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Cidade e Carandiru do Samba: etnografia da construção do desfile.

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Cidade e Carandiru do Samba: Etnografias da construção do desfile Ricardo José de Oliveira Barbieri Mestrando em Antropologia do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia(PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ) Resumo

O trabalho pretende analisar a criação e construção arquitetônica da Cidade do Samba no Rio de Janeiro, bem como sistematizar e acompanhar as discussões existentes e conflitos resultantes a seu respeito na imprensa e nos meios carnavalescos nos últimos anos. Para tanto foram analisadas matérias relacionadas ao assunto nos principais jornais cariocas, sítios especializados na cobertura do carnaval carioca e entrevistas realizadas em campo, bem como acompanhamento da preparação da escola de samba Unidos da Tijuca para o desfile do ano de 2007 . A hipótese é a de que a implantação e efetiva inauguração e o processo de utilização da Cidade do Samba significa uma importante alteração na organização social e simbólica do desfile das escolas de samba no carnaval carioca. Palavras-Chave: Carnaval, Desfile das escolas de Samba, Cidade do Samba, Antropologia Urbana, Zona Portuária

Introdução

Acompanhei de perto o processo de transferência das principais escolas de samba para a Cidade do Samba. Foi um período rico em que as questões acerca da ocupação e seu futuro emergiam fecundas na minha mente. Toda a rede de relações pulsava e exibia seus extensos tentáculos através da cidade do Rio de Janeiro. Neste trabalho relato a elaboração do carnaval dentro do espaço arquitetônico conhecido como Cidade do Samba na pesquisa realizada entre setembro de 2006 até fevereiro de 2007 junto à Unidos da Tijuca e a seguir pretendo descrever o espaço de produção do carnaval das escolas mais pobres como contraposição dual entre diferentes realidades do carnaval carioca.


No primeiro pavimento de cada galpão existe uma área interna que comporta 12 alegorias, 4 além do máximo permitido no desfile das escolas do grupo especial1. Há setores especiais para trabalhos de marcenaria, serralheria, almoxarifado e até mesmo uma mini-recepção nos portões voltados para a área externa da Cidade do Samba. No segundo pavimento funciona refeitório, cozinha e vestiários. Existe ainda um terceiro e quarto pisos onde funcionam ateliês, escritórios e um pequeno auditório. No quarto piso, onde funcionam os ateliês para fabricação de esculturas, há um vão central que possibilita a movimentação das esculturas e a montagem sobre os carros alegóricos através de um guincho preso a uma monovia. Em cada um dos pavimentos existe uma passarela que possibilita diversos ângulos de visão das alegorias tal qual ocorre com os diferentes setores da Marquês de Sapucaí onde elas desfilarão. Os portões para a saída dos carros alegóricos têm 10 metros de altura e são voltados para a praça central interna do complexo. O espaço dispõe ainda de área de lazer central com praça de alimentação e tendas para shows, estacionamento para 226 vagas, um galpão de recepção aos visitantes e prédio administrativo. O projeto foi elaborado pelo Instituto Pereira Passos em parceria com a LIESA. A prefeitura desembolsou mais de 80 milhões na construção. Finalizadas as obras, a administração do complexo foi entregue pela prefeitura a LIESA. Os galpões são chamados pelos órgãos oficiais de “Fábricas do Carnaval” pelo seu grandioso porte e sofisticada infra-estrutura que possibilitam uma clara visualização da divisão do trabalho em seu interior como nas fábricas. Quando confrontamos essa nomenclatura com a das pessoas envolvidas na produção do carnaval, ou que tem alguma forma de familiaridade com o desfile, percebemos o choque de discursos entre o voltado para o “mundo do samba” e os que não fazem parte desse mundo. Os galpões ainda são conhecidos no “mundo do samba” como “barracões”. Para entendermos a demarcação desse “mundo do samba” podemos evocar a caracterização dos “mundos artísticos” feito por Howard Becker no sentido de uma rede de relações sociais que contribuiriam coletivamente para a criação artística (BECKER;1977). A intenção dos dirigentes das escolas de samba é frisar a modernização e organização do desfile carioca no sentido de

1

Desde o ano 2000 o número de alegorias foi reduzido. Essa redução aconteceu numa tentativa de adequar melhor as escolas ao gigantismo do espetáculo.


