K.LUX E E
K.LUX EE
1202 ed otsogA/01 oremúN/1 emuloV/1 onA
Y W R U
LW
URY W
a a alta a alta alta
ANN ANN LOWE ANN LOWE LOWE
COSTURA COSTURA & sua COSTURA & & sua sua
a a estilista a estilista estilista
ascendência ascendência ascendência
NEGRA NEGRA dos NEGRA dos dos
AFRO AFRO AFRO
KENNEDY KENNEDY KENNEDY
2 SUMÁRIO
04
07
04
A magia das
07
A princesa
09
ANJOS &
capulanas
Jackie Kennedy
10
06
08
10
demônios
11
todas as CORES da MODA
12
O ateliê de ANN LOWE
O genial Arthur Bispo do Rosário
pelas mãos de ELIZABETH
um nome na HISTÓRIA
3
NOTA DO EDITOR Não é apenas a civilização que teve origem em solo africano, mas também a alta costura. São deslumbrantes os desenhos encontrados nas tumbas egípcias que mudaram a história do vestuário e dos adereços ao longo dos séculos. Também são deslumbrantes as capulanas africanas, panos coloridos que com a agilidade de mãos negras se transformam em turbantes, saias, calças e invólucros para carregar bebês. Mãos ágeis e determinadas transformam um simples pano em magia. Mãos que, escravizadas, violentadas, trouxeram para o novo continente, a América, tanto do Norte como do Sul, a sua arte e foram responsáveis por consagradas criações. Felizmente, hoje existe o resgate do papel preponderante da cultura negra para a moda, de mãos talentosas como a de Ann Lowe que foi a responsável pela criação do deslumbrante vestido de noiva de Jacqueline Lee Bouvier, usado no dia 12 de setembro de 1953, quando se casou em Newport (Rhode Island) com o católico John Fitizgerald Kennedy, tornando se a senhora Kennedy, Jackie Kennedy. Também foram mãos negras, as de Arthur Bispo do Rosário, que deram origem ao Manto da Apresentação com o qual o artista gostaria de ser apresentado a Deus no Julgamento Final. Uma obra de beleza ímpar e de muita luz ao contrário das trevas em que vive, pensa e se expressa um “ministro da Educação” de nome Milton Ribeiro, que ocupa a pasta no Brasil neste ano de 2021, ao afirmar que pessoas especiais “atrapalham” as demais no aprendizado. A afirmação do ministro que se diz "pastor evangélico" rasga o Evangelho de Cristo em público e só realça a sua pequenez diante da grandeza de Arthur Bispo do Rosário e de todos os especiais, crianças e adultos. A mesma grandeza de Ann Lowe e de Arthur Bispo do Rosário que hoje exibem estilistas negros e negras que tornam a vida mais bela. Um lugar melhor e bem distante da horrenda e nefasta mente de um ministro que também mancha a respeitável imagem de uma instituição de ensino como a paulistana Universidade Presbiteriana Mackenzie. Carlos Franco Boa semana, boa leitura.
EXPEDIENTE Luxury Week é uma revista semanal de variedades produzida pela Editora Olympia (editoraolympia.com.br) e distribuída gratuitamente em plataformas digitais por parceiros que também contribuem com conteúdo de qualidade e temas atuais e diversificados. Editor-chefe: Carlos Franco Editora internacional: Yume Ikeda Colaboradores: Marco Hiroschi, Christina Tavares, Rita Almeida, Maria Helena Guimarães, Paulo Thiago, Rodrigo Vidal , Tiago Ribeiro, Eduardo Silva Bernardt, Valdo Santos e Yacy Nunes. Imagens: Francisco Jr., Carlos Monteiro,Stúdio Mar Adentro, Pixabay, Freepick, Canva, grifes, assessorias de imprensa e agências de modelos e de publicidade. Diagramação: Paulo Pereira Diretor comercial: Hugo Lopes E-mail: redacao@luxuryweek.com.br
EDITORA OLYMPIA AVENIDA RONDON PACHECO,2300 SALA 65/ UBERLÂNDIA/MG/CEP 38408404 editoraolympia@editoraolympia.com.br
4
sua MAJESTADE, a CAPULANA
5
o PANO que as ENVOLVE. A palavra capulana tem origem no dialeto africano tsonga, de Moçambique, e designa o corte de tecidos que as mulheres usam para criar turbantes para a cabeça, vestidos, saias, carregar filhos nas costas e também trouxas de outras roupas ou mesmo de alimentos. A versatilidade das mãos é que define o tipo de vestimenta que um simples corte de tecido terá. Historiadores acreditam que esses tecidos chegaram na África, especificamente em Moçambique, como fruto de trocas comerciais entre africanos e árabes persas nos séculos 9 e 10. Só que ganharam cores e desenhos tipicamente africanos com o passar do tempo, quando com o plantio de algodão começou a dominar os campos locais. Hoje, a Casa do Elefante, em Maputo, a capital moçambicana, é uma das referências na venda das capulanas que irrigam o mundo e a moda de cores. Carregada de simbolismo, a capulana também era demonstração de poder na era colonial e suas estampas identificam diferentes tribos como as que vivem ao longo do rio Moatize, onde estão as minas de carvão mineral do país que é explorada, entre outras empresas pela brasileira Vale. Os turbantes, uma herança árabe presente em toda a África, também exercem papel religioso, que identifica festas e rituais de orixás, o mesmo se aplicando aos ritos hindus dos indianos. Na moda, o que se destaca é a agilidade das mãos de estilistas populares de Moçambique em magicamente transformarem o pano de acordo com a necessidade, dispensando-se a costura. O segredo está nas amarrações feitas com o próprio tecido e que resultam em artigos de vestuário de grande beleza. A Casa do Elefante conta inclusive com vendedores preparados para ensinar os segredos das capulanas, que nunca saem de moda para colírio dos olhos e admiração de quem sabe que, sem cultura, não existe moda, não existe vida.
