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Acontece - ed. 250 - junho de 2023

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CONVIVÊNCIA BENEFICIA COTIDIANO DA POPULAÇÃO IDOSA EM SP - p. 20

LEIA TAMBÉM: MOBILIDADE SUSTENTÁVEL AINDA ENFRENTA OBSTÁCULOS - p. 2

A VIOLÊNCIA NO AMBIENTE ESCOLAR ENTRA NA PAUTA DO DIA - p. 3

VACINAÇÃO SEGUE EM BAIXA E PREOCUPA ESPECIALISTAS - p. 8

SAÚDE INFANTIL É AMEAÇADA PELA DESIGUALDADE - p. 10

ESPORTE AUXILIA NA PROMOÇÃO DA INCLUSÃO SOCIAL

Por Vitória de Paula e Ricardo Serrano - p. 9

INICIATIVAS AJUDAM MULHERES EM TRATAMENTO ONCOLÓGICO - p. 15

JOVENS E ADULTOS OPTAM POR RETOMAR OS ESTUDOS - p. 19

E MUITO MAIS!

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MACKENZIE -
XXIII - ED. 250 - JUNHO / 2023
JORNAL-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE PRESBITERIANA
ANO

Mobilidade sustentável ganha adeptos

O uso do transporte alternativo cresce, mas ainda esbarra em uma série de limitações

solução para os problemas mundiais. Segundo ele, a abordagem mais promissora para a mobilidade sustentável é o motor elétrico alimentado por uma bateria de lítio. “Embora a produção de baterias emita gases de efeito estufa, usar um carro elétrico carregado por fontes de energia renovável ainda é mais sustentável do que queimar gasolina”, diz Matthew. O planejamento urbano pode ser organizado para incentivar o uso de transporte sustentável por meio da melhoria da infraestrutura. Isso inclui a construção de mais ciclovias, faixas exclusivas para ônibus e linhas de metrô, bem como mais calçadas e ruas que facilitem a caminhada e o ciclismo. Matthew cita uma nova tendência no planejamento urbano: é a cidade de 15 minutos, em que as pessoas podem fazer tudo o que precisam dentro de uma distância que equivale a até 15 minutos de bicicleta ou de caminhada de suas casas. A ideia é desencorajar o uso de carros.

Apesar de sua importância – ela ajuda a reduzir o trânsito e a poluição, por exemplo –, a mobilidade sustentável ainda não é acessível para todas as pessoas. Algumas comunidades não têm acesso a transporte público de qualidade ou a infraestrutura para caminhadas e ciclismo. Isso dificulta a adoção de uma abordagem mais sustentável para se locomover. Além disso, veículos elétricos e outras tecnologias verdes ainda podem ser caros e fora do alcance de muitos consumidores.

De acordo com o jornalista Matthew Shirts, 64 anos, cofundador do portal Fervura no Clima, focado em jornalismo climático, a mobilidade sustentável é aquela caracterizada pela emissão reduzida de gases de efeito estufa na atmosfera. A queima de gasolina, derivada de petróleo, é uma fonte significativa desses gases. O etanol é uma alternativa mais sustentável à gasolina, mas não é uma

Para ele, opções ecológicas de locomoção devem ser acessíveis a todos os grupos sociais. Uma maneira de alcançar isso é fornecer transporte público gratuito; assim, o número de veículos a gasolina nas ruas será reduzido. É melhor um ônibus queimando gasolina e levando mais pessoas do que todas elas usarem um carro”, diz. Matthew apoia a ideia de tornar os transportes coletivos gratuitos para todos, pois seria mais econômico, sustentável e incentivaria mais pessoas a usá-los.

Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a bicicleta é o meio de transporte de 3,22% das pessoas que vivem nas capitais brasileiras. Estevão Marcos Firmino, 38 anos, coordenador pedagógico de uma escola infantil, faz parte desse percentual. Estevão usa a bicicleta como meio de transporte para ir ao trabalho desde 2019. A praticidade e rapidez dessa prática, além dos benefícios na qualidade de vida, são os pontos que o coordena-

dor pontua como os motivos pelos quais ele optou pela bicicleta como meio de transporte. No entanto, afirma: “me sinto fragilizado andando de bicicleta diariamente”. Ele menciona que, para que mais pessoas sejam influenciadas a usarem meios de transportes que não emitam gases, é necessário maior investimento em uma política urbana de mobilidade funcional e de qualidade para todos, implementando mais ciclovias, melhorando o transporte público e o principal: investindo em segurança. Dados mostram que o trânsito na cidade de São Paulo já voltou ao patamar anterior ao isolamento da covid-19. Os dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) mostram que, em janeiro deste ano, a média de lentidão nas avenidas ficou ligeiramente acima do nível registrado no mesmo mês em 2020. Tal fato levou o publicitário Marc Edouard Boone, 48 anos, a fugir do congestionamento. Ele optou pelo uso da bicicleta pois é um meio não poluente e saudável. Marc comenta que se sente inseguro mesmo andando nas ciclovias, e para isso menciona a importância de ser sempre notado no trânsito, usar capacete, luz e equipamentos de segurança.

Jornal-Laboratório dos alunos do 2o semestre do curso de Jornalismo do Centro de Comunicação e Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie. As reportagens não representam a opinião do Instituto Presbiteriano Mackenzie, mas dos autores e entrevistados.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

Centro de Comunicação e Letras

Diretor do CCL: Rafael Fonseca

Coordenador do Curso de Jornalismo: Hugo Harris

Edição: André Santoro

Impressão: Gráfica Mackenzie

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Ana Luiza Guerbali e Vinicius Robassini Estevão usa a bicicleta como meio de transporte

Educação com harmonia

O que é recomendado e o que está sendo feito para combater casos de violências em escolas

OBrasil é o país que lidera o ranking de agressão contra docentes e alunos, segundo pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Atualmente, com a vasta desigualdade econômica e o alcance das redes sociais, e em um país no qual há muitos casos de violência diariamente, o foco é voltado para as escolas, que são o principal alvo de ameaças e ataques recentes. Além do apoio do Ministério da Justiça, que liberou 150 milhões de reais para o patrulhamento ostensivo, é preciso entender o que está sendo feito na prática e o que é recomendado por profissionais da área da educação.

Para Mirela Duran Boccardo, 47 anos, psicóloga especializada em atendimento a crianças e jovens, as escolas são a base para ensinar a convivência coletiva para crianças e adolescentes. Como elas são ambientes importantes para experimentação e apoio, é preciso en-

tender os jovens. “Eles estão em fase de formação do córtex cerebral e, por isso, sua censura de realidade se encontra fragmentada. Para se sentirem pertencentes, algumas situações acabam sendo mais propícias para atitudes agressivas”, afirma a psicóloga. Além disso, ela aponta que é essencial disponibilizar o apoio tanto para alunos quanto para os membros do corpo docente. “É um humano lidando com outro, em muitos casos é alguém que pode estar inclusive mais fragilizado e debilitado emocionalmente que o próprio aluno”, afirma.

A psicóloga já atuou em escolas orientando docentes e principalmente pais a conversarem com os alunos sem censura e compreenderem como está a vida fora de seu controle e orientá-los.

“Eles vão escorregar, é um período de transição e eles têm a curiosidade pela experimentação, esteja aberto para ouvir”, diz a especialista. Ainda segundo Mirela, é preciso proporcionar um ambiente de parceria entre pais e filhos, para

que haja diálogo tanto sobre suas questões e dificuldades enfrentadas, quanto sobre as emoções dos indivíduos. No meio pedagógico, a diretora Akiyo Tamura, 58 anos, que trabalha em uma escola técnica de São Paulo, diz que segue a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que já exige que sejam trabalhadas dez competências socioemocionais consideradas fundamentais, como, por exemplo, a atitude, autodisciplina, respeito com o outro e respeito a si próprio. Akiyo, no entanto, revela sua preocupação: “será que nós temos pessoas capacitadas, educadores capacitados, também para trabalhar esse projeto de vida, as questões das competências socioemocionais?”. Atualmente, na escola que trabalha, a equipe é composta de um coordenador pedagógico, orientador educacional e coordenadores de curso, além de psicólogos voluntários. A diretora afirma que a responsabilidade de apoiar alunos e conhecer sobre o seu perfil, tanto socioemocional, como de desempenho em sala, é compartilhada entre esses profissionais. Um exemplo de redução da violência escolar é a Escola Aberta, em São Paulo. Trata-se de uma escola gratuita e um exemplo no desenvolvimento afetivo emocional em crianças. Ela não possui uma estrutura formal de aulas, embora seja fundamentada na BNCC. A instituição promove discussões e permite que seus alunos aprendam, a partir da compreensão de suas emoções, a criar autonomia e conviver em ambientes comuns. A diretora também aponta a importância do envolvimento com os alunos, afirmando que “cada vez que você recebe uma turma nova, são pessoas que você não conhece. A cultura deles, a cultura de educação, de conhecimento, cultural deles. É preciso ter essas informações para poder orientar da melhor forma”. Essa dinâmica escolar também é ressaltada por Mirela, que acredita que “o conteúdo de escola fica num padrão tradicional, arcaico, que está longe de atender os diversos perfis de personalidades, habilidades dos alunos e, portanto, passa a ser um ambiente de falta de motivação, e não o ambiente que agrega”.

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Fernanda Freire e Mariana Nalesso Akiyo Tamura, 58 anos, diretora de escola técnica em São Paulo

Cultura periférica ganha destaque

Cresce o debate sobre produção artística em espaços coletivos nas comunidades da cidade de São Paulo

ASecretaria Municipal da Cultura de São Paulo divulgou que o investimento em ações e programas culturais, em 2022, foi de aproximadamente 487 milhões. Para 2023, o orçamento inicial está em torno de 688 milhões, aumento de 41% em relação ao ano anterior. Além disso, a Secretaria publicou um comparativo de produções culturais durante os três primeiros meses de 2023. Segundo os dados, as apresentações das Casas de Cultura tiveram aumento de 105% em relação ao mesmo período do ano passado. A variação positiva foi de 179% na contratação de artistas independentes.

