T extos A lexandra C arolina , A manda M eirelis , A ndrĂŠ A tan , B runo M arinho , D aniella B elchior , E milly V eras , E nzo B lum , L uisa C amara , M alu A lencastro , P edro U ngarelli , R odrigo A bdalla ; O rg : L uiz C laudio F erreira
Dados Internacionais de Catolagação na Publicação (CIP) UniCEUB, Estudantes de jornalismo Vivências da pandemia: razões, emoções e perspectivas / Estudantes de jornalismo UniCEUB; orientador Luiz Claudio Ferreira. – Brasília, 2020. 92 p.
ISBN: 978-65-87823-05-8
1. Jornalismo. 2. Livro-reportagem. 3. Reportagem. I. Ferreira, Luiz Claudio, orient. II. Título.
Antes de decidirmos qual seria a capa deste trabalho, o nosso editor de arte, Rodrigo Abdalla, nos deixou em dúvida. As opções abaixo foram elaboradas a partir de fotografias cedidas pela estudante de jornalismo Késia Alves. Decidimos pela colorida em função da esperança que remete e pela pauta positiva que perseguimos.
Expediente Reitor: Getúlio Américo Moreira Lopes Vice-Reitor: Edevaldo Alves da Silva Secretário-Geral: Maurício de Sousa Neves Filho Pró-Reitora Acadêmica: Elizabeth Regina Lopes Manzur Pró-Reitor Administrativo e Financeiro: Gabriel Costa Mallab Diretor Adminstrativo e Financeiro: Geraldo Rabelo Diretor Acadêmico: Carlos Alberto da Cruz Diretor da FATECS: José Pereira da Luz Filho Diretora da FACES: Dalva Guimarães Diretor do ICPD: João Herculino de Souza Lopes Filho Coordenador de Jornalismo - prof. Henrique Moreira Disciplina de Edição e Cobertura Jornalística - Julho de 2020 Professor: Luiz Claudio Ferreira Editora chefe: Daniella Belchior Chefes de editorias: Alexandra Carolina, Pedro Ungarelli, Rodrigo Abdalla Diagramação e revisão final: Alexandra Carolina, André Atan, Rodrigo Abdalla Repórteres: Alexandra Carolina, Amanda Meirelis, André Atan, Bruno Marinho, Daniella Belchior, Emilly Veras, Enzo Blum, Luísa Câmara, Malu Alencastro, Pedro Ungarelli, Rodrigo Abdalla
Memória às vítimas
Sumário
Uma página é pouco para refletir sobre as vidas que foram arrebatadas pela Covid-19. Um livro tampouco seria suficiente. Em meio às adversidades provocadas pela pandemia, testemunhamos histórias que nos comovem. Algumas delas estão aqui representadas pelos olhares dos repórteres; outras tantas foram interrompidas precocemente. Entre ilustres, desconhecidos, amigos e parentes, esta carta se propõe como reverência a todos que faleceram neste período caótico. Assim como aos familiares, que convivem com o luto durante a pandemia. No momento em que finalizamos a diagramação do livro, são mais de 500 mil mortes no mundo, das quais cerca de 65 mil ocorreram no Brasil. Os números assustam e quem arrisca uma previsão corre o risco de ser desmentido em pouco tempo. Mais amedrontador ainda é pensar nas vidas que se foram. Pais, filhas, tios, irmãos, avós, netos, colegas, vizinhos. Músicos, garçonetes, presidiários, policiais, médicas, enfermeiros. Todos estamos sujeitos a contrair a doença. Até o indivíduo mais cético reconsidera a “gripezinha” ao ouvir as histórias de vida de cada uma dessas pessoas, pois isso nos fornece uma ideia do maior prejuízo que a Covid-19 pode nos infligir. Apesar das diferentes maneiras em lidar com a morte de um ente querido, a sensação de desamparo é algo universal. A saudade latente, a impotência durante o tratamento, as injustiças imputáveis. Não há como dizer “e daí?” para tamanha tristeza. Nós compreendemos a dor dos familiares e prestamos esta singela homenagem às vítimas.
Carta ao Leitor............................................................................10
De olho no futuro......................................................................12 O que irá nos acontecer|Luísa Câmara.....................................13 Futuro incerto e o sonho da faculdade|Enzo Blum..............18 Foco no tempero|Amanda Meirelis............................................23 Jornaleiros em risco|Rodrigo Abdalla........................................28 Arte para a alma..........................................................................40 Musicoterapia: arte e ciência de potencial curativo|Alexandra C......41 Naquelas mesas|Malu Alencastro...............................................48 O humor em dias de pandemia|Daniella Belchior.................55 Vozes e ecos.................................................................................72 Autistas em isolamento social|Emilly Veras............................73 Fora das quatro linhas|André Atan...........................................76 Saudades do campo|Bruno Marinho.........................................81 Microfones a postos|Pedro Ungarelli........................................84
Apresentação Até as primeiras décadas do século XX, especialmente no Brasil, o jornalismo tinha como principal característica a narrativa de um determinado fato com ênfase em seus aspectos mais humanos, mais pitorescos ou inusitados. Isso levava o jornalista a lançar mão de recursos estilísticos que aproximavam a notícia da literatura. Desde então, tal proximidade tem sido objeto permanente de interesse de escritores e jornalistas, empenhados em estabelecer limites e esclarecer a complementaridade entre a forma de escrever uma notícia e a de criar personagens e tramas fictícios ou não. José Peregrino, então presidente da Academia Brasileira de Letras, numa conferência em 1957, defendeu a tese de que “Jornalistas foram, são e serão, realmente, no Brasil, os que têm feito a literatura mais legítima e autêntica.” Por isso, ver o empenho de jovens alunos do curso de Jornalismo do UniCEUB na produção de reportagens que remetem às características fundamentais do texto literário é motivo de orgulho e de esperança. Orgulho por constatar que o Jornalismo é uma prática social que se reinventa permanentemente, sem perder suas referências mais importantes; e esperança, por enxergar nesses futuros jornalistas verdadeiros representantes de tudo o que o jornalismo sempre representou para a sociedade humana. Este livro-reportagem materializa o esforço de todo um semestre de pesquisa e produção de nossos alunos, que sob a orientação firme de seus professores da disciplina “Edição e Cobertura”, resgataram a essência do jornalismo literário, trazendo ao conhecimento do público leitor uma
série de acontecimentos de notável intensidade dramática recolhidos durante um dos momentos mais críticos vividos nos últimos cem anos: a pandemia do Covid-19. Por isso, a minha satisfação em minimamente contribuir com esse projeto, cujos inspiradores são jornalistas do quilate de Euclides da Cunha (pioneiro do jornalismo literário no Brasil) e de Truman Capote, principal referência no jornalismo literário universal. Que orgulho. Professor-Doutor Henrique Moreira Coordenador do Curso de Jornalismo do UniCEUB
Carta ao leitor A ideia de escrevermos um livro foi proposta pelo professor Luiz Cláudio antes da pandemia do novo coronavírus. Na verdade, nem imaginávamos o caos e as mudanças que viriam. O professor, entusiasmado, convenceunos, logo no primeiro dia de aula, de que seria importante para nossa formação produzirmos algo inédito ao final da disciplina “Edição e cobertura jornalística”. Por pouco, a proposta não foi cancelada, pois tivemos de nos readequar à nova rotina imposta pela rápida disseminação do vírus e as aulas passaram a ser realizadas no ambiente virtual. Ainda não havíamos definido a temática que abordaríamos na publicação. Todavia, após discussões e análise do cenário que vivíamos, concluímos que escreveríamos um livro-reportagem em que figuraria a temática da pandemia. A publicação difere-se de um livro comum porque traz histórias, de caráter jornalístico, na qual se observam o factual, a relevância social e o aprofundamento das narrativas de modo a despertar no leitor novos olhares e percepções. O livro foi dividido em três editorias. A primeira delas é a de “Olho no futuro” que mostra perspectivas para o pós-pandemia. Em seguida, o leitor encontra a “Arte para alma” a qual aborda vivências relacionadas à arte no contexto da quarentena. Por fim, a editoria “Vozes e ecos” descreve relatos ocorridos durante o isolamento em que razão e emoção se entrelaçam. Em cada capítulo há expressão singular da visão do momento, relatos de superação e sobre a travessia pelo isolamento, além do convite a novas discussões e 10
reflexões acerca da temática. Procuramos extrair a leveza e simplicidade das histórias que contamos, não só para eternizá-las, mas, especialmente, para proporcionarmos ao leitor uma experiência diante de um momento tão delicado. Se conseguirmos isso, teremos alcançado nosso propósito... Daniella Belchior, aluna-chefe de reportagem
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De olho no futuro
O que irá nos acontecer...
De olho no futuro
O que irá nos acontecer…
Como lidaremos com o mundo na pós-pandemia? Como ficarão nossos empregos? A covid-19 veio para nos readaptarmos Luisa Camara
De olho no futuro Imagem: Agência Brasil
O ano é 2030… um país começando a se reerguer, uma população aprendendo a não depender de máscaras e álcool em gel, trabalhadores voltando a seus postos e outros aprendendo a ocupar trabalhos que nunca tinham pensado em atuar. Muito ilusório? Algo possível? Pois bem, a nova tendência no presente é pensar o que acontecerá no mercado das profissões em um futuro próximo ou em um futuro mais demorado, na pós crise do novo coronavírus. Segundo especialistas no assunto, a forma como lidaremos com o mercado de trabalho será diferente. Mas para esse futuro nebuloso, temos que nos preparar agora. 12
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Luisa Camara
De olho no futuro
Comprar por comprar já não será rotina entre os brasileiros. Outra tendência para quem se detém a analisar o amanhã é que a sociedade precisará pensar mais no coletivo, no trabalho, na família e no bairro em que reside. A Covid-19 que chegou como uma doença misteriosa em 2020 vai rever valores e mudar hábitos da sociedade em um futuro cheio de incertezas. O vírus mudou a vida de todos e não é uma mudança que se limita ao período de quarentena, ela aparecerá depois, quando isso passar, e a sociedade entender o mundo novo que está por vir. O economista Carlos Alberto Ramos, pesquisador em “recursos humanos”, “desemprego” e “mercado de trabalho” diz que a pandemia está servindo como um barril de pólvora que estava prestes a explodir. Ele analisa que muitas atividades que estavam acontecendo gradativamente e previstas para funcionar “lá na frente” tiveram que ser implantadas em massa à força na sociedade, como por exemplo, o trabalho remoto. Ele alega que mesmo com a retração de mercado, em Brasília, desde março, duas mil empresas fecharam as portas. Em contrapartida mais de oito mil outros empreendimentos abriram, contando com os pedidos de que já estavam em andamento, o que é um número muito significativo considerando a crise.
Impacto Pelo menos 600 mil micro e pequenas empresas fecharam as portas e nove milhões de funcionários foram demitidos em razão dos efeitos econômicos da pandemia do novo coronavírus (Covid-19). É o que mostra levantamento feito pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas empresas) divulgado pela CNN Brasil. Mais da metade (55%) dos micro e pequenos empre14
O que irá nos acontecer...
De olho no futuro
sários terão que pedir empréstimos para manter os negócios funcionando sem gerar demissões. O levantamento foi feito de forma online e ouviu mais de seis mil microempreendedores individuais, micro empresas e empresas de pequeno porte entre os dias 3 e 7 de abril. O governo lançou para ajudar nesse período diversos programas econômicos, para evitar uma crise financeira ainda maior, como exemplo o auxílio emergencial de R$ 600 para MEIs, autônomos e empregados informais. Além do impacto financeiro atual nas empresas, algumas consequências ainda serão desencadeadas. No mercado, já havia empresas que não queriam adotar o trabalho remoto por receio na produtividade de funcionários. Mas agora que é obrigatório, as empresas perceberam que sim, isso é possível e que isso funciona bem, até para reduzir seus custos. Algumas empresas estudam migrar seus trabalhos para o mundo on-line em boa parte de suas atividades na pós crise, segundo os especialistas, como Érika Lisboa. Duas questões precisam ser vistas quando se fala de um cenário de profissões específicas que podem sumir. A primeira hipótese é a de que, quando o confinamento acabar, nada vai mudar. Tudo voltaria a ser como era antes, o que é duvidoso. O outro aspecto é totalmente o extremo, com indícios de que essa é a primeira de muitas pandemias que estão por vir, mas por enquanto é uma fase que precisa de readequação de praticamente todas as profissões. A pandemia atingiu uma escala global e afetou muitas áreas. Esse impacto que foi gerado paralisou as atividades no Distrito Federal, em março deste ano, um choque financeiro e emocional; consequência do agravamento da doença.
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Luisa Camara
De olho no futuro
Quem sai na frente
O que irá nos acontecer...
De olho no futuro
Reação ao desemprego
A especialista em empreendedorismo Érika Lisboa conta que primeiro aconteceu uma fase de choque, depois de adaptação e agora estamos em uma busca de soluções. O momento certo para se readequar, para ela, não existe. A adaptação às novidades do século 21 deveria ter sido feita antes da pandemia. Ela entende que, quando se falava de globalização, ambiente on-line como um plano B, tudo isso ficou emergencial com o momento que estamos passando, o que deixou tardios os planos de ação. “A empresa que está na frente é aquela que consegue prever. Claro que ninguém esperava por algo deste porte, mas a empresa que estava minimamente preparada para atender um mercado, identificar novas oportunidades, frente à essa situação vai sair na frente”. As profissões que exigem nível superior, nível médio ou profissionais que desempenham seu trabalho de forma autônoma, precisam hoje planejar um futuro de total incerteza quanto ao mercado de trabalho. Algumas profissões correm o “sério risco” de serem extintas ou diminuir sua funcionalidade após a pandemia, o que gera um desemprego coletivo e uma quebra brusca na economia. Um fato que pegou a todos de surpresa hoje preocupa governo, especialistas e principalmente patrões e empregados. A instabilidade na qual se vivencia é incerta e começa a afetar gradativamente quem depende do trabalho para tirar seu sustento.
A psicóloga clínica Tânia Fontenelle, especialista na saúde dentro do mercado de trabalho, esclarece que é muito complicado traçar um parâmetro quando se pensa em quanto o desemprego pode afetar o emocional de uma pessoa. “Ninguém esperava esse choque de realidade repentino. Muitos viram o começo da doença como algo distante e a maioria das pessoas não estava preparada para sair de suas funções normais.” Ela ainda explica que uma das principais consequências é a saúde mental desses indivíduos. “É muito aparente que muitas pessoas que estão dentro de casa seguindo a quarentena já começaram a desenvolver sinais de estresse repentino, ansiedade, perda ou excesso de sono e fome; problemas que estão afetando a qualidade de vida de todos e principalmente daqueles que foram dispensados de suas atividades e hoje recorrem a auxílios e empréstimos para sobreviver, enquanto as coisas não melhoram”, esclarece. A especialista Érika Lisboa comenta ainda que, na sua concepção, não há serviços que passaram a ser feitos por computadores, o que há na verdade é uma interação maior por meio de computadores, uma máquina que é facilitadora. Para ela, mesmo após a pandemia e a descoberta mais íntima de empresas com as tecnologias “o mundo 100% digital” ainda continuará sendo uma forma para diminuir custo e ganhar tempo, o que gera um benefício que pode ser mantido e não substituído.