6
Imagens: Reprodução do YouTube
ANN LOWE; as mãos de FADA A negra americana Ann Lowe nasceu na zona rural de Clayton, no estado do Alabama, que faz fronteira com a sulista e conservadora Geórgia, em 14 de dezembro de 1898. Bisneta de uma mulher que nasceu escravizada, curiosamente chamada Georgia, Ann desde criança passou a se interessar por costura e ajudar no pequeno ateliê no qual a avó e a mãe, Janey, e sua irmã mais velha Sallie atendiam a clientela exigente da alta sociedade de Montgomery, que reconhecia o talento dessas mulheres. Ann, no entanto, desistiu da escola, segregacionista, aos 14 anos e dois anos depois se viu, com a morte da mãe, assumindo o comando do ateliê, então referência de bom gosto e qualidade de costura. Em 1912, ela se casa, tem um filho, Arthur Lee, e se separa porque o marido não a queria trabalhando, especialmente para a clientela branca e endinheirada. Decide, então, com a irmã e o filho mudar-se para Nova York em 1917 para um pequeno apartamento no Harlem, o bairro negro da meca do consumo americano. Lá se matricula na ST Taylor Design School. Como a escola era segregada e ela a única negra de sua turma, teve que fazer aulas sozinha, mas pela qualidade de seus desenhos conseguiu terminar o curso e ser diplomada em apenas seis meses. O que lhe dá a coragem e o impulso para realizar uma nova mudança, desta vez para Tampa, na Flórida, onde se estabelece e rapidamente conquista a clientela rica de aposentados em busca de trajes bem cortados e costuras perfeitas, confortáveis.
Com seu salão de costura, Ann consegue o dinheiro suficiente para voltar a sonhar com Nova York. O filho, então, já ajudava na administração do negócio. Em 1928, eles voltam para Nova York e ela começa a vender suas criações para lojas sofisticadas como a Saks da Quinta Avenida, a Montaldo’s e a Henri Bendel. O sucesso vem em 1946, quando desenha e cria o vestido usado por Olivia Havilland (foto ao lado) na noite em que recebeu o Oscar de melhor atriz pelo filme Cada um (To Each His Own) ainda que fosse Sonia Rosenberg que assinasse sua meticulosa criação. O fato a estimula a abrir as portas de seu próprio ateliê em vez de vender suas criações que logo atrai uma clientela rica e endinheirada, pois Ann sempre teve preocupação em trabalhar com os melhores tecidos e uma costura impecável, assim como um corte perfeito. Seu filho irá até 1958, quando morre num acidente de carro, administrar os negócios que atraem famílias da alta sociedade como os Auchincloss (família de banqueiros com a qual a mãe de Jacqueline Lee Bouvier iria se casar), os Rockefeller , Roosevelt , Lodge , Du Pont , Post, Bouvier, Whitney e Biddle.
Imagens: Reprodução do YouTube e da revista LIFE
7
JACKIE KENNEDY, a princesa AMERICANA Em 1953, a estilista negra Ann Lowe recebeu a encomenda de um vestido de noiva e das madrinhas de um casamento que mudaria para sempre a sua vida: a união de Jacqueline e John Fitizgerald Kennedy que viu surgir a “princesa” americana Jackie Kennedy. Só que Ann Lowe tornou-se um segredo muito bem guardado, “o mais bem guardado da sociedade” até a morte do presidente Kennedy em 22 de novembro de 1963 como bem a classificou, em 1964, a prestigiada revista The Saturday Evening Post.
