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Valorizando a batucada: um estudo sobre as Escolas de Samba Cariocas dos Grupo de Acesso C, D e E.

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XIV CONGRESSO BRASILEIRO DE SOCIOLOGIA 28 A 31 DE JULHO DE 2009, RIO DE JANEIRO/RJ GRUPO DE TRABALHO: SOCIOLOGIA DA ARTE

VALORIZANDO A BATUCADA: UM ESTUDO SOBRE A ESCOLAS DE SAMBA CARIOCAS DOS GRUPO DE ACESSO C, D e E.

Antônio Eugênio Araújo Ferreira Universidade Federal do Maranhão

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As pequenas Escolas de Samba Cariocas Resenha da Tese: Valorizando a batucada – um estudo sobre as escolas de samba cariocas dos grupos de aceso C, D e E. Programa de Pós-graduação em Artes Visuais, EBA/UFRJ, 2008. Eugênio Araújo. ANTECEDENTES Meu interesse pela pesquisa com as agremiações sambistas deu-se a partir de uma constatação: o desaparecimento de muitas escolas na cidade de São Luís do Maranhão, entre as décadas de 1980 e 1990, quando o carnaval da cidade sofreu grandes modificações, questionando o modelo carioca e aderindo ao modelo “olindense” de carnaval de rua. As escolas de samba locais passaram a ser atacadas como “imitadoras” e desvalorizadas perante a mídia, o público e os órgãos financiadores oficiais. Estava delineada o que muitos chamaram de “crise do carnaval sambista” na cidade. Por outro lado via-se a criação de novas brincadeiras carnavalescas, nos moldes dos blocos recifences e baianos que contaram com total apoio da iniciativa pública e privada. O discurso geral era de que o carnaval ludovicense precisava ser remodelado, de que os desfiles de escolas de samba – desde a década de 1950, a principal atração da cidade – tornavam a festa “elitista e chata” e de que era preciso revitalizar o “carnaval de rua”. Assim foi feito, e das quase 30 escolas de samba que participavam do carnaval de São Luís, hoje restam apenas 10 ou 12 – e houve anos em que apenas 6 desfilaram. Tal situação inquietou-nos. Nos estudos de mestrado produzi uma dissertação meio histórica, meio etnográfica – que procurava responder a questões como a origem local das agremiações e a trajetória de uma escola “resistente” em particular, a Favela do Samba1. Posteriormente, comecei a perceber que o fenômeno de desaparecimento ou encolhimento das agremiações estendia-se pelas cidades e regiões vizinhas: no interior do Maranhão, onde várias escolas desfilavam em cidades em eventos financiados pelas prefeituras locais, agora viam-se trios elétricos e blocos de 1

ARAÚJO, Eugênio. Não deixa o samba morrer: um estudo histórico e etnográfico sobre o carnaval de São Luís e a escola Favela do Samba. São Luís, EdUFMA, 2001

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abadás. Também nas capitais Belém e Teresina o fenômeno repetia-se. Começei assim a ampliar nosso estudo, tentando verificar uma nova “dinâmica cultural” das festas carnavalescas na região do meio-norte brasileiro, que inclui as capitais Fortaleza, Teresina, São Luís e Belém, além de algumas cidades do interior. No entanto, pareceu-nos incompleto um estudo que só verificasse o resultado de um processo que se origina na cidade do Rio de Janeiro, por volta da metade do séc. XX, qual seja, a criação, afirmação e exportação de um modelo de festa, durante muito tempo aceito e brincado com prazer pela maioria da população destas localidades, mas que agora parecia dar sinais de cansaço. Na verdade não apenas as escolas de samba que desapareciam no norte do Brasil, mas todo um modelo de festa que estava sendo substituído por outros, considerados agora mais adequados. Resolvi assim, efetivar uma pesquisa detalhada sobre as escolas de samba cariocas, que os sambistas maranhenses, paraenses e piauienses sempre tiveram como referência, considerando-as suas co-irmãs. A pesquisa, que desde a sua concepção tem um viés comparativo, optou por concentrar-se nas pequenas escolas de samba cariocas, que estão distribuídas entre os Grupos de Acesso C, D e E, na tentativa de verificar como se organizam, resolvem problemas, criam estratégias e conseguem sobreviver nestes tempos onde novos modelos da festas são criados e se afirmam rapidamente. Depois de tantas críticas locais que afirmaram a “distância” entre as escolas cariocas e as do meio-norte brasileiro, apesar se estarem ambas auto-referencializadas, achei preciso um trabalho de reaproximação, pelos menos teórico – assim, planejei e executei uma pesquisa com as pequenas escolas de samba cariocas na tentativa de verificar sua situação, quais as dificuldades enfrentadas pelos cariocas e suas estratégias de resolução para manter vivas suas agremiações sambistas.

TEORIA E METODOLOGIA Os estudos de carnaval: interpretações agonísticas da festa

É difícil acertar o ritmo dos estudos sobre o carnaval brasileiro com o ritmo de mudanças da própria festa – estas se precipitam mais velozmente. No entanto, 3


em alguns momentos esse descompasso foi minimizado, como entre finais de 1960 e durante a década de 1970, quando foram lançados alguns dos principais e até hoje mais influentes estudos sobre o carnaval brasileiro. Este período também marca a aproximação do campo de estudos carnavalescos – até então eminentemente histórico – de pesquisadores das ciências sociais, que ajudaram a estabelecer modelos para estudos feitos posteriormente. Temos então, estudos históricos, sócio-antropológicos e semióticos sobre o carnaval brasileiro, especialmente sobre o carnaval carioca com suas escolas de samba, que desde a década de 1950 alcançaram visibilidade nacional2. Neste trabalho resolvemos abrir o leque de referências, incluindo a produção acadêmica sobre o carnaval de Salvador, já que aquilo que identifico provisoriamente como “retração das escolas de samba” pode estar relacionado com o crescimento do carnaval baiano. Falar das dificuldades das pequenas escolas de samba é também falar da ascensão de novas formas de brincar o carnaval. Considero mais frutífero não isolar os vários modelos de festa em searas exclusivas e incomunicáveis. Neste sentido, estudar o carnaval carioca hoje, implica também estudar outros modelos da festa e seus principais produtos, tais como blocos, trios elétricos e micaretas. A partir da década de 1980 os estudos debruçaram-se também sobre o carnaval de Salvador, e embora, a maior parte 2

