Sociedad Hoy ISSN: 0717-3512 revsociedadhoy@udec.cl Universidad de Concepción Chile
CAMOU VIACAVA, JUAN JOSÉ; RODRIGUES VIACAVA, VANESSA MARIA Mudanças em organizações sociais: o caso das Escolas de Samba de Curitiba, Brasil Sociedad Hoy, núm. 21, 2011, pp. 79-91 Universidad de Concepción Concepción, Chile
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Mudanças em organizações sociais: o caso das Escolas de Samba de Curitiba, Brasil Cambios en organizaciones sociales: el caso de las Escuelas de Samba de Curitiba, Brasil Changes in Social Organizations: the case of Curitiba’s Samba Schools, Brazil JUAN JOSÉ CAMOU VIACAVA1 VANESSA MARIA RODRIGUES VIACAVA2
Resumo As Escolas de Samba de Curitiba competem por recursos sociais e financeiros para atender seus objetivos: vencer o desfile de carnaval e garantir a continuidade das próprias organizações. Nos carnavais de 2008/09 e 2009/10 observamos uma dificuldade de gerenciar uma manifestação da cultura popular pelos órgãos públicos e pelas próprias Escolas de Samba. Após tentativas de interação entre o financiador oficial do carnaval (prefeitura de Curitiba) e as Escolas, verificamos que a iniciativa para modificar a forma de “fazer o carnaval” e melhorar sua qualidade tem partido das Escolas. Mesmo com os esforços do município em dialogar com as Escolas, existe um desencontro do modo burocrático da organização pública – explicitado pelo “edital Carnaval” de financiamento - e um modo de fazer carnaval baseado no estilo familiar e comunitário, que entende esta interação como uma “burocracia negativa”. Palavras-chave: Burocracia, Carnaval Curitibano, Aprendizagem Organizacional. Resumen Las escuelas de samba de Curitiba, compiten por los recursos sociales y financieros para cumplir con sus objetivos: ganar el desfile de carnaval y garantizar la continuidad de las propias organizaciones. En los carnavales de 2008/09 y 2009/10 observamos la dificultad para gestionar una manifestación de la cultura popular por los organismos públicos y por las propias escuelas de samba. Después de los intentos de interacción entre el auspiciador oficial del carnaval (Municipalidad de Curitiba) y las escuelas, fue verificado que la iniciativa para modificar la forma de “hacer el carnaval” y mejorar su calidad ha surgido desde las escuelas. A pesar del esfuerzo del municipio por dialogar con las escue-
1 Mestrando em Administração, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, Brasil. E-mail: juanjcviacava@ gmail.com 2 Mestre em Antropologia Social, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, Brasil. E-mail: vanessaviacava @gmail.com
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las, hay un desajuste del modo burocrático de la organización pública –expresado en las “bases de financiamiento Carnaval”– y un modo de hacer carnaval basado en el estilo familiar y comunitario, que entiende esta interacción como una “burocracia negativa”. Palabras clave: Burocracia, carnaval Curitibano, aprendizaje organizacional Abstract The Samba Schools of Curitiba compete for social and financial resources to meet their goals: win the carnival parade and ensure the continuity of their own organizations. During the carnivals of 2008/09 and 2009/10, we observed a difficulty of managing a manifestation of popular culture by public organizations as well as by the Samba Schools. After attempts of interaction between the funder’s official carnival (represented by the Municipality of Curitiba) and the schools, we found that the initiative to change the way of “doing the carnival” and improve their quality has only emerged from the Schools. Despite the efforts of the Municipality to dialogue with the schools, there is a mismatch in the procedures of bureaucratic public organization – expressed in the “Carnival financing forms”- and the style of making the carnival based on family and community, who understands this interaction as a “ negative bureaucracy”. Keywords: Bureaucracy, Carnaval in Curitiba, Organizational Learning. Recibido: 12.08.11. Aceptado: 04.11.11.
