UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS UNISINOS UNIDADE ACADÊMICA DE GRADUAÇÃO CURSO DE HISTÓRIA LICENCIATURA
RAMÃO EDONIL DAUINHEIMER DE CARVALHO
A HISTÓRIA DO CARNAVAL DE SÃO LEOPOLDO ATRAVÉS DA IMAGEM: UM RESGATE HISTÓRICO DO CARNAVAL LEOPOLDENSE
São Leopoldo 2010
RAMÃO EDONIL DAUINHEIMER DE CARVALHO
A HISTÓRIA DO CARNAVAL DE SÃO LEOPOLDO ATRAVÉS DA IMAGEM: UM RESGATE HISTÓRICO DO CARNAVAL LEOPOLDENSE
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para a obtenção do título de Licenciado em História, pelo Curso de História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos.
Orientadora: Profª Drª Eloisa Helena Capovilla da Luz Ramos
São Leopoldo 2010
Dedico este trabalho a Deus, Todo Poderoso... A Mãe e Rainha dos Céus, Nossa Senhora... Ao meu Santo Padre Cícero... Ao meu São Jorge Guerreiro... Ao meu querido Padre Réus... Ao Pai Ogum... ...
AGRADECIMENTOS
Agradecimento especial a Deus, por me conceder nascer de minha mãe, pessoa tão essencial em minha vida que sempre me deu incentivo e forças para ser uma pessoa do bem, de caráter e antes de tudo, ser feliz; Agradeço a paciência, a ajuda, as idéias e a orientação de minha orientadora, a ilustríssima professora e doutora Eloísa Helena Capovilla da Luz Ramos, sempre disposta a ouvir e a acrescentar mais conhecimento em nossas atividades de pesquisa. Aos meus professores, destaco aqui a minha professora do ensino fundamental, por ter despertado minha curiosidade em relação aos fatos históricos, e por fim aos meus mestres da graduação: Professora Doutora Eliane Cristina Deckmann Fleck, Professora Doutora Ana Silvia Volpi Scott, Professora Doutora Maria Cristina Bohn Martins, Marília Fetter, Professora Doutora Marluza Harres, e o Professor Doutor José Alberto Baldissera. O sempre disposto a ajudar a excelente pessoa, além de grande profissional o professor e Doutor Marcos Antonio Witt do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo; Arci Rodrigues, Germano Oscar Moehlecke, e Joni Homem, pela presteza e pela paciência em ceder suas experiências e seus arquivos pessoais; Agradeço também às minhas colegas da graduação em especial a duas amigas que fiz para vida, que conheci durante o curso: Silviane Assunção Costa e Fernanda Girotto; Ao meu especialíssimo Paulo Quevedo, por todas as brigas e por todas as recusas em sair à noite; pela paciência que teve, e, pela falta dela, enquanto fazia este trabalho... Aos meus irmãos e irmãs, cunhadas e cunhados, sobrinhas e sobrinhos, afilhadas e afilhados – que se nomear e enumerar serão muitos – mas que sempre estiveram ao meu lado e sempre me incentivaram em seguir em frente nos meus propósitos de vida.
...toda imagem conta uma história... PETER BURKE
... se você quiser entender[...] a história[...] você deve observar cuidadosamente os retratos. Nas fisionomias das pessoas sempre existe alguma coisa sobre a história de suas épocas para ser lidas [...] se soubermos como lê las... GIOVANNI MORELLI
RESUMO
Este trabalho de pesquisa tem o objetivo e a proposta de iniciar estudos relativos ao carnaval da cidade de São Leopoldo. Após a realização de uma revisão bibliográfica, constatamos a falta total de registros e trabalhos em relação ao tema em São Leopoldo, e por este motivo, lançamos a proposta de iniciar o registro e o resgate do que foi esta manifestação cultural na cidade. Visamos encontrar a origem do carnaval leopoldense, utilizando nos de fontes de imagens fotográficas e do cotejamento de outras fontes a fim de dar conta de um amplo resgate histórico. O objetivo deste trabalho é o de chegar o mais próximo possível desta manifestação social na cidade e de traçar um panorama em relação a história do carnaval de São Leopoldo, desde sua gênese, até alcançar o formato que conhecemos hoje. Queremos também verificar quem eram e quem são os seus protagonistas, os lugares de sociabilidade e convivência, o que mudou e o que permanece, através de análise qualitativa dos dados selecionados. Esta pesquisa será realizada principalmente através de imagens e relatos orais, bem como a utilização de recortes de notícias da imprensa local.
Palavras chave: Carnaval. História. São Leopoldo. Escolas de Samba.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Duelo entre Entrudo e Carnaval ................................................................ 34 Figura 2: Aviso da Sociedade Orpheu. ..................................................................... 36 Figura 3: Recortes do Jornal O Regimen em 1909. ................................................. 38 Figura 4: Recortes do Jornal O Regimen – Os Bailes. ............................................. 40 Figura 5: O Corso noturno. ....................................................................................... 55 Figura 6: A música começa a ser percebida............................................................. 56 Figura 7: Carnaval de 1940 ...................................................................................... 59 Figura 8: Notícias do Jornal Correio de São Leopoldo ............................................. 61 Figura 9: Jornal Correio de São Leopoldo ................................................................ 62 Figura 10: Os Dragões tornam se Escola de Samba. .............................................. 78 Figura 11: Cancelamento do Carnaval de Rua em 1974.......................................... 90 Figura 12: Matéria sobre os problemas do Carnaval de São Leopoldo. ................... 91 Figura 13: Detalhe da capa Jornal VS ...................................................................... 91 Figura 14: Jornais relatando o cancelamento dos desfiles ....................................... 92 Figura 15: O desabafo do Rei Momo........................................................................ 93 Figura 16: A fundação da Associação Carnavalesca ............................................... 94 Figura 17: Convite para posse da direção da Associação. ....................................... 95
LISTA DE FOTOGRAFIAS
Fotografia 1: Primeira fotografia do carnaval de São Leopoldo. .............................. 37 Fotografia 2: 1898 Detalhe da primeira rainha do Carnaval .................................. 37 Fotografia 3: 1914 Folder da Mannergesng Orpheus ............................................ 39 Fotografia 4: 1919 Folder da Sociedade Orpheu ................................................... 39 Fotografia 5: Em 1922 Bailes da Elite leopoldense. .............................................. 41 Fotografia 6: 1928 – Rainha do Recreio Juvenil Vera Bieri ..................................... 42 Fotografia 7: 1930 A Rainha e seu séquito. ........................................................... 44 Fotografia 8: 1930 – O grande baile de carnaval. .................................................... 45 Fotografia 9: Anos 1950 bailes após a IIª Guerra Mundial. ...................................... 46 Fotografia 10: 1909 Fotografia das charretes antes do automóvel. ....................... 47 Fotografia 11: Imagem do Corso – carros enfeitados. ............................................. 48 Fotografia 12: Decoração dos automóveis para o corso .......................................... 48 Fotografia 13: Corso e blocos carnavalescos – integração. .................................... 49 Fotografia 14: Carnaval de 1926 – Grande desfile do Corso ................................... 49 Fotografia 15: O corso ocorre na Avenida Independência ....................................... 50 Fotografia 16: Carro preparado para o Corso. ......................................................... 50 Fotografia 17: 1928 Alegoria para a Rainha Vera Bieri ......................................... 51 Fotografia 18: Desfile do corso com alegorias em 1929 .......................................... 52 Fotografia 19: Corso de alegorias – Elite e população estão segregados ............... 52 Fotografia 20: Desfile de rua em 1930 ..................................................................... 53 Fotografia 21: 1930 – corso com animais prosseguem ........................................... 53 Fotografia 22: 1930 corso sob a luz do sol ............................................................ 54 Fotografia 23: O sentido dos desfiles do corso ........................................................ 54
Fotografia 24: O Bloco Os Vagalumes. .................................................................... 57 Fotografia 25: O Bloco Os Silenciosos .................................................................... 58 Fotografia 26: Um bloco que marcou sua época ..................................................... 60 Fotografia 27: O Bloco carnavalesco Os Piratas. .................................................... 63 Fotografia 28: O bloco carnavalesco Os Gravatinhas.............................................. 63 Fotografia 29: Foto do bloco carnavalesco Plim Plom Plum .................................... 64 Fotografia 30: O Bloco de sátira Os Dez Errados do Amor ..................................... 64 Fotografia 31: Bloco Confusão em 1941. ................................................................. 65 Fotografia 32: Bloco O Primeiro Rei da Folia de 1942. ............................................ 65 Fotografia 33: Em 1951 O bloco Marujos .............................................................. 72 Fotografia 34: O bloco Os Tripulantes de 1953. ...................................................... 72 Fotografia 35: O estandarte de 1958 do Bloco Os Cobras ...................................... 74 Fotografia 36: O Cantor Caubi Peixoto, contratado em 1971 .................................. 76 Fotografia 37: Acadêmicos do Rio Branco ............................................................... 82 Fotografia 38: Desfile Império do Sol em São Leopoldo .......................................... 83 Fotografia 39: Império do Sol no desfile em Porto Alegre ........................................ 83 Fotografia 40: Escola de samba Imperatriz Leopoldense ........................................ 84 Fotografia 41: Escola de Samba Imperatriz Leopoldense ....................................... 84 Fotografia 42: Escola de Samba União da Vila........................................................ 85 Fotografia 43: A Escola de Samba Imperadores do Sul .......................................... 86 Fotografia 44: Academia de Samba da Zona Norte – Estandarte............................ 87 Fotografia 45: Escola de Samba Academia de Samba ............................................ 87 Fotografia 46: Bandeira da Estação Primeira de São Léo ....................................... 88 Fotografia 47: Ensaio da Escola Estação Primeira de São Léo ............................... 88
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1: O Crescimento populacional de São Leopoldo. ........................................ 80
LISTA DE QUADROS
Quadro 1: As fases do carnaval de São Leopoldo. ................................................. 104
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 12 2 O TRABALHO COM IMAGENS ............................................................................ 22 3 O CARNAVAL ....................................................................................................... 27 4 IMAGENS DO CARNAVAL DE SÃO LEOPOLDO ............................................... 37 4.1 OS PRIMEIROS ANOS DO SÉCULO XX ........................................................... 38 4.2 OS GRANDES BAILES ....................................................................................... 41 4.3 O CARNAVAL NA RUA ....................................................................................... 47 4.4 OS BLOCOS E CORDÕES CARNAVALESCOS ................................................ 57 5 OS ANOS 50 .......................................................................................................... 68 5.1 OS COBRAS DO SAMBA ................................................................................... 71 5.2 OS DRAGÕES .................................................................................................... 77 6 OS ANOS 80 .......................................................................................................... 79 6.1 AS ENTIDADES DO CARNAVAL NA ATUALIDADE .......................................... 82 6.2 ASSOCIAÇÃO DAS ENTIDADES CARNAVALESCAS ..................................... 90 7 ENSAIO GERAL: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES ............................................... 96 CONCLUSÃO ......................................................................................................... 105 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 109
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1 INTRODUÇÃO
O intuito deste trabalho de pesquisa é o resgate de uma História fadada ao esquecimento! Esta afirmativa é um tanto quanto forte, mas comprovável. Refiro me à história do carnaval1 de São Leopoldo2. Esta festa tão importante que ocorre na cidade desde meados do século XIX e que não possui nenhum registro. Levando em conta toda a sua importância, acredito ser tarefa de um historiador, interessado e envolvido com esta manifestação artística, cultural, antropológica e também, porque não dizer, histórica, que me apresento diante desta constatação – da falta de um trabalho específico ao carnaval de São Leopoldo – e ponho me a este desafio: iniciar o registro e o resgate do que foi e de como iniciou esta manifestação cultural na cidade.
Este trabalho tem a pretensão de investigar a origem, e lançar uma análise na gênese do carnaval leopoldense, e buscar responder, porque esta festa tão importante3 para a cidade não possui nenhum trabalho de pesquisa, nenhuma investigação acadêmica ou alguma obra de referência?
Acredito ser um tanto quanto pretensioso este trabalho, uma vez que se trata de um assunto vasto, e de um fator temporal amplo, e que para dar conta deste assunto, em toda a sua amplitude, somente com um trabalho de fôlego de uma equipe, pois este assunto transcende as raias da interdisciplinaridade, e que, pode inclusive ser objeto da mais profunda análise de nossa sociedade. Estudar o
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Carnaval, segundo o dicionário Gama Kury, 2001, é um termo associado a festejos populares, com a duração de três dias, que precedem a Quarta Feira de Cinzas; folia. No sentido figurado significa barulho, confusão, desordem, trapalhada. Palavra que deriva do italiano carnevale, no folclore popular, que pode ser compreendido a um período de três dias de folia, durante o qual, com o afrouxamento das normas morais, se dá o irromper de recalques, por meio de danças, cantos, trejeitos, indumentária diversa da habitual. No Brasil aparecem após a guerra do Paraguai (1865 1870), em algumas traduções como folguedo, orgia e brincadeira de mascaradas. Ver informações ao termo em Ferreira (2005), Moraes (1987) e Araújo (2003). Cidade da região metropolitana de Porto Alegre, que tem origem no Brasil Império, por volta de 1788 a 1824, chamada de Real Feitoria do Linho Cânhamo, e em 1824 com o projeto da coroa portuguesa, é fundada a vila com o alojamento de imigrantes alemães, período que estes imigrantes chegam até por volta de 1846, quando se torna município independente de Porto Alegre. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2010). Elenco com o grau de importância, para a participação do público anual que gira em torno de 20 mil pessoas por desfiles e eventos carnavalescos, em uma cidade que tem uma população de 200.000 mil habitantes (SOBÉ, 2010).
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carnaval é uma tarefa complexa, uma vez que há diferentes possibilidades de análise, onde poderemos tratar de costumes e modificações sociais, estudar o cotidiano, a história social da cidade, os eventos culturais, os aspectos antropológicos, enfim, uma gama de análises das mais diversas possíveis, conforme o gosto, a direção e o enfoque ao qual a pesquisa direcionar e o pesquisador se propuser.
É a partir desta constatação, que me deparo com outra problemática: se este viés, o carnaval, é tão vasto e rico de informações, por que não há nenhum trabalho relativo ao carnaval de São Leopoldo? Busco respostas, uma vez que estas atividades carnavalescas, como veremos a seguir, foram importantes para compreender a vida social e o envolvimento da população leopoldense nas festividades carnavalescas.
Pretendo aqui, problematizar a importância desta manifestação social, dando conta de um registro analítico através da imagem. Transladar estes materiais “esquecidos” e também trazer à luz da discussão as origens do carnaval de São Leopoldo, um prólogo, com o início de uma investigação acerca do assunto, dar um “pontapé” inicial, e, pela complexidade do tema, não esgotar o assunto, pois a “problematização” é a transformação de uma necessidade humana em problema, que segundo Popper (1975, p. 27):
[...] toda discussão científica deve surgir com base em um problema ao qual se deve oferecer uma solução provisória a que se deve criticar, de modo a eliminar o erro [...] é uma questão não resolvida, é algo para o qual se vai 4 buscar resposta, via pesquisa [...]
A busca por um passado, que dê conta da história da “nossa gente”, de nossa comunidade é algo que me inspira e me impulsiona! A busca por explicações, de investigar e de buscar informações acerca de um tema, seja ele já estudado ou pesquisado, se já possui fatos conhecidos, e muitos outros fatos e eventos que
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É a premissa do trabalho científico, problematizar, e a partir desta etapa elaborar saídas e soluções para este problema.
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estão ainda desconhecidos, verificar o que tem de novo, o que nos revela e o que nos esconde, enfim, somente a pesquisa pode nos fornecer tantas informações.
Acredito que este espírito investigativo, o qual fui contemplando durante a graduação, e também esta vontade de responder perguntas, estes anseios e esta sensação de não estar satisfeito com as respostas prontas, características de um historiador, são exemplo das tantas lições que nos são transmitidas ao longo do curso. Esta constante tarefa de perguntar, de não se sentir satisfeito com as respostas prontas e ir em busca de novas perguntas e de novos assuntos, é desta motivação em que acredito estar impregnado e que está o cerne de nossa utilidade – dentre tantas outras – para com nossos contemporâneos e para a posteridade: a tarefa de investigar, de contar e registrar os fatos ocorridos.
A esta busca constante por explicações, acredito que é o que nos aproxima deste passado, para dar luz em nosso presente, e explicar as “nossas coisas”, os acontecimentos de nossa cidade, aqui tão perto, na comunidade leopoldense. E com certo incômodo destas tantas dúvidas sobre o assunto, que me pus a pesquisar, sempre munido de dúvidas e muita curiosidade, aliado às teorias do curso de graduação5, é que me coloco a investigar e levantar dados de determinado assunto, para após analisá lo, como é o caso deste trabalho: a aproximação, o resgate de fontes para dar conta e aproximar ao máximo das origens e da história do carnaval da cidade de São Leopoldo.
Verifico a falta de um registro específico, fazendo jus ao tamanho, importância e magnificência que compete ao carnaval de São Leopoldo. Esta é uma das motivações principais em querer explicar, responder, pesquisar e contar a história das pessoas que fizeram e que fazem esta importante e complexa estrutura, chamada carnaval, que é parte da história nacional. E como explicar esta ausência de dados registrados? Para embasar minha constatação, Hiram Araujo (2003, p. 23) explica que:
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Graduação do curso de História, embasado aos Programas de Aprendizagem, os quais nos desenvolvem para a licenciatura, a docência, mas com constante ênfase para a pesquisa.
15 [...] as maiores dificuldades que os pesquisadores encontram ao estudar o Carnaval são a carência de livros especializados e a quase inexistência de documentos e registros escritos. Em conseqüência, o Carnaval se recente de um estudo mais profundo [...]
Comprometido com os desfiles de carnaval6, e pela ligação que tenho com a História recente deste evento e o constante contato com os protagonistas desta manifestação que aos olhos do mundo identificam culturalmente o brasileiro – sinto como uma obrigação e uma “missão a cumprir”, que é a de resgatar a origem e a história do carnaval da cidade de São Leopoldo.
Buscar resolver este entrave, que me instiga, onde se, de um lado é compreensível que o carnaval é uma manifestação de extrema importância para a sociedade, do outro, procuro buscar explicações para a falta de trabalhos que elucidem e dêem conta de registrar e comemorar esta magnitude que é o carnaval desta cidade.
Por estas constatações que acredito ser de extrema importância que iniciemos um amplo e interminável registro do Carnaval de São Leopoldo, para falar de nossa gente, do nosso povo, conhecer nossa comunidade, saber mais de nossa cidade, e quem sabe, de nossa região, uma vez que o carnaval capilé7 é historicamente regional.
As motivações que me levam a desenvolver esta pesquisa e buscar resolver as problemáticas em relação ao tema é ponto alto da minha inspiração: conhecer e aproximar se as origens do carnaval de São Leopoldo. Para responder aos meus anseios de historiador, ás vésperas da colação do grau, onde ao longo do curso
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Participo do carnaval de São Leopoldo desde 1992. No qual desenvolvi a competência de Mestre Sala, e realizei desde 2001, oficinas de carnaval voltadas ao ensino da dança carnavalesca. Capilé é originado do gentílico e do folclórico local, que para quem nasce em São Leopoldo é “leopoldense”, porém também é chamado de “capilé”. Originalmente esse termo era utilizado de forma pejorativa por moradores de Novo Hamburgo, cidade vizinha a São Leopoldo, isso porque as duas cidades mantêm uma rivalidade desde a época em que as duas áreas urbanas pertenciam a um só município, que tinha a sede em São Leopoldo. Capilé era usado para identificar um xarope ou refresco, sendo que São Leopoldo sediou uma das primeiras fábricas gaúchas do refrigerante que levava esse nome, esse fato motivou à associação ao nome. “Hoje a rivalidade com Novo Hamburgo é apenas folclórica e os nativos de São Leopoldo abraçam a palavra ‘capilé’, palavra essa que faz parte da história do município de São Leopoldo” (informação verbal). Depoimento coletado de Germano Moehlecke, no dia 01 de agosto de 2010.
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aprendi que devemos estar muito apaixonados pelo trabalho a ser realizado, que realmente deveremos estar ligados a este assunto, pois o trabalho na busca das fontes é árduo e demanda de tempo, paciência, dedicação, disciplina e também , uma das lições é de que não deveremos desanimar nas muitas barreiras a vencer para concluir o trabalho.
