona Célia conta outras histórias que evidenciam esta rivalidade como na ocasião em que tentou expandir o espaço da torcida da Reino Unido indo para a arquibancada F, ocupada pela torcida da Vitória Régia. Ela e alguns amigos precisaram de escolta policial para sair da arquibancada F. Ou mesmo do carnaval de 2011 em que o então governador do Amazonas Omar Aziz, patrono da Mocidade de Aparecida, pediu com gestos que os Gigantes aplaudissem sua escola. Um dos torcedores respondeu com impropérios e um gestual mais agressivo que foi considerado desacato a autoridade. O desfecho foi um enfrentamento entre alguns dos Gigantes e policiais militares que foram buscar o exaltado torcedor que agrediu gestualmente o governador. Há ainda fábulas que denotam a importância dos Gigantes para a escola como aquela contada por Ivan de Oliveira sobre o carnaval de 2012 em que uma escultura de Dom Bosco, enredo da escola, se quebrou em plena avenida, “mas com a cabeça pendendo exatamente para a arquibancada G de Gigantes”, como em uma providência divina. Todos os anos o ritual de preparação de uma grande festa para receber a Reino Unido na avenida se repete. Independente de sua idade e contrariando as recomendações de repouso dos familiares e médicos, Dona Célia já começa a pensar no carnaval meses antes do dia do desfile. Recolhe entre os moradores do bairro ripas de madeira que receberão tecido nas cores verde e branco para a confecção de bandeirolas distribuídas entre o público da arquibancada G. A cada carnaval muitas destas bandeirolas se perdem 74
ou se desgastam. Dona Célia faz questão de confeccionar boa parte das 15 mil bandeiras distribuídas. Da mesma forma, Bruna dedica boa parte do seu tempo à organização de eventos, mobilização de componentes, manutenção e criação de faixas e bandeiras da torcida. A festa dos Gigantes tem grande porte e geralmente demandam um grande orçamento, portanto, são necessários meios para viabilizar estes gastos com a venda de camisas, adesivos entre outros nos eventos da escola. No dia a torcida tem que esbanjar brilho com fogos de artificio iluminados. Formam mosaicos nas cores da escola com bandeiras ou bolas. Bandeiras, faixas de incentivo e outros são utilizados como forma de incentivo aos desfilantes. Tudo para a torcida ser a maior e promover a melhor festa contagiando assim os componentes da Reino Unido. Aqui vemos mais um exemplo da competição agonística nos termos da antropologia clássica (MAUSS, 2001). O lugar onde se deve despender o máximo de reservas em valor, o máximo em energia e performaticamente ser melhor que o outro em todos os âmbitos, dentro ou fora da pista de desfile. Atualmente, os Gigantes têm atuação ainda mais marcante nos rumos da escola. Foi através de Bruna que os Gigantes ganharam espaço nas redes sociais, vendem camisetas que financiam as ações no dia do desfile e assim, Bruna foi convidada para a diretoria de comunicação da Reino Unido da Liberdade. Ao lado dela militam nomes com grande reconhecimento na escola como Ivan de Oliveira e Neilo Batista (Presidente do Instituto Reino do Amanhã) por exemplo. Esse ano eu entrei na diretoria então as ideias que eu tinha para a Gigantes a gente está adaptando para a escola. E dentro da escola a gente coloca coisas para a Gigantes como por exemplo esse ano o aplicativo para o celular. (Bruna Colares, diretora de comunicação da Reino Unido e liderança da Gigantes do Morro – 25/01/2015) Outra ação da Gigantes do Morro é a carreata para propagar a proximidade do dia de desfile e o samba da Reino Unido da Liberdade pela cidade. A carreata tornou-se um evento do calendário oficial da escola, antecede em uma semana a realização dos desfiles. Atravessa diferentes bairros da zona sul de Manaus saindo de frente da quadra com término no sambódromo. Por lá, os Gigantes desfraldam suas bandeiras tal como nos ensaios de rua, ensaios técnicos no sambódromo e nos desfiles. Servem ainda de elo de negociação com os donos de carros equipados com aparelhagens de som comuns a sociabilidade jovem das periferias de Manaus. No universo das escolas de samba, porém, 75
é preciso ser gigante para enfrentar uma série de conflitos internos da agremiação e do bairro e perpetuar-se em festas e carnavais. 2.3. Um Reino não tão unido assim: conflitos políticos e a luta contra a estigmatização em um bairro popular Como já dito, com o lema “Uma escola de vida onde reina o espírito imortal da resistência do samba”, a escola do Morro da Liberdade entra todos os anos na pista de desfiles de Manaus. Lá estarão boa parte dos frequentadores do Pagode da Resistência, das crianças do Reino do Amanhã, dos Gigantes do Morro na arquibancada G. Lá estarão parte dos seus fundadores, os meninos do Morro estarão na pista cantando por sua agremiação. Entre as inúmeras motivações, uma delas é a motivação política. Quando me falou um pouco mais sobre a fundação do Reino Unido da Liberdade, Ivan de Oliveira percorria comigo os becos e ruas do Morro. Indicava lugares marcados como importantes em sua memória afetiva. Onde aconteciam os bailes, onde foi o terreiro da Mãe Zulmira, os diversos terrenos cogitados para sede da Reino Unido. Passamos pelos clubes do bairro, o Libermorro e o Olaria, onde os bailes dançantes animavam a juventude. Ao apresentar os bares onde “a rapaziada se reunia para fazer um samba”, ele indicava uma divisão importante para entendermos o atual momento político da escola. Um dos bares congregava a turma do JBM, atual presidente da escola; no outro ficavam os amigos do BS, atual Deputado Estadual no Amazonas. Na sua fala Ivan não deu maiores detalhes, mas ali ficou clara uma divisão política entre os “Meninos do Morro”. No intervalo entre os carnavais de 2013 e de 2014, o Morro viveu uma acirrada disputa política pela presidência da escola. O presidente anterior era Reginei Rodrigues, que não concorreu à reeleição pois liderou o processo de fundação da nova entidade de organização dos desfiles da 1a divisão, a CEESMA53. Para assumir a presidência foi lançada apenas uma chapa encabeçada por um dos fundadores da escola, o ex-policial civil JBM. O ex-presidente Reginei apoiou este nome. Próximo ao dia da eleição, uma liminar foi impetrada impedindo a realização do pleito. Os supostos líderes da ação foram JH e BS. Um dos fundadores da escola, JHC atualmente é assessor parlamentar de BS. Eles sempre tiveram ativa militância junto a Reino Unido da Liberdade. JH, jornalista, como já citado, foi compositor em diversos
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Comissão Executiva das escolas de samba de Manaus
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sambas da escola bem como autor de diversos enredos não apenas na Reino Unido como em outras escolas. Já BS foi presidente da Reino Unido em seus primórdios e chegou a figurar durante um bom tempo como presidente de honra. Foi puxador da escola, compositor e também autor de alguns enredos. Professor Universitário, formado em marketing e empresário, lançou-se na política como vereador em 1993, foi reeleito por três mandatos até 2004, eleito deputado estadual atualmente com mais de 22 mil votos. Chegou a ocupar a secretaria de Infraestrutura do Estado do Amazonas e a presidência da câmara municipal. Atualmente é um dos deputados estaduais da bancada do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) em que sempre atuou durante toda sua carreira política. Acompanhei uma de suas campanhas para vereador em 2012. Naquela ocasião BS não fez da militância junto as escolas de samba um de seus motes eleitorais de forma explícita. Aparentemente, ele e JHC já estavam rompidos com a Reino Unido, mesmo assim, evitavam comentar sobre a direção da escola. Num encontro que tive com BS, suas críticas eram direcionadas a AGEESMA, associação organizadora dos desfiles do Grupo Especial, a 1a divisão, em 2011 e que foi extinta em 2014. Por outro lado, BS e JH mantiveram durante aquele ciclo eleitoral um site especializado em carnaval. Lá não só estavam seus apoiadores no mundo do samba como colunistas, também se destacava a presença de BS em ensaios de algumas escolas de samba entre visitas de personalidades do samba carioca e manauara ao comitê de campanha. As notícias se misturavam a comunicados das escolas de samba, eventos de samba e pagode pela cidade e dados gerais sobre as escolas. Em seus panfletos eleitorais, ele ressalta a atuação junto a moradores e associações de bairros como Praça 14 de Janeiro, Alvorada, Educandos, Betânia e o Morro da Liberdade. O Morro é destacado como bairro de origem e crescimento de BS. Após eleito vereador em 2012 BS ainda aparece junto a escolas de samba. No carnaval de 2014 foi autor do enredo sobre motociclistas da Sem Compromisso. Neste mesmo ano articulou o apoio do prefeito de Manaus, Arthur Virgílio e de políticos de seu partido à Unidos do Alvorada que homenageava o lutador José Aldo em seu enredo. O nome de BS chega a ser citado no grito de guerra do intérprete carioca Nêgo contratado especialmente para o desfile da Alvorada naquele ano. Dentre moradores e ex-integrantes da Reino Unido encontrei algumas palavras mais duras à BS e ao grupo de JBM. De um lado, um sócio com direito a voto na escola declarou que “BS era só mais um político que usava a escola para se eleger”. Outro componente da mesma forma breve resume a atuação de BS na escola em “interesse político” acrescentando ainda: “Meu voto não leva”. 77
Por outro lado, outro sócio e também parente de ex-integrante de um importante quesito na Reino Unido fazia críticas direcionadas ao grupo de JBM que atualmente ocupa a presidência da escola: “Não é só por trabalhar na prefeitura, mas eu defendo o BS até a morte. Ainda mais com esses caras que estão lá na escola. Eles não têm coragem de admitir o quanto o BS ajudou e ajuda a escola. Eles são muito despeitados. Não lembram que o BS está sempre disposto a ajudar e mesmo assim não procuram ele.”(A. ex-componente da harmonia da Reino Unido – 21/12/2014) Na outra ponta da disputa, I, que sempre apoiou JBM e seu grupo em nenhum momento criticou BS diretamente quando conversou comigo. A única fala direta que tenho dele atacando diretamente BS foi dada próximo ao período eleitoral na ocasião citada quando BS e JH embargaram as eleições da Reino Unido. I declarou ao Blog da Floresta sobre a situação: São pessoas que construíram essa escola e que deviam estar aqui participando desse evento, que mostra o crescimento espiral da Reino Unido. Preferem jogar sujo e agir de má fé contra a democracia eleitoral que nós implantamos aqui na Escola Reino Unido da Liberdade. (I. em Eleição na Reino Unido continua suspensa – Blog da Floresta, 27 de maio de 2014) Os que permanecem atuando na política da Reino Unido, porém de forma independente de BS fazem questão de dizer que “a escola é maior que todos nós”. Esta frase é repetida inúmeras vezes em diversos âmbitos e agremiações carnavalescas. A ideia de que “as pessoas passam e a escola fica” encarnada na frase de efeito citada é importante na manutenção da coesão do grupo e no enobrecimento do nome. Ter capacidade de tocar a escola sem precisar de políticos ou mecenas é a grande utopia das escolas de samba. Vez por outra as negociações políticas são retomadas por outros âmbitos. Não precisar de um mandato para conseguir intervenções estruturais no bairro ou coisas para a escola é motivo de orgulho. Tal é o caso do projeto em construção da nova quadra da Reino Unido da Liberdade junto a reurbanização do igarapé do Quarenta que divide o Morro da Liberdade e o bairro da Cachoeirinha: O projeto da quadra nós conseguimos tocar depois de batalhar para falar com o governador Omar Aziz. Falamos diretamente 78
com ele durante uma visita do comitê organizador da Copa. Todo mundo na arena querendo tietar o Ronaldo Fenômeno e nós de coletinho amarelo correndo atrás do governador. Consegui os coletes pois trabalho na SECOM do estado. Botei os coletes no JBM e mais um pessoal e fomos lá cobrar o início das obras de construção da nossa quadra. (I – 25/01/2015) Impossível não admitir que o cargo ocupado por BS na esfera pública é uma das formas de ressignificação do bairro. Um menino do morro ocupando um importante cargo público é significativo. A importância da escola, no entanto, salta aos olhos. Afinal o termo meninos do morro foi cunhado para os fundadores da escola. Neste momento podemos refletir sobre o papel da política no caso das escolas de samba. Tal situação já foi explorada no caso de um bloco carnavalesco na Cidade de Deus, onde Alba Zaluar demonstrou as formas dos moradores lidarem com o clientelismo político barganhando suas reivindicações com vários deles, sem necessariamente votar em nenhum deles (ZALUAR, 2000). O envolvimento na política eleitoral em seus diversos âmbitos pode ser problemático inclusive internamente. O processo de adesão ou não a uma escola de samba passa por diversos âmbitos, dentre eles a adesão política. A política interna é obviamente determinante, porém muitas vezes a política de outras escolas também. Durante pesquisa de mestrado acompanhei o drama de um processo eleitoral para escolha do presidente da União da Ilha que desembocou na cisão desta escola de samba e a adesão, ao menos temporária, de vários de seus componentes à Acadêmicos do Dendê, escola vizinha da primeira na Ilha do Governador (BARBIERI, 2012). O objeto da antropologia da política é a compreensão da forma pela qual os atores sociais experimentam e apreendem a política numa sociedade heterogênea em determinadas situações e contextos (KUSCHNIR, 2007). Partimos então para a interpretação de sua dimensão simbólica no caso das escolas de samba. Essa apreensão da dimensão da política no meio do carnaval foi observada não apenas no caso do bloco carnavalesco na Cidade de Deus. Em dimensões políticas mais amplas, a relação da cidade com as escolas de samba foi tomada pelas ciências sociais na sua relação entre classe sociais no que tange a sociedade carioca (QUEIROZ, 1999), com o mecenato do jogo do bicho (CAVALCANTI, 2006 e 2009); mesmo da dinâmica social brasileira (DAMATTA, 1997). Porém, o que nos chama atenção no caso da Reino Unido da Liberdade é a relação entre seus componentes. Algo que, com base nos depoimentos aqui citados, nos 79
aproximaria de uma visão das relações políticas dentro do contexto de grupos em um bairro pobre de Manaus, e nos leva a pensar nas relações entre “grupos de esquina” como em Cornerville (WHYTE, 2005). Como indicou o autor, os grupos organizados têm uma lógica e valores morais internos, que podem até refletir valores e conceitos externos em determinados níveis, mas num universo microssociológico as relações de independência do poder político e econômico mais amplos são mais valorizadas. É o caso de repensarmos as relações de dirigentes e patronos nas escolas de samba como atuações simplesmente de mando. É evidente que relações violentas tendem a prevalecer em muitos casos, mas mesmo estas podem ser negociadas. As relações institucionais das escolas de samba tornam-se mais fortes com o passar do tempo e aquilo que muitos autores, como Queiroz (op. cit.), identificaram como “domesticação” não representa necessariamente submissão ao poder público. A análise de uma situação social nos conduz ao próximo ponto tomando esta como a análise do comportamento ou do aparato simbólico mobilizado por grupos em diferentes situações que nos levam a compreensão do sistema de relações subjacentes (GLUCKMAN, 1987). Entender o funcionamento da política interna das escolas de samba requer que consideremos as situações sociais que se apresentam na dinâmica social das escolas de samba, e analisálas ajuda a esclarecer os caminhos e mecanismos como seus atores se colocam diante da realidade. 2.4. A resistência do samba em ação: quando a Reino Unido e o Morro da Liberdade despontam na passarela para a cidade. O ápice ritual em qualquer escola de samba é o momento de seu desfile. Para chegar até lá uma série de ensaios são realizados. Estes ensaios aproximam-se deste ápice ritual e buscam encená-lo performaticamente. É por este motivo que a Reino Unido da Liberdade elabora um calendário que tem como eixos principais seus ensaios de rua no Morro da Liberdade. A temporada de ensaios tem momentos antecedentes que convergem para o ciclo anual carnavalesco de qualquer escola de samba (CAVALCANTI, 2006). Nele temos inicialmente a escolha do enredo e a divulgação da sinopse para os compositores, este irão preparar os sambas de enredo. Com o samba de enredo escolhido, seja por um concurso com várias músicas ou da forma como a Reino Unido fez para o carnaval 2015, encomendando uma música a um grupo pré-definido de autores. Concomitante à escolha 80
e gravação do samba escolhido para ser cantado pelos componentes na avenida, temos o início da preparação das alegorias e protótipos de fantasias. As festas de apresentação dos protótipos, dos segmentos e feijoadas movimentam a quadra nos dias em que os ensaios de bateria, ensaios técnicos e ensaios-show não acontecem. Este ciclo foi estudado e descrito em outros estudos (CAVALCANTI, 2006 e FERREIRA, 2012). No caso da Reino Unido da Liberdade temos alguns aspectos diferenciando, porém, a lógica acima descrita é seguida. Os ensaios de bateria na Reino Unido da Liberdade acontecem em frente à quadra na Rua São Pedro. Como o espaço passou a ser pequeno para a quantidade de pessoas que acompanham e buscando uma melhor qualidade acústica, fez-se a opção por ensaiar na rua. Nessas ocasiões, a bateria se posiciona paralelamente à quadra ocupando toda a parte asfaltada de circulação de veículos da rua. Ao fundo da bateria um carro de som conectado ao conhecido Boteco da Resistência que nestes dias funciona como um mini palco com cantores e cavaquinhistas de frente para a bateria. O público ocupa todas as calçadas ao redor da bateria, em frente à entrada da quadra e mesas são distribuídas de frente para a bateria, fechando a rua. Várias pessoas acompanham os ensaios de bateria das sacadas de suas casas. Com este ensaio aberto na rua, a escola perde uma fonte de arrecadação, problema que esperam resolver com a inauguração da nova quadra. Segundo Ivan de Oliveira, desta forma o espaço da antiga quadra será transformado numa escola de artes para jovens e crianças do bairro.
Figura 24 - Bateria ensaiando em frente à quadra - Foto Taynah Pinheiro.24/11/ 2013
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As obras da nova quadra já haviam passado da fase de fundação e na última visita que fiz ao Morro os camarotes e salas começavam a se desenhar na estrutura da quadra. A última visita que fiz ao Morro da Liberdade durante a pesquisa foi justamente num ensaio técnico de rua. Bom frisar esta denominação da mesma forma que Ivan de Oliveira fez comigo quando, num equívoco, chamei o ensaio de “arrastão”, denominação que predomina na maioria das escolas de Manaus quando se trata do ensaio de rua: “Arrastão é o evento que realizamos para abrir a temporada dos ensaios de rua, no último domingo antes das festas de final de ano. Este que realizaremos da Rua Maués na Cachoeirinha com chegada na nossa quadra no Morro da Liberdade é nosso ensaio técnico de rua. Nele simulamos uma situação real de desfile”, frisava Ivan.
Figura 25 - Bateria faz saudação à Dona Célia e aos Gigantes do Morro durante ensaio técnico - Foto Taynah Pinheiro. 25/01/2015
De fato, é uma simulação do desfile. A bateria simula seus movimentos de entrada e saída do recuo, tal qual na pista de desfile. O tempo é marcado, as alas encenam seus passos coreografados em suas posições de desfile. Membros da harmonia circulam tensos pela escola verificando se todos ocupam suas posições e se o andamento dos componentes não comprometerá o tempo regulamentar de uma hora de desfile. A passagem triunfal em frente à arquibancada da Gigantes do Morro é simulada. Na ocasião a própria casa de Dona Célia Colares é a arquibancada G do sambódromo. A posição coincide com os primeiros metros após a ponte que cruza o Igarapé e marca, consequentemente, a entrada no Morro da Liberdade. A bateria neste momento para totalmente por um longo período do samba em uma convenção chamada pelo mestre de bateria Dalton de apagão. É o 82
momento em que os componentes mais se exaltam cantando forte o samba do ano e batendo os braços no ar. Dona Célia vai as lágrimas. O cortejo segue por mais alguns metros encerrando na quadra. Quando chega até lá orientações são passadas aos componentes pelo carro de som, seja por membros da harmonia, seja pelo diretor de bateria ou até mesmo o presidente. Serve como um balanço geral do ensaio realizado. Serve também como momento para passar informes sobre eventos seguintes ou reuniões durante a semana. Quanto mais próximo do carnaval mais tempo este pós-ensaio pode se prolongar, seja com eventos dentro da quadra – como escolha de rainhas e musas – ou uma espécie de ensaio show com sambas de escolas cariocas. Os pontos de partida dos ensaios variam entre os bairros limítrofes ao Morro da Liberdade. Enquanto o ensaio analisado começava no bairro da Cachoeirinha, outro iniciava no bairro do Educandos, outro no bairro da Raiz e mais no bairro da Betânia. Os diferentes pontos de partida buscam integrar outros bairros ao Morro e propagar o nome da escola de samba, segundo seus dirigentes. O fato de estabelecer um local como o ponto de partida de um ensaio é significativo. É no início de um desfile que são feitas as menções ao bairro e os lemas e marcas indenitárias das escolas tornam-se visíveis através dos discursos e gritos de guerra, emergem com protagonismo. Este acaba por tornar-se um momento especial para as escolas de samba. No caso da Reino Unido da Liberdade frisada por seu grito de guerra, independente do intérprete que comande o carro de som, é sempre o mesmo: “Reino Unido da Liberdade! Aqui reina o espírito imortal da resistência do samba! Uma escola de vida! “ .
Figura 26 - Reino Unido na concentração para o desfile - Foto Taynah Pinheiro 19/02/2015
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Do grito de guerra em diante pessoas dos mais diferentes pontos da cidade tornamse moradores do Morro. Pessoas de diferentes estratos da sociedade manauara compartilham do sentimento de resistência proposto pela escola. Ajudam dessa forma a propagar um outro olhar, uma outra forma de representar o Morro da Liberdade frente à cidade. Mesmo aqueles que não frequentaram nenhum ensaio envergam a camisa da escola no desfile. Há os que contestem essa presença, especialmente componentes mais ativos da escola – mesmo aqueles que não são moradores do bairro – e olham com desconfiança para os denominados paraquedistas ou sambeiros. Tudo isso se esvai no momento e pós-desfile quando o discurso uníssono da avaliação dos componentes isenta a agremiação de todas as falhas pondo a culpa em problemas nos rivais ou na manipulação de resultado destes. Salvam-se como exceções os oposicionistas que apresentam uma visão crítica do carnaval apresentado indicando soluções consideradas melhores para sua escola.
Figura 27 - preparação para ensaio em frente à quadra da Reino Unido. Foto de Taynah Pinheiro. 24/11/2013.
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2.5. Há quem não goste: e como pensam os moradores que se opõem à escola? A visão até aqui construída enfrenta seus dilemas. Um deles habita nas falas dos próprios moradores do Morro que não gostam de samba ou não gostam da escola. Tive oportunidade de conversar com dois deles que pediram para ter suas identidades preservadas. X chegou a militar na escola, tornou-se oposição e terminou por se afastar do carnaval de forma geral. Por outro lado, J jamais apreciou carnaval, é evangélico e se opõe de forma contundente à visão de que a escola contribui de alguma forma para a vida cultural do bairro: Vida cultural não existe, isso é coisa de vagabundo. Aquela escola de samba diz que projeto social, mas é uma balela. Aquilo é um antro de prostituição! Você não sabia que ali é um ponto de prostituição? Venda de drogas todo mundo sabe, mas prostituição também. (...) Além do que não serve para nada ensinar as crianças a batucar uns tambor (sic). Levam as crianças para um mal caminho, da bebida e das drogas. Essa é a vida cultural deles. (J. morador do bairro – 09/05/2013) Não recomendo que leve sua namorada e seus amigos lá. Infelizmente a Reino do Amanhã só serve para os adultos se promover. A escola de samba só lembra do bairro perto do carnaval. O pagode anda mal frequentado e sempre tem um morto. Enquanto isso faltam escolas, delegacias, postos de saúde no bairro. Nem comércio tem direito. (X. morador do bairro – 14/06/2011) Interessante notar que a visão dos moradores do bairro que se opõem à escola de samba se aproxima da visão estigmatizada e preconceituosa do restante da cidade em relação ao Morro. Indo mais além vemos também como esta visão se aproxima do conceito de região moral. Em seus estudos sobre a ecologia humana (HANNERZ, 1980) em que dispõe de um método para analisar a distribuição espacial na cidade, Robert Park definiu a região moral como o fenômeno onde a população na vida citadina tende “a se segregar de acordo com seus gostos e temperamentos” (PARK, 1987, p.64). Devemos problematizar o que de fato faz sentido nas declarações negativas dos moradores como a falta de serviços básicos de saúde e educação, o que, no entanto, é um problema vivido por muitos bairros em Manaus. Andando pelo Morro da Liberdade durante todo o tempo desta pesquisa, entretanto, não presenciei casos de prostituição como mencionado. Entre os assíduos 85
frequentadores da escola tais acusações causam estranheza. A relação com o tráfico de drogas é tensa, porém, é negociada. Foi possível constatar a maneira como se dá tal negociação em fala do ex-diretor de bateria Aldi no relato citado anteriormente54 onde emerge a tensão no entorno do espaço da quadra ou em recomendações ocasionais de componentes durante os ensaios para que eu não circulasse por tal ou tal lugar, geralmente distantes do ponto onde a bateria ensaiava ou do trajeto que o ensaio técnico percorria. Trata-se de um dado da realidade das grandes cidades que não parece haver muitas perspectivas de fuga e incorre em projetos a longo prazo. Para dar conta da complexidade das relações humanas nas metrópoles é necessário lançar mão de estratégias ousadas como concluímos da leitura de outros teóricos da antropologia urbana. Simultaneamente é preciso ter humildade para reconhecer a impossibilidade de abarcar todas as questões que as cidades suscitam em múltiplos planos. Dessa forma, vemos a emergência dos estudos de festas e rituais ocupando um espaço importante nesta empreitada. Tomando propriamente um teórico das festas podemos citar Maria Laura Cavalcanti em entrevista recente sobre o assunto: As festas acabam funcionando como pontos de equilíbrio nos processos de mudança social. Como voltam a cada ano, são pontos de referência, requerem a criação de consensos. (...). Então as festas têm uma função que vai além delas mesmas. Precisam ser olhadas com atenção pois trazem muitos conflitos para a luz do dia. (CAVALCANTI, 2013, p.50) Espaços tidos como marginalizados, ou marcados pelo estigma encontram nas festas possibilidades de ressignificação simbólica. Os eventos da Reino Unido da Liberdade ecoam assim para a cidade e mesmo para demais experiências desse tipo como uma saída para o estigma da violência, a escola de samba retira do Morro da Liberdade o estigma de lugar a ser evitado, buscando tornar-se um ponto de confluência cultural tendo o samba como mediador. Poderíamos ainda apontar como mediador desta relação, não só o samba, mas os eventos da Reino Unido como um todo – seus pagodes e ensaios – enquanto marcas performáticas dessa relação num contexto em que “a performance adquire, assim, novos significados e favorece novas relações” (AGIER, 2011, p.177).
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Refiro-me aqui à fala citada na página 67: “Os pagodes melhoraram muito. Andou um tempo em baixa porque o pessoal com aqueles carros cheio de som potente paravam na frente da quadra tocando forró e funk. Nós tentamos negociar e não deu certo. Ai começou a rolar droga, briga e cada vez mais carro. Era impossível ouvir o pagode. Então nós acionamos a ROCAM e eles varreram todo mundo.”
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Aqui comprovamos que a ironia presente na ilustração apresentada pelo blog “No Amazonas é assim” é materializada em campo. O bairro - com suas ladeiras e vielas pacato durante o dia, visto sob o estigma da violência armada e de práticas condenadas, obscuras marcantes das regiões morais, dos espaços a serem evitados da cidade – transforma-se em uma arena que congrega outros espaços segregados da cidade em uma disputa central no calendário festivo em busca de uma imagem de si mesmo muito mais atraente, vibrante e relevante artisticamente. Embora nem todos os componentes da escola sejam moradores, cerca de 70% segundo sambistas da Reino Unido da Liberdade, todos os componentes passam a se identificar com o bairro e o frequentam através da escola. A escola de samba se firma desta forma como importante articulador da capacidade de transformação de imagens e representações do bairro. Podem até mesmo, as escolas de samba, articular identificações afirmativas dos bairros, valores sentimentais e nostálgicos; finalmente identificações religiosas, como veremos a seguir. Tudo isto posto em jogo em uma competição – pois disto se tratam os desfiles de escolas de samba, saber qual a melhor – onde a rivalidade é direcionada e canalizada.
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CAPÍTULO 3 - A ESCOLA DE SAMBA EM UM BAIRRO VALORIZADO: A “SOBERANA” MOCIDADE INDEPENDENTE DE APARECIDA. Depois de conhecer, percorrer e aproximar-me do Morro da Liberdade em 2011, no ano seguinte, fui levado por Schneider e outros amigos, além da minha esposa, à Mocidade Independente de Aparecida, cuja sede fica no bairro de Nossa Sra. de Aparecida. Localizado na Zona Sul de Manaus, a mesma zona do Morro da Liberdade, o bairro de Aparecida faz limite com o Centro de Manaus, e com os bairros de São Raimundo, Glória e Presidente Vargas. Trata-se de um dos mais antigos bairros, onde o ciclo da borracha (1890-1914)55 deixou marcas até hoje identificáveis. É um bairro pequeno, com uma população atual de 6996 habitantes (0,40% da população de Manaus) 56
, que abrigou também uma série de empresas manufatureiras no ápice da Zona Franca
de Manaus, na década de 1970. Mesmo com a decadência da Zona Franca e o fechamento de várias dessas indústrias, o bairro continua bem provido e reconhecido pelo comércio e serviços públicos. Nele se encontram o Centro de Convivência do Idoso, o Colégio Militar, a Faculdade de Farmácia da UFAM, Fóruns de juizados especiais, consultórios médicos, odontológicos e oftalmológicos. A predominância do catolicismo entre seus moradores se expressa no próprio nome do bairro que abriga a igreja de Nossa Senhora Aparecida.
Figura 28 - Torres da igreja de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Arquivo Pessoal. 15/07/2013.
