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O canto do negro no samba-enredo: mito, história e identidade.

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAÍBA – UEPB CAMPUS IV – CATOLÉ DO ROCHA-PB VI SEMANA DE LETRAS: LINGUAGENS E ENTRECHOQUES CULTURAIS CAMINHOS DA LEITURA E DA ESCRITA: UM OLHAR PLURAL 25 A 27 DE OUTUBRO DE 2011 ISSN: 2178-731X

O CANTO DO NEGRO NO SAMBA-ENREDO: MITO, HISTÓRIA E IDENTIDADE SILVA, Francisco Vieira da (PPGL/UERN) Orientadora: BARBOSA, Profa. Dra. Maria do Socorro Maia Fernandes (PPGL/UERN) RESUMO Esse trabalho prioriza a discussão em torno do processo de (des) construção da identidade do negro, por meio da análise do discurso de sambas-enredo que tratam sobre o próprio negro, comumente denominados de sambas afro. Tais sambas foram apresentados pelas escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Atentamos para o fato de o samba ser uma manifestação popular e cultural emergente do seio da comunidade negra, uma parcela da população historicamente excluída, habitando a margem da sociedade. Essa pesquisa fundamenta-se teoricamente nos postulados da Análise de Discurso de linha francesa e considera ainda o carnaval como uma formação discursiva que regula o que pode/deve ser dito. O nosso aporte teórico abarca, além dos autores específicos da AD (a exemplo de Foucault e Pêcheux), os estudiosos que concebem a identidade no contexto dos Estudos Culturais como Hall (2006; 2008) e Woodward (2008). A pesquisa classificase como qualitativa, posto que visamos compreender como se expressa a identidade do negro no âmbito dos referidos sambas. Nesse sentido, ao organizarmos o corpus, interessou-nos coletar sambas de diferentes temporalidades, a fim de que se pudesse investigar se houve (ou não) alguma modificação na forma como essa identidade se manifesta na rede discursiva da História. Os resultados dessa abordagem para o seguinte quadro: a apreensão da identidade no e pelo discurso encontra-se atravessada, ora por meio da referência aos mitos e às figuras históricas como Zumbi, Xica da Silva e outros, ora pela tomada de consciência acerca da condição sociorracial do negro na contemporaneidade. Palavras-chave: identidade; discurso; samba-enredo. Algumas informações preliminares O presente artigo estrutura-se da seguinte forma: inicialmente, serão tecidos alguns comentários relativos ao aparecimento e aos desdobramentos da Análise do Discurso de orientação francesa, cujo foco incidirá nos aspectos históricos, nas fases e nos conceitos-chave dessa corrente linguística. No tópico seguinte, a discussão centrar-se-á na noção de identidade do negro produzida no/pelo discurso; dando prosseguimento ao trabalho, o tópico subsequente enfatizará o carnaval, não apenas como o evento deflagrador da produção dos sambas-enredo, mas também


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enquanto uma formação discursiva. Posteriormente, serão destacados os aspectos metodológicos no propósito de orientar a análise do corpus e as discussões finais. Análise do Discurso: percursos, procedimentos e objetos A Análise do Discurso (doravante AD) desenvolveu-se principalmente na França por volta dos anos 60 do século passado.

Essa teoria inscreve-se num

quadro que articula o linguístico com o social, “[...] e vê seu campo estender-se para outras áreas do conhecimento e assiste-se a uma verdadeira proliferação dos usos da expressão análise do discurso.” (BRANDÃO, 2004, p.16, grifo da autora). A Análise do Discurso propõe a articulação da língua com a História enquanto perspectiva de compreensão do funcionamento do discurso, sendo que o lexicólogo Jean Dubois e o filósofo Michel Pêcheux foram os precursores dessa corrente teórica. A Análise do Discurso desenvolve-se em meio a processos de „rupturas‟, descontinuidades, reformulações teóricas, dividindo-se, pois, em três fases: i) AD 01, também denominada de AD 69 que representa a fase das máquinas discursivas; ii) AD 02 com o auge das formações discursivas; iii) AD 03 caracterizada pelas abordagens em torno do interdiscurso. A publicação da obra Análise Automática do Discurso de Michel Pêcheux dá início ao período das máquinas discursivas através da análise dos discursos eminentemente políticos. Em face dessas abordagens, os processos discursivos eram estabilizados, de modo que, por exemplo, uma feminista jamais produziria um discurso com nuanças machistas. Esse modelo automático de análise do discurso não abarca o caráter movediço dos sentidos ou da incompletude da língua. Seguindo nessa linha de raciocínio, ao tornar o discurso político como foco de suas abordagens, a AD tendia a um esgotamento iminente, uma vez que seria preciso trazer à baila outras discursividades que destoavam da ortodoxia do discurso político, i.e, “seria necessário aceitar sair do texto, separar-se da presunção filológica que consiste em reduzir a política ao discurso e a realidade à crítica documentária.” Sem fazer isso, o analista [...] acaba por reforçar [...] que o discurso soviético dá a si mesmo.” (COURTINE, 2006, p. 44).