1. Introdução
A
maioria dos estudos organizacionais revela grande dificuldade de pesquisa quanto à “abertura”, tempo de pesquisa e disponibilidade de informações confiáveis e não sigilosas de empresas. Outra dificuldade envolve a generalização de teorias sobre os fatos encontrados, pois o encontrado se mostra específico à empresa ou contexto. Para isto, este estudo procura uma abordagem diferenciada, analisando organizações que estão sob o enfoque social, mas também em um ambiente influenciador e competitivo. Analisamos o surgimento destas organizações, a relação do ambiente na definição de objetivos, estruturas, a competição por recursos financeiros e sociais, seus resultados e a consequente necessidade de mudança identificada pelas organizações. Estudaremos as Escolas de Samba de Curitiba, na medida que pesquisas anteriores das áreas de história e antropologia revelaram seu grande potencial analítico para o estudo da teoria das organizações. Além disto, analisaremos a identidade organizacional (do conjunto, da festa) resultante da administração da FCC e das Escolas, também sob o enfoque de estratégia de marketing. Observamos nos ciclos carnavalescos de 2008/2009 e 2009/2010, as Escolas de Samba participantes, a interação com a FCC (representante da prefeitura) e os fatores ambientais (história, situação e contexto). Vemos uma “falta de saber” como
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escolas e “o que fazer” com o carnaval por parte da FCC, além de identidade mimética do carnaval local à outras mais conhecidas. Diferente de carnavais do eixo São Paulo e Rio de Janeiro, a prefeitura de Curitiba e as Escolas têm dificuldade de gerenciar esta manifestação da cultura popular. De um lado temos um edital de financiamento formal (sem uma mediação, ou interação), além disto, do outro, estão as escolas organizadas em estilo familiar e na maioria dos casos, artesanal e não-profissional. Nesta análise verificamos a necessidade de mudança identificada pelas escolas, imposto por fatores históricos e ambientais (competitivos), tentando transpor situações análogas à teoria das organizações para um ciclo de manifestação cultural e popular e seus participantes. Analisaremos partes do contexto e duas das principais Escolas de samba da região de Curitiba, utilizando uma aproximação pelo modelo de “tipos ideais”, explicando também como estas se desenvolveram e atuam no contexto curitibano do carnaval. 2. Carnaval curitibano O carnaval, considerado hoje festa símbolo da cultura popular brasileira no exterior, teve início entre o século XVIII e XIX com desfiles de blocos de rua e bailes em clubes. A diferença que vemos hoje entre o carnaval curitibano e os demais, resumidamente, remonta a partir da década de 1970, em que nas demais cidades houve um salto de profissionalização do carnaval, tanto pelas Escolas de Samba quanto aos órgãos estatais e fundações participantes, que interpretaram e compreenderam “mais corretamente” o contexto e a oportunidade (inclusive no sul do Brasil, nas capitais Porto Alegre - RS e Florianópolis - SC). Os carnavais do Rio de Janeiro e São Paulo se tornaram referências para o modelo de desfiles e competições entre Escolas de Samba. O de Salvador, tornou-se referência para o carnaval de rua, de blocos. Estes modelos servem de referência para quase todos os carnavais brasileiros, em que as cidades tendem a “optar”3. Ao pensar o carnaval como uma “forma cultural complexa” (Cavalcanti, 1994) e não apenas do ponto de vista do espetáculo da avenida, passamos a nos preocupar com os modos de fazer desse carnaval. Para tanto, colocamos inicialmente o desafio de nos aproximar de todas as agremiações carnavalescas atuantes no carnaval da cidade, mas optando por limitações à análise mais profunda de duas Escolas de Samba de Curitiba consideradas como “tipos ideais” e a identidade do carnaval local. Abordamos principalmente a discussão de como as estruturas, modos de agir e de pensar foram formadas pelo contexto ambiental e pelos seus principais objeti3
Estes não são modelos excludentes, pois mesmo no Rio de Janeiro os bairros preservam a cultura dos blocos.