Para história do carnaval carioca v. MORAIS, Eneida. História do Carnaval carioca, 1957; FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro, Ediouro, 2004; FERREIRA, F. Inventando carnavais: o surgimento do carnaval carioca no séc. XIX e outras questões carnavalescas. Rio de Janeiro, EDUFRJ, 2005; especificamente sobre as escolas de samba, v. JÓRIO, Amaury e ARAÚJO, Hiram. Escolas de samba em desfile.. Rio de Janeiro, 1969; CABRAL, Sérgio. As escolas de samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Lumiar, 1996 (publicado pela primeira vez em 1974); GOLDWASSER, Maria Júlia. O palácio do samba. Rio de Janeiro, Zahar, 1975; MUNIZ JR, J. Do batuque á escola de samba. São Paulo, Símbolo, 1976; LEOPOLDI, José Sávio. Escola de samba, ritual e sociedade. Petrópolis/RJ, Vozes, 1977; DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis. Rio de Janeiro, Guanabara/Koogan, 1990 (publicado em 1979); RODRIGUES, Ana Maria. Samba negro, espoliação branca. São Paulo, Hucitec, 1984; para estudos pontuais sobre elementos das escolas de samba, v. CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Carnaval carioca, dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro, EDUFRJ, 1994; AUGRAS, Monique. O Brasil do samba-enredo. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1998. FARIAS, Júlio César. Pra tudo se acabar na quarta feira: a linguagem do samba enredo. Rio de Janeiro, Litteris, 2002; GUIMARÃES, Helenise Monteiro. Carnavalesco, o profissional que faz escola. Dissertação de mestrado. EBA/UFRJ, Rio de Janeiro, 1991; FERREIRA, Felipe. O marquês, o jegue, a princesa e o corta-jaca: um estudo sobre a expressão plástica da cultura popular e da cultura erudita nas fantasias de carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro. Dissertação de mestrado. Escola de Belas Artes/UFRJ, 1996.

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dos trabalhos não esteja publicado, efetuei pesquisa diretamente nas bibliotecas universitárias, constatando abordagens que desenvolvem as teorias cariocas de 1970 (exclusão social, racismo, mercantilização, organização administrativa, mercado informal, participação estatal, urbanismo e etnomusicologia, etc.)3. Mais ou menos comum entre cariocas e baianos, é não mais tratar a festa carnavalesca como momento de “inversão”4 da ordem cotidiana. Festas constituem importantes formas de socialização, integram a vida diária das comunidades, são produtos de grupos sociais organizados, com objetivos e discursos múltiplos, tais como diversão, negociação, afirmação identitária, lucro, visibilidade positiva, etc. A ordem social não é invertida pelas festividades, mas manipulada e revista de outros ângulos, através das performances festeiras dos agentes envolvidos, de diferentes origens sócio-econômicas. No âmbito da festa também são observáveis relações de hierarquia, dominação, exploração e dependência. Adotando o modelo da Teoria da Dependência5, talvez seja possível falar em processos sucessivos de colonização e descolonização do carnaval brasileiro, 3

Sobre carnaval baiano v. RISÉRIO, Antônio. Carnaval Ijexá. Salvador, Currupio, 1981; GÓES, Fred. O país do carnaval elétrico. Salvador, Currupio, 1984; FISHER, Tânia. (org.) O carnaval baiano: negócios e oportunidades. Brasília, Sebrae, 1996; Seminários de Carnaval II. Salvador, Pró-Reitoria de Extensão/UFBA, 1999; GÓES, F. 50 anos de trio elétrico. Salvador, Currupio, 2000; MOURA, Milton. Carnaval e Baianidade: arestas e curvas na coreografia de identidades do carnaval de Salvador. Faculdade de Comunicação/UFBA, Salvador, 2001; DANTAS, Marcelo. Olodum – de bloco-afro a holding cultural: O resgate cultural, a integração social e a cultura como mercadoria. Dissertação de mestrado. Escola de Administração/UFBA, Salvador, 1993; OLIVEIRA, Paulo César Miguez de Oliveira. Carnaval baiano: as tramas da alegria e a teia de negócios. Dissertação de mestrado. Escola de Admnistração/UFBA, Salvador, 1996. OLIVEIRA, Sérgio Ricardo Góes. O comportamento do consumidor e as estratégias de marketing: o caso de duas empresas gestoras de trios do carnaval baiano. Dissertação de mestrado. Escola de Administração/UFBA. Salvador, 2001; ARAÚJO, Eugênio.O Campo do carnaval brasileiro: aproximações estruturais entre as festas do Rio, Salvador e São Luís. Monografia de conclusão de disciplina do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais, EBA/UFRJ, 2005/2. 4 Estas interpretações baseiam-se especialmente na idéia de communitas, engendrada por Turner (1974). Sobre este ponto, afirma José Sávio Leopoldi: “A noção de communitas formulada por Turner se inspirou na fase de 'liminaridade social' apontada por Van Gennep no seu clássico Les Rites de Passage (1969). Em poucas palavras, assim como um agente (ou grupos de agentes) nos ritos de passagem parece manter-se momentaneamente fora da estrutura, antes de retornar a ela com um novo atributo (status, posição, idade, papel, etc...), em certas etapas da vida social a própria sociedade como um todo (ou parte dela) vivenciaria um período semelhante, isto é, não estruturado, de comunhão plena, enfim de communitas". LEOPOLDI, J. S. Op. Cit., p. 22. 5 Forjado pela escola de sociologia sul-americana a partir dos anos 1960, congregava estudiosos de vários países latinos na explicação do subdesenvolvimento das economias locais frente às grandes potências hegemônicas: “Era impossível esconder a evidência de que se considerava a sociedade moderna, que nascera na Europa e se afirmara nos EUA, como ideal a alcançar. (...) Na década de 1950 a Teoria do Desenvolvimento alcançou seu momento mais radical e ao mesmo