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O período da borracha foi um período significativo para a urbanização da cidade de Manaus. Obras de infraestrutura inauguradas no período foram um legado para a cidade ainda que a industrialização não tenha deixado marcas, vindo a desenvolver-se apenas posteriormente. (OLIVEIRA, 2003) 56 Censo Brasileiro de 2010 em http://censo2010.ibge.gov.br/sobre-censo
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O bairro de Aparecida destaca-se por ter o maior IPTU da região central e por indicadores sociais positivos. Tem um dos maiores IDH de Manaus e o melhor IBEU57 da cidade. Porém, não é dos mais valorizados no mercado imobiliário da cidade. Em parte, isso é atribuído ao alto valor do IPTU, em outra parte à sensação de perigo que remete à criminalidade e violência no bairro. Apesar dos indicadores da Secretaria de Segurança Pública estadual apontarem baixos índices de ocorrência, sua proximidade com o Centro da cidade é indicada como responsável pelo aumento desta sensação de violência. Um morador do bairro comentou: É um bairro bom para se morar. Tirando alguns percalços que todo bairro tem.... Sei que não é só Manaus. Infelizmente as drogas são um problema e infelizmente isso acontece em todos os bairros. Há mais ou menos uma década atrás a Aparecida era considerada um bairro calmo. E essa característica vem mudando, acho que até mesmo para a polícia. (...). As pessoas as vezes vem ali na clínica Hapvida e dizem que não vão se aproximar ali da praça da Bandeira Branca porque ficam com medo. (Morador do bairro em entrevista no dia 06/04/2015) Há ainda os que apontam outros problemas que, embora não detectados em dados estatísticos, nos remetem a certo ar nostálgico com que o bairro é vivenciado entre os habitantes de Manaus. É o caso do historiador João Roberto Bessa Freire (2007): O contingente habitacional aumentou consideravelmente, ficando para trás alguns hábitos provincianos, com sua paisagem urbanística sendo mesclada por arquitetura improvisada, pela emergente necessidade de alguns moradores de manterem uma identidade urbana. Hoje isso pode ser constatado através da observação da orla do igarapé de São Vicente, que se encontra literalmente tomada por embriões de pau a pique, avançando de forma inexorável pelos leitos dos igarapés circunvizinhos, sem um planejamento e saneamento básico, capazes de propiciar uma qualidade de vida adequada. (Op.cit, p.39) O bairro nasceu da expansão do centro da cidade no século XVII. Inicialmente chamado bairro das Cornetas passando a Cajazeiras e bairro dos Tocos. Adotou-se a atual
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O Índice de Bem Estar Urbano (IBEU) é um indicador criado pelo Observatório das Metrópoles que “procura avaliar a dimensão urbana do bem-estar usufruído pelos cidadãos brasileiros promovido pelo mercado, via o consumo mercantil, e pelos serviços sociais prestados pelo Estado. Por meio do índice é possível analisar indicadores de mobilidade urbana; condições ambientais urbanas; condições habitacionais urbanas; atendimento de serviços coletivos urbanos; infraestrutura urbana”.(IBEU; 2013)
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denominação apenas em 1944 com a chegada de missionários americanos que ali instalaram a nova paróquia de Nossa Senhora de Aparecida. O ápice de sua ocupação aconteceu antes da década de 1920, quando empresários da borracha instalaram ali casas geminadas para aluguel aos trabalhadores urbanos. Abrigou também intelectuais amazonenses, entre eles o folclorista Mario Ypiranga Monteiro, que chegou a ser enredo da escola de samba do bairro em 1999.
Figura 29 - Exemplo de habitação característica do ciclo da borracha no bairro de Aparecida. Comum no bairro ainda nos dias de hoje. Arquivo pessoal. 15/07/213.
As marcas deixadas pelos missionários foram ainda mais indeléveis. A devoção à santa e a centralidade das atividades paroquiais no cotidiano do bairro remontam a este período. As festas, os encontros que marcam aspectos tradicionais do bairro acontecem respeitando os horários da igreja principal. As principais atividades sociais e os clubes nasceram desta demanda ou tiveram os espaços paroquiais como berço (FREIRE, 2007). Do envolvimento religioso adveio a produção de práticas culturais que marcaram a própria identidade do bairro. Temos aqui um processo que a antropologia urbana há muito observa. No bairro do Jurunas em Belém (PA), Rodrigues (2008) chamou atenção, no mesmo contexto amazônico, para o lugar ocupado por um conjunto de práticas culturais de fundo religioso na produção de um sentimento de pertencimento à localidade. Ou em Portugal onde num bairro popular, festas populares de fundo religioso propagam a mesma identificação simbólica (CORDEIRO, 1997).
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Na história do bairro de Aparecida consta ainda a existência de fábricas que impulsionaram sua ocupação pelo operariado urbano, em especial a cervejaria Amazonense fundada em 1912. A Zona Franca de Manaus trouxe nova definição ao bairro que, com a proximidade do centro, passou a ter mais visibilidade em seus empreendimentos. Como em todos os bairros de Manaus, a história desse bairro é permeada pela relação com seus bairros vizinhos. Todos eles formam um aglomerado de ocupações antigas, e guardam na atualidade resquícios de relações conflitivas dos outrora existentes entre jovens dos respectivos bairros. A juventude de Aparecida tinha seus rivais na Matinha (atual Presidente Vargas); nos bucheiros de São Raimundo58 no outro lado do igarapé; e na Glória. Talvez aí estejam as raízes propulsoras da fundação da escola de samba, integrante do congraçamento coletivo dentro do qual o bairro rivaliza com outras regiões. Com a expansão urbana trazida pela Zona Franca nos anos 1970, por ser um dos bairros próximos e provido de boa infraestrutura urbana, o bairro de Aparecida foi um dos pontos beneficiados. A ocupação das margens dos igarapés com moradias insalubres e precárias aqui já descritas diversificou a formação social e cultural do bairro, que manteve, entretanto, os traços anteriores. Nas ruas, a arquitetura e os personagens estampam a relevante participação portuguesa na história do bairro. Em 1980, na Rua Bandeira Branca, um dos mais tradicionais redutos da ocupação do bairro, nasceu a Mocidade Independente de Aparecida.59 Com suas casas geminadas com fundos para o Igarapé São Vicente, a pequena praça em que desagua esta rua sem saída retrata o que são a maior parte das ruas de Nossa Senhora da Aparecida. O nome da rua está associado “a um antigo morador português, dono de uma taberna, que tinha por hábito colocar uma bandeira branca à porta do estabelecimento” (FREIRE, 2007, p.9). Esta ocupação ibérica do bairro é ainda presente nesta rua. É o caso de Carlos Ventura Xavier, filho do português Antônio Dias Loureiro Ventura. Antônio foi fundador do Corpo Voluntário de Bombeiros de Manaus, em 1950 e seu filho Carlos reside no bairro a mais de 50 anos. A participação ativa do filho de um dos ícones do bairro de Aparecida desemboca na história da escola de samba, pois, em meados da década de 1980, Karlão, 58
Moradores do bairro de São Raimundo eram conhecidos como “bucheiros” devido a um grande matadouro que existiu no bairro. 59 Fundada por Armindo, Arthurzinho, César Gato, César Bandeira, Chico Mocidade, Delgado, Eudimar Bandeira, (o Nem), Mestre Jô, João André, Jorginho Devagar.
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como é conhecido, passa a integrar a direção de harmonia da escola de samba.60 Alguns anos mais tarde, ele viria a ter desentendimentos com outro membro da diretoria da escola, o que o levou a se afastar. Porém, Karlão foi conquistado ali pelo universo das escolas de samba e nunca mais as abandonou. Atualmente é o responsável pela direção de harmonia de várias escolas em várias das divisões do carnaval de Manaus. No carnaval de 2015, integrou a Vila da Barra e Primos da Ilha; além da Andanças de Ciganos e Império da Kamélia. Seu orgulho do bairro permanece latente mesmo com sua saída da escola: “Minha família é nascida e criada na mesma casa do bairro de Aparecida. (...)E eu era moleque e estava na frente do bangalô do Jorginho Devagar quando eles fizeram a churrascada de fundação da escola. “ Disse Karlão em entrevista em abril de 2015. Mesmo com sede na Bandeira Branca, a escola ensaiava durante a década de 1980 na quadra Marcolino Lopes, situada na Rua Xavier de Mendonça que termina no Rio Negro e fica bem próxima da Igreja de N. Senhora Aparecida. A Xavier de Mendonça é toda recortada por becos e pequenas ruas que conservam registros do início da ocupação do bairro. Constitui-se, portanto, em um berço sentimental para o bairro.
Figura 30 - Rua Elisa Bessa é uma das perpendiculares à Xavier de Mendonça. Foto de Taynah Pinheiro. 10/01/2015
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A direção de harmonia das escolas de samba tem a função estratégica de coordenar as posições de alas, carros alegóricos no desfile bem como estimular o canto e a dança uniformes dos componentes durante os desfiles.
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Alguns anos mais tarde, a Mocidade Independente de Aparecida passou a ocupar sua atual quadra na Rua Ramos Ferreira. Ali construiu sua prestigiosa história na memória de seus brincantes e na história do carnaval de Manaus. 3.1. Como a Aparecida já nasceu soberana? Já em seu primeiro desfile, no carnaval de 1981, ao desfilar na Avenida Djalma Batista61, a Mocidade de Aparecida sagrou-se campeã do carnaval de Manaus ao lado da escola que lhe dera origem, a Em Cima da Hora. Esta cisão foi feita aparentemente de comum acordo, pois a Em Cima da Hora se tornou madrinha da escola de samba de Aparecida. O enredo “Santos Dumont, o pai da aviação” teve como compositor do samba o historiador do bairro José Roberto Bessa Freire e a escola já se firmou com um desfile luxuoso, indicado por críticos da época e da atualidade como divisor de águas no carnaval local. Com o resultado, o título da Aparecida, nascia a rivalidade entre a verde e branco Aparecida e a verde e rosa Vitória Régia. Fundada em 1975, a verde e rosa Vitória Régia localiza-se no bairro Praça 14 de Janeiro, próximo da Zona Central da cidade de Manaus. É vista como um “berço do samba” por ter se originado da Escola de Samba Mixta, fundada em 1947, situada na Praça 14 e considerada, por sua vez, a primeira escola de samba de Manaus,. Além disso, a Praça 14 é reconhecidamente um bairro festeiro, especialmente festas ligadas à população maranhense que, ainda no século XIX, ocupou o bairro. Assim desde muito cedo o samba emerge com destaque no cenário do bairro Praça 14, praticado nos terreiros de candomblé das “tias” e “mães” do bairro, dentre elas a mais conhecida na cidade foi Tia Lindoca, fundadora da Vitória Régia (SALES, 2008). Na década de 70, a Vitória Régia se destacou no carnaval da cidade, ao conquistar o carnaval de Manaus no período entre 1977 e 1980 de forma consecutiva. Até hoje, os componentes da Vitória Régia reivindicam o maior número de títulos do carnaval de Manaus, pois consideram a Vitória Régia uma continuação da Escola Mixta, como nos diz o conselheiro da escola, Betão, em entrevista realizada na quadra da Vitória Régia: Tem muita escola aí que eu não vou falar nome que vai botar nome lá pra fazer ensaio na sua quadra. Nós não, nós temos história. Nós temos vinte e oito campeonatos no carnaval de 61
Nesta época ainda chamada Rua João Alfredo.
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Manaus, quinze com a Mixta e treze com a Vitória Régia (Betão, conselheiro da Vitória Régia – 18/11/2013) A Vitória Régia tem 1162 títulos - e não 13 títulos como declarado por Betão em seu depoimento - reconhecidos oficialmente. Seus torcedores acrescentam a estes os 15 campeonatos conquistados pela antiga escola Mixta da Praça 14, somando assim 26 taças. Tudo isso para ultrapassar os 21 títulos da rival Mocidade de Aparecida. Os anos seguintes vieram a ampliar essa rivalidade, especialmente pela supremacia assumida pela recém fundada escola do bairro de Aparecida que conquistou os quatro carnavais subsequentes. A invejável hegemonia de um pentacampeonato (1981,1982,1983,1984 e 1985) iniciado com sua estreia causava a cobiça dos rivais da Praça 14, acostumados até então a polarizar as disputas do carnaval da cidade com outros atores. Em 1982, no segundo campeonato da Aparecida, o Ginásio Renê Monteiro, localizado no bairro da Chapada, zona centro-sul de Manaus virou palco de batalha com garrafas arremessadas para o alto.
Figura 31 - Bateria da Mocidade de Aparecida no carnaval campeão de 1983. Acervo MISAM.
Apenas em 1986 a Mocidade de Aparecida veio a conhecer sua primeira derrota, terminando em terceiro lugar entre as seis escolas do primeiro grupo de Manaus. Entre as grandes escolas da atualidade em Manaus, foi nesse mesmo ano que despontou como campeã a primeira concorrente a desafiar a rivalidade entre a Aparecida e a Vitória Régia a Sem Compromisso63. Pela primeira vez, a Aparecida terminou ainda atrás da vice62
Já contando com o título de 2014 quando todas as escolas foram declaradas campeãs. A Sem Compromisso já desfilava como bloco desde o início da década de 1980. Viria a concorrer como escola de samba apenas em 1984. Por apresentar enredos “considerados sofisticados pela crítica e
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campeã daquele carnaval, a Vitória Régia,. Naquele ano outra escola despontou ainda com destaque: a Andanças de Ciganos. Logo a seguir vieram mais dois títulos da Mocidade de Aparecida. No carnaval de 1987, ela enfrentou a concorrência da Andanças de Ciganos, consagrada vice-campeã. Em 1987, outra grande rival da Aparecida na atualidade despontou no grupo principal das escolas de samba de Manaus: a Reino Unido da Liberdade. Já no título da Aparecida de 1988 com o enredo “Os Maués: origem divina e destino humano” traços realçam novamente a rivalidade. Digamos que a Aparecida resolveu encarar de frente a rivalidade tácita das demais escolas. O samba de enredo daquele ano ressaltava em determinado trecho a disposição da escola em ganhar mais um título inclusive nomeando as rivais dos anos anteriores: Chega de perenidade! Eu esta noite sou a Mocidade Por seis vezes já fui rei Vou tentar mais uma vez Ninguém vai me segurar Quebrei patuás64, Os deuses fiz chorar65 Nem figa do Bonfim me fez parar66 (Samba de enredo da Mocidade Independente de Aparecida no carnaval de 198767) De 1989 até 1991 a Aparecida amargaria o que seria o maior jejum de títulos da sua história. Neste intervalo, a Reino Unido da Liberdade que já havia alcançado o vicecampeonato em 1988, conseguiu seu primeiro campeonato em 1989. Era mais uma que entrava no rol das postulantes a enfrentar diretamente a Aparecida na disputa por títulos. Em 1992 as escolas de samba de Manaus estrearam no sambódromo especialmente criado para seus desfiles. Não mais haveria desfiles na Avenida Djalma Batista com estruturas desmontáveis. Agora com o equipamento urbano especialmente confeccionado para os desfiles, as escolas encontrariam campo aberto para a expansão já
belos sambas conquistou a intelectualidade manauara entre seus torcedores” – segundo seu ex-presidente já citado, Getúlio Lobo. Até hoje figura como escola de samba que não desperta muita rejeição entre os sambistas. 64 Numa referência ao samba da campeã Sem Compromisso em 1986. 65 Aqui faz menção ao enredo da Andanças de Ciganos, vice-campeã do carnaval de 1987. 66 Citando trecho do samba da Vitória Régia no carnaval de 1985. 67 Compositores: Cid, Marinho do cavaco, Arnaldo da Viola e Mário Toledo.
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experimentada nos últimos desfiles na Djalma Batista com a participação de artistas parintinenses.68 No carnaval de 1992, a Aparecida conquistou novamente o campeonato com o enredo “Recriando a criação”, passando assim a ostentar o título de primeira campeã do Sambódromo. Repetiu a vitória no carnaval de 1993 com um samba de enredo executado até hoje nos esquentas da escola para o enredo “Nakokendê, Namabelê, Nazulipamda, Nzambê”. Teve trechos de seu desfile transmitidos para todo Brasil através da Rede Bandeirantes que cobriu pela primeira e última vez o carnaval de Manaus. No ano seguinte, a transmissão nacional dos desfiles seria da TV Manchete. Em 1994, a escola completou a trinca de títulos consecutivos com o enredo “Parque de Anjos: Faz de conta que assim será”. A Aparecida venceu por meio ponto de diferença para a segunda colocada, a Vitória Régia, em mais uma conturbada apuração que terminou com componentes de Aparecida e Vitória Régia brigando no sambódromo. Depois deste ano, a leitura das notas passaria a ser realizada em quarteis da PM, até chegar em uma das salas fechadas ao público, situadas embaixo das arquibancadas do sambódromo. Seguiram-se três anos sem conquistas, sendo que em 1995, um sexto lugar dentre as oito concorrentes no principal grupo de escolas de samba de Manaus, trouxe a sua pior colocação até a atualidade. Nestes três anos, a Reino Unido foi a escola campeã (em 1996 dividindo o título com a Mocidade de Aparecida). Logo a seguir viriam quatro campeonatos consecutivos nos anos de 1998, 1999, 2000 e 2001. O título contabilizado de 1999 é um dos pontos de polêmica com a sua rival Reino Unido, como já vimos. Os aparecidenses contabilizam este ano como um título compartilhado entre todas as escolas de samba já que as escolas teriam decidido antes da intervenção da Rede Calderaro de Comunicação desfilar simbolicamente. O motivo foi o atraso no repasse das verbas públicas. Como já descrito anteriormente, a Rede Calderaro comprou os direitos de transmissão dos desfiles, subvencionou as escolas e premiou as escolas com seu Estandarte do Povo terminando a Reino Unido como melhor escola e a Aparecida em segundo. Em 2000, a Aparecida homenageou um importante político da região, Gilberto Mestrinho. Seu título influenciou uma onda de enredos homenageando figuras políticas locais que só parou com mudanças na legislação eleitoral brasileira. Já
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O aparato de imensas alegorias mobilizadas para os desfiles das escolas de samba atualmente é quase todo movimentado por artistas oriundos da cidade do interior do Amazonas e dos Bois Bumbás do festival folclórico da cidade. Manaus acabou sendo uma ponte para que estes artistas chegassem ao carnaval carioca onde também são ativos participantes da construção das alegorias das escolas de samba.
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no carnaval de 2001 três escolas dividiram o título com a Aparecida. Tal fato se deu por um regulamento que previa a queda da menor nota entre três julgadas e a ausência de critérios de desempate no resultado final.
Figura 32 - Desfile da Mocidade de Aparecida no carnaval 1998. Acervo MISAM.
3.1.1. Uma afilhada e rival: Aparecida nos carnavais do novo milênio Uma das escolas com quem a Aparecida dividiu o título69 de 2001 seria a sua apadrinhada A Grande Família, do bairro do São José, Zona Leste de Manaus. No carnaval do Rio de Janeiro, as falas dos atores sociais envolvidos referem-se sempre às competidoras como “coirmãs”, num esforço explícito de amenizar o conflito sempre latente e de enfatizar o estabelecimento de parcerias. Em Manaus, de modo bem distinto, as escolas parecem buscar exacerbar a tensão existentes entre elas. Enquanto no samba carioca, o “apadrinhamento” entre as escolas é recorrente, sendo a Portela70 prócer neste sentido, em Manaus soube apenas de um caso de escola batizada por outra e ambas ainda em atividade, a A Grande Família batizada justamente pela Mocidade de Aparecida. Por outro lado, vimos que a Aparecida havia sido batizada por outra escola de samba, a Em Cima da Hora do bairro do Educandos, na Zona Sul da cidade. A convivência em atividade entre Aparecida e Em Cima da Hora no carnaval de Manaus, no entanto, foi 69
As campeãs foram Mocidade de Aparecida, A Grande Família, Vitória Régia e Balaku Blaku. Praticamente todas as escolas cariocas são madrinhas ou apadrinhadas por alguma outra. Tomando estas escolas de samba como referência teríamos a Portela como escola que mais apadrinhou outras, 14 escolas. Logo a seguir vem a Mangueira com 10 apadrinhadas. O Império Serrano apadrinhou 9 escolas. Mocidade e Salgueiro tem 4 apadrinhadas respectivamente. Beija-Flor e Vila Isabel tem 3 apadrinhadas cada uma. A seguir uma enorme lista de escolas com pelo 2 apadrinhadas. Há também algumas escolas sem madrinha no Rio de Janeiro sendo estas escolas das mais antigas no Rio de Janeiro como Portela, Mangueira, Unidos da Tijuca, Império da Tijuca, Estácio de Sá e Unidos de Bangu. 70
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bem curta. Além disso, a Em Cima da Hora também foi madrinha de outra escola com quem a Aparecida rivaliza atualmente, a Reino Unido da Liberdade. Aparecida e Em Cima da Hora disputaram campeonatos uma contra outra nos anos de 1981, 1982 e 1983. O primeiro título da Aparecida foi dividido com a Em Cima da Hora, sua madrinha. E o caso da divisão de título entre madrinha e afilhada, como vimos, voltou a se repetir em 2001 com Aparecida e A Grande Família. No caso do apadrinhamento da A Grande Família pela Mocidade de Aparecida se cruzam histórias de cunho político. Segundo um componente da Aparecida, o batismo se deu por interferência do patrono vitalício da Mocidade de Aparecida, o ex-governador Omar Aziz: O Omar queria expandir seu reduto eleitoral para a Zona Leste. Você tem noção do que é isso? É a área mais populosa de Manaus! Ele conhecia o Gilberto que era presidente de lá e apadrinhou a escola logo que ela foi fundada. (Componente da Aparecida - 07/01/2015) Outro folião ligado A Grande Família e morador do bairro onde a escola está sediada, o São José corrobora a versão: O Gilberto era da Praça 14. Dizem que será candidato à presidência da Vitória Régia agora. Como é que pode né? Quase vinte anos na Grande Família e vai querer voltar como presidente da Vitória Régia? Só que foi ele quem trouxe o Omar, teve esta história de batizado e a ajuda da Aparecida ainda nos tempos de bloco.(Componente da A Grande Família – 07/01/2015) Não tivemos acesso à versão de Gilberto. Por outro lado, há dados que desmentem e outros que corroboram as versões aqui apresentadas. A escola da Zona Leste, fundada em 1977 como bloco, tornou-se repentinamente, em 1994, uma escola de samba convidada pela Associação Geral das Escolas de Samba de Manaus (AGEESMA) que tinha Omar Aziz, então presidente da Aparecida, como um de seus fundadores. Sendo fruto do acaso ou manobra política, o fato é que A Grande Família cresceu vigorosamente logo nos anos seguintes ao seu primeiro desfile como escola de samba. A zona mais populosa de Manaus aderiu em peso à escola de samba. Logo em seus primeiros anos, sua torcida adotou como território os dois maiores setores de arquibancada do sambódromo, a chamada ferradura.
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Figura 33 - Torcida da A Grande Família no carnaval 2007. Acervo MISAM.
Voltando à Mocidade de Aparecida, a escola conquistaria ainda os títulos dos carnavais de 2003, 2004, 2006 e 2008. Nestes anos citados a disputa do título do Grupo Especial ficou polarizada entre a madrinha Aparecida e sua afilhada A Grande Família. Este foi o período em que a rivalidade entre as duas escolas veio a ser incrementada. O ápice aconteceu em 2006, ano em que a Aparecida foi campeã com o enredo “Zona Franca, Nossa Esperança: o Show Tem que Continuar”. Um ano antes, a sua afilhada conseguiu o campeonato deixando-a na segunda colocação por um décimo de diferença, de virada e no último quesito. No carnaval de 2006, um blackout causado por acidente na concentração, tendo um dos membros da Vitória Régia como vítima fatal71, fez com que A Grande Família desfilasse no escuro por mais de quarenta minutos. A escola não teve suas notas anunciadas e foi declarada campeã junto da madrinha Aparecida que teve as notas lidas. No ano de 2007, a Mocidade de Aparecida terminou na quarta colocação, superada novamente pela afilhada campeã. A situação se reverteu em 2008 com a Aparecida em primeiro lugar e A Grande Família em quinto.
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Ver “Homem morre eletrocutado no carnaval de Manaus” em http://carnaval2006.terra.com.br/interna/0,,OI896219-EI6235,00Homem+morre+eletrocutado+em+desfile+de+Carnaval+em+Manaus.html. Portal Terra: 26 de fevereiro de 2006.
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Figura 34 - Aparecida no carnaval 2007. Acervo MISAM.
3.1.2. Até os dias atuais: aumenta a rivalidade Aparecida e Reino Unido. De 2009 até 2012, a Mocidade de Aparecida amargou seu mais longo jejum de títulos na história. Foram quatro anos alternando entre a quinta e a segunda colocações. Neste período viveu momentos tensos como o incêndio em uma de suas alegorias em plena avenida. Foi no ano de 2011, a quarta alegoria que tinha justamente uma escultura de um grande dragão sofreu um curto circuito em sua iluminação. Não houve vítimas, por sorte, mas a Aparecida foi prejudicada na apuração, já que o acidente ocorreu em plena avenida de desfile e a escola terminou em segundo lugar. De todos estes anos de jejum de títulos da Mocidade de Aparecida, apenas em 2009 quando a Aparecida terminou em terceiro que a campeã foi A Grande Família. Em 2010 quando a escola amargou um quinto lugar, a campeã foi sua mais antiga rival, a Vitória Régia. Em 2011 e 2012 a escola ficou com o vice-campeonato enquanto a Reino Unido foi a campeã. Estes dois últimos anos foram marcantes para um processo de cisma entre a Reino Unido e a Aparecida. A derrota de 2011 não chegou a ser contestada pelos aparecidenses, mas lamentada dada a fatalidade do incêndio em um dos carros. Já a derrota em 2012 foi bastante contestada pelos foliões da Aparecida. Um dos membros da escola me confidenciou que havia um elemento da política interna da escola: em 2013 seria o último ano da gestão de Luiz Pacheco antes das eleições e os seus eleitores o pressionavam por um título.
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Figura 35 - Carro Alegórico da Aparecida em chamas durante o desfile de 2011. Foto Evandro Machado - A Crítica
Neste ano de 2013, presenciamos o ápice do conflito latente existente entre a escola e a já citada Reino Unido. Alguns fatores contribuíram para isso. O primeiro foi uma debandada de componentes importantes da Reino Unido para Aparecida após o carnaval 2011. Saíram da campeã Reino Unido, além de Clemilton Pinto e Schneider, o intérprete Wilsinho de Cima e o carnavalesco Almir Nascimento. No carnaval de 2013, a Aparecida venceu o carnaval, tendo a Reino Unido ficado apenas em terceiro lugar atrás da Unidos da Alvorada. Antes do carnaval 2013, permeado de polêmicas entre os componentes e torcedores de cada uma das agremiações citadas, o samba da Aparecida, que tinha Schneider entre seus compositores, aumentou a polêmica ao provocar os rivais intitulando a escola como soberana: Sou a Mocidade de Aparecida Na batida do seu coração. Do Eldorado se fez um tesouro Minha bateria vale ouro. E no suingue do rocar e do agogô Solte o grito, a soberana aqui chegou! (Samba de enredo da Mocidade Independente de Aparecida no carnaval 2013) Este carnaval de 2013 marcou a volta da Aparecida ao topo da classificação. A apuração foi um tanto tumultuada e uma das delegações mais exaltadas na sala de apuração com as notas era justamente da afilhada A Grande Família que teve que ser contida pela tropa de choque da PM. A delegação da Reino Unido da Liberdade relutou 101
em receber o troféu de terceiro lugar das mãos do secretário de cultura. Como consequência do título, já que havia pressão por um durante os 3 primeiros anos de gestão, o atual presidente Luiz Pacheco da Mocidade de Aparecida conseguiu se reeleger em 2014.
Figura 36 - Desfile da Mocidade de Aparecida no carnaval de 2013. Acervo pessoal. 09/02/2013
Em 2014, todas as escolas foram aclamadas campeãs após um ano de problemas com o governo estadual para liberação de verbas e desorganização na AGEESMA que acabara de ser dissolvida. A forte chuva durante o dia de desfiles no ano foi a situação limite que resultou na decisão de dividir o título entre todas as escolas. Discutiremos este carnaval mais à frente.
Figura 37 - Aparecida no carnaval 2015. Foto de Taynah Pinheiro. 19/02/2015
No carnaval de 2015, a Aparecida conquistou o segundo título consecutivo e completou assim 21 títulos no carnaval de Manaus. Neste último carnaval que pude 102
acompanhar, haveria ainda mais uma troca de provocações entre a Aparecida e a Vitória Régia. O refrão do samba de enredo que a escola da Praça 14 levou para o sambódromo no carnaval em que terminou na quarta colocação: “A rainha do samba, chegou! A majestade, soberana verdadeira. Em verde e rosa tremula o pavilhão. Com muito orgulho ergo minha bandeira Podem falar o que quiser falar Eu sou a mãe do samba, a primeira” (Samba de enredo da Vitória Régia no carnaval 201572) Cantar um samba, ou um refrão que provoca as rivais parece indicar uma tentativa de mostrar-se postulante ao título. A rivalidade que parece desembocar nos desfiles e na apuração tem antecedentes. Como vimos são antecedentes alimentados pela história, por resultados na competição, mas não apenas isso. Apenas pouco depois, assistindo aos ensaios, percebi que a rivalidade em muitas ocasiões é agonística e performatizada na sociabilidade do cotidiano das escolas de samba em seu cotidiano de preparação para os desfiles. 3.2.O ensaio de escola de samba: sociabilidade, performance e rivalidade Aqui tomaremos inicialmente o registro etnográfico de ensaios preparatórios para um desfile da Mocidade Independente de Aparecida, realizados antes do desfile. Estes registros etnográficos dos ensaios da Aparecida podem nos conduzir a ter um panorama mais amplo das formas de sociabilidade. Para Simmel “toda sociabilidade é um símbolo da vida quando esta surge no fluxo de um jogo prazeroso e fácil. Porém, é justamente um símbolo da vida cuja imagem se modifica até o ponto em que a distância em relação à vida o exige. Da mesma maneira, para não se mostrar vazia e mentirosa, a arte mais livre, fantástica e distante da cópia de qualquer realidade se nutre de uma relação profunda e fiel com a realidade”. (SIMMEL, 2006, p.80) Ao enfocarmos as formas de sociabilidade das escolas de samba manauaras visamos contribuir para a compreensão das formas de sociabilidade e performance festiva em bairros populares. 72
Compositores: Marinho Saúba Martins, Onércio Torres, Jota Erre, Marquinho Costa, Nériton e Edmundo Soldado.