Localizado no Parque América, extremo sul de São Paulo, o Centro Cultural Grajaú, anteriormente conhecido como “Casa de Cultura de Interlagos”, vem ganhando reconhecimento ao longo dos anos na região. Além de oferecer espaço para oficinas de dança afro e yoga, esse espaço público também tem se destacado ao promover shows de artistas independentes e conta com o produtor cultural C4SSI, integrante no cenário de produção cultural independente como poeta, rapper e compositor.

O produtor Arthur Correia, 26 anos, fala sobre a relação das casas de cultura com a periferia e artistas: “por mais benéfico que seja, eu gostaria um dia poder perguntar para um coordenador de alguma casa de cultura qual é a média de artistas em cada região. Acho que as casas de cultura deveriam ter esse tipo de dado, além de fomentar a cultura”.

A Prefeitura de São Paulo abriu consulta pública em dezembro de 2022 sobre o edital de

Wesley Vieira, frequentador do JAMAC, pintando um mural chamamento para gestão compartilhada das Casas de Cultura do município, buscando organizações sociais da sociedade civil interessadas em assinar termos de colaboração com a Secretaria Municipal de Cultura (SMC). O objetivo é estabelecer a gestão compartilhada dos espaços, com a administração saindo das mãos do poder público e sendo feita por Organizações da Sociedade Civil, as OSCs. A iniciativa gerou preocupação no setor cultural e motivou a realização de debate, proposto pelos vereadores Jair Tatto (PT) e Elaine do Quilombo Periférico (PSOL). A artista plástica Mônica

Nador, 67 anos, filha de mãe italiana e pai húngaro, faz as mesmas ressalvas que os vereadores. Para ela, esse projeto de gestão compartilhada das casas de cultura não é visto positivamente, pois os órgãos públicos culturais reforçam estereótipos “principalmente ao artista periférico”, comenta a idealizadora do JAMAC, o Jardim Miriam Arte Clube. Localizado no bairro de Cidade Ademar, zona sul de São Paulo, o JAMAC tem como objetivo promover o acesso à cultura e à arte para a comunidade local e para grupos em situação de vulnerabilidade social. O projeto oferece oficinas de música, dança, teatro, artes

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visuais e literatura. Mônica conta que o JAMAC nasceu da necessidade pessoal de aproximar a arte do público. Segundo ela, o processo é mais interessante quando produzido coletivamente: “o que importa na arte é a educação, muito mais que o produto, que o objeto”. Ela completa: “li que 70% dos brasileiros não leem, 80% não vão ao cinema, 80% não vão ao teatro, porém cultura não se resume apenas a isso, essas pesquisas não indicam a quantidade de pessoas que frequentam rodas de samba. É outra parte da nossa cultura que é desconsiderada. Com o JAMAC, eu aprendi muito mais que na minha vida acadêmica, que acaba sendo excludente”. Além das oficinas que ocorrem no JAMAC, o espaço tem parceria com o Expresso Periférico. O jornal foi criado por ativistas da região da Cidade Ademar, Pedreira e Jabaquara. O projeto busca estabelecer uma ponte de comunicação, reflexão e debate para transformar a realidade das pessoas e melhorar a vida dos trabalhadores na região, valorizando a cultura local. Recentemente, o produtor cultural Arthur publicou para a coluna “Gente do Bairro”, escrita por moradores da região, falando sobre juventude e os desafios de viver na periferia. Ele conta que se tornou mais ativo em questões culturais aos 23 anos, quando passou a olhar para o cenário na região onde cresceu. Foi por meio

de movimentos e coletivos que conheceu o Expresso Periférico. “Eu não sabia o quanto era carente minha comunidade. Quando fui mapear, percebi que existe um déficit muito grande”, afirma o jovem, que desenvolveu a própria ONG, Fomentadores de Cultura, que, além de realizar projetos culturais, desenvolve pesquisas para mapear artistas sem visibilidade na periferia. Além de apresentar seus projetos, Arthur comenta com olhar positivo a Lei Paulo Gustavo, destinada ao setor cultural. Ela prevê o repasse de 3,8 bilhões a

estados, municípios e ao Distrito Federal para aplicação em ações emergenciais que visem a combater e minimizar os efeitos da pandemia da covid-19 sobre o setor cultural. Em meados de maio de 2023, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, anunciou a liberação do valor, após represamento dos recursos pelo governo anterior. “Acho que a galera tem que se informar. Mesmo que essa possa ser a parte chata, temos que nos informar para entendermos melhor sobre o assunto, pois ela vai beneficiar um monte de pessoas”, diz o produtor.

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Mônica Nador, artista e idealizadora, durante entrevista no JAMAC Arthur Correia, produtor cultural, fundou a ONG “Quilombo de Itan”

As entregas não param

Proposta de regulamentação de aplicativos como iFood é discutida no Brasil

maioria dos entregadores trabalha com mais de um aplicativo simultaneamente e tem uma renda média mensal de R$ 1.321, valor quase igual ao piso do salário mínimo nacional, que é de R$ 1.320. A necessidade financeira é a principal motivação para esse trabalho, o que evidencia a importância dessa área, mas os dados também revelam a precariedade do trabalho desses profissionais, que muitas vezes não contam com benefícios trabalhistas e enfrentam riscos como falta de segurança no trânsito.

Weslein Pereira Carvalho, 31 anos, desde 2020, faz entregas para a empresa iFood. Quando questionado sobre por que migrou de outras lojas e restaurantes para a empresa estrangeira, ele explica: “prefiro por causa do pagamento. Trabalho mais, mas ganho mais também”.

Apenas 23% de entregadores e motoristas autônomos paga contribuição ao INSS, de acordo com o Instituto

de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse é o caso de José da Silva, 39 anos, antes office boy de bancos como o Santander e vinculado ao iFood desde 2019. “Eu pago só o DAS (Documento de Arrecadação do Simples Nacional) todo mês, para aposentadoria ou caso tenha algum acidente”, afirma o entregador. Os demais, que não contribuem para a Previdência Social, ficam sem tempo de trabalho contabilizado para aposentadoria, além de não poderem contar com benefícios do governo em caso de doença ou acidente. O levantamento também revelou que esse setor empregava 1,7 milhão de pessoas no terceiro trimestre de 2022. É importante ressaltar que, na maioria dos casos, essas atividades são a única fonte de renda desses trabalhadores no Brasil, conforme destacado pelo economista Leonardo Alves Rangel, pesquisador do Ipea e autor do estudo.

Em maio deste ano, um decreto assinado pelo ministro do trabalho, Luiz Marinho, criou um grupo de trabalho que deve elaborar uma proposta de regulamentação da atuação de entregadores de aplicativo. O grupo será composto por 45 integrantes. Serão 15 membros em nome de cada uma das três partes: governo federal, empresas do setor e trabalhadores. O decreto não prevê, no entanto, vagas para membros da Aliança Nacional dos Entregadores de Aplicativos (ANEA) que, em troca de cancelar uma greve marcada no início do ano, se reuniram em janeiro com representantes do Ministério do Trabalho para tratar do tema. Acerca da proposta de regulamentação, o advogado Camilo Onoda Caldas, 45 anos, argumenta a favor da existência de uma regulamentação externa feita pelo Estado que possa trazer melhores condições para os entregadores, visto que não há não essa margem de negociação com os aplicativos. “O fato é que, diferente de outros prestadores de serviços que têm um certo poder de barganha e negociação com quem o contrata, como, por exemplo, um pintor, podendo negociar as condições de trabalho e valor de remuneração, os entregadores de aplicativos se submetem às condições e remunerações que os tomadores do serviço, no caso os aplicativos, impõem a eles”, diz Camilo, que é especialista em direito do trabalho. De acordo com dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, a Abrasel, em 2020, os serviços de delivery representaram cerca de 40% do faturamento do setor de alimentação no país. Além disso, a pesquisa realizada pela Aliança Bike e outras organizações mostrou que, em 2020, havia cerca de 600 mil entregadores de apps no Brasil, com a maioria sendo jovens e com baixa escolaridade. Esses entregadores enfrentam muitos desafios e riscos em seu trabalho, como falta de segurança no trânsito, baixa remuneração e ausência de benefícios trabalhistas. A mesma pesquisa aponta que a Weslein Pereira Carvalho, 31 anos, é mais um entre tantos entregadores

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A arte é para todos

Projetos sociais levam música clássica para a população e buscam mudar os estigmas sociais

Apesar de ser uma das mais importantes manifestações culturais do Brasil, a música ainda não é acessível por toda a população. Para preencher essa lacuna, projetos como a Escola Municipal de Música, no centro de São Paulo, oferecem cursos, incluindo oficinas e núcleos de performance, de forma gratuita para a população. O professor e musicista Thiago Lamattina, 34 anos, trabalha no local e relata que o público-alvo vai desde pessoas que não sabem nada até o nível avançado.

Thiago falou sobre outros projetos e comentou que em sua cidade natal, Poá, no interior de São Paulo, uma orquestra foi iniciada por seu pai. “Muitos dos alunos que entram aqui vêm de projeto social. Vêm do Guri, do Baccarelli, das bandas e fanfarras, então acabo conhecendo bastante coisa assim”. Questionado quanto à importância desses projetos para a música e para as pessoas que participam deles, ele diz: “é um pouco clichê isso, mas tira as crianças da rua, do ócio”. Thiago afirma que a música é muito importante para que as pessoas se desenvolvam em vários aspectos, como na coordenação e na parte cognitiva.