O que se é pretendido com a realização deste trabalho de pesquisa é o de iniciar estudos em relação ás origens e o formato do carnaval leopoldense. Pretendo com este trabalho chegar ao ponto original desta manifestação social na cidade e dali traçar um panorama em relação à história do carnaval de São Leopoldo, suas origens e seus protagonistas.
Não pretendo aqui apresentar a história completa do carnaval e de suas origens “totais”, mas deixo nesta pesquisa, caminhos iniciados para auxiliar à explicações e também a trabalhos mais bem estruturados em relação ao carnaval. Talvez inspirar me e também inspirar outros trabalhos e a buscar responder e enriquecer conhecimentos em relação a este tema, como por exemplo, de como este carnaval se estruturou? De como chegou ao Brasil? Reconheço que resgatar a história do carnaval de São Leopoldo é algo um tanto quanto pretensioso, mas o que me inspira e me incentiva é devido ás muitas dúvidas que tenho quando tento buscar informações do passado de nossa cidade e dos precursores da festa burlesca8.
O que me empolga na busca deste passado é que, munido pela motivação no estudo da história, e também por verificar a falta de um trabalho de pesquisa específico ao carnaval e da trajetória desta festividade, visto que para outras cidades do Brasil, o carnaval já possui vasta discussão acadêmica, com obras bem fundamentadas e com vasta pesquisa. Levando em conta a brasilidade9, definição tão complexa desta nação, quanto é a definição do termo carnaval. Reforço que, devido a esta falta de uma compilação das informações carnavalescas de nossa 8
Burlesco é um termo associado aos ritos cômicos, alegres, que provoca o riso, grotesco, ridículo, caricato. Fonte dicionário Gama Kury, 2001. 9 O termo brasilidade pode ser compreendido como característica, referente ou peculiar aos costumes do brasileiro, ou seja, é a síntese da forma de se manifestar dos brasileiros, que neste caso, ao meu entender, é o carnaval a maior manifestação cultural do Brasil, e um elemento significativo e que “representa” aos olhos do mundo a imagem cultural dos brasileiros.
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cidade – a exemplo de outras cidades do Brasil – é que me ponho lançar o início de uma pesquisa para somar e associar informações sobre o carnaval leopoldense.
Esta deficiência e de certa carência de informações é que me instigaram a buscar informações sobre o carnaval citadino, uma vez que participo deste magnífico evento social, na condição de carnavalesco, de um participante apaixonado pela estrutura atual, e admirador das históricas composições e da evolução do carnaval da Europa10, e do Brasil. E também, como sou um ser pensante nas questões de estrutura11 e da trajetória desta festividade, e um ser questionador; punha me a perguntar: será que o carnaval de São Leopoldo sempre foi assim? Será que se modificou como nas demais cidades do país?
A cada vez que fazia perguntas, nada encontrava de concreto sobre os eventos carnavalescos da cidade, em relação à nossa história local. Estas dúvidas me frustravam, queria saber quais foram os agentes que construíram e que aqui lançaram as primeiras matrizes do carnaval, e assim como em outras partes do estado e do país, gostaria de saber como ocorreu e como foi a ascensão dos clubes, dos blocos, dos grandes bailes, as grandes sociedades? Queria saber mais das “gentes” e dos agentes que fizeram e fazem esta festa e por que não dizer esta manifestação artística e cultural da nossa cidade.
As referências que existem relativas ao carnaval local, na maior parte das vezes, são oriundas de relatos, de se “ouvir falar” dos adeptos e dos participantes há mais tempo, e que por vezes perdem se com o tempo, devido à falta de uma compilação ou de um registro12. O que se tem de informações são de histórias dos 10
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Conforme pesquisa e teóricos mais adiante explorados, pode se verificar que o carnaval brasileiro tem sua origem nos carnavais antigos da Europa. A esta referência, exponho alguns trabalhos que desenvolvi durante a trajetória carnavalesca chamada de temista, que é realizada com base em pesquisas bibliográficas para elaborar temas de enredo, que é uma pesquisa que se torna a referência para todos os trabalhos da escola ou do bloco carnavalesco. É esta pesquisa a qual se baseiam os figurinos, os desfiles temáticos e a música enredo. Desenvolvi duas destas pesquisas e tive a co participação em outras três: no ano de 2002(co participação), com a história sobre o vinho, suas origens e mitos. Em 2003 a história resumo da cidade de Barra do Ribeiro(co participação), em 2004, sobre a cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul no século XIX(co participação), em 2005 a história e os Cinqüenta Anos da Feira do Livro de Porto Alegre e em 2009 a história dos Deficientes Físicos desde a antiguidade até os dias atuais, como tema Ser Diferente é Ser Igual!. Encontramos durante a pesquisa um capítulo do livro de (MOEHLECKE, 1982) e fragmentos Moehlecke (1997), dando enfoque ao Clube de Recreio Juvenil e seus carnavais em São Leopoldo.
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acontecimentos carnavalescos da cidade e de pessoas que participam ou participaram das folias, dos bailes, dos concursos das rainhas e das soberanas do carnaval, dos que assistiram aos grandes desfiles, enfim, necessário é reunir estas informações.
Uma pergunta sempre me ocorria: por que não há nada escrito sobre o carnaval de nossa cidade? Por que ninguém tentou reunir estas informações, estes registros desta social festa que é o carnaval? Por que há um silêncio em torno de uma manifestação tão rica em detalhamento?
Seria porque nos dias de hoje, assim como nos últimos anos, o carnaval da cidade é ligado às camadas mais populares da cidade? Ou ainda, seria porque o carnaval é hoje associado à comunidade de descendentes de africanos em uma cidade de colonização alemã? Percebe se que, de certa forma não é um problema apenas de São Leopoldo, como verificamos em Krawczyk, Germano e Possamai (1992, p. 7) relatando o silêncio acerca do carnaval de Porto Alegre:
[...] pouco se fala do carnaval em Porto Alegre. Se perguntarmos o porquê, uma das respostas, certamente, seria a forte herança europeizante do Rio Grande do Sul. Poderíamos avançar um pouco e descobrir, no silêncio sobre o carnaval, o silêncio, na verdade, sobre determinado grupo social nele preponderante: os negros. Calar se é, portanto, negar a existência de uma forte herança cultural negra [...] o silêncio é uma das formas de um discurso que, fechado em um europocentrismo arcaico, ainda separa culturas adiantadas e não adiantadas, relegando a cultura popular à simples alienação, completando o equívoco, desconhece a própria ascendência européia do Carnaval [...].
Não quero polemizar o trabalho, nem mesmo adentrar em uma esfera da discussão étnica, mas confesso que estas dúvidas, ainda sem solução visitam minha mente, que anseia por respostas. O fato é que o carnaval de São Leopoldo não despertou ainda um trabalho que justifique o tamanho de sua abrangência social, por mais simples que seja, nenhum trabalho analisou até hoje este tema!
Ainda que pretensa; quero vencer esta tarefa e dar conta e uma aproximação da história desta ampla manifestação social, que remonta e remetem a muitas “outras histórias”, mas é a partir deste trabalho, que inicio uma busca e um “começo”
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na tentativa de resolver e a responder as minhas perguntas que deve ser a de muitos outros apreciadores do carnaval e de leopoldenses orgulhosos pela história desta importante cidade gaúcha.
Por este motivo, vou à busca de informações, em que estão guardadas e, por hora; inacessíveis e que aguardam o início de uma pesquisa para trazer à luz da discussão acadêmica o carnaval de São Leopoldo. É exatamente aí que sinto uma utilidade do meu trabalho para a comunidade local, de trazer esta iniciativa, e se Deus permitir, ampliá la ainda mais. Compreendo que é de extrema importância cruzar os materiais levantados com outras fontes, uma vez que trabalharei com imagens fotográficas, e desta forma contextualizar as informações no tempo e espaço, usar de aporte teórico para dar maior crédito ao trabalho, e fazer uma busca através de fontes primárias – imagens, de relatos orais, acervo de documentos da imprensa e cruzá las com outros materiais, e de um embasamento bibliográfico além de cotejar com trabalhos já realizados, para dar crédito aos relatos orais e notícias da imprensa, que for coletando, seguindo a “orientação” de Carla (RODEGHERO, 2008):
[...] podem ser vistos também como porta de entrada em temas que merecem pesquisa histórica, a qual pode ser potencializada pelo cruzamento com outras fontes [...] A forma dos historiadores lidarem com este material é ainda uma questão em aberto e um desafio. O mesmo se pode dizer em relação ao uso de fontes orais e à constituição de acervos de entrevistas [...]
Para dar uma creditação à pesquisa, associo às fontes primárias, um aporte teórico firmado em consagrados pensadores, para dar conta das questões culturais e de representações, utilizarei a ajuda do teórico Roger Chartier (1990)13, o qual tive contato com textos ao longo do curso. Paras as questões de sociabilidade utilizarei Michel Pollak (1992), uma vez que no ambiente carnavalesco, as pessoas estabelecem socialmente, muitas possibilidades de convivência e de vínculos diversos, de relações e interatividade, além de trocas sociais, experiências e aos
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Roger Chartier, intelectual dedicado a pesquisas relativas às sociabilidades intelectuais; na linha da política, e também da cultura popular.
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significados diversos relativos às práticas e cerimoniais que envolvem o ritual do carnaval14.
Para as análises de imagens e fotografias, utilizarei as experiências e algumas aproximações que tive durante a graduação como: Peter Burke (2004), Jacques Le Goff (1990), Ana Mauad (1996), e Maria Elisa Linhares Borges (2008) e para dar conta da contextualização da sociedade leopoldense, utilizarei a ajuda teórica de Eloisa Helena Capovilla da Luz Ramos (2000) com importante trabalho em relação aos clubes e a sociabilidade local, que pode esclarecer muitos caminhos na busca da pesquisa, como os locais da sociabilidade e das festividades da cidade de são Leopoldo. Há também que destacar outros historiadores que conhecem a cidade de São Leopoldo: Telmo Lauro Müller (2005) e Germano Oscar Moehlecke (1982), que possuem trabalhos sobre a sociedade local, bem como profundos conhecedores dos lugares desta cidade. Para dar conta da historia do carnaval, entro em contato com uma vasta bibliografia do “mundo do samba”, principalmente do sudeste brasileiro, ou seja, São Paulo e Rio de Janeiro. Verifico também as obras de Iris Germano (1992) e Athos Damasceno (1970), aos quais, utilizarei os formatos do carnaval de Porto Alegre, numa forma comparativa
uma vez que não há registros palpáveis do carnaval de
São Leopoldo em suas diferenças e semelhanças, ao caso de São Leopoldo, como demonstra Íris Germano (2008, p. 107), sobre o carnaval de Porto Alegre, demonstrando que:
[...] o carnaval de rua é, indiscutivelmente, uma manifestação cultural associada aos segmentos negros da população, e sua história está relacionada com a trajetória desse grupo social dentro da cidade e à popularização dos festejos, acentuadamente a partir da década de 1930.
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A estas verificações sociais da leitura, sugere se, além das leituras supra referenciadas, algumas obras básicas para compreender a relação social do carnaval do Brasil.
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Espero que cumpra com meus propósitos, de alcançar as perspectivas aqui projetadas, e concluir meu Trabalho de Conclusão de Curso, que se Deus quiser, e se depender de meu esforço e de minha força de vontade, dará conta de contar a origem do carnaval de São Leopoldo.
Sabendo que a História não está pronta, e que, se não o fizer a contento, que consiga chegar próximo do que realmente ocorreu; isto não é uma justificativa ao fracasso, mas uma constatação de que não se pode dar conta da totalidade dos fatos históricos, mas manter a isenção como historiador e não cair nas tendências, anacronismos, e nunca aplicar uma visão impregnada de romantismo ás análises dos fatos, dos relatos, na avaliação dos documentos, em relação aos eventos e aos acontecimentos do passado.
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2 O TRABALHO COM IMAGENS
[...] a fotografia para ser utilizada como fonte histórica, ultrapassando seu mero aspecto ilustrativo [...] deve compor uma série extensa e homogênea no sentido de dar conta das semelhanças e diferenças próprias do conjunto 1 de imagens que se escolheu analisar [...] (MAUAD, 1996, p. 89).
Decidi trabalhar com imagens, pois é uma excelente fonte de pesquisa e servirá de instrumento para compreender os significados e os momentos em que percorreram as diversas fases do carnaval. Também porque não encontrei nenhum vestígio que desse conta da história do carnaval de São Leopoldo de uma forma ampla, onde pudesse construir mais do que um simples cronograma dos acontecimentos e de datas destes eventos. Levando em consideração que sem a presença destas imagens, e ao que elas nos dizem, seria impossível transcrever o passado social leopoldense ligado ao carnaval. Como nos esclarece Peter Burke (2004), acerca das “novas fontes” que nos auxiliam a elucidar pesquisas, onde ele nos diz que:
[...] nos últimos tempos, os historiadores têm ampliado consideravelmente seus interesses para incluir não apenas eventos políticos, tendências econômicas e estruturas sociais, mas também a história das mentalidades, a história da vida cotidiana, a história da cultura material, a história do corpo [...] não teria sido possível desenvolver pesquisa nesses campos relativamente novos se eles tivessem se limitado a fontes tradicionais, tais como documentos oficiais produzidos pelas administrações e preservados em seus arquivos. (BURKE, 2004, p.11)
Verifico que o trabalho com imagens se dá como um duplo caminho, que pode facilitar a construção do trabalho, ou ainda, torná lo possível, e também um tanto complexo. Embora este método de investigação através da imagem fotográfica, seja ainda um método “novo”, o qual ganha certo espaço na academia, mesmo que ainda possua resistências desta em relação ao seu uso – das imagens – acredito que estas fontes sejam ou possuam o mesmo peso e importância de um texto escrito, e me arrisco ir além: as imagens fotográficas são um flagrante cru de
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Ana Maria Mauad (1996) esclarece a importante função da fotografia para a pesquisa.
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um determinado evento, e cabe a quem a contempla, retirar destas imagens e fotografias as respostas que busca solucionar.
Fundamentar um trabalho, cuja fonte principal é a imagem e a fotografia é uma tarefa um tanto quanto difícil, é um desafio a vencer: tanto no campo teórico – o que se torna possível graças aos trabalhos já realizados, onde os estudiosos e detentores da técnica de interpretar imagens nos transmitem subsídios para tal, quanto na abordagem de seu contexto com o trabalho em si2. Uma tarefa a ser realizada é a de como utilizar estas imagens e elucidar um trabalho analítico, como este, que busca dar conta da origem de uma manifestação social que é o carnaval de São Leopoldo através da imagem.
O presente trabalho busca avaliar as fotografias, que foram utilizadas para registrar os momentos de sociabilidade e a partir desta análise, tanto da imagem, quanto do seu contexto, verificar as nuances; o que é explícito pela câmera, ou omitido, o que se quis registrar naquele momento, podemos acompanhar o crescimento da cidade, de analisar a sociedade através de fotografias, passando assim do particular – a imagem dos indivíduos, e de suas relações com a sociedade para com os eventos coletivos. Com esta fonte é possível analisar o comportamento da população e ainda contar de seus eventos, dos acontecimentos ocorridos na cidade, para dar conta, como já dito ás respostas a serem respondidas.
Estas múltiplas facilidades do trabalho com as imagens fotográficas são devidas ao invento, e, graças ao advento e da popularização da câmera fotográfica. Este invento possibilitou a captação e a produção das fotografias, e os registros sociais mais diversos, e que “congelam” certos acontecimentos e nos auxiliam a enxergar os eventos do passado. Verifica se que este instrumento captador, tão importante da evolução dos inventos, para o ramo das imagens, que deixam de ser
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Esclareço aqui que se avaliar as imagens, de todas as formas possíveis, cairia e uma abordagem extensa, rumo a semântica e a semiótica. Na realidade minha intenção é dar conta de um passado que quero compilar e registrar, aliado aos conceitos de avaliação da imagem pela imagem simplesmente.
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apenas pictóricas3, a câmera fotográfica marcou época, como nos esclarece Machado Júnior (2009, p. 29):
[...] A câmera fotográfica passou a constituir se numa espécie de ritual que acompanhou as transformações da vida moderna. Junto com a inovação das tecnologias trazidas com a energia elétrica, as seduções da medicina e a revolução dos transportes, entre alguns exemplos, também vieram as reformas da educação, as insurreições militares e as transgressões nos campos das artes e da literatura no Brasil. Recebeu registros fotográficos o que pôde ou o que se julgou como de significativa importância social [...] desde a virada do século XIX para o XX, a fotografia multiplicou se e tornou se um objeto ao alcance não somente de profissionais.
Encontramos também em Jacques Le Goff (1990), uma significação para o surgimento da fotografia, bem como a popularização da câmera fotográfica, que para o autor, na sua obra História e Memória, nos traz a colaboração deste instrumento e de sua importância para dar conta dos registros de memórias, como segue:
[...] entre as manifestações importantes ou significativas da memória coletiva, encontra se o aparecimento, no século XIX [...] a fotografia, que revoluciona a memória: multiplica a e democratiza a, dá lhe uma precisão e uma verdade visuais nunca antes atingidas, permitindo assim guardar a memória do tempo e da evolução cronológica (LE GOFF, 1990, p. 466).
Seguindo o raciocínio, a fotografia é popularizada e se torna um importante objeto de análise social, e é exatamente o que se pretende trabalhar, a relação da imagem com o passado e com o presente, avaliar suas intervenções sociais durante o surgimento do registro fotográfico em São Leopoldo, que acompanhou esta tendência, pois, verificamos registros de imagens, no carnaval da cidade, desde meados e final do século XIX.
Outra importante verificação é até que ponto se pode utilizar se destas imagens para revelarmos e dar conta do que realmente aconteceu? A este perigo, de verificar o que a imagem tem a nos dizer, como ela foi concebida, planejada e realizada? O que ela nos informa? O que seu fotógrafo priorizou no ato fotográfico? 3
Elemento pictórico entende se como e em relação, às imagens produzidas antes ou anterior a máquina fotográfica, referentes a todas as imagens e relativas às pinturas e aos desenhos produzidos a mão livre.
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Acredito ser uma tarefa um tanto quanto crítica que a fotografia nos incita, por ser uma imagem pronta, não se deve confiar apenas no primeiro plano, deve se ir além, conforme Burke (2004, p. 25):
[...] as tentações do realismo, mais exatamente a de tomar uma imagem pela realidade, são particularmente sedutoras no que se refere a fotografias e retratos. [...] desde o início da história da fotografia, o novo meio de comunicação foi discutido como uma forma de auxílio à história [...] a melhor forma possível de retratar nossas terras, prédios e maneiras de viver [...] o problema para os historiadores é saber se, e até que ponto, pode se confiar nessas imagens [...] ‘a câmera nunca mente’[...] permanece ainda uma tentação na nossa ‘cultura de instantâneo’, na qual tantos de nós registramos.
Para resolver estas problemáticas, é necessário contextualizar estas fontes com os acontecimentos. Foi o que realizei lançando um cotejamento bibliográfico ao longo do trabalho e com outras fontes como a imprensa. Pois os arquivos que encontrei durante a pesquisa eram oriundos de doações diversas que estavam disponíveis no acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, e que, conforme nos alerta Burke (2004, p. 27), estas imagens:
[...] precisam ser contextualizados. Isso nem sempre é fácil no caso de fotografias, uma vez que a identidade dos fotografados e dos fotógrafos é muitas vezes desconhecida, e as próprias fotografias, originalmente [...] em muitos casos, ao menos parte de uma série, foram separadas do projeto ou do álbum no qual eram inicialmente mostradas, para acabarem em arquivos ou museus.
