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Lona - Edição nº 467

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Foto: Marisa Rodrigues

RIO DIÁ do

L BRASI

jornalismo@up.edu.br Curitiba, terça-feira, 7 de abril de 2009 - Ano X - Número 467 Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo

Edição especial

Curso de jornalismo promove debate sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo

Acontece amanhã mais um evento da série Grandes Debates da Rede Teia na Universidade Positivo (UP), no auditório do Bloco Azul. O evento, com o tema “União Civil entre pessoas do mesmo sexo”, faz parte do Programa de Atividades Complementares da UP, e é promovido pelo curso de Jornalismo. As atividades acontecerão em dois horários: às 7h30min e às 19h. Os integrantes da mesa no período da manhã são: Toni Reis, fundador e presidente do Grupo Dignidade; Marcos Alves da Silva, coordenador do curso de Direito da UP; Alexandre Quadros, coordenador-adjunto do curso de Direito da UP; Rafael Bezerra, sociólogo e professor da UP. À noite, o debate contará com a participação do economista José Pio Martins, vice-reitor da UP. O coordenador Marcos Alves da Silva não participará do evento à noite. A discussão será mediada pelo coordenador do Curso de Jornalismo, Alexandre Castro. Além disso, os veículos da Rede Teia farão a cobertura completa do debate com transmissão ao vivo pela internet. Esta edição especial do LONA aborda vários olhares sobre o tema.


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Curitiba, terça-feira , 7 de abril de 2009

Opinião Debate

O casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser legalizado? Sim

Não

O direito de ser feliz

A seleção natural dos sexos

Camila Scheffer Franklin Casamento é uma escolha que envolve amor, afetividade e doação. Seja entre um homem e uma mulher, um homem e outro homem, ou uma mulher e outra mulher, a vontade de legitimar uma união não deve ser motivo de choque, mas, sim, considerada um direito. Países como Holanda, Bélgica, Canadá, Espanha, África do Sul e Noruega garantiram este direito aos seus cidadãos. Mas o Brasil, um falso Estado laico, parece estar longe de dar esse passo. Vivendo em uma sociedade patriarcal, na qual os princípios religiosos são tomados como certos, criam-se homens preconceituosos por essência que acreditam que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é

Guilherme Sell

apenas uma afronta aos “bons princípios”. Lugar de pastor e padre é dentro da igreja, e somente lá suas “leis” devem ser aplicadas. Nossas santidades parecem fugir do que pregam e não demonstram interesse nenhum em igualdade, tão enaltecida em textos “sagrados”. Em termos civis, permitir o casamento homossexual é uma contribuição ao Estado. Casais homossexuais também pagam impostos. A política esquece que existe para aceitar as diferenças e incorporá-las à sociedade. Consequentemente, o desfecho positivo para que ocorram casamentos entre pessoas do mesmo sexo está longe da realidade, sendo somente possível com medidas judiciais favoráveis aos homossexuais (e a longo prazo).

A desagregação social é hoje certamente um dos maiores problemas da sociedade. As mudanças nas relações sociais, com a incorporação de novos métodos e tecnologias, geram sérios problemas, como o agravamento da violência e o descompromisso com o próximo. A liberdade sexual e a queda de barreiras morais vieram a causar um efeito contrário, assim como a democratização e agilidade no acesso as informações, estamos mais consumidores e poucos reflexivos quanto aos acontecimentos. São fatos em cima de fatos, um consumindo o outro, relações que vem e vão com uma rapidez incrível. O que era para aproximar, afasta. Nas relações homossexuais, grande parte está pautada nesse

enfrentamento e busca pelo proibido, quebra de tabus da sociedade, busca pelo novo, aí o tradicionalismo do casamento hetero não combina. Esse é o desafio à formação da sociedade por aqueles que se acham superiores aos seus criadores. Os valores morais e éticos são deixados de lado, e se passa a viver uma relação moderna baseada apenas no que se viveu, deixando de lado a composição social e ancestralidade. O casamento gay vem para romper essa evolução do ser humano, que em sua composição tem as funções evolutivas,

criadoras e reprodutoras. Já perdemos a força dos dentes, pois temos alimentos fáceis, colhidos, cortados e processados a hora que queremos, não precisamos mais caçar. Em breve perderemos a função reprodutiva, a sociedade não irá mais se reproduzir, por conta de um grave desvio moral e humano que pode ter início na nossa geração. Ao utilizar o argumento que ”é o amor que vale”, estaríamos ampliando a reflexão para demais relações, como a pedofilia. Neste caso, o amor é que vale?

Em breve perderemos a função reprodutiva, a sociedade não irá mais se reproduzir por conta de um grave desvio moral e humano que pode ter início na nossa geração

Expediente Missão do curso de Jornalismo “Formar jornalistas com abrangentes conhecimentos gerais e humanísticos, capacitação técnica, espírito criativo e empreendedor, sólidos princípios éticos e responsabilidade social que contribuam com seu trabalho para o enriquecimento cultural, social, político e econômico da sociedade”. Ilustração: Allan George

Reitor: Oriovisto Guimarães. Vice-Reitor: José Pio Martins. Pró-Reitor Administrativo: Arno Antônio Gnoatto; Pró-Reitor de Graduação: Renato Casagrande; Pró-Reitora de Extensão: Fani Schiffer Durães; Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa: Luiz Hamilton Berton; Pró-Reitor de Planejamento e Avaliação Institucional: Renato Casagrande; Coordenador do Curso de Jornalismo: Carlos Alexandre Gruber de Castro; Professores-orientadores: Ana Paula Mira, Elza Aparecida e Marcelo Lima; Editores-chefes: Antonio Carlos Senkovski, Camila Scheffer Franklin e Marisa Rodrigues. O LONA é o jornal-laboratório diário do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo – UP, Rua Pedro V. Parigot de Souza, 5.300 – Conectora 5. Campo Comprido. Curitiba-PR - CEP 81280-30. Fone (41) 3317-3000


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Curitiba, terça-feira , 7 de abril de 2009

Geral Manifestação

Nazifacismo

Na luta contra a homofobia Professores e estudantes da UFPR fazem mobilização contra a homofobia Vinicius Ferreira

Vinicius Ferreira Na última sexta-feira cerca de 150 estudantes e professores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) se reuniram no prédio da reitoria da instituição para elaborar ações contra ataques homofóbicos que estão virando rotina em Curitiba. A mobilização partiu da professora Andréa de Oliveira Castro, do estudante de Ciências Sociais André Lucas Guerrero e do Centro Acadêmico de Ciências Sociais da UFPR.

Agressões No dia 23 de março, um estudante de Ciências Sociais da UFPR foi agredido gravemente por um grupo de dez skinheads. Segundo o jornalista Ricardo Ampueia, membro do grupo que luta contra a prática fascista na cidade, na mesma semana ocorreram mais dois ataques. Um integrante do movimento punk, grupo contrário à ideologia neonazista, foi ame-

açado com uma faca próximo ao Largo da Ordem, e uma garota foi espancada com um taco de beisebol. Estiveram também no encontro alguns estudantes da Universidade Positivo, da Pontifícia Universidade Católica e integrantes de movimentos LGBT - lésbicas, gays, bissexuais e travestis.

