PINTURA DO TIPO BRASILEIRA
Pintura do Tipo Brasileira A exposição coletiva “Pintura do tipo Brasileira” parte de uma sutil sugestão de contranarrativa que atravessa uma cara metodologia historiográfica chamada formalismo. Inspirada na crítica à ambição modernista de totalidade e na apreensão tipológica ou taxonômica de algumas obras circunscritas no campo pictórico, a exposição exibe trabalhos emsuperfícies variadas e com elementos estéticos plurais (materiais e imateriais) que vão desde a silenciosa planaridade dos colorfields às narrativas figurativas de cunho político e subversivo. Encontram, assim, uma espécie de transição de linguagens em um campo ampliadoda pintura. Esse campo é resultado da sínteseentre a figuração,a abstração e o conceitualismo, revelando um aspecto ulterior multidisciplinar da pintura pós-moderna ou contemporânea. Neste sentido, a investigação tipológica e formal perde força diante da complexidade material apresentada pelos meios da pintura contemporânea, além de suas questões identitárias e ideológicas que ressaltam as idiossincrasias do sujeito e escancaram as possibilidades de leituras dos signos por um viés teórico semiótico ou fenomenológico. A partir de uma análise crítica da produção pictórica de Raimundo Rodriguez, Osvaldo Carvalho, Manfredo de Souzanetto, AntonioBokel, Victor Arruda, Edmilson Nunes, Rosana Ricalde, Marcos Cardoso e Felipe Barbosa, e utilizando um aparato historiográfico multidisciplinar e atento às temporalidades fragmentadas, às narrativas e às contranarrativas, ousamos esboçar tipos possíveis de uma Pintura contemporânea Brasileiraque, ultrapassando seu momento modernista antropofágico, parecem reiterar um processo identitário contínuo autofágico. Das fraturas expostas de uma temporalidade com contornos modernistas, emergiu a pintura em formato não convencional, entrecortado e anguloso e em
tons terrosos de Manfredo de Souzanetto. A abstração geométrica enquanto linguagem formal imperativa parecia ter vencido a querela que se anunciava no final do século XIX, e que se tornou plena no alvorecer do século XX. Nesse contexto, a pintura de Manfredo fala a linguagem poética dos materiais que flutuam errantes e solitários sobre o plano. A pintura reinventada cedeu espaço cativo para a abstração, que de tanto questionar seus próprios meios, fez da lata abandonada sua paleta de cores, sua pele, sua carne, suas escamas e entranhas. Em suma, alargou a lista restrita de materiais nobres rumo ao improvável, reorganizando-se em padrões aleatórios como nos painéis de Raimundo Rodriguez. Fato análogo acontece na pintura de Marcos Cardoso.No trabalho de ambos, reinam as forçasdesterritorializadoras doslatifúndios e dos pedaços de bambolês reconstruídos e reapropriados. Os bambolês resultam de uma pesquisa material intensa de Cardoso, em que elementos geométricos de todas as cores formam elegantes módulos de construção que, justapostos, revelam a forma ulterior de rosáceas, como em vitrais medievais deslocados do tempo e espaço. Faz-se magia com a pinturaressignificada. E fazendo mágica,encontramos os padrões geométricos que se apresentam nas pinturas de Rosana Ricalde.Esses se assemelham a uma voz ancestral, a um mantra ininterrupto e a uma história contada milhares de vezes, em uníssono, em algum livro empoeirado. Suas pinturas estão nas paredes metafísicas das mesquitas de uma“La Alhambra” sonhada ou num Brasil colonial de rendas e bordados perfeitos. As ondas azuis formam frases soltas e as frases soltas onduladas sugerem o balanço dos mares. Assimé a poesia-pintura do tríptico de Rosana Ricalde. Faz-se conceito com as imagens mentais. Palavras soltas são bordadas com pedras de acrílico e produzem um brilho translúcido. A cor que também é corpo, ganha contornos na matéria bruta do
cotidiano. A pintura reinventa-se uma vez mais, adquirindo“cor-corpo-matéria”. Estes relevos pictóricos são feitos de objetos banais, ready-mades esquecidos como um tênis velho e latas de cerveja, cobertos delicadamente com tecidos transparentes, num tipo de veladura tridimensional. Esses elementos estéticos são incorporados enquanto meios de uma pintura que flerta com o universo da cultura popular e do folclore.São também resquícios de uma experiência particular de Edmilson Nunes dentro de barracões de escolas de samba. A pintura-palavra como estandartes e alegorias. muitas vezes cobertos com um tecido transparente. Com pequenos orifícios abertosEssas são coletadas por Edmilson Nunes e transformadas em pinturas sobre um suporte retangular de madeira. também podem ser coletadas e encarnadas através do uso de materiais retirados de barracões de escola de samba outros tipos de “sobras do mundo” são anunciadas como pintura por Edmilson Nunes. Palavras também são construídas com Matemática imperfeita e requintada. Felipe Barbosa apresenta seu projeto de construção da imagem ou esquemas construtivos como pinturas que se baseiam numa ideia de repetição (de aspecto volpiano) com o uso de uma “geometria artesanal” encontrada no banal, no cotidiano. Visita de longe o repertório estético do construtivismo das vanguardas estéticas europeias e brasileiras. Caminha mais com uma ironia própria e com uma acidezpop histriônica, que longe de se pautar pela cultura norte-americana, é toda inspirada na “cordialidade” da cultura de massa brasileira. Certo é afirmar que as séries de pinturas de Barbosa são quase sempre abstratas geométricas-conceituais, isto é, frutos singulares de um tipo de actionpainting feita com o couro extirpado de bolas de inúmeras modalidades esportivas. Uma investigação iconográficarevelaria os detalhes no couro sintético das bolas descosturadas, fornecendo algumas pistas sobre o processo de criação das pinturas.O couro arrancado é entintado com acrílica e
usado como um carimbo sobre uma superfície de madeira, deixando vestígios de um toque rápido, pentagonal, hexagonal, linear etc. Nesse caso, a repetição dos padrões não leva à meditação, mas ao caos entrópico da cultura de massa.Faz-se pintura com geometria sensível. Dividem-se as categorias de uma vertente expressionista abstrata. Se há uma action-painting pós-moderna feita da couraça de bolas, existe outra feita com sprayse pinceladas fartas e precisas, que preservam índices figurativos. A simplificação nos traços e gestos de caráter expressionista de AntonioBokel, anuncia umaactionpaiting elegante e cadenciada. Nenhum tom branco é acidental, seja da tinta empastada, seja do próprio fundo da tela, testemunhos da gênese das cores e das formas. Nada é um acidente.Toda estruturação espacial éafirmativamente plana. FlatnessGreenberguiano. O olhar de Bokel é, sobretudo, contemporâneo e encontra-se refletido nos muros das cidades. Meio figurativo comas suas linhas negras contínuas do spray, meio abstrato no empastamento veloz da tinta ainda úmida. Erotismo que se completa na sugestão das cores primárias, preto e branco. Pintura do entre-lugar figurativo e abstrato. A sobrevivência da pintura figurativa, narrativa representacional é garantida nas obras de Osvaldo de Carvalho e Victor Arruda. O sussurroda pintura figurativa contemporânea se transforma em grito e escracho. Esta encontra eco, força e singularidadenas temáticas sociopolíticas e identitárias.Por vezes,produzem questionamentos pontualmente polêmicos e subversivos, renovando continuamente o campo pictórico enquanto uma arena de lutasdeclaradas. A pintura com dimensões murais de Osvaldo Carvalho é um batismo de tinta que visa extrapolar a realidade, mesmo que fragmentada. Sua narrativa dinâmica faz remissão à comunicação visual das tiras de quadrinhos, muito embora engendrem assuntos atuais nada ficcionais. Com uma paleta de
denúncia Carvalho ilustra as manifestações populares e a violência policial, além de retratar as pautas de grupos feministas em protestos coletivos recentes. O artista busca impactar o público pela força da figuração representacional. Comunicação direta. Faz-se pintura através de um choque de realidade. Nas pinturas de Victor Arruda, desde a década de 70, as figurações encenam uma narrativa ácida e militante, por vezes acompanhadas por frases ambíguas e truísmos irrefutáveis. Suas pinturas fazem uma caricatura debochadasobre a frieza da pop-artdesalmada. Enquanto estilo, as pinturas de Arruda não temem o “kitsch suburbano”, ao contrário, devoram-no, sexualmente e ideologicamente. Assim, podemos analisar uma de suas pinturas recentes, em que a última tela que compõe um conjunto total de quatro obras, apresenta a silhueta de uma mulher negra em pose plácida que nos faz recordar o quadro “A negra” de 1923, de Tarsila do Amaral. Todavia, na obra de Arruda parece haver uma recusa aessa antropofagia modernista (implícita na negra de Tarsila).Com sua enorme teta autofágica, oferece-se ao público observador, nua e crua, através de seu olhar arregalado e hipnótico.Faz-se da pintura pósmodernismo autofágico. Renata Gesomino. Crítica de arte e curadora independente. ProfaDra do IART - UERJ
Pintura do Tipo Brasileira
Casa Franรงa Brasil - Rio de Janeiro - RJ de 22 de Novembro de 2017 a 07 de Janeiro de 2018 Antonio Bokel | Edmilson Nunes | Felipe Barbosa | Manfredo de Souzanetto | Marcos Cardoso | Osvaldo Carvalho | Raimundo Rodriguez | Rosana Ricalde | Victor Arruda Curadoria: Renata Gesomino
Galeria Hiato - Juiz de Fora - MG de 31 de Agosto a 16 de Setembro de 2017 Antonio Bokel | Bet Katona | Cynthia Vasconcellos | Edmilson Nunes | Fรกtima Junqueira | Geraldo Souza Dias | Jorge Duarte | Julio Ferreira Sekiguchi | Manfredo de Souzanetto | Marcia Clayton | Marcos Cardoso | Mirela Luz | Osvaldo Carvalho | Petrillo | Priscilla de Paula | Raimundo Rodriguez Curadoria: Renata Gesomino
Centro Cultural Laurinda Santos Lobo - Rio de Janeiro - RJ de 5 de Maio a 04 de Junho de 2017 Antonio Bokel | Manfredo de Souzanetto | Osvaldo Carvalho | Raimundo Rodriguez Curadoria: Renata Gesomino