O vestido criado por Ann Lowe para Jackie consumiu 50 metros de tafetá de seda marfim com faixas de de pregas formando desenhos circulares em torno da saia cheia. Detalhe: dez dias antes da cerimônia, o ateliê de Ann inundou e ela perdeu praticamente tudo, mas virou dia e noite com suas ajudantes para entregá-lo novo e impecável. A revelação de seu esforço, sem que cobrasse um centavo a mais, assumindo o prejuízo, fez do vestido e da sua criadora lendas de um conto de fadas. Ann Lowe tornou-se, assim, uma celebridade. A primeira estilista negra no hall da fama nos Estados Unidos, abrindo portas para as novas gerações.
8 Texto e fotos do Museu Bispo do Rosário Nascido em Japaratuba, Sergipe, em 1909, Arthur, filho de carpinteiro, tem sobrenome de batismo “Bispo” – cargo eclesiástico – e “Rosário” – padroeira dos negros. Um paradoxo que amalgama a hierarquia e a complacência da Igreja Católica presente na sua vida e obra. Pouco se sabe sobre sua infância, mas há registro de seu ingresso na Escola de Aprendizes Marinheiros, em Aracaju, no ano de 1925. No ano seguinte Bispo vai à cidade do Rio de Janeiro, onde se alista na Marinha de Guerra e permanece por nove anos. Na Marinha, Bispo conhece o boxe e logo se torna campeão dos pesos-leves. Seu envolvimento com o esporte causa muitos atritos e acaba por levá-lo a solicitar seu desligamento. Passa a trabalhar na empresa Light and Power como vulcanizador no setor de transportes e, paralelamente, investe na sua carreira como pugilista. Ele sofre um acidente em 1936, quando seu pé é esmagado pela roda de um bonde, o que o deixa manco e o faz abandonar o boxe. Apesar de poucas vitórias na sua carreira de pugilista, Bispo foi muito admirado pelos amantes do esporte por sua resistência no enfrentamento dos adversários. Por conta do processo que moveu contra a Light, Bispo conhece Humberto Leone, advogado na sua causa trabalhista. Passa, então, a residir na casa do advogado, em Botafogo, e torna-se um “faz-tudo” da família. É no casarão dos Leone, na rua São Clemente, que Bispo tem a revelação que modifica sua vida. Na noite do dia 22 de dezembro de 1938 , ele se vê descendo do céu, acompanhado por sete anjos que o deixam na “casa nos fundos murados de Botafogo”, segundo o bordado que relata o acontecimento em um dos seus estandartes. Bispo sai, madrugada adentro, pela rua deserta até chegar ao Mosteiro de São Bento, no Centro do Rio. Lá, se apresenta aos frades como “aquele que veio julgar os vivos e os mortos”. Encaminham-no, então, para o hospício da Praia Vermelha, de onde é transferido para a Colônia Juliano Moreira. Esse processo de aceitação do delírio que lhe sucedia foi conflituoso para Bispo: fugiu algumas vezes das internações e, em outras vezes, ao receber alta, tentou se readaptar no mundo. Apaziguado consigo mesmo, em 1964, permanece definitivamente na Colônia. É neste ano que Bispo vai preso por três meses, em uma das celas do Pavilhão 10 do Núcleo Ulisses Vianna, por ter errado a dose no uso da força ao conter um paciente – um pedido constante dos funcionários. Ao sair do confinamento, relata que “ouviu vozes que lhe diziam que chegara a hora de representar todas as coisas existentes na Terra para a apresentação no dia do juízo final”. Decide, por sua conta, trancar-se por sete anos numa das celas para, com agulha e linha, bordar a escrita de seus estandartes e fragmentos de tecido. As linhas azuis, desfiava dos velhos uniformes dos internos, e objetos tais como canecas, pedaços de madeiras, arame, vassoura, papelão, fios de varal, garrafas e materiais diversos que ele obtinha em refugos na Colônia.
o genial ARTHUR BISPO do ROSÁRIO
9
Após 18 anos da revelação de sua missão, Bispo desperta o interesse da mídia e de críticos de arte, o que leva, em 1982, a expor pela primeira vez seus quinze estandartes na mostra “Margem da Vida”, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. Após o sucesso da sua participação, recebe vários convites para novas mostras. No entanto, a coletiva foi a única exposição que ele integrou em vida. Bispo não aceitava se separar de sua obra e não se considerava artista. Para ele, tudo era fruto de uma missão que um dia seria revelada no dia do juízo final. Arthur Bispo do Rosário, que carregava todos os estigmas de marginalização social ainda vigentes em nossa sociedade – negro, pobre, louco, asilado em um manicômio – consegue, na sua genialidade, subverter a lógica excludente propondo, a partir da sua obra, a ressignificação do universo, para ser reunido e apresentado no dia do juízo final. Sua missão chegou ao fim aos 80 anos, no dia 5 julho de 1989, dia da sua morte.
