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O processo de estruturação e de gestão das Escolas de Samba: o caso da agremiação Beija-Flor de Niló

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UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO

O processo de estruturação e de gestão das Escolas de Samba: o caso da agremiação Beija-Flor de Nilópolis

Marcelo Bruno Ferreira Dantas

CURSO DE ADMINISTRAÇÃO

Nova Iguaçu, Novembro de 2011 1


MARCELO BRUNO FERREIRA DANTAS

O processo de estruturação e de gestão das Escolas de Samba: o caso da agremiação Beija-Flor de Nilópolis

Monografia apresentada ao curso de Administração da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Administração.

Orientadora: JANAÍNA SIMÕES

Profa. Dra. MACHADO

Nova Iguaçu, Novembro de 2011 2


MARCELO BRUNO FERREIRA DANTAS

O processo de estruturação e de gestão das Escolas de Samba: o caso da agremiação Beija-Flor de Nilópolis Monografia apresentada ao curso de Administração da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Administração.

Orientadora: Profa. Dra. Janaína Machado Simões

BANCA EXAMINADORA

______________________________________________ Profa. Dra. Janaína Machado Simões

______________________________________________ Prof. Ms. Leonardo Vasconcelos Cavalier Darbilly

______________________________________________ Prof. Dr. Severino Joaquim Nunes Pereira

Nova Iguaçu, Novembro de 2011 3


Eu acredito na Forรงa Maior que nos guia. Obrigado meu padrinho, Salve Jorge!

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Agradecimentos

Foram quatro longos anos desde o início da graduação, em 2008, até hoje. Quatro anos no qual tive o prazer de conhecer várias pessoas que fizeram parte da minha vida nesse período. Gratidão é a palavra que dedico a turma 2008-I por todo o carinho a compreensão nessa longa jornada que foi cercada de alegria, ardor e muita atribulação. Agradeço a Professora Janaína Machado Simões por toda a sua paciência, envolvimento e ajuda nesse período de orientação e que, depois de algumas “chamadas” acabei entrando no ritmo. Destaco que sem a sua ajuda e orientação nos momentos difíceis nada disso seria realidade. Aos pais dedico agradecimento e a satisfação de dizer que valeu a pena todo o empenho que tiveram ao longo desses anos e a compreensão nos momentos difíceis, que, com todo o otimismo e vocação me nortearam e conseguiram me tranquilizar nos momentos finais deste trabalho. Aos tios, tias e primos registro o meu agradecimento a todos os momentos de alegria e ajuda que me acompanharam desde o início dessa trajetória e tiveram a sua participação para isso tornar-se realidade. E sem os meus amigos não teria chegado aonde cheguei. Muito obrigado àqueles que sempre estiveram ao meu lado compartilhando toda a felicidade e dificuldade, valeu Andrey (Sapo) da Gama, Rodney Barros, Juliano Amaral, Gabriel Rodrigues, tia Tânia Gama, Sandro Aguiar, Romulo Rafael, Jeniffer Reis e Lívia Farizele. Ao meu grande amigo Fernando Bruno Malveira dedico o grande agradecimento, destaco a importância de seus conselhos e da sua amizade desde os tempos de colégio, Elite e dos carnavais com a rapaziada de Campo Grande. Muito obrigado por tudo meu amigo! Finalmente, agradeço a Beija-Flor de Nilópolis que, por intermédio de Hélio Malveira, me proporcionou conhecer a escola e toda a Comissão de Carnaval que me rendeu a construção deste trabalho. Deixo aqui o meu agradecimento e admiração para André Cezari, Fran Sérgio, Victor Santos, Bianca Behrends, Ubiratan Silva e Sr. Laíla que trabalham intensamente para criação e produção do carnaval até ao brilhante desfile na avenida.

Muito obrigado a todos vocês! 5


RESUMO Esta pesquisa propõe uma análise da estrutura organizacional e de que forma é realizada a gestão em uma escola de samba. Para este estudo foi selecionada a agremiação Beija-Flor de Nilópolis, a campeã do carnaval carioca do ano 2011. A pesquisa parte, inicialmente, da perspectiva que as organizações culturais sofrem influência do processo de globalização, tonando-as competitivas, focadas em uma gestão voltada para eficiência e eficácia e racionalidade em custos, tornando-as semelhantes a uma organização empresarial. Nesse sentido busca-se descrever o que é o fenômeno denominado empresarização proposto por Solé, perpassando pela teoria de Economia da Cultura e um breve histórico sobre o Mundo do Samba. Como foco de análise foram levantadas informações através de bibliografia, documentos e relatos acerca do histórico do campo carnavalesco e da Beija-Flor de Nilópolis. Por seguinte foi analisado como se dá o processo de estruturação e gestão na escola, demonstrando como é realizada a criação e produção do carnaval e a participação da comunidade e por fim traçar uma relação com o fenômeno empresarização. Palavras Chave: Carnaval, estruturação, Beija-Flor de Nilópolis.

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ABSTRACT This study proposes an analysis of organizational structure and management as it is done in a samba school. For this study was selected guild Beija-Flor de Nilópolis, the champion of the carnival of 2011. The research, initially, from the perspective that cultural

organizations are

influenced

by globalization

process,

making them

competitive, focused on a management focused on efficiency and cost-effectiveness and efficiency, making themsimilar to a business organization. In this sense we try to describe what the phenomenon is called entreprisation proposed by Solé, passing through the theory of Economy of Culture and a brief history of the World of Samba. As the focus of analysis information was collected through literature, documents and reports on the carnival field history and Beija-Flor Nilópolis. Was analyzed by following how

is the

process

of structuring and

managing the

school,

demonstrating how it is accomplished the creation and production of the carnival and community participation, and finally draw a relationship with the phenomenon entreprisation. Keywords: Carnival, structure, Beija-Flor de Nilópolis.

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SUMÁRIO

RESUMO......................................................................................................................... 6 ABSTRACT .................................................................................................................... 7 1.

INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 9 1.1

O problema de pesquisa .................................................................................. 9

1.2

Objetivos ......................................................................................................... 11

1.3

Suposições ........................................................................................................... 11

1.4

Delimitação do estudo ....................................................................................... 11

1.5 Relevância do estudo ............................................................................................. 12 2.

REFERENCIAL TEÓRICO ............................................................................... 13 2.1.1

O Mundo do Samba ................................................................................... 13

2.1.2 2.2.1

Economia da Cultura e Gestão Cultural .................................................. 17

2.2.2 2.3 3.

Os desfiles, organizações e quesitos ......................................................... 14 Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval ............................................ 20

Empresarização .............................................................................................. 22

METODOLOGIA................................................................................................. 27 3.1

Tipo de Pesquisa............................................................................................. 27

3.2

Coleta de Dados .............................................................................................. 28

3.3

Análise dos Dados .......................................................................................... 29

3.4

Limitações do Método ................................................................................... 29

4. O PROCESSO DE ESTRUTURAÇÃO E DE GESTÃO DA AGREMIAÇÃO BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS .................................................................................. 31 4.1

Histórico da agremiação Beija-Flor de Nilópolis ........................................ 31

4.2

Histórico do Campo ....................................................................................... 36

4.3

O Processo de estruturação da Beija-Flor de Nilópolis .............................. 44

4.4

O Processo de gestão da Beija-Flor de Nilópolis ......................................... 62

5.

CONCLUSÃO....................................................................................................... 65

6.

REFERÊNCIAS ................................................................................................... 68

7.

ANEXOS ............................................................................................................... 70 7.1

Anexo 1 – Roteiro de Entrevista ................................................................... 70

8


1. INTRODUÇÃO

1.1 O problema de pesquisa Uma das tendências do mundo globalizado é a interação entre organizações e indivíduos. Uma organização é composta por, além do ambiente, de recursos, seja ele humano, capital e tecnológico sobre os quais a organização deverá fazer toda a gestão sobre eles. Os indivíduos, por sua vez, estão diretamente relacionados ao funcionamento das organizações, já que elas são geridas por pessoas e para as pessoas, partindo da ideia que todo o ciclo de vida delas perpassa pelo funcionamento das organizações. De forma que os indivíduos diferem dos outros em diversos aspectos como características, objetivos e estilos de vida, as organizações possuem também as suas singularidades, ao modo de cada uma delas se diferem das outras, mesmo compartilhando o mesmo ambiente. Impulsionado pela globalização as organizações tornaram-se cada vez mais complexas e competitivas devido às mudanças econômicas, culturais e sociais, de modo que alguns modelos de gestão tornaram-se obsoletos frente a essa nova dinâmica. Diante disso, não só as empresas, mas também as organizações públicas e culturais tiveram que acompanhar essas transformações e modernizar-se para conseguir gerir seus recursos e prestar seus serviços à sociedade. A estruturação da gestão nas organizações vem cada vez mais dando foco em resultados, em estratégias, em definição de funções e delegação de responsabilidades. Assim, é possível perceber a introdução de ferramentas e comunicação empresariais e a ênfase em eficiência e eficácia nas organizações, modificando o seu processo de gestão. Atualmente, a sociedade é tratada como cliente ou consumidor, denominações que vem do ambiente empresarial, que passa a ser espelhado tanto para as organizações públicas quanto para as culturais. De acordo com Miguez (2010 apud JAMESON 1997), a cultura se transformou na própria lógica do capitalismo contemporâneo. Nesse contexto as organizações culturais passam a ser produtoras de bens culturais, voltadas para a criação, produção, distribuição e consumo desses bens. Tais fatores tendem a observar

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um fluxo econômico gerada pela produção cultural e intensificando a ligação entre economia e cultura. Sob a forma de um fenômeno cultural (CAVALCANTI, 2006) as escolas de samba são organizações que representam a identidade nacional. Percebendo sua importância na sociedade brasileira, o desfile das escolas de samba foi transparecendo seu sucesso para todo o país e inclusive, ganhando apreciação mundial. Atualmente, atraindo expectadores de diversas partes do país e do mundo. Estima-se que o carnaval carioca movimente, anualmente, cerca de um bilhão de Reais em negócios e gere cerca de 300 mil postos de trabalho (LEITE, CAPONERO, PEREZ, 2010), fato que potencializa a consolidação de uma indústria carnavalesca. De fato, o carnaval passou a ser fonte de exploração econômica, tanto por parte das escolas de samba, tanto por organizações que deste evento tiram proveito, como a rede hoteleira e gastronômica, por exemplo. A realidade das escolas de samba se contrasta com seu princípio histórico: organização social e artística catalisador da alma popular (COSTA, 2001) sem fins lucrativos. A competitividade do evento faz por temperar as agremiações com padrões de eficiência e eficácia, metas, objetivos, prazos, custos, termos incorporados de uma lógica empresarial. Essa mudança de paradigma denomina-se empresarização, termo intitulado por Solè (2004) que se caracteriza pela influência de um comportamento empresarial que as empresas exercem sobre as demais organizações (RODRIGUES, DA SILVA, 2007). Vale ressaltar que a dinâmica social nas escolas de samba não foi abandonada, os fortes laços comunitários não foram desfeitos, a participação efetiva da comunidade local ainda constitui na raiz histórica das agremiações. No entanto, as relações de mercado em sua gestão, o foco no objetivo passa a ser fundamental, já que, a obtenção de patrocinadores e a abertura para a participação do público externo constituem em formas de geração de recursos, principalmente, com a divulgação das marcas parceiras e aquisição de fantasias e ingressos na quadra das agremiações. O discurso de um presidente de escola de samba, em entrevista ao Jornal do Brasil em 1974, faz menção a adoção de modelos empresariais nas escolas de samba: “Com o tempo, o futuro do samba é virar empresa, porque senão não tem dinheiro, não tem carnaval, e a realidade de hoje é carnaval bonito e muito caro” (LEOPOLDI, 2010 p. 101).

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Diante do confronto entre gestão tradicional, voltado para a produção da festa popular, e a adoção de um comportamento empresarial pelas escolas de samba, há a formulação do problema desta pesquisa. Como se dá o processo de estruturação e de gestão na Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis?

1.2 Objetivos O presente estudo tem por objetivo principal analisar o processo de estruturação e de gestão das Escolas de Samba na Baixada Fluminense. Para concretizar tal objetivo, a pesquisa apóia-se no alcance de quatro objetivos intermediários:

1. Realizar um histórico do campo acerca das escolas de samba e da agremiação Beija-Flor de Nilópolis, identificando os fatores históricos, sociais e institucionais que compõem o ambiente interno e externo da agremiação. 2. Identificar a finalidade e as características da Escola de Samba a ser analisada; 3. Descrever e analisar o processo de estruturação da Beija-Flor de Nilópolis; 4. Descrever e analisar o processo de gestão da Beija-Flor de Nilópolis;

1.3 Suposições Parte-se da suposição que as escolas de samba estão absorvendo características o modelo empresarial como modelo de gestão, como proposto no estudo de Solé (2004). Assim, o modelo de gestão faz convergência ao modelo de gestão empresarial, no entanto, deverá ser considerado que as escolas são produtoras de bens de natureza cultural, ou seja, o modelo de gestão a ser utilizado não poderá ser limitado somente ao modelo empresarial.

1.4 Delimitação do estudo Dentre as doze Escolas de Samba do grupo Especial do Rio de Janeiro participantes do carnaval do ano de 2011 o estudo restringe-se por analisar o problema 11


de pesquisa a partir da última campeã do carnaval deste ano: O Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis.

1.5 Relevância do estudo O primeiro ponto relevante tange a questão da contribuição da construção de uma peculiar postura de gestão, partindo do pressuposto que as escolas de samba são organizações culturais, sendo assim, a produção de seus bens difere de uma organização comum, já que, os bens culturais são bens de natureza não-utilitários (LAMPEL, LANT e SHAMSIDE, 2009 apud JULIANO, 2010). O estudo também terá como relevância a concepção da participação e contribuição da Gestão Cultural relacionado ao envolvimento e incentivo das Políticas Públicas nas agremiações. Finalmente, terá a importância de salientar novas perspectivas da Gestão Cultural no contexto brasileiro, identificando, de um modo geral, o seu cenário no país.

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2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1.1

O Mundo do Samba

Seguido de diversas contribuições culturais advindas da interação social na zona portuária e nos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro a cultura popular passa a ser disseminada através do processo de modernização social. O canto e a dança tomam o formato de uma indústria de entretenimento embrionário e informal, e estreitam os laços sociais nas camadas mais populares. Nesse contexto o surgimento do samba engatinha à margem da sociedade e abriga-se entre ex-escravos, prostitutas e marginais. No entanto, o surgimento de novos veículos de comunicação como o rádio, o disco e o fonógrafo fazem por transbordar da marginalidade para a realidade urbana, tornando esse novo gênero musical como a canção popular definidora da cultura popular (GALVÃO, 2009). Fruto da convergência de todas as manifestações carnavalescas como os cordões, os ranchos, as sociedades (COSTA, 2001) as escolas de samba surgem na década de 1920. O nome de batismo vem pelo ponto de encontro dos compositores, malandros e bambas que nas proximidades de uma Escola Normal na esquina das ruas Joaquim Palhares e Machado Coelho, no Largo do Estácio de Sá cujo discurso pelos bambas era: “Se quem ensina às crianças são chamados professores, nós, que sabemos tudo de samba, também somos mestres e formamos uma escola, escola de samba” (COSTA, 2001, p. 211). A partir daí surge a polêmica da autoria do batismo das escolas de samba, onde Ismael Silva declara publicamente sua autoria. Fruto de diversas contestações afirmou: “Quem inventou a expressão escola de samba fui eu” e completou “Deixa falar, é daqui que saem os professores” (COSTA, 2001). Nesse sentido o nome da primeira escola de samba é a Deixa Falar, como forma de resposta aos contestadores. Com a tentativa de apagar a memória desordeira herdada dos ranchos e cordões que transformavam a folia em pancadaria o termo escola foi brilhantemente adotado e trazia consigo uma conotação pedagógica suavizando assim, a nova realidade das escolas. Na interpretação dos sambistas tradicionais a nomenclatura propunha um termo inocente e “Com isso julgavam-se salvas as aparências” (GALVÃO, 2009). A partir daí é possível destacar o surgimento de um universo cujo samba é matéria-prima, intitulado mundo do samba por Leopoldi (2010b) que envolve “um conjunto de manifestações sociais e culturais, emergentes nos contextos em que o 13


samba predomina como forma de expressão musical, rítmica e coreográfica” (LEOPOLDI, 2010b). Desde o surgimento das escolas de samba elas passaram a ser as grandes protagonistas do carnaval carioca. No mundo do samba diversas mudanças foram sendo absorvidas no campo musical, instrumental, coreográfico e plástico e regulamentar (COSTA, 2001). Por um lado, diversas opiniões convergem que o samba perdeu sua “originalidade” em função da produção de um espetáculo cinematográfico, no entanto, no mundo do samba, seguindo a linha de Costa (2001), seria incoerente não utilizar linguagens e símbolos contemporâneos para passar ao público o discurso desejado pelas escolas de samba. Por outro lado, ao adotar certas práticas formais o mundo do samba afasta o seu espírito carnavalesco original, sendo assim, os blocos carnavalescos vem crescendo e ganhando cada vez mais a atenção do público com o objetivo de recuperar a originalidade do espírito carnavalesco. Segundo Bezerra (2010) “As escolas de samba são um tipo de organização que se caracteriza pela capacidade de agregar pessoas de todas as faixas etárias, atribuindo-lhes papéis importantes em sua estrutura interna e na composição das alas para o desfile e, ainda, dando-lhes oportunidade para que manifestem múltiplas possibilidades expressivas”. Seguindo esta linha de raciocínio deve ser considerado que a escola de samba constitui em uma importante organização de integração social, mobilizando diversos membros da comunidade, formando uma rede cooperação no qual cada função é determinante para esta organização.

