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“Floripa também tem samba de verdade!” O “samba local” nas falas da escola de samba Embaixada Copa Lord51 Áurea Demaria Silva aureademaria@hotmail.com (UNESP) Resumo: Nesta comunicação apresento resultados de pesquisa de mestrado realizada junto à escola de samba Embaixada Copa Lord. A pesquisa objetivou discutir relações entre práticas musicais e formas de sociabilidade enfocando as vivências de batuqueiros, mestres de bateria, compositores de sambas-enredo e intérpretes. Em Florianópolis, os primeiros agrupamentos carnavalescos que se apresentaram sob a designação “escola de samba” surgiram no final da década de 1940, tendo como referência escolas cariocas que adquiriam sucesso nacionalmente. No entanto, apesar da popularidade que as escolas de samba alcançaram como modelo de organização carnavalesca, na região Sul essas formas associativas desenvolvem-se em um contexto onde a história e cultura das populações afro-brasileiras não são reconhecidas no cenário da identidade local/regional, no qual tem prevalecido uma imagem de branqueamento e europeização. As populações organizadas em torno das escolas de samba vivem uma situação de certa invisibilidade e encontram-se inseridas em uma disputa cotidiana pela ocupação de espaços diante das restrições às manifestações afro-brasileiras dentro do campo de políticas culturais locais. Assim sendo, a presente exposição pretende explorar as tensões entre o “local” e o “nacional” – observadas nesse contexto da região Sul – a partir da noção de “samba local” que emerge nas falas de sambistas da Embaixada Copa Lord como elemento central na formação da identidade do grupo. Busca-se compreender a idéia de “samba local” enquanto recurso simbólico que vem sendo mobilizado pelos sambistas considerando o universo de conflitos e negociações que marcam a inserção de manifestações afro-brasileiras no espaço social e cultural da cidade. Palavras-chave: Embaixada Copa Lord. Escola de samba. Samba. Identidade. Carnaval de Florianópolis. Introdução Ao longo da realização de minha pesquisa de mestrado 52 que teve como foco discutir práticas musicais e formas de sociabilidade no contexto da escola de samba Embaixada Copa Lord, as questões da relação entre música e identidade suscitaram algumas reflexões, as quais busco dar seguimento após a conclusão da dissertação, no presente texto. Partindo das falas de sambistas da Copa Lord pretende-se versar aqui sobre a idéia de que o samba praticado em
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Agradecimentos: aos componentes da Embaixada Copa Lord, por acolherem de forma muito carinhosa esta pesquisa em sua agremiação; a todos que disponibilizaram seu tempo para a realização das entrevistas, em especial aos mestres de bateria Tiko e Carlão, ao batuqueiro Jean, aos compositores Celinho da Copa Lord e Edu Aguiar, ao intérprete de sambas Jeisson Dias; aos participantes da Seção de Comunicação “Mudanças culturais e a questão do patrimônio cultural”, pelo proveitoso debate realizado no III Encontro da ABET. 52 No balanço da “Mais Querida”: música, socialização e cultura negra na escola de samba Embaixada Copa Lord – Florianópolis (SC), realizada no Programa de Pós-Graduação em Música da UNESP, sob a orientação do Prof. Dr. Alberto T. Ikeda.