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do ponto de vista da influência carioca (entre 1950 e meados de 1980), e do ponto de vista da influência soteropolitana e recifense (sobretudo a partir de 1990). Segundo Caldeira, as sociedades de capitalismo subdesenvolvido mantêm em seu interior, centros dinâmicos, que exercem influência e hegemonia sobre centros menos dinâmicos, "sociedades reflexas" ou periféricas. Na sociedade brasileira existem centros mais dinâmicos, localizados na região centro-sul, onde predomina e se configura o capitalismo avançado do país, em contraste com as outras regiões onde predominam formas sócio-econômicas tipificadoras de uma sociedade tradicional. O capitalismo dependente gera, ao mesmo tempo, o subdesenvolvimento econômico, social, político e também cultural6. No caso do carnaval, pode-se observar, de fato, esta relação de dependência. Algumas cidades se prodigalizam como principais centros realizadores da festa, forjando modelos depois disseminados para outras. Até a década de 1980 a cidade modelo/exportadora era o Rio de Janeiro 7; a partir dos anos 1990 outras cidades, desta vez da região nordeste, tornam-se centros disseminadores de novos modelos da festa. Neste processo, considerando a possibilidade de invenção ou resgate de brincadeiras que reforçassem as identidades locais para a indústria do turismo, as escolas de samba perderam tempo mais divulgado por intermédio da obra de W. W. Rostow, que definia todas as sociedades pré-capitalistas como tradicionais. Apesar de seu primarismo, esse modelo prevalece na cabeça dos cientistas sociais contemporâneos e continua orientando pesquisas e projetos de desenvolvimento, apesar de seu ponto de partida – a sociedade tradicional – ter se tornado mais diversificado e a idéia de sociedade afluente ter caído do pedestal. A Teoria da Dependência representou um esforço crítico para compreender as limitações de um desenvolvimento iniciado num período histórico em que a economia mundial já estava constituída sob a hegemonia de enormes grupos econômicos e poderosas forças imperialistas, mesmo quando parte delas entrava em crise e abria caminho para o processo de descolonização”. SANTOS, Theotônio dos. A Teoria da Dependência. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000, p. 16. 6 “Entretanto a Teoria da Dependência procura investigar as contradições geradas por esse fenômeno, evidenciando que a relação dominação-subordinação, possui aspectos mais complexos. As estruturas dependentes não podem ser concebidas como meramente reflexas: ao contrário têm uma dinâmica própria dentro dos limites definidos pelas relações de dominação. O capitalismo dependente estabelece conexões entre os mais variados setores das sociedades inclusivas, gerando ao mesmo tempo subdesenvolvimento econômico, social, cultural e político”. CALDEIRA, José de Ribamar. Mudanças sociais no Maranhão. São Luís, paper, 1976, pp. 06-09. 7 “O Rio de Janeiro é pátria, por excelência, do carnaval brasileiro, seu papel disseminador dos folguedos data do século XIX.(...) O Rio de Janeiro tornou-se, com a vinda da família real, o centro de difusão de novidades para as diferentes províncias, incluídas as novidades carnavalescas”. QUEIRÓS, M. P. Op. Cit., p. 24. Nas últimas décadas, entretanto, como já indicamos, as cidades de Salvador, Recife e Olinda tornaram-se também centros disseminadores de outros modelos da festa carnavalesca.

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espaço, pois ainda são muito identificadas com a festa carioca. Na falta de melhor termo, chamarei este processo de “retração das escolas de samba”. A opção pelo carnaval baiano é justificada de muitas formas pelos agentes que produzem, financiam e brincam o carnaval: para o folião é uma festa “mais livre e prazerosa”8; para os produtores e patrocinadores, com maior apelo midiático e mais lucrativa – imbricada que está com o mundo do show-bussines, marcado pela transformação de produtos culturais em produtos de um mercado que extrapola o próprio carnaval como festa demarcada pelo calendário tradicional, multiplicando-se em muitos “carnavais fora de época”, maximizando a possibilidade de lucros9. O produto “carnaval baiano” é considerado mais adequado aos processos de transposição, gerando níveis de lucro e satisfação estética mais altos nas cidades para onde foi levado. Estes vários modelos de festa se movimentam, se comunicam, modificam e ganham espaço simbólico, geográfico e mercadológico. Alguns autores que preferem ver o produto cultural como forma dinâmica e fluida, assumindo novos contornos a cada fase e correspondendo aos anseios de determinados públicos consumidores10. Os estudos que vêem o carnaval como “época de lazer e 8