Maryana Cavalcante, 31 anos, musicista, percussionista e educadora, comenta que começou a estudar música porque sua irmã ingressou no Instituto Baccarelli por volta de 2000 para aprender violino. Ela fazia parte do coral da igreja e, em 2002, ingressou no coral do Baccarelli. A educadora cantou e tocou alguns instrumentos, como flauta transversal e bateria, até se especializar em percussão orquestral. Questionada em relação a conhecer outros projetos, ela citou a Fábrica de Cultura, onde também trabalha, que investe em diversos tipos de artes, não só na música.

A musicista também comentou sobre um grupo na zona leste chamado Batakerê, que é focado na percussão de samba e samba-reggae. Ao comentar sobre a importância desses

Thiago Lamattina ensina aluno a tocar tímpano na Escola Municipal de Música de São Paulo projetos para a música, Maryana ressaltou que nosso país é muito extenso e, por isso, dificilmente governos conseguem abarcar todas as demandas. “As ONGs existem para suprir essa necessidade. Uma instituição que nem o Instituto Baccarelli, em Heliópolis, traz a música erudita, música orquestral. As pessoas não vão associar a favela com a música de concerto”, afirma.

A educadora ressalta a o fato de que a população pensa na música de concerto como elitista e comenta não acreditar na ideia de levar cultura para algum lugar, pois cada local, inclusive as periferias, tem sua cultura própria. “Não é trazer cultura, é trazer uma outra vertente”, diz. Ela completa: “as pessoas só vão gostar daquilo que elas conhecem”. Maryana comenta que as ONGs, como o Instituto Baccarelli, são extremamente interessantes para música e as artes em geral.

A Orquestra Sinfônica Heliópolis é uma das principais iniciativas do Baccarelli. Ela foi fundada em 1996 e é composta por jovens músicos daquela comunidade e de outras áreas caren-

tes de São Paulo. A orquestra é reconhecida internacionalmente e já se apresentou em diversos países, como Alemanha, França, Itália, Espanha, Estados Unidos e Japão. De acordo com informações divulgadas pelo próprio Instituto Baccarelli, a instituição atende cerca de 1.200 crianças, adolescentes e jovens em seus programas de ensino musical, incluindo aulas de instrumentos, teoria musical, coro e orquestra. Letícia Martins, 28 anos, musicista, relatou que tentou outras carreiras, mas chegou um momento que não dava mais permanecer nessa indecisão, e só devia ir para a música porque era algo mais forte. Questionada se conhecia ou já havia participado de algum projeto, ela relatou: “Se tivesse isso na minha formação, teria ajudado muito”. Segundo ela, quando começou a estudar música não havia nenhum projeto em Botucatu, onde morava. Seus colegas que participaram do Guri, Instituto Baccarelli e Fundação de Sorocaba, entre outros projetos, “têm uma base muito mais sólida e chegam muito mais preparados pra universidade”.

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Imunização em queda

Baixa procura pela vacina bivalente contra a covid-19 preocupa profissionais da saúde

Com a pandemia da covid-19, a vacinação se tornou uma das principais armas para combater a disseminação do vírus. Contudo, a falta de interesse da população pela procura pelas vacinas bivalentes, que oferecem proteção contra duas variantes do Coronavírus de uma só vez, pode levar a uma redução na eficácia da imunização e a um aumento no risco de infecção. Até então, o imunizante só era aplicado em indivíduos que faziam parte de grupos prioritários, como profissionais da saúde, idosos ou portadores de doenças crônicas. No entanto, a baixa adesão fez com que as autoridades de saúde ampliassem o público-alvo em várias regiões do Brasil.

O Ministério da Saúde planejava vacinar 61 milhões de pessoas de grupos prioritários com a vacina bivalente. Todavia, segundo dados divulgados pelo vacinômetro, ferramenta digital que monitora o progresso da vacinação contra o vírus, somente 15,6 milhões de brasileiros haviam tomado a dose adicional até 11 de maio deste ano.

Mariluci, 45 anos, é profissional de saúde e trabalha na UBS Cidade Vargas. Ela afirma que muitas pessoas entendem estarem imunizadas apenas por tomarem duas doses da vacina, e que por isso, não procuram as doses de reforço. “Na verdade, após a segunda dose, há um intervalo mínimo de quatro meses para poder ser realizada a terceira dose”, diz.

A disseminação de notícias falsas foi outro fator crucial que contribuiu para a queda de aplicações de doses adicionais, já que o compartilhamento de informações imprecisas e alarmantes nas redes sociais faz com que as pessoas hesitem em tomar vacinas, levando a um aumento no número de casos da doença infecciosa. “No meu entender, as fake news levam mais em consideração a questão política”, diz Rita Takako Watanabe, médica pediatra aposentada, 63 anos. “Eu ainda acredito piamente na vacina, mesmo sabendo que ela não é 100% eficaz”, completa.

Durante a gestão de Jair Bolsonaro, foram feitas fake news sobre a vacinação em uma clara tentativa de

Josilene Monteiro usa máscara cirúrgica como medida para se prevenir contra o coronavírus desviar a atenção dos erros na gestão da crise sanitária. Além disso, demitiram técnicos do Ministério da Saúde que defendiam a importância da vacinação. No lugar deles, foram nomeados militares sem experiência na área para cargos importantes no combate à pandemia – o caso mais exemplar foi o do Ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, atualmente deputado federal pelo Rio de Janeiro. Para completar, o próprio presidente afirmou publicamente que não iria se vacinar e criticou abertamente a vacina chinesa Coronavac, que foi o primeiro imunizante utilizado no Brasil.

Tais afirmações, somadas às diversas mentiras que circulam nas redes sociais, geram uma grande desconfiança em relação à vacinação e podem fazer com que muitas pessoas deixem de se imunizar. Nesse sentido, cabe à população cobrar transparência e responsabilidade dos governantes, bem como valorizar o trabalho dos profissionais de saúde e cumprir o calendário vacinal.

A trabalhadora autônoma Josilene Monteiro, 43 anos, expressa sua preocupação em trazer o vírus para dentro de casa e a necessidade de preci -

sar se precaver para evitar que este tipo de situação aconteça. “Eu tenho pressão alta, o que me faz acreditar que não seja algo bom para minha imunidade”, diz. Ela também teme pelo bem-estar do filho, que sofre de encefalite autoimune e necessita de cuidados especiais. “O sofrimento e a perda que presenciei dos indivíduos que pegaram o vírus deixaram claro que a vacinação é o caminho certo para proteger quem amo”, afirma.

Mesmo que, no início de maio deste ano, a Organização Mundial da Saúde tenha decretado o fim da covid-19 como uma emergência de saúde pública, a flexibilização das medidas restritivas não deve ser vista como um sinal de que a doença acabou, mas como uma oportunidade para se adaptar a um novo cenário, mantendo os cuidados necessários para prevenir o contágio. O vírus ainda se mantém em disseminação global e tem impacto relevante quanto ao número de hospitalizações e mortes. Até o fechamento desta reportagem, a OMS contabilizava 6,9 milhões de mortes em todo o mundo devido ao Coronavírus. No Brasil, foram cerca de 700 mil mortes.

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O esporte é o caminho

Atividades auxiliam no desenvolvimento físico e mental de crianças, jovens e adultos

Aprática esportiva é vista como símbolo de vitalidade, saúde, respeito e disciplina. Mas nem todas as modalidades têm a visibilidade do futebol, por exemplo. Atletas e ex-atletas que tiveram sua vida transformada pelo esporte buscam levar essa mudança para a vida de outras pessoas por meio de projetos sociais. É o caso do mestre de kickboxing Sérgio Antônio da Silva, 62 anos, conhecido por Serginho. “Eu vim da periferia do Jardim Brasil, zona norte de São Paulo, e sei que o esporte pode mudar a vida da pessoa. A molecada começa a treinar e com isso já conseguimos afastá-los de muitas coisas ruins”, diz.

Serginho iniciou o seu projeto de ensinar kickboxing e muay thai para crianças e jovens carentes há quase 30 anos, e explica que sua maior motivação foi a tentativa de direcionar essas pessoas para ações positivas que resultem em uma melhora na qualidade de vida e na expectativa de ser diferente daqueles que foram para os caminhos do crime e violência. “De repente você traz esse menino para a luta e nasce nele a vontade de ser campeão e de viajar o mundo”, afirma.

O projeto engloba o espaço CT Serginho Team e a união com a Igreja Nossa Senhora da Livração, ambos no Jardim Brasil. O mestre completa dizendo que em seus projetos oferece descontos em cursos e universidades, “dando a formação e disciplina do esporte e as condições para que esse moleque consiga estudar”.

O sensei Alberto Joaquim do Nascimento, 69 anos, ensina caratê e tem alunos de todas as idades. Suas aulas são oferecidas gratuitamente no espaço da escola de samba Unidos de Vila Maria, onde há vários projetos sociais para ajudar a população que não tem condições de pagar por tratamentos de saúde e atividade física. Alberto mostra que as artes marciais auxiliam no bem-estar emocional e social de cada indivíduo, principalmente dos que já têm poucos recursos.

Os princípios do caratê são estabelecidos justamente para auxiliar a índole e moral dos praticantes. “Nosso lema é ‘Dojo Kun’ que significa esforçar-se para a formação do caráter e fidelidade para o caminho da razão, ou seja, preciso respeitar todas as artes marciais, acreditar naquilo que eu estou fazendo e principalmente conter o meu espírito de agressão”, diz Alberto. Ele complementa que as artes marciais são uma forma mais adequada de lidar com ofensas, pensamentos errados e sentimentos negativos.

“É uma alegria ver crianças criando o interesse pelo esporte e vindo me abraçar com um sorriso no rosto, isso vale muito a pena”, diz o sensei. Ele completa: “ajudar as pessoas com a autoestima baixa é um dos benefícios que a arte marcial traz”, pois ela traz uma melhor noção das qualidades e dos limites de cada um.