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Florianópolis possui “marcas” (“traços”, “características”) próprias, que conferem ao mesmo uma “identidade local”. Busca-se compreender a noção de “samba local” levando-se em conta tensões e negociações existentes entre referências “locais” e “nacionais”, as quais se manifestam no processo de inserção da escola de samba no cenário cultural da cidade. A escola de samba Embaixada Copa Lord O surgimento das escolas de samba em Florianópolis data do fim da década de 1940. Segundo Tramonte (1996: 86), os principais incentivadores das primeiras escolas de samba locais foram marinheiros procedentes do Rio de Janeiro e também do Norte do país que vieram prestar serviços militares na capital catarinense. Os marinheiros passaram a se concentrar na região de “Canudinhos” (atual rua Major Costa), nas proximidades do Morro da Caixa, fazendo com que essa região adquirisse a configuração de um “reduto do samba” (idem). Esse “reduto” adquiriu importância inegável para a história do carnaval de Florianópolis, tendo sido local de surgimento das primeiras escolas de samba da cidade, dentre elas, a Embaixada Copa Lord. Fundada no ano de 1955, a Copa Lord foi o terceiro agrupamento a utilizar a designação “escola de samba” no carnaval local (Silva, 2005). Sua base social forma-se a partir dos primeiros núcleos de ocupação da população negra na cidade, os morros localizados na periferia do centro urbano de Florianópolis. O Morro da Caixa (também designado como Mont Serrat), integra esse núcleo pioneiro de ocupação, que no caso específico dessa comunidade, teve início por volta de 1860 (Souza, 1992: 8). Nesse mesmo núcleo de ocupação estabeleceram residência os referidos marinheiros cariocas por volta da década de 1940. A Embaixada Copa Lord é considerada atualmente uma das escolas de samba mais “tradicionais” do carnaval da cidade. Dentre os fatores que levaram a essa caracterização destacam-se principalmente: a) a sua condição de pioneira, ou seja, ser uma das mais antigas; b) o seu local de surgimento (um dos morros da cidade, o que traz similitudes entre a trajetória da Copa Lord e o processo de formação das primeiras escolas de samba cariocas); c) o fato de congregar uma grande parcela de afrodescendentes, provenientes não só da comunidade do Morro da Caixa (Mont Serrat) como também de outros bairros de Florianópolis. Em uma definição bastante resumida, pode-se dizer que a escola de samba “Mais Querida” da cidade é identificada e se auto-representa como uma “escola de morro”, “de cultura afro”, portanto, “tradicional” e “autêntica”.
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“Segredos do Sul”: tradições musicais afro-brasileiras em um contexto de invisibilidade53 Estudos que tiveram como foco as populações de origem africana do Sul do Brasil demonstraram que os afrodescendentes desta região vivem em uma situação de invisibilidade, prevalecendo nesse contexto uma imagem de branqueamento e europeização.54 Santa Catarina figura no cenário nacional não somente como um “Estado branco”, mas também como “uma Europa incrustada no Brasil”, com uma imagem de “superioridade racial”, “desenvolvimento e progresso” (Leite, 1996b: 38). Segundo estes estudos, os negros, esquecidos pelas políticas públicas e pelas pesquisas científicas [...] deixaram de fazer parte, ou talvez nunca fizeram, do perfil étnico da região Sul, de sua identidade. Ou porque foram invisibilizados pelas várias formas de representação literária e política ou porque foram segregados social e espacialmente, de modo a serem tratados como inexistentes. (Leite, 1996a: 9).
Uma revisão crítica da literatura científica que versou sobre a contribuição da população negra na história de formação da região Sul demonstra que tais pesquisas não intentam mostrar a participação efetiva dos afrodescendentes nesse processo (Leite, 1996b). Centrada nas diferenças existentes entre o Sul do país e as outras regiões – principalmente no que concerne às diferenças do sistema escravista colonial – a literatura científica buscou consolidar a idéia de que os negros tiveram uma presença inexpressiva, insignificante (sem importância), e que isto consistiria na especificidade regional do Sul (idem). Nesse sentido, o processo de invisibilização “significa o não reconhecimento do negro como produtor de ciência, mantendo suas atividades desconhecidas pela pesquisa oficial, que é a representação mesma desta ciência” (Leite, 1996 apud Lima, 2002: 89). Percebe-se, nesse processo, “uma espécie de expediente perverso em que a ausência de textos científicos sobre a cultura afrodescendente justifica a não realização de futuras investigações científicas sobre o tema” (idem). Apesar dos mecanismos de invisibilização da população negra terem sido apontados por pesquisadores há algum tempo, colocando a questão na pauta das discussões que visam uma mudança desse panorama, pode-se observar que tais mecanismos continuam ainda atuantes, nas construções de imagens de Santa Catarina que têm sido veiculadas pela mídia, e como mostrarei a seguir, nas políticas culturais formuladas pelo poder público local. 53
Menção ao título do CD que apresenta registros sonoros de manifestações culturais afro-brasileiras da região Sul na série Documentos Sonoros Brasileiros da Coleção Itaú Cultural e Acervo Cachuera. 54 Trata-se de conjunto de pesquisas realizadas entre populações afrodescendentes da região Sul – que abordaram os temas: terra, trabalho, família, parentesco, religião, sociabilidade e formas de discriminação racial – reunidas no livro Negros no Sul do Brasil: invisibilidade e territorialidade, organizado por Ilka B. Leite (1996a).