Para dar conta dos acontecimentos e de uma história mais recentemente vivida pelos agentes ligados à história da cidade, recorro também aos relatos orais que a comunidade ligada ao carnaval mantém acesa, tanto em suas ancestralidades como em suas vivências passadas, pois, a explicação básica é de que não encontraremos muitas das informações ligadas a esta história nos documentos escritos, e é deste tipo de fonte – a história oral – que procura se dar maior ênfase na busca de informações acerca do tema proposto. Encontro neste tipo de fonte, a qual já foi alvo de muitas polêmicas, acerca de sua utilização como fonte oficial de pesquisas acadêmicas, críticas vindas da própria
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academia, como nos esclarece Penna (2002, p. 145), onde ela afirma que “dificilmente outro tipo de fonte histórica tenha sido fruto de tantas discussões, defesas e objeções como a fonte oral [...]”, ela nos esclarece que “até hoje, a utilização das fontes orais em pesquisas e publicações de caráter histórico tem sido acompanhada de polêmicas e hesitações” (PENNA, 2002, p. 145), onde em sua avaliação acerca de trabalhos relativos à história oral4 e de sua utilização como fonte, nos fornece algumas prerrogativas sobre a ousadia de pesquisadores e historiadores ao utilizar estas fontes:
[...] esta pequena mostra da utilização das fontes orais em trabalhos acadêmicos, em que os historiadores [...] ousaram enfrentar as polêmicas e as dificuldades que envolvem este tipo de fonte. O resultado foi compensador, pois diferenciou seus trabalhos, apontou novos caminhos e traçou problemáticas fundamentais ao avanço da História como ferramenta essencial à análise dos intrincados caminhos dos homens em sociedade no tempo [...] parte do problema deve se ao fato de que a inclusão deste tipo de fonte na historiografia, freqüentemente revestiu se de caráter empírico, não sendo reconhecido um texto fundador que norteasse e esboçasse um corpo de proposições unificadas [...] discutiu se e discute se, ainda, a interpretação das mesmas, mas seu uso é aceito, indiscutivelmente, por todos os historiadores [...] (PENNA, 2002, p. 145).
Para o caso do carnaval de São Leopoldo, utilizarei algumas passagens deste recurso para dar conta das lacunas e da falta de fontes, não quero desmerecer este tipo de fonte, apenas quero utilizar de suas especificidades e cotejar depoimentos importantes a este trabalho, uma vez que, de uma forma mais simplificada, serão utilizados elementos de diferentes fontes, como já explicitado, aliando aqui a relatos orais, registros fotográficos, imprensa local5 e de um aparato de informações bibliográficas. Pretende se assim, arrolar estes recursos para dar conta da pretensa tarefa de reconhecer a história do carnaval da cidade de São Leopoldo.
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Importância da história oral para elucidar trabalhos com lacunas e carência de fontes. Não levarei em conta a discussão acerca de produção ideológica em relação a utilização da imprensa local, e também de suas origens e finalidades (serão utilizados alguns recortes da imprensa para dar uma maior verificação e uma possibilidade de elucidar algumas afirmações). Para um maior aprofundamento desta temática – da utilização da imprensa – podem se verificar alguns autores como: Capelato (2003) e Nóvoa (2002).
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3 O CARNAVAL
Mas afinal, o que é o carnaval? Qual sua origem? Entendo que se faz necessário uma explicação dos principais pontos e das origens do carnaval brasileiro, que é longínqua no tempo, e remonta há muito tempo na história da humanidade, e que também sofreu mudanças devido a este tempo, e das constantes adaptações nas diversas terras onde se manifestou esta festa de congraçamento social.
Para alguns historiadores e estudiosos do assunto, esta manifestação popular vem desde os primórdios, gestada nas festividades agrárias, ligadas aos povos das primeiras grandes civilizações, que em forma de agradecimento aos “deuses”, por sua fartura em alimentos e pela colheita farta, lançavam festividades a fim de “pedir mais graças” de suas divindades no próximo período de plantação e colheitas. Assim se pode compreender que tais eventos ocorreram no Egito, na Grécia e posteriormente no Império Romano com a grande profusão dos deuses a serem celebrados.
Por incrível que pareça o carnaval não tem uma data inicial na história, não há nenhuma comprovação de seu surgimento! Desta forma recorremos a alguns autores que buscaram explicar esta origem e que, conforme Eneida Moraes (1987, p.14), por exemplo, ela nos diz que o carnaval e sua origem possuem diversas hipóteses de seu surgimento:
[...] há quem afirme que as origens do carnaval são encontradas uns 10.000 anos antes de Cristo. Velhos textos declaram que ele teve sua origem no culto agrário praticado pelos povos da Antiguidade [...] homens e mulheres mascarados, com corpos e caras tisnados, cobertos de peles ou de plumas, saíam em bandos, constituindo estranhos cortejos que invadiam as casas 1 numa terrível algazarra, gritando: ‘Afastai vos, demônios [...]’
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Como não é o foco deste trabalho dar conta da história do carnaval, mas sim o de situar acerca dos estudos já realizados ao tema carnaval, para com a cidade de São Leopoldo.
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As controvérsias se seguem, e alguns autores se complementam e explicam com mais profundidade, mas nenhum chega a uma data ou a uma civilização fundante dos festejos carnavalescos, e seguindo Eneida Moraes (1987, p. 14) ela complementa que:
[...] ele é encontrado de formas diversas nos mais diferentes países e épocas; entre os gregos, nas festas consagradas a Dioniso [...] em Roma, à divindade egípcia Isis; entre os teutões, à deusa Herta ou Nerta, a ‘terra mãe’ [...] Sempre existiu com músicas barulhentas, danças, máscaras, licenciosidade.
Para Hiram Araújo (2003, p. 36), que trata das origens do carnaval, em uma obra vasta e ampliada, onde traz a tentativa de buscar a origem do carnaval, e dá um enfoque interessante para as festividades agrárias e explica que a festividade foi se ampliando e modificando se até chegar aos nossos dias. Araújo nos especifica que houve ao longo da história, os grandes centros de excelência do carnaval, divididos
nos
grandes
conglomerados
históricos
da
humanidade
antiga,
desenvolvendo estas, o carnaval em diferentes formas, nas diferentes fases da história do homem social, ou seja, desde que surgiram as civilizações organizadas em sociedades.
Felipe Ferreira (2005) vai mais fundo, e cita uma afirmação de que, quem introduziu o carnaval foi a Igreja Católica, no momento que instaurou a Quaresma2.
A festa carnavalesca que conhecemos atualmente só passou a existir, de verdade, séculos depois das comemorações do boi Ápis, da deusa Ísis, das bacanais, lupercais e tantas outras festividades que não são precursoras somente do Carnaval, mas de muitas outras festas [...] se é assim, se o Carnaval não existe desde tempos imemoriais, quando foi que ele surgiu, afinal? Muita gente se espanta com isso, mas na verdade quem "inventou o Carnaval foi a Igreja Católica, por mais estranho e irônico que possa parecer. (FERREIRA, 2005, p. 23)
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Período de quarenta dias, compreendido entre quarta feira de Cinzas e domingo de Páscoa, em que a Igreja Católica honra com jejuns, abstinência de carnes e outros sacrifícios para lembrar a paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo; como domingo não é dia de jejum, contam se seis semanas e quatro dias, isto é: 4+6×6=40; quadragésima (QUARESMA, 2009). Podem se ter mais informações desta definição em: Araújo (2003), Ferreira (2005) e Moraes (1987).
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E ele vai além, explicando o período da Quaresma, dando a noção de quão importante para a população eram estes últimos dias antes do jejum, uma vez que o que determinava a Igreja, o povo cumpriria3. Desta forma, os três ou quatro dias que antecediam este “ponto de corte”, era comemorado pelo povo em geral como uma “esbórnia4”, numa forma de enaltecer e exceder ás tentações mundanas e se “esbaldar” nos folguedos e nos excessos de comida e bebida, principalmente a carne, como se percebe em Ferreira (2005, p. 25):
[...] a história começou no ano de 604 quando o papa Gregório I deliberou que, num determinado período do ano, os fiéis deveriam deixar de lado a vida cotidiana para, durante um certo número de dias, dedicarem se exclusivamente às questões espirituais. Todo esse evento durava em torno de quarenta dias, lembrando os quarenta dias de jejum e provações passadas por Jesus no deserto antes de iniciar o seu ministério apostólico. Por causa disso o período ficou com o nome de ‘quadragésima’ ou ‘quaresma’[...]
Para instaurar uma data oficial para o período da Quaresma, sendo chamado de “Quarta feira de Cinzas” onde, conforme a tradição se marcava “a testa dos fiéis com uma cruz feita com as cinzas de uma fogueira” [...] a partir daí, estava “legalmente decretado que durante os quarenta dias de privações os fiéis deveriam esquecer os prazeres da vida” (FERREIRA, 2005. p. 25).
A expressão carnaval pode ter originado deste período, que era conhecido como o “adeus à carne”, que para todos os autores supracitados há uma concordância em dois termos, ou ainda, a duas origens prováveis do termo: uma ao “Carrus Novalis” e a outra ao “Carnem Levare”. O primeiro termo é atribuído, conforme Eneida (MORAES, 1987. p.15), a uma espécie de alegoria que era alçada ao mar, que em procissão era seguida por uma multidão.
Já segundo o termo é atribuído ás festividades dos últimos dias anteriores ligados à Quaresma, dando o “adeus à carne”, para estas afirmações, cito um
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A partir do advento do poder da Igreja Católica, consolidada a partir do Concilio de Nicéia em 325 D.C. conforme AZEVEDO (1999). 4 Conforme o Dicionário Michaelis online, o termo significa, advém do italiano sbornia: que pode ser compreendido como uma Bebedeira, pândega, orgia.
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esclarecimento de consenso entre os diversos autores escrito por Felipe Ferreira (2005, p.19):
[...] a presença, nas festas, desses pequenos barcos com rodas que acabou por fazer com que alguns pesquisadores considerassem tais ce lebrações como um exemplo de folia carnavalesca da Antiguidade, ao imaginar que o nome "Carnaval" teria origem em carrus navalis, ou seja, um carro em forma de navio. Hipótese que, anos mais tarde, foi suplantada por outra teoria que associa a palavra Carnaval à carne vale, ou "adeus à 5 carne"[...]
Haroldo Costa (2007), outro entusiasta e estudioso do assunto carnaval, nos remete ás mesmas profundidades e traz também a chegada destas festividades e desta manifestação no Brasil, por volta de 1742, com a vinda dos açorianos6 para o sul do Brasil, por determinação das autoridades portuguesas, a fim de “ocupar” as terras mais ao sul da colônia (hoje o estado do Rio Grande do Sul). Estes portugueses açorianos que após aqui chegarem, fundariam a cidade de Porto dos Casais – devido à vinda destes casais das ilhas dos Açores – e que mais tarde a cidade passaria a se chamar Porto Alegre. Junto com estes imigrantes é que vieram também as primeiras manifestações burlescas e dos folguedos que conhecemos por entrudo7, como cita:
É comum atribuir se o início da história do carnaval no Brasil com a chegada da família real, em 1808, já que em Portugal os festejos eram realizados há muito tempo, especialmente baseados no entrudo, que foi muito cultivado por aqui. Acontece, porém, que em 1742, com a vinda de 60 casais naturais da ilha dos Açores para se estabelecerem no Sul do país, por determinação das autoridades portuguesas, que doavam "um quarto de légua" para cada casal, lá chegaram também as primeiras manifestações do carnaval ibérico. A cidade que eles fundaram recebeu, inicialmente, o nome de Porto dos Casais; mais tarde, foi batizada definitivamente como Porto Alegre (COSTA 2007, p.17).
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Termo carnaval é amplamente explorado em (FERREIRA, 2005) e (MORAES, 1987). Oriundos das ilhas Açores, Portugal. 7 Entrudo era um costume em forma de brincadeiras no carnaval e que foi introduzido no Brasil pelos portugueses, por volta do século XVI. Originado na Idade Média, com forte expressão em Portugal, onde haviam bonecos, uma espécie de “Judas” e que eram chamados de “entrudos”. Vindo para o Brasil, este costume de brincar manteve a caracteística de um folguedo alegre mas violento, que mante ve até as primeiras décadas do século XX, conforme Ferreira(2005). 6
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O entrudo era uma brincadeira portuguesa, introduzida pelos açorianos e que tinha por característica suas brincadeiras e excessos, que se espalharia por todo o país, como uma espécie de costume de “brincar” o carnaval no Brasil Colônia. Nem mesmo com a vinda da Corte em 1808, o entrudo diminuiu suas brincadeiras, e que segundo Costa (2007, p. 27), nem mesmo os membros da família imperial deixava de brincar o entrudo, como a passagem que diz que “apesar de toda a austeridade, Don Pedro II servia se de limões de cheiro e das bacias d’água para ‘brincar’ o entrudo na Quinta da Boa Vista”. Estas brincadeiras cruzariam as margens épicas brasileiras, persistindo inclusive até a República (1889).
[...] como não poderia deixar de ser, o entrudo era o motivo principal das festas carnavalescas, com todo o seu cortejo de brutalidade e ofensas físicas. E a cada ano, os promotores da brincadeira se esmeravam na busca pelo pior. As pessoas lançavam umas as outras água pútrida, laranjas de cera recheadas com coisas inimagináveis, além de ovos, fezes, farinha, urina; enfim, tudo estocado cuidadosamente antes do uso. Assim como aconteceria no Rio de Janeiro muitas décadas depois, houve grande re pressão por parte das autoridades. Em 1837 o Conselho Geral proíbe, pela primeira vez em Porto Alegre, o entrudo, com uma [...] postura policial. [...] ‘fica proibido o jogo do entrudo dentro do município; qualquer pessoa que o jogar incorrerá na pena de dois mil réis e doze, e não tendo com que satisfazer, sofrerá de dois a oito dias de prisão; sendo escravo, sofrerá oito dias de cadeia, caso o seu senhor o não mandar castigar na cadeia com cem açoites, devendo um e outros infratores ser conduzidos pelas rondas policiais à presença dos juízes de paz, para os julgarem à vista das partes e testemunhas que presenciarem a infração. As laranjas do entrudo que forem encontradas nas ruas e estradas serão inutilizadas pelos encarregados das rondas. Aos fiscais com seus guardas também fica pertencendo a execução desta postura’. (COSTA, 2007, p. 17)
Haroldo Costa (2007) nos esclarece ainda que o Entrudo permaneceu, mesmo com sua violência e agressividade, e mesmo com a energia das autoridades em proibir o jogo, ele permaneceria até o início do século XX.
O entrudo em terras brasileiras, como já escrito, marcou por sua originalidade grosseira de brincar e de “sacanear” as pessoas, e por conseqüência, esta brincadeira chega a São Leopoldo, por volta dos anos 1890, quando a cidade está estabelecida, 60 ou 70 anos após a chegada dos imigrantes alemães, a colônia já brinca o carnaval, com mascaradas, fantasias caricatas, escrachos e sátiras, acompanhando as tendências do resto do país, como se pode verificar em Ferreira (2005, p.117 e118):
32 [...] o entrudo, por sua própria natureza inocente, grosseira e simplória, era um tipo de brincadeira que não incentivava o uso de fantasias [...] mas, ao sair às ruas com suas arruaças e tambores, as classes menos favorecidas iriam acabar se espelhando nas indumentárias sofisticadas e jocosas usadas pela elite nos bailes e passeios, adaptando as, é claro, a sua estética e a suas limitações financeiras [...] É assim, que surgem os disfarces de diabinho, por exemplo, tão comuns no carnaval de rua de todo o Brasil, ou ainda a elaborada roupa de nobre usada pelos "velhos" (ou cabeções) dos cordões, inspiradas nos sofisticados trajes da elite do século XVIII. Todas essas fantasias populares que se apresentavam "avulsas", ou seja, isoladas [...] surgiram nos primeiros eventos carnavalescos toda uma série de personagens [...] as fantasias menos 8 elaboradas e mais elaboradas à esbórnia.
É por estas brincadeiras de rua e pelos excessos que encontramos o primeiro registro do carnaval em São Leopoldo, que, conforme Athos Damasceno, em seu livro O Carnaval Porto Alegrense no Século XIX, de 1970, nas páginas 119 e 120, onde nos traz o relato de que algumas famílias estariam queixando se ás autoridades acerca das brincadeiras e das ofensas destas:
[...] Na vizinha cidade de São Leopoldo, por exemplo, os foliões se excedem de tal modo, no Carnaval de 1897, que numerosas famílias dali, ofendidas e revoltadas, dirigem a Júlio de Castilhos, Presidente do Estado, o seguinte apelo [...] Ferreira (1970, p. 119).
O conteúdo da carta enviada ao Presidente da Província, o senhor Júlio de Castilhos, no ano de 1897, era um pedido para que este interviesse em prol da moral de dos bons costumes, das famílias e das senhoras de bem da cidade, como nos transcreve Ferreira (1970, p. 119 e 120):
‘A reconhecida bondade de V. Excia. deve relevar nos a franqueza com que vimos, em nome das senhoras de S. Leopoldo, apresentar ao ilustre Chefe de Estado os mais respeitosos cumprimentos e invocar ao mesmo tempo sua valiosa proteção contra a tempestade de ódios e insultos que desde muito está desencadeada sobre a nossa Santa Religião e as pessoas que mais fielmente a professam. Com o coração transido de dor, levamos ao conhecimento de V. Excia. que não somente a religião com os seus ministros, mas também o inviolável caráter da mulher brasileira aqui está, à mercê da fúria de alguns energúmenos. As virtuosíssimas filhas de S. Francisco, que consideramos e apreciamos como a flor e o orgulho de nossa classe, têm sido cruel e cinicamente denunciadas ao escárnio e desprezo público, por imundas exibições carnavalescas, que entre turcos e 8
Outras definições para as fantasias utilizadas no carnaval, ver (FERREIRA, 2005. p. 117 e 118).
33 bárbaros não seriam toleradas pela plebe, quanto mais favorecidas pelas autoridades. Ofender publicamente a fama ilibada de uma congregação de virgens consagradas a Deus, que vieram procurar hospitalidade à sombra da lei protetora, para educar nossas filhas, é atentado felizmente raro no mundo civilizado, mas inaudito neste Brasil, onde até ontem cada brasileiro verdadeiro era o defensor nato da mulher brasileira. Nas pessoas das santas religiosas franciscanas nós todas fomos insultadas, assim como também as numerosas jovens que lhes são confiadas e as distintas famílias que lhes entregaram o que de mais caro têm na terra. Mas nisto não parou a demência dos inimigos de toda a honestidade. V. Excia, que é esposo exemplar e não conhece tesouro maior do que uma esposa por todos respeitada, e uma filha inocente, compreenderá a extrema humilhação das senhoras desta cidade e o desespero de nossos esposos e filhos, quando em plena rua e repetidas vezes se encena o que só ao lembrar nos faz cobrir a face e tremer pelo futuro de nossas filhas e de toda esta geração. Levantamos ao céu o brado da nossa indignação e do nosso protesto; e como neste lugar parece já não existir quem queira ou — por ser aterrorisado — possa pensar e agir brasileiramente, quando vê sua esposa, sua mãe e irmã insultadas, recorremos ao último amparo da inocência inerme e apelamos não somente ao supremo guarda da lei vilipendiada, mas principalmente ao extremoso pai de família e extremoso esposo. Deus 9 guarde V V. Excia. por muitos anos’.
A partir desta insatisfação, a sociedade leopoldense mais abastada da cidade busca estabelecer uma relação mais europeizante e assim como nas grandes cidades do Brasil, buscam inspiração no carnaval francês, em detrimento ao entrudo português, ao qual consideravam chulo e prejudicial. Para esta passagem – do degenerado entrudo, para o que acreditavam ser o “verdadeiro carnaval” – apostam no carnaval chiq e requintado, inspirados nos grandes bailes de Veneza (Itália) e de Nice e Paris (França), a elite brasileira se põem a desenvolver bailes e atividades burlescas, desclassificando atos “entrudísticos” da população em geral. Para uma noção do que é elite, recorro a Flávio Heinz(1999):
[...] para começar, estou tentado a afirmar que a idéia de elite repousa sob um postulado simples: em cada sociedade, assim como em cada grupo, classe ou meio profissional, uma minoria controla as rendas mais importantes e as decisões relativas ao conjunto de indivíduos [...] outra definição nos esclarece mais sobre a utilização desta noção na ciência social. Elite seria um termo empregado de um sentido amplo e descritivo, com referência a categorias ou grupos que parecem ocupar o ‘topo’ de ‘estruturas de autoridades ou de distribuição de recursos’[...] os ‘dirigentes’, as pessoas ‘influentes’, os ‘abastados’ ou os ‘privilegiados’[...] (HEINZ 1999 p. 42)
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Transcrição literal da carta enviada a Julio de Castilhos, In FERREIRA, Athos D. O carnaval Porto Alegrense no século XIX. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1970.
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Contextualizando São Leopoldo, é neste período que se inauguram os clubes de sociedade, por volta de 1858, por exemplo, já existia a Sociedade Orpheu10, e posteriormente a Sociedade Ginástica11, e vão se desenvolver ai as festas da elite local, numa forma de minimizar e até mesmo acabar com as práticas bárbaras do entrudo português.