2.1.2

Os desfiles, organizações e quesitos

A competição dos desfiles das escolas de samba é tradicional desde o seu surgimento. Vinculada ao bairro de origem, a disputa se inicia pela defesa de sua localidade, como por exemplo: Mocidade Independente de Padre Miguel, Beija-Flor de Nilópolis, Salgueiro, Unidos da Tijuca, Mangueira, União da Ilha do Governador (CAVALCANTI, 2006). Como destaca Barbieri (2010) o desfile é a convergência de todo ciclo anual criativo e produtivo da escola e é marcado pelo apogeu da expansão das interações sociais. No entanto, o desfile também é uma competição em que as escolas de samba demonstram para o público o fruto do seu trabalho. Nesse sentido, Barbieri (2010) 14


ressalta a natureza dos desfiles como um momento concomitante de rivalidade e confraternização pelas escolas de samba. Em uma competição existem dois extremos: um vencedor e um perdedor. No desfile das escolas de samba não é diferente. O desfile é regido por regras e as escolas são avaliadas por quesitos. Para àquela (s) que obtiver (em) o maior número de pontos, respeitando o critério de desempate vigente classifica-se como campeã (s) do carnaval e por seguinte, no outro extremo, aquela (s) que alcançar (em) o menor número de pontos é (são) desclassifica (s) conforme o regulamento pré-estabelecido e retrocede ao grupo anterior. As escolas obedecem à seguinte hierarquia de competição (Tabela 1): Grupo

Grupo Especial

Grupo de Acesso A Grupo Rio de Janeiro 1 Grupo Rio de Janeiro 2 Grupo Rio de Janeiro 3

Grupo Rio de Janeiro 4

Grupo de Avaliação

Entidade

Local de

Dia de

desfile

desfile

Domingo/

Participantes

Sambódromo

LESGA

Sambódromo

Sábado

12

AESCRJ

Sambódromo

Terça

12

Domingo

14

AESCRJ

AESCRJ

AESCRJ

AESCRJ

Intendente Magalhães Intendente Magalhães

Intendente Magalhães

Intendente Magalhães

Segunda

12

15

Primeira

Samba

Divisão

Zona

Segunda

Portuária

Divisão

Carandiru e

Terceira

Zona Port.

Divisão

Carandiru 1

Quarta

e2

Divisão

e 2 e prox. quadras Carandiru 2

Terça

8

e prox. quadras Carandiru e

Terça

2

Neutra

Cidade do

Carandiru 1 Segunda

cação

dos desfiles

(2010)

LIESA

Classifi-

Preparação

prox. quadras

Quinta Divisão

Sexta Divisão

Sétima Divisão¹

Tabela 1 – Quadro de referência da hierarquia competitiva ¹ Nesse grupo apenas a Renascer de Jacarepaguá preparava suas alegoria no Carandiru. Fonte: Barbieri, 2010.

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No ano de 2010 o desfile carnavalesco, na cidade do Rio de Janeiro, estava divido em sete categorias ou divisões. Cada grupo hierárquico tem uma entidade organizadora que tem por objetivos articular a organização dos desfiles de carnaval do respectivo grupo e representá-lo (Barbieri, 2010). Os desfiles das escolas de samba obedecem a critérios de avaliação, esses critérios são denominados quesitos. Segundo Cavalcanti (2009, p.56) “os quesitos pontuam formalizam o conjunto dos elementos que compõem o desfile”. A configuração atual dos quesitos é formada pelos seguintes componentes: bateria; samba-enredo; harmonia; evolução; enredo, conjunto; alegorias e adereços; fantasias; comissão de frente; mestre-sala e porta-bandeira (LIESA, 2011). Esta forma de julgamento é a mesma desde a década de 1960 (Cavalcanti, 2009) e atende aos seguintes requisitos: 

Bateria: Considera o ritmo, a sustentação da regularidade da cadência dos instrumentos em harmonia com o samba-enredo;

Samba-Enredo: É julgado pela musicalidade, pela melodia e pela letra em adequação ao enredo. Em síntese “traz a narração do enredo para o plano sonoro” (Cavalcanti, 2009, p.57);

Harmonia: Envolve os dois quesitos acima, que é a sincronia entre canto e o ritmo. Leva em consideração o canto da escola em sua totalidade em consonância com Intérprete da escola;

Evolução: Representa a coesão do desfile, a progressão uniforme da dança em conformidade com o ritmo que está sendo executado pela bateria, leva em consideração a vibração e empolgação dos componentes, sendo alvo de penalização a existência de “embolação” ou “buracos” nas alas;

Enredo: É o quesito pioneiro do desfile, é a origem do desfile carnavalesco; representa a transposição de uma temática para o plano artístico; considera a criatividade e a o desenvolvimento da temática em relação às fantasias, alegorias e adereços;

Conjunto: É a interpretação de toda a composição da escola, representa a “sequência integral e fluência da apresentação, a unidade e o equilíbrio artístico das diversas formas expressivas do desfile (musical, dramática, 16


visual) e a “energia de comunicação” dos participantes (Cavalcanti, 2009, p.58); 

Alegorias e Adereços: Estão em avaliação neste quesito qualquer estrutura cenográfica sobre rodas (Alegorias) e qualquer estrutura cenográfica que não esteja sobre rodas (Adereços), busca a transmissão do conteúdo do enredo através do entrosamento de cores, materiais e formas nas estruturas;

Fantasias: Estão em julgamento as fantasias que são apresentadas pela escola, com exceção daquelas que estão sobre as Alegorias, a Comissão de Frente e o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, possuem o objetivo semelhante ao quesito anterior que é transmissão do enredo através da uniformidade das roupas e acessórios;

Comissão de Frente: Representa o cerimonial, a saudação ao público e apresentação da escola de forma cortes;

Mestre-Sala e Porta-Bandeira: É a avaliação do casal portador e guardião do “símbolo sagrado de uma escola de samba, seu pavilhão” (Cavalcanti, 2009, p.57), a exibição é apresentada pelo bailado do ritmo do samba com movimentos integrados e harmônicos entre o casal. Fonte: Cavalcanti, 2009; Liesa, 2011.

Estes quesitos compõem a avaliação dos desfiles carnavalescos e representam a expressão artística e cultural das escolas de samba. Cada agremiação possui o seu estilo de transmitir o significado do seu enredo através dos símbolos, isso que tempera o carnaval carioca com diversidade e o equilíbrio de luxuosidade e irreverência dos símbolos apresentados pelas escolas de samba.

2.2.1 Economia da Cultura e Gestão Cultural Durante muito tempo o setor cultural não foi objeto de reflexão econômica (LINS, 2009). No entanto, “a cultura invadiu campos do conhecimento que até muito recentemente mantinham-se distantes e, não raro, hostis quanto às questões culturais” (MIGUEZ, 2008), sendo assim a cultura chegou a atingir até o campo da economia, um campo formado por rigidez quanto à inserção de variáveis como relatado por (Smith e Ricardo, apud MIGUEZ, 2008) [...] “as investidas dos economistas sobre o campo da 17


cultura estiveram circunscritas à dita “alta cultura” (as belas artes, a literatura e as artes chamadas performáticas – teatro, dança, ópera e música clássica) e abordavam, regra geral, questões relacionadas com o mecenato público e privado e os processos relativos à formação dos preços das obras de arte”. Segundo a UNESCO, o conceito de Economia da Cultura “engloba atividades relacionadas [...] à criação, produção, e comercialização de conteúdos que são intangíveis e culturais em sua natureza. Estes conteúdos estão protegidos pelo direito autoral e podem tomar a forma de bens e serviços. São intensivas em trabalho e conhecimento e que estimulam a criatividade e incentivam a inovação dos processos de produção e comercialização”. (UNESCO, 2005 apud CAIADO, 2008). Dentro dessa lógica, é possível destacar a fragilidade entre a relação entre cultura e economia, tal fato é ressaltado ao mencionar que a liberdade e o trabalho artístico é associado a algum valor econômico e inclusive, alguns economistas não consideram a cultura como objeto de estudo do campo econômico (LIMA, 2008). De acordo com Tolila (2007) os teóricos da ciência econômica, os pais fundadores da economia política, Smith e Ricardo, os gastos nas artes abarcam apenas os lazeres e não poderiam contribuir para a riqueza das nações. Por outro lado, já é possível relevar que a cultura tem lugar de destaque na economia e constitui em um importante passo para o desenvolvimento dos países, através do processo de produção, comercialização e consumo dos produtos culturais. Assim, diversas atividades culturais se deparam com um contexto econômico (THROSBY, 2001 apud LIMA, 2008). Segundo Tolila (2007) as transformações sociais, como o aumento do tempo livre o gozo do lazer e a investimento dos gastos em cultura por volta do fim do século XIX e, de forma mais evidente, no século XX, fizeram com que a cultura fosse visualizada como fonte consumo e merecesse a atenção dos economistas. Lima (2007) ressalta que “diversas atividades culturais apresentam dimensão claramente econômica ao se envolver em processos de produção, circulação e consumo de produtos”, participando ativamente na economia e no desenvolvimento do país, justificando a motivação do governo para subsidiar programas, isentar impostos e a formação de parcerias com os demais agentes econômicos. Logo é possível traçar uma relação entre produto e consumo de bens culturais. Hirsch (1972 apud LAMPEL, LANT e SHAMSIDE, 2009, p. 22) considera […] que as indústrias culturais são sistemas de organizações mediadoras do fluxo de bens entre 18


produtores e consumidores. (JULIANA, 2010). Assim, os bens culturais vêm sendo um produto peculiar para as organizações que os produzem, e é nessa linha que estas organizações vêm adotando um modelo gerencial que as norteiam com o objetivo de obter uma produção eficiente e eficaz. (DOURADO, HOLANDA, DA SILVA, 2008). Para Tolila (2007) “o setor cultural demanda cada vez mais meios dos tomadores de decisões, que devem arbitrar as alocações de recursos de maneira racional e quantificada para justificar democraticamente suas escolhas perante os cidadãos”. Nesse sentido, a indústria cultural trata seus recursos como escassos e limitados, objetivando o atendimento a necessidade de seu consumidor. De acordo Juliano (2010) apud Lampel, Lant e Shamsie (2009) “as indústrias culturais tornaram-se um dos mercados mais importantes e promissores do início do século XXI, com influência extraordinária nos valores, atitudes estilo de vida dos indivíduos”, reforçando a hipótese da evidência da participação do ciclo de produção na economia devido à participação cotidiana na vida dos indivíduos. Juliano (2010) apud Rubim (2005) ressalta que “as empresas de produção cultural constituem-se como parte fundamental da cadeia produtiva da cultura, ao desempenharem a função de organização da cultura, que se concretiza através do acionamento de uma variedade de recursos financeiros, materiais, técnicos, tecnológicos, humanos, entre outros, para tornar viável e dar concretude aos produtos.” Nesse sentido, a gestão cultural passa deve ser compreendida como um modelo peculiar de gestão. Ainda seguindo o entendimento de Juliano (2010) “os gestores culturais precisarão acumular além das habilidades inerentes ao processo gerencial, habilidades específicas da área cultural, uma vez que seu trabalho está relacionado aos bens simbólicos”. Diante disso, a gestão cultural pode ser confundida em certos pontos com a gestão empresarial, apesar de serem de naturezas distintas devido à gestão de recursos comuns às empresas. A lógica empresarial adotada como referência por diversas organizações culturais está caracterizando tais organizações como empresa, atuantes em seus respectivos mercados, e criadores de estratégias gerenciais para sua competição e sobrevivência no mercado, e, portanto, sendo alvo de relação ao conceito de empresarização proposto por Solé (2004).

19


2.2.2 Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval Nesta seção será desenvolvida a Cadeia produtiva do carnaval, que segundo Filho et alli (2009) envolve um conjunto de atividades formado pelas seguintes cadeias e serviços abaixo:

1.

Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial

1.1

Atividades diretas Macro-elos; Pré-produção e ensino acadêmico; Produção – criatividade e execução; Distribuição – divulgação e marketing; Comercialização e consumo.

1.2

Atividades indiretas Turismo; Audiovisual; Indústria fonográfica; Indústria editorial e gráfica; Indústria de bebidas; Entretenimento.

1.3

Direitos Propriedade intelectual (direito autoral, propriedade industrial, licenciamentos); Direitos de personalidade (direito de imagem e direito de arena).

1.4

Políticas Públicas (investimentos em infraestrutura, fomento e incentivos fiscais).

2.

Desfile das escolas de samba do Grupo de Acesso.

3.

Blocos e bandas.

4.

Atividades especializadas (bordadeiras, fabricação de máscaras, calçados).

5.

Comércio e exportação.

6.

Atividades sociais, culturais e profissionais.

Pensar em carnaval é associar a festa ao lazer e ao entretenimento. Como origem do carnaval as associações sociais como os ranchos, surgidos nos fins do século XIX 20


que já se apresentavam ao som de óperas com requintadas fantasias e carros alegóricos que eram organizados pelas camadas mais ricas da sociedade (CAVALCANTI, 2001) e que e os blocos que representam a explosão mais espontânea e popular do carnaval carioca (COSTA, 2001). Nesse sentido, os blocos e os ranchos foram as estruturas de formação para as escolas de samba, assim, surgindo a pioneira Deixa Eu Falar, cuja origem é o bairro do Estácio, no centro da cidade do Rio de Janeiro na década de 1920 fruto de atenções populares (CAVALCANTI, 2001). O cunho puramente popular e improvisado dos desfiles das escolas de samba começou a dar lugar ao profissionalismo e interesse econômico em 1963, em decorrência da mudança de local dos desfiles, da Avenida Rio Branco para Avenida Presidente Vargas conforme sugestão de Hiram Araújo, diretor cultural da Liga Independente das Escolas de Samba na época: “[...] Em 1963, os desfiles foram transferidos para Avenida Presidente Vargas, com as arquibancadas tubulares e a cobrança de ingresso [...]. É nesse momento que há uma mudança de olhar do carnaval, que passa a ser visto de cima para baixo. Com isso, as artes plásticas começam a ganhar mais destaque, dando início à era do espetáculo, do show, do visual. As escolas crescem para cima e os destaques predominam sobre o samba no pé.” (Filho et alli ,2009, p. 313:314). Verifica-se diante do exposto a verticalização do carnaval qualificando os desfiles como espetáculos concebendo a necessidade de profissionais para a participação da produção e realização. Percebendo a ascensão dos desfiles carnavalescos, a indústria televisiva demonstrou pleno interesse em transmitir e comercializar os desfiles, no entanto, o custo de preparação da infraestrutura das estruturas das arquibancadas eram enormes e com o mínimo de contrapartida do governo (Filho et alli ,2009). Nesse sentido, o ano de 1984 marca dois nascimentos importantes, o da Liesa e do Sambódromo. Ambos favoreceram a profissionalização das escolas de samba. A criação do Sambódromo se dá a partir da necessidade de uma “arena” destinada aos desfiles carnavalescos devido à falta de infraestrutura dos desfiles nas ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro e a Liesa surge com o objetivo de normatizar dos desfiles e a organização do carnaval. (Filho et alli ,2009). Segundo o Lessa (2002 apud Filho et alli ,2009) a construção do Sambódromo definiu uma arquitetura permanente para a apresentação do espetáculo de carnaval. 21


Por seguinte, diante das diversas modernizações realizadas para os desfiles carnavalescos é possível verificar que a produção do carnaval abarca diversas atividades que conduzem ao fluxo econômico na Cadeia Produtiva proposta por Filho et alli (2009) que envolve a Pré-Produção, Produção, Distribuição, Consumo das atividades carnavalescas, além das atividades econômicas indiretas como turismo, indústria de bebidas, fonográfica e audiovisual que geram emprego e renda, levando em consideração que somente os desfiles do Grupo Especial envolve gastos estimados em cerca de R$ 685 milhões e mobiliza cerca de 470,3 mil trabalhadores, segundo Filho et alli (2009, p.335). 2.3 Empresarização A presente participação das organizações na sociedade acaba por transparecer a crescente influência do ambiente organizacional na dinâmica social. As organizações estão presentes e perpassam por todas as etapas da vida dos indivíduos. A relação de dependência dos indivíduos com as organizações faz remete a uma interpretação de Etzioni (1967): a nossa sociedade é uma sociedade de organizações. A predominância do modelo empresarial na sociedade e nas organizações acaba por imperar este como o modelo universal de organização das atividades humanas (RODRIGUES, SILVA, 2005). Modelos de gestão, adoção de estratégias, ferramentas administrativas estão sendo introduzidas por diversas organizações cuja estrutura não é empresarial. Segundo Solè (2004) a influência de modelos empresariais que vem ocorrendo nas organizações sem fins lucrativos é denominada empresarização. De acordo com Solè a empresarização é fruto da falta de um modelo organizacional adaptado para realidade de tais organizações, logo, a transposição de termos como eficiência, eficácia, lucro marcam o novo perfil dessas organizações. No entanto, deve ser observado que tais modificações conduzem ao entendimento que todas as atividades convergem para a criação de produtos e geração de lucro, ou que todas as produções das organizações deverão ser tratadas como mercadorias. De acordo com Solé (2004) não é raro encontrar organizações que, orientadas pelo modelo empresarial, passam a adotar características que anteriormente eram exclusivas das empresas. Nesse contexto, é difícil, até mesmo de distinguir empresa de organização em termos conceituais. 22