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A imagem-símbolo do “local”: folguedos açorianos como “cultura oficial” da cidade Em Florianópolis, percebe-se por parte das políticas culturais da Prefeitura Municipal uma forte restrição às manifestações de tradições afro-brasileiras. Nos materiais institucionais divulgados pela Prefeitura os folguedos açorianos simbolizam a cultura “oficial” de Florianópolis, sendo os grupos de Boi-de-Mamão expressões máximas dessa “identidade local”. A citação que segue, extraída do site da Prefeitura, revela a preferência do poder público pelas manifestações culturais açorianas: A predominância do açoriano sobre os demais componentes da formação cultural de Florianópolis determinou a acentuada influência açoriana nas manifestações folclóricas da Ilha de Santa Catarina. Dentre as manifestações folclóricas mais praticadas pelo florianopolitano, destacam-se as chamadas “Brincadeiras de Boi”, que demonstram o caráter eminentemente rural do açoriano aqui aportado [...]. 55
Seguindo essa linha de pensamento, as apresentações culturais promovidas pela Prefeitura Municipal privilegiam os folguedos açorianos (ou ainda grupos musicais que afirmam serem influenciados por “traços açorianos”). Diante desse quadro, as escolas de samba – que não se encontram incluídas no processo de construção dessa “identidade local” – disputam cotidianamente espaços para a inserção de seus fazeres culturais e simbólicos no cenário da cidade. Este aspecto já havia sido observado por pesquisa precedente que enfocou as agremiações carnavalescas locais: Em Florianópolis, especificamente, a cultura afro-brasileira disputa espaço com a cultura de origem açoriana, objeto privilegiado dos folcloristas e imagem preponderante do turismo local, ao lado das praias. As imagens da ‘rendeira’ e do pescador artesanal preponderam no material de divulgação turística da cidade em detrimento das manifestações afro-brasileiras, como os desfiles das escolas de samba, embora não haja nenhuma incompatibilidade entre elas. (Tramonte, 1996: 188).56
No campo em que se desenvolvem as relações entre escolas de samba e o poder público, no caso de Florianópolis, observa-se que a disputa por espaços tem sido marcada por intrincados processos de conflito e negociação (por vezes estabelecidas entre as agremiações 55 Disponível em: <http://www.pmf.sc.gov.br/turismo/lazer_cultura/_html/folclore.htm#> [Consulta: 09 de setembro de 2005]. O site disponibiliza ainda um Roteiro das manifestações culturais do município de Florianópolis, que apresenta uma descrição do conjunto de folguedos açorianos (ou de manifestações que, segundo a concepção deste Roteiro, adquiriram feições açorianas em âmbito local, excetuado o Cacumbi). São eles: (a) coreografia popular: Boi-de-Mamão, Pau-de-Fitas, Cacumbi e Ratoeira; (b) literatura popular: Quadrilhas e Pão-porDeus; (c) artesanato: renda-de-bilro e a rede de pesca; (d) religião popular: Culto do Espírito Santo, incluindo Folia do Divino, Bandeira do Divino e Terno de Reis, Benzeduras e Orações (para curar doenças), Crendices e Superstições (para afastar mau-olhado e quebranto), e Mitologia Ilhoa (criaturas fantásticas como bruxas, lobisomens, vampiros e demônios). 56 Ver também Eduardo da Silva (2005), que apresenta em sua pesquisa de mestrado uma discussão aprofundada do processo de construção da identidade catarinense relacionando-o com o momento de surgimento das primeiras escolas de samba em Florianópolis.