As artes marciais e esportes trazem muitos benefícios para a saúde física e mental de todos os que praticam. Tanto o sensei Alberto quando o mestre Serginho, em todas as suas aulas, passam para os seus alunos o privilégio de estarem em um ambiente engrandecedor e repleto de possibilidades. A socialização

que essas atividades proporcionam é fundamental para que os alunos, especialmente os mais novos, aprendam a compartilhar e fazer o bem ao próximo. Os dois profissionais dizem que o tempo de aprendizagem de cada um é único e que paciência também é uma habilidade muito presente nos treinos.

A cidade de São Paulo é a primeira do Brasil a integrar a Rede de Cidades Esportivas e de Desenvolvimento da América Latina, programa que terá como principal objetivo a prática de atividades físicas e a inclusão do esporte na vida das pessoas. Outro ponto a ser ressaltado é a aproximação que o projeto viabiliza entre grupos mais vulneráveis e discriminados, como mulheres, deficientes, pessoas carentes e sem acesso à atividade física.

Outro projeto importante na cidade é o São Paulo + Ativa, que oferece aulas gratuitas de diferentes tipos de esportes, como futebol, skate e algumas artes marciais, como kickboxing e caratê. O programa oferece a crianças e jovens a oportunidade de se envolver com o mundo dos esportes em benefício da saúde. Alem disso, propicia a convivência com pessoas diferentes.

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Sensei Alberto é muito cuidadoso com seus alunos

Desigualdade ameaça saúde das crianças

Queda dos índices de vacinação, insegurança alimentar e habitação precária são alguns fatores que contribuem para os altos índices de mortalidade infantil em regiões periféricas

Um levantamento divulgado em 2022 pela Organização Não-Governamental Rede Nossa São Paulo traz dados alarmantes sobre a saúde da primeira infância na cidade de São Paulo: crianças das regiões periféricas do município têm 19 vezes mais chances de morrer do que aquelas que vivem em zonas centrais. Os bairros com menor mortalidade são Santo Amaro e Vila Leopoldina, com 0%, seguidos por Itaim Bibi e Pinheiros, que oscilam entre 0% e 4%. Já locais como Jardim Ângela, Capão Redondo, Parelheiros e Marsilac, na zona sul, têm índices que oscilam entre 9% e 17%. Esses números são maiores que a média geral de São Paulo, que é de 9,9%. Apesar da desigualdade, os dados mais recentes mostram uma redução na diferença em relação à pesquisa anterior, de 2021, que indicava que as crianças da periferia tinham 23 vezes mais chances de morrer.

Desde a adoção do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1990, tem sido observado um declínio na taxa de mortalidade em comparação aos anos anteriores à sua implementação. Esse progresso pode ser atri-

buído, por exemplo, ao aumento do acesso aos serviços de pré-natal, à promoção do aleitamento materno dentro do período indicado pelos especialistas e ao acompanhamento adequado no pré-natal e neonatal durante o primeiro ano de vida. Apesar de a mortalidade infantil ter diminuído em São Paulo entre 2016 e 2021, a desigualdade da mortalidade entre zonas centrais e periféricas aumentou e se mantém maior que a média geral da cidade.

Nathália Santos, 32 anos, auxiliar de serviços gerais, realiza o acompanhamento pediátrico do filho de 2 anos pelo SUS. Ela conta que todo o pré e neonatal foram feitos na UBS Jardim Aeroporto, localizada no Campo Belo, zona sul. Segundo ela, durante o pré-natal, os profissionais de saúde forneceram todo o apoio necessário para realizar exames e acompanhar o desenvolvimento da gestação. Além da estrutura e médicos, Nathalia diz estar satisfeita por não haver problemas com o programa “Agentes de Saúde”, criado em 1997, que ela vê como um complemento positivo para a família. “Achei melhor agora que apareceu

esse programa. Se tiver alguma coisa marcada, como um ultrassom, vão na sua casa e levam o papel. Na sua residência, procuram saber por que que você não está indo”, afirma. Por morar perto do aeroporto de Congonhas e do bairro do Campo Belo, a mãe de Brian, não tem certeza se as diferenças no atendimento estão relacionadas ao bairro. Sua primeira gestação também foi acompanhada na UBS Jardim Magal, no Itaim Bibi. Ela menciona que o bairro é considerado de classe alta e acredita que isso possa influenciar nas diferenças de atendimento e estrutura. “Mas para muita gente que mora na periferia já é mais complicado. Acho que é por causa do bairro onde moramos. As meninas que moram no Guarapiranga, bairro mais afastado, falam que demora mais o ultrassom, e às vezes elas têm que pagar. Na UBS não conseguem encontrar a vaga até a data, e tem um certo tamanho do feto que tem que fazer o ultrassom morfológico”, diz Nathalia.

O estudo conduzido pela ONG Rede Nossa São Paulo em parceria com a Fundação Bernard van Leer, uma instituição holandesa que

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Unidade Básica de Saúde localizada no Jardim Miriam, bairro da zona sul de São Paulo

se dedica aos estudos da primeira infância, constatou que no distrito de Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, o número de mães que não realizam todas as consultas recomendadas pelo SUS é 5,9 vezes maior que o registrado no distrito do Itaim Bibi. Isso indica uma disparidade significativa no acesso e na adesão aos cuidados pré-natais e neonatais entre essas regiões. Jéssica Barbosa Lima, 22 anos, atua como agente comunitária de saúde em Parelheiros, extremo sul de São Paulo. Em conjunto com os bairros do Grajaú e do Jardim Ângela, a região apresenta a maior presença da população infantil da cidade: entre 9,9% e 11,6%. Trabalhando há três anos na área, Jéssica percebeu um grande déficit de informação. “Muitas famílias não têm essa consciência sobre a importância de manter atualizada a caderneta de vacina do filho, por exemplo. De levá-lo periodicamente nas consultas, com afeto em relação ao cuidado da saúde”, afirma.

Um estudo produzido pela Associação Brasileira de Pediatria (SBP) e pelo Instituto Questão de Ciência (IQC) entre os meses de fevereiro e abril mostrou que a desinformação é a principal razão para as famílias não vacinarem suas crianças. Em comparação com bairros mais ricos e centrais, a cobertura vacinal é mais baixa em áreas rurais e periféricas. Entre 2019 e 2021, houve uma diminuição na vacinação infantil no Brasil, de acordo com um relatório do Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância. A taxa atual é uma das mais baixas desde a criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI). O país tem 40% das crianças não imunizadas da América Latina. “O Brasil era referência para a vacina. Nós estávamos quase erradicando a poliomielite e fomos ladeira abaixo. Hoje a gente está lutando diariamente para que essas famílias acreditem na vacinação, para que as famílias acreditem que isso é importante”, diz a pediatra Denise Cristina Rodrigues, 56 anos, do Hospital São Sebastião, de Viçosa (MG). Denise complementa dizendo que uma das ferramentas mais importantes para o acompanhamento da saúde das crianças é a cader-

neta de vacinação, que foi retirada dos postos nos últimos anos. “Meus pacientes não recebem mais gratuitamente, eu mesma faço uma e dou para todos eles, pois não consigo trabalhar sem ela”, afirma a especialista. O índice de vacinação no Brasil sofreu queda significativa desde 2015 e se intensificou durante a pandemia, quando diminuiu para 75%, um patamar que havia sido superado em 1987. Dentre as vacinas, as maiores quedas foram observadas na BCG, com índice atual de vacinação de 38,8%, e na Hepatite A, com 32,1%. De acordo com o governo federal, em 2022, 77,1% das crianças foram vacinadas contra difteria, tétano e coqueluche, e 70,68% foram vacinadas contra poliomielite.

Para a pediatra, o país não piorou somente na situação vacinal – principalmente na infância. Além

disso, tem se tornado preocupante a desnutrição infantil como consequência da desigualdade. “Crianças e mães foram afetadas. Vocês não têm noção como eu pego o aumento de internação. Vemos muitas crianças desnutridas”, declara a médica. Ela acrescenta que as condições habitacionais decaíram muito nos últimos tempos, o que agrava a situação. Uma em cada três casas com crianças pequenas (menores de 5 anos) enfrentam insegurança alimentar. A situação afeta mais as crianças pretas e pardas, atingindo 58,3% dos domicílios com crianças pretas e 51,2% com crianças pardas, segundo a ONG Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI). Ainda nesse cenário, a proporção de domicílios brasileiros vivendo em insegurança alimentar quase dobrou nos últimos 7 anos. Em 2015, era de 36,7%. Em 2022, subiu para 58,9%.

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Pediatra Denise Rodrigues ressalta que a desnutrição ainda é um problema grave entre as crianças

No radar da segurança

Bagagens não identificadas ou mal etiquetadas podem causar transtornos nas viagens

Em março deste ano, duas brasileiras, Jeanne Paolini e Kátyna Baía, tiveram suas etiquetas de bagagem trocadas por malas carregadas de drogas no Aeroporto Internacional de São Paulo. Elas foram presas na chegada à Alemanha, em Frankfurt, e só foram liberadas no mês seguinte. O caso causou um impasse diplomático entre a Alemanha e o Brasil, e uma investigação sobre o tráfico de drogas por meio da troca de bagagem nos aeroportos foi iniciada. As mulheres foram inocentadas de qualquer envolvimento no crime e a polícia brasileira afirmou que elas não se encaixam no perfil de “mulas” de drogas. A investigação levou à prisão temporária de vários funcionários do

aeroporto que trabalham para empresas contratadas por companhias aéreas. De acordo com o relatório Sita Baggage IT Insights 2022, a taxa global de manuseio incorreto de bagagem aumentou 24% em 2021, atingindo 4,35 malas por mil passageiros. O estudo indica que, apesar da recuperação do tráfego de passageiros em relação a 2020 ser liderada por viagens domésticas, o aumento no manuseio incorreto de bagagem está sendo impulsionado principalmente pela retomada de voos internacionais e de longa distância.