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Dentre as etapas de preparação para os desfiles das escolas de samba, os ensaios realizados nas quadras e seus arredores tem espaço vital na constituição de seu calendário festivo. Um período de 3 a 4 meses - dependendo do dia em que a quaresma cair no ano – materializam todo um processo de preparação das escolas de samba para o desfile. Assim, que escolhidos o enredo e o samba da escola – em alguns casos de forma concomitante ao processo de escolha do enredo e samba – os primeiros acordes, ou ao primeiro rufar de tambores, representam a forma de anunciar ao grande público que o desfile se avizinha. Esse ciclo determina inclusive o calendário dos envolvidos e estrutura um referencial temporal próprio, o ano-carnavalesco (CAVALCANTI, 2006). Durante este período toda uma rede de relações se mobiliza buscando alianças, espaços, representatividade e nesse movimento expressam-se dramas e conflitos. Um ambiente conflitivo permeia a vida das escolas de samba enquanto instituições e é marcante na edificação de suas relações com outras instituições e esferas de atividades das cidades em que estão imersas. Para descobrirmos de que forma essas relações são construídas é necessário buscar a exegese dos sambistas em suas formas de representação simbólica. Como parece sugerir o já citado caso da Reino Unido da Liberdade, os ensaios das escolas de samba têm certa complexidade que consideramos importante para a investigação. Muitos outros estudos avançaram sobre estes lançando um ponto de partida interessante para desdobrarmos o que poderia ser visto como um simples ensaio de escola de samba. Lá no Reino Unido da Liberdade vimos que um ensaio de rua pode ser tanto um arrastão, quando tem por finalidade apenas anunciar a chegada de um momento decisivo da preparação junto aos moradores dos arredores da quadra, de forma recreativa com a bateria executando o samba do ano da escola junto a um carro de som com seus puxadores; ou técnico quando há uma preocupação em simular da forma mais perfeita possível a situação do desfile competitivo pelas ruas do bairro onde a quadra está situada. Os ensaios nas escolas acontecem antes mesmo da definição de um samba a ser cantado na performance que é a sua essência, o desfile. A definição de qual será a música cantada nos desfiles faz parte do processo de assimilação desta pelo conjunto de desfilantes como já verificamos. Uma série de eventos acontece no dia que congrega maior público na quadra de uma escola de samba, o chamado ensaio comercial ou ensaios-bailes. Vemos emergir tal conceito na etnografia de Maria Laura Cavalcanti (2006) sobre o carnaval da Mocidade Independente de Padre Miguel:
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Esses ensaios-bailes são também uma competição, perpassada por tensões. Uma delas deriva do caráter comercial dos ensaios, opondo os “de fora” (termo que, neste contexto de uso, designa aqueles que vêm para um baile) aos “de dentro” (termo que designa aqui as pessoas diretamente envolvidas na produção de um desfile, e também os moradores dos arredores da quadra). Na medida em que a quadra vai enchendo, “o pessoal daqui do lugar fica lá fora olhando. Quer achá-los, vai lá fora”, me dizia seu Quirino tocador de cuíca e antigo integrante da bateria. (CAVALCANTI; 2006, p.133) A partir da perspectiva da ala de Passistas da Estação Primeira de Mangueira, Simone Toji (2006) registra três categorias de performances das escolas de samba preparatórias da principal que é o desfile e assim demarcadas como ensaio e apresentaremos a seguir, são eles: ensaios de bateria, apresentações do grupo show e ensaios de rua. Em cada um deles encontramos aproximações das categorias aqui apresentadas. A primeira se conecta com a posição entre os de dentro e os de fora. Nos ensaios de bateria, também chamados de ensaios comerciais, elementos da performance das passistas ligam sua apresentação a participação de um público de fora. Estas geralmente usam as roupas de desfile na apresentação do grupo show. Seus meneios e trejeitos são voltados para esse público que não é assíduo na quadra. O aspecto posicional também se liga a esse tipo de performance. A apresentação da ala de passistas, bem como outros segmentos da escola (bateria, baianas, velha-guarda...) não seguem um modelo processional como o do desfile (TOJI, 2006). Há um outro aspecto que vale a pena ser aprofundado como uma nova faceta e extensão da visibilidade da escola frente a cidade que são os ensaios realizado na pista oficial de desfile. Os ensaios técnicos na pista de desfile das escolas de samba tornaramse parte do ciclo que envolve escolas de samba Brasil afora. Temos uma sintética descrição destes eventos por Felipe Ferreira: A partir da década de 1990, com o surgimento dos primeiros ensaios técnicos realizados na pista do próprio Sambódromo, o evento foi aos poucos assumindo um caráter de um verdadeiro desfile antecipado, atraindo cada vez mais pessoas interessadas em assistir a passagem das escolas sem fantasias ou alegorias, mas com seus componentes dançando ao som de bateria e puxador, numa preparação para a apresentação oficial. (...) esses ensaios técnicos vem tendo um público cada vez maior com o passar dos anos, buscando, ao que parece, um momento de contato simples e direto com o ritmo e a música, sem a mediação 105
das fantasias e grandes alegorias, reservadas para o momento da disputa nos dias do desfile oficial.(...)A partir dos preparativos para o carnaval de 2001, milhares de espectadores passaram a ocupar a área de desfile, fazendo com que, já nos ensaios para o carnaval 2004, as arquibancadas passassem a ser abertas para poderem acomodar o público que outrora se comprimia nas laterais de pista (FERREIRA, 2001, p.370-371) Em muitos casos essa preparação para o desfile vai além do objetivo explícito de aperfeiçoamento dos itens avaliados nos quesitos em que a escola será julgada, seja a escola de Manaus ou do Rio de Janeiro. Um dos elementos emblemáticos de uma escola de samba, a bandeira, nos indica este caminho. Durante o desfile, a bandeira da escola é a marca da agremiação. Sua passagem causa comoção aos componentes e torcedores. Carregada pelo casal de mestre-sala e porta-bandeira, o pavilhão da escola emociona das mais diversas formas durante a performance. Porém, mesmo antes, já na preparação seu protagonismo é celebrado, como nos chama atenção Renata Sá Gonçalves (2010). Assim a autora descreve os ensaios técnicos: “O ensaio técnico é o momento privilegiado de interação com a plateia. Por se realizar na própria Passarela do Samba e reunir um público crescente, ganha uma aura especial que faz dele um desfile linear específico apresentado a sua maior assistência e, por isso, emociona” (GONÇALVES, 2010, p.189). Durante os ensaios técnicos no sambódromo o casal realiza uma série de passos técnicos que se adéquam a letra e melodia do samba-enredo. Além destes uma série de gestos e movimentos são dirigidos as autoridades que estarão presentes no dia dos desfiles. A bandeira é cerimonialmente desfraldada e oferecida aos políticos, artistas, celebridades, presidentes e representantes das ligas e claro, aos jurados. Todo movimento reverencial é pensado para a pista, porém, importado dos já executados nas quadras durantes os ensaios comerciais. Pude acompanhar alguns destes ensaios no sambódromo carioca durante a pesquisa de mestrado em que atestamos sua importância não apenas na vida cultural da cidade, bem como no contexto das escolas de samba além do óbvio estágio de preparação para os desfiles. Era ali que os dirigentes das pequenas escolas, que nem mesmo desfilavam no Sambódromo, encontravam os dirigentes das grandes escolas do Grupo Especial. Ali negociavam desde fantasias a serem reaproveitadas até componentes para completar o contingente (BARBIERI, 2012). Um dos entrevistados revela que um presidente negociou ali na beira da pista, durante um ensaio de uma escola do Grupo Especial, a compra de adereços a serem reutilizados em sua escola fora da cidade do Rio de Janeiro. 106
Há ainda os casos pré-ensaio e pós-ensaio. Sim, pois do lado de fora da quadra uma extensão daquela performance no interior da quadra é encenada. A briga do lado de fora corre de boca-em-boca até o interior da quadra. As fofocas circulam e são levadas para o interior do ensaio. As negociações acontecem. Os moradores do entorno aproveitam para vender quitutes ou bebidas, entrando na rede envolvida na performance. Podem também se mobilizar para impedir a realização daquele evento que atrapalha o transito e suja as calçadas com barraquinhas e ambulantes que vendem bebidas. Voltemos nosso olhar agora a uma apreensão teórica da performance antes de nos debruçarmos na análise dos casos etnografados. Temos uma perspectiva da obra de Victor Turner. Seguindo sua trajetória intelectual que avançara até o ponto de lançar o olhar sobre a experiência, Turner trouxe a temática do conflito e do drama social para a análise das relações e a montagem de um processo social que se desenrolasse sem perder a vitalidade intrínseca aos símbolos. Neste momento o símbolo é o mediador da apreensão e da vivência da experiência (CAVALCANTI, 2012). Para sua antropologia da experiência um importante interlocutor foi o dramaturgo Richard Schechner. Este, compreendendo o esforço de aproximação com o universo dramatúrgico empreendido por Turner já na elaboração da teoria do drama social, acompanhou seu movimento no sentido da criação de uma teoria da performance. Segundo John Dawsey, para a antropologia dentro desse campo a parceria entre Schechner e Turner como representantes de sua vertente dramatúrgica é de importância destacada (DAWSEY, 2011). Ambos os autores acabam por retroalimentar suas perspectivas. Assim tomando as ideias de Schechner sobre comportamento restaurado que a teoria de análise simbólica de Turner a partir da experiência ganha vida, segundo o próprio autor: “Aprendi com ele que toda performance é comportamento estruturado, que o fogo do significado irrompe da fricção entre das madeiras duras e suaves do passado[...]e presente da experiência social e individual.” (TURNER, 1985, p.XI) Foi buscando “lançar luz sobre a análise social” que a teoria da performance serve a análise simbólica. São as duas combinadas que muita contribuição tem a dar proporcionando assim uma inovadora reflexão sobre processos sociais performatizados ainda que dirimidas algumas questões intrínsecas a esta teoria. Podemos então considerar “qualquer ação humana, ou produto dessa ação, a partir do enquadramento, ou frame, da performance” (DAWSEY, 2011). As performances, bem como os símbolos, são coisas
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boas para pensar e “fazer pensar”. Destacando-se os momentos mais eletrizantes de uma performance é possível trazer à tona o não-eu e o não não-eu de quem a experiência. Ao estabelecer os pontos de contato, conforme citado, voltamos nossa atenção para o momento em que os performers e até mesmo o público são alterados pela atividade de performatizar. O aspecto posicional é notável no sentido de colocar não apenas o espectador e o performer, mas encará-lo mais como agente do que um profissional da performance num exercício de relativização. Assim o complexo modelo do liminoide construído por Victor Turner (1982) emerge com toda sua potencialidade e tudo isso vai além de muito do que propõe o próprio modelo de Turner e Schechner. Vai além de investigar a intensidade da performance ou a inquietude do performado. O papel da audiência, como muito bem frisou Schechner é de fundamental importância pois “mudanças na audiência levam a mudanças na performance. Michele Anderson descreve três formas de vodu que ela pesquisou recentemente no Haiti: uma forma ritual/social apenas para os haitianos (embora ela estivesse lá); uma forma teatral para haitianos e turistas; e uma forma teatral/comercial apenas para turistas. “ (SCHECHNER, 2011, p.223) Para Schechner, as performances têm sete fases: treinamento, oficinas, ensaios, aquecimentos ou preparações imediatamente antes da performance, a performance propriamente dita, esfriamento e balanço. Ele inclusive critica a “pouca atenção dada a pesquisadores em fases diferentes da performance propriamente dita” (SCHECHNER, 2011, p.225). Façamos então o exercício por ele proposto ao deslocarmos o olhar da performance no caso das escolas de samba. Tomemos o ensaio de escola de samba em sua forma para compreendê-lo e avançarmos para além do desfile. 3.2.1 Ensaios na Aparecida Seguindo o caminho proposto apresentamos múltiplas formas de ensaio presenciados em quatro ciclos de preparação para os desfiles na escola de samba Mocidade Independente de Aparecida. No primeiro ciclo, para o carnaval de 2013, acompanhamos os ensaios técnicos de rua que terminavam em apresentações show da bateria em frente à quadra. No segundo, retomamos o olhar sobre os ensaios técnicos de rua ligando os mesmos à seriedade com que são encarados por seus componentes, os ligando aos ensaios realizados durante a semana na quadra da escola. No terceiro ciclo, na preparação para o carnaval 2014 a escola reforçou os ensaios em sua recém-inaugurada quadra. Foi neste período que passou a promover o projeto “Aparecida convida”, um 108
ensaio comercial com apresentação show de bateria, passistas e casais de mestre-sala e porta-bandeira; realizado todos os domingos onde a escola sempre recebia uma atração carioca ou uma escola de samba local. Finalmente desembocaremos na pista de desfiles oficial das escolas de samba de Manaus, onde as escolas levam sua apresentação à um público mais amplo da cidade e se prepara para a grande noite de desfiles. Ao dividirmos nosso olhar em quatro ciclos, queremos ressaltar aspectos que tornam estes momentos singulares não apenas na preparação de uma escola de samba para os desfiles, bem como na sua vida social. Queremos além disso conectar estes momentos com a vivacidade do cotidiano do bairro, como ele influência e traz à tona conflitos e relações do cotidiano da cidade. O segundo ciclo proposto será especialmente importante na reflexão acerca da rivalidade extremada entre as escolas de samba de Manaus. 3.2.1.1. Pelas ruas do bairro de Aparecida Cada diferente ponto de partida dos ensaios da Mocidade de Aparecida tem um significado simbólico. Diferente da Reino Unido da Liberdade onde a chegada ao Morro da Liberdade e à quadra da escola é dotada de sentido integrativo aos demais bairros, no caso da Mocidade de Aparecida apenas o ensaio com partida no bairro do São Raimundo tem este sentido. Os demais ensaios todos têm o bairro de Aparecida como ponto de concentração e início. Até o carnaval de 2013, os ensaios da Mocidade de Aparecida aconteciam basicamente na rua. Em algumas ocasiões eram cortejos que seguiam pelas ruas do bairro e tinham seu ápice em frente à quadra, sem que os componentes adentrassem a quadra. Em outros a bateria permanecia posicionada de frente para o bar em frente à quadra onde um palco funcionava de forma improvisada. Um dos primeiros ensaios que acompanhei foi em novembro de 2011, na época a preparação para o carnaval de 2012 incluía ensaios de rua. Como vimos, em 2012 a Mocidade de Aparecida terminaria com o vice-campeonato. Aos domingos os ensaios da Mocidade de Aparecida aconteciam em frente à quadra. Já naquela época existia o projeto de reforma por parte do governo estadual e que incluiria outras quadras de escola de samba na cidade como Unidos do Alvorada, Vitória Régia, Sem Compromisso e Reino Unido da Liberdade. Mesmo assim a questão gerava polêmica por ser o governador na época Omar Aziz, considerado presidente de honra da Aparecida.
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Um fato que pude constatar na ocasião era a impossibilidade da realização de ensaios dentro da estrutura que a quadra oferecia. O principal problema era a acústica, o que justificava que, em 2011, aquele ensaio fosse realizado na rua. O ensaio aconteceria após uma chuva torrencial. Antes, um pagode acontecia em um espaço onde funciona um bar na frente da quadra, bem ao lado do portão de entrada. O pagode era animado pelo intérprete da escola Wilsinho de Cima, recentemente contratado junto a Reino Unido. Naquele dia apenas a bateria e o casal de Mestre-Sala e Porta-bandeira se apresentariam. Apesar de ocorrer na rua, não havia um caráter processional pelas ruas do bairro como em outras ocasiões. O clima era parecido com o de um ensaio-show numa quadra carioca sem, no entanto, haver cobrança de ingressos, por impossibilidade de controle do público na rua em frente à quadra. A arrecadação da escola parecia advir das vendas do bar que comercializava não apenas baldes com latas de cerveja como também outros produtos relacionados à escola em especial o CD com os sambas das escolas de Manaus do ano e a camisa com o logotipo do enredo da escola. A bateria posicionada de frente para o palco improvisado no bar em frente a quadra. Os cantores, ocupando o espaço da roda de samba que antecedeu o ensaio.
Figura 38 - Público em frente à quadra aguardando inicio do ensaio da Aparecida. Acervo Pessoal. 13/11/2011
O público ocupava as laterais da bateria no meio da rua interditada e o bar da escola, de frente para a bateria. Nota-se baixa adesão do edifício de alto padrão localizado quase em frente a quadra. Não havia ninguém em nenhuma sacada dos apartamentos nem ao menos observando o ensaio como acontecia em outros bairros com outras escolas de 110
samba. Já naquela ocasião, Roberto, que atuava como parte da ala responsável pela harmonia da escola, me confidenciou que moradores desse condomínio reclamavam do barulho dos ensaios. No Rio de Janeiro, me recordava ver a mesma ausência de interesse acontecer nos edifícios vizinhos à União da Ilha em minha infância. Recordei-me de imediato de um imbróglio vivido pela já citada União da Ilha do Governador de natureza bem parecida. Em 2009, um morador de um apartamento vizinho à escola, na verdade distante uns 100 metros da quadra, conseguiu após repetidas reclamações a interdição73 da quadra. Tal fato desmobilizou por algum tempo a escola, que só conseguiu regularizar seus ensaios após concluir as reformas com tratamento acústico na quadra, patrocinadas pela prefeitura do Rio de Janeiro e orçadas em 6,3 milhões de reais.74 No caso da Aparecida, tal fato denota ainda um uso político do conflito como viria a me revelar algum tempo depois em depoimento um ex-componente da Aparecida: Aquele problema ali é o seguinte: existem dois momentos. O momento da construção da quadra e uns anos depois quando o prédio começou a ser construído. O grande problema é que uma das primeiras denúncias foi de um morador que fazia parte do grupo político que concorreu contra um presidente que havia sido eleito na época. E posteriormente os síndicos volta e meia entravam na justiça. Teve um desembargador que era morador desse condomínio e chegou a embargar os ensaios na rua. (Karlão –entrevista em 06/04/2015) Retomando o ensaio realizado naquela ocasião pela Aparecida, seguiu o ciclo ritual dos ensaios-show comerciais descritos em outros trabalhos sobre escolas de samba cariocas (CAVALCANTI, 2006) (TOJI, 2006). Após o pagode de abertura, o samba que antecederia o início do desfile foi executado com os cantores e a bateria passando toda a letra uma vez sem a bateria e outra com a bateria. Este samba é conhecido no meio das escolas de samba como samba de esquenta ou concentração. A Mocidade de Aparecida usou naquela ocasião um samba antigo da escola, do carnaval de 1993. Logo a seguir o
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“Quadra da Ilha é interditada pela Justiça”. SRZD Carnaval, Rio de Janeiro. Disponível em http://www.sidneyrezende.com/noticia/41755. 09 Jun.2009. Data de acesso: 20 de maio de 2015. 74
“União da Ilha reinaugura quadra após mais de um ano de reforma”. O Globo, Rio de Janeiro. Disponível em http://oglobo.globo.com/rio/bairros/uniao-da-ilha-reinaugura-quadra-apos-mais-de-umano-de-reforma-3499632#ixzz3aiOZ52jo . 25 Dez 2011. Data de acesso: 20 de maio de 2015
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samba do carnaval de 2012,75 chamado de samba do ano, foi executado por cerca de uma hora contando com a apresentação do casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira; bem como a apresentação da rainha, madrinha e musa da bateria. Após um pequeno intervalo a bateria retoma junto aos cantores da escola sua apresentação, desta vez executando sambas conhecidos do Rio de Janeiro. Havia, na ocasião, certa preferência pelo samba da Acadêmicos do Grande Rio para o carnaval 2011.76 Descobri junto a um componente da bateria posteriormente que era “dali que haviam se inspirado para os toques77 do carnaval 2012”. Ensaios como este foram realizados em carnavais seguintes pela Mocidade de Aparecida. No carnaval de 2013, por exemplo, acompanhei um ensaio que mesclava um ensaio técnico de rua e encerrava com um ensaio-show nos moldes do descrito bem em frente à quadra, nesta época já em obras. A concentração estava marcada para as 16h30 em frente ao Clube São Raimundo, localizado no bairro de mesmo nome e vizinho ao bairro de Aparecida, partindo para a quadra a partir das 17h30 com a presença dos principais segmentos da escola. Em algumas ocasiões estes eventos têm pontualidade frisada, em outros e no que se revelaram ser maioria, os atrasos são recorrentes. Neste dia às 18 horas a escola ainda não havia iniciado seu cortejo. Já nesta hora várias barraquinhas de quitutes e bebidas funcionavam. Algumas pessoas com camisa da escola já estavam por ali ou no bar na frente da quadra. As barraquinhas são ponto de encontro e ritualizado espaço de sociabilidade em todos os eventos que envolvem escola de samba. Os bares e ambulantes do entorno são mais numerosos de acordo com o prestígio da escola, o que reafirma a importância destes como pontos culturais de extrema relevância para os bairros, muitas vezes carentes de espaços de lazer e encontro.
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Naquele carnaval o enredo da Aparecida trataria das profecias de várias civilizações sobre o fim do mundo. Tinha como título “MMXII”. 76 O enredo da Grande Rio em 2011 era “Y-Jurerê Mirim - A Encantadora Ilha das Bruxas (Um conto de Cascaes)” cujo samba tinha como autores Edispuma, Licinho Jr., Marcelinho Santos e Foca 77 “Toques” é a forma como os ritmistas de Manaus se referem às “paradinhas” ou “convenções” executadas pelas baterias durante um desfile.
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Figura 39 - Barracas e ambulantes em frente à quadra da Aparecida. Foto de Taynah Pinheiro. 13/01/2013
Defrontei-me com situação semelhante em outra pesquisa, sobre a Acadêmicos do Dendê, no carnaval carioca, em que as barraquinhas em frente à quadra da União da Ilha revelaram-se importante espaço de negociação ou conflito para os mais diferentes assuntos da escola e das demais escolas insulanas. Durante o concurso para escolha do samba de enredo, as barraquinhas e bares do entorno da quadra chegam a ser territorialidades servindo de ponto de encontro e concentração para os grupos de simpatizantes dos diferentes concorrentes. Ali são servidas comidas e bebidas aos torcedores de forma a mantê-los afastados da influência musical dos sambas concorrentes e numa tentativa de controlar o consumo dos grupos de adeptos de cada samba dentro da quadra da escola onde os preços são maiores. As parcerias costumam pagar o consumo de bebidas e comidas do público que se dispõe a cantar e vibrar com as apresentações de sua parceria nos concursos.78 Quanto maior o público dos eventos das escolas de samba, mais ambulantes e bares em seu entorno. No caso da Aparecida uma diversidade de barraqueiros dos mais diversos estilos se estabeleceu no espaço em frente à quadra. A oferta gastronômica vai de esfirra ao tradicional churrasquinho mas predominam os vendedores de bebidas com seus isopores. A maior parte é de moradores do bairro e do entorno. Alguns moradores aproveitam os dias de ensaio de rua para montar bares no quintal ou portões de suas casas.
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Este é um tema interessante que merece ser explorado em outro trabalho, aqui quero apenas apresentar este aspecto constatando a importância dos bares e barraquinhas no entorno das escolas de samba.
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Figura 40 - Movimento em um dos ambulantes antes de ensaio na quadra da Aparecida. Foto Taynah Pinheiro. 05/01/2014
Muitos dos componentes das escolas ficam nas barracas aguardando o momento do início do ensaio. É o ponto de encontro marcado pela maioria. Neste ensaio em janeiro de 2013, encontrei por ali o compositor Schneider. Como o Schneider precisava levar um cabo de captação de som para o carro que estava na concentração no bairro de São Raimundo conversei com ele antes de caminhar até lá. Ele me relatou as derrotas e vitórias nas disputas de samba que participou. Contou-me também alguns detalhes sobre a situação das escolas naquele carnaval. Lembro de ter lido diversas matérias sobre como as escolas enfrentariam aquele que era considerado um ano de crise. A subvenção que, no ano anterior, havia sido liberada apenas depois do desfile, dessa vez havia sido liberada a alguns dias atrás. Algumas escolas teriam inclusive proposto mudanças no regulamento que a protegessem diante desse quadro, tais como a redução do número mínimo de carros para apenas um ou então que nenhuma escola fosse rebaixada naquele ano. Schneider contou-me também como é feita a escolha dos jurados. Segundo ele a AGESMA, a associação das escolas de samba local, publica um edital de convocação em um jornal e os interessados entregam currículos. Segundo o mesmo “muitos nem precisam de qualificação para julgar e a seleção é obscura”. Ele contou sua versão sobre seu rompimento com a Reino Unido e personalidades da escola. Tudo teria começado com a provocação de Clênio Franciné que havia vencido o concurso de samba em 2012 ganhando inclusive do próprio Schneider. A discussão aconteceu pelo Facebook com Clênio acusando Schneider de desrespeitar a escola após o mesmo declarar que seu primo, Mingau, famoso compositor carioca, estava "cagando para a Reino”. Pouco antes da 114
disputa de samba Clênio levou cópias da conversa para figuras ilustres da escola como Ivan Oliveira, Jairo Beira-Mar e o próprio presidente Pierre. Um tempo depois com os ânimos amainados Schneider conseguiu o perdão de Jairo, Ivan e outros. Mesmo assim sua relação já não é tão próxima como antes. Chegamos no ponto de concentração com a escola começando seu ensaio. De fato, um grande contingente de pessoas se reuniu em torno da bateria e do carro de som se espremendo pelas ruas estreitas e ladeiras sinuosas do bairro. Muitos faziam questão de demonstrar sua adesão com bandeiras e saudações das sacadas de suas casas. O bairro é separado do de Aparecida por um igarapé e uma ponte. Famílias esperavam nas calçadas a passagem da escola no que parecia ser o grande evento da localidade naquela noite. O percurso foi marcado por contratempos que paralisaram o ensaio várias vezes. O carro de som era acanhado para o contingente de desfilantes e público do evento. O carro de som também falhou inúmeras vezes. A escola chegou próximo a ponte em uma praça em frente ao Pronto-socorro do São Raimundo caminhando em silêncio. Apenas ali, em uma ladeira que antecedia a ponte a escola armou para retomar seu desfile. Cantaram por alguns minutos com bateria, a comissão de frente ensaiou alguns passos, mas o carro de som parou de funcionar e todos foram orientados a caminhar dispersos para continuar o ensaio na rua em frente a quadra.
Figura 41 - Ensaio de rua pelas ruas do bairro de São Raimundo. Acervo Pessoal. 06/01/2013
Um grande público aguardava a chegada da escola. Do palco, o diretor de harmonia na época, Clemilton Pinto, coordenava a ocupação dos espaços e animava o público. Enquanto pedia que o público liberasse a rua em frente para a realização do 115
ensaio, ele convocava os componentes para adentrar a quadra onde os segmentos seriam preparados e anunciados para apresentação junto da bateria e dos cantores na frente da quadra. Nos posicionamos no bar atrás do palco, próximos do Presidente Pacheco a quem fomos apresentados pelo Schneider. O espaço apertado estava abarrotado e apesar da dificuldade acompanhei algumas apresentações ali. Pouco antes do início da apresentação dos cantores esquentando o público e bateria com sambas famosos e até mesmo com músicas sertanejas de sucesso na época. Após cantar o samba de esquenta da escola, o intérprete Wilsinho de Cima passou a palavra a Clemilton que saudou visitantes da harmonia do Reino Unido da Liberdade e da Vitória Régia. O presidente incentivou os componentes dizendo que mostrariam "quem tem garrafas vazias para vender". Os discursos do presidente Pacheco na Aparecida foram reveladores não apenas nesta ocasião. Em outra situação de ensaio que eu havia presenciado no ano anterior, durante um dos intervalos, a rivalidade entre as escolas apareceu no discurso do presidente servindo para exaltar as qualidades da escola: Quem aí torce para a Vitória-Régia? Aquele ali no fundo! E com certeza está gostando do ensaio porque aqui é um lugar familiar. Todo mundo pode curtir o samba com tranquilidade e segurança. Aqui não tem bandido, não tem coisa errada. É o melhor samba da cidade. (Presidente Pacheco – discurso no ensaio de 22/01/2012) Essa fala ocorreu justamente em um ensaio encerrado por uma briga iniciada no bar logo atrás do palco. No domingo seguinte, um novo ensaio de rua aconteceu, desta vez saindo de um ponto diferente dentro do bairro de Aparecida, na Rua Leonardo Malcher. O roteiro foi praticamente o mesmo da semana anterior sendo que desta vez as coisas pareceram ter funcionado melhor. De qualquer forma, durante mais ou menos meia hora a escola permaneceu parada na rua com a bateria tocando, os intérpretes cantando o samba de 2013 no carro de som e a escola toda posicionada para o cortejo. A evolução em si só começou na rua Luiz Antony que corta em linha reta e plana a rua em que a escola se concentrava. Mesmo com um público menor acompanhado a escola se comparado ao que acompanhou a descida do bairro São Raimundo, se forma uma aglomeração confusa próximo da bateria.
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Figura 42 - Público que aguardava a chegada do cortejo no ensaio da Aparecida. Acervo Pessoal. 13/01/2013
Dessa vez, o estilo de evolução da escola fica mais nítido, bem como seus problemas. São muitos os que se comportam como diretores de harmonia mesmo sem estarem identificados assim. Um dos componentes da harmonia da escola, em determinado momento do ensaio me confidenciou seu incômodo: "O problema é que na Aparecida todo mundo quer mandar". De fato, dessa vez a tensão e os conflitos eram latentes no rosto, atitudes e palavras da maior parte dos componentes. O grupo que evoluía na ala coreografada parecia ser o principal alvo. Pude constatar uma jovem, não identificada como pertencente a harmonia da Aparecida, se aproximando de uma mulher que parecia comandar a evolução de uma das alas tal qual coreografa e adverti-la: "Estão todos lá atrás falando merda! Estão dizendo que a ala está atrasando a escola e a coreografia está uma merda! Está tudo descoordenado." Após ouvir a jovem, a mulher falou algo no ouvido de outro rapaz que marcava com sinais os passos da ala. Este balançou a cabeça afirmativamente e parece ter começado a apressar a evolução. O ensaio prosseguiu entrando pela Ramos Ferreira, a rua da quadra da Aparecida. Nessa altura a aglomeração aumenta consideravelmente. Chegando na quadra o número de pessoas tanto concentrado ao lado como atrás do palco dos cantores é grande. Ali o ensaio continuou no mesmo modelo que na semana passada.
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Figura 43 - Componentes da Aparecida na concentração para um ensaio saindo da Rua Mendonça Xavier. Foto de Taynah Pinheiro. 10/01/2015.