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Enzo Blum
De olho no futuro
Futuro incerto e o sonho da faculdade
Futuro incerto e o sonho da faculdade
De olho no futuro
Estudar, estudar e estudar, em todos os horários, de manhã, de tarde e de noite. Esse é o processo que a maioria dos jovens passa para tentar uma vaga em uma universidade pública e ter um diploma em um curso superior. Todo o processo de concluir a escola, escolher uma profissão, e estudar para
um vestibular; em condições normais já coloca o estudante sob muita pressão. Em uma pandemia, isso ganha novos contornos. Os estudantes estão mudando a rotina de atividades, principalmente os que irão fazer a prova do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem; a maior prova de acesso ao ensino superior no Brasil, que em 2019 teve 6.384.957 de inscritos. Um número de pessoas quase igual da Nicarágua, que tem cerca 6,4 milhões de habitantes. O ano com mais inscritos foi a edição de 2016, em que 8.627.371 pessoas realizaram a avaliação. Durante a apuração para esta reportagem, os estudantes brasileiros em 2020 estavam inseguros sobre a edição do exame por causa da pandemia do coronavírus. Uma dessas estudantes é a Clara Borges, de 20 anos, moradora de Brasília, que estuda para cursar medicina. É a quinta vez que ela vai tentar uma vaga no curso. Antes da pandemia, ela ia para o cursinho todos os dias e ficava lá estudando das 7h às 21h. Agora, esse ritmo tem que ser feito em casa. Mas com a mudança na rotina, para ela, as angústias de estudar para o vestibular vêm em dobro neste momento. “A dúvida, a incerteza e a falta de informação que os estudantes, como eu, sofremos é desgastante e gera outros problemas, como a ansiedade”, explica. As salas de aulas cheias, com um professor à frente anotando as informações no quadro, o contato direto entre professor e aluno teve que se adaptar à nova realidade a distância. Com isso, o foco é outro e a rotina também. A rotina dela agora é acordar entre 5h30 e 6h, momento em que ela tira, para além de tomar café, meditar. Os estudos começam às 7h30, com revisão de matérias. Em toda a parte da manhã ela faz exercícios baseados na aula que assiste pelo computador a partir de 8h50. Na parte da
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Os vestibulandos se adaptam a uma nova realidade de estudos e lidam com as incertezas do momento Enzo Blum
A estudante Yasmim Silva revisando o conteúdo da semana. (Foto: arquivo pessoal)
Enzo Blum
De olho no futuro
tarde, após o almoço, ela retorna aos livros, com história e biologia, que são o foco até o fim da tarde. À noite, ela assiste às aulas on-line de geografia. Por último, é hora da revisão. Clara faz provas antigas do Enem e corrige simulados que fez durante o final de semana. Outra estudante, é Yasmim Silva, de 20 anos, moradora de Rio Grande (RS), cidade a 317,9 km da capital Porto Alegre. Ela tinha começado a fazer um cursinho na cidade com o objetivo de fazer provas para cursar medicina, no qual o vestibular para a universidade federal mais próxima é o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Sua turma só teve uma semana de aula presencial, antes da pandemia e cancelamento das atividades. Para ela, manter a calma é essencial. “Sempre gostei de fazer as coisas sozinha e vou fazer o meu melhor com o que tenho disponível. Ficar nervosa nunca ajudou e não vai ajudar agora”, expõe. Os livros físicos e a convivência com os professores deram lugar aos computadores, celulares e vídeo-aulas para manter a rotina de estudos. A internet se tornou uma ferramenta indispensável na vida desses estudantes. Para Yasmim, o estudo por conta própria se torna mais cansativo. “Não há alternância de métodos de aprendizado”, queixa-se. Para Yasmim, os estudos seguem a linha do que seria passado nas aulas presenciais do cursinho. Ela lembra a importância de ter pausas durante o estudo. “Eu tento não passar de oito horas estudando, pois quando isso acontece, o rendimento diminui de forma significativa”, informa. Ainda mais complicado é para quem está finalizando a escola este ano. A estudante Ana Carolina Lopes, 16 anos, lembra que no início do isolamento social, era difícil manter
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Futuro incerto e o sonho da faculdade
De olho no futuro
a rotina de estudos. “No começo não estudei nada, e quando começaram as aulas a distância, era difícil não ter a escola. Quando você está sozinho com todas as distrações que tem em casa, dificulta muito”, explica. As dúvidas comuns deste momento, como a escolha do curso, se tornam ainda mais presentes quando não se sabe quando as aulas presenciais vão retornar e quando a prova do Enem será realizada. “Desde o 1º ano do Ensino Médio eu tinha certeza que queria fazer engenharia, mas ainda não sei no que eu quero me especializar”. Ela ainda reforça o impacto da pandemia neste processo. “O Enem não tendo uma data me deixa mais apreensiva”.
Planejamento Marine Souza, professora da rede particular de ensino, explica que, além de um ambiente que evite distrações, o planejamento é muito importante para que o aluno mantenha o foco. “Ter um planejamento por dia, com conteúdos durante a semana, no sábado, fazer somente exercícios e no domingo descansar”, explica. Além disso, ela reforça que o planejamento seja tangível. “Não adianta colocar 10 capítulos do livro para estudar em um dia porque isso não vai acontecer. Tem que ser algo que o aluno possa vencer”, expõe. A pedagoga Tania Payne, além de ressaltar a importância do planejamento, lembra o papel da família neste momento delicado. “A atitude deles, neste momento, deve ser de aliança. Sem a parceria das famílias fica muito difícil. Os pais precisam ser um pouco mais exigentes em relação a organização do filho”, reforça.
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Enzo Blum
De olho no futuro
Expectativas
Ainda não se sabe quando e como tudo irá se normalizar, sem dúvida, algumas coisas jamais serão as mesmas. Para Yasmim Silva, a forma de estudar mudou e a própria prova do Enem deve mudar. “Nesse cenário, o que dá pra fazer é torcer para que as medidas de precaução sejam levadas a sério pelos responsáveis pela organização dos locais de prova”, comenta. Ana Carolina Lopes diz o quanto mudou a expectativa para este ano desde janeiro. “Eu pretendia entrar no meio do ano na faculdade, terminar o ensino médio mais cedo, mas agora eu não sei”. Mas ao mesmo tempo ainda tem esperança de que tudo se ajeite. “Vai dar tudo certo no final, vai dar tempo mesmo que seja bem corrido”. Ela, como os outros vestibulandos, têm esperança de ter o frio na barriga de ir para um exame de acesso ao ensino superior.
Foco no tempero
De olho no futuro
Foco no tempero
Conheça a história da família que precisou deixar as fotografias dos eventos para vender ervas, sementes e outras especiarias Amanda Meirelis
Ilustração: Amanda Meirelis
O quintal ganhou um galpão. Dentro das quatro paredes estão mais de 1000 itens de decoração, entre bandejas, porcelanas e maquetes de bolos estão também as lentes das máquinas fotográficas. Cada um deles testemunhou histórias de casamento, aniversário, uniões e outros tantos sonhos. Mais do que isso, são os objetos que alavancaram a alegria de uma família. Por aquelas lentes, eles construíram um lar, 22
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Amanda Meirelis
De olho no futuro
puderam investir em suas filhas; o investimento de anos, cerca de R$ 72 mil investidos em peças e equipamentos fotográficos. ‘’Quando do dia para noite vi minha loja tendo que fechar as portas, por conta da pandemia, foi desesperador.’’ A empresária. Patricia Lima 37 anos, brasiliense, casada, mãe de três meninas foi mais uma microempreendedora atingida financeiramente pela Covid-19. “A fotografia e locação de artigos de festa era a única renda que tínhamos. O mercado não era o mesmo há alguns anos, mas era o que nos mantinha’’ explica Patrícia. Ela e o marido Márcio Assunção, tocantinense de 35 anos, também fotógrafo, lutavam diariamente para pagar o aluguel da loja em que mantinham o estúdio de fotografia e a exposição de artigo de festas. Sempre fui motivada a empreender, desde muito nova, seja vendendo roupas para bazar ou bala na escola’’. Formada em fotografia e apaixonada pela arte de registrar momentos, trabalhou em grandes empresas, mesmo próxima a ser promovida ao cargo que tanto desejava em 2007. “A necessidade de empreender não se calava dentro de mim’’. Isso levou Patrícia Lima a ingressar formalmente no empreendedorismo há 13 anos, em busca de renovação e novos horizontes. “Uni forças com meu marido e resolvi tirar o sonho do papel, noites em claro em busca de como crescer profissionalmente e, sobretudo, aumentar a renda familiar.” Assim Patrícia abriu a empresa de fotografia junto ao marido Márcio Grangeiro. No início, era uma empreitada com muitos obstáculos. “Trabalhávamos na sala de jantar da nossa casa, em meio aos brinquedos da nossa filha (Ana Carolina, de cinco anos, na época) ficavam os equipamentos.” 24
Foco no tempero
De olho no futuro
Para eles, diante das dificuldades, era mágico poder registrar casamentos e comemorações, registrarem emoções e momentos tão importantes para os clientes. Era isso que motivava o casal. Os anos se passaram e alugaram uma loja para transformar em escritório e estúdio. “Em 2010 foi um ano de virada. O estúdio virou realidade. Crescemos a demanda, aumentamos os trabalhos e trabalhamos sem cessar. Cobrimos mais de seis eventos por final de semana. Era o sonho do próprio negócio.” Com todo o sucesso e progressão do empreendimento, Patrícia que sempre teve gosto pelos eventos que cobriu, iniciou com o aluguel de itens de decoração para essas festas, o que impulsionou a família financeiramente.
Um novo retrato Após o decreto do dia 19 de março de 2020, a rotina mudou. “Tinham contratos assinados para o dia seguinte, locação de peças, entrega de produtos, além do evento a ser coberto no final de semana’’, recorda a empreendedora. As contas continuavam a chegar e a melhor decisão foi desocupar o local que alugavam em Ceilândia. “Fui praticamente obrigada a entregar a loja, não teria condições de pagar o aluguel de portas fechadas.” Tudo apontava para o esgotamento financeiro, pois a pequena reserva não duraria muito e as informações da expansão do vírus só aumentavam. “Ver as notícias de que o coronavírus estava fechando vários comércios, minhas filhas em casa, me levavam a pensar que as nossas economias não dariam pra muito’’, lamenta Patrícia. A família se uniu e decidiram não desistir. “Vimos que era um momento difícil e fomos camaleões. Nos adaptamos ao ambiente”, considera Patrícia Lima. Foi então que surgiu 25
Amanda Meirelis
De olho no futuro
a “Granjeiro Temperos”, um pequeno negócio familiar que surgiu em meio a dificuldade financeira. Eles disponibilizaram os produtos na internet em meio às incertezas. “Liguei para uma amiga e contei que estava preocupada e que precisava pensar em algo que resolvesse temporariamente meu problema”, relata Patrícia com ar de alívio. A partir dessa ligação, teve esperança para ir em busca da solução. A escolha por temperos partiu de Márcio, já que era um produto de fácil acesso e com bom custo além de que poderiam começar a trabalhar imediatamente. Era uma terçafeira do início de abril. Patrícia e Márcio foram em busca de fornecedores de temperos e especiarias para abastecer o desejo de continuar empreendendo. O local escolhido foi a Feira do Produtor, no P Norte, Ceilândia. Escolheram um fornecedor no atacado, onde compram as mais os mais de 50 itens, entre eles especiarias, grãos e até chás. “Começaram comprando pacotes com 1 quilo e agora compram fardos fechados (de 10 quilos)’’, celebra o dono da loja, o“Neguinho da Pimenta”, atacadista fornecedor do casal empreendedor. Após o início da empreitada muitos obstáculos foram vencidos. “Muita coisa mudou. O que era há dois meses apenas uma solução para pagarmos a conta, hoje é o nosso novo CNPJ’’, alegra-se Patrícia. A clientela foi conquistada on-line durante o período de isolamento. Tudo começou no próprio whatsapp e com familiares que por boa vontade divulgavam a novidade. “As coisas tomaram forma e nosso plano cresceu, temos mais de 30 pedidos diariamente’’, relata Márcio Assunção marido de Patrícia e quem faz as entregas, além das entregas o casal estabeleceu um calendário semanal que possibilita que mais pessoas tenham acesso aos produtos. De segunda a sábado, 26
Foco no tempero
De olho no futuro
escolhem uma cidade satélite do DF, incluindo Brasília, para estarem com os produtos a pronta entrega. Os dias tomaram forma. As incertezas transformaramse em trabalho duro. ‘’Em março, quando tudo começou, eu tinha receio do que poderia acontecer até o fim do dia, agora eu tenho confiança que ao final do dia terei pedidos para os dias seguintes’’, diz Patrícia. Dias cheios levaram o medo das contas não serem pagas, pedidos chegando diariamente respondem as perguntas incertas sobre o futuro. ‘’As contas estão em dia. O dinheiro que lucramos com os temperos tem sido o suficiente e até mais. Estamos investindo para melhorar ainda mais o nosso trabalho’’. A microempreendedora tem revertido os lucros em novos produtos, melhores embalagens, assim evoluindo o que era apenas um jeito de sobreviver em um micro empreendimento rentável. “Sei que trabalho teremos, não só com os temperos, mas também com a fotografia e com o aluguel de peças.’’ A mulher que sempre lutou por melhora da renda familiar acredita que ao fim da pandemia da Covid-19 retornará a exercer sua principal profissão. ‘’Não acredito que será minha principal renda, mas jamais me recusarei a registrar o amor de duas pessoas em um casamento, assim como o aluguel de peças continuará paralelo à venda dos temperos e especiarias’’. A reinvenção é algo presente durante a pandemia e será necessária para sobreviver ao fim da quarentena. A família e empresa de Patricia Lima adaptaram-se assim como muitas outras famílias em meio às dificuldades que o isolamento social trouxe. “O futuro é incerto em diversos âmbitos, mas podemos buscar e lutar por melhorias’’, afirma a mulher que reinventou a vida da família.
