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Narrativa histórica através do Samba-enredo: Representação da ditadura militar entre 1973-1990

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VI Semana Acadêmica de História - Visões de Mundo: história, representações e narrativas De 06 a 09 de outubro de 2015

Narrativa histórica através do Samba-enredo: Representação da ditadura militar entre 1973-1990 Christian Gonçalves Vidal da Fonseca1 Manoela Salvador Frederico2 Nathália Jonaíne Hermann3 Resumo: O presente artigo tem como objetivo analisar as representações acerca da ditadura militar, veiculadas através dos sambas-enredo cariocas das décadas de 1970 a 1990. Utilizaremos como documento de pesquisa os seguintes sambas enredos: Educação para o desenvolvimento (1973), O grande decênio (1975), Sonho de um sonho (1980), Eu quero (1986), Eu prometo (1987) e Heróis da Resistência (1990). Partimos do pressuposto que o samba-enredo cria uma narrativa história e difunde representações sobre determinados temas, entre os quais, críticas e elogios a ditadura militar no Brasil. Para isso, nos apoiaremos nas discussões desenvolvidas por historiadores, como Rubim Aquino; Luiz Sérgio Dias (2009), Roger Chartier (1991). Palavras-chave: Samba-enredo, ditadura, representação, narrativa histórica.

O que se pretende refletir ao longo desse artigo são as representações do processo político ditatorial brasileiro, através dos sambas-enredo cariocas das décadas de 1970 a 1990, buscando investigar algumas das canções produzidas durante o período, que vai do regime militar ao processo de redemocratização. As questões que permeiam a narrativa serão traçadas através de perspectivas historiográficas que apresentam conceitos chaves para a elaboração das análises dessas composições. No decorrer da narrativa, tem-se como objetivo perceber, analisar e problematizar como se dava o processo de denúncia ou exaltação do regime militar. Além disso, compreender de que forma ele afetava a produção cultural e a construção das representações e do imaginário sobre o período. Para compreender a trajetória dessas construções apoiou-se nas considerações do historiador francês Roger Chartier, 1

Graduando de História da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Email: christianvdf@hotmail.com; 2 Graduanda de História da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Email: manoelahhhh@gmail.com; 3 Graduanda de História da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Email: nathaliahermann@hotmail.com;

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que auxiliou na investigação sobre as representações acerca da época. Para a compreensão do que foi o período ditatorial e como se deram os acontecimentos que culminariam na censura dos sambas-enredo, apoiou-se na conceituação dada pelo autor Caio Navarro Toledo. O uso dos sambas-enredo como fonte histórica faz parte de uma vertente historiográfica que busca analisar documentos que fogem de uma perspectiva tradicionalista. Chartier4 propõe o uso dessas novas fontes fugindo dessa lógica apresentando novos “objetos de estudo, mantidos até então inteiramente estranhos” (1991, p. 174). Isto é, a criação de novos espaços de pesquisa, até então não explorados pelos historiadores, torna-se uma área ampla para novos trabalhos acadêmicos. Segundo Tamara Paola dos Santos Cruz5, “durante muito tempo os historiadores estiveram alheios aos estudos sobre o carnaval e o samba, temas que se mantiveram como foco analítico do folclore, da antropologia e da sociologia”. (2010, p. 9) Ou seja, pensar nessas canções como formas de manifestação política e analisá-los como tal é algo relativamente novo na historiografia brasileira. Partindo do pressuposto de que as diversas maneiras de manifestação do tempo são peças-chave dos processos históricos, Lucilia de Almeida Neves Delagados nos diz que “em diferentes tempos, os escritos de historiadores [...] elaboram interpretações específicas sobre a ação dos sujeitos individuais ou coletivos, que são os construtores da história” (2004, p.16). A partir da perspectiva de análise dos sambas-enredo é possível chegar a interpretações e narrativas diversas à respeito de um determinado período histórico e, no caso do presente artigo, o enfoque foi dado às representações da ditadura militar nessas produções musicais. Um dos conceitos atribuídos ao carnaval considera-o como uma das maiores movimentações culturais brasileiras. Todos os anos a festa, que tem as origens de sua formação marcada majoritariamente pelas classes populares, traz consigo um clima de folia ao país. No carnaval, as diferenças tendem a ser deixadas de lado, e o “mundo de sonhos”, como coloca a musicista Elsa Maria Nitsche Ortiz6 (1998), permite ao trabalhador, que passa o ano inteiro dedicando-se ao seu ofício, mergulhe num mundo 4