ANJOS CAÍDOS & DEMÔNIOS "De louco a artista valorizado, Bispo do Rosário seguiu uma longa trajetória. Igualmente demorada é a mudança cultural da sociedade brasileira, que pouco a pouco está passando a enxergar seres humanos e cidadãos onde antes via animais a serem trancafiados. Um sinal claro dessa mudança é a estátua erguida em sua homenagem na cidade natal. O mais comum é que se ergam estátuas de heróis, cavaleiros empertigados, austeros senhores de casaca - não de indivíduos cuja vida foi marcada por uma visão do mundo ao mesmo tempo delirante e rica". (Agência Senado). O texto do Senado dá a dimensão de como é longo o caminho a ser percorrido por um país para se tornar mais inclusivo. São anjos caídos na Terra como Arthur Bispo do Rosário, que nos convidam a enfrentar demônios a exemplo de Milton Ribeiro, que ocupa neste ano de 2021 a pasta da educação sem ter a menor educação e respeito aos diferentes, rasgando o Evangelho de Cristo e todos os preceitos da civilização. Por sorte, e isto é um luxo, existem aqueles que, diariamente e longe de holofotes, atuam por um país melhor, onde sonhos possam se tornar realidade.
IPÉDIA
a estilista que comprou a LIBERDADE Elizabeth Hobbs Keckley nasceu escrava em 1818 no estado americano da Virgínia e morreu em 1907 deixando um legado de determinação e um papel destacado na alta costura. A sua estátua hoje, na Virgínia, celebra o importante papel que desempenhou em defesa das mulheres e dos direitos civis. Sua luta para comprar a liberdade para si e para o seu filho é uma saga de coragem e determinação que ela mesma narra no livro Behind the Scenes (Por trás das cenas). Elizabeth foi movida pela paixão de conquistar, com seu talento na costura, seu lugar no mundo. Foi esta determinação que a levou a Washington, a capital americana, onde se estabeleceu e tornou-se importante ativista dos direitos civis. Fez mais: foi a estilista do presidente Abraham Lincoln e de sua mulher, Mary Todd Lincoln, de quem se tornou confidente. Lincoln foi o responsável pelos direitos civis e foi no seu mandato que venceu a Guerra de Secessão, quando estados do Sul, conservadores, lutaram para manter a escravidão que ele aboliu proclamando os direitos civis dos negros. As criações de Elizabeth integram esse cenário de luta por liberdade que marcou a sua carreira enquanto estilista de um novo tempo. Uma mulher que abriu caminho para o reconhecimento de afrodescendentes na moda e na vida americana. Uma heroína para além dos livros de história.o de texto
ÇÃ :REPRODU IMAGENS
O DA WIK
10
ouTu
be
11
lgaçã Divu ens:
Elizabeth Keckley e Ann Lowe abriram as portas dos templos da moda por onde desfilam hoje todas as cores e tendências, rasgando e esgarçando o tecido e as costuras alinhavadas por séculos de preconceito. Homens e mulheres negras hoje ditam a moda como a cantora e estilista Rihanna com suas criações esportivas e de peças íntimas, exalando sensualidade. O americano Patrick Kelly (19541990), embora tenha vivido pouco, deixou sua marca impregnada de irreverência no mundo da moda e conquistou, em Paris, um lugar ao sol entre as casas de alta costura, as maisons. Ainda hoje suas coleções são lembradas como sinônimo de ousada e divertida criatividade. Já Dapper Dan trouxe para as passarelas o ritmo quente do hip hop enquanto o britânico Ozwald Boateng não teve medo de usar todas as cores em trajes masculinos. Jeffrey Banks, por sua vez, primou pelos cortes impecáveis para criar o vestuário do homem moderno enquanto. Olivier Rousteing busca modernizar a clássica grife francesa Pierre Balmain. Já Kanye West é pura mídia, ao lado de Kim Kardashian e ao som de suas canções nada comportadas. Mas todas as contribuições acabam reforçando a importância de todas as cores para a diversidade da moda e dos estilos. Fazem a diferença e trazem novas visões sobre o futuro mesmo quando a roupa que vestem é a própria pele.
Imag
da MODA
oeY
todas as cores
K. LUX E E
URY W
A saga de ANN LOWE no mundo da MODA tem inspirado livros e estilistas que diariamente rasgam o véu da hipocrisia e do PRECONCEITO nas PASSARELAS
1202 ed otsogA/01 oremúN/1 emuloV/1 onA
L W
K .LUX EE
URY W