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Rodrigo Abdalla
De olho no futuro
Jornaleiros em risco
Em bancas tradicionais do Plano Piloto, comerciantes ficam expostos à contaminação e jornais apresentam futuro incerto Rodrigo Abdalla
Pedro Barcelo permanece em atividade na banca da 105 Norte durante a pandemia. (Foto: Rodrigo Abdalla)
As portas estão abertas. Nas estantes e penduradas do lado de fora, as notícias dos jornais e revistas que Pedro Barcelo vende trazem um cenário singular. Ele, aos 74 anos de idade, não deveria estar ali. A pandemia causada pelo novo coronavírus frequentou manchetes e alterou rotinas ao redor do mundo. Barcelo, porém, mantém as atividades mesmo identificado como grupo de risco. “Não penso muito nisso não. Se você começar a pensar muito nisso, você acaba arranjando um problema pra sua mente”, afirma. 28
Jornaleiros em risco
De olho no futuro
Há dez anos, Barcelo é presença garantida todos os dias na quadra residencial 105, no bairro da Asa Norte. Habitualmente, às 5h30, ele sai a pé do apartamento na quadra vizinha em direção à banca de jornais para receber os clientes com café passado. O estabelecimento de paredes amarelas e teto de zinco possui aproximadamente um metro e meio de largura por dois metros de comprimento, divididos internamente em dois espaços repletos de mercadorias. À direita: revistas, café e balinhas. À esquerda: refrigerante, salgadinhos, palavras cruzadas e gibis. Os jornais ficam em frente à porta em uma pequena área externa coberta, que dispõe de duas mesas e cadeiras fixas. Próximo à calçada, moradores da região e conhecidos do proprietário param para tomar um sorvete, beber uma água e eventualmente comprar um exemplar impresso. O jornaleiro está no ramo há 33 anos, quando veio de Campo Grande (MS) para Brasília após pedir baixa no Exército como soldado. Aposentado pelo INSS, Barcelo tem dois filhos e não pode abrir mão do dinheiro arrecadado na banca de jornal. Como o auxílio emergencial não era uma opção viável, o jornaleiro reabriu a banca depois de duas semanas isolado. “Eu preciso da renda. Eu tenho gente que ainda depende de mim, não posso morrer amanhã.” O comerciante avalia que não há grandes riscos de morrer por ação do novo coronavírus. Para ele, a imprensa incita o temor coletivo em relação à doença. “Todos veículos de comunicação são tendenciosos. Não sei o que está havendo, eu acredito que é um movimento contra o governo. Talvez pelo fato de ser um governo militar”, comenta. O jornaleiro inclusive parou de ler as notícias ultimamente.
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Rodrigo Abdalla
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Em relação às medidas de combate ao vírus, Barcelo acredita que muitas afirmações foram feitas sem comprovação, o que provocou uma confusão ainda maior. “Fala uma coisa, amanhã já não é mais, é o contrário. A própria OMS tá pedindo desculpas.” Ainda assim, a máscara, o álcool em gel e a distância mínima de um metro são respeitados no estabelecimento. No cenário geral, antes da pandemia, Pedro Barcelo já percebia mudanças no consumo de notícias. Ele afirma que a faixa etária de quem compra compra jornal é acima de 40 anos, com raras exceções. Para o jornaleiro, no futuro restarão poucas bancas especializadas em revistas e jornais. “Antigamente, cada quadra tinha uma banca de jornal. Hoje tem banca que vende flor. Se não fizer uma miscigenação, você não consegue sobreviver”, analisa. Logo após a entrada da banca, entre as balinhas e a garrafa térmica de café do balcão, Barcelo comenta as transformações na própria banca. “Hoje eu vendo mais alimentos. No passado, não tinha esses atrativos, era só jornal e revista. A tendência é virar uma loja de conveniência.” Um estabelecimento que certamente pode atestar as mudanças no tempo é a Banca Cultural da 108 Sul, localizada no bairro Asa Sul. Pioneira no setor, a banca tem características semelhantes às de Pedro Barcelo. Paredes amarelas, ambiente interno dividido em dois, repleto de jornais, revistas e produtos alimentícios. O proprietário da banca é mais um que está no grupo de risco da pandemia e permanece em atividade. “Eu trabalhei pra caramba hoje, foi um dia maravilhoso”, afirma Lourivaldo Marques, 82 anos. O jornaleiro afirma ser o primeiro do ramo em Brasília, com a banca inaugurada em 1960 durante a construção da capital. Nascido em Irecê, Bahia, Lourivaldo abriu uma banca de madeira na quadra comercial logo quando chegou à Brasília, 30
Jornaleiros em risco
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depois de passar a adolescência em São Paulo. Vendia-se laranjas, jornais e até terra do cerrado engarrafada para os turistas. Um ano depois, em 1961, a banca assumiu uma construção de ferro definitiva na quadra residencial, onde se encontra até hoje. Naquela época, os jornais chegavam do Rio de Janeiro no início da tarde. Lourivaldo recorda as filasque se formavam para ler as notícias enquanto ia ao aeroporto.
Desde 1960, Lourivaldo se adapta às tendências para manter a banca de jornal em funcionamento. (Foto: Rodrigo Abdalla)
A última grande reforma foi nos anos 80, que ampliou a estrutura aos quarenta e nove metros quadrados atuais. Devido à expansão, o estabelecimento ficou ainda mais próximo aos pés de ficus italiano plantados pelo próprio jornaleiro em 1963. Os troncos largos moldados ao longo do tempo em uma espécie de portal são admirados por quem passa por ali. Para Lourivaldo, as antigas companheiras representam muito mais que sombra e proteção do vento. Ele 31
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garante que, ao atravessar o portal, as energias são renovadas e desejos podem se concretizar. Apesar da semelhança em produtos com outras bancas, Lourivaldo sempre busca inovações para atrair clientes. A primeira promoção do jornaleiro que fez sucesso foi em 1965, que consistia em um jornal de brinde na compra de qualquer livro. Outras se sucederam, como a roleta da sorte, um trago de vinho na compra de livros e gincanas para crianças. A última iniciativa é uma revista em inglês de graça pelo simples ato de entrar na banca, uma tentativa de incentivar o aprendizado em outra língua segundo Lourivaldo. No dia em questão, uma revista automobilística de 2016 sem capa. Assim como as promoções, os serviços e produtos da loja se renovam com o tempo. Lan house, xerox e locação de DvDs foram incorporados. Bombons, gibis, álbuns de figurinhas, chaveiros, fones, carregadores, materiais de papelaria dividem o espaço com jornais e revistas. Nos dias de futebol, Lourivaldo aproveita o espaço externo com cadeiras para colocar a televisão e vender uma cervejinha ou água de coco. Na pandemia as vendas naturalmente diminuíram, porém Lourivaldo destaca outro aspecto durante o isolamento. “Tá vendendo menos. Mas você acredita que as pessoas veem a gente trabalhando com tanta disposição que eles nem querem troco? Comigo isso está acontecendo direto”. “Seu” Lourival, como é mais conhecido, compreende o estado de alerta da população, mas não deixa de comparecer ao trabalho. “Eu vejo como um risco o que está acontecendo. Mas Deus, ao meu lado, me dá a força de enfrentar a minha profissão”, afirma convicto. A máscara, o álcool em gel e a instrução de apenas uma pessoa por vez no espaço interno se unem à fé no combate ao novo coronavírus. O jornaleiro até já decretou uma 32
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data limite para o fim da pandemia. “Eu fiz uma previsão que 27 de agosto o corona vai embora. E eu, com fé, vou vencer.” Ao longo da vida, a renda da banca de jornal ajudou Lourivaldo criar os nove filhos. Hoje, todos adultos e trabalhando em outras áreas, o dinheiro não é o principal motivo para ele sair de casa. “Eu tenho o que comer 90, 120, 150 dias. Eu abro porque eu sei o valor e a utilidade que tem a comunicação. Há desencontros de interesses políticos, mas isso é passageiro”, comenta o jornaleiro.
Crise na mídia impressa A pandemia escancarou fragilidades em diversas áreas. Na comunicação não é diferente, e os problemas que a mídia impressa já enfrentava ficaram mais evidentes. A queda de receita em diversas áreas do setor é reflexo das mudanças no modo como a sociedade acessa informação. Na ponta da cadeia produtiva, os jornaleiros sentem os efeitos. A circulação de jornais impressos, por exemplo, diminuiu rapidamente nos últimos cinco anos. Nesse intervalo, os periódicos da imprensa tradicional O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo reduziram as tiragens médias diárias pela metade. Os dados são do Instituto Verificador de Comunicação (IVC) e foram divulgados pelo blog de notícias Poder360. Em dezembro de 2014, a média diária de exemplares impressos pelos três veículos em conjunto foi um pouco acima de 580 mil. No mesmo período de 2019, foram aproximadamente 280 mil cópias. Por outro lado, nos mesmos cinco anos, as assinaturas digitais desses jornais aumentaram em média cerca de 70%. O Correio Braziliense, jornal tradicional em Brasília, é outro veículo que obteve um crescimento significativo de assinantes 33
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da versão digital. O jornal saiu de menos de dez mil assinantes em 2014 para cerca de vinte e sete mil cadastrados na plataforma ao final do ano passado. Este movimento em direção ao consumo remoto e digital não favorece as bancas. Para piorar a situação, a pandemia obrigou as pessoas a se isolarem em casa. Para o comércio de rua, o efeito da crise fica ainda mais devastador sem o tráfego de pedestres. A jornaleira Jussara Cristina Lobo, 39 anos, testemunha que os clientes muitas vezes decidem comprar algo só quando passam em frente ao estabelecimento, atraídos pelas manchetes e guloseimas. “O ponto da banca é chamar o consumidor pela notícia, é prático. Ele passa, vê a manchete e compra”. Com a queda geral no faturamento, os jornais e as palavras cruzadas são os itens mais vendidos no momento. Jussara é dona da Banca S.Camilo de Lélis, um pequeno comércio no caminho de quem passa pelas entrequadras na altura da 407 Norte. O primeiro item na entrada frontal da banca pintada de azul é um freezer de picolés, protegido do sol por uma extensão de zinco. Nos dias habituais, algumas cadeiras ficam posicionadas junto à porta lateral voltada para a rua mais movimentada. Na divisão do espaço interno e externo, os jornais ficam pendurados nas grades de proteção abertas e as revistas são dispostas em um suporte ao lado. O interior é abastecido com produtos alimentícios, como balas, chocolates, salgadinhos, refrigerantes, além de revistas de passatempos. Antes do surto de Covid-19, as revistas detinham o maior número de vendas da banca. A redução pode ser explicada em parte pela impossibilidade de frequentar o estabelecimento, o que afeta mais as vendas de revistas. O freguês costuma experimentar outros títulos após folhear alguns 34
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exemplares. Além do decréscimo natural por falta de movimento, a secção esteve desfalcada devido à paralisação das distribuidoras em razão do decreto que suspendeu temporariamente as atividades. Algumas revistas não devem voltar a circular até julho pelo menos. Em abril deste ano, a Editora Globo anunciou a suspensão das edições impressas de seis revistas, entre elas a Casa & Jardim e Pequenas Empresas & Grandes Negócios. Segundo o grupo, é uma medida de combate ao novo coronavírus, porém outros títulos como Época e Casa Vogue seguem com a periodicidade em papel. Antes mesmo da pandemia, a recessão dos últimos anos já havia forçado a descontinuação de títulos conhecidos do público geral. Em 2018, o Grupo Abril pediu recuperação judicial e declarou o fechamento de títulos como Cosmopolitan, Boa Forma e Casa Cláudia. Após 40 anos no mercado, a Playboy também foi retirada das prateleiras das bancas. A Editora Escala encerrou cinco títulos no mesmo ano, entre eles a revista de celebridades Tititi. Outras como Guia do Estudante e Rolling Stones pararam de circular na versão impressa e estão disponíveis apenas em formato digital. O caso das revistas parece ser mais grave, visto que até as assinaturas digitais encolheram ano passado. A circulação total de exemplares físicos e virtuais das revistas Veja e Época caiu pela metade em comparação com 2018. Em números absolutos, é uma redução de 600 mil exemplares das duas revistas em um período de um ano. Os dados do Instituto Verificador de Comunicação (IVC) apontam que a Época foi a mais afetada, com queda nas assinaturas acima de 60% tanto na versão impressa quanto na digital. A Veja teve uma queda menos abrupta, com retração de 47% na edição impressa e 35
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17% nas assinaturas. As informações foram retiradas do blog de notícias Poder360. A crise no mercado impresso obrigou a diversificação de produtos tanto nas redações quanto nas bancas. A segmentação e bens de primeira necessidade são as apostas dos comerciantes para se adaptarem à nova realidade. Com o faturamento caindo desde 2014, crescem o estoque de produtos básicos para a vizinhança e a oferta de itens especializados para cativar públicos específicos, normalmente aliado a atividades.
O lado social das bancas As inovações implementadas nas bancas são diversas, a depender do proprietário e das demandas da comunidade que o cerca. A Banca do Brito, na 106 Norte, é um exemplo de estabelecimento que conseguiu explorar um nicho. O local é conhecido na cidade pela troca e venda de figurinhas, atividade que ocupa a quadra toda em época de Copa do Mundo. José Brito, 57 anos, explica que a febre por figurinhas teve origem na Copa do Mundo de 1994. Na época, Brito lançou uma promoção em que o primeiro cliente a completar o álbum ganhava outro preenchido. A partir de então, a procura aumentou e seguidas reportagens consolidaram o lugar como referência no assunto. “Não preciso nem mais falar que vai ter promoção. Vem gente de todas as áreas para trocar. E não é só de futebol”, garante o comerciante. De fato, as temáticas são diversas. As figurinhas de FortNite, Champions League, NBA e futebol americano eram as mais requisitadas no início do ano. Antes da pandemia, os colecionadores se reuniam aos sábados na mesa da área externa para negociar os cromos. O movimento costumava alavancar as vendas do produto. “O álbum do Flamengo arrebentou. Para 36
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convencer alguém a trocar a do Zico, a pessoa tinha que oferecer muito, inclusive pacote fechado”, menciona o jornaleiro. Hoje a Banca do Brito não recebe mais ninguém no ambiente interior. A grande maioria do estoque fica afastada do olhar do público por uma porta entreaberta, salvo raros produtos dispostos nas grades de proteção. Brito se senta-se à única mesa de plástico acompanhado de um arsenal de álcool para matar o vírus. O entorno do estabelecimento, diferente do cenário de Copa do Mundo, é calmo e vazio. As mesas e as cadeiras estão recolhidas dentro da estrutura branca de ferro da banca, e o toldo lateral permanece encolhido. No ramo há 35 anos, Brito começou a trabalhar neste mesmo ponto quando o irmão o adquiriu em 1982. Diariamente aberto das 7h às 20h, às vezes até mais tarde, a relação com a quadra extrapola o caráter comercial. Em 20 minutos de entrevista, o jornaleiro conversou
Durante a pandemia, Brito interditou o espaço interno e abasteceu o comércio com produtos de higienização. (Foto: Rodrigo Abdalla) 37
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amenidades com todos os clientes que se aproximaram do estabelecimento. “A vizinhança é gente boa. Meu dia aqui é sempre movimentado, não dá pra cochilar não”, relata. — Oi Brito, como tão as coisas esses dias? — To bem, graças a Deus! To com saúde, o resto vai se ajeitando.
O isolamento social afastou os clientes, especialmente os mais velhos. “O movimento diminuiu. Não posso mais armar a mesinha para tomar água de coco e bater papo”, registra Brito. Para compensar, ele organizou um sistema de entrega a domicílio, pelo qual vende principalmente água mineral, refrigerante e sorvete. O comerciante administra a banca com a ajuda de um funcionário temporário, responsável principalmente pelas entregas. Quem o ajuda regularmente está afastado por suspeita de Covid-19. — Fala xará, vai querer aquela cervejinha? Como estão os negócios? — Vou sim! Ah, vou te falar viu Brito, tá uma…
O perigo de exposição durante a atividade não é o motivo de maior preocupação para Brito. A prevenção com máscara, higienização e ambiente interno interditado são suficientes em sua análise. A dúvida se deveria realmente abrir era em relação à fiscalização. “Meu medo mesmo era o DF Legal. Na banca da 111 Norte, da minha amiga Fabiana, chegaram chutando mesa e mandando fechar. Depois de um tempo deu uma esfriada”, comenta. — Opa, tem jornal velho aí Brito? Meu cachorro tá com diarréia. — Vixe…Tem esse aqui que não vale nada mesmo.