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vos. Verificamos também como estas características interagem com a identidade do carnaval curitibano e as Escolas. 3. Contexto e fatores ambientais Entre 1971 e 1983, nos dois governos de Jaime Lerner, a cidade de Curitiba passou por uma série de obras urbanísticas para exteriorizar a identidade escolhida para a cidade, como desenvolvida, moderna, e para alguns, “europeia”. Entre as obras estava a reforma da Rua XV de Novembro, palco dos desfiles da época, para transformá-la em rota exclusiva de pedestres. Com a reforma os desfiles foram transferidos para a Avenida Marechal Deodoro da Fonseca, que ainda parecia agradar as Escolas por se tratar de área central da cidade. Nos anos 1980 o carnaval de Curitiba mostrou uma verdadeira explosão no número de Escolas de samba. Era um momento que as agremiações não precisavam se preocupar em se candidatar aos editais públicos da FCC. O processo era mediado pela Associação das Escolas de Samba, que repassava os valores sem muita formalidade. Até o início da década de 1990 os desfiles contavam também com os blocos, que também recebiam recursos financeiros da prefeitura. Nesse período, os critérios de julgamento do desfile e negociação do repasse das verbas passaram a ser definidos entre a Associação das Escolas de Samba e a FCC. Os desfiles continuaram na Marechal até 1996, quando houve forte pressão de moradores dos prédios residenciais da região, que reclamavam da baderna e da sujeira deixada pelos foliões. O desfile foi transferido para a Rua João Negrão do bairro Rebouças, e em 1998, a FCC novamente o transferiu para a rua Cândido de Abreu, região do Centro Cívico Municipal e Estadual, ganhando um maior número de arquibancadas (sempre temporárias). Apesar de não atrapalhar o tráfego e a “ordem”, ficou mais distante do centro da cidade. Na verificação dos autores constatou-se que, na região da rua contem uma curva, e o restante da reta possui um desnível, não sendo muito adequada para desfiles. A rota carnavalesca desgostou todas as Escolas, mas é a utilizada até hoje. A pesquisa histórica nos mostrou que o Estado desenvolveu uma política paternalista de mecenato que até hoje afeta as Escolas. Entre os anos 1950 e 1970 as Escolas negociavam diretamente com a prefeitura e a partir da formação da Associação das Escolas de Samba, as Escolas passaram a contar com uma entidade mediadora. Entretanto, disputas internas que levaram o fim desta associação nos anos 1990 e as Escolas dividiram-se e organizaram duas entidades, a Liga e a Federação das Escolas de Samba. A Federação pouco durou e a Liga não se mostrou eficiente, se dissolvendo em 2006. Desde então, as Escolas contam com apenas um mecanismo “mediador” (formalístico e impessoal) com a FCC, o “edital carnaval”.
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4. Edital de financiamento O modelo burocrático de organizações em seu tipo ideal deve apresentar uma lista de características básicas que decorrem do caráter utilitário em favor da coletividade, voltadas à eficiência, com característica principal a sua racionalidade formal - conceito positivo de Guerreiro Ramos (1983). Podemos reunir dentro de três blocos tais características: seu caráter formalístico (normas racionais, escritas e exaustivas, as hierarquias, a subordinação, as tarefas, os objetivos e os meios); seu caráter impessoal nas relações; e sua administração profissional (conhecimento especializado, as carreiras, remuneração, nomeação hierárquica, administração de valores e bens de terceiros). Desta forma, a burocracia difere muito do conceito negativo popular, que descreve aspectos e características mal interpretadas e/ou mal utilizadas com propósitos pessoais. Neste conceito negativo, a burocracia é caracterizada pelos seus defeitos, seus ritualismos, conservadorismos, em partes descritas em normas e leis não aplicáveis à sociedade em que se encontram, ou discrepantes dela (formalismo). A pesquisa demonstrou um confronto entre estes dois conceitos de burocracia, positivo e negativo. “Fazer o carnaval” ou “montar a Escola” para os dirigentes das Escolas de samba não diz respeito apenas ao trabalho nos carros alegóricos e nas fantasias, envolve um processo “longo e tortuoso”, conforme Viacava (2010) de negociação junto a FCC. Entretanto, esta idéia não é compartilhada por todas as Escolas, sendo que a Acadêmicos da Realeza encontra uma certa facilidade em se adaptar ao processo, não o considerando tão complicado (face ao certo profissionalismo desenvolvido). Uma análise do edital do carnaval demonstrou se tratar de um processo licitatório formal padrão, contemplado pela lei 8.666/1.993 do código civil brasileiro, sem dificuldades exageradas (pelas Escolas) de documentações técnicas. Apesar disto, a falta de conhecimento sobre o processo, profissionalização e dedicação exclusiva dos dirigentes, o edital