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SALVADOR DOMINGO 24/6/2012
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Memórias de cola e jornal
A artesã Edna do Nascimento, 57, exporta seus bonecos para vários países. A inspiração para criar vem da infância vivida em Alagados
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uem chega aos limites entre os bairros do Uruguai e Alagados encontra um ponto de ônibus, ruas pavimentadas, casas de comércio e o bem-estruturado Centro de Cultura, que dona Edna do Nascimento, 57, ajudou a criar e onde começou seu ofício com bonecos, ainda nos anos 1980. Ela guarda com limpidez as memórias de quando o mar era senhor absoluto daquela região. São histórias e imagens evocadas de maneira lúcida, sem hesitação.
Texto MARCEL BANE marcel.bane@grupoatarde.com.br Foto FERNANDO VIVAS fvivas@grupoatarde.com.br
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«O povo só quer pipa, vestido de chita e bambolê. Cadê aquele cachorro que eu gosto de fazer, com as patas no peito do dono?»
A lembrança da infância nas palafitas inspirou a criação dos bonecos feitos por dona Edna
Edna do Nascimento, artesã
A fagulha da criação desta artesã vem das lembranças da infância vivida em Alagados, hoje dividido em diversos bairros. Nas suas mãos, essas memórias são transformadas em bonecos feitos de papel de jornal e cola, que ela já exportou para países como França, China e Timor Leste. Sua arteétributáriadaesculturanaïfdegênios, como o Mestre Vitalino
MARÉ LIMPA Nos anos 1980, os moradores formaram uma comissão de bairro, e um centro cultural surgiu, improvisado em uma escola. Dentro desse espaço, nasceu o projeto CasadeMemória,destinadoaresgatarhistórias do bairro. “Moro aqui há mais de 50 anos, quando ainda era Alagados (hoje é Uruguai). Meu pai e eu pescávamos na frente de casa. Dava muito siri e mariscos. Tomávamos banho de mar na porta. Onde hoje está o fim de linha era uma ilha”. Ela diz que a maré era limpa. “Chegava a ser verdinha”. Dona Edna conta que o progresso chegou em três fases. Há 45 anos, virou um lixão. Depois, vieram o entulho e
a retirada dos moradores. “Houve a época da draga, que puxava a areia do mar para entulhar as ruas. Ficavam aqueles buracos enormes no mar. Depois, veio a fase do arenoso, em que as pessoas que moravam sobre a maré pegavam o arenoso para entulhar sob as suas casas”. E, assim, as antigas palafitas de Alagados, que tinham um assoalho feito de tábuas, passaram a ter um chão sólido. Formaram-se então os primeiros bairros da região. As pontes foram sendo retiradas uma a uma. “Massaranduba, Uruguai, Mangueira, Vila Ruy Barbosa, tudo era mar. A feiradoJardimCruzeiroeraumancoradouro de saveiros. Havia peraus, lugares fundos e perigosos”.
SeosbonecosdedonaEdnaparecemrecuperar as brincadeiras das crianças de seu tempo,elatambémguardanamemóriaas tragédias. Muitas morreram brincando, precoce e violentamente, ao cair das palafitas dentro do mar. “As casas eram em cima da água. As pontes tinham brechas grandes. Crianças corriam o tempo todo por elas. Houve muitos acidentes”.
ARRAIÁ DE BONECOS Ela foi parar no projeto Casa de Memória em 1989. Antes, vendia pipoca e doces na porta das escolas, para manter os seis filhos. “Mas sempre quis fazer arte”. No trajeto, coletava garrafas plásticas para experimentar por conta própria. Sabia que
era matéria-prima para algo bem mais nobre. “É lixo para os outros. Acredito que ali sempre tem uma obra de arte esperando”. Não custa lembrar que eram os anos 1980 e a sustentabilidade ainda não estava na moda. Assim, nasceram as primeiras peças. “Aí a comissão do bairro me chamou para participar do projeto”. Edna dava aulas de máscaras e bonecos para crianças de 7 a 12 anos. “A maioria delas estava fora da escola, então resolvemos que, nas nossas oficinas, tínhamos de abordar também algumas outras disciplinas”. Enquanto mostrava a técnica dos bonecos, ela ensinava sobre formas geométricas e proporções. Andava sempre com meninos pendurados a tiracolo. “De um lado e do outro”. E tamanha era a vontade de fazer o projeto crescer que ela, junto com quatro professores de outros ofícios, usou o primeiro salário, pago pela ONG Visão Mundial, para investir na construção de três galpões de madeirite, os barracões da Casa de Memória. Os primeirosexemplareserambemrústicos.Muitosbonecosproduzidos
ENCOMENDAS Dona Edna cria bonecos diversos sob encomenda. Os individuais custam a partir de R$ 25. 71 3207-2111/ 8822-1798
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nessa primeira leva ela ainda guarda em casa, misto de troféu e de recordação. Junho bateu à porta e era hora de fazer umtrabalhobaseadonasfestasjuninas.As crianças já modelavam, e dona Edna decidiu organizar um arraiá, baseado na canção Noites Brasileiras, de Luiz Gonzaga. “Havia bonecos velhinhos, de barba, soltando balão, meninos brincando de roda, os moços em volta da fogueira, brincando com o coração, se abraçando, namorando. O meninos ficavam a mil”. O arraiá dos bonecos aconteceu nas ruínasondefuncionouoantigoCineUruguay, o primeiro cineteatro da região de Alagados, hoje completamente abandonado. O projeto, previsto para durar sete anos, só durou quatro. De 1989 a 1993, por desavenças internas. Alguns meninos que aprenderam com dona Edna continuaram fazendo bonecos para vender nas feiras. Ela também continuou com a sua produção. De Charles Chaplin a réplicas dos Beatles,fazqualquercoisaqueoclienteencomende. “Mas o povo só quer isso! Pipa, vestido de chita e bambolê. Cadê aquele cachorro que eu gosto de fazer, com as patas nos peitos do dono? Cadê a casa de taipa com aquele povo do interior, cadê o funeral, porque eu fiz um funeral que fez história, cadê os meninos subindo no pau de sebo?”. Ela pretende voltar a dar aulas no Centro Cultural. Mas para ensinar crianças a fazer os adereços dos bonecos. “Hoje eu tenho uma encomenda para fazer 20 timbaleiros, e preciso fazer 20 timbaus. Capacitando esses meninos, eles podem fazer isso. Também tem as pipas para fazer. Vai ter uma remuneração, para incentivá-los. Estou buscando parcerias”. Entre um boneco eoutro,donaEdnasonhacomodianoqual terá suas peças expostas em galerias de arte ou museus. Merecidamente. «