Figura 1: Duelo entre Entrudo e Carnaval Imagem 1: de autoria de Ângelo Agostini para o periódico Revista Ilustrada(Biblioteca Nacional, RJ), número 238. Em 1881, um exemplo no Rio de Janeiro, verifica se no projeto da elite que era “liquidar” com as brincadeiras do entrudo, com suas molhadelas e os limões de cheiro. Fonte: Agostini (1881 apud FERREIRA, 2005, p. 136).
Felipe Ferreira (2005) nos dá uma síntese desta tentativa da elite brasileira em “moralizar” a festa carnavalesca e por fim aos exageros das brincadeiras do entrudo:
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Informações sobre a fundação da Sociedade Orpheu, ver: EGGERS, José Carlos. FIALKOW, Miriam Zeltzer. RAMOS, Eloisa H. Capovilla da Luz. Sociedade Orpheu: da História de um nome a identidade de um clube. São Leopoldo. Edição Sociedade Orpheu. 1996. A Sociedade Ginástica de São Leopoldo, fundada por imigrantes alemães, que se instalaram no Vale dos Sinos, e tem sua história registrada a partir da fundação da sua sede em 24 de Agosto de 1885. Fonte: site da Sociedade Ginástica.
35 Grande sucesso dos festejos carnavalescos de Paris, os bailes mascarados seriam trazidos para o Brasil como uma espécie de solução para a bagunça causada pelo Entrudo. Ocupar os salões com a folia à francesa, entretanto, não foi suficiente para acabar com a esbórnia das ruas. Os passeios das primeiras sociedades carnavalescas procurariam exercer o duplo papel de mostrar ao povo o ‘verdadeiro’ Carnaval e de ocupar os espaços do Entrudo com a nova folia ‘civilizada’[...] (FERREIRA, 2005, p. 103).
Munido de certo conhecimento acerca do surgimento das “brincadeiras” carnavalescas da cidade, e que Athos Damasceno Ferreira (1970, p.120), referindo se as brincadeiras grosseiras de Porto Alegre e de São Leopoldo, chegou a caracterizá lo ao fim do século XIX como uma “patuscada12”, e que como suas palavras: “que por estas e outras, já então o carnaval, entre nós, perdera muito de seu prestígio mundano” (FERREIRA, 1970, p.120). Mesmo não possuindo, este período, de registros fotográficos, é na tentativa desta elite, que se ofendia com a violência do entrudo que iniciaria um movimento contra as brincadeiras e ofensas gestadas pelas grosserias na forma de se divertir no carnaval – mesmo que muitas vezes os filhos e filhas destas famílias da elite eram os que se divertiam com as burlas e com as sátiras pelas ruas da cidade.
Por certo, esta elite da cidade inicia um processo para desqualificar as grosserias das ruas em forma de grandes feitos carnavalescos, e a forma mais utilizada seria em forma de grandes festas públicas e grandes bailes, sofisticados e de certa forma, “legítimas” apresentações sociais, marcadas pela pujança da elite local.
Estes grandes bailes e também os grandes desfiles que passariam a ocupar o cenário municipal, uma vez que a elite local, a exemplo das demais cidades dos grandes centros europeus e brasileiros, aproveitava estes momentos carnavalescos para mostrar a população o “o verdadeiro carnaval”, em detrimento das brincadeiras do entrudo, também para expor seu “poderio” econômico e do “bom gosto” em forma de apresentações públicas nas ruas da cidade, uma vez que seus bailes estariam “fechados” apenas para convidados.
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Conforme a expressão popular é uma espécie de ajuntamento de pessoas, reunidas para comer e beber festivamente, é um uma espécie de pândega simplesmente reduzida.
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SOCIEDADE ORFEUS
Levamos ao conhecimento que, para os bailes carnavalescos, só poderão tomar parte nas diversões desta sociedade, blocos convidados officialmente ou com prévio entendimento com a directoria, Em 20.2.36.
A DIRETORIA
Figura 2: Aviso da Sociedade Orpheu. A elite manda publicar um aviso a comunidade leopoldense: somente os sócios poderiam participar dos bailes de carnaval da Sociedade Orpheus, ou aos blocos convidados por estes. Nota se a escrita gramatical da época. Fonte: Jornal Correio de São Leopoldo, em 20 de fevereiro de 1936.
É neste contexto que surgem os grandes desfiles, flagrados pelos flashes das primeiras câmeras fotográficas da cidade, que por vezes, eram também organizados desfiles para fins exibicionistas, como era o caso dos dias de carnaval, ou, mesmo que este registro tenha sido realizado para um simples lembrança pessoal, seja para exibições públicas – das imagens, política ou para servir de notícia social.
De qualquer forma, a imagem mais “antiga” que se encontrou durante esta pesquisa é a dos desfiles carnavalescos de 1898, quando a elite leopoldense saiu às ruas para mostrar sua “rainha de beleza”, termo como era na época conhecida a soberana que reinava nos festejos carnavalescos.
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4 IMAGENS DO CARNAVAL DE SÃO LEOPOLDO
Fotografia 1: Primeira fotografia do carnaval de São Leopoldo. Ano de 1898 – um desfile de carnaval em São Leopoldo, que conforme Germano Moehlecke, o título da soberana do carnaval era “Rainha de Beleza” Antonia Matte no alto da foto. O carro era puxado por cavalos. Foto de autoria desconhecida. Fonte: acervo pessoal de Germano Moehlecke.
Fotografia 2: 1898 Detalhe da primeira rainha do Carnaval Ano de 1898, no detalhe o traje da Rainha Antonia Matte. Foto de autoria desconhecida. Fonte: Imagem do livro São Leopoldo Era Assim de autoria de Germano Moehlecke (1997)
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4.1 OS PRIMEIROS ANOS DO SÉCULO XX
Nos primeiros anos do século XX, período onde se destacam os primeiros bailes e o bloco de maior sucesso na época era o Bloco Esmeraldinos, nome inspirado do bloco porto alegrense Esmeraldas, que abrilhantava o carnaval da capital do Rio Grande do Sul. Destaques realizados para o bloco no jornal O Regimen32.
1909 – Jornal O Regimen. P.1
1909 – Jornal O Regimen. P.1
1909 – Jornal O Regimen. P.1 1910 – Jornal O Regimen. P.3
Figura 3: Recortes do Jornal O Regimen em 1909.
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Jornal O Regimen, Orgam do Partido Republicano. Fonte: Acervo do Museu Visconde de São Leopoldo.
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Fotografia 3: 1914 Folder da Mannergesng Orpheus Ano de 1914 – Convite para o Baile de Carnaval da Sociedade Orpheu em língua alemã. Fonte: Imagem do acervo do museu Visconde de São Leopoldo.
Fotografia 4: 1919 Folder da Sociedade Orpheu Ano de 1919 – Convite para o Baile de Carnaval da Sociedade Orpheu em língua portuguesa. Fonte: 33 Imagem do acervo do museu Visconde de São Leopoldo .
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Em 1917 os presidentes da Sociedade Orpheu, Germano Lang, e da Sociedade Ginástica, Germano Weinmann, assinaram declaração tendo “em vista da situação criada pela ruptura das relações entre o Brasil e a Alemanha” (I Guerra Mundial), [j] “para demonstrar o patriotismo que votam à terra brasileira, nacionalizar as duas sociedades e reformar os estatutos das mesmas”. Relato oral de Germano Moehlecke em 01 agosto de 2010.
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[...] CARNAVAL – A Sociedade <Orpheus> festejará o carnaval deste anno, com um baile a phantasia, para o qual reina muito enthusiasmo por parte dos respectivos sócios [...].
1914 Detalhe do Jornal O Regimen.
CARNAVAL – Não passou totalmente despercebido entre nós o carnaval deste anno. Além dos animados bailes à phantasia, realizados no salão da sociedade <Orpheus>, e que foram na noite de sábbado e segunda feira [...] acompanhados de um enautecedor Zé Pereira, percorreram as principaes ruas de nossa cidade, provocando applausos da numerosa assistencia que as enchia. Também bastante infuido ocorreu o jogo apreciado de lança perfumes, coufetti e serpentinas que gentis senhoritas e distinctos cavalheiros da nossa melhor sociedade estabeleceram no longo da rua Independência, que é a principal artéria da cidade. Ali via se alteroso corecto onde a excellente banda musical de CarlosVolz fez ouvir agradáveis peças de seu bom repertorio. Muito povo acudiu aos passeios que brilhavam aos clarões de focos e lâmpadas electricas, emprestando aquella rua um areahente e bello aspecto [...]. [...] CLUB CARNAVALESCO. Consta1nos que alguns membros da sociedade “Orpheus” influídos a de duplamente de fundar hum club carnavalesco que fará sua estréia ao ano vindouro [...]
Figura 4: Recortes do Jornal O Regimen – Os Bailes. 1915 – Jornal O Regimen, relatando o entusiasmo e o sucesso dos bailes na cidade, em especial os realizados na Sociedade Orpheu, que no grifo (grifo nosso) ao lado, traz uma preocupação em “fundar” um bloco exclusivo para a respectiva sociedade. Nota se a escrita da época. Jornal O Regimen de 07 de fevereiro de 1914. Fonte: Acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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4.2 OS GRANDES BAILES
É nos grandes bailes da cidade, que tornam se tradição, ao longo da história do carnaval, entronam se as rainhas, e poderíamos contar a história do carnaval através das “cortes” como ficaram conhecidas as rainhas e seu séquito de foliões. É munido destas informações que o colecionador de imagens e de histórias pitorescas da cidade de São Leopoldo, Germano Moehlecke, que nos conta que “as rainhas é que abriam o período de carnaval, nada acontecia antes deste evento”34, ou seja, as rainhas e soberanas das festividades carnavalescas tiveram papel muito importante na folia leopoldense, uma vez que representavam a festa e se tornavam símbolo da festividade daquele ano. Os membros
da
elite
local
preparavam grandes festas para
estas
rainhas
e
inclusive criavam um bloco carnavalesco exclusivo, que em
algumas
serviam
ocasiões
somente
para
“seguir” a soberana durante os bailes e desfiles.
Fotografia 5: Em 1922 Elite leopoldense.
Bailes da
1922 – moças da elite leopoldense preparadas para grande baile na Sociedade Orpheu. Imagem de autoria desconhecida. Fonte: Acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Relato oral de Germano Oscar Moehlecke coletado em 01 de agosto de 2010.
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Fotografia 6: 1928 – Rainha do Recreio Juvenil Vera Bieri 1928 – em destaque a foto de estúdio da primeira rainha e sua corte35 a ser “eleita” pelo do Clube de Recreio Juvenil: Vera Bieri. Foto de Germano J. Stumpf. Fonte: Acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
A criação do Clube de Recreio Juvenil em São Leopoldo, marca uma “nova era” para o carnaval da cidade, uma vez que, os membros da elite, engajados de certa forma, em um projeto declarado pela cidade do Rio de Janeiro, conforme Ferreira(2005, p.103) que a pretensão dos grandes bailes era uma espécie de uma “solução para a bagunça causada pelo Entrudo [...] ocupar os salões com a folia a francesa(...) e de mostrar ao povo o ‘verdadeiro carnaval’[...]”. E como cita Moehlecke (1997, p.07): [...] pelo que já verifiquei e escrevi o Clube Recreio Juvenil marcou a sociedade leopoldense durante mais ou menos quinze anos. Fundado em dezembro de 1927, destacou se desde o início na vida social de São Leopoldo [...] Composto pelos nomes mais expressivos da mocidade da época, esforçava se para reproduzir em nossa cidade o que havia de importante nos grandes centros [...] três bailes, duas reuniões dançantes, uma hora de arte com dança, duas noites de kerb e duas noites de Carnaval, com a rainha coroada na primeira 36 noite e homenageada na segunda [...].
É neste ambiente que ocorreram “Os grandes bailes leopoldenses”, e onde a sociabilidade era o ponto alto e o carnaval um evento de destaque entre os membros que representavam esta sociedade. É nestes eventos carnavalescos, realizados no período de janeiro aos três dias antes da quaresma, que os 35
Corte, neste caso, é conhecido no senso comum do carnaval como o séquito real da rainha e que posteriormente, aparece a figura do rei Momo. 36 Relato oral de Germano em 01 de agosto de 2010.
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leopoldenses destacavam sua criatividade e não poupavam esforços para realizar grandes festas e, de certa forma, ampliar sua imagem de status e poder social e econômico diante da comunidade.
Pode se verificar que os primeiros anos do século XX, a “moda” eram os blocos de sociedade, como eram conhecidos, e dos grandes bailes realizados nas sociedades, onde muitos clubes e sociedades são fundados no intuito de reunir a elite da cidade, como é o exemplo do Clube Recreio Juvenil, fundado em 16 de dezembro de 1927. A estes eram os responsáveis em ditar o que seria comemorado na cidade, como cita Ferreira (2005, p.222), onde os grandes bailes foram assimilados pela “capital do Império e após a capital da República, o Rio de Janeiro, e disseminado pelo resto do país”. O que ocorre também com São Leopoldo, que conforme Germano Moehlecke (1997, p. 43):
[...] o Clube Recreio Juvenil, fundado em dezembro de 1927, já, nos princípios de 1928 realizou dois bailes de carnaval. Composto pelos nomes mais expressivos da mocidade da época, os componentes do Juvenil tentaram trazer para São Leopoldo todas as grandes iniciativas sociais dos maiores centros [...]
Em verdade eram os eventos carnavalescos os de maior registro, e não somente estes, que o Recreio Juvenil fariam para envolver os jovens das camadas dominantes da cidade, uma vez que os eventos ligados ao carnaval, o que se nota pela imprensa local, era um momento esperado com maior “frison”37 e realizado com muita pompa e estilo pela alta sociedade leopoldense. O esmero desta elite em realizar os eventos carnavalescos toma uma proporção significativa, e vai transformando os hábitos da cidade. Estes bailes e também os desfiles vão ser ponto alto e se dedicarão desde o inicio do século XX em diante, a um empenho cada vez maior em se realizar grandes bailes, como escreve Germano Moehlecke (1997, p. 10), onde nos afirma que, conforme os relatórios do Clube Recreio Juvenil, que este “gastou uma grande importância com a decoração do salão, onde se instalou um trono em estilo mourisco para sua rainha e aias com fantasias de odaliscas” [...]. 37
Frison é uma palavra francesa que denota alvoroço, grande expectativa.
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[...] No Clube Recreio Juvenil a rainha começava com toda a força durante o carnaval [...] mas ela reinava até a eleição do ano seguinte. Era a soberana do Clube e não somente rainha carnavalesca [...] no ano de 1930, foi eleita Gilda de Paula que se fazia acompanhar do seu Bloco, composto por oito pares de cossacos.
Os bailes organizados pela elite emergente da cidade, leia se organizados pelo Clube de Recreio Juvenil, eram elaborados com a mais requintada decoração da época, e seus membros não economizavam verbas para desenvolver grandiosas festas.
Fotografia 7: 1930 A Rainha e seu séquito. 1930 a rainha Gilda de Paula com seu Bloco no palco montado no Teatro Independência. Foto de autoria desconhecida. Fonte: do acervo do museu municipal Visconde de São Leopoldo.
Pode se evidenciar esta afirmação, a da criatividade e da utilização dos espaços disponíveis na cidade para a realização dos bailes, onde um teatro com poltronas em desnível foi possível ser “modificado”, a exemplo do Teatro Independência, para a realização de um suntuoso baile de carnaval, como nos descreve Germano Moehlecke (1997, p. 13):
[...] foi nesse ano de 1930 que a diretoria do Clube Recreio Juvenil tomou a iniciativa arrojada: realizar os seus bailes de carnaval no Cine Independência, construindo um soalho sobre as poltronas, alugando camarotes nas galerias laterais e instalando o trono da rainha no palco do
45 cine teatro[...] foi rainha nesse ano Gilda de Paula, que era acompanhada por um Bloco de Cossacos Foram três bailes no Cine Independência cuja tocata pela Orquestra Imperial foi totalmente coberta com a renda do Concurso para escolha da Rainha [...] naquele tempo São Leopoldo ainda era unida e grande família e todos se conheciam. É significativo que o Clube dedicou um baile ao Cordão dos Silenciosos [...] que participavam do carnaval desde 1925[...] e tiveram grande influência na fundação do Clube Recreio Juvenil [...]
Um dos grandes bailes realizados na cidade que ficou conhecido como O grande baile de carnaval que aconteceu no Theatro Independência, que conforme 38 descrição de Germano Germano Moehlecke : “foi realizado sobre as poltronas do teatro que era cinema [...]
Fotografia 8: 1930 – O grande baile de carnaval. Em 1930 foi realizado O grande baile de carnaval no Theatro Independência, que conforme descrição de Germano Moehlecke “foi realizado sobre as poltronas do teatro e cinema”. Imagem tirada do trono da rainha Gilda de Paula, onde se pode ver acima da entrada o nome do teatro. Fotógrafo: Azevedo Dutra – Porto Alegre. Fonte: imagem do acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Relato oral de Germano Moehlecke coletado em 01 agosto de 2010.
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Fotografia 9: Anos 1950 bailes após a IIª Guerra Mundial. A partir da IIª Grande Guerra Mundial, os bailes foram modificando se e assumiram uma sobriedade mórbida, onde a elite não mais esboçava a alegria dos bailes carnavalescos. O bailes de carnaval seriam marcados pelas festas requintadas, mas de longe lembrariam as grandes festividades, do Clube Recreio Juvenil, por exemplo, que deixou de existir coincidentemente após a IIª Guerra Mundial. Foto de autoria desconhecida. Fonte: Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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4.3 O CARNAVAL NA RUA
Para a elite local, além dos grandes bailes, era o ponto alto e importante para exibir se para a urbe, mostrar toda a sua pompa, e isto era possível através dos desfiles de rua, conhecidos como o corso39.
Fotografia 10: 1909 Fotografia das charretes antes do automóvel. Em 1909 – corso com charretes, antes do advento do automóvel na cidade. Foto de autoria desconhecida. Fonte: Imagem do acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
O carnaval de rua, e as exibições ganhariam mais prestígio, quando no ano de 1910, com o surgimento do automóvel em São Leopoldo, como escreve, Germano Oscar Moehlecke, em seu livro: Vida Social, usos e costumes. São Leopoldo, na página 64, onde diz que: “em São Leopoldo, o automóvel surgiu antes da luz elétrica [...] o Intendente Guilherme Gaelzer Neto comprou o primeiro carro que a nossa cidade viu em suas ruas, em 1910” [...]. Moehlecke (1997, p. 64).
39
Espécie de passeio com charretes enfeitadas e que com o advento do automóvel, estes substituem as carroças, mas mantém a tradição de enfeitá los para exibição nas ruas para quem os assiste.
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Fotografia 11: Imagem do Corso – carros enfeitados. Em 1920 – imagem do corso, as crianças também participavam como mostra a imagem. Foto de autoria desconhecida. Fonte: do acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
Fotografia 12: Decoração dos automóveis para o corso 1924 – Imagem do Corso nota se o esmero da decoração e dos enfeites dos carros e automóveis, a fina flor da sociedade participando, uma vez que a festividade é privilegio da elite. Imagem de autoria desconhecida. Fonte: Acervo do museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Fotografia 13: Corso e blocos carnavalescos – integração. 1926 – Imagem mostra os carros enfeitados, com os blocos carnavalescos devidamente fantasiados, participando do Corso.
Importante registro fotográfico foi encontrado para o carnaval de 1926, ano em que foi realizado um grande desfile de corso, inovado pelo número e pela qualidade de suas alegorias, como se pode verificar nos registros abaixo:
Fotografia 14: Carnaval de 1926 – Grande desfile do Corso Em 1926 – Imagem do Corso mostra os carros enfeitados, com os blocos carnavalescos participando. Imagem de autoria desconhecida. Fonte: Imagem do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Fotografia 15: O corso ocorre na Avenida Independência 1926 – Imagem do Corso mostra os carros enfeitados, com os blocos carnavalescos participando. Foto de autoria desconhecida. Imagem do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
Pode se notar nesta imagem que o carnaval do ano de 1926 era realizado de dia, pois a noite não era possível a visualização da decoração dos automóveis e das fantasias dos participantes.