“Um outro aspecto unânime que influência na decisão de compra do consumidor do produto bloco de trio do carnaval de Salvador é a questão da liberalidade. É de domínio público a existência da liberação de libido durante os festejos carnavalescos, sejam eles em Salvador ou em qualquer outro lugar. Entretanto, o que o público entrevistado sustentou é que existe uma maior facilidade de se „ficar‟ ou se relacionar dentro dos blocos de trio. Essa facilidade em algumas entrevistas foi colocada no sentido sexual. A questão sexual está muito presente nos grupos de turistas entrevistados e é um fator citado por muitos executivos como sendo causa de alguns abusos que geram violência dentro dos blocos de trios. Segundo empresários do setor, algumas vezes é necessário limitar a participação de integrantes masculinos vindos de São Paulo devido ao seu histórico de problemas causados dentro dos blocos”. OLIVEIRA, Sérgio Ricardo Góes. O comportamento do consumidor e as estratégias de marketing: o caso de duas empresas gestoras de blocos de trio do carnaval baiano. Dissertação de mestrado. Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2001, p. 63. 9 “Somente nas maiores capitais e cidades há dezoito carnavais fora de época no Brasil, organizados pelas prefeituras e empresas privadas. Hoje as micaretas estão dominadas por cinco ou seis grupos. Economicamente as micaretas dão dinheiro, dão lucro. Os grupos que dominam são basicamente o Chiclete com Banana, Netinho, Asa de Águia e Banda Eva – grupos menores se inserem uma vez ou outra. Mas não há micareta sem o Chiclete com Banana, é ele quem diz quem vai participar ou não”. RODRIGUES, João Jorge. É preciso pensar o carnaval no âmbito da cidade. In: Seminários de Carnaval II. Pró-reitoria de Extensão/UFBA. Salvador, 1999, p. 65. Notar que em 2008, quase dez anos depois, o Chiclete com Banana mantém sua posição de “mandante” nas micaretas, enquanto muitos novos grupos já participaram do evento. 10 Sobre este ponto v. CANEVACCI, Massimo. Sincretismos: uma exploração das hibridações culturais. São Paulo, Studio Nobel/Instituto Cultural Ítalo brasileiro de cultura, 1996; CANCLINI, N.

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entretenimento”, interpretam as festas e brincadeiras como produtos do mercado de serviços, atrelado à indústria cultural e do turismo de massas. Nestes trabalhos, a escola de samba aparece como mais uma manifestação, concorrendo com outras e sujeita às adaptações, hibridações e às flutuações dos indicadores sócio-econômicos. A questão da rentabilidade é um problema ainda sem solução a curto ou médio prazo para a manifestação escola de samba. Como o status de “associação cultural sem fim lucrativo” a maioria das agremiações não consegue estabelecer-se enquanto empresa do ramo do entretenimento, como estão fazendo as grandes escolas do Grupo Especial e já fizeram os blocos de trio do carnaval baiano. Questões relativas ao patrocínio, consumo e lucratividade da manifestação têm sido levantadas11. E ainda: “A premiação gera prestígio para os diretores e patrocinadores. Indiretamente podem gerar alguns benefícios materiais. Entretanto, ao nível da escola, a principal remuneração é o prestígio social. A elevação dos custos, derivada da competição, superou a capacidade popular de bancar o desfile”12. Mas, o pouco prestígio que as pequenas escolas de samba podem oferecer aos investidores determina o seu reduzido poder de atração. Elas ainda dependem das subvenções do poder público (estado ou prefeitura), que vêm diminuindo a cada ano, visto que a política cultural que interessa aos órgãos oficiais é direcionada pelo regionalismo, do qual as escolas se afastaram historicamente. E Culturas híbridas. São Paulo, Brasiliense, 1998; CANCLINI, N. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro, EDUFRJ, 1999; BURKE, P. Hibrisdimo cultural. São Leopoldo/RS, Unisinos, 2003. 11 “A realidade atual impõe a uma escola de samba que ela seja administrada como uma empresa. Mas como deveria proceder administrativamente uma escola de samba e qual o produto fabricado por ela? Dever-se-ia meditar sobre a conveniência de uma escola de samba ser rentável ou não, se os benefícios financeiros ou não financeiros, advindos do desfile, deveriam ser maiores do que os custos incorridos para executá-lo. O produto de uma escola de samba é o desfile de carnaval. Que características deveriam ter este produto pra atender aos desejos do consumidor? Quais mercados devem ser preferencialmente atendidos? Dois mercados surgem: são aqueles constituídos pelo público das arquibancadas e pelos potenciais patrocinadores. Quais os desejos de consumo de ambos os mercados? Para a platéia, magia, encantamento e surpresa; para os patrocinadores, temas que pudessem estabelecer ligações institucionais com suas atividades”. Relatório Final Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval. Sebrae/Fecomércio/Governo do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2006, Módulo III, cap. 01, p. 14. 12 AGUINAGA, Ronaldo & LESSA, Carlos. O carnaval carioca: uma reestimativa do emprego e renda relacionados ao espetáculo. In: EARP, Fábio Sá (org.) Pão e circo: fronteiras e perspectivas da economia do entretenimento. Rio de Janeiro, Palavra e Imagem, 2002, pp. 146s.

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mesmo quando procuram estabelecer conexões com patrocinadores potenciais, nem sempre são bem sucedidas: o investimento da iniciativa privada costuma acompanhar o da política cultural oficial e a maioria dos regulamentos proíbe vários tipos de propaganda durante o desfile. Assim, maioria das escolas de samba não consegue gerar lucro, é um mundo de despesas com receitas cada vez menores. A década de 1980, quando começa a se delinear tal processo, é um marco temporal chave, pois nela observamos fatos importantes para esta discussão: em 1983, no Rio de Janeiro, cidade criadora e difusora do modelo de carnaval sambista, inaugura-se o sambódromo, novo palco de desfiles, reforçando a noção de exclusividade espacial das grandes escolas de samba; em 1984 elas fundam a LIESA, redesenhando o campo do carnaval carioca, realçando a ordem política/hierárquica e as diferenças econômicas e estéticas entre escolas “ricas e pobres”; no mesmo período dá-se o estouro da música carnavalesca baiana, o crescimento dos grandes blocos-afro e de trio, que começam a se organizar como empresas, atraindo grandes investimentos da indústria fonográfica, consolidando o nicho de mercado da axé-music, em detrimento do samba-enredo, trilha sonora predominante até então no período carnavalesco.

