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Perfil biográfico Mulher intrépida, inconformada e lutadora, D.Leonor de Almeida de Portugal Lorena e Lencastre foi uma das raras mulheres escritoras do séc.XVIII cuja vida e obra permanecem desconhecidas. Podemos atribuir esta situação ao escasso conhecimento da sua produção escrita e ao facto do seu pensamento e percurso - a nível intelectual e social constituírem desvios aos comportamentos femininos mais correntes e mais aceitáveis na época em que viveu, modelo que foi de decisão e força e insubmissão à concepção machista dominante sobre o modo de ser, estar e parecer femininos. Nascida em Lisboa em 1750, primogénita de três irmãos, era filha de D.João de Almeida Portugal, 2º marquês de Alorna, e D. Leonor de Lorena e Távora. Foi batizada em Arroios, tendo como padrinhos o avô paterno, D. Pedro Miguel de Almeida Portugal ( 1º marquês de Alorna e vicerei da Índia) e por madrinha Nossa Senhora das Mercês. Os dois irmãos de Leonor, Maria Rita e Pedro, nascidos respetivamente um e quatro anos depois de Leonor foram muito importantes na construção da personalidade de Leonor. Aos cinco anos terá presenciado o terramoto de Lisboa, mas não dá ecos do sucedido na sua obra. A partir dos oito anos de idade, a sua vida foi marcada pela terrível execução pública dos seus avós maternos – os TÁVORAS -, suspeitos de envolvimento no atentado ao rei D.José I, cometido a 3 de Setembro de 1758.Os avós da escritora foram supliciados e depois executados num patíbulo construído para o efeito em Belém a mando de Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido como Marquês de Pombal. Ainda hoje, no bairro de Belém, e muito próximo da famosa Fábrica dos Pastéis de Belém, existe o minúsculo Beco do Chão Sagrado, onde está colocado um padrão comemorativo do suplício dos Távoras. Naquele local, então conhecido por “patíbulo de Belém”, foram supliciados os Marqueses de Távora, os seus filhos, outros dos seus familiares e vários colaboradores, num total de nove pessoas Em 1758, é enclausurada no Convento de Chelas, juntamente com a mãe e a irmã, até ao ano de 1777, enquanto o pai cumpria pena de prisão por ordem de Pombal. Aí dedicou-se à leitura e ao cultivo da música e da poesia, convivendo com homens cultos e «iluminados»,

entre os quais se contou Filinto Elísio, seu mestre, que lhe deu o nome arcádico de Alcipe. A circunstância de ter crescido no convento marcou a personalidade de Leonor que viveu, de forma dramática, a separação do pai e do irmão e se representará a si própria, na sua obra poética, como um ser triste, marcado pelo 1 infortúnio, vítima do despotismo e da tirania.Algum tempo depois da reclusão, por volta de 1763, estabelece-se uma correspondência proibida e secreta entre D.João e as filhas e, mais tarde, o filho, que fora posto em liberdade sob a tutela do Marquês de Pombal. Estas cartas constituem a fonte principal para o conhecimento dos anos de juventude de D.Leonor e documentam o modo como a futura Marquesa de Alorna foi construindo a sua personalidade, guiada pelos conselhos paternos e, sobretudo, por uma sede de conhecimento que a levou a dedicar-se intensamente à leitura, ao estudo de idiomas (francês, italiano, inglês, latim e árabe) e à aprendizagem da música e da pintura. Nesta correspondência, D. Leonor dá conta dos vários estratagemas de que se servia não só para ter lições com regularidade, apesar da rigidez das regras conventuais, mas também para conseguir ter acesso aos livros mais recentes, entrando em acordo com livreiros para que lhe emprestassem temporariamente as obras que iam surgindo no mercado em troca de uma quantia fixa mensal, pedindo obras emprestadas ao irmão, aos familiares e amigos que a visitavam, ou encomendando livros a partir dos anúncios que lia nos jornais enciclopédicos franceses e nas revistas inglesas que recebia. Interessando-se desde cedo pela poesia, D.Leonor conta a seu pai o modo como assistia e participava nos outeiros poéticos - reuniões literárias – que se realizavam em Chelas durante as festividades religiosas e as eleições das 2 Preladas .Dos seus relatos, fica claro que foi durante esses anos que se tornou exímia na técnica do improviso poético. Durante o tempo em que D.Leonor viveu reclusa, a fama do seu talento espalhou-se por Lisboa.Em 1770, as cartas enviadas pela Condessa do Vimieiro confirmam que a jovem poetisa já adquirira uma assinalável reputação como mulher de letras, com o pseudónimo literário de Alcipe.