Fotografia 16: Carro preparado para o Corso. Em 1927 carro aguardando o início do corso, provável que seja na Chácara Shimidt, na altura onde hoje ‘e a Avenida João Correia. Foto de autoria desconhecida. Fonte: imagem do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Fotografia 17: 1928 Alegoria para a Rainha Vera Bieri Em 1928, no corso carnavalesco, a imponente alegoria de elefante oriental construída para a Rainha Vera Bieri. “um grande desfile em homenagem a sua rainha, que proporcionou um belo espetáculo a quem assistia na Rua Independência” 40. Pode se notar o sucesso pela quantidade de serpentinas lançadas sobre o carro alegórico. Imagem de autor desconhecido. Fonte: Acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
O grande Corso alegórico tomou conta das principais ruas da cidade. Podemos notar o sucesso do desfile alegórico com a quantidade de serpentinas que foram lançadas na alegoria da Rainha do Clube Recreio Juvenil de 1928, Vera Bieri.
Em 1929 repete se o sucesso iniciado em 1926, 1927 e 1928, e o desfile de rua toma se de imponência e criatividade nas alegorias sobre os automóveis, vale lembrar que apenas a elite local participava, e que para a população em geral restava a contemplar os desfiles.
40
Relato Oral de Germano Moehlecke. Coletado em 01 de agosto de 2010.
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Fotografia 18: Desfile do corso com alegorias em 1929 1929 – vários automóveis que seguiam o corso carnavalesco. Verifica se a quantidade de pessoas que acompanham o desfile nas margens da Rua do Passo (1854), que em 1883 passa a se chamar Rua Independência. Imagem de autor desconhecido, retirada de uma sacada. Fonte: Acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
Fotografia 19: Corso de alegorias – Elite e população estão segregados 1929 – carro preparado especialmente para o corso carnavalesco. É uma das poucas imagens que mostra a população não abastada assistindo aos desfiles, uma vez que não participava dos mesmos nesta época. Nota se que as pessoas da elite, de gravata e chapéus (bem vestidas) estão em local diferente e afastadas das vestidas com mais simplicidade41. Imagem de autor desconhecido. Fonte: Acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
41
Esta é uma constatação alcançada durante a organização dos dados e dos elementos fotográficos, uma vez que pela singeleza da ilustração e da fotografia, fica mais evidente esta análise. Outro motivo desta afirmação se pode verificar que para a época a população menos abastada não tinha automóvel para participar dos desfiles do corso.
53
Fotografia 20: Desfile de rua em 1930 Em 1930, uma banda tocando na Rua Independência com esquina da Rua Presidente Roosevelt. Pode se notar que logo após a banda vem o corso. Imagem de autor desconhecido. Fonte: Acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
Fotografia 21: 1930 – corso com animais prosseguem Mesmo com o advento do automóvel, os carros puxados por cavalos permanecem, e também a sua participação no corso. Nota se nesta imagem um transeunte lançando uma serpentina na alegoria sobre o carroção. Tal ação é um sinal de que os enfeites agradaram ao lançador do objeto. Imagem de autor desconhecido. Fonte: Acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Fotografia 22: 1930 corso sob a luz do sol Em 1930, o corso era realizado até ao final da tarde, o motivo era que São Leopoldo ainda não tinha um sistema de iluminação elétrica nas ruas. Imagem de autor desconhecido. Fonte: Acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
No carnaval de São Leopoldo, recorremos a Moehlecke (1982), ele nos dá algumas dicas de como se realizava os desfiles do Clube de Recreio Juvenil na década de 1920, onde “[...] o corso de automóveis vinha da Roosevelt e dobrava entrando na Independência em direção ao rio” [...] Moehlecke (1982, p 210).
Fotografia 23: O sentido dos desfiles do corso Corso de 1930 nota se o sentido dos carros, manobrando da rua Presidente Roosevelt em direção ao rio pela rua Independência. Imagem de autor desconhecido. Fonte: Acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Por volta de 1938 com o advento da instalação da luz elétrica na Avenida Independência, iniciaram se os corsos noturnos dos quais não se dispõem de nenhum registro fotográfico. Jornal correio de São Leopoldo de 1938 nos conta:
Figura 5: O Corso noturno. Fonte: Jornal correio de São Leopoldo, 26 de fevereiro de 1938
[...] São Leopoldo [...] com um entusiasmo sem precedentes comemorou o reinado de Momo [...] festas internas, festas externas tiveram um grandioso desenrolar, ultrapassando em intensidade, as outras festividades carnavalescas dos anos anteriores [...] A nossa principal artéria viveu seus dias mais movimentados, principalmente quando da realização da grande novidade para nós: o Corso Noturno 42 [...].
42
Transcrição do Jornal correio de São Leopoldo, 26 de fevereiro de 1938.
56
[...] A cidade toda ficou mais bonita. as ruas vestiram se de fitas multicores e as calçadas dobraram o movimento[...] [...] o que foi bem interessante notar, digno de atenção de todos, sem duvida, foi o modo como se apresentaram os cordões de rua. Os blocos alegres que tantas vezes desfilaram pela urbe leopoldense [...] [...] Pode se ouvir a musica que tocavam e nas canções entoadas pela gente que tão bem representam a musica popular brasileira. E é justamente esta música que precisamos prestigiar. É a música que foi feita pela nossa gente, com os nossos motivos, com as nossas cores, e com as nossas tradições que são tão vivas e tão brilhantes. As musicas ahi estão. As composições mais sonóras, nas harmoniósas [...] é preciso haver quem as interprete, quam saiba popagá las em todos os nossos recantos, em todos os nossos Estados [...] Houve tempo em que, no sul do Brasil, não se conheciam sambas, marchas, frevos, emboladas e outras espécies de musicas nacionaes e regionaes. Com muita dificuldade elas introduzidas, devido a nossa visinhança com paízes de origem espanhola [...] Graças aos movimentos carnavalescos, elas forma descendo o morro, embarcando para o sul, atravessaram mares até chegarem às nossas plagas. [...] E hoje os blocos de morenos carregados pelo sol, desfilam galhardamente e arvoram o pendão alegre de nossas musicas populares. Si há justiça, nesse sentido, ela deve ser feita à gente que tem difundido as nossas mais puras e mais sagradas tradições. É preciso ouvir com atenção um samba nosso ou uma marcha alegre para notar [...] quanta cousa bonita traduzem [...] a música popular brasileira já é um espelho de nossas tradições e tem atravessado fronteiras como padrão de glorias e como expressão de nossas mais ardentes alegrias. Bugre Velho Figura 6: A música começa a ser percebida. Conforme o registro, a música popular brasileira começa a ser percebida e agrada aos apreciadores dos desfiles do corso e do carnaval. Fonte: Jornal correio de São Leopoldo, 10 de fevereiro de 1940.
57
4.4 OS BLOCOS E CORDÕES CARNAVALESCOS
Pode se
relatar,
conforme
Germano
Moehlecke
(1997),
os
blocos
carnavalescos eram essenciais no carnaval, que faziam das festas e incursões pela cidade um verdadeiro festival de alegria e visual, vejamos o que ele relata acerca do Bloco Carnavalesco Os Vagalumes:
O Bloco Carnavalesco Vagalumes [...] Recolhidos à 'floresta' após as pugnas do ano passado, cujas lutas os haviam deixado seriamente trôpegos, pois cumpriram, carnavalescamente falando, a sua nobre missão de divertir os nossos 'povos' no carnaval de 1923, ei los aí de novo os valentes luzeiros com as suas cortes numéricas e musicalmente reforçadas e com uma disposição de combate nunca vista. [...] Para o seu primeiro assalto escolheram [...] o chefe do executivo municipal, Dr. Frederico Wolffenbuttel. Logo nas primeiras investidas, nos discursos brilhantes proferidos se verificou que o assaltado, graças a um hábil espião, soube do ataque que se combinava ao seu reduto e corajosamente enfrentou a luta que, como era de prever, lhe foi favorável. Dias após assaltaram o senhor Leopoldo Hoffmann, que os recebeu galhardamente nos salões da Sociedade Ginástica [...] Moehlecke (1997, p. 87).
Fotografia 24: O Bloco Os Vagalumes. 1923 Bloco Os Vagalumes se repara para apresentação em corso, ao fundo seu automóvel ricamente decorado para o desfile. Foto de autoria desconhecida. Fonte: Imagem do acervo Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Nas primeiras décadas do século XX, era grande a profusão de blocos e cordões carnavalescos, evidenciado pelo grande volume de registros fotográficos. Os blocos, com denominações diversas, geralmente fundadas por membros das elites, representantes das grandes sociedades da cidade como a Sociedade Orpheu, a Sociedade Ginástica, o Clube Recreio Juvenil e o Clube Rio grandense, ente outros.
Nos idos dos anos 1900, o costume dos blocos carnavalescos era de “assaltarem” as residências das pessoas de importância durante o carnaval. A batalha era travada com muita alegria e o dono da casa oferecia grande volume de bebidas e líquidos, que se o bloco consumisse todos os comes e bebes teriam “vencido” o desafio!
Fotografia 25: O Bloco Os Silenciosos 1924 – Bloco Carnavalesco Os Silenciosos. Foto de autoria desconhecida. Fonte: Imagem do acervo Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Conforme verificado, os blocos carnavalescos de São Leopoldo tiveram grande interatividade social, e é onde, por exemplo, “Os Silenciosos participavam do carnaval desde 1925 e provavelmente tiveram grande influência na fundação do Clube de Recreio Juvenil” [...] Germano Moehlecke (1997, p.13).
[...] Carnaval – Como é do domínio publico, o carnaval tá hí. A macacada cá de São Leopoldo, está se mexendo, pois segundo nos consta, vae ser de amargar, a folia este ano aqui nos arraieas sãoleopoldense. O Secretário de S.M. o Rei Mômo, conde espinho de Belze Bute, em Telegrama passado e repassado aos foliões e momiferos aqui da nossa banda, anuncia a chegada de S.M., para amanhã ás 20 ½ hóras no caes da Praça Centenário. As sociedades locaes estão em franco movimento, pois é enorme a azafama em todas élas para receberem a visita honrosa da côrte fidalga de S. M. o rei da folia. Domingo ultimo, com verdadeira surpreza para a turma momifiridica do arraial, siui a rua, um bem organisado Bloco Carnavalesco o qual tem o nome de Crisanthemo... Este bloco percorreu diversas ruas da cidade, assaltando em seguida, o Baar Tupy e Radio Comercial Tupy, onde se fizeram ouvir, exibindo lindas Marchas e Sambas. A direção do Baar e Emissora Tupy, ofertou aos assaltantes Cervejas e Guaranás. É o presidente do interessante Bloco, o Sr. José Domingos, sendo regente da estudantina o professor Clemente Bastos. [...]
Figura 7: Carnaval de 1940 1940 chegada de Sua Majestade (S.M.) O Rei Momo no “caes” e a participação do bloco Crisanthemo. Nota se a escrita gramatical da época. Fonte: Página 1 do Jornal Correio de São Leopoldo, em 22 de fevereiro de 1940. Acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
60
O professor Germano Moehlecke (1997, p.88 ) em seu livro que relata a vida social da cidade de São Leopoldo faz menção à alguns blocos de sociedade, principalmente os blocos ligados a Sociedade Orpheu e ao Recreio Juvenil.
[...] O Bloco Carnavalesco Ba ta clan [...] no dia 16 saíram pela primeira vez, visitando o Bloco Carnavalesco Vagalumes, trocando amistosas saudações e seguindo para um formidável assalto ao senhor Arlindo Ferraz em seu estabelecimento.[...] Domingo, 17, assaltaram o senhor João Groth e amanhã excursionarão à vizinha localidade de Canoas, onde lhes está sendo preparada carinhosa recepção [...]. Ainda, na mesma coluna do jornal, uma notícia sobre o Bloco Carnavalesco Synapisnio onde são mencionados assaltos a Theodomiro Porto da Fonseca e Frederico Wolffenbuttel onde o bloco teve de ‘abandonar’ a praça, pois os assaltados 43 estavam bem municiados [...].
Fotografia 26: Um bloco que marcou sua época 1926 – Bloco Carnavalesco Os Silenciosos. Foto de autoria de Germano J. Stumpf. Fonte: Imagem do acervo Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Significa que as residências em que o bloco visitaria, estavam bem munidos de bebidas e comidas para os carnavalescos dos blocos.
61
Conforme fontes primárias coletadas verifica se que os blocos carnavalescos em São Leopoldo tiveram grande participação na vida social da cidade, e que a elite local “brincava” principalmente nos salões, além de realizarem festas nas mais diversas localidades familiares da cidade. Chegam a organizar em São Leopoldo, por volta de 1930, um concurso para decidir quem era o maior e o melhor grupo carnavalesco, iniciando assim a competição entre estes grupos, que aumentava a cada ano. Percebe se que nesta época é lançada a idéia de competição.
Figura 8: Notícias do Jornal Correio de São Leopoldo Fonte: Jornal Correio de São Leopoldo, página 4 de 10 de fevereiro de 1940.
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Verificando o que escreveu a imprensa local, no Correio de São Leopoldo, pode se notar que em plena Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) o carnaval de São Leopoldo não perde a força e segue a pleno, com todas as atividades da época, como os bailes, os blocos na rua, os assaltos e o corso, além da decoração da Avenida Independência, como pode se verificar no Jornal abaixo:
[...] eram os dias de carnaval [...] eram os dias de alegria que a todos foram dados a gozar no começo de um ano que não sabemos o que está por vir. Por isso o carnaval foi posto no começo do ano porque não sabemos dos mistérios que residem dentro dos trezentos e sessenta dias do ano [...]
Figura 9: Jornal Correio de São Leopoldo Nota se que o carnaval de 1940 foi antecipado para o inicio do ano, devido aos conflitos internacionais gestados nas Guerras Mundiais, que gerava um clima “nebuloso” em relação ao que aconteceria ao restante do ano, como mostra a matéria do jornal. Fonte: Jornal Correio de São Leopoldo, pagina 1º de 10 de fevereiro de 1940.
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Fotografia 27: O Bloco carnavalesco Os Piratas. 1928 – Bloco Carnavalesco Os Piratas. Foto de autoria desconhecida. Fonte: Imagem do acervo Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
Fotografia 28: O bloco carnavalesco Os Gravatinhas 1930 – Bloco Carnavalesco Os Gravatinhas. Foto de autoria desconhecida. Fonte: Imagem do acervo Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Fotografia 29: Foto do bloco carnavalesco Plim Plom Plum 1932 – Bloco Carnavalesco Plim Plom Plum. Foto de autoria desconhecida. Fonte: Imagem do acervo museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
Fotografia 30: O Bloco de sátira Os Dez Errados do Amor 1936 – Bloco Carnavalesco Os Dez Errados do Amor, bloco de sátira. Foto de autoria desconhecida. Fonte: Imagem do acervo Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Fotografia 31: Bloco Confusão em 1941. 1941 – Bloco Carnavalesco Confusão. Foto de autoria desconhecida. Fonte: Imagem do acervo Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
Fotografia 32: Bloco O Primeiro Rei da Folia de 1942. 1942 – Bloco Carnavalesco O Primeiro Rei da Folia, da Sociedade Ginástica. Foto de autoria desconhecida. Imagem do acervo museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
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Conforme Moehlecke nos descreve, em seu livro sobre a Vida Social, usos e costumes, de 1997, ele cita o Jornal O Rio dos Sinos de 6 de fevereiro de 1921, nos lança a seguinte matéria anuncio:
[...] O Bloco dos Fidalgos [...] Diariamente, no pregão de Momo que se aproxima, o decidido 'Bloco dos Fidalgos', constituído por alegres rapazes de nossa sociedade, faz o seu disciplinado 'Zé Pereira' rufar galhardamente. [...] Várias vezes saindo da sua 'caverna' à rua Independência, percorreram as principais via públicas da cidade, assaltando a residência de diversas famílias.[...] Por todas elas foram os divertidos 'fidalgos' recebidos gentilmente, sendo obsequiados com doces e líquidos".[...] Moehlecke ( 1997, p. 86)
Os blocos e os cordões carnavalescos marcaram época na história do carnaval da cidade, e assim como aconteceu nas capitais da República e do estado, São Leopoldo acompanhou o surgimento de um elevado número de agremiações carnavalescas que uniam os foliões da cidade no intuito de se divertirem nas noites de carnaval.
Ao verificar as fontes, tomamos contato com uma vasta lista de todo o tipo de agremiações, e Dentre os blocos e cordões que já participaram do carnaval de São Leopoldo, podemos destacar o bloco carnavalesco Os Esmeraldinos, que é um dos mais antigos ao qual se tomou contato, por volta do inicio do século XIX, e tantos outros como o Bloco Carnavalesco os Fidalgos, o Bloco Carnavalesco os Bandoleiros, Bloco Carnavalescos Silenciosos, Bloco Carnavalesco os Gravatinhas, Bloco
Carnavalesco
os
Vagalumes,
Bloco
Carnavalesco
Bataclam,
Bloco
Carnavalesco Synapismo, Bloco Carnavalesco os Boêmios, Bloco Carnavalesco os Cossacos, o Bloco Carnavalesco Os Barulhentos, Bloco Carnavalesco os Namorados da Lua, Bloco Carnavalesco os Los Cubancheros, Bloco Carnavalesco Dez Herdados do Amor, Bloco Carnavalesco Sentenciados Foragidos, Bloco Carnavalesco Dez Errados do Amor, Bloco Carnavalesco Alvi Verde, o Bloco Carnavalesco Esquadra da Madrugada e o Bloco Carnavalesco Crisanthemo.
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Continuando nossa listagem de blocos, surgiram também o Bloco Carnavalesco Não Me Toque, o Bloco Os Saveiros, Os tripulantes, , o bloco de Os Marujos Tio San, e o Bloco Carnavalesco Dó Re Mi, Bloco Carnavalesco Os Bananas, Bloco Carnavalesco Plim Plom Plum, Bloco Carnavalesco Os Piratas, o Bloco Carnavalesco as Marinheiras, Bloco Carnavalesco Bando da Lua, Bloco Carnavalesco Das Carolinas, Bloco Carnavalesco Desacato, Bloco Carnavalesco Das Odaliscas, Bloco Carnavalesco Os Águias, o Bloco Carnavalesco Os Apaches e o Bloco Carnavalesco Os Corsários. Além é claro dos blocos ligados às grandes sociedades da cidade, como a Sociedade Orpheu, a Sociedade Ginástica, o Clube Rio Grandense, o Clube Cruzeiro do Sul, a Sociedade Bailante Cruzeiro do Sul e O Clube de Recreio Juvenil, este último, era tradição de 1928 a 1942, um ou mais blocos eram criados com o mesmo nome do clube Juvenil para acompanhar a rainha do respectivo ano. Sendo assim, verificamos que existiu uma infinidade de entidades carnavalescas de blocos e cordões, e que se pode aqui ter esquecido algum ou mais nomes de blocos, uma vez que os registros consultados elencam estes nomes, supracitados, mas é de acreditar que existam outros tantos nomes de blocos, cordões, instituições e agremiações carnavalescas e que ainda estão sem um merecido registro.
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5 OS ANOS 50
Um fenômeno que ocorre neste período é o deslocamento da festa carnavalesca dos grandes clubes para as ruas e em forma de grandes blocos, onde mesclam se os membros da elite e a população em geral – acostumados apenas a assistirem aos antigos corsos – e com a participação em destaque aos intelectuais se juntam aos “blocos de pretos”, que seguindo a forma de brincar o carnaval, lançam, de seu jeito, os desfiles de blocos pela avenida Independência, e assim como os corsos do passado, criaram uma perpetuidade em desfilar por este local tão importante para a comunidade leopoldense.
É no final dos anos 50 que surgem na cidade dois importantes blocos, que entremeavam estas fronteiras, de carnaval de salão para o carnaval de rua. Foram fundados dentro das duas Sociedades sociais mais importantes de São Leopoldo. Na Sociedade Orpheu, surge o bloco vermelho e branco: Os Cobras, na Sociedade Ginástica, o bloco azul e branco: Os Dragões, que além de abrilhantar o carnaval de São Leopoldo, traçariam uma disputa de muitas décadas, marcando definitivamente outra “era” do carnaval, e, inclusive inspirando outros blocos e inovando nos desfiles e nas disputas do carnaval.
Inauguram uma nova fase do carnaval de São Leopoldo estas duas entidades carnavalescas, uma vez que modificaram definitivamente a formação dos blocos que participavam dos bailes de salão, levando assim o carnaval para a avenida1, tornando este carnaval uma competição bastante acirrada – uma vez que a festa carnavalesca se tornava cada vez maior, estimulando melhorias e uma maior participação de membros e adeptos destes dois blocos que cresciam, devido à grande rivalidade entre o bloco azul, Os Dragões e o bloco vermelho, Os Cobras.