têm se mostrado difícil de atender. Entretanto, o edital licitatório realmente possui características que causam entraves ao bom funcionamento do Carnaval. Esse processo começa quando o edital é divulgado no site da FCC, ocorrendo geralmente no mês de setembro ou outubro (5 meses antes do desfile). A partir do seu lançamento as Escolas precisam já ter definido o enredo, os croquis das fantasias e um cronograma de atividades. Além disso, precisam repassar a FCC a estimativa de valores a serem gastos com a compra de materiais, tais como madeira, isopor, tecidos, plumas e despesas com possível contratação de profissionais para a realização do desfile. Depois de algumas semanas (duas a três), o resultado define as Escolas contempladas com a verba e aquelas que não obtiveram sucesso. Caso a Escola de samba não tenha sido considerada habilitada para receber a verba, se desdobra uma nova etapa de negociação e interposição de recursos. A FCC reavalia os projetos rejeitados para dar um parecer
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favorável ou não às Escolas reclamantes. Vemos neste processo de “luta” (nas palavras dos dirigentes das Escolas) pelo financiamento. Do outro lado, pela FCC, uma tentativa de padronização e imposição de requisitos mínimos de qualidade, até de produção, dentro de um enquadramento do edital licitatório. Além de um prazo curto após o edital para poder preparar o desfile, estas imposições e consequente padronização dos desfiles limitam o processo de inovação e o maior envolvimento dos integrantes, que devem fazer e executar a montagem “das partes do desfile” (alas, blocos, adereços, música) de acordo com uma determinada pré-ordem, a padronização da FCC. A exigência de um número pré-determinado de componentes de cada ala, número de carros alegóricos, e a apresentação antecipada de croquis das fantasias e o enredo, diminui o caráter competitivo e o processo de inovação. As Escolas devem “inovar” dentro destes padrões, com o risco de no ano seguinte não terem cumprido o apresentado no projeto, sendo desqualificadas ao novo recurso financeiro. Para diminuir os riscos de não ter “a verba aprovada”, apresentam-se propostas pouco diferenciadas de um ano para o outro, tendo-se a impressão de “já ter visto o desfile” (Viacava, 2010). Assim, para os dirigentes das Escolas de Samba “ganhar a verba” possui um sentido próximo ao de uma batalha que não pode ser perdida. Ao ser confirmado como habilitado – preencheu corretamente os formulários e cumpriu todos os quesitos do regulamento do desfile do ano anterior – esta se prepara para uma segunda etapa, conseguir fazer um carnaval com os recursos cedidos, no tempo (reduzido) restante até o desfile. 5. A identidade do carnaval curitibano A clássica definição evolucionista de Edward B. Tylor (2005: 69) situou cultura como “aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costume e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem na condição de membro da sociedade”. Para Clifford Geertz (1973: 10), a cultura deve ser concebida enquanto um sistema de signos: “a cultura não é um poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente, os acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos de forma inteligível – isto é, descritos com intensidade.” As considerações antropológicas mencionadas são congruentes com a proposta de Martin (2005) ao localizar as culturas organizacionais enquanto imersas em outras culturas, com grande complexidade interna e de relações interdependentes. Dentro destas culturas (organizacionais), encontramos características centrais, distintas das demais, e ainda duradouras, estáveis no tempo que tornam a identidade diferente de outras, mas comum entre os membros desta. Ou seja, para um observador externo o carnaval pode parecer ter uma identidade única (assim como uma única cultura carnavalesca). Esta análise é incorreta, pois cada localidade pos-
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sui uma cultura própria carnavalesca, com sua própria identidade, pois depende do contexto e de seus integrantes, comuns ao todo, à concepção geral da folia do carnaval, mas com suas próprias especificidades. Conforme Kapferer (2003) uma organização (seja uma festa, cidade, ou empresa) precisa ter uma identidade diferenciada para se destacar, atingir seus objetivos, quais sejam eles. Mas não deve apenas ter, deve projetar uma imagem (Aaker, 2007) que possa ser identificada como tal pelo observador. Apesar disto, existe uma falta de processos e estratégias adequados de marketing que tornam “confusa” a identidade do Carnaval (desfile e festas), e assim a própria imagem da identidade do carnaval de Curitiba para o observador. Poucas partes compreendem seu papel. A FCC não posiciona os desfiles de Curitiba como uma festa pública “tradicional” e tampouco como algo diferente. Essa composição pela FCC parece não passar