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esposa, proporciona a formação acadêmica de nível superior para os três filhos do casal. Segundo o jornaleiro, além da publicidade gerada pelas figurinhas, o segredo para conquistar a freguesia é apostar na diversidade de produtos e estar sempre aberto. “Depois que a pessoa acha uma banca fechada, não volta mais”, alerta. — Fala Brito! Tem o jornal de hoje? — Claro. Tava sumido, o que aconteceu? — Cara, tive que passar por uma cirurgia. Três furos para tirar a danada da pedra na vesícula. Vou voltar logo porque tive que driblar a mulher para vir aqui. — Puts, deve doer pra caramba isso aí. Melhoras!
A clientela da Banca do Brito ultrapassa a quadra residencial em que se encontra. Seja pelos cromos ou produtos importados, os clientes do jornaleiro vão ao estabelecimento com a certeza de encontrá-lo. É o caso do professor universitário de pseudônimo Carlos, 56 anos, que preferiu não ser identificado porque trabalha em uma instituição federal. “Antes da pandemia, eventualmente eu esquecia de pegar o jornal de manhã e chegava tarde da faculdade. Muitas vezes a única banca aberta era a do Brito, que ainda tava jogando dominó com os amigos”, relata. Morador de outra quadra nas redondezas, Carlos frequenta o estabelecimento diariamente há 10 anos. A preferência pela Banca do Brito não foi pela proximidade nem pelos preços. “É além do comercial. Você fala da vida particular, de política, conta piada. O Brito faz parte do espaço vivido pelas pessoas daqui”, avalia.
José Brito mora perto do trabalho, na quadra comercial da 105 Norte. A renda oriunda da banca, somada a da 38
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Arte para a alma
Musicoterapia: arte e ciência de potencial curativo
Arte para a alma
Musicoterapia: arte e ciência de potencial curativo Profissionais da área compartilham experiências com pacientes e adaptações na rotina devido à pandemia
Alexandra Carolina
Arte para a alma Ilustração: Lucas Lino
Era a primeira sessão e o primeiro paciente, um menino de 6 anos. A mãe dele a encontraria para contar um pouco sobre o filho que, além de amar música, tinha preferência por violão. Antes da tão esperada sessão, ela se preparou e fez pesquisas para conseguir ter um bom desempenho. “Foi completamente diferente do que eu pensava. Durou 40
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uma hora, eu correndo atrás dele e ele correndo de mim.” Os três primeiros atendimentos não foram o que imaginava, mas depois daquele dia, encarou o autismo como um desafio pessoal. Estava convicta de que se aprofundaria no tema. Sabia que algo especial estava por trás de tudo isso. “Quando conversei com a minha psicóloga, ela disse que ao invés de já sair tocando violão, por que não tentar conhecê-lo, sentar no chão e brincar com ele?” As dinâmicas começaram com brincadeiras de cantar. Em seguida, com um “carrinho” que estava por perto. Depois ele pediu o violão e tocou à sua maneira. O processo foi lento, durante esse tempo em conjunto, as improvisações através da música, se tornaram mais frequentes e as interações também, de pergunta e resposta. “Foi assim que a gente fortaleceu o nosso vínculo. Antes de qualquer técnica, existe um ser humano”, diz a musicoterapeuta Ana Carolina Steinkopf, de 29 anos. Enquanto lembra desse paciente, recorda também os caminhos que a conduziram na profissão. Isso, há 10 anos, quando percebeu que havia chegado a hora de se despedir da mãe e encarar a independência. Ela já tinha estudado violino na EMB (Escola de Música de Brasília), sabia que não queria ser professora de música, mas tinha a certeza que, de alguma forma, escolheria os sons como percurso de trabalho. Até que finalmente o momento chegou e fez a escolha. Ana arrumou as malas e partiu para Goiânia para começar sua graduação em musicoterapia na UFG (Universidade Federal de Goiás). “É uma cidade maravilhosa, me apaixonei pelo modão (música sertaneja de raiz)”. Ao chegar lá, se instalou na Casa do Estudante. Para ela, ter de sair de casa foi uma decisão difícil. 42
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A rotina era bem puxada. Ana não estudava só música. No curso, teve estudos voltados para psicologia, anatomia, neuroanatomia, psicopatologia e patologias em geral. Quando morava em Brasília, a rotina eram os estudos e o conforto de casa. Na UFG, acabava a aula e estudava por horas na biblioteca. “O mais gratificante e desafiador dessa jornada foi ter a certeza de que eu queria ser musicoterapeuta e viver disso”. Atualmente, Ana mora em Brasília. Para ela e pacientes, era melhor quando se viam e um corria atrás do outro. Agora, o computador exige um novo tom na terapia com música. No início, diz que ficou um pouco perdida. “Se é isso que temos, bora lá e vamos testar”. Ela participa de um grupo chamado Sinfonia, e toda quarta-feira realizam ensaios on-line. Encara o atendimento virtual como um desafio. Quando era atendimento presencial, a sessão durava em torno de 50 minutos, já, desse formato a distância, é preciso ser mais eficiente para conseguir um bom rendimento em 25 minutos (tempo de atenção da maioria dos pacientes que atende). Para a psicóloga, especialista em neuropsicologia Ananda Carneiro, a musicoterapia é um recurso terapêutico que auxilia na aquisição de atividade motoras, dos sentimentos, da personalidade e de outras funções que beneficiam a memória. “A musicoterapia oferece o equilíbrio entre o estado fisiológico e emocional do ser humano. Estabelece uma sincronia entre eles.”
Outra história... Pedro Bicaco, de 32 anos, especialista em musicoterapia pelo Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro desde 2017, comenta que não há uma fórmula ou música es43
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Ele reitera que cada pessoa é única, então tudo é diferente, ou seja, a forma como interage com o terapeuta, com outras pessoas, com o ambiente, como responde aos estímulos sonoro-musicais e sua sensibilidade. “No setting terapêutico se observa o indivíduo e não seu diagnóstico. Então, o que será utilizado, a forma que será utilizada, vai variar com cada paciente e o direcionamento prático e teórico de cada terapeuta”. Pedro acredita que a musicoterapia pode ser benéfica para qualquer pessoa e possui poucas contraindicações, alguém que apresente amusia (disfunção relacionada ao processamento musical), poderia se enquadrar no caso.
O processo de atendimento de musicoterapia é parecido com outras terapias, tem a anamnese (diálogo com o paciente) e avaliação, para traçar os primeiros objetivos e o plano terapêutico. As sessões são feitas periodicamente, mas varia, a depender do paciente. Depois, ocorre uma reavaliação para ver se os objetivos foram alcançados. Se estiverem no caminho certo, podem dar continuidade ao plano terapêutico. Caso contrário, é necessário refazê-lo. “O funcionamento das sessões vai depender do local (no consultório ou em domicílio), assim como da escolha de instrumentos, que podem ser musicais ou não, como bambolê, bola e o que tiver à disposição. O mesmo se dá para as músicas escolhidas, podemos utilizar músicas já existentes (recriação) e improvisar uma música no momento da sessão, compor, ou o paciente pode receber estímulos como na vibro acústica (administração de frequências vibratórias ao corpo do paciente, enquanto ele ouve música)”, explica Pedro Bicaco. As melhorias podem ser das mais variadas, seja na comunicação e percepção do outro ou no desenvolvimento motor, além de trabalhar a ressignificação de acontecimentos do passado e o fortalecimento da subjetividade. No fim de 2016, Pedro acompanhou um paciente durante seis meses em uma sessão semanal em grupo, esse mesmo paciente trazia consigo um sentimento de tristeza e histórias de violência. Durante a sessão, ele pediu para que tocassem a música “Azul” de Djavan: “Um, dois, três...Eu não sei se vem de Deus...Do céu ficar azul...Ou virá dos olhos teus...Essa cor que azuleja o dia…”. Enquanto a música tocava, ele começou a chorar, e as pessoas que estavam em volta também. Ao fim da sessão comentou, já com um aspecto mais leve, que não era mais necessário tocar aquela música. “Através da música aces-
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pecífica para cada paciente. “Ao escolher as músicas que serão usadas é necessário conhecer o histórico sonoro-musical do indivíduo e entender o contexto social em que ele está inserido, além dos objetivos terapêuticos traçados. Sempre levando em consideração o ISo (Identidade Sonora) de cada um”.
Pedro Bicaco tocando violão (Foto: Arquivo pessoal)
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samos sentimentos que o auxiliaram a resolver questões que estavam interferindo negativamente a sua vida”, esclarece. O musicoterapeuta recorda de mais uma experiência positiva que teve com outro paciente. “Muito pouca interação social, vocabulário limitado, não tocava instrumentos com intenção e com muitos gritos quando contrariado”. No desenvolvimento das sessões, passou a pedir para que tocassem o violão e mantinha a atenção durante a música. “Agora toca tambor, triângulo, chocalho e até violão sozinho ou me acompanhando. Aprendeu a dizer o “não” e “não quero”, que gradativamente foram substituindo os gritos, melhorando o autocontrole e a aceitação de frustrações.” Pedro trabalha no Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB), unidade pública de saúde. Em relação ao atendimento do paciente, é necessário apresentar encaminhamento médico, psicológico ou de outros profissionais da equipe de reabilitação. As sessões são individuais ou em grupo e duram 30 minutos. O ambulatório e a unidade de internação são os locais utilizados para atendimento. Com a pandemia, diretrizes de quarentena e necessidade de isolamento social, os atendimentos presenciais foram suspensos. “Continuo em contato on-line com os pacientes para saber como andam suas rotinas, com propostas de atividades ou envio vídeos para tentar auxiliá-los nesse momento”. Apesar de adaptações em relação à rotina de milhares de pessoas devido ao novo cenário, Pedro Bicaco considera não só a música, como as artes em geral de extrema importância como auxiliares durante a pandemia. “Estamos vivendo um momento de muitas incertezas, aumento da ansiedade, estresse e saudade. A música com um significado pode nos acolher, lembrar de momentos com amigos, lugares, situações da vida. 46
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Tem também a música funcional que nos ajuda a fazer exercícios, manter uma rotina”. Além disso, evidencia as potencialidades na música, capaz de transformação social e pessoal. “Penso sempre no fortalecimento da subjetividade de cada um quando estou atuando como musicoterapeuta e acho que ela tem um poder incrível nesse aspecto. A música sempre foi utilizada pela humanidade, em rituais religiosos, na cura, festividades, contemplação. Caminha lado a lado com a nossa história.” O escritor Ernst Fischer, autor de “A necessidade da arte”, escreveu que “A arte capacita o homem para compreender a realidade e o ajuda não só a suportá-la, como a transformá-la, aumentando-lhe a determinação de torná-la mais humana e mais hospitaleira para a humanidade”. Durante a pandemia, a música pode, conforme explicam os especialistas, além de entreter, tratar. Além de emocionar, curar. Todos nós precisaremos de mais versos e um lugar hospitaleiro para viver.
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Naquelas mesas
Entre ritmos refeitos, músicos, alunos e frequentadores do Clube do Choro de Brasília e da Escola de Choro Raphael Rabello não veem a hora de retomar o compasso Malu Alencastro
Musicistas reunidos em frente ao Café Musical (Foto: Malu Alencastro)
Meuuuuu coraçãaaaooooooo não sei porquê… bate feliz, quando te vêeeeeeeeee… E os meus olhos ficam sorrindo e pelas ruas vãoooo te seguindo… Mas mesmo assimmmm……. Aplausos... Naquela mesa está faltando eleeeee… e a saudade dele está doendo mim. E como! Pandeiros, bandolins, violões, cavaquinhos, flautas e vozes ecoando ao som de Carinhoso, Naquela Mesa, entre outros clássicos do chorinho, faziam parte da vida de quem se reunia diariamente em frente à lanchonete entre os intervalos das aulas. Mas, e agora? As ruas de Pixinguinha ficaram vazias. O coração em isolamento social. E a mesa de Nelson 48
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Gonçalves, então… está doendo em todos aqueles que não frequentam mais o Clube do Choro, casa de espetáculo fundada em 1977, que possui uma escola de música desde 1998. Pela primeira vez, o chorinho do lugar, se tornou silêncio. O Clube do Choro mantinha espetáculos aos finais de semana, com uma média de público de 200 a 350 pessoas, e, nas quintas e sextas, com uma plateia de 150 a 200 pessoas. Os ingressos custam R$40 a inteira e R$20 a meia. O lugar, que é um dos principais espaços da música do Distrito Federal, inspira cada vez mais pessoas a aprenderem a tocar. Há cursos de 25 instrumentos. Em 2020, estão matriculados mil alunos. Seja como for, encanta quem pisa ali. Sérgio Morais, de 42 anos de idade, frequentador do Clube do Choro desde 1996, e professor de flauta há 20 anos na Escola de Choro Raphael Rabello, entende que a música agrega as pessoas e se faz presente em nossas vidas desde a infância. “A música está presente na vida da humanidade como um todo. Desde as cantigas que ouvimos dos pais para nos embalar no sono, até momentos de lazer e relaxamento”. O clube proporciona o encontro dos estudantes com grandes artistas do gênero, como relata Sérgio. “O encontro que temos com grandes nomes é muito importante, pois a partir daí a gente tira bastante aprendizado, podendo entender como o artista estuda para fazer determinada coisa.” Um pátio largo, um palquinho ao fundo, lanchonete, mesas brancas, cadeiras azuis, parede com desenhos de instrumentos e outra com fotos de grandes músicos (Chico Buarque, Tom Jobim, Ernesto Nazareth...), pode dar uma ideia do que é esse ambiente para quem nunca foi lá.
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Malu Alencastro
Rodas de choro abertas ao público eram realizadas mensalmente, sempre no primeiro sábado de cada mês, no pátio do Clube do Choro. A percussionista Fernanda Vitória, que tanto se apresenta em rodas, como é aluna da escola no lugar, lembra da primeira roda que participou. “Eu fiquei nervosa, mas na hora foi superfluido. Meu professor, Júnior Viégas, estava lá para auxiliar. O mais doido foi que pude sentir um ar familiar, sabe? Um monte de gente diferente, com os instrumentos em harmonia. Tinha criança, muita música boa e um almoço top no final.” As feijoadas aos sábados também ficaram na lembrança. A canção que Fernanda interpretou, junto de colegas, ao final da roda, foi do grande mestre Pixinguinha.“Carinhoso era a música, e carinho é o que tenho por esse lugar.” Estudante de pandeiro há seis anos, Thais Marra relata que a música fez com que ela se sentisse mais leve. “Eu percebo como a música fez a minha vida melhorar em diversos aspectos. Eu estou mais calma. Contribuiu muito para a minha qualidade de vida e para o meu crescimento pessoal. A música transcende!”