reafirmar sua supremacia sobre as demais formas de carnaval existentes no país. Em um movimento parecido com o realizado pelas prefeituras francesas nos primórdios da festa (FERREIRA;2005). Fica óbvio e explícito o comando da cúpula do bicho sobre o desfile e suas intimas relações com as esferas públicas de poder. Magnani em seu estudo sobre a metrópole que relaciona o uso de certos grupos dos equipamentos urbanos da cidade e seus efeitos para além da cidade (Magnani;1996). A estrutura montada na cidade do samba é de tal grandiosidade e mobiliza tal aparato tecnológico que representou uma nova onda de mudanças para as escolas de samba não apenas da cidade do Rio de Janeiro, daí a relevância de uma pesquisa em torno de tal projeto. Poderia citar como exemplos um espaço similar de produção do desfile de escolas de samba em Cabo Frio2 conhecido como “Morada do Samba” ou o “Complexo Cultural de Porto Seco” em Porto Alegre. Assim é objetivo deste trabalho reproduzir uma análise que vá de encontro à proposta do mesmo autor acerca de uma etnografia urbana de perto e de dentro: “(...) capaz de apreender os padrões de comportamento, não de indivíduos atomizados, mas de múltiplos, variados e heterogêneos conjuntos de atores sociais cuja vida cotidiana transcorre na paisagem da cidade e depende de seus equipamentos.” (Magnani; 2002)

Dos antigos barracões à Cidade do samba

A realidade pós-abertura da Cidade do Samba se choca com os objetivos iniciais do projeto. São problemáticas as formas de ocupação dos galpões pelas escolas, o rodízio a ser feito dentro destes e a o acesso do público em geral aos galpões em si. Com a finalidade de traçar um panorama mais preciso da importância da cidade do samba é conveniente resgatar a história de ocupações irregulares e de parca infra-estrutura que abrigou as escolas do Grupo Especial antes da mudança de seus antigos barracões para a Cidade do Samba. A compreensão do antigo barracão de escola de samba tem importância vital para desembocarmos na idéia de unificar todos os barracões em um complexo como o da Cidade do Samba. Em 1970 um dos primeiros espaços a ser ocupado com a preparação das 2

Na região dos lagos, estado do Rio de Janeiro


alegorias para a festa foi o antigo Pavilhão de São Cristóvão. O curioso é que nesse espaço conviviam várias escolas, tal qual ocorre hoje na Cidade do Samba e apresentavam outras singulares características como chama atenção a Professora Helenise Guimarães: “Em 1991, realizando pesquisa de campo em Barracões que dividiam o espaço do Pavilhão, observamos durante dois anos o trabalho das equipes das

Escolas

de

Samba

Portela,

Imperatriz

Leopoldinense

entre

outrashttp://www.academiadosamba.com.br/memoriasamba/artigos/artigo181.htm - _ftn9#_ftn9 que ocupavam o Pavilhão, administrado por um grupo de funcionários da Prefeitura. As divisões do espaço eram coerentes com o poder econômico de cada Escola, e estas eram separadas por tapumes de madeira e portões. Geralmente havia uma pequena sala que acumulava as funções de secretaria, atelier do Carnavalesco e sala do Presidente. Os tapumes de madeira, que demarcavam cada barracão, formavam um intrincado labirinto provido de placas para orientação dos visitantes.” (GUIMARÃES; 2004). Até então nas escolas de samba os barracões eram “amplos galpões de sua propriedade ou cedidos por empresas ou pelo governo estadual ou municipal, situados preferencialmente em áreas próximas ao centro da cidade, de modo a facilitar o penoso transporte das alegorias para a área de desfile” (Cavalcanti; 2006:147). Na verdade nenhuma escola do Grupo Especial em 2005 tinha a efetiva posse desses galpões, em sua maioria localizada na zona portuária do Rio de Janeiro. O barracão ocupado pela União da Ilha e Império Serrano em 1984 foi “cedido à escola graças à ligação da Ilha com o Cais do Porto” (Cavalcanti; 1999:19) e até recentemente abrigava a Caprichosos de Pilares, comprova a já antiga situação irregular. Segundo a Companhia Docas, a ocupação desses armazéns e galpões se deu muitas vezes de maneira clandestina. Dos 76 galpões destinados à revitalização da região, 24 foram invadidos. Um acordo entre Riotur e as escolas em 1995 regularizou provisoriamente a ocupação dos galpões através do abatimento das dividas da Companhia de Docas e RFFSA (Rede Ferroviária Federal) com a prefeitura. Entretanto o contrato acabou em 1996 e a Companhia de Docas tenta retomar a posse dos prédios.