O primeiro ensaio descrito teve como ponto de partida a praça Bandeira Branca, indicada pelos moradores como ponto fundante do bairro. Na historiografia do bairro notamos sua importância como lugar sentimental para bairro de Nossa Senhora de Aparecida (FREIRE, 2007). Na preparação para o carnaval 2015, acompanhei um ensaio técnico com saída da Rua Xavier de Mendonça. Esta rua é perpendicular à Rua Alexandre Amorim onde estão localizadas a Faculdade de Farmácia da UFAM, várias casas comerciais e consultórios médicos bem como a principal igreja do bairro. Esta rua não tem saída e, caminhando em sua extensão, vemos marcos históricos do bairro como a rua Elisa Bessa, a quadra esportiva Marcolino Lopes e finalmente em seu final a orla do Rio Negro. As casas antigas predominam e o movimento lembra a visão romantizada dos bairros de subúrbio carioca. Um trecho do meu diário de campo chega a evocar esta visão do bairro:
Por lá umas duas baianas sentadas no meio fio e nada mais. É a rua da Faculdade de Farmácia no bairro e perpendicular à rua da Igreja. No final da rua avista-se o Rio Negro. Cenário lindo e bucólico. Ainda mais com os becos que cortam a rua, os botequins tocando samba, as crianças correndo no asfalto. O sossego não chega a ser quebrado pela pequena movimentação de carros típica de um domingo à tarde. Pessoas sentadas em cadeiras posicionadas em frente aos portões das casas nem mesmo lembravam a agitação que viria a seguir com a chegada dos componentes da escola de samba. A rua tem um curioso traçado onde a mesma vai se afunilando conforme se aproxima do Rio Negro. Lá no final apartamentos de quitinetes ao lado da escadaria que dá acesso ao Rio Negro. Não chegam a ser palafitas mas lembram cortiços com um pequeno corredor comunitário que dá para um acesso à rua. À beira do Rio alguns pequenos barcos pescadores. A brisa do Rio Negro bate e refresca o calor. (Trecho do Diário de campo – 10/01/2015) 118
Os momentos que antecedem a quebra deste sossego não passam incólumes. São marcados por uma tensa negociação com aqueles que não gostam do barulho de uma escola de samba ainda que não seja por muito tempo. Apesar da concentração marcada para a rua, muitos passam antes na quadra o que forma uma bonita confluência de centenas de pessoas para a Rua Mendonça Xavier. Boa parte dos componentes se concentravam no maior bar da rua. A bateria chegou com seus instrumentos na carroceria de uma pick-up de um dos diretores da escola. Os instrumentos pesados vêm nesta carroceria, os mais leves - como caixas, repiques, chocalhos e tamborins – são carregados por cada ritmista. A bateria se posiciona no final da rua aguardando seus mestres, comandantes da ala rítmica. Com a concentração da bateria neste trecho mais estreito da rua uma agitada aglomeração já se forma e preocupa alguns moradores. Da sacada de um dos sobrados uma senhora convoca alguém para estacionar o carro num ponto mais afastado da rua. Outro morador se desespera com a chegada do carro de som e com um telefone celular na mão implora a um dos diretores que iniciem o ensaio mais à frente ao mesmo tempo ameaça ligar para alguém que resolveria o problema por bem ou por mal. Um dos diretores se sensibiliza com a situação e orienta o carro de som a se posicionar mais à frente e o problema foi resolvido.
Figura 44 - Concentração do ensaio da Mocidade de Aparecida. Ao fundo o Rio Negro. Foto de Taynah Pinheiro. 10/01/2015.
A quadra, localizada neste mesmo logradouro, onde meninos jogavam basquete naquela tarde de domingo já foi quadra de ensaios da Mocidade de Aparecida. O fato é saudado no discurso do presidente Luiz Pacheco antes do ensaio que além disso faz menção a vários dos baluartes da escola que moram ou mararam na rua Xavier de 119
Mendonça. Um deles era um senhor que apenas observou o início do ensaio da janela de sua casa: Mais um ensaio técnico de rua e mais uma confraternização de outra rua do bairro. Aqui na Xavier de Mendonça há exatamente alguns anos a nossa primeira quadra de ensaio. Foi daqui que várias pessoas trabalharam para montar bar, montar bateria, carregar gelo e fazer crescer essa escola. E nós não poderíamos deixar de falar no nome dos grandes presidentes que essa escola teve e que foram e são moradores dessa rua. Gostaria de falar no nosso amigo, um dos maiores presidentes que essa escola já teve, nosso querido Ednaldo Atan. Ednaldo, um abraço do coração! Outro presidente que também veio daqui: nosso amigo também e grande presidente Mauricio Andrade. Obrigado Mauricio por tudo que você fez pela escola. Gostaria de também falar no nome dessa pessoa que foi por três mandatos vice-presidente dessa escola e é atual vice da escola, meu amigo Fabian Maia. E não poderia deixar de falar num dos maiores ícones dessa escola, num dos maiores baluartes dessa escola. Aquele que deu sangue suor e lágrimas por essa escola, mas infelizmente hoje não está mais conosco. Gostaria de uma salva de palma e o rufar da bateria para Antônio Andrade. (...). Não podemos esquecer o passado e não tão distante em que essa pessoa também deu sangue e faz parte da história desta bateria. Um aplauso e um rufar para o nosso querido mestre João Peri que está ali na janela. Mestre João Peri, um abraço! (Discurso do presidente Luiz Pacheco antecedendo o ensaio da Mocidade de Aparecida em 10/01/2015)
O ensaio segue e o trajeto iniciado na rua transversal faz a curva entrando na rua da Igreja de Nossa Senhora de Aparecida. Naquele horário a missa já aconteceu. Quando a bateria alcança a entrada da igreja para de tocar por quase uma passagem inteira do samba de enredo do ano. Todos os componentes ficam de frente para a igreja e de lado para o cortejo da escola. Seus componentes, ainda sem tocar os instrumentos, se agacham e assim permanecem até o bis do refrão principal do samba que assim soa: Eu vou viajar pra perto do céu No Acre encontrei tanta sutileza É meu amor que faz despertar e contar Aparecida de rara beleza
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(Samba de enredo da Mocidade Independente de Aparecida no Carnaval 201579) É a escola de samba reverenciando não apenas a santa padroeira, mas seu bairro. Ao tomarmos as relações problemáticas que historicamente uma festa profana como o carnaval tem com a igreja católica, acredito que a relação respeitosa e harmônica que a Mocidade de Aparecida mantem com a igreja do bairro tenha raízes nesta evocação da identidade do bairro extremamente relacionada à devoção à Nossa Senhora de Aparecida. Não é à toa que esta é uma das poucas escolas a ostentar uma enorme escultura da santa no palco de sua quadra.
Figura 45 - Ritmistas da Aparecida agachados reverenciando a igreja e a santa do bairro. Foto Taynah Pinheiro. 10/01/2015
O aparato simbólico mobilizado é dotado de significado para os moradores e separa “os de dentro” e os “de fora”. Não se trata apenas de uma distinção nos moldes descritos por Norbert Elias (2000). Em sua pesquisa numa pequena cidade na Inglaterra onde a relação entre seus moradores antigos – chamados por ele de estabelecidos - e novos moradores – nomeados outsiders - consistia na divisão estigmatizadora por parte dos primeiros em relação aos outros. Para que a separação pudesse operar, uma série de normas e marcas eram impingidas através de uma rede de fofocas que dotavam o grupo estabelecido de sensação de poder: “Um grupo só pode estigmatizar o outro com eficácia
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Compositores: Myngal, Allan Bayma, Jota Erre, Marcio Ratts e Mingualzinho.
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quando está bem instaurado em questões de poder dos quais o grupo estigmatizado é excluído” (op.cit, p.45) A devoção, a identificação dos locais sentimentais do bairro insere a Mocidade de Aparecida em um pedaço. Aqui temos como pedaço “um componente de ordem espacial, a que corresponde uma determinada rede de relações sociais” (MAGNANI, 2003, p.115). Recuperando o complemento deste conceito já apresentando, o pedaço dispondo de códigos de reconhecimento e comunicação entre os membros do mesmo que podem ser partilhados, abre-se a possibilidade de aprendizado (MAGNANI, 2002). Temos assim uma via de reconhecimento e acesso ao pedaço, pertencimento ao grupo. Através desta particularização a escola de samba particulariza seu pertencimento a um contexto de bairro. Deixa de ser apenas A Soberana de luxuosos desfiles para tornar o “Bairro soberano e sagrado”. Seus componentes oriundos de diferentes regiões sentem-se soberanos por compartilhar um pertencimento a um bairro ao qual não são moradores. Em seu outro lado compartilham a ação estigmatizadora de outras escolas de samba e seus bairros. Um componente da Aparecida certa vez declarou a mim: “Não gosto de coisas fuleiras!80 Por isso sou Caprichoso, Vasco e Aparecida”. Este pertencimento é negociado nos ensaios onde o frequentador assíduo torna-se do pedaço e é possível tornarse do pedaço através da apresentação de um pertencente ao pedaço. Pertencimento se torna objeto de troca. “a performance adquire, assim, novos significados e favorece novas relações” (AGIER, 2011, p.177). Para ser Aparecida na avenida, no momento do desfile é preciso conhecer o bairro e respeitar suas tradições. Os ensaios saindo de ruas diferentes do bairro, com valores sentimentais são didáticos no portar-se como aparecidense. 3.3. Na quadra da Mocidade Independente de Aparecida
Figura 46 - Panorâmica da quadra da Mocidade de Aparecida vista debaixo do palco Ednelza Sahdo. 10/01/2015
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“Fuleiro” segundo o livro “Amazonês: expressões e termos usados no Amazonas” (2011) do linguista Sérgio Freire significa algo “ordinário, ruim”.
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Reinaugurada em 30 de março de 2013, a atual quadra de ensaios da Mocidade Independente de Aparecida se insere no contexto de revitalização das quadras de escolas de samba de Manaus financiadas pelo Governo do Estado. A forma como este projeto foi desenvolvido e os critérios para escolha das escolas participantes não são claras o que posteriormente gerou críticas por parte de muitas outras escolas. Tal processo foi demorado e mais uma vez tem como modelo projeto similar executado no mesmo período pela prefeitura do Rio de Janeiro.81 Em Manaus, além da Mocidade de Aparecida a escola de samba A Grande Família também passou por reformas; a Unidos do Alvorada teve sua quadra inaugurada em 2014;82 atualmente são executadas obras nas quadras da Reino Unido da Liberdade83, Vitória Régia84 e Sem Compromisso.85 Por iniciativa própria, a Andanças de Ciganos e a Primos da Ilha também realizam obras de modernização de suas quadras. A quadra da Mocidade de Aparecida, por ser a mais completa estrutura existente, chama atenção, provocando a cobiça de suas rivais. Sua antiga quadra foi expandida com as obras para 150m², o dobro em relação ao anterior. Dentre as intervenções estão a inauguração de 16 camarotes nas laterais da quadra; tribuna de honra; o palco Jorginho Devagar da bateria e o palco Ednelza Sahdo; salas administrativas; novos banheiros; bares reformados dentre eles o Botequim da Pareca que funciona na parte da frente da quadra; climatização e tratamento acústico da quadra.
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Como citado anteriormente várias escolas de samba cariocas foram contempladas com projetos de reforma de suas quadras: além da já citada União da Ilha do Governador; foram também reformadas ou construídas as quadras de Portela, Imperatriz e Mocidade. Escolas de samba cariocas vez por outra contam com o apoio do poder público em seus projetos estruturais. Dessa forma a São Clemente atualmente ocupa terreno do Governo Estadual do Rio de Janeiro na Avenida Presidente Vargas. 82 A escola não tinha quadra realizando seus ensaios na Rua 8 do bairro da Alvorada, em frente ao bar do Jacaré, um dos seus fundadores. 83 Uma nova quadra às margens do Igarapé do Quarenta como citado no capítulo anterior. 84 Revitalização e ampliação da quadra na mesma praça onde atualmente se localiza. 85 Que ganhara uma quadra após mudar-se do bairro Vila da Prata(Zona Oeste de Manaus) para o bairro Nova Cidade(Zona Norte de Manaus).
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Figura 47 - visão da quadra a partir do Botequim da Pareca, que funciona como camarote VIP em dia de eventos. Foto Taynah Pinheiro. 13/01/2014.
A ligação da Aparecida com o governador Omar Aziz no período das reformas, despertou a desconfiança por parte dos foliões de outras agremiações. Alguns enfrentavam as intervenções nas demais com o ceticismo de “nunca ver as obras concluídas ou sequer iniciadas”. Outros acusavam o projeto da Aparecida “ser o melhor por ser a escola do governador”. O ex-governador Omar Aziz chegou a se defender de tais acusações publicamente declarando como no trecho de nota divulgada pela assessoria do Governo do Estado do Amazonas: Eu sempre fui muito transparente em questão de Escola de Samba. Lógico que como governador você ajuda a todas, mas minha escola de coração é a Aparecida. Todo mundo sabe disso”, afirmou Omar, ao ressaltar que o Governo do Estado também colaborou com a reforma da escola Grande Família, do São José, zona leste, e irá fazer o mesmo em relação ao Reino Unido da Liberdade, zona sul, e Unidos do Alvorada, zona-centro oeste. Como contrapartida as escolas comprometem-se em manter no espaço atividades sociais para a comunidade. (“Governador Omar Aziz e família prestigiam reinauguração da quadra da Aparecida” publicada em 30 de março de 2013 no Portal do Governo do Amazonas86) A inauguração aconteceu com feijoada que, além dos segmentos da escola, contou com o intérprete Neguinho da Beija-Flor como atração principal. Seguiram-se ao longo
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http://www.amazonas.am.gov.br/2013/03/governador-omar-aziz-e-familia-prestigiam-reinauguracaoda-quadra-da-aparecida/ - acesso em 01/04/2013 13:51.
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do ano inúmeros eventos das mais diferentes naturezas. Foram shows de diferentes gêneros musicais, feiras de negócios, competições de luta livre e festas dos Bois de Parintins. Meu primeiro contato com a nova quadra foi em um evento de lançamento de chapa concorrente à presidência do Boi Caprichoso. Na ocasião, o presidente da escola de samba, Luiz Pacheco, marcou presença com declaração de apoio ao atual presidente do Boi Caprichoso Joilto Azêdo. 3.3.1. “Aparecida convida”: o “potlatch” em um ensaio de escola de samba. Uma das formas mais interessantes de sociabilidade em um ensaio de escola de samba ocorreu no encontro entre as escolas de samba Vitória Régia e Mocidade de Aparecida na quadra desta última em Manaus. Interessante, por uma série de fatores que apresentaremos aqui, destaco incialmente a rivalidade que coloca as duas escolas em campos opostos no carnaval de Manaus.
Figura 48 - Entrada da quadra da Aparecida. Foto de Taynah Pinheiro. 05/01/2013.
Como vimos, simbolicamente um campo de oposições se constrói no universo carnavalesco de Manaus entre Vitória Régia e Aparecida. Enquanto a Vitória Régia buscava o apelo popular em seus desfiles, a Aparecida, como já relatamos aqui, prezava o luxo de suas fantasia e alegorias. Logo a Vitória Régia tomou para si a alcunha de escola do povão e a Aparecida foi colocada – ou se colocou? - no campo oposto. Apesar da ambiguidade considerável de tais categorias, posto que o princípio das escolas de samba em geral é ser popular, tais categorias como escola luxuosa ou escola do povão funcionam 125
no imaginário dos sambistas. Vez por outra, também marcam presença no discurso de seus componentes como vimos no discurso do presidente Pacheco ao enaltecer a tranquilidade de seus ensaios e não a grande presença de público. Esse é o contexto em que as duas escolas se encontraram num show realizado na quadra da Mocidade de Aparecida. O evento realizado num dos domingos antecedentes ao carnaval em que a Aparecida promove seu chamado ensaio comercial, uma categoria já descrita em escolas cariocas como veremos a seguir, para designar os ensaios em que a entrada é cobrada. O evento “Aparecida convida” já tinha sido realizado com outras escolas de samba de Manaus, mas de grupos inferiores ao Especial que a Aparecida disputava com a Vitória Régia. Foi inspirado em encontros de escolas de samba promovidos no Rio de Janeiro. A noite prometia bom público, por isso cheguei cedo e me posicionei próximo ao palco da bateria, até para observar se haveria a interação entre ritmistas, casais de mestresala e porta-bandeira e baianas que, no Rio de Janeiro, sempre marcam as visitas entre as escolas. Com a quadra já toda tomada de público, os sambas de 1993 e 2014 da Mocidade de Aparecida foram executados, dessa vez para apresentação dos casais de Mestre Sala & Porta Bandeira. Foram dois casais adultos e um mirim. O primeiro casal da Aparecida, permaneceu no palco para a recepção subsequente do casal da Vitória Régia numa cerimônia formal e ritualizada.
Figura 49 - Logotipo da escola iluminado no interior da quadra. Acervo pessoal. 24/11/2013.
No discurso que antecedeu a apresentação da Vitória Régia, os presidentes exaltaram o momento de "união pelo carnaval". O presidente da Aparecida fez questão de reconhecer o pioneirismo da Vitória Régia no carnaval de Manaus e o da Vitória Régia a grande estrutura da Aparecida. Ambos frisaram que o momento era difícil e "as escolas 126
precisavam se unir para cobrar seus direitos". O presidente Ivan Martins saudava a Aparecida por abrir as portas para recebe-los em sua bonita quadra. Ao chamar atenção para a reforma já apresentada na quadra da Aparecida lembrei que após sua conclusão foram instalados painéis com o logo da escola seguidos dos dizeres “A Soberana”, o apelido adotado por seus componentes devido ao fato de ser a escola com mais campeonatos no carnaval de Manaus. Quando terminaram os discursos e após o rufar da bateria o intérprete da verde e rosa assumiu o microfone. O assessor parlamentar, Prince do Boi, como é conhecido tanto na Vitória Régia quanto no Boi Caprichoso,87 onde foi amo-do-boi. Provavelmente por atuar na política local também fez um longo discurso para apresentar a escola e seu casal. De início em tom ameno, apenas exaltando seus companheiros de escola, mais à frente veremos que ele se exaltou mais um pouco. Prince cantou outros sambas antigos da verde e rosa, mas sua empolgação e a de torcedores da Vitória Régia, espalhados pela quadra iam de encontro com a insatisfação de alguns torcedores da Aparecida. Uma conhecida minha e torcedora da Aparecida estava revoltada em sua mesa, falava e gesticulava como quem faz pouco da apresentação da Vitória Régia. Chegava até mesmo a virar de costas para o palco. Já outro componente da Aparecida reclamava que o "convite era apenas para a diretoria e um monte de gente da escola foi" e que “a decoração da quadra tinha rosa demais para o gosto” dele. No lado da Vitória régia, do palco da bateria pude observar ritmistas que estavam ao lado de onde Prince se apresentava gesticulando e provocando os mestres de bateria da Aparecida Paulinho e Lucas. Os mesmos ritmistas se exaltaram, pegaram a bandeira verde e rosa que estava na mesa e foram controlados por outros membros da escola. Logo a seguir de um dos sambas antigos da escola eles emendaram num coro provocativo de "Ih! F...! A 14 apareceu", numa referência ao bairro da Vitória Régia, a Praça 14. Ao receber as provocações, os mestres Lucas e Paulinho começaram a encarar os jovens da bateria da Vitória Régia. Um dos diretores da Vitória Régia tentava desesperadamente controlá-los, posteriormente descobrir ser o Mestre de bateria Luiz Carlos que já havia passado pela bateria da Aparecida. Junto de Lucas e Paulinho, outro ritmista mais forte e de cara amarrada ajudava a criar mais tensão. Do outro lado o diretor de bateria da verde e rosa chamava atenção dos demais, em seguida fazia sinais pedindo desculpas em direção ao
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Muitos integrantes dos bois de Parintins ocupam cargos importantes também no carnaval de Manaus. Fato merecedor de atenção em futuras pesquisas e que possivelmente demonstram as interlocuções entre elementos das duas festas, dentre eles a rivalidade entre agremiações.
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palco. Próximo dali o casal da Vitória Régia que havia descido do palco onde se apresentava se via enredado pelo furto do pavilhão por uma exaltada torcedora da escola que balançava a bandeira de forma ostensiva talvez querendo atingir com as sacudidelas torcedores da Aparecida que estavam atrás do cercado das mesas. Esta foi contida pela própria Porta-Bandeira e alguns outros torcedores da escola da Praça 14 na mesa em frente que lhe tomaram a bandeira e devolveram a quem pertencia de fato. Tudo isto com quatro cuíqueiros da Vitória Régia no palco junto da bateria da Aparecida.
Figura 50 - Prince do Boi e cantores da Vitória Régia na Aparecida. Foto de Taynah Pinheiro. 13/01/2014.
Já com o casal no palco de intérpretes e quando tudo parecia mais controlado, Prince do Boi convoca seus compatriotas para a guerra novamente fazendo questão de frisar, repetidas vezes, o verso "Vitória Régia, a campeã voltou" do samba de 2014. A possibilidade de uma nova tensão foi afastada pela indiferença dos anfitriões e pelo clima de fim de festa que começava a tomar conta da quadra. Ainda houve tempo, entretanto, para uma nova provocação, dessa vez por parte do apresentador da Aparecida que bradava: "Acho que o pessoal da 14 bebeu demais, estão dizendo que a campeã voltou". Eventos com este tom se repetiram na quadra da Mocidade de Aparecida por todo o ciclo de preparação deste e do carnaval seguinte. Participaram desde escolas de samba concorrentes da mesma divisão da Aparecida até intérpretes cariocas representando as suas respectivas escolas. Os encontros de maior tensão antecederam os encontros com escolas do mesmo grupo. Uma delas, a Reino Unido da Liberdade, se recusou a participar do evento. A alegação oficial era de que “o horário do evento coincidia com o do ensaio 128
da escola”88. Por outro lado, alguns componentes da Reino Unido confidenciaram que estavam satisfeitos com tal recusa por “ser a Aparecida uma escola despeitada” ou “querer tirar uma casquinha do sucesso da Reino Unido”. Os componentes e torcedores saem particularmente satisfeitos com estes eventos em alguns momentos. Numa ocasião conversei com um membro da Harmonia técnica da escola que declarou ser “importante que as outras escolas frequentassem mais a Aparecida para aprender a fazer um carnaval com a excelência da Aparecida”. Para seus componentes, a Aparecida seria o máximo em organização e eficiência no âmbito do carnaval de Manaus. Assim os eventos em que a escola leva atrações importantes de fora, especialmente do Rio de Janeiro, visam não apenas a arrecadação com o público pagante. São demonstrações de força que chegam a intimidar rivais. Por isso, a escola reservou um dos dias de uma oficina realizada com os Mestres de Bateria da Portela e do Salgueiro para membros de outras escolas de Manaus. Daí vemos a importância do convite feito às demais escolas recebendo-as em sua confortável quadra com toda pompa e circunstância que a situação requer. Vemos aqui uma relação que parece correlata a forma de dádivas. Marcel Mauss (2001), estabelece a dádiva como fundamento da sociabilidade de todas as relações humanas.
Entre os melanésios o objeto de troca não é, exclusivamente, bens
economicamente úteis, são também amabilidades, banquetes, ritos, mulheres, crianças, danças, festas. E aqui retomamos um dos princípios incentivadores desta investigação já que “é da natureza das instituições expressar-se simbolicamente nos seus costumes e instituições” (op.cit, p.15). Mauss descreve também um sistemas de prestações totais que se apresentaria em sua forma mais pura nas tribos australianas ou norte-americanas chamado Potlatch,89 chamando atenção é o princípio da rivalidade e do antagonismos que domina essas práticas - “prestações totais de tipo agonístico”. No curso do preparo do carnaval são também recorrentes os momentos de comensalidade das feijoadas nas quadras escolas de samba (ERICEIRA, 2009) ou nos barracões durante a produção das alegorias e fantasias (SANTOS, 2009) e, durante ensaios e eventos. Durante o período que antecede os desfiles temos, então, a Aparecida esbanjando o luxo de sua quadra, expondo uma posição ambicionada por outras escolas.
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A despeito de tal alegação recordamos que eventos similares são realizados em escolas cariocas e geralmente as escolas enviam comitivas de representantes mesmo que no mesmo dia sejam realizados eventos em sua quadra. 89 Potlatch é um termo Kuakiutl que significa "Nutrir", "Consumir" (MAUSS, 2001).
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Sua estrutura e organização revela-se na elegância dos trajes de seus componentes durante os ensaios. Querem receber bem seus visitantes para provar a condição diferenciada de sua gente. Tentam com isso ensinar a etiqueta da excelência “soberana” em carnaval para os adversários. É a competição, é a rivalidade encenadas antes mesmo da entrada na pista de desfile. Tendo em mente que a obrigação de dar não se resume somente a obrigação de retribuir, mas também à obrigação de receber, as recusas a convites da Aparecida elucidam os pontos de maior rivalidade entre as escolas de samba de Manaus. A recusa do convite por parte de uma escola é uma declaração de guerra, e nela estão implícitas motivações que vão desde a admiração ou mesmo a inveja como o reconhecimento da impossibilidade de retribuir à altura. Afinal, nem todas as escolas em Manaus são dotadas de uma quadra tão bem equipada como aquela que a Aparecida desfruta hoje. Por outro lado, há a possibilidade de alcançar a vitória na competição sem precisar passar pelo sentimento de humilhação vivenciado por uma concorrente que admite implicitamente a superioridade da Aparecida, a forma soberana que se oferece como palco do monopólio da visibilidade pública, diminuindo elegantemente sua rival. 3.4. Chegamos à pista de desfiles: os ensaios no sambódromo.
Figura 51 - Porta-bandeira e Mestre-sala da Mocidade de Aparecida durante o ensaio da escola no sambódromo. Foto de Taynah Pinheiro. 11/02/2015.
Importante para um bom desempenho no dia do desfile é ter contato com a pista onde acontecerá a apresentação. A prática tornou-se um evento no Rio de Janeiro que atualmente organiza um calendário de apresentações na pista de desfile de forma a 130
contemplar as atuais doze escolas do Grupo Especial, a 1a divisão carioca, e quinze da Série A, a 2a divisão carioca (FERREIRA, 2012). Os sucessos de público das apresentações das escolas cariocas rendem atualmente até patrocínios pela Lei Rouanet.90 O mesmo acontece em São Paulo onde a medida que o carnaval se aproxima há expectativa com os ensaios das escolas no sambódromo do Anhembi. Em Porto Alegre os ensaios antes realizados nas ruas do centro da cidade foram expressões da resistência negra frente ao preconceito de alguns tradicionalistas. A chamada “Muamba”, o ensaio geral das escolas de samba de Porto Alegre ganhou espaço importante no ensaio das escolas com a criação do sambódromo de Porto Seco e mobiliza os sambistas da cidade (DUARTE, 2011). A afirmação do ensaio técnico na pista de desfiles criou um novo espaço de sociabilidade entre as escolas de samba. Acentuou ainda mais a importância da pista de desfile no circuito carnavalesco das cidades. Onde os desfiles são cobrados, os ensaios democraticamente são abertos ao público. Nos casos onde os desfiles já são abertos ao público como em Manaus servem de chamariz para o grande público que comparecerá aos desfiles oficiais. Em Manaus, os ensaios acontecem divididos em dois dias e apenas com as escolas da 1a divisão. Em 2012, a organização do ensaio incluía toda a infraestrutura de desfile, todas as arquibancadas foram abertas ao público e divulgação antecipada dos ensaios no sambódromo. Em 2013, não foi utilizada a infraestrutura de desfiles – o carro de som foi improvisado, ainda não haviam concluído a pintura de pista e apenas um setor de arquibancada aberta ao público – como no anterior. Mesmo assim foi boa presença de público, especialmente nas escolas de maior torcida. Nestes dois anos citados aconteceram uma semana antes dos desfiles oficiais. Já em 2014 e 2015 os ensaios aconteceram na terça e quarta da semana dos desfiles com todo o aparato de som e luz dos desfiles oficiais. Ao contrário do Rio de Janeiro, talvez por não haver cobrança de ingressos no dia dos desfiles, o público nos ensaios do sambódromo costuma ser menor. Dessa forma não são todos os setores de arquibancada que são abertos ao público. Em todos os quatro anos que acompanhei no máximo dois setores das arquibancadas eram abertos ao público. De qualquer forma o público preferiu concentrar-se nas laterais da
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Ver “Liesa consegue entrar na Lei Rouanet para os ensaios técnicos” em http://www.carnavalesco.com.br/noticia/liesa-consegue-entrar-na-lei-rouanet-para-os-ensaiostcnicos/12639 publicada em 22 de junho de 2015 e acessada em 22/06/2015 às 21:52.
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pista de desfile, nas barraquinhas de quitutes já instaladas no sambódromo e na área de concentração das escolas. Boa parte do público se concentra no entorno da bateria na concentração acompanhando-a pelo restante do cortejo, o que dá muito trabalho aos componentes da harmonia, que organizam as alas. Outra parte do público aguarda a chegada da bateria no chamado “recuo”. O público vibra com cada convenção ou paradinha executada pela bateria. Os ensaios no sambódromo mobilizam praticamente a mesma estrutura dos ensaios de rua das escolas. Lá estavam cada uma delas com comissão de frente; os casais de mestre-sala e porta-bandeira; baianas; bateria; e de duas a quatro alas coreografadas dependendo do tamanho da escola. O tamanho deste aparato determina a força da escola para os que formulam especulações sobre a disputa do título entre a audiência dos ensaios. Em Manaus, com a proximidade dos desfiles, tais negociações passaram a ser difíceis entre as escolas. Junto com isso, ocorre a exigência de maior organização para a data festiva. Como vimos, nos primeiros anos que acompanhei, os ensaios aconteciam uma semana antes dos desfiles e as escolas não contavam com a iluminação total da pista e muitos menos com o sistema de som oficial, tendo que improvisar o som com trios elétricos. A Mocidade de Aparecida fez questão de participar destes ensaios com o máximo de componentes possível. Seus componentes deveriam se apresentar trajando camisa da escola, o que não acontecia em todas as escolas. Aqui emerge a questão das pessoas que, vestidas com camisa, não estão ligadas a nenhum setor da agremiação. São os chamados paraquedistas do samba que negociam sua presença no desfile da escola em troca de uma camisa de diretoria que dá livre acesso à pista. Um destes confessou-me que seu grande objetivo era possibilidade de “desfilar ao lado da bateria mesmo sem tocar nada”. Substituindo os carros alegóricos que demarcam os diferentes setores de um desfile estão os ônibus que carregaram seus componentes para o sambódromo. A comissão de frente que abriu o cortejo apresentava-se com a estrutura do tripé que ainda seria decorado para o desfile. A bateria já trazia os novos instrumentos do desfile, todos decorados com adesivos da escola referentes ao enredo do ano.
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Figura 52 – Componentes de galhardete utilizadas para localizar as alas o ensaio técnico da Mocidade de Aparecida. Foto de Taynah Pinheiro. 12/02/2015.
A riqueza dos ensaios no sambódromo revela-se no público presente. Há aqueles já ansiosos pelo resultado do desfile vindouro. Tratam de elaborar rankings do desempenho das escolas quesito por quesito, excluindo os quesitos relativos às alegorias e fantasias. Há também os que entram no ritmo folião e querem ver e ser vistos. Teóricos da conspiração já soltam suas pérolas anunciando qual escola será campeã, qual será rebaixada baseando-se na rede de fofocas que já circula com bastante antecedência aos desfiles. Finalmente, lá estão os sambistas.. Estes últimos negociam sua participação nesta ou naquela escola; negociam trocas de material para o barracão nos retoques finais para os desfiles das escolas. A última questão é especialmente significativa para as pequenas escolas de samba do Rio de Janeiro (BARBIERI, 2012). Em Manaus, as mudanças nas estruturas dos ensaios exigiram que as escolas dos grupos de acesso (da 2ª à 4ª divisões) encontrassem outras formas de viabilizar seus desfiles. Na noite de quintafeira que antecede o carnaval, assim que os ensaios das escolas do Grupo Especial se encerram, algumas horas depois, o Grupo de Acesso C, a 4a e última divisão de Manaus já desfila. Durante os ensaios das escolas do grupo especial no sambódromo, as escolas dos grupos de acesso já estão então com seus carros alegóricos estacionados na área de concentração e muitas ainda os têm em fase inicial de confecção. As negociações com as grandes, portanto, são mais difíceis, mas não estão descartadas como veremos a seguir.