Naquelas mesas
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E os alunos? Qual a visão deles sobre essa situação de estar distante de um local que estavam com frequência? Thais Marra entende a beleza do chorinho e sente falta de ir ao clube. “Por conta da pandemia, eu sou impedida de estar no Clube do Choro e, para mim, isso é complicado, pois ali eu conseguia fazer trocas, criar novas amizades e interagir.” Para os frequentadores do clube e também para os alunos da escola de choro entrevistados, música é calma na alma. É se conectar ou, até mesmo, se reconectar consigo ou com o próximo. George Costa, de 34 anos, que se apresenta com seu grupo Choro Livre, no clube, desde 2013, e também é professor de violão na escola, entende que a música é uma missão de vida. “Eu acredito que seja uma missão pessoal pois a música é a maneira mais clara que eu encontro de me expressar e é aonde eu consigo canalizar minhas impressões do mundo”.
Sete cordas
O professor de flauta explica que as aulas de teoria e prática musical tornaram-se virtuais. “Estou dando as aulas on-line com adesão máxima dos alunos, o que é muito motivador.” No entanto, a distância mudou uma rotina de contato que eles consideram muito importante. Entre o intervalo de uma aula e outra, por exemplo, as pessoas se encontravam na lanchonete, cada uma com seu instrumento. Assim era o cotidiano de um dos locais mais musicais da cidade antes da pandemia.
Nascido no meio musical, com avô trompetista, pai violonista, Fernando César, que é também irmão do bandolinista Hamilton de Holanda, começou a se interessar pela música em 1981, ainda com 10 anos de idade. Fernando, que além de ser professor de violão seis e sete cordas na escola, já subiu ao palco do clube “inúmeras” vezes, recorda que se apresentou pela primeira vez em setembro de 1981, com o pai e o irmão, e que o ambiente tinha outra configuração. “O clube era totalmente diferente do que é hoje. Era uma casa de encontro de chorões.” Para ele, tocar neste ambiente de cultura musical brasileira é sinônimo de felicidade. “O Clube do Choro é a minha casa. Toda vez que eu toco lá é uma alegria imensa, é poder perceber minha história enraizada.”
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Lugar de aprendizado
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Malu Alencastro
Assim como em qualquer profissão é necessário foco, empenho e disciplina, na música não é diferente. Um músico compõe, escreve arranjos e, muitas vezes, conduz um grupo de coral. Todos os artistas que tocam chorinho são chamados de chorões. Mas não tem nada de triste nisso. Pelo contrário. Para ser chorão, é necessário domínio instrumental, junto de improvisos e felicidade com o que está fazendo.
Naquelas mesas
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A grande trajetória
Formação A Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello é essencial para quem pretende seguir nessa estrada da vida, pois ali os músicos conseguem aprimorar a técnica e desenvolver carreiras. Taariq Padilha, de 17 anos, se formou em harmônica pela escola em julho de 2019. Ele ainda não teve a oportunidade de tocar em outros cantos do país, mas percebe a importância que foi ele ter estudado nesta escola de grande credibilidade. “Eu tenho muita gratidão pelos professores! Ali é como se fosse minha casa.” Há quem já era formado em música, mas teve a oportunidade de passar pela Escola de Choro para inovar, como é caso de Will Mourão. “Já era formado em Música pela Universidade de Brasília (UnB) quando entrei lá. Para mim foi uma realização pessoal ter essa formação”. Will é bandolinista e já tocou em outras cidades brasileiras, mas teve a chance de, também, tocar fora do país. “Tive a oportunidade de montar um trio de choro na Suécia e fazer alguns shows por lá. Foi uma experiência sensacional, principalmente por eu ser o único brasileiro do grupo”, rememora.
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Entre sopros e melodias (Foto: Malu Alencastro)
O objetivo da escola e do clube é manter viva a trajetória de gênios do choro e, com certeza, dar maior visibilidade à música brasileira. São 22 anos desde o nascimento desse lugar de referência para os músicos. Criada pelo bandolinista, compositor, jornalista, radialista e produtor cultural brasileiro, Reco do Bandolim, em 29 de abril de 1998, a Escola de Choro é de notabilidade para os amantes dessa arte. Reco entende que esse ambiente musicalmente respeitado foi um grande feito. “Eu considero sim, tanto a escola, quanto o clube, uma realização em minha vida.” O incentivador do choro na capital do Brasil ainda lembra que ouviu o ritmo pela primeira vez com 18 anos e a partir daí se interessou fortemente com esse gênero e ao chegar na cidade se deparou com a falta da alfabetização musical, em relação ao choro. 53
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Malu Alencastro
“Voltei para Brasília após as férias e percebi que ninguém sabia o que era o choro. Ninguém sabia quem era Pixinguinha, na Capital da República. Isso pode ser considerado quase um crime de lesa a pátria”, relata. Desde sua criação, Brasília mantém um vínculo estreito com o choro. Este gênero, além de ser considerado o gênero musical que mais expressa, de forma autêntica, a música instrumental brasileira, é conhecido por ter sido o pontapé inicial para a criação da MPB. Reco reconhece que é complexo definir uma história cultural tão profunda para o Brasil, mas compreende que a globalização contribui enormemente para a segurança nacional cultural. “Por que você chega na espanha e vai ver o flamenco e observa uma graça enorme na dança e na música? Isso é o bacana. Então essas características são importantíssimas. Esse é o papel da música do Clube do Choro e da Escola de Choro Raphael Rabello.”
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Humor em dias de pandemia
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O humor em dias de pandemia
Relatos e reflexões sobre o papel do riso pela ótica de três artistas Daniella Belchior
“Foi a elite que trouxe esse vírus... Pobre quando viaja, o máximo que traz é um queijo, um doce de leite, umas ‘coisa’ feita à mão pros familiares...” “Como você fala: acungel, auquingel ou aucongel?!” “No Brasil, até o coronavírus começa depois do carnaval”. Como falar de humor sem fazer humor? Onde está a graça na pandemia? Em meio à mudança na rotina da população mundial e ao cenário caótico e desesperador ocasionado por ela, há espaço para o humor? Difícil responder as perguntas. No entanto, é possível buscar respostas a partir da análise do papel social do humor. A perspicácia e o olhar do humorista se ampliam em tempos difíceis. O cotidiano, fonte de eterna inspiração, mostra-se um ambiente fértil para criação de histórias, piadas e muitos memes. A criatividade se potencializa, não pela tragédia humana em si, a qual também afeta a quem vive do humor, mas especialmente pelo aprofundamento das questões sociais, ou seja, de todos os conflitos existentes na nossa realidade. Fazer piada de tudo é uma característica peculiar do nosso povo. Segundo pesquisa sobre o comportamento do brasileiro nas redes sociais, realizada no período de 15 de janeiro a 27 de fevereiro pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP/FGV), verificou-se que o Brasil apareceu em quarto lugar como o país que mais comentou sobre a pandemia no Twitter. A pesquisa 55
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ainda apontou que 34% das publicações nessa rede tinham caráter irônico, com piadas e associações ao carnaval. Mas, afinal, onde está a graça na pandemia? Três humoristas responderam esse questionamento, considerando a experiência de vida e percepção do momento. O brasiliense Lucas Moll acredita que a graça está na mudança no modo de se relacionar. Nesse contexto, surgem várias situações que provocam o riso, exceto as que envolvam perdas humanas. Adriana Nunes, da companhia de comédia Os Melhores do Mundo reconhece a dificuldade do momento, mas, como a pandemia e o isolamento são inevitáveis, tem se reinventado. “A graça está no desafio, na possibilidade de experimentar o novo, de se reinventar e nas situações cotidianas”. O cearense Dudé Torres diz que a pandemia em si não é motivo de graça. No entanto, sinaliza que as atitudes grotescas do presidente Jair Bolsonaro, a crise política e a ingenuidade das pessoas são fatos que se transformam em piada.
Papel social do humor
Humor em dias de pandemia
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roteiros durante o isolamento social, pois, além de ter mais tempo livre, acha relevante retratar o momento que vivemos, sob a ótica do comediante. Inclusive, ressalta que uma das peças já escritas nesta quarentena, de título provisório As quarentonas, foi inspirada em mulheres comuns - duas amigas “quarentonas”- que dividem o apartamento durante a pandemia. Nesse cenário, o humorista acredita que se desenvolvem diversos conflitos com os quais muitas pessoas irão se identificar. “Dessas coisas pode ser vista graça e eu tenho certeza que, quando tudo passar, iremos rir muito disso tudo. Lógico, respeitando a seriedade das perdas”. A psicóloga e especialista em psicodrama Marisa Becil ressalta a importância do papel do humor em tempos de crise. “Existem várias formas de lidar com o estresse proveniente das consequências da pandemia e da realidade difícil do presente com tantas perdas de vidas humanas, tais como exercícios físicos, meditação e humor. Para combater o hormônio do estresse, o cortisol, nada melhor do que uma boa gargalhada”, afirma. Questionada sobre a importância do humor no contexto da pandemia, a psicóloga vê como algo benéfico para a saúde mental, desde que não seja ofensivo. “O humor é uma maneira positiva de lidar com o estresse oriundo da pandemia. A criatividade, sem ser ofensiva à dignidade humana, por meio de piadas e memes, pode ser usada a favor de um ambiente menos danoso ao nosso equilíbrio biopsicossocial”.
Para o ator e humorista cearense Edivaldo Cardoso, a comédia surge a partir de uma “visão atravessada da realidade”. Ou seja, a graça estaria justamente em “ver o ridículo nos comportamentos, nas atitudes dos políticos, no dia-a-dia dentro de casa com esposa e filhos”. Edivaldo também é roteirista e diz que, neste momento de crise, o processo criativo tornou-se apurado. Isso ocorre porque tem lido mais e estado atento aos acontecimentos. Os comportamentos também são fontes de inspiração para o humorista e, na pandemia, eles têm se evidenciado, principalmente, nos cuidados exagerados contra o vírus. Ele afirma não ter tido dificuldade em escrever peças e
Segunda-feira, 4 de maio. Às 14h15, realizo a chamada por vídeo pelo Whatsapp. Do outro lado, o ator, produtor e humorista Lucas Moll me aguarda para iniciarmos a entrevista.
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Humor que se reinventa
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O sobrenome, curto e sonoro, herdou da mãe Giselle Moll e resolveu adotá-lo como nome artístico. Há pouco mais de um ano, o brasiliense foi morar em São Paulo para concretizar alguns projetos na carreira solo. Durante a conversa, um fato chamou a atenção. Indagado sobre como se descobriu no humor, Lucas relata que, por volta dos 14 anos, viveu uma fase briguenta. Na época, morava em Salvador e adotou uma postura “marrenta” para se proteger do processo de bullying que sofria no colégio por conta da baixa estatura. O fato, por si só, já seria uma piada pronta, porém, mexeu muito com o emocional e, segundo o próprio Lucas, a situação foi um divisor de águas na vida dele.
Lucas Moll no stand-up comedy “Como seria se tudo fosse como é”. (Foto: Gui Kardel)
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Ao voltar para Brasília, repetiu o ano escolar e estava ansioso. Mas, aos poucos, começou a mudar a postura reativa e passou a se destacar em apresentações culturais do colégio. Na 8ª série, foi transferido para uma escola administrada por freiras. Nesse momento, percebeu que “fazer graça era melhor que bater nas pessoas”. Assim, tornou-se piadista e fez amigos. Enquanto descreve a situação, Lucas desvia o olhar, faz uma pausa e sorri ao relembrar o quanto o contato com o humor foi importante e hoje se tornou a principal fonte de renda. Ele é especialista em stand-up comedy. No entanto, devido ao isolamento social forçado, teve de se reinventar, o que o levou a explorar bastante as redes sociais, intensificando ainda mais o processo criativo. Nada aconteceu por acaso na vida de Lucas. Inevitavelmente, suas escolhas o levariam a se tornar o artista reconhecido na capital federal. A primeira experiência com teatro ocorreu no colégio aos 17 anos. Ele resolveu atuar na produção de cenários e figurinos para adquirir experiência e incrementar o portfólio, já que sonhava em ser designer. Entretanto, quando um ator faltou à peça, ele o substituiu e, mais uma vez, seu destino se redefinia. A partir disso, sentiu imenso prazer em atuar. A formação teatral ocorreu, de fato, junto à companhia de comédia Setebelos, da qual é um dos fundadores. O humorista ressalta que alguns profissionais foram essenciais no ensino de técnicas teatrais e de stand-up comedy, como Hugo Rodas e Cláudio Torres Gonzaga. Formado em design gráfico, o humorista chegou a cursar Publicidade e Cinema. No entanto, o chamado para o teatro foi mais forte e optou por se dedicar exclusivamente às artes cênicas com ênfase no humor. Ele se descreve como uma pessoa muito criativa e quando lhe pergunto como se dá 59
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o processo de criação, o comediante afirma que sempre busca se reinventar. E, nessa quarentena, houve uma exigência maior por isso. Ele acredita que o fato de se conectar com as coisas que gosta de fazer desperta a criatividade. Hoje, além dos vídeos que ele mesmo roteiriza e edita para o Instagram e Tik Tok, Lucas Moll atua em outro projeto relacionado à cultura nerd e apresenta o talk show Comedyflix pela rede social de um shopping de Brasília. “O humorista não é só um entregador de piadas, mas também um curador de assuntos”. Ou seja, fazer humor não é apenas contar piadas, mas sim realizar ampla pesquisa sobre diversos assuntos e adequá-los ao perfil do público. Ele cita, inclusive, que por vários anos fez humor baseado em noticiários e política, o que propiciou diversificação de conteúdo. No entanto, o fato de consumir muitas notícias começou a lhe trazer “mais ansiedade que libertação” e, assim, repaginou os espetáculos. A readequação dos shows coincidiu com a ida para São Paulo e os aspectos cômicos da mudança foram retratados, agradando demasiadamente o público. Lucas Moll afirma que ser humorista também requer responsabilidade. Ele acredita ser possível fazer humor com tudo. Inclusive, mencionou o filme Jojo Rabbit – vencedor do Oscar 2020 na categoria roteiro adaptado – o qual satiriza o fanatismo provocado pelo nazismo. Sobre o panorama político atual, Lucas Moll diz que ele não lhe inspira. “Estamos chegando à beira do absurdo, da censura”. Hoje, foca no humor de entretenimento, em que busca tranquilizar o espectador e tirá-lo, ainda que por pouco tempo, de uma realidade muitas vezes pouco agradável. Acerca das dificuldades enfrentadas na pandemia e a exigência de se reinventar, Lucas afirma que já vinha se prepa60
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rando para os desafios que, porventura, poderiam surgir. O primeiro deles foi o cancelamento de espetáculos. O fato, por si só, já lhe gerou prejuízo financeiro. Além disso, como produtor, teve de adiar um grande evento previsto para o mês de abril, o que afetou a vida de outros profissionais envolvidos. Mesmo diante de uma perspectiva desanimadora, Moll conseguiu fechar parcerias para atuar no ambiente digital. E afirma que o isolamento social propiciou mais visibilidade ao seu trabalho. No entanto, lamenta que muitos colegas do stand-up comedy não tenham tido oportunidades e condições dignas de trabalho, pois é complexo fazer shows de humor por meio de lives.