Rafael Faria, de 40 anos, trabalha em uma empresa que presta serviços na área de logística, com destaque para a etapa de “outbound”, que

envolve a entrega de materiais até o cliente final. Especificamente para o transporte de bagagens desacompanhadas do passageiro, a empresa se destaca pela segurança na entrega dos volumes.

De acordo com Rafael, o extravio de bagagens representa cerca de 3% do total de passageiros que voam. Para lidar com essa demanda, a empresa recebe as informações do local de entrega do cliente e monta uma rota que considera a volta no aeroporto e entrega na casa de cada um dos viajantes que tiveram problemas com suas malas.

A GRU Airport, concessionária responsável pela administração do aeroporto de Guarulhos, emitiu

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Aeroporto de Congonhas recebe centenas de passageiros por dia

Do check-in ao desembarque, passageiros transitam pelo aeroporto de Congonhas uma declaração oficial esclarecendo sua posição em relação ao assunto. Segundo a concessionária, o manuseio das bagagens, desde o momento do check-in até a aeronave, é de responsabilidade das empresas aéreas. Isso significa que cabe às companhias aéreas garantir a segurança das bagagens e prevenir qualquer tipo de incidente.

No entanto, a GRU Airport ressalta que, quando solicitada, contribui com informações aos órgãos policiais para ajudar nas investigações de incidentes. Além disso, a concessionária afirma que se reúne com as autoridades oficiais para discutir melhorias nos protocolos de segurança sempre que ocorre um incidente.

A estudante brasileira Larissa Franco, 19 anos, que estuda na Itália e retorna com frequência para visitar sua família no Brasil, compartilhou sua experiência com voos e despacho de bagagem. Ela geralmente não verifica se sua bagagem está corretamente etiquetada, mas sempre verifica se foi entregue na esteira transportadora correta. Larissa compra malas em cores brilhantes para identificá-las facilmente e se preocupa com o risco de roubo, por isso embrulha sua mala em plástico e faz seguro que inclui proteção da bagagem. Ela comenta que as

políticas das companhias aéreas são justas, mas podem ser complexas e variar significativamente. Larissa nunca teve problemas com excesso de bagagem, mas teve uma mala quebrada, pela qual o aeroporto ofereceu compensação em dólares ou benefícios para seu próximo voo.

De acordo com o portal oficial da LATAM, se o passageiro chegar ao seu destino e perceber que falta alguma parte da sua bagagem ou que ela está danificada, deve entrar em contato com a equipe da LATAM na área de retirada de bagagem no aeroporto e fazer uma reclamação apresentando seu passaporte ou documento de identidade, cartão de embarque e comprovante de bagagem despachada. Caso já tenha deixado o aeroporto, a recomendação é de até sete dias para contatar a LATAM por meio do WhatsApp.

Entretanto, a LATAM Airlines não assume a responsabilidade por danos preexistentes, resultantes de conteúdo exagerado (como zíperes quebrados) ou pelo desgaste resultante da movimentação normal da bagagem (pequenos cortes, arranhões, amassados ou ausência de itens que não comprometem sua utilização, como logomarcas e chaveiros).

Victor Castellão, estudante de

administração de 19 anos e viajante frequente, conta os momentos que viveu sobre o processo de rotulagem e check-in de bagagem nos aeroportos. Geralmente verifica se sua bagagem foi devidamente marcada, mas, em algumas companhias aéreas, o processo de rotulagem é feito pelo passageiro em um quiosque. Ele acredita que as informações fornecidas pelos aeroportos de São Paulo dependem muito da empresa, mas geralmente são claras e suficientes. Victor não acha que as políticas de bagagem das companhias aéreas são claras e justas, citando a necessidade de pagar uma taxa extra para fazer o check-in da bagagem e o mau cuidado com a bagagem despachada. Victor acredita que uma etiqueta de rastreamento de bagagem seria uma solução para evitar danos e trocas de malas.

Segundo o site da ABEAR

(Associação Brasileira das Empresas Aéreas), o número de malas perdidas no Brasil é consideravelmente inferior à média global. As companhias aéreas filiadas à ABEAR apresentam uma média de menos de três reclamações administrativas de extravio a cada mil passageiros. Por outro lado, a Europa possui o maior índice de malas extraviadas, chegando a nove volumes por mil passageiros.

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Educação pública segue defasada no Brasil

Adesvalorização do professor é gritante em nosso país, e aumenta a cada ano. Nos EUA, o salário médio desse profissional gira em torno de 5.000 dólares mensais, numa realidade em que o salário mínimo é de 1.276 dólares. Já no Brasil, o piso salarial dos docentes é de 2.886,24 reais, pouco mais que o dobro do salário mínimo, de 1.320 reais.

Com base em dados do Sindicato dos Professores do Paraná, o interesse para exercer a profissão entre os jovens diminuiu bruscamente, e o número de professores com até 24 anos no início de carreira caiu quase pela metade (42,4%) de 2009 a 2021, indo de 116 mil para 67 mil. Já o número de professores com 50 anos ou mais subiu 109% no mesmo período.

Os professores não são somente desvalorizados no salário, mas também no respeito. Em 10 de abril deste ano, um professor de biologia foi ameaçado por um aluno em uma escola estadual da cidade de Assis, no interior de São Paulo. A violência contra o educador foi gravada e divulgada nas redes.

O problema vai além do baixo salário. É o que pensa Fabio Ramos Barreto, professor de música de 49 anos. Ele afirma que essa questão é estrutural, e que os alunos também são culpados: “muitos não respeitam ou não compreendem a maneira de cada professor ensinar, bem como suas particularidades. Sempre perguntei pros meus alunos, especialmente os que não ouviam o que a gente falava: quem vai querer dar aula pros vossos filhos? Ninguém”. Ainda segundo Fabio, parte do desinteresse dos alunos de escolas públicas vem dos próprios pais, uma vez que, por terem uma baixa remuneração, incentivam seus filhos a seguir outras opções de carreira.

Essa questão impacta o sistema de educação em outros aspectos. Além de os alunos não valorizarem o professor, algo que desmotiva o pro-

fissional, muitos jovens que teriam vocação para dar aula não seguem essa carreira, impedindo assim que muitos potenciais professores sigam outros caminhos. Outra questão abordada por Fabio é a dificuldade dos formandos em licenciatura para fazer um bom estágio. Ele afirma que os estágios podem ser muito traumáticos, com o estudante observando muito, agindo pouco e não conseguindo tomar as rédeas da sala de aula. Ainda sobre as famílias, Fábio pensa que os pais são muito mais presentes em reuniões, ou até no incentivo ao aluno, em instituições particulares: “Muitas vezes, os alunos ou pais, tratam a escola como algo que é de graça. E a gente sabe que não é. Os professores estão ali recebendo, é um dinheiro que vem dos impostos. A baixa remuneração acaba desestimulando ainda mais, porque é notório e implícito para todo mundo que professor ganha mal”, afirma.

Claúdia Dias, 49 anos, professora de rede pública em Santos, comentou, em entrevista, que um dos principais fatores que levam à desvalorização do professor é “uma sociedade calcada no desenvolvimento sem investimento, imediatista, sem base nenhuma, que se contenta com a informação, e não com o conhecimento”.

Ela completa: “outro fator preponderante é o descrédito que as famílias vêm dando ao profissional professor. Não é interessante fazer nossos jovens seres pensantes. Isso é projeto. A falta de reconhecimento do educador é baseada na educação ser um ‘Plano B’, pois ser professor ainda é um emprego constante”.

Ela também conta que vê um futuro péssimo para a profissão, pois os professores estão sendo menosprezados em meio a uma sociedade que prioriza o desenvolvimento sem estudo. Segundo ela, as pessoas que pretendem entrar nessa área acadêmica acabam desanimando por verem como são tratados, com muita pressão e humilhação. Isso tudo afeta a capacidade do Brasil de competir no mercado global de trabalho. De acordo com a professora, é necessário que apenas especialistas da área trabalhem, e não os que não conseguem entrar no mercado de trabalho. “Observe as sociedades que veem no professor um profissional como outro qualquer, que merece respeito e valorização monetária. É sobre isso que falo. Queremos o justo. Não vivemos e pagamos nossas contas com vocação sacerdotal, como querem fazer a sociedade ver. Somos profissionais e não babás”, afirma.

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Em oposição, o ensino privado é cada vez mais valorizado por pais e alunos Fábio Ramos acredita que os problemas da educação vão além da baixa remuneração

Doando autoestima

Iniciativas fornecem perucas a mulheres em tratamento oncológico

Pessoas que enfrentam doenças severas, como o câncer, acabam sendo submetidas a tratamentos intensos. Junto com o tratamento, no entanto, encaram inúmeros efeitos colaterais, de modo que, por diversas vezes, os pacientes têm de lidar com a queda de cabelos. Essa perda costuma desencadear problemas de autoestima, afetando sobretudo mulheres. Diante de tal situação, projetos mobilizam-se para doar perucas e, assim, amparar as pacientes.

A ONG Oncoguia explica que o tratamento oncológico pode causar diversas mudanças no corpo do paciente. A perda do cabelo é ainda mais marcante em mulheres, pois mexe com a sua identificação, isto é, a maneira como se reconhece diante do espelho. Nesse sentido, o grupo América Serviços Médicos aponta que a perda dos fios em pacientes mulheres não se resume a um

aspecto estético, mas de autoestima, identidade e reconhecimento da própria imagem.