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Na segunda fase da AD, têm-se os desdobramentos da noção de formação discursiva (FD) postulada por Foucault. Inicia-se em 1975 com o lançamento de Vérites de la Palice de Michel Pêcheux, obra na qual esse teórico reformula alguns posicionamentos apresentados na primeira fase e introduz o conceito de FD. Imergindo nas propostas foucaltianas, encontramos a noção de formação discursiva atrelada à dispersão dos discursos, estes, por seu turno, são engendrados por elementos que não estão correlacionados a priori, uma vez que se deve encontrar as regras de formação dos discursos atribuídas às formações discursivas. Pelo exposto, interessava a AD naquele momento investigar e descrever a dispersão de uma dada FD e estabelecer as regras que a formavam. As regras que determinam uma formação discursiva apresentam-se, portanto, como um conjunto de elementos relacionados a objetos, tipos enunciativos, conceitos etc. A junção desses elementos evidencia a formação discursiva em sua singularidade, tornando possível a passagem da dispersão para a regularidade. Dispersão que se efetiva no seio de uma ideologia, ciência, teoria. (GRANJEIRO, 2007). Noutros termos, a análise de uma FD ocorre por meio da descrição dos enunciados que a compõe, sendo que a noção de enunciado em Foucault difere dos conceitos de proposição, de frase e de ato de fala, entendida, antes, como constituinte basilar do discurso. A AD 03 corresponde ao período de estudos em torno do discurso tomado a partir da relação com outros discursos. Retomando o conceito de interdiscurso, cabe pontuar que se trata do elemento determinador de uma formação discursiva, haja vista que ele é constituído de um já-dito, aquilo que pressupõe todo dizer. O interdiscuro é fator capital na compreensão e na produção de sentidos. Nessa perspectiva, Orlandi (2006, p.18) propõe que: “[...] para que uma palavra tenha sentido é preciso que ela já faça sentido (efeito do já-dito, do interdiscurso, do Outro). A isso é que chamamos de historicidade na análise do discurso.” O interdiscurso se apropria das contradições existentes no âmago das formações discursivas. Isso faz com que Pêcheux abandone a ideia de uma FD concebida como um bloco homogêneo e proponha a heterogeneidade como elemento basilar. (SILVA, 2008).


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A identidade apreendida no/pelo discurso: reentrâncias e fragmentações As análises sobre identidade realizadas por autores como Hall (2008) levam em consideração a ideia de que as identidades encontram-se fragmentadas, fraturadas, no período denominado de “modernidade tardia”. O sujeito uno dotado de uma identidade fixa e estabilizada de outrora cede espaço para um sujeito que agrega para si múltiplas identidades. Os efeitos identitários, nessa perspectiva, estão vinculados aos aspectos da cultura, da linguagem, da história, tendo em vista que “[...] é precisamente porque as identidades são construídas dentro e não fora do discurso que nós precisamos compreendê-las como produzidas em locais históricos e instituições específicas, no interior de formações e práticas discursivas específicas.” (HALL, 2008, p. 109). Cabe salientar a percepção errônea decorrente da utilização dos termos identidade e subjetividade como equivalentes. Existe, na verdade uma diferença entre os dois termos, tendo em vista que “subjetividade” delineia a compreensão que temos sobre o próprio eu. O termo envolve os pensamentos e as emoções conscientes e inconscientes que constituem nossas percepções sobre “quem somos nós” (WOODWARD, 2008). Não obstante, a subjetividade cobre-se com o tecido social sobre o qual a cultura e a linguagem organizam-se. Sendo assim, as identidades, bem como as subjetividades, são forjadas a partir e por meio dos efeitos de sentido dos discursos que, por conseguintes, são produzidos por sujeitos, ou em termos foucaultianos, por posições de sujeito. Consoante nos indica Woodward (2008, p.55): “Os sujeitos são, assim, sujeitados a partir do discurso e devem, eles próprios, assumi-lo como indivíduos que, dessa forma, se posicionam a si próprios.” Dessa forma, as posições que assumimos e com as quais nos identificamos constituem nossas identidades. A intersecção com o campo da AD faz-se necessária, no sentido de que a arquegenealogia de Foucault disponibiliza uma série de perspectivas para se entender a identidade. O propósito da obra de Foucault reside nos estudos acerca da objetivação/subjetivação do homem, e nos três domínios (saber, poder, ética) em que o sujeito estabelece relações sobre as coisas, sobre os outros e sobre si. (GREGOLIN, 2008). A busca da identidade no âmbito dos estudos foucaultianos