A confecção dos carros alegóricos e de algumas fantasias de alas que desenvolvem o tema apresentado pelas escolas de samba no desfile ocorrem no barracão. As alegorias “são formas de arte coletiva que envolvem em sua confecção o carnavalesco e sua equipe de especialistas e ajudantes” (Cavalcanti; 2006:148). O processo de confecção se dá de maneira temporal, com as seguintes etapas que em determinado momento podem até mesmo

coexistir

“ferragem;

marcenaria;

escultura

e

moldagem;

decoração/vidraçaria/mecânica” (Cavalcanti; 2006:148). Nos armazéns improvisados em que as escolas estavam instaladas não era possível, por exemplo, a montagem por completo de uma alegoria, que só era concluída na avenida. Na Cidade do Samba acontece o contrário as alegorias podem ser confeccionadas e testadas com tranqüilidade, já que o pé-direito de cada “fábrica” é maior que a torre de televisão que delimita a altura máxima dos carros3. A profissionalização que já caminha a passos largos no carnaval carioca se acirra com a ocupação do novo espaço pelas escolas. A partir da inauguração da Cidade do samba a LIESA sonha com a presença cada vez mais forte da tecnologia no desfile das escolas de samba. Todas as escolas que ocupam os barracões tem chassis dos carros alegoricos motorizados. Hoje diversas escolas contam com a presença de engenheiros, arquitetos e designers na elaboração dos carros alegóricos. O avanço em relação aos acanhados espaços antes ocupados pelas escolas, as características organizacionais de cada uma acaba por se refletir na organização de cada barracão. Enquanto algumas escolas mantêm operários uniformizados e bem equipados trabalhando com relativa segurança, outras escolas tem dificuldade em se organizar para tal e mantém trabalhadores de forma precária dentro de suas fábricas. Geralmente tal diferença reflete as posições ocupadas pelas escolas dentro da hierarquia competitiva do desfile. As obras se arrastaram de 2003 até setembro de 2005 cercadas de um tanto de ceticismo por parte dos sambistas. Muitos não acreditavam que uma estrutura de tal porte pudesse ser direcionada ao carnaval carioca. Talvez ignorando o grande porte do palco onde as grandes escolas se apresentam, que é o Sambódromo. De qualquer forma o valor simbólico dessa inauguração é significativo para as escolas. Foram próximos à praça Mauá

Em alguns casos até mesmo os 17 metros da torre de televisão foram ultrapassados. A Vila Isabel levou uma escultura que alcançava quase 20 metros de altura representando Simon Bolívar, a escultura dispunha de um dispositivo em que o “gigantesco” boneco que representava o líder latinoamericano sentava se adequando a altura máxima e passando rente à torre de TV. 3


que os primeiros Ateliês das escolas de samba se abrigaram. O bairro da Gambôa, onde se situa a cidade do samba foi um reduto de sambistas nos primórdios da história das escolas de samba. Porém, já na divisão das “fábricas” entre as escolas as contradições e interrogações se explicitam. A divisão dos 14 galpões deu-se por um critério que levava em consideração a posição ocupada pela escola no desfile do ano carnavalesco de 2003, anterior à apresentação do projeto. Assim as escolas com piores posições em tal ranking ficaram com os espaços menos privilegiados como os galpões 7, 64 e 35 que obrigam as ocupantes à realizar manobras com seus carros alegóricos na entrada e saída do espaço. Esbanjando confiança e otimismo exarcebado a Grande Rio e a Viradouro reformaram os escritórios dos membros da diretoria após a ocupação da Cidade do Samba. Na sala do presidente da Grande Rio, compondo uma suntuosa decoração high-tech, uma TV de plasma de 29 polegadas e DVD. Há inclusive um banheiro privativo com banheira de hidromassagem. A influência política e econômica do mecenato do jogo do bicho nos rumos e decisões tomadas pela LIESA,venham a ser talvez o principal ponto de apoio de tal confiança das agremiações citadas no grupo das grandes escolas. Há que ressaltar, porém, que tal influência de poder que preserva essas escolas de rearranjos na distribuição dos barracões dentro da Cidade do Samba segue ainda uma hierarquia complexa dentro do circulo que envolve o patronato ligado ao controle do jogo do bicho. O mecanismo funciona de maneira semelhante às relações de influência e compadrio que vem a reger a relação do mecenato do bicho com a organização do desfile propriamente dito. Mais do que a ostentação do poder dentro do ambiente competitivo das escolas de samba, as decorações suntuosas dos barracões que atualmente tomam conta de quase a totalidade das recepções de cada barracão da Cidade do Samba, tem um âmbito comercial conta ligado a tentativa de atrelar a “marca” da escola a uma idéia de profunda organização que é simbolizada pela decoração atraente dos escritórios e recepções. Como tudo na Cidade do Samba as ações respondem a movimentos que buscam transmitir impressões e mensagens tanto para o “mundo do samba” como para os que observam de fora. No meio carnavalesco cada vez mais a importância dos que estão de fora