Em sua obra “O mundo como representação” (1991). Historiadora que tem como áreas de pesquisa o carnaval e os sambas-enredo, tendo como tema da sua dissertação de mestrado As escolas de samba sob vigilância e censura na ditadura militar: memórias e esquecimento, defendida no ano de 2010 na Universidade Federal Fluminense. 6 Musicista e doutoranda em letras, Ortiz nesse artigo tem como intuito investigar o discurso do carnaval brasileiro durante o período de exceção democrática, introduzido no país pelo golpe militar de 1964 e encerrado com as eleições diretas para a Presidência da República, em 1989. 5

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de fantasia. Mesmo com sua situação socioeconômica desfavorecida ou não, os brasileiros podem se tornar piratas, reis, entre outros personagens da ilusão. Isso demonstra que o carnaval torna-se uma válvula de escape, como bem retrata o autor Roberto Da Matta7, uma inversão das hierarquias constituídas, ludibria os sentidos das classes inferiores, causando uma falsa sensação de liberdade, principalmente liberdade de expressão/crítica. O conceito e as motivações do regime de 1964 são inúmeras. Desde a década de 1960, surgem novas produções historiográficas sobre o período que por vezes divergem ou se complementam. De acordo com Toledo entende-se por ditadura militar, o governo autoritário, de bases fortementes consolidadas a partir de hierarquias bem delimitadas que foi “empreendido pela ação de grupos políticos civis e militares, que assumiram o poder e definiram novas diretrizes políticas para o país” (1997, p. 20) durante o período que vai de 1964 até 1985. Além das hierarquias consolidadas, outra característica pela qual o modelo político ditatorial de 1964 ficou amplamente conhecido, se dá pelo seu forte teor repressivo e pelas censuras atribuídas principalmente aos meios de divulgação e comunicação cultural e de informação, como o rádio, TV, circo, carnaval. Com os métodos e instituições legais de controle das mídias, o discurso permitido, que era construído e largamente difundido para a exaltação do modelo político, era direcionado, segundo Ortiz (1998), para a doutrinação, construído de forma a persuadir, seduzir, atrair, chantagear e ameaçar, através do uso da força/tortura física e psicológica, a população. Ainda que o controle fosse forte sobre qualquer tipo de produção artística ou informativa, não se deve considerar que os sujeitos fossem passivos e aceitassem sem titubear o que lhes era oferecido. Essa participação ativa na política das camadas populares pode ser percebida quando os historiadores Rubim Santos Aquino & Luiz Sérgio Dias (2009) dizem que “Nos últimos trinta anos, um aspecto singular do universo dos sambas-enredo merece destaque: trata-se daquelas composições que cantam temas do seu próprio tempo” (2009 p.123), com isso, justifica-se a vasta produção de sambas-enredo sobre a ditadura e suas implicações. Por isso, o

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DaMatta, Roberto. 1936 - Carnaval, malandros e herois: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6º Ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

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questionamento do poder vinha de formas variadas nessas canções mascarando-as para que não sofressem retaliações, através de simbologias, ironias e metáforas. Algumas das saídas encontradas para que as contestações pelas classes menos abastadas fossem ouvidas, era a elaboração de sambas-enredo difundidos através do carnaval, como bem ressalta Ortiz [Esse gênero musical] é uma das poucas manifestações discursivas populares permitidas, embora censuradas, pelo sistema político vigente no período dito “revolucionário”, prestando-se enormemente à difusão da ideologia então dominante. Entretanto, tal manifestação pode veicular, sob disfarces discursivos, o discurso do povo reprimido, um contradiscurso que protesta contra a situação existente, contra a formação discursiva de um governo de força. (1998, p. 117).