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Despotismo - governo absoluto e arbitrário Preladas – superiora do convento, abadessa

Saída do convento em 1777, por morte do rei D.José e subida ao trono de D. Maria I, casa-se, por paixão e contra a vontade do pai, em 1779 com o conde d`Oeynhausen – Carlos Augusto - e viaja por Espanha, França, Alemanha e Áustria onde fica a viver uma temporada. Deste casamento nascem oito filhos, a saber: Leonor Benedita, Maria Regina, Frederica, Juliana, Carlos Frederico, Henriqueta, Luísa, João Ulrico. Em 1793, com 43 anos de idade, perde o marido e regressa a Portugal, refugiando-se na Quinta do Vale de Nabais para se entregar aos filhos, à educação das mulheres desamparadas, à filantropia e à poesia. Em 1803, funda a Sociedade da Rosa que o Intendentegeral da polícia, Pina Manique, considera revolucionária. Com esta organização, Leonor tenta criar um organismo para contrariar as influências das sociedades maçónicas. Contudo, apesar de católica e monárquica, é exilada por Pina Manique por este suspeitar que a convivência da escritora com a França da Enciclopédia a tivesse transformado numa figura subversiva e perigosa para o Estado. Do contato com os espíritos mais avançados do seu tempo ficou-lhe o gosto pelas questões científicas e filosóficas e o seu «progressismo», reforçado pelas longas estadas em Viena de Áustria, ainda em vida do marido.. De regresso a Portugal e até à morte, aos 89 anos,, não deixou de assinalar na sua obra os acontecimentos da política portuguesa e fez do seu salão um centro de encontro e difusão das novas doutrinas estéticas, num papel muito semelhante ao desempenhado em França por Mme. de Staël. A sua obra, que abrange os mais variados géneros e estruturas formais, denuncia já uma sensibilidade romântica, tanto no modo de conceber a poesia como na sua visão do mundo interior e exterior. O estilo, embora utilizando figuras e epítetos clássicos, é trespassado por um sentimentalismo e uma veemência românticos. As cartas particulares que dela nos restam, escritas numa linguagem viva e espontânea, merecem também um lugar de relevo na nossa história literária. É ainda de referir o seu trabalho de tradutora, que vale não só pela qualidade como pela quantidade de aspetos que nos revela, abrangendo tanto os clássicos como a Bíblia, com uma especial incidência nos autores seus contemporâneos. As suas obras foram reunidas e publicadas postumamente, em 1844, em 6 volumes, sob o título de obras poéticas, por ação de duas das suas filhas: Juliana e Henriqueta.


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ozinha no bosque com meus pensamentos, calei as saudades, fiz trégua a tormentos. Olhei para a lua, que as sombras rasgava, nas trémulas águas seus raios soltava. Naquela torrente que vai despedida encontro, assustada, a imagem da vida. Do peito, em que as dores já iam cessar, revoa a tristeza, e torno a penar. ******

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speranças de um vão contentamento, Por meu mal tantos anos conservadas, É tempo de perder-vos, já que ousadas Abusastes de um longo sofrimento. Fugi; cá ficará meu pensamento Meditando nas horas malogradas, E das tristes, presentes e passadas, Farei para as futuras argumento. Já não me iludirá um doce engano, Que trocarei ligeiras fantasias Em pesadas razões do desengano. E tu, sacra, Virtude, que anuncias, A quem te logra, o gosto soberano, Vem dominar o resto dos meus dias. Bibliografia ALORNA, Marquesa de.Poesias.2ª ed.Lisboa: Sá da Costa, 1960. Seleção, Prefácio e Notas de Hernâni Cidade. ANASTÁCIO, V.A Marquesa de Alorna. Lisboa: Prefácio, 2009.

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u cantarei um dia da tristeza Por uns termos tão ternos e saudosos, Que deixem aos alegres invejosos De chorarem o mal que lhes não pesa.

[F30-novembro 2011]

Abrandarei das penhas a dureza, Exalando suspiros tão queixosos, Que jamais os rochedos cavernosos Os repitam da mesma natureza. Serras, penhascos, troncos, arvoredos, Ave, ponte, montanha, flor, corrente, Comigo hão-de chorar de amor enredos. Mas ah! que adoro uma alma que não sente! Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos, Que eu derramo os meus ais inutilmente. Obras ficcionais sobre a Marquesa de Alorna existentes **** na BECRE: CARVALHO, M.João Lopo de. Marquesa de Alorna: do cativeiro de Chelas à corte de Viena.1ª ed. Lisboa. Oficina do livro, 2011. HORTA, Maria Teresa. As luzes de Leonor: a marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis.1ª ed. D.Quixote, 2011 O Pirilampo e o sapo

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ustroso um astro volante Rompeu das humildes relvas: Com seu voo rutilante Alegrava à noite as selvas. Mas de vizinho terreno Saiu de uma cova um sapo, E despediu-lhe um sopapo Que o ensopou em veneno. Ao morrer exclama o triste: - Que tens tu de que me acuses? Que crime em meu seio existe? - Respondeu-lhe: – Porque luzes?

Marquesa de Alorna Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre [Lisboa, 1750 - Lisboa, 1839]


Marquesa de Alorna