Debate A participação das ONGs e outros grupos que combatem a homofobia na cidade tiveram poucos representantes no encontro. Na visão de Guerrero, as organizações não cumprem o seu devido papel. “O movimento LGBT está organizado para um único fim extremamente neoliberal, só quer viver de projeto. Os dois únicos representantes se calaram, porque perceberam que aqui não é espaço de negociação, e sim espaço de luta”. Grande parte dos participantes pôde expor suas idéias para construir as ações contra

a homofobia. Nos dias 15 e 18 de abril serão realizadas manifestações nas ruas. O primeiro ato será no Centro Cívico, a partir das 13h, para cobrar ações mais eficazes da Justiça e mostrar a carência de leis e políticas públicas que protejam os homossexuais. O segundo evento será um trabalho de conscientização na Rua XV com cartazes, faixas e panfletos com conteúdos anti-homofóbicos e denunciando as práticas da ideologia neonazista (ver quadro ao lado).

Ações futuras Os participantes têm o objetivo de fazer campanhas a longo prazo. Entre as atividades propostas estão debates, adesão de mais universidades, manifestações, medidas de pressão sobre a Justiça, audiências públicas, canais de denúncias, grupos de estudos nas universidades, cartilha explicativa sobre grupos neonazistas e a participação da mídia.

Após décadas do fim da Alemanha nazista e da Itália fascista, a ideologia nazi-fascista ainda persiste em muitos países. No Brasil, as regiões Sul e Sudeste são os maiores redutos de seus adeptos devido ao grande número de descendentes de imigrantes europeus. Dentre os mais jovens, o visual skinhead e suas práticas vêm aumentando consideravelmente. Em Porto Alegre, por exemplo, existe a Editora Revisão que publica livros com conteúdo de negação do Holocausto, conspirações judaicas anticristãs e anti-ocidentais. Fundada em 1985 por Siegfried Ellwanger Castan, foi denunciada por grupos antirracista do estado e teve exemplares recolhidos. Ricardo Ampueia encontrou o título “Holocausto: Judeu ou Alemão?” na Feira do Largo da Ordem, que ocorre todos os domingos na capital paranaense. Além desse, outros livros também circulam. “Brasil: Colônia de Banqueiros”, “Dos Judeus e Suas Mentiras”, “A Indústria do Holocausto”, “História Secreta do Brasil - Volume 1 ao 6”, que podem ser encontrados com facilidade. O preconceito contra negros, homossexuais e judeus ajuda na propagação de atos violentos, como agressões verbais, psicológicas e físicas, que podem ser fatais para a vítima. Os skinheads, também conhecidos como “carecas”, se vestem de modo bem característico: coturnos, suspensórios e acessórios militares, além do cabelo raspado e tatuagens que remetem a ideologia nazista.

Conheça os principais símbolos tatuados pelo grupo O número 8 representa a oitava letra do alfabeto o “H”. Pichado em muros para representar o grito de saudação “Heil Hitler”! As letras “S.S” representam a antiga brigada de Hitler responsável pela captura de judeus, homossexuais e ciganos. Seus membros eram escolhidos por critérios de linhagem racial e ideológica.

Para o antigo Partido Nazista Alemão, o símbolo era usado por seus descendentes arianos para mostrar quem era de raça pura.


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Opinião Crônica

O casamento com o meu melhor amigo Plumas, paetês, cisnes, malandragens, cantoras e relacionamentos Sandro Moser Wanderley e Odilon são muito amigos e vão ao Maracanã todo domingo. Estão sempre criticando o casamento. Iolanda e Adelina se fazem companhia quando os maridos vão pro jogo - e também elas criticam o casamento. Um dia surge a proposta do swing, a famosa troca de casais. Quem sabe assim a vida deles talvez melhore. “aham, ok, tá bom”. Só que Odilon, não pegando bem a coisa, agarrou o Wanderley - e a Iolanda, ó na Adelina... E será que deu certo? Bem... no princípio foi uma maravilha. Depois, no entanto, tudo degringolou. Cego de ciúmes, Odilon enchia o Wanderley de porrada. A Adelina chegou a dar na cara da Ioiô. No fim, chegaram todos a uma triste constatação: o relacionamento continuava a mesma bosta. Este é o enredo de um samba chamado “A nível de ...”, da última safra de Bosco e Blanc, meados dos anos oitenta. Aí é que tá o pepino, malandragem. Não interessa o gênero, o sexo, a orientação. O enrosco é que os relacionamentos não foram feitos para dar certo. A coisa não vai pra frente. Não lembro quem já disse que

Divulgação

os dois piores legados da idade média à modernidade foram a pólvora e a idéia do amor romântico. Há também uma velha tradição masculina, na verdade machista, chauvinista, cujo lema é o seguinte: as mulheres estragam os romances com esta mania de querendo discuti-los e querendo que eles durem pra sempre. Os homens fazem a mesma coisa. Este tema é antigo, muito antigo. Não há documentos oficiais, mas arrisco dizer que esse tipo de conflito teve início quando Eva, querendo discutir o marasmo do relacionamento, optou pelo fim da boa vida no paraíso e buliu com as cordas de Adão - aquele priápico sem-vergonha. Tinham sido avisados do perigo. Deu no que deu. Tomamos o rumo de um vale de lágrimas pelos séculos e séculos que, se é verdade que oferece distrações eventuais (como o abofelamento sexual) oferece também um sem-número de efeitos colaterais. A tragédia da coisa toda é que o homem não vive sem alguém que não vive sem o homem. Como na bela música do Blur – “garotas querem garotos que gostam de garotos como se fossem garotas que pe-

gam garotas como se fossem garotos”. Sempre, e isso é o que importa, deve ser alguém que você realmente ama. Como é de meu (péssimo) hábito, desviei-me do assunto.O que eu tinha que falar era sobre os cisnes gays do lago da Universidade. Se chamam Carlos e Fernando, como na mais sórdida fotonovela. São gays ou homossexuais, para os que preferem uma designação mais neutra. Sim, há muita gente que ainda não entendeu a luta pelo uso legítimo da palavra “gay” para designar aqueles que preferem amar membros de seu próprio sexo.Há uma ala exaltada, para não dizer extremada, que prefere mesmo “bicha” a “gay”. E uma outra, não menos radical, que busca a legitimação do “veado”. Uma terceira vai ainda mais longe e vai fundo na pronuncia: “viado”. Isso tudo , dito pelo Ivan Lessa, são plumas, paetês e lantejoulas da parte de uma gente que em nada difere das outras gentes, tendo obtido até seu dia internacional de orgulho, celebrado com marchas, desfiles, discursos e música, muita música, pois a música, como nós sabemos, tange as cordas de todos os corações, mesmo os mais duros. Carlos e Fernando já vivem juntos há seis anos. Não tem filhotes. Mas agora eu lembrei que não era deles que eu precisava falar. Tinha sido contratado para falar dos homossexuais na música brasileira. Então é sobre isto que eu vou falar. Em épocas de crise nunca recomen-