As formas narrativas modeladas através das produções musicais voltadas para as escolas de samba, em especial os do Rio de Janeiro, acabavam por ser monitorados pelo crivo da DCDP8, bem como diz Aquino & Dias “Quanto mais autoritário e ditatorial for um regime político, maior será o empenho em controlar a veiculação de informações”. (2009 p. 124). Um dos exemplos dessa seleção ocorreu com a Unidos da Vila Isabel em 1974, quando a agremiação trouxe o tema “Aruanã-açú”, sobre os Índios Carajás. A ideia central do enredo era fazer uma denúncia a destruição, causada pelo progresso anunciado pelo comando militar da Floresta Amazônica, com a construção da transamazônica e também questionar os problemas que este “avanço” vinha causando às populações indígenas. Essas críticas retiraram da disputa o samba enredo de Martinho da Vila que, mais tarde, faria sucesso no Brasil re-intitulado de “Tribo dos Carajás”. Ao mesmo passo que a censura excluía as canções de cunho crítico, deixava passar as escolas de samba que apresentavam enredos elogiosos ao modelo político. Temos como exemplo a Beija-Flor de Nilópolis, que produziu durante três anos consecutivos (1973, 1974, 1975), enredos com esse viés. Notou-se durante a pesquisa que após a produção dos mesmos, a escola sobe para o grupo principal. A partir disso, apresenta-se quatro hipóteses, avaliações e análises para a explicação dessa ascensão. A primeira é que a partir da exaltação do modelo político, a agremiação consegue “subir para as cabeças”9 utilizando-se de influências e interesses políticos de ambas as partes. A segunda é de que a própria escola simpatize com o governo. A terceira hipótese levantada é a de que ela ascende por mérito próprio sem fazer uso de meios “alternativos”. A última análise possível seria a garantia de conquistar algum tipo de 8 9

DCDP - Divisão de Censuras de Diversões Púbicas. Expressão que representa o objetivo da escola de samba que deseja ascender ao grupo especial.

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apoio financeiro. As argumentações podem ser pensadas de forma a compreender as conjunturas políticas e sociais vigentes que se refletiam nas produções e nas promoções das escolas de samba. A partir do momento que a Beija Flor se propõem a exaltação da ditadura civilmilitar, ocultam-se “as torturas, mortes e atentados, sequestros, exílios, cerceamentos brutal dos direitos básicos” (AQUINO; DIAS, 2009, p. 124) que ocorreram neste período. Sendo assim, a escolha por parte da agremiação de enobrecer os “grandes feitos” realizados pela regime, acaba por fazer com que a memória de muitas pessoas que sofreram e até morreram por conta desse regime fosse mantida no esquecimento. Todo o enaltecimento do período, pode ser visto, como já posto, na trilogia dos sambas enredo da Beija Flor de Nilópolis. O primeiro em análise é o de 1973, com o enredo “Educação para o Desenvolvimento”, como o título bem sugere, louvava-se os feitos educacionais durante o período vigente. Beija-Flor de Nilópolis 1973 Enredo: Educação para o Desenvolvimento Compositor: Walter de Oliveira e João Rosa Veja que beleza de nação O Brasil descobre a educação Graças ao desenvolvimento E a reforma do ensino O futuro, o amanhã Está nas mãos destes meninos (...) Olha o A-B-C Graças ao MOBRAL Todos aprendem a ler

Como podemos perceber, o samba-enredo deixa evidente o que quer transmitir, girando em torno dos elogios ao MOBRAL10, criado em 1967, e que tinha como principal objetivo diminuir a alta taxa de alfabetismo brasileiro. Ao contrário do trabalho anterior do educador Paulo Freire na mesma área, o MOBRAL entendia a leitura, a escrita e o cálculo como habilidades capazes de integrar o ex-analfabeto a sua comunidade, proporcionando-lhe melhores condições de vida. Nada de politização fundanda na Pedagogia Crítica, como pretendeu o educador pernambucano. Preso, cassado e levado a outros países para continuar sua obra meritória, Freire não deixou de ter parte do seu instrumento pedagógico usado pelo MOBRAL, obviamente com fins distitnos (AQUINO; DIAS, 2009, p. 124)

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Movimento Brasileiro de Alfabetização.