Outra característica que destacou estes dois blocos carnavalescos é em relação ao avanço na participação do carnaval fora da cidade, e inovaram ao
1
O carnaval na avenida, que é conhecido no senso prático popular como O Carnaval de Rua.
69
competir nos campeonatos estaduais promovidos pela EPATUR2 de Porto Alegre na Avenida Borges de Medeiros.
Serviram de exemplo em organização e competição, uma vez que se organizaram e desenvolveram uma diretoria forte, que consistia em definir planos para
atender aos
regulamentos
competitivos
impostos
pelos
órgãos
que
organizavam o carnaval. O que também destaco a importância destes dois blocos carnavalescos é a constante solicitação destas duas instituições diante do poder público, onde reivindicavam uma política que regulamentasse o carnaval de São Leopoldo, uma vez que as administrações públicas, decidiam pela existência ou não dos desfiles, conforme assim “achassem” que fosse, e muito anos a cidade ficava privada de assistir estas entidades. E mesmo assim, mesmo com o cancelamento do carnaval de rua, estas duas entidades locais promoviam festividades carnavalescas nos clubes e nas ruas da cidade.
Outra importante fase que se iniciou após a ascensão destas duas entidades se dá na fundação de outras agremiações carnavalescas que surgiram ou originaram se de suas dependências, principalmente após algum descontentamento de seus membros, ou de seus declínios devido à má administração de suas diretorias. Podemos citar, como por exemplo, inúmeras entidades, mas pode se verificar o caso do Bloco Unidos da Última Hora, que apesar da vida curta, teve sua origem no descontentamento com a direção da escola original, o Bloco Os Cobras, e que teve após sua fundação um bi campeonato. Entre outras que se dividiram, formando uma nova escola ou bloco, devido a dissidência de alguns de seus componentes, como foi o caso da escola original o Bloco Carnavalesco Os Dragões, que deu origem a muitas outras como no surgimento da escola Acadêmicos do Rio Branco (em 1982) e a Mocidade Independente de (1980) e a Império do Sol em 1988. Outras entidades mais recentes como a Imperatriz Leopoldense (1996), que foi originada de dissidentes da escola Gladiadores da Feitoria. Ressalto aqui também a participação de ex integrantes dos Dragões na fundação da Imperatriz Leopoldense no bairro Feitoria. 2
Empresa Porto Alegrense de Turismo, antigo departamento da atual Secretaria de Turismo de Porto Alegre.
70
Só para esta transição poderíamos construir outras pesquisas e outros trabalhos acerca do surgimento destas instituições sociais populares. Por considerar de grande importância a trajetória destas duas entidades carnavalescas para a história da cidade, lanço aqui um panorama do surgimento destas duas agremiações e de como se configuraram, passando de um carnaval elitista e conservador, para um “novo momento” vivido na capital dos gaúchos, que era a transformação do carnaval em formato de blocos para os desfiles de escolas de samba. Em São Leopoldo quem transformou estas antigas formas de desfiles para o formato atual3, foram o Bloco Os Cobras fundado em 1958 e o Bloco Carnavalesco Os Dragões fundado em 1960.
3
Esclareço aqui que isto ocorreu em dois momentos, uma vez que o primeiro momento era vivido dentro dos salões, no ato de suas fundações (Orpheu e Ginástica) e após no lançamento destas duas agremiações nos desfiles de rua da cidade.
71
5.1 OS COBRAS DO SAMBA
Este Bloco Carnavalesco nasceu na Sociedade Orpheu, de uma idéia dos sócios desta sociedade, história que Arci Rodrigues, um de seus fundadores esclarece: que “há uma história antes desta fundação, e, é necessário entender um pouco1” o contexto carnavalesco da época, onde o carnaval de São Leopoldo, até por volta de 1930, o corso era o predomínio, e conforme Rodrigues, os negros foram os precursores das escolas de samba nos idos de 1950, instalando os blocos carnavalescos, aos moldes da capital e das grandes sociedades carnavalescas, como eram conhecidas. Conta que em São Leopoldo, estes blocos se “armavam” nas proximidades onde hoje é a Praça da Biblioteca, e que na época abrigava o Quartel da Comunicação, e dali “subiam” até a Avenida Independência, no sentido Dom João Becker João Correia atualmente (estas avenidas ainda não existiam). O desfile ocorria até a altura da atual Lindolfo Collor, e após seus desfiles, retornavam até o ponto de origem do desfile, como esclarece Arci Rodrigues.
É nesta época também que havia o costume de se identificar no carnaval, separando se os negros dos brancos, mas de forma “pacífica”, ou seja, de um lado da Avenida Independência ficavam os de etnia branca, e do outro lado, os de etnia negra, mas sem uma regra estabelecida, era uma espécie de identificação por afinidade, esclarece Arci Rodrigues: “fato que aos poucos deixou de existir” e dissipou se com a convivência através dos eventos carnavalescos, onde poderemos dizer, contribuiu para esta dinâmica social.
Contextualizando o surgimento do bloco “Os Cobras”, em 1951 foi fundado no Orpheu um bloco chamado Marujos Tio Sam, em que tem o nome inspirado no modismo “americano”, tão em alta na época2.
1 2
Relato oral de Arci Rodrigues, coletado em 12 de junho de 2010. Na época do projeto Rockfeller e devido ao modismo da American Way of Life (grifo nosso).
72
Fotografia 33: Em 1951 O bloco Marujos 1951 Bloco Carnavalesco Marujos Tio Sam, da Sociedade Orpheu. Foto de autoria desconhecida. Fonte: Imagem do acervo de Arci Rodrigues.
Após alguns meses, no mesmo ano de 1951 fundam também o bloco Os Tripulantes, todos originários dos sócios desta sociedade, uma época em que vinha em profusão o surgimento de blocos e grupos carnavalescos.
Fotografia 34: O bloco Os Tripulantes de 1953. 1953 – o bloco Os Tripulantes da Sociedade Orpheu. Foto de autoria desconhecida. Fonte Imagem do acervo particular de Arci Rodrigues.
73
Mais tarde, o bloco Os Tripulantes dão origem ao Bloco Os Cubancheros, que por volta de 1954, era um bloco de sociedade, majoritariamente masculino por tradição, elegia uma rainha que era a única dentre os demais componentes masculinos, deixando clara a participação mínima das mulheres neste contexto carnavalesco. Neste bloco, a sua característica visual era a de figurinos e fantasias alusivas aos cubanos3.
Por esta época, nos idos de 1954, surge na Sociedade Ginástica, o bloco Namorados da Lua, e que agregaram muitos adeptos e se tornando um grande bloco em contingente para a época. porte, e em1956, o bloco Namorados da Lua vencem a categoria blocos, deixando os membros dos Cubancheros bem frustrados, é quando então, seus dirigentes se reúnem para uma conversa com seus arqui rivais, com a idéia fixa de montar algo grandioso, um bloco carnavalesco único.
Marcaram uma reunião no dia primeiro de março de 1957, no Café Comercial para tratarem da proposta da fusão dos dois blocos, que uniria Sociedade Ginástica e Sociedade Orpheu. Foi quando concordaram em aliar forças, e deparam se com o seguinte dilema: que nome por neste bloco? Chegaram ao consenso, depois de muito discussão e muitos palpites e sugestões. Bem, esclarece Arci, no próprio Clube Comercial, havia ali, um clube de basquete chamado de “Os Tigres”, que era de Rui Carlos Osterman4, pois o Comercial era do pai de Osterman. O nome original de fundação foi: “Cordão Carnavalesco Os Cobras do Samba”, que vem de uma conotação de que quem é “cobra” em alguma atividade, indivíduo
muito
capaz,
que
revela
grande
competência
em
determinada
especialidade, ser cobra significa ser “fera”, ou seja, ser bom ou ser fera no samba, ou fera na arte de fazer o bom carnaval. Em 1958 desfilam pela primeira vez, ou “saem5”, como dizem os carnavalescos da época, e para que o nome “pegue melhor” entre seus adeptos e na comunidade, retiram o complemento do nome “do
3
Povo da ilha de Cuba, de caráter, ou ainda característico e alusivo ao vestuário cubano. Rui Carlos Osterman, que nasceu em 26 de setembro de 1934 na cidade de São Leopoldo. O "Professor", como é carinhosamente conhecido, já foi técnico e jogador de basquete, professor de filosofia, político e secretário estadual de Ciência e Tecnologia e da Educação. Hoje, trabalha na rádio Gaúcha, onde ingressou em 1978, como jornalista e comentarista esportivo, além de assinar uma coluna diária no jornal Zero Hora, é escritor. 5 Saem, significa sair, ou seja, ir para a rua, e na gíria mais popular: “botar o bloco na rua”. 4
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samba” e deixam apenas o nome “Os Cobras” como definitivo. E a partir desta feita, sagram se seis anos consecutivos campeões. Seu símbolo, inicialmente era a cartola sobre um par de luvas, que lembrava a fidalguia, e deveria lembrar também que os magistrados, os intelectuais, o que reforçaria a expressão “Os Cobras” na arte de fazer Samba.
Fotografia 35: O estandarte de 1958 do Bloco Os Cobras 1958 – o recém criado Bloco Carnavalesco Os Cobras. Foto de autoria desconhecida. Acervo de Arci Rodrigues, na foto à direita, em frente aos demais ritmistas, com as crianças.
Os avanços em seus trabalhos ocorreram quando convidam Nilo Amaro e seus cantores de ébano6, que ensinaram muitas lições do mundo do samba, como por exemplo, as especificações e o formato de uma bateria de Escola de Samba do Rio de Janeiro, contando em tempo de percussão, ou seja, com uma bateria dividida em tempo de marcação, onde há a marcação de primeira, a marcação de segunda, de terceira, de quarta, a introdução do repenique, que para os cariocas era repique:
A nossa bateria, depois das lições de Nilo Amaro, ficou muito boa, tão boa que o pessoal das escolas mais antigas de Porto Alegre nos parabenizavam [...] o próprio Jacão, que desfilava no Gandoleiros7 nos apertou a mão depois de um desfile disputadíssimo [...] dizendo que aquilo sim era bateria carioca, com o legítimo samba de rua [...] o pessoal na Borges de Medeiros ficavam eufóricos
6
Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano era um grupo de sucesso de músicas de MPB dos anos 1950 e 1960. 7 Bloco Carnavalesco Gondoleiros de Porto Alegre, principal rival de Os Cobras na capital.
75 quando começávamos nossos desfiles... a imprensa citava nossas passagens , quando entrávamos no desfile..[...]. (informação verbal)”8
Percebe se que do convívio junto aos cariocas aprenderam muitas lições, como desenvolver os temas de enredo, como relatar a organização e a preocupação. Assim Os Cobras seguem sua trajetória, com as lições aprendidas, em 1969 com o tema Boni e Cleide9, e baseados no filme, desfilaram com figurinos idealizados todos em preto e branco para dar maior fidelidade ao tema:
[...] nós desenvolvemos o tema todo ele baseado no filme, foi um sucesso, pois desfilamos com carros, motos [...] as roupas todas de época, desenvolvidas com materiais sem muito brilho e de muito contraste do preto e do branco, era bem diferente [...] na frente do desfile vinha um automóvel e desciam dele uns camaradas com arma em punho [...] claro que era pura em ascensão e não deu outra [...] ganhamos o concurso estadual na Borges de Medeiros em Porto Alegre.10
Em 1970, todo em vermelho, o tema do bloco foi “o carnaval era assim”, sagrando se bi campeão em Porto Alegre. Em 1971, o bloco tinha por puxador11 o Jaguarão, um portoalegrense tido como um dos melhores de sua época, por sua firmeza na hora de solar as músicas e sambas. Nesta época também, a disputa carnavalesca estava firmada em Porto Alegre, onde o bloco carnavalesco investia toda a sua energia no disputado concurso estadual de blocos carnavalescos. Acontece que neste mesmo ano de 1971, o bloco “Pra que Tristeza”, do Gandoleiros, leva o puxador Jaguarão para “puxar” seus sambas, deixando desfalcado “Os Cobras”, e uma grande tristeza pairou entre os membros do bloco leopoldense. Seus dirigentes puseram se a
8
Depoimento coletado de Arci Rodrigues, fundador de Os Cobras, no dia 07 de julho de 2010. Bonnie and Clyde, que no Brasil ficou conhecido como Bonnie e Cleyde Uma Rajada de Balas foi um filme norte americano de 1967, produzido e idealizado por Warren Beatty e dirigido por Arthur Penn.É considerado um dos mais importantes filmes da época, responsável pela mudança na linguagem cinematográfica de Hollywood nas décadas seguintes. Conta a história de um jovem casal de assaltantes de banco e assassinos que aterrorizaram os estados centrais dos Estados Unidos durante a Grande Depressão naquele país. Fonte: The Internet Movie Database. 10 Depoimento coletado de Arci Rodrigues, fundador de Os Cobras, no dia 07 de julho de 2010. 11 Puxador é o termo utilizado para o cantor oficial do samba, ou interprete das músicas, nos blocos, cordões e escolas de samba. 9
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pensar numa forma de reverter esta situação: “foi quando Jorge teve uma idéia, a de contratar um cantor bem famoso! Pensaram no Caubi Peixoto e ele aceitou!”12
Fotografia 36: O Cantor Caubi Peixoto, contratado em 1971 1971 – o bloco Os Cobras sagra se tri campeão do estado, na imagem Caubi Peixoto com o prefeito de Porto Alegre Telmo Thompson Flores. Foto de autoria desconhecida. Fonte: Acervo particular de Arci Rodrigues.
Em 1972, a EPATUR elege “Os Cobras” Hours Concurs13, e patrocina uma viagem para a Argentina – o destino foi as cidades de Buenos Aires, Balcarse, Mar Del Plata, onde participaram da inauguração de um autódromo e fizerm diversos shows. Nesta época seu puxador era Agnaldo Raiol, e neste ano desfila também Hours Concurs em São Leopoldo.
12
Relato Oral de Arci Rodrigues, coletado em 07 de Julho de 2010. A expressão Hors concours, cuja pronuncia é “ór concur”, é uma expressão de origem francesa que tem como significado estar fora da competição por créditos e honras alcançadas. 13
77
5.2 OS DRAGÕES
Em 12 de fevereiro de 1960, surge na Sociedade Ginástica de São Leopoldo, o Bloco Carnavalesco Os Dragões, que viria a inaugurar, nos anos 1970 e 1980, uma nova configuração e outra concepção de carnaval na cidade: o carnaval conhecido como aguerrido, organizado e disputado muito acirradamente com o já conhecido Bloco Carnavalesco Os Cobras. É por volta desta época (1960) que surge outro bloco de grande importância para a história social da cidade, na Sociedade Ginástica, como nos esclarece Arci: [...] “surge o Bloco Carnavalesco Os Dragões, que utilizaram este nome exatamente para afrontar os componentes d’Os Cobras. E as cores[...] o azul e branco. Pronto! Estava criada a rivalidade!14
Estas duas entidades, organizadas e aguerridas aos desfiles carnavalescos da cidade, revolucionariam nas montagens das entidades carnavalescas, uma vez que modificaram a forma das “novas entidades” ao se apresentarem nos desfiles da cidade, e extrapolando os limites de uma agremiação municipal, lançando se na participação estadual do carnaval. É com o exemplo do Bloco Os Cobras, que Os Dragões lançam se para as “disputas”15 carnavalescas na capital – Porto Alegre.
Para esta feita, o Bloco Os Dragões modifica sua estrutura de base, passando de Bloco Carnavalesco para a formação de Escola de Samba, por conseqüência aumenta seu contingente (de número de adeptos e de participantes), para concorrer no concurso promovido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, sagrando se campeão por duas vezes (dois anos:1983 e 1984) na categoria “visitantes”, Blocos do Interior do carnaval promovido naquela cidade.
14 15
Relato de Arci Rodrigues, fundador de Os Cobras, coletado em 07 de julho de 2010. Disputa neste caso se dá em relação ao concurso de melhor bloco ou escola de samba, ao qual as entidades carnavalescas se inscrevem e concorrem, preenchendo alguns requisitos básicos e obrigatórios.
78
No registro da Revista Rua Grande, a transformação do
Bloco
Dragões
Carnavalesco em
1985
Os
para
o
formato de Escola de Samba, um requisito para concorrer nas categorias “terceiro
de
acesso,
grupo”
conhecido
na
o
como capital
Alegre, fase marcada
era Porto
em um
tempo da disputa carnavalesca.
Os Dragões marcam seu pioneirismo
nesta
fase,
e
buscam na capital do estado um
destaque
organização Escola
de
em
para
sua
forma
Samba.
de
Para
a
cidade esta decisão impactou nas demais instituições ligadas ao carnaval, uma vez que todas almejavam alcançar o grau de competência do antigo bloco que Figura 10: Os Dragões tornam se Escola de Samba. A transformação dos Dragões em Escola de Samba. Fonte: Revista Rua Grande, 1985, página 15.
se
tornava
agremiação
uma
carnavalesca
seguindo a tendência nacional: a
disputa
Samba.
das
Escolas
de
79
6 OS ANOS 80
O carnaval de São Leopoldo a partir dos anos 1980 assumiu outro formato, seguindo o exemplo dos Blocos d’Os Cobras e Os Dragões, que transformaram suas bases para o formato escola de samba, aliado ao crescimento desordenado da cidade (aumento massivo da periferia), que verifica se no aumento de adeptos dos blocos e no surgimento de novas entidades carnavalescas.
Outra fase importante, ligada ao crescimento da participação popular ao carnaval de São Leopoldo, ocorre nos anos 1980 e 1990, quando de um crescimento acentuado de sua população, que ocorre devido às emigrações no estado, em relação ao êxodo rural (as populações do campo afluíam para a região metropolitana de Porto Alegre), um fenômeno nacional, que por conseqüência incham o volume de contingentes da cidade a procura de vagas nas empresas devido ao fluxo de industrialização e das “facilidades” da cidade. Por este fenômeno, e por conseqüência deste, a periferia da cidade aumenta vertiginosamente.
Verifica se que a partir dos anos 90 do século XX, a grande maioria das entidades carnavalescas da cidade assumiu as características que conhecemos na atualidade e conta com sete entidades carnavalescas na categoria escola de samba, e que mantêm a tradição dos desfiles carnavalescos da cidade. Estas escolas de samba têm uma trajetória recente, se levarmos em consideração os quase 113 anos de registros1, uma vez que a escola há mais tempo em atividade conta com 28 anos de existência.
Estas entidades fazem parte de outro fenômeno ligado à urbanização e ao crescimento desordenado da cidade a partir dos anos 1980, e que tem uma forte ligação com o carnaval de São Leopoldo: o carnaval avança para as periferias, aproximando se de seus realizadores. Este fenômeno ocorre, uma vez que o carnaval antigo da cidade era realizado no centro e nas principais sedes de
1
Os 113 anos foram calculados a partir do ano de 2010 em relação ao primeiro registro encontrado para o carnaval de São Leopoldo durante a pesquisa: ano de 1897.
80
sociedades da elite, e após, passa por uma reformulação e ganha adeptos das classes média e baixa da população.
Gráfico 1: O Crescimento populacional de São Leopoldo. Fonte: Dados compilados pelo autor do site da Fundação de Economia e Estatísticas – FEE.
Desta forma, pode se compreender o aumento e a participação no carnaval da população localizada nas periferias, ligadas ao grande crescimento ocorrido nas décadas de 80 e 90 do século XX2.
2
Gráfico elaborado a partir de informações coletadas no site da FEE – Fundação de Economia e Estatísticas, graficamente nos mostra o crescimento vertiginoso na população da cidade de São Leopoldo, devido à emigração, mais acentuada nos anos 1980 até 1990(ver ascensão da reta numero 2). Dados numéricos (quantidades da população) coletados no site em 22 de agosto de 2010.
81
O carnaval se transforma novamente e chega a uma popularização maior, indo (as sedes das associações carnavalescas) em direção aos bairros da cidade, aproximando se das suas comunidades, adentrando rumo à periferia, em um fenômeno que chamaremos de “descentralização” do carnaval. Pode se notar a semelhança que teve com o carnaval das grandes metrópoles do país, como o caso do Rio de Janeiro e de São Paulo3, onde houve o aumento desordenado da população e também do crescimento de adeptos a esta cultura que viria a se configurar como eminentemente popular. Estas agremiações seguiram muito de perto o exemplo dos antigos blocos, os Cobras e os Dragões e configuraram se, estas entidades burlescas, em escolas de samba, que fazem parte do atual cenário carnavalesco da cidade.