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prevê a existência das relações de poder e o embate entre os sujeitos unidos em torno de uma identidade e de uma individualidade. De acordo com Gregolin (2008, p.94, grifo da autora): “[...] a subjetividade, para Foucault, diz respeito às práticas, às técnicas, por meio das quais o sujeito faz a experiência de si mesmo em um jogo de “verdade.” Nesse sentido, apreender a identidade pelo/no discurso permite notar as relações de força preexistentes e inexoravelmente vinculadas aos efeitos identitários na contemporaneidade. Do carnaval e do samba: identidades em jogo O carnaval brasileiro é uma festa popular de grande importância na sociedade, a ponto de atrair inúmeros turistas e visitantes dos mais diversos países interessados em prestigiar um dos maiores espetáculos do planeta. A origem desse festejo remonta ao cristianismo, muito embora apresente características de cerimônias pagãs em contraposição aos valores preconizados pelo período da quaresma. O deslocamento da ordem física e moral, somados aos excessos na ordem social num misto de sacro e profano caracterizam o carnaval, funcionando como uma catarse preparatória para a entrada da quaresma. (LAMPOGLIA, MIOTELLO, ROMÃO, 2011, p.88). Para Bakhtin (1987), o carnaval (ou melhor, o efeito de carnavalização) se aproxima dos ritos pagãos. Na visão daquele teórico russo, o carnaval, ao implantar-se no campo da cultura popular, trataria sem distinção atores e expectadores, uma vez que todos estão inscritos num mesmo plano. Os aspectos do cômico e do jocoso são recorrentes na essência carnavalesca. Nesse sentido, Bakhtin (1987, p.5, grifos do autor) sublinha que:

Os festejos do carnaval, com todos os atos e ritos cômicos que a ele se ligam, ocupavam um lugar importante na vida do homem medieval. Além dos carnavais propriamente ditos, que eram acompanhados de atos e procissões complicadas que enchiam as praças e as ruas durante dias inteiros, celebravam-se também a “festa dos tolos” (festa stultorum) e a “festa do asno”; existia também um “riso pascal” (risus paschalis) muito especial e livre, consagrado pela tradição.


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Situando nossas atenções sobre a identidade do negro no samba-enredo do carnaval carioca (objeto de estudo de nossa abordagem), faz-se preciso considerar que o samba-enredo, tal como o conhecemos hoje, passou por transformações, desde quando se deu a sua consolidação por volta do decênio 1920/1930. Tais mudanças foram acompanhadas de outras modificações estruturais nos domínios do carnaval do Rio de Janeiro, dentre as quais se destaca a passagem dos blocos para as escolas de samba. De certo modo, o advento das escolas impôs um padrão para o samba-enredo, a ponto de torná-lo menos espontâneo e mais pragmático, obedecendo

às

prescrições

estabelecidas

pelo

carnaval-espetáculo,

daí

considerarmos o carnaval como uma formação discursiva que demarca as condições do dizer. A inscrição da identidade do negro no samba-enredo O corpus é formado por 24 (vinte e quatro) sambas-enredo apresentados por 12 (doze) agremiações em enredos cuja temática relaciona-se de alguma forma à figura do negro, seja no tocante à crítica social ou ainda relacionada à exaltação de figuras históricas. Com o propósito de facilitar a análise, tendo em vista a diversidade temática dos sambas que formam o corpus, achamos prudente agrupálos em blocos os quais possuem certa confluência no que concerne à temática e ao período histórico em que foram produzidos. Pensamos que desse modo, a identidade negra será configurada sob diferentes moldes a partir do discurso do samba por meio do qual ela vem à tona. i)Identidade mediada/originada por meio da retomada de figuras históricas Alguns dos sambas fazem referência a personagens ilustres e míticos da cultura negra, dentre os quais pode-se destacar: o samba-enredo do Salgueiro (2007) intitulado Candaces o qual

retrata a saga de rainhas africanas, e, por

extensão, louvam as mulheres afro-descendentes, as “mães feiticeiras” numa espécie de exaltação à figura feminina enquanto um ser imaculado, que provém os destinos da humanidade. As descedentes das candances, as mães de santo, evidenciam a identidade das mulheres negras que herdaram a força e a bravura que