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Como sugere o samba, a partir do MOBRAL, extinto em 1985, “todos apredem a ler”, o Brasil se desenvolve e assim constrói um futuro melhor, principalmente na concepção da ânsia de um ano 2000 que marcaria a virada do milênio e um país progressista, repleto de prosperidade, tudo isso graças as reformas e feitos da ditadura militar. Vale salientar, que com esse enredo a agremiação torna-se campeã e ascende ao grupo especial (principal) do carnaval carioca. Apoiando-se no parágrafo acima, em 1974 a Beija-Flor traz para o desfile o enredo “Brasil Ano 2000”, tendo o samba-enredo composto pelos mesmos compositores do ano anterior. Beija-Flor de Nilópolis 1974 Enredo: Brasil Ano 2000 Compositor: Walter de Oliveira e João Rosa É estrada cortando A mata em pleno sertão É petróleo jorrando Com afluência do chão (...) Quem viver verá Nossa terra diferente A ordem do progresso Empurra o Brasil pra frente (...) Somos um país promissor O homem e a máquina alcançarão Obras de emérito valor (...) Na comunicação alcançaremos O marco da potência mundial

Fica evidente aqui, a certeza de um futuro promissor que possui sua base no progresso, no qual “o homem e a máquina [trabalhando em conjuntura] alcançarão/obras de emérito valor”. O primeiro trecho no samba, projeta-se um Brasil “para frente”, a transamazônica e todo o esforço de aumentar a extração e a produção de petróleo no Brasil, segundo Aquino & Dias (2009) eram provas que o país estava mudando, e como sugere uma parte do samba “Quem viver verá nossa terra diferente”. Para constar, nesse ano a Beija-Flor acabou na sétima colocação entre as principais escolas. Fechando a trilogia em 1975, a escola compete no carnaval carioca com mais um enredo elogioso a ditadura militar brasileira. Agora a canção faria referência ao “grande decênio”, isto é, os grandes feitos do regime militar em dez anos. 6


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Beija-Flor de Nilópolis 1975 Enredo: O Grande Decênio Compositor: Bira Quininho E o Beija-Flor vem exaltar Com galhardia o grande decênio Do nosso Brasil que segue avante Pelo Céu, mar e terra Nas asas do progresso constante Onde tanta riqueza se encerra (...) O comércio e a indústria Fortalecem nosso capital! Que no setor da economia Alcançou projeção mundial Lembramos também o MOBRAL, sua função Que para tantos brasileiros abriu as portas da educação

Antes de partir para a analise efetivamente, deve-se salientar que nesse desfile, o presidente do Brasil já não era mais Médici (1969-1974) e sim Ernesto Geisel (19741979). O samba teve como seu principal atributo glorificar o milagre econômico, sistema culminante no governo Médici e que acaba por entrar em crise no novo governo que se instala. Como podemos visualizar, o samba de 1975 é praticamente uma junção do samba de 1973 com o de 1974, no qual as características do progresso, questões econômicas e educacionais como “nas assas do progresso constante”, “fortaleceram no capital” e “lembramos também o MOBRAL”, respectivamentes, estão em voga nesse samba enredo. É importante frisar nesse artigo que a exaltação da ditadura não foi uma exclusividade da Beija-Flor de Nilópolis, pois outras agremiações faziam uso da mesma técnica. É o caso da Imperatriz Leopoldinense em 1972, que com o enredo “Martim Cererê”, referência a obra do artista modernista Cassiano Ricardo, deixa evidente que o país estava passando por uma fase de progresso e de crescimento “E o Brasil cresceu tanto/Gigante pra frente a evoluir/Milhões de gigantes a construir”. Ao mesmo passo que a trilogia da Beija-flor e outras agremiações reverenciavam o regime ditatorial, existiam agremiações que através de metáforas faziam o contrário. Acadêmicos do Salgueiro, Império Serrano e Unidos de Vila Isabel não deixaram se intimidar e com suas letras repletas de alegorias conseguiam se desvincilhar das amarras da censura. A Salgueiro em 1967, trouxe o enredo “A história

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da Liberdade no Brasil”, exaltando as lutas populares, toda via, todos os seus ensaios da escola foram monitorados pela DOPS, que acabou por liberar o desfile. O Império Serrano, em 1969, um ano após a instituição do AI-5, trouxe para avenida o enredo “Heróis da Liberdade”, no qual traziam versos ousados para o período: Império Serrano 1969 Enredo: Heróis da Liberdade Compositor: Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira Ao longe soldados e tambores Alunos e professores Acompanhados de clarim cantavam assim Já raiou a liberdade A liberdade já raiou É a revolução em sua legítima razão