É nesse contexto que associações têm a iniciativa de receber mechas de cabelo, produzir perucas e, então, doá-las às pacientes. A ação gera a devolução de autoestima, melhorando a qualidade de vida, algo essencial no processo de recuperação da doença. Segundo a Oncoguia, a peruca mostra-se uma “grande aliada” durante o tratamento. Um dos projetos que adotam essa causa é a Organização Não Governamental Cabelegria. Desde outubro de 2013, a ONG recebe doações de cabelos, que são transformados em perucas, as quais são distribuídas gratuitamente a crianças e mulheres com diagnóstico de doenças que provocam a queda dos cabelos. A arrecadação das mechas ocorre via correio ou em um dos vários pontos de coleta. Ao longo da história do projeto, já foram recolhidas mais de 345 mil mechas de cabelos, que na mão da

costureira tornaram-se quase 13 mil perucas confeccionadas, sendo mais de 12 mil já entregues às pacientes. As mulheres, para escolher os cabelos com que mais identificam, podem se dirigir a um dos bancos de perucas, onde é proporcionado um atendimento descontraído e humanitário, uma experiência agradável em meio ao tratamento. Considerando as possíveis mudanças no corpo e na ideia de feminilidade da paciente, a Cabelegria tem como missão “resgatar a autoestima de mulheres e crianças em tratamento oncológico”, acreditando que “pessoas felizes e assistidas estão prontas para enfrentar qualquer desafio”.

Um dos pontos de coleta de mechas de cabelo da Cabelegria é o Kids Barber Moema, um cabeleireiro voltado ao público infantil. Marcia Santos, de 35 anos e formada em pedagogia, trabalha como recepcionista do Kids Barber. Ela explica que os todos os fios doados são depositados em uma urna, que costuma ficar cheia por conta das frequentes doações. Um representante da Cabelegria, então, recolhe mensalmente as mechas da urna. Marcia afirma que um diferencial da ONG é o fato de ela não cobrar valor algum no fornecimento de perucas.

Outro importante trabalho é do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), centro de referência em tratamento oncológico. Diariamente, o Icesp recebe diversas doações de cabelos, entregues presencialmente no hospital ou via correio. A cada mês, são arrecadados cerca de 20 quilos de cabelo, que se tornam perucas por meio de profissionais especializados. As perucas são fornecidas de maneira gratuita às pacientes que desejam retomar sua autoestima.

O êxito da ação do Icesp se dá, em grande parte, por trabalhos como o de Mariana Mansur, jornalista de 50 anos que arrecada mechas de cabelos de doadoras e entrega-as ao Icesp. Seu projeto teve início em

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Marcia Santos trabalha em ponto de coleta da Cabelegria

2014, poucos meses depois de perder sua melhor amiga, após acompanhar sua luta contra um câncer, incluindo o processo de queda dos cabelos. No começo, Mariana doou suas mechas e de algumas amigas. Foi quando decidiu compartilhar a doação em suas redes sociais para incentivar que outras pessoas fizessem o mesmo. A iniciativa deu certo e, desde então, realiza essa boa ação para pacientes do Instituto do Câncer. Ela acredita que as perucas influenciam a autoestima e bem-estar das mulheres, o que pode contribuir para a melhora do quadro geral da doença. O projeto de Mariana é o que ela chama de “corrente do bem”. Ela se vê “como um pequeno elo em uma grande corrente de pessoas que querem fazer algo para tornar o mundo um lugar melhor para se viver”. Outra importante referência no amparo a mulheres em tratamento oncológico é o Instituto Amor em Mechas. Fundado em 8 de março de 2017, auxilia pacientes que perderam os cabelos durante a quimioterapia. O projeto é mantido integralmente por doações e voluntariado, além da renda conseguida em seu bazar. As mechas doadas são arrecadadas por meio das 400 urnas espalhadas pelo Brasil. Em seguida, uma associação parceira confecciona as perucas. O Amor em Mechas prepara e doa o que chama de “kit do amor”, composto de sacolas contendo a peruca, lenço, brincos, colar de pérolas, maquiagem, álcool em gel, máscara facial e livro de autoajuda. O Instituto atualmente é voltado a pacientes do Sistema Único de Saúde que não teriam condições de arcar com a compra de uma peruca, uma vez que, no mercado, uma pode chegar a custar 1.200 reais. Hoje são doados cerca de 120 “kits do amor” todos os meses, sendo que, em março de 2023, foram enviados 143, resultando em mais de 4900 kits no decorrer da história da associação.

O Amor em Mechas foi idealizado e fundado por Débora Pieretti, de 53 anos. Débora trabalhava com marketing digital quando, aos 45 anos de idade, foi diagnosticada com câncer. “Quem passa por esse diagnóstico não sabe o dia de amanhã”, afirma. Com muita resiliência, superou

a doença e criou o Instituto. Desde o primeiro momento, a fundadora atuou com zelo e esperança. Com o tempo, o projeto cresceu e ganhou cada vez mais parceiros, alcançando a magnitude de hoje. Quando perguntada sobre a importância do Amor em Mechas, Débora responde, com muita emoção, que tenta amparar a paciente, fazê-la não se sentir sozinha e renová-la ao ganhar o “kit do amor”, elevando sua autoestima ao máximo. Ela afirma ser hoje “uma ponte entre a doadora e a mulher que precisa”.

Uma das mulheres amparadas pelo Instituto Amor em Mechas é Viviane Lelis Martino, de 53 anos, fonoaudióloga de formação e atual representante comercial. Viviane teve o auxílio do projeto em 2017, logo após ser diagnosticada com câncer. Na época, recebeu uma peruca igual ao seu cabelo original, acompanhada de colar, brinco, lenço e álcool em gel. Lidar com a queda dos fios foi desafiador – “eu tinha medo dos olhares na rua. De olhar para você careca. Aquele olhar de pena”, conta. Logo, ter aju-

da do Amor em Mechas foi essencial no processo de superação. “A peruca me deu mais segurança”, diz. Durante o tratamento, Viviane compartilhou abertamente seus desafios diários em suas mídias sociais, com o intuito de ajudar outras mulheres que enfrentavam os mesmos obstáculos. No final de 2022, recebeu alta médica e hoje atua como madrinha do Instituto, recolhendo e doando mechas.

Todas as iniciativas citadas têm respaldo no chamado Outubro Rosa. Criado na década de 1990, consiste em um movimento internacional, realizado durante o mês de outubro, que visa à conscientização do câncer de mama, ressaltando a importância da realização de exames para diagnóstico e, assim, contribuindo para a redução da mortalidade. A campanha é fortemente difundida, de modo que, em 2018, foi instituída no Brasil a Lei n° 13.733. Ela estabelece, dentre outras atividades, a iluminação de prédios públicos com luzes cor de rosa, promoção de atividades educativas e veiculação de campanhas.

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Débora Pieretti doa os “kits do amor”

Onde elas quiserem estar

De acordo com os dados de 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres ganham em média 77,7% do salário dos homens exercendo a mesma função. Quando se fala em cargos de liderança, elas ocupam apenas 37,4%, ainda que a população feminina tenha um nível educacional mais alto: 19,4% delas têm ensino superior ou profissionalizante, contra 15,1% dos homens.

A empresária do ramo automotivo Joelma Rodrigues, 55 anos, se enquadra na pequena porcentagem de mulheres em cargos de liderança. Ela conta que, durante muitos anos, trabalhou em

um banco privado, mas foi quando fez 48 anos que decidiu mudar de profissão. Ela teve a ideia de criar uma oficina mecânica, porém não poderia ser como as tradicionais, tinha que ter um diferencial, algo com que se identifica. Foi assim que, em 2015, surgiu a mecânica Divas Car, com foco no atendimento feminino. “No início do projeto, eu fiquei dois anos estudando para que, quando a empresa fosse sair, já tivesse meio caminho andado”, diz Joelma. Ela completa: “Como sou mulher e não entendia nada de mecânica, tinha que ter mais preparação”.

A empresária diz que, no início, passou por muitos desafios: “no começo, como eu não tinha reputação, muitas pessoas não me

conheciam, fiquei dois anos praticamente fazendo reputação da minha marca, e sofria preconceito. Eu ia em alguns eventos automotivos e a maioria era de homens, então já me olhavam meio torto”. Com o tempo, segundo ela, a marca se firmou. “Trabalhando bastante, consegui o respeito deles. E hoje falo que não tem preconceito. Se tiver, eu não percebo, porque eles me recebem muito bem”, afirma. No Brasil, a Lei de Igualdade Salarial de Gênero é garantida pela Constituição Federal de 1988, que estabelece em seu artigo 5º que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”. Além disso, em 2015 foi aprovada a Lei nº 13.287/2016, que alterou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT)

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Julia Costa e Larissa Maria Mulheres passam a ocupar cargos que, no passado, eram predominantemente masculinos Joelma Rodrigues e suas colaboradoras na oficina Divas Car, em Guarulhos

para garantir a equiparação salarial entre homens e mulheres em cargos idênticos ou equivalentes. A exigência foi reforçada em 2022 com a Lei 14.457, que diz no artigo 30 que “às mulheres empregadas é garantido um salário igual em relação aos empregados que exerçam idêntica função prestada ao mesmo empregador”. E agora, em 2023, o governo federal encaminhou o projeto Lei 1085/23, aprovado em maio pela Câmara dos Deputados. O objetivo do texto, além de aumentar a fiscalização das condutas das empresas, é impor multas mais rigorosas no caso do descumprimento da lei. O projeto ainda depende de tramitação no Senado. Além de leis para fortalecer a igualdade de gênero, o ano de 2023 chegou com mais novidades, começando pela Copa do Mundo feminina, que começa em julho e que, pela primeira vez, vai ter seus jogos transmitidos pela TV aberta, o que garante visibilidade e patro -

cínio para o campeonato, que por muito tempo foi desvalorizado. Apesar de a FIFA ter selecionado apenas mulheres para compor seu elenco técnico, as diferenças ainda estão presentes, como por exemplo o valor prêmio da Copa, que para as mulheres é de US$ 150 milhões (cerca de R$ 792 milhões), enquanto para os homens foi de US$ 440 milhões (R$ 2,3 bilhões), na última Copa do Mundo, realizada no Catar. Flania Ximenes, 41 anos, aviadora, foi a primeira comandante mulher a transportar vacinas da covid-19. Ela diz que “os embates vão ocorrer, não importa a área que você for seguir. É claro que, no meio em que há mais homens, as mulheres sentem mais o peso de mostrarem que são boas, mas se aquilo é o seu sonho olhe apenas para o alto”. Ela ainda diz: “o importante é seguir o que você está fazendo profissionalmente e desconsiderar as vozes externas, olha -

res e comentários”.