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CAPÍTULO 4 - A ESCOLA DE SAMBA ENTRE O UMBRAL E A GLÓRIA: OS GRUPOS DE ACESSO DE MANAUS Na terça-feira antecedente ao carnaval, uma correria predomina na área de concentração da pista de desfiles de Manaus. Gritos de artistas estressados com o pouco tempo e os escassos recursos que têm. Os dirigentes das escolas respondem com mais cobranças e tornam-se indistintos dos operários da folia quando agoniados pelo pouco tempo restante para os desfiles resolvem botar a mão na massa, ficam sujos de graxa, ferro de solda na mão e óculos de proteção no rosto. Naquele momento os carros das escolas dos grupos de acesso de Manaus ainda estão tomando forma. O cheiro de cola mistura-se ao tíner, dentre outras químicas intoxicantes. Enquanto isso, a alguns metros dali as escolas da 1a divisão já finalizam seus carros alegóricos nos barracões. Não é possível vislumbrar significados de algumas daquelas alegorias ainda num formato vazado de aramado e ferro. Alguns ainda mantêm a calma declarando que “vai dar tempo” ou “estamos tranquilos”. A verdade é que os três dias – a segunda, a terça e a quarta antecedentes ao carnaval - que antecedem os desfiles do Grupo de Acesso C, a última divisão das escolas de samba de Manaus, são de intensa movimentação na entrada da pista de desfiles, pois é lá, em cima da hora, que as alegorias são confeccionadas. Os sambistas cariocas costumam reclamar de diversos fatores que minoram as escolas de samba de sua cidade. Ainda que o Rio de janeiro seja reconhecido como berço das escolas de samba, elas dependem de verbas públicas, de patrocínios ou do mecenato do jogo do bicho para viabilizar seus desfiles. Os sambistas cariocas se debatem com dilemas de uma festa que alcançou patamares de espetaculares em que o brilho do sucesso comercial ofusca quem trabalha para a construção do espetáculo. Vimos como uma série de problemas recorrentes no carnaval carioca atravessam também a vida das escolas de samba de Manaus, como os escritórios de samba, as disputas fraticidas internas pelo comando das escolas, a necessidade de se reinventar cotidianamente para estar na mídia além dos dias de folia. No caso das escolas que não estão nos holofotes do Grupo Especial, da 1a divisão, das escolas de samba cariocas, tudo isso é ainda mais pungente. Nos chamados Grupos de Acesso cariocas paira uma nuvem de incertezas que vão desde condições insalubres
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dos que criam as alegorias e fantasias para os desfiles até a básica necessidade de organizar um espaço de ensaios91. Não esse o caso de uma metrópole como São Paulo ou alguma das cidades satélites do eixo Rio-São Paulo. Em Vitória (ES), por exemplo, as escolas de samba ganham cada vez mais visibilidade impulsionadas pela transmissão nacional de seu carnaval.92 Ou do carnaval fora de época de Uruguaiana (RS)93 que entra com muita força no circuito dos sambistas cariocas. Aqui enfocaremos o que é a experiência de ser uma escola de samba fora da divisão principal das escolas de samba de Manaus. Tais grupos, como vimos, se caracterizam pela mobilidade, pois a lógica competitiva impõe que uma escola sempre busque sair das divisões de acesso rumo à divisão principal. Nas divisões de acesso estão ou escolas em crise ou escolas em ascensão. Algumas são escolas recém-fundadas e esperando cumprir uma trajetória de sucesso até a 1ª divisão; outras são escolas detentoras de títulos, grandes sambas, grandes carnavais, que permaneceram mesmo por longos períodos disputando títulos no grupo principal. Há, entretanto, aquelas que temem não conseguir realizar seu carnaval. São grupos que vivem entre a glória e a desgraça, entre nascer e morrer. Qual é a dinâmica de uma escola de samba pequena? Buscando justificar o interesse em seu funcionamento poderíamos encontrar a inspiração na busca da concepção elementar da religião por Emile Durkheim: “De onde se concluiu que, para descobrir a forma verdadeiramente original da vida religiosa, era necessário ir, através da análise, para além dessas religiões observáveis, decompô-las nos seus elementos comuns e fundamentais e procurar se entre esses últimos, não existe um do qual derivam os outros. ” (DURKHEIM, 1989, p.80) Com o enfoque das escolas dos grupos de acesso de Manaus, buscamos então verificar o que seria elementar para uma forma carnavalesca ser considerada uma escola de samba. Aquilo sem o que elas não existiriam, desde seu ativo florescimento em seu
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Existem mesmo pessoas ligadas às escolas de samba cariocas que as chamam de forma pejorativa de “mambembes”. 92 O carnaval de Vitória acontece uma semana antes do carnaval (MONTEIRO, 2010). O fato de antecipar a semana de carnaval tornou-se chamariz para transmissões nacionais de TV como a da Band a partir de 2012. 93 O desfile das escolas de samba de Uruguaiana(RS) realiza importante intercâmbio de componentes e alegorias com escolas de samba cariocas possibilitado em boa parte por sua posição no calendário – duas semanas após o carnaval (DUARTE, 2011).
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nascedouro e até seu desaparecimento. Podemos encontrar isso nos grupos de acesso em Manaus. Seguiremos seu processo ritual anual: dos barracões para a avenida e assim abriremos espaço para posteriormente, no último capítulo, examinarmos para a apuração das notas, o resultado dos desfiles em busca de nossa conclusão. No percurso nossa atenção se volta especialmente para as escolas da 4a divisão e a Presidente Vargas, que transita entre as diferentes divisões que compõem os grupos de acesso, em especial a 2a e 3a divisões e o Grupo Especial, a 1a divisão. Cada uma buscando sua ascensão e sua volta ao grupo principal. Cada escola tem uma trajetória de subidas e quedas no carnaval da cidade. 4.1. Nos barracões dos grupos de acesso: do Carandiru carioca ao inferninho de Manaus.
Figura 53 - Parte do espaço da concentração do sambódromo que serve de barracão de alegorias de várias escolas dos grupos de acesso. Acervo Pessoal. 07/02/2013
As dificuldades que predominam no cotidiano de uma escola do grupo de Acesso em Manaus obrigam a agremiação a buscar a construção de seu carnaval por meio de alianças feitas individualmente seja entre pessoas seja com outras agremiações carnavalescas. Quanto maiores as dificuldades enfrentadas por uma escola, mais explícitas serão as alianças que configuram uma rede colaborativa. Já na Acadêmicos do Dendê deparei-me em diversos momentos com as trocas ou doações de material entre as escolas (BARBIERI, 2012). Um chassi de carro alegórico, uma escultura, até mesmo fantasias inteiras eram doadas pelas escolas de grupos superiores na hierarquia para escolas de grupos inferiores. Até mesmo escolas do mesmo 136
grupo desenvolviam redes de colaboração, visando especialmente trabalhar em harmonia num espaço comum.94 Anteriormente já havia observado estreitos laços entre as escolas de samba relacionados à convivência em um mesmo espaço de preparação de alegorias95. Nas escolas de samba cariocas, Eugênio Araújo (2008) constatou em sua pesquisa junto aos grupos de acesso a prática artística do reaproveitamento de materiais, que levava escolas de samba do grupo Especial a manter um galpão apenas para armazenagem de esculturas vendidas ou cedidas as escolas de samba dos Grupos de Acesso. Estas esculturas circulavam posteriormente entre as escolas numa dinâmica de transformação de significados das esculturas que podiam, por exemplo, representar em um contexto representar seres espaciais e em outros negros escravizados. Aqui alcançamos a ressignificação do desalento dos carnavalescos frente à efemeridade das alegorias conforme observado por Nilton Santos (2009), onde a carnavalesca Maria Augusta relata a dramaticidade da destruição de uma decoração em um baile de carnaval do Theatro Municipal, o posterior reaproveitamento desse material em uma alegoria do carnaval da Acadêmicos do Salgueiro e a posterior destruição da alegoria ao final do desfile (op.cit, p.225-226). No carnaval carioca a instituição do apadrinhamento entre escolas tem papel importante, porém como vimos no capítulo anterior não preponderante nas relações de trocas e colaborações entre as escolas de samba. A dinâmica de trocas e da colaboração entre as escolas de samba evidencia uma importante rede social que conecta diferentes atores ligados ao carnaval.96 A formação de redes de colaboração ocorre entre as escolas de Manaus. Como já indicado, atualmente as escolas da 1a divisão de Manaus ocupam um conjunto de galpões 94
As escolas dos Grupos B ao D do carnaval carioca atualmente dividem um galpão localizado próximo à Estrada intendente Magalhães no bairro de Campinho. Neste espaço, um antigo depósito de bebidas, não há divisórias entre as escolas que tem que compartilhar iluminação, eletricidade, água e até mesmo algumas ferramentas para preparar seus carros alegóricos. As condições precárias do ambiente levaram os sambistas a apelidar o espaço de Carandiru 2 numa menção ao espaço que anteriormente abrigava escolas de samba na Zona Portuária carioca e inspirado no já desativado presídio paulista (BARBIERI, 2012). 95 “Além do caso já citado, envolvendo o Acadêmicos do Dendê e a União da Ilha, observei outras relações do mesmo tipo envolvendo o Dendê e a Unidos de Padre Miguel. Muito dessa relação é levada a cabo por alguns dos componentes das escolas em suas relações pessoais trançadas no mundo do carnaval, cada um deles se torna um potencial centro de articulação e de mediação ao conectar-se com diferentes escolas. A proximidade dos barracões da Acadêmicos do Dendê e da Unidos de Padre Miguel estreitou ainda mais esses laços de colaboração(...) assim, durante a preparação do carnaval de 2009, a Unidos de Padre Miguel cedeu algumas esculturas excedentes, não utilizadas nos seus tripés que viriam antes do abre-alas da escola. Antes mesmo da chegada da Unidos de Padre Miguel ao Carandiru em 2008, as relações entre as duas escolas já eram cordiais, com a troca e cessão de esculturas em anos anteriores. ” (BARBIERI; 2012, p.131-132) 96 Para a discussão da noção de rede social ver. Hannerz, 1980; Bott, 1976; Mitchell, 1969; Strathern, 1996
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construídos especialmente para a confecção dos carnavais das escolas locais. Ao lado dos nove galpões, existe um estacionamento ocupado pelas escolas dos grupos de acesso, e mesmo a área de concentração do sambódromo de Manaus é utilizada como barracão das escolas dos grupos de acesso nos dias que antecedem aos desfiles. Cabe aqui mencionar que a preparação dos carros alegóricos das escolas dos grupos de acesso de Manaus ocorre geralmente nos quinze dias antecedentes aos desfiles ou mesmo uma semana antes dos desfiles. Esse espaço de preparação compartilhado pelas escolas de acesso em Manaus não conta com nenhuma divisão interna, tampouco há proteção contra chuvas e outras intempéries. A gente trabalha com dificuldades, a gente trabalha no tempo. Não temos um barracão, uma estrutura. Os grupos de acesso são feitos dessa forma. Todos, como você está vendo aí, a céu aberto, com chuva sol. Mas independente disso está pronto. E vai estar pronto na hora. No momento do desfile os carros vão estar preparados para desfilar. (Alexandre, artista da Legião de Bambas – entrevista em 07/02/2013) Desde o carnaval 2012, pude perceber que as escolas dos grupos de acesso preparavam seus carros alegóricos não apenas neste espaço da concentração dos desfiles como também em um espaço contíguo aos barracões das escolas da 1a divisão. Este último espaço serviria no projeto original de estacionamento do complexo de barracões Morada do Samba Luizinho Sá. Era ali que as escolas de samba do Grupo de acesso A, a 2a divisão, preparavam seus carros alegóricos, geralmente de maior porte. No carnaval de 2012, quando o número de escolas na 1a divisão foi maior que o de barracões disponíveis na Morada do Samba (eram nove escolas para oito galpões), a escola que havia ascendido da 2a divisão para a 1a no ano anterior ocupou este espaço externo contíguo, deixando seus carros ao relento. Para amenizar a situação, a Prefeitura instalou tendas onde os adereços eram preparados e lá os artistas se abrigavam das chuvas frequentes. Tal qual ocorre nas escolas que preparam seu carnaval na área de concentração do sambódromo, as instalações elétricas dos equipamentos são precárias e improvisadas a partir de caixas de energia do sambódromo ou da Morada do Samba.
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Figura 54 - área contigua à Morada do Samba com alegorias da Dragões do Império e outras duas escolas da 2a divisão, Andanças de Ciganos e Presidente Vargas. Acervo Pessoal. 10/02/2012
Entre 2013 e 2014 foram recorrentes matérias nos jornais locais em que os moradores das cercanias do sambódromo reclamavam dos restos de alegorias das escolas abandonados especialmente no estacionamento da Morada do Samba. Nos carnavais seguintes – até o carnaval 2015 – o panorama mudou sensivelmente. Por um lado, as escolas dos grupos de acesso permaneciam ocupando estes espaços improvisados, mas em menor número e com melhor organização na área de estacionamento da Morada do Samba. Por outro lado, o fim das obras na Arena da Amazônia, estádio de futebol vizinho ao sambódromo, permitiu que a área de concentração do sambódromo fosse ampliada e melhor iluminada. O calor dos dias que antecedem os desfiles e o sol que parece nunca se pôr nesse espaço acabam inspirando a denominação informal deste espaço, a exemplo do que ocorre com o Carandiru carioca: é o Inferninho. Aqui é até melhor aqui. Por mais que é esse sufoco. Aqui chama Inferninho né? Então aqui nesse Inferninho acho até melhor. Aqui paga melhor que as escolas grandes. Aqui paga melhor porque por mais que se passe dois meses lá dentro ali, tem semana que não tem dinheiro. Aí fica aquele negócio de não tem. Até o pessoal da minha terra lá de Parintins que trabalha nos barracões aí sabe que a dificuldade é grande. E precisa de dinheiro. E para quem tem família? Aqui não, a escola se mantêm vai divagando.... É duas semanas só de trabalho aqui. Esse só foi uma semana! (...). Tenho um grupo de 12 comigo. Sempre estamos formando novos artistas. Todo dia entra um e sai outro. Já teve um que começou ontem e desistiu. Para trabalhar com 139
alegoria do Grupo de Acesso tem que gostar. (Gilmar, artista da Leões de Barão Açu – entrevista em 07/02/2013) Com tantos problemas, trabalhar como artista em uma escola de um dos grupos de acesso de Manaus, passa a envolver certa vocação, dedicação e muita vontade. Apesar de, as escolas pagarem em dia e a carga de trabalho ser menor, segundo o artista Gilmar as dificuldades e o curto prazo pesam. A perspectiva de seguir no ostracismo ou encarar o difícil bloqueio da chegada ao grupo especial cria um cenário ainda mais desestimulante a jovens artistas. Esta, porém é uma das poucas alternativas para quem quiser entrar no mundo das escolas de samba e alcançar um espaço nas escolas do Grupo Especial. As falas lembram o que ouvi de Laerte Gulini, um carnavalesco de uma escola carioca, a Acadêmicos de Vigário Geral, na época ocupante de um espaço no já extinto Carandiru da Zona Portuária carioca que dizia: “a gente faz porque a gente gosta”.
Figura 55 - Barracão com as três alegorias da Vila da Barra ao lado do galpão coberto da Sem Compromisso. Acervo pessoal. 07/02/2013.
Nessa situação, a ajuda das escolas da 1a divisão é realmente relevante como vemos no depoimento de componente de uma das escolas de samba na época da 4a divisão, a Vila da Barra. Naquele ano, a escola preparou suas alegorias ao lado do barracão de uma das escolas da 1a divisão, a GRES Sem Compromisso: “Nós estamos aqui ao lado da Sem Compromisso até porque não temos galpão. E ontem ainda teve um corte de energia nos barracões como o da Sem Compromisso que também nos deixa sem energia. A energia vem do 140
barracão deles. E nós mesmo assim ficamos aqui no tempo. Quando chove tem que parar, quando falta luz tem que faltar e atrasou muito o andamento da confecção do carro. (...)A gente tem uma parceria com a Sem Compromisso. Mesmo com o passar dos anos a Sem Compromisso tem uma parceira com nossa bateria. A gente junta bateria com eles, eles juntam com a gente. E esse ano o presidente viu nossa realidade, nosso sufoco e ofereceu esse espaço aqui ao lado do barracão deles que tem dado um apoio. Até o artista que está fazendo o nosso carro é o mesmo da Sem Compromisso. Eles ajudam até com materiais, sobras e local para alimentação. ” (Pedrinho, Diretor de Patrimônio da GRES Vila da Barra – 06/02/2013)
Figura 56 - Alegorias da Presidente Vargas aguardando material emprestado para escola do Grupo de Acesso C. Foto Taynah Pinheiro. 11/02/2015.
Este fato é corriqueiro e tem até um termo nativo para descrevê-lo, o chamado “enxerto”, termo que denomina o empréstimo ou cessão de material utilizado na produção de um desfile por uma escola a outra. Em Manaus, a prática do enxerto é veementemente desconsiderada por alguns dos foliões. Um dos componentes de uma escola da 2a divisão com quem conversei no carnaval 2015 rechaçava a possibilidade da concorrente do mesmo grupo, a Acadêmicos da Cidade Alta, fazer um bom desfile pois “estavam colocando todas as esculturas que iam para o lixo na Vitória Régia em seus carros”. Outro componente, este da Reino Unido da Liberdade, descartou a possibilidade de sua escola desfilar com a mesma escultura do ano anterior: “Aqui nós fazemos tudo de novo a cada ano” disse ele. No carnaval de 2012, lembro-me de um torcedor da Aparecida 141
enfurecido com o fato de que segundo ele: “A Vitória Régia reaproveitou toda a decoração de Natal da cidade nos seus carros! Ficou muito feio isso!” No ano seguinte seria Unidos da Alvorada a acusada – com a rigidez do termo - de reaproveitar as esculturas do carnaval anterior no seu vice-campeonato de 2013. Todo ano é assim, esse sacrifício. A gente fica até um pouco chateado pela falta de atenção dos organizadores do carnaval porque nós ficamos aqui sem sequer um banheiro químico para as necessidades básicas do ser humano. Carro de bombeiro aqui não tem. Enfim, todo apoio que deveria ser dado não chega até as escolas de samba dos grupos de acesso. Sempre somos vistos como um primo pobre dessa história toda. Pessoal só tacha que aproveita coisa, o corpo de um índio, o corpo de um caboclo feito em outros carnavais. Isso aí é outra situação interessante porque esse ferro é todo jogado na natureza. Então quando chega as escolas pequenas que querem fazer um globo e tem já um globo feito no ferro e só encapar e dá outro sentido para a alegoria, isso aí também colabora com nosso meio ambiente. E colabora com a escola porque o orçamento é apertado. (Gilson, artista da Mocidade da Raiz – entrevista em 07/02/2013) Apesar de vermos nos barracões o desenho de uma rede de colaboração, o ambiente de rivalidade entre as escolas de samba de Manaus acirra fatores fazendo com que essa colaboração tenha um papel secundário em comparação a outros como a participação de componentes das escolas em outras festas populares da cidade. Chama atenção, por exemplo, a situação de convívio entre a Unidos da Alvorada e o Boi-bumbá Brilhante, quando em 2007 ambas as agremiações integrantes de diferentes festas da cidade conviveram no mesmo espaço de preparação de suas alegorias, trocando inclusive materiais na confecção de suas alegorias tal qual observou Alvatir Silva (2009) em trabalho sobre o festival folclórico de Manaus e sobre a organização dos grupos participantes que têm estreitas relações com as escolas de samba: Nota-se que o [boi-bumbá] Brilhante tem relação de parceria com as escolas de samba da Zona Leste (A Grande Família e Mocidade do Coroado), pois em 2007 usou o barracão dessas escolas para confeccionar suas alegorias e indumentárias. Não é difícil imaginar que o grupo folclórico esteja estreitando relações com a escola de samba Unidos da Alvorada, cuja as cores são azul e branco, coincidentemente as mesmas do Brilhante. (SILVA, 2009, p.67)
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O mesmo Boi Brilhante, das cores azul e branca e participante do Festival Folclórico de Manaus realizado no período entre final de julho e início de agosto, conviveu com a escola de samba Primos da Ilha, do bairro São Francisco, Zona Sul de Manaus. Neste outro caso, o grupo dividiu inclusive a quadra de ensaios com a escola de samba. Outra agremiação folclórica de convivência muito próxima com uma escola de samba é o Boi-bumbá Corre Campo, das cores vermelha e branca e sediado no bairro da Cachoeirinha que abriga também a escola de samba local, a Andanças de Ciganos. Ambos dividem a mesma quadra de ensaios.
Figura 57 - Bar na quadra da Andanças de Ciganos durante evento da escola de samba ainda com marca do Boibumbá Corre Campo. Acervo pessoal. 27/10/2013
Não se limitam apenas aos bumbás de Manaus as relações de colaboração das escolas de samba de Manaus. No carnaval de 2015, quando homenageou a cidade de Manacapuru, vizinha à capital Manaus, a escola de samba Balaku Blaku contou com a presença maciça de integrantes das cirandas97 daquela cidade em seu desfile. A escola de samba A Grande Família, do bairro do São José na Zona Leste de Manaus, tem laços estreitos com a ciranda local homônima que também divide seu espaço de ensaios com a escola de samba. Como vimos no primeiro capítulo desta tese, o calendário da cidade está adequado a uma série de eventos que configuram um calendário festivo anual (SILVA,
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As cirandas são grupos folclóricos que encenam uma dança de roda típica da região. Atualmente é a principal atração do festival folclórico realizado na cidade de Manacapuru, vizinha à Manaus, no mês de setembro. Neste festival rivalizam em uma competição festiva organizada a partir de 1980 três grupos: Flor Matizada, Guerreiros Mura e Tradicional (NOGUEIRA, 2008). Na cidade de Manaus são inúmeros os grupos desta dança que se enfrentam em diferentes níveis na competição do Festival Folclórico de Manaus, realizado entre final de julho e agosto.
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2009). Diante da complexidade da metrópole e seus múltiplos pertencimentos (VELHO, 2013), o sambista de uma escola de samba manauara parte de uma escola para um boi bumbá tão logo esteja encerrada a apuração das notas do carnaval. Entre fevereiro e junho dedica-se a seu boi bumbá. Depois dos festivais folclóricos, o ciclo carnavalesco retorna e, com ele, toda rede de trocas e colaborações. O calendário festivo norteia também a sociabilidade local nos bairros. A proximidade – ainda que não necessariamente geográfica -
de agremiações folclóricas e seus componentes permeia a rede de
colaborações dos carnavais. Nos barracões das escolas de samba, observamos que não necessariamente a colaboração se dará entre uma escola da 1a divisão e alguma escola do grupo de acesso. Havia quem indicasse que as trocas mais frequentes ocorriam entre escolas das divisões de acesso: As escolas do Grupo Especial elas se acham intocáveis. Então tem muitas delas que estão lá e acostumadas a tirar um ano, dois anos, três anos em último lugar e não acontece nada, ela sabe que vai continuar ali. (...) São grupos fechados. As escolas de samba do Grupo Especial elas se ajudam. Elas fazem um corporativismo. E as escolas dos grupos A, B e C são da mesma forma. No sentido de união, não existe uma união da categoria C ao Especial. É cada um por si e Deus por todas. (Gilson, artista da Mocidade da Raiz – entrevista em 07/02/2013) É o que de fato constatamos não apenas no exemplo já citado entre a Presidente Vargas e uma escola da 4a divisão que desfilava um dia antes. A convivência no espaço comum obriga-as ao estreitamento dos laços, mas não explica tudo. Há certa solidariedade advinda do sentimento de desfavorecimento a que se percebem submetidas tais escolas. É inegável que dentre elas existem as rivais, mas a solidariedade é necessária para viabilizar a existência de cada uma delas. Temos um universo competitivo hierarquizado onde as regras, tal como no carnaval carioca, têm por parâmetro as escolas da primeira divisão. Tal como acontece nas escolas cariocas, as pequenas se colocam numa situação de oposição às escolas de samba da 1a divisão carioca (ARAÚJO; 2008). Apenas uma escola terá o privilégio de ascender dentre todas, enquanto em muitos dos anos duas ou até três escolas são rebaixadas da primeira divisão para a segunda. Para simplesmente existirem como escolas de samba, critérios mais duros são adotados ainda inspirados pelo modelo sofisticado do topo. Além da solidariedade interna nestes grupos, há sempre esperanças postas nas disputas internas das escolas que estão no topo e que abririam 144
eventualmente espaço para um acesso ao topo. Assim, de tempos em tempos, a primeira divisão aumenta o número de componentes, mas seja por competência na pista ou pelo trabalho realizado nos bastidores um novo grupo pode permanecer anos na primeira divisão. O importante é a brecha mais visível para a ascensão: o dia de desfiles. Os próprios sambistas indicam o caminho para a subida através da repetida frase “carnaval se ganha na avenida”. Então é no desfile que elas apostam todas as suas fichas. 4.2. Umbral das escolas de samba: a última divisão do carnaval de Manaus.
Figura 58 - Escultura sendo finalizada minutos antes de escola de samba do grupo C entrar para desfilar. Foto Taynah Pinheiro. 27/02/2014
O desfile das escolas de samba do Grupo de Acesso C, a 4a divisão do carnaval de Manaus, acontece numa quinta-feira antecedente ao carnaval, antecedendo a sexta de desfiles da 2a e 3a divisões (Grupos de Acesso A e B); e o sábado de desfiles da 1a divisão, o Grupo Especial. Nesse dia, seis escolas com menos de mil componentes desfilam no colossal sambódromo de Manaus para um público menor que o número de seus componentes. Vamos tentar compreender quais elementos configuram essa posição que podemos caracterizar como o umbral da hierarquia das escolas de samba. Estas escolas levam para o desfile geralmente um pequeno carro alegórico e em torno de dez alas98. A 98
Os números aqui apresentados foram colhidos na experiência em campo já que o acesso ao regulamento destes grupos são difíceis e geralmente são organizados, elaborados e votados alguns dias antes do dia de desfile mesmo.
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subvenção pública para esse desfile é muito menor do que a distribuída as escolas da 1a divisão. Enquanto na primeira divisão cada escola recebia em 2014 400 mil reais quando somadas as subvenções do Estado e do município, a mesma soma resulta em apenas 5 mil reais para cada escola da 4a divisão.99 Com tamanha discrepância não surpreende o fato de essas escolas apresentarem desfiles visualmente bem mais modestos e consequentemente despertarem menor interesse do grande público. Sendo este último grupo muito pouco divulgado, pouco material de registro se produz sobre seus desfiles salvo quando alguma escola com passagem pela 1a divisão chega ao último grupo.100 Do ponto de vista antropológico, este é, no entanto, um dos estágios mais importantes do carnaval das escolas de samba de Manaus se tomarmos sua dimensão ritual-competitiva. Retomando o caso das escolas de samba cariocas que desfilam na Intendente Magalhães vemos a recorrência do olhar pejorativo lançado sobre essas escolas:
‘Já temos escolas demais’ tornou-se uma frase comum entre os gestores do carnaval, quase sempre seguidas por justificativas que começam com ‘Essas escolinhas são muito mal administradas’. Tal diminutivo tem toda a ambiguidade desta forma nominativa: muitas vezes usado de forma carinhosa, traduzindo a atenção e o afeto diferenciados que merecem as coisas pequenas, em outras é sacado para realçar a desimportância. (...) Na verdade ninguém quer ser “escolinha”; uma prerrogativa desejável na trajetória de uma escola de samba é seu crescimento. (ARAÚJO, 2009, p.54)
Uma forma de refletirmos sobre esta visão, trazida especialmente por quem olha o conjunto das escolas a partir do topo da pirâmide competitiva, é através do conceito de poluição nos sistemas rituais elaborado Douglas (2014). A autora reflete sobre as possibilidades transformadoras dentro da condição poluidora onde inicialmente “um tipo de perigo que se manifesta com mais probabilidade onde a estrutura, cósmica ou social, estiver claramente definida (...) Os ‘poluentes’ nunca têm razão. Não estão no seu lugar ou atravessaram uma linha que não deveriam ter atravessado e este deslocamento resultou num perigo para alguém” (op.cit, p.134). A marca subversiva do impuro foi também 99
O primeiro contato com estes valores foi em entrevista com Daniel Sales em junho de 2012. Posteriormente os valores se confirmaram nos anos de 2013, 2014 e 2015 em matéria publicadas nos jornais Diário do Amazonas (“Arthur anuncia repasse de R$ 1 milhão para escolas” em 18 de janeiro de 2013) e A Crítica (“Governo repassa quase 4 milhões às escolas de Samba” em 29 de janeiro de 2013) e do portal G1 Amazonas (“Carnaval em Manaus deverá receber verba de R$ 4,6 milhões, anuncia SEC” em 27 de dezembro de 2012). 100 Como foi o caso da Mocidade Independente do Coroado no carnaval 2015.