O que é interessante nesse samba-enredo, é que a palavra “revolução” foi considerada subversiva e acabou sendo trocada por “evolução”. O samba-enredo que destacamos abaixo é da Vila Isabel de 1980, já no governo Figueiredo (1979-1985), no qual vale ressaltar que nesse momento já temos a lei da anistia11 decretada. Com o enredo “Sonho de um sonho”, os compositores usaram como inspiração o poema de Carlos Drummond de Andrade e assim puderam tecer grandes críticas ao regime militar. Unidos de Vila Isabel 1980 Enredo: Sonho de um Sonho Compositor: Martinho da Vila, Rodolfo de Souza e Tião Graúna

Que estava sonhando um sonho sonhado O sonho de um sonho Magnetizado As mentes abertas Sem bicos calados (...) A clemência e ternura por amor da clausura A prisão sem tortura, inocência feliz Ai meu Deus Falso sonho que eu sonhava Ai de mim Eu sonhei que não sonhava 11

Lei da Anistia concede anistia aos que cometeram “crimes políticos ou conexo com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e aos servidores da Administração Direta e Indireta, de fundações vinculadas ao poder público, aos Servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário, aos Militares e aos dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares”. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6683.htm.

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Mas sonhei Como já exposto, o uso de alegorias configura este samba-enredo. Num primeiro momento, um dos fragmentos diz “as mentes abertas/sem bicos calados”, isto é, a livre forma de se expressar e sem que haja qualquer tipo de censura. Outro trecho caro a analise, é “a prisão sem tortura, inocência feliz”, que reflete explicitamente o que o samba da Beija-flor deixara de fora nos anos anteriores: a memória das pessoas que sofreram com o regime ainda em vigor. Por fim, a célebre frase “falso sonho que eu sonhava” encerra bem o contexto social vivido, pois mesmo com a lei da anistia em vigência, a população ainda não pôde ser ouvida continuando com o histórico de luta contra a repressão. Após lutas e resistências o regime autoritário cairia. Surge um novo modelo político em 1985, que segundo o sociólogo brasileiro Emir Sader, mesmo que a estrutura militar tivesse caído, ainda se pode notar a formação de novas instituições que dominassem e regessem a política, mas que inegavelmente se [tratava] de um novo regime. A forma de dominação política foi modificada, substituindo as instâncias militares por formas parlamentares: a nova Constituição fortaleceu o papel do Congresso, as liberdades individuais foram ampliadas, o direito de organização política foi explicitado, introduziram-se direitos da cidadania que antes não constavam de nosso sistema jurídico, tem vigência, ao menos teoricamente, um Estado de direito, baseado em leis votadas por um Parlamento eleito pelo voto universal e direto (1990, p. 54).

Sendo assim, após a ditadura civil militar se via abrir um novo cenário político e ideológico, no qual a população brasileira passou a acreditar que reconquistaria o direito ao voto que só será efetivado com a constituição de 1988. Contudo, ainda perdurava a “lembrança da opressão e das perdas sofridas” (AQUINO; DIAS, 2009, p. 130) e projetava-se um sentimento de esperança do que viria depois, e com isso os desfiles das escolas de samba aproveitam essa nova conjuntura política para expressar seu posicionamento. Vale salientar, segundo AQUINO & DIAS, que muitos sambasenredos “das safras dos anos oitenta e noventa estão livres: eles não foram indiferentes ao seu próprio tempo” (2009, p. 132). Uma das críticas acerca da ditadura viria a ser apresentada em 1990, quando a Acadêmicos de Santa Cruz levou para o sambódromo o enredo “Os heróis da resistência”. Há nesse enredo uma comemoração a liberdade de expressão, coisa que poucos anos atrás eles seriam repreendidos, e como linha narrativa, a agremiação contou 9


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a história do jornal “Pasquim”, um dos meios de comunicação que vigorou entre 1969 e 1991 e que tinha como sua principal caracteristica o humor chárgico em meio ao período repressor. Santa Cruz 1990 Enredo: Os heróis da resistência Compositor: Zé Carlos, Carlos Henri, Carlinhos de Pilares, Doda, Mocinho e Luís Sérgio Somos os heróis da resitência Vamos "pasquinar", recordar Sorrir sem censura Botar a boca no mundo, buscar bem fundo Sem a tal da ditadura

