Skip to main content

Livro "Por trás das máscaras: histórias de uma pandemia"

Page 1

Textos: Ana C. Wanzeller, Ana C. Botovchenco, Ana L. Duarte, Felipe Tusco, Gabriela Chabalgoity, Gabriela Gallo, Geovana Oliveira, Gustavo Choairy, Larissa Kurita, Lucas Junqueira, Lucas Neiva, Maiza Santa Rita, Mariana Fraga, Pedro Nery, Renata Goretti, Ricardo Ribeiro, Sofia Brandolff, Thalita Dias, Victoria Duarte e Vinícius Heck Organização: Luiz Claudio Ferreira


Por trás das máscaras: Histórias em dias de pandemia

UniCEUB, Estudantes de Jornalismo Ut

Por trás das máscaras / Estundantes de Jornalismo

Uniceub; orientador Luiz Cláudio Ferreira. == Brasília,

2020. ISSN 2594-6900

132 p.

1. Jornalismo. 2. livro-reportagem. 3. pandemia.

I. Título.

Centro Universitário de Brasília – UniCEUB SEPN 707/709 Campus do CEUB Tel. (61) 3966-1293 / 3966-1426


Por trás das máscaras: Histórias em dias de pandemia

UniCEUB Reitor: Getúlio Américo Moreira Lopes Vice-Reitor: Edevaldo Alves da Silva Secretário-Geral: Maurício de Sousa Neves Filho Pró-Reitora Acadêmica: Elizabeth Regina Lopes Manzur Pró-Reitor Administrativo e Financeiro: Gabriel Costa Mallab Diretor Adminstrativo e Financeiro: Geraldo Rabelo Diretor Acadêmico: Carlos Alberto da Cruz Diretor da FATECS: José Pereira da Luz Filho Diretora da FACES: Dalva Guimarães Diretor do ICPD: João Herculino de Souza Lopes Filho

Expediente Coordenação de Jornalismo: Henrique Moreira Professor responsável: Luiz Cláudio Ferreira

Equipe de alunos Editor de arte: Lucas Junqueira Editor de imagem: Ricardo Ribeiro Chefes de reportagem: Vinícius Heck e Geovana Oliveira Equipe de repórteres: Ana C. Wanzeller, Ana C. Botovchenco, Ana L. Duarte, Felipe Tusco, Gabriela Chabalgoity, Gabriela Gallo, Geovana Oliveira, Gustavo Choairy, Larissa Kurita, Lucas Junqueira, Lucas Neiva, Maiza Santa Rita, Mariana Fraga, Pedro Nery, Renata Goretti, Ricardo Ribeiro, Sofia Brandolff, Thalita Dias, Victoria Duarte e Vinícius Heck Capa: Bruno Bitencourt (Arte) e Ricardo Ribeiro (Foto)

Disciplina de Edição e Cobertura Jornalística Julho de 2020


Por trás das máscaras: Histórias em dias de pandemia

Sumário

1. APRESENTAÇÃO (6) 2. CARTA AO LEITOR (7) 1. PROFISSÕES EM LUTA (8)

‘‘O conhecimento é o antidoto do medo’’ (9) Microfone, máscara, distância e álcool em gel (16) Lentes, retratos e distância (26) A outra frente (30) Eles sonham estar na linha de frente (34) 2. CONFINAMENTO E GERAÇÕES

Idosos sozinhos (40) Idosos que não moram sozinhos (47) Há luz no isolamento (50) Um desafio para pais e filhos (64) 3. INCLUSÃO

‘’Nossos mãos são nossos olhos’’ (68) O isolamento de Aurora (74) Transtornos do Isolamento (78) Autismo na quarentena (84)


Por trás das máscaras: Histórias em dias de pandemia

Sumário

4. TÃO LONGE, TÃO PERTO

O tempo dos abraços perdidos (90) Como entender o individualismo (95) Sem abraços: os contrários ao isolamento (99) Uma (revira)volta olímpica (103) Fora de jogo (108) 5. NAS PERIFERIAS

Sol Nascente: a vida por um fio de água (115) Respeitável público, o espetáculo tem que continuar (124)


Por trás das máscaras: Histórias em dias de pandemia

Apresentação Até as primeiras décadas do século XX, especialmente no Brasil, o jornalismo tinha como principal característica a narrativa de um determinado fato com ênfase em seus aspectos mais humanos, mais pitorescos ou inusitados. Isso levava o jornalista a lançar mão de recursos estilísticos que aproximavam a notícia da literatura. Desde então, tal proximidade tem sido objeto permanente de interesse de escritores e jornalistas, empenhados em estabelecer limites e esclarecer a complementaridade entre a forma de escrever uma notícia e a de criar personagens e tramas fictícios ou não. José Peregrino, então presidente da Academia Brasileira de Letras, numa conferência em 1957, defendeu a tese de que “Jornalistas foram, são e serão, realmente, no Brasil, os que têm feito a literatura mais legítima e autêntica.” Por isso, ver o empenho de jovens alunos do curso de Jornalismo do UniCEUB na produção de reportagens que remetem às características fundamentais do texto literário é motivo de orgulho e de esperança. Orgulho por constatar que o Jornalismo é uma prática social que se reinventa permanentemente, sem perder suas referências mais importantes; e esperança, por enxergar nesses futuros jornalistas verdadeiros representantes de tudo o que o jornalismo sempre representou para a sociedade humana. Este livro-reportagem materializa o esforço de todo um semestre de pesquisa e produção de nossos alunos, que sob a orientação firme de seus professores da disciplina “Edição e Cobertura”, resgataram a essência do jornalismo literário, trazendo ao conhecimento do público leitor uma série de acontecimentos de notável intensidade dramática recolhidos durante um dos momentos mais críticos vividos nos últimos cem anos: a pandemia do Covid-19. Por isso, a minha satisfação em minimamente contribuir com esse projeto, cujos inspiradores são jornalistas do quilate de Euclides da Cunha (pioneiro do jornalismo literário no Brasil) e de Truman Capote, principal referência no jornalismo literário universal. Que orgulho. Professor-Doutor Henrique Moreira Coordenador do Curso de Jornalismo do UniCEUB

6


Por trás das máscaras: Histórias em dias de pandemia

Carta ao leitor São tempos difíceis. Máscara se tornou item obrigatório. Os programas do final de semana não passam do portão. Contra esse novo vírus, unir-se significa isolar-se. E, em meio à crise e ao caos social, há o jornalismo. Sempre tão importante como ponte entre fatos e público, tem a finalidade de prestar serviço, buscar verdades e também caminho para desmentir falsas informações. A verdade científica é mais forte porque tem sustentação, porém a propagação não é ágil como a das fake news. Entre robôs, redes sociais e pessoas mal intencionadas, mentiras contaminam e enganam a população. O jornalismo responsável socialmente surge como apoio aos mais vulneráveis e de discussões sérias para além do pânico que a doença instaurou. O jornalismo se faz a partir da procura da realidade. Cabe aos jornalistas divulgar não apenas os dados oficiais do número de infectados e mortos, como também, contar histórias e mostrar a realidade das pessoas que foram afetadas direta ou indiretamente pela pandemia. Jornalistas são profissionais que compartilham relatos tristes de morte, perda, dor, ou de amor, de solidariedade, saudade e de cura. Motivados pela importância do jornalismo e pela responsabilidade social dos jornalistas, neste momento, alunos do quinto semestre se empenharam em reunir relatos, histórias, experiências e vivências de quem está sofrendo na pele os efeitos da pandemia do novo coronavírus. Este livro, no formato de e-book, conta desde como artistas, atletas, crianças e idosos lidaram com a situação, reunindo também relatos de profissionais que estão na linha de frente contra a doença. Coloque a máscara, passe álcool em gel e aproveite a leitura.

Geovana Oliveira e Vinícius Heck Alunos-Chefe de reportagem

7


PROFISSÕES EM LUTA “No Brasil, os jornalistas estiveram ombro a ombro com a classe médica, com as autoridades sanitárias e mostrando o drama das vítimas do novo coronavírus. Esta é a razão pela qual as categorias devem lutar por um seguro de vida quando do exercício da profissão e, quando for o caso, por EPI.” (Luiz Martins, pesquisador de comunicação social em jornalismo)

8


Profissões em luta

“O conhecimento é o antídoto do medo” Foto cedida: Joédson Alves/EFE

A responsabilidade social do jornalista colocou o profissional da linha de frente no combate ao coronavírus, dizem especialistas

Geovana Oliveira

O

jornalismo é a história do presente, o primeiro rascunho da historiografia dos acontecimentos que atingem a sociedade. “A quarta-feira de cinzas começou com a sombra de uma doença perigosa em Brasília”. Essa foi a primeira frase que o jornal Correio Braziliense usou na primeira matéria, publicada no dia 27 de fevereiro sobre o coronavírus no caderno de Cidades. O texto escrito pelos repórteres Alan Rios, Mariana Machado, Agatha Gonzaga e Cibele Moreira, trazia a internação de quatro pacientes com suspeita de coronavírus no Distrito Federal. Em tempos de governos não transparentes, na era das fake news e pânico, o trabalho jornalístico ajuda a orientar a sociedade em meio aos acontecimentos, que são inéditos. Os jornalistas estão na linha de frente na luta, de uma forma específica, contra o coronavírus. Alan lembra de uma sessão de terapia em que a psicóloga com quem faz terapia lhe disse estar recomendando aos pacientes não ler tantas notícias ruins sobre o coronavírus. Mas que, por causa da profissão, não poderia atender ao pedido da profissional. ‘‘Nós, jornalistas, não te9


Profissões em luta

Geovana Oliveira

mos a opção de não ler as notícias ruins, de fugir da realidade”, relata. Em tempos de mundo hiperconectado, as informações são transmitidas em tempo real, por múltiplos canais. Por isso, pouco depois de declarar a pandemia de Covid-19, a OMS (Organização Mundial de Saúde) também indicou a existência de uma infodemia. Ou seja, a propagação de grandes volumes de desinformação, mentiras e rumores sobre o novo vírus, que causam confusão, pânico e ansiedade. E, por isso, o trabalho do jornalista mostra-se cada vez mais necessário em tempos assim. Em meio a tanta insegurança e instabilidade é fundamental fomentar a pluralidade e o debate das ideias, com informações verdadeiras e confiáveis, segundo especialistas no tema. A professora Luciene Agnez, representante da coordenação de formação do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (Sindijor DF), defende que a informação é essencial, mas o jornalismo profissional, com credibilidade, nunca teve tanta importância. Além disso, explica que o jornalismo é imprescindível para um momento como esse. “A própria definição do jornalismo enquanto atividade essencial já deixa isso claro. Eu vejo duas linhas de importância: o jornalismo de serviço, na prestação de serviço à população nesse cenário que de mudanças e indefinições, tentando traduzir a ciência, e o papel de destaque no combate à avalanche de desinformação, a chamada infodemia”. O professor Luiz Martins, pesquisador de comunicação social em jornalismo, avalia que durante a cobertura da pandemia do novo coronavírus os jornalistas estiveram “ombro a ombro” com a classe médica, com as autoridades sanitárias e mostrando o drama das vítimas do novo coronavírus. “O volume de informações foi criticado e, em dado momento, os jornalistas foram chamados injustamente de sórdidos, pois não houve sensacionalismo criminoso ou maldoso, mas, uma cobrança muito próxima das autoridades médicas e políticas, que se sentiram 10


Profissões em luta

Geovana Oliveira

pressionadas e tendenciosas, querendo direcionar a cobertura, para dar mais visibilidade aos sobreviventes do que aos mortos. Porém, não concordo que a imprensa tenha sido um antro de abutres, como às vezes querem caracterizá-la. Incomodar faz parte do papel dos jornalistas”. Profissional

O jornalista profissional tem um papel formador e de conscientização da população. E, por isso, a questão da responsabilidade social parece ser algo consagrado no meio jornalístico. A consagração talvez advenha do papel histórico da imprensa de ser tribuna para debates e instrumento para movimentos que culminaram em conquistas expressivas para a sociedade. Nesse sentido, documentos fundamentais dos profissionais de imprensa se destacam nesse assunto, como nos Princípios Internacionais da Ética Profissional no Jornalismo, texto obtido em debates promovidos pela Unesco, na década de 1980. Luiz Martins reforça que, especialmente em um momento como este, é necessária maior responsabilidade. “A imprensa livre e responsável é uma das instituições-garantia dos direitos do cidadão e uma das instituições formadoras de um sistema republicano e democrático”. O documento traz que: “Informação em jornalismo é compreendida como bem social e não como uma comodidade, o que significa que os jornalistas não estão isentos de responsabilidade em relação à informação transmitida e isso vale não só para aqueles que estão controlando a mídia, mas em última instância para o grande público, incluindo vários interesses sociais”. Ainda, segundo o documento, a responsabilidade social do jornalista requer que ele ou ela agirão debaixo de todas as circunstâncias em conformidade “com uma consciência ética pessoal”. Portanto, é responsabilidade do jornalista, ir a fundo na verdade e transmitir as informações 11


Profissões em luta

Geovana Oliveira

de maneira clara e objetiva para que todos tomem conhecimento. E, nesse cenário, a liberdade de expressão e o trabalho da imprensa profissional são fundamentais, fomentando debates com informações confiáveis. O também professor de jornalismo Sérgio Euclides Braga, pesquisador da área de ética na comunicação, afirma que dizer que o bom jornalismo é crucial em um momento como esse é chover no molhado. “De fato, acho que, com exceção de servidores da saúde, de servidores da limpeza, de servidores da segurança pública, que estão de fato, na frente lidando, especialmente, tratando dos contaminados e dos doentes, os jornalistas também estão na linha de frente”. E que além disso, estão atuando em um ambiente muito hostil. “Especialmente o jornalismo que se realiza principalmente através das fontes oficiais, das chamadas autoridades do poder público”. O especialista reforça que esse trabalho é crucial, principalmente, no sentido da orientação dos comportamentos da sociedade, das posturas frente à pandemia. Além disso, o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, de agosto de 2007 (1997), também apresenta o tema. No Artigo 2º explicita a responsabilidade social do jornalismo: “Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que: [...] III - a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão”. Ambos os documentos apresentados, Princípios Internacionais da Ética Profissional no Jornalismo e o Código de ética dos Jornalistas Brasileiros, caracterizam o jornalismo como atividade social e, de forma explícita ou implícita, também estabelecem uma relação entre esta responsabilidade social e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. E dessa forma, Luiz Martins explica que são várias as responsabilidades so12


Profissões em luta

Geovana Oliveira

ciais do jornalista. “Primeiramente, para com o seu decoro profissional, enquanto repórter; depois, para com o público, seu principal destinatário; seguinte, para com a informação enquanto elemento para o debate livre das ideias, por sua vez, insumo indispensável para o funcionamento de uma esfera pública política e para a formação de uma opinião pública”. Na rua

A repórter Thais Umbelino, também do Correio Braziliense, parafraseou o poeta e escritor americano Ralph Waldo Emerson “O conhecimento é o antídoto do medo” ao afirmar que: “neste momento, a informação é a principal arma para o combate do novo coronavírus”. As primeiras semanas de pandemia da covid-19 deixaram claro, mais do que nunca, a importância do jornalismo de qualidade para a sociedade. Thais reforça que cabe aos jornalistas divulgar não apenas os dados oficiais do número de infectados: “como mostrar a realidade da doença, limite de pessoas nos hospitais, dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde, saúde mental para enfrentar a doença e a realidade das pessoas que foram afetadas economicamente por precisarem ganhar dinheiro para conseguir comer”. Yasmin Perna, repórter da CBN, conta que chegou ouvir algumas críticas sobre como que estava ficando repetitivo: “matérias sobre como lavar a mão, sobre como higienizar os alimentos. Mas são assuntos necessários. O que para algumas pessoas pode ser repetitivo, para outras pode ser fundamental. Porque nós, os repórteres, estamos falando com uma audiência muito diversa. É nossa responsabilidade conversar com todas essas pessoas, tirar dúvidas de todas essas pessoas’’. Nesse sentido, o pesquisador Luiz Martins acredita que cursos de Jornalismo deveriam proporcionar mais aos alunos formação básica em ciência política e cursos de extensão para a população entender melhor o que é uma imprensa 13


Profissões em luta

Geovana Oliveira

e qual o seu papel na vida pública. A jornalista reforça que, de fato, é uma situação completamente nova: ‘‘a partir do momento em que chegou à nossa porta, percebemos que o jornalista tem um papel de questionar as autoridades. ‘O que está sendo feito?’ ‘Como que o país está se preparando?’ ‘Qual será a postura adotada pela secretaria de saúde?”. Mediador

Fabiano Andrade, repórter da Rede Globo reforça que o jornalismo sempre é importante, a qualquer momento. “Tenho visto que mesmo o pessoal que compartilha fake news sistematicamente, em momentos de aperto como esse, acaba recorrendo à imprensa tradicional. Porque sabe que tem fonte, sabe que foi um trabalho jornalístico de ouvir as pessoas e de filtrar a informação. Eu sempre confio no trabalho jornalístico. Acho que é fundamental para o enfrentamento, para a conscientização da população”. Entretanto, Fabiano Andrade acredita ser necessária uma linha de corte. Pois, em muitos casos, as notícias e informações divulgadas podem definir as ações da população. “Não é qualquer pesquisador ou qualquer pesquisa que pode ser divulgada como notícia”. O pesquisador Sérgio Euclides salienta que a responsabilidade da imprensa é informar. “Então se há diferentes pessoas defendendo diferentes posições, a imprensa tem que informar as diferentes posições. Mesmo que editorialmente os grandes veículos hoje se posicionem de determinada maneira. Só o fato de dar voz, dar espaço para os pensamentos diferentes, já é uma forma de disseminar posições contrárias. E isso termina, involuntariamente, criando confusão para a população”. Por exemplo, Fabiano lembra que no mesmo dia leu em determinado veículo acerca de uma pesquisa que “o isolamento social não adiantou de nada” e, em outro veículo, “graças ao isolamento social o 14


Profissões em luta

Geovana Oliveira

número é 10 vezes menor do que o projetado”. Diante de versões tão diferentes, ele entende que não precisa ser repetido a mesma informação. “Mas é importante dar ouvidos apenas a estudos que tenham sofrido revisões sistemáticas em suas teorias”, afirma. “Porque pesquisas em fases iniciais, coisas que estão começando podem cair por terra. O pesquisador ou especialista que vai tratar de determinado assunto tem que já ter avançado no estudo. Nesse momento, a imprensa, ao sair dizendo qualquer coisa de qualquer pessoa, pode estar realizando um desserviço. Até porque informação demais também faz mal, quando se trata de uma informação exagerada, informação sem filtro, sem critérios. Enfim, para que serve isso? É um serviço ou é só excesso de informação?”, questiona. Assim como Fabiano, Joédson Alves, fotojornalista que atua para a Agência Espanhola de Notícias Efe, com 26 anos de profissão, acredita que além de colher, apurar, mostrar e divulgar as notícias diariamente, o jornalista exerce uma espécie de contra-poder, cuja autoridade, delegada pela sociedade, lhe permite fiscalizar as instituições em nome do interesse público, realizar a função de ponte entre a população e as autoridades, publicando as informações oficiais. “Nós damos esse apoio para a população. Por meio de fotografia, vídeo, escritas, ou audiovisual. Você liga a sua televisão e consegue se informar de uma maneira relativamente boa e rápida. Essa é a importância do jornalismo nessa pandemia, de estar sempre presente e tentar fazer a coisa melhor possível”.

15


Profissões em luta

Microfone, máscara, distância e álcool em gel Foto cedida: Joédson Alves/EFE

Nas ruas, os profissionais revelam rotina mais complexa e buscam tomar cuidados extras com a doença e a violência

Ana Clara Botovchenco

À

porta do Palácio da Alvorada, em frente a hospitais, diante de famílias que acabaram de perder alguém, ou em pleno cemitério acompanhando o enterro para conseguir imagens... Os primeiros meses da cobertura jornalística da pandemia do coronavírus foram desafiadores para o profissional de imprensa. Assim como o número de infectados não para de aumentar, a necessidade de informação é ainda maior em momentos como esse do que o normal. Essa necessidade pode ser percebida no aumento na audiência nos telejornais, principalmente os da Rede Globo. Segundo dados do Ibope para a Grande São Paulo, o Jornal Nacional, maior jornal da emissora, no dia 28 de maio, conseguiu atingir 31,2 pontos de média (equivalente a quase 6,3 milhões de telespectadores), se tornando o jornal mais assistido na TV aberta. Dessa forma, percebemos que o trabalho do jornalista não pode parar ainda mais em momentos de crise como essa. Considerados profissionais de serviço essencial, os comunicadores viram as diversas mudanças que aconteceram no “fazer jornalístico” por conta da pandemia do novo coronavírus. Na verdade, 16


Profissões em luta

Ana C. Botovchenco

transformações profundas que já datavam da revolução que internet impôs à atividade. No caso do período de isolamento social essas mudanças foram graduais, de acordo com as recomendações dadas todos os dias pelo Ministério e outros órgãos de gestão da saúde pública. O repórter Alan Rios, 24 anos, do jornal Correio Braziliense, disse que a primeira medida tomada foi evitar ir para Hospital Regional da Asa Norte (HRAN) para apurar número de contaminados e óbitos. Essa seria uma ação comum em caso de uma outra crise sanitária, mas não dessa vez. Nas redações, foram disponibilizados pontos de álcool em gel. “Com o avanço de casos suspeitos no país para as confirmações, também reduzimos o número de entrevistas na rua e aderimos às máscaras. Depois, começaram a surgir os óbitos pela infecção. A partir de então, especialistas e governos decretaram que o isolamento social era a atitude mais recomendada para o momento, e passamos a trabalhar em regime de home office”, relembra o jornalista, formado em 2018, sobre o dia 18 de março, data em que o governador do Distrito Federal decretou fechamento de comércios e o isolamento social. Na telinha

E essa mudança não aconteceu só em jornais impressos ou digitais. A rotina na TV Globo também foi abrupta. A jornalista Natália Godoy, 30 anos, âncora do jornal Bom Dia DF, contou que as reuniões de pauta agora são feitas por meio de vídeo chamadas, após o fim do jornal, às 8h30. “Antes eu ficava aqui [na redação]. A gente tinha reunião de pauta, falava sobre o jornal do dia seguinte, mas aí, agora a reunião de pauta é por home office. Então, a gente se reúne por esses sites de videoconferência, cada um na sua casa, para poder minimizar esse tempo de aglomeração aqui [na redação]”, relatou a jornalista que tem oito anos de carreira profissional. 17


Profissões em luta

Ana C. Botovchenco

Segundo Giuliana Morrone, 53 anos, jornalista também da Rede Globo, a rotina tem sido bem criteriosa dentro da redação. “A sensação que eu tenho às vezes é de como se eu fosse uma astronauta na lua: é tudo mais lento. Então eu tenho chegado bem mais cedo na redação porque não dá pra chegar na redação, ligar o computador e já acessar o sistema, já começar a digitar. Não dá pra ser assim. Tem que ser tudo com muita cautela, com muito mais cuidado”. Além disso, a profissional, que tem 31 anos de carreira e trabalha no jornal Bom Dia Brasil, afirmou que sua editora, por estar amamentando, está de home office. “Ela está em casa, tem uma ilha de edição que foi montada em casa pra que ela possa trabalhar”. E essa não foi a única medida tomada pela Globo Brasília. Todos os materiais, como microfones e pontos de ouvido, são higienizados constantemente com álcool e os funcionários precisam estar com máscaras. Natália disse que os únicos que podem aparecer no jornal sem máscaras são os âncoras do jornal, porém é só enquanto o programa está no ar. O jornalista Fabiano Andrade, 35 anos, também da TV Globo, garante que todas as precauções foram tomadas no mesmo ritmo em que a gravidade da pandemia aumentava. “Dentro da redação não pode mais sentar um do lado do outro, tem que pular um computador para manter uma distância. Eles entregaram álcool isopropílico para borrifar nas mesas, limpar computador, telefone, tudo antes de usar”, ressaltou. Ele acrescenta que, ao fazer reportagens e entradas ao vivo da rua, é obrigatório o uso de máscaras desde que o decreto do governador de Brasília, Ibaneis Rocha, tornou indispensável a utilização do equipamento em todos os espaços públicos. “Só não entra de máscara quem está no estúdio, pois o estúdio é um ambiente fechado e controlado, e aí dá para não usar. Mas na rua é o tempo inteiro a gente suando com a máscara”. Fabiano Andrade explica que evita ir ao máximo para a redação para não contribuir com possíveis aglomerações. A emissora criou 18


Profissões em luta

Ana C. Botovchenco

um programa que foi ao ar entre 17 de março e 22 de maio de 2020, chamado “Combate ao Coronavírus”, que visava a informar a população sobre os cuidados que devem ser tomados para evitar a proliferação do vírus. Com esse programa, Fabiano Andrade conseguiu fazer home office e não ir para a sede da Globo em Brasília. Além de trabalhar nesse programa, Fabiano ainda aparece nos jornais DF TV Primeira Edição e Jornal Hoje, todos com entrada ao vivo. A locomoção é feita com o carro próprio. “Eu consigo fazer tudo isso indo do meu carro para evitar o máximo ter contato com mais gente ou ficar circulando na redação no ambiente que tem algumas partes fechadas”. Mudou a pauta