Alexandra Aparecida dos Santos, 49 anos, motorista de ônibus, conta: “entrei como fiscal de rua e depois de quatro meses eu comecei a trabalhar internamente. Mas chegou um momento em que eu queria mais em relação a dinheiro, porque no que eu fazia eu ganhava pouco. Nunca tive pretensão de ser motorista, mas se eu quisesse ganhar um pouco mais, esse era o cargo melhor que tinha”. Ela diz que, apesar do preconceito, ama o que faz, ainda que haja críticas.

Daisy Paparoto, 38 anos, empresária e chefe de cozinha, diz que as mulheres não devem fugir das pessoas difíceis, pois, segundo ela, “lá na frente você encontrará pessoas piores. Enquanto você não aprender a lidar com situação, ela sempre vai se repetir”. Ela finaliza: “encare com força e com fé sabendo quem é você. Tanto faz o que as pessoas falam de você, o que importa é o que você quer e onde quer chegar.

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Alexandra Aparecida é motorista de ônibus em São Vicente, no litoral do estado de São Paulo

De volta à escola

Podemos identificar muitas razões para um jovem abandonar a escola: falta de suporte acadêmico, bullying, falta de motivação, problemas pessoais, mas o principal motivo é dar auxílio à família quando esta enfrenta crises financeiras, como foi o caso de Maria Carvalho, 47 anos. A estudante de supletivo conta que está terminando o ensino básico agora. “Comecei a trabalhar aos 8 anos de idade como empregada doméstica para ajudar minha mãe e irmãos”, afirma ela. Anos depois, Maria voltou a estudar em busca de uma vida mais estável.

De acordo com pesquisas divulgadas pelo INEP, órgão do Ministério da Educação responsável pelo Enem e pelo Enade, a taxa de abandono escolar foi de 11% para 9,6 % de 2019 até os dias atuais. Embora não seja uniforme em todos os níveis de ensino no 5,2%, Fundamental, segue em queda; no Ensino Médio, tem registrado crescimento 11%, a queda no índice médio pode ser resultado das diretrizes da Constituição de 1988, que definiu a educação como direito fundamental. A realidade brasileira, no entanto, é mais complexa: algumas famílias mantêm os filhos na escola não exatamente pela educação, mas porque as crianças e adolescentes fazem uma ou mais refeições no espaço de ensino que frequentam diariamente.

Com a pandemia iniciada em 2020, as taxas de desemprego subiram e milhares de pessoas passaram por extrema dificuldade. É o caso de Luísa Sampaio, 18 anos. A estudante relata que estava terminando o ensino médio e trabalhando para ajudar a família na pandemia. “Acabei tendo que deixar a escola, porque devido ao estresse extremo acabei desenvolvendo anemia e crises emocionais,

chegando a ter alucinações”, afirma. Quando o jovem passa 6 horas por dia na escola e outras horas trabalhando para ajudar a família, é comum que a primeira tarefa seja deixada de lado.

Um dos principais motivos para que os jovens voltem a estudar para obter um diploma do ensino médio é a tentativa de mudar de vida e conseguir melhores condições de emprego. Foi o caso da estudante Brenda Gabrielly Neves, de 20 anos. “A maioria das empresas só pega com ensino médio completo, então acabou se tornando bem difícil e cansativo procurar emprego”, diz. Ela completa: “a primeira vez que assinaram minha carteira de trabalho foi agora no McDonalds, apesar de já ter trabalhado em vários outros lugares”.

Mesmo com esses alunos voltando em busca de um futuro melhor, fazendo o possível para conseguir crescer e melhorar de vida, muitas pessoas acabam transparecendo uma espécie de preconceito com estudantes de supletivo, tanto quando tentam conseguir emprego quanto na sociedade em

geral. Luísa Sampaio relata sua experiência: “A princípio tem um certo preconceito, já chegaram a me chamar de mimada sem saberem meus motivos”. Além desse preconceito acadêmico, Maria Carvalho também afirmou que é muito julgada por conta de sua idade: “já ouvi que estou estudando depois de velha, mas eu finjo não escutar, pois estou buscando o melhor para mim”.

Depois de formados, a maioria dos estudantes não pensa em seguir com o futuro acadêmico e dar continuidade ao nível médio com o ingresso em uma faculdade, por exemplo. Isso se deve em grande parte ao fato de que muitos só buscam o supletivo para preencher uma lacuna em sua formação e obter melhores chances no mercado de trabalho. Mas o professor de sociologia Tiago Leal, de 29 anos, diz que qualquer aluno motivado que se empenhe conseguirá entrar no curso de sua escolha. “Tenho uma ex-aluna de 70 anos que agora está cursando direito e ex-alunos EJA que estão cursando mestrado”, afirma ele.

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Muitos jovens e adultos retomam os estudos em busca de melhores oportunidades Luísa Sampaio teve que abandonar os estudos para ajudar com as despesas de casa

Centro Dia permite envelhecimento ativo

Segundo dados prévios do Censo Demográfico 2022 e projeções realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 17% da população paulista é idosa. Conforme essas mesmas projeções, até 2030, teremos mais de 10 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, representando cerca de 20,6% da população total do estado de São Paulo. Diante do crescente envelhecimento da sociedade, é importante compreender como lidar com essa população, garantindo os cuidados necessários. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o “envelhecimento ativo” como o processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas ficam mais velhas.

Renata Cereda Cordeiro, 47 anos, fisioterapeuta especialista em Gerontologia, explica que o envelhecimento “é um processo complexo que ocorre em cada pessoa, individualmente, mas é condicionado a fatores sociais, culturais e históricos que impactam a sociedade como um todo, não só os idosos, mas as várias gerações”.

Do ponto de vista biológico, segundo Renata, o envelhecimento é entendido como uma “perda progressiva da capacidade adaptativa do indivíduo”, incluindo perdas na saúde, em habilidades e no âmbito social. Entretanto, essa é uma visão reducionista sobre a velhice. “Envelhecimento é um ganho individual e um ganho social”, afirma ela, destacando os avanços na ciência, na saúde e na melhoria da qualidade de vida das cidades.

é possível destacar o de Centro Dia para Idosos. “É semelhante a uma creche para crianças, mas seria uma creche para idosos”, explica Marcelo de Oliveira, 53 anos, gerente do Centro Dia para Idosos Aconchego, na Mooca, e psicólogo por formação.

A unidade foi aberta em novembro de 2022 e atende idosos elegíveis para o serviço na região. Além da alimentação e de diversas oficinas oferecidas aos usuários em meio à constante socialização, tanto com outros idosos quanto com os funcionários, lá são também encontrados elementos essenciais ao cuidado, como amor e respeito.

“Os idosos são uns amores. Apesar de a gente não infantilizá-los, alguns têm todas as características de crianças. Grupinho que não se dá com outro grupinho, que às vezes tentam arrumar confusão entre si, e nós fazemos a mediação”, compartilha Marcelo, que tenta fazer com que o CDI seja um ambiente agradável para os idosos e também para os funcionários. “Os meus cuidadores também precisam de cuidados”, diz.

Uilma dos Santos Castro é uma das funcionárias que compõem a equipe do Aconchego. Cuidadora de idosos há apenas seis meses, a bombeira civil de 37 anos afirma que trabalhar no CDI foi a melhor decisão que to-

mou e que é um trabalho muito gratificante. “Não é nem pelo dinheiro, é mais pelo amor mesmo”, afirma. “Aqui eles são acolhidos da melhor forma possível. A gente ama mesmo e não os deixa ficarem tristes”, complementa ela. Uilma gosta tanto do que faz que hoje estuda Serviço Social.

Todo esse carinho é sentido pelos idosos que usufruem do Centro Dia. Amélia Marques, 84 anos, frequenta o Aconchego desde sua abertura e não economiza elogios à equipe e aos serviços – até a comida melhorou, segundo ela. “Eu gosto porque venho aqui para me divertir, me distrair e aprender”, afirma a enfermeira aposentada, cuja oficina favorita é a de artesanato, que ocorre às sextas-feiras e considera “muito gratificante”. Rerizenil de Paula Santos, conhecida como Paulinha, gosta mais das cuidadoras. “Elas são como amigas da gente”, explica a senhora de 84 anos.

Não são apenas os laços entre equipe e usuários que chamam a atenção. As amigas Ivone Fernandes, Eunice de Paula Silva e Helma Yara dos Santos, de 83, 94 e 73 anos, respectivamente, reúnem-se todos os dias após o almoço para jogar dominó. Demonstrando grande amizade e sintonia, as três também tecem diversos elogios ao Aconchego, destacando as oficinas e os cuidadores.

Na capital paulista, a fim de suprir algumas das demandas dos idosos e buscar garantir melhor qualidade de vida, chegando até o envelhecimento ativo proposto pela OMS, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social oferece serviços voltados ao público idoso de São Paulo. Dentre os 133 serviços disponíveis, Ivone,

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Eunice e Helma Yara reunidas para jogar dominó no CDI Aconchego

Da arte para a vida

Associações e métodos de ensino promovem a inclusão pelo meio artístico em São Paulo

Em 2021, o IBGE constatou que o Brasil tinha 17,3 milhões de pessoas com 2 anos ou mais portadoras de deficiência. O número representava 8,4% da população. O instituto também verificou que o nível de ocupação das pessoas com deficiência acima de 14 anos era de 25,4%, enquanto a população geral fechou em 57% no mesmo período. Os dados evidenciam a falta de inclusão

na educação e no mercado de trabalho. Entretanto, há iniciativas que promovem a integração e a inclusão social dos moradores de São Paulo em prol da equidade no país, utilizando como base a arte.