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emana das suas ancestrais guerreiras. Mulheres batalhadoras que, apesar das intempéries do cotidiano, jamais desistem dos seus ideais, uma vez que são detentoras do poder das antepassadas. Nessa lógica, examinemos a seguir um excerto do referido samba:

Majestosa África/ Berço dos meus ancestrais/Reflete no espelho da vida/ A saga das negras e seus ideais/Mães feiticeiras, donas do destino...Senhoras do ventre do mundo/Raiz da Criação/Do mito a história/Encanto e beleza/Seduzindo a realeza/[...]/Mães de santo, mães de samba/Pedem proteção/E nesse canto de fé/Salgueiro traz o axé/E faz a louvação/Odoyá, Iemanjá; Salubá Nana!/Eparrei Oyá,/Orayê, Yê o, Oxum!/Oba Xi Oba!

O samba se caracteriza, pois, por um discurso de louvação às mulheres guerreiras e, a miscelânea de exaltação dos deuses afro-brasileiros delineia a face da religiosidade feminina vinda de além-mar. Nesse sentido, o samba evoca as divindades femininas, a exemplo de Yemanjá (rainha das águas do mar) e Orayê, Yê o, Oxum (guardiã da beleza e do amor) para benzer as mães de santo, as mães do samba. Ratificamos, portanto, a existência de uma identidade permeada pelo tom de celebração às imponentes mulheres africanas cujos ventres foram responsáveis pela formação dos filhos (as) de santo, do samba, do carnaval. Importante salientar que as Candances simplesmente são ignoradas pela História tradicional, a História dos heróis eurocêntricos e das grandes narrativas, pelo fato de as candances não figurarem o lado do dominador ou a conivência com o pacto colonial. Abrindo um breve parêntese para essa questão, evidenciamos as palavras do historiador africano Joseph Ki-Zerbo quando diz o seguinte: A África é o berço da humanidade, [...] estou certo de que se Adão e Eva tivesse aparecido no Texas, ouviríamos falar disso todos os dias na CNN. (2006, p.13). Além das candances, outras personalidades também são convocadas para serem congratuladas pelo samba. Indubitalvemente, a figura de Zumbi tem espaço de destaque. Seja apenas para contar a saga desse famoso líder quilombola, seja para revisitar a História dos Palmares com certa dose de criticidade, o fato é que Zumbi aparece com frequência em diversos sambas. Nessa perspectiva,


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consideremos um trecho do samba-enredo da Escola de Samba Caprichosos de Pilares (2003) e outro trecho do samba da Beija-Flor de Nilópolis(2007): Excerto 1:Que os orixás vão enviar um libertador/[...]/Zumbi foi rei lá no Quilombo dos Palmares/Na cultura o negro se agiganta/A fé na “terra mãe” é o seu alento/Existe um grito preso na garganta/Só Oxalá segura o fio da esperança/Quero ser livre/Esse lamento ressoou na sociedade/Que tem as chaves/Mas prende seus filhos na marginalidade/Caiu Palmares, liberdade não se mata na raiz/No batuque, bateria sou Zumbi/Onde há paz e alegria, eu tô ai! Excerto 2: Zumbi é rei,/Jamais se entregou, rei guardião/Palmares, hei de ver pulsando em cada coração.

Nos dois fragmentos, constata-se a retomada da figura lendária de Zumbi no intuito de referendar uma identidade; noutros termos, a imagem do herói dos Palmares serve de impulso para uma tomada de consciência do negro dos problemas que ele enfrenta, das condições precárias de vida que lhe são impostas na sociedade atual. No primeiro excerto, em meio ao discurso profético-messiânico, tem-se que “O rei guardião” olha pelos seus súditos e fornece a bravura necessária na luta contra a opressão, em outras palavras, a derrocada de Palmares não suplantou a força e a coragem do negro. Nesse sentido, Zumbi constitui o espelho pelo qual o negro contemporâneo se vê representado. Daí entendemos que a identidade negra, emoldura no discurso dos sambas, se constitui a partir do olhar sobre personagens fundamentais na História dos negros, inclusive além dessas figuras anteriormente destacadas, outros indivíduos também são exaltados nos sambas que integram o corpus (a exemplo de Chico Rei, Xica da Silva, Maria Mineira , etc ). Tais indivíduos conseguiram romper a rígida estrutura social de seu tempo e imprimir novas formas de resistência. ii) identidade erigida sob a batuta da conscientização racial Essa identidade se desvela, sobretudo, em sambas „comemorativos‟, fabricados no contexto de datas significativas como o centenário da Abolição, da Proclamação da República e os 500 anos do descobrimento. Nessas datas a identidade evidencia-se em meio a um discurso moldado por um viés de tomada de consciência do sujeito negro de sua situação social e ainda da afirmação da