Diversas organizações que não tem o perfil empresarial como, por exemplo, a Igreja e Estado tem adotado o propósito do modelo empresarial. Fato que pode ser atribuído tanto a ausência de um de um modelo adequado a essas organizações (SOLÈ, 2004) quanto às pressões isomórficas do ambiente que, por sua vez, acabam influenciando a função empresarial nessas organizações. Na concepção de Pareto (1996) apud Rodrigues e Silva (2005) “a empresa é a organização que reúne os elementos da produção e que os dispõe de maneira a realizála. Nesse sentido, a empresa está sempre, em teoria, em busca da minimização dos custos e maximização dos lucros e resultados através da comercialização dos seus produtos ou serviços. Solé (2004) salienta o paradigma de quais são os elementos constituintes para a distinção de uma empresa comparada as outras organizações. O autor propõe cinco postulados gerais para a verificação: (1) um conjunto – singular – de relações humanas; (2) um fenômeno social total; (3) uma organização histórica; (4) uma organização característica e fundamental do mundo que se considera moderno e desenvolvido; e (5) como toda organização humana, a empresa é um evento contingente da história humana que poderia ter tomado outro rumo. (SOLÉ, 2004 apud RODRIGUES e SILVA, 2005). Na busca de um tipo ideal para a empresa Solé (2004 apud Durieux, 2005) define 22 traços para serem seguidos na concepção de uma teoria modeladora comum a todas as empresas: 1)

A empresa é um conjunto humano, mais ou menos estável, vasto ou reduzido, mais ou menos concentrado, podendo desaparecer a todo o momento – A empresa pode ser um pequeno conjunto de pessoas ou uma grande associação, podendo estas ser compradas ou se aliarem a outras empresas, falirem ou simplesmente desaparecerem;

2)

A empresa é uma organização na qual a atividade é única ou múltipla – A empresa pode ter seu foco de produção uma única especialidade de produtos ou serviços ou diversas especialidades;

3)

A empresa é uma organização que concebe, produz e vende mercadorias – Os bens e serviços produzidos não são destinados a auto-suficiência, mas sim, a comercialização desses em troca de um determinado meio de pagamento;

4)

A empresa é uma organização que compete permanentemente com outras empresas – A empresa pode ter variada quantidade e qualidade de concorrentes,

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de acordo com o setor, no entanto, a inexistência de concorrentes é anormal, o que pode caracterizar a presença de monopólio; 5)

A empresa é uma organização que supõe outra organização: o mercado – Levase em consideração que o mercado constitui em uma organização devido à interação de pessoas em sua dinâmica. A amplitude do mercado é variável, pode ser local, internacional e até mesmo mundial;

6)

A empresa é um processo de criação destrutiva de relações entre humanos – Devido à constante e complexa competição e interação do mercado, a empresa cria produtos e serviços, desenvolvem regras e políticas, muda sua tecnologia objetivando sua manutenção no mercado, para isso acaba demitindo para reduzir custos e garantir sua sobrevivência;

7)

A empresa é um conjunto de relações incertas entre humanos – A reação do mercado com relação à criação de um produto ou serviços e imprevista, sendo assim, não se pode prever como este se comportará diante da dinâmica do mercado, gerando incerteza na sua viabilidade;

8)

A empresa é uma organização com moeda, capital e benefício econômico – Para a criação e manutenção de uma empresa é preciso ter capital financeiro, para os investimentos em produção e desenvolvimento e para sustentar o seu corpo técnico e administrativo, sendo assim, presume-se a implicação de uma economia financeira em torno da empresa;

9)

A empresa é uma organização com escritura e contabilidade – A empresa possui ferramentas formais para a visualização das operações contábeis e financeiras;

10)

A empresa é uma propriedade privada – De fato, a empresa presume-se a existência de um ou mais donos, podendo ser uma pessoa física ou um grupo de pessoas. A empresa é o objeto de posse e elemento diferenciador dos que possuem para os que não possuem.

11)

A empresa é uma mercadoria – A empresa pode ser vendida para uma pessoa, um grupo e até mesmo outra organização. A empresa é um conjunto complexo que pode ser comercializado.

12)

A empresa é uma organização salarial – A empresa é uma organização empregadora e paga salários. Ela dispõe de recursos financeiros para a contratação dos serviços de pessoas, estas prestam seus serviços em troca de remuneração da sua força de trabalho. 24


13)

A empresa é uma relação dirigente/dirigido, servidão voluntária – A empresa é um organismo que opera através da relação de emprego com assalariados, nesse sentido, classifica-se a servidão voluntária, já que, há a aceitação do empregado em servir a empresa em troca de um salário;

14)

A empresa é uma organização que produz e implica em desemprego – A empresa tem o poder de empregar e demitir pessoas, nesse sentido, o empregado é potencialmente classificado como desempregado, já que, o desemprego é uma condição existente na empresa;

15)

A empresa é uma organização submetida ao direito, às leis – a empresa é submissa às leis vigentes que regulam sua atividade, seu setor e seu ambiente de um modo geral;

16)

A empresa é uma organização que está sujeita a outra organização: o Estado – o estado tem como uma de suas funções a asseguração da propriedade privada através de seus atos como leis, decretos e portarias que normatizam e objetivam a manutenção do bem-estar social;

17)

A empresa é uma organização onde a propriedade e a direção podem estar confundidas ou separadas – A empresa pode ser gerida pelo próprio proprietário ou através de terceiros contratados para tal função;

18)

A empresa possui divisão do trabalho – A estruturação do trabalho na empresa, independente do setor e do tamanho, é divido em processos, funções, tarefas ou operações. Sendo assim, os empregados estão especializados em exercer suas atribuições de acordo com o que lhes foram determinados pela divisão do trabalho pela empresa;

19)

A empresa é uma organização que implica e produz indivíduo – A percepção de indivíduo se contrapõe a ideia de comunidade, nesse sentido, a empresa perpetua a noção de indivíduo devido à competitividade impulsionada pelas pressões da empresa e de outras empresas e organizações;

20)

A empresa é uma organização que produz linguagem – A empresa possui um conjunto de códigos que caracterizam uma linguagem própria ou do setor de atuação;

21)

A empresa é uma organização que produz e implica humanos insatisfeitos – Como os seres humanos possuem diferentes anseios e necessidades, diante disso, é possível caracterizar a dificuldade da empresa em equilibrar os desejos e

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objetivos da empresa com os do indivíduo enquanto empregado e/ou como cliente dos produtos ou serviços da empresa; 22)

A empresa é uma organização que implica e produz uma concepção de felicidade – A empresa supõe na que a felicidade é gerada na satisfação da compra e consumo dos bens e serviços produzidos pela empresa.

Estes 22 traços compõem a fundamentação do conceito de empresarização do mundo proposto por Solé (2004), construindo, assim, um tipo ideal de empresa. Vale ressaltar que cada traço é condição necessária e não suficiente para a caracterização de uma empresa.

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3. METODOLOGIA

3.1 Tipo de Pesquisa Tomando por referência as classificações de pesquisa apresentadas por Vergara (2004) e por Gil (2008) é possível qualificar esta pesquisa em relação a dois critérios: quanto aos fins e quanto aos meios. Diante desta proposta, a pesquisa é classificada como descritiva quanto aos fins. Segundo Vergara (2004) a pesquisa descritiva objetiva expor determinadas características sobre um fenômeno, sendo assim, a pesquisa não procurar explicar o fenômeno empresarização aplicado nas escolas de samba, mas sim descrevê-lo nesse contexto. Outrossim, a pesquisa é destacada por descrever as principais características em relação ao conceito de empresarização estudando o histórico, evolução da estrutura organizacional, aplicação das práticas administrativas e empresariais utilizadas nas escolas de samba e também do seu contexto organizacional. Por seguinte a pesquisa adotou três critérios para a classificação quanto aos meios de investigação: bibliografia, pesquisa de campo e documentos. Segundo Gil (2008) a pesquisa bibliográfica se apoiou na pesquisa em materiais já elaborados. Sendo assim, o primeiro critério constituiu na busca por leituras que são referências conceituais, estudos já realizados e atualizações sobre o objeto de estudo. Obras literárias, como livros clássicos de pesquisadores acerca do assunto serão utilizados para o enriquecimento teórico da pesquisa. As obras de divulgação, como artigos científicos e publicações serão utilizados como atualizações e novas concepções do assunto. Segundo Vergara (2005) constitui na investigação realizada no ponto de ocorrência do fenômeno ou o lugar que possui os elementos para explicá-lo, logo, o segundo critério tem por objetivo constatar as convergências e divergências conceituais através da observação direta no cotidiano das agremiações e entrevistas com seus participantes diretos. O terceiro e último critério segue a concepção de Gil (2008) visa à investigação documental do acervo arquivado nas escolas e nos órgãos que possuem vínculo com 27


essas organizações tais como RIOTUR e LIESA para a abordagem de rotinas, informações e também a busca de fotografias e ilustrações para o enriquecimento contextual e histórico da pesquisa.

3.2 Coleta de Dados A coleta de dados se concentrou no mundo do samba – termo intitulado por Leopoldi (2010) – da região metropolitana do Rio de Janeiro, tendo como unidade de análise a agremiação que constitui na última campeã do carnaval carioca, em 2011: a Beija-Flor de Nilópolis. A coleta de dados se apoiou em duas técnicas utilizando por base aqueles apresentados por Vergara (2009) que são: Entrevista e Observação. Na entrevista houve a preocupação da interação com os participantes das agremiações, tais como gestores, carnavalescos, membros da velha-guarda para a investigação de experiências não registradas em documentos, ou seja, são marcadas pela vivência e possuem aspectos subjetivos. O tipo de entrevista foi individual, pois esta se concentrou em coletar informações de cada entrevistado individualmente. A estrutura da entrevista foi semiaberta, pois houve uma preocupação com o seguimento do roteiro, no entanto, devido à possibilidade de riqueza e detalhes nas respostas recebidas houve a necessidade de admitir que os entrevistados tivessem liberdade para relatar suas experiências, de acordo com o roteiro proposto. A técnica de observação buscou descrever e compreender os fatos na agremiação a partir da investigação dos eventos e interações das escolas com os membros e as organizações externas. O critério de estruturação da observação foi estruturado, devido à preocupação em analisar o processo de estruturação e gestão na escola de samba. Assim sendo, a observação teve por objetivo criar meios que possibilitassem a visualização e mensuração do problema de pesquisa, facilitando a compreensão do objeto de estudo. Vale ressaltar que a coleta de dados também se realizou pela busca de material bibliográfico acerca do assunto e documentos que proporcionaram apoio formal para a identificação de informações relevantes.

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3.3 Análise dos Dados Os dados colhidos foram tratados de forma qualitativa, e provocaram um entendimento entre a correlação entre o problema de pesquisa e os objetos estudados. A técnica de tratamento de dados a ser utilizada foi Análise de Conteúdo, ou seja, foram analisadas as mensagens provenientes da coleta de dados gerando informações que, em sua maioria serão qualitativos, porém, abrindo a possibilidade recepção de informações quantitativas. Desde modo, provocaram uma reflexão contextual entre teoria, atualidade e entendimento de uma nova dinâmica organizacional no campo da cultura. Seguindo a percepção de Gil (2008) a análise de dados foi subdividida em quatro fases: a redução de dados, a categorização destes dados, a interpretação e por final a emissão do relatório. Nesse sentido, com esta estruturação buscou-se separar a análise de dados em etapas bem definidas objetivando a operacionalização dos dados colhidos. Primeiramente, a redução dos dados objetiva todo o processo de seleção e simplificação dos dados originais. Nesse sentido, os dados colhidos da observação nas agremiações e das entrevistas realizadas pelos participantes destas, foram selecionados de acordo com os objetivos da pesquisa. Por seguinte, a categorização dos dados buscou classificar e organizar os dados para que se fosse possível facilitar a definição de conclusões do problema de pesquisa. Assim, buscou-se a classificação dos dados em categorias e o cruzamento desses com o referencial teórico. A interpretação de dados consiste na terceira fase da análise de dados e foi relacionado à descrição dos dados buscando a explicação da relação entre o problema de pesquisa e os dados já categorizados. Finalmente, a última fase consiste na elaboração do relatório conclusivo com a apresentação dos resultados da pesquisa. Vale ressaltar que nesta fase foi feita a explanação dos dados pesquisados de acordo com a problemática inicial. Portanto, o relatório teve o caráter conclusivo da análise dos dados e da pesquisa, propriamente dita.

3.4 Limitações do Método Possíveis limitações na pesquisa devem ser consideradas, estas são pontuadas a seguir de acordo com o método utilizado. 29


Alguns membros das agremiações podem não estar dispostos a conceder entrevistas devido à sazonalidade presencial nas escolas. Membros de alto escalão como Carnavalescos, Diretores de Carnaval e Diretores de Harmonia podem não estar disponíveis para entrevistas ou podem omitir de alguns dados estratégicos ou esquecer algumas informações que poderão enriquecer a pesquisa. Quanto à análise documental, deve ser levado em consideração, que alguns documentos poderão estar sendo mantidos em sigilo ou não disponíveis para o público, podendo trazer dificuldades na coleta e tratamento dos dados.

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4. O PROCESSO DE ESTRUTURAÇÃO E AGREMIAÇÃO BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS

DE

GESTÃO

DA

4.1 Histórico da agremiação Beija-Flor de Nilópolis Nascida no Natal do ano de 1948, a Beija-Flor de Nilópolis surgiu como um bloco cuja formação foi realizada pelo grupo formado entre Milton de Oliveira (Negão da Cuíca), Helles Ferreira da Silva, Edson Vieira Rodrigues (Edinho do Ferro Velho), Mário Silva, Walter da Silva, Hamilton Floriano e José Fernandes da Silva. Diante de várias discussões sobre o nome do bloco, eis que D. Eulália de Oliveira, mãe de Milton, o batizou sob o nome de Beija-Flor, cuja inspiração procede do Rancho Beija-Flor, situado em Marquês de Valença, em Minas Gerais (GRES Beija-Flor de Nilópolis, 2011). A Associação Carnavalesca Beija-Flor teve seu primeiro desfile em 1949 pela cidade de Nilópolis e contava com cerca de 40 foliões, que colocaram o bloco na rua com instrumentos herdados de outras agremiações, porém, sem fantasias. No ano seguinte, em 1950 o desfile do bloco foi considerado como bem-sucedido no bairro. Vestidos de azul e branco, todos pararam para ver a Beija-Flor passar na Rua Mirandela (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002) Em 1953 o Bloco Associação Carnavalesca Beija-Flor saiu vitorioso do concurso de blocos em seu bairro e foi inscrita por Silvestre David do Santos (Cabana), que era membro integrante da ala dos compositores, como escola de samba cujo nome era Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor, na Confederação das Escolas de Samba, para o desfile oficial de 1954, no segundo grupo (GRES Beija-Flor de Nilópolis, 2011; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Em 1954, ano do seu primeiro desfile, a Beija-Flor foi consagrada como a campeã de seu grupo com o enredo “O Caçador de Esmeraldas”, sendo assim, classificada para o grupo I, no qual permaneceu até 1963, conquistando a segunda colocação no grupo com o enredo “O Dia do Fico”. Depois deste ano, a escola passou por uma crise e regressa ao Grupo II e, posteriormente ao Grupo III (GRES Beija-Flor de Nilópolis, 2011; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). No período 1967 a 1968 assume a presidência da escola Anízio Abraão David e a escola consegue retornar ao Segundo Grupo. Quatro anos mais tarde Anízio retorna a agremiação ao lado de seu irmão Nelson Abraão David, que havia se casado com 31


Marlene Sennas, na época destaque da escola e filha do primeiro presidente da escola José Rodrigues Sennas. Através da parceria entre Nelson e David, a família Abraão David começou a realizar um trabalho de reestruturação da escola (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Segundo Aloizio Ribeiro, presidente da Velha Guarda da escola desde 1983 “a Beija-Flor teria acabado se não fosse a família Abraão David. Eles botaram ordem na casa, fizeram eventos para arrecadar dinheiro, construíram uma nova quadra e levaram a escola definitivamente para o primeiro grupo”. Nesse sentido a escola retorna ao grupo I no ano de 1974 presidida por Anizio Abraão David (GRES BeijaFlor de Nilópolis, 2011; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Diante da identidade entre o já consagrado Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor e o município de Nilópolis, o presidente Anizio David, determinou que a escola fosse chamada “Beija-Flor de Nilópolis” e assim ter seu nome vinculado ao município de origem (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). O ano de 1976 é marcante para a escola. Depois de conquistar o bicampeonato pelo Salgueiro em 1975, Joãosinho Trinta, um dos mais renomados carnavalescos do carnaval carioca, foi convidado por Anizio David para trabalhar na Beija-Flor (CAVALCANTI, 2006). Nesse ano, o presidente Anizio tinha como ideia de enredo a homenagem sobre a vida Natal da Portela e nasce com a sugestão de Joãosinho Trinta o enredo que seria a conquista do primeiro campeonato no Grupo I da escola “Sonhar com rei dá leão” (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Joãosinho Trinta representaria um ícone na escola, na qual seria sua casa até 1992. Maranhense, bailarino e cenógrafo do Tetro Municipal é responsável pela superação de temas patrioteiros e nacionalistas em virtude da introdução de enredos que apelam para o maravilhoso e o fantástico. Revolucionou os padrões estéticos dos desfiles com a introdução da na nudez total nos desfiles e o crescimento na altura dos carros alegóricos em função da verticalização das arquibancadas e ao nível da torre de transmissão de televisão (CAVALCANTI, 2006) como afirma Hiram Araújo, pesquisador de carnaval, “Com as arquibancadas cada vez mais altas, as escolas eram vistas muito do alto, o que obrigou o espetáculo a crescer para cima. Esse crescimento vertical é o que chamamos de estilo barroco clássico, que foi lançado em 1976 pela Beija-Flor com o trabalho desenvolvido por Joãosinho Trinta” (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002, p.12).