Essa é uma das maneiras que muitos jornalistas têm se adaptado para continuarem a “fazer jornalismo”. O foco das matérias hoje também tem sido o coronavírus, deixando outros assuntos de lado. Yasmin Perna, jornalista da rádio CBN, fazia cobertura de trânsito. A pauta, em dias de isolamento social, não é tão requisitada. “No CBN Brasília, a gente acabou deixando de cobrir trânsito, por exemplo, com tanta ênfase. Matérias policiais a gente acaba tirando um pouquinho o foco também para focar esforços na questão da pandemia”, disse. Ademais, ela relatou que os meios jornalísticos têm evitado enviar jornalistas para coletivas de imprensa presenciais “para preservar o seu funcionário e evitar expor os repórter em situações que não forem realmente necessárias”. Por trabalhar em um radiojornal, Yasmin percebe que existem menos problemas e dificuldades de home office em seu veículo, se comparar com telejornais. “Nós temos essa vantagem que a gente consegue conduzir uma matéria de casa, porque fazemos uma entrada pelo telefone, aspiração muda um pouco, mas também é possível fazer pelo telefone. Podemos li19


Profissões em luta

Ana C. Botovchenco

gar para a fonte pelo telefone, gravar pelo telefone, editar pelo computador. Adaptamos um pouco a rotina mas dá para fazer de casa”, complementou. Meios jornalísticos, além de tomarem medidas preventivas nas redações, estão dando máscaras e materiais necessários para a proteção de seus profissionais. Esse é o caso da agência de notícias espanhola EFE, onde o fotojornalista Joédson Alves trabalha. Na profissão há 26 anos, Joédson esclarece que a agência, que tem sede em Madrid, viu a crise do coronavírus de perto, quando a Espanha estava em seu pico. “E por conta disso, ela [agência EFE] criou um padrão de segurança mundial. Então eu trabalho com dois pares de luva, a máscara, e essa máscara de acrílico também pra me proteger, mais o álcool em gel”, relatou. Joédson acrescenta que, ao chegar em casa, ele não vê ninguém, para evitar o contágio. “Eu tenho quatro filhos. Então aqui em casa, eu sempre chego beijando e abraçando todo mundo e minha mulher. Com essa nova fase na vida de todos nós, isso foi de cara retirado”, lamenta. “Eu vou pro fundo da casa, tiro toda a minha roupa e dali eu já sigo direto pro banho. Tomo banho, enquanto isso, a minha roupa é jogada na máquina de lavar roupa pra ela já ir sendo desinfectada. Aí eu volto e faço a higienização do meu equipamento”. Antipânico

Além da nova rotina, jornalistas tiveram que adaptar a forma que trabalham, como a apuração de dados e contato com fontes. Alan Rios contou que no início da pandemia todas as palavras eram cautelosamente pensadas, pois dependendo de como os jornalistas e os jornais decidissem abordar o assunto, o pânico poderia tomar conta da população. “Me pergunto como estaria a saúde mental dos brasileiros hoje, se desde os princípios das matérias jor20


Profissões em luta

Ana C. Botovchenco

nalísticas sobre o tema tivesse adotado um tom alarmista”, ponderou. Alan Rios testemunha que as entrevistas e a dinâmica de fazer as reportagens mudaram drasticamente. “Acredito que uma das melhores formas de produzir notícias e ter contato direto com a rua, ouvir quem está lá, sentir o que está acontecendo, olhar no olho do entrevistado e captar coisas que a distância dos telefonemas de dentro da redação não conseguem. Porém, tivemos que abrir mão disso tudo em prol da nossa saúde e da saúde dos entrevistados”. A jornalista Yasmin Perna relata que a apuração das notícias tem se tornado um pouco mais difíceis e que o processo de produção mudou bastante. Perna contou que, em situações normais, ela saía, perguntava o que as pessoas achavam da situação, e conversava com a polícia para saber se estava tendo fiscalização. “Agora em uma situação de pandemia você se vê impedido um pouco de conversar com essas pessoas e tendo que tomar uma série de cuidados”, lamentou. Thaís Umbelino, do Correio Braziliense, acredita que, apesar do distanciamento e do home office, tem conseguido produzir matérias bem completas e com o mesmo nível que antes. “No home office, as entrevistas são feitas por telefone, o que a deixa mais pobre, mas tento suprir ao máximo com perguntas detalhadas sobre o personagem, vida pessoal, rotina, entre outros”. Riscos

A preocupação com a segurança do profissional tem sido tema bastante conversado entre o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal e as empresas jornalísticas. Luciene Agnez, representante da coordenação de formação do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (Sindijor DF), disse que o sindicato tem mostrado a importância dos materiais 21


Profissões em luta

Ana C. Botovchenco

de proteção para as empresas, além do “alerta à importância de que esses trabalhadores que não podem estar em home office, que precisam estar nas ruas ou nas redações, que tenham condições seguras de trabalho”. Segundo um levantamento feito pela ONG Press Emblem Campaign (PEC), pelo menos 127 jornalistas morreram de Covid-19 em 31 países, entre 1º de março e 31 de maio. A pesquisa ainda aponta que a América Latina é a região mais afetada, com 62 mortes, dentre elas 13 no Brasil. A ONG apura esse dados com associações locais e meios de comunicação de cada país, além de jornalistas correspondentes da PEC. O professor de jornalismo Sérgio Euclides Braga, pesquisador da área de ética na comunicação, também reconhece que, apesar das dificuldades, os jornalistas estão conseguindo mostrar um resultado exemplar. “A imensa maioria dos jornalistas está trabalhando em condições reconhecidamente difíceis e eu acho que estão fazendo um bom trabalho”. Além das medidas tomadas pelos jornalistas citados, a Global Investigative Journalism Network (GIJN) produziu uma espécie de manual para o jornalistas do mundo inteiro de como cobrir a pandemia do novo coronavírus. Nesse documento, é ressaltado que os jornalistas precisam evitar o uso de palavras alarmistas e ter ainda mais empatia pelas famílias das vítimas da Covid-19. O manual está todo em inglês, mas a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) fez uma tradução e ainda acrescentou uma seção com dicas para os jornalistas brasileiros, com algumas fontes confiáveis para consulta. As dificuldades dos jornalistas brasileiros não incluem só a proteção contra o novo coronavírus. O cenário político e econômico vem trazendo inseguranças para o trabalho jornalístico. Os ataques à imprensa e à seus trabalhadores têm aumentado cada vez mais. Joédson Alves recorda que já passou por situações bem constrangedoras, ao ser colocado em uma posição por causa do veículo em que trabalha. “Pediram 22


Profissões em luta

Ana C. Botovchenco

minha identificação, e as identificações minhas e de todos os jornalistas são de ficarem amostras. Identificaram, eu me identifiquei, tiraram foto do meu crachá, quando eu falei que trabalhava na Agência EFE, da Espanha, alguém falou ‘Mas a Espanha é esquerda’. Então acabou, você não tem muita opção. Se é de esquerda, de direita, se é amarelo ou vermelho, se os caras quiserem te bater, eles vão te bater”, relembra. Joédson citou ainda o caso do fotojornalista do Estadão Dida Sampaio, que em uma manifestação pró governo Bolsonaro em Brasília, foi agredido com chutes, empurrões e socos enquanto trabalhava. “Você não consegue fazer um trabalho relativamente normal, dentro de uma situação dessa de protesto. Você sempre está sobre ameaça: ameaça nos olhares, ameaça nas palavras, ameaça em todos os tipos e sentidos”, criticou Joédson. Dida não foi o único a sofrer com apoiadores radicais do governo bolsonarista. A fotojornalista Gabriela Biló teve seus dados pessoais, como RG, CPF e endereço, divulgados em uma conta no Twitter. Em sua conta do Instagram, Biló fez um apelo aos seus seguidores, pedindo que eles denunciassem o tweet, além de falar que medidas de segurança já estavam sendo tomadas por ela e pelo jornal O Estado de S. Paulo, onde trabalha. Para a jornalista Yasmin Perna, esses ataques à imprensa partindo de apoiadores do governo e de pessoas do próprio governo são assustadores e antidemocráticos. “A partir do momento que você manda um jornalista calar a boca, sendo que ele está exercendo o papel de perguntas, você está atacando a democracia. É muito triste quando a gente vê esse tipo de discurso partindo das autoridades e nós temos observado uma escalada nesse discurso agressivo contra a imprensa”. Yasmin, no entanto, faz uma ressalva, dizendo que, apesar do discurso autoritário, o jornalista “não vai deixar de fazer pergunta, de fazer o seu papel com qualidade, de tocar em temas espinhosos, porque isso faz parte da profissão”. A fala de Yasmin Perna é respaldada pelo professor e pesquisa23


Profissões em luta

Ana C. Botovchenco

dor de comunicação social em jornalismo da UnB, Luiz Martins, que vê as agressões aos jornalistas como antidemocráticas e “perpetrados por pessoas ignorantes quanto ao papel da imprensa num sistema republicano e democrático”. Ele ainda criticou a conversa entre o Jair Bolsonaro e uma apoiadora na frente do Palácio da Alvorada. “Patético o diálogo publicado entre uma admiradora e o Presidente Bolsonaro, ela sugerindo mais atenção da Secom da Presidência para com a imagem do Brasil no exterior, ao que ele responde, a mídia mundial é comunista”. Sérgio Euclides afirma que o atual cenário e governo é extremamente hostil para os jornalistas. “Essas mulheres, esses homens que estão saindo de casa para fazer a cobertura nas ruas, obviamente, esse pessoal corre risco, sem dúvida alguma. Além de estarem enfrentando condições adicionalmente difíceis, como se não bastasse a pandemia e a aflição das pessoas com a situação toda, você ainda tem que lidar com pessoas que podem te agredir a qualquer momento”. O jornalista Fabiano Andrade lamenta que autoridades do governo criminalizem as informações dadas por jornais e, ao mesmo tempo, disseminem fake news. “Isso tudo é um deserviço gigantesco que é prestado para a população. Uma guerra que é travada com o jornalismo profissional que não precisava existir”. Para ele, os jornalistas estão apenas tentando “conscientizar para prevenir a questão da disseminação do vírus para que isso passe logo”. As agressões não são o único problema fora do contexto do novo coronavírus. O número de demissões nos mais diversos setores tem assustado os trabalhadores, e os jornalistas temem por isso. Segundo o Sindijor DF, “foram poucos episódios de demissão nesse período da pandemia. Mas existem propostas de redução de jornadas e de redução de salários, dentro do que a MP permite neste momento”. A medida provisória citada é a de número 936, que permite que as empresas reduzam 25%, 50% 24


Profissões em luta

Ana C. Botovchenco

ou 70% do salário e da jornada dos funcionários, preservando o salário-hora, por 90 dias, além de permitir a suspensão do contrato de trabalho de forma temporária por 60 dias. O sindicato ainda tem conversado com as empresas para ressaltar que “o jornalismo é uma atividade essencial, está sobrecarregado de trabalho” e que os trabalhadores dessa área não precisam ter mais uma preocupação, como uma possível demissão. Uma pesquisa feita pela Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), divulgada aqui no Brasil pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), apontou que pelo menos 61% dos jornalistas brasileiros tiveram um aumento de ansiedade e estresse, durante a pandemia. Além disso, quase 60% dos 295 jornalistas brasileiros que responderam a pesquisa, afirmaram que tiveram redução salarial de acordo com a MP 936. Outro dado alarmante que interfere no produto que o público recebe é que quase 16% dos jornalistas afirmaram não ter equipamentos de proteção para trabalhos externos.

Jornalistas Fabiano Andrade e Natália Godoy em seus locais de trabalho

25


Profissões em luta

Lentes, retratos e distâncias Foto: Diego Vara/Arquivo Pessoal

Como fotógrafos experientes que trabalham no Distrito Federal se inspiram para atuar na quarentena

Ricardo Ribeiro

O

mundo pode parar. Mas se parar, quem vai fotografá-lo parado? A luz continua viva e é a matéria prima da fotografia e objeto de trabalho dos fotógrafos. São eles, segundo a família Marques, de grandes fotojornalistas, os caçadores de luz. E na busca incessante pelo menor dos feixes onde se faça possível um registro fotográfico, o breu. É como se o diafragma da câmera que capta o mundo de fora se fechasse e tornasse o ano de 2020 o mais obscuro que um obturador pode capturar, instaurando uma pandemia. É nas incertezas do novo coronavírus, e na necessidade do registro dos fatos que o trabalho de fotógrafos e fotojornalistas ao redor do planeta se mantém e se faz de enorme valia e contribuição histórica. Uma profissão instigante e desafiadora, que segundo Robert Capa, célebre fotógrafo de guerra, clama pela imperfeição. Se uma fotografia está completamente focada, com a exposição e a composição perfeitas, o profissional teve condições suficientes para isso. Há de ser desconfortável, há de ser desafiador. A busca da foto perfeita em meio ao caos é inversamente proporcional à zona de conforto do foto26


Profissões em luta

Ricardo Ribeiro

jornalista. Da mesma forma, em meio a uma maré um pouco menos turbulenta, os fotógrafos artísticos se deparam com uma dificuldade maior do que qualquer direção de ensaio, locação ou condição de iluminação: a distância física que os separam de seus modelos. Tecnologia, paciência e criatividade cruzam-se dentro das mentes de cada um deles com o objetivo de se reinventar durante o período de isolamento social. “Quinze para as sete. Aqueço meu carro e vou para o Alvorada. Todos os dias”. O trabalho do fotojornalista Orlando Brito está pautado nas ações do presidente Jair Bolsonaro, e essa é a rotina religiosamente cumprida por Orlando em meio à pandemia. “O vírus fez com que as reuniões que nós cobríamos fossem canceladas. Então eu preciso garantir as fotos do dia na primeira aparição do presidente na saída do Palácio”. Aos domingos, a aproximação dele com os apoiadores na Praça dos Três Poderes, na região central de Brasília, é o grande “ponto de ouro” desta cobertura. Há uma profusão de imagens. Para Brito, o momento de pandemia proporciona a criação de um material muito forte e produtivo. “A gente fecha o olho e clica. O que sair, vai sair bom”. Durante esse momento turbulento causado não só pelo vírus, mas pela conjuntura política do país, profissionais da imprensa foram repetidamente agredidos em meio às manifestações pró-Bolsonaro. Aconteceu com Orlando. Mesmo com 54 anos de carreira jornalística, o assombro é inevitável: “É terrível. Nem em 1968 eu vi isso. Nem no Exército do Costa e Silva e no período Médici, que foram períodos muito sombrios. Naquela época você tinha dois lados: nós e eles. E hoje, você tem esse terceiro lado, que é esse pessoal da torcida, dos apoiadores. É muito desagradável”. São tempos que exigem a bravura de muitos profissionais, a cooperação de outros e a compreensão de todos. A atuação dos fotojornalistas ao encarar inclusive fisicamente o vírus remonta aos períodos de Revolução do Fotojornalismo: na primeira, com a expansão das agências indepen27


Profissões em luta

Ricardo Ribeiro

dentes e posteriormente, na segunda, quando o noticiar por meio da fotografia se transforma numa máquina de profusão de conteúdos, sempre no front dos fatos, muito pautado pela Guerra do Vietnã. Para o professor de fotojornalismo Lourenço Cardoso, a história nesse momento reforça para esses profissionais qual é o papel deles na sociedade. “Eles se vestem com as proteções comuns de quem está lidando com a linha de frente do conflito, que é a área médica e produzindo imagens. São situações que só eles, e nos casos das guerras, os soldados e jornalistas enfrentavam. Agora só profissionais da saúde e jornalistas, em especial, fotojornalistas”. São esses verdadeiros soldados da informação que transpõem os olhos de cada um da sociedade para a cara do problema. Com a ajuda deles, se vê o bem, se vê o mal e se vê até o impacto que algo invisível a olho nu como um vírus, tem na população. O fotógrafo Diego Vara, da Agência Reuters no Brasil, é um dos que optou por adentrar leitos de hospitais e UTI’s no Rio Grande do Sul. Cada bipe de seu celular injeta uma nova dose de adrenalina nas veias. Isso porque as notificações pautam o trabalho de Diego, sejam de seu Twitter, das emissoras de rádio ou dos portais que noticiam a pandemia, basta uma informação para que ele se desloque para o local da pauta. Desde o início do isolamento social, em março, Vara produziu fotografias que retratam o árduo e glorioso trabalho dos profissionais da saúde em meio à pandemia. É sensível. E principalmente delicado. Diego chega a fotografar, o triste fim de alguns pacientes. Para o gaúcho, esse é um dos principais obstáculos desse tipo de cobertura, além do iminente risco de contágio do vírus: “o fato de algumas vezes “invadirmos” um momento de tristeza de familiares de doentes ou vítimas da Covid-19 para registrar o que acontece. Sempre é um processo muito delicado e que requer muito respeito, compaixão e diálogo”. Para ele, a empatia é fundamental, e o momento é proveitoso para os fotojornalistas. Na análise do professor Lourenço, é possível observar 28


Profissões em luta

Ricardo Ribeiro

que este momento é um marco histórico. Mesmo que não exista um processo revolucionário como a inserção da fotografia digital e da transmissão simultânea de dados durante a Terceira Revolução do fotojornalismo, todas as características do fotojornalismo que foram estruturadas ao longo da história se condensam em um único evento de amplitude global. Ou seja, a atuação das agências de notícias, o contato direto do fotógrafo no front e os instrumentos de transmissão online da informação. A pandemia e o efeito solitário provocado propiciam momentos de observação do trabalho de cada fotógrafo e a necessidade de se reinventar em meio as condições possíveis. O jornalista Gustavo Gomes “Minas”, que trabalha em Brasília e se especializou em fotografias de rua, tem um trabalho pautado em cenas do cotidiano. Os vai-e-vens dos trens, os sobe e desce dos ônibus, os passos de um ambulante pelo centro da capital federal, por exemplo são recorrentes nas composições. Assim, é quase instintivo pensar que é impossível manter um trabalho desse tipo com ordens instauradas de isolamento social. Mas a fotografia é uma constante profusão de reinvenções. Gustavo aprendeu a transformar a simples caminhada de todos os fins de tarde com a filha pequena em um leque de possibilidades para fotografá-la. Esses momentos menos “perigosos” guiam o olhar do fotógrafo para uma nova percepção dos espaços de Brasília: “Eu nunca saio de casa com uma ideia pré-concebida do que vou fotografar. Eu vou andando e procurando algum lugar que nunca fui. Eu gosto de andar e ser atraído pelas coisas”. Da mesma forma que Gustavo descobriu novas texturas brasilienses, uma pandemia, e todo o fator de novidade que ela carrega, nos faz repensar nossos hábitos, nossa convivência, nossos laços familiares, nossas convicções e até o nosso trato com o meio ambiente. E por mais que junto dela venham também inúmeros adjetivos, as câmeras nas mãos dos profissionais da fotografia registrarão por meio da luz. 29


Profissões em luta

A outra frente Alteração nos formatos de atendimento e falta de preocupação dos pacientes desafiam unidades públicas de saúde

Lucas Neiva

A

pandemia de Covid-19 colocou as Unidades de Terapia Intensiva (UTI) no centro das atenções no combate ao vírus nos hospitais. Os profissionais desses setores estão constantemente expostos ao contágio, recebendo pacientes que sofrem com as formas mais graves da doença. Mas as dificuldades e mudanças impostas pelo Sars-Cov-2 aos médicos intensivistas não representam a totalidade do dano provocado pela pandemia ao sistema de saúde, mas sim a mera ponta de um iceberg representado por todas as mudanças no atendimento médico dos demais setores. As mudanças impostas pelo vírus atingem desde o trabalho do médico intensivista dos grandes hospitais ao trabalho dos profissionais de postos de saúde. É o que relata o médico Álvaro Luis Colusso de 55 anos, ginecologista do Centro de Saúde nº1, na Asa Sul, posto especializado em receber pacientes portadores de HIV. Assim que a pandemia começou, Álvaro sentiu seu efeito ao ver a alteração no número de pacientes. “Caiu bastante no primeiro momento, depois começou a voltar. As pessoas se assustaram no início, e fizeram o isolamento social, mas com o passar dos dias acabaram achando que não teria problema sair e começaram a aparecer”, relata. O retorno do crescimento do número de pacientes representa uma despreocupação destes com o risco de contágio, que permanecia o mesmo. A forma como o centro de saúde lida com a chegada dos pacientes também foi alterada com a pandemia. Muitos pacientes se recusaram a aceitar as imposições criadas pelo risco do contágio. “Tivemos que criar 30


Profissões em luta

Lucas Neiva

uma espécie de cultura. Havia muita aglomeração principalmente no corredor de espera. As pessoas sentavam muito próximas umas das outras, e nós tivemos que criar limites, fomos obrigados a solicitar ajuda à vigilância para estabelecer marcações no chão e ao mesmo tempo ficar cuidando para garantir com que obedeçam o distanciamento”, narra o ginecologista. A pandemia também afetou a realização de exames. “Como eu sou ginecologista, antes eu usava a mão livre para examinar as pacientes, salvo em exames específicos que exigiam mais proteção. Para exames de mama, por exemplo, a recomendação é usar a mão livre para que o tato não seja comprometido. Mas em função da pandemia, passamos a ter que adotar a luva”, narra Álvaro. Vila Planalto

Na Vila Planalto, a pandemia trouxe efeito imediato na quantidade de pacientes que frequentavam a Unidade Básica de Saúde nº3 (UBS3). “No início eles continuavam vindo normalmente ao Centro de Saúde. Mas quando viram que não estávamos mais realizando exames de rotina e aumentaram as notícias na mídia, automaticamente pararam de frequentar a UBS”, narra a nutricionista da unidade, Regina Barros, de 43 anos. Mas assim como foi relatado por Álvaro, Regina lamenta que a preocupação dos pacientes em manter o isolamento social durou pouco. “A procura por atendimentos de rotina na Unidade aumentou. Ou seja, já estão perdendo um pouco o medo do contágio”. A rotina dos profissionais na UBS-3 foi alterada assim que a pandemia chegou em Brasília. Os cuidados para evitar o contágio começam assim que chegam no ambiente de trabalho. “Quando chegamos para trabalhar, imediatamente já nos paramentamos com máscara, gorro e jaleco. Os que atendem casos suspeitos usam, 31


Profissões em luta

Lucas Neiva

além desses, o capote, luvas e óculos. Além disso, a frequência de higienização das mãos aumentou muito. E evitamos ficar próximos uns dos outros, principalmente dos pacientes”, explica Regina. As precauções, segundo a nutricionista, também se mantêm ao sair do local de trabalho, e se estendem ao chegar em casa. “Muitos colegas optam por trocar de roupas e calçados antes de ir embora. Quando chegamos em casa, o banho é imediato”. A rotina de trabalho na UBS-3 foi duramente afetada. O vírus impede a realização de atendimentos em grupo e de matriciamentos (treinamento de profissionais da unidade para situações específicas). As visitas individuais e domiciliares, apesar de não estarem extintas, são realizadas em uma quantidade muito menor do que antes. “Essas tarefas faziam parte da nossa rotina de trabalho”, lamenta Regina. Samambaia

Na Unidade Básica de Saúde nº 2 (UBS-2), em Samambaia, os profissionais e os pacientes adotaram mudanças de comportamento para evitar contaminações, seguindo à risca as recomendações da Secretaria de Saúde e do Ministério da Saúde. É o que narra a residente-gestora de 27 anos da unidade, Gabriela Veiga. O fluxo de pacientes foi organizado para impedir o excesso de circulação ou aglomerações dentro do posto. Os pacientes são interceptados pela equipe de atendimento ainda na porta, e guiados conforme o protocolo de atendimento. Os pacientes sintomáticos respiratórios são enviados a uma sala externa, apelidada pelos funcionários de “covidário”. “É muito organizado. Os profissionais são conscientes e têm noção de coletividade e de co-responsabilidade”, afirma Gabriela Veiga. Os pacientes não resistem às normas de prevenção, pro32


Profissões em luta

Lucas Neiva

curando cooperar com os profissionais da unidade, relata a residente. “Os pacientes usam as máscaras de pano e buscam o álcool em gel. Chega ser bonito de ver, eles respeitam as marcações de distância no chão e respeitam as orientações dos profissionais”. Mas mesmo com os cuidados tomados por todos na unidade, alguns profissionais não conseguiram fugir do inevitável. “Tivemos três colegas infectados, todos da mesma equipe. Logo em seguida, todo o posto foi tipado com testes rápidos”, narra a profissional.