de arranjos e recortes de identidades de outros carnavais, pela falta de saber “o que fazer”, sofrendo constantes atritos com as Escolas também por isto. Verifica-se desta forma a falta de uma identidade (e imagem) própria revelada pela falta de objetivos claros a serem alcançados nos desfiles e nas festas. “Não se sabe direito como está e nem para onde se vai o carnaval de Curitiba” (Viacava, 2010). Este entre posicionamento confunde e atrapalha os desfiles, até mesmo a apreciação do espectador, que em um desfile não compreende seu funcionamento por ser um comportamento misto de outros carnavais. Ainda, quando apresenta seu ponto mais definido, em um formato de desfile chamado “do Rio ou de São Paulo”, o processo de comparação entre os desfiles causa sentimentos negativos, no limite da “que vergonha” (palavras usadas por espectadores no desfile de 2010). Entretanto, vê-se que este processo não se desenvolve em todos os desfiles, ou mesmo durante todas as partes de um mesmo. As “partes do desfile” que demonstram um engajamento sincero, sem a preocupação de imitar ou se comparar a outros carnavais, revelam o principal propósito do carnaval local, a festa e a descontração, e ganham a simpatia do público que “os faz levantar das arquibancadas para sambar” (Viacava, 2010). Aqui se encontra ponto falho de um processo de padronização, ou mesmo mimético e tecnicista, em que se revela desconhecer até mesmo o que o espectador deseja: uma festa revestida de alegria e das brincadeiras dos foliões. 6. Mudança e aprendizagem organizacional A mudança organizacional é definida como a alteração/transformação da forma com o fim de sobreviver melhor no ambiente (Hage, 1980), alterando normas, metas, missões, necessidades ou processos, conforme Hall (2004), Machado-da-Silva (2000; 2004), e outros autores, analisaram a mudança nas organizações na relação de fatores de natureza cognitiva e de natureza institucional. Na primeira, a abordagem é tratada não como resultado deliberado da racionalidade dos tomadores de
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decisões, mas como o pensamento destes é formada, em relação a seus conteúdos e mecanismos. Próprias da racionalidade limitada, as decisões seriam resultantes de um processo de simplificação (generalizações, vieses e da própria capacidade cognitiva dos indivíduos) usada para “entender” o ambiente e as situações. Assim os decisores se vinculam à realidade dos fatos objetivos mediante uma representação considerada como verdadeira, limitando as alternativas, atendo-se a paradigmas ou esquemas interpretativos consolidados, ou institucionalizados na organização. Ou seja, seu “modo próprio de fazer as coisas” (Machado-da-Silva et al., 1999), tomado como verdadeiro. Os valores e crenças legitimados na estrutura de uma organização podem então criar um sentimento de inércia que deveriam ser revistos (um exemplo é de uma empresa com foco econômico, que devido resultados positivos não vê a necessidade de mudança para melhorar seu desempenho frente à concorrentes inovadores). Podemos visualizar neste raciocínio que para realizar uma mudança em si é necessário mudar o esquema interpretativo prevalecente na organização. Ou ainda conforme Machado-da-Silva (1999, 2001), de uma província de significados institucionalizada, convertida em padrão dominante de interpretações e orientações subsequentes por atores de maior poder (dirigentes formais ou líderes informais), da maneira como as organizações lidam efetivamente com seus ambientes. Desta forma a mudança organizacional se processaria à medida que novos valores e regras se incorporassem ao contexto institucional de referência, tornando possível a assimilação de novas práticas, ou ainda, provenientes de um contexto referencial mais amplo, resultando na aprendizagem organizacional. Podemos ver a seguir que estes conceitos podem ser verificados na prática pelas Escolas de Samba de Curitiba adotadas para o estudo. A primeira, mais “moderna” e inovadora, já inicia com um novo padrão, um “novo modo de fazer”. A segunda Escola, mesmo tradicional, já está passando por adaptações, mudanças, para atingir seus objetivos. Em um segundo momento iremos descrever ainda um processo anterior de mudanças, baseado em ajustamento mútuo. Neste os próprios participantes se posicionam impondo uma mudança ao grupo com o objetivo de continuação das Escolas e do próprio carnaval. 7. Acadêmicos da Realeza O Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Acadêmicos da Realeza foi fundado em 1998 por um estudante de odontologia, antigo membro da uma tradicional escola local, a Mocidade Azul. Ele não foi aceito como presidente, rejeitado pelos filhos dos fundadores, mesmo (e devido) após rápida ascensão. O fundador da Realeza levou consigo parte da diretoria da Mocidade (inclusive o diretor de harmonia) e integrantes devido sua liderança competente e carismática.