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O ano de 1976 também foi marcado pela estreia de Luís Antônio Feliciano Marcondes, que se consagrou como um dos ícones da escola com o apelido: Neguinho da Beija-Flor. Além de ter participado da composição do samba campeão desse ano, se consagrou com o público pela sua voz marcante, e tem o posto de puxador oficial da escola a 35 anos (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Em 1977 a escola conta com um reforço advindo do Acadêmicos do Salgueiro, o diretor de Harmonia e atual Diretor Geral de Carnaval Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla. Neste ano, a escola conquistou o seu bicampeonato com o enredo “Vovó e o rei de Saturnália na corte egípcia” e em 1978 conquista do seu terceiro título consecutivo com o enredo “A criação do mundo na tradição nagô” (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). A Beija-Flor de Nilópolis perpassou os anos 80 sempre entres as primeiras colocadas no seu grupo, tendo como característica surpreender o público através das inovações nos desfiles provocadas por Joãosinho Trinta como afirma Ary Carobinha, compositor da agremiação, “Foi ele que colocou as mulheres nos carros, fez alegorias da altura do relógio da Central do Brasil, quer dizer, anarquizou o troço todo e se deu bem porque o povo gostou e aplaudiu” (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002, p.12). De fato, e incontestável que a história de Joãosinho Trinta e a Beija-Flor são inseparáveis. Joãosinho tinha ideias e novos conceitos e a Beija-Flor deu lhe proporcionou recursos e toda liberdade para que sua criatividade fosse colocada em prática. O carnaval de 1989 cujo enredo era “Ratos e urubus larguem a minha fantasia” é prova indiscutível da criatividade exercida por Joãosinho e aprovada pelo presidente de honra Anizio como citado pelo próprio, “O Joãosinho imaginava as coisas e eu topava e partia junto. Quando fizemos “Ratos e urubus larguem minha fantasia”, a diretoria toda foi contra e eu botei o carnaval na rua, no peito” (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002, p.13) O desfile de 1989 é histórico para a escola, pois foi deixada de lado toda a tradição de luxuosidade das fantasias e alegorias em função da ousadia de levar para a avenida componentes vestidos de mendigo, a diretoria vestida com uniformes de gari e uma polêmica alegoria com uma réplica de Cristo, que, condenada pela Igreja Católica que foi coberta com lona na cor preta e com a seguinte faixa: “Mesmo proibido, olhai por nós”. Apesar do desfile ser fruto de inovação e ousadia, e ter levado o público ao

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delírio, a escola perdeu o título por desempate para a Imperatriz Leopoldinense (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Em 1983 Farid Abraão assumiu a presidência da escola em substituição de Nelsinho, cargo pelo qual ficaria durante quatro anos. Em 1988 Anizio David assumiu o cargo e em 1991, no ano de seu falecimento, Nelsinho volta à escola. No biênio seguinte a família Abraão ficou afastada da direção da escola, assumindo Luiz Carlos Batista. Em 1994, Farid foi eleito novamente para o cargo e ficou até o carnaval de 2011. (GRES Beija-Flor de Nilópolis, 2011; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Em 1990 foi criado o Grupo Especial e a marcou pelos investimentos em tecnologia pela escola para apresentação do enredo “Todo mundo nasceu nu”. Em 1992 obteve o sétimo lugar no grupo com o enredo “Há um ponto de luz na imensidão”, o que fez com que Joãosinho Trinta tivesse sua saída da escola. Para seu lugar assumiu Maria Augusta, que em 1993, a escola obteve a terceira colocação com o enredo “Uniduni-tê, a Beija-Flor escolheu você”. De 1994 até o carnaval de 1997 assumiu o carnavalesco Milton Cunha que conquistou duas terceiras colocações, uma quinta e uma quarta. No seu último ano na escola Milton levou à avenida inovação com uma comissão de frente composta de 15 bailarinas clássicas. A fusão entre o samba e o balé desenvolvido pela coreógrafa Ghislaine Cavalcanti deslumbrou o público e proporcionou a nota máxima no quesito (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Em 1998 a escola trouxe mais uma inovação para o carnaval através da formação da Comissão de Carnaval. A Comissão de Carnaval foi criada em substituição da figura do carnavalesco. Inicialmente, a Comissão contava com sete membros, sob a coordenação do Diretor de Carnaval Laíla. Neste ano a escola apresentou o enredo “Pará: o mundo místico dos caruanas nas águas do patu-anu”, conseguindo o título de campeã junto a Estação Primeira de Mangueira (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Em 1999, 2000 e 2001 a escola conquistou três vice-campeonatos consecutivos, perdendo os mesmos para a Imperatriz Leopoldinense por apenas meio ponto de diferença. Em 2002, a escola desfilou apresentando o enredo “O Brasil dá o ar de sua graça – de Ícaro a Rubem Berta, o ímpeto de voar” e obteve, também, a segunda colocação no Grupo Especial (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002).

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Sob autoria da Comissão de Carnaval, em 2003 a Beija-Flor apresentou o enredo “O povo conta sua história: saco vazio não pára em pé. A mão que faz a guerra faz a paz” buscando trazer uma crítica social sem a perda do espírito carnavalesco. O objetivo do enredo é transportar a ideia de um futuro esperançoso para a população. Segundo a Comissão de Carnaval, o desfile é “um manifesto humano que conta a história de erros e acertos que formam a humanidade no decorrer dos milhões de anos em que deixamos o paraíso”. Nesse sentido a escola tenta, nesse ano, atentar a um “grito de alerta para que o descaso, o desamor e a desunião não continuem mantendo a humanidade como um saco vazio, sem luz, sem paz, faminto e sedento do concreto alimento que ameniza a fome do corpo e do abstrato alimento religioso, político e social que alimenta o ego, a alma e que faz agonizar o Deus em cada homem que assim rasteja em busca dos seus menores direitos” (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2003). Diante da proposta do enredo, tornou-se difícil a obtenção de patrocínio, de acordo com Laíla, “Ninguém quis patrocinar esse enredo. Todos os empresários que procuramos acharam uma loucura o fato de nós querermos falar sobre a fome, a miséria e as injustiças no país”. Mesmo assim, a Beija-Flor conquistou o título de campeã em 2003 (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2003). No ano de 2004, a Beija-Flor levou para a avenida o enredo “Manôa, Manaus, Amazônia, Terra Santa... Que alimenta o corpo, equilibra a alma e transmite a paz” conquistando assim, o seu bicampeonato (GRES Beija-Flor de Nilópolis, 2011). Em 2005 a escola apresentou o enredo “O vento corta as terras dos Pampas. E nome do Pai, do Filho e do Espírito Guarani. Sete povos na fé e na dor... Sete missões de amor” dotado de didática religiosa através a visualização da ação da Companhia de Jesus e crítica quanto à ambição e cobiça dos homens, paralelo a história da miscigenação do povo gaúcho. Neste ano a escola se torna tricampeã, superando uma sequência de quatro vice-campeonatos nos anos de 1999 até 2002 (GRES Beija-Flor de Nilópolis, 2011). O ano de 2006 foi marcado pela quinta colocação no Grupo Especial com o enredo “Poços de Caldas Derrama Sobre a Terra Suas Águas Milagrosas – Do Caos Inicia, à Explosão Da Vida – Água – A Nave Mãe da Existência (GRES Beija-Flor de Nilópolis, 2011). Para o carnaval de 2007 a escola resolver abordar o enredo “Áfricas: Do Berço Real à Corte Brasiliana” que apresentou a cultura africana sob uma nova percepção: a preservação das raízes culturais em abandono do paradigma do sofrimento e da 35


escravidão do povo africano. O enredo apresenta a importância do negro na construção da cultura brasileira. Neste ano, a Beija-Flor conquista a primeira colocação e é novamente campeã do carnaval carioca (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2007). A conquista de mais um Bicampeonato marcou o ano de 2008 da agremiação com o enredo “Macapaba – Equinócio Solar: viagens fantásticas ao meio do mundo” que aborda as riquezas da capital do estado Amapá e o fenômeno equinócio solar na região (GRES Beija-Flor de Nilópolis, 2011). Em 2009 a escola fica na segunda colocação e no ano seguinte, em 2010, na terceira com os respectivos enredos: “No Chuveiro da Alegria, quem banha o corpo lava a alma na folia!", que traz à tona um contexto histórico da prática e os rituais

dos

banhos;

e

"Brilhante

ao

sol

do

novo

mundo,

Brasília:

do sonho à realidade, a capital da esperança" homenageando os 50 anos da capital Brasília perpassando pela sua história (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2010, GRES Beija-Flor de Nilópolis, 2011) No ano de 2011, a Beija-Flor através do enredo "A Simplicidade de um Rei" conta a vida do cantor Roberto Carlos, ídolo da Música Popular Brasileira. Este carnaval é marcado também pelo convite aceito pelo coreógrafo Carlinhos de Jesus à agremiação, depois de anos coordenando da Comissão de Frente da Estação Primeira de Mangueira (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2011). Para o carnaval de 2012 a escola se prepara para apresentar o enredo “São Luís – O Poema Encantado do Maranhão” que perpassa pela história, misticismos, mistérios e riquezas da capital do Maranhão. A frente da escola estará o Presidente Nelson David, substituindo Farid Abraão David, e o Presidente de Honra Anízio Abraão David. A Comissão de Carnaval vem liderada por Laíla e composta pelos carnavalescos André Cezari, Fran Sérgio, Victor Santos, Ubiratan Silva e a pesquisadora Bianca Behrends. (GRES Beija-Flor de Nilópolis, 2011). 4.2 Histórico do Campo Existem diversas discussões sobre a origem do carnaval, há indícios de registros históricos que a relacione há 10 mil anos a.C., nos festejos rurais, quando a comunidade local cobria os rostos, enfeitava e pintava os corpos. As reuniões eram realizadas sempre no verão, objetivando o afastamento de demônios da má colheita e festejar a renovação de um novo trabalho nos campos (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). 36


É possível identificar também a relação do início do carnaval com os rituais de adoração à deusa Ísis e ao touro Ápis (entre os egípcios), relacionando a uma discussão voltada a cunho mitológico; aos festejos em honra de Dionísios, na Grécia, ou às Bacanais (celebração romana em comemoração ao retorno do Sol e início da Primavera) e também às festas dos “inocentes” e dos “doidos”, na Idade Média que, após diversas transformações teriam sido o embrião dos famosos carnavais das cidades de Veneza, Nice, Nápoles, Roma, Paris e Munique (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). No Brasil, o carnaval teve seu primeiro relato por volta de 1600, com o “entrudo” (do latim intróito, entrada), advindo de Portugal e por imigrantes das ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde, em 1723. O entrudo era uma brincadeira dotada de cunho de violência. Utilizava-se água, gema de ovo, farinha-do-reino, cal, polvilho, póde-mico e o limão-de-cheiro, que era um objeto feito de cera, do tamanho de uma laranja e em seu interior colocava-se água ou urina. Diversas tentativas para abolir o entrudo foram realizadas através de atos oficiais, posteriormente, os artefatos utilizados foram sendo substituídos por bisnagas com groselhas ou vinho, borrachas com água perfumada (originando o lança-perfumes) objetivando causar menos dano à brincadeira (Costa, 2001; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Paralelo ao entrudo existia a figura do Zé Pereira, surgido por volta de 1846, cuja criação procede do lusitano José Nogueira de Azevedo Paredes, um sapateiro saía às ruas no carnaval tocando um biombo, precursor do surdo de marcação, que é instrumento musical fundamental para as baterias das escolas de samba (Costa, 2001; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Diante da popularidade de José Nogueira, a Companhia Teatral de jacinto Teller, que estava fazendo temporada no teatro Fênix, no início de 1870, criou a revista chamada “Zé Pereira Carnavalesco”, onde o ator Francisco Correia Vasques parodiava a marcha francesa “Les pompiers de Nanterre” (“Os bombeiros de Nanterre”), contendo os seguintes versos (COSTA, 2001): “E Viva o Zé Pereira Pois que a ninguém faz mal Viva a bebedeira Nos dias de carnaval! Zim, balada! Zim, balada! E viva o carnaval!” Fonte: Costa, 2002, p.15

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O canto transformou-se numa marcha, que foi se espalhando pelos bairros da cidade do Rio de Janeiro, tornando-se um hino do carnaval. “Viva o Zé Pereira” representava o ruído, a percussão e a bagunça, embora sadia (COSTA, 2001). Diversas manifestações populares precederam o surgimento das escolas de samba, as Sociedades foram o primórdio do desfile de rua com carros alegóricos, rodando por volta de 1855. Originado do Congresso das Sumidades Carnavalescas, as Sociedades. (COSTA, 2001). As sociedades desfilavam ao som de óperas, vestidas de fantasias requintadas e dotavam, principalmente, de intenções críticas ao governo e a acontecimentos da época (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002), comprovando-se com os versos cantados no carnaval de 1889 pelos Fenianos: “Venceu-se finalmente a tremenda campanha Maio, o divino mês,deu-nos a abolição! A luz de um novo sol detrai a nódoa estranha Que há três séculos manchava o nosso pavilhão!

A Pátria ressurgiu de um morno alento Na vitória final que honrou a Humanidade Somos um povo livre! Olhai! Neste momento Cobre esta grande terra o Sol da Liberdade! Fonte: Costa, 2001, p. 22

Palco do carnaval de rua, a Rua do Ouvidor representa a centralização da festa carnavalesca (FERREIRA, 2005), no entanto, a Avenida Central, construída em 1907 (Avenida Rio Branco a partir de 1912), tornou-se o foco das atenções do carnaval carioca, por onde desfilaram as grandes sociedades, os ranchos carnavalescos e os cordões (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). As grandes sociedades predominaram no carnaval carioca no século XX, porém, deve ser destacada a presença de dois núcleos carnavalescos: os blocos e os cordões. Os blocos carnavalescos representam a explosão mais espontânea do carnaval carioca. Surgem na informalidade, geralmente do núcleo de amizade de moradores de bairros próximos. Segundo Costa (2001) os blocos carnavalescos são atividades coletivas embrionárias de outros agrupamentos, como escolas de samba, cordões, ranchos.

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O bloco caracteriza-se por ser uma manifestação popular coletiva e ausente de regras e dotado de informalidade, liberdade de movimentos e ausência de hierarquia. Os blocos podem ser classificados em três grupos: blocos de sujos, de embalo ou empolgação e de enredo. Os blocos de sujos são caracterizados pela originalidade das fantasias, pois não obedece a nenhum padrão, adotando liberdade nas vestimentas, por isso a denominação “sujos”. Já os blocos de embalo são caracterizados pela presença de pessoas com mesma fantasia, compositores levantam o samba e a bateria cuidam do ritmo, seus maiores representantes Cacique de Ramos, do subúrbio da Leopoldina e Bafo da Onça, do Catumbi. Finalmente, os blocos de enredo representam as escolas de samba em escala reduzida que desfilavam e competiam entre si (COSTA, 2001). Os cordões têm sua estrutura semelhante aos blocos carnavalescos, surgem por sugestões de vizinhos e pela iniciativa de brincar o carnaval pela invenção da própria fantasia pelo folião, reunindo instrumentos e saindo pelas ruas do bairro (COSTA, 2001), é possível destacar um trecho de Costa (2001) que caracteriza a passagem dos cordões: “O som era feito por adufes (pandeiros sem platinelas), cuícas de barrica, recorecos e chocalhos. O que se cantava eram chulas, marchas elntas, corta-jacas e maxixes conhecidos, e as fantasias variavam muito. Havia uma, porém, que era a grande preferência de homens, mulheres e até crianças: o velho. Muitos usavam máscaras grandes de cabeça careca e nariz adunco, enquanto outros apenas jogavam talco nos cabelos e vestiam uma roupa velha.” Fonte: Costa, 2001, p. 28

Os cordões foram o núcleo carnavalesco que “motivaram” o surgimento de diversos agrupamentos carnavalescos. Muitos cordões existiram por muito tempo, no entanto, tiveram seu declínio no meado do século XX (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). O representante vivo dos cordões na atualidade é o Cordão da Bola Preta, que possui fundação em 31 de dezembro de 1918 e está em plena atividade e participa do carnaval de rua da cidade do Rio de Janeiro anualmente. Paralelo aos cordões, os ranchos, por sua vez, denota-se como um agrupamento carnavalesco composto de melodia lírica diferindo da algazarra incendiada pelos blocos e cordões. O rancho Ameno Resendá é o precursor desse grupo carnavalesco, surgido em 07 de fevereiro de 1907 e extinto em fevereiro de 1941. Ferreira (2005) argumenta acerca da diferença entre cordão e rancho:

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“[...] os grupos mais diretamente ligados a um Carnaval de tradição negra, desfilando ao som de batuques e instrumentos “africanos”, vão sendo associados à categoria “cordão”. Os grupos mais permeáveis às influências culturais dominantes [...] serão incensados como os mais legítimos “representantes” da cultura popular e associados à categoria “rancho.” Fonte: Ferreira, 2005, p. 159

É nesse contexto que surge o conceito do Carnaval como festa do povo e das camadas mais populares da sociedade, consolidando-se como a expressão cultural das classes menos favorecidas, como essência da alma carioca e, consequentemente, a representação da identidade brasileira. (FERREIRA, 2005). Diante da convergência das manifestações carnavalescas, surge na década de 20 a primeira escola de samba, a “Deixa Falar”, do bairro do Estácio, depois surgiram outras escolas, como a Mangueira, formada pelo compositor Cartola e seus companheiros a partir dos blocos existentes no morro. Em 1932, Paulo da Portela e Antonio Rufino, organizadores do Bloco Pioneiros de Oswaldo cruz formaram a escola “Vai como pode”, posteriormente conhecida como Portela, no morro do Salgueiro, com Haroldo Barbosa, entre 1932 e 1933 (CAVALCANTI, 2006) e mais tarde em Nilópolis, em 1948. As escolas de samba ganharam força na dinâmica social urbana, como afirma Haroldo Barbosa à criação de uma escola de samba: “formação característica que àquela altura [...] vinha se insinuando como a força aglutinadora do Carnaval dos morros e dos subúrbios, a despeito do grande sucesso dos ranchos” (CAVALCANTI, 2006). Édison Carneiro (1965, apud CAVALCANTI, 2006) fazer referência ao surgimento das escolas de samba: “Tendo chegado tarde ao Rio de Janeiro, com as atenções populares já monopolizadas pelo rancho, o samba, ao se organizarem escolas – ou seja, quando deixou de ser uma diversão do morro e da favela para percorrer ensurdecedoramente as ruas cariocas –, não se deu ao trabalho de criar para si uma forma especial de cortejo. Desenvolvimento do rancho em sua estrutura processional, somente o samba faz a diferença fundamental entre ranchos e escolas: diferença de ritmo, de ginga, de evoluções e demonstração de preferência popular, de número de figurantes” Fonte: Carneiro, 1965, p. 16 apud Cavalcanti, 2006, p. 40

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Não existia ao certo uma estrutura de uma escola de samba pronta que fosse genuinamente criada em tais moldes. As interações entre diferentes camadas sociais fizeram com que as escolas de samba se disseminassem na cidade, preservando a sua vitalidade e promovendo uma nova dinâmica social nas comunidades periféricas. Devido ao surgimento de diversas agremiações na cidade foi instituído o concurso para as escolas de samba em 1932. O concurso foi criado pela iniciativa do jornalista Mario Filho, diretor do jornal Mundo Esportivo. No concurso, as escolas desfilaram na Praça Onze, onde passariam por um palanque, onde estavam presentes os jurados que avaliariam o desempenho da escola e o cumprimento das regras estabelecidas no regulamento elaborado pelo jornal. As três primeiras colocadas foram premiadas e o concurso abrangeu 19 escolas, sendo consagrada como a primeira campeã a Mangueira. A realização do concurso foi bem sucedida na cidade, tornando-o parte do calendário oficial no ano seguinte, e assim, sua popularidade foi crescendo rapidamente. (Revista Beija-Flor 2002 e GALVÃO, 2009). No ano de 1934, as escolas desfilaram no Campo do Santana para prestar homenagem ao prefeito Pedro Ernesto. O ano foi marcado pela fundação da União Geral das Escolas de Samba, que reunia 28 escolas, objetivando o contato com autoridades e subvenções governamentais para o desfile. (CAVALCANTI, 2006; (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002); GALVÃO, 2009). A organização frente ao poder público facilitou a realização dos desfiles, já que, as rodas-de-samba eram comumente reprimidas pela polícia, os sambistas eram presos e os instrumentos musicais eram apreendidos ou danificados. (GALVÃO, 2009) Diante do sucesso da apresentação das escolas na cidade, a Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro se apropria dos desfiles, oficializando assim, no ano de 1935, a realização do concurso. Nesse sentido, as escolas de samba tiveram que se legalizar na Delegacia de Costumes e Diversões para receber as subvenções da prefeitura. Através da regulamentação, o poder público submeteu as escolas aos seus critérios e exigências, uma delas foi a obrigação de abordar temas nacionais e pátrios, fato que acabou promovendo a criação do samba-enredo. Nesse sentido, as escolas tiveram sua liberdade de criação “sufocada” pela imposição do Estado, onde o descumprimento das regras causaria a desclassificação ou perda do auxílio da subvenção. (GALVÃO, 2009; (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Em 1947 surgiram outras duas organizações cujo objetivo era organizar ainda mais os desfiles junto com a União Geral das Escolas de Samba que são a Federação 41


das Escolas de Samba e a Confederação das Escolas de Samba. No ano de 1952, as três organizações fundiram-se num único órgão: a Associação das Escolas de Samba (AESCRJ). (CAVALCANTI, 2006; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). A década de 1950 marcou as escolas pela ampliação das bases sociais das escolas, abrindo espaço para participação das camadas médias com a inclusão de cenógrafos e artistas plásticos na produção do desfile (CAVALCANTI, 2006). Em 1961, a Mangueira levou para a avenida amplificadores de som para melhorar a sonorização do desfile, cujo intérprete era Jamelão (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). O ano de 1962 deu início à irreversível comercialização dos desfiles. Foram erguidas arquibancadas na Avenida Rio Branco, com capacidade para cerca de três mil pessoas, onde o acesso era realizado através da compra dos ingressos vendidos ao público. No ano seguinte os desfiles foram transferidos para a Avenida Presidente Vargas e em virtude do crescente sucesso as arquibancadas foram utilizadas nos demais carnavais. Esta época foi retratada como a época do “monta e desmonta” que precedia e sucedia o carnaval gerando enormes gastos com a promoção da estrutura do Carnaval na cidade. E em 1968 foi produzido o primeiro LP com os sambas-enredo, consolidando o investimento artístico e promoção cultural no espetáculo (CAVALCANTI, 2006; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). A década de 1970 foi marcada pela criação da Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro S.A. (Riotur), em 1972. Em 1975 as escolas de samba, através da Associação das Escolas de Samba, e a Riotur modificaram a relação estabelecida entre o poder público e as escolas, uma vez que os recursos eram provenientes da subvenção do Estado. Em substituição, as agremiações passaram a assinar um contrato de prestação de serviços entre as escolas e a Riotur (CAVALCANTI, 2006; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Os desfiles carnavalescos tiveram sua extraordinária evolução no quesito exploração econômica. Os sambas-enredo eram comercializados através das gravações em mídias LP e em 1983 foi firmado o primeiro contrato entre a Associação das Escolas de samba e a transmissão televisiva do desfile, proporcionando maior visibilidade do espetáculo (CAVALCANTI, 2006; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). Nesse sentido, os desfiles não possuíam local específico para a sua realização, fazendo com que eles migrassem para várias ruas do centro do Rio de Janeiro, como Praça Onze, Candelária, Mangue, e avenidas Presidente Vargas, Rio Branco, Presidente 42


Antônio Carlos, Graça Aranha e rua Marquês de Sapucaí. A ausência de um lugar permanente para a realização dos desfiles fez com que fosse criada a Passarela do Samba (popularmente chamada de Sambódromo), em 1984, onde desfilam os três primeiros grupos da hierarquia carnavalesca (CAVALCANTI, 2006; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). A Passarela do Samba foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e construída na rua Marquês de Sapucaí pelo governo do Estado em quatro meses inaugurada no dia 02 de março de 1984, para o carnaval deste ano, sendo administrada pela prefeitura e pela Riotur. Sua estrutura conta com arquibancadas com capacidade para 60 mil lugares para o público numa extensão de cerca de setecentos metros e ocupação de oitenta e cinco mil metros quadrados; torre para emissoras de televisão para a transmissão dos desfiles; cabine para os jurados; trezentos banheiros; trinta e cinco bares; pronto-socorro e espaço para equipe de segurança e organização (CAVALCANTI, 2006; GALVÃO, 2009; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). A Passarela do Samba viabilizou a rentabilidades dos desfiles, diante disso, no mesmo ano, as dez maiores escolas (Beija-Flor de Nilópolis, Mocidade independente de Padre Miguel, Portela, Mangueira, Salgueiro, Império Serrano, União da Ilha do Governador, Caprichosos de Pilares, Imperatriz Leopoldinense e Unidos de Vila Isabel) romperam com a Associação das Escolas de Samba e criaram a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) que elevou os ganhos das escolas de samba, repassando a elas os direitos de transmissão televisiva, metade da comercialização de tudo que é comercializado dentro do Sambódromo e um terço do valor arrecada pela venda dos ingressos (CAVALCANTI, 2006; GALVÃO, 2009; Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002). A criação da Liesa proporcionou e deu aos desfiles das escolas de samba maior visibilidade devido à criação de um local permanente para a realização dos desfiles através do Sambódromo. Idealizada por membros que participavam das escolas de samba como Ailton Guimarães Jorge (Unidos de Vila Isabel), Anízio Abraão David (Beija-Flor de Nilópolis), Djalma Santos (Mangueira), Luizinho Drumond (Imperatriz Leopoldinense), Miltão do Salgueiro e Carlinhos Maracanã (Portela) com o aval de Castor de Andrade (Mocidade Independente de Padre Miguel) a Liesa tem a função de organização artística do carnaval além da gestão dos recursos repassados às escolas. Já foram presidentes da instituição Castor de Andrade, Anízio Abraão David, Paulo de

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Almeida, Jorge Luiz Castanheira, Djalma Arruda e Ailton Guimarães (Revista BeijaFlor – uma escola de vida, 2002). No biênio de 2005/2006 mais uma inovação no carnaval carioca com a criação da Cidade do Samba, ocupando uma área de 72 mil metros quadrados em uma área total de 92 mil metros quadrados, abrigando 14 barracões e aglomerando em um único local todas as atividades relacionadas à produção dos desfiles carnavalescos das escolas de samba do Grupo Especial (Filho et alli ,2009). A estrutura criada proporciona um especo para visitação aberta ao público o ano inteiro, contando com bares restaurantes, iluminação especial, estacionamento para veículos particulares e ônibus de turismo. O investimento da estrutura foi calculado em 102,6 milhões de Reais (Filho et alli ,2009) e, indiscutivelmente, tornou as escolas de samba mais visíveis e abertas ao turismo da cidade.

4.3 O Processo de estruturação da Beija-Flor de Nilópolis A Beija-Flor, atualmente, conta com duas estruturas físicas: a quadra, em Nilópolis e o barracão, situado na Cidade do Samba, no município do Rio de Janeiro. A quadra da escola tem capacidade para receber cerca 8.000 pessoas e funciona como palco para os ensaios da agremiação nos meses que antecedem o carnaval, conforme relato do membro da Comissão de Carnaval Entrevistado 3: “Os nossos Diretores de Harmonia treinam esse grupo, duas vezes na semana, reunião com a comunidade acontece às quartas feiras, na quinta, ensaio na quadra e isso vai de outubro até o carnaval. Assim, é só escolher o samba que começa.”

Já o barracão, no bairro da Gamboa, no centro da cidade do Rio de Janeiro conta uma estrutura com três pavimentos. O primeiro pavimento abriga um espaço apropriado para construção dos carros alegóricos e possui um pátio interno com área de 2700 m² e com 12 metros de altura, o que comporta a construção de até 12 alegorias simultaneamente (LIESA, 2006). No segundo pavimento funciona a cozinha, refeitório, ateliês de costura e adereços, moldagem, fibra de vidro, isopor. O terceiro pavimento possui os departamentos administrativos e de criação e um espaço para acompanhamento da 44


montagem das alegorias. O espaço possui uma área de 600 m² (LIESA, 2006) e as fábricas possuem elevadores de carga com trilho suspensos para o transporte das esculturas montadas nas oficinas para os carros alegóricos. A Cidade do Samba criou uma estrutura que é possível comparar a uma fábrica, seria, a fábrica de carnaval (Filho et alli, 2009). Sem dúvida, foi um espaço dedicado à criação da arte carnavalesca que favoreceu a criação do espetáculo. Entrevistado 1, membro da Comissão de Carnaval afirma sobre as modificações com o advento da Cidade do Samba: “Bem, é uma mudança muito positiva porque eram barracões que não davam total condições de desenvolver um trabalho artístico, né. A nível mundial que é carnaval e que é os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Nos barracões era bem complicado, [...], dificuldades em todos os sentidos, de altura, de largura, né, chovia dentro, enfim, tinha que encarar certas determinadas, [...], empreitadas, devido a chuva ou outros problemas mínimos, [...] pra determinados locais, pro carnaval eram fundamentais então as coisas não aconteciam e isso virava uma bola de neve até o dia do desfile, né, e com advento da Cidade do Samba virou uma grande empresa, né, já era, mas [...] era uma empresa vista de fora, né, as pessoas “não a escola de samba aquela coisa maravilhosa!”, mas por dentro era bem precário, hoje não! Hoje já tá bem mais forte, a infraestrutura ajuda muito a desenvolver o trabalho, né, nós temos aqui uma parte administrativa com escritório de administração, parte de criação, né, enfim, tudo bem montado. Nós temos o ateliê lá em cima, que comporta mais de cem pessoas trabalhando com tranquilidade. A parte de baixo, que é o salão principal, né, um vão que não tem problema de altura”

Segundo Solé (2004 apud Durieux, 2005) “a empresa é uma organização na qual a atividade é única ou múltipla”, sendo assim, a Beija-Flor de Nilópolis tem sua produção voltada para a atividade carnavalesca, que constitui no produto de entretenimento. Conforme dito por André, o espaço abrigou todo o processo produtivo de criação dos desfiles carnavalescos ao modo de ter semelhança com um ambiente empresarial, e tornando a escola de samba mais organizada conforme relato do membro da Comissão de Carnaval Entrevistado 4: “Então a escola tem cada setor [...] tem o setor de administração, o setor da criação, aí da criação vem os outros setores todos como ferragem, carpintaria,

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adereço [...]. Então tudo muito bem organizado, tem clima de empresa realmente [...]”

Conforme a teoria de Solé (2004 apud Durieux, 2005) “a empresa possui divisão do trabalho”, com isso é possível verificar a incidência de divisão do trabalho na agremiação e que essa divisão que norteia a estruturação da escola de samba de acordo com as suas operações. Para melhor entendimento da estruturação da agremiação é preciso fazer uma distinção entre dois pilares na organização: o Carnavalesco e a Administração. Vale ressaltar que, essa divisão é provocada para melhor entendimento da organização carnavalesca. O nível Carnavalesco envolve diretamente as atividades inerentes ao planejamento, organização, criação e produção do desfile da agremiação. Mais a frente será demonstrado como é realizado todo esse processo. As atividades carnavalescas na Beija-Flor de Nilópolis são geridas por um grupo, criado em 1998 pelo Laíla, atual Diretor Geral de Carnaval, que é a Comissão de Carnaval. A Comissão de Carnaval substitui a imagem de um único carnavalesco, ou seja, uma equipe estruturada envolvida com toda a realização do carnaval. A Comissão é composta por cinco membros carnavalescos: André Cezari, Bianca Behrends, Fran Sérgio, Victor Santos, Ubiratan Silva e Laíla. O grupo é coordenado pelo Sr. Laíla, que tem a função de Diretor Geral de Carnaval e Diretor de Harmonia da escola. O carnavalesco Entrevistado 1 explica sobre a criação da Comissão de Carnaval: “É, a Comissão de Carnaval foi criada pelo Laíla, né, se não me engano em 1998, né, pra dar oportunidade aos novos artistas, né, porque naquela época, né, existia um grupo fechado de carnavalescos, né, vamos dizer assim, então se tínhamos 16 escolas eram 16 carnavalescos e com uma cabeça só, né. E o Laíla diante de todo seu histórico, né, de carnaval, hoje faz 52 anos, ao próximo carnaval são 52 anos de avenida, né, de avenida digo desde lá da Presidente Vargas, Rio Branco, né, até chegar à Sapucaí [...] Então foi criada essa comissão dando oportunidade a novos artistas, né, e desde 98 até agora são sete campeonatos, né, dentro desse contexto acho, se não me engano foram quatro vice campeonatos ou cinco, enfim [...] mas é uma comissão vitoriosa [...]”

Nesse sentido, a Comissão de Carnaval possui a função da criação carnavalesca dentro da escola, no entanto, foi observado que, não há uma rigidez na divisão do 46


trabalho, ou seja, as tarefas são dividas harmonicamente e de forma informal entre os membros de acordo com suas afinidades. Com os relatos de Entrevistado 4 é possível entender como é divido, atualmente, ou seja, para o carnaval seguinte, em 2012, as atividades dos membros: “Não há uma divisão determinada, a gente vai se dividindo de acordo com as nossas maiores aptidões, né, eu hoje acredito que da Comissão sou a pessoa mais de [...] desenvolvimento das coisas, né, de barracão, eu sou a pessoa que to mais atuante das áreas todas. O Victor e o André ficam mais no desenho porque também tem que ficar, tem que andar junto [...]. O Bira junto com a Bianca fazem a parte de textos, de internet, tudo que é gráfico, e o Laíla que coordena essa coisa toda, o Laíla já é Diretor Geral de Carnaval, então é a quadra, a comunidade [...] e mais aqui com a gente. Então eu sou essa pessoa que tá na coordenação logo depois do Laíla, na coordenação geral do barracão inteiro [...] para que o projeto saia como a gente criou, para que a nossa alegoria saia desde o início. Da ferragem, projeto, a coordenação das fantasias, também ateliê, [...] protótipo, [...] então sou meio que um “coringa”, né, dessa história toda né, [...] isso tem dado certo porque a gente tem uma harmonia boa [...].”