Versatilidade feminina A atriz, diretora e humorista Adriana Nunes tem se reinventado nesta pandemia. Poucos dias antes de conceder a entrevista, concluía o projeto para o público infantil intitulado Violinha Caipira, em parceria com o irmão, o músico Marcello Linhos. Ela conta que o início do isolamento gerou um pouco de insegurança, pois os espetáculos da companhia de comédia Os Melhores do Mundo, da qual é integrante e sócia - fundadora, tiveram de ser cancelados. Os atores da companhia optaram por não realizar lives durante a pandemia. No entanto, resolveram postar conteúdos nas redes sociais, o que atraiu cerca de 100 mil novos seguidores. Mesmo sem cachê, Adriana não se abalou e tratou logo de inovar o trabalho e criar novas possibilidades para si. Uma delas foi a concepção do canal “Hiper Criativimusiquilivro” no qual ela e o irmão contam histórias, cantam e produzem oficinas de criatividade para as crianças se distraírem durante a quarentena. O isolamento forçado fez com que a atriz se recolhesse com os filhos mais novos, Theo e Lis, em Pirenópolis, cidade goiana 61
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onde a mãe Walnízia também mora. Inclusive, Adriana relata que ela é sua maior referência. “Eu tenho certeza de que a influência da minha mãe é o ponto mais forte na escolha da minha carreira”, afirma a atriz. Ela explica que dona Walnízia fez parte do grupo teatral Movimento Eureka de Brasília e, ao acompanhá-la ao teatro, ficava encantada com as peças e encenações. Quando certa atriz mirim desistiu de um espetáculo, Adriana se candidatou à vaga. A primeira experiência teatral marcou significativamente a vida dela, tanto que participou de outras peças e sentiu-se motivada a criar a própria companhia de teatro. Esse desejo se concretizou em 1991, quando se formou pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e montou a companhia A culpa é da mãe a qual, tempos depois, tornou-se a famosa companhia de comédia Os Melhores do Mundo. Multifacetada, a atriz já atuou em vários espetáculos, dirigiu diversas peças e deu vida a personagens marcantes, como a Juju, do programa Zorra Total, e Mercedez com Z.
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Apesar da carreira de sucesso, Adriana Nunes garante que enfrentou inúmeras dificuldades pelo simples fato de... ser mulher! “Basta ver a quantidade de mulheres atuando em filmes, peças e comerciais em comparação à quantidade de homens: não temos o mesmo espaço, mas consigo ver que estamos abrindo caminhos”, ressalta. A humorista cita que começou a fazer shows de stand-up comedy há dois anos junto ao Mamacitas - Movimento de Mulheres no Humor -, na cidade de São Paulo. A temática feminina é muito presente em suas composições e isso se manifesta na parceria feita com a atriz Juliana Guimarães. Juntas, conceberam o projeto Canal Cutículas, no Youtube, em que tratam questões do universo feminino com pitadas de humor. Perguntada sobre o processo criativo durante o isolamento, Adriana diz que possui rotina de trabalho, tende a concluir os projetos a que se propõe e usa listas e cadernos para registrar ideias. No entanto, sente dificuldade em manter o foco. Pode ser a inquietude inerente à artista e a mente fervilhante de ideias. Mas há algo muito maior que a impulsiona. “Faço o que me dá alegria, que traz felicidade. Daí eu penso que terei retorno, mesmo que não seja imediato. Nunca trabalho visando o dinheiro, ele é consequência”.
Humor na veia
Personagem Micalatéia interpretada por Adriana Nunes (Foto: Nick Elmoor)
Era pra ser uma entrevista com duração de uma hora, mas acabou durando duas e ficaram assuntos pendentes para outro encontro… E quando chega o dia da segunda entrevista - que, na verdade, foi uma prosa com boas risadas - duas horas não foram suficientes para esgotar tanta história boa que o ator e humorista cearense Dudé Torres tinha para contar. Quando eu achava que já tinha abordado
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tudo, ele solta: “Olha, nem te falei que estou em tratamento para depressão”. Inicialmente surpresa, parei, respirei fundo e entendi que quem promove o sorriso também possui os próprios conflitos. As entrevistas com Dudé Torres ocorreram por videochamada. Em todas elas, o ator me atendia de casa, na cidade de Fortaleza. Na primeira entrevista, ele me pediu desculpas por estar fumando. Falei que ficasse à vontade. “Pode deixar, estou me sentindo em casa”, gargalhou. Segundo o ator, ele é “especialista” em quebrar protocolos e formalidades. Irreverente, Dudé conta que sempre fez boas amizades por onde passou. Inclusive, cita uma viagem que fez para Aracaju com os amigos cearenses, os humoristas Paulo Diógenes e Aloísio Júnior, onde apresentaram a peça Três Donzelas, uma comédia. Após o show, a produção os levou para jantar num restaurante francês cheio de formalidades. Dudé, apesar de conhecer um pouco do idioma, desconhecia os pratos franceses e, na ocasião, pediu sugestão ao garçom, o qual indicou a perdiz. Todos que estavam à mesa olharam para Dudé, que disse: “Sim, traga a perdiz”. No entanto, ele nunca havia provado a iguaria. O ator conta que, ao servirem o prato, perguntou: “O que é isso?” no que o garçom respondeu: “O prato que o senhor pediu”. “Moço, no Ceará isso se chama pomba; só que as de lá são maiores, essas são umas pombinhas”. As pessoas ao redor não se contiveram e riram. É assim que o cearense chega e encanta. Dudé lembra que já fez show no Teatro Dulcina de Moraes, em Brasília. Na época, Nelson Piquet e a família foram prestigiar o espetáculo. Depois, o piloto convidou os artistas para jantarem. Dudé conta que um dos pratos servi64
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dos o deixou abismado. Era uma espécie de ovo de avestruz. No entanto, aquilo lhe causara estranheza, pois não continha gema. O humorista degustou o prato e não o apreciou, mas manteve “a classe”. Ao ir embora, Dudé Torres comentou com os colegas de palco: “Gente, pelo amor de Deus, o que era aquele ovo sem gema?!”. Nisso, todos caíram na risada e falaram: “Não era ovo, era queijo de búfala”. Nascido em 1970, em pleno regime militar, o sétimo filho de Araci e Francisco sempre se destacou pela graça. Dudé Torres alega que a monotonia o entediava. Quando adolescente, costumava se fantasiar pra provocar o riso na família. Descobriu, tempos depois, que a mãe participava de dramas, danças típicas do interior do Ceará, e a descreve como uma bela mulher, que dançava com maestria, e que, de alguma forma, o influenciou na escolha da carreira artística. Apesar de analfabeta, a mãe era uma pessoa sábia e, vez ou outra, soltava umas frases engraçadas. O pai, mestre de obras, mal tinha tempo para educá-los. A missão ficou a cargo da mãe que orientava os filhos mais velhos a ensinarem os mais novos. O primeiro contato com o teatro foi aos 12 anos. Dudé sentiu vontade de atuar e percebeu que tinha facilidade em decorar falas. “Quando comecei a participar do teatro, vi que aquilo era meu mundo. As coxias, a liberdade de trocar de roupas, sem sensualidade, sem maldade, totalmente profissional”. Aos poucos, o ator foi tomando forma. Realizou cursos, oficinas, participou de festivais e conheceu outras pessoas do meio artístico. Aos 15 anos, mudou-se com a família para a cidade de Hidrolândia (a 250 km de Fortaleza). No local, conseguiu profissionalizar-se e intensificar a vivência teatral. Nesse período, participou de eventos culturais e descobriu outro prazer: o de escrever. 65
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Em 1985, Dudé montou a Companhia do Povão. O humorista relata que, até hoje, guarda os textos encenados. Caçula da turma, destacou-se pela desenvoltura no palco. Dois anos depois, retornou à cidade natal e aprendeu sozinho a costurar e a fazer crochê. Conta emocionado que o pai fazia de tudo e isso o incentivou a aprender novos ofícios. “O lado engenhoso ‘puxei’ ao meu pai. Ele era muito criativo, profissional e uma pessoa muito íntegra e honesta”. Aos 20 anos, Dudé já era dono da própria empresa de costura e ensinou o ofício às irmãs. Por um tempo, afastou-se dos palcos para se dedicar à confecção, mas, sempre que podia, participava de oficinas teatrais para se manter atualizado e atuante. Inclusive, durante esse isolamento social, o crochê aprendido naquele tempo tem sido não só uma terapia, mas também fonte de renda para o humorista. Dudé diz que a comédia ocorreu espontaneamente na vida dele após participar de um festival de humor no qual interpretou um caipira que tocava violão - o Jeca Preá. A personagem lhe rendeu a segunda colocação no concurso. Depois disso, o trabalho passou a ter mais visibilidade na capital cearense. O humorista Paulo Diógenes, amigo de Dudé, ajudou o ator a aprimorar-se no humor. Juntos, viajaram por várias capitais. Dudé interpretava o cantor Roberto Carlos, com um tom cômico. Pouco tempo depois, deu vida à personagem Zuleica, a doméstica que o consagrou na peça Três Donzelas, uma comédia, em cartaz por três anos. O ambiente teatral é o que mais fascina o humorista e ele sonha em encenar uma peça dramática. Após o sucesso da peça, Dudé permaneceu no ostracismo por quase três anos. Afastou-se do palco, dos amigos e dedicou-se aos trabalhos manuais. Não houve brigas, apenas 66
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sentia-se insatisfeito com a situação da classe artística. Durante o afastamento, passou a refletir acerca do papel do humorista e, também, como iria desenvolver as personagens a partir da percepção das pessoas com quem conversava. Ele não teve dificuldade em retornar aos palcos. Relata que, ao se caracterizar como Zuleica, de imediato a “incorporava”.
Personagem Zuleica interpretada por Dudé Torres (Foto: Antonio Fernandes)
Dudé lamenta que a classe artística continue sendo desvalorizada. Ele prefere atuar no teatro, pois, além de o cachê ser maior, acaba tendo mais proximidade com o público. Conta que, ao final de um espetáculo, foi abordado por uma senhora que se identificou como professora universitária e estava levando amigos de outra cidade para assistir ao show de humor. A mulher, também cearense, disse que tinha preconceito por esse gênero teatral. No entanto, depois daquele dia, o paradigma havia se desfeito. Dudé diz que já se deparou com comentários e situações preconceituosas. “Pra 67
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mim, ouvir o relato dessa senhora foi de uma grandiosidade, pois mostra como ainda há preconceito, ou mesmo presunção acerca do nosso trabalho sem, ao menos, conhecê-lo”. Ele também lembra de outra situação em que, após o espetáculo, uma senhora acompanhada da filha pediu para ir ao camarim falar com os atores. Ela estava extasiada e agradeceu muito, pois relutava em assistir ao show de humor, já que vivia um processo depressivo após a perda da mãe. No entanto, afirmou que, naquele dia, a apresentação havia resgatado a alegria dela pela vida. A emoção tomou conta de todos que estavam no camarim. E ao relatar a história, Dudé se emociona e reconhece o quão seu papel social é relevante. “Motivos eu tenho para não continuar. Porém, atuar é um dom, está na ‘veia’ e me sinto privilegiado por morar num estado em que o humor foi elevado à condição de patrimônio imaterial, por meio de lei. É reconhecimento da importância do humor para a sociedade cearense”. O humorista acredita que esse período de quarentena é uma espécie de provação. Ele entende que é preciso estreitar os laços, praticar a tolerância e a resiliência. Apesar de morar sozinho, não se sente solitário. Conta com os amigos e os três filhos, com quem mantém contato pela internet. Ele recorda que trabalhou até 19 de março, véspera do isolamento decretado pelo governo do Ceará. Como vive do humor, o ator recebeu cestas básicas de um grupo de doadores, a quem é muito grato. Além disso, foi um dos contemplados pelo edital da secretaria de cultura do estado do Ceará, o qual foi lançado para ajudar a classe artística durante a pandemia. Dudé tem produzido conteúdo para o projeto cultural Dendicasa no qual a personagem Zuleica “conversa” com a máquina de lavar roupas sobre diversos assuntos relacionados à pandemia. 68
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São tantas histórias e vivências, que, ao final da entrevista, Dudé lamenta não ter conhecido o escritor Ariano Suassuna. Para o humorista, se Suassuna o conhecesse, certamente escreveria uma trilogia sobre as aventuras dele…
Olhar crítico do humor O jornalista, dramaturgo e crítico de arte Sérgio Maggio tem visto nas redes sociais muitas postagens de cunho humorístico. Inclusive, durante a quarentena, também tem se valido desse recurso nos próprios posts. Convidado a analisar o papel comunicativo e a importância do humor na pandemia, o dramaturgo faz ampla reflexão sobre a temática. “O humor como arte e linguagem tem a função de fazer com que a realidade seja percebida como um viés da contradição e da exposição do ridículo, de mostrar como o homem lida com a realidade que lhe é apresentada”, relata. Propor ao homem que ria de si mesmo e da realidade na qual está inserido é um dos papéis do humor clássico. Segundo Maggio, o humor conduz a realidade ao surreal, ao extremo, apresentada de forma absurda. “Essa capacidade de fazer o homem rir de uma situação que está à sua frente sendo imposta como uma realidade é uma capacidade que faz com que as pessoas baixem a guarda e raciocinem sobre o pensamento já moldado”, complementa. O crítico de arte cita que o humor de desconstrução do real tem sido realizado, de forma magistral, na internet, nos programas de TV e pelo humorista Marcelo Adnet. Sérgio Maggio menciona o dramaturgo francês Molière, considerado o pai do humor, o qual afirma que, moralmente, é possível rir de qualquer coisa. No entanto, Maggio ressalta que, eticamente, há limites para o uso do humor. 69
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“Estamos vendo toda uma mudança de mentalidade dos humoristas que já passaram pela onda do politicamente correto e estão pensando em novas formas de promover o riso, mas não para ferir um grupo, uma minoria, e sim, desestabilizar o status quo”, reforça. Além disso, percebe que o trabalho da nova geração de humoristas tem sido pautado por princípios éticos. O dramaturgo vê possibilidade de fazer humor, ainda que em meio à pandemia, desde que atinja o opressor e não o oprimido. “Temos um governo federal que luta a favor do vírus e da contaminação, então é possível deslocar o humor para essa esfera”. É possível também rir do comportamento adotado na quarentena, da mudança do cotidiano e da crise política. Como qualquer manifestação artística, incluindo o drama, o humor pode “alienar ou emancipar as pessoas acerca do tema abordado”. A função da arte é promover uma realidade de forma completamente crítica. “O humor que aliena não é um humor bem-vindo, pois mantém o indivíduo no status quo, em que alimenta os estereótipos existentes e as agressões às minorias.” A crise ocasionada pela pandemia afetou o trabalho da categoria. “O artista foi o primeiro a parar e, provavelmente, será o último a voltar”, afirma o dramaturgo. Maggio prevê que a crise afetará o modus operandi do artista e isso alterará, inclusive, a forma de se apresentar ao público. “O fazer artístico e criativo sofrerá profundas transformações e isso gerará novas formas, novos olhares”, deduz. Sobre o pós-pandemia, o jornalista analisa que a percepção das pessoas e o olhar perante o mundo serão modificados. A forma de viver, os contatos, as relações, tudo isso já está em crise e sendo discutido em plena quarentena. A possibilidade de contaminação, os protocolos de saúde, o distanciamento, 70
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ou seja, todas essas questões afetarão profundamente as relações. “Não é à toa que vivemos a crise em relação à questão racial; espero que sejamos mais humanistas, melhoremos nossas relações com a arte, a cultura e a educação”, conclui.