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do samba e a “identidade açoriana”). A discussão sobre a noção de “samba local” que segue abordará alguns aspectos desses processos com base nas falas dos componentes da escola de samba Embaixada Copa Lord. Falas sobre o “samba local” Ao contrário do que ocorreu na época de surgimento das escolas de samba em Florianópolis, quando o Rio de Janeiro teve uma importância fundamental enquanto “referência” para as agremiações locais (que se formaram sob influência de marinheiros cariocas), pude observar que, para sambistas da Copa Lord de gerações mais jovens houve uma mudança em relação à valorização da proximidade com o carnaval carioca. Assim, a noção de “samba local” na perspectiva destes sambistas constrói-se a partir de uma oposição ao “Rio”, fundada na necessidade de se ter criatividade e na importância da não realização de cópias (de sambas-enredo, de breques e levadas): Mestre Tiko – Bendizê, eu e ele gravamo tudo, é, as gravações que tem do samba do Copa é sempre nós que montamo o breque, a gente vai lá, grava. E com tanta gente de fora, do Rio de Janeiro, nada, é nós. Mestre Carlão – Nada! É nós mesmo. Mestre Tiko – Ninguém copia CD do Rio de Janeiro.57
Dentro dessa postura de não valorização de elementos das escolas cariocas os batuqueiros da Copa Lord também criticaram em suas falas outras agremiações locais que buscam criar vínculos com escolas do Rio de Janeiro, na maior parte das vezes, por meio da realização de convênios: Eu acho que tem que ter criatividade. Porque é fácil pegar uma letra de lá do Rio trazer pra cá e formar um samba, é fácil. Principalmente a Coloninha. A Coloninha tem muita mania de querer ser igual ao Rio. Os breques da Coloninha geralmente eles vão até o Rio e pegam o breque e trazem pra cá. Não é criado pelo pessoal daqui? Não, a maioria não. O próprio Duda que é o mestre de bateria lá, já falou que geralmente eles pegam tudo do Rio. Eu não acho legal isso. Eu acho que tem que ter criatividade. (Jean Carlos Costa Paim, batuqueiro de tarol, entrevista, 19/11/2005).58
Não somente entre os componentes envolvidos mais diretamente com a bateria (na elaboração de breques e levadas), mas também entre os integrantes do grupo de compositores observou-se, por meio de suas falas, a busca pela formação de um “samba local”: Eu sempre lutei por uma característica de um samba nosso. Eu não escuto samba-enredo do Rio de Janeiro, eu não me preocupo com o samba do Rio 57 58
Entrevista, 02/05/2002. Jean refere-se à escola de samba Unidos da Coloninha.
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de Janeiro. Apesar de a nossa escola ter essa influência, mas eu achava que nós tínhamos uma identidade, se fizesse o disco do Rio e fizesse um disco nosso, eu acabava comprando os dois, por ter características diferentes, então essa foi sempre a minha linha de ação, a minha batalha, de fazer o Célio,59 de fazer os meus parceiros, e os compositores que eu convivi, de tentar deixar o Rio ser o Rio, e nós sermos nós [...]. (Edu Aguiar, compositor de sambasenredo, entrevista, 16/02/2006).
As idéias de “inovação”, “criatividade”, “autenticidade”, de “existência de características diferenciadoras” revelam uma oposição aos elementos cariocas, bem como buscam estabelecer uma distinção entre a Copa Lord e as escolas locais que estabelecem intercâmbios com agremiações do Rio de Janeiro. A não realização de cópias, a busca por não imitar o carnaval do Rio ganha sentido bastante marcante se pensarmos no contexto em que está inserida a Copa Lord, do qual já ressaltei a situação de invisibilidade das manifestações afro-brasileiras e a preferência do poder público pelos folguedos açorianos. Uma vez que as escolas de samba locais surgiram como fruto da expansão de um “modelo carioca” e não são necessariamente entendidas como manifestações “autênticas”, “originais” do “local” como os folguedos açorianos (na concepção do poder público), a noção de “samba local” pode ser compreendida como uma forma que estes sambistas encontraram de se afastar das representações negativas de cópia, imitação, inautenticidade que podem ser associadas às escolas de samba locais. Pode-se acrescentar ainda o fato de que estes sambistas da Copa Lord possuem – pelo que pude perceber ao longo da pesquisa de campo – um vasto conhecimento da produção musical de samba advinda do Rio de Janeiro, cidade que é considerada