Como o título sugere, um dos “heróis da resistência” seria o próprio jornal, que conseguiu sobreviver praticamente durante a ditadura e principalmente ao AI-5 (1968 a 1978), ato institucional que segundo o filosofo Daniel de Oliveira Figueiredo foi o: mais repressor, violento e “famoso” destas imposições arbitrárias, foi criado um Conselho Superior de Censura, seguido por tribunais de censura, para julgar os órgãos de comunicação que burlassem as regras impostas, imprimindo desde proibições e cortes nas pautas e publicações dos jornais até medidas mais radicais, como o fechamento imediato das redações. (2012, p. 59)

Conseguido passar por este ato institucional, a Santa Cruz rendia uma homenagem principalmente ao jornal, e que agora enfatizava que se podia “sorrir sem censura/botar a boca no mundo”, a liberdade de imprensa estava novamente democrática. Outros modelos de denúncias e questionamentos do antigo regime, seriam a de cunho social, política e econômica que foi apresentado com frequência a partir do carnaval de 1986. A apresentação dessas temáticas marcava finalmente a liberdade das amarras da censura da ditadura militar. No mesmo ano, a Império Serrano trouxe para avenida o enredo “Eu quero” que evidencia bem esses fatos. Império Serrano 1986 Enredo: Eu quero Compositor: Aluisio Machado, Luiz Carlos do Cavaco e Jorge Nóbrega (Quero, quero, quero sim) Quero que meu amanhã, meu amanhã Seja um hoje bem melhor, bem melhor (...) Quero nosso povo bem nutrido O país desenvolvido 10


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Quero paz e moradia Chega de ganhar tão pouco Chega de sufoco e de covardia (...) Cessou a tempestade É tempo de bonança Dona liberdade Chegou junto com a esperança (vem, meu bem)

No primeiro trecho “Quero, quero, quero sim/Quero que meu amanhã, meu amanhã/Seja um hoje bem melhor, bem melhor”, identifica-se toda a projeção no amanhã, isto é, a esperança de um futuro melhor, que o povo esteja “bem nutrido/O país desenvolvido/Quero paz e moradia”. Também percebe-se a denúncia de tempos de repreensão e agressões físicas, como “Chega de sufoco e de covardia”. Com o fim do regime, no samba é usada a metáfora “cessou a tempestade”, agora “é tempo de bonança”, e com isso vem acompanhada de uma projeção de posterioridade mais democrática e livre. Fatores econômicos também estão presentes neste fragmento, “chega de ganhar tão pouco”, acusando a “corrosão salarial, a crescente inflação, par de todas as dificuldades, levaram às ruas uma quantidade maior de insatisfeitos” (AQUINO; DIAS, 2009, p. 138). Além dessas malsinações, a Caprichosos de Pilares em 1987 traz o enredo “Ajoelhou tem que rezar”, trazendo variados desejos da sociedade perante o processo da construção da nova constituição brasileira que viria ser promulgada no ano seguinte. Caprichosos de Pilares 1987 Enredo: Ajoelhou tem que rezar Compositor: Evandro Boia, Naldo do Cavaco e Toninho 70 Estou cansado de ser enganado Papo furado é demagogia Não vão encher (o que?) A minha barriga vazia Espero da constituinte? Em minha mesa muito pão Uma poupança cheia de cruzados E um Carnaval com muita paz no coração. (...) Vamos meu povo Democracia é participar Vote, cante, grite É tempo de mudar Quem vive de promeça é santo E eu não sou santo, meu senhor 11


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Como pode ser visualizado, a composição do samba-enredo está pautada na esperança que a constituinte, que estava sendo elaborada no período, pudesse trazer fartura para a população. O excerto que expressa bem isso, é quando o compositor estaria respondendo a questão “espero da constituinte?”, como resposta “Em minha mesa muito pão/Uma poupança cheia de cruzados”. A questão financeira é bem presente nos sambas enredos do período da redemocratização, pois o regime autoritário de 1964 deixou como herança uma enorme inflação, e para conter tal situação criou-se o plano cruzado, no qual a moeda brasileira deixaria de ser cruzeiro e passaria a ser chamada de cruzado. Toda via, vale ressaltar, que mesmo com esse novo plano, “o desemprego e o desgaste salarial continuaram a infernizar a vida da maioria dos assalariados, em particular aqueles de baixa renda”(AQUINO; DIAS, 2009, p, 141). Além disso, o compositor faz um chamado e uma cobrança para a população, com o regime agora democrático, a população deveria participar, votar, cantar, gritar, inserindo-se nesse novo meio político de mudanças. Em 1990, com a constituição já promulgada e garantido o direito de voto para a população, a Unidos do Cabuçu traz o enredo “Será que votei certo para presidente?”, com alguns trechos destacados no quadro abaixo: Unidos do Cabuçu 1990 Enredo: Será que votei certo para presidente? Compositor: Afoncinho, João Anastácio, Walter da Ladeira e Carlinhos do Grajaú O sol da liberdade No horizonte enfim raiou Com rara felicidade O povo livre votou Vejam só A ironia do destino está presente Vejam só Parece mentira eu votei para presidente (...) Uma luz uma esperança Firme em cada alvorecer Eu votei, se votei certo só mesmo o tempo dirá (...) Senhor presidente, pra essa miséria terminar Faça seu governo capaz Dê melhor vida, amor e paz O povão espera assim