33


Profissões em luta

Eles sonham estar na linha de frente Vestibulandos buscam se adaptar à rotina para ter chance de entrar no curso de medicina

Ana Luiza Duarte

N

ão é mentira quando falo que, ao menos uma vez na vida, já ouvimos nossos pais declararem as expectativas sobre o futuro profissional. Sobre o desejo de seguirmos a carreira de engenheiro. Ou advogado. Ou médico. Quem decidir pelo curso da área de saúde tem um percurso complexo de alta concorrência, mensalidades elevadas e muita expectativa. Em um país em que o prestígio para os que optam por estudar Medicina é grande, a pressão para quem está estudando para passar ou já está no curso pode ser gritante, ainda mais em tempos de pandemia. No caso da estudante do 3º ano do Ensino Médio da rede pública de educação, identificada apenas como Cláudia, de 18 anos, fazer o curso de Direito era um sonho de infância. Tudo mudou quando foi atendida em um hospital de Brasília e não recebeu o que ela acreditava que seria a atenção devida. Ao entrar no hospital, a estudante se surpreendeu com o que viu. “Percebia que faltava compromisso, amor e compaixão. As palavras frias e a falta de interesse por parte dos profissionais me incomodavam muito. Cheguei a ver uma moça desesperada com o filho ardendo em febre e o recepcionista falou que não havia pediatra naquele momento para atendê-lo, então ela teria que ir ao hospital da cidade vizinha”, relembrou. Esse episódio foi crucial para que Cláudia tomasse a decisão de cursar Medicina. Durante nossa conversa, a estudante disse que deseja fazer a diferença no que puder. Ela relatou que pretende ser uma profissional interessada, com compromisso e compaixão, além de sonhar todos os dias com a responsabilidade de ser médica. “Creio que 34


Profissões em luta

Ana L. Duarte

há propósito em tudo e em todas as coisas. Sei que naquele dia eu não entrei naquele hospital só porque estava necessitando de atendimento”. No caso da Medicina, o sétimo curso mais concorrido do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) 2020 - com quase 60 mil inscrições - os vestibulandos que desejam cursar Medicina também escolhem as longas noites em claro que passam estudando, os eventos sociais que perdem e também a pressão que sofrem de parentes e de si mesmos para serem aprovados o quanto antes. Ademais, é caro chegar ao topo. A mensalidade de um curso preparatório para vestibular em Brasília pode chegar a mais de R$ 1 mil, de acordo com o Guia do Estudante. Os futuros médicos não só precisam se preocupar com o pré-vestibular como também com a possibilidade de não passar em uma universidade federal e seguir para uma faculdade particular, onde a mensalidade, sem nenhum desconto, vai de R$ 7 mil a quase R$ 10 mil no primeiro semestre. Os dados foram obtidos em uma comparação entre as faculdades particulares do Distrito Federal que oferecem o curso. Rotina

Para os vestibulandos, o isolamento social pode mudar drasticamente a rotina de estudos de quem está acostumado a estudar fora de casa, em um ambiente específico. Cláudia relata que rotina foi seriamente prejudicada. “Eu tinha uma rotina na qual eu me esforçava e me entregava mais. Agora com a pandemia eu não tenho me dedicado ao máximo”. Quem sabe bem desse percurso é a estudante brasiliense Fernanda Lago, que frequenta um curso preparatório particular em Brasília. Ela tenta passar para o curso de medicina há 4 anos. Para ela, a pandemia não teve o mesmo efeito em seus estudos quanto Cláudia, que estuda na rede pública de educação. “A pandemia não afetou diretamente 35


Profissões em luta

Ana L. Duarte

meus estudos no que tange a minha aprendizagem e o cursinho com as matérias. O que mudou de fato foi só a perspectiva de comportamento para estudar. Porém isso não me afeta tanto devido ao privilégio do meu cursinho ter todos os meios tecnológicos e de comunicação para tal”. Antes do surto, a rotina da estudante consistia em passar 12 horas por dia no curso preparatório, além de estudar por mais 1 hora quando voltava para casa. Segundo Fernanda, a rotina não mudou muito durante esses meses de isolamento, pois ela continua tendo aulas nos mesmos horários, de forma on-line. “Continuo com monitorias para tirar minhas dúvidas assim como as correções de redação”. Para ela, a única mudança significativa foi nos horários de estudo. Para Sharlene Leite, professora de redação e dona de um curso pré-vestibular particular em Brasília, não há dúvidas que muitos alunos vão sair prejudicados ao final da crise da Covid-19. A professora explica que os estudantes que desejam cursar Medicina já são naturalmente ansiosos, mas agora muitos sentem que seu planejamento de estudo anual está comprometido, o que gera ainda mais ansiedade. “Os [vestibulandos] que estavam acostumados a estudar sozinhos ou por plataformas tiveram planejamento para enfrentar a pandemia, já os alunos do curso presencial não”. O que dizem os professores

Sharlene também afirma que os alunos muitas vezes sentem que não estão rendendo nos estudos como rendiam antes da pandemia. De acordo com a professora, o curso à distância oferece uma certa quantidade de aulas na plataforma e os alunos estudam com menos acompanhamento do que teriam se fizessem um curso presencial, o que, para uma pessoa que almeja estudar medicina, não funciona. “O aluno, para passar em medicina, precisará atingir resultados muito al36


Profissões em luta

Ana L. Duarte

tos e, para isso, precisa ser acompanhado o tempo todo”, acrescenta. O professor de física Allan Borçari reafirma o que foi dito por Sharlene: “qualquer mudança na rotina do aluno já é motivo para a ansiedade”, conta. “Sair daquilo que ele determinou como ideal, que é o [ensino] presencial, para ir de forma abrupta e obrigatória para o ensino à distância, gera naturalmente insegurança e ansiedade”. Segundo o Allan, essa nova realidade faz com que o aluno não consiga desempenhar o mesmo resultado que apresentava anteriormente. “A queda de desempenho no primeiro momento faz com que o estudante se sinta frustrado com a pandemia em si e com o seu próprio resultado. Dentro desse universo, essa frustração a médio prazo é transformada em raiva. Isso pode ser despejado em cima da escola, em cima dele próprio e em cima dos familiares”. Para o professor, não há como negar as vantagens que estudantes de escolas e cursos preparatórios particulares possuem em relação aos estudantes da rede pública. “A vantagem ela é brutal”, afirma. “Por exemplo, sobre a própria questão psicológica, existem escolas [particulares] que fazem palestras, contam com psicólogo na escola e isso já faz uma diferença enorme. Existe todo um universo para tentar dar um ar de normalidade e tranquilidade no meio dessa tribulação toda, situação essa que infelizmente o aluno da escola pública não tem”. Elle Camelo, estudante do 2º ano do ensino médio de uma escola pública de Brasília, reconhece que a pandemia atrapalhou um pouco seus estudos, mas ainda está confiante. A aluna explica que, antes da pandemia, fazia um curso preparatório para o vestibular. Ellen afirma que a pandemia “criou várias barreiras referentes ao cursinho que fazia”, uma vez que não houve adaptação para o ensino remoto. Ela acrescenta que o ensino da escola regular também não está adequado, uma vez que só algumas matérias estão sendo ministradas virtualmente através do Google Classroom. O vestibular é somente o começo de uma carreira desafiado37


Profissões em luta

Ana L. Duarte

ra. Para os que sonham em estar na linha de frente, seja atuando na luta contra o coronavírus ou estudando para ajudar no futuro, os obstáculos fazem parte da jornada. Principalmente durante uma pandemia, enfrentar as dificuldades de cabeça erguida é uma das qualidades mais importantes que um médico pode ter, assim como é algo que essa futura geração de profissionais está adquirindo desde cedo.

38


CONFINAMENTO E GERAÇÕES Medo, frustração e saudade: o distanciamento social afeta a rotina e emoções de famílias que, mesmo em um momento angustiante como este, procuram formas de se adaptarem e de se sentirem acolhidos em meio a tantas perdas e infelicidades.

39


Confinamento e Gerações

Idosos sozinhos A nova rotina dos mais velhos com privilégios e adversidades durante o isolamento social

Gustavo Choairy

E

m meio à pandemia em que vivemos, é indicado que as pessoas mais vulneráveis ao vírus, que compõem o “grupo de risco”, fiquem em casa e evitem se expor. Segundo declaração da OMS (Organização Mundial da Saúde) os idosos fazem parte desse grupo de risco e, aqueles que moram sozinhos, por serem mais dependentes da família ou de cuidadores, sofrem uma grande mudança em suas rotinas. Segundo a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), o número de idosos no Distrito Federal aumentou 73% nos últimos 10 anos. Esse crescimento mostra que a quantidade de pessoas com mais de 60 anos passou de 200 mil para 346 mil. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), aproximadamente 22% dos idosos do Brasil moram sozinhos. Isso significa que 4,3 milhões dos mais velhos precisarão, mais do que nunca, de novas estratégias para adaptarem suas rotinas dentro de suas casas. Essa adaptação é complicada, porém, necessária para que esse público vulnerável não corra o risco de se contaminar e tenha mais dificuldade de se curar da Covid-19. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 70% das mortes causadas pelo coronavírus ocorreram com pessoas em idades acima de 60 anos, quando esta reportagem foi feita. Conceição Aparecida, Dirce Puglia, Helenice Pinto e Luiz Pinto vivem no Distrito Federal, passaram dos 70 e até dos 80 anos, moram sozinhos e adaptaram suas rotinas de diferentes maneiras devido à cri40


Confinamento e Gerações

Gustavo Choairy

se em que vivemos. Ao observar seus casos, se percebe que a quarentena é algo curioso. O fator “morar sozinho” é uma mescla de questões positivas como a experiência e a sabedoria, somadas com questões negativas, como a solidão e as limitações do corpo em tarefas rotineiras. Apesar de viverem sozinhos em suas casas nesse período, os familiares mantêm contato e os auxiliam mesmo de longe, de formas alternativas. Uma parte dos idosos se sente insegura longe da família e dos amigos, alguns se sentem confortáveis com a experiência que a vida os entregou, e outros, apesar da idade avançada, aproveitam o tempo para botar suas obrigações e tarefas em dia. Bordado

Conceição Aparecida, nascida em Patos de Minas - MG, tem 86 anos, seis filhos, 13 netos e 2 bisnetos. Durante sua vida trabalhou muito nos campos rurais de Brazlândia (DF), vendeu roupas costuradas por ela e chegou também a vender joias. Atualmente ela mora na Octogonal, e vende seus bordados que ajudam como uma renda extra mas, também porque, principalmente, bordar é um lazer imprescindível em sua vida. Antes do período de isolamento social, a casa de Conceição tinha um movimento muito agradável. Ela contava com o auxílio de uma empregada doméstica para ajudar nas tarefas de casa e só saía quinzenalmente para visitar a família. Além disso, familiares faziam visitas ao longo da semana para fazer companhia à matriarca. Com toda a situação gerada pela pandemia, Conceição passou a sentir muito medo por causa do vírus e da quantidade de casos e mortes ao redor do mundo. Com isso, começou a fazer terapias online com um psicólogo duas vezes na semana, o que vem a ajudado muito. O trabalho em seus bordados também não parou e faz parte dos dias de Conceição. 41


Confinamento e Gerações

Gustavo Choairy

A distância dos familiares foi o que mais mudou na rotina e, por isso, a família utilizou uma estratégia criativa para manter o contato com ela. Os parentes decidiram começar a escrever cartas ao longo da semana para se comunicar com Conceição. A última Páscoa, por exemplo, também foi uma data marcada por uma visita diferente: os netos foram até debaixo da janela do apartamento da avó para estar com ela e mesmo que separados por alguns metros, foi uma maneira de se sentirem próximos. Tecnologia

Outra idosa a adaptar sua rotina na quarentena foi Dirce Puglia. Hoje aposentada, tem 87 anos, 4 filhos, 10 netos e 6 bisnetos. Dirce nasceu em Lins (SP), foi concursada pelo estado, e logo no começo dos anos 1970, foi transferida para a Câmara dos Deputados em Brasília, onde reside atualmente nesse ano. Assim como milhares de idosos brasileiros, a rotina de Dirce também mudou radicalmente. Antes da pandemia obrigar os mais vulneráveis a ficarem em casa, a paulista preenchia seus programas semanais com fisioterapia, massagem, pilates, encontros com amigas da igreja, além do contato com a família. Com as restrições da quarentena, Dirce teve de cortar toda essa programação. Para adaptar sua rotina, contratou uma acompanhante que fica diariamente com ela e a ajuda nas tarefas de casa, além de a fazer companhia. Para adaptar a ausência das atividades costumeiras, Dirce recorre à internet, fazendo chamadas de vídeo diariamente pra matar a saudade e manter o contato com a família, além de ligar individualmente para suas amigas. Além da acompanhante, um aparelho chamado “Telehelp”, que consiste em “ficar de olho” em Dirce, também a acompanha na sua rotina. A empresa responsável pelo aparelho liga todos os dias às 08h e às 20h 43


Confinamento e Gerações

Gustavo Choairy

para conversar e checar se está tudo bem com a idosa. Caso Dirce não atenda as ligações, a empresa liga para os familiares para checar se está tudo bem, além de poder acionar uma ambulância, em casos extremos. Vida a 2

O casal formado por Helenice Ferreira Pinto, de 74 anos, e Luiz Pinto Xavier, de 78 anos, adaptou a rotina na quarentena. Ao longo de seus 52 anos de casados, acumularam uma família com cinco filhos, 14 netos e uma bisneta. Ambos nascidos em Belo Horizonte (MG), se conheceram lá e se casaram em 1967, quando se mudaram para Brasília. Helenice sempre trabalhou de sua residência como restauradora de imagens sacras e se diz acostumada a ficar em casa. Ela entende que sua experiência de vida a ajudou a aceitar as adversidades durante a quarentena. No momento atual, além de colocar em dia o trabalho das imagens, também começou a confeccionar máscaras para doar e aproveita o tempo livre para fazer orações. É católica e sem poder ir às missas presenciais, acompanha as celebrações pela televisão. Diferente do estilo “caseiro” de sua esposa, Luiz sempre trabalhou fora de casa. Ainda com 10 anos de idade conseguiu seu primeiro emprego e aos 14, já tinha carteira assinada, quando começou a trabalhar em uma fábrica de tintas e permanece nesse ramo até hoje. Luiz abriu seu próprio negócio há 52 anos atrás e hoje é dono de uma empresa de produção de tintas em Brasília. Durante a quarentena, administra a fábrica com o auxílio de dois filhos que ficam na loja e contactam o pai diariamente para trabalharem em conjunto. Com mais tempo livre, ele aproveita para ler e ver filmes de seu gosto. Com o isolamento social exigido devido à pandemia, o casal teve de dispensar os empregados que os auxiliavam nas tarefas domésticas. 44


Confinamento e Gerações

Gustavo Choairy

Desta forma, seus filhos levam mantimentos até a porta da residência e, com a distância recomendável de 2 metros, conversam para matar a saudade e manter contato. Vizinhos

Em comum entre Conceição, Dirce, Helenice e Luiz está o fato de que todos moram em apartamentos. Segundo Ludmila Correia, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo e coordenadora do projeto de extensão “Morada da Luz”, a vida desses idosos em suas casas pode prejudicá-los em alguns pontos. De acordo com a especialista, raramente os apartamentos do DF recebem a entrada da luz solar, algo fundamental para a saúde e aumento da imunidade. Outro ponto sinalizado por Ludmila é a solidão dos idosos, que estão afastados de suas famílias e amigos. Além disso, a arquiteta afirma que a presença dos vizinhos pode ser bem positiva aos idosos em seus apartamentos. Por estarem todos em um mesmo prédio, existe um sentimento comum de segurança, por todos viverem bem próximos uns dos outros e também pelo fato de muitos criarem boas relações. “A segurança vem muito do fato de estarmos mais próximos fisicamente dos vizinhos, o que favorece o ‘cuidar uns dos outros’. Um pedido de socorro em uma emergência vai poder ser ouvido mais rápido, e atendido mais fácilmente”. Sobre a solidão

O neuropsicólogo e especialista em avaliação psicológica Demerval Bruzzi, entende que a solidão dos mais velhos é, de fato, o mais preocupante na quarentena. “Dependendo da idade, quantas pessoas eles já não perderam ao longo da vida?”. 45


Confinamento e Gerações

Gustavo Choairy

Segundo o neuropsicólogo, o distanciamento para os idosos gera um sentimento de luto muito grande. “Nesta idade eles já não estão contando com o futuro, não existe futuro para eles, nesse sentido. É necessário trabalhar com um futuro muito próximo: Quais os seus planos para o dia dos pais, para a festa junina? Eles têm uma noção muito grande que o ano que vem pode ser fatal”, afirmou o especialista. Outro ponto sinalizado é o sistema de saúde do país, que muitas vezes, não favorece os idosos. Segundo dados do IBGE o Brasil saiu de uma ‘pirâmide’ para um ‘barril’, ou seja, a população está envelhecendo. “A Europa já passa por isso. Por que morreu tanta gente na Itália? Não é só por causa da falta de controle, é por causa da idade”, contou o neuropsicólogo. Apesar dessa dura realidade em que os idosos se enquadram, existem sim estratégias para driblar essas dificuldades. Conceição e sua família conseguiram minimizar a distância e a saudade por meio da troca de cartas e as visitas que, mesmo sem o contato físico, com certeza fazem a diferença neste período. Dirce, com práticas mais tecnológicas, liga diariamente para suas amigas e familiares para não deixar para trás as boas relações. Já Helenice e Luiz, usaram da experiência de vida para se manterem seguros psicologicamente e aceitarem as adversidades vividas atualmente. Quando tudo isso acabar, Luiz considera fazer uma viagem. Na bagagem vai estar mais essa experiência inédita e a certeza de que vão respirar um ar que não se respira há muito tempo.

46


Confinamento e Gerações

Idosos que não moram sozinhos As dificuldades que eles enfrentam para se isolar com mais pessoas em suas próprias casas

Gabriela Chabalgoity

O

relógio marca 6 horas da manhã quando Rita Pereira, 79 anos, levanta para assistir à televisão e começar seus trabalhos. Moradora do Gama, ela limpa a casa inteira, todos os dias, coloca a ração do seu cachorro e senta para costurar, trabalho que a sustenta financeiramente desde seus 37 anos. Ela mora acompanhada do marido Francisco, 85 anos e os dois filhos mais velhos, Fábio, 52 e Flávio, 49. O apartamento que vivem tem apenas dois quartos de 80 m². Com a pandemia do novo coronavírus, Fábio realiza suas atividades do trabalho em casa, porém, seu irmão não tem essa opção. Flávio trabalha em uma empresa que não aderiu ao home office e exigiu que os empregados estivessem presentes em ao menos três vezes na semana, impossibilitando-o de ficar em casa e cuidar de seus pais. A família de Rita busca tomar todos os cuidados recomendados pelas autoridades em relação ao combate do vírus. Porém, a exposição do filho com diversas pessoas, torna a preocupação constante. Não apenas pelo risco que ele corre de contrair a doença, mas também com a saúde de Rita e Francisco, que, além de serem idosos, possuem os problemas de saúde como diabetes e bronquite. Além disso, Francisco precisa fazer visitas constantes ao médico devido às dores muito intensas que sofre na coluna e também no joelho. Assim, o pai de família tem que se expor à aglomeração do transporte público, do consultório e algumas vezes do mercado, que aproveita para dar uma passadinha. “Disseram que se vissem idosos 47


Confinamento e Gerações

Gabriela Chabalgoity

na rua iam levar pra casa, eu ia achar ótimo, não precisaria de carregar o peso das compras ou usar transporte público”, brinca Francisco. Sem condições financeiras de irem a alguma outra acomodação, o casal tenta lidar com o problema da melhor forma: ao sair para trabalhar, Flávio aproveita e realiza as atividades essenciais necessárias à família e também passeia com o cachorro, para evitar que seus pais saiam de casa. Porém, os filhos não conseguem se sustentar junto aos seus pais apenas com o dinheiro do trabalho, pois também pagam pensão aos netos de Rita. Assim, é necessário que a mãe continue a demanda da costura, para ajudar a pagar as contas da família, mais uma vez, colocando em risco sua integridade física ao manter o contato com os clientes. Rita afirma que é um momento muito difícil, porque, apesar da idade, sempre foi muito ativa e manteve contato físico com seus outros dois filhos e cinco netos. Ela costumava ir à academia, fazer exercícios pelo condomínio, onde, inclusive, é muito conhecida: sabe todos que moram no seu prédio, conhece todos os lojistas do comércio e sempre papo na rua quando passeia com o cachorro. Para ela, essa mobilidade é o que mais faz falta nesse momento de contenção, não há muito o que fazer em casa. Ao ser perguntada se iria para outro lugar caso tivesse a oportunidade, Dona Rita nos conta o que acharia melhor: “Apesar de passar mais de um mês longe de casa, dos filhos, do meu cachorro, acho que é fundamental o isolamento completo”. O que os especialistas têm a dizer?

Quando analisamos os idosos e a pandemia, o isolamento social, precisamos lembrar que eles correspondem ao grupo de risco da doença. Por isso, a fisioterapeuta especialista em saúde do idoso Rafaela Rollemberg Lacerda, afirma que esse contexto deixa os idosos com um medo ain48


Confinamento e Gerações

Gabriela Chabalgoity

da maior do vírus, com a fragilidade de suas vidas e com a aproximação da finitude, sendo que o envelhecimento em si já traz esses pensamentos. Segundo a especialista, nas questões práticas, do dia a dia, o idoso pode se sentir dependente e talvez até inútil sem poder realizar as suas atividades instrumentais da vida diária, como ir ao mercado, banco, buscar netos na escola, ir para a ginástica. Mesmo os idosos mais ativos, agora com a pandemia, têm entrado em contato com esse medo recorrente de perder a autonomia, visto que se tornaram dependentes. Mas há de se observar ao menos um lado positivo nisso tudo, como ganho para saúde física e mental, podemos citar os idosos aprendendo novas habilidades eletrônicas, participando de chamadas de vídeo, utilizando aplicativos de delivery, etc. O idoso que conseguir aprender coisas novas durante esse processo de isolamento, terá um prejuízo muito menor quando tudo isso passar. Quando questionada sobre suas recomendações para os idosos se manterem ativos e não se deixarem afundar devido ao contexto, Rafaela afirma que procurar manter uma rotina mínima, não passar o dia de pijama, se alimentar nas horas habituais são ações que ajudam a manter uma noção de realidade. Além disso, a fisioterapeuta recomenda que os idosos aprendam alguma atividade nova, seja eletrônica, seja manual ou artesanal. Manter o contato com as pessoas através de redes sociais e vídeo chamadas é fundamental para ter a sensação de estar presente no crescimento dos netos e na vida dos filhos. Por último, ela recomendou que os idosos pratiquem atividades físicas para reduzir os danos físicos e funcionais que podem surgir por conta dessa imobilidade. As atividades devem ser realizadas de forma leve e segura, para que esse idoso não corra nenhum risco de queda ou lesão durante a execução da atividade.