Pós - pandemia A falta de contato físico reforça a importância do afeto. Quando for possível, a primeira coisa que Lucas Moll pretende fazer é viajar até Brasília para rever os familiares e dar um abraço na Mavie, 2 anos, de quem sente muita saudade. Para Adriana Nunes, os laços foram estreitados durante a quarentena, especialmente com os filhos mais novos; todavia, a alegria não está completa porque permanece distante de outras pessoas queridas, como a filha mais velha Ana Terra Nunes, 25 anos. Dudé deseja abraçar os filhos e anseia pela elaboração de políticas públicas destinadas à classe artística, pois a volta ao trabalho dessa categoria deve ocorrer de forma lenta e gradativa. Ele também sonha em participar de algum projeto cinematográfico. Lucas tem focado em conteúdo digital. Acredita que as ferramentas digitais impactarão na forma de se fazer humor. Já Adriana Nunes pretende ir a Lisboa, no segundo semestre, para concretizar um projeto pessoal. Além disso, é uma das parceiras no projeto que apresentará histórias e músicas do interior do Brasil intitulado Conte Lá Que Eu Canto Cá. Independente dos desejos pessoais, há algo em comum entre os artistas: a preocupação de quando e como será o retorno aos palcos. Enquanto isso não acontece, eles idealizam o momento em que ouvirão novamente as gargalhadas de perto... 71
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Autistas em isolamento social
Vo z e s e e c o s
Autistas em isolamento social Entenda como as famílias têm se adaptado a uma rotina desafiadora
Emilly Veras
Vozes e ecos
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Breno tem 12 anos de idade. Quando recebeu a notícia da mãe que não poderia mais sair de casa, ficou em silêncio. Nos dias que seguiram, estranhou não poder mais encontrar seus amigos e passear com a mãe, Daniele. Ela sabe que tem muitos dias pela frente e tem se preparado, pois Breno apresenta transtorno do espectro autista. Danielle Rios, mãe de Breno, de 12 anos, que apresenta o transtorno do espectro autista (TEA) na síndrome de Asperger, revelou que foi difícil se adaptar durante as primeiras semanas e, para ajudar a vida do filho, apostou na comunicação. “Ele é meu único filho e, por isso, somos bem próximos. Conversei abertamente com ele sobre toda a situação do país e das mudanças que teríamos que fazer em nossa rotina, como horários para estudar em casa e acessar a internet por exemplo.’’ Ela comentou que com o passar do tempo, o filho começou a compreender toda a situação e que para que Breno continuasse tendo acesso à psicoterapia, investiu na teleconsulta. Para crianças autistas e seus pais, a dificuldade para enfrentar esse período pode ser maior. Segundo a terapeuta ocupacional Anahir Moura, é maior “porque crianças que estão dentro do espectro possuem uma dificuldade especial para entender o que está acontecendo’’. Ela ressalta a importância de manter horários regrados. “A falta de rotina pode deixar as crianças mais agitadas, agressivas e impacientes. É necessário que responsáveis tenham compreensão e paciência.”, frisou. 73
Emilly Veras
Vo z e s e e c o s
No caso de Breno, é fácil notar sua ansiedade na fala. “Ele é muito inteligente,ama falar e debater sobre os diversos assuntos,principalmente política, pois sonha em ser presidente um dia. Ele sempre falou rápido, mas percebo que ultimamente tem tido mais urgência em debater os assuntos e acelerado ainda mais sua fala, chega até a ficar cansado’’.
Terapia
Autistas em isolamento social
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do espectro’’. As informações sobre a pandemia são repassadas aos poucos pois ele tende a ficar ansioso facilmente. Para ajudar o filho, que no momento não está recebendo acompanhamento médico, Walquiria recorre a novas adaptações, como maior participação dele nas atividades domésticas, sempre sobre o olhar atento da mãe, caminhadas pelo início da manhã, quando as ruas estão mais vazias e até banhos prolongados, que sempre foi um momento de relaxamento para o garoto. “Graças a Deus estamos nos adaptando,com muita paciência e carinho,sinto que do jeito dele,ele está entendendo e se esforçando junto comigo durante essa quarentena:me ajuda a secar as louças,arrumar camas, essas tarefas mais fáceis de casa”, completou.
Walquiria Matos é mãe de Renato, de 18 anos, e afirma que desde os três anos do filho, época em que foi diagnosticado com autismo, a rotina da família mudou. Devido ao alto grau de autismo, ele demorou quatro meses, para ter acesso ao tratamento com fonoaudiologia e terapia ocupacional pelo Hospital Universitário de Brasília, através do Sistema Único de Saúde, o SUS. O jovem atualmente não está recebendo tratamento, apesar de não estar no grupo de risco, possui um risco aumentado de contágio. Renato,assim como muitos autistas, apresenta um comportamento de busca sensorial,e por isso foi indicado pelo médico que ficasse em casa durante a quarentena. Segundo a mãe, Renato não gosta de ficar em casa, e tem sido difícil adaptar uma nova rotina à vida do filho. Além disso, notou que alguns comportamentos voltaram a aparecer. “Ele odeia ficar em casa. Ele diz que gosta de ir pra escola e fofocar. Senti que ele voltou a ser agitado,repetindo movimentos com os braços, como era quando criança e alguns regressos na sua fala”, completa. A apreensão da mãe com a comunicação sempre foi grande. “Renato só começou a falar aos 5 anos, e depois que entrou na escola desenvolveu muito mais rapidamente, especialmente no ensino médio quando passou a conviver com crianças da idade dele e fora
Para a psicóloga Tereza Moraes, é imprescindível que se leve em conta o jeito único de cada criança, e que por isso as indicações devem ser adaptadas para cada situação, já que o espectro se manifesta de maneiras distintas. “Comportamentos excessivos, geralmente, são uma espécie de proteção. O contato social com outras crianças é de grande importância para o desenvolvimento psicossocial, e a ausência da escola pode sim criar alguma espécie de regressão”, complementa. A psicóloga indica que sejam encontradas atividades essenciais para desenvolver novas habilidades, que sejam adequadas para a criança e para a família. Para ela, é essencial que a rotina seja readaptada para nova realidade. Assim, pode evitar estresse e ansiedade, que desencadeiam crises. “Também é muito importante utilizar esse cenário para interagir e se aproximar ainda mais dos filhos.’’
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Particularidades
André Atan
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Fora das quatro linhas
Como os profissionais dentro de clubes lidam com o isolamento
André Atan
Jogadores do Brasiliense no retorno aos gramados (Foto: Brasiliense)
A divulgação do esporte é muito ligada ao atleta profissional. Ao recordarmos das imagens que ficaram de uma final de Libertadores, lembramos dos gols de Gabriel Barbosa nos minutos finais da partida em 2019, do segundo jogo da final de 2018 entre River Plate e Boca Juniors no Santiago Bernabéu. Quando lembramos das Olimpíadas, vemos os atletas competirem no boxe, no tiro com arco, no vôlei de praia, no levantamento de peso. Assistimos à Copa do Mundo na esperança de que os principais jogadores de nosso país se sobressaiam perante outras seleções e levantem um troféu que já foi levantado por ícones como Philipp Lahm, Casillas, Cannavaro, Cafu, Zidane. Contudo, o futebol é muito 76
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mais do que “11 jogadores correndo atrás de uma bola”. O clube dispõe de funcionários que auxiliam os jogadores de diferentes formas, como técnico, preparador físico, médico, fisioterapeuta, massagista, roupeiro. E cada um deles possui identificação maior com o futebol, seja por conta do gosto pessoal ou simplesmente por conta da função que exercem dentro do clube. Na realidade do Distrito Federal, são profissionais apaixonados pelo esporte e que sentem saudades da rotina e do ambiente em que normalmente vivem. É o que relata o técnico do Brasiliense, Márcio Fernandes, ao dizer que sua rotina tem sido estudar e ficar com a família. “Claro que sinto falta da rotina que tínhamos, pois o ser humano sem trabalho se torna uma pessoa triste. Temos que fazer de tudo para que isso não aconteça, conversando bastante, vendo vídeos motivacionais ou algo do tipo, de forma que esse isolamento não nos afete”, completa. Além disso, a rotina em casa com a família favorece em situações como essa. “De uma forma geral tem sido bom a gente ficar em casa e curtir um pouco mais a família”, disse. Ele complementa que realmente sente falta do convívio do trabalho.
Família O tempo extra com a família é um fator positivo a ser destacado nesse momento de isolamento social. O auxiliar técnico do Brasiliense, Marcinho Fernandes, filho do técnico, aproveita esse período para ficar com a família e brincar com o filho. Porém, reforça que aumenta seu tempo de estudo fazendo cursos on-line e lendo muito, visando o retorno ao campo. “O que mais sentimos falta é a semana dos treinos, o preparo para os jogos e a atmosfera ao redor deles, tudo o que envolve o campeonato que disputamos. 77
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Aquele frio na barriga. Espero que possamos sentir tudo isso logo”, completa. Em algumas ocasiões, é uma necessidade ainda maior estar perto de seus familiares, como é o caso do auxiliar de preparador físico Arthur Maykon, que está na casa da mãe auxiliando-a no dia a dia, pois ela se encontra no grupo de risco. Enquanto isso, o médico Paulo Lobo, que coordena o departamento médico do Brasiliense e atende em um hospital privado de Brasília, sente que o momento é de valorização do convívio familiar e dedicação à leitura. “Temos que tirar lições de tudo que a vida nos apresenta.”
Mente A saúde mental é muito importante em todos os aspectos, afinal ela dita sentimentos como felicidade, ânimo, alegria. Contudo, o isolamento social, colocado em prática no dia 19 de março, trouxe um momento nunca antes vivido por todos, principalmente atletas. Ficar em casa, deixar de ver pessoas que víamos diariamente, a não prática da sua profissão, são alguns dos fatores que podem trazer sintomas como depressão e ansiedade para a vida das pessoas. Casos como o do ex-atacante do Internacional Nilmar são amplamente conhecidos, mas será que esses sintomas estão restritos àqueles que estão dentro das quatro linhas? O massoterapeuta do Real Brasília, Marcos Antônio Martins, conhecido como “Tatu”, profissional que realiza massagens ocidentais e orientais com intuito de trazer bem estar, explica que a distância não é fácil. “Meu trabalho é o que mais gosto de fazer, é onde me realizo como profissional. Ficar sem trabalhar é ruim, no início fiquei muito ansioso”. 78
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Ele complementa que o ritmo de trabalho é alto, e que com o isolamento teve que se adaptar a uma rotina diferente. O técnico do Brasiliense ressalta que é preciso ocupar a cabeça nesse momento de isolamento. “Fazer algo que não deixe esse isolamento afetar o psicológico é importante para que a gente consiga dar sequência, ou irá acarretar problemas, até mesmo depressão”, realça. Para Paulo Lobo, nenhum atleta do Brasiliense entrou em contato, seja com ele ou com outros profissionais do clube, com queixas de depressão. “Penso que alguns possam estar ansiosos para que o isolamento passe logo e eles voltem a fazer o que mais gostam: jogar futebol”, completa.
Em Brasília, o isolamento O futebol em Brasília não tem sido tão valorizado pelo fato de seus principais clubes não estarem na elite do futebol, a tão sonhada Série A do Campeonato Brasileiro. O Brasiliense, que já foi campeão da Série B em 2004, não vê a segunda divisão do Brasileirão desde 2010, enquanto o Gama, que venceu a Série B em 1998, não participa da famosa “segundona” desde 2008, e o Sobradinho participou poucas vezes das Séries B, C e D. Agora, com o futebol parado por conta do isolamento social, a maior preocupação dos clubes é com o retorno aos campos para disputa do Campeonato Brasiliense e da Série D, onde o Gama está confirmado no torneio e o Brasiliense está na disputa da Pré-Série D, uma fase preliminar classificatória para a competição nacional. O foco no momento são os treinos, e o preparador físico Odair Mourato explica que os atletas mandam vídeos toda semana dos treinamentos passados anteriormente, além do retorno de como foram essas atividades. “Apesar de se79
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rem treinos já feitos no clube, o ambiente torna as atividades distintas, porque é um ambiente diferente da estrutura do Brasiliense. Cada atleta tem realidades e recursos diferentes para executar uma atividade”, explica, e complementa que dessa forma não é possível controlar volume e intensidade dos trabalhos realizados. Além disso, o preparador comenta que não tem como confirmar com exatidão as condições às quais os atletas se encontram, tanto fisicamente quanto mentalmente. “Cada indivíduo responde de forma diferente aos estímulos e situações em que são submetidos”, completa. Quanto ao retorno aos gramados, o sentimento é o mesmo: a vontade é de voltar à rotina e aos campos, porém com todo o cuidado necessário para evitar o COVID-19. “Infelizmente não temos muito o que fazer além de esperar. O governo precisa liberar o retorno aos treinos, e a federação liberar quanto aos jogos. Esperamos a posição deles”, diz Arthur Maykon, da preparação física. Para Odair, todos estão ansiosos para o retorno e esperançosos para que isso aconteça logo, e o médico Paulo Lobo é um exemplo claro. “Sinto falta do futebol sim! Sinto falta da rotina de atender os atletas, de estar em uma interlocução constante com o departamento médico e com a comissão técnica. Ir aos jogos é a forma de me manter ativo dentro da rotina do clube”, comenta. Para Marcos “Tatu”, o apoio do Real Brasília logo quando o isolamento começou foi fundamental. “O clube nos apoiou na dispensa de todos os funcionários e jogadores, e um suporte de grande importância é o cuidado em manter os salários em dia”, completa.