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Como visto, o título do enredo faz uma provocação aos foliões com uma pergunta, já que era a primeira vez, desde 1964, que a população exercia novamente o direito de voto. No Final de 1989, ocorreu a eleição para presidente, e que teve como vencedor o carioca Fernando Collor de Mello, que assumira o cargo em março do ano seguinte. Grandes expectativas marcavam esse governo, como podemos perceber nos fragmentos acima “senhor presidente, pra essa miséria terminar/faça um governo capaz/dê melhor vida, amor e paz/o povão assim espera”. Em três passagens distintas, evidenciam o exercício do ato de votar, “o povo livre votou (...) vejam só, parece mentira eu votei para presidente (...) Eu votei, se votei certo só mesmo o tempo dirá”.

Conclusão: As escolas de samba e seus enredos podem ser considerados uma espécie de essência do carnaval e, por isso, não devem ser relegados aos interesses dos historiadores. Por esse motivo, optou-se por construir uma análise historiográfica, a partir do uso de sambas-enredo como fonte, fugindo da perspectiva tradicionalista. Ainda que os questionamentos fossem feitos e as respostas encontradas, existem lacunas historiográficas que ainda precisam ser preenchidas. Tendo em vista isso, alguns dos resultados alcançados foram às formas narrativas de representação, como uma parcela da população do período via, sentia e compreendia o momento político em que viviam, e que puderam ser encontradas nas produções musicais do período. Algumas das lacunas encontradas e que ficam para que esse tema continue sendo pensado são: Quem eram os compositores dos samba-enredo? Quem eram os foliões? Quais as motivações para a produção de sambas elogiosos ao regime ditatorial civilmilitar? Os questionamentos ficam expostos nas perguntas do parágrafo acima, assim como ao longo da narrativa diversas hipóteses são levantadas. As respostas não são concretas para muitas questões justamente pela escassez de estudos acadêmicos sobre a temática, mesmo que se tenha levantado conjecturas a partir das produções analisadas. A falta de fontes sobre o período também dificulta o processo de construção de uma narrativa mais completa, já que durante a ditadura civil-militar muitos arquivos, que poderiam muito bem ser explorados em diversas pesquisas acadêmicas, foram destruídos.

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Por fim, o carnaval, assim como diversas manifestações, é visto como um componente marcante e característico do brasileiro. Mesmo não contando com a participação efetiva da população, o evento traz consigo uma série de elementos que são importantes de serem levados em conta, como por exemplo a participação popular e até mesmo a composição dos sambas-enredo. Partindo para uma análise do carnaval e de suas ramificações, e utilizando-se dos mesmos como fonte, é possível se chegar a inúmeras conclusões e hipóteses a respeito do tema ainda pouco explorado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AQUINO, Rubim Santos L. de; DIAS, Luiz Sérgio. O Samba-Enredo Visita a História do Brasil - O samba-de-Enredo e os Movimentos sociais. Rio de Janeiro: Editora Ciências Modernas Ltda, 2009. CHARTIER. Roger. O Mundo como representação. 1991. Disponível em: file:///C:/Users/datashow/Downloads/8601-11250-1-PB.pdf.

Acessado

em

02

de

outubro de 2015. CRUZ, Tamara Paolo dos Santos. As escolas de samba sob vigilância e censura na ditadura

militar:

memórias

e

esquecimento.

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VI Semana Acadêmica de História - Visões de Mundo: história, representações e narrativas De 06 a 09 de outubro de 2015

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