por eles como uma importante referência no que concerne à conquista de espaço e visibilidade para a cultura do samba por parte dos sambistas e suas agremiações. Nesse sentido, o discurso de oposição ao Rio representa antes um posicionamento dentro do contexto local e não uma real oposição aos elementos do samba carioca.60 Assim, a noção de “samba local” pode representar uma busca pela inserção do samba no contexto específico da cidade de Florianópolis por parte dos sambistas da Copa Lord, os quais, pelo que pude observar, estão conscientes da falta de espaços e do não reconhecimento do samba enquanto manifestação cultural do “local”.61 O verso “Floripa também tem samba de verdade”, extraído 59
“Celinho da Copa Lord” (Gilson Célio Veloso), compositor e intérprete da escola. O conceito de realce (saliency), “exprime a idéia de que a etnicidade é um modo de identificação em meio a possíveis outros: ela não remete a uma essência que se possua, mas a um conjunto de recursos disponíveis para a ação social. De acordo com as situações nas quais ele se localiza e as pessoas com quem interage, um indivíduo poderá assumir uma ou outra das identidades que lhe são disponíveis, pois o contexto particular no qual ele se encontra determina as identidades e as fidelidades apropriadas num dado momento”(Poutignat; Streiff-Fenart, 1998: 166). 61 Os conflitos e negociações entre escola de samba e poder público foram discutidos de forma mais aprofundada em minha pesquisa de mestrado. 60
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de um “samba local”,
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é a meu ver bastante expressivo da percepção dessa necessidade de
inserção do samba no cenário da cidade. Quer dizer, além dos folguedos açorianos, Florianópolis “também tem samba”. E não só isso, tem samba “de verdade”, não uma “cópia” ou “imitação” dos sambas do Rio de Janeiro. Imagens do “local” nos sambas da Embaixada Copa Lord Apesar da existência de embates entre os sambistas e o poder público no que concerne à ocupação de espaços dentro do cenário cultural da cidade não é possível afirmar que o “samba local” busque se contrapor às manifestações da cultura açoriana. Pelo contrário, observa-se que os integrantes da Copa Lord têm incorporado elementos dessa “identidade açoriana” em sambas-enredo e também em seus discursos sobre o “samba local”: Porque... Tu que criou esse toque da caixa? Não criei, dei uma mesclada, né, em algumas coisas assim. Tem um pouco de...Tem um pouco de uma batida assim meio já paulista, carioca misturada também, e nós botamos esse nosso tempero aqui...Ilhéu. (Carlos Alberto Lemos, “Mestre Carlão”, entrevista, 02/05/2002).
Ao versar sobre a batida de tarol (caixa) executada pela bateria da Copa Lord mestre Carlão menciona não só as influências carioca e paulista como também enfatiza uma participação “local” nessa batida, que ele define como o “tempero ilhéu”. Além de poder ser compreendida como mais uma afirmação da existência de um “samba local”, essa fala também nos mostra uma apropriação dos “traços característicos” da identidade açoriana pelo mestre de bateria. O termo “ilhéu”, usualmente utilizado para identificar o açoriano (o morador “típico” da ilha, o pescador artesanal e branco), ganha um novo significado na fala de mestre Carlão que mostra os ilhéus também são negros e fazem samba. As imagens do “local” também foram utilizadas pela Embaixada Copa Lord em enredos e sambas apresentados nos desfiles carnavalescos. Dentre as manifestações culturais açorianas o conjunto de lendas e mistérios (mitologia ilhoa) foi o “tema local” com o qual a escola de samba mais estabeleceu identificação. As crendices populares em torno de criaturas fantásticas que se transformam em bruxas, lobisomens e demônios foram tema de dois desfiles da Embaixada Copa Lord, nos carnavais de 1985 (com o “Caldeirão dos Bruxos”) e de 2006 (com “Sexta-feira... Lua cheia? Cruz credo... Não fala bobagem! Tem cheiro de
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“[...] Eu sou/ Um poeta guerreiro cantando samba/ Na mesa de bar sou chamado de bamba/ Orgulho de um compositor/ E assim/ Vou vivendo a vida com felicidade/ Floripa também tem samba de verdade/ E o Brasil com o samba é um eterno campeão”. Trecho da letra do samba “Só eu sei”, composição de Jeisson Dias, que é intérprete (puxador) da Embaixada Copa Lord. (Ali na esquina, 2005).