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Jogadores de futebol explicam como fizeram para lidar com a falta do gramado e da rotina esportiva Bruno Marinho
A paixão pelo esporte proporciona momentos únicos e inesquecíveis na vida de milhões de pessoas, que veem tanto nos jogadores do seu time, quanto em rivais pessoas especiais, alguém que ele almeja um dia chegar ao mesmo lugar, querendo ter o nome gritado por um estádio inteiro. Mas muitos fãs não conseguem ver os seus ídolos tendo problemas de ansiedade e outros transtornos antes de grandes jogos, dificuldade de se alimentar bem e até saber o que ele deve ou não fazer. E o que passa despercebido para muitos, mas não para os atletas que sofrem disso, é a depressão. Em situações como a da pandemia, esses problemas ganham ainda maior visibilidade. Chegar ao topo não é fácil, mas o difícil é se manter lá. E as dificuldades só aumentam quando você não é um jogador do alto escalão e sofre para poder treinar e voltar a fazer o que você sempre sonhou. É o caso do volante Aldo, meia do Brasiliense, que está sofrendo com a falta dos treinos, já que os jogadores não possuem os equipamentos necessários, e, principalmente, a falta de espaço. E também o auxiliar de preparador físico, Arthur, que está trabalhando o treino dos jogadores mesmo de longe. “Toda semana é passada uma série de treinos para os jogadores executarem, estamos trabalhando assim até a volta aos treinos”, disse. Mas os jogadores vêm tentando chegar o mais perto possível daquilo que era realizado antes. 81
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E é também o caso do companheiro de time, o meia Sandy que sofre com a falta de espaço para treinar e diz que tem saído para correr na rua na hora do seu almoço pois não tinha ninguém na rua e que agora faz trabalhos de força e explosão perto de sua casa, e relata os problemas enfrentados por muitos deles, a dificuldade de se alimentar bem nessa época de quarentena, pois agora passa grande parte do seu tempo em casa. O volante também citou que o clube tem dado todo o suporte necessário para os atletas ficarem em casa e seguirem as recomendações necessárias. Atual artilheiro do Candangão e jogador do Real Brasília, Gilvan relata estar tendo problemas para lidar com a ansiedade durante a pandemia “Tudo isso que estamos vivendo deixa a gente triste, ansioso e sem saber o que vai acontecer. Parece que a cada dia que passa as coisas pioram.” Esse diagnóstico, infelizmente, está sendo comum entre as pessoas durante a quarentena. Segundo o The New England Journal of Medicine, o número de pessoas com ansiedade e depressão deve aumentar globalmente após o Covid-19. Problemas que também estão sendo enfrentados pelo zagueiro do Taguatinga, Daniel Felipe, de 23 anos. O zagueiro conta com a ajuda dele mesmo para não ficar com uma rotina monótona e se tem criado a sua própria rotina de treinamentos, já que cursa Educação Física, e tenta se adaptar à nova rotina, mas ressalva que não é a mesma coisa de estar unido com o grupo. “A gente sabe que não é a mesma coisa de estar ali com o grupo, todo mundo treinando, até porque em casa não tem como treinar tática.” Mas mesmo com toda essa ansiedade que algumas pessoas enfrentam por conta da pandemia e de ficar muito tempo em casa, o jogador relata que sempre busca o equilíbrio emocional, pois isso acaba 82
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lhe ajudando bastante em campo e disse que neste momento não chega nem a pensar no futebol “nem penso nisso pra falar a verdade, com essa pandemia”. O zagueiro da primeira divisão do futebol candango não tem enfrentado problemas em ficar tanto tempo longe dos gramados, onde ele relata que a grande maioria já está bastante acostumada com essas pausas. É exatamente o seu caso, onde aquele jogador raçudo e que comanda o time na parte de trás fica o restante do ano sem jogar, logo após o fim da primeira divisão. Algo que ele leva com bastante naturalidade, já que aproveita o seu tempo de férias longe dos gramados para poder estudar e aprender coisas novas. Outro xerife da zaga, Felipe, de 30 anos conta que sempre teve o apoio de sua família para se tornar jogador. Teve seu início nas categorias de base do Corinthians e após marcar um gol e se destacar na partida contra o Bologna, da Itália, o jogador foi chamado por ninguém menos que Roberto Mancini, treinador do grande clube europeu Manchester City. E agora estava do lado de grandes craques como, Yaya Touré, Tevez e Balotelli. Mesmo não tendo sido aproveitado na equipe principal e tendo pouquíssimas chances, isso acabou se tornando uma grande experiência por estar do lado de grandes jogadores e profissionais. Agora jogando pelo Sobradinho, clube da primeira divisão Brasiliense, Felipe comenta que nao esta sendo nada fácil enfrentar esse momento de pandemia, mas que vem fazendo trabalhos específicos com seu personal, como forma de amenizar e manter em dia os treinamentos.
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Pedro Ungarelli
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Microfones a postos
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Começa o jogo, a saída foi dada. Pouca movimentação nos minutos iniciais, todos parecem meios sonolentos. Opa! Erro na hora de tentar ligar a bola para o ataque, o time adversário começa o contra-ataque, eles já passam do meio de campo, a defesa está totalmente desarrumada, bola pela lateral cruzamento no área, o atacante está livre, ele chuta e… . Quem está sentindo falta dessa rotina não são somente os jogadores, ou torcedores, mas também aqueles que narram e comentam as partidas. Para José Duílio Filho, que trabalha como comentarista esportivo desde 2009, é como se estivéssemos aos 44 minutos do segundo tempo. “A COVID vai batendo a saúde por 3 a 0. É com você, Zé Duilio”, brinca. “E com méritos. Time que jogou de uma forma intensa desde o início da partida, com muita agressividade e vem demonstrando desde o início do campeonato que é o time a ser batido”. E como. Mas o coronavírus segue na frente.
Com essa situação, o brasileiro que está acostumado, durante o ano todo, com seus jogos de futebol toda quarta e domingo acabou ficando sem a emoção desse momento. E isso se torna pior para os profissionais da área do esporte, não é como se o mundo esportivo tivesse parado 100%. Acontecimentos como renovação do contrato de jogadores, administração financeira dos clubes estão parados. Há também um outro jogo em campo que coloca os comentaristas e narradores com assunto durante a parada. De um lado, os times que querem voltar aos treinos e, do outro, os que querem esperar a situação melhorar. Mas a emoção, a vibração dele se encerrou e para as pessoas que transmitem esse sentimento, os tão consagrados narradores e comentaristas esportivos, possui consequências. “A gente sente falta realmente e não é pouca não”, conta José Duílio. O comentarista ainda ressalta que a falta de ritmo atrapalha muito, “Imagina para o narrador que é terrível, mas o comentarista também sofre, perde um pouco do ritmo, o ritmo do rádio, o ritmo da TV”. Como um dos atuais comentarista da TV Bandeirantes e ex jogador de futebol, José Duilio já teve algumas realizações na sua vida, como realizar o sonho de toda criança que quer ser jogador de futebol de conseguir marcar um gol numa final, feito realizado em 2000 na final do Campeonato Candango contra o Gama, de acordo com ele “calando mais de 15 mil torcedores”, mas infelizmente o Gama se sagrou campeão, até como conseguir comentar in loco um título do seu time do coração, o Flamengo, quando a equipe carioca derrotou o Athletico-PR por 2 x 0 no Maracanã em 2013. Mesmo na quarentena, ele ia todo dia para o seu escritório, mas não o da Band, mas sim de uma ONG que traba-
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O dia a dia e preocupações das vozes do esporte Pedro Ungarelli
Danny Pança em uma transmissão pela TV Bandeirantes (Foto: José Duílio)
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lha com crianças que são soropositivas, projeto que integra há 12 anos, paralelamente com o da área esportiva. Depois de fazer o trabalho da ONG ele começa a estudar, “Pelo menos 2 horas de estudo. Olhando todos os sites, notícias, informações, ligando para fulano, beltrano, para sempre estar bem suprido para hora do programa ou no dia a dia”. De acordo com José essa rotina produtiva do jornalista esportivo é essencial nesse sentido, sempre estar lendo história e aprimorando o conhecimento. A transmissão de jogos em reprise foi uma forma muito boa para suprir um pouco essa falta de esportes, segundo os narradores e comentaristas entrevistados. Foi um “alento” como acham os comentaristas. Porém em Brasília é um pouco mais complicado fazer esses programas renderem, pois de acordo com Duílio. “ É um campeonato deficitário, com pouco público, poucos ouvintes que realmente acompanham o futebol de Brasília.” e para ele a capital precisa ter grandes jogos para voltar a realizar um trabalho de excelência. “Ter um Gama forte, um Brasiliense forte, ou outro time que queira investir. Tem que chegar pelo menos na série B, para a gente fazer um trabalho que é condizente com o que acontece fora do quadradinho”. Como aconteceu nas grandes emissoras que conseguiram transmitir a volta do campeonato alemão, que foi o primeiro torneio de relevância a retornar. “Então isso que é importante você dá continuidade ao trabalho, para não perder esse ritmo você tem que continuar fazendo jogos. Infelizmente o covid veio a atrapalhar.” Por conta do coronavírus os principais campeonatos esportivos do mundo, como futebol, basquete, baseball, vôlei e até mesmo as Olimpíadas, cujo a organização batalhou tanto para tentar mantê-la, acabaram sendo suspensos por 86
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tempo indeterminado. Esse tipo de paralisação não ocorre com tanta força desde a segunda guerra mundial, onde as copas do mundo de futebol, nesse período, foram canceladas e vários esportes sofreram, pois muitos dos seus atletas acabaram sendo convocados para participar da guerra.
Intervalo Fim do primeiro tempo! O time visitante vem batendo os anfitriões por 2 x 0 fora o baile. Os gols marcados por erros na defesa, e principalmente pela incompetência do técnico, que teima em manter um jogador que já provou não conseguir fazer nada em campo hoje. Então Danny o que você diz sobre o jogo. “Temos que tratar o covid de uma forma abrangente, inteligente e prática. Não podemos menosprezar a inteligência humana, muito menos o poderio do vírus.” Como um dos atuais comentaristas da Band, Danny Pança começou a trabalhar com esportes em 2003, pela Rádio Jovem Pan, e atualmente é um dos apresentadores do programa Donos da Bola Brasília. Responsável por comentar um dos campeonatos mais deficitários do país, ele afirma que os momentos mais especiais vieram dos grandes momentos do campeonato Candango, principalmente o título invicto do Gama em 2019, time pelo qual torce de coração. Porém, ao contrário do grande início que foi 2019, o ano de 2020 começou conturbado e, com a paralisação do esporte, isso o afetou bastante. “É muito complicado, por vezes a cabeça dá uma surtada e a nostalgia vem à tona. Uma triste situação para quem ama e vive do esporte”. Mesmo com sentimentos nostálgicos ele ainda acha as reprises uma chatice principalmente por não manterem as narrações originais. 87
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Pois bem, estamos chegando na reta final da partida e como diria o ditado é um “chocolate” para o time visitante, que está ganhando por 5 a 0 , mais que duplicando o saldo do intervalo, o time da casa foi para um tudo o nada no final do jogo e acabou sofrendo mais dois gols, era melhor ter ficado no nada, ou ter ficado em casa mesmo. Uma das maiores goleadas do campeonato até aqui. Então Bruno o que você pode dizer sobre o jogo “No primeiro momento os atletas, e dirigentes tiveram que ficar no seu isolamento social aprendendo com combater e prevenir o vírus. A gente achou que ele ia chegar de outra forma aqui, mas não foi, a gripezinha virou um monstro, uma pandemia, um pandemônio e o esporte realmente vai ter que mudar”. Bruno Mendes possui uma experiência considerável no mundo esportivo trabalhando a mais de 24 anos anos nesse meio ele relembra como era antigamente. “Antigamente a gente não tinha internet ou a gente pegava o resultado por telefone com outras rádios dos outros estados, ou colocava um rádio Transglobe na janela numa transmissão AM dos outros estados”. Começou a trabalhar em 98 com um microfone na mão como repórter na trajetória do Gama e apenas em 2004 que foi trabalhar com televisão na Record num programa chamado Segundo
Tempo. Hoje trabalha junto com Danny Pança no programa Donos da Bola na Band. Aparentemente o Gama tem um poder de influenciar os narradores e comentaristas candangos, pois mesmo sendo torcedor do flamengo e lembrar com carinho dos gols do Petkovic e Gabigol pela Libertadores da América, e até mesmo do título da seleção brasileira em 94, quebrando um jejum de 24 anos, ele ressalta que o seu maior momento como comentarista foi o acesso do Gama para a primeira divisão e sua trajetória em 98. “Eu não tinha nenhum elo de afinidade com o Gama, mas naquela época todo mundo torcia para o Gama por ser o Time da cidade”. “Para a gente que trabalha com esporte, ele parou. Companheiros nossos, quem não foi demitido, foi para outras áreas”. Mesmo com a pouca notícias acontecendo no mundo dos esportes Bruno e Danny preferiram manter o programa na Band. “Já como é um programa mais despojado deu para continuar. O pessoal já estava cansado de só ouvir notícia sobre o coronavírus a gente preferiu manter a programação para manter o entretenimento.”, e ainda ressalta que fez isso para as pessoas darem uma relaxada das suas estressantes. Com o dia a dia pouco alterado por conta da pandemia o comentarista continuo indo trabalhar todos os dias, principalmente para gravar os programas, mas diz que o mais difícil é encontrar notícias e que o programa de rádio foi reduzido de 14 minutos para apenas um boletim. Com a esperança do futebol nacional voltar no mês de julho Bruno Mendes acredita que do mesmo jeito que nossas vidas vão mudar com os cuidados de lavar a mão o futebol também vai. “Com os protocolos de segurança, um período de testagem que vai ser essencial para que to-
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O cotidiano dos esportes anda muito monótono e com Danny a situação não é muito diferente. “Um dia a dia triste e de muita resiliência”, mas alerta que a saúde vem em 1°lugar e possui um sentimento de precaução e preocupação com empregos, mas principalmente com o bem estar da população mundial.
Reta final
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dos os esportes possam voltar”. O comentarista ainda diz que o esporte faz muita falta, “As vezes a gente reclama que está trabalhando muito, que está fazendo um jogo de pouca importância, mas é aquela história que a gente só da valor quando perde”. Com um vazio grande, por esse período sem jogos, ele complementa, “O narrador vai ter que levar ainda mais emoção, porque vai demorar para o público voltar aos estádios, então vai precisar de mais emoção para entretê-los.” Chegamos ao fim do jogo (ou ainda um intervalo?). O resultado preocupa, mas ainda tem o jogo de volta. Bruno Mendes tem algo para acrescentar. “Ainda acho que vamos vencê-los em todos os jogos em todas as batalhas. A guerra ainda não terminou, ainda estamos numa batalha grande, mas tudo vai passar”. “Obrigado por acompanhar essa transmissão”. As vozes estão a postos e ansiosas para voltar a transmitir grandes emoções.
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Ao final, descobrimos que não é tudo o desigual. Até rimou, mas a vida não rima somente com sofrida. Tem como olhar o calendário além do hoje. Estudante de jornalismo gosta mesmo é de olhar de frente. Escreve ontem, hoje e no máximo amanhã no primeiro parágrafo. Mas o arquivo digital desse e-book tem mais do que as luzes que piscam no computador, mas também a vontade de aprender de uma moçada que encontrou mais do que o brilho na tela ou esperanças na janela. O texto não surgiu no teclado. Cadê o texto que estava aqui? As vivências nesse período de pandemia resgatam sobrevivências. É no resgate que está o texto? No humor e no choro, no esporte e na banca de jornal, nas esperanças profissionais e estudantis, na música que trata... razões, emoções, perspectivas. Dessas linhas feitas e refeitas no quinto semestre de jornalismo, nasceram reportagens de um grupo de estudantes que entende que inconformismo e esperança cabem na mesma frase. Se no começo, o grupo não imaginava se iria conseguir, estão aí as páginas para rolar. Quem já chegou até aqui, na contra capa, a última página, já foi possível observar o carinho, capricho sob inspiração do horizonte. São narrações a partir de um lugar que nenhuma foto consegue registrar. Todos os repórteres, ainda que na distância, se viram ao mexer nos textos uns dos outros. Cadê o texto feito à distância? Esses bons repórteres tornaram o longe aqui bem pertinho. Luiz Claudio Ferreira Professor de Edição e Cobertura Jornalística