49


Confinamento e Gerações

Gabriela Chabalgoity

Nova rotina

A aposentada Josefa Leonardo, 75 anos, moradora da Samambaia, mal acorda e já tem diversas tarefas domésticas para realizar: prepara o café da manhã, deixa tudo pronto para o almoço, vai até o quintal para molhar as plantas e alimentar seu cachorro, limpa a casa e espera o filho chegar para almoçar. Ela mora com o filho e a família dele, o que inclui a nora e os dois netos, em uma casa de três quartos. Ela entende que não apenas o isolamento é fundamental para sua proteção, como também a higiene constante e por isso, sempre tem um álcool em gel perto e busca lavar a mão diversas vezes. O cachorro de Josefa também começou a receber cuidados extras. Apesar da idosa e seu companheiro não saírem mais para passear após as adaptações feitas para a família lidar com o vírus, ela higieniza constantemente suas patinhas depois que ele brinca no quintal. Segundo Josefa, a vida mudou muito desde que começou a pandemia do coronavírus. A família se encontra muito afastada, o que faz ela se sentir isolada e, triste, não sai mais para fazer compras e não recebe mais visitas em casa. Toda essa adversidade afetou muito sua saúde mental, visto que ela gosta muito de sair e estar em contato com seus outros filhos e família. Antes disso tudo acontecer, todo domingo a família se reunia para almoços e o evento se estendia até o final do dia, momento em que se juntavam também para lanchar e assistir aos programas de televisão. Para ela, isso é o que faz mais falta. Entretanto, Josefa está otimista com o fim da pandemia, ela crê que as pessoas vão sair disso muito mais unidas, vão valorizar a presença física dos outros e querer estar mais perto. Ela lamenta isso tudo ter de acontecer para entendermos o valor das pessoas e da vida, mas tenta sempre enxergar algo de bom mesmo que a realidade atual seja ruim. 50


Confinamento e Gerações

Há luz no isolamento Foto: Arquivo Pessoal

Mulheres explicam como lidam com a gravidez, com o parto e com a preocupação de se protegerem durante a pandemia

Larissa Kurita

Com as medidas de isolamento social por conta da pandemia de co-

ronavírus, as grávidas e mães recentes enfrentam dificuldades, tanto com o acompanhamento médico e as precauções para se proteger do coronavírus como com o afastamento de amigos e familiares neste momento. O sentimento de ansiedade, de medo, e ainda com os hormônios à flor da pele, já são muito comuns durante uma gestação. Agora, com uma pandemia em ascensão e o distanciamento da família e amigos, as grávidas e novas mães, que foram entrevistadas, sofrem com um sentimento de angústia, frustração e impotência. A estudante Renata Duarte, de 25 anos, mora em Catalão (GO) e estava grávida de nove meses quando foi entrevistada para esta reportagem. Ela explica que havia alguns meses que não convivia com ninguém do mundo exterior à casa dela. Saía apenas para consultas médicas realmente necessárias, como os pré-natais e ultrassons. “A grávida já sofre com muitas emoções e preocupações, e ainda tem que se preocupar com esse vírus. Sinto falta de um abraço, de um beijo. Por isso, 51


Confinamento e Gerações

Larissa Kurita

estou sofrendo com muitas crises de ansiedade”, desabafou Renata. Ela tinha medo de ir ao hospital nesta conjuntura para realizar as consultas e pensava em como iria ser o parto todos os dias. Já cogitou seriamente a possibilidade de conduzir seu parto em casa, mas não irá fazê-lo por falta de dinheiro, por um parto domiciliar ser bem caro podendo variar de R$ 4 mil a R$ 10 mil, por exigir os mesmos recursos para passar a mesma segurança que um hospital passa. As pessoas que querem entregar presentes para a sua bebê deixam na porta de sua casa e vão embora. “É bom nesse momento ser mimada, ter com quem contar, se eu estivesse contando com o apoio físico da minha família e amigos eu não estaria tão ansiosa como estou agora” disse. A gestante, depois do nascimento da filha, não irá aceitar nenhuma visita e as únicas pessoas que irão conviver com a criança até acabar esta pandemia serão ela e seu marido, pai da criança, apenas. Expectativas frustradas

A estudante brasiliense Ana Carolina Lopes de Melo Cintra, 25 anos, estava grávida de sete meses quando foi entrevistada, e criou toda uma expectativa de como seria estar grávida, com os amigos e a família acompanhando o crescimento da barriga, fazendo chá de bebê e compras, mas agora esta expectativa foi frustrada. O parto ocorrerá no HMIB (Hospital Materno Infantil de Brasília), um hospital especializado em maternidade. Ela diz que só não dará à luz em casa por condições financeiras, e que acha que o parto domiciliar é uma das melhores opções no momento para grávidas saudáveis. “Se eu tivesse condições de contratar uma equipe, eu faria com toda a certeza. Eu acho que o parto domiciliar é mais natural e evita intervenções médicas desnecessárias e violência obstétrica, e ainda pro52


Confinamento e Gerações

Larissa Kurita

tege mais do coronavírus” disse a gestante. O período de pós-parto já exige muitos cuidados, e agora então as precauções devem ser redobradas, Ana não vai aceitar receber nenhuma visita, nem mesmo da mãe. No epicentro

A nutricionista Gabriela Picarelli, 35 anos, mora em São Paulo (SP), estado epicentro do coronavírus no Brasil com mais de 123 mil casos confirmados da doença na data em que a reportagem foi feita, também estava grávida de nove meses quando foi entrevistada. Ela explicou que a dificuldade de lidar com a gestação se dá mais pela questão do seu distanciamento da família e amigos. Para ela, este é o momento em que mais precisa de ajuda e apoio, porém ela está respeitando rigorosamente a quarentena. Ela entende que essa é apenas uma fase e que irá passar. Apesar de Gabriela ter receio de contaminação em um hospital, ela não faria um parto domiciliar. Mesmo com esta situação de pandemia, ela ainda prefere a “segurança” que um hospital passa e irá seguir rigorosamente as instruções para evitar contágios. Gabriela não irá receber nenhuma visita em casa, nem mesmo de familiares, tanto durante a gestação como depois do parto, e só irá sair em caso de extrema necessidade. Planos interrompidos

A advogada Natalia Gomes, 35 anos, mora em Goiânia (GO), grávida de quatro meses, sente falta de fazer atividades físicas fora de casa. Ela explica que está sendo complicado sentir os “famosos desejos” alimentares e não poder simplesmente buscar o que gostaria naquele exato momento no supermercado. Ela planejou a gestação envolvendo muitas expectativas e sonhos, que não estão fáceis de 53


Confinamento e Gerações

Larissa Kurita

serem concretizados em um cenário de pandemia. A grávida adota todas as medidas recomendadas de isolamento para a segurança dela e do bebê que, no final, é o que realmente importa para ela. Natalia nunca pensou em fazer o parto em casa, e diz que espera poder contar com o apoio hospitalar adequado em caso de necessidade. “Em situações de risco como a atual, temos que acreditar que as maternidades e os obstetras estão adotando todas as medidas necessárias para garantir o nosso pré-natal e parto seguros, mesmo em ambiente clínico e hospitalar”. A gestante fica tensa com a ideia de realização de qualquer exame, seja de sangue, de pré-natal ou ultrassom, dado o temor de contaminação. Mas, como estes são essenciais para o desenvolvimento de uma gravidez saudável, ela toma todos os cuidados possíveis sem abrir mão deste acompanhamento devido. Se caso a situação perdure, muitos parentes e amigos não irão vê-la grávida. Ela diz que gostaria de ter uma experiência completa de gravidez, como poder escolher as peças do enxoval com parentes e amigos próximos, tanto pela orientação do que é necessário comprar quanto por ser um momento especial, mas tem se contentado em escolher e descobrir tudo pela internet sozinha, ela admite que isso é muito frustrante. Por ainda não haver evidências científicas suficientes sobre possíveis riscos para o bebê, seja no ventre ou após o parto, ela e seu marido estão tomando os cuidados seguindo rigorosamente o isolamento social. Inclusive evitou, por recomendação médica, realizar alguns exames de pré-natal que não são considerados essenciais, como o exame de sexagem fetal por exemplo, tudo para evitar exposição desnecessária. Natalia não realizará atividades que sempre sonhou em fazer, como os esperados chás de revelação ou de fraldas e irá restringir de forma rigorosa as visitas ao recém nascido após o parto e adotar todas as demais medidas necessárias para garantir a segurança. “Gostaria de 54


Confinamento e Gerações

Larissa Kurita

poder contar com o apoio de familiares, nesse momento tão delicado, e auxílio nas tarefas domésticas, mas caso não seja seguro, teremos que descobrir sozinhos, meu marido e eu, como administrar a situação”. Conciliação

A advogada brasiliense Kallyne Gomes Santos estava grávida de cinco meses quando foi entrevistada e lamenta que está sofrendo com as mudanças do humor e do corpo e confessa que está gostando de ficar em casa porque estava sofrendo muito com enjôos no trabalho, mas que a demanda em seu home office aumentou muito. Ela ainda tem um filho em idade escolar, com 12 anos, e as aulas virtuais e os trabalhos são extremamente puxados e exigem um acompanhamento que às vezes se complica tendo que ser conciliado com o home office e a ordem da casa. Ela diz que está com muitas saudades da família e que tem dias que a vontade é de nem sair da cama, apenas de ficar deitada e se deixar levar pelo choro e pela saudade, e por mais que a tecnologia ajude no contato, esta não satisfaz a vontade de um abraço. O aumento dos casos, a falta de pesquisas concretas sobre a doença e a sobrecarga do sistema de saúde deixam um receio de ir ao hospital e acabar se contaminando, no entanto ela acredita que na data prevista para o parto, que será em setembro, o mundo já terá maiores respostas da ciência e um fluxo menor de contágio. No momento, ela ainda não pensa na possibilidade de dar à luz em casa mas, dependendo de como será a evolução do vírus. Ela afirma que irá avaliar melhor esta hipótese posteriormente. O parto domiciliar

Para a médica obstetra Thais Peloggia Cursino, que faz parte 55


Confinamento e Gerações

Larissa Kurita

de uma equipe de parto domiciliar em São Paulo (SP), os riscos relacionados ao hospital e ao novo coronavírus giram em torno da dinâmica hospitalar e dos cuidados que os profissionais de saúde devem tomar. Assim, um hospital que estabeleça um fluxo de pacientes sintomáticos/assintomáticos apresenta menor risco para as mulheres que ali entrarem em trabalho de parto, uma vez que as pessoas com sintomas não entram em contato com as que tem sintoma. Outro aspecto a ser considerado é o tipo de hospital de escolha para o parto: hospitais que sejam somente maternidade tendem a ter um fluxo menor de pessoas sintomáticas, quando comparados com hospitais gerais, apresentando, assim, menor risco de contato com o vírus, teoricamente. Os riscos de dar à luz dentro de um hospital agora são muito grandes tendo em vista que pessoas contaminadas com o vírus ou com suspeitas são atendidas nos mesmos, com isso tem crescido muito a discussão sobre as medidas preventivas e partos domiciliares, para evitar expor a mãe e o bebê a esse risco de contaminação. A obstetra conta que houve um aumento na procura pelo Parto Domiciliar Planejado (PDP), muitas mulheres estão buscando o PDP por medo de entrar em contato com o vírus ao irem para o hospital. Entretanto, é importante considerar todos os prós e contras dessa decisão, não devendo ser uma escolha única e exclusivamente para fugir do vírus. É importante que a mulher ou o casal (quando aplicável) se sintam seguros em casa, além de todos os critérios de elegibilidade serem cumpridos, de maneira a não aumentar o risco para mãe e bebê. Antes do parto domiciliar é imprescindível que o pré-natal seja bem acompanhado e que a gestante seja de risco habitual, ou seja, que não tenha nenhuma complicação como pressão alta, diabetes ou não tenha apresentado alterações durante o pré-natal. Para o parto, é importante que a mulher esteja com mais de 37 semanas gestacionais, já que 56


Confinamento e Gerações

Larissa Kurita

antes disso o bebê seria considerado prematuro, que seja uma gestação única (não gemelar), e que o bebê esteja virado de cabeça para baixo. Durante o parto é importante que a mulher seja acompanhada por uma equipe capacitada para isso. Aqui no Brasil as equipes de parto domiciliar geralmente são formadas por duas parteiras profissionais (obstetras e/ou enfermeiras obstetras). Assim, as parteiras devem monitorar periodicamente os sinais vitais maternos e fetais durante o trabalho de parto, de maneira a transferir a mãe para o hospital na vigência de alguma alteração que acrescente risco para ela ou para o bebê. Após o parto é importante que mãe e bebê sejam monitorados por cerca de 3 a 4 horas, de maneira que a estabilização respiratória do bebê e a perda de sangue da mãe sejam monitoradas adequadamente. Os cuidados com o bebê devem ser feitos normalmente, inclusive a amamentação, dando especial atenção à higienização das mãos sempre que entrar em contato com a criança. As visitas de pessoas que não moram com a mãe e bebê são contra indicadas de maneira a diminuir riscos para o binômio e para os visitantes também. Quanto à amamentação, ela não está contraindicada em casos suspeitos ou confirmados de Covid-19, pelo contrário, esta deve ser estimulada mesmo em mães que apresentem sintomas, tomando os cuidados necessários como o uso de máscara pela mãe e a adequada higienização das mãos. Não há evidências que o novo coronavírus seja passado pelo leite materno, e o aleitamento materno é extremamente importante para a imunidade do bebê e para fortalecer a ligação entre a mãe e a criança. O PDP (Parto Domiciliar Planejado) é uma opção em residências que estejam a, no máximo, 20 a 30 minutos de distância de um hospital que conte com obstetra, pediatra e anestesista de plantão 24 horas por dia, que tenha centro cirúrgico disponível, banco de sangue, UTI neonatal e adulto. Esses são os parâmetros de segurança para o parto. 57


Confinamento e Gerações

Larissa Kurita

Entretanto, esta não deve ser a escolha da mulher simplesmente pelo medo do vírus, é importante que essa decisão seja tomada com base na referência de segurança da mulher e ponderando os prós e contras dessa escolha junto ao (à) parceiro (a) quando aplicável e à equipe de saúde. Segundo a doula Nathalia Maria dos Santos Silva, que trabalha no Recife (PE), para um parto domiciliar bem sucedido a mulher deve estar em boas condições de saúde e deve contar com uma equipe competente em casa, ou seja, enfermeiros, médicos e pediatras que possam fazer o atendimento adequado. Durante o parto é imprescindível a presença destes profissionais e depois é necessário avaliar a saúde da mãe e do bebê para ter certeza que ocorreu tudo bem. O parto em casa deve ter toda uma preparação de um parto no hospital e deve sempre existir um projeto, um cronograma e um plano B para o caso de imprevistos. “Os maiores desafios de dar à luz em hospital é claro o perigo da contaminação e ter que lidar com o psicológico da mulher, que estará, provavelmente, abalado por falta de assistência da família/amigos”. Nathalia trabalha diariamente auxiliando na condução de partos em hospitais e recomenda que a mãe use máscara na hora da amamentação para maior segurança, mesmo que isso interferirá na relação e na conexão da mãe com o bebê, e é importante sempre lavar as mãos e as mamas. A doula admite que notou sim um aumento significativo do número de partos domiciliares e que, no momento, o hospital é sim um risco muito grande para a gestante, e levando em conta somente o olhar de evitar o coronavírus, o parto em casa bem planejado com certeza seria a melhor opção. Riscos

As maternidades permitem apenas um acompanhante durante o parto e as visitas foram muito reduzidas, medidas estas previstas en58


Confinamento e Gerações

Larissa Kurita

tre as diretrizes do Ministério da Saúde, além disso as precauções são as mesmas que devem ser tomadas pela população em geral: lavar as mãos com frequência e usar álcool gel, distanciamento social de pelo menos dois metros, evitar aglomerações, não tocar os olhos, o nariz e a boca, cobrir a boca e o nariz com o cotovelo ao tossir e espirrar e usar máscara. Segundo um estudo divulgado pelo Colégio Real de Obstetrícia e Ginecologia do Reino Unido em seu site, as mulheres grávidas não parecem ser mais suscetíveis às consequências do coronavírus do que a população em geral e também não há evidências científicas de que o vírus possa passar para o bebê durante a gravidez. Como não há evidências suficientes sobre os benefícios da separação de rotina, e ela pode prejudicar o vínculo entre mãe e bebê e a amamentação, cada caso deve ser analisado em suas particularidades, e não há evidências também de que o vírus possa ser transmitido pelo leite materno. Portanto, para a escola do Reino Unido, os benefícios da amamentação superam os riscos potenciais de transmissão do coronavírus entre mãe e bebê, desde que tomados os cuidados. Já o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, em português), agência norte-americana de controle e prevenção de doenças, declarou em uma pesquisa no site do Centro que mulheres grávidas correm maior risco de infecção e doenças graves devido a alterações fisiológicas e imunológicas em seus corpos, e embora os dados sobre o Covid-19 ainda sejam limitados, elas devem ser consideradas um grupo de risco. Ainda segundo o CDC, já foram relatadas perdas gestacionais de mulheres infectadas com outros tipos de coronavírus, mas não é possível dizer que há o mesmo risco para infectadas pelo Covid-19. Na China, há ainda relatos de partos prematuros em mulheres com Covid-19, mas também não é possível dizer se os partos foram espontâneos ou indicados como forma de precaução. O risco para bebês nascidos de mães infectadas com o coronavírus também divide opiniões. Para a equipe do CDC, 59


Confinamento e Gerações

Larissa Kurita

eles devem ser isolados assim que nascem, a fim de evitar transmissão. A mesma recomendação é citada na literatura chinesa, que sugere o isolamento por 14 dias. Para a entidade norte-americana, devido ao contato próximo com a mãe, o aleitamento materno direto deve ser evitado. Neste caso, a recomendação é a ordenha do leite – seguindo todas as orientações de higiene e também com uso de máscara pela mãe – e a oferta do leite para a criança por uma pessoa não infectada. A médica infectologista Eveline Fernandes, do Hospital de Base de Brasília, diz que até este momento não existem dados científicos comprovados de que há a possibilidade da transmissão do coronavírus mãe-bebê durante a gestação ou durante o trabalho de parto. A infectologista esclarece que grávidas não são mais suscetíveis a pegar o vírus, ou seja, a chance de uma gestante contrair o vírus equivale aos mesmos da população em geral. A infectologista diz que é imprescindível para a gestante o uso da máscara e sua troca regularmente, evitar sair de casa e quando for ao hospital ou à alguma clínica para realizar consultas é indicado lavar as mãos frequentemente, evitar tocar olhos, nariz e boca, usar álcool gel e higienizar objetos como celular e bolsa. Na sala de parto é necessário ser diminuído o número de pessoas, com os profissionais usando luvas, máscara, avental e redobrando os cuidados, Eveline conta que a cesárea e o parto normal apresentam os mesmos riscos de contaminação. Não existem contraindicações em amamentar, até o momento não há indícios de que o vírus possa contagiar através do leite materno, porém a mãe precisa usar máscara na hora de amamentar, evitar falar e sempre lavar as mãos antes de pegar no bebê. É indicado que o aleitamento materno seja mantido, pois o leite materno fortalece a imunidade da criança e é um momento de conectividade entre mãe e filho. Segundo o documento “Orientações Gerais – Máscaras faciais de uso não profissional” emitido pela Anvisa em seu portal ofi60


Confinamento e Gerações

Larissa Kurita

cial no dia 3 de maio, o uso de máscara é contraindicado para crianças menores de 2 anos, consideradas incapacitadas de remover a máscara sem assistência. Além da dificuldade em manusear o utensílio de proteção sem uma possível contaminação, a restrição para os bebês acontece também porque o pano da máscara pode causar perda de ar e consequentemente ocorrer de eles não conseguirem avisar aos pais ou responsáveis sobre isso, nem tirar o objeto sozinhos. Se uma gestante teve o diagnóstico confirmado de Covid-19, ela pode realizar o pré-natal, parto e acompanhamento do recém-nascido no Hospital Universitário de Brasília (HUB). Basta ligar no número (61) 2028-5232 e realizar um agendamento. Tarefas de novas mães

Laís Cristine Machado de Oliveira mora em São Paulo e teve o bebê Gabriel em abril, e tomando todos os cuidados possíveis e higiênicos, sempre lavando as mãos e passando álcool no corpo e na casa e tomando banho várias vezes ao dia. Ela diz que está enfrentando muitas dificuldades por causa do distanciamento social e que a falta de ajuda nas tarefas domésticas e o apoio da família está fazendo muita falta: “Esse momento é tão importante pra mim quanto pra eles, acompanharam a minha gestação criando toda uma expectativa, mas agora só estamos nos vendo por chamada de vídeo”. Por São Paulo ser a cidade com o maior número de casos de coronavírus do Brasil, Laís não está saindo de casa para nada, nem mesmo para ir ao mercado e não sabe quando sua família poderá conhecer seu filho Gabriel. A brasiliense Eliana Aparecida Moura deu à luz no HRSAM (Hospital Regional de Samambaia) a bebê Ana Laura também em abril e criou uma rotina para se organizar, os exames e vacinas da bebê estão em 61


Confinamento e Gerações

Larissa Kurita

dia e a orientação é voltar ao posto de saúde somente em um mês. “Nos primeiros dias do isolamento, eu enlouqueci e estava totalmente perdida, depois organizei as muitas coisas na minha cabeça e na rotina de casa, tentei me ocupar e me concentrar na fé, isso me ajudou muito na ansiedade”. Ela não está aceitando visitas em casa, e na hora do seu parto no hospital todos estavam usando máscara e roupas adequadas, inclusive ela estava de máscara no momento do parto e a distância dos leitos eram de mais de dois metros. O bebê Antônio, filho da jornalista Angela Nogueira, nasceu na maternidade Brasília do Sudoeste no dia 12 de abril. Angela estava em quarentena desde o dia 12 de março, quando ainda estava grávida, e conta que fez a parte final do seu pré-natal por consultas on-line. No pós-parto, ela só tem ido às consultas do pediatra e para tomar vacina, e diz que faz consultas virtuais com a sua médica obstetra e que mantém contato com ela pelo WhatsApp. “A primeira vacina foi pelo SUS, mas o posto estava cheio e tinha enfermeiras sem máscara, então agora estou economizando pra poder dar as próximas vacinas com serviço de laboratório que vem em casa”. Os pais de Angela, que moram em São Paulo, já estavam com passagens compradas para Brasília para o nascimento do bebê e para ajudá-la nos cuidados pós-parto, e agora Angela tem dúvidas de quando os seus pais irão conhecer seu filho. Ela está evitando até sair para o mercado, uma amiga tem feito compras a cada duas semanas e deixado na portaria do prédio. Mesmo que, até o momento, não existam pesquisas muito aprofundadas e comprovações científicas sobre como o coronavírus realmente reage no corpo de gestantes e em recém nascidos, é importante sempre respeitar o isolamento social e seguir rigorosamente todas as orientações de órgãos oficiais, como a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde. A sala de parto está arrumada. Em meio à tantas mortes e tragé62


Confinamento e Gerações

Larissa Kurita

dias que vem acontecendo, a vida continua, a luz responde por um choro seguido de um sorriso inocente.

Natalia Gomes, em casa, mostra sua barriga de 6 meses de gestação. (Foto: Arquivo Pessoal)

63


Confinamento e Gerações

Um desafio para pais e filhos Longe da escola e perto dos pais. As famílias adaptaram novas rotinas para ensinar e aprender na quarentena.

Renata Goretti

“É

só colocar a criança na frente do computador e deixar a professora fazer o trabalho dela”. Não parece tão desafiador assim, não é mesmo? Segunda-feira. Não tem aula na escola por causa da pandemia, mas vai ter aula em casa. Bom dia! Acorda, veste o uniforme da escola, ainda com sono. Mal penteia o cabelo. Toma café da manhã. Senta na cadeira do novo ambiente escolar em tempos de quarentena: a mesa da sala. Computador, estojo, caderno e disciplina. Esses são os instrumentos essenciais para um bom ensino à distância. Parece simples, mas tem sido mais desafiador do que se imaginava no começo. Em casa, as crianças se sentem livres, não incorporam o espírito de estudante, a atenção é desviada facilmente. Além disso, é a irmã que chora, o cachorro que late, o liquidificador, o aspirador de pó, a música do vizinho, a conexão da internet, são incontáveis os empecilhos na hora de aprender de longe. Para a psicóloga Tatiana Basilho, psicoterapeuta e psicopedagoga especializada em aprendizado infantil, estabelecer uma rotina diária regulada é fundamental para que crianças e adolescentes consigam manter a curva de aprendizado positiva. Jogos educativos e brinquedos que estimulam a criatividade podem facilitar e ajudar no desenvolvimento intelectual das crianças que estão passando mais tempo em casa. As atividades ao ar livre são essenciais para manter uma mente saudável e intelecto ativo. Em tempos de isolamento social montar uma rotina que combine o home office dos pais, as aulas virtuais dos filhos e o tempo livre 64


Confinamento e Gerações

Renata Goretti

em casa tem sido um enorme desafio para muitas famílias que precisam reorganizar o cotidiano e adaptar horários. Os pais e mães de famílias com crianças tentam vencer, dia após dia, o desafio de educar, ensinar e ocupar o tempo de seus filhos de maneira produtiva e eficiente. Manter a casa em ordem, além da rotina de sono dos filhos, do trabalho e do abastecimento de suprimentos básicos, é mais desafiador do que parece. Adriana Camaranno explica que ajudar Marco, de 3 anos, nas atividades da escola, de forma didática e efetiva tem sido um desafio. Ao dividir as atenções entre o filho afastado da escola e a filha recém-nascida, a mãe acompanha as aulas on-line do filho, que se senta na frente de um tablet e reluta para entender que mesmo em casa, é preciso fazer as atividades escolares. “Tem sido um desafio difícil, mas é uma situação em que preciso contar a ele o que está acontecendo, além de incentivar o aprendizado da forma que posso e consigo. Nunca vai ser tão proveitoso quanto no ambiente escolar”. Enquanto isso, para dar conta de tudo, a mãe precisa lembrar sempre de fazer um aviso impresso que justifique o motivo de suas saídas na rua, em meio a pandemia. Os motivos são diversos: sair para fazer consultas pediátricas de rotina com as crianças, enfrentar o ambiente de supermercados para comprar alimentos e produtos essenciais, além de buscar distrações e táticas para manter o filho distraído e ocupado dentro de casa. Em dupla

Tiago Parates é pai de um casal de gêmeos adolescentes de 12 anos e conta que se lidar com as aulas de ensino à distância dos filhos é uma verdadeira aventura: “O plano de internet precisou aumentar para que os dois pudessem assistir as aulas de forma simultânea. Na primeira semana, perdemos muito tempo tentando ensinar a eles que 65


Confinamento e Gerações

Renata Goretti

apesar de toda a distração que temos em casa, é preciso usar esse tempo a favor deles, aprendendo e se esforçando pra não perder o ano”. A esposa de Thiago trabalha em hospital privado e precisou adaptar sua nova rotina fora de casa. Ao decidir que seria melhor evitar o contato direto e rotineiro com os filhos, Nara alugou uma pequena quitinete para morar em tempos de pandemia. Assim, a mãe tem acompanhado de longe todo o esforço de sua família para passar pela pandemia. Duas vezes por dia, nos intervalos de seu itinerários, Nara encontra seus filhos para brincar e ter um momento com eles. Sem contato físico, apenas diversão, futebol, boneca. Essa, foi a maneira que a família encontrou de minimizar os impactos que a pandemia causa. A terapeuta e psicopedagoga alerta que o isolamento social permite que os pais ajudem suas crianças e seus adolescentes a evoluírem autonomia e independência, além de organização e disciplina. Tatiana lembra a importância de mostrar para as crianças que estar ocioso dentro de casa também traz benefícios e ressalta: “É tempo de respirar. Conviver em família. É necessário para o desenvolvimento saudável do ser humano: cognitivo e emocional”.