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bruxa no ar”). 63 O samba-enredo “Caldeirão dos Bruxos” atualmente faz parte do repertório de músicas mais celebradas da escola, tendo sido também interpretado pela Velha Guarda Show da Copa Lord, que privilegia a execução de sambas que foram mais representativos na memória da agremiação. Ao contrário do que ocorre no processo de formação da identidade local – onde há uma certa exclusão das manifestações da cultura afro-brasileira – observa-se que a construção da idéia de “samba local” na concepção dos sambistas da Copa Lord não exclui de sua conformação elementos dos folguedos açorianos. As reflexões iniciais aqui apresentadas sobre a noção de “samba local” – compreendida enquanto busca de ampliação dos espaços para a cultura do samba no contexto da cidade de Florianópolis – merecem a meu ver uma discussão mais aprofundada, como também novos questionamentos e investigações. Referências citadas Blumenberg, Abelardo Henrique. 2005. Quem vem lá? A história da Copa Lord. Florianópolis: Garapuvu. Cardoso, Fernando H.; Ianni, Octávio. 1960. Côr e mobilidade social em Florianópolis: aspectos das relações entre negros e brancos numa comunidade do Brasil Meridional. São Paulo: Companhia Editora Nacional. Cascaes, Franklin. 2002. O fantástico na Ilha de Santa Catarina 2. 3 ed. Florianópolis: Ed. da UFSC. Ikeda, Alberto T. 2000. “Introdução”. In: Segredos do Sul. Documentos Sonoros Brasileiros. Coleção Itaú Cultural; Acervo Cachuera. [Encarte de CD]. Leite, Ilka Boaventura (Org.). 1996a. Negros no sul do Brasil: invisibilidade e territorialidade. Ilha de Santa Catarina: Letras Contemporâneas. ______. 1996b. “Descendentes de africanos em Santa Catarina: invisibilidade histórica e segregação”. In: Leite, Ilka B. (Org). Negros no sul do Brasil: invisibilidade e territorialidade. Ilha de Santa Catarina: Letras Contemporâneas, 33-53. Lima, Fátima Costa de. 2002. “O samba não se aprende na escola: considerações sobre a invisibilidade das artes afrobrasileiras nas instituições educacionais”. Ponto de Vista, 3/4: 87-102. Poutignat, Philippe; Streiff-Fenart, Jocelyne. 1998. Teorias da etnicidade. Seguido de Grupos Étnicos e suas fronteiras de Fredrik Barth. Tradução de Elcio Fernandes. São Paulo: Fund. Ed. da UNESP.
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“Abra as portas do mundo/ Solte a imaginação/ Lendas e mistérios/ Sonho, ilusão/ Treze raios tem o sol/ Treze raios tem a lua/ Xô, xô, xô/ Que esta alma não é tua/ Serena e bela noite/ Descansa a natureza/ Cruzeiro do Sul e Três-Marias/ Cenário de rara beleza/ E o astro-rei/ Mestre-sala do céu/ A lua porta-bandeira/ Girando neste imenso carrossel/ Rege os destinos da vida/ Na arte e na ciência universal/ Não vá na rua/ Olha o boitatá/ Sextafeira de lua/ Tem bruxa no ar”. Letra do samba-enredo “Caldeirão dos Bruxos”.
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Roteiro das manifestações culturais do município de Florianópolis. Caderno da Fundação Franklin Cascaes, nº1. Disponível em <http://www.pmf.sc.gov.br/turismo/lazer_cultura/_html/folclore.htm#> [Consulta: 09 de setembro de 2005]. Silva, Áurea Demaria. 2002. Ensino e aprendizagem musical na bateria da escola de samba Embaixada Copa Lord. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Educação Artística/Música). Florianópolis: UDESC. ______. 2006. No balanço da “Mais Querida”: música, socialização e cultura negra na escola de samba Embaixada Copa Lord – Florianópolis (SC). Dissertação (Mestrado em Música). São Paulo: UNESP. Silva, Eduardo da. 2005. Para além de Momo: relações de força nos bastidores do carnaval florianopolitano. Dissertação (Mestrado em História Social). Rio de Janeiro: UFRJ. Silva, Marcelo da. 2000. Os bailes, as casas e a rua: o samba nas camadas populares de Florianópolis nas décadas de 1920 a 1950. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em História). Florianópolis: UDESC. Souza, Eronildo Crispim de. 1992. Estudo da estrutura interna e das relações sócio-espaciais da comunidade do “Mont Serrat” – Florianópolis – SC. Monografia (Bacharelado em Geografia). Florianópolis: UFSC. Tramonte, Cristiana. 1996. O samba conquista passagem: as estratégias e a ação educativa das escolas de samba de Florianópolis. Florianópolis: Diálogo. Referências audiovisuais Alencar, Alexandra. 2006. Cidadão invisível. Florianópolis: UFSC (Trabalho de Conclusão de Curso – Jornalismo). Storto, Graziela e Piffer, Rita. 2005. Ali na esquina: um documentário. Florianópolis. Referências discográficas Sambas de enredo Grupo Especial Carnaval 96. 1996. CD. Programa de Intercâmbio Internacional Áustria – Brasil, Secretaria de Turismo de Florianópolis, Viena, Áustria. Sambas Enredo Carnaval 2006. 2006. CD. Liga das Escolas de Samba de Florianópolis (SC), Florianópolis. Sites consultados Prefeitura Municipal de Florianópolis. <http://www.pmf.sc.gov.br> Sociedade Recreativa Cultural e Samba Embaixada Copa Lord. <http://www.copalord.com.br>