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Entre as Escolas de Samba de Curitiba a Acadêmicos da Realeza anuncia indícios mais contundentes de profissionalização, com um modelo híbrido de produção que transita entre o profissional e o “feito em casa”. A Escola não possui barracão próprio, não se identifica com nenhum bairro, e tenta ser, próximo ao modelo de um time de futebol, uma Escola da cidade. Os componentes são frequentadores da “cena do samba” (bares e festas) e se encontram em casas noturnas da cidade durante todo o ano. Pelo próprio meio carnavalesco é considerada como uma “Escola-empresa”, composta por uma classe média curitibana amante do samba. O principal carnavalesco da Escola possui experiência na Escola de Samba Gaviões da Fiel de São Paulo - SP, de onde “emprestou” a águia como símbolo. Possui uma empresa de eventos e buffet, em que utiliza parte de suas funcionárias para o carnaval. O outro carnavalesco é formado em artes cênicas e desde 1983 desenvolve projetos com sua companhia de teatro. A Escola tem buscado sempre re-elaborar seu estilo, mas com a mesma competência técnica. Em 2009 escolheu como enredo a história do Coritiba Foot Ball Club para obter repercussão (visibilidade na mídia) e recursos (financeiros e sociais – simpatia dos torcedores). Em 2010 contratou artistas circenses de Porto Alegre - RS para atuar como comissão de frente. A diretoria da Escola concorrente Embaixadores da Alegria reclamou: “isso não é a comunidade”. Nos últimos três carnavais a Escola saiu consagrada como campeã. Suas estratégias de captação de recursos (além do financiamento público) converteram-se em resultados técnicos e visuais que surpreenderam os avaliadores, observadores e mesmo concorrentes de outras Escolas. Seus dirigentes demonstram abertamente seu principal objetivo, ganhar anualmente o concurso de carnaval. Para eles, as Escolas só poderão melhorar a qualidade estética quando deixarem de depender exclusivamente da verba cedida pela FCC e buscarem patrocinadores e recursos próprios. O próprio presidente da Escola declara que é visto pelas demais Escolas como defensor da FCC, porque ele compreende suas limitações e busca outras fontes de ajuda financeira. 8. Embaixadores da Alegria A Sociedade Cultural e Carnavalesca Embaixadores da Alegria surgiu em 1948 a partir do bloco Cevadinhas do Amor composto por foliões que brincavam o carnaval no Clube Thalia, é a mais antiga escola em atividade. Dirigida por uma família que desde os anos 1970 se envolve diretamente nas atividades artísticas da cidade, principalmente ligados ao circo e ao teatro. A Escola não contrata um carnavalesco ou quaisquer outros funcionários, ela compartilha todas as funções com parte da diretoria e componentes (todos voluntários), formando desta forma sua equipe de carnavalescos e é a única agremiação carnavalesca a possuir um barracão próprio, localizado no bairro Santa Quitéria. A construção do desfile se faz pelas mãos dos
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componentes da Escola, e eles se sentem à vontade para opinar na composição e nas modificações dos desenhos das fantasias. A única contraposição desse discurso é que a decisão sempre deve passar pela aprovação da família dirigente. Encontramos nesta Escola a “estrutura simples”, caracterizada de acordo com Mintzberg (2009) pelo “que não é”, a pouco ou inexistência de estrutura, ou mesmo “a negação da estrutura”, com misto de “organização missionária” devido sua padronização de valores, crenças e missão, repassadas e reforçadas durante anos pelos próprios membros. A supervisão é direta, centralizada na figura da matriarca, que exerce seu poder por liderança autocrática e carismática, com comunicação informal. Apesar das deficiências inerentes da não-profissionalização da Escola, ela tem obtido bons resultados nos desfiles (segundos