3
Para maiores informações sobre a relação do crescimento da cidade, o exemplo do caso de São Paulo e a relação deste crescimento com o carnaval, ver a obra de VON SIMSON (2007).
82
6.1 AS ENTIDADES DO CARNAVAL NA ATUALIDADE
A Sociedade Cultural Beneficente Acadêmicos do Rio Branco foi fundada em 17 de abril de 1982, mas apenas desfilou em 1984 é a entidade em formato de Escola de Samba há mais tempo em atividade na cidade de São Leopoldo. Sua sede está localizada no bairro Rio Branco, as cores que a entidade usa para lhe representar são o verde e o rosa, e tem por símbolo o trevo de quatro folhas.
Fotografia 37: Acadêmicos do Rio Branco A Sociedade Cultural Beneficente Acadêmicos do Rio Branco em desfile. Foto de autoria de Ricarodo Fuchs. Fonte: Foto de coletada no site do Clicrbs.
83
A Sociedade Cultural Beneficente e Carnavalesca Império do Sol foi fundada em 20 de fevereiro de 1988 no bairro Rio Branco com dessidentes da escola Acadêmicos do Rio Branco e do bloco Os Dragões. A escola desfila em São Leopoldo e disputa, atualmente o Especial do carnaval de Porto Alegre. Tem por cores o verde, o vermelho e o amarelo, e seu símbolo é uma coroa real sobre um sol.
Fotografia 38: Desfile Império do Sol em São Leopoldo 2006 – Desfile oficial em São Leopoldo. Fotografia de autoria de Ricardo Fuchs Fonte: Site da prefeitura municipal de São Leopoldo.
Fotografia 39: Império do Sol no desfile em Porto Alegre 2010 – Desfile da escola de samba Império do Sol em Porto Alegre. Fotografia de autoria de André Neto. Fonte: Prefeitura Municipal de Porto Alegre.
84
A Sociedade Recreativa Cultural Beneficente Imperatriz Leopoldense foi fundada em 15 de abril de 1995 no bairro Feitoria. As cores da entidade são o vermelho e o branco. A escola desfila em São Leopoldo e disputa o Grupo de Acesso do carnaval de Porto Alegre.
Fotografia 40: Escola de samba Imperatriz Leopoldense 2009 a Imperatriz Leopoldense no carnaval de Porto Alegre. Foto: Ricardo Giusti. Fonte: Prefeitura Municipal de Porto Alegre.
Fotografia 41: Escola de Samba Imperatriz Leopoldense Imperatriz em desfile no Sambódromo de Porto Alegre – grupo de Acesso em 2009. Foto: Ricardo Giusti. Fonte: Prefeitura Municipal de Porto Alegre.
85
A Sociedade Cultural Beneficente União da Vila, escola de samba fundada em 4 de março de 2004, no bairro santo André, tem nas cores da escola o vermelho, o preto e o branco, seu símbolo é um aperto de mão. A escola é fundada por dissidentes da Escola de Samba Acadêmicos do Bairro Rio Branco.
Fotografia 42: Escola de Samba União da Vila Em apresentação da bandeira, o casal de mestre sala e porta bandeira da União da Vila em uma apresentação pelas ruas do bairro Rio Branco. Foto de autoria desconhecida. Fonte: acervo particular de Priscila Carvalho, imagem gentilmente cedida.
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A Sociedade Recreativa e Cultural Imperadores do Sul, a Imperadores do Sul como é conhecida, foi fundada em março de 2006 no bairro Cohab Duque, sendo a única escola de samba representante da zona sul da cidade de São Leopoldo. Suas cores são o azul, o vermelho e o branco e seu símbolo é uma coroa guarnecida por três leões.
Fotografia 43: A Escola de Samba Imperadores do Sul A Sociedade Recreativa e Cultural Imperadores do Sul, durante apresentação durante ensaio geral em São Leopoldo. Imagem de Paulo Bizarro. Fonte: site Viva São Léo.
87
A Academia de Samba da Zona Norte, que foi fundada em 2006, no bairro Campina, representando a comunidade da Zona Norte da cidade. Jovem entidade ligada à cultura do samba e do carnaval leopoldense. As cores da entidade são o amarelo, o vermelho, o azul e o branco, tendo como símbolo a arara vermelha.
Fotografia 44: Academia de Samba da Zona Norte – Estandarte 2009 – Porta Estandarte em desfile da Academia de Samba da Zona Norte, Foto de autoria desconhecida. Fonte: site Viva São Léo.
Fotografia 45: Escola de Samba Academia de Samba 2009 – Mestre sala e Porta bandeira em desfile a Academia de samba da Zona Norte, Foto de autoria desconhecida. Fonte: site Viva São Léo.
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A mais recente entidade carnavalesca é a Sociedade Recreativa Cultural Estação Primeira de São Léo, foi fundada em 17 de março de 2007, pelos integrantes da Ala do Sol, que desfilava em escolas de samba de São Leopoldo, como por exemplo nas escolas Império do Sol, Acadêmicos do Rio Branco e Imperatriz Leopoldense. Suas cores são azul e branco e o simbolo é o papagaio Zé Carioca.
Fotografia 46: Bandeira da Estação Primeira de São Léo Layout da bandeira da escola Sociedade Recreativa e Carnavalesca Estação Primeira de São Léo. Fonte: foto do acervo da escola, gentilmente cedido.
Fotografia 47: Ensaio da Escola Estação Primeira de São Léo Ensaio da Sociedade Recreativa e Carnavalesca Estação Primeira de São Léo. Imagem de Paulo 4 Bizarro. Fonte: site Viva São Leó .
4
A preparação e ensaio da Estação Primeira de São Léo. Imagem de Paulo Bizarro. Imagem coletada no site: Viva São Léo. Acesso em 01 de agosto de 2010.
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Nos anos 1980 e 1990, ainda surgiram outras entidades que não estão mais em atividade, e que tiveram uma trajetória ligadas às transformações urbanísticas e ao crescimento dos bairros da cidade, com o aumento massivo das periferias, onde estas entidades viriam a representar estas “partes” da cidade, transformando os bairros e vilas em “guetos” carnavalescos..
Verifica se uma grande quantidade de entidades que iniciaram uma trajetória social, mas que por motivos afins, deixaram de existir, como são os exemplos, da escola de samba Mocidade Independente do bairro Rio Branco, o Bloco e escola Unidos da Última Hora, a escola de samba Unidos da Feitoria, que mais tarde foi “rebatizada” de Estado Maior da Feitoria, o bloco Os Falcões, e também Os Cobras e Os Dragões, tão importantes para o crescimento do carnaval da cidade, deixam de promover suas atividades carnavalescas. Há também o exemplo de algumas entidades mais recentemente desativadas como a escola de samba Gladiadores da Feitoria.
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6.2 ASSOCIAÇÃO DAS ENTIDADES CARNAVALESCAS
Em 2001 um antigo desejo das entidades locais foi concretizado, desde a idealização dos antigos blocos dos Cobras e os Dragões, e o ensejo de algumas lideranças que almejavam uma maior organização das entidades carnavalescas, e de uma forma de garantir que os desfiles realmente acontecessem, temendo as inconstâncias em relação às administrações que vez por outra decidia cancelar os desfiles. O desejo antigo enfim ocorre, após a união das entidades carnavalescas de São Leopoldo, acontece a fundação da Associação das entidades carnavalescas, com o nome de Associação das Entidades Culturais e Recreativas e Carnavalescas de São Leopoldo.
Figura 11: Cancelamento do Carnaval de Rua em 1974 O anúncio da não realização dos desfiles de rua. Fonte: Jornal Vale dos Sinos, 28 fev 1974.
Esta reivindicação é antiga, e vem há tempos que o Rei momo Sacão como era conhecido, já em 1981 defende a idéia de uma associação das entidades carnavalescas, e o que impedia esta criação era exatamente a falta de “união” das lideranças carnavalescas, com pode ser verificado no exemplar do Jornal Vale dos Sinos, suplemento especial para o carnaval em 20.02.1980:
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Figura 12: Matéria sobre os problemas do Carnaval de São Leopoldo. 1980 – Fonte: Jornal Vale dos Sinos, suplemento especial para o carnaval. 18 fev 1980.
Figura 13: Detalhe da capa Jornal VS Protesto na Capa, no topo do Jornal Vale dos Sinos de 05 de março de 1965. Onde há a constatação de que as camadas mais humildes da cidade desfrutam apenas dos desfiles do carnaval de rua.
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Figura 14: Jornais relatando o cancelamento dos desfiles 1987 – Jornal Vale dos Sinos, capa e página 5, referentes ás suspensões dos desfiles oficiais. O acordo das duas escolas: Dragões e Cobras, que voluntariamente “fazem” desfile para o povo. 02 mar 1987.
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Figura 15: O desabafo do Rei Momo 1987 – Revista Rua Grande, o desabafo do Rei Momo Aldivan, em reportagem sobro o cancelamento do carnaval de rua de 1987. Fonte: Revista Rua Grande, p.7. Data: 02 mar 1987
Acredito ser importante ressaltar que por diversos anos o carnaval de rua de São Leopoldo foi suspenso pelo poder público, seja ele pela secretaria ou departamento responsável, ou pela própria administração municipal. Estes eventos tornaram se freqüentes nos anos 60, 70 e 80 do século XX e em 20015, foram suspensos os desfiles. As entidades carnavalescas da cidade com as dificuldades impostas pela falta de investimentos, pelo cancelamento da ajuda de verbas públicas ficavam estas agremiações muito debilitadas, algumas deixando inclusive de existir, mas é importante registrar também que em sua maioria não deixavam de realizar, mesmo que de forma resumida, seus eventos e compromissos carnavalescos com a população local e também em eventos fora da cidade.
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Através desta pesquisa, levantaram se os anos em que não houve desfiles oficiais na cidade, devido ao seu cancelamento pelo poder público: 1965, 1972, 1973, 1974, 1975, 1976, 1977, 1987 e 2001.
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O histórico acontecimento do carnaval de São Leopoldo acorreu em 2001, com as forças carnavalescas reunidas, assim como sonhavam os defensores do samba há tempos atrás, e só foi possível com a problemática criada pela prefeitura da cidade que “cancelou” no inicio do mesmo ano os desfiles carnavalescos da cidade. Conforme o Jornal Vale dos Sinos, que emitiu uma reportagem significativa para a população, onde mostra a união de leopoldenses em prol da manutenção do carnaval de São Leopoldo:
Figura 16: A fundação da Associação Carnavalesca 2001 – Na matéria do Jornal Vale dos Sinos, do caderno Geral, página 3 de terça feira, 23 de outubro de 2001, o registro da criação da AECRCSL, a Associação das Entidades Culturais, Recreativas e Carnavalescas de São Leopoldo.
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Na matéria do jornal Vale dos Sinos, relata se a façanha dos presidentes e carnavalescos ao criarem a Associação: Criada Associação de Carnaval [...] os carnavalescos de São Leopoldo ago ra contam com sua entidade. Ontem a noite, foi oficializada a Associação de Entidades Cultural Recreativas e Carnavalescas de São Leopoldo, que terá a missão de decidir sobre o desfile de Carnaval marcado para 9 de fevereiro de 2002. A advogada e colunista social do VS Angélica Nery Maciel foi escolhida para presidir a associação. A criação da entidade já vem sendo discutida desde o inicio do ano, logo após o Carnaval, com o secretário do Meio Ambiente e Desenvolvimento e Turismo Henrique Prieto, e a diretora de Turismo, Marisol Hoff [...]Os representantes das escolas de samba Império do Sol, Imperatriz Leopoldense c Acadêmicos do Rio Branco integram a Associação. A Gladiadores, e Estado Maior da Feitoria ficaram de fora porque não apresentaram a documentação. Mas elas passarão integrar a entidade assim que colocarem a documentação em dia[...] o presidente da escola de samba Império do Sol Alzemiro Jacintho da Silva.[...]a entidade e a prova de que os carnavalescos estão organizados e com muita vontade de continuar fazendo um bom carnaval[...] o presidente da Acadêmicos do Rio Branco, João Benedito Vieira diz que a implantação da associação é a concretização de um antigo sonho dos carnavalescos[...] ‘a Associação é o primeiro passo para trazer de volta o carnaval de rua que São Leopoldo merece’[...] a diretoria da Associação ainda é formada por Otávio Luis Marques Pinto, o Tavinho (vice presidente), Débora Noschang (secretária Geral, Tânia Nara da Silva (secretária adjunta), Cleber Martin (tesoureiro geral), Ivana Gorete de Souza Pinto, a Branca (tesoureira adjunta). Rubem Ávila de Souza (assessor técnico), Adriano Maciel (assessor jurídico). O Conselho Fiscal é integrado por: Adalberto S. Jung, Maurício da Rosa Thomas e Miguel Ângelo Lopes de Abreu e suplentes: Jesse Brandão, Ramão de Carvalho e Raul Cesar Senna[...]
Abaixo o convite para o evento oficializando a criação da Associação das Entidades Culturais, Recreativas e Carnavalescas de São Leopoldo, que foi em 20 de novembro de 2001, tendo como a primeira presidente Angélica Nery Maciel.
Figura 17: Convite para posse da direção da Associação. Fonte: arquivo pessoal de Angélica Nery, gentilmente cedido.
20 de novembro de 2001.
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7 ENSAIO GERAL: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Realizando um “ensaio geral1” do carnaval de São Leopoldo, este pode ser verificado hoje como um grande evento que ocupa importante espaço na vida social da cidade. Podemos afirmar que a vida social leopoldense pode ser compreendida e estudada pelo viés carnavalesco, uma vez que a festa acompanhou, desde o início das atividades sociais e também esteve ligado aos acontecimentos da sociedade local, como verificamos nas análises das fotografias.
Pode se dizer que na cidade de São Leopoldo, teve início um “carnaval folião2”, onde por volta de 1880, o carnaval era realizado através de uma série de brincadeiras e folguedos, o qual aumentava, no sentido de criatividade e de adeptos, conforme a cidade e o seu contingente cresciam. Participavam destes folguedos principalmente os jovens – mas não necessariamente apenas estes – que desenvolviam brincadeiras ao gosto medieval para “curtirem” o período pré quaresma.
Até por volta de 1897, as brincadeiras eram inspiradas e muitas vezes “copiadas” da Capital – Porto Alegre – onde o entrudo português, herdado dos açorianos, era a forma mais comum e difundida de divertimento social no carnaval, principalmente pela juventude, com práticas de “molhadelas” e dos líquidos sujos, uma forma de constranger aos passantes e transeuntes que utilizavam as principais ruas da cidade, conforme verificamos na obra de Athos Damasceno (1970, p.121), em que as famílias leopoldenses reclamavam ao então Presidente (hoje governador) da época, o senhor Julio de Castilhos, dos excessos praticados durante o carnaval do ano de 1897 em São Leopoldo.
A partir dos idos de 1900 a elite local, inspirada nos movimentos do Rio de Janeiro, que por sua vez, importavam da França os costumes conhecidos como 1
Ensaio Geral, no senso comum carnavalesco, é quando as entidades carnavalescas, “testam” seus planejamentos e retomam suas atividades práticas, para eliminar erros e retificar seus planos em prol ao tema de enredo (pesquisa histórica ou conto a ser desenvolvidos). 2 Carnaval Folião é uma forma de “brincar” despreocupadamente, sem regras, as brincadeiras são inventadas no momento pelos participantes e pelos transeuntes que por ventura passam pelas ruas, e que fazem parte das brincadeiras.
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Belle Époque3, que, por conseguinte, chegam aos grandes centros, sendo incorporados ao modo de vida das principais cidades do Brasil. Em solo brasileiro, a capital da República dita a “moda” carnavalesca do país – e é assim até os nossos dias – e as elites locais, como é o exemplo de São Paulo4, Porto Alegre, e também em São Leopoldo, onde adotam a forma dos carnavais franceses, que são considerados “chiqs”, ou seja, a “finesse” dos costumes e boas condutas conforme o formato francês. Esta prática é adotada em detrimento ao entrudo, que não deixa de existir em São Leopoldo, nem na capital gaúcha – Porto Alegre, conforme Athos Damasceno (1970), tão pouco no carnaval carioca, conforme Felipe Ferreira (2005).
A população brasileira queria se “desprender” do formato violento do carnaval lusitano do entrudo, e passa a praticar as formas de um carnaval europeu, mas é importante dizer que o carnaval francês, em solo brasileiro se configurou com os traços aqui encontrados, ou seja, adaptou se, na tentativa de transformar o carnaval do Brasil e de traçar uma nova identidade para a recém formada República. Os costumes da elite brasileira passam a ser “ditados” pelas posturas francesas como nos mostra o artigo de Zanon (2006):
[...] o Rio transformou se no cartão postal da República. Adotou o espírito francês da Belle Époque. Era importante comportar se como um aristocrata europeu, pois tudo o que destoava deste quadro era repelido pela sociedade. Para tanto, fazia se necessário “civilizar” o Rio; identificar se com a aristocracia européia, com o claro intuito de legitimar sua condição de superioridade; falar francês, consumir a moda, a literatura, as artes, a cultura, freqüentar soirées e bal masqués promovidos pelas bien nées da elite carioca; vestir se como os aristocratas e os dândis, consumir mercadorias de luxo, enfim, ser ‘civilizado’ [...]
É importante saber destas transformações e destas etapas para compreender a contribuição destas configurações para o surgimento de uma bela época brasileira5, mas com características incorporadas ao formato brasileiro, conforme nos esclarece Felipe Ferreira (2005). 3
A Belle Époque, ou a bela época na tradução literal, foi um período de valorização à cultura e da intelectualidade cultural européia ditada pela França na Europa. Com seu áureo período no final do século XIX, até o inicio da Primeira Guerra Mundial(1914). 4 Exemplo de crescimento urbano e carnaval, ver Olga Von Simsom (2007) 5 A Bela época Brasileira, ou Belle Époque Tropical, período marcado pelos traços culturais incorporados da França e Itália foi iniciado após a Proclamação da República (1889). A idéia da
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Desta feita, a elite leopoldense “adota” as formas de postura, ao modo francês e carioca, que também influenciava as festas carnavalescas de Porto Alegre. E passam assim, esta elite local, a promover bailes requintados, e a partir do início do século XX, tardiamente, passam a viver sob a “moda” francesa. É nesta época que surge o Clube Recreio Juvenil, que lançam seus Grandes Bailes de Carnaval, realizados nas duas maiores sedes de sociedades da cidade: Sociedade Ginástica e a Sociedade Orpheu, que faziam seus bailes e festas burlescas para as camadas mais abastadas da cidade.
O carnaval na cidade de São Leopoldo é tão vibrante – como era relatado, por exemplo, pela imprensa local – e esteve sempre ligado aos costumes da cidade, desde que ela se tornou sociável, pode se verificar que o período carnavalesco era importante em seu calendário festivo. A elite o considerava ponto fundamental das festividades que colocava a festa como uma prioridade ao início dos anos que seguiram.
É possível notar, por exemplo, que nos períodos das duas grandes guerras mundiais, onde durante a Iª Guerra Mundial (1914 a 1918) e também durante a IIª Guerra Mundial (1939 a 1945) a população leopoldense faz seu carnaval, e seguiu a pleno em suas festividades carnavalescas, dos bailes, nem parecendo que o mundo estava em conflito6.
Isto pode ser evidenciado nas fontes primárias coletadas, sobre os bailes e escritos pela imprensa local convocando seus sócios. Há também registros da magnitude dos grandes bailes, flagrados pelas imagens fotográficas, e desta forma, verifica se a importância que a sociedade leopoldense aplicava aos eventos carnavalescos.
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elite, que entendia ser necessário inaugurar uma nova era no país, desvalorizando o que lembrava o Império e a colonização portuguesa. Instauram grandes obras na arquitetura e na incorporação de costumes “requintados”. Há também que levar em consideração que a partir de 1943 e 1944, um silêncio geral sobre as festividades da cidade, o que pode estar ligado aos grandes ataques da 2ª Guerra Mundial.