4 5

Com 3 portões de saída para carros alegóricos, enquanto os demais têm cinco portões. Com menor numero de portões, apenas dois.


desse mundo se manifesta pela atualização de aspectos simbólicos que colocam em jogo a “marca” das escolas de samba como fonte segura para investimento de patrocinadores, além da já propagada importância enquanto atração turística. Da “Fábrica de Sonhos” para o Carandiru: estruturas desiguais no carnaval carioca. “A estrutura da Cidade do Samba é um sonho. Aqui é preciso força de vontade e inspiração para superar as dificuldades e mosquitos. Três funcionários pegaram dengue. Quando chove a gente tem que cobrir as alegorias devido às goteiras.” - Edgley Cunha, Comissão de carnaval da Estácio de Sá. “Tem gente que já pegou dengue e outros que dormem em cima do carro pra não ter que gastar dinheiro com passagem. As pessoas merecem um mínimo de dignidade, e não trabalhar aqui no meio do lixo. Como as mães têm que vir trabalhar, preferem trazer seus filhos pra cá. Mas aqui essas crianças correm todo tipo de risco” – Sandro Carvalho, Carnavalesco da Renascer de Jacarepaguá .

Em um terreno da antiga Rede Ferroviária Federal no bairro do Santo Cristo, próximo da Rodoviária Novo Rio, conhecido como “Carandiru”. As condições neste espaço são as piores possíveis. As escolas com menor estrutura dividem esse espaço, em torno de 20 escolas desde o grupo de acesso A até o acesso E, incluindo alguns blocos de enredo, que convivem com o mal-cheiro, acumulo de lixo, condições de trabalho insalubres, insegurança e constante risco de incêndio. A ocupação de tal espaço se deu na época em que o filme “Carandiru” que retratava o cotidiano nos dias que antecederam o massacre na extinta prisão paulista era sucesso de bilheteria, portanto explica-se a referência à precariedade do local. Tal invasão foi liderada por um ex-policial ferroviário e presidente da escola União do Parque Curicica conhecido como Zezinho Orelha. As escolas reunidas nesse espaço pressionadas encontravam-se desabrigadas por diversas razões: desde pressões por parte das Docas S/A para a desocupação de seus antigos barracões até


ascenção na estrutura competitiva dos desfiles que levaram a um crescimento e conseqüente busca de mais espaço para produção dos carros alegóricos. Muito lixo, muita sujeira, fios emaranhados e expostos tornam o transito no interior dos barracões do “carandiru” não recomendável em dias de chuva. Isto porque o teto é cheio de buracos, nos espaços onde ainda existe cobertura. Os restos do carnaval passado ainda persistem no terreno onde crianças brincam despreocupadamente. A saída dos carros do barracão e o piso irregular que mistura cascalho e trechos de trilho abandonados e enferrujados torna-se só mais um dos empecilhos às escolas que geralmente tem que lidar com mais uma ampla gama de dificuldades. Geralmente o jeito é apelar para a ajuda de uma “coirmã” no guincho ou no apoio para o transporte das alegorias como relata uma presidente de escola do antigo grupo de Acesso B: “(...)Os carros vão ser levados pela equipe do Mirabel, presidente da Vila Rica, com a equipe dele do Cais do Porto. Vão ser todos levados na mão, sem reboque, que é para não correr o risco de danificar as alegorias”