Naquele tempo o bicha tinha que ser muito macho para assumir. Só existiam dois caminhos, a marginalidade ou o guaraná com formicida. dável descumprir contratos. Aqui na terra onde jogam futebol, e tem muita samba, choro e rock’n roll, temos tradições curiosas no que toca a orientação sexual de nossos músicos. Observa-se uma rígida estrutura que torna praticamente obrigatória o “morde fronha” das cantoras. Gal, Marina, Simone, Cássia Eller e a grande Ângela Ro-Ro só pra ficar nas mais à mão. Estes dias aquela Ana Carolina saiu na capa da veja e disse assim ó: “Sou bi e daí”. E daí nada, minha filha .O negócio é ser feliz, vamos parar de importunar a vida dos outros. Triste era o tempo em que um gênio como Assis Valente precisava cometer o suicídio. Frustrado por tentar, sem sucesso, se relacionar com mulheres. É o que dizem as más línguas. Naquele tempo o bicha tinha que ser muito macho para assumir. Só existiam dois caminhos, a marginalidade ou o guaraná com formicida. Dizem também as péssimas línguas que outro dos fundadores do samba brasileiro, o extraordinário Ismael Silva, também era gay. Famosa a história contada por Moreira da Silva ao saber que Ismael estava preso e baleado, pois trocara tiros com um marido ciumento: _ Mas o Ismael não sabe nem por onde a burra mija ... Deste episódio nasceu o antológico samba Antonico, no qual o autor narra a nobilíssima interseção de Pixinguinha,

em seu favor, perante o comissário de polícia. O que me fez pensar em Madame Satã, o lendário transformista malandro da Lapa boemia do tempo dos cabarés. Satã é um mito carioca. Exímio capoeirista, dançarino e encrenqueiro. Foi o hóspede mais assíduo do falecido presídio da Ilha Grande, onde puxou cadeia com Prestes e Graciliano Ramos. No antigo bar Capela, num dia nos anos 50, Satã meditava um chope duplo quando entrou no salão o inesquecível Geraldo Pereira (grande sambista mangueirense). Pereira já tava meio alto, acompanhado de uma dama suspeita, e começou a provocar Satã, chamando de todos aqueles nomes que eu citei acima. Na época, eram os piores impropérios possíveis. Satã levantou e deu uma bem-dada em Geraldo Pereira que, levado ao hospital (ou pra “assistência” como se dizia na época), lá morreu de infecção. Uma tragicomédia de erros. O pior deles do meu ídolo Geraldo Pereira. Fosse hoje em dia ele já não teria esta atitude canalha, preconceituosa e ofensiva e gratuita. Ainda há quem assim pense e se porte. Mas cada vez menos. As minorias de ontem vão ser maioria amanhã e isso é bom. As coisas têm que mudar, gente boa. Stanislaw Ponte Preta é que tinha razão. Disse que um dia o terceiro sexo iria chegar em primeiro. Este dia já chegou. Brindemos às diferenças.


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Comportamento Fotos: Divulgação

Legislação

A liberdade é um tabu Projeto de lei pretende garantir mais direitos a homossexuais Tamyres Antunes O termo homofobia, criado em 1972 pelo psiquiatra norteamericano George Weinberg no livro “Society and the Healthy Homosexual”, tem a seguinte definição: “medo e ódio aos homossexuais”. Segundo o filósofo Olavo de Carvalho, “até hoje os apologistas do movimento gay não entraram num acordo sobre se existe ou não a homofobia como entidade clínica, comprovada experimentalmente”. Entretanto, não é isso que as estatísticas mostram. Em março de 1993, o Ibope realizou uma pesquisa que apontou cerca de 1200 mortes violentas de homossexuais nos últimos doze anos. O Brasil é o país no qual há maior incidência de assassinatos de homossexuais. Tramita no Senado Federal, sob a relatoria da senadora Fátima Cleide, o Projeto de Lei 122/2006, que visa alterar no Código Penal a Lei Antirracismo (7.716/89). O projeto da senadora inclui na Lei Antirracismo os crimes de discriminação e preconceito em razão de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero. Além disso, modifica diversos artigos.

Mas a mudança especialmente marcante está na nova redação do artigo 20. Ele introduz o seguinte parágrafo no artigo 20: “§ 5º O disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica”. O termo tem dois significados: obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa (previsto como crime no artigo 146 do Código Penal); ou causar embaraço ou acanhamento. Utilizando o primeiro significado, a previsão do constrangimento seria inútil, pois tal conduta já está prevista como crime e, como visto, a pena pode ainda ser agravada por motivo torpe, só resta o segundo significado, de cunho marcadamente psíquico, que traz grandes dificuldades. O mesmo problema se repete em relação à interpretação dos termos, ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória.

As mudanças Sob o argumento politicamente correto de defender minorias discriminadas, vedam-se determinados temas ao debate, transformando-os em doutrina

“O projeto é um grande avanço para conscientizar a sociedade de que pessoas [homossexuais] levam suas vidas como qualquer outro cidadão e não precisam ficar restritos a guetos” PIETRO MILAN, HOMOSSEXUAL

oficial do Estado. Todo aquele que contrariar essas doutrinas pode estar sujeito à pena de prisão. O acadêmico de Direito Thomas Morgado se diz a favor da mudança. “Homossexuais perante o ordenamento jurídico vigente não deixam de ser homens ou mulheres, mesmo com a cirurgia de troca de sexo. Segundo o Artigo Quinto, merecem os mesmos direitos que um heterossexual, tendo em vista que o ordenamento não prevê uma lei específica para regular essa matéria. É muito válida a iniciativa da senadora, pois uma classe oprimida deve lutar sim pelos seus direitos. Isso deve ser apenas o início. Em um futuro próximo até o casamento gay deverá ser regulado pelo o ordenamento jurídico”. Mas há quem diga que a iniciativa da senadora Fátima Cleide seja exagerada, como protética Célia Inácia. “O pessoal do movimento gay está sempre lutando por igualdade. Acho que apesar da Constituição brasileira estar ultrapassada em muitos aspectos, ela oferece toda a segurança ao cidadão, então os homossexuais não precisam de ‘proteção extra’. Acho que como todo ser humano, os homossexuais têm que ser respeitados. Tratando-se de preconceito a situação do negro é muito pior. O negro é negro, não tem como se esconder. Ao homossexual ainda resta essa alternativa”. Outra grande polêmica em torno do PCL 122/2006 é a questão religiosa (ver página 8). Muitos cristãos dizem que com a aprovação do projeto, a sociedade estará indo contra os princípios da Igreja e da moral religiosa. Mesmo assim, existem

Homossexuais não são unânimes quanto aos benefícios trazidos pelas mudanças propostas para votação no Senado

pessoas que frequentam igrejas e que tem uma opinião um pouco diferente. Como é o caso da senhora Cybele José, 68 anos. ”Se eu for analisar a questão homossexual pelas leis da Igreja, os padres, o Papa, iriam dizer que a minha opinião está errada, mas eu ainda prefiro pensar na lição que Deus deu ao seu filho, Jesus Cristo: o amor. Acho que o mais importante é o amor entre as pessoas, por isso acho que todos merecem se amar, respeitados e felizes. Sou completamente a favor do projeto da senadora Fátima Cleide.”