Dentro desse contexto, foi possível identificar que a tomada de decisão na Comissão de Carnaval é realizada em consulta à equipe. Cada membro dá a sua opinião acerca do assunto em questão e é consolidado um resultado comum. Isto provoca um desenvolvimento organizacional qualitativo, já que, o grupo é enriquecido por diversas contribuições das opiniões dos membros, conforme afirma Entrevistado 2: “A Comissão ela é uma comissão de carnavalescos, né, então, tudo que se refere ao desenvolvimento do visual, dos carros alegóricos, das fantasias, tudo isso é conversado entre o grupo e esta nossa experiência dentro do desfile e na feitura de carnavais a gente vai, cada um vai dando a sua a sua opinião a respeito do que tá sendo feito, se tá de acordo com a maneira da Beija-Flor desfilar, a maneira da Beija-Flor apresentar carnaval, que cada escola tem uma característica ,né, então esse grupo foi selecionado pelo Laíla. O Laíla é, nossa! Ele é um dos caras mais antigos aí, tem muita gente boa, né, mas o Laíla, ele tem uma experiência, assim, uma vivência de carnaval...[...] de repente o Laíla veio com essa ideia de montar uma equipe e uma coisa que tem funcionado bem porque não sobrecarrega tanto uma pessoa só, e a gente aprende a trabalhar na equipe, no grupo, e é muito legal, tá sendo muito bom. [...] Isso tudo soma pra se ter um trabalho que se tem feito na Beija-Flor hoje em dia que é uma coisa que a Beija-Flor não tinha antes da

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Comissão de Carnaval, mesmo na época do João Trinta, tinham muitas coisas que passavam assim, que eram muito complicadas, não funcionavam sabe, já assim, com várias pessoas, uma coisa que eu não to vendo, passando despercebido pra mim, de repente o André ta percebendo, o André não ta percebendo, eu não to percebendo, mas tem o Fran [...], [...] aí porque o ideal é a escola, né, se a escola sair bem a gente sabe que tá todo mundo bem e é aquela coisa [...] você não pensa mais no singular, você pensa no grupo, no plural, e tá sendo muito bom.”

Além do desenvolvimento de equipe no grupo representado pela Comissão de Carnaval, foi possível verificar uma maior disseminação das atividades realizadas em grupo na escola, objetivando o bem comum, como conta Entrevistado 2: “[...] essa ideia de Comissão que tem aqui no grupo [...], essa ideia de Comissão começa a se espalhar pela escola, então você percebe assim, todo mundo trabalhando muito em equipe e como [...], não existe aquela coisa [...], por exemplo, daquela estrela principal, daquela figura principal, e o resto que “se dane”, ele quiser que veja, não, não existe! Então é uma coisa que essa responsabilidade acaba sendo espalhada por todo mundo [...].”

Por seguinte, a Comissão de Carnaval também tem a função de coordenação dos setores operacionais da agremiação, ou seja, aqueles setores diretamente ligados a produção das alegorias, fantasias e adereços. Os setores destinados as alegorias são dispostos da seguinte forma: Ferragem, Marcenaria, Escultura, Montagem, Pintura e Decoração. O processo de criação de carnaval na agremiação começa logo após dos desfiles no carnaval. São analisadas propostas de enredo pela Comissão de Carnaval que favoreçam a realizam do desfile, isso sob um prisma artístico, e também a viabilidade financeira, ou seja, a contrapartida de um possível patrocinador para o financiamento do desfile carnavalesco, o Carnavalesco Entrevistado 5 expõe acerca da escolha do enredo. “A Beija-Flor ela tem um cronograma um tanto quanto diferente das outras agremiações porque a Beija-Flor, ela praticamente trabalha o ano inteiro, tem funcionários dentro do barracão trabalhando todos os meses do ano, geralmente quando acaba um carnaval, até mesmo antes dele, a equipe de criação, os Carnavalescos já têm um tema do que pode ser a vir o próximo carnaval, às vezes, dois, três, quatro ou cinco [...] mas a parte financeira de patrocínio influencia muito na decisão de um enredo [...] você tem que ter uma verba financeira

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[...]você tem que ter um investimento muito grande, [...]você tem que trazer equipamentos mais modernos, iluminação muito mais fantástica, raio laser, coisa que antigamente não tinha no carnaval e tudo isso tem um custo, então você precisa de um patrocínio que acaba influenciando na sua decisão do que vai ser o enredo. Então você tem vários enredos propostos pra um ano e aquele que tiver a maior viabilidade financeira, e assim concretizar um patrocínio, obviamente ele vai ser escolhido[...]”

A influência do patrocinador sobre decisão de enredo um enredo se dá, de acordo com Entrevistado 2, devido ao grande investimento financeiro em fantasias, adereços, alegorias e inovações tecnológicas. “[...] a escola [...] recebe muitas propostas de fora, como o carnaval hoje em dia tá muito caro, é muito dinheiro, nós precisamos de enredo que tenham patrocínio [...], que venha com alguma possibilidade de conseguir algum patrocínio e isso acabou um pouco com aqueles enredos de antigamente que você desenvolvia temas mais autorais, né, o cara desenvolve uma historia, né, e a escola banca aquela história, né, fica mais difícil agora, é até possível, mas é uma situação mais difícil, principalmente no caso da Beija-Flor porque o maior numero de fantasias na Beija-Flor é feito dentro da própria escola, isso já vai dinheiro, o os carros alegóricos também da Beija-Flor a gente procura, tenta assim, uma tecnologia de ponta, as novidades, e isso tudo é muito dinheiro. Então a gente analisa as propostas pra ver qual a proposta é viável tanto pra desenvolver o carnaval, mas também condições de ser ter possibilidades de levantar recursos e desenvolver bem.”

Para Solé (2004 apud Durieux, 2005) “a empresa é uma organização com moeda, capital e benefício econômico”, diante disso, a agremiação necessita capital financeiro para gerir a organização, com isso há a incidência de economia financeira que perpassa a escola através do fluxo de recursos monetários. Após o processo de análise de viabilidade é escolhido um enredo e é realizada a pesquisa de campo que norteará o desenvolvimento da criação do carnaval ao longo do ano. “A Primeira coisa que faz é escolher o enredo, [...] decidimos mediante a [...] pesquisa de campo que é muito importante, né, quando você pode ir no local que seja, você ir, vivenciar, sentir a historia [...]. Você tem que escolher coisas, não dá pra falar de tudo porque é muita coisa pra falar e isso é bom, você tem elementos fantásticos pra fazer alegorias, pra você criar fantasias [...]. Conversa com as

49


pessoas, que é o primeiro passo, você pesquisar, saber tudo que tem, livros, internet, e ir ao local, conhecer as pessoas, historiadores [...]. Então é o primeiro passo é esse, a gente decide pesquisar, né, e faz o enredo que é o caminho que a gente que seguir, uma “espinha dorsal”, “a gente vai falar primeiro isso depois isso, até o final encerrar com isso”” (Entrevistado 4)

Por seguinte, é realizada a criação de uma sinopse de enredo, que é o texto base para o desenvolvimento do enredo. Esta sinopse é criada por todos de forma individual que depois é consolidadada com as melhores contribuições, segundo Entrevistado 2: “[...] já é escrito uma sinopse [...] que todo mundo participa, todo mundo escreve, aí depois a gente monta essa sinopse, de repente um pedaço do texto de um que ficou muito bom bem definido, coloca lá no início ou no meio, alguma coisa que o outro definiu [...], né, insere, até você construir essa sinopse, que e uma síntese do que a Beija-Flor vai apresentar [...].”

Após a criação da sinopse de enredo pela Comissão de Carnaval, esta será apresentada ao possível patrocinador e para a Presidência da escola, que farão a avaliação final da proposta, conforme descreve Entrevistado 5: “[...] digamos que em março, um enredo que vai ser escolhido, que já você anuncia pro publico em geral, em abril a Comissão de Carnaval já começa a desenvolver o texto, abril e maio, porque em junho você tem que apresentar pra esse possível patrocinador e pra Presidência da agremiação uma sinopse que, basicamente, um resumo de uma página, aproximadamente sobre a “espinha dorsal” que você vai seguir pra desenvolver aquele enredo.”

O processo de criação do enredo segue até o mês de junho e após a definição final começa-se a criação dos desenhos das fantasias, alegorias e adereços e, paralelamente, a sinopse de enredo seguirá para diversos compositores que farão a criação de sambas-enredo, como afirma Entrevistado 5: “Em junho você já começa a desenvolver os desenhos das fantasias e das alegorias, em junho, e no máximo em julho, [...] em dois meses você tem que tá com esse projeto todo pronto. [...] paralelo a isso, assim que a gente terminou a sinopse a gente entregou há uns três meses, dois meses atrás essa sinopse pra nossa ala de compositores. Eles recebem a “espinha dorsal” do que vai ser o enredo e compositores do Brasil inteiro montam obras, sambas-enredo baseados

50


nessa sinopse. A gente recebe uma quantidade [...] de cinqüenta, sessenta, até cento e vinte de sambas-enredo, até a gente escolher um [...].”

Os sambas-enredo criados são escolhidos numa espécie de concurso realizado na quadra da escola, onde tem a participação da comunidade na escolha desse samba, que será o hino da escola para o carnaval. Os meses de escolha do samba-enredo se estendem de agosto a outubro, período que são desenvolvidos os chamados protótipos, que os modelos de fantasias criadas na sua forma original para teste de cores e estrutura, segundo Entrevistado 5 e Entrevistado 2: “Em agosto a gente começa a desenvolver os protótipos das fantasias que a gente desenhou nos dois meses anteriores. O que seria o protótipo? Seria você pegar um desenho e materializar, comprar tecido, fazer armação de ferro, comprar pecinhas, fecho éclair, tecido, pra poder montar uma fantasia dessa, que a gente chama de protótipo.” “Depois que escolhe os protótipos tem uma apresentação de protótipos pra escola, tem escolas que faz isso aberto, né, faz um desfile como se fosse um desfile de moda. Um desfile de apresentação que a pessoa entra na passarela, e samba, [...] é a apresentação dos primeiros modelos [...].Aí depois disso começa a fazer os carros alegóricos, [...] os protótipos já foram feitos, começa a produção [...]”

Em outubro os protótipos já foram apresentados à escola e inicia-se a fase de estruturação e montagem das alegorias, que são desenhadas, inicialmente, a mão e projetadas em três dimensões (3D) nos softwares computacionais que auxiliam os cálculos das medidas e dimensões. Este momento se estende até os momentos antecedentes ao carnaval. Conforme os relatos de Entrevistado 2, Entrevistado 4 e Entrevistado 5: “[...] depois que termina o desenho dos carros, é feito, agora tá fazendo em 3D a planta do carro. Primeiro faz um desenho artístico, mais solto, aí depois pega esse desenho pra botar numa planta. Aí começa a ser construído os carros [...]” “[...] e agora já tá na fase de criação de carro, ferragem que é primeira coisa, a estrutura, né, faz as plantas, faz o 3D, o 3D pra poder ter as dimensões, proporção, quantidades e começa a fabricação, ai vem ferragem, aí já vai entrar em madeira, [...] a escultura já tá sendo feita, isopor, ai vai colocar fibra, aí depois [...] já começa a montar na alegoria, aí vem pintura, [...] decoração de

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carros, as peças que vão decorar já estão sendo feitas [...]. Aí começa a montar realmente o carro [...], a finalização que é pintar e decorar [...] tudo rolando ao mesmo tempo [...], tá rolando a escolha do samba [...], aí escolhe o hino, aí já começa os ensaios.” “E começa também, já em outubro, a fase de estruturação das alegorias, a gente vai começar a materializar os carros alegóricos. A gente começa a fazer a estrutura de ferro, [...] os chassis começando a ser desenvolvidos, a gente vai começar a parte de carpintaria, que é forrar de madeira. Paralelamente, no terceiro andar são desenvolvidas as esculturas que vão entrar no carro, e vai assim, a nesse pique até o carnaval. Seguido na quadra, pelos nossos ensaios técnicos, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, é que a gente ensaia sobre o samba enredo, em cima do samba-enredo [...] as nossas coreografias, as nossas teatralizações, ensaia nosso grupo de baianas, de bateria, de passistas e a gente vai assim até o carnaval, agora esses meses que antecedem o desfile.”

A fase de criação encerra-se com a criação das fantasias de destaques, que constituem na última fase de desenhos da Comissão de Carnaval e a partir daí será feito o acompanhamento até o carnaval, como diz Entrevistado 2: “e nós partimos pra fantasia de destaque, que é outro elemento que, assim, fundamental, a parte da coisa do carnaval, né, como tem a Baiana, tem o MestreSala, [...] Porta-Bandeira, Comissão de Frente [...]e ai vai se aproximando do dia do desfile, né, aí os carros vão sendo feitos, a gente vai acompanhando se tá tudo, né, dentro de uma coluna, né, de desenvolvimento pra criar um espetáculo bom de se ver [...] e fica todo mundo muito atento e quando chega assim, Natal, a gente já tem que tá com uma boa parte das coisas já resolvidas, já encaminhadas. Quando chega ali o Natal que a gente vê que tem um monte de pontos que não estão já resolvidos, aí a gente começa a “correr atrás”.

O período de outubro até o carnaval marca também o período dos ensaios técnicos, que conta com a participação dos membros participantes da agremiação: a comunidade.

Pavão (2005) apresenta um novo sentido para o termo comunidade

utilizado nas escolas de samba que denota a uma nova dinâmica de inclusão nas agremiações provocada pelo interesse comum em participar da escola: “Fatores

endógenos

e

exógenos

ao

espetáculo

carnavalesco

estão

progressivamente alterando as relações comunitárias no interior das escolas de

52


samba, mas isso não significaria [...] o abandono dos valores tradicionais. Os novos grupos herdam e re-elaboram os aspectos já existentes, incorporando os símbolos e a história construída ao longo da trajetória da agremiação.” (Pavão, 2005, p. 7)

Nesse sentido a percepção de comunidade não abrange exclusivamente os indivíduos unidos pela aproximação geográfica, mas ganha um novo significado, aproximando-se a uma rede de relações e interesses comuns como cita Cavalcanti (2006, p. 41): “Nas grandes escolas de samba, a vinculação ao local onde se encontram sediadas é até hoje uma de suas características básicas. Muitas delas trazem o bairro, ou a localidade, no seu nome: Mocidade Independente de Padre Miguel, Salgueiro, Mangueira, União da Ilha do Governador, Estácio, Beija-Flor de Nilópolis, entre outras. Creio mesmo que, atualmente, o termo “comunidade”, tão usado pelos membros das grandes escolas, repórteres e comentaristas de televisão, refere-se menos à mitificação de uma suposta origem do que ao necessário enraizamento de todas as escolas, grandes ou pequenas, no bairro em que se situam. Contudo, as escolas de samba, e em especial as grandes escolas, trouxeram uma novidade sociológica. Com elas, a rede de reciprocidade estabelecida através do desfile ultrapassou a dimensão horizontal. Não se trata mais apenas das ruas do bairro periférico e dos bairros periféricos relacionandose e competido entre si. Elas relacionam [...] os diferentes bairros da cidade e as diversas camadas da sociedade, tecendo uma rede de relações que atravessam a cidade.”

Entrevistado 1 fala sobre essa abertura da agremiação aos moradores de outros municípios e atribui isso ao crescimento da escola. “Hoje a Beija-Flor é [...] uma grande nação nilopolitana, quer dizer, um município que é a força motriz dessa escola, claro que o tempo passa, né, a escola cresceu e tá crescendo cada vez mais e então outros adeptos de outros municípios próximos, quer dizer até do Rio mesmo vão pra lá, fazem parte da comunidade sim porque toda a quinta feira eles estão lá ensaiando, entendeu? Não quer dizer que eles não moram [...] em Nilópolis [...] porque toda quinta-feira eles estão lá, toda terça-feira, ou todo dia que for pedido eles estão lá, ensaiando,cantando, né, dando sua força pela Beija-Flor de Nilópolis. Então não é só os nilopolitanos, tem Mesquita, Nova Iguaçu, Belford Roxo, Caxias, [...], o pessoal da Zona Sul, né, enfim, Zona Norte. Quer dizer, Beija-Flor estendeu muito seus “tentáculos” que agora estão em todo o Rio de Janeiro.”

53


É importante ressaltar que o entendimento de comunidade para a escola é relacionado com o envolvimento, com a dedicação dos membros em compartilhar os valores da escola e participar dos eventos e ensaios na escola, como explica Entrevistado 3: “[...] a Beija-Flor é uma escola que quando a gente fala nossa comunidade, claro que qualquer componente independente da onde ele more, ele se comprometendo e ensaiar, ele é um membro da nossa comunidade.”