66


INCLUSÃO Nara Minervin, doutora em Estudos da Linguagem, uma vez disse que “Inclusão é o processo de trazer para o nosso mundo pessoas que, de alguma maneira, foram retiradas dele”. A criação de políticas públicas ajuda nesse processo, mas leva tempo. Alice já questionava no país das maravilhas “Dizem que o tempo resolve tudo. A questão é: quanto tempo?”

67


Inclusão

“Nossas mãos são nossos olhos” Foto: Isabela Guimarães

Como pessoas cegas enxergaram mais durante a crise. Já invisibilizadas no cotidiano, a pandemia expôs ainda mais a falta de políticas públicas

Gabriela Gallo

A

manhece e Viviane acorda cedo para começar mais um dia isolada em casa. Pode ser qualquer dia da semana na região administrativa do Gama, mas ela tenta seguir um cronograma para, pelo menos, não se perder nos dias e tentar compensar a vida agitada que tinha. “É fundamental nessa quarentena manter uma rotina, independente do que você faça, porque isso deixa a gente mais forte e consegue viver um dia de cada vez”. Ela afirma seguindo mais um dia em casa, acompanhada dos pais. A jovem de 23 anos é recém formada em Letras Tradução Inglês pela Universidade de Brasília e, enquanto espera a instituição liberar seu diploma, estuda para concurso público. De segunda a sábado, ela mantém um ritmo de estudos das 9h às 12h e das 14h às 17h. Depois aproveita para colocar as leituras em dia e assistir a séries para passar o tempo. No mesmo dia, ainda no sul do Distrito Federal, no P Sul (setor da Ceilândia), José Augusto Dias começa outro dia também isolado com a esposa e os filhos. O contador de 36 anos teve que adaptar seu escritório de contabilidade, o qual administra junto com a mulher, para home 68


Inclusão

Gabriela Gallo

office. Mesmo com a legislação permitindo a abertura do comércio, o casal preferiu manter as atividades à distância para evitar a exposição ao vírus, tanto para quem trabalha no escritório quanto para a pessoa que cuidava de seus filhos enquanto eles estavam no trabalho. Assim como Viviane, a filha mais velha de José estuda em casa com aula por videoconferência, mas como uma criança de oito anos, têm as aulas ministradas por uma professora. Nesse exato mesmo dia, Fernando Rodrigues, professor de 43 anos, acorda sozinho em sua casa no Riacho Fundo 2. Três histórias, três rotinas diferentes, o mesmo complicador: a cegueira. Viviane é completamente cega desde o nascimento devido a má formação enquanto ainda estava na barriga da mãe, seus pais descobriram quando ela tinha seis meses de idade. Fernando ficou cego com seis anos de idade porque teve um deslocamento de retina. A retina é uma camada fina de tecido fotossensível localizada no interior do olho a qual, ao passar a luz, recebe as imagens e as envia para o cérebro, portanto, sem ela as imagens não conseguem ser captadas. Ao contrário dos outros, José não é completamente cego, mas é portador de retinose pigmentar, uma doença ocular degenerativa a qual desenvolve pigmentos na retina que impedem a visão. A doença vem evoluindo há cinco anos e hoje ele tem cerca de 8% a 10% da visão, ele não identifica pessoas e nem objetos, só consegue distinguir se o ambiente está claro ou escuro. “Os cegos aprendem depressa a orientar-se”, disse um personagem não identificado na obra “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago. Apesar do contexto não se tratar de uma pessoa que estava realmente cega, a frase pode ser encaixada na vida destes três personagens. Viviane faz natação e ciclismo; ela e Fernando andam de ônibus sozinhos e ela e José respondem qualquer mensagem digitada em seus celulares. Todos seguiam uma vida consi69


Inclusão

Gabriela Gallo

derada como normal, mesmo que adaptada, até a chegada da Covid-19. Em casa, Viviane consegue estudar com a ajuda de voluntários que lêem documentos e materiais para a preparação de concurso público. José consegue trabalhar com home office, mas precisa ficar quase o dia inteiro no telefone com os funcionários. “Eu não consigo fazer muita coisa, utilizando os recursos de informática no computador haja vista que a pouco tempo eu comecei a estudar e estou tendo orientação. Cada dia que passa eu estou aprendendo a reutilizar a questão de computadores, mas os sistemas contábeis não são acessíveis. Mesmo que eu saiba entrar e enviar e-mails ou pesquisar alguma coisa na internet, a parte contábil não tem esse suporte”. Cuidados

Com a pandemia, os cuidados essenciais são lavar bem as mãos, não tocar no rosto (especialmente olhos, nariz e boca) e o distanciamento social. É recomendável também higienizar as máscaras, sapatos e roupas assim que entrar em casa, caso precise sair por algum motivo. Mas no caso dos deficientes visuais as mãos precisam ser usadas constantemente. “Nossas mãos são os nossos olhos”, afirma Viviane ao contar da dificuldade em não poder tocar nas coisas. Ela, se precisar sair de casa, ainda pode contar com a ajuda dos pais e evita levar sua bengala, mas Fernando por morar sozinho precisa do auxílio da bengala para poder sair de casa. E, por mais que consiga andar sozinho com a bengala, ainda precisa de ajuda para atravessar a rua, por exemplo (especialmente se o semáforo é silencioso). “A gente tá andando na rua e o pessoal não quer ajudar a gente e isso complica”. “Quem não vê nada, quando você estiver na rua, em um lugar aberto, um lugar público, a gente tem que contar com o bom senso das pessoas para que elas se afastem da gente por70


Inclusão

Gabriela Gallo

que a gente não vai saber se está ou não distante”, reforça Viviane.

Higiene

O professor da Secretaria de Educação também lembra de outras medidas tomadas no distanciamento social não pensada para pessoas cegas: “As marcações de filas não são marcações em alto relevo. São marcações que a gente não percebe o distanciamento, aí isso é difícil”. Outra dificuldade relatada por Viviane é sobre mobilidade “A bengala é nosso meio de locomoção e ela toca em tudo: no chão, na parede. E, se o lugar estiver contaminado pode passar para a bengala (como um objeto de metal) e a gente pode contrair o vírus através da bengala”. A constante higienização de bengalas e muletas com água e sabão e álcool 70% é uma recomendação segundo a Secretária da Pessoa com Deficiência do Distrito Federal (pasta assinada pelo governador, Ibaneis Rocha). Além dela, outra medida sugerida é, caso alguém ofereça ajuda a uma pessoa pessoa cega, ela precisa segurar no ombro do voluntário. A ideia é o voluntário ter o cotovelo livre para poder cobrir o rosto em casos de espirros. Nos próprios momentos de orientação para a técnica correta da lavagem de mãos foi algo relatado por José Augusto. “A televisão mostrava isso a todo momento mas era algo que eu não conseguia entender porque é algo muito visual. Precisei de uma ajuda da minha esposa para que ela pudesse me explicar, até então, pra mim era uma coisa nova essas técnicas. [...] Faltou uma iniciativa de audiodescrição dos passos de como lavar as mãos.” Com todas essas questões, alguns especialistas argumentam que pessoas com deficiências em geral podem ser encaixadas como grupo de risco, apesar da OMS não classificá-las dessa forma. José Augusto comenta que essa falta de visão da OMS não o atrapalhou por estar trabalhando 71


Inclusão

Gabriela Gallo

em casa, mas ouviu de colegas esse tipo de reclamação. “Muitos deles [deficientes visuais] estão tendo que ir ao trabalho. Aí ocorre toda a dificuldade de locomoção, de tocar em tudo - a gente precisa do tato pra seguir no ônibus”. José Augusto lembra o martírio de uma pessoa que trabalha em um hospital da Secretária de Saúde, que precisava ir ao trabalho. “Ela comentou que, até na hora de tentar achar o pote do álcool em gel para poder fazer a assepsia das mãos, estava com dificuldade. Nisso, o risco é muito grande. Faltou um pouquinho da OMS a visão em relação aos deficientes”. O Art. 4º da Lei Brasileira de Inclusão a Pessoa com Deficiência (Nº 13.146/15) afirma que “Toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades com as demais pessoas e não sofrerá nenhum tipo de discriminação”. No parágrafo 1º “Considera-se discriminação em razão da deficiência toda forma de distinção, restrição ou exclusão, por ação ou omissão, que tenha o propósito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais de pessoa com deficiência, incluindo a recusa de adaptações razoáveis e de fornecimento de tecnologias assistivas”. Mesmo em tempos de pandemia, o ir e vir de forma não discriminatória é um direito de qualquer cidadão. Na obra de Saramago, há uma “pandemia de cegueira” na qual diversas pessoas ficam cegas sem motivo e, para não ter o risco de transmitirem a até então cegueira desconhecida são obrigados a se isolarem do mundo e de seus conhecidos e pessoas amadas. Ao contrário da cegueira tradicional onde tudo é preto, eles estão imersos em um “mar de leite” onde tudo é branco. Por se tratarem de recém cegos, eles ainda estavam aprendendo a lidar com a situação, sem nenhum ou pouco auxílio do governo para a situação. O livro mostra o descaso do Estado e como o medo do desconhecido os “cegava” da verdadeira situação dos que estavam isolados. Entretanto, a mulher de um médico que foi isolado (Saramago 72


Inclusão

Gabriela Gallo

não cita nomes nessa obra) fingiu também estar cega para poder acompanhar o marido e ajudar as pessoas que estavam lá dentro. Viviane lembra que, neste momento, cabe a solidariedade das pessoas que estão próximas e podem ajudar em algo, para minimizarem a situação. “Tem gente que está se voluntariando para fazer compras no supermercado pro pessoal que mora sozinho. Muitos estão contando com a ajuda desses voluntários para eles não precisarem sair de casa”. Porém, ela relembra que muitas pessoas ainda tem medo do toque por conta do vírus.

73


Inclusão

O isolamento de Aurora Foto: Arquivo Pessoal

A jovem dançarina explica as dificuldades pelas quais passam pessoas da comunidade LGBTQ e como um movimento tem ajudado a minimizar as dores

Ana Caroline Wanzeller

A

os 19 anos, Aurora, dançarina e performer, tinha sua fonte de renda em shows e apresentações diversas em baladas, bares e eventos em Brasília. Diante da pandemia, pela falta de trabalho e dinheiro, ela teve que submeter a ficar em casa com os os familiares, o que para ela, travesti, negra e moradora periférica tem sido um grande desafio. Aurora era um menino tímido. A família estranhava, já que Aurora chorava pouquíssimas vezes e não fazia birra por nada. Ela conta que ouvia a mãe conversar com a avó. “Esse menino não faz birra por nada, não chora por nada. O que acontece?” Aurora sempre soube que era diferente. “Sempre existiu essa alma feminina e essa mulher dentro de mim. Então, para não assustar os outros e, por medo da reação, me retraí e fui calada. Tive poucos amigos na infância e na adolescência. Todas mulheres, então sempre fui cercada por mulheres”. Com seis anos, a mãe de Aurora se separou de seu pai, que sempre foi ausente. “Ele sumia e aparecia depois de uns três anos. Minha mãe nunca recebeu ajuda do meu pai, de nenhum tipo. Nem pensão 74


Inclusão

Ana C. Wanzeller

nem o mínimo, que era o carinho, a gente nunca recebeu”, lamenta. Com sete anos, Aurora e a mãe se mudaram para casa da avó, que sempre foi presente na vida dela. Depois de alguns meses, a mãe de Aurora decidiu morar sozinha e se envolveu com drogas. A performer recorda que foi um período difícil da vida. “Minha mãe sempre foi muito presente mesmo morando em outra casa, mas quando se envolveu com as drogas tudo se complicou mais ainda. Ela ficou quatro anos internada em uma clínica”. A vida de Aurora era estudar, ajudar a avó, cuidar da casa, e, nos finais de semana, ir visitar a mãe na clínica. Depois de um tempo, a mãe de Aurora, conseguiu sair do mundo das drogas e recuperou o emprego na poupex, uma agência de empréstimos. Com 15 anos, Aurora comunicou para a família que era gay. “Naquele momento, tudo foi um baque. Era um estrondo e um drama que todo LGBTQ+ passa, mas depois de um tempo, minha família conseguiu aceitar na medida do possível, tudo ficou um pouco mais tranquilo”. Mudanças

A família de Aurora, apesar de não concordar, aceitava que era gay e se vestia com roupas masculinas. Mas depois, com 16 anos, ela conheceu o movimento ballroom, que é uma cena na qual se consiste em balls ou seja, bailes onde expressão arte através de performances com categorias da dança Vogue. A cena surgiu na comunidade negra latino-americana LGBTQ+ da Nova Iorque dos anos 1960, e se espalhou pelo mundo como um movimento político, de ocupação de espaços e de celebração à diversidade de gênero, sexualidade e raça. “Essa comunidade acolhe. Quando eu vou em uma ball me sinto livre para me expressar, meu gênero minha cor, minhas roupas e as pessoas podem expressar o seu gênero tranquilamente sem serem julgadas”. 75


Inclusão

Ana C. Wanzeller

O movimento COB (Centro Oeste Ballroom), através de uma campanha no instagram, ajuda pessoas trans e travestis como Aurora com cestas básicas e itens de higiene pessoal. Com essa campanha a COB atingiu mais de 3 mil reais e conseguiu ajudar mais de 130 pessoas transgêneres. O dinheiro foi distribuído para 20 cestas básicas para o DF, uma delas para Aurora e mais de 30 que foram entregues no Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Aurora acrescenta que sempre se sentiu diferente de todos os amigos gays. Então, aos 17 anos, ela assumiu para a família que era não-binarie. “Na minha mente, era algo mais tranquilo e que eu poderia ser o que eu quisesse ser, me vestir do jeito que eu queria me vestir, falar do jeito que eu queria falar. Não teve aquele drama todo porque minha família não sabia o que era”. Aos 18, Aurora se assumiu para a sociedade, mas não para familia dela como travesti. “Nunca houve uma conversa para dizer que sou travesti. Da mesma maneira que sou na rua, sou em casa”. O relacionamento conturbado com família se estende até hoje. Histórias como a de Aurora não são raras na comunidade LGBTQ+. Neste período de isolamento social, há quem precise voltar para casa das famílias de onde já haviam sido expulsos, revivendo violências e mais traumas. Em outros casos, vivem na rua, correndo riscos não só do ódio e descaso da sociedade, mas de contrair o novo coronavírus. Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), foram registrados 26 assassinatos de mulheres trans e travestis no país e houve aumento de 13% no número de mortes nos meses de março e abril de 2020. Outro dado apontado pelo ANTRA é de que 90% de trans e travestis do grupo é composto por trabalhadores do sexo, o que gera situações de vulnerabilidade, tanto financeira quanto psicológica. Em 23 de abril, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) lançou nota à sociedade e às autoridades brasileiras, reiterando a ne76


Inclusão

Ana C. Wanzeller

cessidade de que gênero e orientação sexual, assim como raça, classe, idade e deficiências fossem levados em conta e discutidos no combate ao coronavírus. No documento, a associação aponta o silêncio da mídia e da sociedade sobre a população LGBTQ+ como uma “evidência de sua persistente invisibilidade social”. A entidade também confirma que todo o estigma e preconceitos sobre a comunidade implica em um menor acesso inclusive ao sistema de saúde e proteção. No caso de Aurora, em meio a discussões e desentendimentos com a família, a artista utiliza a tática de se isolar como sua maior aliada. Ela explica que é a única maneira de conseguir suportar a quarentena. “Aguentar agressões verbais e até mesmo físicas dentro de casa é o maior desafio. Então a medida que eu tenho tomado para evitar isso é ficar o dia inteiro dentro do quarto. Só saio para coisas extremamente básicas como beber água e ir ao banheiro”. Entre as quatro vezes sendo expulsa de casa, Aurora teve que sair de casa no meio da pandemia e passou um tempo com a sua mãe do coração, a mother de sua ballroom a acolheu. “Eu sempre falo para os meus amigos de fora da cena que eu só saio da ballroom quando eu morrer. Na casa da minha mãe biológica, estávamos com problemas até de alimentação e com o projeto do COB, eu recebi uma cesta básica que deu um alívio. Então, eu tenho recebido muita ajuda, tanto psicológica, recebendo mensagens pra saber como eu estou e também financeira. Muita gente da cena ballroom tem me ajudado muito.”

77


Inclusão

Transtornos do isolamento Foto: Reprodução

Jovens com TDAH relatam dificuldade de concentração para aulas virtuais; especialistas explicam que a escola garanta contato permanente com o aluno

Pedro Nery

D

iagnosticada com TDAH aos 14 anos, Gabriela Martins, hoje com 18, não teve um caminho acadêmico linear, com altos e baixos. Mas agora, no primeiro semestre na faculdade de direito, ela acredita que não houve nenhum ponto mais baixo em sua trajetoria do que o atual. Antes de ser diagnosticada, Gabriela era uma aluna com notas na média. Para ela, havia algo de errado, estudar parecia ser muito mais complicado do que pintavam, quando ela se comparava com seus colegas, via que eles estudavam com certa facilidade, então, por que não era simples para ela? A situação de pandemia agravou situações como a de Gabriela. Depois que foi diagnosticada com déficit de atenção e começou a ter acompanhamento médico, Gabriela iniciou o ensino médio em uma escola nova e com resultados novos, suas notas começaram a melhorar. De início, ela acreditava que o novo colégio estava sendo mais fácil que o anterior. Com o passar dos bimestres notou uma mudança de comportamento. Gabriela não se sentia tão perdida nas aulas, nem esquecia das coisas facilmente como antes, e estudar ainda não era um prazer, mas 78


Inclusão

Pedro Nery

não era tão desafiante quanto antes. Foi questão de tempo para que ela se tornasse uma aluna exemplar, chegando a ser representante de sua turma por dois anos seguidos, alguns problemas continuavam aparecendo em alguns momentos mas isso não afetava tanto quanto antes. Terminando o ensino médio, ela sabia que a faculdade seria um desafio que ela nunca tinha visto antes mas ela não esperava o quão desafiador 2020 seria. Gabriela já estava ansiosa, não por medo ou receio e sim de curiosidade e empolgação, ela não via a hora de passar por aquela experiência. A primeira semana foi de acordo com o que era esperado, a segunda também, mas na terceira, começou a ter pequenos problemas. Os professores já pediam muitos trabalhos, o que a desorientava por conta das diversas tarefas simultâneas, porém nada que ela não pudesse dar conta. Já na quarta semana, tudo começou a desandar. O vírus Covid-19 teria chegado no Brasil e em alguns dias afetaria as escolas e faculdades do país. Por alguns dias, as aulas de Gabriela foram suspensas, quando o distanciamento social foi implementado, as aulas de diversas escolas e faculdades foram retomadas, mas se adaptando ao distanciamento. A era do ensino a distância havia começado, pegando todos os alunos desprevenidos, foi em questão de dias que Gabriela percebeu que aquele sistema não estava sendo benéfico e que o desafio que ela tanto ansiava acabara de se multiplicar. Não demorou para os professores tratarem com certa normalidade, com apenas alguns dias já passavam trabalhos e questionários complicados, para Gabriela os professores acreditavam que por os alunos estarem presos em casa, eles tinham tempo para realizar qualquer tarefa que fosse passada. As semanas foram passando e com elas novos problemas apareceram e problemas antigos voltaram. Foi questão de poucos dias para ela se sentir sobrecarregada, quando terminava alguma tarefa surgiam mais, colocando79


Inclusão

Pedro Nery

-a em um processo mecânico em que terminar as atividades era prioridade, mesmo não aprendendo. Logo, a desmotivação surgiu, estudar e realizar as atividades tinha se tornado um processo mecânico, que no final não rendia em nenhum conhecimento. Mas o agravante de tudo foi a dificuldade para estudar, realizar as atividades e até estar presente na aula. O cenário em que ela se encontrava não era favorável para ela por conta de seu TDAH, as aulas on-line não conseguiam atrair a atenção, estudar e passar o dia em casa cheia de distrações era o maior desafio, a ponto de ser tão difícil e complicado que levantar da cama era um desafio. Os dias dentro de casa, por mais repetitivos que fossem, Gabriela não tem uma rotina saudável que contribui para o aprendizado. Momentos depois de acordar, já se senta na frente do computador para assistir às aulas durante toda a manhã. Pós almoço, eis o momento do ócio, mesmo tento atividades e tarefas, ela não consegue se motivar para fazê-los com o empenho esperado. Os dias passam, e quase sempre com a mesma rotina de acordar, assistir às aulas, almoçar e tardes longas e improdutivas. TDAH não é um transtorno raro e aparece durante a infância. Diferente do que muitos pensam o transtorno não afeta apenas adolescentes e crianças, tendo casos em que os sintomas podem perdurar até na vida adulta. De acordo com a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) cerca de 5% das crianças e 2,5% dos adultos são afetados pelo DDA. Portadores tem neurotransmissores da parte frontal, que são responsáveis pelo controle de comportamentos, memória, organização, planejamento e de atenção. Estudar ou se comprometer a alguma atividade pode ser trabalhoso já que coisas que ao seu redor podem tirar sua atenção e até a menor distração pode ser mais tentador do que estudar. A sala de aula, mesmo não sendo um cenário perfeito, acaba ajudando a manter o aluno focado no professor e até um motivador para realizar as atividades. 80


Inclusão

Pedro Nery

Dentro de casa, pode ser um pesadelo para o indivíduo diagnosticado com TDAH. Se a menor distração já é impactante, imagine estar cercado de provocações, familiares, televisão, cama, computador até afazeres que acabam afetando a produtividade e qualidade de seus trabalhos. A cada dia acordar sabendo de toda a dificuldade que irá passar e as vezes não vai ser recompensador, é desgastante. Além das distrações, o maior problema é o formato online, horas de uma aula na frente do computador, acabam não sendo tão tentador. A falta da presença física do professor, problemas de conexão, aulas desinteressantes e monótonas afastam os alunos. O estudante de cursinho Tiago Nobre, que sonha passar em medicina, com 9 anos de tratamento com remédios como ritalina e acompanhamentos médicos, deixou de tomar os remédios e segue uma rotina estrita, com hora para tudo, sempre tentando manter o controle, algo que está sendo um tanto complicado durante a quarentena. É demais ter que conciliar a rotina de estudos, com tarefas domésticas e com tempo livre, às vezes tem de escolher dedicar seu tempo nos estudos em detrimento de suas outras tarefas. A alternativa que Tiago tomou para lidar com o transtorno sem os remédios, foi de adotar uma rotina rigorosa para forçar um controle de sua atenção e produtividade. Antes sua rotina se resumia, de forma breve, em estudar no cursinho, com horários e cronogramas do que estudar e fazer no curso. Agora, sua rotina não é mais a mesma, tendo que adaptar ao ambiente de casa, acrescentando tarefas domésticas ao seus horários, tirando um pouco do foco dos estudos. Começando o dia com aulas, em seguida ter que fazer seu almoço, voltar aos estudos para depois ter que lavar roupas ou louças. Mas mesmo tendo problemas de adaptar sua rotina como EAD, seu maior desafio são as aulas. Ficar horas e horas sentado 81


Inclusão

Pedro Nery

na frente de um computador vendo uma aula monótona, por conta da perda de toda interação que se tinha em sala de aula, é um suplício. Antes de estudar ele sempre precisa se organizar e organizar o espaço para que não ocorra nenhuma distração durante as aulas. Vendo que as aulas on-line não estão sendo tão aproveitadas, tanto Gabriela quanto Tiago questionam se vale a pena continuar tentando assistir às aulas ou se devem continuar os estudos por conta própria. Dentro da sala de aula, eles conseguiam se adaptar, escolhendo onde sentar, mais próximo do professor e longe de distrações, o que pode parecer natural para qualquer tipo de estudante, evitar distrações, mas que para alunos com TDAH acabam tendo mudanças descomunais. Estar no mesmo espaço em que o professor também impacta positivamente, já que ocorre mais interações e o professor tem maior controle, conseguindo manter a atenção do aluno. Logo é mais do que esperado que os alunos estejam tentados a questionar a eficácia das aulas onlines e se devem continuar tentando e se dedicando às aulas ou se devem continuar por conta própria. Especialista

De acordo a psicopedagoga Isabella Ruzante, o transtorno afeta cada indivíduo de uma forma diferente, variando entre o espectro de hiperatividade e da falta de atenção. Por isso o ensino a distância acabou afetando de forma completamente diferente em cada caso. Alguns, devido à desatenção, acabam não tendo tanto rendimento acadêmico, é um cenário que dificulta os estudos já que não conseguem acompanhar e tem mais facilidade para se distrair já que estão em casa, podendo levantar, ir ao banheiro ou começar outra atividade. Mas também há casos contrários, indivíduos que acabaram conseguindo se concentrar 82


Inclusão

Pedro Nery

mais, pois já estão familiarizados a realizar atividades pelo computador. Porém, a psicopedagoga afirma que tudo depende de como a escola está abordando o ensino virtual e o formato adotado. Algumas apenas estão tendo aulas marcadas, que não possuem gravação para o aluno acessar depois, esse formato acaba sendo defeituoso já que o aluno com TDAH pode se distrair durante a aula e acaba perdendo aquele conteúdo. Outras instituições estão apenas oferecendo aulas gravadas, abordagem que também acaba dificultando os estudos do aluno com TDAH. Isso fez com que alguns alunos perdessem o interesse, já que diminui o contato entre professor e aluno. Isabella tem visto nos pacientes resultados melhores e opiniões positivas em relação às escolas que adotaram aulas ao vivo e também disponibiliza as gravações da aula. Assim, na opinião da especialista, é importante que os garantam ao aluno o contato com o professor, o que acaba estimulando o estudo. Isso possibilitaria que o aluno tenha acesso aos conteúdos passados, e tenham condição de retornar aos conteúdos não apreendidos inicialmente.