Divergências Entre a comunidade GLBT – Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais – há quem discorde. Para um bissexual curitibano que nao quis se identificar, a mudança na Lei será em vão.

“Acho que isso é uma forma de preconceito, uma forma de dar ênfase a homossexualidade e com isso deixar as pessoas mais preconceituosas.” No entanto, alguns homossexuais acreditam que o projeto de lei é uma boa iniciativa. Pietro Milan, por exemplo, tem uma visão otimista em relação ao futuro dos gays graças a medidas como esta. “O projeto de lei é uma importante iniciativa e um grande passo à democracia. Países como Suécia e Dinamarca, por exemplo, possuem legislação específica em relação às questões homossexuais. O projeto é um grande avanço no sentido de conscientizar a sociedade de que pessoas que pagam seus impostos e levam suas vidas como qualquer outro cidadão não precisem ficar restritos a guetos. A caça às bruxas acabou e é tempo de democracia”.


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Cultura Marisa Rodrigues

Sexualidade e literatura

Faça, mas

E G N O L

de mim Antonio Senkovski Marisa Rodrigues Traiu, ocultou, mentiu, enganou? Passados 110 anos de sua publicação, críticos, escritores, leitores, leigos ou não, questionam a fidelidade de Capitu. A personagem criada por Machado de Assis, a dos olhos de ressaca, perdura, muito mais pela dúvida, do que pela possibilidade da traição. Mas, se a suspeita tem toda essa capacidade de eternizar personagens literários, o que dizer de Riobaldo e Diadorim, de “Grande Sertão: Veredas”. A história dos sertanejos, es-

crita por João Guimarães Rosa, ganhou fama pela qualidade da escrita poética e por retratar de forma única os conflitos humanos: o bem e mal, o profano e o divino, o real e o fantástico. Riobaldo se frustra com o amor não correspondido e a ausência de Diadorim. Mas aqui, diferente de Capitu, existe uma lacuna, pois pouco se discute sobre a orientação sexual do protagonista, que sentia um “carinho fora do comum” por seu colega, sem saber que na verdade se tratava de uma mulher. Os motivos dessa timidez em discutir a homossexuali-

Manual contra a homofobia No próximo mês, entidades que dão apoio psicológico a homossexuais promoverão uma campanha contra ataques homofóbicos. O Grupo Dignidade formulou uma cartilha para prevenir violência contra gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis. Apesar de o documento causar impressão de que os argumentos de certa forma limitem o direito de ir e vir das vítimas, essa parece ser a forma mais eficaz de se prevenir crimes dessa natureza em curto prazo. A cartilha está disponível no site: http://portal.rpc.com.br

dade presente na obra de Guimarães Rosa podem ser inúmeros, desde a complexidade do livro, menos popular do que Dom Casmurro, por exemplo, até a forma mais sutil de amor na narrativa do autor. No entanto, acreditar que a discussão da homoafetividade, mesmo na literatura, pode despertar menor interesse e até aversão, não chega a ser uma explicação ingênua. Um exemplo dessa falta de reflexão pode ser representado em frases simples do nosso cotidiano como: “Faça o que quiser, mas longe de mim”. Segundo o sociólogo Rafael Bezerra, essa fala sugere uma falsa aprovação e está longe de demonstrar tolerância, ao contrário, mostra uma postura muito conservadora. “Isso faz com que determinados grupos, considerados fora dos padrões da nossa ‘normalidade’, fiquem excluídos, e aí podem surgir espécies de guetos”. Maria Augusta Brandt foi fazer o que queria e bem longe daqui. A estudante de 21 anos optou por estudar na Espanha. A escolha não teve nada a ver com sua orientação sexual, nem com o preconceito de amigos e familiares, ao contrário. Maria esclarece que sua homossexualidade foi

muito bem compreendida pela família. A diferença está no país. A jovem acredita que quando existe uma Lei que regulamenta a união entre casais do mesmo sexo, como existe na Espanha, o respeito da sociedade às diversidades é bem maior. Maria também afirma que existe uma falta de compreensão da sociedade sobre o casamento, que sofre com as questões ligadas à religiosidade. “Não acho que devemos ter o direito de casar na Igreja, de ter a benção do papa, porque isso é uma questão de religião. Se ela condena, devemos procurar algo que nos acolha, mas as religiões são feitas por homens e não por Deus, e os homens são falhos e preconceituosos, sobretudo em sociedades patriarcais como a nossa. Quero apenas poder ter direito à herança, ao divórcio, à união de bens e à soma de rendas para adquirir financiamentos, como qualquer cidadã”, completa a estudante. Bezerra explica que, para as ciências sociais, o comportamento sexual não possui um parâmetro biológico, e sim determinado por uma construção de gênero social e cultural, que pode variar de acordo com o período histórico, assim

como as famílias. “A família não é um dado, é um objeto de representação sócio-cultural que sofre mudanças ao longo do tempo, por isso a concepção da união com marido, esposa e filhos não é uma lei, uma regra estabelecida”.

A lei E se nas discussões travadas entre os amantes da literatura há certa omissão quanto à análise do sentimento de Riobaldo por Diadorim, a legislação brasileira parece ter bebido da mesma fonte que os leitores da obra. Não há qualquer menção nas leis do Brasil que traga à legalidade o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Se os protagonistas do romance de Guimarães Rosa fossem reais e quisessem se casar perante a lei, eles teriam que recorrer a uma espécie de contrato de união estável, mesmo que o termo considerado correto para a designação desta relação seja união homoafetiva – ainda não incorporada às leis. O coordenador do curso de direito da UP, Marcos Alves da Silva, diz que o contrato é uma forma de garantir, por exemplo, que uma herança deixada por um dos companheiros possa ser usufruída pelo outro, se um deles morrer.


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Cultura Os traumas

“Orientação sexual é para onde a sua libido leva você, e identidade sexual é como você se enxerga sexualmente, ou seja, se você se vê como homem ou se você se vê como mulher” JOSÉ ROBERTO PALCOSKI,

PSICÓLOGO

O documento evita casos como quando a família não reconhece o relacionamento do filho ou da filha com uma pessoa do mesmo sexo. Pode ser que depois da morte esses pais, irmãos ou outros familiares exijam os bens deixados por ele. Sobre a questão do conceito de família nos julgamentos, houve uma evolução considerável nos últimos tempos, segundo o advogado. “Existe uma designação específica na Constituição para definir a união estável como sendo entre o homem e mulher. Todavia, a jurisprudência, a partir de uma leitura da própria Constituição, vem dando tutela para várias famílias que se formam a partir de pessoas do mesmo sexo, por exemplo”. A advogada Caprice Camargo Jacewicz trabalha no Grupo Dignidade, ong que atende e dá apoio a gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis. Segundo ela, outro aspecto pode ser considerado uma evolução bastante grande no julgamento dos casos que envolvem a questão da orientação sexual. “Aqui no Paraná as coisas ainda estão bem lentas, mas já está bem melhor do que era. Hoje em dia essas ações de reconhecimento da união já tramitam na Vara de Família, sendo que antes elas eram tratadas na Vara Cível, como se fossem sociedades empresariais”. Caprice também afirma que os homossexuais estão mais cuidadosos com essas questões da união. “Recebemos visitas freqüentes de casais pedindo orientações sobre como proceder legalmente”.