Metodologia: etnografia heterodoxa, sociologia comparada.

Esta pesquisa não pretende ser eminentemente etnográfica, no sentido ortodoxo, de eleger um grupo e debruçar-se unicamente sobre ele. Talvez deva falar mais apropriadamente em uma etnografia “multifocal”, que apesar de eleger um mesmo objeto (no caso, um produto cultural, a escola de samba), prefere vê-lo de forma múltipla (não uma, mas várias escolas) e a certa distância, a partir do desfile anual e seus preparativos. Outro ponto importante: o diálogo deu-se principalmente com aqueles que assumem papéis preponderantes dentro do processo administrativo e artístico da manifestação, papéis de comando, agentes

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que se enquadram melhor na categoria chamada “informante privilegiado”, figura que de certa forma recuperou o prestígio no trabalho etnográfico13. Mas, este não é um trabalho “genérico” sobre as escolas de samba cariocas. Interessam-me algumas questões específicas, sobretudo as dificuldades e estratégias de solução, no processo de “pôr a escola na rua”. Preferi então, dialogar com aqueles atores que lidam e resolvem os problemas. A visão que compartilho aqui é principalmente a dos gestores do carnaval: além dos diretores e presidentes das escolas, administradores da AESCRJ e da RIOTUR. Embora a pesquisa não se restrinja ao discurso destes agentes – há uma observação in loco dos desfiles com análise do material produzido pelas escolas – posso afirmar que me interessei, sobretudo pela visão deles, é ela que lastreia todo processo de análise. Trabalhando com os métodos da antropologia urbana pretende-se traçar um painel da história recente destes grupos (especialmente a partir da fundação da LIESA,1984), culminando nos últimos quatro anos com observação registros dos desfiles. Maior destaque deverá ser dado ao método fotográfico de registro, procurando contemplar de forma mais acurada alguns itens (fantasias e alegorias). Certamente o discurso de carnavalescos, aderecistas, diretores de carnaval e eventualmente presidentes adquirem um peso maior na pesquisa. Os critérios puramente estéticos já me interessavam bem pouco desde minha pesquisa de mestrado com as escolas de São Luís – eu decididamente não procurava por “luxo” ou “beleza”, mas tampouco procurava por “criatividade” (categoria geralmente acionada na falta daquela), nem por outras categorias “Depois de Malinowski, uma suspeita geral para com os “informantes privilegiados” refletiu a preferência sistemática pelas observações (metódicas) do etnógrafo em detrimento das interpretações (interessadas) das autoridades indígenas. [A partir dos anos 1960] Victor Turner, Joseph Casagrande, Raymond Firth e Robert Lowie livraram-se do tabu profissional pósmalinowskiano sobre os informantes privilegiados. E uma vasta lista de distintos antropólogos descreveu os “etnógrafos” indígenas com quem compartilharam, em algum grau, visões de costumes distanciadas, analíticas e inclusive irônicas. Estes indivíduos chegaram a ser informantes valiosos porque compreenderam com verdadeira sutiliza, o que implicava uma atitude etnográfica em relação à cultura. Uma maneira cada vez mais comum de manifestar a produção colaborativa do conhecimento etnográfico é a de citar regular e extensamente os informantes... que são indivíduos específicos, com nomes próprios reais, nomes que podem ser citados de forma alterada, quando a prática o requeira”. CLIFFORD, James. Sobre a autoridade etnográfica. In: REYNOSO, Carlos (org.) El surgimento de la antropologia pós-moderna. Barcelona, Gedisa Ed., 1992, pp. 151;167. 13

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tradicionais quando o assunto é escola de samba, como “empolgação”, “garra”, “samba no pé” ou “amor à escola”. Minha investigação não ignora existência de tudo isso, mas se concentra em uma questão prática abrangente que chamarei de o “funcionamento” das escolas – menos administrativo durante o ano, e mais na preparação do desfile. O que me interessa é captar estratégias de organização, detecção e solução dos possíveis problemas que se colocam para os grupos sociais que fazem a opção pela forma de brincadeira “escola de samba”, cuja culminância obrigatória é o desfile anual. Neste sentido, meu olhar foi, desde o início, orientado para os aspectos considerados “problemáticos” pelos agentes produtores da manifestação, aqueles que já começara a perceber entre as escolas de samba de São Luís, anos atrás: a barreira econômica, a carência de mão-deobra especializada, a recente escassez de desfilantes e de outras figuras que exercem papéis rituais importantes dentro da manifestação, como baianas e ritmistas. Minhas entrevistas com os gestores das escolas são diretivas no sentido mais exato do termo: conversas sobre os “pontos problemáticos”, não especificamente de tal ano, tal desfile ou enredo, mas no nível das dificuldades recorrentes, que se reapresentam a cada ano, já consideradas crônicas. “É complicado...” – era uma resposta comum essas questões. A documentação fotográfica segue o padrão temporal do rito: além das fotos de barracões de alegorias, feitas semanas antes do carnaval (com destaque para o processo de construção de alegorias e daqueles envolvidos na tarefa), fotos dos últimos preparativos alegóricos na concentração ainda à tarde (com destaque para as próprias alegorias), depois fotos da escola já montada ainda na concentração, minutos antes do início do desfile (com destaque para foliões já trajados, só ou em pequenos grupos) e finalmente fotos do desfile (em sua maioria, imagens de conjunto) e do processo de apuração (imagens de comemoração). Baseado nas anotações feitas ao longo dos quatro anos de pesquisa sobre a performance de desfile, nos questionários aplicados com o público assistente e com os diretores de escolas, e em algumas outras informações que extrapolam