Os desfiles do Grupo de Acesso A e B são realizados na Sapucaí, relativamente próximo da região onde está localizado o “Carandiru”, porém, esse espaço abriga ainda as escolas que cruzam a cidade para poder desfilar na Intendente Magalhães em Campinho. Não fossem esses transtornos por demais as escolas do Carandiru, o parco apoio do poder publico também se faz sentir. Chega a ser assustador os números com que se lida nesses grupos. Ao contrário das milionárias verbas cedidas de subvenção para o Grupo Especial, no Grupo de Acesso A Prefeitura e o Governo do Estado juntos não repassam pouco mais do que 200 mil reais, enquanto no grupo especial as escolas de ponta tem carnavais orçados em até 4 milhões de reais, segundo matéria do jornal O Globo publicada em 2006. A clara disparidade seria explicada pela hierarquia rígida sob a qual se estrutura a festa, no entanto, é contraditória com o espírito competitivo já observado em outros trabalhos envolvendo os desfiles das escolas de samba. Tal postura que reflete a crescente modernização e conseqüente comercialização da festa deve ser fruto de análise dos inúmeros trabalhos que lançam luz sobre a industrialização da cultura popular.


Conclusão

A Cidade do samba é vislumbrada pela prefeitura e pela LIESA como um caminho a mais de expansão comercial do carnaval carioca. A intenção do município junto ao projeto é que turistas possam apreciar o trabalho realizado nos barracões e que até então era de difícil acesso aos mesmos. Os órgão municipais e as escolas de samba calculam que a transformação desta em atração turística possa trazer dividendos aos cofres municipais compensando o investimento inicial com a bilheteria da visitação e ainda com a compra de souvenires e conseqüente interesse por participar dos desfiles. Obviamente estão incluídos nessa conta os lucros com a imagem de um desfile moderno, com alta tecnologia e produzido em uma das mais organizadas oficinas de arte do país. Elementos suntuosos que causem impacto a mais leiga das visões. O cenário mais impressionante possível, dotados dos mais deslumbrantes elementos da maior ópera-preocessional de rua do mundo. Principalmente pelo fato da LIESA entender que através da espetacularização a festa carioca se reafirma enquanto modelo nacional. Apesar da utilização da mesma como atração turística, a preparação do carnaval chama atenção não apenas dos que não participam e vivenciam o cotidiano das escolas de samba. Os envolvidos acompanham com atenção e a passarela que possibilita a visitação de cada barracão é fato interessante também para estes. Por mais que as escolas queiram esconder elementos cobrindo carros com lonas escondendo-os dos visitantes em determinados pontos de suas fábricas, ou até mesmo proibindo fotografias das varandas, as alegorias são elementos que só fazem sentido no momento ritual do desfile. Já retomando a definição da alegoria para Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti é possível resgatar as origens de tal posição que envolve uma proteção das alegorias para o grande momento que é o desfile das escolas de samba. Faz parte da competição que é o desfile das escolas de samba, uma certa aura de encantamento e surpresa que envolve inclusive a temporalidade da festa. Simultaneamente é fonte maior de preocupação e colocam-se como questões a serem desvendadas, os desdobramentos do incremento tecnológico na preparação dos desfiles para toda a rede de relações sociais das escolas de samba, especialmente as escolas do grupo de acesso que se encontram fora do complexo da Cidade do Samba.


É de suma importância observar ainda de que forma o complexo se relacionará com a estrutura ritual-competitiva dos desfiles. Hoje são 72 escolas de samba divididas em seis grupos hierárquicos. A mobilidade ampla de outrora vem sendo substituída por uma rigidez extrema onde apenas uma escola ascende ao Grupo Especial e ocupa um galpão da Cidade do Samba e apenas um escola deixa o complexo e o Grupo Especial. De que forma a inauguração do complexo estaria contribuindo para o engessamento da competitividade marcante dos desfiles das escolas? Até que ponto vai a influencia do mecenato do jogo do bicho em todo esse processo? É possível ampliar o leque de escolas beneficiadas nesse processo mesmo com a estrutura precária de algumas das escolas dos grupos de acesso? São estas as questões surgidas do trabalho de campo em andamento, respondê-las é de vital importância não apenas para entendermos o desfile das escolas de samba no contexto do carnaval carioca, bem como entendermos as relações e mudanças em andamento na cidade. 4. As relações entre “co-irmãs”