A relação da comunidade e a Beija-Flor é de suma importância para a agremiação, no entanto, foi uma a relação construída ao longo dos anos através do Diretor Geral de Carnaval, o Sr. Laíla que buscou a aproximação de membro para escola, objetivando um maior envolvimento emocional com a agremiação, como menciona Entrevistado 4: “Nem toda comunidade é de Nilópolis, não precisa ser de Nilópolis pra ser da comunidade, a maior parte é, claro, mas você é da comunidade a partir do momento que você frequente a escola, então se você freqüenta sempre a escola você faz parte da comunidade da escola [...]. Todo o ensaio que você for convocado você tem que tá, você tem que participar, tem que ensaiar, tem que cantar. Isso é comunidade! Isso que é a diferença [...]. O certo mesmo, o que realmente representa a comunidade é o compromisso, você vai ganhar uma fantasia, mas você vai doar o seu tempo, a sua voz, sua vontade realmente de estar ali na escola, é um trabalho que não tinha antes, as roupas eram todas vendidas, desde quando a gente assumiu, e o Laíla com o trabalho dele [...]. A escola tem que ser comunidade pra passar paixão tem que ter a dedicação da pessoa [...] então começou com três alas, quatro alas, hoje é praticamente a escola toda, 80%, essas roupas dadas às pessoas que participam estão sempre lá, todos os eventos, participam, votam no samba, então é a participação muito grande delas, e escola de samba é isso!”

Para melhor entendimento da criação da comunidade da escola, antes do surgimento da Comissão de Carnaval, a comunidade era composta por cerca de trezentas pessoas, os demais componentes compravam a fantasia para desfilar, no entanto, não tinham envolvimento com a agremiação. Entrevistado 4 comenta sobre isso: “A Beija-Flor, quando eu cheguei aqui, era uma escola completamente de roupas vendidas, então você não tinha “na mão” as pessoas [...]. Elas só apareciam no

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dia, praticamente, uns ou outros que iam no ensaio e com esse trabalho de comunidade [...].Você vai na quadra, sempre que você vai as pessoas tão lá, isso é legal, você tem o componente, o componente acompanha o desenrolar do enredo, o desenrolar da escola, o que a escola precisa, então ele bota o coração que é um diferencial [...]. É a pessoa participando [...], ela deu o tempo, ela dedicou o tempo, ela dedicou toda a vontade dela de tá ali, é essa a diferença, a escola passa e as pessoas sentem essa emoção, não é uma escola que passa igual uma marcha. Ela passa com emoção! Com canto com dança, com paixão, essa é a diferença!”

É importante destacar a relação da escola com a comunidade e com o povo de Nilópolis, como descreve Entrevistado 4, dos 3.800 componentes, 800 são provenientes de fantasias vendidas, ou seja, 3.000 fantasias são doadas aos membros da comunidade em troca do comprometimento com a escola. É possível identificar uma forte relação da comunidade local com a Beija-Flor de Nilópolis, num primeiro momento, a junção do nome ressalta essa relação, já que, inicialmente, a escola possuía somente o nome “Beija-Flor”. Com a junção do nome da escola ao município, a relação dos munícipes também se estreitou e, atualmente, é difícil desassociar a cidade de Nilópolis a agremiação, como cita Entrevistado 3: “Nilópolis [...] e a Beija-Flor é assim, [...] realmente “unha e cutícula”. [...] Porque a família Abraão David há alguns anos faz um trabalho social, projetos sociais muito fortes em Nilópolis, de esporte, de balé, educandário, creche, então assim, são distribuídas cestas básicas, a gente faz uma festa. [...].”

A relação entre o poder público municipal e a Beija-Flor de Nilópolis foi construída ao longo dos anos através da influência política da família Abraão David e Sessim, como cita Bezerra (2010b, p. 65): “Há anos controlando os principais recursos de poder na cidade, tanto lideranças da família Abraão quanto da família Sessim têm lugar garantido em diversos eventos públicos, oficiais e não oficiais, que representam na localidade espaços privilegiados em que os integrantes do grupo dominante podem contar suas origens e discursar em defesa do seu modo de fazer política. Além disso, eles dispõem de todo um aparato de comunicação composto pelos materiais de imprensa vinculados à Escola de samba Beija-Flor, os quais são utilizados para a manutenção de uma certa imagem oficial das duas famílias que veio sendo construída ao longo dos anos.”

55


Não se busca, de fato, as razões da participação política das famílias Abraão David e Sessim no poder público municipal, no entanto, vale ressaltar que há indícios de relação da agremiação com o Poder Executivo Municipal, conforme entrevista do Prefeito Farid Abraão David na gestão do período de 2001-2008: “Ao longo dos anos, a escola foi crescendo e ganhando fama, tornando também famosa a comunidade – que, com muito emprenho e com o apoio dos que tão bem têm sabido liderá-la, é a grande responsável por todo esse sucesso. O tricampeonato conquistado nos carnavais de 1976, 1977 e 1978 projetou de vez a cidade no cenário nacional e internacional. “Esse crescimento da escola foi essencial”, como enfatiza Farid Abraão, “para que a cidade recebesse mais recursos do governo federal.” (Revista Beija-Flor – uma escola de vida, 2002, p.12)

A Beija-Flor de Nilópolis também possui projetos sociais como: Ginástica Artística: Um sonho para todos; Escola de balé; Centro de Apoio Comunitário; Creche; Educandário; Esportes; Sonho do Beija-Flor; Formação de Mestre-Sala, Porta-Bandeira e passista. Esses projetos têm cunho social, além de também preparação para novos artistas e profissionais da indústria carnavalesca, como a criação de alegorias, adereços e fantasias. De acordo com Entrevistado 3 esses projetos estreitam as relações comunitárias na escola, motivando e comprometendo o componente. “[...] as pessoas que já eram Beija-Flor sabem, tem a tranquilidade de saber que seu filho tá estudando, tá praticando esporte, tá numa aula de balé, que recebe uma cesta básica pra complementar a alimentação. Sabendo disso ele se compromete bem pra Beija-Flor, muito mais animado do que se viesse, se fosse só pela paixão pelo carnaval que já é grande, mas é um componente que já vem muito mais motivado, então quando ele vai pro ensaio, vai pra quadra, vai pro ensaio técnico, vai pro desfile, ele vai realmente dando o seu melhor, assim, cantando muito alto, brincando muito, evoluindo muito.”

Acima foi discutido a estruturação da escola em sob um ponto de vista da organização carnavalesca. Em nível administrativo a agremiação é estruturada em departamentos, presidência de honra, presidência administrativa e vice-presidências, sendo assim a agremiação possui a seguinte disposição: Presidência de Honra; 56


Presidência Administrativa; Vice-Presidência; Vice-Presidência de Administração e Finanças; Diretoria de Administração e Finanças; Vice-Presidência de Patrimônio; Diretoria de Patrimônio; Vice-Presidência Social e Recreativo; Diretoria Social e Recreativo; Vice-Presidência Jurídico; Vice-Presidência de Esportes; Vice-Presidência de Comunicação e Divulgação; Vice-Presidência Cultural e Artístico; Vice-Presidência de Carnaval; Vice-Presidência Feminina e de Assistência Social, Departamento de Imprensa. A maior parte dos departamentos é situada na quadra da escola, em Nilópolis, no barracão da agremiação, na Cidade do Samba, ficam as atividade diretamente relacionadas à produção do carnaval, como explica Entrevistado 4: “[...] tem a quadra e tem o barracão, a quadra tem mais a parte de marketing, show, toda essa logística de show e eventos que tem na quadra. Então isso é mais lá a parte de marketing e eventos é toda lá e aqui é a parte mesmo de carnaval, administração a criação que é nossa, e da criação que tem todos os setores, aí vem fibra, madeira, escultura, ferro, pintura, adereço, costura. A parte financeira que é administração que cuida, né, a parte de recursos humanos e a parte financeira, o que você pode comprar o que você não pode, o que você pode gastar o que não pode.”

A departamentalização da organização carnavalesca é comparável a estrutura de uma empresa com fins lucrativos. A estruturação da escola traz à tona, até mesmo entre os colaboradores e carnavalescos a visão de empresa na agremiação, como cita Entrevistado 1: “[...] você chega aqui, você se coloca numa empresa, como se fosse trabalhando num setor de criação de uma Coca-Cola, setor de criação de uma Petrobras, essa [estrutura] é o que nos dá, temos um computador com internet o tempo inteiro, fora a nossa sala, que é a 2ª sala de criação, do outro lado [...], tudo que a gente tem de computação, nos temos o pessoal trabalhando em 3D, desenvolvendo um trabalho de alegorias em 3D, então quer dizer, um nível de organização de uma grande empresa.”

Nesse sentido, a estrutura da Beija-Flor se aproxima a uma organização empresarial, fato que se dá pela disposição dos departamentos, hierarquia dos cargos, o arranjo dos processos. No quadro abaixo foi relacionada uma avaliação do processo de empresarização com base na teoria de Solé (2004). Buscou-se traçar um parâmetro de relação com esta tória, o contexto histórico da agremiação e o contexto atual. 57


Beija-Flor de Nilópolis Traço

Categoria

Período Período Avaliação Histórico Atual

Avaliação

Observações A Beija-Flor por está participando de uma competição pode ser desclassificada, no entanto, é uma escola que se destaca e compete frente as outras agremiações

1

A empresa é um conjunto humano, mais ou menos estável, vasto ou reduzido, mais ou menos concentrado, podendo desaparecer a todo momento

Existe

Fraco

Existe

Médio

2

A empresa é uma organização na qual a atividade é única ou múltipla

Existe

Fraco

Existe

Forte

3

A empresa é uma organização que concebe, produz e vende mercadorias

Existe

Fraco

Existe

Forte

4

A empresa é uma organização que compete permanentemente com outras empresas

Existe

Médio

Existe

Forte

5

A empresa é uma organização que supões outra organização: o mercado

Existe

Médio

Existe

Forte

6

A empresa é um processo de criação destrutiva de relações entre humanos

Não existe

-

Existe

Fraco

7

A empresa é um conjuto de relações incertas entre humanos

Existe

Fraco

Existe

Forte

8

A empresa é uma organização com moeda, capital e benefício econômico

Existe

Forte

Existe

Forte

9

A empresa é uma organização com escritura e contabilidade

-

Existe

Fraco

10

A empresa é uma propriedade privada

11

A empresa é uma mercadoria

Não existe Não existe Não existe

-

Não existe Não existe

-

A escola não é, exclusivamente, produtora do carnaval mas também vendedora de bens e serviços, como camisas, sandálias personalizadas, shows e produção de eventos Conforme a categoria anterior, a comercialização de diversos produto consiste em uma das atividades da escola, paralelo a produção do carnaval A competição carnavalesca das escolas de sempre houve, no entanto, atualmente a competição concentra-se em outros aspectos subjetivos como busca de patrocínio e visibilidade nacional e internacional A Beija-Flor está sujeita às interações do mercado, seja de fornecedores ou de outras escolas, que competem diretamente (escolas de samba do Grupo Especial) e indiretamente (escolas de samba de outros grupos) com a agremiação A finalidade da agremiação não é a rigidez na redução de custos para a demissão dos colaboradores mas o foco está sim, no desenvolvimento da escola Para o desfile da escola é realizado investimentos de recursos voltados para a produção do espetáculo carnavalesco, no entanto, é imprevisto que o desfile será bem sucedido As escolas de samba, de um modo geral, necessitam de recursos financeiros para a sustentação das suas atividades carnavalescas e administrativas. Para isso, a Beija-Flor conta com um patrocinador para o financiamento de suas atividades Os controles contábeis são realizados apenas para simples conferência e não tem forte influência na tomada de decisão da escola A Beija-Flor não é pertencente a um ou mais donos, e não pode ser interpretada como objeto de posse A agremiação é um objeto de comercialização

58


Beija-Flor de Nilópolis Traço

Categoria

Período Período Avaliação Histórico Atual

Avaliação

12

A empresa é uma organização salarial

Existe

Médio

Existe

Forte

13

A empresa é uma relação dirigente/dirigido, servidão voluntária

Existe

Fraco

Existe

Fraco

14

A empresa é uma organização que produz e implica desemprego

Existe

Fraco

Existe

Médio

15

A empresa é uma organização submetida ao direito, às leis

Existe

Médio

Existe

Fraco

16

A empresa é uma organização que está sujeita a outra organização: o Estado

Existe

Médio

Existe

Forte

17

A empresa é uma organização onde a propriedade e a direção podem estar confundidas ou separadas

Não existe

-

Não existe

-

18

A empresa possui divisão do trabalho

Existe

Médio

Existe

Forte

19

A empresa é uma organização que implica e produz indivíduo

Não existe

-

Não existe

-

20

A empresa é uma organização que produz linguagem

Existe

Médio

Existe

Forte

21

A empresa é uma organização que produz e implica humanos insatisfeitos

Existe

Fraco

Existe

Fraco

22

A empresa é uma organização que implica e produz uma concepção de felicidade

Existe

Forte

Existe

Forte

Observações A escola busca e contrata profissionais especializados no mercado e paga uma remuneração pelos seus serviços realizados Como princípio histórico, os colaboradores da escola que nela trabalham demonstram um sentimento afetivo pela agremiação, amenizando a relação empregador x empregado Como toda organização que contrata pessoas a Beija-Flor também demite As atividades carnavalescas eram, há muito tempo atrás, consideradas atividades de baderneiras, no entanto, com a visão de espetáculo do carnaval a pressão das leis foram minimizadas, mas existe a legislação a ser seguida O Estado possui forte relação com as escolas, de um modo geral, e com a Beija-Flor. É perceptível pela construção da Cidade do Samba e pela subvenções destinadas à escola para auxílio à produção do carnaval Como a Beija-Flor não supõe a propriedade esta categoria inexiste para escola A agremiação é disposta em departamentos que possuem atividades distintas e especializadas Na Beija-Flor a visão individualista é inexistente. A visão de comunidade e participação é dominante na agremiação A escola utiliza códigos referentes à dinâmica carnavalesca De forma que os interesses dos indíviduos frente aos da agremiação podem ser divergentes, a escola deve mediar este interesses. Vale ressaltar que, como a gestão da escola é compartilhada a insatisfação é minimizada pela participação dos colaboradores A satisfação na produção dos desfiles não é somente do público, mas também a todos que participam do desfile e da produção do carnaval na Beija-Flor de Nilópolis

Quadro 1: Avaliação do Processo de Empresarização na estrutura da Beija-Flor de Nilópolis

59


Diante do quadro acima é possível verificar que a Beija-Flor sobre influência do processo de empresarização, principalmente no que faz referência a divisão do trabalho, influenciado pela departamentalização, ou seja, pela especialização do trabalho nos níveis operacionais. A comercialização de mercadorias também é um importante ponto de influência a ser destacado, como princípio histórico, as escolas de samba não tinham por objetivo a venda de artigos carnavalescos e a produção de eventos. Nesse sentido, a Beija-Flor tem forte influência devido à existência sua loja virtual de artigos carnavalescos e produção de shows em eventos, tornando esta atividade como uma nova categoria de produto a ser comercializado. A competição dos desfiles fez com que o carnaval torna-se um grande espetáculo conforme relatos do Entrevistado 4: “A escola de samba hoje em dia ela tem uma função, digamos que, um tanto quanto mais complicada do que tinha nos anos anteriores, há décadas, há décadas atrás. Antigamente [...], existia competição, mas tinha um cunho mais de divertimento [...], o que mudou de algumas décadas pra cá, formou-se um grande espetáculo, um grande concurso de arte, então a cada ano os artistas se profissionalizaram cada vez mais, os técnicos [...] são convocados pra trabalhar com carnaval, tudo acabou contribuindo pro carnaval se tornar o maior espetáculo a céu aberto do mundo, uma grande ópera a céu aberto. Isso acaba acarretando uma cobrança artística muito grande não só por parte do público que se tornou muito mais exigente a nível do que ele vai receber do carnavalesco, da agremiação com o carnaval que ela se propõe a fazer, quanto de nós mesmos, tanto dos artistas da própria escola, da própria Beija-Flor, quanto com relação aos outros artistas das outras agremiações que acabam criando esse “duelo” pra ver quem vai fazer o melhor carnaval, quem vai fazer, desenvolver as melhores fantasias e alegorias”

Nesse sentido a produção do carnaval precisa de sustentação de um patrocinador para o financiamento dessas atividades. É nessa perspectiva que o processo de empresarização possui uma forte influência devido a geração de visibilidade para a escola. O “duelo artístico” citado pelo Entrevistado 4 pode ser comparado a um grande mercado impulsionado pela adoção de estratégias para a obtenção de mais recursos futuros. No quadro abaixo busca-se a explanação da produção do carnaval da Beija-Flor. 60


Etapa do Processo

Jan

Fev

Mar

Abr

Mai

Jun

Jul

Ago

Set

Out

Nov

Dez

Jan

Fev

Pré-seleção do Enredo Análise das propostas de Enredo Seleção do Enredo Pesquisa de Campo e Bibliográfica Elaboração da sinopse e apresentação a presidência e patrocinadores Elaboração dos desenhos das Fantasias, Alegorias e Adereços Elaboração das plantas das Alegorias em 3D Envio da sinopse para a ala de compositores Recepção das Obras de Samba-Enredo criadas pelos compositores Seleção do Samba-Enredo Escolha do Samba-Enredo Desenvolvimento dos protótipos Apresentação dos protótipos à agremiação Estruturação e Montagem das Alegorias e Adereços Produção de Fantasias Ensaios Técnicos Desfile Carnavalesco

Quadro 2: Processo de produção do Carnaval da Beija-Flor

61


Com isso são apresentados os aspectos relativos à estruturação da Beija-Flor de Nilópolis. Abaixo serão analisados os pontos característicos referentes à gestão da agremiação.