A igreja católica Diferente do direito, no qual a interpretação dos juízes conta muito na hora de declarar uma sentença, no catolicismo

os padres não têm liberdade para pensar sobre os dogmas pregados pela instituição. O que existe são religiosos mais liberais, como é o caso do Padre Mauro Zandoná, pároco da paróquia São José Trabalhador, no bairro Campina do Siqueira. “Entretanto, ser liberal”, alerta Zandoná, “não significa que vamos apoiar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas se uma criança for adotada por um casal homossexual, com certeza ela poderia ser batizada. A criança tem esse direito como filha de Deus. Mas o casamento mesmo nunca vai ser permitido, porque vai contra a própria bíblia”. Segundo o padre, há um porém. Os padrinhos da criança não poderiam ser dois homens ou duas mulheres. Na suposição em que Riobaldo e Diadorim - sem que houvesse a revelação do grande segredo de que Diadorim era uma mulher - fossem se casar e, além disso, adotassem um filho, outro casal homossexual não poderia ser padrinho da criança, mas Capitu e Bentinho, de “Dom Casmurro”, poderiam ser, mesmo que estivessem em meio a desavenças e desconfianças sobre fidelidade e paternidade. Com a criança batizada, o casal apadrinhador do mais novo pequeno defensor da religiosidade – pelo menos até que comece ir à catequese – teria a função de conduzir o bebê para a “moral dos bons costumes”. Missas, novenas, missões, abstinências de passeios aos sábados para não faltar às aulas de religião... um longo caminho com uma cruz nas costas, como é defendido nos sermões, começaria a ser percorrido. Difícil é antever como seria a relação da criança com os pais diante das “verdades” religiosas.

No último dia 23 de março, um estudante da Universidade Federal do Paraná foi agredido por um grupo homofóbico em Curitiba (ver página 3). Em casos como o desse estudante, o trauma pode ser bem mais sério do que os ferimentos físicos. As marcas podem ir além do que fica no rosto ou no corpo e permanecer na memória das vítimas. De acordo com o psicólogo José Roberto Palcoski, pessoas vítimas de preconceito podem desenvolver problemas como fobia social, medo de sair de casa, receio de se envolver com algum tipo de pessoa, entre outros. “Há uma tendência das vítimas ficarem sempre na defensiva, por mais que não vá acontecer nada”. Palcoski trabalha no Grupo Dignidade e atende casos de diferentes características. Ele revela que muitas pessoas chegam para um acompanhamento psicológico pela dúvida sobre a orientação sexual. Nesse aspecto existe uma diferença muito importante

entre orientação e identidade sexual. “Orientação sexual é para onde a sua libido leva você, e identidade sexual é como você se enxerga sexualmente, ou seja, se você se vê como homem ou se você se vê como mulher”. Levando esta diferença em consideração, surgem combinações infinitas entre identidade e orientação sexual. Um exemplo citado pelo psicólogo foi um caso que ele atendeu em que duas transexuais eram namoradas. Elas se sentem

como mulheres e também gostam de mulheres. Numa classificação vulgar talvez pudessem ser consideradas transexuais lésbicas. Mas, o ponto chave não é como se deve classificar, e sim questionar se realmente é necessário ter uma designação específica para os casos, que podem ser inúmeros dentro das combinações possíveis. Palcoski também lembra que alguns dos estereótipos criados sobre o comportamento homossexual aumentam ainda mais a intolerância. “Os homossexuais são vistos muitas vezes como depravados, pervertidos que só buscam parceiros sexuais. Mas essa não é a verdade. Eles são como qualquer pessoa que ama, sofre, busca companheirismo e afeto”. Talvez por isso o amor incondicional de Riobaldo, que não sugere um desejo puramente carnal, não agrade a tantos como a traição de Capitu. Ternura e afeição ainda são sentimentos que muitas pessoas não querem enxergar nas relações homossexuais.

Ilustração: Divulgação


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Ciência Reportagem especial

À procura de respostas Teorias psicológicas, biológicas e pessoais tentam explicar como acontece o despertar da homossexualidade nas crianças

Texto: Raphael Costa Fotos: Divulgação “Estou grávida da minha namorada”. Essa foi a manchete usada pela revista Época para divulgar a notícia de que Adriana Tito Maciel está na 31ª semana de gestação. Adriana é homossexual e os óvulos fecundados que grudaram no útero dela pertenciam a Munira Khalil El Ourra, sua companheira. Elas serão mães de duas crianças que vão nascer até a primeira semana de maio. Os bebês já têm nome: Eduardo e Ana Luísa. Serão paridos e amamentados por Adriana, de pele marrom e cabelo que nasce crespo. Mas terão a cara de Munira, branquinha e de cabelo liso. A reportagem esclarece: “Para a lei, mãe biológica é quem carrega a criança no ventre. Mas um exame de DNA mostraria o contrário. Nem Adriana nem Munira pretendem disputar na Justiça a guarda das crianças. O que elas querem é sair da maternidade juntas, com um documento que

permita registrar as crianças no cartório com o sobrenome de cada uma e o nome das duas mães na certidão de nascimento, como qualquer família normal.” Com toda essa história, várias dúvidas surgem: uma criança criada por uma casal gay vai ser um homossexual? Seria saudável para uma criança ser criada por um casal formado por duas pessoas do mesmo sexo? São várias as teorias que tentam responder essas questões.

Teoria 1:Argumentações Biológicas O primeiro estudo é do neurobiólogo Roger Gorski, da Universidade da Califórnia, EUA, que fez experiências em laboratórios com ratos. As fêmeas prenhas receberam testosterona (o hormônio sexual masculino) ainda dentro do útero. O pesquisador observou que, desde a primeira fase da vida, os filhotes do sexo feminino mostravam comportamentos masculinos. Porém, o estudo não foi conclusivo, pois os filhotes do sexo masculino cujas fêmeas mães receberam hormônios femininos (estradiol e progesterona) não desenvolveram significativas características femininas. Outros estudos no ramo da ciência genética têm sido realizados no sentido de investigar origens hereditárias para a homossexualidade. Um dos estudos mais conhecidos nesse sentido tenta estabelecer uma correlação entre a homossexualidade masculina com o gene Xq28. É efetivamente uma tese que coloca o comportamento homossexual não como uma opção ou estilo de vida, mas como resultado de uma variação genética.