lugares nestes três anos, mas com notas um pouco distantes da primeira colocada). Seu objetivo principal de acordo com seus dirigentes, não é “ganhar um concurso”, mas sim integrar os moradores do bairro Santa Quitéria, promovendo atividades de cultura e parcerias com a comunidade local. Este objetivo vem sendo alcançado, pois a Escola demonstra crescimento de número de integrantes ano após ano, e com a ajuda da comunidade local, arrecada fundos com pequenos comerciantes com patrocínios pintados nas paredes do barracão e da quadra. Os serviços de costura, construção de carros alegóricos e outros serviços (na maioria das outras Escolas feitos por contratados) são confeccionados com qualidade pelos componentes, todos voluntários e de boa vontade (motivação espontânea), ano após ano. Entretanto, os seguidos resultados ( segundo lugar) não têm contentado a diretoria da Escola. Pensa em mudar parte dos processos, desde arrecadação de recursos até a contratação de “profissionais” para melhorar a qualidade dos desfiles, ganhando importância como objetivo secundário, que ajudaria no objetivo primário da Escola. 9. Ajustamento do carnaval – processos de mudanças Durante a década de 1990, anos de existência da Associação das Escolas de Samba, um grupo de Escolas, liderados pela Escola Embaixadores da Alegria, questionou o mau uso da verba no carnaval e levantou acusações de desvio de dinheiro público. Para a Escola, algumas Escolas que “saíam” não apresentavam preocupação alguma com o acabamento estético, desfilavam apenas com fantasias feitas de “tnt” (sigla para “tecido não tecido”, material barato e de baixa qualidade) e praticamente sem adereços. Isso também ocorria porque várias agremiações se esforçavam em reaproveitar materiais e utilizar novas matérias-primas mais criativas (e mais baratas). As Escolas de Samba passaram a refletir sobre si mesmas e cobraram de seus pares uma melhor qualidade estética para modificar a opinião pública sobre o carnaval
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de Curitiba. Este processo de ajustamento mútuo entre atores coletivos, representados pelas Escolas de samba denotou uma necessidade apontada pelos próprios participantes preocupados com a sobrevivência das organizações, dependentes do dinheiro público. Como fonte de recursos quase que exclusiva, via-se entre elas o risco da falta de transparência e imagem negativa, que poderia levar a FCC suspender o financiamento. 10. Conclusões As próprias Escolas vêm reconhecendo a necessidade de mudança com o objetivo de resgatar a “época de ouro” de antigamente. Esta “era”, entretanto, foi marcada pelo extremo paternalismo, dependência quase que exclusiva do estado que parece não ser completamente abandonada, como mostra o caso acima. Entre 1980 e 1990, as Escolas desfilavam com aproximadamente mil integrantes (bem próximo a de uma Escola do Rio de Janeiro da época) e hoje com apenas 200 ou 300 integrantes. A principal mudança de paradigma parece ter sido da Escola Acadêmicos da Realeza (feita e difundida por ela). A Escola foi fundada num período de dificuldades e compreendeu desde o início que deveria lidar de forma diferente com estas dificuldades. A Escola Embaixadores da Alegria ainda se “prende” (sem conotação negativa) ao passado, sua tradição, mas reconhece a necessidade de mudança, porém, com desejo de “continuidade” (da cúpula, família dirigente e de suas tradições e valores). Os modelos de referência carioca e paulista ainda aparecem na capital paranaense. Existe um discurso e uma relação ambivalente, de um lado de aproximação e ao mesmo de afastamento, devido à sua profissionalização e consideração cada vez mais como “negócio”. A maioria dos carnavalescos curitibanos condena a mercantilização do modelo: “perdeu a essência, virou negócio”, mais ainda é visto como referência estética e de objetivo