83


Inclusão

Autismo na quarentena Como as famílias responsáveis por crianças com transtornos tentaram se adaptar à rotina de isolamento social

Sofia Brandolff

A

umento de doses de remédios, distância de aparelhos eletrônicos, sucos com propriedades calmantes e atividades que estimulem o intelectual foram algumas das alternativas para manter a adolescente autista Isadora* de 12 anos, mais calma e distraída. Durante os dois meses em que está afastada de todas as atividades diárias por causa da pandemia de Coronavírus, a garota tem apresentado uma série de dificuldades no dia a dia, como dormir, se alimentar e principalmente desenvolver as atividades propostas pela escola. A mãe da adolescente, Maria Eliza*, que é assistente social, 39 anos e, tem sentido na pele as adversidades em conciliar o trabalho e os cuidados com a filha. Além de ser diagnosticada pelo do espectro autista, é hiperativa. Isso, de acordo com a família, dificulta a concentração para realização de atividades. Jovens autistas precisam estar, segundos os especialistas, especialmente assistidos em situações de crises como essa. Isadora cursa o sexto ano do ensino fundamental no período vespertino. Mas, com a suspensão das aulas presenciais, os compromissos com a escola passaram a ser pela manhã no computador, fator que tem dificultado a participação da adolescente nos encontros virtuais. Segundo a mãe, Isadora não tem a capacidade de entender a gravidade do que está acontecendo e não aceita assistir às aulas de casa. As avaliações propostas pela instituição de ensino não possuem qualquer apoio extra, o que era oferecido pela escola em períodos normais. 84


Inclusão

Sofia Brandolff

Segundo a mãe, a adolescente possui mais facilidade com o aprendizado de outras línguas e tem grande interesse no Inglês. Com isso, a mãe tem traduzido as atividades escolares que a menina não desenvolve bem ou não tem muito interesse, mesmo sem ser fluente na língua estrangeira. “A Isa tem se desenvolvido bem com essa ação. Antes, eu mentia que íamos estudar inglês para fazer com que ela despertasse o interesse pelo o estudo. Agora que comecei a traduzir mesmo que de forma arcaica. Ela tem se desafiado todos os dias a aprender coisas que não despertavam seu interesse, como História e Geografia”. Ainda assim, há diversas limitações para os cuidados extras com Isadora, principalmente quando se é levado em conta o trabalho de Maria Eliza que, durante todo o desenrolar da pandemia, se tornou, de certa forma, mais importante. No local onde reside, é ela quem faz o cadastro das famílias que estão passando por necessidades para recebimentos de cestas básicas, bem como tem realizado o cadastro de pessoas sem acesso a internet no auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal. Reações

Luiza Barcelos*, 19 anos, corretora de imóveis, foi mãe em 2017 aos 15 anos de idade. A criança foi bem aceita pela família desde o primeiro momento. O menino Marcelo* acabou de completar três anos de vida e também foi diagnosticado com autismo em um grau elevado. Durante o isolamento social é que Luiza está aprendendo a lidar com o filho. A mãe se comunica com o filho também pelos sabores, cheiros e os costumes. A criança passou a frequentar uma escola de educação infantil no início de 2020, o que foi crucial para a corretora, que em conjunto com as professoras e assistentes dentro de sala de aula, puderam identificar as diferenças que Marcelo apresentava das outras crianças. 85


Inclusão

Sofia Brandolff

As docentes alertaram a mãe para que pudesse procurar um médico. Por opção própria, a mãe, que é solteira, optou, junto aos médicos responsáveis pela criança a não usar nenhuma abordagem medicamentosa e tem feito o uso de óleos essenciais, que atuam através das vias respiratórias estimulando as vias sensoriais do olfato e do tato de forma mais pontual, colaborando no processo de tratamento. Os óleos têm sido usados em cenários como nos momentos em que Marcelo está em situação de estresse ou até mesmo para episódios em que a criança está seguindo no processo de desenvolver uma habilidade que necessite de mais concentração. Segundo Luiza, Marcelo tem momentos agressivos e o costume de se isolar quando fica por muito tempo em casa. Quando passou a utilizar o tratamento alternativo no filho, pôde perceber uma melhora no quadro geral da criança, ficando mais calma e carinhosa. Durante o período em que não está indo à escola, com a ajuda da mãe, Marcelo tem conseguido realizar todas as atividades propostas pelas professoras. Mesmo com as dificuldades e limitações, tem se destacado e conseguido desenvolver algumas habilidades motoras. A fala, que era a maior dificuldade, melhorou com exercícios como colorir e verbalizar o nome das cores. Luiza acredita que o momento tem proporcionado um grande aprendizado. Como tem realizado seu trabalho de forma remota, pôde dispor de uma organização que a permite concluir todo o acompanhamento que seu filho necessita e ainda todas as atividades diária demandadas pela imobiliária na qual trabalha. Educação

O autismo vem da palavra de origem grega autós, que significa voltar para si mesmo. O Transtorno do Espectro Autista, ou 86


Inclusão

Sofia Brandolff

TEA, é considerado um transtorno global do desenvolvimento, que ocasiona mudanças significativas no comportamento da criança, como limitações de comunicação e de falta de reciprocidade afetiva. De acordo com a psicopedagoga Jaqueline Caldas, as crianças enquadradas dentro do espectro autista possuem dificuldades perceptíveis em três principais eixos: as interações sociais, comportamentos repetitivos ou restrição de interesses e comprometimentos na comunicação e linguagem. Para otimização da aprendizagem de crianças diagnosticadas com o autismo, algumas das alternativas precisam ser adotadas, como a elaboração de um programa especial de adaptação curricular, a organização da rotina em sala de aula, utilização exacerbada de recursos visuais, que sejam chamativos e bastante coloridos e a repetição de atividades para fixação do conteúdo. É determinado pela Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, que durante os dois primeiros anos do ensino fundamental o foco seja a alfabetização, ou seja, é quando a criança passa a dominar a leitura e escrita de diferentes gêneros literários. Jaqueline considera o ano letivo como uma organização artificial para a condução da aprendizagem. Contudo, mesmo em momentos em que as aulas ocorrem da forma convencional, crianças autistas podem ter diversas dificuldades, o que acarretaria em atraso da alfabetização e não pode ser considerado prejuízo. Em momentos excepcionais como a pandemia de coronavírus, os pais não podem assumir o papel de um professor na alfabetização, porém existem diversas formas simples para que auxiliem no processo. Dentro de casa, as crianças passam por outras experiências o que pode despertar novos interesses a partir do direcionamento dos pais, como elaboração de dinâmicas, momento para contação de histórias e estimulação da leitura, brincadeiras como pular corda e as que, de forma mais lúdica, possam incentivar a imaginação e criatividade. 87


Inclusão

Sofia Brandolff

O desenvolvimento escolar das crianças com transtorno do autismo pode ser prejudicado quando há o afastamento social. A interrupção das assistências de aprendizagem e dos atendimento terapêuticos desestabilizam a rotina das crianças. Jaqueline também relata que o tempo de aprendizagem é diferente entre as crianças autistas e as demais. “As pequenas coisas que são aprendidas pelas crianças dentro do espectro autista são consideradas vitórias tanto por elas quanto para a família e professores”, diz a especialista. Nesse momento de quarentena, cabe aos pais proporcionarem, com os recursos disponíveis, formas de realizar atividades propostas que não substituam as ações dos professores. “Quando se diz respeito às atividades propostas pelas instituições de ensino, os pais devem estimular os interesses das crianças para que seja possível despertar o interesse”. (*Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados)

88


TÃO LONGE, TÃO PERTO Mudanças. Não acreditamos que tudo ia transformar as nossas vidas tão rápido. Seja perto ou longe, tivemos que lidar com novas versões: O egoísmo, a empatia; com abraço, sem abraço; Com paz ou violência e até mesmo com esporte ou sem esporte. Mudou.

89


Tão longe, tão perto

O tempo dos abraços perdidos Foto: Rafaela Camelo

‘‘O povo brasileiro está no modo sobrevivência. Sentindo a necessidade dos abraços e saudades dos nossos queridos’’

Victoria Duarte

N

inguém acreditou que um vírus fosse acabar com os abraços. A Covid-19 não interrompeu o carnaval, a maior festa cultural que representa o povo brasileiro. Dessa escapamos. Mas interrompeu mais adiante, não permitindo romances pós- carnaval, abraços de aniversários, abraços nos mais velhos ou nos mais novos. Quantos abraços foram adiados? Não é possível contar. Foram acumulados. No país, segundo especialistas, o abraço faz parte da cultura nacional. Mais do que um gesto de carinho, trata-se de um verdadeiro patrimônio nacional. Com o tempo, eu mesma deixei de cumprimentar com apertos de mãos, abraços ou beijos no rosto, parecia que eu estava exagerando. Que tinha entrado numa onda de paranoia. Mas permaneci cautelosa. Mas tudo parecia que ia passar rápido, apenas era só um curto tempo que iriamos abdicar da herança: o abraço. Diante do meu espanto, fui conversar com quem entende do assunto. O cientista social Luiz Renato Vieira, doutor em sociologia pela UnB relata que os abraços têm diferentes significados a partir da inter90


Tão longe, tão perto

Victoria Duarte

pretação dos povos. “A sociedade normatiza e cria condições e padrões para os relacionamentos entre os indivíduos com o próprio corpo”. Ele considera que não existe uma “forma natural” de agir com o corpo: os gestos, as formas de vestir, o comportamento social no contexto corporal como parte da expressão da linguagem tudo isso faz parte de um grande complexo da expressão humana que são determinadas pela cultura. Dessa forma, por isso que vemos cultura orientais tendo a perspectiva do “abraço” do toque de forma negativa. Até mesmo as culturas europeias, um pouco mais “fria”, em relação a cultura brasileira. O antropólogo francês do século 20, Marcel Mauss na sua obra As técnicas do corpo (1934), reflete sobre essa especificidade de cada cultura, trazendo a proposta que o corpo é o primeiro instrumento e o mais natural. Ou, mais exatamente, sem falar de instrumento: o primeiro e o mais natural objeto técnico, e ao mesmo tempo meio técnico, do homem, é seu corpo”. Sendo que o corpo e sua funcionalidade pode mudar, variar sempre de acordo com a técnica praticada. “Essa especificidade é o caráter de todas as técnicas”, afirmou o autor O povo brasileiro está no modo sobrevivência. Sentindo a necessidade do abraços e saudades dos nosso queridos. Passamos muito tempo sentados na varanda acompanhando a movimentação da rua, pois é uma atividade estática que não faz a cabeça da gente doer tanto. Mostrando o quanto este momento é dolorido para o indivíduo que tem necessidade do afeto. Afinal, o afeto, o abraço é curativo! Não deveria ser uma arma poderosa contra esse vírus? Deveria, mas não podemos usar agora. Ao final da batalha, com certeza, vamos usar. Para curar os resquícios da guerra, por enquanto, temos que guardar o melhor para o final. A quarentena também tem o efeito de nós fazer reféns. Não podendo sair de casa, nem para ver os amigos e familiares. Qualquer passo rumo à falta de empatia, é um caminho para ficar mais tempo na sua “prisão” domiciliar. 91


Tão longe, tão perto

Victoria Duarte

O efeito da empatia

Empatia é definida como a capacidade de se colocar no lugar do outro, de perceber o estado ou a condição de outra pessoa e assim desenvolver a habilidade de sentir a mesma emoção. A neurociência tem evidenciado que a empatia é na verdade uma combinação de atos conscientes e inconscientes do cérebro que depende do bom funcionamento de certas regiões para florescer. E você acredita que o abraço é um ato empático? A psicóloga Francielly Muller, especialista em psicologia humanista, relata. “Desde o nascimento, nós temos, enquanto seres humanos, temos necessidades relacionais. A gente não se constitui enquanto ser humano, se nao for na relação com outro. Então, é na relação com o próximo que eu me reconheço, que eu me transformo, que eu me identifico”. Essa necessidade do toque, o abraço, é gerado desde da natividade. Onde o indivíduo começa a construção no modo de falar, de agir e de pensar. Tendo o outro como referência de afeto, de cuidado ficando registrado no consciente. “Ficando registrados em nós, a gente carrega esse registros afetivos a longo da nossa vida”, acrescenta a psicóloga. “O abraço tem um lugar de nos “validar”, nos legitimar enquanto pessoas, partir do momento que estabeleço essa relação afetiva com o outro. Legitima o meu lugar enquanto humano”. Assim somos totalmente dependentes do toque, do abraço do outro. Quando estou recebendo um abraço, nosso corpo entende a mensagem, que pode ser interpretada como amor, proteção, segurança. Tendo como resposta a dependência do ser humano com quem tenho relação. Neste tempo, embora não se deva abraçar, não se pode deixar de reconhecer a sua importância. O abraço é um símbolo reforçador de uma grande necessidade humana: a conexão com o outro. Nós temos a necessidade de estabelecer vínculos. Isso é vital. Os benefícios que esse afago traz também não são poucos, e 92


Tão longe, tão perto

Victoria Duarte

são, inclusive, atestados pela ciência. Em 2013, um estudo da Universidade Médica de Viena, na Áustria, liderado pelo neurofisiologista Jürgen Sandkühler, comprovou que abraçar alguém que confiamos pode, além de promover o bem-estar, reduzir a pressão arterial e melhorar a memória. O responsável por tudo isso é a oxitocina liberada no organismo. O hormônio, relacionado à felicidade, quando presente na corrente sanguínea, reduz a pressão arterial e diminui a sensação de estresse e ansiedade. Ainda, um abraço pode aliviar a dor. A psicóloga acrescenta que o isolamento social pode trazer outras doenças para mente e o físico. “As pessoas não vão adoecer apenas da Covid-19. Há outras ranhuras que vão ser deixadas no psiquismo, que levamos muito mais tempo para serem organizadas. E o isolamento traz isso, o distanciamento do toque do outro. Mesmo que hoje já tenha as tecnologias digitais, mas existe um espaço de toque com outro que não pode ser substituído”. O tempo do abraço

Assim, eu me pego questionando até quando essa falta do abraço vai durar. Tantas pessoas ficam na expectativa e no futuro. Tenho certeza que em nossas conversas com os entes queridos. Já falamos assim. “Quando isso passar, poderemos nos abraçar”. Seja para os namorados, seja para pais e filhos ou até mesmo em ver os avós. Posso dizer que nosso o “melhor remédio do brasileiro”, o abraço. Hoje, tá em falta. Trazendo diversos problemas psíquicos para muita gente. Mas creio que há uma luz no fim do túnel, segundo a psicóloga. “O abraço cálido, ele é curativo. Porque afeto tem o poder enorme e potente de cura emocional e física”. Isso mostra que o corpo humano tem fome de pele. A especialista em o poder em especialista Tiffany Field, fundadora do Ins93


Tão longe, tão perto

Victoria Duarte

tituto de Pesquisa do Toque da Universidade de Miami diz em sua pesquisa sobre os benefícios do toque aos tratamentos para a dor que “sob nossa pele estão distribuídos diferentes tipos de sensores ou fibras nervosas que respondem ao toque”. A baixa das fibras nervosas, gera a redução da imunidade e nos tornaria mais vulneráveis a doenças gerais ao coronavírus quando, paradoxalmente, o que o confinamento pretende é evitá-lo. Mas a pesquisa é muito mais complexa. O psiquiatra Pablo Rocha, diz que o abraço pode ser inato a ser humano, “pode-se dizer que o abraço é algo que aparece de maneira praticamente inata tanto no ser humano quanto em várias espécies animais, como macacos.”. Afirmando que o abraço é uma necessidade do indivíduo para se desenvolver, não só na infância, mas a longo de toda vida. “O ser humano é essencialmente uma espécie social, que necessita da companhia de outros seres humanos para ter uma vida saudável. O contato social, de olhar para os outros e sermos olhados, é de extrema importância para uma vida saudável”, conclui o especialista. Mas a pandemia e o confinamento tornaram mais consciente a importância do abraço e do beijo, um paradoxo: estamos mais perto e mais longe. Seja para os mais velhos ou para os mais novos, para os apaixonados ou para os medrosos. “O melhor lugar do mundo é dentro de um abraço”, já diz a canção da banda Jota Quest. Embora nunca vá deixar de existir ou de ser uma boa representação de carinho, em tempos de pandemia do coronavírus, esse gesto tão corriqueiro precisou ser abandonado, ou, pelo menos, desencorajado, para que se possa evitar o contágio.

94


Tão longe, tão perto

Como entender o individualismo ‘‘EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU’’ ‘‘EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU EU’’ Ou por que é tão difícil lembrar do outro...

Maiza Santa Rita

E

m Leviatã, de Thomas Hobbes, o homem em seu estado natural é egoísta, sendo narrado com observações bíblicas e históricas. Hobbes, apresenta o homem como aquele que não conhece leis e não possui conceito de justiça, ele somente segue suas paixões e instintos. Nesse contexto, há de se refletir se o homem é em sua essência egoísta ou apenas, como qualquer outro animal, age segundo seu instinto de sobrevivência. Na pandemia que estamos vivendo esse sentimento está mais aflorado e concreto. Está ao nosso lado. Para o historiador e pesquisador em ciências sociais, Frederico Tomé, o egoísmo seria a perspectiva de olhar para si ao invés de olhar para coletividade. “Acredito que dentro dessa perspectiva entre instinto de sobrevivência humana individual e o instinto de sobrevivência coletiva, o egoísmo esteja envolvido no instinto de sobrevivência individual”, explicou. Agora que sabemos que o egoísmo está presente na sociedade desde os primórdios, a questão que se impõe é porque em momentos difíceis, como a pandemia em 95


Tão longe, tão perto

Maiza Santa Rita

que estamos vivendo, esse sentimento se faz mais presente e visível. O livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, traz a história de uma epidemia que se alastrou em uma cidade e trouxe à tona sentimentos diversos entre as pessoas, sendo um desses sentimentos, o egoísmo ou o individualismo. Saramago conseguiu expor de forma clara essa realidade vivida e como os seres humanos se comportam diante de tantas mortes, luta entre grupos por comida, e outros. Em momentos como esses nós vemos a sociedade como ela realmente é, de uma forma mais crua. Diante de tantas dificuldades nós esperamos aquilo que o ser humano tem de melhor, ou seja, atos solidários, e realmente nós enxergamos esses atos, mas também conseguimos ver. com mais clareza, aqueles que agem de forma individualista, egoísta e sem empatia. Anomia social

O sociólogo francês Émile Durkheim, descreve essas atitudes dos seres humanos através da anomia social, que é a falta de ligamento em uma sociedade, na qual os indivíduos desconsideram o controle social que rege as relações entre os homens. Isso se dá pelas intensas transformações ocorrentes no mundo social moderno, que transformam cada vez mais os homens em seres individualistas. Para alguns especialistas o mundo capitalista mudou o homem e passou a ditar as regras para um convívio social.Para Erci Ribeiro, professora de serviço social, a natureza humana é essencialmente coletiva e necessita ser compreendida neste contexto. A pesquisadora esclarece que os meios de produção foram os elementos transformadores essência dos seres humanos tal qual se apresentam. “O espírito de competitividade entre os indivíduos foi acirrado enquanto sociedade moderna”, concluiu o especialista no tema. 96


Tão longe, tão perto

Maiza Santa Rita

Relacionamentos líquidos

Zygmunt Bauman, um filósofo e sociólogo polonês, defendia uma teoria que se chamava modernidade líquida, que compreende o momento em que estamos vivendo atualmente. Para ele, as relações estabelecidas pelas pessoas se transformaram de maneira muito rápida e imprevisível. A modernidade, para Bauman, seria como os líquidos, que não possuem capacidade de manter sua forma, a coletividade e solidariedade ficam em segundo plano, e quem assume a primeira posição é o individualismo. Nós sabemos que a instabilidade econômica, as novas tecnologias e a globalização tiveram grande influência na perda desses sentimentos, mas como resgatar a solidariedade do ser humano? Erci Ribeiro, quando perguntada sobre como e qual seria o papel do serviço social na luta de resgate da coletividade e solidariedade do ser humano, diz que não trabalha com a perspectiva da subjetividade, que seria o campo de intervenção de psicólogos, mas o que norteia os princípios do serviço social é a coletividade. “As estratégias que nós, assistentes sociais, adotamos são estratégias tão amplas mas que partem desses princípios fundamentais, desde campanhas, rodas de conversas, uso das novas tecnologias como as redes sociais, respeitando sempre a categoria do trabalhador e sua condição, utilizamos estratégias como rádios comunitárias, webtv, teatro, música, como ferramentas que nos apoiam nas relações da sociedade de uma forma coletiva”, detalhou. Segundo o psicólogo Aldry Santos, a pandemia nos coloca em uma situação em que nossos recursos individuais de enfrentamento não são suficientes para lidar com as consequências encontradas, o que resulta em uma colaboração maior entre as pessoas e até mesmo o sentimento de solidariedade entre os indivíduos. “ O grande po97


Tão longe, tão perto

Maiza Santa Rita

der do humano é a capacidade de, juntos, transformar a realidade. A vida que temos hoje é fruto do trabalho de muitos. Pode faltar recursos econômicos, mas isto não impede do ser humano trabalhar e transformar a realidade. E juntos, podemos potencializar a construção das estratégias de enfrentamento da realidade. O compartilhar é uma grande força para construção de cada um e da sociedade”, explicou. Assim como há espaço para atitudes solidárias, também há espaço para atitudes individualistas. Para Santos, não podemos considerá-las como atitudes egoístas. Para ele um dos valores prevalentes na nossa sociedade está ligado ao individualismo. “Esse valor, quando disseminado, passa a conduzir de forma mais presente a vida das pessoas”. Em uma sociedade que também valoriza a competição, transforma o egoísmo em modo mais aceito. “Além disso, creio que exista um outro fator que pesa: o anonimato das vidas contemporâneas. Muitas vezes, não somos visíveis para o outro, não temos tempo para se importar com o outro, pois estamos sempre atarefados, correndo, sem tempo para olhar para o lado, e o outro, muitas vezes está do lado e não percebemos. O que podemos pensar é que, a partir do nosso modo de vida atual, podemos nos tornar insensíveis ao outro”. Todos os especialistas com quem conversamos, quando perguntados sobre egoísmo, citaram o individualismo como a palavra correta a ser usada, o que está relacionado com o modo de vida da a sociedade contemporânea e capitalista. De fato, os jornais mostram cada vez mais casos de egoísmos e preconceitos, mas também luta de pessoas contra essas injustiças. Para os especialistas, o momento é de olhar para o outro, de empatia, de altruísmo. Não é de desabraço.

98


Tão longe, tão perto

Sem abraços: os contrários ao isolamento Foto: Reprodução

‘‘É complexo entender, mas durante a pandemia de 2020, um fenômeno causou perplexidade enquanto centenas de pessoas morriam por dia

Felipe Tusco

- Agora mesmo o meu irmão tá dando uma festa aqui… Eles são bem ignorantes em relação a isso.