Em seu ciclo ritual, o desfile das escolas de sambas articula não só uma vasta rede de relações, construída entre camadas e grupos sociais diferenciados, como formas artísticas distintas, especialmente a dança, a música e a visualidade. As redes de relações entre as escolas de samba constroem-se, assim, no contexto de um sistema de trocas que obedece ao longo do ano a um estrito calendário ritual. Nesse contexto, é freqüente ouvirmos as escolas referirem-se umas às outras pelo termo “co-irmãs”. Esse termo coloca

Con formato: Fuente: Negrita

em cena um meio social em que “trocar é a um só tempo associar-se e rivalizar” (Mauss

Eliminado: e nomeado pelos nativos pela relação de “co-irmãs”. Nesse universo

2003, p.21).estes aspectos, o estudo das redes de relações sociais articuladas pelas escolas

Eliminado:

de samba do Rio de Janeiro constitui-se em importante assunto relacionado ao estudo da

Eliminado: O desfile das escolas de sambas, em seu ciclo ritual, articula “não só uma vasta rede de relações, construída entre camadas e grupos sociais diferenciados, como formas artísticas distintas, especialmente a dança, a música e a visualidade”i. Tomando

cidade, dos rituais e das ciências sociais na metrópole. Com a desocupação dos antigos armazéns improvisados por parte das escolas do Grupo especial, muito se discutiu acerca da utilização desses espaços. Como a posse dos barracões da Cidade do Samba é transitória e permitida apenas as escolas do Grupo Especial, muitas das escolas não abriram mão de manter seus antigos barracões ocupados, assim sendo mantiveram neles funcionando ateliês e oficinas das escolas de samba mirins ao mesmo tempo em que resguardam o espaço no caso de uma queda de grupo. Outras

Eliminado: o


escolas, porém, resolveram ceder seus antigos barracões para escolas do grupo de acesso A. A ocupação desses barracões pelas escolas do grupo de acesso A teria enorme importância, visto que, muitas amargam condições de trabalho ainda piores em seus barracões atuais. Seguindo a perspectiva de uma observação etnográfica de perto e de dentro, que leva em consideração os atores sociais envolvidos, a rede das escolas de samba carioca efetua transações internas que movimentam e afetam a metrópole enquanto sua totalidade. Apesar de não ter sido bem-sucedida a transferência dos barracões das escolas do grupo Especial para a Cidade do Samba desencadeou uma série de conflitos e reordenamentos que desde o circuito das escolas de samba afetou o todo. Somente para citar um exemplo vejamos o caso da escola de samba Alegria da Zona Sul. Elevada em 2004 ao grupo de acesso A, a escola preparava, até então, seu carnaval num terreno da antiga Rede Ferroviária Federal no bairro do Santo Cristo, próximo da Rodoviária Novo Rio, conhecido como “Carandiru”. Com a ocupação do barracão da Cidade do Samba, em 2005, a Acadêmicos do Salgueiro cedeu seu antigo barracão localizado na Rua Equador, também Santo Cristo, à Alegria da Zona Sul. Esta seção ocorreu pelo vinculo estreito que ambas as escolas tinham na época, já que o patrono era o mesmo nas duas escolas, o banqueiro do bicho conhecido como Maninho. A escola não conseguiu, entretanto ocupar este galpão de imediato. A Companhia Docas S/A aproveitou a retirada da antiga invasora do local para retomar a posse do espaço. Algum tempo depois a situação se definiu através de negociação direta do Salgueiro com a companhia Docas e o espaço do antigo barracão do Salgueiro foi dividido entre várias escolas dos grupos de acesso, incluindo a Alegria da Zona Sul que se encontra lá até hoje. Esses re-ordenamentos oriundos da ocupação da Cidade do Samba instigaram o interesse na investigação de como essas trocas entre escolas de níveis hierárquicos idênticos ou diferentes se dão. Essa investigação pode clarificar as relações entre as duas estruturas desiguais no processo de preparação do carnaval carioca. Como funcionariam essas relações reconhecidas pelos envolvidos como estabelecidas entre “co-irmãs” ? Que outras formas de troca desenvolvem as escolas de samba e que significado estas adquirem dentro do ritual competitivo que é o desfile das escolas de samba? Como funcionam as redes de relações do carnaval carioca tomando essas trocas como ponto de partida? Acredito que essas questões podem ser de importante valor no estudo dos ritos da cultura popular urbana


e contemporânea. No decorrer do trabalho de campo, creio que outros aspectos mais complexos e ainda mais interessantes poderão se abrir em relação ao tema proposto.

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