geral. As Escolas de Samba de Curitiba passaram a procurar outras formas de financiamento e, aparentemente, essa tendência tende a se espalhar para as outras agremiações. Verificou-se pelas Escolas uma adaptabilidade. Em evidência, visando uma vantagem competitiva, as organizações incorporaram orientações previamente definidas visando sua sobrevivência. Assim, utilizaram um caráter utilitário na sua adoção, com objetivo de posicionamento estratégico voltado à necessidade percebida, interpretada e optada do ambiente, ainda que muitas vezes mimética (a modelos do setor ou fora dele). Nas dimensões de estrutura, foram encontrados exemplos que alteraram algumas das características tradicionais. Entretanto, em sua maioria, apresentaram baixa especialização, padronização (de processos) e formalização quase inexistente. Nos casos em que foram encontradas estruturas e culturas diferenciadas, estas
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Mudanças em organizações sociais... / J.J. Camou Viacava et al.
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proviam da habilidade e autoridade de indivíduos com poder, com alto grau de comprometimento a um esquema já implementado (ou que queriam implantar), legitimados por resultados ainda positivos. Observou-se em um dos casos a ocorrência de progressivas alterações, sem caráter radical, com a finalidade da manutenção dos interesses pré-existentes. Entretanto, no último ano, o modelo parece ter alcançado “seu limite”, e as Escolas têm buscado uma “reorientação” para melhorar o desempenho no desfile. Vemos a tentativa de interação do financiador do carnaval e as Escolas de samba. Mas ainda por um edital que revela características burocráticas próprias de um financiamento público, visto como forma “burocrática negativa” pela maioria. Vemos ainda não existir uma proposta ou estratégia pela FCC e pelas Escolas para projetar uma imagem de uma identidade única, diferente dos outros carnavais. Diante do exposto, encontramos que os fatores ambientais (principalmente os legais e políticos) foram determinantes, mas com variação de intensidade entre as Escolas. Verificou-se que o sucesso das organizações não depende somente de mudanças nas estruturas, mas também nas atitudes e percepções de seus indivíduos. Vemos as organizações tentando superar o “arcaico”, mas sem abandonar suas tradições, culturas e identidades, para poder ao mesmo tempo sobreviver e alcançar seus objetivos. Referências Aaker, D. (2007). Construindo marcas fortes. Porto Alegre: Bookman. Cavalcanti, M. L. V. de C. (1994). Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Cavalcanti, M. L. V. de C. (1999). O rito e o tempo: ensaios sobre o carnaval. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Geertz, C. (1973). Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC. Guerreiro Ramos, A. (1983). Administração e contexto brasileiro: esboço de uma teoria geral da administração. Rio de Janeiro: FGV. Hage, J. (1980). Theories of organizations. New York: John Wiley. Hall, R. H. (2004). Organizações: estruturas, processos e resultados. São Paulo: Pearson Prentice Hall. Kapferer, J. (2003). As marcas, capital da empresa. Porto Alegre: Bookman. Machado-Da-Silva, C. L.; Fonseca, V. S.; Fernandes, B. H. R. (1999). Mudança e estratégia nas organizações: perspectivas cognitiva e institucional. In. Vieira, M. M. F.; Oliveira, L. M. B. Administração Contemporânea: perspectivas estratégicas (pp. 102-118). São Paulo: Atlas. Machado-Da-Silva, C. L., Fonseca, V. S., Fernandes, B. H. R. (2000). Cognição E Institucionalização na Dinâmica da Mudança em Organizações. In: Rodrigues, S. B.; Cunha,
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Sociedad Hoy 21: 79-91, 2do Sem. 2011
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ISSN 0717-3512
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