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este período, elaborei tabelas e gráficos quando as análises quantitativas assim o solicitavam. Quanto a análise sociológica, encontro um exemplo inspirador em Norbert Elias, em seu estudo sobre a sociedade de corte. Como observa Chartier ele “toma uma distância em relação a uma sociologia tentada pela construção de taxionomias de validade universal e procura estabelecer leis de funcionamento das formas sociais a partir do exame minucioso de uma de suas atualizações históricas”14. É possível fazer alguns paralelos com o método de análise adotado neste estudo. Pode-se falar em termos de uma “sociedade do carnaval” ou de um “sistema do carnaval” brasileiro, que inclui os vários modelos de festa em cada cidade, entre os quais se efetuam as primeiras comparações (Rio, Salvador, Recife, São Luís). Cristalizam-se então “sistemas carnavalescos locais”, com funcionamento e hierarquia próprios, que também podem ser comparados. E ainda, em cada sistema local, podem-se comparar os ethos dos agentes responsáveis pelas principais brincadeiras presentes no cenário momesco (escolas de samba, Blocos, Trios Elétricos). Pode-se ainda falar, em termos de história recente, na comparação da trajetória dos modelos de festa, seu avanço e crescimento ou sua retração e decadência – no caso deste trabalho o “exame minucioso de uma das suas atualizações históricas” fica por conta da pesquisa sobre as escolas dos grupos de acesso C, D e E cariocas. Há então uma figuration do campo carnavalesco, “uma formação social variável, em que os indivíduos estão ligados uns aos outros por um modo específico de dependências recíprocas e cuja reprodução supõe um equilíbrio móvel de tensões”15. Elias fala 14

Para isso, utiliza largamente o método comparativo em três escalas: “A primeira permite distinguir funcionamentos diferentes da mesma forma social no interior de sociedades comparáveis e contemporâneas. Elias confronta diversas vezes a sociedade de corte da França do Ancien Régime às situações inglesa ou prussiana. Elias esboça comparações mais distantes, entre as sociedades de corte anteriores aos séculos XVI e XVII e as cortes asiáticas; aqui o importante é mostrar os efeitos da mesma forma social no interior de sociedades bastante afastadas no tempo e no espaço. Enfim, comparar para Elias é também contrastar as formas e os funcionamentos sociais. O contraponto da sociedade de corte é dado assim pela sociedade burguesa dos séculos XIX e XX, que difere dela pelo ethos econômico...” CHARTIER, Roger. Formação social e economia psíquica: a sociedade de corte no processo civilizador. Prefácio. In: ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Rio de Janeiro, Zahar, 2001, p. 09. 15 Seg. CHARTIER, R. Id. p. 13.

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ainda da imagem do tabuleiro de xadrez, onde cada movimento acarreta outros movimentos, modificando a figuration inicial. E afirma a sociologia como um trabalho de figurationsanalyse: identificar e compreender as diferentes formações sociais que se sucederam e sua cronologia é a da “evolução social”. Assim é que, na hibridez do método sócio-antropológico realizei três viagens de pesquisa, mantendo o Rio como cidade-base: à Salvador em 2005 e à Belém e Teresina em 2007 – além de São Luís, cidade referência inicial – onde pude conhecer os agentes envolvidos na manutenção das escolas de samba, visitar quadras das agremiações, apreciar as configurações espaciais dos locais de desfile, me inteirar melhor sobre as problemáticas dos “sistemas carnavalescos locais” e começar a sistematizar a história recente das escolas de samba em cada cidade através dos arquivos jornalísticos. A situação das escolas de samba no Rio de Janeiro Existem no Rio de Janeiro mais de 60 escolas de samba, divididas em 7 grupos hierarquizados em ordem de importância, visibilidade e poderio econômico: Grupo Especial, e Grupos de Acesso A, B, C, D e E. Os Grupos Especial e de Acesso A e B, desfilam na Marquês de Sapucaí, no Sambódromo, centro do Rio. Os Grupos de Acesso C, D e E, desfilavam na av. Rio Branco até 2001, mas desde 2002 os desfiles foram transferidos para o bairro do Campinho, na av. Intendente Magalhães, próximo à Madureira. O presente trabalho de pesquisa concentra-se nas menores escolas de samba cariocas, aquelas que formam os Grupos de Acesso C, D e E, investigando suas formas de criação e manutenção, suas trajetórias de sucessos e fracassos, suas dificuldades administrativas e formas peculiares de fazer carnaval. Procuro traçar um perfil sócio-econômico destas agremiações, antes nunca pesquisadas, com o intuito de melhor localizá-las dentro do “campo do carnaval carioca”, em conjunto com outras brincadeiras e manifestações, algumas delas tradicionais, outras novas, mas todas disputando espaço e visibilidade, de maneira mais ou menos declarada. Minha interpretação vê o carnaval como uma festa agonística, onde vários tipos de competições vêm à tona, onde as recompensas aos vitoriosos são

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tanto econômicas quanto simbólicas, e onde é visível um esforço pela “melhor colocação” no campo, seja física ou geograficamente falando

– no nível das

disputas pelos locais de apresentação mais valorizados na cidade –, seja artística e esteticamente, o que dá através do concurso anual dos desfiles, possibilitanto ascenções e descensões, e algum tipo de mudança no status quo das agremiações. Também tentamos traçar um perfil estético, das agremiações através de alguns pontos mais valorizados dos desfiles, a produção de fantasias e alegorias; trata-se de um exercício de antropologia visual, onde procuramos identificar e classificar padrões de produção de indumentária e alegoria carnavalesca referentes aos anos em que a pesquisa foi realizada, entre 2005 e 2008. Gostaríamos de pontuar alguns dos pontos verificados:

1.Quanto ao campo do carnaval carioca: Adotando o conceito de campo de Pierre Bourdieu, achamos pertinente um esboço sociológico do campo do carnaval carioca, uma vez que é neste universo que se inserem as pequenas escolas de samba. Identificamos uma rigidez cada vez maior no processo de hierarquização destes grupos. O campo do carnaval carioca seria dominado então por aquelas agremiações que se auto-denominam a “elite” do carnaval carioca, que correspondem às escolas do Grupo Especial, onde há maiores investimentos, visibilidade midiática e mais poder de barganha e negociação com os órgãos oficiais, visto terem se transformado em uma das principais atrações turísticas da cidade – identificamos assim um esforço cada vez maior para o fechamento deste grupo de elite, com uma espécie de “ethos de grupo” que incluem regras de etiqueta sociais e estéticas, dificultando cada vez mais a ascensão das pequenas escolas. As barreira simbólicas implicam gastos considerados exorbitantes determinados pelo consumo suntuoso que confere prestígio à agremiação – incluem contratação de profissionais altamente especializados, intelectuais pesquisadores, artistas de renome para produzirem um “desfile digno do Grupo Especial”, que apresente e represente bem a cidade do Rio perante o país e o mundo – o desfile do Grupo Especial parece ter tomado

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um significado “purificador” das mazelas diárias vividas na cidade, marcada pela violência e criminalidade. Os recursos para a produção dos desfiles “belos e luxuosos” nem sempre têm origem definida e lícita, sendo notório o envolvimento da elite sambista com outra elite carioca, a do crime organizado, que mantém relações históricas com o mundo das escolas de samba. As escolas dos Grupos de Acesso, sem os mesmos benefícios financeiros e recompensas simbólicas, vivem assim, num “outro mundo carnavalesco”, onde as referências de grandeza e suntuosidade que fazem a fama do carnaval carioca, não chegam a se realizar. Hoje, neste campo, as escolas dos grupos de acesso C, D e E têm menos visibilidade do que blocos de embalo, bandas – manifestações do chamado “carnaval de rua” – e escolas de samba mirins. A retirada das pequenas escolas da av. Rio Branco, no centro do Rio, onde tradicionalmente desfilavam, para o “crescimento do carnaval de rua” – como disse um administrador da Riotur, vem corroborar a visão de que, mesmo no Rio de Janeiro, o carnaval sambista vem perdendo espaço e visibilidade. Além das barreiras simbólicas já comentadas, identificamos outras as barreiras hierárquicas que lhes reificam: a da ascensão do Grupo de Acesso C para o Grupo de Acesso B, que confere à escola o direito de desfilar no Sambódromo; e a ainda mais forte barreira da ascensão do Grupo de Acesso A para o Grupo Especial, que confere à escola o direito de participar da “elite do carnaval carioca”. As oportunidades de ascensão são cada vez mais raras, as escolas preferem fazer aquilo que chamam de “carnaval de manutenção”, ou seja, para se manter no mesmo grupo, evitando ao menos o declínio.

2.Quanto às formas de criação e manutenção: Até 1989 todas as escolas eram regidas pela Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro (AESCRJ). Com a criação da Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA), há uma ruptura institucional: as menores escolas continuam da AESCRJ, mas as maiores e mais ricas ficam sob a tutela da LIESA. A AESCRJ determina através de regulamento específico as formas de criação e administração das agremiações, para que elas possam associar-se à entidade e

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participar do desfile anual, contando com o pequeno patrocínio oferecido pela prefeitura. Nos grupos C, D e E o número de escolas varia de ano para ano, de 8 a 14. Nos quatro anos de pesquisa o patrocínio oficial variou entre 17 e 54 mil reais (algo em torno de 8 a 25 mil dólares). Observa-se também uma espécie de “renovação” no perfil sócio-jurídico das agremiações, pois muitas delas foram criadas a partir dos anos 1990, enquanto outras mais antigas desapareceram no mesmo período. Há muitas formas de criar uma escola: a regra mais tradicional e legalmente prevista no regulamento é um bloco de enredo bem colocado no seu grupo, pleitear o status de “escola”. Para isso ele deve se submeter a um “desfile teste” no Grupo de Acesso E, onde o júri observa se tal agremiação tem realmente condições de “virar” escola. Se o veredicto for positivo, ele volta no ano seguinte já como escola concorrente. No entanto, há outras estratégias: dois blocos menores podem se juntar e formar uma escola; um bloco de sucesso pode se juntar a uma escola em processo de decadência e fundar uma nova entidade jurídica; um grupo político pode “comprar” uma escola de samba decadente – oferece um “valor” pela estrutura jurídica legalizada perante a AESCRJ –, reformulando-a totalmente e insuflando-lhe ânimo.