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ressaltada por Mary Douglas: “A pureza é inimiga da mudança, da ambiguidade do compromisso. Certamente que nos sentiríamos mais seguros se pudéssemos fixar de maneira duradoura a forma da nossa experiência” (op.cit, p.188). Essa perspectiva nos leva a relativizar a qualificação pejorativa dessas escolas de samba, que de acanhadas podem ser percebidas como criativas. Consideremos também a condição liminar que foi iluminada por Van Gennep (2013) em sua formulação dos rituais de passagem. A sequencia de tais ritos pressuporia a passagem de uma condição a outra de modo processual por meio de fases que se sucedem: a separação, a liminaridade ou margem, e finalmente a agregação (op.cit, p.30). Van Gennep chamou atenção para o caráter ambíguo do ser em estado liminar. As características simbólicas da liminaridade foram elaboradas por Victor Turner (2013), com o caráter ambíguo do liminar opondo-se ao plano da estrutura definida de posições e estados estáveis, criando um momento situado “dentro e fora do tempo e dentro e fora da estrutura”. Assim, a liminaridade implica que “o alto não poderia ser alto sem que o baixo existisse e quem está no alto deve experimentar o que significa estar no baixo”. (op.cit, pp.98-99). No caso das escolas de samba, para que a hierarquia competitiva se estabeleça as situações liminares são fundamentais e podem ser experimentadas na 4a divisão. Temos aqui, um estágio especial onde as escolas tais como noviços experimentam a passagem, um estado de suspensão. Sem público, sem dinheiro, quase sem companheiros de desfile; os componentes de cada escola experimentam de forma particular, cada um, o seu rito de passagem experimentando a decadência e ostracismo aquelas que um dia gozaram de glórias na 1a divisão ou as dificuldades estruturais aquelas que ainda tem um caminho a percorrer antes de chegar até lá. Os sambistas que desfilam nas divisões de acesso, junto com as escolas podem alcançar a fama na 1a divisão e depois posteriormente voltar ao ostracismo da 4a divisão. A grande diferença é que de modo diverso do que ocorre com as escolas, os foliões podem experimentar estar em todos os grupos da estrutura competitiva das escolas de samba, ou seja participam de mais de uma escola simultaneamente. É justamente nessa expansão da possibilidade de participação em, e de acesso ao mundo das escolas de samba que reside a importância destas escolas dos grupos de acesso. Persiste, entre os sambistas de Manaus, em todos os anos que acompanhei enorme desconhecimento sobre estes grupos. Um dos foliões, bastante informado sobre escolas de samba da 1a divisão e moderador de um grupo de debate sobre carnaval na internet 147
insistia em chamar as escolas da 4a divisão de “escolas de bloco”. Muitos que o acompanhavam terminavam por desvalorizar as agremiações ou suas apresentações, separando-as de um desfile de escolas de samba de fato. Outros, tal como ocorre em outras praças carnavalescas, surgiam como ferrenhos combatentes destes grupos na defesa de uma redução higienizadora do número de escolas de samba. Partem estes últimos do mesmo argumento do renomado pesquisador carioca já citado que trata destes desfiles como “espetáculos mambembes” indignos de convivência com a “ópera espetacular” do modelo das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro:
Nem sei se isso são escolas (referindo-se aos desfiles da 4a divisão). É tanta desorganização que nem ala direito tem! Essas escolas de samba são pirentas101. Escola de samba para mim tem que ter carros bem-acabados. Tem que ser uma coisa grandiosa. Até a gente que desfila nessas escolas é feia. O que são as escolas de samba de Manaus? É Aparecida, Vitória Régia, Reino Unido e A Grande Família. Tem mais Sem Compromisso e Alvorada para fazer um número. Todo o resto é insignificante. Por mim pode acabar e ficar só com seis no Grupo Especial e seis no Grupo de Acesso. (Depoimentos de foliões e sambistas de Manaus sobre as escolas da 4a divisão – 18/01/2015) Acompanhei estes desfiles nos quatro carnavais em que estive presente em Manaus – entre 2012 e 2015 – e pude registrar trajetórias que podemos considerar como incipientes. Trata-se afinal de , a quarta divisão, um grupo introduzido na hierarquia do carnaval de Manaus apenas em 2008, abrigando escolas de fundação recente em sua maioria. O primeiro desfile deste grupo abarcou apenas quatro escolas. Justamente neste ano de 2008, a campeã foi uma escola que não existe mais no carnaval de Manaus, a Tradição Leste.102 A qualidade dos desfiles mesmo dentro deste grupo e com todas as dificuldades compartilhadas entre as agremiações não foi homogênea em nenhum dos quatro carnavais. Sempre havia uma escola vista como campeã ou favorita antes dos desfiles e 101 102
Uma gíria local que se refere a algo defeituoso ou doente. Durante a escrita desta tese, a Tradição Leste anunciou sua volta ao carnaval de Manaus em 2016.
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cuja apresentação agradava muito aos sambistas presentes no pequeno público da quintafeira. Nem sempre, entretanto, a escola apontada como superior se confirmava como campeã, algo que veremos mais a frente com nossa atenção voltada para apuração das notas. De qualquer forma, a escola favorita tinha como vantagem, e seria até possível ver nisso uma estratégia, o que os sambistas chamavam de “cumprir as obrigatoriedades”. O cumprimento básico das exigências regulamentares era muito valorizado pois, justamente, muitas tinham dificuldades em angariar número mínimo de componentes para alas ou alas especiais como baianas, comissão de frente e bateria. As escolas que não cumprem essas obrigatoriedades têm uma perda de pontos rigorosa que resulta quase em uma eliminação antecipada do páreo, ou seja, sua ausência no desfile.
Figura 59 - Público reduzido acompanha o desfile da Império do Mauá. Acervo pessoal. 07/02/2013
No carnaval de 2012, as escolas de samba reclamavam da não liberação antecipada dos recursos para a preparação dos desfiles. Tal fato se repetiu em 2013 e 2014. Apenas em 2015 algumas escolas conseguiram obter antecipadamente a subvenção para a preparação do carnaval. Mesmo assim, todas as inscritas na quarta divisão se apresentaram em todos estes anos. Como apenas uma escola sobe e nenhuma é eliminada, o grupo de cinco escolas componentes deste grupo permaneceu ao longo desses anos sem muitas mudanças. As escolas de samba Leões de Barão Açú e Império do Mauá permaneceram neste grupo oscilando entre a 3ª e a 5ª posições. Gaviões do Parque foi campeã em 2012, mas logo retornou ao grupo em 2013. A escola de samba Legião de Bambas também foi presença constante na 4a divisão até 2015 quando finalmente sagrou149
se campeã. A Unidos da Cidade Nova sagrou-se campeã da 4a divisão em 2013 ascendendo à 3a divisão onde permanece até hoje. As escolas citadas têm fundação recente, tendo sua entrada como escola no carnaval de Manaus apenas a partir do final da década de 1990. Outras escolas oscilaram entre as últimas divisões e se apresentam num crescente como atualmente a Vila da Barra; e a novidade foi a chegada de uma escola com presença recente na 1a divisão no último grupo, a Mocidade Independente do Coroado.
Figura 60 - Mocidade Independente do Coroado desfilando pela primeira vez no Grupo de Acesso C. Foto Taynah Pinheiro. 12/02/2015
A trajetória da escola do bairro do Coroado, na Zona Leste de Manaus chamou atenção por sua rápida queda. Depois da última colocação na 1a divisão em 2012, repetiu o insucesso nos carnavais 2013 quando esteve na 2a divisão e novamente no carnaval 2014 quando desfilou na 3a divisão. A chegada à 3a divisão revela a dimensão da crise interna enfrentada pela escola. Revelam ainda a importância deste grupo na dimensão competitiva das escolas de samba. Trata-se de um espaço de morte e da possibilidade de renascimento como a Mocidade do Coroado evocaria ainda que não obtivesse sucesso na missão de conquistar o título do grupo, terminando em segundo lugar. Estar na 4a divisão explicita a condição e contradição das escolas de samba e ilumina a situação do carnaval da cidade como um todo. Um momento considerado pelos foliões como de crise no carnaval 2014 acentuou os problemas dos desfiles das escolas do último grupo. As escolas desfilaram com carros alegóricos que repetiam a estrutura de anos anteriores e apenas alguns metros de tecido e alguma pintura os decoravam. Seus contingentes estavam muito mais reduzidos e parcamente vestidos. A agremiação com desfile mais coeso, com o conjunto plasticamente mais coeso, e que de fato acabou se 150
sobressaindo na apuração das notas, foi a campeã naquele ano, Vila da Barra. Um intérprete, Nelson Pilão, se repetiu em três escolas consecutivas – Leões de Barão Açu, Império da Mauá e Gaviões do Parque – fato inusitado até mesmo para o último grupo de Manaus. Destas, duas – Leões de Barão Açu e Gaviões do Parque – desfilaram com a mesma bateria, o mesmo grupo de ritmistas. Um folião que acompanhava a movimentação explicou como funcionava a prática: Essas escolas não conseguiram nem lugar para ensaiar. Para montar um ensaio e arrecadar para o carnaval você precisa de dinheiro. Então acredito que talvez nem tenham ensaiado. O que elas fazem: combinam com um diretor de bateria que mobiliza o pessoal. Só paga um dinheiro para ele montar a bateria para o desfile. Estas duas combinaram com o mesmo diretor. Por isso a correria de sair de um desfile e entrar em outro. (entrevista com folião anônimo – 27/02/2014)
Figura 61 - Comissão de frente e alegoria da Gaviões do Parque no carnaval 2014. Foto Taynah Pinheiro. 27/02/2014
A situação era chocante até mesmo para este pesquisador admirador confesso das pequenas escolas. Colocava em risco uma das hipóteses deste trabalho: a visão dessas escolas como relevantes espaços de movimentação cultural nos bairros. Os desfiles me revelavam escolas sem capacidade de organizar ensaios ou eventos que mobilizassem seu entorno, e na lógica do argumento elas perderiam então sua razão de existir. O diário de campo refletiu essa angústia: 151
Os desfiles do grupo C que marcam o início do carnaval de Manaus, antes tão aguardados por mim, deixaram uma sensação estranha. Eu que gosto tanto do clima desta quinta-feira, me senti um menor por estar ali. Não sei bem se era uma sensação de algo menor ou aflição por notar a clara dificuldade daquelas escolas. Junto veio uma vergonha por essa soberba. As escolas estavam mais pobres do que ano passado o que já indica uma tendência para os próximos dias. (trecho do diário de campo no dia 28 de fevereiro de 2014) Tal situação, de fato, repetiu-se nos outros dias de desfiles. Muitas escolas finalizariam seus carros ali na concentração mesmo. Ou nem finalizariam. Como foi o caso da Império da Mauá na imagem que abre este tópico (ver figura 6). A mesma Império da Mauá traria apenas este carro alegórico; além de um grupo folclórico de cangaceiros como Comissão de Frente; dois integrantes do mesmo grupo folclórico carregando o pavilhão da escola como casal de mestre-sala e porta-bandeira; e uma ala de pessoas vestidas com camisetas de um artista de boi-bumbá antecedendo a bateria que trajava a mesma camiseta. Pouco depois, circulando a área de concentração, vi a imagem que levaria a superar o mal-estar causado pela impressão de pobreza e desorganização do desfile. Um ônibus bem antigo, daqueles difíceis de imaginar como ainda se movimentam, recebia muitos componentes desta mesma Império da Mauá. De dentro um adolescente, provavelmente de uns 15 anos e tamborim na mão apressava outros, gritando que faltava muito para chegar na Zona Leste – o bairro do Mauazinho, onde a escola está sediada fica na Zona Leste. Mesmo sem ensaios, mesmo sem muito público, sem muita atenção midiática, ali estavam os componentes da escola, representando o bairro. E quantos não foram os sorrisos de satisfação daqueles que pisaram pela primeira vez no sambódromo. Sim, pois estas escolas não cobram fantasias para seus componentes. Muito pelo contrário, componentes em certas ocasiões são caçados na área de concentração. Ali era possível experimentar a sensação de desfilar numa ala de baianas, dada a grande quantidade de baianas jovens e até homens. Nas divisões de acesso, ritmistas iniciantes encontram espaço para compor as baterias. Intérpretes novatos ou já próximos da aposentadoria tem seu palco. Sem falar da já abordada importância para os artistas. Em suma, percebi claramente o valor de porta de ingresso no mundo do fazer carnavalesco que aquelas escolas de samba representavam. Se por um lado o folião ou dirigente de uma escola da 1a divisão, ao rejeitar uma escola de samba do último grupo, 152
sugerir sua extinção, busca afastar a possibilidade de tornar-se uma daquelas. Rejeita a possibilidade de um dia ver sua agremiação desfilando em condições por ele consideradas paupérrimas. Ele sabe que a possibilidade existe. É como desejar que suas rivais fossem eliminadas para sempre mesmo sabendo que sem a existência das rivais o carnaval não teria a menor graça. A possibilidade de chegar à 4a divisão é perfeitamente possível para qualquer escola se tomado o pressuposto de uma competição igualitária e com regras bem definidas. São estas escolas do último grupo que, ao mesmo tempo, podem subverter essa estrutura concorrendo no futuro ao título da 1a divisão. Tornam-se assim, criadoras e mobilizadoras da inventividade na sua aflição em subir de grupo ou evitar uma queda maior. Está em jogo o que é essencial para ser uma escola de samba. Para além de ser uma escola da 1a divisão é preciso enfrentar as dificuldades e manter os elementos considerados essenciais, estejam eles descritos nos quesitos ou não. Quando algum elemento essencial falta – como componentes na ala de baianas, na bateria, um puxador para cantar o samba e até mesmo a bandeira da escola de samba – sua existência é colocada em jogo. O risco de “enrolar a bandeira”, como os sambistas se referem à escola que deixa de desfilar, é tão iminente quanto à possibilidade de sucesso num futuro próximo. Vejamos então um caso em que essa tensão se desenrola. 4.3. O encontro com a escola de samba Presidente Vargas no bairro da Matinha. Registrado em meu diário de campo como uma incursão “empolgante e inesperada”, minha primeira vez na escola de samba Presidente Vargas foi em sua escolha de samba de enredo para o carnaval 2014. O evento aconteceu em uma tarde no final de outubro. Minha ida havia sido precedida de muita tensão tal qual ocorreu antes da primeira visita ao Morro da Liberdade, cerca o bairro da Matinha – ou Presidente Getúlio Vargas como é nomeado o bairro de forma oficial atualmente – tal qual no Morro da Liberdade o mesmo estigma apontando aquele como um lugar dos não recomendáveis pela cidade nas conversas da classe média de Manaus. A final aconteceria no coração do bairro, o beco Boa Sorte, famoso entre os locais como Ferro de Engomar pelo formato das ruas que se cruzam. O bairro de 7944 habitantes com aproximadamente 493 mil km², localizado na Zona Sul da cidade de Manaus, tem como vizinhos os bairros de Nossa Senhora da Aparecida, São Geraldo, Glória e Centro. Não há uma data precisa e oficial de fundação do bairro, mas seus moradores comemoram em uma simbólica data de 15 de setembro o 153
aniversário do bairro. Contam mais de um século desde que uma pequena vila de casas de taipa aglomeradas se formou na região hoje conhecida como beco Boa Sorte e que os mais antigos ainda chamam de “Corre-frouxo”. A região já vivia sob o estigma de foco da leishmaniose, graças ao fato de concentrar muitos oleiros de vasos de barro. Antes tomada por tucumanzeiros, a vegetação baixa fez com que o nome “Matinha” pegasse na cidade toda. Nos tempos de industrialização da cidade, a chegada da Jutal, fábrica de sacarias de juta, marcou a história do bairro. Além da devoção à Santa Luzia padroeira da igreja do bairro, as manifestações culturais sempre marcaram forte presença. Foram os Garrotes Luz de Guerra, o Mina de Ouro e o Teimosinho; as quadrilhas juninas Caipiras na Folia e Brasinha na Roça. Hoje o estigma da violência persiste (OLIVEIRA(b), 2010).
Figura 62 - O Ferro de Engomar visto da sede da escola de samba Presidente Vargas. Ao fundo temos o palco improvisado em estabelecimento comercial do bairro. Foto de Taynah Pinheiro. 12/10/2013
De fato, meu encontro com a escola de samba Presidente Vargas foi em desfile. Em uma de suas lutas por um lugar ao sol na 1a divisão do carnaval de Manaus. Naquela madrugada de 18 de fevereiro de 2012, a Presidente Vargas faria o seu desfile campeão do carnaval na 2a divisão. Um samba elogiado pelos sambistas, alegorias feitas com esmero e um clima de muita confiança entre os componentes. Em 2013, das arquibancadas vi seu desfile na 1a divisão, tendo como enredo o clube dos mais tradicionais na história do futebol amazonense, o Atlético Rio Negro Clube. Naquele carnaval a escola se apresentou com o mesmo garbo que o ano anterior, muitos dos 154
companheiros de arquibancada atreviam a aponta-la como favorita e eu respondia, “mas ela acabou de subir”. Parecia antever daquelas perversidades que muitas vezes a apuração reserva. Não se sabe se os jurados viram mais defeitos que o público, ou julgaram a escola pelo fato de ter acabado de subir, como pré-julgará antes do desfile, fato é que a escola terminou em último e voltou para a 2a divisão. O meu encontro com a intimidade da escola da Matinha aconteceu apenas no final de 2013, durante os preparativos para 2014. A escola de samba das cores azul e amarelo, fundada em 1985 já foi chamada Unidos da Matinha e Mocidade Independente de Presidente Vargas.103 Depois de um longo período como bloco a agremiação, que tem na família do atual presidente Márcio Almeida expoentes fundadores, alcançou a condição de escola de samba em 1995. Alcançou o grupo principal do carnaval de Manaus pela primeira vez apenas em 2007. Segundo Daniel Sales “possui um núcleo de sambistas natos e boa parte dos ritmistas da Sem Compromisso adveio desse bairro” (SALES, 2008, p.188). Atualmente seus componentes tem orgulho do fato de sambistas que fazem sucesso em outras escolas serem oriundos da Presidente Vargas, por isso adotam o lema Matinha maternidade do samba.
Figura 63 - Bandeira da Presidente Vargas. Foto de Taynah Pinheiro. 15/11/2014
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Até hoje o prenome “Mocidade Independente” persiste na apresentação das notas da escola em apurações e documentos oficiais da Secretaria de Cultura do Amazonas. Seus componentes, porém, o abandonaram encurtando a nominação para Presidente Vargas. Até mesmo a bandeira da escola apresenta a mesma como Grêmio Recreativo Cultural e Escola de Samba Presidente Vargas – Matinha Maternidade do Samba.
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A escola conquistou quatro títulos no carnaval, todos nos grupos de acesso nos anos de 2000, 2001,2007 e 2012. Dois destes títulos foram divididos, um com outras três escolas concorrentes em um ano em que não houve julgamento, o do carnaval de 2000. O outro, de 2001, quando um controverso relatório assinado pelo conhecido sambista local, Marinho Saúba, apontou uma campeã, a Primos da Ilha e não foi acatado pelos demais presidentes do grupo. Naqueles anos não havia uma circulação entre as escolas das divisões de acesso e a 1a divisão, ou seja, ninguém subia ou descia. A instituição do acesso e descenso à 1a divisão retornou apenas em 2007, justamente quando a Presidente Vargas conseguiu o título e o direito de desfilar na 1a divisão em 2008. Permaneceu por lá graças a nova suspensão do rebaixamento de escolas ao Grupo Especial que perdurou até 2011. No carnaval de 2010, porém, um fato inusitado e que denota a tensão reinante nos resultados. Impedida de desfilar entre as escolas da 1a divisão componentes contam que foram trancafiados pela polícia no barracão da escola: Foi um absurdo! Crianças, baianas, bateria; todo mundo ficou preso com correntes colocadas nas portas do barracão pela polícia, pelo choque. Foi o único jeito de nos impedirem de desfilar. Porque nós somos persistentes. A gente não desiste e no ano seguinte fizemos o mesmo enredo que fomos impedidos de apresentar. (Márcio Almeida, presidente da GRCES Presidente Vargas – entrevista em 08/06/2014) A situação naquela ocasião envolvia um conflito judicial entre a escola, a associação organizadora dos desfiles, a AGEESMA e até mesmo políticos locais. Ninguém soube precisar o que de fato motivou aquele conflito, mas as razões variaram entre o fato da escola ou da AGEESMA “não ter apresentado prestação de contas a prefeitura”, o que inviabilizaria o recebimento da subvenção pública por todas as escolas; ou “ter tentado permanecer no grupo apesar da última colocação do grupo” e até uma “tentativa judicial de tornar-se membro da AGEESMA”. Os jornais do período pouco citaram a contenda, o que dificulta ainda mais o desvendar do caso. O único registro que se tem do imbróglio é uma postagem no antigo blog da já extinta AGEESMA reproduzindo o deferimento da liminar104 que garantiria a participação da Presidente Vargas no desfile da 1a divisão. 104
Com o título “Sinésio não conseguiu” publicado em http://ageesma.wordpress.com em 04 de fevereiro de 2010.
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O fato de a escola ser marcada pela persistência torna-se inegável quando lembramos que, após ser rebaixada em 2011, ela retornou à 1a divisão em 2012. Porém esta não seria a última batalha da escola da Matinha por não aceitar a condição de estar nas divisões de acesso, como veremos a seguir. 4.3.1. A Matinha e seu dilema: Buscando o topo e fugir do umbral nos carnavais 2014 e 2015 Quando o antropólogo explicita seus sentimentos em uma pesquisa que requer o distanciamento e a objetividade, algo nisto pode ser objeto de investigação. O fato é que me senti instigado por aquilo que senti na minha primeira ida à Matinha: “Qual não foi minha surpresa ao ver um bairro tranquilo em que me senti tranquilo e uma escola radiante”.
O cenário que presenciei na minha primeira vez não se modificou
significativamente em outras idas à escola. O palco, montado embaixo de um sobrado e no toldo de um estabelecimento que vende frango assado. A sede da escola de samba fica ali ao lado do pequeno largo, um outro sobrado ainda mais simples pintado nas cores azul e amarela da escola. A bateria geralmente ficava de frente para esta sede ou de costas para o palco improvisado. No meio da rua, onde se encontram os becos Boa Sorte 2 e 3 fica o público interditando por alguns instantes e quando possível a passagem de alguns poucos veículos que vez por outra interrompem os ensaios.
Figura 64 - Sede da Presidente Vargas. Foto de Taynah Pinheiro. 29/12/2013
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Desta vez por um acaso e indiretamente esbarrei outra vez com Schneider. É que na ocasião ele concorria com um dos três sambas finalistas em parceria com Daniel Salles,105 Iomar Japonês e Paulino Braga. Na época, ele se encontrava em processo de transferência de Manaus para o interior do Rio de Janeiro pela Marinha do Brasil. Seu samba foi interpretado por Nelson Pilão, um dos cantores mais conhecidos do carnaval de Manaus106. Levou uma pequena torcida com umas dez pessoas que ocupavam uma mesa. Pouco depois apresentou-se um samba com torcida mais numerosas e segundo componentes da escola nos indicaram, seria de autoria dos "meninos do bairro". Interpretado por Vandinho e Agnaldo do Samba com o auxílio de três jovens do coral da igreja de Santa Luzia, sediada no bairro, que também cantam no carro de som da escola. Com uma torcida bem mais numerosa e levando faixas e bolinhas, esse samba parecia empolgar bem mais que o anterior. Ao final daquela escolha, o samba vencedor e cantado pela Presidente Vargas no carnaval de 2014 foi mesmo o de Schneider e parceria. Àquela altura a escola alimentava ainda uma esperança de desfilar pelo grupo Especial. Devido a uma disputa judicial entre Andanças de Ciganos e Império da Kamélia pela vaga no Grupo Especial, a Presidente Vargas que havia sido rebaixada no carnaval de 2013 poderia ser mantida no grupo fato que acabou não se consolidando com a Andanças de Ciganos desfilando no Grupo Especial, Império da Kamélia mantida no acesso e Presidente Vargas rebaixada. Voltaria ainda em outra ocasião à Matinha no final de 2013. A escola realizava uma espécie de confraternização de final de ano entre seus componentes. Mesmo chegando por volta das 16horas, quando o horário marcado era 14 horas, nem mesmo o pagode que abre o samba acontecia. Debaixo do telhado azul e amarelo que serve de sede a escola, o presidente e mais algumas pessoas sentadas em roda apreciavam um churrasquinho calmamente ouvindo o CD das escolas de Samba do RJ para 2014. Logo perguntei ao presidente Márcio se o evento programado ali aconteceria de fato. Ele
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O historiador citado inúmeras vezes até aqui. Nelson Pilão iniciou sua careira na Mocidade Independente de Padre Miguel no Rio de Janeiro. Chegou a defender sambas na União da Ilha e no Império Serrano. Lançou-se como intérprete oficial da Arame de Ricardo onde tive a oportunidade de presenciar sua performance pelo Grupo E, na época o último grupo do carnaval do Rio de janeiro em 2008.Em 2010 exerceu a função na Mocidade Unida de Jacarepaguá – atualmente Mocidade Unida da Cidade de Deus – pelo Grupo D. Dono de uma voz grave e potente transferiu-se para Manaus por compromissos profissionais em 2011. Desde então teve passagens pela Unidos da Alvorada, Sem Compromisso, Império da Kamélia e muitas outras agremiações dos grupos de acesso de Manaus. Em 2014 foi o puxador aqui citado que desfilou em três consecutivas das cinco escolas que desfilaram no Grupo de acesso C de Manaus. 106
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respondeu que sim, mas a bateria ensaiaria apenas por volta das 17h30. Propôs que esperássemos o início do ensaio, mas, acanhado, preferi voltar depois. Retornando ao "Ferro de Engomar" por volta das 17hs. Não havia bateria ainda, apenas um pagode. Ficamos, Taynah e eu, no outro lado da rua ainda acanhados. Foi nesse instante que Dona Socorro veio em nossa direção de óculos escuros perguntar se éramos amigos do Ney Simões. Dona Socorro é uma moradora daquele coração do bairro que é o Ferro de Engomar. Participa ativamente das atividades da escola mesmo sem ocupar formalmente um cargo. Sua filha Érica é participante da escola tão ativa quanto sua mãe e também era uma das componentes da comissão de frente da Mocidade de Aparecida. Mesmo com nossa negativa, Dona Socorro foi bastante atenciosa e nos convidou para ficarmos na mesa onde ela estava, justamente onde acontecia o pagode. Logo se aproximou também, Érica para nos ciceronear. Érica conversou bastante conosco. Reconheceu minha esposa, Taynah, dos eventos do Boi Caprichoso, apesar de nunca ter sido apresentada a ela. Ali mesmo, Érica nos apresenta Cristiano, outro componente da Comissão de Frente da Aparecida e outro fanático pelo Boi Caprichoso. Cristiano fala pouco, mas bastante sorridente, concorda com tudo que Érica diz. Dona Socorro me puxa pelo braço e apresenta todo corpo diretivo da escola, eram vários senhores e senhoras sentados à mesa onde acontecia o pagode ou próximos dali. Alguns até participavam de um carteado tornando o clima ainda mais parecido com um churrasco numa vila do subúrbio carioca. Na ocasião conversei com o presidente da escola, Márcio Almeida sobre o imbróglio envolvendo a escola e a indefinição sobre em que grupo ela desfilaria. Márcio é ouvidor do Conselho de engenharia local, sobrinho de João Almeida, um dos fundadores e presidente que ocupou o cargo por mais tempo na escola. Além disso carrega o sobrenome da família que marcou a história da escola tendo ocupado por anos a presidência e cargos diretivos em diferentes gestões. Como vimos, a Presidente Vargas havia sido rebaixada com a última colocação na 1a divisão no carnaval de 2013 após um desfile considerado por muitos, superior aos de algumas escolas que desfilaram pela 1a divisão naquele ano. O presidente durante a entrevista falou sobre os entraves da burocracia da SEC e a indefinição acerca da divisão que a escola disputará na avenida: “Por alguns motivos de desorganização mesmo do carnaval. Hoje a minha escola está considerada como escola de Grupo de Acesso mas ainda nada definido de Grupo de Acesso. Fizemos um trabalho de Grupo Especial mas é um trabalho que vamos 159
dizer é um plano B.” (Márcio Almeida, Presidente da GRCES Presidente Vargas – entrevista em 29/12/2013) Por outro lado, naquele momento até de forma cautelosa o presidente e muitos dos componentes não reclamavam das condições de seu carnaval. O presidente inclusive frisava isso, dizendo estar “se preparando para disputar o acesso, mesmo julgando a decisão injusta”. O imbróglio foi causado pelas brigas na apuração ainda no carnaval 2013. Julgando-se injustiçada pelas notas do júri, a Presidente Vargas recorreu do resultado final por vias judiciais. Naquele ano a Império da Kamélia e Andanças de Ciganos haviam terminado empatadas na 2a divisão do carnaval local como já vimos. Como o regulamento não previa critérios de desempate mas havia apenas uma vaga e um barracão disponível para a campeã da 2a divisão na 1a divisão no ano seguinte, os representantes das escolas decidiram em reunião fechada pouco depois da apuração estabelecer um critério de desempate. Neste a escola consagrada campeã da 2a divisão em 2013 foi a Andanças de Ciganos. Buscando resguardar sua vaga na 1a divisão, a Império da Kamélia tentou contestar o resultado na justiça o que criou certa esperança entre os componentes da Presidente Vargas da escola permanecer na 1a divisão. Apenas faltando pouco mais de um mês para os desfiles do carnaval 2014 que se decidiu pela manutenção da Kamélia na 2a divisão e o rebaixamento da Presidente Vargas. Conformados com a situação Érica resume aquilo que os foliões da Matinha deveriam pensar: "a escola só é grande quando ela quer" assim, na sua visão, não cabia à Presidente Vargas lamuriar por verbas, distorções do julgamento e melhores condições, e sim trabalhar pela volta ao topo.
Figura 65 - Desfile da Presidente Vargas no grupo Especial em 2013. Foto de Taynah Pinheiro. 09/02/2013
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Falei com o Mestre Luciano, diretor de bateria, no momento que seus ritmistas se preparavam para começar o ensaio. Ele nasceu em Minas Gerais, mas passou no Rio sua infância onde por 15 anos foi ritmista da Mocidade Independente de Padre Miguel. Chegando em Manaus a trabalho passou a frequentar as escolas de samba. Não participa de outras festas, tampouco grupos de pagode, dedicando-se única e exclusivamente ao carnaval das escolas de samba. Depois de passar pela escola do bairro vizinho, a Império da Kamélia, aceitou convite para fazer parte da Presidente Vargas. Ali a maior dificuldade era cobrar seriedade e compromisso dos ritmistas já que segundo ele "os mesmos sabiam da carência de gente que saiba tocar e por isso deixavam pra chegar em cima do dia do desfile que teriam a roupa ali". Mesmo assim segundo ele " o trabalho estava ficando bom e hoje nós já estamos melhores que no dia da final107" quando estive lá. Pouco mais à frente e no carnaval seguinte o discurso de Luciano era bem mais otimista em relação a sua bateria. Junto com ele a bateria ganhou certo reconhecimento que um período de descensos poderia ter colocado em jogo. Acontece que, neste mesmo carnaval 2014, a Presidente Vargas amargou a última colocação da 2a divisão. De fato, a escola apresentou muitos problemas na confecção de suas alegorias. Uma pendência burocrática antiga, dos tempos em que a escola foi trancafiada em seu barracão para que não desfilasse, como vimos no carnaval de 2010 , ainda perdurava e impedia o acesso da agremiação as subvenções públicas. O rebaixamento após um desfile apoteótico na 1a divisão desmobilizou boa parte de seu contingente. As brigas internas após resultado adverso também contribuíram. Frente estas dificuldades o rebaixamento era inevitável. No dia do desfile em 2014 muitos de seus componentes pareciam tensos. O discurso do presidente Márcio refletia esta tensão, emocionado, porém recheado de palavrões. O presidente fez questão de frisar que “manteve o logotipo dos órgãos públicos nas camisas da diretoria por obrigação regulamentar” apesar destes órgãos não terem patrocinado o desfile da escola. O abre-alas trazia a estrutura do abre-alas do ano anterior com a águia símbolo da escola já desgastada pelo tempo e um bambuzal de fato no fundo. Um tripé era um tanque que fazia menção às “mãos que fazem guerra”. Uma outra alegoria com alguns reparos em tecido fazia menção ao enredo daquele carnaval: “Mãos” com pinturas na sua base. O casal de mestre-sala e porta-bandeira desfilou sem fantasia e com a bandeira de outra escola, a Gaviões do Parque, antes do desfile a bandeira da escola sumiu. Mestre Luciano reclamou de certa crueldade nas notas dos jurados que chegaram
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Referindo-se ao evento de escolha do samba para o carnaval 2014 aqui citado anteriormente.