Glenn Wilson e Qazi Rahman são os responsáveis pela terceira teoria e também são investigadores na área da psicologia, além de autores de Born Gay: The Psychobiology of Sex Orientation (Nascido Gay: A Psicobiologia da Orientação Sexual). Eles concluem que há diferenças biológicas entre pessoas homossexuais e heterossexuais, e que estas não podem ser ignoradas. Esses investigadores estão dispostos a aceitar a teoria do "gene gay", e completam com a ideia de que alguns fetos masculinos com pré-disposição genética para a homossexualidade são incapazes de absorver corretamente a testosterona no seu processo de desenvolvimento. Isso faz com que os circuitos neurocerebrais responsáveis pela atração pelo sexo oposto nunca se desenvolvam ou o se façam de modo deficiente. Quanto à homossexualidade nas mulheres, Rahman avança com a hipótese de haver uma proteína no útero responsável pela proteção dos fetos femininos contra a exposição excessiva a hormônios masculinos que não atuam cedo o suficiente no processo de desenvolvimento.

Sentado ao divã Contrários às argumentações apenas biogenéticas estão psicólogos e psicanalistas. Sem negar que incontáveis caracte-

rísticas humanas (tendências de se desenvolver algumas doenças, por exemplo) têm base genética, consideram incorreta a percepção da homossexualidade como um traço apenas geneticamente determinado. Buscam antes explicações associadas ao meio e à educação dos indivíduos. Daryl Bem, psicólogo da Universidade de Cornell, nos EUA, desenvolveu pesquisas sobre a impôrtancia da formação intrafamiliar na pessoa homossexual. Uma nova geração de psicólogos americanos, como Judith Harris, tende a valorizar as relações interpessoais (com vizinhos, colegas da escola, colegas da rua...) como os fatores mais fortes no desenvolvimento e estruturação da personalidade, e dentro desta, na definição da orientação sexual de cada um. De acordo com o pesquisador membro do Grupo de Pesquisa Sexualidadevida/USP-CNPq e mestre em Ciências pela USP Roberto Mendes Guimarães, esse convívio com outras pessoas e as influências que elas causam sobre cada um são o caminho para que cada um faça sua escolha através de seus desejos. Segundo o psicanalista Kenneth Lewes, há atualmente quatro teorias inspiradas em Sigmund Freud que podem explicar a homossexualidade: a primeira estaria ligada a um

Se você pensar que um casal homossexual só teria filhos que também seriam homossexuais, então um casal heterossexual não teria condições de ter um filho homo ROBERTO GUIMARÃES, PESQUISADOR DA USP


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Ciência complexo de Édipo, resultado da descoberta da criança de que sua mãe é “castrada” sexualmente. Essa “percepção” induziria a criança a uma grande tensão fazendo-o ver sua mãe como sendo uma mulher com órgão sexual masculino. A segunda teoria seria explicada através de uma grande identidade do filho com a mãe. Nessa teoria, com base em ações narcisistas, o menino tentaria se espelhar no modelo da sua mãe, assumindo os mesmos gostos. A terceira teoria seria explicada por uma inversão do complexo de Édipo, na qual o menino busca o amor de seu pai, representado por uma identificação masculina, buscando e assumindo uma identidade feminina, com forte erotismo anal. A quarta e última teoria seria explicada por uma reação de formação: ciúmes e inveja sádicos em relação ao pai e irmãos, podendo levar uma pessoa a manter relações com pessoas do mesmo sexo. Guimarães acha que tudo isso pode acontecer, mas não explica a opção sexual de uma pessoa. Ele ainda defende a teoria de que toda pessoa tem desejos homo e heterossexuais inconscientes. Cada pessoa faz a sua opção de acordo com os desejos e as identificações que ela cria. “Não é a postura dos pais que leva uma pessoa a ser homossexual. E se você pensar que, necessariamente, um casal homossexual vai ter filhos homossexuais então, teoricamente, um casal hetero não poderia ter um filho homo. Por isso depende da pessoa e do meio em que ela vive e não de um caráter patológico”.

A voz da vez Um casal de meninas homossexuais, que preferiu não se identificar, acredita na mesma teoria de Guimarães. Júlia* contou que descobriu que era lésbica por acaso, e acaba ilustrando tudo que Guimarães falou. Ela disse que uma vez uma amiga pediu muito para ela ir a uma boate GLS. Isso porque um ator, que era ídolo da amiga, iria tocar naquele lugar. Júlia falou que foi à boate totalmente contra a vontade.

Quando elas entraram, tudo era muito estranho para Júlia. Segundo ela, em uma primeira impressão poderia dizer que ficou “meio horrorizada” com as coisas que viu no local. Contou ainda que para ajudar, ou piorar, a promoter do lugar se interessou por ela. Em um primeiro momento foi um susto, tanto com o ambiente quanto com a pretendente diferente dos quais ela estava habituada. “No final daquela noite eu fui para minha casa e tudo aquilo estava na minha cabeça. Eu não conseguia parar de pensar e me fazer perguntas. Fui percebendo que ia crescendo um interesse. E então eu resolvi voltar mais vezes naquele lugar para esclarecer minhas dúvidas e questionamentos. A partir daí eu fui descobrindo um mundo novo do qual eu fui gostando e no qual eu me encaixava.” As agora namoradas se conheceram por acaso, tinham alguns amigos em comum. Mas nem se viam muito. Voltaram a se encontrar no vestibular e descobriram que estavam tentando vestibular para o mesmo curso. As duas passaram e viraram colegas de faculdade. Foi aí que o contato aumento, até que acabaram juntas. È lógico que elas têm uma opinião sobre o assunto. Quando questionadas sobre o motivo de querer tem um filho, a resposta de Júlia sintetizou tudo: “Acho que o sonho de quase todo mundo é ter um filho, principalmente das mulheres. E todo mundo deseja ter uma criança com a pessoa amada. Como a tecnologia ainda não está tão desenvolvida a ponto de um casal homossexual conseguir ter um filho sem precisar recorrer a métodos que não a si mesmos, na minha opinião a adoção é a melhor das hipóteses. Existem tantas crianças sem ninguém no mundo e tantos casais que não podem ter filhos - por vários motivos, não só os homossexuais - que acaba unindo o útil ao agradável.” O preconceito que essa criança pode passar por ter pais do mesmo sexo, para elas, é importante para o mundo aceitar uma situação como essa com naturalidade. Elas acham que em qual-

quer lugar que essa pessoa viver, ela poderá sofrer preconceitos por causa dos conservadores que abominam o fato de casais do mesmo sexo existirem. Mas elas acham que, apesar disso tudo, é difícil a opção sexual delas influenciar a escolha da(s) crianças que elas adotarem. Porque para elas cada pessoa tem o direito de escolher sua opção sexual. Júlia chegou até a usar a mesma frase do pesquisador Guimarães: “Não acredito que por uma criança ser filha de pais homossexuais, isso influenciará para que ela também seja. Se a opção dos pais influenciasse diretamente nisso, não existiria casais heterossexuais com filhos e filhas homossexuais. A opção de cada um é escolhida por cada um.” Outro ponto importante que Guimarães e Júlia falaram é de que é preciso apenas, independente de heteros ou homossexuais, que os pais mostrem e ensinem que todas as pessoas são iguais e que não podem ser julgadas pelas suas escolhas. E que esses pais precisam sim mostrar para seus filhos que existe mais de uma opção sexual pela qual eles podem optar.

Nota *Nome fictício

A pedido das entrevistadas, o Lona usou nomes fictícios para manter a identidade das fontes sob sigilo.