3. Perfil das escolas dos Grupos de Acesso C, D e E. Os regulamentos da AESCRJ rezam que as escolas dos Grupos de Acesso devem desfilar com um numero mínimo obrigatório de brincantes, qual seja: Grupo D, 500; Grupo C, 450 e Grupo E, 350. No entanto, poucas conseguem cumprir tais cifras – apenas 22% do total das escolas observadas. Os outros 78% apresentam déficit de desfilantes e isso por várias razões aventadas pelos sambistas: a concorrência desleal com as grandes escolas e outros fenômenos culturais como o funk, a pouca visibilidade midiática, a falta de organização interna, etc. O aumento ou diminuição do número de componentes em cada agremiação também foi observado e, mesmo que não consigam cumprir a exigência anterior do número mínimo, aqui o resultado é sensivelmente diferente: mais de 80% delas conseguiu manter ou aumentar o contingente entre 2005 e 2008. Não se pode assim falar

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num processo de “retração” entre as escolas de samba cariocas dos Grupos de Acesso, mas antes indicar uma dificuldade que parece ser antiga – há relatos sobre esse ponto que remontam à década de 1980. Segundo eles “tem mais escola no Rio do que gente interessada em desfilar”. As estratégias para vencer tal dificuldade são as mais variadas: os dirigentes podem doar fantasias, fazer intercâmbios de alas entre diferentes escolas, trocar um ala por um carro alegórico, etc. Queixas sobre doação de fantasias são muito recorrentes: “–Se não doar, ninguém desfila”, reclamam os diretores. Antes dos desfiles, durante o ano, as dificuldades de arregimentar componentes podem ser sentidas na freqüência rarefeita aos eventos promovidos nas quadras das escolas. “–Geralmente dá prejuízo”, diz um diretor, “por isso as pessoas deixam de fazer. Todo mundo só que saber de funk, de música baiana, não tem muito interesse por escola de samba pequena...” – completa. A parceria com movimento funk para movimentar as quadras das escolas de samba já é uma realidade até para as grandes escolas do Grupo Especial – hoje são as maiores festas promovidas nestes espaços fora do período carnavalesco. Mas muitos dirigentes apontam desvantagens: “–Tem muita briga, eles destroem tudo, a vizinhança não gosta, tem tráfico de drogas, o „movimento‟ quer interferir, que mandar na escola, aí complica muito. Dá dinheiro, mas é perigoso, afasta o sambista verdadeiro...”

4. Alguns problemas pontuais Alguns pontos chamaram nossa atenção em especial durante os 4 anos de observação: a performance de duas alas consideradas “tradicionais” nos desfiles de escolas de samba, a ala das baianas e a bateria, que têm também sofrido alguns desfalques entre as escolas dos Grupos de Acesso C, D e E. A maioria das baterias se apresenta com um contingente de 50 a 80 componentes, o que não pode ser considerado pouco dado o tamanho total das agremiações. Mas a falta de alguns naipes de instrumentos importantes se faz sentir de maneira decisiva. Dentre elas a mais grave é a do tamborim – são raras as escolas que se apresentam com uma ala de tamborim estruturada, com batidas e paradinhas

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ensaiadas, que conferem graça superior ao samba. Muitas desfilam sem tamborins e outras arregimentam os ritmistas na concentração, “apenas para fazer constar”. A grande maioria das baterias é mista, composta de ritmistas que também participam de outras agremiações e assim, dividem seu tempo de ensaio e dedicação. Um mestre de bateria decreta: “–Tem mais bateria do que batuqueiro, alguns ritmistas são muito disputados e por isso só querem desfilar com pagamento”. A respeito das alas das baianas também observamos a mesma dificuldade: muitas escolas eram penalizadas por não apresentarem o número mínimo de integrantes nesta ala (Grupo C, 30; Grupo D, 25; Grupo E, 20). As razões para isso são muitas: o peso incômodo da roupa que veio crescendo ao longo dos anos, a falta de um “tratamento especial” concedido às senhoras que desempenham tal papel, a conversão ao evangelismo de muitas delas, etc. Segundo alguns depoimentos o “problema das baianas” já extrapolou os Grupos de Acesso e já pode ser sentido no Grupo Especial, que tem uma forma mais prática de resolvê-lo: contrata e paga baianas para desfilar.

5. Um discurso próprio Também é possível identificar um discurso específico das agremiações dos menores grupos de acesso do Rio de Janeiro, que se manifesta notoriamente nos temas-enredo e na execução de fantasias e alegorias. Depois de um levantamento dos enredos apresentados entre 2005 e 2008, observa-se uma nítida preferência por temáticas referentes ao universo afrobrasileiro. Tal preferência pode manifestar-se de maneira mais literal com enredos-homenagens a personalidades históricas e contemporâneas negras (21,7%) e referência à mitologia afro-brasileira (5,2%) ou de maneira latente com enredos sobre a história do Brasil (10,8%), festas folclóricas (10,8%) e localidades como bairros e estados do Brasil (8,2%); nestes, a participação do negro é sempre aludida como determinante. Alguns carnavalescos afirmam que a preferência pelos “enredos-afros” é determinada pela dificuldade financeira: “–Enredo afro é mais barato, dá pra usar muito material reciclável, não tem muito brilho, por isso muitas destas escolas pequenas optam por isso. Não é tanto por uma questão de

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consciência como se pode pensar...” A questão econômica também interfere na produção visual do desfile, onde o reaproveitamento de materiais é uma constante, chegando às vezes a ser criticado pelos próprios carnavalescos: “–É verdade que não dá pra fazer uma escola pequena com tudo novo, tem que reaproveitar esse lixo do Grupo Especial, que é um luxo para nós. Mas tem que usar a criatividade, fazer um trabalho de adequação do material ao enredo, dar outro tratamento, senão vira bagunça. Mas tem muita gente que não faz isso, recebe de outra escola e manda pra avenida sem mudar nada.”. Assim, pude observar durante os quatro anos de pesquisa muitas estratégias de produção e reaproveitamento de fantasias e alegorias: fantasias emprestadas, esculturas repintadas e renomeadas, reformas, revestimentos, tudo para adequar peças usadas a um novo enredo. Alguns carros alegóricos são utilizados por mais de uma escola: como são três dias consecutivos de desfiles em Campinho, os carros podem ser modificados na própria concentração, de um dia para outro.

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Valorizando a batucada: um estudo sobre as Escolas de Samba Cariocas dos Grupo de Acesso C, D e E. by Portal Academia do Samba - Issuu