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a atribuir nota mínima (oito) para sua bateria. Segundo ele, a bateria teria se apresentado de forma correta, com um bom contingente.
Figura 66 - casal da Presidente Vargas desfila com bandeira da Gaviões do Parque e sem fantasia. captura de vídeo pessoal. 01/03/2014.
Em 2015, já nos ensaios, constatamos que a bateria aumentou o número de componentes. Além dos ensaios serem mais frequentes, o mestre Luciano conseguia manter o que considerava um nível ideal de “organização que lhe permitia ousar mais na avenida”. Neste carnaval, Luciano foi convidado a integrar a comissão de bateria do Reino Unido da Liberdade. Desta forma muitos dos ritmistas da Reino Unido desfilaram também na bateria “1000 graus” como gostavam de ser chamados. A parceria se estendeu para os instrumentos já que alguns foram cedidos entre as escolas. No dia do desfile, mesmo o presidente Márcio Almeida desfilou na Reino unido da Liberdade. Uma outra parceria aconteceu com a Andanças de Ciganos, escola do grupo Especial. No desfile da Andanças, mestre Luciano ainda participaria auxiliando o mestre de bateria Kleber Sahdo, bem como Márcio Almeida tocando caixa de guerra. Outras alianças eram encetadas por ritmistas da Presidente Vargas com outras escolas do Grupo Especial eram os casos do repiqueiro Dudu com a Mocidade de Aparecida; a ala de tamborins com ritmistas da Aparecida e da Balaku Blaku, como outro repiqueiro, o Mestre Major. Podemos agora aguçar o nosso olhar sobre como as escolas manipulam estas redes de colaboração com as escolas de divisões superiores em um ambiente de rivalidade tão acirrada como acontece em Manaus.
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Figura 67 - Mestre Luciano e a bateria da Presidente Vargas na escolha do samba para 2015. Foto Taynah Pinheiro. 15/11/2014
No evento de escolha do samba para o carnaval 2015, a bateria estava impecavelmente vestida e muito organizada. Naquela ocasião, o evento aconteceria em na quadra poliesportiva próxima da igreja do bairro. Acabou remanejado para o Ferro de Engomar mas manteve a atratividade para o público mesmo com a mudança de última hora. Mais uma vez, havia um samba de compositores do bairro preferido dos moradores que prestigiavam o evento, porém não era o preferido de muitos dos dirigentes. Logo foi apelidado pelos sambistas, como é usual nestes concursos em escolas de samba, de “samba da comunidade”. Foi o último samba a se apresentar. Teve a maior e mais empolgada torcida, os cantores do coral da igreja do bairro, familiares de personalidades citadas no enredo - sobre o bairro onde a escola está sediada.108 Tinha tudo para ser o escolhido como de fato foi. Estes mesmos compositores haviam sido derrotados por Paulino Braga e seus parceiros no ano anterior. Com o último carnaval homenageando seu bairro, a Presidente Vargas esteve ainda mais próxima dos grupos folclóricos da Matinha. As quadrilhas juninas do bairro foram importantes no contingente de desfile da escola de samba e se apresentaram em alas coreografadas e em carros alegóricos no carnaval 2015. Nesse carnaval, a escola desfilou muito mais organizada e parecia mais ciente do papel a desempenhar dentro das condições da 3a divisão. Mesmo não sendo um desfile que a fizesse ser apontada como favorita ao título, a escola se manteve entre as que estavam no páreo. A adesão de moradores do bairro ao desfile pareceu ainda maior do que no carnaval anterior.
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“"Matinha, uma história de amor, cultura e arte" de autoria de Varildo Alves
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Figura 68 - Presidente Vargas em desfile no Carnaval 2015. Tela capturada de vídeo pessoal. 19/02/2015.
Como vimos, no entanto, boa parte da construção do desfile da Presidente Vargas ainda se fez através de mediações pessoais importantes. De carnaval para carnaval, a figura do mediador pode mudar de acordo com as relações estabelecidas pela necessidade da escola. Não necessariamente caberá ao presidente, ao vice-presidente ou um diretor de carnaval desempenhar este papel de mediação. No carnaval de 2014, a mediação coube ao mestre-sala da Presidente Vargas, Apolo Ferreira, que na época também era presidente da escola de samba Vila da Barra do bairro da Compensa. Por conta desta intermediação, a escola de samba emergente da Compensa pode contar com materiais e alegorias da Presidente Vargas e a Presidente Vargas com materiais e a participação de componentes da escola da Compensa em seu desfile. Além das parcerias não materiais, como aquelas entre as baterias da Presidente Vargas e da Reino Unido da Liberdade, outras parcerias matérias se impõem. O carnavalesco nos anos de 2014 e 2015 da Presidente Vargas, Varildo Alves, teve importante papel de mediação e articulação dessas redes de colaboração. Anteriormente carnavalesco da Unidos da Alvorada, Varildo havia integrado a comissão de carnaval dessa escola como autor dos enredos cuja parte plástica foi desenvolvida pelo artista parintinense Juarez Lima. O conhecimento artístico e a circulação no meio educacional lhe conferiam a autoridade para circular nestes meios buscando apoio material para a escola. O papel do mediador nas relações sociais foi explorado como agente de trânsito entre diversos mundos e emerge com vigor nas sociedades urbanas contemporâneas. Na complexidade da cidade, tais indivíduos “estão potencialmente expostos a experiências muito diferenciadas, na medida em que se deslocam e têm contato com universos sociológicos, estilos de vida e modos de percepção da realidade distintos e mesmo 164
contrastantes. Ora, certos indivíduos mais do que outros não só fazem esse trânsito mas desempenham o papel de mediadores entre diferentes mundos, estilos de vida e experiências" (VELHO e KUSCHNIR, 2001, p.20). No universo das escolas de samba, o carnavalesco emerge com importante papel de mediação sócio cultural baseado tanto em sua circulação em meios sociais mais amplos como em sua competência artística (CAVALCANTI, 2015). O importante de demonstrarmos aqui, no entanto, é como a Presidente Vargas se reestruturou diante da iminência de deixar de ser uma escola de samba colocado por conta da ausência de elementos essenciais para tanto. O caráter liminar das divisões de acesso aqui emerge e, mais do que isso, seu aspecto de communitas. Nessas divisões, as escolas muitas vezes enfrentam juntas suas privações. Sem padrinhos que as amparem, vistas como poluidoras por aqueles que não estão na mesma condição de precariedade, elas precisam da inventividade. A criatividade faz com que possam enfrentar a condição em que estão. Uma criatividade capaz de incorporar os elementos essenciais e característicos de uma escola de samba como expressão carnavalesca singular. Essa condição torna-se então poderosa, de modo assemelhado ao “poder dos fracos” indicado por Victor Turner como um atributo da communitas. No ambiente das escolas de samba manauaras caraterizado pela extrema rivalidade, a colaboração e a criatividade das escolas de samba nas divisões de acesso revelam sua importância. No entanto, tudo dependerá do resultado: a escola superará ou não sua condição liminar ? Tudo dependerá da apuração que marca o desfecho de um ciclo carnavalesco e o início de outro.
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CAPÍTULO 5 - “VAI OU RACHA”? O IMPASSE NO CARNAVAL DE MANAUS Vai ou racha Vai ou racha Está chegando a hora! Tira as cartas das mangas Não se engana a gente da terra Chega de sofrer abelha dá mel, mas também ferra (Samba de enredo do GRES Andanças de Ciganas no carnaval 1990109)
A apuração dos desfiles é o ponto de tensão onde a forma mais crua da rivalidade entre as escolas de samba de Manaus é geralmente encenada. O momento da apuração entre as escolas de samba é particularmente tenso, reunindo elementos que conformam as redes sociais articuladas ao longo da preparação do carnaval, ou mesmo explicitando cisões e rivalidades entre as escolas de samba. Por todo um passado de enfrentamentos físicos violentos durante a leitura pública das notas dos jurados, as apurações foram mudando de local até fixarem-se em 2007 em uma sala fechada do Sambódromo. Apenas dois representantes de cada escola, imprensa, dirigentes da Associação das Escolas de Samba e funcionários da Secretária Estadual de Cultura têm acesso a esta sala. Do lado de fora, torcedores das escolas favoritas ao título se concentram na pista e no setor de arquibancada logo acima da sala da apuração. O clima de tensão que antecede esse evento é reforçado pelas precauções tomadas junto a autoridades policiais. Entre a sala e o público do lado de fora, e até mesmo dentro da sala dos dirigentes, há a presença do batalhão de choque da Polícia Militar.
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Composição de autoria de David Correa.
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Figura 69 - Sala de apuração das escolas de samba de Manaus – Foto do autor – 11/02/2013
Na apuração, tudo o que era dito entreouvidos, ou não explicitado antes dos desfiles, era externado para imprensa, para torcedores e entre os dirigentes. Todas as acusações são levadas a cabo, mas poucas prosseguem de forma oficial, chegando ao campo jurídico. Esse padrão, ainda que com suas diferentes nuances, se repete com conflitos e ritualizações nas apurações das demais divisões. A apuração carioca das escolas do Grupo Especial, a 1a divisão, é transmitida pela Rede Globo de Televisão para todo o Brasil e, portanto, poderia ser apontada como um possível modelo para outros carnavais brasileiros. Realizada no Sambódromo onde as escolas desfilam, mais precisamente na Praça da Apoteose, aberta ao público e mobilizando torcedores que enfrentam sol e chuva nas arquibancadas e se concentram também nas quadras das favoritas. É o sopro de folia na quarta de cinzas, principalmente para as mais bem-sucedidas nos resultados. Isto não isenta essa apuração da tensão e dos conflitos por mais que estes sejam muitas vezes evitados pela transmissão televisiva. São as escolas de samba insatisfeitas ou malsucedidas na classificação final que protagonizam os conflitos.110 São inúmeros os exemplo de confusões entre torcedores e dirigentes das escolas no Rio de Janeiro, ainda em tempos em que as apurações não eram transmitidas pela TV.111
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Entre as escolas de samba cariocas pude observar anteriormente (BARBIERI, 2009), a dinâmica de uma apuração naquela época aberta ao público no espaço conhecido como Terreirão do Samba. A apuração tomada como situação social serviu então à investigação das alianças que tecem a rede social de colaboração entre as escolas de samba cariocas. 111 Chamam atenção especialmente as celebres confusões protagonizadas por Natal da Portela relatadas em sua biografia (ARAÚJO e JÓRIO, 1975).
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Realizada na pista de desfiles das escolas de samba, a apuração paulistana tem sido exemplo recente dos momentos em que confrontos extravasam o resmungo frustrado e contido dos perdedores.112 O caso que chamou atenção, pois justamente foi transmitido pela TV Globo, aconteceu na apuração do carnaval de 2012. Nessa ocasião, um homem credenciado pela Império da Casa Verde que estava portanto no espaço reservado aos representantes das escolas de samba, aproveitou-se de tumulto em frente à mesa de apuração para subir na mesa junto com integrantes das escolas Camisa Verde e Branco e Gaviões da Fiel rasgando os mapas de notas que estavam sendo lidos naquele momento.113 O tumulto prosseguiu mesmo após encerramento da apuração com a participação de torcedores da Gaviões da Fiel que lotavam uma das arquibancadas do Sambódromo do Anhembi. Os torcedores promoveram um quebra-quebra no trajeto de saída da apuração com a depredação e incêndio de carros alegóricos da escola rebaixada na ocasião, a Pérola Negra. Posteriormente, as apurações do carnaval paulistano passaram a vetar a presença de público nas arquibancadas e apenas um limitado número de representantes das escolas nas mesas.114 Em Manaus, os registros de confrontos violentos em apurações não ficam para trás. O historiador Daniel Sales cita dois dos mais marcantes: a batalha entre torcedores da Mocidade de Aparecida e da Vitória Régia. Enquanto o primeiro se deu nos primórdios da rivalidade entre as duas escolas, no carnaval de 1982, o segundo aconteceu em pleno sambódromo no carnaval de 1994: No dia da apuração das notas do desfile, na quarta de cinzas em 1994, no Sambódromo, uma contenda entre os Vitória Régia e os Aparecida com vias de fato: gente segurando cadeiras de ferro e pedaços de pau – verdadeiras armas! – para atacar os oponentes. E a apuração de 1982 no Ginásio Rene Monteiro115 na Constantino Nery? Se assistiram garrafas voando para todos os lados (fui testemunha ocular 112
Em 2016 mais uma vez a apuração paulistana foi interrompida por confusão envolvendo a mesa apuradora e dirigentes da Unidos de Vila Maria. 113 Ver “Tumulto interrompe apuração em São Paulo” em http://g1.globo.com/saopaulo/carnaval/2012/noticia/2012/02/tumulto-interrompe-apuracao-em-sao-paulo.html publicada em 21 de Fevereiro de 2012 às 22h36; acessada em 05 de novembro de 2015 às 11h49. 114 Há em São Paulo, na 1a divisão das escolas de samba, atualmente duas escolas de samba que também se identificam como torcidas de futebol: a Gaviões da Fiel (SC Corinthians) e a Dragões da Real (São Paulo FC). Mais duas escolas na 2a divisão são organizadas de futebol: a Mancha Verde (SE Palmeiras) e Independente (São Paulo FC). A mídia paulistana relacionou a rivalidade destas torcidas a violência desencadeada naquela apuração, apesar de outras duas escolas que não eram ligadas ao futebol terem protagonizado a confusão. 115 O Ginásio localizado na Avenida Constantino Nery, bairro Chapada, na Zona Centro-Oeste de Manaus. Local próximo de onde hoje se localiza o Sambódromo.
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do fato); realmente, rivalidade de longa data. (SALES, 2008, p.45) Sales conclui que advém daí a precaução adotada nas apurações seguintes: “Por isso que a maioria das apurações foi realizada nos quartéis da policia militar.” (op.cit, p.45) O modelo já descrito do rito de abertura dos envelopes de notas das escolas de samba em Manaus segue o mesmo praticado no Festival de Parintins(AM), no qual, enquanto um restrito grupo de dirigentes dos Bois Caprichoso e Garantido, juntamente com a imprensa credenciada, tem acesso a sala de apuração, os torcedores ocupam as arquibancadas do Bumbódromo apenas ouvindo as notas da apuração.
Figura 70 - Sala de Apuração no Festival de Parintins - Foto de Antônio Lima/ A Critíca - 29/06/2015
Embora tal disposição não evite confrontos e acusações entre os dirigentes, ela é cerimonialmente praticada todos os anos. O componente competitivo que permeia a festa nos leva a ver a rivalidade acirrada da apuração o desfecho ritual de todo processo ritual na performance essa rivalidade mais direta é suspensa e transposta para a expressão artística, e então na apuração é como se a rivalidade sublimada pudesse retornar em sua forma mais crua. O ponto culminante do processo ritual propriamente dito são as performances mesmo, mas a apuração é um ritual de reagregação que completa e de certo modo efetua a passagem de um ciclo para o outro ao anunciar os resultados, posicionar as escolas para um novo ano nos respectivos rankings. Toda a preparação e a realização de um carnaval bem ou malsucedido para uma ou mais escolas desembocará no anúncio dos resultados. Os problemas, as contradições, as questões 169
mantidas latentes até o momento dos desfiles eclodem então seja na contestação de regras ou resultados seja no confronto direto com autoridades ou escolas rivais. Ali se decidem os rumos do carnaval seguinte. Uma escola pode contestar os organizadores, jurados e resultados cindindo ou propondo uma cisão contra instâncias representativas; ou no curso do ano uma escola poderá ver surgir facções internas. Aqui se decide se o carnaval “vai ou racha”. Como um drama social, o “vai ou racha” explicita um processo conflitivo que impõe a necessidade imperiosa de um desfecho ou momento de reagregação e retorno à realidade cotidiana. Será frutífero um estudo de caso que nos mostre as idiossincrasias e conflitos presentes no carnaval de Manaus. 5.1. Um drama social na apuração em Manaus A importância da obra de Victor Turner sempre colocou em destaque os temas do Ritual e simbolismo. Tais dimensões da análise social demonstraram sua importância vital em diversos aspectos. Na obra de Victor Turner (1996) uma das principais marcas está na elaboração da teoria do “drama social” aplicada aos conflitos cotidianos entre os Ndembu que eclodiam de tempos em tempos de forma mais evidente e exacerbada. A importância do conceito evidencia-se pois com ele era possível acessar as mais importantes dimensões do funcionamento da sociedade Ndembu como o princípio da matrilinearidade que regia a transmissão da herança nas relações de parentesco e conflitava com a regra residencial patrilocal do regime de casamento. Turner demonstra como a sempre refeita coesão da aldeia que estudou é mantida em múltiplas afiliações sociais através de processos de conflito. Turner demonstrou como as aldeias são um grupo de pessoas unidas por princípios de filiação social contrastantes em certas situações. Nos dramas apresentados, comprovamos como pessoas que rivalizam em uma situação social são aliadas em outras. Além disso, foi possível acompanhar como a unidade do grupo pode ser mantida ou quebrada após um conflito entre algumas pessoas. Como indicou Cavalcanti (2013b, p.415-416), “o conceito de drama social considera como conflito a tensão latente produzida na vida social pela atuação constante de princípios estruturais contraditórios”, assim, tomar uma situação social emoldurada como drama social, ressalta o “conflito como um mecanismo produtor da dinâmica e da unidade da vida social” e continua apontando que no plano sociológico .
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A proposta aqui é utilizar o reconhecido do conceito com o estudo de caso de uma apuração entendida como situação social. Através do modelo processual, Turner definiu quatro fases para o drama social, ou seja, quebra de uma norma, crise, ação reparadora, reintegração ou reconhecimento do cisma. De forma detalhada as fases do drama social são assim descritas por Turner: (1) Quebra de uma norma regular também ocorre quando uma norma das relações sociais convencionadas entre grupos ou pessoas é quebrada e uma crise irrompe expondo as tensões entre querelantes. (2) Os querelantes acionam mais atores de suas redes de relações e alianças. A crise se amplia evolvendo mais atores, grupos e clivagens atingindo uma maior área de interação social. (3) Na ação reparadora ou regeneração alguns dos envolvidos na crise buscam soluções para ajustamento entre os membros mais relevantes dos grupos sociais. As ações de reconciliação implicariam na “realização de ações rituais ou amplos rituais coletivos” (op.cit, p.416). (4) Finalmente, com a reintegração ou o reconhecimento do cisma temos um desfecho para o drama. Sendo os esforços da fase anterior bem-sucedidos, o grupo não cinde e rearranja as posições e relações internas. Em caso de fracasso nas tentativas de reparação da crise, a cisão do grupo se consolida.
A partir do desenrolar do processo de preparação do carnaval de 2014, considerado problemático pelos sambistas de Manaus, buscaremos apreender do caso analisado aspectos importantes da sociabilidade nas escolas de samba de Manaus. Buscaremos também iluminar a reflexividade dos sujeitos no âmago de um momento de crise. Nossa inspiração é o modelo aplicado por Turner em sua apresentação dos dramas sociais Ndembu. Nele temos uma descrição dos dramas e uma posterior análise frisando suas fase e posteriores implicações diante de um contexto mais amplo da organização social. Passemos, portanto, a esta elucidação a partir da apresentação do caso em estudo do carnaval das escolas de samba de Manaus. 5.2. O carnaval 2014: um ano de crise e um drama para as escolas de samba de Manaus. A grande tensão do carnaval 2014 foi a incerteza quanto a sua realização ou não. Tudo começou quando a Secretária Estadual de Cultura (SEC) abriu um edital público 171
que desvinculava a distribuição da subvenção da Associação das escolas de samba do Grupo Especial de Manaus (AGEESMA). Vale frisar que acompanhei os atores representantes do poder público apenas pelo noticiário. Para receber a subvenção, entretanto, a escola teria que apresentar uma série de documentos e cumprir algumas exigências. O edital exigia desde ter uma sede ou uma quadra prestando serviços comunitários até a verificação de irregularidades no transporte de alegorias do carnaval anterior. O edital, entretanto, demorou a ser divulgado e a apreensão das escolas foi noticiada em diversos jornais locais como o Diário do Amazonas: Escolas de samba mostram apreensão com o desfile do Carnaval de 2014. Em reunião na tarde desta sexta-feira, presidentes de sete Grêmios Recreativos Escolas de Samba (GRES) do grupo especial de Manaus mostraram insegurança com a realização do desfile das escolas em 2014. De acordo com eles, uma série de indefinições a respeito do Carnaval 2014, coloca em risco a realização de um dos maiores eventos culturais do Amazonas. “Estamos vivendo uma situação de inconstância na qual não sabemos se o Carnaval vai acontecer ou não no ano que vem. Ainda não temos nem sequer o edital do governo”, afirmou Elimar Cunha. Devido a essa indefinição, surgiram muitos problemas, afirmou Luís Pacheco, presidente da Mocidade Independente de Aparecida. “Estamos tentando salvar o Carnaval do ano que vem, porque se demorarem ainda mais para liberar o edital e a verba, teremos um mês para fazer tudo, o que é impossível. Sendo que nós sempre começamos a nos preparar no mês de setembro e agora em novembro já era para termos iniciado a montagem dos carros alegóricos”, comentou ele. Falta de material e tempo são outras duas grandes preocupações dos presidentes, que não descartam a possibilidade de desistir do carnaval de 2014. “Fora que temos que encomendar todo o material do Rio de Janeiro, visto que as lojas de Manaus não conseguem atender a demanda e muito menos o nível que exigimos em nossas apresentações. Teríamos que retroceder e voltar a usar o TNT”, completou Luiz Gilberto, presidente d’A Grande Família. (Diário do Amazonas; 14 de Novembro de 2013) Quando o edital foi lançado houve grande rebuliço entre as escolas que, lideradas pelo presidente da AGEESMA, Elimar Cunha, chegaram a abandonar o seminário para sua apresentação realizado pela SEC no Cine Teatro Guarany. Os repasses somariam R$ 3.467.334,00 a serem distribuídos entre escolas de todas as divisões. Ao site G1 172
Amazonas, o secretário Robério Braga explicou o rompimento com a AGEESMA. Robério Braga é professor universitário com formação em história, e era então o mais longevo secretário do Estado do Amazonas, há 18 anos no cargo. Já Elimar era advogado e, naquele momento, presidente da AGEESMA: A entidade está inadimplente por várias vezes não prestar contas adequadamente e por isso o governo está, a partir desse edital, fazendo o convênio diretamente com as escolas. Não tendo nenhuma escola filiada à Ageesma e a entidade não podendo firmar convênio com órgãos do governo estadual e municipal, não há porque essa entidade votar o regulamento (Robério Braga, secretário estadual de cultura em entrevista ao G1116) Do valor total, R$ 2.112.904 destinavam-se às escolas da 1a divisão, R$ 869.092,00 às da 2a divisão; R$ 372.468,00 para escolas da 3a divisão; e R$ 112.870,00 para as escolas da 4a divisão. A questão se arrastou até janeiro com o parcelamento da subvenção em três lotes, todos com prorrogações de prazo para sua efetivação. A subvenção municipal, sob responsabilidade da Secretária Municipal de Cultura, denominada ManausCult, teve os valores assim definidos: 112 mil para cada escola do Grupo Especial, a 1a divisão; 58 mil para o grupo A, a 2a divisão; 34 mil no Grupo B, a 3a divisão; e 18 mil para cada escola do grupo C, a 4a divisão. As escolas interessadas tiveram o prazo de 2 de janeiro até 16 de fevereiro para se inscreverem. A proximidade do carnaval – o sábado de carnaval era no dia 4 de março de 2014 - irritou alguns presidentes das escolas. Aumentando ainda mais a tensão, o Ministério Público do Trabalho, em uma fiscalização em 10 de janeiro de 2014, multou todas as escolas, da 1a divisão, por descumprirem normas de segurança em seus barracões. Quatro dias depois a concessionária de energia local cortou a luz de todos os barracões da Morada do Samba alegando ligações irregulares e falta de pagamento. Representantes das escolas responsabilizaram a SEC pela falta de pagamento e alguns até pelas ligações irregulares
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Publicado em “Apresentado novo Edital de Patrocínio de escolas de samba de Manaus” no dia 20 de novembro de 2013 pelo link http://m.g1.globo.com/am/amazonas/carnaval/2014/noticia/2013/11/apresentado-novo-edital-depatrocinio-de-escolas-de-samba-de-manaus.html
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que seriam utilizadas na preparação de cenários do Auto de Natal da cidade e da decoração natalina.117 A tensão culminou em 29 de janeiro de 2014 quando, liderados pelo presidente da A Grande Família, Luiz Gilberto, as escolas convocaram uma manifestação para o dia seguinte na Avenida do Samba, que passa em frente ao complexo de barracões Morada do Samba. Luiz Gilberto, na época com 56 anos, sempre foi profundamente identificado com a escolas de samba e uma de suas principais lideranças desde que ela foi alçada de bloco à escola de samba. Em toda história da A Grande Família, Luiz Gilberto esteve no comando ao lado de sua esposa, a cozinheira Ermozinda. Na apuração de 2013, o casal protagonizou um bate-boca com a mesa apuradora e ambos tiveram de ser contidos pela polícia militar. Fato é que Luiz Gilberto, muito carismático, sempre exerceu a liderança não só em A Grande família como em grupos folclóricos do bairro São José e do antigo bairro de Luiz Gilberto, a Praça 14 de Janeiro. Ao sair, deixou a presidência da escola para seu filho, Luizinho Andrade e outro filho, Dudu Andrade tornou-se o mestre de bateria. A escola seguiu com esse caráter familiar em seu comando. Durante o conflito das escolas de samba com o Governo do Estado, Luiz Gilberto foi um dos que assumiu a liderança do movimento, inclusive organizando a manifestação das escolas de samba que ameaçava com a possibilidade de não desfilarem em 2014. "Hoje (quarta) nós fomos chamados na secretaria de cultura, pensando que fosse para termos a liberação do recurso e, para a nossa surpresa, recebemos uma conta de luz no valor de R$ 235 mil e que o secretário quer que as escolas paguem para poder liberar o dinheiro" disse o presidente ao jornal Em Tempo118. Na mesma matéria é citada a nota emitida pela SEC assim que soube do movimento: O Estado do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura (SEC), diante de entrevista de presidentes de Escola de Samba do Grupo Especial atribuindo ao Governo responsabilidade por possível não realização dos desfiles oficiais de Carnaval 2014, em nome da verdade e em respeito à população, informa que: - Está pronto para efetuar o pagamento das escolas de samba que estejam aptas a receber, conforme regras estabelecidas no credenciamento por Edital de Patrocínio, conforme 117
“Eletrobrás corta energia de barracões das escolas de samba de Manaus após descobrir ‘gatos elétricos’” publicada em 14 de janeiro de 2014 em http://www.acritica.uol.com.br/manaus/AmazonasAmazonia-Eletrobras-barracoes-Manaus-descobrir-eletrico_0_1066093396.html?print=1 118 “Escolas do grupo especial pretendem fechar avenida do Samba em protesto” Publicado em 29 Janeiro 2014 por Bruno Izidro http://emtempo.com.br/editorias/dia-a-dia/14143-escolas-do-grupo-especialpretendem-fechar-avenida-do-samba-em-protesto.html
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recomendação no Tribunal de Contas do Estado. - E que só poderá efetuar tal pagamento se as escolas cumprirem o Termo de Ajuste de Conduta (TAC) que assinaram em maio de 2013, com o Ministério Público do Trabalho (MPT). E quitarem, junto a Amazonas Energia, débitos de multas por uso irregular de energia elétrica nos barracões cedidos a elas pelo Governo do Estado, na forma da Lei n. 3096/2006 e Termo de Entrega de 14/12/2005. - Informa, ainda, que todas as contas de água e energia elétrica estão pagas pelo Governo do Estado, por meio da SEC. Mas que não irá compactuar com irregularidades. (Nota emitida pelo Facebook no perfil da SEC em 29 de janeiro de 2014) No dia seguinte, antes mesmo do início da manifestação onde os carros das escolas de samba fechariam a Avenida em frente aos barracões, o governador Omar Aziz, que é considerado Presidente de Honra da Mocidade de Aparecida119 como vimos no capítulo 3 desta tese, chamou os presidentes das escolas de samba para uma reunião em sua casa. Ali chegaram a um acordo cujos termos nunca foram divulgados e no qual as escolas confirmaram a realização dos desfiles. Enquanto isso, a população da cidade se manifestava contra ou a favor da realização dos desfiles através de uma miríade de formas. Políticos aproveitavam para atacar ou defender a festa. Pipocavam editoriais assumindo a defesa das escolas de samba ou atacando os gastos com desfiles. Alguns aproveitavam o momento para expor argumentos que misturavam até mesmo questões religiosas no combate à qualquer forma de manifestação profana. Durante toda a polêmica vários sambistas manifestaram diretamente a mim razões dos percalços. Alguns atribuíam-nos à desorganização das escolas, outros à corrupção existente entre elas. Havia também os que acusavam diretamente o secretário Robério Braga: “Ele não gosta de carnaval. Só gosta de ópera e boi”, foi o que ouvi de mais de um sambista. Já aqueles que supostamente gostam das escolas de samba e de boi elaboravam outro discurso para responsabilizar o secretário: Ele não gosta de povo só gosta de ópera. Não apoia o Boi de Manaus, só o de Parintins porque dá dinheiro. Quando não der mais ele sai fora. É um tirano que tá mais de 16 anos na secretaria. Muda governo e ele não sai. (...) cadê o incentivo para o Festival Folclórico aqui de Manaus. Tá cada vez mais largado. 119
A presidência de honra é um cargo simbólico vitalício comum entre as escolas de samba. A honraria máxima pode ser dedicada tanto a figuras ilustres de sambistas fundadores da agremiação quanto à mecenas que foram ou são patrocinadores dos desfiles.