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Comportamento Igreja e homossexualidade

O homossexual e a fé

Divulgação

Apesar de não discriminar homossexuais, Igreja Católica não reconhece casamento de pessoas do mesmo sexo

Diego Henrique “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. A frase extraída da Bíblia Sagrada é capaz de resumir, ainda que superficialmente, o posicionamento da Igreja Católica acerca da união civil entre pessoas do mesmo sexo. Quanto às questões políticas, obviamente, a Igreja nem possui autoridade para alterálas, ou seja, se a Justiça (“o que é de César”) passar a determinar que a união entre homossexuais é uma ação legítima, fim de papo. No aspecto religioso continua valendo a máxima expressa pelo mandamento católico-judaico “Amarás o próximo como a ti mesmo” sem distinção de raça, cor, credo, classe social ou orientação sexual. No entanto, apesar de respeitar a homossexualidade, a Igreja acredita que em caso algum os atos homossexuais devem ser incentivados. Segundo o padre Gilson Cezar de Camargo, mestre em teologia, se o Estado decidir regulamentar a situação

Marisa Rodrigues

civil de duas pessoas do mesmo sexo, inclusive pelas questões de divisões de bens e coisas do tipo, não há problema algum. “Não vejo nenhum impedimento de que duas pessoas adultas que, portanto sabem o que querem, regularizem sua união. Diferente do que ocorre no caso da pedofilia, por exemplo, onde a criança é obrigada a manter relação sexual com seu agressor. O que não concordo é que essa união seja chamada de casamento, por ferir o significado real dessa palavra”, explica o padre. Tanto para Gilson Cezar quanto para o dicionário Aurélio, a palavra casamento designa união entre pessoas de sexos diferentes. “A Igreja defende o princípio de alteridade, ou seja, de buscar no outro parceiro de sexo diferente aquilo que falta para que ambos se completem. Apesar disso, creio que não se deve recomendar que homossexuais se casem contrariando seu real desejo, pois essa atitude seria apenas um fingimento podendo depois se transformar num verdadeiro desastre, até porque essa atitude não traria a ‘cura’ para a pessoa, uma vez que o homossexualismo não é

uma doença”, comenta o padre. O catequista católico Wladimir Bastos Pereira, da paróquia São José Trabalhador, possui um irmão homossexual e salienta que não aprova tal orientação do próprio ente familiar. Ele acredita que a união civil entre pessoas do mesmo sexo não é aceitável por dois motivos: primeiro, por crer que isso não seja algo natural e ainda segundo ele, por contrariar conceitos bíblicos. “Deus fez a mulher para o homem e o homem para a mulher. Se ele não quisesse casais teria criado apenas homens ou mulheres, tanto faz”, justifica. A socióloga e professora Eliane Basilio de Oliveira acredita que a Igreja, de uma maneira geral, não age de forma liberal em relação aos homossexuais. “Provavelmente, os padres estranhariam dois homossexuais entrando de mãos dadas para assistir a uma missa. Apesar

disso, creio também que há exceções, como no caso dos padres progressistas”. Atualmente, a possibilidade de católicos homossexuais receberem a aprovação da Igreja para se unirem religiosamente é nula. Entretanto, não é impossível que ela traga para discussão assuntos considerados tabus ou indiscutíveis como nos tempos bíblicos a questão de circuncisão ou mais atual-

dos capitais. Tais exemplos mostram que a Igreja se dispõe, ainda que por pressão da sociedade, a atualizar conceitos como a união homossexual. Mesmo acreditando não ter autoridade para julgar o destino das pessoas, o padre Gilson Cezar arrisca um palpite: “Acredito que o fato de uma pessoa ser homossexual não a leva para o inferno. Deus é misericordioso demais para ser tão radical”.

Catecismo da Igreja Católica e os homossexuais “(...) a tradição sempre declarou que ‘os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados.’ São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados. “Um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objetivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta. “As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, às vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem se aproximar, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.” (Fonte: Catecismo, 2357 e 2358.)


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Sociedade

Marisa Rodrigues

Família

Uma mão amiga Grupo de pais ajuda famílias a entenderem orientação sexual dos filhos

Camila Scheffer Franklin Tamyres Antunes

filhos, geralmente pessoas assustadas e confusas, que acreditam que a homossexualidade se resume a safadeza. Em Curitiba, as reuniões do grupo ocorrem uma vez por mês, mas caso ocorra uma procura fora da reunião, e for necessário, é realizada uma reunião emergencial. O grupo está sempre disposto a ajudar. Nas reuniões, os participantes conversam sobre suas experiências pessoais em relação à descoberta da orientação sexual de seus filhos, partindo do princípio de que ninguém foi educado para ter um filho homossexual, além de explorar o assunto homossexualidade. Para Marise Felix, mãe facilitadora do grupo de Curitiba, o grande objetivo é ajudar os novos participantes a entender o que acontece com seus filhos e dar adeus ao preconceito. “O principal mesmo é entender que não é por vontade própria que nossos filhos são ho-

Divulgação

A Associação Brasileira de Pais e Mães de Homossexuais, o GPH, existe desde 1999. Muitas famílias já foram ajudadas a entender a orientação sexual de seus filhos. Idealizado pela doutora em Semiótica Francesa Edith Modesto, atualmente o grupo atende a mais de 200 famílias no Brasil. Com uma rápida olhada no site do grupo, percebe-se que o processo de aceitação da homossexualidade dos filhos pode ser simples ou complicado. Uma mãe declara: “Nossa filha nos contou há três anos sobre sua homossexualidade, e embora chocados, nos sensibilizamos quando nos falou que não escolheu ser assim, que se fosse opção jamais teria escolhido um caminho tão sofrido. Embora não tenha tido problemas maiores de aceitação, era uma situação absolutamente nova e desco-

nhecida para mim. No GPH encontrei meus semelhantes.” Mas para alguns pais o processo da descoberta e aceitação da homossexualidade dentro de sua família torna-se algo torturante. “Acho que foi o momento mais sofrido de toda a minha existência. Meu único pensamento era: como aceitar que o meu filho, querido e amado, inteligente, íntegro e honesto, não passava de uma ‘bicha’? O que eu conhecia sobre o mundo dele era negro. Era promíscuo. Por tempos, sofri sozinha. Descobri o GPH e parece que uma porta se abriu para mim. Penso que se todos os pais de homossexuais tivessem a chance de encontrar um grupo de apoio, as coisas seriam menos sofridas”. O grupo possui as denominadas “mães facilitadoras”, mães de homossexuais que estão no grupo há mais tempo e acolhem outros pais e mães que estão com problemas para aceitação e entendimento dos

“O principal mesmo é entender que não é por vontade própria que nossos filhos são homossexuais” MARISE FELIX, MÃE FACILITADORA mossexuais. É enfrentar e reconhecer que aquilo que fomos ensinados desde crianças não serve mais e banir o preconceito que muitas vezes nem sabíamos que existia” diz Marise. Mãe de uma garota homossexual, Marise soube da orientação sexual da filha quando a menina havia completado 16 anos. Após terminar um namoro com um garoto, passou de uma jovem alegre e cheia de amigos a uma pessoa fechada e sem amigos. Sua vida resumiase a seu computador. Preocupada, conversou com sua outra filha, que foi clara ao dizer: “Mãe, você não percebeu que ela é lésbica?”. Marise ficou assustada, mas decidiu enfrentar a situação. “Depois que passou o susto, fui conversar com a minha pequena e ela me

confirmou entre soluços que ela era uma menina que gostava de meninas. Nos abraçamos, choramos e eu disse que a amava e que na minha casa isso não seria um problema”. Determinada, a mãe saiu em busca de ajuda para entender o que acontecia com a sua filha. Primeiramente, encontrou o Centro Paranaense de Cidadania (CEPAC). Lá achou uma revista com uma chamada na capa falando sobre “O difícil processo de aceitar a diferença”. Tratava de filhos homossexuais. Ela comprou a revista e descobriu o GPH e a Edith Modesto. Entrou para o grupo e recebeu a ajuda que precisava. “Hoje eu sou uma mãe facilitadora, minha família é unida e minha filha é tudo que eu queria que ela fosse: feliz”.