A

estudante Eduarda Neves, de 18 anos, moradora na Asa Sul, discorda da família que resolveu ter uma vida não isolada durante a quarentena. Preocupação. Esse sentimento define a situação que ela se encontra. A mãe e o irmão têm planejado e organizado encontros, às vezes, até mesmo dentro do apartamento, sem se importar com a situação da pandemia. ‘’Eles fizeram uma festa de aniversário para uma amiga deles e convidaram uns cinco amigos’’, - diz ela sobre o último encontro em seu apartamento. Ela ainda comenta que as pessoas entraram nos cômodos da casa, como quartos e banheiros, e tiveram contato direto com a mãe da garota. ‘’Fizeram tudo. Sem máscara nem nada, sem distância um do outro’’. A situação gerou discussão na família. Além disso, Duda disse que tem se incomodado com visitas de pessoas de fora. Um exemplo é a namorada do irmão, que tem frequentado a casa deles. Duda ficou em alerta depois de saber que a mãe da visitante 99


Tão longe, tão perto

Felipe Tusco

pode estar com coronavírus. ‘’- Ela fica indo e voltando da casa dela. Se estivesse passando a quarentena toda aqui, tudo bem. Mas pelo menos, três vezes por semana, ela vem para cá.’’ Duda disse que sofre de asma crônica severa. Chegou a ficar chateada pela mãe não deixá-la ter, no dia do aniversário, pelo menos uma amiga em casa para conversar. ‘’- Mas o meu irmão pode fazer festa pra amiga dele no pico da doença no Brasil e ela acha lindo’’. Ninguém mais da família de Duda quis conversar com a reportagem. Quem precisa sair

Delma Vaz, atualmente dona de casa, diz que não tem seguido devidamente a ordem de se manter em casa. ‘’Muitos respeitam rigorosamente, o que é correto. Mas para mim e muitos outros, é complicado’’, disse ela sobre a situação das pessoas que precisam pagar as contas e suprir as necessidades de suas famílias. ‘’ - Alguém da casa tem que ir ao supermercado, farmácia, enfim, algo que não é possível on-line. Diferente de nós, as contas não estão de quarentena’’. Ela termina seu raciocínio dizendo: ‘’ - O covid é um inimigo invisível! Mas se mudarmos nossa postura e aprendermos a ser humanos, poderemos olhar para o céu e contar com a ajuda daquele que tem o controle do universo em suas mãos. Mais uma vez: o dinheiro não compra nem resolve tudo. Ou fazemos isso, ou… mudamos de planeta?’’. O historiador Frederico Tomé, pesquisador de ciências sociais, diz que algumas pessoas saem de casa sem precisar, o que revela uma falta de responsabilidade. ‘’Há aquelas pessoas que precisam sair de casa, por atividades essenciais, mas há aquelas pessoas fazendo festas e reuniões, que se encontram, seja na rua, em bares ou na casa de amigos. Isso mostra uma falta de sensibilidade vinda por parte desses grupos.’’ Ele diz que o problema do isolamento pode nos trazer conflitos com familiares e 100


Tão longe, tão perto

Felipe Tusco

amigos dentro e fora de casa e os argumentos podem ser os mais variados. Tomé diz que a situação da quarentena no Brasil é problemática e que pode ainda se prolongar. ‘’Se não pensarmos socialmente, viveremos um problema maior’’, prevê o pesquisador. Ele apontou que pode haver um desconhecimento do eventual colapso dos sistemas de saúde público e privado. ‘’ - Nós vemos que o nosso SUS tem sido congestionado, e pessoas que se contaminarem por falta de responsabilidade de outras, não terão um atendimento fácil depois’’. Ele compara com aquelas que têm o atendimento privado. Pessoas que, caso se contaminem, terão o devido serviço. ‘’ - Até o desenvolvimento de uma vacina, viveremos um momento difícil’’, conclui. Sentimentos negacionistas

A psicóloga Eliz Amaro classifica o isolamento como uma medida eficaz e importante, sendo a melhor forma de enfrentar o problema da pandemia. Ela fala um pouco como nós podemos estar nos sentindo nessa situação. ‘’ - É natural que alguns indivíduos desenvolvam um sintoma de ordem emocional - medo, estresse, ansiedade. Isso tem sido potencializado bastante. Ainda mais a ansiedade, pois como estamos lidando com algo novo, não sabemos do nosso futuro. Ele é incerto.’’ A psicóloga acrescenta que as notícias trágicas que recebemos mais e mais a cada dia afetam nosso emocional. Quando questionada sobre como é a mente do indivíduo que fura a quarentena, ela fez o seguinte paralelo: “Usemos o conceito do luto para entendermos melhor isso. Antes, nós tínhamos tudo a nosso dispor. Lojas abertas, eventos a todo momento, liberdade para encontrarmos familiares, amigos e namoradinhos ou namoradinhas. Mas de repente, tudo isso foi tirado de nós. Isso pesa bastante sobre as pessoas, especial101


Tão longe, tão perto

Felipe Tusco

mente aquelas que tinham uma vida muita frenética, que precisavam do externo para se validar’’. Ela termina essa descrição falando sobre nossa sociedade, que é de fato muito agitada e tende para as interações sociais. ‘’- É bom ver esse momento como uma oportunidade de refletir, de entrar em contato consigo mesmo, de colocar em prática alguns planos que você tinha, mas que nunca foram concretizados.’’ Essa é a dica da psicóloga para ‘’sobrevivermos’’ a quarentena.

102


Tão longe, tão perto

Uma (revira)volta olímpica

Especialistas explicam por que o adiamento dos jogos de 1940, do Japão, traz um impacto tão diferente do que o mundo experimenta em 2020

Vinícius Heck

O

s presentes focam as atenções na parte central do Estádio Olímpico de Tóquio. Quando o relógio marca duas horas da tarde, a delegação grega surge em um dos túneis de acesso à pista de atletismo. O desfile de abertura das Olimpíadas é iniciado. A partir daí, as delegações de todos os 93 países participantes tomam conta da pista e do gramado. Algumas nações optaram por roupas típicas da própria cultura, enquanto ostentam a bandeira e o orgulho de estarem participando daquele momento. O frisson toma conta dos espectadores no instante em que os atletas japoneses adentram. A emoção se espalha entre os que testemunham. Milhares de balões ganham altura no céu da capital japonesa. Então, o ápice: Yoshinori Sakai, corredor japonês, ingressa com a tocha olímpica e o rastro de fumaça o segue até um dos pontos mais altos do estádio, onde a pira está posicionada. A cerimônia é encerrada com um show da esquadrilha da fumaça japonesa, que desenha os anéis olímpicos no infinito céu azul do oriente. A descrição poderia ser das Olímpiadas de 2020 ou até de 1940. Porém, das três edições marcadas para serem realizadas em solo japonês, 103


Tão longe, tão perto

Vinícius Heck

até o momento apenas em 1964 isso foi possível. Por diferentes motivos e com consequências distintas, as outras duas edições não foram possíveis. Em 1940, por conta da Guerra Sino-Japonesa, a sede foi transferida para Helsinque, capital da Finlândia. Entretanto, com o início da Segunda Guerra Mundial, os jogos de 40 e 44 foram cancelados. Em 2020 a realidade é outra. Uma pandemia assola o mundo e, exatamente quatro meses antes do início dos jogos, o governo japonês e o Comitê Olímpico Internacional (COI) optaram por adiar em um ano a competição. O antropólogo e pesquisador do esporte Wagner Camargo explica que é necessário contextualizar a época para explicar as condições sociais de cancelamento de uma edição olímpica. O mundo não era globalizado como é hoje. A década de 1930 foi um momento-chave na composição geopolítica internacional porque os países que perderam a Primeira Guerra Mundial viviam um processo de reestruturação. A Alemanha, por exemplo, foi severamente punida e considerada quase que a responsável pelo desencadeamento da guerra, de acordo com o Tratado de Versalhes (1919). Isso inflou o nacionalismo dentro do país, que foi de onde surgiu a abertura para a implementação do nazismo. Ainda não existia a divisão entre capitalismo e socialismo. “Os Estados Unidos e a então União Soviética estavam quietos na deles. Não havia aquela demarcação de quem mandava no mundo”, afirma o pesquisador. Na Ásia acontecia algo semelhante no sentido de movimentos nacionalistas. Tóquio sediou os Jogos do Extremo Oriente em 1930. Foi a oportunidade para um grupo de indianos protestar contra a Grã-Bretanha pela independência da Índia. Ao invés de utilizarem a bandeira da coroa britânica, eles optaram pela do movimento da independência. Esse fato causou alvoroço à época, e o Japão quis se redimir. Os japoneses propuseram junto ao COI sediar os Jogos Olímpicos para convidar o mundo, principalmente os países europeus, e acalmar os ânimos. O país foi escolhido 104


Tão longe, tão perto

Vinícius Heck

como a sede da 12ª edição das Olimpíadas, que seriam realizadas em 1940. Em 1937, porém, o Japão deflagrou uma guerra contra a China, onde buscava anexar ao seu território áreas que pertenciam aos chineses. O evento ficou conhecido como a Segunda Guerra Sino-Japonesa. Os japoneses abriram mão de sediar os Jogos Olímpicos, que foram transferidos para Helsinque (Finlândia). Entretanto, para Camargo, o cancelamento dos Jogos foi um ato preventivo e inevitável. Com a animosidade em que países se encontravam, poderia acontecer algum incidente durante as competições, ou algum tipo de boicote. Assim que estoura a Segunda Guerra Mundial, em 1939, os planos caem por terra e as Olimpíadas são canceladas. Como durante o ano de 1944 a guerra ainda não havia terminado, os jogos que seriam em Londres também não puderam ser realizados. As sedes afetadas foram recompensadas de certa forma. Londres sediou as Olimpíadas em 1948, Helsinque em 1952 e Tóquio em 1964. Agora, é outra história...

A respeito de 2020, o antropólogo afirma que estamos em outro contexto. A economia mundial está configurada de maneira diferente. A década de 30 foi responsável pela expansão radiofônica no mundo. O rádio era a grande sensação, enquanto a televisão ainda se desenvolvia. Não havia essas questões de contratos de televisão, patrocínios, venda de imagem e difusão. Os Jogos Olímpicos não eram tão grandiosos como os de hoje. A mídia que se desenvolveu nos últimos anos foi responsável por dar um novo caráter ao evento. A competição é considerada um mega evento não só pela quantidade de participantes, mas também pela vultuosidade de investimento, número de patrocínios, aumento do número de nações participantes, quantidade de espectadores, principalmente in loco, e pelo impacto econômico e legado que deixa. 105


Tão longe, tão perto

Vinícius Heck

O adiamento, e não o cancelamento, dessa edição foi estratégico para evitar a perda de dinheiro e manter os patrocinadores amarrados a estrutura da organização, porque ela precisa desses contratos para sobreviver. Wagner Camargo acredita que foi muito mais fácil para o comitê organizador de 1940 tomar uma decisão, transferir a sede e posteriormente cancelar o evento, já que as implicações e os impactos econômicos foram bem menores. Além disso, visto que disputavam-se menos modalidades (em 1936 foram vinte duas), não foram necessárias tantas estruturas na época, e não eram tão grandiosas como hoje. Para o cientista político Leandro Gabiati, o adiamento nos dá uma noção da particularidade do momento que estamos passando como sociedade. Para se ter uma noção, além dos cancelamentos e adiamento citados, os Jogos Olímpicos só foram afetados pela Primeira Guerra Mundial, em 1916. O que difere a edição de 2020 das outras e merece destaque, para Gabiati, é a questão dos contratos, tanto com patrocinadores como com emissoras que detêm os direitos de transmissão. Para o cientista político, tudo isso gera um transtorno, e, após a saúde, o ponto dos contratos é que o COI deve considerar primeiro. Apesar disso, ele acredita que patrocinadores sabem que a situação é ímpar e por isso não vão se manifestar contra esse adiamento, por medo de prejudicar a própria imagem. Gabiati explica que, em qualquer processo histórico, os personagens acabam não percebendo o significado e a importância do momento, por não terem uma perspectiva geral. O cientista político também espera por uma crise econômica sem parâmetros. Oitenta anos depois, um novo problema atrapalha os planos de Tóquio sediar uma Olimpíada. Ao menos dessa vez não há um cancelamento, por enquanto. Em 1964, o atleta que acendeu a pira olímpica nasceu em Hiroshima, no dia 6 de agosto de 1945. A mesma data do lançamento da Little Boy, bomba atômica que devastou a cidade. Ele 106


Tão longe, tão perto

Vinícius Heck

representava a reconstrução do Japão pós-guerra. O cenário para 2021 ainda é incerto. A reconstrução da sociedade pós-pandemia vai exigir adaptações de todos. Nos jogos, os organizadores precisarão se reinventar para manter todos os envolvidos em segurança. Um espetáculo com público na casa dos bilhões e dinheiro também. Hoje, um cancelamento do maior evento esportivo tem circunstâncias intangíveis sobre o que o esporte representa para o planeta: amizade entre as nações, valorização da atividade física e celebração da paz. Segundo os especialistas, o que está em jogo é mais do que uma volta olímpica, mas uma verdadeira reviravolta na história. Pode ser assim que as próximas gerações olhem para o ano do século 21 que não teve festa, nem pódio, nem vitória.

107


Tão longe, tão perto

Fora de jogo Foto: Lucas Junqueira

Em um esporte com tanto contato como o futebol americano, atletas nem imaginam quando poderão avançar alguma jarda

Lucas Junqueira

Felipe Marques, 27 anos, era um dos atletas presentes no

elenco da seleção brasileira de futebol americano que marcou história do cenário nacional. No dia 31 janeiro de 2015, o Brasil seleção venceu o Panamá por 25 a 14, garantindo assim, a primeira participação na Copa do Mundo da modalidade. O dia ficou marcado como um dos passos mais largos do futebol americano em solo brasileiro. Conhecido como Pombão, Marques começou a carreira profissional em 2013, jogando na posição de defensor pelo Tubarões do Cerrado. Ele afirma que vive integralmente do futebol americano há dois anos, momento em que disputou campeonatos estaduais e nacionais por equipes renomadas do esporte, como o Cruzeiro Imperadores e Botafogo Reptiles. Após uma temporada de 2019 - com direito a liderança na estatística defensiva de sacks - na Liga Brasileira de Futebol Americano, conhecida como Liga BFA, Marques traçou um novo desafio para sua carreira. E em terras já conhecidas pelo atleta. Ao acertar verbalmente com o Vasco Almirantes, do Rio de Janeiro, para a disputa da maior competi108


Tão longe, tão perto

Lucas Junqueira

ção nacional, acreditava que seria mais um ano corrido de competições. Mas com a crise gerada pela pandemia e a suspensão da temporada, a contratação foi por água abaixo. Agora, Marques está sem clube e com foco nos treinos de manutenção de massa muscular em manter massa muscular. “Tenho uma boa quantidade de pesos em casa, pulo corda. Não tenho feito muito além disso”, completou. A rotina de estudos também se tornou uma nova saída para o atleta, que é estudante do sexto semestre de engenharia civil. Ele pretende conseguir estágio na área para que possa se manter ativo financeiramente e acredita que não deve voltar a disputar uma partida tão cedo, “E seguimos com o futuro em aberto…”, afirmou. O cenário atual do esporte

Tudo caminhava para que 2020 fosse mais um ano de grande progresso para o cenário do futebol americano no Brasil. Equipes da Liga Brasil de Futebol Americano - conhecida como Liga BFA e principal campeonato nacional - realizaram um intenso trabalho de condição física na pré-temporada, além de fortes movimentações no mercado de jogadores, envolvendo tanto brasileiros quanto americanos importados de pequenas ligas dos Estados Unidos. O caminho parecia ser frutuoso para o esporte, mas a chegada do novo coronavírus e o estado de pandemia mundial trouxe indefinições para uma prática que depende diretamente do contato físico. O vírus atrapalha um esporte que apresenta crescimento nos últimos cinco anos no Brasil. Segundo o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA), Ítalo Mignoni, o número de equipes profissionais, entre 2015 e 2019, progrediu de 130 para 442 e o número de praticantes chegou a 17 mil. Outro ponto que demonstra essa crescente é a audiência. A visibilidade do esporte está 109


Tão longe, tão perto

Lucas Junqueira

em alta, o que pode ser constatado pelo aumento em 47% da audiência em jogos da National Football League (NFL) - liga com o maior reconhecimento internacional - de 2018 para 2019, além do início das transmissões de partidas finais da Liga BFA, transmitidas pela ESPN pela primeira vez em 2019 - algo que seria repetido em 2020. Chegada da doença no Brasil

No mês de março, a CBFA, diante da rápida disseminação do vírus no país, divulgou um protocolo de saúde com medidas de profilaxia a serem seguidas pelas equipes e atletas. No documento, a Confederação também apresentou indefinição quanto ao acontecimento do campeonato nacional, ficando atenta a todas as decisões proferidas pelo principal órgão internacional do esporte, a International Federation American Football (IFAF) e da Secretaria Especial do Esporte (SEE) do Ministério da Cidadania. A definição sobre a continuidade veio apenas no dia 5 de maio, em coletiva de imprensa on-line com o presidente da CBFA, Marcelo Bruno, onde foi confirmada a suspensão por tempo indeterminado. O treinador André Renck, dos times especiais do Cuiabá Arsenal, comentou que ao ver notícias sobre o início da pandemia no exterior, ficou preocupado quanto a chegada da doença no Brasil e a preparação da equipe para o campeonato. “Só pensava se isso iria afetar o Brasil. Fiquei na expectativa de que o surto não demorasse ou que uma cura fosse encontrada rapidamente, até porque estávamos estruturando muito bem o trabalho na equipe”. O recebedor do Tubarões do Cerrado, Sédrick Lima, disse que, ao ver o início da pandemia, temia por uma possível paralisação. Ele afirma que, por ser um esporte dependente do contato físico, não sabe ao certo quando será possível disputar uma partida novamente. “Depois que 110


Tão longe, tão perto

Lucas Junqueira

vi o Brasil não fazendo nada sério para conter as infecções, já percebi que poderíamos perder o ano. Como nosso esporte tem muito contato, imagino que seja uma das últimas coisas a voltarem ao normal’’, disse. Nova oportunidade

Apesar da crescente apresentada nos últimos cinco anos, o futebol americano ainda enfrenta alguns problemas. Gustavo Alecrin, sócio e ex-diretor do Tubarões do Cerrado, comentou que durante o período em que esteve na diretoria da equipe brasiliense, já enfrentava pequenos problemas de crescimento tanto financeiro, quanto de estrutura. “Falta visibilidade, investimentos e fatores extra campo, como brigas políticas sobre a violência do esporte e os danos que trazem para os campos’’, afirmou. Tendo esses fatores em vista, a pandemia chegou para ser uma nova barreira enfrentada pelo esporte. Dirigentes e jogadores estavam esperançosos que esse quadro se reverteria neste ano, principalmente com a ESPN renovando as transmissões da fase final da Liga BFA. A ida do primeiro brasileiro, em 2018, originado no futebol americano do Brasil, Durval Neto, conhecido como Duzão, para disputar a principal liga americana, a NFL, também gerou diversos incentivos para o esporte no país, mas a pandemia pode acabar afetando muitas oportunidades. ‘’No mesmo ano em que ele foi para os Estados Unidos, começamos a ter um pouco mais de visibilidade. Fechamos contrato com a BFA, e o Dia do Futebol Americano foi estabelecido na câmara. Então, coincidência ou não, a ida só gerou frutos e esperávamos que 2020 seria melhor ainda’’, ressaltou Alecrin. A atual presidente do Tubarões do Cerrado, Paula Chiarotti, reforçou que apesar dos diversos avanços em 2019, os impactos negativos foram grandiosos em todos os aspectos do es111


Tão longe, tão perto

Lucas Junqueira

porte. “Muitos times perderam patrocínios e parcerias, pois nossa maior moeda de troca é a exposição midiática de jogos e eventos. Como um time em si, academias fechadas e falta de treinos presenciais comprometem o desempenho físico dos atletas”, completou. Físico dos atletas

Um dos principais quesitos impactados pela interrupção de treinamentos e competições é a parte física dos atletas. O esporte exige que a atletas tenham uma forte condição física para evitar lesões graves, devido ao número de choques corporais existentes durante uma partida. Em uma possível volta futura, esse aspecto pode ser totalmente impactado pela falta de preparação, o que pode acarretar em desfalques para as principais equipes do país, além de colocar atletas em risco. Para evitar essas situações, equipes do país têm adequado os treinamentos para serem realizados sem a necessidade de academia ou práticas coletivas. Segundo Paula Chiarroti, inicialmente, os treinos foram mantidos em espaços maiores e ao ar livre para evitar aglomeração, porém com o agravamento do isolamento, a equipe estabeleceu protocolo de treinos online, onde são passados exercícios específicos, conhecidos como drills, e o atletas têm a responsabilidade de gravar a execução e enviar aos treinadores. Quanto a parte dos treinos físicos, Sedrick Lima afirmou que a equipe fornece um suporte através de parceria com a patrocinadora CrossFit PW. ‘’Eles nos passam treinos de crossfit para serem feitos cotidianamente em casa. Não é obrigatório para os atletas do time, mas são esses que faço pra me manter condicionado’’, completou. Já o Cuiabá Arsenal, segundo André Renck, não preparou nenhum tipo de rotina de treinos caseiros, já que atletas veteranos possuem a noção para manutenção da preparação física. O treinador afirma que 112


Tão longe, tão perto

Lucas Junqueira

a real preocupação da equipe é quanto aos atletas novatos que passaram pelo processo seletivo para admissão na equipe, conhecido como tryouts. Futuro do esporte

Será um trabalho árduo para que elencos sejam mantidos em alto nível, não só pelo lado físico, onde devido ao isolamento e suspensão das partidas, atletas perdem o ritmo de jogo e ficam propícios a futuras lesões, mas também pelo lado financeiro. Muitas equipes perderam diversos patrocínios e necessitam de investimentos para se manterem ativas. André Renck acredita que esses dois fatores serão os problemas que cercarão o futuro do esporte. O treinador ressaltou o impacto causado pela perda de patrocínios, bem como isso pode interferir na execução de partidas. “Um time sem investimento não é um time. Não consegue nem produzir uniformes, quem dirá viajar para outra cidade pra jogar. Eu custo a acreditar que seja só aqui em Cuiabá que esteja acontecendo’’, disse. Renck também teme pelo número de lesões que podem acontecer no retorno efetivo às competições. Para ele, os times que se adaptarem a situação e estabelecerem uma rotina de trabalho adequada, respeitando os limites físicos dos atletas, terão um desempenho melhor na volta das partidas. E o treinador que acreditava em um retorno apenas em 2021 devido ao aumento acentuado de casos, teve a sua tese reforçada pelo comunicado feito pela Comissão de Prevenção de Lesões e Saúde dos Atletas da CBFA, no dia 8 de junho, onde recomendam o cancelamento de qualquer partida. Na mesma linha de pensamento, Sédrick Lima afirmou que acredita na retomada no ano que vem, mesmo com fatores agravantes como a indefinição da volta dos públicos aos estádios e a dúvida sobre como o isolamento afetou as empresas que investem em clubes e ficou difícil, por enquanto, avançar alguma jarda. 113


NAS PERIFERIAS O barro dá cor ao descaso político, onde falta água, esgoto, comida e dignidade. Nas periferia culturais, o drama dos que pintam o rosto em busca do sorriso do público. Do itinerantes do picadeiro, que só querem uma oportunidade.