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Os bois, as cirandas de Manaus também sofrem com ele. (compositor de escola de samba de Manaus – 13/02/2014) O importante é que, após a tal reunião com o governador, as escolas retomaram suas tarefas e concluíram os trabalhos nos barracões. Mesmo assim, os conhecedores de outros carnavais previam um desfile bem mais modesto em termos plásticos. As apresentações, bem como a preparação das escolas das segunda, terceira e quarta divisões (os chamados grupos de acesso), por outro lado, transcorreram na mais absoluta normalidade. Um dia antes do primeiro dia de desfiles, na quarta-feira antecedente ao sábado de carnaval, fui a seus barracões improvisados entre a área de concentração e um estacionamento do Sambódromo, numa rotina que segui nos quatro carnavais que acompanhei. O clima de calmaria explicava-se por duas razões: a primeira era que, diferente do que ocorrera com as escolas da 1a divisão, a luz não havia sido cortada e, num total de 18 escolas, apenas uma ou duas escolas dependiam da energia elétrica da Morada do samba. A segunda razão era que essas escolas estavam acostumadas a lidar com o atraso no repasse das subvenções ou mesmo a ter boa parte delas retidas por dívidas com fornecedores. Paralelamente, o imbróglio para saber qual entidade seria a organizadora do carnaval permanecia. De um lado, a AGEESMA havia sido descredenciada pelo poder público. Parte das escolas de samba do Grupo Especial, que já contestavam a AGEESMA anteriormente, fundou dias antes do desfile de 2014 a Comissão Executiva das Escolas de Samba de Manaus (CEESMA). Para as escolas dos demais grupos, que conviviam com a instabilidade da organização dos desfiles desde a muitos carnavais, isso não fez diferença e, em 2014, seus desfiles foram organizados pelo Instituto Cultural, uma entidade que existiu apenas para aquele carnaval.120 Na semana dos desfiles, as escolas que haviam organizado um calendário de ensaios na pista de desfiles viram seus ensaios cancelados, defrontando-se novamente com o risco de não realização dos próprios desfiles, pois o sambódromo foi interditado pelo Corpo de Bombeiros. Os laudos divulgados indicavam as condições da pista como inadequadas para a segurança do público. A questão envolvia as obras na vizinha Arena da Amazônia para a Copa do Mundo de 2014. O novo impasse foi solucionado, dessa vez nos gabinetes
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Houve mesmo anos em que a ordem de desfiles foi sorteada uma semana antes dos desfiles. Em outros carnavais nem mesmo uma ordem de desfile foi estabelecida e a escola que estivesse pronta desfilava imediatamente após a outra.
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de governo, e o sambódromo foi liberado para os desfiles e outros eventos que aconteceriam no carnaval como o CarnaBoi. Os ensaios na pista aconteceram então com a pista ainda em preparação. As escolas antes espalhadas em três dias agora seriam divididas em dois dias de ensaios seguindo a ordem de desfiles. Quatro das oito escolas do Especial ensaiariam na terça-feira antecedente ao carnaval e mais quatro, na quarta-feira antecendente ao carnaval. Logo no primeiro dia de ensaios, a primeira escola programada para o treino, Andanças de Ciganos, não ensaiou. No horário marcado, apenas alguns poucos componentes circulavam uniformizados pela pista de desfiles sem entender muito bem o que estava acontecendo. Outros, já faziam circular os boatos com a suposta versão oficial dos dirigentes para a não-participação: Não vamos ensaiar hoje. Minha esposa estava lá na quadra e viria para o ensaio mas disseram que não vem. Não tem ônibus para trazer os componentes! Não teria nem como alugar um ônibus, a escola tá sem dinheiro. Ainda não liberaram a verba! Ouvi que o presidente ou o vice que é filho dele teria até discutido com o secretário e a escola ficou ameaçada de não desfilar. Vai desfilar sim porque tá com multirão na quadra e no barracão. Não será um leso desses que vai parar a gente! (Componente da Andanças de Ciganos – entrevista na concentração do sambódromo em 25/02/2014) Componentes de outras agremiações acrescentavam outros detalhes à fofoca, dando conta de que o bate-boca entre o secretário de cultura do Amazonas e dirigentes da Andanças “quase os levou a agressões físicas e desembocaram em ameaças”. Outros diziam que a Andanças seria impedida de desfilar pela Secretaria por conta de um processo contra o executivo devido ao atraso nos repasses. Enfim, todas as versões ficaram apenas limitadas a boatos. No sábado dos desfiles (realizados em 1 de marco de 2014), a Andanças de Ciganos, primeira escola a desfilar na condição de recémpromovida à segunda divisão do carnaval de Manaus - o Grupo de Acesso A - estava lá pronta para desfilar no horário designado.
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Figura 71 - Componente da Andanças de Ciganos (de vermelho e branco) circula pela concentração das escolas no ensaio técnico de 2014 - Foto Taynah Pinheiro - 25/02/2014
O desfile transcorria normalmente e, após a apresentação da Andanças de Ciganos, a Unidos do Alvorada se preparava quando, aos primeiros acordes do samba entoados pelos cantores, uma torrencial chuva desabou. Enquanto o público se retirava das arquibancadas procurando abrigo embaixo das estruturas, a Alvorada desfilou animadamente debaixo de uma tempestade. A chuva prosseguiu durante toda a noite de desfile mas teve maior intensidade durante os desfiles de Alvorada, A Grande Família, Balaku Blaku e Vitória Régia. Isso não impediu que todas as escolas sofressem com seus efeitos mesmo que ainda na concentração.
Figura 72 - Forte chuva durante o desfile da Unidos do Alvorada - Foto Ricardo Oliveira - 01/03/2014
Dois dias depois, na segunda-feira de carnaval, aconteceu a apuração das escolas de samba. As primeiras notas apuradas foram as da quarta divisão - o Grupo de Acesso 178
C, depois as terceira e segunda (grupos de acesso B e A) e finalmente as da primeira divisão, o Grupo Especial, já no final da tarde. As apurações dos Grupos de Acesso foram normais para os padrões do carnaval local. As únicas reclamações efusivas foram do presidente da Presidente Vargas com as notas que a rebaixaram para o grupo inferior. Um atraso maior do que o previsto ocorreu antes da apuração do Grupo Especial. Chegaram boatos de que os presidentes estavam reunidos em uma sala ao lado deliberando sobre punições. Algumas escolas teriam atrasado seus desfiles devido ao temporal e à chuva intensa e constante que se sucedeu. Os mais catastrofistas já anunciavam a descoberta de um escândalo de compra de jurados. O suspense chegou ao fim com a entrada na sala de apuração das duplas de representantes de cada escola e o dirigente encarregado da leitura das notas. Os mapas de notas vieram nas mãos de policiais. Agora era a hora! Como dizia o samba da Andanças de Ciganos em 1990: “Vai ou racha”! Os representantes da SEC-AM cumpriram o protocolo de felicitar as escolas pelos belos desfiles: A Secretária de Cultura em nome do secretário Robério Braga, gostaria de parabenizar todas as escolas pelo belo espetáculo apresentado nos desfiles do sábado. Pudemos observar o crescimento das escolas. A evolução no acabamento das fantasias, dos carros, a animação...Apesar da chuva que teve no sábado, nós tivemos chuva desde a segunda escola até a última, mas apesar da chuva podemos observar o crescimento do carnaval. (...). Então eu gostaria de agradecer. Agradecer o empenho de todos os presidentes e todas as diretorias das escolas. (Pronunciamento de Elizabeth Catanhede, diretora de eventos da SEC-AM no dia 03/03/2014) Passada a palavra ao representante da Comissão Executiva das escolas - que ali seria o embrião de uma nova entidade organizadora do carnaval das escolas de samba do Grupo especial - ele inicia os ritos de praxe com a apresentação dos malotes com as notas dos jurados devidamente lacrados e transportados pela Polícia Militar. Após este trâmite anuncia que dará inicio a apuração e começa com a leitura de uma carta assinada pelo conjunto dos presidentes das escolas do Grupo Especial: Manaus, 03 de março de 2014, A Comissão executiva do carnaval de 2014 com seus membros reunidos na sala do sambódromo resolve por maioria, pelas dificuldades enfrentadas pelas escolas de samba do Grupo Especial de Manaus, aclamar todas as escolas de samba do Grupo Especial de Manaus como CAMPEÃS do carnaval de 179
2014 esperando contar com a compreensão de toda comunidade de Manaus. Em tempo, a comissão executiva de carnaval, composta pelos oito presidentes renunciam ao direito de recorrer tanto na mesa de apuração quanto na justiça do Amazonas. (carta da Comissão Executiva do carnaval 2014) Após a leitura da carta fez-se um silêncio de perplexidade. O representante das escolas precisou frisar o resultado com todas as escolas campeãs para que alguns dos dirigentes presentes na sala puxassem os aplausos.
Figura 73 - Representante da comissão executiva com a carta das escolas de samba em mãos - foto Taynah Pinheiro - 03/03/2014
Com todas as escolas declaradas campeãs uma confusão de sentimentos explodiu dentro e fora da sala. Talvez tenha se refletido naquele momento a ambiguidade do resultado. As escolas que ambicionavam permanecer na primeira divisão, como Andanças e Balaku Blaku, comemoravam discretamente. Já distantes de um título a um certo tempo, Sem Compromisso, A Grande Família e Vitória Régia convocavam seus componentes para a festa na quadra, e por lá aguardariam a distribuição (que não aconteceu) dos prêmios por categorias do Estandarte do Povo do Jornal A Crítica. Os componentes da Unidos do Alvorada comemoraram mais efusivamente o que seria seu primeiro título na primeira divisão do carnaval manauara, o Grupo Especial. A Mocidade de Aparecida comemorou o fato de aumentar um número em suas estatísticas, consolidando o que seus componentes chamam de soberania dada por seus 20 títulos naquele momento. Os mais inconformados eram os componentes da Reino Unido cujo o presidente foi o único 180
declaradamente contrário ao resultado pois a escola ambicionava naquele ano um tirateima com a Aparecida. O rito que seguiu à leitura da carta buscava anular qualquer possibilidade de reversão do resultado. Um latão foi posicionado pelos bombeiros na parte externa mais próxima à sala. Os envelopes dos jurados lá foram depositados e devidamente incinerados. A ação sensacional foi acompanhada por equipes de reportagens que registravam os presidentes de mãos dadas ao redor da fogueira de notas. 5.2.1 “Não foi nem rachou”: o balanço de um carnaval sem resultados. Vamos tomar as reações expressas pelos diretores, componentes e torcedores de cada uma das escolas após o inusitado anúncio do resultado que consagrou as oito escolas do Grupo Especial como campeãs do carnaval de 2014. Buscamos vislumbrar o que a decisão significou para cada uma delas. A reação que chamou mais atenção após a apuração de 2014 foi a da Unidos do Alvorada. A escola sediada no bairro vizinho ao sambódromo sempre se caracterizou por levar o maior número de torcedores aos desfiles e apurações apesar de sua fundação relativamente recente, em 1995. Não foi diferente naquele 3 de março de 2014. Após anunciado aquele que seria considerado seu primeiro título na 1a divisão, a já significativa torcida da escola presente ao sambódromo explodiu aos gritos de “é campeã” e cantando o samba daquele ano. Havia enorme expectativa pelo título mesmo antes do desfile. O enredo homenageava José Aldo, campeão mundial de luta-livre, uma personalidade reconhecida nacionalmente e morador do bairro da Alvorada onde a escola está sediada. Em 2012, a escola já havia feito um bom desfile que a colocara como uma das postulantes ao título. Em 2013, a escola já havia comemorado efusivamente um vice-campeonato, o terceiro de sua curta história na 1a divisão. Havia ainda a perspectiva de inauguração de sua nova quadra logo após aquele carnaval e ela havia sido uma das mais afetadas pela chuva no dia do desfile. Por todos estes motivos, ainda que dividido com todas as escolas, o campeonato significava um desfecho satisfatório. Isso fica claro na declaração de seu presidente, Heroldo Linhares, após a apuração: Muito feliz mesmo, pelo título tão sonhado! Há dezoito anos buscando esse título! Parabéns à toda a comunidade, toda diretoria, todo mundo do ateliê por ter buscado esse título. Fomos 181
campeões e com muito trabalho! (Heroldo Linhares, presidente da Unidos do Alvorada em entrevista no dia 03/03/2014) A Mocidade de Aparecida era outra que considerava positivamente aquele carnaval, dando o assunto por encerrado. Ambicionando chegar o vigésimo título naquele ano, mesmo que compartilhando o primeiro lugar com as demais escolas do grupo, considerava-se confirmada sua hegemonia em número de campeonatos frente às demais. Seus torcedores presentes ao sambódromo, entretanto, encaravam o título com alguma ambiguidade. Um grupo batucava e cantava fazendo uma deliciosa confusão sonora de felicidade ao lado dos componentes da Unidos do Alvorada. Outra parte dos torcedores olhava contrariada a festa de seus companheiros. Um dos compositores confessou sua frustração logo após o resultado, terminando com a interjeição “esse carnaval de Manaus é uma vergonha”! Esta ambiguidade é sintetizada na declaração de seu puxador, Wilsinho de Cima: “São vinte, né? Parabéns ao meu presidente Pacheco e toda a comunidade. Passamos o rodo na avenida e em 2015 vamos passar de novo”! Logo a seguir, no entanto, admite sua contrariedade com a divisão do título – “ Eu fiquei muito triste, na verdade (...) erámos para ser campeões do carnaval. Todas foram penalizadas com a chuva mas é isso aí. O que vem de cima, de Deus, de São Pedro, a gente não pode fazer nada. É a natureza(...)” (Wilsinho de Cima, puxador da Mocidade de Aparecida – entrevista em 03/03/2014). Embora a carta que anunciou a eliminação das notas dos jurados não tenha citado a chuva, vários sambistas continuaram durante o ano atribuindo o resultado inusitado à chuva no dia do desfile. Como vimos, porém, na carta outros fatores foram elencados para esta decisão em conjunto da maioria das escolas. Embora as escolas tenham sido unânimes com relação à existência de graves dificuldades, a decisão de dividir o título não foi unânime. O presidente da Reino Unido da Liberdade, Reginei Rodrigues, era um dos mais exaltados e desconfortáveis com a decisão tomada. Saindo da sala de apuração, ele fizera questão de expor a todos para quem concedia entrevista que havia sido “voto vencido”: A Reino Unido não aceitou a posição dos demais presidentes por uma situação. A comunidade esperava um título. A Reino Unido veio forte. A comunidade abraçou nossa causa num carnaval de 14 dias. Não era justo com a nossa comunidade declarar todas campeãs. Infelizmente fui voto vencido. No regulamento no artigo 28 previa essa possibilidade de mudança e infelizmente fui voto 182
vencido. (Reginei Rodrigues, Presidente da Reino Unido da Liberdade – em entrevista no dia 03/03/2014) O compromisso de que nenhuma escola recorreria da decisão e de que os envelopes com as notas seriam imediatamente incinerados sem serem abertos contrariou, portanto, a posição da Reino Unido. Houve um interlocutor que lembrou o episódio já relatado do carnaval de 2006, quando, a despeito de acordo prévio das escolas de samba, a Reino Unido recorreu à justiça para pedir a abertura dos envelopes com as notas dos jurados.121 A posição da Reino Unido explicita ainda a motivação política por trás da divisão do título. O diretor da escola, Ivan de Oliveira comenta: Reino Unido da Liberdade entende, compreende essa decisão. Fomos bastante prejudicados pelo retardo na liberação da verba; a questão do Ministério Público que veio e interditou o sambódromo; tivemos a Eletrobrás cortando a energia elétrica dos galpões. Toda uma gama de problemas atrapalhou todas as escolas de samba. (...) mas não é o perfil da Reino Unido não disputar e não abrir os envelopes. (Ivan de Oliveira, diretor de comunicação da Reino Unido da Liberdade – entrevista no dia 03/03/2014) A declaração de Ivan de Oliveira poderia ser resumida por uma frase do mestresala da Andanças de Ciganos, Marco Sahdo: “O que começou errado tinha que terminar errado”. Expressa-se assim a insatisfação da maior parte dos sambistas com o resultado que deixaria o sabor de uma conclusão indefinida. Sem vencedores e vencidos como fazer o balanço de um carnaval que preza tanto a rivalidade e a competição entre as escolas de samba? 5.3 Considerações finais: Da análise do drama ao carnaval das escolas de samba na cidade de Manaus Como vimos, no modelo de Turner (1996) o drama social é suscitado pela quebra de uma norma das relações convencionadas pelos grupos. Podemos situar como este momento no não-reconhecimento de uma instituição organizadora dos desfiles do Grupo Especial. O fato da AGEESMA não poder intermediar a distribuição das subvenções públicas financiadoras do desfile e consequentemente nem mesmo estar coordenando os desfiles em seus mais diferentes meandros gerou uma crise representacional das escolas
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Ver capítulo 2 deste trabalho.
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faltando poucos meses para o carnaval. Importante lembrarmos que as próprias escolas colocavam em questão quase todos os anos a entidade organizadora por resultados insatisfatórios obtidos em anos anteriores. A questão dos resultados é muito sensível e leva a inúmeras cisões dentro das escolas de samba e em relação às entidades organizadoras dos desfiles. A história das escolas de samba em qualquer lugar é muito instável, pois configura um emaranhado instável de organizações, ligas e associações representantes de seus interesses.122 Quando o secretário de Cultura do Estado não admitiu a presença do presidente da AGEESMA na audiência pública de apresentação do edital do carnaval 2014 conforme já mencionado temos uma importante cisão na organização dos desfiles, já que a subvenção pública é essencial para as escolas de samba. Houve um confronto personalizado entre um representante das escolas de samba e um representante do Estado. Coloco nestes termos, pois os sambistas de Manaus sempre personalizavam suas críticas ao secretário, governador ou a qualquer figura pública que exercesse a função de mediação. Faziam o mesmo com relação a qualquer representante da AGEESMA ou algum presidente de escola de samba querelante. Da personalização a questão rapidamente avançava para um contraponto entre o carnaval das escolas de samba e o carnaval de trio elétrico com artistas dos Bois de Parintins realizado no sambódromo, o Carnaboi. Chamo atenção a constante referência de agentes estatais à “autenticidade” do Festival de Parintins como representante da “cultura local”. O discurso se baseia no caráter representativo da “cultura cabocla” pelo Festival de Parintins. Um fato é a emergência dessa representatividade regional nos bois de Parintins. Com o desenrolar do sucesso dos bois e apoiando esse processo a afirmação de uma identidade regional tem protagonismo marcante: O Boi-Bumbá de Parintins é um novo e fascinante capítulo da longa história do folguedo no país. Emerge como um moderno movimento nativista que elegeu imagens indígenas como metáforas para a afirmação de uma identidade regional cabocla. Um poderoso processo ritual, através do qual a pequena cidade, e com ela toda a região Norte, como que aspira (e tem conseguido com razoável sucesso) comunicar-se com o país e o mundo. (CAVALCANTI; 2002. p.104). 122
Foi preciso elaborar uma classificação neutra durante minha pesquisa de mestrado (BARBIERI, 2012), bem como esta aqui, para dar conta da multiplicidade de organizações e grupos criados com os mais diversos nomes e naturezas tanto no carnaval carioca como no de Manaus.
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Vimos anteriormente como as próprias escolas de samba manauaras manipulam a categoria caboclo em seus sambas e enredos. Sua representação frente ao restante do país busca a afirmação de uma identidade característica frente a uma identidade nacional que encontrou no samba um símbolo ao longo do século XX. Em determinados momentos, como sabemos, o samba foi utilizado como forma de construção de uma ideia de nação brasileira, principalmente a partir da era Vargas quando o samba e principalmente as escolas de samba e os diversos elementos de sua manifestação são incorporados pelo estado com sua forma competitiva. Encontram, dessa forma, terreno fértil para a propagação pelo território nacional as escolas de samba (FERREIRA, 2004). As escolas de samba não cessaram de se expandir entre os anos 1940 e 1970. A partir dos anos 1990, no contexto redemocratização da sociedade brasileira, as escolas de samba viram-se sem seu protagonismo anterior como símbolo da representação da cultura nacional. Como nos chama atenção Cavalcanti (2015), as escolas de samba trazem desde sua formação a pluralidade de participação social. No contexto contemporâneo, as escolas de samba emergem ainda singularizadas como “inclusivas do ponto de vista sociológico e cultural e, ao mesmo tempo, abertas para o mundo e suas transformações” (op.cit, p.231). No caso das escolas de samba de Manaus, o drama exposto indica o seu impasse. A crise desencadeada se ampliou como no modelo do drama social proposto por Turner (op. cit.). A rede acionada pelos sambistas adotou o discurso apresentado acima para apontar o descaso do poder público com as escolas ao passo que representantes do poder público apontaram a desorganização das escolas de samba como principal problema. Entre os atores uma espiral de acusações, alianças e conflitos se desenrolou. Já a partir da plenária de apresentação do edital para o carnaval 2014, as escolas haviam iniciado uma articulação para construção de uma nova associação. Essa tentativa de uma ação reparadora concorrerá com um agravamento da crise já que teremos até o dia dos desfiles ainda vigentes as interdições do sambódromo e dos barracões das escolas. Em função disso tudo, podemos tomar a decisão conjunta das escolas pela divisão do título como uma ação reparadora. Com a divisão do título as escolas, apesar de a decisão não ter sido unânime, mantiveram-se coesas para o carnaval seguinte em uma mesma associação organizadora.
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Figura 74 - Presidentes de mãos dadas em frente ao latão de notas incineradas - Foto de Jamille Cunha/G1 03/03/2014
O carnaval de 2014 foi encerrado como começou, ou seja, nada começou ou acabou de fato em 2014 ainda que com a sucessão dramática dos eventos. O sucesso da ação reparadora se confirmaria apenas no carnaval seguinte de 2015. Nele as escolas desfilaram sob a coordenação da nova Comissão Executiva das Escolas de Samba de Manaus (CEESMA) e, curiosamente, esta nova associação vinha presidida justamente pelo dirigente que divergiu abertamente da divisão do título, Reginei Rodrigues, da Reino Unido. No carnaval de 2015, o período de preparação transcorreu dentro de certa normalidade para as escolas de samba e terminou com o vigésimo-primeiro título da história da Mocidade Independente de Aparecida. Podemos ver a apuração como o momento em que as escolas saem da performance que dramatiza a liminaridade, ritual onde as posições definidas podem se alterar, para a reagregação à vida social ordinária, onde a realidade da vida cotidiana se impõe. Nela, a rivalidade que no desfile festivo é canalizada para a expressão artística desemboca no embate discursivo ou até mesmo físico e a realidade de crise, desorganização e conflitos do cotidiano de uma escola de samba manauara se manifesta. As idas e vindas na organização e a complexidade da rede de relações acionada no conflito do carnaval 2014 revelam as particularidades de fazer carnaval de escola de samba em Manaus. Um ambiente de extremada rivalidade entre os grupos e dentro dos grupos torna mais difícil o estabelecimento de consensos. As regras para a competição precisam ser bastante claras ou então as escolas manipularão as omissões de acordo com 186
seus interesses. O jogo precisa ser o tempo todo referendado e geralmente a aprovação não é unanime. Disso nasce um ambiente hostil à organização mais estável. De forma talvez inconsciente, as escolas se boicotam umas às outras, perdem a credibilidade até mesmo entre os próprios sambistas. Um paradoxo que alimenta outro pois a força das escolas de samba permanece mobilizadora de milhares de habitantes da cidade de Manaus que prestigiam os ensaios e os desfiles. Há ainda um esforço notável por lançar as escolas de samba locais no plano nacional. Este esforço ficou nítido no questionamento de pelo menos seis dos dez sambistas com quem conversei imediatamente após a apuração: “o que vão pensar do carnaval de Manaus no resto do Brasil”? De fato, a notícia do inédito título compartilhado por todas as escolas teve algum espaço em grandes portais da internet e algumas emissoras de rádio cariocas. Foi comentada, no entanto, mais à título de curiosidade do que espanto ou desprezo. Boa parte do descaso deveu-se pelo dia de apuração dos desfiles manauaras, em plena segunda-feira de carnaval dia em que a maior parte das atenções estão voltadas ao segundo dia de desfiles do Grupo Especial do carnaval carioca. Retomo o discurso de muitos quando evocavam ao longo desta pesquisa “tempos em que o carnaval de Manaus já foi o terceiro melhor do Brasil”. Recorrentemente, quando queriam resgatar um parâmetro de excelência os sambistas lembravam-se das décadas de 1980 e 1990. Alguns até mesmo consideravam o carnaval das escolas de samba de Manaus o segundo melhor do país. Cada sambista tem seu parâmetro pessoal para realizar tal medição, alguns apontam o público do sambódromo, a altura de carros alegóricos, a qualidade da gravação dos sambas, a intensidade do intercâmbio com sambistas cariocas e até mesmo equações matemáticas para equiparar o valor gasto nos desfiles em diferentes cidades do Brasil (SALES, 2008). Dessa busca pela projeção nacional decorre outra atitude diametralmente oposta que é fechar-se em momentos de crise. Um dos mais articulados discursos neste sentido vem do mestre-sala e carnavalesco da Andanças de Ciganos, Marco Sahdo: O carnaval padece da falta de uma cultura sambista. Nós temos que fazer carnaval para nós mesmos! Para isso precisamos ter uma cultura carnavalesca como no Rio ou São Paulo. Nunca nós fomos o segundo maior carnaval do Brasil. Isso é uma balela contada pela TV Bandeirantes quando transmitiu o carnaval daqui para o Brasil. O pessoal repete isso, mas não temos como nos igualar ao carnaval do Rio e São Paulo até por uma questão 187
material. Não temos acesso aos preços de material que eles têm por lá. Aqui é tudo mais caro (...) E o povo não sabe ver carnaval acha que escola de samba é só samba e carro alegórico. Primeiro temos que aprender o nosso carnaval. Temos que fazer carnaval para os manauaras. Criar essa cultura carnavalesca aqui. (Marco Sahdo, mestre-sala e carnavalesco da Andanças de Ciganos – em entrevista no dia 23/01/2015) A experiência de Marco vem de uma vida no carnaval compartilhada com sua família, sua mãe é Ednelza Sahdo, ex-porta-bandeira e um dos baluartes do carnaval local. Seu irmão foi o mestre de bateria da Andanças de Ciganos neste carnaval de 2015. Marco ainda trabalha com eventos, feiras de tatuagem e em uma secretaria de governo estadual. Também atua durante o ano junto a quadrilhas e cirandas do festival folclórico de Manaus. O carnaval das escolas de samba de Manaus, entretanto, feito para o público da cidade de Manaus faz todo sentido se pensarmos no contexto das escolas de samba dentro de um circuito de festas urbanas mais amplo. E aqui retomamos a imersão das escolas de samba dentro de um circuito festivo do estado do Amazonas que inclui o boi-bumbá de Manaus e Parintins; das Cirandas do festival Folclórico da cidade de Manacapuru (AM); das quadrilhas juninas de Manaus, danças folclóricas locais entre outros. Em um contexto parecido com o amazonense, Carmen Izabel Rodrigues (2008), analisou as representações do caboclo amazônico. A autora revelou a importância de uma escola de samba no relacionamento do bairro Jurunas com a cidade de Belém no Pará como um todo: Podemos pensar essa categoria como um lugar de representação, ao mesmo tempo um lugar residual e uma fronteira móvel, que avança e recua. Uma cultura cabocla, vista sempre como um lugar residual, não existiria como cultura própria; afirmar-se-ia pela negação; seria então um espaço marcado por um duplo discurso de exclusão: de quem olha e fala do exterior, o caboclo é aquele que está fora da modernidade. (...). É nesses limites e fronteiras conceituais, políticas e éticas, que se abre o espaço para se pensar a questão do caboclo como uma identidade e cultura de resistência (op.cit, p.292-293) Assim a autora propõe o caboclo como categoria “intervalar, mediadora entre o de dentro e o de fora”. E justamente, nesse movimento de reflexividade, o caboclo pode
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constituir-se como uma “fala heterogênea e autônoma, local e nacional, singular e plural” (op.cit, p.294). O mesmo discurso utilizado para acusar as escolas de samba de manifestações ilegítimas da região retorna agora desde outro ponto de vista e as escolas de samba manauaras apropriam-se de um discurso de pertencimento a uma cultura cabocla. Assim, aparecem especialmente nos enredos de apelo local personalidades do Amazonas, cidades do interior do Amazonas, lendas do folclore amazonense, etnias indígenas da região, entre outros. Dessa vez, o discurso de pertencimento emerge com significado revigorado pela expressão local e a contribuição de cada um dos atores envolvidos na produção dos desfiles. É uma das singularidades do carnaval de Manaus. Interessante foi constatar que as particularidades locais se desdobram em uma série de planos. Ela se revela na rivalidade que em certos momentos parece ecoar aquela de outras festas do estado. Ela se evidencia no caso de bairros estigmatizados, que ganham feição positiva na cidade de Manaus e no Brasil graças à atuação e ao significado de suas escolas de samba. Ela se evidencia também na afirmação da glória da escola de samba que se espelha em seu bairro famoso e central na cidade de Manaus e inspira a outros citadinos e sambistas que almejam com suas escolas alcançar também a glória da vitória e com isso elevar o bairro ao sucesso quiçá nacional. Mesmo ainda sem a almejada expressão nacional, são ricas e singulares as escolas de samba manauaras. Serão por muitos anos expressões fecundas e objetos de novas investigações nos mais diferentes campos.
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APÊNDICES Apêndice I – Hierarquia Competitiva do Carnaval de Manaus Grupo
Entidade Organizadora/ Subvenção
Local de desfile
Dia de desfile
Participantes em 2015 e alegorias
Preparação dos desfiles
Classificação Neutra
Grupo Especial
CEESMA (400mil cada escola)
Sambódromo
Sábado
9 com 4 alegorias
Morada do Samba
1ª divisão
Grupo de Acesso A
Instituto Cultural
Sambódromo
Sextafeira
6 com três alegorias
Área de Concentração do Sambódromo
2ª divisão
Grupo de Acesso B
Instituto Cultural
Sambódromo
SextaFeira
6 com duas alegorias
Área de Concentração do Sambódromo
3ª divisão
Grupo de Acesso C
Instituto Cultural (5mil cada escola)
Sambódromo
QuintaFeira
5 com uma alegoria
Área de Concentração do Sambódromo
4ª divisão
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Apêndice II – Hierarquia Competitiva do Carnaval do Rio de Janeiro Grupo
Entidade Organizadora/ Subvenção
Local de desfile
Dia de desfile
Participantes em 2016 e alegorias
Preparação dos desfiles
Classificação Neutra
Grupo Especial
LIESA (2 milhões cada escola)
Sambódromo
Domingo e Segunda
12 com sete alegorias
Cidade do Samba
1ª divisão
Série A
LIERJ
Sambódromo
Sexta e Sábado
14 com quatro alegorias
Galpões na Zona Portuária e Caju
2ª divisão
Série B
LIESB
Estrada Intendente Magalhães
Terça de carnaval
16 com três alegorias
Galpões na Zona Portuária e Carandiru 2
3ª divisão
Grupo C
Associação O Samba é Nosso
Estrada Intendente Magalhães
Domingo
13 com duas alegorias
Galpões na Zona Portuária e Carandiru 2
4ª divisão
Grupo D
Associação O Samba é Nosso
Estrada Intendente Magalhães
Segundafeira
14 com uma alegoria e um tripé
Galpões na Zona Portuária e Carandiru 2
5ª divisão
Grupo E
Associação O Samba é Nosso
Estrada Intendente Magalhães
Sábado das campeãs
15 com uma alegoria ou tripé
Carandiru 2 ou nas sedes
6ª divisão
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Apêndice III – Mapa com distribuição geográfica das escolas de samba (que estiveram no Grupo Especial entre 2011 e 2016) em Manaus (AM)
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