Serviço A mãe facilitadora Marise Felix trabalha no Grupo de Pais Homossexuais de Curitiba

As reuniões do grupo são confidenciais, o nome do participante é secreto e é permitida a utilização de pseudônimos no grupo. O site do GPH é www.gph.org.br.


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Sociedade Foto: Divulgação

Homossexualidade

Penitências de uma

revelação

Especialistas discutem se existe momento certo para assumir homossexualidade Giovanna Lima Uma mochila nas costas, uma tartaruga de pelúcia embaixo do braço e muitas lágrimas no rosto. Foi assim que Ana* chegou até a casa de sua tia. Fazia apenas dois dias que ela havia completado 18 anos. Seus amigos haviam lhe feito uma festa surpresa. Ela havia comido muitos brigadeiros e beijinhos, mas agora, só sentia um gosto amargo na boca, não teve tempo para comemorar e aproveitar a chegada da sua maioridade. Ana não ficou grávida, não foi presa e nem usou drogas. Seu “erro” foi perceber que ela gostava de meninas. O jornalista Eduardo Gregori passou por uma situação muito semelhante. Aos 15 anos foi expulso de casa pelo pai após revelar sua homossexualidade. Eduardo conta que, apesar da reação do pai, não se arrepende de ter contato. “Não suportaria mais me manter calado. Era muito sufocante”. Antes da expulsão, a jovem passou dois dias de humilhação. A terapeuta familiar e psicóloga Eloá Andreassa revela que normalmente as mães são mais flexíveis que os pais para aceitar a condição do filho homossexual.

Mas o caso de Ana foi uma exceção. “Ela ficava batendo na porta do meu quarto e gritando ‘sapatão’. Minha vida virou um inferno”, conta a estudante. Depois de muitos insultos, sua mãe fez uma exigência: “Vá procurar sua turma. Faça suas malas e vá embora, você tem dez minutos.” O choque da menina foi grande. Segundo a sexóloga Marília Araújo Wilinski, cada família tem uma reação diferente em casos de manifestação da homossexualidade. Marília revela ainda que existem pessoas como a mãe de Ana e o pai de Eduardo, que pensam que ser homossexual é uma aberração principalmente por causa da educação. Por isso, é importante dar à criança instruções que a façam aprender a respeitar o próximo. A não aceitação da opção sexual pode trazer ao jovem sérios problemas. Segundo a terapeuta familiar, além de o adolescente viver com medo e acuado, ele pode vir a ter sintomas de stress, depressão e alcoolismo. A psicóloga Gisele Lima complementa a opinião da terapeuta. “O adolescente também pode abusar de drogas para amenizar a dor de ser diferente do que a sociedade

“O adolescente pode abusar de drogas para amenizar a dor de ser diferente do que a sociedade considera normal” GISELE LIMA, PSICÓLOGA

considera normal”. De acordo com Marília, o grande problema dos pais é que eles não sabem ouvir. “Todos os pais querem ser respeitados, mas nem todos sabem respeitar as decisões do filho”. Marília também acredita que a função dos pais não é fazer escolhas para o jovem, mas sim dar orientações.

Conquistando espaço Eduardo mudou de cidade. Para ele, o começo foi complicado. “Você não tem referências em uma cidade nova e é necessário erguer a cabeça e trabalhar”. Ana optou por morar seis meses na casa de sua tia. Nesse período, ela acabou se aproximando do pai, com quem não falava há quatro anos. Seu pai começou a ajudar financeiramente e ela começou a fazer cursinho. O jornalista também não fraquejou. “Quando você é literalmente abandonado por sua família, então não há como esperar que alguém lhe ajude. Você tem que tomar as rédeas da sua vida e viver”. Segundo a sexóloga, a melhor maneira de um filho superar a rejeição da família é justamente o que Ana e Eduardo fizeram: assumir responsabilidades com a busca do sustento e com uma profissão, para não sofrer com a indiferença de quem os oprimia. Eloá completa o conselho da sexóloga: “Quando os interesses são extremamente opostos, é difícil se ter consenso. O filho discriminado deve ir atrás dos seus direitos e encontrar

um modo que lhe traga conforto para viver”. Eduardo, que foi expulso de casa há cerca de 20 anos, ficou dez sem conversar com o pai e tentou uma reconciliação quatro anos atrás. Porém, não deu certo. Há alguns meses o pai foi à Justiça pedir pensão alimentícia, já que existe uma lei que dá direito às pessoas maiores de 65 anos de idade pedir pensão para seus filhos, caso não tenham condições de se manter. Para Eduardo, a atitude do pai é “uma forma de institucionalizar a discriminação, de encontrar brechas na lei e reforçar o preconceito”. A terapeuta familiar afirma que antes de contar o jovem precisa se preparar psicologicamente para qualquer tipo de reação, já que muitos pais estão acostumados aos padrões estabelecidos pela sociedade. Ana diz que se o adolescente já imaginar que os pais serão contra, é melhor ter um emprego e condições de se sustentar antes de fazer a revelação. “Caso você

não tenha como se virar, melhor não contar”, opina a estudante. A psicóloga concorda e acrescenta: “será que os pais precisam saber da homossexualidade do filho se os valores da família forem muito tradicionais”? Para Eduardo, os jovens devem pensar muito antes de assumir a orientação sexual. “O preço é muito alto. Eu paguei e pago até hoje, mas não me arrependo. Não podia mentir para mim mesmo sobre quem sou. Porém, esta decisão pode trazer sofrimento e dificuldades. É preciso estar pronto para enfrentar tudo”. Antes de qualquer coisa, pais e filhos precisam se preocupar em manter um diálogo constante (ver matéria página 12). Isso faz com que a família se conheça e fortalece a prática do respeito. “Se o jovem estiver certo de que quer assumir aos pais que gosta de pessoas do mesmo sexo, ele precisa fazer isso da forma mais verdadeira, sincera e direta possível”, afirma a terapeuta familiar. *A pedido da estudante, seu nome verdadeiro foi trocado


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Lona - Edição nº 467 by LONA — Laboratório da Notícia - Issuu