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Pode se perceber, por estas características pujantes da elite, que o povo em 7
geral , era praticamente excluído dos grandes eventos carnavalescos. Verifica se que para participar dos grandes bailes carnavalescos, era necessário ser membro das Grandes Sociedades, e fazer parte da elite social da cidade, no sentido mais simples: para participar destes bailes e dos eventos festivos ligados ao carnaval era necessário “ter posses”. Outra prerrogativa era a participação dos grandes Corsos, também promovidos pelas camadas mais “abastadas”, e onde, para participar como agente carnavalesco era necessário ter um automóvel, o que se pode compreender, que por volta dos anos 1910 – o ano de surgimento do automóvel em São Leopoldo – e dali em diante, a participação do carnaval era privilégio apenas das famílias ricas da cidade.
A população em geral participava apenas assistindo a festa, ou seja, quando esta elite saía às ruas da cidade, a população em geral se divertia assistindo aos grandes desfiles, de corso, dos cordões e das bandas de música que os acompanhava. Desta forma, conforme nos conta Germano Moehlecke: “as populações mais humildes buscam em suas residências brincar o carnaval”8, de uma forma mais simplificada, e é ainda uma lacuna a ser preenchida, uma vez que não há, ou não foram encontrados registros oficiais que dêem conta destas festividades9.
Por volta de 1950, em que a população mais humilde “cria” seus próprios cordões, e que mais tarde serão chamados de blocos, uma vez que estes cordões avolumam se em contingente e adquirem formato de blocos. Esta modificação é devido à forma com que estas populações desenvolviam seus desfiles, em forma de uma procissão e com cores diversas, numa forma de um “ritual prazeroso”, onde o ponto alto era a música e a dança dos “blocos de pretos10”, que eram diferenciados das configurações até então utilizadas, pois tornaram os desfiles mais animados, movimentados, chamando a atenção para a organização, na padronização das fantasias e na desenvoltura destes participantes, alegres e organizados.
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O povo aqui ganha uma conotação e um entendimento relativo ás camadas mais humildes da população. 8 Relato de Germano Moehlecke, coletado em 01 de agosto de 2010. 9 Talvez por sua natureza humilde, onde não houve interesse da imprensa em registrar tais acontecimentos e ainda por esta população não prover de máquinas fotográficas. 10 Como eram conhecidos os Blocos. Relato de Arci Rodrigues, coletado em 20 de julho de 2010.
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Um importante acontecimento a nível mundial pode se assim dizer, acontece por volta do inicio do século XX, conforme Felipe Ferreira (2005, p. 256) em relação à importação de influências externas, que o carnaval do Brasil “aglutinava”, onde ocorreu um fator importante e determinante para compreendermos sua configuração atual: a valorização da arte “afro” e aos segmentos culturais da cultura e da etnia negra, onde nos esclarece que:
[...] apesar de eminentemente "nacional", o Carnaval que se organizava nas ruas do Rio de Janeiro estava longe de rechaçar suas influências "globais". Modismos externos eram aceitos, e deglutidos pelo modo "modernista" de ser. Uma dessas influências, que acabou se revelando determinante para o desenvolvimento do Carnaval no Brasil, foi a onda de valorização da cultura negra que varreu a Europa nas primeiras décadas do século XX. O sucesso que faziam em Paris a bailarina Josephine Baker e os músicos de jazz, e a utilização da temática africana nas pinturas de Picasso e Leger, são alguns exemplos desse processo [...] o reflexo desse interesse pela cultura dos povos africanos e seus descendentes iria se expressar em terras brasileiras através de textos teóricos "modernistas" — como os publicados na revista Estética, por exemplo —, através da utilização da temática negra nas artes — como o quadro A negra, pintado por Tarsila do Amaral, em 1923, ou o painel Samba e Carnaval que Di Cavalcanti pintaria, em 1929, para o Teatro João Caetano — ou na literatura, com o livro Essa negra Fulo de Jorge de 11 Lima. A relação entre a ‘negrofilia’ à francesa e a intelectualidade brasileira tem um bom exemplo [...] é dentro desse movimento de abrangência internacional que irão surgir dois personagens carnavalescos que acabariam por representar a essência da festa brasileira: a baianinha e o malandro. [...] Ferreira (2005, p. 256).
Com o surgimento destes blocos, dá se outro fenômeno: uma profusão de outros blocos que surgem na cidade, popularizando a formação e a forma de brincar do carnaval, inspirando a formação e a fundação de outras entidades e agremiações populares carnavalescas. Por volta desta mesma época, os idos de 1980 e 1990, que ocorre outro fenômeno, em paralelo e como um complemento a este, e o que se pode chamar de “descentralização do carnaval”, que migra do centro da cidade, onde eram os locais e os QG’s (os quartéis generais) das agremiações carnavalescas, passando estes
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Encontramos na França um fenômeno chamado de "negrofilia", que era o interesse da vanguarda parisiense pela cultura negra, um dos sinais de modernidade a partir da década de 1920, iria se espalhar pelo mundo após o sucesso dos espetáculos La revue nègre e La folie du jour em Paris. Josephine Baker e os jazzmen seriam alguns dos ícones do momento, influenciando a visão que se tinha sobre nosso Carnaval. FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.
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locais de concentração para os bairros, durante o crescimento da cidade para as regiões de periferia geográfica.
Nestas configurações, é importante frisar que nos anos de 1960, nascem duas entidades que, se destacaram e deram exemplo; que são os blocos carnavalescos Os Cobras e Os Dragões, dando um exemplo notável na organização e na proposição de “montar” o carnaval: iniciaram um trabalho à exemplo da capital, Porto Alegre, que por sua vez era inspirado pelo carnaval da até então capital Federal, o Rio de Janeiro12, local onde o carnaval já estava configurado em forma de escola de samba desde 1928.
Este formato avançava para as principais cidades, e São Leopoldo buscava esta inovação. Esta modificação se dava na forma de organizar os desfiles dos blocos, com a diferenciação de alas, a presença de uma bandeira, de uma cozinha – que era chamada a bateria (percussão), enfim, os desfiles passaram de uma simples apresentação para um ritual cheio de regras e de diversas características, mas igualmente belo e divertido – principalmente para quem assistia.
Há também uma modificação importante nesta fase: surge a competição acirrada entre estas entidades, criando assim os regulamentos e quesitos – idéia copiada do Rio de Janeiro e também de Porto Alegre – e implantada em solo leopoldense. Estas “revoluções” no modo de brincar e desenvolver o carnaval são notáveis; uma vez que o carnaval de São Leopoldo não é mais um simples passatempo ou um evento brincante e ganha ares de competição, de organização extrema, de horário conhecido para ocorrer, enfim, uma transformação bem impactante para os participantes e para os seus agentes.
Desta feita, pode se perceber que não tardou muito para que os blocos se tornassem escolas de samba com o formato carioca. Porto Alegre faz esta transição com a Academia de Samba Praiana em 1960 como cita Krawczyk, Germano e Possamai (1992, p. 37), “em 1961, inaugura um novo tipo de organização [...] a Praiana revoluciona a festa, introduzindo [...] a estrutura da escola de samba”, o que
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Em 1960 Juscelino Kubitschek inaugurou Brasília a Capital Federal.
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ocorre em São Leopoldo, na primazia registrada nos anos 1980 com o bloco carnavalesco Os Dragões que anunciam sua modificação de base, passando de bloco carnavalesco para escola de samba.
Foram anos bem difíceis, estes dos anos 1970 e 1980, uma vez que o carnaval buscava uma profissionalização e uma organização, frente às suas dificuldades profissionais, ou seja, com tanta rivalidade, buscava se melhorar sempre e iniciava se uma corrida em busca do melhor profissional e também de verbas para garantir estes “talentos” sob o contrato da escola contratante. Esta preocupação é um latente fenômeno social, que aparece explícito na mídia e nos relatos dos dirigentes das agremiações da época na imprensa (anos 1980).
Em detrimento a esta profissionalização surge outra frustração desta época, os anos da década de 80 do século XX, se dava em relação ao poder público leopoldense, que em alguns anos cancelava o carnaval de rua, ou simplesmente não se prontificava a organizá lo, transformando a rotina preparatória destas entidades num verdadeiro transtorno, isto é, pois estes dirigentes, dos blocos e das escolas de samba, se comprometiam com seus “talentos” e contratados e após isto ocorrer, a prefeitura ou a secretaria da cidade “cancelava” os desfiles e todo o tipo de incentivo em dinheiro era igualmente cancelado.
Por estes transtornos, um dos planos das entidades carnavalescas da cidade era a criação de uma entidade que os representasse, e que organizasse o carnaval da cidade, para que não mais ocorressem os cancelamentos dos desfiles. Desta feita, mesmo que tardiamente, as escolas esquecem suas diferenças e fundam a Associação das Entidades Recreativas Culturais e Carnavalescas de São Leopoldo, que a partir do ano de 2001, ano da fundação, marcaria um novo ciclo para as entidades que promovem os desfiles e as atividades ligadas ao carnaval da cidade.
Esta união gerou frutos, e novas entidades carnavalescas surgem após a fundação da Associação. Mas um episódio muito importante ocorreu em 2007, quando as lideranças das escolas aliaram se à alguns políticos e vereadores, criando uma lei municipal que amparou os eventos carnavalescos, e que foi
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aprovada na Câmara Municipal sob a Lei de número 6458/0713, onde a partir desta, não haveria mais o cancelamento dos desfiles da cidade, a lei diz que:
Lei nº 6.458 de 10 de Dezembro de 2007
ALTERA OS ARTIGOS 1º E 3º, DA LEI MUNICIPAL Nº 5.493, DE 08 DE JULHO DE 2004 (...)
Art. 1º Ficam alterados os artigos 1º e 3º da Lei Municipal nº 5.493 , A/2004, passando a vigorarem com a seguinte redação:
"Art. 1º Fica criado o carnaval de rua anualmente no município de São Leopoldo com todas as suas manifestações tradicionais, passa a ser considerado evento oficial do município, com administração, execução e comercialização pelo Poder Público, através da Secretaria Municipal da Cultura e da Associação das Entidades Recreativas Culturais e Carnavalescas de São Leopoldo.
"Art. 3º Os desfiles de agremiações carnavalescas serão realizados em logradouros públicos deste município, com as condições de infra estrutura e orçamento com recursos alocados e colocados à disposição pelo Poder Executivo através de dotação orçamentária da Secretaria Municipal da Cultura.
§ 1º Os recursos deverão ser repassados à Associação das Entidades Recreativas Culturais e Carnavalescas de São Leopoldo em 03 (três) parcelas até a data de realização do carnaval, devendo o investimento do carnaval não ser inferior ao do ano anterior."
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Lei municipal 6458/07 da Câmara de Vereadores de São Leopoldo.
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Para organizar e compreender melhor as etapas do carnaval leopoldense, foram distribuídas em uma disposição os eventos ocorridos em um quadro esquemático, contendo os desdobramentos atribuídos a cada fase destes períodos. São fases em macro, que foram classificadas conforme apuravam se as fontes. Divididas em cinco fases, que carecem de um estudo maior, mas que, conforme os dados consultados, podem ser elucidados por fontes primárias contidas neste trabalho. Desta forma, pode se dividir o carnaval de São Leopoldo, para melhor compreender cada fase da seguinte forma:
Ano (aproximado)
1824 a 1880
1880 a 1897
1898 a 1940
1940 a 1980
1980 a atualidade
Classificação
Popular
Agressivo
Elite
Elite / Povo
Popularização
A classe média (emergente) e os intelectuais se interessam pela música e pelas formas de desfiles públicos. É o apogeu dos blocos "mistos" ligados às sociedades locais.
Com o crescimento urbano (emigrações em p. 97) surge a periferia e com ela a sede de agremiações carnavalescas e as escolas de samba.
Os blocos ganham o espaço nos salões e nas ruas da cidade.
Competição acirrada. Regulamentos
Surgem os concursos de blocos.
Os Blocos dão lugar para as escolas de Samba
Jornal O Regimen ou Correio de SL concurso blocos. 1940. Ascensão de Os Cobras e Os Dragões, nos anos 1950 e 1960. Página 67
Matéria onde os Dragões passam de bloco à escola de samba. Página 77
O carnaval é comunitário em relação aos que participam;
O entrudo é "copiado" para todas as cidades.
Em detrimento ao entrudo as famílias ricas das principais cidades do país adotam o carnaval parisiense.
A cidade está em formação (1824) as famílias ascendem em comunidade
A prática de molhadelas e de constranger os transeuntes com líquidos sujos e zombarias.
Principais características
As brincadeiras são familiares e caseiras.
Entrudo nas ruas e vielas é violento.
Comprovação
Entrudo familiar Carta a Julio de Grandes bailes; o como chamou Castilhos; corso e os Felipe Ferreira Código de cordões. (2005) Posturas.
Acontecimentos
Materiais
Livro Felipe Ferreira (2005) e Eneida (1987)
Hábitos franceses de comportamento da belle epoque. Carnaval requintado dos grandes salões e sociedades da elite.
Carta de famílias leopoldenses. Página 31
Quadro 1: As fases do carnaval de São Leopoldo. Fonte: Dados elaborados pelo autor.
Corso e bailes A partir da página 40
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CONCLUSÃO
Com estas constatações, podemos verificar que o carnaval da cidade de São Leopoldo permeou um processo de modificações, que, resumidamente em uma visão macro, podemos assim dizer, iniciaram após a chegada dos imigrantes alemães, com resquícios populares, sem muita comprovação, ligados à juventude da cidade que brincava com os passantes pelas ruas. Mais tarde, na virada do século XIX para o século XX, a elite se “apodera” desta festividade e a transforma em festa social do seu calendário. E após algum tempo, por volta dos anos 1940 e 1950, a população em geral, a exemplo dos grandes centros do país, passa a desenvolver nas ruas seus desfiles de carnaval, chegando ao formato das escolas de samba, nos idos da década de 80 do século XX.
Podemos verificar que a interatividade desta social festa carnavalesca permanece e ocupa importante cenário na vida da cidade, e se coloca, conforme dados da prefeitura de São Leopoldo, como a segunda maior festividade local, perdendo apenas em número para a São Leopoldo Fest, que tem duração de uma semana. O Carnaval leopoldense aglomera em um único dia de desfiles mais de 35 mil pessoas, entre os que assistem e os que desfilam, sem contar as pessoas que trabalham nos bastidores nos preparativos que aqui neste trabalho não podem ser mensurados.
Com esta pesquisa podemos tomar conhecimento de muitas entidades que existiram em nossa cidade e que ocuparam importante papel na sociabilidade local e serviram para perpetuar uma tradição, se poderemos assim definir as atividades ligadas ao carnaval, e que em alguns aspectos modificaram se, como o exemplo do corso, dos cordões carnavalescos e dos blocos de salão que foram para as ruas, e após, tardiamente com as influências negras aos desfiles, da música, do formato contemplativo e cerimonial herdado das procissões da época do Brasil Império, que viriam a inspirar e a se configurar em desfiles carnavalescos. Todas estas características que confluíram para dar origem ao que conhecemos hoje como o carnaval leopoldense.
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Podemos citar também a importância das grandes sociedades, que permanecem ainda hoje, com uma participação bem menor, mas que mantém a tradição dos bailes, e na apresentação de seus blocos carnavalescos, diminutos, mas igualmente animados, como é o caso do Cordão do Orpheu, os Cobrões, e da contratação da apresentação das escolas de samba para animar seus bailes de carnaval como é o exemplo da Sociedade Ginástica.
Verificamos também que o carnaval popularizou se e permeou as raias da sociedade intelectual da cidade; onde os membros da elite, apaixonados pelo carnaval, uniram se aos populares para dar segmento a uma espécie de “evolução” seguindo o exemplo das grandes cidades do país, como o Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, que rumaram para um desfile cerimonial, organizado, planejado e plasticamente maior, aliando a música popular aos ranchos em forma de procissão com um formato de blocos uniformizados e fantasiados, e que mais tarde dariam lugar às escolas de samba.
Outra modificação verificada, ao longo deste trabalho, foi que o carnaval de São Leopoldo mudou de ambiente, antes nos grandes clubes sociais, dos grandes bailes, para os cordões, que era predominantemente domínio da elite, passando para a composição dos blocos de rua, transformando em uma mescla de ricos e pobres, estes últimos que apenas participavam quando após a passagem do corso, faziam seus desfiles alegres e despojados.
O carnaval de São Leopoldo se transformou como já verificamos e também mudou de local, rumou do centro da cidade para a periferia, devido ao grande crescimento urbano dentro dos limites da cidade. Que por volta dos anos 1980 e 1990, um elevado número de gaúchos, vindos de outras cidades do estado, rumaram para a região metropolitana em busca de emprego na indústria, e desta feita, cresceram os bairros da periferia. Com este aumento de contingente, a população em geral via no carnaval um importante entretenimento, e assim o carnaval acompanhou estas mudanças e rumou para perto destas populações dos bairros.
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Podemos acompanhar esta “descentralização”, pelos campeonatos das recentes escolas de samba da cidade, onde, nos primeiros anos da década de 80, do século XX, o deslocamento ocorreu do centro da cidade( dos blocos, cordões, do corso e dos grandes blocos Os Cobras e Os Dragões), para o bairro Rio Branco com os Unidos de Última Hora e com os Acadêmicos do Rio Branco, e por fim, aos nossos dias, o carnaval avançou mais e rumou para o bairro Feitoria como, por exemplo, com os campeonatos os Gladiadores da Feitoria e com a Imperatriz Leopoldense. Com esta organização, verifica se que o carnaval teve suas fases e que este evento acompanhou as tendências mesmo que tardiamente em relação aos carnavais das grandes cidades brasileiras, do qual esclareço: os eventos carnavalescos que ocorreram aos mesmos moldes, assim como ocorreu no Rio de Janeiro, São Paulo e em Porto Alegre. O que é importante grifar é que, conforme as cidades supracitadas, cada acontecimento ocorreu de uma forma singular, ou seja, em cada lugar o carnaval aconteceu de uma forma peculiar e em um tempo próprio, e mesmo que atendendo aos formatos de outras localidades, teve um tempo diferente em cada lugar para acontecer.
Verificamos a importância desta festividade social na cidade, e desta feita, pode se
lançar
uma
análise
de
seu
desenvolvimento
mensurando
suas
transformações junto com as modificações que a cidade passou. Este viés analítico nos mostra que é possível verificar que São Leopoldo assim como outras cidades brasileiras buscou desenvolver em seu seio social as manifestações artísticas e culturais em voga, em épocas passadas. A estes acontecimentos podemos verificar também, além das transformações da cidade (urbanismo, crescimento econômico, o aumento da população, etc...), e compreender a dinâmica dos grupos sociais da cidade e de suas relações, e de como as pessoas ligadas a estes eventos carnavalescos, tanto da elite, quanto populares em geral tomaram parte destas atividades, até a transformação de um carnaval espontâneo onde as pessoas participam pela originalidade de se brincar nos dias de carnaval.
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Compreender as diversas fases do carnaval leopoldense e chegar ao entendimento de que nem sempre teve o mesmo formato, que iniciou despojadamente ao formato entrudístico, passando a uma fase violenta de brincadeiras agressivas. Após a ascensão de uma elite emergente, esta folia agressiva foi aos poucos sendo substituída por uma fase mais requintada, onde esta elite manifestava suas ascensões, e fez desta festa um de seus pontos altos da sociabilidade da cidade de São Leopoldo. Percorrendo uma escala temporal, verifica se que houve uma popularização tardia em relação aos outros centros e cidades do país – esta que era uma de suas principais características, a de manter a população apenas assistindo ao carnaval – chegando até a comercialização, como é atualmente o carnaval do país, assim como na cidade de São Leopoldo.
Este resgate e este contato com o passado da cidade só foi possível devido ao grande volume de imagens, que foram levantadas durante esta pesquisa, em torno de 850 fotografias e materiais da imprensa local. Graças a esta fonte de memória, a fotografia, que registra os eventos e realizações da sociabilidade leopoldense em relação ao carnaval, servindo de suporte e tornando possível este trabalho. Ressalto aqui a importância destes registros fotográficos, pois sem eles seria tarefa difícil de cumprir.
Finalizamos este trabalho com a sensação de um dever cumprido, uma vez que tivemos contato com um elevado número de fontes, proporcionando a um nível satisfatório de informações sobre as origens do carnaval de São Leopoldo, e de certa forma, conhecendo um pouco mais da cidade e de seus eventos sociais. Mas tendo também a sensação de que muito se pode acrescentar a esta pesquisa, e que a história está permanentemente sendo construída e que muito se pode encontrar de informações, e novos trabalhos podem ser acrescidos sobre este tema – assim esperamos!
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