4.4 O Processo de gestão da Beija-Flor de Nilópolis Do mesmo modo que foi realizado para a análise da estrutura da escola de samba, o entendimento do processo de gestão será dividido novamente em dois níveis: o carnavalesco e o administrativo. Participam da gestão do nível carnavalesco o Diretor Geral de Carnaval, o Sr. Laíla que lidera e os membros da Comissão de Carnaval, que fazem a gerência de todas as atividades inerentes à criação e produção do carnaval. Conforme dito no capítulo anterior, a tomada de decisão é realizada em grupo, no entanto, devido a experiência do Sr. Laíla, as decisões acabam dependendo do aval dele, de acordo com os relatos de Entrevistado 5: “O Laíla é o grande maestro do carnaval, ele é um grande mestre de harmonia, de carnaval, de evolução, e ele é autodidata. Ele se formou, [ele] praticamente criou essa profissão, que lá nos tempos do Salgueiro ele começou a desenvolver técnicas que são seguidas até hoje e são aprimoradas por ele mesmo. Então o que você acaba buscando no carnaval, você acaba encontrando muitas respostas na figura do Laíla [...]. O Laíla entende até da parte de criação, que não era basicamente a especialidade dele. Com o passar dos anos ele começou a ter uma visão crítica, que você acaba desenvolvendo por trabalhar muito tempo ligado com aquilo, então ele já consegue opinar em todos os ramos do carnaval, ele já consegue dominar todas as áreas e é o grande “monstro” do carnaval. A Beija-Flor funciona muito sobre a aprovação dele, muita gente confia no trabalho dele e tem dado certo. E é isso que funciona, ele é o grande maestro dessa ópera toda da Beija-Flor.”

O Sr. Laíla exerce toda a coordenação no que tange ao carnaval da agremiação, é possível verificar que a perícia o Diretor Geral de Carnaval dirige a escola com perícia em todas as áreas, desde a criação à produção, como explica Entrevistado 1: “Bom, a Beija-Flor, é [...], não seria diferente, é os resultados né, os resultados que a escola tem, graças a Deus, é devido também a essa administração, a essa

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organização, né, a parte de carnaval feita pelo Laíla, né, quem organiza toda essa parte de direção de carnaval, né, desde a criação né, conosco aqui a busca do figurino, dos desenhos de carros, as plantas, enfim, até o início da execução, o protótipo, é [...] o trabalho já de construção de alegoria lá embaixo, que é a parte da ferragem, enfim a parte artística, que é o lance da escultura, carpintaria, enfim, ele coordena todo o passo a passo com o cronograma, pra que a gente tenha aí o objetivo cumprido que é fazer um grande trabalho no final sem atropelo [...]”

Além da gestão do nível carnavalesco que cuida das atividades diretamente relacionadas à produção do carnaval, a esfera administrativa cuida das operações relativas a fornecer condições para que o desfile possa ser realizado. Isto significa que a administração cuida de Compras, Finanças, Recursos Humanos e as atividades de apoio para gerir a estrutura da escola. Vale destacar os papéis do Presidente de Honra e Presidente Administrativo, que, participam do gerenciamento das operações carnavalescas através do fornecimento de suporte para que o carnaval da escola seja realizado. É possível perceber através das declarações de Entrevistado 1: “a Beija-Flor graças a Deus, a gente tem [...] todas as condições aqui de organização, né, claro, também vem da parte administrativa que [...] nos dá condições para que a gente possa executar isso tudo. Então a Beija-Flor [...] hoje é uma das mais organizadas, [...] ela muito bem planejada pra poder levar o carnaval pra avenida e fazer a diferença, e por isso nos últimos dez anos, seis campeonatos.”

Na verdade, a gestão administrativa tende a construir uma estrutura organizacional com traços empresariais, almejando mais investimentos na escola e buscando profissionais para atuar na escola, como diz Entrevistado 5: “Nos acabamos de ter uma mudança, o nosso presidente era o Farid Abraão, agora passou para o sobrinho dele, [...] Nelsinho David. E o Nelsinho tem uma visão de espetáculo, ele já vem dessa, com essa carga anterior, além de gostar da Beija-Flor, já vem, com essa carga mais profissional, então é provável que a gente consiga essa tal transformação da visão de carnaval pra se tornar mais empresarial, conseguir mais investimentos, mais dedicação pro carnaval [...].”

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Nesse sentido, é possível observar que a gestão da agremiação é composta pela junção da esfera administrativa e carnavalesca que se complementam em busca de um objetivo comum. De um modo geral, mesmo que as decisões sejam tomadas pela cúpula da escola, é possível perceber que os colaboradores têm liberdade para participar do processo decisório, como afirma Entrevistado 3: “[...] a gente tem um administrativo que a Presidência dá suporte pra gente trabalhar, né, a gente tem a segurança do Sr. Anízio e do Nelsinho, que [...] são pessoas que qualquer um de nós consegue sentar e conversar tranquilamente [...].

Os efeitos da forma de gestão através da Comissão de Carnaval e da tomada de decisão participativa é sentido em toda agremiação, o que conduz a uma cultura de participação entre os membros. “Hoje a escola funciona quase que sozinha, as pessoas já sabem seus lugares [...]. Quer falar com a comunidade, [...] tá todo mundo lá, sempre quando a gente precisa, lá na quadra pra gente falar o que a gente quer, propor, né, conversar sobre as coisas. Então há uma participação geral, essa história de Comissão de Carnaval se irradiou pra escola toda, a escola toda tem esse pensamento coletivo, se ajudar pra que a Beija-Flor tenha sucesso, não uma pessoa ou outra e sim um todo. A escola inteira tenha sucesso.”

Com a afirmação de Entrevistado 4 é possível defender a existência de uma gestão coletiva que envolve toda a agremiação, mesmo que as decisões sejam tomadas pelos membros de alto escalão, o que auxilia a Beija-Flor de Nilópolis a concretização do seu objetivo que é ser campeã do carnaval. Finalmente, foi objetivado neste capítulo de análise a reflexão e compreensão do processo de estruturação e gestão da agremiação Beija-Flor de Nilópolis apoiando-se nos princípios de empresarização propostos por Solé (2005), na teoria de Economia da Cultura e buscando uma ampliação do contexto histórico do Mundo do Samba (Leopoldi, 2010). Paralelamente foi levantado o contexto histórico da dinâmica do carnaval e da agremiação para traçar as correlações com as contribuições teóricas, consolidando assim, os resultados demonstrados neste capítulo.

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5. CONCLUSÃO Considerando a teoria de empresarização proposta por Solé (2004) é possível afirmar que, apesar dos indícios de empresarização identificados na escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, a estruturação e gestão não são voltadas prioritariamente para a rentabilidade da escola enquanto negócio. Dessa forma, especialmente devido à forte relação comunitária da agremiação, a organização Beija-Flor de Nilópolis apresenta um princípio orientador diferente que a difere da lucratividade buscada por uma organização empresarial. Nesse sentido, os objetivos da escola convergem para investimentos na construção e manutenção dos laços comunitários junto aos públicos da escola. Nesse sentido foi identificado que as características da escola são voltadas para gestão participativa e a importância com a comunidade da agremiação. A percepção de comunidade para a Beija-Flor remete ao público que participa da trajetória da escola no que se refere a produção do carnaval e comparecimento dos ensaios. Com isso é possível afirmar que a Beija-Flor de Nilópolis é uma escola de samba que mantém uma forte relação com a sua comunidade através de fidelidade. A estruturação da escola é realizada conforme a especialização das operações nos níveis operacionais, isto é, os setores que se referem à construção das alegorias e adereços e a produção das fantasias. No entanto, a divisão do trabalho no nível mais alto da organização carnavalesca, que envolve os profissionais de criação que são os carnavalescos da Comissão de Carnaval não é rigidamente definida e é realizada conforme a afinidade das tarefas dos profissionais envolvidos. Vale ressaltar a importância dos departamentos administrativos que constituem em setores de apoio para toda a escola. A gestão da agremiação deve ser dividida em dois níveis: o carnavalesco e o administrativo. No primeiro nível o Diretor Geral de Carnaval coordena as atividades diretamente relacionadas à produção carnavalesca, desde o processo de criação junto à Comissão de Carnaval até o término da cadeira produtiva. No nível administrativo, o Presidente de Honra e Presidente Administrativo coordenam as atividades de apoio, ou seja, busca fornecer condições através da obtenção de recursos para que o carnaval seja realizado conforme as expectativas da Comissão de Carnaval. Diante da análise realizada é possível identificar que a Beija-Flor a influência do processo de empresarização teve sua acentuação com a construção da Cidade do Samba 65


que especializou a estrutura das agremiações, criando uma fábrica de carnaval. A estruturação do espaço tem correspondência com a divisão do trabalho, influenciado pela departamentalização, ou seja, a especialização do trabalho em diversos níveis. Como isso foi proporcionado uma infraestrutura as escolas de samba, de um modo geral, comparável a linha de produção de uma empresa. A venda de artigos carnavalescos também constitui em um importante ponto de influência a ser ressaltado. A comercialização da marca da escola, dos shows, de vestuários propõe a visualização de um ambiente de mercado e conquista de clientes, com isso, há indícios de múltiplas atividades produtivas da escola de samba Beija-Flor que, no entanto, não são suficientes para a auto-sustentação da escola. Por conseqüência é necessário a presença de um patrocinador para o financiamento das atividades carnavalescas. Com isso, o processo de empresarização possui uma forte influência devido ao estabelecimento de contratos para a divulgação da marca patrocinadora. Diante disso, o contexto da dinâmica carnavalesca é comparável a um ambiente mercado cercado de pressões de diversos agentes econômicos que realizam uma troca de valor com as escolas de samba. Frente aos argumentos dos três parágrafos acima é válido perceber a dimensão do fluxo econômico gerado pelas atividades produtivas do desfile da escola. Além disso, a agremiação conduz a criação de empregos diretos e indiretos como condiz a evidência de Filho et alli (2009) que em síntese o carnaval do Grupo Especial movimenta cerca de R$ 685 milhões e mobiliza cerca de 470 mil trabalhadores. Portanto, é possível concluir que as atividades que se assemelham as funções empresariais convergem para o interesse dos laços comunitários para a produção do carnaval, mesmo que a Beija-Flor de Nilópolis ainda realize a venda de fantasias, o que representa apenas cerca de 20% da composição de alas da escola e artigos carnavalescos não é possível afirmar que a Beija-Flor esteja transformando-se em uma empresa no que se refere à comercialização de artigos carnavalescos como as fantasias, a participação e a visibilidade do desfile voltado para a lucratividade, mas é possível sim, relacionar a agremiação à estrutura empresarial no que tange a organização que tornou o carnaval mais planejado e organizado para levar ao público entretenimento e alegria, que fazem o carnaval carioca ter a vitalidade como o “maior espetáculo da terra”.

O estudo tem por recomendação a análise do processo de empresarização e sua influência na gestão e estruturação organizacional de outras escolas de samba que 66


compõem os grupos menores. É de grande relevância provocar esta reflexão sobre a profissionalização da cultura popular, já que, parte-se da suposição que as escolas de samba de menor escalão possuem fortes vínculos comunitários, o que pode desvincular a uma perspectiva profissional da escola de samba, no entanto, deverá ser considerado que na teoria proposta por Solé (2004) o fenômeno de empresarização é disseminado para diversos tipos de organizações, independente da amplitude. É uma reflexão a ser analisada.

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6. REFERÊNCIAS BARBIERI, Ricardo José de Oliveira. Para bilhar na Sapucaí: hierarquia e liminaridade entre as escolas de samba. Textos escolhidos de cultura e arte populares, v.7, n.2, p. 183-198. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2010. BEZERRA, Luiz Anselmo. A Beija-Flor dos anos de sacrifício. Textos escolhidos de cultura e arte populares, v.7, n.2, p. 217-232. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2010. _______. A família Beija-Flor. 2010. 243 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2010. CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. 3. ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006. COSTA, Haroldo. 100 anos de carnaval no Rio de Janeiro. São Paulo: Irmãos Vitale, 2001. DURIEUX, Andrea. O processo de empresarização do voleibol catarinense. 2005. 148 f. Dissertação (Mestrado em Administração) – Curso de Pós-Graduação em Administração, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2005. ETZIONI, Amitai. Organizações Modernas. São Paulo: Pioneira, 1967. FERREIRA, Felipe. Inventando carnavais: O surgimento do Carnaval carioca no século XIX e outras questões carnavalescas. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005. FILHO et alli, Luiz Carlos Prestes. Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval. Economia da Cultura. Recife: Fundação Jardim Nabuco, Editora Massangana, 2009. GALVÃO, Walnice Nogueira. Ao som do samba: uma leitura do carnaval carioca. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2009. GIL, Antonio Carlos. Como elabora projetos de pesquisa. 4. ed. – 11. reimpr. São Paulo: Editora Atlas, 2008. GRES

BEIJA-FLOR

DE

NILÓPOLIS.

Disponível

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http://www.beija-

flor.com.br/2012/index.html. Acesso em 18/11/2011. JULIANO, Viviane Fontes. As Singularidades da Gestão das Empresas de Produção Cultural. In: VI ENECULT (2010, Salvador). LEITE, Edson, CAPONERO, Maria Cristina, PEREZ, Simone. Um carnaval fora da lista: quando a identidade é criada para o mercado. Textos escolhidos de cultura e arte populares, v.7, n.2, p. 97-108. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2010.

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LEOPOLDI, José Sávio. Escola de Samba, ritual e sociedade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2010. LIESA - Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Informativo da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Ano IV – Nº 5 – Fevereiro, 2006, Edição Especial – Cidade do Samba. Rio de Janeiro: Editora Íris, 2006. _______. Manual do Julgador – Carnaval 2011. Rio de Janeiro: Liesa, 2011. MIGUEZ, Paulo. Alguns Aspectos do Processo de Constituição do Campo de Estudos em Economia da Cultura. In: IV ENECULT (2008, Salvador). PAVÃO, Fábio Oliveira. Uma comunidade em transformação. Modernidade, organização e conflito nas escolas de samba. 2005. 114 f. Dissertação (Mestrados em Antropologia) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2005. REVISTA BEIJA-FLOR – UMA ESCOLA DE VIDA. Edição Histórica. Rio de Janeiro: Ed. Designum Comunicação, 2002. _______. Rio de Janeiro: Ed. Designum Comunicação, 2003. _______. Nº 6. Rio de Janeiro: Ed. Da Fonseca Comunicação e Editora Ltda., 2007. _______. Nº 9. Rio de Janeiro: WideBrasil Comunicação Integrada, 2010. _______. Nº 10. Rio de Janeiro: WideBrasil Comunicação Integrada, 2011. RODRIGUES, Marcio Silva, SILVA, Rosimeri de Fátima Carvalho. Clientes ou Torcedores:A Empresarização do Futebol no Brasil. In: Revista Alcance (2005, Florianópolis). SOLÈ, Andreu. ¿Qué es una empresa ? Construcción de un idealtipo transdisciplinario. Papel de trabajo: Paris, 2004. TOLILA, Paul. Cultura e economia: problemas, hipóteses, pistas. Tradução Celso M. Pacionik. São Paulo: Iluminuras: Itaú Cultural, 2007. VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e Relatórios de pesquisa em Administração. 5. ed. São Paulo: Editora Atlas, 2004. _______. Projetos e Relatórios de pesquisa em Administração. 6. ed. São Paulo: Editora Atlas, 2005. _______. Métodos de coleta de dados no campo. São Paulo: Editora Atlas, 2009.

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7. ANEXOS 7.1 Anexo 1 – Roteiro de Entrevista

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Instituto Multidisciplinar de Nova Iguaçu Departamento de Administração e Turismo Curso de Graduação em Administração Roteiro de Entrevista – “O processo de estruturação e de gestão das Escolas de Samba: o caso da agremiação Beija-Flor de Nilópolis” Aluna: Marcelo Bruno Ferreira Dantas Orientador: Janaína Machado Simões

Tópicos: 1.

Realizar um histórico do campo acerca das escolas de samba e da agremiação Beija-Flor de Nilópolis, identificando os fatores históricos, sociais e institucionais que compõem o ambiente interno e externo da agremiação.

  

História do entrevistado Histórico do campo Histórico da trajetória da escola

2.

Identificar a finalidade e as características da Escola de Samba a ser analisada.

          

Características atuais da escola (Como é a escola) Objetivos da escola Quais são os públicos da escola Perfil das pessoas que freqüentam a escola Perfil da comunidade do entorno da escola Participação da comunidade Qual o papel/importância da escola para o município Relação da escola com o poder público municipal e estadual Relação da escola com a iniciativa privada Relação da escola com a LIESA Relação da escola com outras escolas

3.

Descrever e analisar o processo de estruturação da Beija-Flor de Nilópolis.

  

Como a escola está estruturada/divisão do trabalho Papeis e atribuições dos cargos (Regime de trabalho, formalização e remuneração) Como é feita a escolha dos ocupantes dos cargos

4.

Descrever e analisar o processo de gestão da Beija-Flor de Nilópolis

 

Como funciona a forma de organizar (Gestão) Como que se dá o processo de elaboração do carnaval ao longo do ano (da escolha do enredo até o desfile e depois do desfile Como que é feita a gestão Existe algum planejamento Como os dirigentes dirigem a escola

  

70


  

Existem mecanismos de acompanhamento e controle Fontes de financiamento Principais desafios na gestão da escola

5.

Encerramento

A importância do carnaval para o estado e para os municípios

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