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negritude. Tal afirmação permite-nos constatar uma postura crítica bem mais nítida, em contraposição aos sambas afro contemplativos, com um discurso patriótico e ufanista dos anos 60/70 que objetivavam apenas contar a história sem criticá-la. O motivo pelo qual tais sambas não adotam uma postura de contestação da ordem relaciona-se às condições de produção, se levarmos em consideração a censura do período da ditadura militar. Acerca dessa questão Ortiz (1998, p.117) argumenta que o samba enredo é uma das poucas “manifestações discursivas populares permitidas, embora censuradas, pelo sistema político vigente no período dito „revolucionário‟, prestou-se enormemente à difusão da ideologia dominante.” No tocante aos sambas engajado-reflexivos produzidos no período da abertura

política,

observemos

minuciosamente

algumas

passagens

abaixo

transcritas: Excerto 1:Livre ecoa o grito dessa raça/E traz na carta/A chama ardente da abolição/[...]/Eu sou negro sim, liberdade e poesia/E na atual sociedade, lutamos pela igualdade/Sem preconceitos sociais/Linda Anastácia sem mordaça/O novo símbolo da massa/A beleza negra me seduz/Vivemos sem revolta e sem chibata/Dar um basta nessa farsa. (Salgueiro, 1989) Excerto 2: Será.../ Que já raiou a liberdade/ Ou se foi tudo ilusão/Será.../ Que a lei áurea tão sonhada/Há tanto tempo assinada/Não foi o fim da escravidão/ Hoje dentro da realidade/Onde está a liberdade?/ Onde está que ninguém viu. (Mangueira, 1988)

Os sambas-enredo, ao mesmo tempo em que relativizam o glamour dos festejos inerentes aos 100 anos da Abolição, afirmam a identidade negra, num contexto no qual “o negro permaneceu sempre condenado a um mundo que não se organizou para

tratá-lo como ser humano e como igual.” (FERNANDES, 2007,

p.33). No primeiro excerto, comprovamos mais uma vez a retomada de uma figura lendária (a Escrava Anástácia), personagem religiosa de devoção popular, que era dotada de uma beleza estonteante, segundo preconiza as crenças populares, e cuja exstência é duvidosa, já que inexiste provas materias sobre a mesma. Incertezas históricas à parte, o fato é que a metáfora de Anastácia serve para referendar um discurso que acentua a beleza e autoestima do negro (A beleza negra me seduz). O segundo fragmento, por seu turno, apresenta um discurso mais crítico que o primeiro, pois, ao questionar a lei Áurea e interrogar sobre a suposta liberdade


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advinda a partir dela, desvela a situação de inferioridade social e de preconceito racial experimentados pelo negro na contemporaneidade. Notamos no trecho do samba que não há uma homenagem à redentora Isabel, mas um posicionamento questionador e contrário à visão reducionista de que a situação do negro mudou num passe de mágica sob o poder da extraordinária pena (ou seria uma varinha de condão?) da Princesa. Subsiste em ambos os excertos, um sujeito-enunciador cuja identidade não se conforma com a miserabilidade das condições de vida e nem com o preconceito racial existente na sociedade brasileira. Considerações finais Ao término dessa abordagem, vale reiterar que as duas categorias que emolduram as identidades no samba-enredo, em certa medida, confluem para um mesmo caminho: os dilemas e os descaminhos enfrentados pelo negro na sociedade

atual.

Em síntese,

as referências às figuras

históricas,

e

a

conscientização racial convergem para uma mesma perspectiva: identidades (des) construídas em face das disparidades sociorraciais inerentes à realidade brasileira. No que tange às diferentes temporalidades, cabe ratificar o que afirmamos anteriormente: a adoção de uma postura mais crítica, o que confere uma identidade engajada em meados dos sambas anos 80, a contrapelo de uma identidade cujo sujeito apenas retoma os fatos e as figuras históricas sem refletir sobre estes. Referências Bibliográficas BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Trad. Yara Frateschi Vieira. São Paulo: HUCITEC; [Brasília]: Ed. Universidade de Brasília, 1987. BRANDÃO, H. H. N. Introdução à análise do discurso. Campinas: UNICAMP, 2004. COURTINE, J.J. Metamorfoses do discurso político: as derivas da fala pública. Trad. Nilton Milanez; Carlos P. Filho. São Paulo: Claraluz, 2006. FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Trad. Luiz F. B. Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. FERNANDES, F. O negro no mundo dos brancos. São Paulo: Global, 2007.


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