“O sonho dela era fazer balé, mas diziam que deficiente não pode ser bailarina”, afirma Catarina Espírito Santo, 55 anos, dona de casa, ao contar sobre sua filha, Fernanda, 20 anos, estu-

dante. Catarina diz que a filha foi recusada em clínicas famosas de fisioterapia por ter uma condição rara. Sua melhora aconteceu ao conhecerem Fernanda Bianchini no Instituto de Cegos Padre Chico. Bianchini era voluntária do instituto e por lá iniciou seu projeto de inclusão, que levou à criação da Associação Fernanda Bianchini. “Antigamente tentávamos inscrever o grupo em festivais, mas a inscrição não era aceita

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Professora Marcela toca teclado e canta junto de sua turma durante aquecimento da aula de musicalização

porque as bailarinas eram cegas”, conta Fernanda, 43 anos, fisioterapeuta e professora de dança. Atualmente a Associação consta com mais de 400 alunos, participando de festivais em todo o país e realizando cursos em outros estados sobre seu método de ensino da dança clássica para pessoas com deficiência visual.

A associação conta também com um corpo docente inclusivo, com Marcela Cristina Santos, 38 anos, pedagoga, revisora braille e pianista, que perdeu a visão quando bebê, e Gabriel Sou-

sa Domingues, 25 anos, artista da dança e professor, que possui perda gradual da visão. Marcela iniciou na música aos 9 anos e afirma que é preciso alguém dar o “start” da oportunidade, como sua professora e sua mãe fizeram logo no início. Gabriel acredita que ações e métodos inclusivos, como os que aplica e os da associação de Fernanda, são grandes passos para que a sociedade comece a pensar em locais com deficientes e não para deficientes. “A minha dificuldade mesmo foi encontrar espaços em que eu pudesse informar que

minha deficiência não me atrapalharia”, diz Gabriel sobre a oportunidade que a associação também lhe proporcionou. “Pessoas com deficiência são capazes de tudo, basta ter um olhar diferenciado e abraçá-las”, diz Nathália Novaes, 38 anos, professora de dança em Taboão da Serra e criadora do projeto Dança Acessível. Nathália iniciou o projeto um pouco antes da pandemia, com aulas para todos aqueles considerados diferentes do convencional, como deficientes auditivos e a terceira idade, propagando a inserção de todos em outras áreas além da arte. “A ideia foi mostrar que todos podem dançar”, diz. Cintia Lima, 42 anos, fundadora, professora e coreógrafa da Dança em Cadeira de Rodas, projeto da Associação Solidariedança, afirma: “quando falamos de deficiência há uma série de barreiras estruturais e sociais, como a falta de mobilidade urbana”. Para Cíntia, mesmo a falta de recursos não os impede de atuarem, assim como já fizeram dando aulas na rua por falta de local. Considera que explora um ambiente cheio de riquezas e que há ainda muitos métodos a serem explorados. No Brasil, a dança em cadeira de rodas começou a se popularizar na mesma época em que Cintia iniciou seu projeto. A ideia inicial de tornar a clínica de reabilitação mais humanizada e gestual, como um corpo comunicador, concebeu intuitivamente a modalidade de dança que vem criando e implementando em sua metodologia.

Atuando na promoção da inclusão, a Associação Fernanda Bianchini viajou pelo mundo em apresentações, participando do documentário “Olhando para as Estrelas”, de 2017, dirigido por Alexandre Peralta. Do mesmo modo, o projeto Dança em Cadeira de Rodas foi aprovado para participar da maior competição de dança do país, o Festival de Joinville, Santa Catarina. Assim como estes, o Dança Acessível também contribui para a integração social e a inserção das pessoas com deficiência, ganhando seu alcance através da arte assim como demais projetos em todo o Brasil e no estado de São Paulo. “Elas foram aplaudidas pela bela arte e não pela deficiência”, diz Fernanda Bianchini sobre as experiências promovidas por essa forma de inclusão.

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Fernanda Santo e Catarina Santo após aula de teatro

Troca de curso afeta jovens universitários

Escolha inicial nem sempre corresponde aos anseios dos estudantes

Mudar de curso de graduação tem grande impacto na vida de estudantes universitários. Pressão familiar e social, idealização monetária e medo de se atrasar em relação aos demais são alguns dos fatores que tornam complexo o processo de troca de curso. Além disso, estado psicológico comprometido, quebra de expectativas e dificuldades financeiras constituem cenários para jovens que optarem por permanecer em um curso indesejado.

Dados do último Censo da Educação Superior, do Ministério da Educação, revelam que 2,3 milhões de estudantes universitários desistiram de seu curso de graduação em 2021, seja para deixarem de ser universitários ou para se transferir para outro curso. Na rede privada, o índice foi de 38,8%, e na pública, 9,4%. Mesmo sendo um problema recorrente na vida de diversos jovens universitários, não existem dados estatísticos ou grandes discussões sobre o tema.

Vinda de família de advogados, Maria Eduarda dos Santos, 22

anos, sempre foi estimulada pelos seus pais a fazer Direito, de modo que ela não teve espaço para pensar que talvez isso pudesse não ser sua vontade. A estudante conta que passou por momentos difíceis de reflexão sobre sua trajetória no curso, até resolver prestar vestibular para Design Gráfico sem contar para ninguém, já que sentia que sofria muita pressão externa sobre o que deveria fazer. Assim, pela primeira vez, resolveu priorizar suas vontades: “O que eu quero?”, indagou.

Karoline Lopes, 21 anos, sempre sonhou em cursar Jornalismo. Entretanto, por conta de sua vontade de realizar impactos positivos na sociedade, imaginou que se daria bem na área de direitos humanos, optando, então, por fazer Direito. Após cinco semestres, mudou de ideia: “Era deprimente fazer o que eu fazia”, diz ela sobre o que pensava até decidir seguir seu sonho de infância. “Eu me senti muito perdida desde o momento em que decidi trancar, mas sabia que era o caminho da comunicação”, conta a estudante.

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Maria Eduarda se encontrou no Design Gráfico Karoline agora explora sua criatividade no curso de Jornalismo

Ela se sente realizada em seu curso atual. Seu fator favorito é poder abordar qualquer assunto: “Eu posso juntar tudo que gosto e falar sobre isso”, diz. Segundo a estudante, isso não ocorria no Direito, por ser um curso normativo. Ela conseguiu um estágio no Manda Notícias, mídia independente atrelada à Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, que entrevista artistas da periferia no intuito de dar visibilidade a eles. Assim, encontrou sua maneira de mudar o mundo, motivo que a tinha levado a cursar Direito.

Apesar de seu período no Direito ter sido tão conflituoso, Maria Eduarda reconhece, em sua experiência, aspectos essenciais para a formação de quem é hoje: “Qualquer pessoa deveria fazer pelo menos dois anos de Direito, pois há muitas coisas que são essenciais para a vida”, conta a estudante, ressaltando que, graças ao curso, agora tem noção do que deve ou não fazer, de quais são os

seus direitos e como se comunicar com as pessoas. Como medida preventiva à dúvida sobre o que cursar, existe o profissional de orientação vocacional, que pode ser psicólogo ou não, que auxilia na percepção de cada um sobre sua vida profissional, direcionando-o a desenvolver suas habilidades da melhor maneira possível, a fim de evitar frustrações futuras.

Cristiane Pires, 41 anos, psicóloga e orientadora vocacional, conta que não há motivos universais que levam o estudante a querer trocar de curso. Os problemas podem variar de acordo com sua criação. “Ele tem que ter segurança interna, mas também tem que ter o pensamento de que nada é eterno”, afirma, explicando que tudo que é vivido vira aprendizado, ideia pouco compreendida entre os estudantes.

A sensação de perda de tempo é um dos principais fatores que fazem com que esse processo de troca de curso seja tão conflituoso.

A estudante de Design Grá -

fico Maria Eduarda, que saiu do Direito, conta que sofreu com o medo de desperdiçar seu tempo. Hoje afirma que, como não dá para voltar atrás, deve-se aceitar o que foi feito. Mas não se arrepende: “Se tivesse que passar por tudo que passei de novo pra chegar aonde eu estou hoje, eu passaria, estou muito feliz”.

Para outras pessoas, o processo de troca de curso pode não ser tão doloroso. Lucca Luisi, 23 anos, conta que sempre achou que iria gostar de fazer Jornalismo. Porém, quando começou a cursar, reparou que não tinha afinidade com o curso. O estudante conta que a única disciplina de sua antiga grade que gostaria de fazer era Jornalismo de Moda, área que sempre chamou sua atenção, resultando em sua transferência para o curso de Moda, em que atualmente está realizado e prestes a se formar. Alguns fatores que influenciam na escolha de um curso não desejado são: questões financeiras, baseadas na ideia da valorização de determinados mercados em relação a outros, e pressão externa, constituída em opiniões não solicitadas de familiares e sociedade em geral. Lucca passou por essa situação: sua decisão de cursar Jornalismo veio principalmente da pressão de ter que decidir algo logo após se formar no ensino médio.

Para a profissional Cristiane, o jovem terá maturidade suficiente para realizar sua escolha dependendo de como foi criado: “A partir do momento que ele tem um desenvolvimento infantil que consiga se perceber, poderá tomar a decisão certa”. No caso de Maria Eduarda, a estudante nunca teve esse espaço. “Meu pai sempre quis que eu herdasse os negócios da família, então foi um momento bem tenso, uma coisa que barrou muito esse sonho”, diz ela. A pressão externa sofrida pela estudante foi um fator principal em sua dúvida sobre qual curso seguir. Com o tempo, ao reconhecer que ela havia amadurecido, estava mais feliz e realizada, o pai se acostumou com a ideia.

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Cristiane desenvolve atividades específicas para cada jovem

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Acontece - ed. 250 - junho de 2023 by mackmackmack - Issuu