114


Nas periferias

Sol Nascente: a vida por um fio de água Foto: Victor Mendonça

Em meio à inconstância do abastecimento e dificuldade de higienização, em fevereiro de 2020, o medo da morte bateu à porta

Mariana Fraga

O brilho do sol que nasce, em meio a um céu azul-claro, que faz

a vista doer, contrasta com a poeira da terra vermelha e esburacada, cortada por um traço de fossa, das ruas do Trecho 3 do Setor Habitacional Sol Nascente. O carro ano 1997 empoeirado em frente à casa de reboco, número 31, anuncia que aquele lugar está há muito tempo sem ver água. Ao bater palmas, em frente a moradia de paredes revestidas de cimento, e gritar: “Ô, de casa!”, a dona Nilacir da Silva, de 62 anos, abre a porta e traz consigo uma pergunta, que serve muito mais como uma resposta. “O que é lavar um carro quando se tem dias que não dá nem para lavar as mãos?”. Na casa comprada em 2013, no valor de R$ 17 mil, água - um dos principais elementos no combate ao coronavírus -, é uma raridade. “Hoje de manhã teve água na minha casa, mais ou menos até uma hora da tarde, mas depois cortou. Agora só Deus sabe que horas ela volta”, disse, em uma terça-feira de maio. De acordo com ela, sempre falta água aos sábados, domingos e feriados. “Lavar roupa e limpar a casa só é possível de madrugada”, lamentou. Apesar de receber mensalmente a 115


Nas periferias

Mariana Fraga

conta de água da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (CAESB), não há abastecimento da casa. A água que chega não é legalizada. Os canos são formados por uma gambiarra, um “gato”, como se diz por aqui. Durante a produção desta reportagem, a Caesb não respondeu aos questionamentos que fizemos. A assessoria de imprensa do órgão, ao ter conhecimento que a reportagem era feita no âmbito universitário, direcionou o atendimento para um setor de trabalhos acadêmicos.Até o final de junho, nenhum representante da Caesb esclareceu por que a população do Sol Nascente tem abastecimento irregular Em meio à inconstância do abastecimento de água e dificuldade de higienização, em fevereiro de 2020, o medo da morte bateu à porta. Foi na sala de televisão, que fica de frente à rua, que dona Nila conheceu, por intermédio dos principais telejornais brasileiros, duas palavras até então desconhecidas: coronavírus e covid-19. A doença, descoberta na China, se espalhou pelo mundo e foi registrada pela primeira vez no Distrito Federal, no dia 5 de março de 2020. As informações dominaram a programação dos jornais brasileiros. Pelo noticiário, Nilacir aprendeu que a principal medida de prevenção é lavar bem as mãos e manter ambientes constantemente higienizados. “Mas como isso será possível em nossa comunidade se aqui mal tem água?”, questionou a aposentada por invalidez pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). Nilacir é hipertensa, tem obesidade e úlcera varicosa. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), pacientes com condições crônicas pré-existentes, como a hipertensão e diabetes, predispõem ao agravamento da Covid-19. Como parte do grupo de risco, os cuidados precisaram ser ainda maiores. Também por meio do noticiário jornalístico, ela aprendeu sobre a necessidade do isolamento social. Artesã depois da aposentadoria, Nilacir vendia seus produtos de crochê e fuxico em feiras da Secretaria de Turis116


Nas periferias

Mariana Fraga

mo, como a da praça do Relógio, em Taguatinga. “A gente não faz visita nem recebe. Sair de casa só para fazer o extremamente necessário. Se eu pegar coronavírus, a chance de eu morrer é muito grande”, disse. A aposentada mora com o marido em uma casa com um quarto, banheiro, sala e cozinha. Aluízio dos Santos, de 63 anos, é mecânico e possui uma oficina no Setor O, de Ceilândia. Mesmo sendo um serviço considerado essencial, o marido de dona Nilacir, que se trata do diabetes, também faz parte da faixa de risco, decidiu suspender o trabalho. Para manter o sustento, Aluízio foi aprovado como beneficiário do auxílio emergencial, programa lançado em 7 de abril pelo governo federal, no valor de R$ 600, para cidadãos brasileiros em situação de vulnerabilidade social durante a pandemia. Descaso

A apenas 35 quilômetros de um dos principais símbolos de poder do país, o Congresso Nacional, está a comunidade Sol Nascente, a segunda maior favela do Brasil, com 25.441 casas, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2019. A cidade fica atrás apenas da Rocinha, no Rio de Janeiro, maior aglomerado subnormal do país, com 25.742 domicílios. O maranhense José Goudim Carneiro, de 64 anos, mora no Sol Nascente há 28 anos. Radialista e técnico em telecomunicações, desde 2009, Goudim se engajou em lutar pela independência da cidade como região administrativa e em movimentos sociais. Ele defende a participação popular nas decisões. “Morar aqui não foi uma escolha. A maioria que mora aqui, veio do interior do nosso país, em busca de melhores condições de vida. Mas quando eles chegam aqui, só têm espaço são nas periferias. Esse povo não invadiu, esse povo comprou o seu lote. Eles sabiam que era irregular, mas 117


Nas periferias

Mariana Fraga

não tinha dinheiro para comprar em uma área regularizada. Eles também tinham o sonho da regularização e um dia terem a casa própria”, disse. De acordo com Goudim, moradores em vulnerabilidade no Sol Nascente é vítima de um processo político de desamparo social. “As pessoas me perguntam como não temos hospital e médicos na cidade Sol Nascente? Não tem porque ao longo da vida a saúde foi tratada de forma mesquinha, copiando os americanos para ter saúde somente particular Ao longo do tempo foi construído um país em que saúde a pública nunca foi prioridade”, afirmou. Na região administrativa, há apenas uma unidade básica de saúde, no Trecho 1. O Hospital Regional de Ceilândia é o mais próximo da região e fica a cerca de sete quilômetros de distância. Em 14 de agosto de 2019, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), sancionou uma lei que criou a região administrativa Pôr do Sol/ Sol Nascente. José Goudim lembra que foi convidado a administrar a região. Morador do Trecho 1 do Sol Nascente, na casa dele chega água, mas não há rede de esgoto. Em meio à demanda local de escassez do principal recurso no combate a Covid-19, ele mandou instalar lavabos pela cidade para ajudar na higienização dos moradores. “Desde o início, tive a preocupação que o vírus chegasse até aqui, pois aqui a contaminação poderia ser assustadora, justamente pela falta de infraestrutura, das pessoas viverem aglomeradas, além da situação financeira”, revelou. O administrador também falou sobre a dificuldade dos moradores do Sol Nascente cumprirem o isolamento social e a necessidade da flexibilização do comércio não essencial. “Para o povo que tem condição, é fácil falar que todo mundo deve ficar em casa, mas se a pessoa está ali com o filho passando fome e necessidade, ela vai ficar dentro de casa? Não fica mesmo. Não dá para aplicar a mesma condição do povo do Guará e Plano Piloto para a cidade Sol Nascente, pois são realidades diferentes. A maioria desse povo trabalha de ma118


Nas periferias

Mariana Fraga

nhã para ter o que comer a noite ou para comer no outro dia. Como vamos nos manter, se sabemos que a ajuda do estado é muito pequena quando comparada com a necessidade desse povo”, indignou. Para amenizar os efeitos da pandemia, a administração de Sol Nascente está distribuindo cestas básicas em comprovada situação de vulnerabilidade social. “A gente sempre distribui cesta básica pq aqui tem muita população carente. Agora só aumentou pq agora muitas pessoas perderam sua fonte de renda”. Além disso, também estão distribuindo máscaras para os moradores da região. Aulas off-lines

Os tons avermelhados do barro da terra harmonizam-se com o muro de tijolos, sem reboco, da casa 21 do Trecho 3 de Sol Nascente. O equilíbrio das cores na fachada da moradia dá boas-vindas aos visitantes do jovem estudante-tenista Pablo Maia. O garoto de 11 ficou conhecido nas redes sociais, no fim de 2018, por improvisar uma quadra de tênis no quintal de casa com dois pedaços de madeira e um pedaço de pano, além de receber mensagem de apoio emocionante do ídolo Roger Federer e assistir ao Rio Open ao lado de Gustavo Kuerten. No entanto, no primeiro semestre de 2020, o atleta mirim conheceu novos adversários, diferentes daqueles enfrentados em quadra: a pandemia de coronavírus e a dificuldade de continuar os estudos online devido a instabilidade da internet e a falta de um computador. Por conta da crise sanitária enfrentada no Brasil e no mundo, as aulas presenciais foram suspensas no Distrito Federal desde o dia 12 de março. Pablo cursa o 6º ano do Centro de Ensino Fundamental 28 de Ceilândia Norte. Com a escola fechada, ele ficou mais de três meses sem estudar. Para tentar manter a rotina, Pablo continuou fazendo 119


Nas periferias

Mariana Fraga

os treinos no quintal de casa. O garoto faz parte do projeto social do Instituto Tênis e recebe exercícios especializados para fazer em casa, enviados pelo treinador, o ex-tenista profissional Carlos Chabalgoity. No início de junho, a Secretaria de Educação anunciou que a retomada das aulas aconteceriam no dia 29 do mesmo mês por meio do Google Sala de Aula e pela televisão. No entanto, o atleta mirim não tinha computador e nem mesmo internet capaz de sustentar a conexão durante as aulas. Segundo Brasilene Maia, avó do Pablo, o jeito foi tentar usar o celular. “Começaram as aulas online, ele tinha que estudar pelo meu celular e ficava tudo travando. Não foi nada fácil, porque eu não sou muito expert no assunto, né? Tem que ficar entrando em várias páginas para poder ver as aulas, para poder responder. Se o professor manda um texto, você tem que clicar em outro lugar para abrir uma imagem para interpretar o texto, e no celular não dá para fazer isso tudo, principalmente o meu que não é lá grande coisa”, lamentou. Após divulgar a falta de equipamentos do jovem atleta promissor, Brasilene contou que Pablo recebeu a doação de um notebook e uma pessoa se comprometeu a pagar uma internet de qualidade, para que Pablo possa prosseguir com os estudos. De acordo com pesquisa feita pelo Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) entre os dias 21 e 31 de maio de 2020, mais de 127 mil estudantes da rede pública de ensino do DF não tem acesso à internet. O número representa 27,71% dos estudantes. De acordo com pesquisa da realizada pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) entre março e outubro de 2018, 94% dos estudantes da rede pública têm acesso à internet de alguma forma. Pablo mora com a avó, a tia e a prima, em uma casa de dois quartos, um banheiro e um cômodo que agrega a cozinha e sala. A moradia não tem rede de esgoto. A avó, Brasilene, de 52 anos, trabalha como diarista durante duas vezes na semana. Nos outros três dias, ela acompanha 120


Nas periferias

Mariana Fraga

Pablo nos treinos de tênis em um clube do Setor de Clubes Sul, no centro da capital. Com o início da pandemia, a empregadora de Brasilene a pediu para cumprir o isolamento social. “Ela falou que queria que eu ficasse em casa e continuou me pagando o valor completo das diárias. Mas sei que infelizmente nem todo mundo teve essa mesma sorte que eu”, contou. A diária paga é no valor de R$ 150. A tia de Pablo, por sua vez, que estava desempregada, conseguiu receber o auxílio emergencial. O medo de dona Brasilene é a falta de conscientização dos vizinhos e moradores do Trecho em relação às medidas de prevenção contra a Covid-19. “Aqui no Sol Nascente tem muita gente que não está levando a sério e não usa máscara”, disse. A mesma situação foi testemunhada por Nilacir Arce. “Tem movimento normal nas ruas e nos comércios como se nada estivesse acontecendo.“ Casos na periferia

Ceilândia e Sol Nascente somam o recorde de casos em mortes no Distrito Federal. Até o fim do primeiro semestre de 2020, foram registradas 6.459 pessoas infectadas pelo coronavírus e acumulou mais de 111 vidas perdidas, em média de uma a cada cinco pessoas que morriam na capital do país durante a produção desta reportagem. A segunda região com mais casos é o Plano Piloto, com mais de 3.448 pessoas positivas para a Covid-19. José David Urbaéz, médico médico e diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, disse que a maior incidência de infectados e vítimas na periferia era esperado. “A gente sempre soube que a pandemia entrou pelas regiões mais privilegiadas da cidade, do centro, e uma vez que a Covid entrou com casos importados, de pessoas que estavam nos Estados Unidos e sobretudo na Europa. Mas aqui em Brasília, a gente tem como em to121


Nas periferias

Mariana Fraga

das as metrópoles brasileiras, pessoas que moram em áreas periféricas, mas trabalham nas áreas centrais. Não tínhamos nenhuma dúvida que a partir dessas práticas laborais nas áreas centrais, o vírus iria adentrando cada vez mais nas regiões mais vulneráveis socialmente, com muitos problemas econômicos e problemas de infraestrutura”, analisou. Flexibilização

De acordo o infectologista, inicialmente a contaminação em massa das periferias foi adiada, em função do isolamento social estabelecido no Distrito Federal, ainda no meio do mês de março. No entanto, nos últimos meses houve a flexibilização do isolamento social. Segundo o médico, a medida aconteceu por uma ineficiência política. “Se viu o triste espetáculo no Brasil de um abandono das atividades de isolamento social e uma impossibilidade de manter pessoas muito vulneráveis dentro de casa por uma ausência de programas de apoio, que a renda mínima mensal. Os auxílios sociais que são indispensáveis para manter o isolamento social porque as pessoas de vulnerabilidade social e econômica precisam de trabalhar para a subsistência”, disse. Com a abertura da atividades não essenciais, a proporção de infectados aumentou.“É óbvio que você abrindo esses fluxos, você vai começar a ter o vírus migrando para essas regiões periféricas e nas regiões periféricas, as situações de isolamento são muito mais difíceis, porque as pessoas não tem uma capacidade de uma moradia suficiente para o número de pessoas para manter o isolamento e a situações de acesso mesmo a serviços de saúde fica muito mais difícil. Além do próprio conhecimento das pessoas quanto a gravidade da pandemia. O vírus, quando entra nas regiões mais vulneráveis,vai se multiplicando de maneira muito mais intensa, pois a um favorecimento disso”, apontou. 122


Nas periferias

Mariana Fraga

Solidariedade

Em meio à tristeza da morte por coronavírus de amigos próximos, Margarida Minervina tornou-se uma referência para famílias em vulnerabilidade social durante a pandemia. A pedagoga e assistente social, de 47 anos, é líder comunitária no Sol Nascente desde o ano 2.000.. A educadora social, voluntária da Escola Classe 66, fundou em 2009 a Associação Despertar Sabedoria do Sol Nascente, uma instituição pedagógica/social, de reforço escolar. “Em um turno, a criança vai para a escola e, no outro, vai para a instituição. Além de ajudar as famílias que não tem com quem deixar o filhos, nós temos o objetivo de fazer essas crianças terem capacidade pedagógica no ano que estão matriculadas”, disse. A associação também auxilia as 70 famílias cadastradas com doação de alimentos, assistência psicológica, entre outros apoios sociais. Com a suspensão das aulas presenciais em março, a função pedagógica da instituição foi interrompida, mas a parte social se fortaleceu. Para amenizar os efeitos do isolamento social, que provocou a perda da fonte de renda de moradores das periferias do Distrito Federal, a associação teve que se reinventar. “Começamos a acolher as famílias cadastradas e a demanda foi crescendo a cada segundo. Tivemos que meter a cara e tentar trazer uma solução para a nossa comunidade. Corremos atrás de recursos, cestas básicas, material de higienização, álcool em gel, leite, alimentos essenciais. Quando a gente percebeu, tinham mais de três mil famílias cadastradas”. Minervina está desempregada. Um filho adulto a ajuda nos mantimentos de casa. Ela sabe que a situação é difícil. Mas agora sabe que não é possível pensar apenas em si mesma. Mais do que as doações de materiais, ela mostra que um insumo obrigatório naquele lugar é a solidariedade.

123


Nas periferias

Respeitável público, o espetáculo tem que continuar Foto: Marina Torres

Em meio à pandemia do novo coronavírus, artistas circenses buscam alternativas para sobreviver sem a arrecadação de bilheteria.

Thalita Dias

A

fumaça subiu, e aquela tradicional marcha circense começou a pulsar pelas caixas de som, as luzes mudaram de cor e as cortinas começaram a balançar. O espetáculo estava só no início. O mestre de picadeiro fez as honras, e os palhaços deram início ao show, cumprimentando o público animadamente. Os outros circenses logo tomaram seus lugares no palco, apresentando números que causavam diversas emoções aos espectadores, desde aflição, com o globo da morte e o ilusionismo, até a risada fácil, com as esquetes bem humoradas. Mas, dessa vez, algo estava diferente. A arquibancada estava vazia, não havia aplausos ou qualquer manifestação. Não foi necessário nem intervalo para que a plateia pudesse comprar mais pipoca. Pela primeira vez, o respeitável público estava assistindo à apresentação do Circo Real Português pelo Instagram e Youtube. As famosas lives, como são conhecidas, foram um dos meios encontrados pelos circenses para continuarem seus trabalhos durante a pandemia, levando a magia do circo por meio de um show virtual. A acrobata Juliana Portugal faz parte da quarta geração da fa124


Nas periferias

Thalita Dias

mília do Circo, e conta que a ideia de adaptar o espetáculo tradicional surgiu como uma forma de atender ao pedido das crianças que queriam assistir às apresentações. “Grande parte do nosso público é infantil, e nós entendemos que eles têm dificuldade em entender a atual situação que estamos vivendo. Algumas crianças são frequentadoras assíduas, e ficam muito tristes por estarem perto do circo, mas não poderem ir até ele. Então, nos motiva muito sabermos que nossas lives são assistidas por esse pessoal que gosta tanto do nosso trabalho”, comemorou a artista. A primeira live deu tão certo que outros circos do Brasil compraram a ideia e também começaram suas apresentações pela internet. Motivados pelas respostas positivas do público, eles realizaram mais outras duas transmissões. “Como trabalhamos com uma plateia diariamente, está sendo uma experiência muito diferente se apresentar em frente à câmera. Não estamos ganhando nada com isso, mas o que mais nos incentiva a continuar é saber que os espetáculos ainda conseguem transmitir a mesma emoção”, disse Juliana. Com a liberação, no início de junho, de eventos artísticos no modelo drive-in, decretada pelo governador Ibaneis Rocha, o estabelecimento não perdeu tempo em aderir ao novo formato. Após concluir toda a documentação necessária para retornar às atividades, a reestreia ocorreu no dia 26 de junho e contou com 20 veículos. Depois de dois meses de paralisação, o circo voltou a uma rotina de apresentações diárias, seguindo, claro, todas as recomendações sanitárias. Em função as cortinas fechadas por tempo indeterminado, o picadeiro, antes movido pela alegria dos palhaços e gargalhadas do público, encontra-se em silêncio. Sem dinheiro no caixa e recebendo apenas o auxílio emergencial do governo para os autônomos, o Circo Real Português teve que usar o talento na “corda bamba” para, também, se equilibrar nos negócios e manter os 38 funcionários. 125


Nas periferias

Thalita Dias

A acrobata explica que a população se sensibilizou muito com a situação do circo, e que sempre aparecem no estabelecimento para ajudá-los de alguma forma. “No ínicio do isolamento, estávamos nos mantendo apenas com as doações da população de Brasília, pois infelizmente não conseguimos nenhum benefício do governo ou da cultura em um primeiro momento. Temos muito a agradecer por todos que se solidarizaram com as nossas famílias, mas não queremos viver de doações. A venda de comidas do circo e máscaras foi a forma que encontramos para ganharmos nossa renda”, relatou. As delícias do circo estão sendo preparadas pelos circenses no estabelecimento, e são vendidas por delivery ou pelo sistema drive-thru. Os preços variam entre R$ 3 e R$ 5, e os clientes podem escolher entre maçã do amor, pipoca gourmet, uva com chocolate e bolo no pote. Mas, ainda assim, as vendas não estão sendo suficientes para manter o funcionamento do circo e pagar as despesas, visto que para se instalar em um terreno, é preciso pagar água, luz, aluguel, impostos e alvará de funcionamento. O custo varia de local para local, mas pode chegar a 8 mil Um setor da cultura que já vinha há algum tempo fragilizado, não encontra apoio do governo neste momento de crise. “A gente sabe que o circo é bem menos valorizado que as outras artes, então a cultura acaba não nos reconhecendo como artistas. Tiveram alguns projetos emergenciais para o setor, mas nós não conseguimos nos inscrever no cadastro de Entes e Agentes Culturais do DF, pois eles não aceitam que nós não temos uma moradia fixa. Eles não reconhecem o circo itinerante”, desabafou Juliana. Outro circo que também precisou buscar alternativas para garantir o sustento dos seus 20 funcionários foi o Circo Vitória, que em seus 27 anos de estrada se encontrou em uma situação inédita de paralisação das atividades. O picadeiro, que já passou por quase todos os estados do Brasil e alguns países da América do Sul, teve que dar uma desacelera126


Nas periferias

Thalita Dias

da durante a quarentena, e a solução foi começar a fabricar máscaras. “Nós também estamos recebendo doações da população da região, que vem ajudando com cestas básicas e outros itens. Poucos da nossa família se enquadram no auxílio emergencial, e o único meio que conseguimos encontrar para conseguir alguma ajuda financeira foi confeccionando máscaras de tecido e divulgando pelo Facebook e WhatsApp. O valor varia entre R$ 4,99 e R$ 10”, explicou a gerente do negócio, Michelle Mocellin. A situação também não foi diferente para o Circo de México, que não chegou nem a estrear seu espetáculo na capital. Sem condições para alimentar todos os 30 funcionários, foi preciso buscar apoio na comunidade, que acabou se sensibilizando bastante com a situação. “Depois de um mês sem trabalhar, já estava começando a faltar alimento para nós. Foi aí que eu comecei a pedir ajuda por meio de grupos da cidade, falei que estávamos precisando de comida, pois as crianças daqui pediam as coisas mais simples, como bolacha e pão, e nós não tínhamos mais nem o básico”, relembrou a trapezista Ana Paula Roca. Além das doações recebidas, os circenses não desistiram de buscar uma renda extra, e começaram a vender pelos mercados da cidade alguns brinquedos que eram comercializados durante as apresentações, como, por exemplo, aqueles luminosos que fazem a alegria da criançada. Mas, ainda assim, não é o suficiente para arcar com as despesas, e o que fica é um apelo ao governo. “Não sabemos quando vamos voltar a nos apresentar, mas estamos fazendo nossa parte. Só queríamos que os nossos governantes olhassem para o circo, estamos pedindo socorro. O circo precisa de ajuda.” desabafa Ana Paula. Rede de apoio

De acordo com dados divulgados pela União Brasileira de Circos 127


Nas periferias

Thalita Dias

Itinerantes (UBCI), o Brasil possui aproximadamente dois mil unidades de companhias circenses, sendo elas pequenas, médias e grandes. Contabilizando mais de 30 mil artistas e sete mil famílias circenses atingidas pela crise. A presidente da UBCI, Marlene Querubin, conta que a organização vem apoiando os circos por meio de diversos esforços. “A União tem atuado em várias frentes, dentre elas a área social, reivindicando cestas básicas para todos os circos. Já conseguimos atender 100 circos no estado de São Paulo nos últimos meses, com uma média de 800 cestas arrecadadas para atender todos esses estabelecimentos. E a nossa outra campanha vem estabelecendo comunicação com várias entidades que possam apoiar os circos em suas campanhas locais”, e acrescenta, “Além disso, também tenho realizado articulações políticas para aprovar a lei de emergência cultural, para que inclua circos no atendimento dos artistas e dos circos como espaços culturais”. Por meio de uma vaquinha virtual e contato com amigos e entidades, a campanha “SOS Circos do Brasil - Covid 19”, criada pela entidade UBCI, tenta ajudar circos de vários estados através de um cadastro que é aberto para atender todas as companhias. Já a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal lançou alguns editais para auxiliar à comunidade cultural durante o período de pandemia, dentre eles o processo de seleção de projetos artísticos e culturais para firmar termo de ajuste de apoio financeiro com o Fundo de Apoio à Cultura. A secretaria também foi responsável por criar o projeto Conecta Cultura, que foi instituído em abril com o intuito de fomentar ações que apoiassem o setor durante o isolamento social. Até o momento, já foram anunciadas duas iniciativas, sendo a primeira para investir em apresentações virtuais e a segunda para premiar agentes culturais. O que representa um investimento de R$ 4 milhões, a maior injeção de recursos para o setor em todo o país. 128


Nas periferias

Thalita Dias

Medo no picadeiro

O circo no seu formato original pode demorar a aparecer novamente no cenário cultural, visto que por se tratar de uma atividade caracterizada por atrair aglomerações, acaba tendo um futuro incerto a curto prazo. E, apesar dos circenses terem encontrado na internet um espaço para continuar fazendo arte, o espetáculo precisa dos aplausos e do alto som das gargalhadas para sobreviver. Aquilo que era para ser apenas uma adaptação temporária, pode se tornar permanente.

129


Dedicamos esse trabalho jornalístico a todas as vítimas da Covid-19, seus amigos e familiares. Também dedicamos aos profissionais de saúde que lutam diariamente pelas vidas de todos nós.

130


131


132


Aula de máscara O ensino e os aprendizados do jornalismo ainda não podem ser mensuráveis neste 2020. Algum dia recontaremos essa história com a largura que a distância do tempo exige a fim de avaliar o tamanho do desafio. Momento comparável a uma guerra, em que sair de casa gera risco. Mais complexo do que uma batalha porque não se refere a apenas perigo a si próprio, mas também aos outros. Na atividade de repórter, que nos impõe falar, convencer, olhar e insistir, como fazer? Porém, uma certeza nos protege, como uma máscara, de que não podemos calar. A situação que é absolutamente nova aos jornalistas mais experientes do mundo mexe profundamente com os mais jovens, o que é esperado. Aprendem com o inusitado, com o olhar ligado a realidades próximas e algumas tão distantes, e com os próprios limites. As respostas não estão decifradas nas modernas ferramentas de busca ou nos mais consagrados manuais. Por vezes, apenas dentro de si próprios. Em uma das conversas iniciais com a turma, perguntei: "qual é a contribuição que queremos deixar como universitários nesse momento histórico?", e mais: "será que nós jornalistas e estudantes já não estávamos confinados antes da pandemia?". Estamos longe de todas as respostas ainda. Em um semestre, experimentamos escrever de longe, conversar de longe, aprender de longe, para tentar chegar mais perto. Nossa máscara na capa é um escudo. A tela do computador também é. Contar histórias consiste em atividade de aprendizado, em prática de amor próximo a quem estamos distantes.

Professor Luiz Claudio Ferreira Disciplina de Edição e Cobertura Jornalística


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Livro "Por trás das máscaras: histórias de uma pandemia" by Luiz Claudio Ferreira - Issuu